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Introdução

Há quem diga que o humor é universal e há quem diga exatamente o contrário, que o humor é algo muito particular. Uma única palavra pode causar o riso descontrolado em muitos ou não surtir nenhum efeito em tantos outros. O humor varia, é mutável e o que torna um humor difícil de transmitir são as referências culturais de cada um.

A escolha de analisar a versão de Os Normais o filme teve como finalidade examinar em dois idiomas e culturas distintas se a comicidade entre ambos consegue ser preservada. Nem sempre é possível transportar o mesmo efeito humorístico devido a alguns problemas linguísticos, culturais e sociais, ainda assim há meios de explicitar o sentido cômico a fim de trazer equivalência ao idioma desejado. Nosso objetivo não é defender ou julgar a versão escolhida pela profissional, e sim enxergar os diferentes caminhos em que o texto humorístico foi conduzido: se foi algo que causou naturalidade ou estranhamento a quem o escutasse.

No capítulo I damos início ao trabalho com a história da legendagem, mas para isso retrocederemos aos primórdios do cinema com intuito de oferecer um breve relato sobre o desenvolvimento cinematográfico a fim de compreendermos melhor o procedimento das primeiras legendas em paralelo com os avanços da tecnologia. Ainda neste capítulo, discorreremos sobre a definição, dada pelo teórico Hugo Toschi, a tipologia e as características da legendagem, seguidos das etapas desse processo dentro de uma empresa legendadora, segundo o teórico Henrik Gotlieb, além de erros e algumas dificuldades que são enfrentadas nesta área.

Em seguida no capítulo II, definiremos humor e, baseados em alguns autores tais como Marta Rosas e Adauri Brezolin, observaremos as dificuldades e as possíveis soluções encontradas para uma versão satisfatória, considerando o fato de que traduzir humor é uma tarefa complexa. Veremos também um breve conceito de uma das teorias da tradução que mais se adaptam ao humor conhecida como teoria do escopo.

O assunto do terceiro e último capítulo será a análise do corpus, em que, para alguns trechos da versão do filme de português para inglês, serão aplicadas as teorias e

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Apontaremos alguns exemplos de

prosódia semântica de acordo com a concepção de Tony Beber Sardinha dentro das

legendas vertidas no filme e quais foram às expressões selecionadas pela tradutora do filme. Verificaremos se as versões produziram o riso conforme desejado na língua de chegada e, em alguns casos, apontaremos possíveis soluções em alguns trechos que não foram transferidos de modo adequado. Vale lembrar que numa legenda existe limitação de caracteres permitida na tela, e isso leva ao tradutor de filme diminuir ao máximo os caracteres possíveis, podendo levar a modificações nas legendas devido a essa limitação.

estudos

apresentados

nos

capítulos

anteriores.

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Capítulo I

Tradução tem sua origem do Latim traducere, que significa levar alguém pela mão, para o outro lado, para outro lugar”. Pode-se dizer que o tradutor é também um autor e um comunicador (RÓNAI, 1981, p.20), pois ele desconstrói um texto em um determinado idioma e o reconstrói em outro idioma, fazendo com que a mensagem expressa neste texto seja preservada, porém decodificada, de modo a ser compreendida pelo leitor.

A tradução é uma das atividades mais antigas do mundo. Desde os primórdios, o

homem sente a necessidade de se comunicar, mas onde há comunicação, há também mal entendidos. É um processo complexo que vai muito além de falar ou se fazer ouvir.

A tradução engloba não só a mensagem, mas as influências exercidas naquele que se

comunica e naquele que será comunicado.

É função do tradutor construir um elo de comunicação entre aqueles que por si

só não conseguem se comunicar. Para isso, o tradutor terá que entender aquilo que não

está explicito na mensagem por meio de ironias, piadas, subentendidos e outros mecanismos de fala usados pelo homem para dizer algo de modo indireto.

A tradução está em todos os meios de comunicação: nos livros, nos sites, nos

programas de televisão, no cinema etc. Cada um desses meios de comunicação tem seu

público alvo, seu modo de expressar uma mensagem e suas peculiaridades no processo

de tradução/ versão/ interpretação.

A tradução audiovisual por meio de filmes legendados é uma tradução

interlingual, pois reformula uma mensagem em um idioma diferente daquele em que foi concebida; é uma tradução sociolingüística, pois transcreve termos utilizados por certos grupos socioculturais; e engloba ainda a tradução intersemiótica, pois é também a

tradução da linguagem não-oral, dos gestos, das expressões e das ações (ibid., p.16-18).

A tradução para o cinema ainda engloba dois processos tradutórios: a tradução para a

dublagem e a tradução de legendas, também conhecida como legendagem. O presente trabalho se ocupa desta segunda vertente.

Se a tradução de livros é algo complicado, a tradução audiovisual é ainda mais

complexa. Além de traduzir de uma língua para a outra, o tradutor ainda precisa

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„converter‟ a linguagem oral para a escrita. Mas para entendermos melhor o processo de legendagem, vamos voltar no tempo e adentrar na história cinematográfica para, assim, compreendermos a importância deste elemento intruso na comunicação audiovisual.

1.1 Os primórdios do cinema e as primeiras legendas

Pesquisadores afirmam que desde a pré-história, o homem sente a necessidade de registrar o movimento e para isso faziam desenhos na parede ressaltando suas rotinas. Esses desenhos serviam como um diário para eles (ALMANAQUE ABRIL,

2011).

Em 5.000 a.C., surgiam na China os cinemas de sombras, projeções de sombras feitas com a utilização de luz sobre moldes, desenhos ou bonecos manipulados por pessoas. Essa técnica já nos remete ligeiramente ao processo de projeção dos filmes atualmente.

Em 1890, o americano Thomas Alva Edison roda os primeiros filmes da história do cinema, em seu estúdio, o Black Maria. Os filmes eram mudos até o final dos anos 20. Durante anos, diversos inventores ao redor do mundo tentaram criar o que hoje é uma câmera filmadora. Porém, graças aos irmãos Lumière e sua invenção para filmagem e projeção chamada cinematógrafo, acontece, em 28 de dezembro de 1895, a primeira exposição pública de um vídeo, o mais próximo que hoje entendemos como cinema. A partir daí, a arte cinematográfica começa a ser aprimorada e se desenvolve paralelamente aos avanços da tecnologia (ibidem).

Sônia M. M. Gazeta e Daniel R. Forner, em seu artigo A Identificação de Alguns Procedimentos na Tradução de Filmes, mencionam o estágio inicial do cinema e os procedimentos das primeiras legendas, conforme discorreremos abaixo (2011, p.5).

Durante muito tempo, os filmes eram apenas acompanhados por música ao vivo, por efeitos especiais, por diálogos escritos entre uma cena e outra, por trilha sonora e efeitos reproduzidos ao vivo enquanto se passava o filme, caracterizando assim a primeira fase: o cinema mudo (1895 -1930).

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Entre 1907 e 1913, no auge do cinema mudo, as primeiras legendas começaram a ser inseridas nos filmes. Com este novo recurso, proporcionou-se ao público uma melhor compreensão entre o enredo e a exibição na apresentação simultânea, além de diminuir os gastos com a exibição, pois antes era necessária a contratação de inúmeros oradores para que a mensagem do filme fosse transmitida ao público.

Nessa época, devido à falta de tecnologia avançada que permitisse sua inserção na tela, as legendas eram reproduzidas quadro a quadro, como cena do próprio filme num fundo negro, e precediam a cena com explicações longas do acontecimento seguinte. Essa modalidade de legenda era chamada de title card ou intertitle, „intertítulo‟ em português:

A solução de se comunicar sem o canal de áudio é o que chamamos de intertítulos ou cartazes de título, vistos pela primeira vez em 1903, em A Cabana do pai Tomas (Ivarsson 1998:9). Intertítulos são cartazes escritos ou pintados que são filmados e inseridos entre as cenas do filme. Em cortes do cinema mudo, O Calouro, produzido em 1925, os intertítulos foram eficientemente usados para transmitir o diálogo 1 . (KRISTIANSEN, 2008, p.13, tradução nossa)

Progressivamente, as legendas explicativas mais curtas foram substituindo as longas e o mais relevante é que as legendas de diálogo surgiram em 1910. “Nessa época, as legendas eram escritas no mesmo idioma do país de origem para exibição local; e já traduzidas para o idioma de determinado país, onde quer que fosse exibido” (GAZETA; FORNER, 2011, p.5).

De 1913 em diante, tais legendas começaram a ser introduzidas logo após a fala do personagem, e essa técnica era o meio de entrelaçar o diálogo e o personagem, fortalecendo o caráter individual do personagem exibido.

A indústria cinematográfica passou a distribuir para outros países em seus idiomas e a, consequentemente, aderir ao uso de intertítulos. Em 1927, com a invenção do cinema sonoro, esse modo de traduzir e disponibilizar os diálogos em vários idiomas

1 The solution to communicating without the audio channel became using what is called intertitles or title cards, first seen in 1903 in Uncle Tom’s Cabin (Ivarsson 1998:9). Intertitles are written or painted cards that are filmed, and then placed between sequences of film. In a clip from the silent movie the Freshman produced in 1925, intertitles were efficiently used to convey dialogue.”

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desapareceu. As alternativas passaram, então, a ser a dublagem (dubbing, em inglês) ou a legendagem propriamente dita (subtitling, em inglês).

Os subtítulos (subtitles, em inglês), que hoje em dia generalizamos como „legendas‟, são o fruto de uma nova tecnologia, na época, que sobrepunha textos às imagens a que se referiam, e, já em 1929, tornaram-se muito populares devido ao baixo custo quando comparados à dublagem.

A França foi o primeiro país a experimentar a legendagem, seguida por outros países europeus, tais como a Itália e a Dinamarca. O processo de legendagem passou por diferentes estágios, desde as primeiras projeções manuais de legendas até os métodos de copiar as legendas para o filme em si.

1.2 Legendagem: definição, tipologia e características

Em sua dissertação de mestrado intitulada Um estudo sobre a recepção do humor traduzido, Nilson Roberto Barros da Silva, da Universidade Estadual do Ceará, define que “a legendagem é a tradução em forma de texto escrito dos diálogos de um filme ou programa de TV, apresentada simultaneamente com o original” (ARAÚJO, 2000 apud SILVA, 2006, p.70). Já, Hugo Toschi nos apresenta uma definição mais detalhada:

Legendagem ou subtitulagem - é a tradução eminentemente técnica escrava da técnica cinematográfica. Ninguém pode traduzir bem para o cinema sem conhecer técnica cinematográfica, que se adquire lendo livro sobre ela e estagiando em estúdios ou laboratórios de cinema. Por outro lado, não se pode traduzir um filme sem saber-se, antes, a medida de cada legenda. (1983, p.151)

As legendas podem ser classificadas em legendas fechadas e abertas. A legenda fechada, conhecida em inglês como closed caption, é escrita em letras brancas, em caixa alta ou baixa, sobre tarja preta. O acesso fica a critério do telespectador por meio de um

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decodificador de legenda (tecla Closed caption) localizado no controle remoto do aparelho de televisão, quando disponível (ARAÚJO, 2009, p.5).

A legenda aberta é geralmente utilizada na exibição de filmes, seja em DVD, na

TV ou no cinema. Aparece na tela sem que o telespectador precise usar controle algum, podendo ser confeccionada na cor amarela ou na cor branca, embora essa segunda opção seja muito criticada por dificultar a leitura do telespectador dependendo da luminosidade da cena a ser exibida. Existem diversos softwares para a confecção deste tipo de legenda, ficando a cargo do legendista 2 ou da empresa de legendagem escolher o software para isso (COSTA, 2000, p.206).

Além disso, ainda existe a possibilidade de classificá-las em dois parâmetros, o linguístico e o técnico. No que tange ao parâmetro linguístico, a legenda é dividida em intralingual e interlingual. A legenda intralingual é criada na mesma língua do texto original, direcionada ao público com deficiência auditiva e aprendizes de outra língua, e utilizada em programas jornalísticos (GOTLIEB, 1998 apud ARAÚJO, 2009, p.2). A legenda interlingual é a tradução na língua de chegada, caracterizando-se no tipo de legenda mais conhecido e utilizado em cinemas e em televisões brasileiras.

Em seu artigo O Processo de Legendagem no Brasil, a professora Vera Lúcia de Araújo, da Universidade Estadual do Ceará, mostra a confecção das legendas segundo Luyken (1991 apud ARAÚJO, 2009, p.4).

O limite máximo empregado para legenda na tela é de duas linhas com duração

de 2 segundos cada, sendo que, no caso de um filme de 35 mm, que é o mais comum e utilizado na TV, o máximo permitido por linha fica em torno de 32 a 40 caracteres e num filme de 16 mm, o máximo está entre 24 e 27.

Normalmente, o tempo de duração estimado para cada legenda é de 150 a 180 palavras por minuto, respeitando a leitura do espectador com intervalos de meio segundo entre uma cena e outra.

Em relação ao tempo de entrada e saída das legendas, são examinadas as mudanças de cena, a pausa do personagem e a formatação das legendas inseridas na tela.

2 Nome dado a este tipo de profissional.

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1.3 Etapas da Legendagem

Forner e Gazeta (2011, p.7) descrevem em seu artigo quatro etapas do processo de legendagem em um filme:

A tradução:

Nesta primeira etapa, é de total responsabilidade do tradutor transportar a mensagem da língua de partida à língua de chegada para melhor compreensão do público. As ferramentas indispensáveis de trabalho ao profissional são o computador, o suporte à mídia original, uma TV e o roteiro original para auxílio do que está sendo traduzido. O tradutor assiste ao filme e traduz ao mesmo tempo. A imagem e as cenas são as ferramentas fundamentais de trabalho.

No processo da tradução para legendas, é imprescindível analisar a duração e os caracteres por linha. Notamos que é de suma importância a aptidão, a percepção e a cautela do legendista nesse processo de adaptação.

Alvarenga (2000 apud ibid., p.8), que nomeia essa etapa de legendação e o profissional, de tradutor legendista, diz que é fundamental o domínio da língua portuguesa e uma boa bagagem cultural para melhor compreensão e absorção de informações nas legendas.

Toschi acrescenta que a importância do tradutor de filme ter conhecimento na área cinematográfica é indispensável, e aconselha aos tradutores para cinema e televisão lerem livros e estagiarem laboratórios cinematográficos, estúdios de som ou de TV com intuito de acompanhar passo a passo este processo e saber como manusear e diferenciar os tipos de cópias dentro de um laboratório de legendagem (1983, p.170).

O autor ainda cita alguns requisitos de responsabilidade do tradutor de filmes e diz que tais estão encadeados a algumas exigências (ibidem). É essencial a atenção do tradutor para que as legendas sejam transmitidas de modo claro e coerente ao ouvinte e apresentem sentido natural. O objetivo da legenda é ser lida imperceptivelmente, visto

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que serve apenas como instrumento auxiliar para melhorar a compreensão do telespectador e não roubar a cena do filme.

Gotlieb (1994) também afirma que o „sucesso‟ de um legendista é atribuído a algumas habilidades que o profissional deve ter. O profissional deve, acima de tudo, ter um ótimo conhecimento do idioma a ser legendado para ter total controle do que está legendando; desse modo, será possível fazer correções caso haja erro no script já traduzido ou caso o mesmo não tenha sido disponibilizado.

Também é importante que o legendista saiba o que deve ser legendado e o que pode ser omitido na legenda, pelo fato de já estar explícito no vídeo. Além disso, o profissional da área deve saber sintetizar bem os diálogos, de modo a deixar as legendas coerentes e diretas para que as segmentações das legendas respeitem o ritmo dos diálogos e facilitem a leitura daqueles que preferem assistir filmes legendados ao invés de dublados.

A marcação:

Depois de concluída, a tradução é destinada ao marcador, profissional responsável por marcar as legendas. O arquivo da tradução de extensão .DOC é convertido por um software de legendagem para extensões específicas da área (FORNER; GAZETA, 2011, p.8).

De início, o marcador controla minuciosamente o tempo de entrada e saída da fala dos personagens, a fim de obter pleno sincronismo com o tempo permitido. Posteriormente, o marcador assiste ao filme para examinar a qualidade da marcação.

Revisão:

O revisor, profissional com vasto conhecimento lingüístico de uma determinada língua, assiste atenciosamente ao filme e observa com minuciosidade as legendas de

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cada cena com o propósito de controlar a qualidade das mesmas e evitar erros gramaticais e ortográficos feitos por quem as criou.

Gravação final:

Chegando à última etapa deste processo, os arquivos legendados são encaminhados ao centro de masterização, onde as legendas serão inseridas no filme em uma nova mídia com auxílio de equipamentos profissionais.

Alvarenga (2000 apud GAZETA, 2011, p.9) nomeia esse profissional de „legendador‟, responsável por fazer as gravações e inserir as legendas, realizando assim uma nova mídia matriz, que é designada ao centro de duplicação ou replicação, onde as cópias legais são reproduzidas e destinadas à comercialização.

A legenda deve ser sucinta, já que estudos indicam uma perda de até 75% da imagem quando há necessidade de ler um filme legendado. Serve apenas como um roteiro para quem está assistindo. A leitura faz parte do filme legendado, porém não é a mais importante. Trata-se de um acompanhamento para compreensão do telespectador. Por isso, é necessário que as técnicas de tradução para legendagem sejam aprimoradas tanto para o cinema quanto para a televisão (ANDRADE, 2004, p.262).

1.4 Erros e dificuldades em legendagem

Se a fluência de um texto é uma das características mais procuradas, resultando em clareza, entendimento e fácil leitura, o seu oposto seria apenas um texto sem fluência e conseqüentemente induzido ao erro. Pode-se considerar o mesmo para as legendas.

Segundo Giani de Mello, em sua tese de doutorado intitulada O tradutor de legendas como produtor de significados:

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Erik Borten, em Conversas Com Tradutores, diz que: “um texto que não flui

é um erro”

entender as idéias escritas, sem perceber que se trata de um texto traduzido.

e “o acerto” [em tradução] é quando o leitor consegue

[

]

(BORTEN, 2003 apud MELLO, 2005, p.77)

Existem vários motivos que levam o tradutor a enfrentar dificuldades na hora de traduzir, cometendo, muitas das vezes, erros grosseiros e até mesmo absurdos.

No geral, quando um filme termina, o público logo comenta se o mesmo é bom ou não, mas o tradutor de filmes só é lembrado caso cometa algum deslize na tradução. Jornalistas especializados e críticos da área do cinema são os primeiros a apontar as falhas dos tradutores. Em muitos casos, é possível identificar o erro sem ao menos conhecer a palavra na língua alvo devido à similaridade fonológica.

O amplo conhecimento do texto original de uma obra pode ser considerado um dos fatores imprescindíveis para o tradutor. Com a ausência desse conhecimento, o profissional está propenso à má qualidade de suas traduções.

A falta de conhecimento do idioma também pode causar mudanças radicais entre o que se fala e o que se vê. Analisando uma charge, por exemplo, o tradutor que não possua o conhecimento preciso perde totalmente o sentido original do humor.

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Capítulo II - HUMOR

De acordo com os dicionários de Língua Portuguesa Michaelis, Aurélio e Caldas Aulete, encontramos as seguintes definições do termo „humor‟ mais próximas ao objeto de estudo do presente trabalho:

6 Capacidade de compreender, apreciar ou expressar coisas cômicas, engraçadas ou divertidas; humour. (MICHAELIS, 2011)

Veia cômica, ironia delicada e alegre, que se disfarça sob uma aparência de coisa séria; humorismo. (AURÉLIO, 2011)

2. Espírito ou veia cômica, sua tendência e expressão; COMICIDADE; GRAÇA: O adorável humor do barão de Itararé [ antôn.: Antôn.: gravidade, seriedade. ] / 3. Sensibilidade para perceber ou expressar o cômico: Só o humor atenua os males da política nacional. (AULETE, 2011)

A palavra humorvem do latim e, no sentido geral, sua acepção mais conhecida é aquela associada ao estado de espírito, diferindo-se do cômico, grotesco, burlesco, irônico e do sarcástico. “Humor é dissimulação do sério sob aparências lúdicas(ZILLES, 2003, p.84).

Baseado no artigo A tradução de metáforas geradoras de humor de Arlene Koglin (2008), o conceito da palavra „humor‟ normalmente é aplicado no todo e não há clareza para definir o que provoca o riso.

Alison Ross (1998 apud KOGLIN, 2008) diz que o contexto social é tão necessário quanto à recepção e à criação do humor. A recíproca dependência de ambos, do humor e do contexto sócio-cultural, se converte em instabilidade, ambiguidade e relatividade. “O humor joga com a dúvida sobre o real e institui uma incerteza interpretativa que, consequentemente, pode retardar ou até mesmo anular o riso” (EVRARD, 1996 apud KOGLIN, 2008).

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2.1 Tipos de humor

Segundo Marta Rosas, há uma distinção entre o cômico, quando rimos de nosso interlocutor por ter dito ou feito algo engraçado ou ridículo, e o espirituoso, quando rimos com o nosso interlocutor, ou até de nós mesmos.

Considera-se cômica talvez a palavra dirigida por alguém que a profere levando- nos ao riso, e espirituoso “o quem tem ou denota espírito, graça, vivacidade”.

Quando rimos de nosso interlocutor (porque ele fez ou disse algo ridículo), nós não nos identificamos com ele ou somos superiores a ele. Já quando rimos com nosso interlocutor (porque ele disse algo espirituoso acerca de si mesmo, de nós ou de um terceiro), nos identificamos com ele e, não podemos ser, portanto, nem superiores nem inferiores a ele. (ROSAS, 2002, p.25)

Isso pode suceder porque na relação cômica dois elementos são suficientes, o observado e o observador, em que ambos exigem separação, ao contrário da espirituosa, que envolve três elementos: o observador torna-se o emissor de uma mensagem sobre a posição ou o indivíduo cômico (o observado) comunicando a um terceiro e tendo como objetivo seduzir o receptor, provocando assim o riso (ibidem).

Do outro lado, a relação espirituosa é mediada pela palavra, exigindo a presença de outra pessoa para se obter o riso.

Há também a construção do chiste, e tanto na relação espirituosa como na

encontram-se condensações, deslocamentos, unificações, "

relação cômica,

representações

e omissões

(ibidem).

No caso da análise do chiste e de sua função, Freud nos mostra que o chiste é destinado para o nosso prazer, e constitui um processo de defesa saudável, pois permite converter o sentimento ruim em um sentimento agradável. No chiste tendencioso, acontece a substituição de uma ação, realizando assim, um desejo recalcado. No chiste inocente, acontece exatamente o contrário, pois não é visada a substituição da ação (ibidem).

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2.1.1 Tipos de piadas

A revista época fez uma matéria sobre uma pesquisa dos tipos de piada que agradam as pessoas de diferentes gêneros e diferentes lugares, resultando em um banco de dados que revelou que existem vários tipos de piadas e, para que uma piada seja engraçada, deve ser levada em consideração a cultura local onde é falada, o gênero, a idade e até mesmo o nível de conhecimento de quem escuta a piada.

As piadas contadas por homens tendem a ser mais nonsense, machista e com temas que envolvem sexo, enquanto as piadas contadas por mulheres são piadas sobre o cotidiano, com temas que na maioria das vezes não envolvem um contexto sexual.

As preferências por piadas também variam de acordo com cada país. Os britânicos preferem piadas com trocadilhos; alemães e franceses gostam de piadas „sem noção‟, piadas que não tem graça nenhuma, mas que divertem mesmo assim; os brasileiros gostam de piadas ironizando os argentinos, enquanto os americanos são alvo dos canadenses; já os próprios americanos preferem piadas sobre o cotidiano e piadas regionais, referentes à realidade deles mesmos.

Seguem alguns dos principais gêneros de piadas:

Trocadilhos: piadas onde palavras são trocadas por outras com sonoridade parecida.

Ex: Sem conserto do piano não há concerto .

Neste exemplo, a palavra conserto faz trocadilho com a palavra concerto. Elas têm significados diferentes, pois, enquanto a primeira significa arrumar, restaurar‟ e „corrigir‟, a segunda é sinônimo de apresentação musical‟. Ambas, porém, têm a mesma sonoridade.

Piadas

temáticas:

professor, por exemplo:

Piadas

sobre

um

tema

específico,

como

piadas

sobre

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Um professor de química queria ensinar aos seus alunos do Primeiro Grau os males causados pelas bebidas alcoólicas e elaborou uma experiência que envolvia um copo com água, outro com cerveja e dois vermes. Agora alunos, atenção! Observem os vermes! - disse o professor, colocando um deles dentro da água. A criatura nadou agilmente no copo, como se estivesse feliz e brincando. Depois, o mestre colocou o outro verme no segundo copo, contendo cerveja. O bicho se contorceu todo, desesperadamente, como se estivesse louco para sair do líquido e depois afundou como uma pedra, absolutamente morto. Satisfeito com os resultados, o professor perguntou aos alunos: - E então, que lição podemos aprender desta experiência? E os alunos responderam: 'Quem bebe cerveja nunca terá vermes'. (Piadas engraçadas,

2011)

Piadas sobre minorias: Piadas sobre minorias que sofrem preconceitos, como gays, gordos, loiras, negros, entre outros. A piada a seguir ironiza a inteligência das mulheres loiras, por exemplo:

Ex: A loira está no restaurante. Ela chama o garçom e, quando ele se aproxima, ela se levanta e fala baixinho no ouvido dele: - Onde é o banheiro? O garçom responde: - Do outro lado. A loira se aproxima do outro ouvido do garçom e diz: - Onde é o banheiro? (As melhores piadas, 2011)

Piadas com perguntas e respostas: São piadas onde o locutor faz uma pergunta ao interlocutor, que é surpreendido com uma resposta inesperada. O clímax da piada se dá exatamente por surpreender o interlocutor.

Ex: O que a Vaca foi fazer na casa do Passarinho? Leite Ninho.

2.2 A tradução do humor: dificuldades e recomendações

O humor é com certeza um dos gêneros mais difíceis, se não o mais difícil, de se

traduzir. Há quem diga que traduzir uma piada é impossível, mas também há aqueles

que dizem ser possível achar uma equivalência em outra língua.

O que pode ser engraçado em um país pode ser uma ofensa em outro lugar. Em

um único país também é possível verificar que muitas piadas se tornam verdadeiras

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ofensas para certo grupo de pessoas. No Brasil, a mistura de raças fez com que os brasileiros fizessem piadas com sua própria miscigenação. É comum verificarmos piadas que questionam a sexualidade do povo gaúcho, piadas que tratam o povo baiano como preguiçosos e há até aquelas piadas que citam a população do Acre como uma civilização perdida.

Nesse sentido, como transpor piadas para um grupo de pessoas que sequer compartilha da mesma cultura que você sem causar estranhamento? Sempre que possível, a piada deve ser transposta para outro idioma sem perder sua carga cultural. Mas caso isso não seja possível, a equivalência é o mais próximo que se pode chegar de um êxito em relação à tradução de piadas.

As línguas não são similares entre si, e isso leva o tradutor a enfrentar algumas impossibilidades de tradução acarretadas por polissemias, trocadilhos, jogos de palavras, anedotas e outros mecanismos que deixam aos profissionais poucas opções. O tradutor pode recriar o texto de modo a procurar manter a mesma idéia conservando assim sua invisibilidade, ou recorrer à própria língua para explicar a linguagem, ou ainda optar por fazer comentários explicando a impossibilidade de traduzir rompendo assim com sua invisibilidade.

A função do tradutor é elaborar traduções, transportando o que é considerado sólido dentro de um texto a outro, não interferindo, em momento algum, em seu real significado. Antigamente, não era permitido nenhum tipo de alteração e intervenção por parte do tradutor dentro de um texto. Devido à individualidade de cada tradutor e estar em contato com diferentes contextos culturais, ideológicos, políticos e psicológicos, a invisibilidade foi corrompida (ALMEIDA, 2007).

Adauri Brezolin, em seu artigo Humor: Sim. É Possível Traduzi-lo e Ensinar a Traduzi-lo, respondendo a outro artigo escrito pelo professor John Robert Schmitz (1996), afirma que, assim como o próprio título apresenta, o humor pode ser traduzido.

Em suma, o que torna viável a tradução de uma piada (e outros tipos de texto) é necessariamente nossa concepção de tradução concepção essa que, além de prever as várias interpretações de cada leitor, aceita o recurso de recriação como a única saída para alguns casos um texto humorístico que ocorre em nível fonológico, por exemplo. (1997, p.18-19)

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Brezolin compreende que a tradução humorística é a recriação do texto em um contexto diverso daquele para o qual foi originalmente produzido (apud SILVA, 2006, p.58). O autor atribui esse tipo de tradução como “exercício de descoberta”, em que existem algumas habilidades nas áreas de língua, conhecimentos gerais, compreensão e re-expressão (DESLILE, 1988, p.109 apud BREZOLIN, 1997, p.21).

Brezolin nos lembra que a tradução de humor sempre será uma tarefa difícil, assim como de qualquer outro tipo de texto e, embora seja considerado como um dos temas mais trabalhosos e complicados, ainda assim, é possível a realização tradutória (IBID., p.17).

No livro Tradução de Humor: Transcriando piadas de Marta Rosas (2002, p.23- 24), afirma que, para decodificar a linguagem humorística, a interpretação é um elemento necessário. O tradutor deve ter informações suficientes da língua e da cultura para saber julgar se o que ele estará traduzindo será considerado engraçado na outra língua.

requer a precisa decodificação de um discurso humorístico em seu

contexto original, sua transferência para um ambiente diferente e, muitas vezes, discrepante em termos lingüísticos e culturais e sua reformulação em um novo enunciado que tenha sucesso na recaptura da intenção da mensagem humorística original, suscitando no público alvo uma reação de prazer e divertimento equivalentes. (LEIBOLD, 1989, p.110 apud ROSAS, 2002,

p.23)

] [

Segundo Marta Rosas (ibid., p.50), para que a tradução do humor seja funcional, é necessário que o tradutor tenha domínio da norma culta e conhecimento linguístico de uma forma geral, podendo compreender qualquer piada que lhe seja apresentada.

2.3 A legendação do humor: dificuldades e recomendações

No campo da legendação, existe uma ligação muito próxima entre os conteúdos verbal e visual e, com isso, o humor algumas vezes resulta de uma incoerência entre o

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que está sendo dito e a cena mostrada. Tal incoerência pode ser causada pela fala e o contexto da situação ocorrida. Em outras palavras, como disse a escritora Susanna Jaskanen (1999 apud KOGLIN, 2008, p.37), o humor verbal na televisão era considerado como um simples fenômeno linguístico.

Jaskanen (ibidem) afirma que traduzir humor é algo complexo porque o tradutor precisa se colocar na posição de leitor a fim de saber se o mesmo consegue compreender o humor transmitido no texto, e se realmente há coerência na língua de chegada. No caso de tradução audiovisual, dentro do processo da recriação do humor, é preciso respeitar o contexto audiovisual da legendagem a fim de produzir o que se espera de uma cena humorística: o riso. O doutor Dimitris Asimakoulas (2002, apud ibid., p.39) diz:

A imagem é o fator contextual responsável pela natureza polimidiática dos filmes. Certas ações, objetos, ou entidades estão fisicamente presentes na tela. Em alguns casos, os elementos constituintes da imagem são explorados e cria-se um jogo de palavras verbo-pictórico.

Em programas televisivos, outro ponto analisado na legendação é a expectativa que o público tem ao assistir comédias ou situações engraçadas, pois isso causa o rompimento da rotina e a distração dos telespectadores. Neste meio tempo, entre um episódio e outro, cabe ao tradutor provocar a comicidade entre duas culturas distintas. São notáveis as dificuldades linguísticas, históricas, sociais e até mesmo pessoais na tradução de textos humorísticos.

Além de a tradução do humor ser um desafio devido aos problemas lingüísticos, culturais e sociais, não podemos deixar de apontar as diferenças de classes sociais e as multiplicidades nacionais enfrentadas entre falantes de uma região e outra. O acadêmico estruturalista russo Vladimir Propp (1992 apud ibidem) afirmou que “é evidente que, no âmbito de cada cultura nacional, diferentes camadas sociais possuirão um sentido diferente de humor e diferentes meios para expressá-lo”.

Dentro do Brasil, as marcas regionais são uma característica consistente entre os falantes do mesmo idioma e, portanto, há possibilidade de que as soluções tradutórias adotadas pelo legendador possam não oferecer o mesmo senso humorístico para todos

26

telespectadores da língua portuguesa devido ao desconhecimento da linguagem de determinada região.

Notamos que, em relação à tradução do humor, a exigência de atenção do tradutor a esse tipo de texto é redobrada, pois, além de vários aspectos necessários, conforme vimos anteriormente, tais como o fator cultural e o fator linguístico, o principal propósito é produzir humor e provocar o riso. Esse é o objetivo principal quando o telespectador assiste a uma comédia. Porém, cabe ao leitor/ouvinte compreender o texto ou a cena assistida para produzir esse efeito humorístico. Outro fator importante ao tradutor é examinar o público para o qual o filme se destina e o veículo escolhido (DVD, cinema ou canais fechados).

Muitas vezes, a fim de que a tradução do humor seja bem sucedida e equivalente ao original para a devida assimilação por parte do público, o tradutor opta por uma recriação tanto na forma quanto no conteúdo, sempre analisando os aspectos linguísticos para possíveis traduções.

Marta Rosas (2002, p.45-46) acredita que, dentre as abordagens na teoria da tradução, a que mais se adéqua ao humor é aquela proposta por Katharina Reiss e Hans Vermeer conhecida como, skopostheorie („teoria do escopoem português). Segundo essa teoria, a abordagem funcional exige que o tradutor crie um novo texto aos receptores, obtendo o mesmo valor cultural com os mesmos escopos do texto original.

Toda ação visa (de forma mais ou menos consciente) a um determinando

objetivo e se realiza de modo que tal objetivo possa ser alcançado da melhor

forma possível na situação correspondente. [

uma ação que também visa a um objetivo: que o texto “funcione” da melhor forma possível na situação e nas condições previstas. Quando alguém traduz ou interpreta, produz um texto. A tradução/interpretação também deve funcionar de forma ótima para a finalidade prevista. Eis aqui o princípio fundamental de nossa teoria da translação. O que está em jogo é a capacidade de funcionamento do translatum (o resultado da translação) numa determinada situação, e não a transferência linguística, com a maior “fidelidade” possível a um texto de partida (o qual, pode, inclusive, ter defeitos), concebido sempre em outras condições, para outra situação e para “usuários” distintos dos do texto final. (Reiss e Vermeer 1996 apud ibid.,

A produção de um texto é

]

p.5)

Entende-se que o tradutor passa a ser tanto um reprodutor de textos quanto um autor de outros novos. “O tradutor não oferece mais ou menos informação que o

27

produtor de um texto de partida; o tradutor oferece outra informação e de outra maneira” (REIS; VERMEER 1996, apud ibid., p.45).

28

Capítulo 3: Análise de Os Normais o filme

Com o propósito de abordar a problemática da tradução do gênero cômico, damos início à análise da versão da língua portuguesa para a língua inglesa presente na legendagem do filme Os Normais. Esse filme foi escolhido como objeto de análise por ser repleto de características marcantes da língua, da cultura e principalmente do humor brasileiro, exigindo assim, um raciocínio maior do tradutor.

Analisamos neste capítulo se o tradutor conseguiu preservar o efeito humorístico desejado e se obteve a mesma equivalência na versão inglesa, sabendo que verter um texto para uma língua estrangeira é muito mais complexo do que traduzir para a língua de origem.

Desse modo, examinaremos as versões selecionadas pela tradutora e algumas possíveis soluções para as expressões que tiveram perda semântica. Vale ressaltar que nem sempre é possível verter literalmente uma expressão dentro de um contexto específico, mas há como explicitá-la de modo equivalente na língua de chegada e, dependendo do contexto há formas de omiti-la ou optar por empréstimo da língua de chegada.

3.1. O filme

Dirigida por José Alvarenga Junior em 2003, a comédia brasileira Os Normais - O Filme é inspirada na série televisiva homônima e relata a história de dois casais que se casam no mesmo dia e na mesma sacristia com poucas horas de diferença.

As cerimônias dos casais Rui (Luis Fernando Guimarães) e Marta (Marisa Orth) e Vani (Fernanda Torres) e Sérgio (Evandro Mesquita) são celebradas numa paróquia localizada no Rio de Janeiro.

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No dia do casamento, Rui, o noivo do casamento das 18hrs, e Vani, a noiva do casamento das 19h30min, conversam pela primeira vez. Vani pede a Rui um punhado de arroz para que a cerimônia se inicie, mas a outra noiva se recusa a emprestar um grão sequer. Vani se revolta. Após a celebração surge uma coincidência, os casais moram em prédios vizinhos. Chegando à casa nova, Vani descobre que seu noivo a traiu com uma garota de programa. Nervosa, sai de casa e encontra o mesmo casal da igreja. Vani pede ajuda a Rui e Martha, que a recebem em sua nova casa e emprestam-lhe o telefone para fazer uma ligação.

No meio da confusão, Rui descobre quem é a verdadeira Martha. Passadas algumas horas, Rui e Vani decidem anular o casamento e voltam à igreja, onde se casam. Porém, o padre se recusa a atender ao pedido dos noivos.

3.2 Análise

Apresentaremos a seguir algumas versões de trechos humorísticos do português para o inglês extraídas do filme, que incluem alguns procedimentos teóricos estudados. Nosso objetivo é analisar as boas escolhas feitas pela tradutora de modo a enriquecer nossos conhecimentos em relação aos obstáculos vencidos que surgem durante o processo tradutório, apontar as passagens que foram traduzidas de modo equivocado e talvez não tenha causado a mesma comicidade em ambos os idiomas. Acrescentaremos possíveis soluções e mostraremos legendas que a tradutora não verteu de maneira satisfatória, evidenciando que, pela complexidade e peculiaridade cultural, não é possível verter sem que haja uma perda de semântica.

Vale observar que é de suma importância que o tradutor tenha conhecimento das expressões utilizadas pelos nativos de língua inglesa mantendo-se em constante aprendizado, levando em consideração que a falta de conhecimento e bagagem cultural, como mencionamos no capítulo I, impedem o riso esperado, ocorrendo assim a ruptura do humor. Veremos também se tais expressões levantadas possuem prosódia semântica positiva, negativa ou neutra.

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A prosódia semântica é a ligação recorrente entre itens de uma palavra específica (léxico) e o estudo de seus diferentes significados (semântica), portanto, revela o modo pelo qual as ideias estão encadeadas no contexto em que estão sendo inseridas (SARDINHA, 2008, p.38). Segundo Sardinha, a prosódia semântica prepara o ouvinte ou o leitor para receber o assunto que virá em sequência.

Veremos a seguir as versões das expressões adotadas pela tradutora para certas passagens do filme e verificaremos se o mesmo sentido de humor foi adequadamente transferido para a língua inglesa.

0:08:49

PADRE: Vocês são loucos ou coisa parecida?

Are you two crazy?

0:08:52

VANI: Não somos loucos. RUI: Nem coisa parecida.

-We‟re not - At all.

Na versão da frase „Vocês são loucos ou coisa parecida?‟, houve uma omissão de „ou coisa parecida‟, que é uma expressão própria da nossa língua e cultura e possui, neste caso, significado ambíguo. Trata-se de uma pergunta retórica tendo como objetivo explicitar a opinião de alguém. Ocorre um desmembramento na resposta ao ser dito

„Não somos loucos. Nem coisa parecida‟, que se perde na versão. A tradutora opta por compensar esta perda utilizando outra expressão na língua inglesa, para que se aproxime

do sentido original not

at all.

0:10:04

VANI: Um achou que o outro ia trazer o arroz, que o outro ia trazer e ninguém trouxe o arroz pra tacar na gente, entendeu?

Everyone expected someone else to bring it, so there‟s no rice.

0:10:08

RUI: Olha, eu queria que não tacassem em mim também sabe.

I wish mine had no rice.

0:10:10

VANI: Não não fala isso não, tacar arroz é uma tradição, quando não tacam arroz na gente o casamento dá muito azar.

Don‟t say that. Without rice, your wedding is jinxed.

31

O termo „tacar arroz‟ é uma expressão totalmente brasileira. Desde a década de 80, os norte-americanos substituíram a tradição de jogar arroz por bolhas de sabão ou pétalas de rosas diminuindo os gastos financeiros. O melhor termo seria manter a fidelidade de „tacar arroz‟ que vertido ficaria como „throw rice, já que existe o mesmo termo na língua original de entendimento dos nativos da língua inglesa, mesmo tendo caído em desuso atualmente.

0:10:35

GUARDIÃ: A Marta achou melhor sobrar do que faltar. A família da Marta tem essa mania de fartura, sabe?

Martha wanted to make sure we had enough. It‟s better to have leftovers than not have enough Martha‟s family always

0:10:40

RUI: A família da Marta tem essa mania de fartura, sabe?

Martha‟s family always exaggerates.

0:12:46

RUI: Martha tem 50 quilos aqui você quer o que, que a gente morra soterrado debaixo de arroz?

0:13:33

Martha, there‟s 100 lbs. here. Enough to bury us.

RUI: Numa sagrada sacristia de uma igreja.

In the vestry.

A expressão make sure we had enoughpoderia ser vertida como o próprio idioma sugere na língua alvo, pois há na língua inglesa a mesma expressão utilizada aqui no Brasil tratando-se de comida, como por exemplo a expressão „it‟s better to have leftovers than not have enough. Na frase, enough to bury us, caso a frase fosse vertida fielmente, a tradutora não estaria respeitando a leitura do telespectador e roubando a cena do filme.

Nota-se que a tradutora não utilizou a versão literal devido à limitação de caracteres permitida para legenda. „In the vestryé outro exemplo de versão para legenda e, por mais que o número de caracteres esteja dentro do padrão permitido como neste caso, o objetivo de traduzir ou verter uma legenda é diminuir o número de caracteres o máximo possível para que se enquadre dentro desse padrão que se pede na legenda.

32

0:13:41

GUARDIÃ: Porque você não taca pétala de flores? Tá usando à beça.

You could throw flower petals. That‟s in.

0:13:50

VANI: Mão de vaca.

VANI: Por motivo de força maior.

VANI: Miser.

 

VANI: By force majeure.

No primeiro exemplo, percebemos que a expressão no original „tá usando à beça‟ é uma característica marcante do estado do Rio de Janeiro e, versão manteve a mesma ideia.

A palavra misertem o significado mais abrangente do termo original, podendo assim ser classificada como hiperônimo. Misernão transmite a mesma comicidade e informalidade existente no original „cheapstakeseria a melhor escolha por obter a mesma equivalência. Já na expressão, a tradutora utilizou o empréstimo da palavra francesa majeur‟, que também é usado na língua inglesa. Outra opção de versão poderia ser for important circumstancesque daria o mesmo sentido do idioma original.

0:15:40

SÉRGIO: Eles vão achar que é deboche, hein.

Don‟t tease them.

A versão literal foi uma ótima solução encontrada pela tradutora porque há equivalência nos dois idiomas.

0:15: 54

ÔNIBUS: - Vai devagar, mas não amolece não hein.

- Go deep, big daddy.

A tradutora encontrou uma boa expressão e conseguiu conservar o mesmo sentido humorístico em ambos os idiomas, mas para isso a frase foi reconstruída e passou por mudanças na versão. Aqui é um exemplo da Teoria do Escopo aplicada, visto que o texto foi recriado aos receptores, transferindo a mesma ideia e valor cultural.

33

0:15: 58

ÔNIBUS: Esse noivo aí é corno, hein?

-

The groom‟s a cuckold.

Aqui temos como exemplo uma versão bem elaborada, pois manteve a prosódia semântica original.

0:20:06

VANI: Uma cambada de safado ladrão. Pega, pega.

Motherfuckers! Thieves! Police!

Na versão, houve quebra de sentença e uso do modo exclamativo. A entonação da voz de Sérgio já expressa fúria portanto, não seria necessário o uso da exclamação. O termo usado na língua portuguesa também poderia ser transportado como a bunch of thieves‟, visto que, existe aproximação de significação do termo „cambada‟ no português e bunchna versão.

0:21:24

SÉRGIO: - Hmm quer tomar na cozinha?

VANI: - Quero.

- Wanna “pop” in the kitchen?

- Yeah.

Geralmente, nas legendas as aspas indicam gírias ou neologismos. Neste caso, trata-se de uma gíria, pois a própria cena do filme, através da expressão facial do personagem, expressa a mensagem. A escolha poppassou a mesma ambiguidade para a língua portuguesa.

0:25:43

SÉRGIO: Isso foi uma vaquinha do pessoal do escritório pra gente, pra gente.

The whole Office chipped in to buy us that.

0:25:47

VANI: Será que foi uma vaquinha do escritório que teve ontem aqui também dando pra você?

34

 

I think a whore from your Office screwed you here!

0:25:50

SÉRGIO: Não teve vaquinha nenhuma Vani.

Não delira!

That‟s absurd, Vani. You‟re delirious.

No Brasil, usamos a expressão „vaquinha‟ tanto para um grupo de pessoas que recolhem dinheiro para uma despesa em comum, quanto para uma mulher devassa. Notamos que a tradutora não conseguiu preservar a mesma equivalência na língua inglesa, pois a graça está na ambiguidade da palavra, caso tal ambiguidade não seja expressa, o público da língua alvo não conseguirá identificar o humor. A tradutora optou por traduzir de maneira literal os diversos sentidos da expressão „vaquinha‟ de acordo com cada contexto. Uma solução seria achar uma compensação para a ambiguidade da palavra vaquinha. Neste caso, poderia ser utilizada a palavra contributiondividindo a frase em duas legendas, para não ultrapassar os limites de caracteres impostos pela legendagem. Conforme o proposto abaixo:

(SÉRGIO) - This is a small contribution of the staff office.

(VANI) - Who makes a contribution here?

(VANI) - Maybe a whore from your Office

(SÉRGIO) - That‟s an absurd Vani. You‟re delirious.

0:27:27

SÉRGIO: Sabe, um franguinho assado rápido.

It was just a quickie.

Neste caso vemos uma boa solução para a versão, pois a tradutora optou por utilizar uma palavra com um sentido mais geral como equivalente para uma expressão idiomática específica.

35

0:28:14

RUI: Olha vou logo avisando se vieram com essa m**** pra tacar arroz eu vou partir pra grosseria.

You throw rice and I‟ll kick your asses.

A tradutora manteve a grosseria da expressão na língua de chegada com êxito dentro do padrão de legendas.

0:30:24

MARTHA: Tá certo que as pessoas encaretam depois que casam. Mas, agora, você tá indo um pouco rápido demais, não tá não, Rui?

You‟ve become an old man a bit too soon, haven‟t you?

Neste trecho vemos uma versão que não foi bem sucedida. No original a personagem usa a palavra „careta‟ (expressão utilizada para designar uma pessoa antiquada e conservadora) como verbo, de modo a manter a informalidade e a naturalidade exigida neste contexto. Na versão, vemos que a escolha da tradutora foi utilizar a expressão become an old man, que é algo formal para designar uma pessoa antiquada, deste modo, há distorção da prosódia semântica e a perda de comicidade. Uma solução possível seria utilizar fogey, que é uma expressão informal ou gíria que tem o mesmo sentido da expressão „careta‟. A frase ficaria: „You‟ve become a fogey, haven‟t you?‟

0:34:39

VANI: que é a única pessoa discreta fora eu.

SEM LEGENDA

Esta frase contradiz o ato da personagem Vani, que diz isso após fazer um escândalo no meio da rua, o que torna a cena engraçada. Porém na legenda houve uma omissão desta frase, que deveria ter sido colocada como: The only discreet person in my family besides mepara manter a contradição e assim manter a piada.

0:36:33

RUI: Ela puxou um certo desvio de caráter da mãe, sabe.

36

She‟s taken to her mother.

She‟s taken to her mother.

Neste caso, há uma quebra de sentido, pois na versão aparece apenas „she‟s taken to her mother‟ dizendo apenas que ela „puxou‟ a sua mãe, omitindo seu desvio de caráter. Uma melhor proposta seria colocar algo do tipo: „she's a bad character like her

mother‟, respeitando a limitação de caracteres na legenda.

0:37:06

VANI: Pede um absorvente pra sua mulher.

Ask your wife for a thing.

Neste exemplo, vemos a substituição da palavra absorvente, uma palavra específica, pela palavra thing que abrange vários significados, fazendo assim com que haja perda de sentido, levando em consideração que as falas seguintes serão sobre absorvente. O correto deveria ser utilizar a palavra tampax, palavra comum na língua inglesa.

0:44:13

VANI: - Acho que eu vou ter um „piripaque‟. PADRE: - Pire o que? Piritáquio? RUI: - Não, piripaque. Quer dizer um chilique. VANI: - Não, não é bem chilique não, é mais assim, um treco que a pessoa tem. RUI: - Na verdade não se fala nem „piripaqui‟. É piripaque. RUI: - É peripaque, do Tupi Guarani. RUI: - Ué, Peri, o indio e paque é ataque. RUI: - Peripaque: ataque de Peri. VANI: - Não, tem nada haver, é do inglês „pity pack‟ VANI: - Pity é pena e pack é pacote, então é pacote de pena. VANI: - Então, é como se um pacote de pena tivesse caído na cabeça da pessoa.

- I‟ll gona have a piripaque.

- Piri what? Piritáquio?

- No, piripaque. A fit you know.

- No, piripaque is more like a seizure.

37

- It‟s pronounced „peripaque‟. No „piripaque‟, with an „i‟.

- It‟s peripaque, from Tupi Guarani.

- From Peri, the indian and paque, meaning „attack‟

- Peripaque: Peri‟s attack.

- No, that‟s English: „pity pack‟

- Pity is sorrow, Pack as massive. Thus pity pack.

- It as if a massive pain had come over you.

Neste trecho da versão do filme, percebemos alguns problemas linguísticos e culturais enfrentados pela tradutora. A palavra „piripaque‟ é uma expressão brasileira usada informalmente para se referir a um mal estar. Em outro contexto, seria fácil verter a palavra, por „fit‟, por exemplo. Há ainda a presença de neologismo, pela palavra „Peritáquio‟. A expressão é mantida devido à explicação no decorrer das cenas. Porém, a problemática está no momento em que os personagens começam a discutir sobre a origem da palavra. Enquanto um diz que a palavra vem do Tupi Guarani, que é uma tribo indígena aqui do Brasil, o outro contesta dizendo que é de origem inglesa. Esse contexto específico torna a versão desta fala algo impossível, pois o Tupi Guarani não faz parte da realidade dos falantes da língua inglesa. A versão se torna mais difícil ainda quando os personagens citam a pronúncia da palavra (na verdade, não se fala nem „piripaqui‟. É piripaque) Não há como verter um aspecto fonológico de um idioma a outro quando a fonética de ambos os idiomas são completamente diferentes entre si. A tradutora optou por verter de maneira literal todo o diálogo, fazendo uso do empréstimo da palavra „piripaque‟, uma versão não satisfatória, porém menos danosa em relação ao original.

0:51:45

MARTHA: É duas, duas e quinze, sei lá

Two-ish

O termo ish é muito usado no cotidiano de ingleses e britânicos e significa mais ou menos, aproximadamente. Pode-se dizer que a expressão é uma equivalência para a expressão brasileira „sei lá‟. Sendo assim, esta foi uma versão bem sucedida pela tradutora.

38

0:54:58

VANI: Você recebe um sinal, sabe? RUI: Exatamente isso, recebi um sinal. RUI: O pai dela deu de entrada, deu um sinal pra o apartamento. VANI: Sinal não é isso não.

You get some sort of sign, you know? There. I did get a sign. Her dad signed our home‟s downpayment. Not that kind of sign.

Neste caso vemos um trocadilho com a palavra sinal‟ na frase „Você recebe um sinal, sabe?. A palavra sinal tem o sentido de aviso divino, um presságio. Na segunda frase, vemos o trocadilho quando a palavra sinal adquire outro sentido: pagar adiantado. O trocadilho se torna uma problemática no processo tradutório, fazendo o tradutor procurar uma palavra em inglês que se encaixe neste contexto. Esse é um exemplo de versão bem sucedida, pois a tradutora usou o recurso de compensação com o verbo no inglês „sign.

1:00:14

RUI: Campeão de Torneio de Luta.

Indoor Soccer Champion.

Nesta frase, há uma quebra de sentido, pois foi vertida como se o esporte fosse futebol, ao invés de luta. O correto seria utilizar „Fighting Tournament Champion‟, ou alguma outra opção que tivesse similaridade e estivesse dentro do padrão de caracteres permitido para legenda.

1:00:26

Crazy xévem

1:00:30

Luisan favan

1:00:33

Xei foreven xir Lou mi tái

1:00:40

Iu tsam tében mi

1:00:45

Ié cou mi tai

39

1:00:49

Ies iu crazy iu

1:00:57

Xêi nistében

1:01:00

Xêi foreven

Neste trecho de legenda, vemos que a letra foi preservada da mesma maneira que se fala, não chegando a ser uma transcrição fonética. Aqui não teria como transferir a mesma graça e causar o riso para os nativos de língua inglesa, pois a graça está na escrita e, como não é de entendimento deles, o riso não é provocado.

1:04:18

RUI: Quem é?

Who‟s this?

1:04:20

RUI: Tá falando com quem?

Who‟s this?

Aqui, ambas as frases „Quem é‟ e „Tá falando com quem?‟ foram vertidas igualmente para „Who‟s this?‟, quando poderia ocorrer uma versão literal na segunda frase, mais precisamente como: „Who are you talking to?‟.

1:04:21

MARTHA: Com a mamãe.

My mom.

A palavra „mamãe‟ poderia ter sido vertida literalmente devido à existência da

mesma palavra e sentido na língua portuguesa no diminutivo mommy

1:04:25

MARTHA: Jura?

Did I?

A expressão „jura‟ é muito usada na língua portuguesa para expressar dúvida de

algo que tenha sido feito ou dito ou até mesmo numa situação em que a pessoa está

40

dizendo algo de maneira indireta, subentendida. Assim sendo, considerando que no contexto, o did Item a mesma função, a versão foi bem sucedida.

1:04:28

MARTHA: Mamãe? Oi, eu falei “satisfeito” ou “satisfeita”?

Mom, did I said “happy, man” or “happy, mom?”

Na língua inglesa não existe distinção de gênero em adjetivos como na língua portuguesa. A saída encontrada pela tradutora foi modificar a sentença levando a mesma ideia de forma diferente ao público.

1:04:36

SÉRGIO: Desculpa o quê? Martha? Não tô entendendo.

For what, Martha? I‟m lost.

A tradutora trocou o verbo em português no gerúndio „entendendo‟ por um outro verbo vertido mais curto lost. As legendas são apenas um acompanhamento às cenas assistidas. Se passar mais tempo lendo as legendas do que assistindo, o telespectador não entenderá o contexto do filme. Como mencionamos anteriormente, quanto menor o número de caracteres dentro das legendas, mais fácil será a leitura e compreensão do telespectador, respeitando sempre as normas permitidas.

1:09:24

VANI: Crente, cardecista, mãe de 5 filhos, viúvia que não pratica sexo desde 63?

A kardecist widow, mother of 5… sexless since ‟63?

A piada se encontra no exagero com que a personagem Vani explica detalhadamente o perfil da empregada, para mostrar que ela não tem relações sexuais. A tradutora optou por verter literalmente o termo „kardecista‟, porém, o kardecismo é uma religião desconhecida da maioria dos americanos e britânicos, o que causaria um estranhamento na compreensão do contexto. Uma boa escolha seria trocar o termo

41

„kardecist‟ por „evangelist‟, uma religião „mais popular‟ pelos americanos e britânicos, porém, a tradutora poderia se tornar alvo de críticas por não verter literalmente o termo.

1:17:54

RUI: Ô Vani, nós escutamos sininhos, escutamos sinetas, escutamos sinões. Que mais você quer, cara?

We both heard bells. What more do you want?!

Neste caso, a versão não foi bem sucedida, pois a graça da fala está no exagero dos sininhos, sinetas e sinões. A escolha da tradutora de utilizar simplesmente „We both heard Bells.‟, acabou fazendo com que o humor não fosse compreendido da maneira que deveria ser. Uma boa saída seria achar uma compensação.

1:21:39

RUI: F*** a bursite. Qual o seu time?

Too bad. What‟s your team?

A comicidade está no modo engraçado em que a palavra „bursite‟ foi transmitida, quando na verdade a cena do filme dá a entender que o ator queria dizer uma palavra de baixo calão na língua portuguesa, trazendo um duplo sentido da palavra „bursite‟. A opção da tradutora foi transportar a informação de um modo completamente sutil substituindo a versão da palavra grotesca. A expressão em inglês too badeliminou o sentido humorístico do original e perdeu-se a graça.

1:21:40

SÉRGIO: Flamengo.

Flamengo.

1:21:41

RUI: Personagem de desenho animado preferido?

Favorite cartoon characters?

1:21:43

SÉRGIO: Flintstones.

The Flintstones.

1:21:44

RUI: Então…

Okay. So…

42

1:21:43

RUI: Você vai cantar o hino do Botafogo com a voz do Flintstones, ta?

You‟ll sing Botafogo‟s anthem in the Flintstones voice.

1:21:50

SÉRGIO: Botafogo, Botafogo, campeão de 1910.

Botafogo, Botafogo, 1910‟s champion.

Nesse trecho, o personagem Rui faz perguntas aleatórias ao Sérgio, primeiro ele pergunta para qual time de futebol ele torce. Ao responder Flamengo, Rui torce o dedo dele e o obriga a cantar o hino do time rival, o Botafogo, cantando com a voz a de um personagem dos Flinstones, desenho preferido do Sérgio. A piada se encontra nessa rivalidade entre Botafogo e Flamengo, ambos times cariocas. O engraçado é que o Rui é botafoguense e o Sérgio flamenguista. Além da rivalidade dos times, eles brigam porque o Sérgio era amante da Martha, esposa do Rui. Porém, estas referências sobre futebol não são geralmente compreendidas pelos nativos de língua inglesa, havendo a perda de comicidade.

Conclusão

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Somos um povo muito susceptível à cultura dos países de língua inglesa, sofremos influencia na música, no cinema, na moda e em tantos outros aspectos. Logo, compreender uma piada carregada de fatores culturais norte-americanos não é uma difícil missão para nós. Por este motivo, resolvemos fazer o caminho inverso, analisar o processo tradutório no fluxo contrário, por meio da versão de um filme brasileiro para o inglês com a intenção de sabermos se são semelhantes os processos de tradução e versão.

Nosso trabalho teve como objetivo mostrar as barreiras linguísticas a serem vencidas na tradução do humor de modo a mostrar que o humor é algo peculiar e circunstancial. Conhecemos a história do cinema, os processos da tradução/versão audiovisual, a teoria do humor e os exemplos práticos por meio do filme analisado. Depois desta profunda análise, chegamos à conclusão de que seria impossível transmitir todo o tipo de humor de uma língua à outra sem que houvesse perdas semânticas. O que se pode fazer é tentar compensar estas perdas por meio daquilo que aprendemos na teoria. Sem esquecer de que há muito mais a ser estudado. Nossa análise foi apenas uma pequena parte de um tema tão abrangente como a tradução do humor. Esperamos que nosso trabalho acrescente algo às próximas gerações de pesquisadores da área e àqueles que se interessarem pela tradução humorística.

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