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AASS PPRROOFFEECCIIAASS DDOO TTEEMMPPOO DDOO FFIIMM Hans K. LaRondelle
AASS PPRROOFFEECCIIAASS DDOO TTEEMMPPOO DDOO FFIIMM
Hans K. LaRondelle

Hans K. LaRondelle Dr. em Teologia Professor emérito de Teologia

As Profecias do Tempo do Fim

2

O SERMÃO PROFÉTICO DE JESUS: MATEUS 24 A PROFECIA DE PAULO: 2 TESSALONICENSES 2 O APOCALIPSE DE JOÃO

Título do original em inglês (5ª edição inglesa, 1997) How to Understand The End-Time Prophecies of the Bible FIRST IMPRESSIONS Miami Beach, Florida, E.U.A., 1997 Tradução: Carlos Biagini

"O Dr. LaRondelle fez uma contribuição extremamente importante para nossa compreensão da profecia bíblica". Dr. George R. Knight, professor de História Eclesiástica no Seminário Teológico de Universidade Andrews.

"Este livro faz uma contribuição fundamental a uma necessidade absolutamente crucial em todas as igrejas cristãs: A necessidade de não só interpretar a Bíblia, mas também a de entender corretamente sua mensagem apocalíptica e escatológica. Este é um livro bem a tempo".

Wilmore D. Eva, diretor da revista Ministry.

"LaRondelle tira o apocalíptico do reino da fantasia e especulação que caracteriza as apresentações de tantos que nos deslumbram mas que não nos alimentam. O enfoque do LaRondelle leva a uma fé mais amadurecida em Cristo. Isto é erudição cristã, responsável e equilibrada da melhor classe". Charles E. Bradford, presidente aposentado da Divisão Norte-americana da igreja adventista.

Hans K. LaRondelle é professor emérito de Teologia no Seminário Teológico da Universidade Andrews, em Berrien Springs, Michigan, Estados Unidos. Serve nos Países Baixos como pastor evangelista e professor durante 14 anos, e na Universidade Andrews como professor de teologia durante 25 anos. Recebeu seu título doutoral em Teologia Sistemática e Ética do distinto teólogo holandês G. C. Berkouer na Reformed Free University [Universidade Livre Reformada], em Amsterdã, em 1971. É o autor dos livros Perfection and Perfectionism [Perfeição e Perfeccionismo], Christ Our Salvation [Cristo nossa salvação], Deliverance in the Psalms [Libertação nos Salmos], Chariots of Salvation [Carruagens de Salvação], The Israel of God in Prophecy [O Israel de Deus na profecia] e The Good News About Armageddon [Boas Novas Sobre o Armagedom]. Também é co-autor nos livros A Symposium on Biblical Hermeneutics [Um Simpósio Sobre Hermenêutica Bíblica] (editado pelo G. M. Hyde), Symposium on Revelation, Book II [Simpósio Sobre o Apocalipse, Livro II] (editado por F. B. Holbrook) e The Sabbath in Scripture and History [O Sábado na Escritura e na História] (editado por K. A. Strand).

As Profecias do Tempo do Fim

3

CONTEÚDO

Prólogo

7

Introdução geral

9

Chave de abreviaturas

11

Agradecimentos

14

 

PRIMEIRA PARTE: A PROFECIA BÍBLICA

1. A esperança apocalíptica dos judeus do século I

15

2. A distinção entre profecia clássica e profecia apocalíptica…

21

Profecia clássica

21

Profecia apocalíptica

25

Resumo

28

3. A aplicação que Cristo fez da Bíblia Hebraica

30

Jesus e a Palavra de Deus

30

A

nova revelação de Jesus o Messias

33

Cristo, o representante do novo Israel

34

4. Como Cristo empregou os símbolos apocalípticos

38

5. A interpretação que os apóstolos fizeram do

 

cumprimento da profecia

45

A

unidade orgânica dos cumprimentos cristológicos e eclesiológicos

47

O

princípio de universalização das promessas territoriais feitas a Israel

49

O

inadequado da hermenêutica do literalismo

51

SEGUNDA PARTE: MATEUS E TESSALONICENSES

6. A compreensão de Cristo das profecias do Daniel

54

A estrutura cronológica do discurso profético de Jesus em Marcos 13

59

A aplicação que Cristo fez da tipologia

61

Cristo, a chave para entender a profecia

63

O

anticristo abominável

65

O

anticristo pós-apostólico

69

O

estilo apocalíptico de Mateus 24

70

A

ênfase de Lucas sobre o curso da história

71

As Profecias do Tempo do Fim

4

 

A teologia de Cristo sobre os sinais cósmicos

74

A universalização que Cristo fez das profecias do tempo do fim

78

 

Resumo

79

 

FONTES BIBLIOGRÁFICAS DO CAPÍTULO 6

82

7.

A compreensão de Paulo das profecias de Daniel

85

O

enfoque contínuo-histórico em Daniel

86

Paralelos entre os esboços apocalípticos de Jesus e Paulo

88

A

ênfase de Paulo sobre a apostasia religiosa

90

Como Paulo emprega a frase "o templo de Deus" Como Paulo emprega os tipos de adoração falsa

92

 

no Antigo Testamento

94

 

A aplicação que Paulo faz do antimessias predito por Daniel

96

O

momento histórico exato do anticristo segundo Paulo

98

O

anticristo de Paulo como uma paródia de Cristo

100

O

mistério da iniqüidade

102

O

ato que coroará o drama do engano

104

 

Resumo

105

 

FONTES BIBLIOGRÁFICAS DO CAPÍTULO 7

107

 

TERCEIRA PARTE: O APOCALIPSE

8.

Introdução ao Apocalipse

109

9.

O propósito do Apocalipse

114

10.

Chaves interpretativas dentro do Apocalipse

120

11.

A composição literária do Apocalipse

129

FONTES BIBLIOGRÁFICAS DO CAPÍTULO 11

140

12.

A visão do trono do Criador: Apoc. 4

141

13.

A entronização do Cordeiro de Deus: Apoc. 5

147

FONTES BIBLIOGRÁFICAS PARA APOCALIPSE 4 E 5

153

14.

Compreendendo os sete selos: Apoc. 6

153

FONTES BIBLIOGRÁFICAS PARA APOCALIPSE 6

182

15.

Segurança de libertação no tempo do fim: Apoc. 7

184

FONTES BIBLIOGRÁFICAS PARA APOCALIPSE 7

202

16.

Compreendendo as trombetas em seus contextos:

Apoc. 8 e 9

204

17.

Uma aplicação histórica das trombetas

225

FONTES BIBLIOGRÁFICAS PARA ENTENDER AS TROMBETAS EM SEUS CONTEXTOS

245

18.

O refletor profético sobre o povo de Deus do tempo do fim: Apoc. 10

247

As Profecias do Tempo do Fim

5

19. A missão profética das testemunhas de Deus:

Apoc. 11

266

FONTES BIBLIOGRÁFICAS PARA APOCALIPSE 11

296

20. Compreendendo os "1.260 dias" em Apocalipse 11-13

299

FONTES BIBLIOGRÁFICAS PARA ENTENDER OS "1.260 DIAS"

326

21. A mensagem do tempo do fim na perspectiva histórica:

Apoc. 12-14

331

22. O conflito final de lealdade do tempo do fim: Apoc. 13

366

23. Identificando o anticristo

393

24. Os últimos companheiros do Cordeiro: Apoc. 14:1-5

403

25. A mensagem do primeiro anjo: Apoc. 14:6, 7

412

26. A mensagem do segundo anjo: Apoc. 14:8

429

27. A mensagem do terceiro anjo: Apoc. 14:9-12

437

28. A dupla ceifa da terra: Apoc. 14:14-20

450

FONTES BIBLIOGRÁFICAS PARA APOCALIPSE 12-14

458

29. O significado das sete últimas pragas: Apoc. 15 e 16

467

FONTES BIBLIOGRÁFICAS PARA APOCALIPSE 15 E 16

489

30. A sétima praga: A retribuição de Babilônia: Apoc. 17

492

31. O significado do veredicto de Deus sobre Babilônia:

Apoc. 18

520

FONTES BIBLIOGRÁFICAS PARA APOCALIPSE 17 E 18

540

32. Compreendendo o milênio: Apoc. 19 e 20

544

FONTES BIBLIOGRÁFICAS PARA ENTENDER O MILÊNIO

576

33. O significado da Nova Jerusalém: Apoc. 21 e 22

581

FONTES BIBLIOGRÁFICAS PARA APOCALIPSE 21 E 22

603

Epílogo…………………………………………….…………

….606

APÊNDICES

A. Relação do dom de profecia do tempo do fim com a Bíblia

609

B. Alguns textos problemáticos com respeito à Nova Terra

618

As Profecias do Tempo do Fim

6

PRÓLOGO

O propósito deste estudo da profecia bíblica é singelo: É meu testemunho como

professor de Teologia, alguém que ensinou Escatologia Bíblica e Interpretação Apocalíptica por mais de 25 anos no Seminário Teológico da Universidade Andrews (em Berrien Springs, Michigan, Estados Unidos) e em seminários de extensão ao redor do mundo. Este livro é o resultado de meus contínuos esforços por aprender com o passar do tempo. O presente estudo não é um tratamento exaustivo de cada profecia de longo alcance da Sagrada Escritura. Os capítulos problemáticos do Daniel 8-12 constituem

uma estudo à parte, e estão além do alcance deste livro. Os eruditos bíblicos

adventistas estudaram recentemente estes capítulos apocalípticos no livro do Daniel. Os resultados de seus estudos podem encontrar-se nos livros The Sanctuary and the Atonement, Biblical Historical, and Theological Studies [O Santuário e a Expiação:

Estudos Bíblicos, Teológicos e Históricos] (A. V. Wallenkampf e W. R. Lesher, eds., Biblical Research Committee [Comissão de Investigação Bíblica]; Washington DC:

Review and Herald, 1981), Symposium on Daniel [Simpósio Sobre Daniel] (Frank B. Holbrook, ed., Biblical Research Institute [Instituto de Investigação Bíblica]; Hagerstown, Maryland: Review and Herald, 1986), e no número de "Daniel" da Journal of the Adventist Theological Society [Revista da Sociedade Teológica Adventista] (T. 7, N.° 1, 1996).

O tema central da presente obra é o discurso profético de Jesus em Mateus 24 (e

seus capítulos paralelos no Marcos e Lucas), o esboço apocalíptico de Paulo em 2 Tessalonicenses 2, e Apocalipse de João. Estou convencido de que a interpretação contínuo-histórica das grandes séries apocalípticas proporciona o método mais adequado para a desafiante tarefa de compreender a perspectiva bíblica do tempo do fim. Isto requer uma comprovação cuidadosa das tradicionais aplicações historicistas à história da igreja, de modo que possamos aprender dos enganos do passado. Nosso enfoque é primariamente a exegese contextual-bíblica de cada passagem apocalíptica antes que se possa extrair qualquer aplicação histórica. Por um lado, a redação deste livro reflete o estilo de minhas classes com os estudantes de Teologia, como também com o dos encontros com pastores e leigos nos seminários bíblicos. E, por outro lado, tem a intenção de beneficiar a todos os estudantes sinceros da Bíblia que desejam investigar esta parte importante e desafiante das Escrituras,

As Profecias do Tempo do Fim

7

INTRODUÇÃO GERAL

O propósito deste livro é ajudar ao leitor a compreender melhor o plano de Deus

para a redenção do planeta Terra. A Sagrada Escritura dá a conhecer o significado do plano de Deus até que alcance sua revelação total e completa no último livro da Bíblia, o Apocalipse, que é "a revelação do Jesus Cristo" (Apoc. 1:1). O Apocalipse é reconhecido como o mais destacado e um resumo de todas as profecias anteriores; isto sugere sua profunda unidade espiritual com os outros livros da Bíblia. Portanto, requer-se um conhecimento básico de toda a Escritura antes de poder obter uma revelação mais profunda do Apocalipse.

O Apocalipse adota seus símbolos, imagens e termos principalmente do Antigo

Testamento, por isso estes não podem ser compreendidos se forem isolados de suas raízes hebraicas. Posto assim, para ler o Apocalipse dentro de seu amplo contexto bíblico se requer que nos familiarizemos com as Escrituras Hebraicas, com sua forma de falar e com sua linguagem profética. Além disso, também é de proveito a interpretação que fazem da profecia os rabinos do judaísmo posterior. Este antecedente revela a surpreendente novidade da mensagem evangélica, tal como a apresentaram Jesus e os escritores do Novo Testamento. Nosso exemplo autoritativo para a aplicação cristã das profecias do tempo do fim será a maneira como Cristo e o apóstolo Paulo usaram os símbolos apocalípticos do livro do Daniel. O sermão profético do Jesus em Mateus 24 (e paralelos) e o esboço profético de Paulo em 2 Tessalonicenses 2 constituem os dois elos indispensáveis entre os livros do Daniel e Apocalipse. Tanto Jesus como Paulo aplicam as profecias

do Daniel 7-12 do ponto de vista de sua própria época. Assim sendo, como crentes

cristãos devemos derivar nossos princípios de interpretação profética de suas aplicações históricas de Daniel. Estes princípios hermenêuticos, ou de interpretação, são de uma importância decisiva para nossa compreensão das profecias bíblicas do tempo do fim.

A primeira parte de nossa investigação se concentra em Mateus 24 e em 2

Tessalonicenses 2. Em Apocalipse, o enfoque estará sobre a da prova final de fé no grande conflito dos séculos. A profecia bíblica nunca foi dada para satisfazer nossa curiosidade sobre o futuro. Mais bem, sua finalidade divina é animar o povo de Deus para que persevere na sagrada fé e revitalize sua bem-aventurada esperança na breve volta de Cristo como o Rei-Salvador. Quando o Apocalipse, a revelação de Jesus Cristo, fizer pleno impacto em nossas mentes e corações, experimentaremos suas descrições poéticas e dramáticas como a mensagem mais sublime da misericórdia e justiça divinas para a humanidade. A culminação da profecia é a segurança celestial de que o Criador se importa conosco e com nosso mundo, e de que Sua justiça prevalecerá durante toda a eternidade sobre a terra assim como prevalece no céu. No final da maioria dos capítulos se sugere material bibliográfico como uma guia para um estudo exaustivo. A menos que se indique outra coisa, usa-se a versão Almeida Atualizada, revisão de 1997 (toda ênfase na transcrição do texto dos versículos, em negrito ou em itálico, é do autor).

As Profecias do Tempo do Fim

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CHAVE DE ABREVIATURAS

Bíblias (versões)

BC

Bover-Cantera

BJ

Bíblia de Jerusalém

CI

Cantera-Iglesias

BLH

Bíblia na Linguagem de Hoje

JS

Juan Straubinger

LXX

Septuaginta, ou Versão dos Setenta

NASB

New American Standard Bible

NBE

Nova Bíblia espanhola

NC

Nácar-Colunga

NEB

New English Bible [Nova Bíblia inglesa]

NVI

Nova Versão Internacional

NKJV

New King James Version

RA

Revista e Atualizada

TA

Torres-Amat

Espírito de Profecia

AA

Atos dos apóstolos

CE

Colportor evangelista, O

DTN

Desejado de Todas as Nações, O

Ed

Educação

Ev

Evangelismo

FE

Fundamentos da Educação Cristã

GC

Grande Conflito, O

MS

Mensagens Escolhidas

PE

Primeiros Escritos

PP

Patriarcas e Profetas

PR

Profetas e Reis

TS

Testemunhos Seletos, vol. 1, 2, 3

Revistas teológicas

AUSS Andrews University Seminary Studies [Estudos do Seminário da

Universidade Andrews] CBQ Catholic Biblical Quarterly [Revista Trimestral Bíblica Católica]

JATS Journal of the Adventist Theological Society [Revista da Sociedade Teológica Adventista]

JBL Journal of Biblical Literature [Revista de Literatura Bíblica]

JETS Journal of the Evangelical Theological Society [Revista da Sociedade

Teológica Evangélica]

As Profecias do Tempo do Fim

9

JSNT

Journal for the Study of The New Testament [Revista para o estudo do

NTS

Novo Testamento] New Testament Studies [Estudos do Novo Testamento]

SBTh

Studia Bíblica et Theologica [Estudos Bíblicos e Teológicos]

SJT

Scottish Journal of Theology [Revista Escocesa de Teologia]

Miscelânea

a.C.

antes de Cristo

ANF

The Ante-Nicene Fathers [Os Pais antenicenos]

cap.

Capítulo

caps.

Capítulos

CBA

Comentário bíblico adventista (espanhol)

cf.

Compare-se com

d.C.

depois de Cristo

ed.

Editor / editado por / edição de

eds.

Editores

gr.

grego

lit.

Literalmente

p.

Página

pp.

Páginas

p.ex.

Por exemplo

QM

Regra de guerra (Qumrán)

trad.

Tradutor/ Traduzido por

vol.

Volume

v.

Versículo

vs.

Versículos

As Profecias do Tempo do Fim

10

AGRADECIMENTOS

O material bibliográfico que se encontra no final da maioria dos capítulos mostra

a enorme dívida que tenho com os eruditos bíblicos que procuraram descobrir o

significado do Apocalipse, a revelação de Jesus Cristo. Estou agradecido especialmente a meus colegas no campo da teologia, e aos estudantes, que leram o manuscrito e estimularam a um estudo renovado de certas passagens das Escrituras. De maneira especial desejo mencionar ao Dr. Peter M. van Bemmelen, professor de Teologia Sistemática no Seminário Teológico da Universidade Andrews, Berrien Springs, Michigan, Estados Unidos; ao Dr. Ángel M. Rodríguez, do Instituto de Investigação Bíblica da Associação Geral da Igreja Adventista, Silver Spring, Maryland; ao Dr. Norman R. Gulley, professor de Teologia Sistemática no Southern College, Collegedale, Tennessee; ao Dr. Roy C. Nadem, professor aposentado de Educação Religiosa na Universidade Andrews; ao Dr. George R. Knight, professor de História da Igreja no Seminário Teológico da Universidade Andrews; ao Pr. Graeme S. Bradford, secretário ministerial da União Trans-Tasmânia, Austrália; ao Pr. Jac Colombo, secretário de campo da Associação de Washington, Bothell, Washington; a todos eles por seu interesse especial no livro, por suas conversações estimulantes, e por suas úteis sugestões para esclarecê-lo e melhorá-lo. Estou agradecido à minha esposa Bárbara pela correção final das provas, quem também me indicou a necessidade de simplificar porções complicadas. A todos meus colegas, professores e estudantes da profecia bíblica lhes expresso minha profunda gratidão. É obvio, sou o único responsável pelas deficiências e enganos que possam

encontrar-se. O livro tão-só reflete minha percepção presente como teólogo experiente na profética Palavra de Deus, mas em caminho para uma compreensão mais completa da mensagem divina.

A ESPERANÇA APOCALÍPTICA DOS JUDEUS DO SÉCULO I

O Apocalipse de João está em marcado contraste com os vários escritos

apocalípticos judeus que estiveram em atualidade no primeiro século de nossa era. Desde que o general romano Pompeu invadiu a Palestina em 63 a.C. e sujeitou à nação judia ao governo romano, intensificou-se a esperança judia em um Messias prometido.

A maioria dos judeus esperava a vinda de um Rei-Messias poderoso, da casa de Davi,

quem mataria ao dragão romano com seu poder militar ajudado pelo poder divino. Então o Messias restauraria a nação do Israel à suprema grandeza política como o reino messiânico sobre a terra.

Esta esperança apocalíptica era vibrante entre os fariseus. Pode demonstrar-se pelos denominados Salmos de Salomão, um documento farisaico escrito pouco depois da morte do general Pompeu no 48 a.C.

"Olha-o Senhor, e lhes suscite um rei

As Profecias do Tempo do Fim

11

o filho de Davi, no momento que tu escolhas, oh Deus,

para que reine em Israel teu servo. Rodeia-o de força para quebrantar aos príncipes injustos, para purificar a Jerusalém dos gentios que a pisoteiam destruindo-a; expulsa em sabedoria e justiça aos pecadores da herança; para despedaçar a arrogância dos pecadores semelhante a um cântaro de oleiro; para quebrantar toda sua solidez com uma vara de ferro;

para destruir as nações ilícitas com a palavra de tua boca;

a sua advertência as nações fugirão de sua presença;

e condenará aos pecadores pelos pensamentos de seus corações". 1

O Testamento do Moisés, um hino escrito pelos essênios ou pelos fariseus antes da queda de Jerusalém no 70 D.C., também expressava o desejo premente do pronto advento do reino de Deus:

"Pois o Altíssimo Deus eterno se elevará sozinho, aparecerá para tomar vingança das nações e destruirá todos os seus ídolos. Então, tu, Israel, serás feliz. Montarás sobre pescoço e asas de águia. Sim, todas as coisas se cumprirão". 2

No Quarto livro do Esdras, conhecido também como o Apocalipse de Esdras, um documento escrito depois da queda de Jerusalém no 70 D.C., lemos que o Messias viria para liberar à remanescente do Israel da tirania de Roma e para estabelecer o reino messiânico por 400 anos (cap. 12). 3 A esperança dominante no Israel era a da libertação política, similar à forma como Deus os tinha libertado do Egito. Só que esta vez a expectativa era por uma redenção permanente dos males da história. A partida dos zelotes [fanáticos] tinha uma febre apocalíptica tal, que apoiou uma guerra de guerrilhas contra Roma na segurança de que Deus destruiria os opressores do Israel e criaria um mundo no qual Satanás e a dor não existiriam mais. Josefo, o historiador judeu do primeiro século, ordem que um certo Judas, galileo, originou um levantamento a princípios do século I. Sua filosofia era que o povo de Deus devia reconhecer só a Deus como seu soberano e Senhor, e recusar-se a pagar impostos a um amo pagão. 4 O Novo Testamento registra que essa rebelião chegou a um fim desventurado (At. 5:37). Entre os rolos do Mar Morto, descobertos nas cavernas de Qumran, encontrou-se um denominado Regra de guerra (QM), escrito a começos da era cristã. Descreve um plano de batalha para que os pactuantes de Qumran travem a última guerra santa contra Roma (Quitim) e Belial. A esperança era de novo que Deus interviria com seu santos anjos e daria ao fiel remanescente de Israel uma vitória eterna por meio de um desdobramento do poder do Miguel como o guerreiro divino. 5

As Profecias do Tempo do Fim

12

Esta esperança política de um futuro mais brilhante alcançou um tom tão febril no século I, que conduziu ao levantamento judeu contra Roma nos anos 66-72 e no 132. Em ambas as ocasiões os judeus começaram uma guerra militar contra o Império Romano confiando em que Deus os vindicaria com uma vitória sobrenatural. Salomão Schechter resume com quatro características os elementos essenciais da esperança apocalíptica no primeiro século: (1) o Messias, da casa de Davi, restaurará o reino do Israel e estenderá seu governo sobre toda a terra; (2) os inimigos de Deus lançarão um ataque maciço contra Israel, no qual o Messias destruirá a todos seus oponentes pagãos; (3) todas as nações sobreviventes aceitarão o Deus de Israel, reconhecerão seu reino e procurarão a instrução de seu Torah (lei); e (4) a era do reinado messiânico será uma era de prosperidade material e sorte espiritual; até a morte seria abolida por meio da ressurreição dos justos mortos. Este reino do Messias era, de acordo com algumas fontes, uma preparação para o tempo quando Deus mesmo reinaria. 6 Infelizmente, os judeus estavam tão dominados por seu ódio para Roma que enfatizaram unilateralmente a missão da vinda do Messias como o libertador do jugo romano e o restaurador do reino nacional a Israel. Por esta razão, os rabinos estudaram as profecias messiânicas das Escrituras Hebraicas com uma mente preconcebidas que lhes impediu de ver a revelação da plenitude da missão do Messias para salvar do pecado a todos os homens. Esperando um Messias político só para sua própria nação, passaram por cima das profecias e dos tipos que prediziam a morte expiatória do Messias em sua primeira vinda. Interpretando a profecia para encontrar evidências com o fim de sustentar sua ambição nacional, os judeus se prepararam para rechaçar o Salvador do mundo. Quando Cristo veio em uma maneira contrária a suas expectativas, ficaram completamente desapontados e não o receberam. Cristo tratou de lhes mostrar que tinham interpretado mal a promessa de Deus de conceder favor eterno a Israel. Tinham chegado a considerar sua descendência natural de Abraão como uma pretensão para essa promessa (João 8:33-40). Na verdade, em seu orgulho racial, os dirigentes judeus passaram por cima das condições prévias que Deus tinha especificado. O favor de Deus estava assegurado só a um Israel espiritual e em cujos corações ele tinha escrito sua lei: "Darei minha lei em sua mente, e a escreverei em seu coração; e eu serei a eles por Deus, e eles me serão por povo Porque todos me conhecerão, do mais pequeno deles até o maior, diz o Senhor" (Jer.

31:31-34).

As promessas divinas de salvação e bênção para o mundo estavam asseguradas a um Israel regenerado como o verdadeiro povo do pacto. O povo espiritual de Deus são constituídos pelos que estão "circuncidados" em seus corações (ver Deut. 10:16; 30:6; Jer. 4:4). Um povo assim não reclamará as promessas de Deus e renderá um serviço exterior a Deus meramente pelo puro prazer de alcançar grandeza nacional. O essencial da Bíblia Hebraica não é o Israel, e sim o Messias de Israel! As profecias messiânicas constituem o coração tanto da Escritura como dos sagrados serviços do santuário no Israel. Muitos rabinos e fariseus chegaram a acreditar que por meio de um conhecimento da Escritura e uma conformidade exterior a ela, possuíam vida eterna. A

As Profecias do Tempo do Fim

13

Mishná ensina: "Grande é a lei, porque lhe dá vida aos que a praticam tanto neste

mundo como no vindouro". 7 Mas Jesus assinalou uma falta fundamental de visão:

"Vós perscrutais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna; ora, são elas que dão testemunho de mim; vós, porém, não quereis vir a mim para terdes a vida" (João 5:39, 40, BJ). A vida está centrada no Messias, o Filho de Deus, e não na Escritura. Jesus afirmou: "As palavras que eu lhes falei são espírito e são vida" (João 6:63). Ao perder de vista a Cristo como o coração vivente das Escrituras, os judeus já não entenderam mais o significado espiritual do serviço ritual em seu templo. Começaram a confiar nos mesmos sacrifícios e cerimônias em vez de contemplá-lo a ele, a quem assinalavam os sacrifícios. De modo que perderam o significado espiritual de sua adoração no templo. Aferrando-se a fórmulas mortas, esses rituais chegaram a ser um mistério inexplicável. Até as restrições rabínicas quanto à observância do sábado revelam que os judeus já não percebiam que no sábado havia uma promessa divina do descanso messiânico. Os dirigentes judeus interpretaram mal o ato do Jesus ao curar milagrosamente a um paralítico no sábado como a evidência de uma atitude contra na sábado (João 5:16-18). Entretanto, o oposto era verdade. Jesus ensinou que as obras de misericórdia não só estavam permitidas, mas também eram obrigatórias no sábado para que as fizesse o Messias, e em perfeita harmonia com a vontade do Pai celestial. "Meu Pai, até o presente, continua trabalhando e eu também trabalho" (João 5:17, NBE). O erudito evangélico Leão Morris o explica desta maneira: "Ele [Jesus] não estava dizendo que

Estava dizendo que seus críticos não entendiam o que

significava na sábado e por que tinha sido instituído". 8 Não surpreende que Jesus censurasse os judeus por sua falta de percepção

espiritual, por não discernir quem era ele, o Enviado ao Israel pelo Pai. E desafiou-os perguntando: "Não vos deu Moisés a lei? Contudo, ninguém dentre vós a observa. Por

não devia guardar-se o sábado

Não julgueis segundo a aparência, e sim pela reta justiça"

(João 7:19, 24). Enquanto desejavam a vinda do Messias, os judeus já não tinham o verdadeiro conceito de sua missão divina como Redentor do pecado e de Satanás.

Se, pois, o

Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres" (João 8:34, 36), mas eles afirmaram que eram livres porque, disseram, "jamais fomos escravos de ninguém" (v. 33). Não compreenderam o significado espiritual do pecado ou o significado da natureza da dignidade real de Cristo. O Messias devia vir como o verdadeiro intérprete dos profetas de Israel. Devia definir os princípios do reino e o plano de redenção. Isso foi o que fez Cristo, e seus ensinos estão registrados nos Evangelhos, os quais formam a chave essencial para entender corretamente o Antigo Testamento. Também formam a ponte teológica entre as profecias do Antigo Testamento e o livro do Apocalipse. Portanto, antes de podermos entender corretamente o último livro da Bíblia, é indispensável descobrir primeiro como Jesus interpretou a perspectiva profética dos profetas clássicos e o livro do Daniel.

que procurais matar-me?

Cristo lhes disse: "Todo o que comete pecado é escravo do pecado

As Profecias do Tempo do Fim

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Referências

1. "Salmos de Salomão", 17:21-25, citado em J. H. Charlesworth, The Old Testament Pseudepigrapha, T. 2, p. 667.

2. "Testamento de Moisés", 10:7, 8, chamado em G. Aranda Pérez, F. García Martínez e M. Pérez Fernández, Literatura judía intertestamentaria (Estella, Navarra: Verbo Divino, 1996), p. 301.

3. "O Messias que o Altíssimo reservou para o final dos tempos: Ele surgirá da estirpe de Davi " (Ibid., p. 329).

4. Flavio Josefo, Obras completas de Flavio Josefo: Antigüedades judías

(Buenos Aires: Acervo Cultural, 1961), XVIII, 1, 1-6 (t. 3, pp. 225-228); La guerra de los judíos, 11, 8 (t. 4, pp. 136-142).

5. 1 QM 6; 12-14.

6. Schechter, Salomão, Aspects of Rabbinic Theology (Nova York: Schocken Books, 1961), p. 102.

7. Abot [Pais] 6: 7. 8 Leão Morris, Reflections on the Gospel of John (Grand Rapids, Michigan:

Baker Book House, 1987), T. 2, pp. 265, 266.

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A DISTINÇÃO ENTRE PROFECIA CLÁSSICA E PROFECIA APOCALÍPTICA

Os profetas do Antigo Testamento tais como Amós, Isaías, Sofonías, Ezequiel e Jeremias são chamados profetas clássicos. Suas mensagens foram em primeiro lugar pronunciados em voz alta, seja ao reino rebelde do Israel no norte (as 10 tribos) ou à apóstata Jerusalém e Judá (as 2 tribos). Com freqüência suas mensagens foram um clamor em favor da justiça social, econômica e política para as classes oprimidas. Os profetas convocaram Israel e Judá para que voltassem para a torah ou lei do pacto do Moisés, e para que servissem a Deus com arrependimento verdadeiro. Se os líderes políticos e religiosos do povo eleito originavam justiça social e uma renovação da adoração, o reino de Deus viria sobre a terra em sua história futura. Em realidade, o "dia do Senhor", ou o "dia do Jeová", não viria como Israel o tinha antecipado popularmente.

Profecia Clássica

Amós: Este profeta, como porta-voz de Deus, pronunciou em forma fulminante estas horríveis palavras às 10 tribos:

"Ai de vós que desejais o Dia do Senhor! Para que desejais vós o Dia do Senhor? É

será, pois, o Dia do Senhor trevas e não luz? Não será

completa escuridão, sem nenhuma claridade? "Por isso, vos desterrarei para além de Damasco, diz o Senhor, cujo nome é Deus dos Exércitos" (Amós 5:18, 20, 27).

Amós deu a conhecer dois castigos sobre Israel: Em primeiro lugar, a nação infiel seria levada cativa ao exílio em Assíria ("além de Damasco") como resultado da maldição do pacto do Deus do Israel, em harmonia com suas ameaças do pacto pronunciadas mediante Moisés (Deut. 28; Lev. 26). Esta sentença teve lugar no ano 722 a.C., e se conhece como o desterro assírio das dez tribos. Em segundo lugar, o significado pleno deste juízo nacional chega a compreender-se só quando se vê este acontecimento como um tipo ou prefiguração do juízo cósmico de Deus ao fim da história sobre todas as nações que se rebelem contra Deus. Amós apontou ao juízo final de Deus quando se referiu aos sinais cósmicos:

"Farei que fique o sol ao meio dia, e cobrirei de trevas a terra no dia claro" (Amós 8:9), e: "Não se estremecerá por isso a terra, e fará luto tudo o que nela habita? (v. 8, BJ). Escuridão repentina ao meio-dia ou um terremoto catastrófico podem ser mais que um desastre natural. O fogo apocalíptico consumirá a terra e o mar (7:4) e levará a seu fim a história de Israel! Na escatologia (a ordem dos acontecimentos finais) que apresenta Amós, o dia do Senhor seria um juízo iminente sobre Israel a mãos de seu inimigo nacional: Assíria (no 722 a.C.). Mas Amós anunciou uma catástrofe ulterior, na qual Deus julgará a uma sociedade mundial apóstata e libertará a seus fiéis em todas as nações. A esta relação do juízo local iminente e do juízo mundial do tempo do fim chamamos "conexão

dia de trevas e não de luz

Não

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tipológica". Ambos os juízos procedem do mesmo Deus, mas o juízo sobre a nação é um tipo ou modelo profético que garante que Deus julgará finalmente a todo mundo pelos mesmos princípios morais. Só mediante sua retribuição final se cumprirá completamente o propósito redentor de Deus para esta terra. O tipo histórico pode ser local e incompleto, mas o antitipo escatológico será universal e completo em seus resultados.

Sofonías: O duplo foco do juízo de Deus em Amós também o descrevem graficamente os outros profetas. Em geral se considera que Sofonías é o profeta mais grandioso que fala do juízo de Deus. Inclusive começa seu pequeno livro com uma admoestação da destruição universal vindoura:

"De fato, consumirei todas as coisas sobre a face da terra, diz o Senhor. Consumirei os homens e os animais, consumirei as aves do céu, e os peixes do mar, e as ofensas com os perversos; e exterminarei os homens de sobre a face da terra, diz o Senhor" (Sof. 1:2,

3).

Assim como Amós, Sofonías contempla o futuro histórico imediato contra o fundo do juízo final, porque é o mesmo Deus o que visita Israel e o mundo para juízo e salvação. A mensagem principal é que Deus atua, não a duração do período de tempo entre os juízos.

Joel: O profeta Joel estruturou sua perspectiva profética de forma tal que uma praga histórica de lagostas (1:4-12) serve como um tipo profético do juízo escatológico de todo o mundo, que é seu antitipo (2:10, 11; 3:11-15). A história local e a escatologia do tempo do fim estão tão mescladas entre si que não podem ser completamente separadas na descrição profética. O presente corresponde ao futuro porque é o mesmo Deus quem vem agora e no futuro. Este é a mensagem principal do Antigo Testamento. O propósito moral de cada anúncio de um juízo de Deus é levar a seu povo a caminhar em harmonia com sua vontade redentora no presente. O objetivo final da profecia não é a catástrofe e a destruição, a não ser uma nova criação e a restauração do paraíso perdido na terra.

Isaías: Um exemplo de como o juízo de Deus sobre um arquiinimigo histórico do

Israel e seu juízo final do mundo estão intimamente misturas, como se ambos fossem um só dia do Senhor, encontra-se no Isaías 13. Isaías anuncia a iminente queda do Império Neobabilônico às mãos dos medos: " Uivai, pois está perto o Dia do

Eis que eu despertarei contra eles os medos" (Isa.

13:6, 17). Neste oráculo profético de guerra, Deus atuará logo como o guerreiro divino

para liberar a seu povo oprimido: "O Senhor dos exércitos revista seu exército para o combate" (v. 4, NBE). O resultado será a destruição: "Babilônia, a jóia dos reinos, glória e orgulho dos caldeus, será como Sodoma e Gomorra, quando Deus as transtornou. Nunca jamais será habitada, ninguém morará nela de geração em geração" (vs. 19, 20).

SENHOR; vem do Todo-Poderoso

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Depois, o profeta acrescenta a dimensão cósmica do dia apocalíptico do Senhor:

"As estrelas dos céus e seus luzeiros não darão sua luz; e o sol se obscurecerá ao nascer, e a lua não dará seu resplendor" (V. 10). Deus castigará "ao mundo por sua maldade, e aos ímpios por sua iniqüidade" (V. 11). Deus fará "estremecer os céus, e a

terra se moverá de seu lugar

Esta é uma descrição de um juízo universal. Por isso, a profecia de Isaías de condenação sobre Babilônia contém a estrutura de uma perspectiva tipológica. É claro que o dia apocalíptico do Senhor, com seus sinais cósmicos e seu terremoto universal, não ocorreu durante a queda histórica de Babilônia ante os medo-persas no 539 a.C. Aquele juízo sobre Babilônia serve só como um tipo ou símbolo do juízo final da humanidade; por esta razão se descrevem os dois juízos como se fossem um só dia de retribuição divina. A natureza tipológica da queda de Babilônia da antiguidade não requer que cada rasgo da profecia se cumpra no tipo. Antes, o cumprimento parcial das antigas profecias de condenação e liberação indicam que ainda precisam encontrar sua consumação definitiva. O livro do Apocalipse nos assegura que todas as profecias antigas de condenação e liberação ocorrerão em escala mundial por ocasião da segunda vinda de Cristo. Por definição, o antitipo sempre é maior que o tipo. Por isso encontramos que a característica da profecia clássica é seu duplo foco, sobre o próximo e o longínquo, sem nenhuma diferenciação de tempo. Ensina-nos que o Deus do Israel é o Deus da história. É o rei que vem na história e ao fim da história da humanidade. Sua vinda traz o fim desta era maligna, para restaurar o reino de Deus sobre nosso planeta por meio do Jesus Cristo. Outra característica vital da profecia clássica são suas preocupações éticas, seu chamado ao arrependimento e a uma vida santificada. Os profetas de Israel não fizeram predições incondicionais mas sim desafiaram tanto ao Israel como aos gentios com a vontade imediata de Deus. De fato, as predições divinas satisfazem o propósito mais elevado de chamar o povo ao arrependimento e a obedecer a vontade de Deus e dessa forma, evitar o juízo vindouro. O resultado significativo desta preocupação ética dos profetas do Israel é a segurança de que só um remanescente do Israel, fiel e purificado, entrará no reino escatológico de Deus. Os profetas anunciaram que só um fragmento ou remanescente da nação como um tudo seria salva, assim como o "tronco" que fica de uma árvore (Amós 3:12; 5:14,

15; Ouse. 5:15; 6:1-3; Isa. 4:2-4; 6:13; Jer. 23:3-6). A razão é que só o remanescente

restaurado se voltará para Senhor com arrependimento verdadeiro (Isa. 10:20-23; Zac. 12:10-13); só um Israel espiritual dentro do Israel nacional receberá um coração "circuncidado" (Deut. 10:15, 16; 30:6; Jer. 4:4). A distinção no Antigo Testamento entre um verdadeiro o Israel de Deus dentro da nação do Israel não se apóia na relação de raça ou de sangre com Abraão, e sim na fé e na obediência a Deus. O fator decisivo é possuir a relação espiritual de pacto com Deus. De acordo com esta teologia do remanescente do Antigo Testamento, o apóstolo Paulo chegou a esta conclusão:

"Porque nem todos os que descendem de Israel são israelitas" (Rom. 9:6). Seu ensino apostólico enfatizou que só quando israelitas reconheçam que Jesus é o Messias da profecia, são os portadores de luz das promessas do novo pacto de Deus. E enquanto

no dia do ardor de sua ira" (V. 13).

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que os gentios são chamados para serem os herdeiros das mesmas promessas, Paulo insistiu: "Só o remanescente será salvo" (v. 27).

Profecia Apocalíptica

O livro do Daniel forma uma classe de profecia por si mesmo dentro do Antigo Testamento. Aqui nos encontramos com um fenômeno: Não se prediz um só evento ou juízo, e sim uma seqüência total de acontecimentos que começam nos próprios dias do Daniel e se estendem adiante sem interrupção até o estabelecimento do reino de glória de Deus. Um contínuo histórico ininterrupto em profecia, como apresenta Daniel, não tem precedentes na profecia clássica. Alguns profetas, como Joel e Ezequiel, revelaram o princípio de uma sucessão de dois períodos em seus esboços proféticos (Joel 2:28; Ezeq. 36-39), mas nenhum havia predito uma história contínua religiosa e política do povo do pacto de Deus terminando com o juízo final do dia do Senhor. Um panorama tão amplo da história da salvação adiantado é a característica específica da profecia apocalíptica. Este contínuo apocalíptico na história está em um marcado contraste com a profecia clássica, com seu dobro foco e sua perspectiva tipológica futura. O segundo aspecto único no livro apocalíptico do Daniel é que contém uma quantidade de esboços históricos e cada um culmina no juízo universal do Deus de Israel. Podem distinguir-se 4 séries proféticas principais (Dan. 2; 7; 8; 11). Cada uma reitera a mesma ordem básica de acontecimentos, mas todas acrescentam detalhes com respeito ao conflito do povo do pacto de Deus com as forças que se opõem a Deus. Estas visões paralelas mostram um interesse crescente em enfocar a era do Messias e seu conflito com o antimessias ou o anticristo (especialmente em Dan. 8 e 9). A idéia chave de cada série profética é o triunfo do governo de Deus sobre o mal. Portanto, precisamos compreender que a meta da apocalíptica bíblica não é predizer acontecimentos específicos da história secular do mundo em si. A apocalíptica bíblica não é um exibicionismo da presciência de Deus. Antes, o seu interesse é inspirar esperança entre o oprimido povo de Deus. Anima-os a perseverar até o fim, porque o Deus fiel do pacto estabeleceu ao anticristo limite de tempo e poder. Deus vindicará a seus fiéis na luta entre o bem e o mal. O foco definitivo da apocalíptica bíblica não é o primeiro advento do Messias e sua morte violenta (Dan. 9:26, 27), e sim seu segundo advento quando voltar como o vitorioso Miguel para resgatar o remanescente fiel (Dan. 12:1, 2). O que forma a culminação de toda a profecia apocalíptica do Antigo Testamento é este evento final da história da humanidade. É este "fim" o que está em vista na singular frase do Daniel: "o tempo do fim" (5 vezes em Dan. 8-12). Este foco notável do tempo do fim também é a razão de por que a profecia apocalíptica enfatiza mais o aspecto incondicional do plano determinado de Deus para a redenção da humanidade. Mas este aspecto distintivo de determinismo não deve ver-se como um contraste fundamental com as profecias clássicas do Israel com seu chamado ao arrependimento.

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As profecias apocalípticas de Daniel se centram ao redor da libertação final do fiel remanescente do Israel, o povo espiritual do pacto de Deus, em quem se realizarão finalmente as preocupações éticas de todos os profetas (Dan. 11:32-35; 12:3; Ezeq. 11:17-20; 18:23, 30-32; 33:11; Isa. 26:2, 3). Em Daniel, a preocupação fundamental, tanto dos capítulos históricos (caps. 1-6) como dos proféticos (caps. 7-12), parece ser a vindicação que Deus faz de seu santos acusados falsamente. Esta soberania de Deus como Rei e Juiz está expressa pelo foco centralizado no Messias que se apresenta em muitos capítulos (Dan. 2; 7; 8; 9; 10-12), e em suas divisões predeterminadas de tempo da história da redenção (Dan. 7:25 [3 ½ tempos]; 8:14, 17 [2.300 dias]; 9:24-27 [70 semanas de anos]; 12:4, 7, 11, 12 ["o tempo do fim", 1.290 e 1.335 dias]). Em todos os tempos, Deus proporciona um povo remanescente fiel, coloca os limites sobre a história pecaminosa deste mundo, permite tempos especificamente atribuídos para a apostasia e a perseguição, determina "o tempo do fim", ordena o mundo para a hora de seu juízo final e levará a cabo a libertação dos santos na segunda vinda. Estes característicos únicos pertencem à soberania de Deus e constituem a pedra angular da profecia do Daniel. Pode fazer-se uma observação adicional a respeito da parte histórica do livro de Daniel. Nos capítulos 3 (a liberação do forno de fogo) e 6 (a liberação do fosso dos leões), os relatos da intervenção divina e o resgate sobrenatural têm a finalidade de ser mais que simplesmente um pouco de interesse histórico. O autor do livro chama a atenção a sua inerente perspectiva tipológica, em vista da libertação futura do povo remanescente de Deus ao fim da história da redenção. Isto chega a ser evidente a partir da repetição enfática do verbo chave "libertar" ou "resgatar" que se encontra no Daniel 3:15 e 17 (e 5 vezes no capítulo 6), e que volta a aplicar-se na seção apocalíptica do Daniel 12:1, quando Miguel "libertará" o verdadeiro o Israel de Deus por meio de sua intervenção pessoal. Além desta conexão literária entre a seção histórica e a apocalíptica de Daniel, também existe uma correspondência temática fundamental entre as duas seções do livro. As narrações que Daniel faz da lealdade religiosa à sagrada lei de Deus por uns poucos fiéis, proporciona os tipos ou as prefigurações essenciais da natureza da crise final para o povo de Deus no tempo do fim. Estes acontecimentos históricos no livro de Daniel servem como o pano de fundo para a crise vindoura do tempo do fim e seu resultado providencial, tal como se descreve no livro de Apocalipse (caps. 13 e 14).

Resumo

O livro apocalíptico de Daniel revela ao menos quatro características únicas:

(1) Uma repetição dos esboços apocalípticos que mostram um contínuo da história da redenção. Cada esboço culmina no estabelecimento do reino de glória (Dan. 2:44, 45; 7:27; 8:25; 12:1, 2); (2) O foco centrado no Messias de todos seus esboços (Dan. 2:44; 7:13, 14; 8:11, 25; 9:25-27; 10:5, 6; 12:1);

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(3) As divisões predeterminadas de tempo, que servem como o calendário sagrado da história progressiva da redenção de Deus (Dan. 7-12). Estas profecias de tempo únicas determinam o começo do famoso "tempo do fim", particularmente a terminação do período de tempo profético dos 2.300 "dias" na visão selada de Daniel 8 (vs. 14, 17, 19); (4) O aspecto incondicional da história da redenção, o qual recalca uma sessão predeterminada de juízo no céu e a vindicação dos santos fiéis por um Filho do Homem. Isto também está expresso pela imagem de um guerra santa final e o triunfo do Miguel como o guerreiro divino, e a ressurreição de todos os mortos para receber sua recompensa (Dan. 2:7-12).

Em resumo, o livro apocalíptico de Daniel contém o fundamental da profecia clássica (o duplo foco de uma perspectiva tipológica na seção histórica do livro) e o esboço profético de um contínuo histórico em sua seção apocalíptica. A unidade orgânica da profecia clássica e da apocalíptica pode observar-se na harmoniosa combinação de sua perspectiva do tempo do fim: O juízo universal com a libertação cósmica de um povo remanescente fiel na última guerra entre o bem e o mal, e a restauração do reino de Deus em paz e justiça eternas.

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A APLICAÇÃO QUE CRISTO FEZ DA BÍBLIA HEBRAICA

O propósito deste livro é triplo: (1) Descobrir como entendeu Cristo os livros de

Moisés, os Profetas e os Salmos; (2) formular os princípios hermenêuticos de Cristo para interpretar as profecias da Bíblia; (3) aplicar esses princípios às profecias não cumpridas, especialmente às do Apocalipse. Como cristãos que acreditam na verdade do evangelho, que Jesus é o Messias prometido, precisamos saber como entendeu Cristo os livros de Moisés, os Profetas e os Salmos. Jesus é o verdadeiro intérprete das Santas Escrituras. Sua mensagem é nossa chave para descobrir o significado correto do Antigo Testamento. Se queremos

compreender o Antigo Testamento, devemos compreendê-lo do ponto de vista de

Deus. Portanto, nosso ponto de partida é a forma como Jesus explica o Antigo Testamento. A aplicação que Cristo fez das Escrituras de Israel é nosso modelo de interpretação bíblica. Nosso princípio guiador está apoiado sobre a convicção de que a atividade redentora de Deus na história do Israel alcançou seu cumprimento em Cristo. Portanto, trataremos de interpretar o Antigo Testamento à luz da vida e mensagem de Cristo como a Palavra encarnada de Deus, pois só dele se escreveu o seguinte:

"No princípio era o Verbo, e o Verbo era com Deus, e o Verbo era Deus. Ele

E o Verbo foi feito carne, e habitou entre nós" (João

estava no princípio com Deus 1:1, 2, 14).

Jesus e a Palavra de Deus

Deus enviou ao Jesus para revelar plenamente ao Deus do Israel em sua vida e ensino. Cristo afirmou que foi enviado com uma mensagem de Deus e que suas palavras procediam de Deus mesmo:

"Porque eu não tenho falado por mim mesmo, mas o Pai, que me enviou, esse me tem prescrito o que dizer e o que anunciar. E sei que o seu mandamento é a vida eterna. As coisas, pois, que eu falo, como o Pai mo tem dito, assim falo" (João 12:49, 50). "Nada faço por mim mesmo; mas falo como o Pai me ensinou (João 8:28).

Só Cristo pode revelar o significado e o sentido algumas vezes oculto da Escritura e da história do Israel. Tanto os judeus como os samaritanos esperavam que

viesse o Messias, pois ele "nos explicará isso tudo" (João 4:25, NBE). Sem vacilação, Jesus declarou: "Eu sou, o que fala contigo" (v. 26). "Jesus lhes disse: De certo de certo lhes digo: Antes que Abraão existisse, eu sou" (8:58).

O testemunho da autoridade de Jesus como o Messias se repete várias vezes no

Novo Testamento (ver João 1; Col. 1 e 2; Heb. 1), e é de crucial importância para

compreender as visões simbólicas do Apocalipse de João. No último livro da Bíblia, as imagens e os símbolos hebreus se aplicam consistentemente a Cristo e a sua nova comunidade do pacto como o novo Israel.

É evidente a necessidade que existe de ter um enfoque correto do Apocalipse.

Primeiro devemos conhecer a verdade do evangelho de Cristo como foi ensinada por

Jesus antes que possamos compreender o Apocalipse. Em interpretação profética,

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freqüentemente se descuidou o método adequado. É indispensável reconhecer a natureza progressiva e desdobrada da revelação divina dentro da Bíblia. Deve permitir-se que os livros do Antigo Testamento nos contem sua própria mensagem, mas não como se fossem a última palavra de Deus. As Escrituras Hebraicas não são um cânon fechado da Escritura. Formam um registro incompleto da totalidade da revelação divina. Em sua major parte apresentam as promessas de Deus de um Messias vindouro como o maior dos profetas, o Rei supremo e o único

Supremo Sacerdote. O Antigo Testamento termina com a promessa do Elias vindouro antes do dia de Jeová (Mal. 4:5, 6). Por outro lado, os escritos inspirados do Novo Testamento registram o começo dos cumprimentos das promessas messiânicas na vinda de Cristo (o Messias) Jesus, e em sua criação de uma nova comunidade messiânica: os cristãos (um nome que significa "povo do Messias").

O Apocalipse de João se concentra especialmente na gloriosa consumação de

todas as realizações. Para receber uma compreensão mais profunda de Moisés, os Profetas e os Salmos, devemos aceitar o ensino de Cristo e seus apóstolos como a verdadeira interpretação das profecias e dos tipos hebraicos. O Novo Testamento funciona como a revelação final da verdade de Deus tal como se ensina nestas palavras apostólicas:

"Deus, tendo falado muitas vezes e de muitas maneiras em outro tempo aos pais pelos profetas, nestes últimos dias nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de

tudo, e por quem deste modo fez o universo" (Heb. 1:1, 2). Assim como o Filho de Deus é imensamente maior que qualquer profeta de Israel, assim a palavra de Cristo é a norma para interpretar os escritos do Antigo Testamento. Jesus ensinou que as Escrituras Hebraicas estavam centradas na promessa messiânica. Sua especial preocupação foi ensinar aos judeus que a Escritura não é um fim em si mesma, que memorizar as palavras da Sagrada Escritura não produz méritos. O propósito da Escritura é levar a Cristo! "Vós perscrutais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna; ora, são elas que dão testemunho de mim; vós, porém, não quereis vir a mim para terdes a vida" (João 5:39, 40, BJ). Segundo Jesus, a Bíblia Hebraica está centrada em Cristo. Portanto, é essencial para um cristão descobrir o novo método com o qual Cristo explicou o Antigo Testamento. Dois dos discípulos de Jesus foram privilegiados para ouvir o Cristo ressuscitado explicar-lhes todas as Escrituras que se referiam a ele (Luc. 24:25-27). Como resultado, seus corações começaram a arder com um novo entusiasmo. Cristo "abriu-lhes o entendimento para que compreendessem as Escrituras". Mostrou-lhes como "era necessário que se cumprisse tudo o que está escrito de mim, na lei de Moisés, nos profetas e nos salmos" (Luc. 24:44, 45).

A pergunta provocadora para nós é: Podemos chegar a saber como interpretou

Jesus o Antigo Testamento numa forma centrada em Cristo? Podemos descobrir a hermenêutica de seu enfoque cristocêntrico? Se podemos estabelecer os princípios hermenêuticos de Jesus para a profecia cumprida, saberemos como entender a profecia não cumprida, especificamente as profecias apocalípticas de Daniel e Apocalipse.

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A Nova Revelação de Jesus o Messias

Para Jesus, as profecias messiânicas não eram predições isoladas, senão uma parte do extenso plano de Deus para a redenção do homem. Inclusive viu a história de Israel como uma série de eventos redentores que prefiguravam a grande salvação operada pelo Messias. Portanto, Cristo reconheceu que as promessas de Deus lhe foram dadas em dois níveis a Israel: tanto mediante predições verbais como mediante tipos históricos de libertação e juízo. Na Bíblia, um "tipo" é um acontecimento histórico, ou uma pessoa ou uma instituição, ordenado por Deus para prefigurar uma verdade redentora de Cristo. Jesus aplicou publicamente à sua pessoa a missão de Isaías de pregar as boas novas de Deus, de sarar as feridas de Israel e de pôr em liberdade aos oprimidos (Luc. 4:17-21 e Isa. 61:1, 2). Entretanto, o que pôde ter deixado ainda mais pasmados os judeus foi a surpreendente declaração de Jesus de que ele era o Antítipo prometido ou a consumação de todos os profetas, dos reis e da mediação sacerdotal de Israel:

"E eis aqui está quem é maior do que Jonas" (Mat. 12:41). "E eis aqui está quem é maior do que Salomão" (Mat. 12:42). "Aqui está quem é maior que o templo" (Mat. 12:6). Jesus incluso declarou que sua morte abnegada proveria o "sangue do novo pacto, que por muitos é derramado" (Mar. 14:24). Por todas estas afirmações, Jesus introduziu no judaísmo a assombrosa idéia de que tinha chegado o tempo dos antítipos. Apresentou-se a si mesmo como a realidade à qual apontavam todos os símbolos das instituições redentoras do Israel. Por conseguinte, anunciou solenemente na sinagoga que nele tinha começado a idade messiânica ou o ano do jubileu (libertação). Tendo citado a promessa messiânica do Isaías 61:1, disse: "Hoje se cumpriu esta Escritura diante de vós" (Luc. 4:21). Apontou seu triunfo sobre os demônios como uma prova de que o governo de Deus agora estava presente em Israel:

"Mas se eu pelo Espírito de Deus expulso os demônios, certamente chegou o reino de Deus" (Mat. 12:28). Onde se rechaça a Satanás, o reino de Deus se faz manifesto. Com Jesus entrou em operação o princípio salvífico soberano de Deus. Em outras palavras, com a primeira vinda de Cristo se inaugurou o tempo escatológico. "O tempo está cumprido", disse Jesus, "e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho" (Mar. 1:15). Tinha terminado o tempo de espera para o reino de Deus, e tinha começado o tempo do reinado de Deus no ministério de Cristo. Jesus é o iniciador do reino da graça de Deus. Como o Rei-Messias, representa o reino de Deus; como o doador da misericórdia divina, é o Mediador sacerdotal do reino de Deus. Em qualquer lugar que Cristo está presente, o reino de Deus irradia seu poder. Jesus assegurou: "Eis que o reino de Deus está entre vós" (Luc. 17:21). A graça de Deus está dentro do alcance do homem onde quer que Jesus é proclamado como o Messias. Esta é a essência do evangelho. A verdade de que o Cristo ressuscitado é Senhor e está sentado à mão direita do trono de Deus, foi respaldado no dia de Pentecostes pelo derramamento do Espírito. O apóstolo Pedro anunciou então que os

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"últimos dias" tinham chegado, que tinham começado os dias do reinado espiritual de Cristo (At. 2:17; cf. Heb. 1:2).

Cristo, o Representante do Novo Israel

Que Jesus afirmasse ser o Messias da profecia não deve obscurecer o fato de que o Messias também foi designado para ser o perfeito representante de Israel. O pacto de Deus com Israel tem que realizar-se em obediência perfeita ao Messias. Como a personificação de Israel, o profeta descreve a Cristo como "o servo do Senhor" assim como Israel tinha sido designado o servo do Senhor (Isa. 42-53). Assim como Israel, Cristo também foi chamado "Filho" de Deus (Êxo. 4:22; Isa. 42:1; Mat. 3:17). Jesus foi enviado para suportar a mesma enxurrada de provas que teve Israel, para vencer onde Israel tinha fracassado. Depois de seu batismo, esteve durante 40 dias no deserto para ser tentado pelo diabo e assim igualar simbolicamente os 40 anos que Deus provou os israelitas no deserto (Deut. 8:2; Mat. 4:1).

A maioria dos eruditos do Novo Testamento reconhecem que Jesus se viu a si

mesmo, em um sentido tipológico, como o novo Israel. Este tinha falhado, mas Jesus cumpriu o pacto de Deus em favor de Israel e da humanidade. Desta forma, a história

de Israel alcança um cumprimento feliz em Cristo. Portanto, de decisiva importância para o correto entendimento da profecia de Israel e do livro do Apocalipse é a verdade do Novo Testamento de que Jesus Cristo incorpora Israel e dessa maneira leva a missão de Israel a um fim em sua própria vida.

O rechaço pela nação judaica dos sofrimentos, morte e ressurreição de Cristo não

foram tragédias inesperadas que frustrassem o plano de salvação de Deus para a humanidade. Deus não depende dos judeus para o cumprimento de suas promessas. Depende do Messias. O profeta tinha assegurado: "A vontade do Senhor será em sua mão prosperada" (Isa. 53:10). Pedro disse que o que aconteceu com Jesus na cruz e em sua ressurreição, ocorreu "por conselho e antecipado conhecimento de Deus" (At. 2:23). Dois exemplos do livro de Salmos ilustram como Jesus soube o que tinha que esperar na providência de Deus. Cristo percebeu nas experiências do rei Davi uma prefiguração de suas próprias provas e rechaço por parte de Israel. Jesus recorreu especificamente a Salmos 41:9 para revelar sua intuição de que a traição de Davi por seu amigo em quem confiava era um tipo dos sofrimentos do Messias, que era maior que Davi (ver João 13:18-27). No momento de sua agonia mais profunda na cruz, Cristo clamou a grande voz: "Meu Deus, Meu deus, por que me desamparaste?" (Mat. 27:46; Mar. 15:34). Estava citando Salmos 22:1, que Davi tinha clamado em seu próprio desespero enquanto estava rodeado por seus inimigos sedentos de sangue. Como o salmo é uma unidade que consiste de uma lamentação prolongada sobre o sofrimento intenso (vs. 1-21), Cristo viu na experiência do Davi um tipo de sua própria agonia. Muitos comentadores não consideram a lamentação histórica de Davi no Salmo 22 como uma profecia diretamente messiânica, não obstante, Cristo e os escritores do Novo Testamento aplicam muitos aspectos do Salmo 22 à cruz e à glória que seguiu.

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Este modelo surpreendente de tipologia no livro de Salmos, que foi trazido à luz por Jesus Cristo, justifica que salmos como este se classifiquem como profecias messiânicas. O propósito de tais entrevistas do Novo Testamento não é simplesmente para mostrar de que maneira se cumpriram com toda exatidão na vida de Jesus as predições messiânicas ocultas, mas sim para proclamar a Jesus como a meta da história de Israel e como a realização do pacto que Deus tinha feito com eles. Os escritores dos Evangelhos declaram com freqüência que os eventos do passado de Israel se "cumpriram" na vida de Cristo. Mateus cita o profeta Oséias, "do Egito chamei a meu filho" (Ouse. 11:1), o que recordava a Israel seu êxodo histórico do Egito. Mateus aplica estas palavras à fuga do José e Maria para o Egito até a morte de Herodes: "Para que se cumprisse o que disse o Senhor por meio do profeta, quando disse: Do Egito chamei o meu Filho" (Mat. 2:15). O aspecto da entrevista de Mateus é que a Escritura de Oséias se "cumpriu" no menino Jesus. Entretanto, as palavras de Oséias não foram uma profecia, a não ser um recordativo significativo da experiência histórica de Israel como "filho" de Deus (cf. Êxo. 4:22). Então, como pôde declarar Mateus que Oséias 11:1 se "cumpriu" em Jesus? Pela mesma razão fundamental com que justificou a interpretação messiânica das experiências do Davi (ver Sal. 41:9 e

22:1).

Como o Filho de Deus, Cristo não só representa o Israel ante Deus, mas também representa o destino de Israel em sua própria vida. Mateus ensina que o significado da história de Israel se revela completamente na vida de Jesus Cristo. Desta maneira, o Novo Testamento insinua com força que os acontecimentos na vida de Jesus – como seu nascimento em Belém, sua morte humilhante, sua ressurreição e exaltação à direita de Deus – não foram eventos imprevistos ou acidentais. Todos formaram parte do determinado conselho de Deus (ver At. 2:23; 4:28).

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COMO CRISTO EMPREGOU OS SÍMBOLOS APOCALÍPTICOS

Como observamos no primeiro capítulo, Jesus viveu em um tempo quando a esperança judia de uma pronta vinda de um Messias político se intensificou grandemente. Uma quantidade de escritos apocalípticos, sob nomes falsos ou pseudônimos, circulavam com grande profusão, e mantinham a esperança messiânica candente aplicando a mensagem do juízo de Daniel e de outras passagens proféticas a seu próprio tempo e situação. Os títulos de algumas destas obras pseudoepigráficas são: 4 Esdras, 1 Enoc, Apocalipse de Baruque, Livro dos Jubileus. Os termos "apocalíptico" e "apocalipticismo" foram usados mais tarde pelos eruditos para indicar as escatologias especulativas e contraditórias contidas nesses escritos do judaísmo tardio. As três características dominantes desse apocalipticismo judeu foram as seguintes: (1) O juízo cósmico-universal em torno do Israel nacional ou a um fiel remanescente judeu; (2) a substituição súbita da presente era pecaminosa pela criação de um mundo sem pecado e um novo cosmos; e (3) o fim predeterminado deste mundo pecaminoso e a vinda iminente do Messias. Esta urgência freqüentemente estava apoiada por cálculos contraditórios de períodos de tempo na história mundial. A maioria dos escritores apocalípticos acreditavam que o fim desta era pecaminosa estava perto, e que ocorreria em sua geração. Também acreditavam que eles eram os verdadeiros intérpretes dos profetas canônicos de Israel com respeito à sua própria crise. Um exemplo notável foi a comunidade de Qumran, cujo fundador e professor ensinou que a predição de Habacuque de um remanescente do povo de Deus que sobreviveria (Hab. 2:4) estava cumprindo-se em sua própria e única seita nas cavernas do Mar Morto. Contra o fundo desta esperança iminente comum do judaísmo do século I de nossa era, o emprego que Jesus fez de alguns símbolos apocalípticos bem conhecidos chega a ser mais significativo. Mostra o enfoque inovador da mensagem do evangelho que proclamou Jesus. Cristo deu novo significado a termos apocalípticos tão populares como: "Filho do Homem", "juízo", "vida eterna e ressurreição", "reino de Deus", "esta era e a era por vir". Todas estas expressões eram mais ou menos termos técnicos nos esquemas apocalípticos do judaísmo tardio. A mensagem de Jesus surpreendeu os judeus de seu tempo porque deu a cada símbolo apocalíptico um novo significado messiânico ou cristocêntrico que despedaçou seus sistemas escatológicos. Os odres velhos não podiam conter o espumoso vinho novo de sua mensagem de um cumprimento presente em si mesmo (ver Luc. 5:37, 38). A conexão mais dramática do Jesus com o livro do Daniel e os escritos judeus tardios foi sua autodesignação explícita como "o Filho do Homem" (65 vezes nos

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Evangelhos sinóticos e 12 vezes no quarto Evangelho). Ele se aplicou este titulo em forma consistente. Era a forma própria como Jesus se referia a si mesmo. O emprego extraordinário que Jesus fez deste símbolo convenceu em forma geral à erudição bíblica de nosso tempo de que Cristo adotou o termo apocalíptico "um como o filho de homem", da visão do Daniel 7:13 e 14, e o elevou a um título messiânico. As similitudes do livro 1 Enoc 37-71 e a sexta visão em 4 Esdras 13 (ambos os documentos pós-cristãos) refletem como alguns círculos apocalípticos judeus interpretavam o personagem daniélico "filho de homem": um Messias preexistente e celestial que viria à terra como o Juiz de toda a humanidade e governaria sobre um novo reino terrestre. A questão é: Como empregou Jesus o título e o que contido colocou nesta expressão apocalíptica, o "Filho do Homem"? Jesus explicou que seus milagres de cura ele os fez com um propósito mais elevado: "Para que saibam que o Filho do Homem tem potestade na terra para perdoar pecados" (Mar. 2:10). Mas, como pôde ser Jesus ao mesmo tempo o humilde Filho do Homem e o glorioso ser preexistente da visão de Daniel? O mistério se intensificou quando Jesus começou a dizer que o Filho do Homem celestial "devia" sofrer e ser morto, e que ressuscitaria depois de três dias (Mar. 8:31; 9:31; 10:33, 34). Entretanto, sua declaração mais profunda foi: "Porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate por muitos" (Mar. 10:45). Aqui Jesus se identificou com o servo sofredor de Isaías 53, que morreria para o benefício de todos. Ao fazê-lo, Jesus fundiu o servo sofredor da profecia de Isaías com o Filho do Homem da visão do Daniel. Por assim dizê-lo, esvaziou o conteúdo do servo sofredor no personagem apocalíptico do Filho do Homem. Tal combinação de dois personagens messiânicos em profecia era desconhecido. Aos judeus parecia algo completamente paradoxal. Foi a idéia criadora de Jesus introduzir esta reinterpretação radical do Filho do Homem daniélico. Cristo viu sua missão como Messias em forma completamente diferente a todas as expectativas messiânicas no judaísmo. Colocou sua missão de um Messias sofredor e moribundo dentro da estrutura apocalíptica de Daniel. Entretanto, a maior surpresa dos judeus foi o escutar que este humilde filho de um carpinteiro afirmava ser o apocalíptico Filho do Homem, não só em seus dias, mas também no juízo final. Considere estas afirmações de Jesus (as ênfases são minhas):

"Porque o que se envergonhar de mim e de minhas palavras nesta geração adúltera e pecadora, o Filho do Homem se envergonhará também dele, quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos" (Mar. 8:38). "Então verão o Filho do Homem, vindo sobre as nuvens com grande poder e glória"

(13:26).

"Tornou a interrogá-lo o sumo sacerdote e lhe disse: És tu o Cristo, o Filho do Deus Bendito? Jesus respondeu: Eu sou, e vereis o Filho do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo com as nuvens do céu" (14:61, 62).

Nestas declarações dramáticas, Jesus afirmou que a profecia do Daniel 7 até esperava seu cumprimento futuro e apocalíptico quando Deus julgue a todos os homens, mas que o Filho do Homem daniélico já tinha aparecido com outro propósito:

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trazer salvação da escravidão do pecado. Cristo declarou claramente que ele, como o

sobem

e descem sobre o Filho do Homem" (1:51). Dessa maneira Cristo ensinou que tinha

estabelecido em Israel uma nova comunicação entre o céu e a terra por sua autoridade

divina (3:31; 6:62). Isto também envolve sua missão para julgar ao Israel em nome de Deus: "E [Deus] também lhe deu autoridade de fazer juízo, porquanto é o Filho do Homem" (5:27), embora o propósito da primeira vinda do Jesus foi explicitamente

salvação e não juízo no sentido de condenação (3:17; 12:47). Não obstante, João pôde também informar que Jesus veio ao mundo para um juízo presente: "Para juízo vim eu a este mundo; para que os que não vêem, vejam, e os que vêem, sejam cegados" (João 9:39). Esta classe de juízo ou processo de sacudidura era inerente ao oferecimento da salvação de Cristo, oferecimento que implica necessariamente juízo. Os que rechaçam o dom de Deus de Jesus o Messias, pronunciaram indevidamente seu próprio juízo. Escolheram ser condenados. O evangelho de Cristo separa aos que aceitam o oferecimento da graça daqueles que o rechaçam (ver João 3:18-21; 5:24). A presença de Cristo produz um tempo escatológico de decisão, e esse tempo é agora. Cada pessoa está compelida a rechaçá- lo ou a reconhecê-lo, e assim determina de antemão o veredicto do juízo final sobre si mesmo. Cristo considera como de importância decisiva o que o confessemos como o Filho do Homem. Por isso, ao cego a quem tinha sarado perguntou: "Crês tu no Filho do Homem?" (João 9:35). Desse modo Jesus deu a tal pessoa uma revelação mais elevada de si mesmo. Jesus revelou que era o Messias celestial de que se falava no livro de Daniel, que viria nas nuvens do céu ao "Ancião de dias" para receber a glória

e o domínio e o reino sobre todos os povos (Dan. 7:14). Este conhecimento conduz a

uma fé mais amadurecida em Jesus. O ponto importante nos quatro Evangelhos é a mensagem em que Cristo se referiu à missão do Filho do Homem em uma forma dupla: com respeito a um cumprimento presente e terreno, e também a uma consumação cósmica futura. Em outras palavras, Cristo explicou que o apocalíptico Filho do Homem de Daniel teve um cumprimento histórico em salvação e juízo desde seu humilde primeiro advento, enquanto que também olhou para o futuro, à consumação em salvação e juízo em seu segundo advento. Em resumo, o juízo de Deus, a vida eterna e a ressurreição por meio do Filho do Homem são tanto presente como futuras. Esta dupla aplicação está

Filho do Homem, tinha descido "do céu" (João 3:13), e que "os anjos de Deus

expressa no Evangelho de João por meio desta frase peculiar:

"Vem a hora, e agora é, quando os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que a ouvirem viverão. Porque como o Pai tem vida em si mesmo, assim também deu ao Filho o ter vida em si mesmo" (João 5:25, 26; ver também 4:23 e 16:32).

Quão surpreendente é que Jesus ensinasse que não é suficiente crer que haverá uma ressurreição no último dia, como se promete em Daniel 12:2. Sua nova mensagem foi: "Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá. E todo o que vive e crê em mim, não morrerá eternamente" (João 11:25, 26). Em outras palavras, a vida futura no glorioso reino de Deus está à nossa disposição pela fé em Cristo agora como uma qualidade espiritual de vida.

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Um emprego duplo similar da terminologia apocalíptica pode ver-se na forma em que Jesus aplica os conceitos do reino de Deus e sua "era" (aion) correspondente. Ambas idéias estão combinadas na proclamação de Jesus: "O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho" (Mar. 1:15; cf. Mat. 3:2; 4:17; 5:17). O chamado de Cristo parece estar motivado por uma urgência apocalíptica da vinda do reino de Deus, e muito bem pode estar inspirado na profecia de tempo messiânico das 70 semanas do Daniel 9. (Particularmente Daniel 2 e 7 prometem a vinda do reino de Deus; Dan. 2:44, 45; 7:27.) O conceito de Jesus do reino universal de Deus também era parte das Escrituras. Estas ensinavam que Jeová, o Deus de Israel, é agora Rei e chegará a ser Rei no futuro "sobre toda a terra" (Núm. 23:21; Deut. 33:5; Sal. 103:19; Isa. 6:5; Dan. 2:44; 4:3; Isa. 24:23; Zac. 14:9). Além disso, os profetas haviam predito que um filho de Davi chegaria a ser o Rei de Israel e que, como o Messias do mundo, representaria o governo régio de Jeová para sempre (2 Sam. 7:12-16; Sal. 2:7-9; 132:11-18; Isa. 9:7; 11 :1-5; Miq. 5:2; Dan. 7:14, 27). Como já indicamos no capítulo I, o judaísmo farisaico tinha desenvolvido a esperança de que nos últimos dias o Messias viria no tempo indicado por Deus, subiria ao trono de Israel e por seu poder quebrantaria aos príncipes injustos, purificaria a Jerusalém de gentios, quebrantaria toda sua solidez com vara de ferro e, por último, submeteria todas as nações da terra a seu governo. Na pregação de Cristo, o reino de Deus foi o conceito principal. Seu ensino do reino de Deus, sua proximidade, tal como está representada por sua própria vida, seu ministério de cura e seu domínio sobre os demônios, revolucionaram o apocalipticismo judeu que tinha perdido toda esperança de que Deus reinasse no presente histórico. O primeiro advento de Cristo não foi o fim do tempo a não ser o poder régio de Deus que pôde "atar" a Satanás e liberar os homens do poder do mal (ver Mat. 12:29). Jesus insistiu em afirmar que nele o reino dos céus se aproximou como uma soberania espiritual de Deus que agora estava ativa em seu oferecimento messiânico de graça e seu domínio sobre os demônios; uma realidade totalmente diferente do que esperavam os rabinos judeus e os escritores apocalípticos, pois seu reino não era deste mundo (João 18:36). Em resumo, a mensagem de Jesus é que em sua própria pessoa Deus invadiu a história humana e triunfou sobre o mal. Ao mesmo tempo, Cristo ensinou que a liberação final viria no fim do tempo, em sua segunda vinda (Mat. 6:10; 13:41-43; 16:27; 19:28; 25:31).

A nova idéia que Jesus apresentou foi que tanto no presente como no futuro reino de Deus ele intervém como Filho do Homem, e em conexão com isto aplicou a terminologia apocalíptica de "as duas eras" à sua nova estrutura escatológica. Enquanto que os apocalipticistas conceberam um dualismo claro de duas eras ou períodos nos quais a futura era isenta de pecado substituiria por completo a esta era pecaminosa, Cristo ensinou que com seu ministério tinha começado a era messiânica e

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a salvação. Ao mesmo tempo reconheceu que "a era vindoura" começaria só com a ressurreição dos mortos (Luc. 20:34-36).

A identificação por parte do Jesus da era messiânica com "esta era" (Mar. 10:29,

30) destruiu a idéia básica da doutrina das duas eras dos apocalipticistas. A ênfase de

Cristo em sua mensagem foi chamar o arrependimento (metanoia) e aceitá-lo como Senhor e Messias (Mat. 4:17; 19:21), condição básica para entrar no reino de Deus no momento presente. Desta forma, a paz e o gozo messiânicos serão experimentados já

agora na alma (João 15:11; 16:33). Esta tensão entre a escatologia inaugurada e a escatologia apocalíptica, entre o reino da graça e o reino da glória, entre o "já" e o "ainda não", é característica da mensagem do evangelho do Novo Testamento em sua totalidade.

O evangelho não é simplesmente as boas novas a respeito da obra de Cristo no

passado ou no futuro. Os poderes da era vindoura já invadiram esta era em forma dramática desde o Pentecostes, e agora os verdadeiros crentes "provam" dos poderes do século vindouro mediante Cristo (Heb. 6:5). Esta verdade do evangelho dissipa o desespero do apocalipticismo judeu. Os apóstolos afirmaram que a história da salvação entrou agora na era messiânica, ou os "últimos dias", no qual o poder libertador do Espírito de Deus está totalmente à disposição de todos os que se encontram em Cristo Jesus (Heb. 1:1, 2; At. 2:17-39).

A INTERPRETAÇÃO QUE OS APÓSTOLOS FIZERAM DO CUMPRIMENTO DA PROFECIA

A aplicação que faz Pedro da profecia do Joel é altamente instrutiva. O apóstolo

aplica a promessa do Espírito de Deus profetizada pelo Joel ao derramamento pentecostal do Espírito Santo sobre os judeus cristãos reunidos em Jerusalém. Pedro cita a predição do Joel de um futuro derramamento do Espírito (Joel 2:28) e ato seguido assinala a experiência presente como o cumprimento "nos últimos dias", declarando: "Isto é o dito pelo profeta Joel" (At. 2:16). Um olhar mais detalhado aos assuntos mencionados no esboço profético do Joel expõe o problema seguinte: por que anunciou Pedro o cumprimento histórico dos "últimos dias" no dia de Pentecostes? Pedro citou Joel 2:28-32 embora algumas dos sinais preditos ainda não se cumpriam

visivelmente, incluindo as seguintes: (1) "Toda carne" incluso no tinha recebido o derramamento milagroso do Espírito, porque só 12 apóstolos, ou no máximo 120 crentes, tinham-no recebido (At. 1:15); (2) os sinais milagrosos de "sangre, fogo e colunas de fumaça" parecem incluir mais que as "línguas de fogo" assentadas sobre cada um dos discípulos, sacudidos por um vento robusto; e (3) os sinais cósmicos do

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sol e da lua, no melhor dos casos só se cumpriram parcialmente, até se se aceita o obscurecimento do sol por três horas durante a crucificação como um dos sinais (Mat.

27:45).

Isto nos leva a um princípio básico de interpretação apocalíptica na mensagem apostólica: O cumprimento em Pentecostes constitui só uma escatologia parcialmente realizada. Do ponto de vista apostólico, o cumprimento dos "últimos dias" não requer um cumprimento imediato de cada detalhe. O cumprimento se enfoca na realização messiânica da promessa de Deus na história da salvação. O derramamento do Espírito demonstrou ser a indicação nesta terra da coroação do Jesus ressuscitado como o Rei- Sacerdote no céu (At. 2:33, 36). Em outras palavras, o cumprimento não requer a verificação de cada detalhe da profecia na história presente. O cumprimento está determinado pelo progresso da história da salvação no ministério de Cristo e seus apóstolos. Agora se tinha aberto um novo caminho de salvação para todo aquele que invocar o nome do Senhor Jesus (At. 2:21; ver também Rom. 10:9-13; 1 Cor. 1:2). Era-a escatológica do Joel tinha sido inaugurada pelo reinado do Jesus Cristo. O que podemos dizer das características universais ("toda carne") e cósmicas ("sol" e "lua") da perspectiva do futuro que anuncia Joel? Estas assinalam à consumação e ao fim da era cristã, quando Cristo volte pela segunda vez. Estes aspectos apocalípticos não se cumpriram nos dias do Pedro. Ao aplicar Joel 2, Pedro ressaltou que o Cristo ressuscitado era a fonte do derramamento do Espírito. Além disso assinalou que o Espírito é dado baixo a condição de ter fé no Jesus como o Messias:

"Respondeu-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo. Pois para vós outros é a promessa, para vossos filhos e para todos os que ainda estão longe, isto é, para quantos o Senhor, nosso Deus, chamar" (At. 2:38,

39).

A distribuição do Espírito sobre o Israel crente em Cristo pelo Senhor ressuscitado está no próprio coração da mensagem apostólica do evangelho. Isto ensina que o primeiro princípio de interpretação profética dos apóstolos está determinado por um cumprimento em Cristo (o cumprimento cristológico), e por extensão, na igreja de Cristo (o cumprimento eclesiológico). Isto nos leva a uma característica final da aplicação que Pedro fez da profecia do Joel: O derramamento do Espírito de Cristo sobre a terra iniciou os "últimos dias" (At. 2:16). O conceito de "os últimos (ou últimos) dias" é usado freqüentemente pelos profetas do Antigo Testamento, mas no Novo Testamento recebe uma qualidade messiânica ou cristológica, porque agora Cristo veio na plenitude do tempo (Gál. 4:4). Seu Espírito doador de vida começou a ser derramado sobre toda carne (ver João 7:37- 39). A idéia dos "últimos dias" não se refere a uma quantidade de tempo, a não ser a uma qualidade no tempo, ao começo da era messiânica em contraste com o tempo dos profetas do Israel (cf Heb. l:1, 2). A verdade apostólica da chegada dos "últimos dias" implicava que tinha chegado "a consumação dos séculos" da era do velho pacto (Heb. 9:26; 1 Ped. 1:20; 1 Cor.

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10:11). Este anúncio do fim da velha dispensa e do começo dos "últimos dias" messiânicos envolve um rechaço das divisões de tempo do apocalipticismo judeu e uma volta ao conceito profético que insígnia que Deus domina o tempo e a história. "Anjos, principados e autoridades", inclusive "todas as coisas", estão submetidas a Cristo (F. 1:20-22; 1 Ped. 3:22). Até às autoridades políticas as designa como servos de Deus para governar à humanidade (Rom. 13:4; diákonos; 13:6, leitourgós; ver também João 19:11). Com orações de petição, intercessão e agradecimento, a igreja está chamada a submeter-se "por causa do Senhor" aos protetores políticos da lei e a ordem na sociedade humana (Rom. 13:1; 1 Ped. 2:13-17; 1 Tim. 2:1-3). Esta atitude positiva para a história por parte da igreja apostólica está bem compendiada pelo R. Bauckham:

"O significado da história presente foi garantido pelos escritores do Novo Testamento por meio de sua crença de que na morte e a ressurreição do Jesus, Deus já tinha atuado em uma forma escatológica; a nova era tinha invadido a velha; a nova criação estava em marcha, e o período intermédio da superposição das foi estava ocupado com a missão escatológica da igreja". 1

A Unidade Orgânica dos Cumprimentos Cristológicos e Eclesiológicos

O sentido de missão dos apóstolos estava enraizado na convicção incomovível de que Cristo os tinha designado como os líderes de um novo o Israel para cumprir a vocação da nação judia: ser a luz da salvação divina para todo mundo (Mat. 21:43; Luc. 12:32; 1 Ped. 2:9, 10). Para sua comissão de pregar o evangelho, Paulo e Barnabé apelaram à profecia do Isaías, a qual comissionava ao Servo do Jeová: "Também te dava por luz das nações, para que seja minha salvação até o último da terra" (Isa. 49:6). Paulo citou esta chamada divina e sua missão aos judeus em seu sermão na sinagoga do Pisídia da Antioquia, e o aplicou diretamente a sua missão apostólica:

"Porque assim nos mandou o Senhor" (At. 13:47; cf. 26:23).

Isto significa que o cumprimento cristológico das profecias messiânicas se estende à igreja de Cristo e inclui o cumprimento eclesiológico. Isto é o que podemos chamar "a hermenêutica do evangelho". A igreja cristã é essencialmente o povo do Messias, os que se reúnem em seu nome e quem o segue como o Pastor messiânico (Mat. 18:30; João 10:14-16; 11:51, 52). Neste novo o Israel ficam eliminadas as antigas restrições étnicas e geográficas do Israel. Se reúne pelo evangelho do Cristo crucificado e ressuscitado. Cristo já o tinha anunciado: "E eu, se for levantado da terra, a todos atrairei para mim mesmo" (João 12:32).

O livro de Atos descreve com mais detalhe a aplicação histórica desta hermenêutica do evangelho à igreja apostólica. Um exemplo revelador se encontra em Feitos 4, onde se aplica o Salmo 2 (com seu centro messiânico e sua perspectiva de juízo) à conspiração dos gentis e judeus contra Jesus e seus apóstolos (At. 4:18, 23- 30). A interpretação evangélica do Salmo 2 não é uma reinterpretação que introduza

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elementos estranhos ao texto. Antes bem, o evangelho de Cristo expõe o significado

intencional da profecia a respeito do Israel à luz de seu cumprimento em Cristo e em sua igreja. Por conseguinte, o Novo Testamento reconhece esse cumprimento na era

da igreja como uma atividade atual do Espírito, que um dia chegará a sua consumação

universal (ver Apoc. 18:1). O Apocalipse de João é uma contraparte complementar dos quatro Evangelhos, porque se concentra principalmente nos gozos e a herança dos que são fiéis até o fim e

vencem ao mau pelo sangue do Cordeiro e a palavra de seu testemunho (Apoc. 12:11).

O livro do Apocalipse está categoricamente centrado em Cristo e destinado para a

igreja de todas as idades, especialmente para prepará-la para a crise do tempo do fim. Toda a escatologia do Novo Testamento está regulada pela verdade do evangelho.

Este é o princípio apostólico de interpretação profética.

O Princípio de Universalização das Promessas Territoriais Feitas a Israel

Os intérpretes cristãos da profecia algumas vezes estiveram confundidos em sua aplicação das promessas territoriais feitas ao antigo o Israel. Isto é especialmente verdade com as aplicações das profecias não cumpridas do Daniel, Ezequiel, Joel, Zacarias e o Apocalipse. Alguns supõem que o território do Oriente Médio chegará a ser o ponto focal dos cumprimentos das profecias do tempo do fim, o que requer um esforço sério para determinar o princípio básico que segue o Novo Testamento em sua aplicação das promessas territoriais feitas ao Israel. Neste assunto, Cristo também estabeleceu a norma para nós. Proclamou o princípio da ampliação mundial das promessas territoriais locais; fê-lo assim quando disse que a promessa do pacto com respeito à terra se cumpriria na terra feita nova. Isto pode ver-se ao observar como aplicou Jesus esta antiga promessa territorial:

SALMOS 37:11, 29

Mateus 5:5

Davi

Jesus

"Mas os mansos herdarão a terra e se deleitarão na abundância de paz" (v.11). "Os justos herdarão a terra e nela habitarão para sempre" (v. 29).

"Bem-aventurados

os porque herdarão a terra".

mansos,

Cristo aplicou claramente o Salmo 37 em uma forma inovadora: (1) Esta "terra" seria maior do que pensou Davi; o cumprimento incluirá toda a terra em sua formosura criada de novo (ver também Isa. 11:6-9 e Apoc. 21 e 22); (2) a terra renovada será a herança de todos os mansos de todas as nações que aceitem a Cristo como Salvador. Cristo não está espiritualizando a promessa territorial feita a Israel. Pelo contrário, amplia o alcance de seu território futuro para incluir toda a terra.

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De igual modo, o apóstolo Paulo entendeu a promessa territorial do pacto assim como o entendeu Jesus, incluindo toda a terra: "Porque não pela lei foi dada a Abraão ou a sua descendência a promessa de que seria herdeiro do mundo, mas sim pela justiça da fé" (Rom. 4:13). Paulo declara que esta promessa territorial mundial era a substância do pacto abraâmico, a qual estaria garantida só pela justiça pela fé. A sugestão de Deus a Abraão de que olhasse ao "norte e ao sul, ao oriente e ao ocidente" (Gên. 13:14) na terra do Canaã não especificava limites:

"Porque toda essa terra que vês, eu ta darei, a ti e à tua descendência, para sempre. Farei a tua descendência como o pó da terra; de maneira que, se alguém puder contar o pó da terra, então se contará também a tua descendência" (Gên. 13:15,16). Para compreender o princípio do evangelho, deve-se contemplar a terra da Palestina como uma antecipação ou uma garantia que assegurou ao Israel um território muito mais extenso, necessário para acomodar às inumeráveis multidões da descendência de Abraão. O pacto abraâmico continha a promessa de uma descendência incontável e de uma terra sem limites para dita descendência. Entretanto, Paulo considera Abraão como o pai de todos os crentes, de todos os que são justificados por meio da fé em Cristo entre as nações do mundo (Rom. 4:13, 16-24). Abraão "é pai de todos nós" (tão crentes judeus como crentes gentis). O apóstolo declara: "Como diz a Escritura: Constituí-te pai de muitas nações; nosso pai diante Daquele a quem acreditou" (Rom. 4:17, BJ). Isso não está de acordo com a hermenêutica do literalismo. É a exegese cristocêntrica do Paulo. A "terra" chega a ser o mundo; as "nações" chegam a ser quão crentes confiam no Deus do Israel e som justificados pela fé em Cristo. Abraão chegaria a ser o pai espiritual de uma multidão de gentis por meio de Cristo.

O Inadequado da Hermenêutica do Literalismo

A hermenêutica do literalismo étnico e geográfico em profecia se apóia na hipótese de que a profecia não é mais que história antes dos acontecimentos. Por conseguinte, atribui às descrições proféticas a exatidão de um quadro fotográfico feito com antecipação. Esta hipótese não deixa lugar para as coisas maiores e melhores que virão, coisas que "nem homem algum imaginou" a não ser Deus sozinho (1 Cor. 2:9, NBE; Isa. 64:4). O literalismo nega a estrutura bíblica inerente de uma tipologia intensificada. Cristo veio em humilhação; contudo, foi mais que Jonas, mais que Salomão, maior que o templo (Mat. 12:40, 42, 6). Levantou a esperança judia muito por cima de quem esperava um Messias que fora idêntico com um rei, um profeta ou um sacerdote no Israel. Como o Messias divino, elevou-se imensamente por cima desses protótipos antigos, tanto em sua humilde encarnação como em sua futura glorificação. Não devia esperar uma reprodução exata dos reis teocráticos do Israel. portanto, a gente também pode ver a terra prometida (Palestina) como "um mundo em miniatura no qual Deus ilustrou seu reino e sua forma de tratar com o pecado. A terra

que Deus prometeu a Abraão e a sua descendência

4:13)". 2 O alcance total do panorama profético do Israel não era nacionalista a não ser

era um tipo do mundo (Rom.

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universal, com uma dimensão acrescentada que incluía tanto o céu como a terra (Isa. 65:17; 24:21-23).

O princípio decisivo para a aplicação no tempo do fim da promessa territorial

feita ao Israel é a forma como Cristo e o Novo Testamento como um tudo aplicam esta promessa do pacto. A passagem clássica que insígnia a ampliação universal do território restringido do Israel, encontra-se na conversação do Jesus com a mulher da Samaria. Quando a mulher lhe perguntou que monte era o sagrado, se o monte

Gerizim ou o monte do Sião, Cristo respondeu: "Mulher, me acredite, que a hora vem quando nem neste monte nem em Jerusalém adorarão ao Pai" (João 4:21). Desde que veio o Messias, ele é o "lugar" santo em quem devem reunir-se o Israel e todos os gentis (Mat. 11:28; 23:37). "Porque onde estão dois ou três

congregados em meu nome, ali estou eu em meio deles" (Mat. 18:20). um pouco mais tarde, acrescentou: "E eu, se for levantado da terra, a todos atrairei para mim mesmo" (João 12:32). Cristo não faz diferença entre a esperança para o futuro de um judeu cristão e de um gentil cristão. Os descendentes espirituais de Abraão entre todas as nações serão reunidos ou unidos em "um rebanho" baixo "um Pastor" (João 10:6; Mat.

8:11).

O princípio implícito é claro. Cristo suprime todas as restrições étnicas no povo

do novo pacto e, portanto, também suprime o centro geográfico do Oriente Médio para sua igreja. Onde quer esteja Cristo, ali está o lugar santo! Esta é uma parte essencial da

hermenêutica do evangelho. O Novo Testamento substitui a santidade da presença de Deus do templo antigo (a shekinah) pela santidade do Senhor Jesus Cristo. A continuidade básica da esperança do Antigo Testamento e do Novo Testamento se representa na epístola aos Hebreus. Assegura aos cristãos de origem judia que, pela fé em Cristo, "aproximaste-lhes do monte do Sião, à cidade do Deus vivo, Jerusalém a

celestial

à congregação [ekklesia] dos primogênitos que estão inscritos nos céus, a

Deus

ao Jesus o Mediador do novo pacto" (Heb. 12:22-24). Por meio da fé no

sangue expiatório da morte de Cristo, a igreja entra agora em forma constante no templo celestial e se aproxima do trono da graça para receber ajuda de Cristo (Heb. 4:16; 10:19-22). Esta linguagem simbólica da adoração cristã não tem o propósito de ser uma adoração paralela ao lado da do Israel, mas sim é o verdadeiro cumprimento dos tipos do Israel. O uso contínuo de nomes hebreus expressa a continuidade essencial da verdadeira adoração na revelação progressiva de Deus em Cristo (ver Heb. 12:1-3). As promessas do Israel agora se experimentam em Cristo como "os poderes do século vindouro" (Heb. 6:5), e serão cumpridas em uma maneira mais perfeita em sua consumação apocalíptica:

"Porque não temos aqui cidade permanente, mas sim procuramos a por vir" (Heb.

13:14).

"Porque esperava [Abraão] a cidade que tem fundamentos, cujo arquiteto e construtor é Deus" (Heb. 11:10).

Referências

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1. R. J. Bauckham, "The Rise of Apocalyptic" [O Surgimento do Apocalíptico, Themelios [Fundamento] 3:2 (1978), p. 22.

2. Louis F. Were, The Certainty of the Third Angel's Message [A Certeza da Mensagem do Terceiro Anjo] (Berrien Springs, Michigan: First Impressions, 1979), p. 86.

A COMPREENSÃO DE CRISTO DAS PROFECIAS DE DANIEL

A aplicação que Jesus fez dos termos simbólicos tirados do livro do Daniel – tais como "reino", "Filho de Homem" e "abominação desoladora" – indicam que manifestou um profundo interesse nas profecias apocalípticas de Daniel. Aplicou as expressões daniélicas a sua própria missão messiânica. Por esse meio Cristo ensinou que a descrição das visões de Daniel eram de importância fundamental para sua igreja. Sua própria perspectiva segue o esboço da história da salvação de Daniel. É conhecido como Discurso do Monte das Oliveiras ou discurso escatológico de Jesus, porque o pronunciou enquanto estava sentado no monte das Oliveiras, ao oriente de Jerusalém (Mat. 24; Mar. 13; Luc. 21).

O quadro que Cristo pintou dos acontecimentos futuros para Jerusalém e para seus seguidores em todo mundo é similar ao que foi esboçado primeiramente pelo profeta Daniel. O discurso do monte das Oliveiras foi chamado por alguns como "os comentários ou Midrash * de Jesus sobre o livro do Daniel". É amplamente reconhecido que as profecias de longo alcance de Daniel – com sua predição da apostasia, a perseguição, o juízo e a vindicação final dos fiéis – deram forma ao discurso escatológico de Cristo. Esta conexão pode ver-se sem dificuldades da seguinte lista comparativa:

* Nota do Tradutor: Midrash é uma mera transliteração do substantivo hebraico midräs, que é um termo cunhado na última época bíblica e que no período rabínico toma o sentido preciso de "interpretação e exposição" do texto bíblico. (Ver Aranda, Literatura judía intertestamentaria, pp. 470, 477.)

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Daniel

 

Jesus

"Quando

se

cumprirão

estas

"Dize-nos quando sucederão estas coisas, e que sinal haverá quando todas elas estiverem para cumprir-se?" [méle táuta sunteleísthai pánta] (Mar. 13:4).

maravilhas?" (Dan. 12:6) O anjo respondeu que quando acabe a dispersão do poder do povo santo, "estas coisas todas se cumprirão" [na LXX:

suntelesthénai pánta táuta] (Dan. 12:7).

 

"O que há de ser nos últimos dias" [na LXX: ti dei genésthai metá táuta: O que deve suceder no futuro] (Dan. 2:28).

"É necessário assim acontecer" [dei genésthai] (Mar. 13:7).

"Mas o povo dos que conhecem o seu

"Sereis odiados de todos por causa do meu nome; aquele, porém, que perseverar até ao fim, esse será salvo" (Mar. 13:13; Mat. 24:13).

Deus se tornará forte e ativo … Alguns

dos sábios cairão

até ao tempo do fim,

porque se dará ainda no tempo mas, naquele tempo, será salvo o teu povo" (Dan. 11:32, 35;

12:1).

 

"Até quando durará a visão do sacrifício diário e da transgressão assoladora, visão na qual é entregue o santuário e o exército, a fim de serem pisados?" (Dan.

"Quando virdes a abominação da desolação instalada onde não deve estar" (Mar. 13:14, BJ).

8:13).

"Sobre a asa das abominações virá o assolador" (Dan. 9:27).

"Quando , portanto, virdes a abominação da desolação … instalada no lugar santo" (Mat. 24:15, BJ).

"tirarão o sacrifício diário, estabelecendo a abominação desoladora" (Dan. 11:31; cf. 12:11).

 

"E haverá tempo de angústia, qual nunca houve, desde que houve nação até àquele tempo" (Dan. 12:1).

"Porque aqueles dias serão de tamanha tribulação como nunca houve desde o princípio do mundo" (Mar. 13:19; Mat.

24:21).

"E eis que vinha com as nuvens do céu um como o Filho do Homem …Foi-lhe dado domínio, e glória, e o reino" (Dan.

"Então, verão o Filho do Homem vir nas nuvens, com grande poder e glória" (Mar. 13:26; cf. Mat. 24:30).

7:13,14).

Dos paralelos citados, chega a ser evidente que Jesus seguiu a seqüência dos eventos futuros de Daniel em seu próprio discurso. Cristo aplicou o esboço de Daniel ao futuro imediato de Israel e de seus discípulos. Portanto, cada uma das declarações de Cristo deve entender-se contra o transfundo da profecia de Daniel da história da salvação. Daniel apresentou o drama de um conflito religioso que se concentra em um que invade a terra santa, profana o templo de Israel estabelecendo sua própria "abominação" ou objeto de adoração falsa, em lugar da verdade de Deus, e persegue

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os santos, cuja "angústia" durará por "três tempos e meio". A reação de Deus chega na forma de "um semelhante a um filho de homem", a quem é ordenado no céu que execute o juízo de Deus sobre esse intruso maligno. Restaura a verdadeira adoração no templo de Deus e vindica os adoradores tratados injustamente. O tema de Daniel é descrito em 2 visões que formam um paralelismo progressivo

e complementar (caps. 7 e 8). Os capítulos finais de Daniel (9 e 10-12) consistem em

notas explicativas do anjo quanto às duas visões. Entretanto, o tema principal do livro

de Daniel é a segurança da restauração da verdade do santuário de Deus e a libertação de seu povo fiel do pacto por meio do Filho do Homem, que vem nas nuvens do céu. Ele executa o juízo sobre o "chifre pequeno", o desolador que está na terra.

Do mesmo modo, Jesus conecta o templo e sua profanação futura com uma "abominação da desolação" ou sacrilégio. Depois assegura a seus seguidores que voltará no poder e a glória do celestial Filho do Homem (de Dan. 7) para resgatar a seus fiéis e reuni-los no reino messiânico de Deus. Dessa forma, Cristo anula a sentença de morte tão injustamente imposta aos fiéis pelo anticristo. Segundo os Evangelhos sinóticos, Jesus adotou algumas frases-chave apocalípticas de Daniel e as aplicou a si mesmo como Messias, e outras frases aplicou

a Jerusalém e a seus seguidores:

Dan. 7:13 (Um filho de homem que vem nas nuvens do céu para vindicar os santos acusados) é aplicada a Cristo em Marcos 13:26. Dan. 8:13 (O santuário seria pisoteado) aplica-se a Jerusalém em Lucas 21:24. Dan. 9:27 (O desolador porá seu sacrilégio dentro do templo) aplica-se à área do templo de Jerusalém no Mateus 24:15. Dan. 11:31 (O sacrilégio profanará o templo) aplica-se a Roma imperial em Marcos 13:14. Dan. 11:45 (O monte glorioso e santo será assediado) aplica-se a Jerusalém no Mateus 24:15 ("o lugar santo" ). Dan. 12:1 (Seguirá um tempo de tribulação sem comparação) aplica-se aos seguidores de Jesus em Marcos 13:19. Jesus mencionou que a fonte literária de seu discurso era o livro de Daniel:

"Quando, porém, virem a abominação da desolação, de que fala o profeta Daniel, instalada no lugar santo – que o leitor entenda!" (Mat. 24:15, BJ). Isto indica que o esboço apocalíptico de Daniel dos 4 impérios mundiais sucessivos (Babilônia, Medo- pérsia, Grécia e Roma) devem colocar-se como o marco histórico atrás da perspectiva do futuro apresentada por Cristo. Isto exige interpretar que o Império Romano que no tempo do Jesus governava Israel, cumpriu a profecia de Daniel. O general romano Pompeu sujeitou os judeus a Roma no ano 63 a.C. Os expositores judeus anteriores a Cristo, especificamente os macabeus, acreditaram que sua vitória militar sobre o opressor sírio Antíoco IV Epifânio, no ano 164 a.C., era a vitória de Deus sobre o profanador do templo descrita em Daniel 8-12 (ver 1 Macabeus 1:54-59; 6:7). Os fariseus viram na morte de Pompeu (48 a.C.) o triunfo de Deus sobre o profanador da cidade santa. 1

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Logo depois de Cristo, Josefo, o historiador judeu do século I, expressou sua convicção de que a profanação do templo levada a cabo pelos zelotes e a desolação de Jerusalém pelos exércitos romanos (no 70 d.C.) eram um cumprimento da predição de Daniel. 2 Entretanto, poucos judeus pareceram ter entendido a razão real para a destruição de Jerusalém que se levou a cabo 40 anos depois da crucificação de Cristo. Os profetas anteriores, incluindo Jeremias (cap. 7) e Ezequiel (cap. 24), tinham anunciado a destruição iminente do templo e da cidade como a maldição divina do pacto sobre um povo rebelde ao pacto. Mas isto já ocorrera no próprio tempo de Daniel, quando Nabucodonosor, rei de Babilônia, destruiu Jerusalém em 586 a.C. (ver Dan. 9:17). Entretanto, a nova predição de Daniel foi a espantosa verdade de que o templo futuro que seria reedificado após o cativeiro babilônico também seria destruído, tudo como resultado do assassinato que Jerusalém faria do Messias (Dan. 9:26, 27)! Esta profecia é um novo desenvolvimento na tradição profética de Israel. Daniel 9 chegou a ser mais específico com respeito ao tempo do Messias que a predição anterior do servo sofredor de Isaías 53. Jesus aplica a predição de Daniel da destruição futura da "cidade e o santuário" (Dan. 9:26) ao tempo da geração de seus contemporâneos, quando declarou com toda solenidade: "De certo vos digo que tudo isto virá sobre esta geração" (Mat. 23:36; ver também o v. 35 e 24:34). A advertência adicional, "que lê, entenda" (Mar. 13:14), é o conselho de Cristo aos que podiam ler as Escrituras hebraicas para que estudassem cuidadosamente o livro de Daniel como o contexto de seu próprio discurso profético. O vocábulo "entendam" já era uma palavra-chave no livro de Daniel (Dan. 9:23; ver também 8:27; 9:2; 10:1; 12:8-10). Por esta razão, o conselho de Jesus aponta inequivocamente ao livro de Daniel para entender sua própria predição profética e a aplicação histórica da profecia de Daniel. Por muito tempo se deu por sentado que o Evangelho de Marcos foi escrito primeiro e que Mateus e Lucas o tomaram como sua pauta básica, produzindo cada um sua própria versão modificada de uma perspectiva teológica ligeiramente diferente. Entretanto, estudos recentes sugerem que os três escritores dos Evangelhos sinóticos extraíram de um documento comum anterior aos sinóticos que continha todos os elementos essenciais da tradição oral do discurso de Jesus no monte dos Oliveiras. 3 O discurso de Jesus no monte dos Oliveiras também constituiu uma fonte vital para o conselho pastoral de Paulo com respeito ao futuro e para seu método ao aplicar o esboço apocalíptico a seu próprio tempo e ao futuro. Isto será tratado no capítulo seguinte. Tanto o discurso profético de Jesus como o esboço profético de Paulo constituem as cabeceiras de ponte mais importantes que conectam os livros de Daniel e Apocalipse. O discurso escatológico de Jesus nos Evangelhos sinóticos e o esboço profético de Paulo em 2 Tessalonicenses 2 nos ensinam autoritativamente como se devem aplicar as profecias de Daniel à era cristã. São a preparação necessária para entender o livro do Apocalipse.

A Estrutura Cronológica do Discurso Profético de Jesus

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em Marcos 13

Alguns observaram um estilo literário em Marcos 13 que demarca os versículos 5-23 como uma unidade literária. Isto se insinua pela advertência contra a profecia "

falsa tanto ao começo como ao final: "Olhem [blépete]

descreve os acontecimentos que devem preceder ao fim, especificamente os dias de tribulação (vs. 19, 20). Assim forma também uma unidade temática. A seção seguinte, do 24 ao 27, apresenta a segunda vinda de Cristo como o próprio fim. Sugere uma "

progressão definida no tempo: "Mas naqueles dias, depois daquela tribulação

24).

Voltando para a primeira seção (vs. 5-23), pode notar-se um progresso cronológico dentro desta parte. A predição de guerras, fomes e terremotos não tem o propósito de anunciar sinais dos acontecimentos finais porque se diz que não devem "

ser causa de alarme: "É necessário que aconteça assim; mas ainda não é o fim

são princípios de dores (literalmente, dores de parto; Mar. 13:7, 8; cf. Mat. 24:8). Depois se mencionam os sofrimentos dos discípulos de Cristo e sua pregação mundial do evangelho: "E é necessário que o evangelho seja pregado antes a todas as nações" (Mar. 13:10, cf. Mat. 24:14). Esta porção da Escritura conclui com o conselho de Jesus: "Mas o que perseverar até o fim, este será salvo" (v. 13; Mat. 24:13). A demora da parousia (o advento) está claramente presente neste contexto. Quando Jesus disse que o evangelho "primeiro deve" ser pregado, enfatizou o fato de que o fim não viria até que o evangelho tenha sido levado a cada nação na terra (ver Mar. 13:10). Na subdivisão seguinte, Marcos 13:14-20, Cristo volta a atenção à geração de seus contemporâneos ao concentrar-se sobre a "abominação da desolação". Este fenômeno já não é parte "do princípio de dores". A predição de Cristo do "sacrilégio" como um indicador visível da imediata destruição de Jerusalém é o sinal decisivo que responde a pergunta dos discípulos: "Qual será o sinal de que está para acabar-se tudo?" (Mar. 13:1-4, NBE; Mat. 24:1-3). Mas Cristo não continua o relato com uma descrição de sua gloriosa vinda como os discípulos esperavam. Mas procede enfatizar que o sacrilégio trará um período de angústia sem igual, um período de tribulações para seus seguidores (Mar. 13:19-23; Mat. 24:16-21). Tudo isto, reitera Jesus, acontecerá antes que os sinais nos céus introduzam o Redentor que retorna (Mar. 13:24; Mat. 24:29). Em outras palavras, a desolação de Jerusalém está separada com toda claridade do segundo advento pelo intervalo de tempo conhecido como "dias de tribulação" [thlípsis] para os seguidores de Cristo em todo mundo. Este período de aflição é deixado em forma indefinida por Cristo, mas é uma alusão clara às predições de Daniel de um período de aflição e apostasia depois que se estabeleceu a abominação desoladora como se depreende de Daniel 7-12. O primeiro tempo de aflição no livro de Daniel dura "três tempos e meio" (Dan. 7:25), e deve entender-se como um símbolo apocalíptico para um longo período, mencionado em forma reiterada em Apocalipse 11-13 com respeito à era da igreja (ver nesta Segunda parte, o cap. XX). Mas Daniel antecipa, além dos 3 ½ tempos de aflição (em Dan.

Estes

(vs. 5, 23). Esta seção

(V.

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7:25), um tempo posterior de angústia sem precedentes no tempo do fim (Dan. 11:40- 45; 12:1), da qual Miguel libertará seu povo. Este tempo final de tribulação, diz

Daniel, será "qual nunca houve desde que houve nação até então" (Dan. 12:1; LXX,

thlípsis). Tanto Mateus como Marcos declaram que a angústia será tão severa que "ninguém escaparia com vida" se o Senhor não abreviasse esses dias por amor a seus "escolhidos" (Mar. 13:20; Mat. 24:22). Este anúncio sugere não uma crise local pequena em Jerusalém, e sim um período prolongado de angústia universal para o povo de Deus. A referência adicional a respeito dos falsos cristos e os falsos profetas (Mar. 13:21-23; Mat. 24:24) indica um período estendido de apostasia. Podemos concluir sem risco que Cristo previu um período extenso de desolação religiosa depois que o sacrilégio abominável predito nas profecias de Daniel tivesse aparecido entre seus seguidores. Cristo não ensinou que a queda de Jerusalém e o fim do mundo eram acontecimentos idênticos, mas sim que a queda de Jerusalém introduziria um período de apostasia e tribulação. Parece que Cristo combinou todos os períodos de angústia para seu povo em uma só declaração, tirada de Daniel 12:1. A chave para entender a perspectiva profética de Cristo é sua aplicação contínuo- histórica de Daniel: primeiro ao Império Romano e à geração de seus contemporâneos em Jerusalém, e depois aos períodos de crescente angústia mundial da qual libertará a seus seguidores em sua vinda.

A Aplicação que Cristo Fez da Tipologia

Qual foi a ocasião que levou Jesus a pronunciar sua profecia de condenação sobre Jerusalém e de perseguição para seus seguidores até Sua libertação em sua segunda vinda? Perto do fim de seu ministério terrestre, Jesus notou o repúdio decidido de cada evidência de seu messianismo por parte dos dirigentes judeus. Previu sua iminente morte violenta. Só então pronunciou a inevitável maldição do pacto: "Eis que vossa casa vai ficar deserta" (Mat. 23:38). O que Cristo quis dizer com esta predição sinistra? Declarou que o templo em Jerusalém séria privado da presença divina, e seria destruído, e acrescentou: "Não ficará pedra sobre pedra" (Mar. 13:2). Muito pouco tempo depois, enquanto estava sentado no monte das Oliveiras, alguns de seus discípulos lhe perguntaram em particular: "Diga-nos, quando serão estas coisas, e que sinal haverá de tua vinda e do fim do mundo?" (Mat. 24:3). Estas perguntas se relacionam com dois acontecimentos diferentes. Entretanto, na mente dos discípulos, isso não estava diferenciado no tempo como "a destruição de Jerusalém" por um lado e "a segunda vinda de Cristo" para julgar o mundo por outro. Entretanto, na opinião de Cristo, o juízo iminente sobre Jerusalém e o juízo final do mundo têm um característico básico em comum: ambos os juízos são realizados pelo mesmo Deus do pacto. Esta correspondência essencial de ambos os juízos implica tipologia, algo associado com os profetas clássicos (ver o cap. II desta obra). Isto significa que Jesus

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considerou o iminente dia do Senhor para Jerusalém como um tipo de aviso do juízo do mundo. Em harmonia com a profecia clássica de Israel, Cristo também combinou os dois juízos divinos em uma perspectiva profética bifocal:

Juízo do mundo Juízo de Jerusalém
Juízo do mundo
Juízo
de Jerusalém

A PERSPECTIVA DE JESUS 70 d.C.

SEGUNDA VINDA

A predição de Jesus não oferece nenhuma classe de adivinhação de acontecimentos futuros, mas sim, ao contrário, convoca a todas as pessoas a preparar- se para encontrar-se com Deus. Assim como os profetas da antiguidade, Jesus projetou como iminente o juízo sobre Jerusalém ("não passará esta geração", Mar. 13:30; ver mais adiante o cap. X desta obra), uma vez que colocou o juízo do mundo no distante tempo do fim ("daquele dia e hora ninguém sabe", Mar. 13:32). Jesus recalcou que a razão para a catástrofe iminente de Jerusalém foi seu

rechaço da visitação de Deus por meio do Messias: "E te derribarão

porquanto não

conheceste o tempo de tua visitação" (Luc. 19:44). Israel tinha rechaçado a seu verdadeiro Rei na pessoa de Cristo. Como resultado, Deus retirou sua presença, o que deixou só a justiça retributiva de Deus. Segundo o mesmo princípio, Jesus ordenou que "o evangelho seja pregado antes a todas as nações" (Mar. 13:10). Só então virá o juízo do mundo. Por essa razão, Cristo enviou a sua igreja com uma missão mundial:

"E será pregado este evangelho do reino em todo mundo, para testemunho a todas as nações; e então virá o fim" (Mat. 24:14; cf. 28:18-20).

Jesus também adotou o termo apocalíptico "o fim" do livro do Daniel. Em Daniel 9:26 e 27, "o fim" emprega-se como um sinônimo para uma "destruição" decretada divinamente sobre o horrível desolador. Isto faz pensar que o mundo será destruído pela mesma razão pela que foi devastada Jerusalém. Assim como Jerusalém foi destruída por rechaçar o Messias, assim o mundo será destruído por seu rechaço de Cristo como Salvador. Dessa maneira Cristo revelou a unidade da obra de Deus.

Cristo, a Chave para Entender a Profecia

A aproximação do inimigo à área do templo foi o sinal para que os seguidores de Cristo fugissem. Esse sinal serve como uma admoestação para todos os crentes, permitindo que escapassem de Jerusalém.

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"Quando virem 'a abominação da desolação' instalada onde não devia estar – que

o leitor entenda! – então os que estiverem na Judéia fujam para as montanhas" (Mar.

13:14, BJ). "Quando, portanto, virdes a 'abominação da desolação', de que falou o profeta Daniel, instalada no lugar santo – que o leitor entenda! –então, os que estiverem na Judéia fujam para as montanhas" (Mat. 24:15, 16, BJ). "Quando, porém, virdes Jerusalém sitiada de exércitos, sabei que está próxima a

sua devastação. Então, os que estiverem na Judéia, fujam para os montes; os que se encontrarem dentro da cidade, retirem-se; e os que estiverem nos campos, não entrem nela. Porque estes dias são de vingança, para se cumprir tudo o que está escrito" (Luc. 21:20-22). É importante reconhecer a função complementar dos três Evangelhos sinóticos no estudo do discurso profético do Jesus. As frases idênticas ao começo de cada relato indicam firmemente que Lucas interpreta a profecia de Marcos da "abominação desoladora" como sendo cumprida na desolação histórica de Jerusalém pelos exércitos de Roma em 70 d.C. Lucas acrescenta um esclarecimento importante dele próprio: que

a terrível desolação deve entender-se como um "castigo" divino em cumprimento de

tudo o que haviam predito os profetas de Israel. Mateus aponta explicitamente o profeta Daniel. Na verdade, Daniel contém a única profecia das 70 semanas de anos que anuncia a morte violenta do Messias seguida pela destruição de Jerusalém:

"E depois das sessenta e duas semanas se tirará a vida ao Messias, mas não por si;

e o povo de um príncipe que virá destruirá a cidade e o santuário" (Dan. 9:26). Quando os exércitos de Roma estavam aproximando-se da "santa cidade", podiam ser vistos por todos os que estavam na Judéia. Enquanto que Mateus e Marcos tinham falado só de uma "abominação desoladora" que viria, Lucas explica a seus leitores gentios que esta desolação estava a ponto de vir sobre Jerusalém por meio dos exércitos romanos (ver Luc. 21:20). A data da publicação do Evangelho de Lucas é debatida, mas se crê que é cerca do ano 70 d.C. O anúncio de Lucas de que a condenação de Jerusalém eram os "dias de retribuição, para que se cumpram todas as coisas que estão escritas" (Luc. 21:22), confirma a interpretação de que a morte violenta de Cristo e a conseqüente destruição de Jerusalém por Roma imperial cumpriram a profecia de Daniel 9. A declaração de Lucas também confirma a predição de Jesus de que sua própria geração não passaria sem que se cumprissem suas palavras (Mat. 24:34; 23:36; Mar. 13:30, 31). Agora podemos tirar a conclusão de que a profecia messiânica de Daniel das 70 semanas (Dan. 9:24-27) teve seu cumprimento histórico na morte de Cristo. Deste modo, Cristo é a chave para entender a profecia de Daniel. Também deve ser nosso guia para entender o cumprimento da "abominação da desolação", ou, como traduz Cantero-Iglesias, "o sacrilégio devastador".

O Anticristo Abominável

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O termo misterioso de Jesus – "a abominação da desolação" (BJ; RV 77), "o sacrilégio devastador" (CI) ou "a abominação que causa a desolação" (NIV) [bdélugma tes eremóseos] – é uma alusão direta à figura do antimessias que aparece na profecia de Daniel. Inclusive a visão do Daniel 8 foi denominada pelo anjo interpretador: "a visão da transgressão assoladora" (Dan. 8:13), "o pecado da desolação" (JS). Esta visão se centraliza no sacrilégio de pisar o templo de Deus e seus adoradores por parte de um poder jactancioso. Os capítulos posteriores em Daniel (caps. 9-12) aplicam a visão espantosa de Daniel 8 à era messiânica (9:24-27; 11:31-36; 12:11). Já na visão do Daniel 8 o próspero profanador desempenhou um papel proeminente como o adversário do Messias, o "príncipe dos exércitos" ou "Príncipe dos príncipes" (Dan. 8:11, 25). Isto significa que este desolador do santuário é apresentado no papel de um antimessias desde tempos tão antigos como quando Daniel escreveu seu livro! Pisoteia o santuário do Messias, o Príncipe dos exércitos: "O lugar de seu santuário foi lançado por terra" (Dan. 8:11). A explicação seguinte se estende sobre sua profanação e destruição: "Por sua astúcia nos seus empreendimentos, fará prosperar o engano, no seu coração se engrandecerá e destruirá a muitos que vivem despreocupadamente; levantar-se-á contra o Príncipe dos príncipes, mas será quebrado sem esforço de mãos humanas" (Dan. 8:25). Esse foi o conceito hebraico da natureza e a sorte do antimessias vindouro. Em seu discurso profético, Jesus fez mais que reproduzir tão somente a predição de Daniel. Como o Messias da profecia, alertou a seus discípulos e à igreja das idades futuras contra a chegada de seu rival que, portanto, pode ser chamado "o anticristo". Este anticristo não só se opõe ao verdadeiro culto de adoração, mas também profana o templo de Deus e engana e persegue os seguidores de Cristo. Dessa forma, o anticristo ocasiona a grande tribulação para o povo do novo pacto de Deus (Mar. 13:14-19; Mat. 24:15-21). Só a repentina aparição de Cristo em seu poder soberano como o Filho do Homem terminará bruscamente o reinado do anticristo. Cristo prometeu intervir pessoalmente e libertar o seu povo (Mar. 13:26, 27; Mat. 24:30, 31). Muitos expositores notaram um ponto interessante no fato de que Marcos se refere à "abominação" usando a forma masculina, como "posta (gr. estekóta, Mar. 13:14) onde não deve estar". Esta forma pessoal geralmente se interpreta como sugerindo que a ameaça não é uma apostasia impessoal, mas sim a origina uma pessoa específica. Cristo anunciou que depois de sua partida se levantariam muitos enganadores dizendo: "Eu sou o Cristo". Por outro lado, os verdadeiros seguidores de Cristo seriam odiados e perseguidos de morte em todo mundo "por causa de meu nome" (Mar. 13:12, 13; Mat. 24:9-11). O conflito se intensificaria até o grau em que os falsos cristos e os falsos profetas levariam a cabo milagres e sinais sobrenaturais para insistir em sua falsa adoração (Mar. 13:19-22; Mat. 24:21-24). Jesus aplica claramente o personagem antimessias de Daniel a mais de um anticristo individual, todos os quais desempenham o papel de falsos profetas até o fim do tempo.

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Por causa de sua aplicação ao tempo do fim, hoje merece nossa atenção um conselho específico de Jesus a seus discípulos em relação com a "abominação" que ia avançar contra a cidade apóstata de Jerusalém: "Então os que estejam na Judéia fujam para os montes" (Mat. 24:16; Mar. 13:14; Luc. 21:21). O conselho do Jesus foi um recordativo da ordem de Deus a Ló e sua família em Sodoma: "Escapa por tua vida escapa ao monte, não seja que pereças" (Gên. 19:17). Tanto Sodoma como Jerusalém tinham incorrido no juízo. Ambas as cidades tinham sido pesadas nas balanças do céu e tinham sido achadas faltas. Para ambas, tinha terminado o tempo de prova. A destruição que caiu sobre ambas as cidades foi só uma prefiguração de seu juízo futuro. Jesus tinha admoestado antes a Capernaum:

"Se em Sodoma se tivessem operado os milagres [do Messias] que em ti se fizeram, teria ela permanecido até ao dia de hoje. Digo-vos, porém, que menos rigor haverá, no Dia do Juízo, para com a terra de Sodoma do que para contigo" (Mat. 11:23, 24).

O conselho premente de Jesus a seus discípulos a fugir de Jerusalém como o lugar de apostasia e condenação implicava, portanto, sua chamada a evitar também a condenação final do céu. Os crentes fugiram no ano 66 D.C. não aos montes literais, e sim à cidade de Pella, no vale ao outro lado do Jordão, a 25 quilômetros ao sul do Mar da Galiléia. 4 No tempo indicado, os discípulos de Cristo tiveram que apartar-se da cidade condenada. Sua fuga foi uma fuga tanto da apostasia religiosa como de seu juízo. O livro do Apocalipse ratifica a aplicação do tempo do fim do conselho de Jesus de fugir de Jerusalém. Em Apocalipse 18 uma voz celestial anuncia no tempo do fim que "caiu a grande Babilônia", por causa de sua apostasia e posse demoníaca (Apoc. 18:2, 3). O divino ultimato será ativado então para os que permanecem em Babilônia:

"Saiam dela, meu povo, para que não sejam partícipes de seus pecados, nem recebam parte de suas pragas; porque seus pecados chegaram até o céu, e Deus se lembro de suas maldades" (Apoc. 18:4, 5).

Deste modo, o conselho de Jesus para fugir de Jerusalém no Mateus 24:16 encontra no tempo do fim sua aplicação universal. Sabemos pelas epístolas de Paulo aos Tessalonicenses (especialmente 2 Tes. 2) e pelas epístolas de João, que o conceito do anticristo era um tema familiar na igreja apostólica. Portanto, podemos deduzir que a advertência contra o anticristo foi considerada desde o começo como uma parte essencial da mensagem que Cristo mesmo comissionou à igreja. Cristo e os apóstolos Paulo e João já consideraram a identificação do anticristo como um assunto de legítima importância. Um erudito do Novo Testamento, Herman Ridderbos, comenta o seguinte sobre Mateus 24:15:

"Alguns comentadores corretamente colocaram este versículo em relação com o anticristo do que se fala em 2 Tessalonicenses 2:4, quem 'senta-se no templo de Deus como Deus, fazendo-se passar por Deus'. Embora Jesus estava falando principalmente da queda de Jerusalém, o fim do mundo e as abominações que traria consigo tinham caído dentro da esfera de seu discurso do próprio começo (ver Mat. 24:3). Por assim dizer, descreveu o fim do mundo tal como aconteceu em Jerusalém e à maneira de Jerusalém. E disse que a aparição abominável e blasfema do anticristo seria na verdade um dos sinais dos últimos dias". 5

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O estudo da doutrina do anticristo nos Evangelhos e nas epístolas é uma preparação necessária para o estudo do livro do Apocalipse. O Apocalipse de João pode ser considerado como o desenvolvimento mais extenso do discurso de Cristo no monte das Oliveiras. Foi dito que João omitiu o discurso profético de Cristo de seu quarto Evangelho porque escreveu todo um livro sobre a revelação do Jesus Cristo (Apoc. 1:1). Seja como for, um estudo cuidadoso do livro do Apocalipse é uma parte indispensável de nossa fé cristã.

O Anticristo Pós-Apostólico

É notável que Marcos e Mateus não identificam o "sacrilégio abominável" explicitamente com o exército romano como o faz Lucas. Por conseguinte, a descrição simbólica em Mateus e Marcos está aberta a mais de uma aplicação, isto é, tanto ao Império Romano idólatra como a um futuro profanador religioso do templo de Deus. Para dizer de forma diferente, tanto o exército romano como o anticristo estão descritos em uma perspectiva do futuro que os inclui ambos. A aplicação local se amplia, de acordo com a tipologia bíblica, em um cumprimento cada vez mais universal. Jesus usou a perspectiva profética de combinar o cumprimento histórico iminente e o cumprimento futuro do tempo do fim sem deter-se em nenhum lapso de tempo intermediário. Contempla todos os messianismos políticos e religiosos essencialmente como uma abominação, mesmo que se pressentem em mais de uma manifestação histórica: primeiro dentro do judaísmo; depois, dentro do cristianismo. O novo Israel (a igreja) repetiria a história do antigo o Israel (ver Ezeq. 8 e 9) e desenvolveria outra apostasia religiosa em sua adoração que provocaria o juízo divino. A apostasia do cristianismo estaria encarnada no anticristo e em seu culto religioso sacrílego. Os pretendentes messiânicos judeus que afirmavam que Jerusalém e o templo nunca cairiam, foram só cumprimentos parciais ou tipos do falso messianismo que ia aparecer dentro da igreja. Toda vez que a um líder religioso de qualquer denominação cristã lhe concede excessiva reverência e a última autoridade, obscurece-se o único lugar e a glória do reinado de Cristo.

Cristo advertiu a seu seguidores: "Então, se alguém vos disser: Eis aqui o Cristo! Ou: Ei-lo ali! Não acrediteis; porque surgirão falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos" (Mat. 24:23, 24; cf. Mar. 13:21, 22). Não é a realização de grandes sinais e milagres, e sim a autorizada Palavra de Deus e o testemunho do Jesus o que forma a norma final da verdade. Jesus alertou à igreja ao dever que tem para detectar o engano do anticristo. A advertência do Jesus contra o sacrilégio ou a abominação que viria se refere a muito mais que ao exército romano entrando em Jerusalém em 70 d.C. O sacrilégio do anticristo se desenvolveria mais tarde em uma forma mais completa dentro da igreja, como o explicou Paulo em 2 Tessalonicenses 2. Este cumprimento se estenderia

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através da Idade Média e encontraria uma manifestação renovada no tempo do fim. Em seu discurso profético, Cristo não explicou de uma maneira explícita como se

manifestaria exatamente o "sacrilégio" de sua obra redentora na história da igreja. Esse

é o tema de 2 Tessalonicenses 2 e do livro do Apocalipse.

O Estilo Apocalíptico de Mateus 24

Não se pode reduzir a estrutura da profecia mestra de Cristo a uma perspectiva puramente tipológica. O discurso tem uma estrutura complexa no que se pode detectar

a reiteração e a recapitulação. Entretanto, só uns poucos reconheceram que a estrutura da profecia de Jesus está modelada segundo o livro do Daniel, quer dizer, que há um

paralelismo progressivo. A repetição e a ampliação são características tanto de Daniel como do Apocalipse. E como bem o notou LeRoy E. Froom, "tanto Daniel como João começam com a revelação de coisas que aconteceriam em seu próprio tempo, e levam

o leitor a grandes passos através dos séculos, com a revelação de acontecimentos que

chegam até o fim da era cristã". 6 As visões do Daniel 2, 7 e 8 em essência são reiterativas, mas com todo cada uma acrescenta detalhes para esclarecer o tema básico. Jesus insistiu com seus seguidores a ler e entender as profecias apocalípticas de Daniel (Mat. 24:15). Mateus apresenta o discurso de Jesus para seu auditório judeu em uma forma que reflete o estilo do livro de Daniel. Em Mateus 24 podem distinguir-se duas predições paralelas, e cada uma conclui com o fim ou a segunda vinda de Cristo: a primeira nos versículos 1-14; a segunda nos versículos 15-31. O cumprimento universal de ambas as séries está declarado nas palavras seguintes:

"E será pregado este evangelho do reino em todo o mundo, para testemunho a todas as nações; e então virá o fim" (Mat. 24:14). "Então aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; e então lamentarão todas as tribos da terra, e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória" (v. 30; ver também o v. 44).

A estrutura paralela das duas predições da era da igreja, culminando cada uma na segunda vinda de Cristo, é similar às profecias apocalípticas de Daniel. Além disso, Mateus 24 também revela algumas similitudes teológicas com o Daniel. A unidade cuidadosamente estruturada do Mateus 24:10-12, que se enfoca sobre o aumento da maldade [anomia] (v. 12), pode entender-se melhor como uma expansão da apostasia profetizada no livro de Daniel. A frase "o amor de muitos [tom polón] esfriará-se" (Mat. 24:12) é uma alusão a quão muitos apostatariam do pacto de Deus descrito em Daniel 11:32. Isto significa que o aumento estendido da maldade em Mateus 24:12 aumenta a iniqüidade idólatra da "abominação desoladora" de Daniel. Estamos de acordo com a conclusão de David Wenham de que a predição de Jesus em Mateus 24:10-12 descreve "um aumento escatológico da apostasia em termos daniélicos". 7 Foi desta maneira como Daniel predisse a era cristã e sua decadência espiritual.

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A Ênfase de Lucas Sobre o Curso da História

Enquanto que Mateus 24 e Marcos 13 apresentam a aplicação que Cristo faz do

anticristo de Daniel em uma dupla perspectiva – na qual o cumprimento iminente e o

do tempo do fim se relacionam como tipo e antítipo –, Lucas 21 enfatiza mais a ordem

histórica dos acontecimentos na história da igreja. Como historiador (ver Luc. 1:1-4), Lucas estava mais interessado em um cumprimento contínuo-histórico da profecia do Daniel. Isto não quer dizer que Lucas busque descrever uma seqüência detalhada dos eventos, em que cada um se harmonize com algum símbolo apocalíptico das séries esboçadas por Daniel; esse enfoque é o que Paulo segue em 2 Tessalonicenses 2 e mais profundamente o Apocalipse de João. O

interesse de Lucas é mais indicar que entre a queda de Jerusalém e o glorioso advento

de Cristo transcorreria um período de tempo considerável. Esta realidade devia esfriar

a febre apocalíptica de todos os que esperavam a volta iminente de Cristo

conjuntamente com a destruição de Jerusalém. Por conseguinte, Lucas coloca o clamor: "O tempo está perto" (Luc. 21:8), nos lábios dos falsos profetas! Só Lucas aplica o sinal de Jesus da aproximação da "abominação da desolação" ao assédio de Jerusalém por forças militares (Luc. 21:20). Ao que Mateus e Marcos tão-somente fizeram alusão, Lucas o aplica explicitamente a um acontecimento histórico específico para Jerusalém, pode-se dizer que Lucas faz concreta para sua geração a admoestação de Jesus da vindoura "abominação da desolação", quando diz:

(Luc. 21:20). Muitos eruditos

bíblicos admitem o relatório de Flavio Josefo, que disse que os exércitos romanos se distinguiam por sua reverência para as bandeiras militares com as insígnias imperiais. 8 Além disso, Lucas declara que a destruição de Jerusalém foi o tempo do "cumprimento de tudo o que está escrito" (Luc. 21:22, JS), uma alusão a Daniel 8 e 9.

Coloca a devastação de Jerusalém dentro da providência e reino soberano de Deus. Esta catástrofe histórica forma uma parte significativa da história da revelação divina à nação judia, Cristo até adicionou uma finalidade sem precedentes a esse juízo: "Vós

também encheis a medida de seus pais!

esta geração" (Mat. 23:32, 36). Mateus e Marcos fazem alusão ao intervalo entre a queda de Jerusalém e a volta de Cristo, declarando que será um tempo de tribulação sem igual para os escolhidos (Mat. 24:21, 22; Mar. 13:19, 20). Esses "escolhidos" são qualificados depois por Cristo como "seus" escolhidos (Mat. 24:31). Por conseguinte, são crentes cristãos. Isto significa que os verdadeiros crentes em Cristo não serão arrebatados do mundo antes do tempo da tribulação, mas sim passarão por ela. Mateus acrescenta que esses dias serão abreviados por causa dos escolhidos (Mat. 24:22). Com respeito ao período entre os dois adventos, Lucas faz uma declaração reveladora: "Até que os tempos dos gentios se completem, Jerusalém será pisada por eles" (Luc. 21:24). Aqui Lucas assinala que a segunda vinda de Cristo não deve esperar-se pouco depois da destruição de Jerusalém. Ao denominar a esse período

De certo vos digo que tudo isto virá sobre

"Quando virem Jerusalém rodeada de exércitos

"

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intermediário "tempos de gentios" (sem artigo no original), em uma forma geral, Lucas os caracteriza como tempos de opressão para Jerusalém e para os judeus. Muitos expositores consideram que esses "tempos de gentios" começaram no ano 70 d.C. e terminarão só quando toda a dominação gentia sobre os judeus for esmagada pelo advento de Cristo (ver Dan. 2:34, 35, 44; Apoc. 19:11-21). Esta conclusão parece ser confirmada pela profecia de Daniel, que a "desolação" continuará até o fim (Dan. 9:26, 27).

Enquanto Mateus e Marcos seguem a estrutura de uma perspectiva profética dupla ou bifocal, a descrição de Lucas do discurso de Jesus se caracteriza mais por uma sucessão direta de acontecimentos históricos. Mateus e Marcos representam a perspectiva tipológica da profecia clássica dos profetas de Israel com sua escala de tempo condensada. Entretanto, Lucas escolhe seguir o modelo contínuo-histórico inserindo a frase "tempos de gentios" depois da queda de Jerusalém. Ambos os enfoques são complementares e igualmente válidos, porque cada um continua uma tradição do Antigo Testamento: a profecia clássica e o tipo contínuo-histórico da apocalíptica de Daniel.

A Teologia de Cristo dos Sinais Cósmicos

Nos três Evangelhos sinóticos a aparição do Filho do Homem está anunciada por sinais cósmicos. Esses sinais acompanharão a vinda do Filho do Homem quando trouxer o reino de Deus aos santos (Mar. 13:24-27; Mat. 24:29-31; Luc. 21:25-28). Um breve exame da linguagem figurada cósmica na tradição profética mostrará

sua significação teológica. Os profetas empregaram os sinais no céu como um idioma estereotipado para indicar um juízo retributivo de Jeová:

1. Contra Babilônia:

Os astros

do céu, as constelações, não cintilam sua luz; entreva-se o sol ao sair, a lua não irradia

sua luz. Porque sacudirei o céu e se moverá a terra de seu lugar. Pela cólera do Senhor, o dia do incêndio de sua ira" (Isa. 13:9, o, 13, NBE).

"Olhem: Chega o dia do SENHOR

para fazer da terra uma desolação

2. Contra Egito:

"E quando te tiver extinto cobrirei os céus, e farei escurecer suas estrelas; o sol cobrirei com nublado, e a lua não fará resplandecer sua luz. Farei escurecer todos os astros brilhantes do céu por ti, e porei trevas sobre sua terra, diz Jeová o SENHOR" (Ezeq. 32:7, 8).

3. Contra Jerusalém:

"Diante dele [o exército de lagostas] tremerá a terra, estremecer-se-ão os céus; e o

sol e a lua se obscurecerão, e as estrelas retrairão seu resplendor. O sol se converterá em

Porque

está perto o dia de JEOVÁ no vale da decisão. O sol e a lua se obscurecerão, e as estrelas retrairão seu resplendor" (Joel 2:10, 31; 3:14, 15).

trevas, e a lua em sangue, antes que venha o grande e espantoso dia de JEOVÁ

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4. Contra Judá:

"Porque assim diz JEOVÁ dos exércitos: Daqui a pouco eu farei tremer os céus e a

terra, o mar e a terra seca; e farei tremer todas as nações, e virá o Desejado de todas as

Fala com Zorobabel

governador de Judá, dizendo: Eu farei tremer os céus e a terra; e transtornarei o trono dos reinos, e destruirei a força dos reinos das nações; transtornarei os carros e os que neles sobem, e virão abaixo os cavalos e seus cavaleiros, cada qual pela espada de seu irmão" (Ag. 2:6, 7, 21, 22).

nações; e encherá de glória esta casa, disse JEOVÁ dos exércitos

5. Na descrição poética que Habacuque faz do guerreiro divino contra Babilônia:

"O sol e a lua se pararam em seu lugar; à luz de suas setas andaram, e ao resplendor de seu fulgente lança " (Hab. 3:11).

6. Contra Israel (as o tribos em apostasia):

"Acontecerá naquele dia, diz Jeová o SENHOR, que farei que fique o sol ao meio-dia,

e cobrirei de trevas a terra no dia claro" (Amós 8:9; 9:5 [primeiras 2 linhas]; cf. Jer. 15:9 para Jerusalém).

7. Contra Edom:

"E todo o exército dos céus se dissolverá, e se enrolarão os céus como um livro; e cairá todo seu exército, como cai a folha da parra, e como cai a da figueira" (Isa. 34:4).

8. Contra o mundo inteiro:

"A terra será de todo quebrantada, ela totalmente se romperá, a terra violentamente

se moverá

reinar no monte de Sião e em Jerusalém, e diante de seus anciões seja glorioso" (Isa. 24:19, 23).

A lua se envergonhará e o sol se confundirá, quando JEOVÁ dos exércitos

Em todas estas passagens, os sinais celestes servem só para introduzir o juízo do dia do Senhor, mesmo que se refiram cada vez a uma sentença iminente na história. Os sinais anormais no Sol, na Lua e nas estrelas eram parte da linguagem apocalíptica corrente dos profetas de Israel. A dimensão cósmica ensinou Israel a ver os juízos históricos de Deus como tipos de seu juízo final. Portanto, o propósito moral dessa linguagem figurada cósmico era uma advertência implícita a preparar-se para o juízo iminente do dia do Senhor. Jesus modificou o significado teológico desta linguagem figurada cósmica, mudando de ordem os sinais no céu para cerca de sua própria manifestação futura como o Filho do Homem:

"O sol obscurecerá, e a lua não dará seu resplendor, e as estrelas cairão do céu, e as potências dos céus serão comovidas. Então aparecerá no céu o sinal do Filho do homem;

e então todas as tribos da terra lamentarão, e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória" (Mat. 24:29, 30; cf. Mar. 13:24-26).

É evidente que Jesus emprega só a linguagem do Antigo Testamento para descrever sua segunda vinda. Cristo combina dois oráculos de juízo, um contra Babilônia (ver Isa. 13:10) e um contra Edom (ver Isa. 34:4). A fusão que faz Jesus das duas passagens proféticas de juízo ensina que estas profecias se cumpriram só de

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forma parcial na queda da antiga Babilônia e do Edom. Na teologia de Cristo, estes oráculos encontrarão sua consumação completa no juízo cósmico-universal em seu segundo advento. A mensagem surpreendente de Cristo é que o juízo do mundo não virá só de Jeová. Será executado por seu Filho, que é o Filho do Homem da profecia do Daniel:

E também lhe deu

autoridade de fazer juízo, por quanto é o Filho do Homem" (João 5:22, 27).

Como resultado do discurso profético do Jesus, qualquer teofania (manifestação de Deus) no Antigo Testamento se reestrutura como uma gloriosa cristofania (manifestação de Cristo). Esta interpretação cristológica do dia do Senhor é uma verdade teológica assombrosa na aplicação que Jesus faz do livro de Daniel. Em sua nova teologia, Cristo transferiu os sinais cósmicos dos livros proféticos à sua própria manifestação futura, de tal modo que todas as profecias de Israel começam e terminam nele. Esta é a essência da teologia de Cristo dos sinais cósmicos. Esta conclusão se confirma na tese sobre Mateus 24:27-31 do Dr. Ki Kon Kim:

"O vocabulário e os temas do Antigo Testamento, de seu ponto de vista profético e apocalíptico, proporcionam a estrutura da cena da parousia tal como a apresenta Mateus. Ele combina quase todo o vocabulário apocalíptico dos temas do Antigo Testamento em sua cena da parousia, e descreve que todos os termos proféticos e os símbolos apocalípticos do Antigo Testamento se encontram e se cumprem no Filho do Homem, quem virá nas nuvens do céu com poder e grande glória. Essa é a razão principal pela qual Mateus 24:29-31 mostra mais continuidade com o Antigo Testamento que nenhum outra passagem no Novo Testamento". 9

"Porque o Pai a ninguém julga, mas sim todo o juízo deu ao Filho

Alguns eruditos consideram a linguagem figurada cósmica só como algo simbólico, como uma linguagem metafórica para dar a entender o começo da era messiânica (como se diz que fez Pedro no At. 2:19, 20). Nesse caso, os sinais no céu serviriam só como "efeitos cênicos apocalípticos" que não pertencem à substância da profecia e que, portanto, não requerem um cumprimento literal. Entretanto, outros estudantes da Bíblia mais conservadores advertiram que não se confundam as expressões poéticas com o alegorismo. Preferem chamar esta linguagem figurada cósmica como "linguagem semi poética", porque representa acontecimentos escatológicos que transcendem nossa experiência histórica limitada. Se a segunda vinda de Cristo é uma vinda literal, então também deve pensar-se nos sinais da parousia como eventos cósmicos literais. Os Evangelhos do Mateus e Marcos parecem indicar que os sinais cósmicos introduzem e acompanham o segundo advento de Cristo. Entretanto, o relatório do Lucas sugere que os "sinais no sol, na lua, e nas estrelas" podem também ser um prelúdio à vinda do Filho do Homem. Lucas associa os sinais no céu com desastres naturais sobre a terra, que juntos produzirão pavor nos corações de todos: "Haverá homens que desmaiarão de terror e pela expectativa das coisas que sobrevirão ao mundo; pois os poderes dos céus serão abalados" (Luc. 21:25, 26).

A Universalização que Cristo Fez das Profecias

As Profecias do Tempo do Fim

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do Tempo do Fim

A culminação final do discurso de Jesus se centra na vindicação de seus discípulos caluniados através dos séculos. O Filho do Homem virá com seus anjos

para reunir a si "seus escolhidos" de todos os pontos cardeais do mundo (Mar. 13:27; Mat. 24:31). Mateus acrescenta que essa reunião será precedida "com grande voz de trombeta" (Mat. 24:31), uma alusão direta ao som da trombeta do jubileu no panorama

apocalíptico de Isaías: "Acontecerá naquele dia

vós, filhos do Israel, sereis reunidos

um a um. Acontecerá também naquele dia, que se tocará com grande trombeta" (Isa. 27:12, 13).

Jesus declarou que todas as antigas promessas do pacto que anunciam que Israel seria reunido ou restaurado como povo de Deus, cumprir-se-ão em seus seguidores em sua segunda vinda. Serão "seus escolhidos" (ver também Luc. 21:28; cf. 1 Ped. l:1, 2; 2:9). Com o qual Cristo definiu o Israel de Deus em termos de seus próprios discípulos. Por conseguinte, constituiu o povo de Deus do novo pacto como o povo de Cristo. Além disso prometeu que a sua vinda "lamentarão todas as tribos [fulái] da terra" (Mat. 24:30). Esta frase é uma alusão à profecia de Zacarias que prediz que todas as tribos "na terra" [Palestina] se lamentarão porque olharão a Deus como "a quem transpassaram" (Zac. 12:10-14). Cristo aplicou de novo este oráculo de juízo nacional de Zacarias em uma escala mundial, para cumprir-se em "todas as tribos da terra" (Mat. 24:30). Todas estas tribos ou linhagens da raça humana verão "o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória" (V. 30). Esta aplicação universal das tribos de Israel forma também uma tônica no livro do Apocalipse:

"Vejam, vem com as nuvens e todos os olhos o verão e até os que o transpassaram; e farão luto todas as tribos [fulái] da terra. Sim, assim seja" (Apoc. 1:7, JS; CI).

Cristo mesmo introduziu este principio de universalizar os oráculos de juízos locais e nacionais de Israel. Não foi um literalista ou um racista em sua interpretação profética das Escrituras. Universalizou de uma maneira consistente as promessas do pacto de Israel, e o princípio de aplicação mundial das profecias hebraicas chegou a ser uma parte essencial da interpretação apostólica da Escritura.

Resumo

O discurso do monte das Oliveiras apresenta o comentário de Cristo sobre as profecias apocalípticas de Daniel. Jesus fez aplicações históricas todas as quais se centram ao redor de seu primeiro e segundo adventos. Com isso deu às predições do Daniel uma interpretação cristológica como a chave para decifrar a profecia apocalíptica. Explicou com franqueza que a profetizada queda de Jerusalém seria o

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resultado do rechaço final de seu messianismo por parte do Israel. Até seus próprios seguidores teriam que sofrer condenação à mãos de religiosos fanáticos falsos. Mas a vindicação final dos santos verdadeiros e a sentença definitiva de seus perseguidores será quando Cristo retorne como o Filho do Homem que Daniel apresenta, acompanhado por uma nuvem de anjos. Então, todas as tribos do mundo terão que fazer frente ao mesmo juízo do qual teve que fazer frente Jerusalém. Segundo os Evangelhos do Marcos e Mateus, Jesus colocou ambos os juízos em uma perspectiva tipológica, em harmonia com a estrutura da profecia clássica. O Evangelho de Lucas apresenta uma perspectiva complementar: a de uma aplicação contínuo-histórica da profecia apocalíptica de Daniel. Jesus não fundamentou suas expectativas proféticas em nenhuma das especulações ou programas apocalípticos judeus. Por isso se refere a isto, foi um antiapocalíptico. Falou do futuro só na linguagem dos profetas do Antigo Testamento. A novidade de sua opinião foi o princípio interpretativo de que as profecias de Israel se cumpririam só nele e por meio dele. Transformou toda a profecia apocalíptica em escatologia cristológica, quer dizer, em cumprimentos centrados em Cristo. Por conseguinte, as promessas do pacto de Deus com Israel se cumprirão só em quem esteja unido com Cristo. O propósito moral do discurso profético de Cristo é recalcar à sua igreja a necessidade de estar preparada para sua breve vinda:

"Mas a respeito daquele dia ou da hora ninguém sabe; nem os anjos no céu, nem o Filho, senão o Pai. Estai de sobreaviso, vigiai e orai; porque não sabeis quando será o tempo" (Mar. 13:32, 33).

A frase bíblica "os últimos dias" indica que a primeira e a segunda vinda de Cristo são uma unidade inseparável. Não importa quantos séculos possam passar entre

a ressurreição de Cristo e sua volta, ambos os eventos messiânicos são um para o outro como dois momentos de um inquebrantável plano de Deus. Porque o Messias já veio,

e agora é o Senhor exaltado de todos, o segundo advento sempre está "perto" para os

olhos da fé e deve ser esperado com uma paciência rigorosa. Esta certeza é a mesma essência da esperança do evangelho. Contudo, Cristo também reconheceu a

necessidade de sustentar esta esperança ao nos dar sinais no tempo histórico que indicariam, para o investigador perspicaz, a última fase da história da redenção.

"Ao começarem estas coisas a suceder, exultai e erguei a vossa cabeça; porque a vossa redenção se aproxima" (Luc. 21:28).

Todos os relatos dos Evangelhos sinóticos concluem com uma lição da figueira que brota: "Quando já seu ramo está tenro, e brotam as folhas, sabeis que o verão está perto" (Mat. 24:32; Mar. 13:28; cf. Luc. 21:29). Isto significa que embora não podemos conhecer "o dia nem a hora" não temos desculpa por ignorar os sinais dos tempos, particularmente o sinal a respeito da grande apostasia dentro da igreja cristã. Esperar a vinda de Cristo exige uma vigilância incessante e um conhecimento do cumprimento progressivo da profecia apocalíptica de Daniel. A escatologia bíblica chegará a ser relevante para o presente só quando os sinais do fim forem tomados em seu cumprimento histórico. Discernir os sinais enquanto mantemos nossa vista na vinda do Senhor, revitalizará nossa fidelidade ao Jesus.

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Referências

Para a Bibliografia, ver nas páginas 82-84.

1.

"Salmos

de

Salomão",

17,

em

Charlesworth,

The

Old

Testament

Pseudepigrapha, v. 2, p. 667.

 

2.

Flavio Josefo, Obras completas

Antiguidades judias. X, 11, 7 (v. 2, pp. 213-

215).

3.

Ver o livro de Wenham, The Rediscovery of Jesus' Eschatological Discourse

4.

Ver Eusébio de Cesárea, História Eclesiástica (Buenos Aires: Editorial Nova, 1950), III, 5, pp. 106, 107.

5.

Herman Ridderbos, Matthew, [Mateus] (Grand Rapids: Zondervan, 1987), p.

444.

6.

L. E. Froom, The Prophetic Faith of Our Fathers, v. 4, p. 1241.

 

7.

Ver o artigo de Wenham a respeito de Mateus 24:10-12, N.° 31, p. 161.

8.

William Whiston, trad., The Works of Josephus: Wars [As obras do Josefo:

Guerras] (Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1987), VI, 6, 1 (p.

743).

9.

K. K. Kim, The Signs of the Parousia: A Diachronic and Comparative Study of the Apocalyptic Vocabulary of Matthew 24:27-31, v. 2, p. 391.

FONTES BIBLIOGRÁFICAS DO CAPÍTULO VI

Livros

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Ford,

Desmond.

Abominação

The

da

Abomination

Desolação

na

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Escatologia

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A COMPREENSÃO DE PAULO DAS PROFECIAS DE DANIEL

O esboço apocalíptico da história da igreja que Paulo apresenta em 2 Tessalonicenses 2 cumpre um propósito similar ao que cumpre Mateus 24 (e paralelos) nos Evangelhos. Não há uma predição mais explícita a respeito da era da igreja no Novo Testamento. É estranho, mas a maioria dos comentadores entende que este capítulo é uma passagem escura nos escritos paulinos. Em geral se reconhece que o apóstolo em 2 Tessalonicenses 2 tem como propósito dar conselho pastoral para seus dias, a mesma finalidade que teve Cristo ao pronunciar seu discurso profético. Por conseguinte, devemos supor que as frases que Paulo usa aqui não eram desconhecidas para os leitores cristãos a quem dirigiu sua carta ao redor de 50 d.C. Muitos acreditam que a segunda epístola do apóstolo aos Tessalonicenses foi escrita para rebater um mal-entendido que tiveram alguns membros da igreja com sua primeira carta: que o dia do Senhor viria em forma repentina "como ladrão de noite" (1 Tes. 5:2, 4), e que Paulo e outros poderiam estar "ainda vivos" quando retornasse o Senhor (4:15).

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Evidentemente, alguns tinham suposto que o dia do Senhor "já tinha chegado" ou que ia acontecer em qualquer momento (2 Tes. 2:2). Esta idéia injustificada de uma expectativa iminente tinha levado alguns membros a converter-se em ociosos ou a entusiasmar-se e desordenar-se excessivamente (2 Tes. 3:6-15). Paulo trata de corrigir o engano desta expectativa – que o dia do Senhor podia ocorrer em qualquer momento –, e deduz seu argumento do esboço apocalíptico do Daniel. Na opinião de Paulo, para fazer frente ao engano de uma esperança desencaminhada era essencial conhecer a ordem consecutiva de dois acontecimentos fundamentais na história da igreja, e esses dois eventos proféticos, em ordem cronológica, são: a vinda do anticristo e a vinda de Cristo. Primeiro, "a apostasia" [e apostasia] deve manifestar-se no "homem de iniqüidade" [o ánthropos tes anomias] até "sentar-se ele mesmo no templo de Deus" [éis ton naón tou theú kathísai], acompanhado por "sinais e prodígios de mentira" (2 Tes. 2:3, 4, 9, JS). Só então o Senhor se revelará e destruirá o iníquo (2 Tes. 2:8). A advertência de Paulo se enfoca no surgimento da apostasia dentro do templo de Deus durante a era da igreja, quer dizer, dentro da igreja como uma instituição (ver 2 Cor. 6:16-18; 1 Cor. 3:16; Ef. 2:19-21). Seu ponto de vista é que esta apostasia vindoura, profetizada por Daniel, não se tinha desenvolvido como um fenômeno público na igreja apostólica, mesmo que o mistério da iniqüidade "estava já em ação" (2 Tes. 2:7). Por conseguinte, o dia do Senhor não podia ter chegado nem podia esperar-se no futuro imediato. Paulo empregou seu conhecimento apocalíptico sobre o futuro da história da igreja para corrigir um apocalipticismo extremo na igreja apostólica. O uso que o apóstolo fez do livro de Daniel como a fonte de seu esboço profético de história da igreja, faz que 2 Tessalonicenses 2 seja outro elo indispensável entre os livros de Daniel e Apocalipse.

O Enfoque Contínuo-Histórico em Daniel

Daniel profetiza o reinado de 4 impérios mundiais sucessivos em duas ocasiões (caps. 2 e 7). O anjo interpretador os identifica como Babilônia, Medo-pérsia e Grécia (ver Dan. 2:38; 8:20, 21), e aponta Roma em Daniel 9:26 e 27. O ponto crítico na visão de Daniel, que necessita que se preste cuidadosa atenção, é a revelação de que a quarta besta (ou império) tem 10 chifres, dentre os quais surge lentamente um décimo primeiro "chifre pequeno" para converter-se no anticristo. O anjo interpretador explica isto de uma maneira mais precisa:

"Os dez chifres correspondem a dez reis que se levantarão daquele mesmo reino; e, depois deles, se levantará outro, o qual será diferente dos primeiros, e abaterá a três reis. Proferirá palavras contra o Altíssimo, magoará os santos do Altíssimo e cuidará em mudar os tempos e a lei; e os santos lhe serão entregues nas mãos, por um tempo, dois tempos e metade de um tempo. Mas, depois, se assentará o tribunal para lhe tirar o domínio, para o destruir e o consumir até ao fim tempo, e tempos, e meio tempo" (Dan. 7:24-26).

não diz que o 4° império (Roma) estaria regido por 10 reis

contemporâneos, porque isso estaria contra a história de Roma. Antes, a declaração do

O

anjo

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anjo é que "deste" império mundial sairiam 10 reis que reinariam em forma contemporânea. Esta ordem de eventos, a substituição do Império Romano pelos reinos divididos da Europa, também foi profetizado pelo sonho da estátua de Nabucodonosor: "O que viste dos pés e os dedos, em parte de barro cozido de oleiro e em parte de ferro, será um reino dividido" (Dan. 2:41). Os reino dos 10 reis substituíram gradualmente o Império Romano e durarão até que o reino da glória os substitua no dia do juízo (Dan. 2:44, 45; 7:26, 27). Dessa forma, Daniel 2 e 7 incluem todo o espectro da infeliz Idade Média dentro de sua esfera profética. Ignorar esse intervalo de tempo de tantos séculos na perspectiva profética de Daniel é o descuido fundamental de dois sistemas dogmáticos de interpretação: o preterismo e o futurismo. Ambas as escolas de interpretação criam um intervalo injustificado de mais de 1.500 anos na história profética de Daniel, como se a Idade Média, caracterizada pelo surgimento do reino papal entre os dez reis da Europa, não fora pertinente na perspectiva que Deus tem da história. Os símbolos do Daniel devem interpretar-se em harmonia com a história, em particular com a história eclesiástica. A profecia fica confirmada por seu cumprimento (João 14:29). Em seu discurso profético, Cristo aparentemente tomou a futura história da igreja com uma seriedade inconfundível. É essencial para a escatologia cristã reconhecer que Cristo interpretou a destruição de Jerusalém por parte dos exércitos romanos como o cumprimento das profecias do Daniel (ver Mat. 24:15; Luc. 21:20-24). Isto confirma a opinião que diz que a quarta besta de Daniel 7 representa a Roma imperial (cf. Dan. 9:26, 27). O ponto decisivo é que Cristo tomou o esboço profético de Daniel como a pauta para seu próprio panorama do futuro, e depois identificou uma certa característica profética em Daniel como cumprindo-se em sua própria geração. Este método de interpretar o esboço apocalíptico do Daniel também foi seguido pelo apóstolo Paulo em 2 Tessalonicenses 2, essa vez para demonstrar que o dia do Senhor não era algo iminente. Como resultado, o esboço de Paulo e o discurso de Cristo têm paralelos notáveis em suas aplicações históricas.

Paralelos Entre os Esboços Apocalípticos de Jesus e Paulo

Muitos se deram conta de que o esboço profético de Paulo em 2 Tessalonicenses exibe um paralelo estrutural notável com o discurso de Jesus no monte das Oliveiras. Ambos os esboços apocalípticos contêm termos idênticos e similares, tais como o advento, o dia do Senhor, a reunião dos santos, o engano do anticristo, e sinais e milagres. Inclusive alguns comentadores inferiram que o discurso profético de Cristo foi a fonte primária do ensino do Paulo (cf. 1 Tes. 4:15). Estabeleceu-se uma semelhança muito surpreendente de expressões entre esses dois capítulos. Portanto, podem-se estudar ambos os esboços apocalípticos juntos com muito proveito. Ao mesmo tempo, precisamos compreender que tanto Jesus como Paulo fundamentam seu panorama do futuro sobre o esboço apocalíptico de Daniel. E cada um tem o propósito de aplicar o ponto de vista de Daniel da história contínua da salvação a sua época

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contemporânea. Esta fonte daniélica comum explica por que Jesus e Paulo usam frases e esboços similares. Como já observamos antes, Paulo insiste com os Tessalonicenses a não ser enganados ao acreditar que o dia do Senhor já veio. Seu argumento principal é que "a rebelião" representada pelo "homem de iniqüidade" ainda não se revelou publicamente no cenário da história (2 Tes. 2:3). Do mesmo modo, Jesus indicou que durante a era da igreja, "muitos se desviariam da fé" (literalmente, "tropeçarão") e se entregariam e aborreceriam uns aos outros, e se levantariam muitos falsos profetas e enganariam a muitos (Mat. 24:10, 11 ). Até o próprio fim, insistiu Cristo, "se levantarão falsos Cristos e falsos profetas, e farão grandes sinais e prodígios, de tal maneira que enganarão, se for possível, até os escolhidos" (Mat. 24:24). Parece que, de acordo com Jesus, os Messias falsos são os que afirmariam ser Cristo em sua segunda vinda; e os falsos profetas são os que falsamente afirmam falar em nome de Cristo. Jesus começou seu discurso profético com a advertência: "Vede que ninguém vos engane" (Mat. 24:4). Paulo adota o mesmo começo: "Ninguém vos engane de maneira nenhuma" (2 Tes. 2:3). Com seus esboços proféticos, ambos tratam de esfriar uma expectativa prematura e exagerada da volta de Cristo. Cada um enfatiza que se desenvolverá uma apostasia horrível, o que precipita e faz necessário a execução do juízo da vinda de Cristo. Cristo descreve a natureza da apostasia vindoura como "a abominação da

instalada no lugar santo" (Mat. 24:15, BJ), uma alusão evidente à

profanação blasfema do templo que se prediz em Daniel 8 e 9. Paulo personifica a apostasia religiosa em "o homem do pecado", que se faz passar por Deus, um ser humano blasfemo que é "o filho de perdição" (2 Tes. 2:3, JS). Paulo também localiza a

apostasia vindoura no templo de Deus: "O qual se opõe e se levanta contra tudo que se chama Deus ou é objeto de culto, a ponto de assentar-se no templo de Deus, fazendo- se passar por Deus" (2 Tes. 2:4). Esta harmonia de Jesus e Paulo com respeito ao lugar onde se encontra a apostasia – no templo de Deus – está enraizada diretamente no apocalipse de Daniel. Em particular, o anjo interpretador resumiu a visão do Daniel 8 como "a visão do contínuo sacrifício, e a prevaricação [pesha'] assoladora" (Dan. 8:13). A explicação adicional do anjo é importante:

"Dele sairão forças que profanarão o santuário, a fortaleza nossa, e tirarão o sacrifício diário, estabelecendo a abominação desoladora. Aos violadores da aliança, ele, com lisonjas, perverterá, mas o povo que conhece ao seu Deus se tornará forte e ativo" (Dan. 11:31, 32).

Parece evidente que Daniel é a fonte para o ensino do Novo Testamento de que um anticristo blasfemo apareceria durante a era da igreja. Tanto Cristo como Paulo mencionam que este apóstata sacrílego estaria acompanhado com "sinais e prodígios". Cristo conecta estes com "falsos cristos e falsos profetas" (Mat. 24:24); Paulo os associa com o advento do "iníquo", a quem descreve como o anticristo escatológico (2 Tes. 2:9).

desolação

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Sobre a base deste paralelismo global, muitos chegaram à conclusão de que o ensino apocalíptico de Paulo em 2 Tessalonicenses 2:1-12, tanto em sua estrutura como em sua teologia, é paralela ao discurso profético de Cristo (Mat. 24; Mar. 13; Luc. 21). Ambos se iluminam mutuamente. Portanto, a conclusão principal é que "a abominação desoladora" no lugar santo da profecia de Cristo, e o anticristo pessoal sentado no templo de Deus na profecia do Paulo, são o mesmo fenômeno. Pode-se dizer que enquanto Mateus se centra sobre o futuro sacrilégio do templo de Deus, Paulo põe a ênfase no perpetrador do sacrilégio. Entretanto, o Evangelho de Marcos já tinha indicado que o sacrilégio escatológico seria perpetrado por um anticristo pessoal, ereto [hestekóta] "onde não deve" (Mar. 13:14), ou "usurpando um lugar que não é dele" (NBE).

A Ênfase de Paulo Sobre a Apostasia Religiosa

É digno de atenção que a frase de Paulo "hei apostasia" (2 Tes. 2:3), traduzido

como "apostasia" em quase todas as versões brasileiras (RA, RC; BJ; NVI; e como "revolta" na versão BLH), sempre significa uma rebelião religiosa tanto no Antigo Testamento como no Novo, quer dizer, um esquecimento do Senhor e de sua verdade (cf. Jos. 22:22; 2 Crôn. 29:19; Jer. 2:19; At. 21:21). * Esta rebelião é mais que uma transgressão fortuita da lei divina. Esta "iniqüidade" [anomia] representa uma rebelião fundamental e sustentada contra Deus. Embora já estava ativa em uma forma oculta no tempo do Paulo, a apostasia se desenvolveria finalmente em uma rebelião mundial, uma forma idolátrica de adoração que desafiaria a autoridade da Palavra de Deus.

O apóstolo não insinua que está revelando alguma verdade nova e assombrosa.

Paulo recorda a seus leitores o fato de que já lhes ensinou este segredo apocalíptico enquanto ainda estava com eles (2 Tes. 2:5). A instrução de Paulo aos novos conversos ao cristianismo incluiu aparentemente os pontos essenciais do discurso profético de Cristo e do anticristo de Daniel (cf. At. 20:27-30; 1 Tim. 4:1, 2; 2 Tim. 3:1-5). Paulo não recorda aos Tessalonicenses de uma apostasia geral vindoura, a não ser especificamente de "a rebelião" que estava descrita em forma tão dramática como a falsificação do Messias no livro de Daniel. Para entender o apóstolo devemos compreender que "o homem da iniqüidade" que se opõe a todo deus – quem por exaltar-se a si mesmo no templo de Deus está condenado à destruição (2 Tes. 2:3, 4) – é a descrição condensada de Paulo do anticristo que se faz passar por Deus em Daniel 7 a 11 (especificamente em 7:25, 26;

8:11-13; 11 :31, 36-39, 45).

A natureza essencial do anticristo de Daniel é sua vontade jactanciosa de "mudar"

a lei de Deus e os tempos sagrados (Dan. 7:25), e trocar a adoração redentora no templo de Deus por seu próprio culto idólatra de adoração (Dan. 8:11-13, 25). Portanto, a perspectiva de Daniel representa uma apostasia dupla: uma, da lei divina

* Nota do Tradutor: O autor cita a tradução desta palavra em várias versões inglesas: na New King James Version (NKJV) como "perder a fé, apostatar" ; na New American Standard Bible (NASB) como "a apostasia" ; na New International Version (NIV) como "a rebelião".

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61

(Dan. 7) e outra, do evangelho e o santuário (Dan. 8). É decisivo compreender que o objetivo do mal não é estabelecer o ateísmo, e sim impor uma religião falsificada com um sistema falso de adoração e salvação. Paulo destaca a natureza religiosa do anticristo que virá, quem tratará de autenticar seu culto idolátrico por meio de sinais e milagres sobrenaturais (2 Tes. 2:4, 9). O anticristo se sentará solenemente no templo de Deus com uma obsessão compulsiva para demandar autoridade divina e usurpar as prerrogativas que pertencem só a Cristo. Por este engano, forçará todos os homens a aceitá-lo como o Messias e o Senhor.

Como Paulo Emprega a Frase "o Templo de Deus"

O apóstolo nunca emprega o termo grego naós (templo) para o edifício do templo em Jerusalém. Visto que Paulo cria que Deus já não morava mais no velho santuário, a não ser entre a comunidade dos cristãos, considerou a igreja de Deus como o novo templo de Deus:

"Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é santo" (1 Cor. 3:16, 17). "Ou não sabeis que o nosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?" (l Cor. 6:19). "E que consenso tem o templo de Deus com os ídolos? Porque vós sois o templo do Deus vivente, como Deus disse: Neles habitarei e entre eles andarei; e eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo" (2 Cor. 6:16, citando Ezeq. 37:27). "Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e da família de Deus; edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor" (Ef. 2:19-21).

Além de referir-se ao crente individual como o templo de Deus, Paulo viu tanto na igreja local como na igreja universal de Cristo o cumprimento da promessa escatológica feita pelo profeta Ezequiel de que Deus criaria um novo templo no tempo do Messias (Ezeq. 37:24-28). Paulo declara solenemente que qualquer que destrua a santidade e a unidade espiritual deste novo templo (por ensinos falsos ou idolatria), "Deus o destruirá " (1 Cor. 3:17). Por esta evidencia nos escritos do Paulo, podemos concluir que seu emprego normal do termo "templo" [naós] é uma referência não ao judaísmo e sim à igreja cristã. Esta conclusão fica confirmada adicionalmente quando consideramos como avaliou Paulo "a cidade atual de Jerusalém" representando o judaísmo: como um pacto de obras que escraviza (Gál. 4:25). Para o Paulo, "a Jerusalém de cima, a qual é mãe de todos nós, é livre" (Gál. 4:26). À luz destas referências, parece extremamente improvável que o apóstolo Paulo pensasse que a frase "o templo de Deus" referia-se ao edifício do templo em Jerusalém. O contexto mais amplo do emprego que Paulo faz da linguagem figurada

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para o templo apóia a idéia de que seu emprego do "templo de Deus" em 2 Tessalonicenses 2:4 se refere à comunidade da igreja cristã do futuro.

A declaração do Paulo de que o homem de pecado "se senta" [kathísai] no "templo de Deus" é de profundo significado. Este conceito audaz reflete a visão de Daniel, em que o Ancião de dias "sentou-se" para levar à justiça o poder arrogante e endeusado. À luz deste antecedente daniélico do tribunal, a descrição do Paulo do adversário "sentando-se" indica que o anticristo se estabeleceria a si mesmo como mestre e juiz dentro da igreja! Aqui Paulo está oferecendo mais que uma "admoestação pastoral". A predição de Paulo segue a revelação de Daniel do desenvolvimento futuro da história da salvação. Paulo interpreta o esboço de Daniel de acordo com o princípio do evangelho: o cumprimento é em Cristo e a igreja de Cristo. A apostasia predita em Daniel 7, 8 e 11 surgiria dentro do povo do novo pacto, em um falso mestre, em um Messias falso. Por outro lado, Jesus prometeu que as portas do hades [inferno] nunca prevaleceriam contra sua igreja (Mat. 16:19), e que seus escolhidos não seriam enganados se permanecessem alerta (Mar. 13:22, 23). A tensão entre a igreja como instituição e a igreja como uma comunidade espiritual se reflete também na admoestação pastoral de Paulo em 1 Coríntios 11:19, e em sua predição profética aos anciões de Éfeso em Atos 20:28-31: "E de vós mesmos se

levantarão homens que falarão coisas perversas para arrastar após si os discípulos" (v. 30). Isto chegou a ser uma ameaça séria em algumas igrejas apostólicas na província romana da Ásia (Apoc. 2:19-29; 1 João 2:18-27). Finalmente, o que se desenvolve como tema central no Apocalipse de João é o simbolismo das duas mulheres em Apocalipse 12 e 17. Aqui se descreve a igreja cristã

e à apóstata não só em termos de diferenças dogmáticas ou doutrinais, mas também como duas comunidades adoradoras diferentes.

Como Paulo Emprega os Tipos de Adoração Falsa no Antigo Testamento

A admoestação de Paulo se centra na chegada da apostasia religiosa – o "homem da iniqüidade" dentro do templo de Deus na terra –, uma apostasia que permanecerá até a gloriosa vinda de Cristo:

"Ninguém, de maneira alguma, vos engane, porque não será assim sem que antes venha a apostasia e se manifeste o homem do pecado, o filho da perdição, o qual se opõe e se levanta contra tudo o que se chama Deus ou se adora; de sorte que se assentará, como Deus, no templo de Deus, querendo parecer Deus" (2 Tes. 2:3, 4). "Então, será, de fato, revelado o iníquo, a quem o Senhor Jesus matará com o sopro de sua boca e o destruirá pela manifestação de sua vinda" (2 Tes. 2:8).

Dois pontos caracterizam o esboço do Paulo da futura história da igreja: Primeiro,

o tempo histórico do surgimento do "homem do pecado" dentro da história da igreja; segundo, a natureza religiosa de suas afirmações messiânicas.

As Profecias do Tempo do Fim

63

Chega a ser evidente, ao compará-lo intimamente com o Antigo Testamento, que Paulo compôs sua descrição do anticristo combinando 3 revelações proféticas a respeito dos poderes antiDeus:

(1) A época do tempo histórico do surgimento do antimessias em Daniel 7, 8 e

11;

(2) a blasfêmia religiosa de auto-endeusamento pelos reis de Tiro e de Babilônia em Ezequiel 28 e Isaías 14; (3) a destruição final do "iníquo" pela aparição do Messias em Isaías 11. No seguinte estudo poderemos notar algumas alusões literárias e religiosas em 2 Tessalonicenses 2:4 com as profecias do Antigo Testamento:

2 TESALONICENSES

PASAJES DEL ANTIGUO TESTAMENTO

2:4a

Dan. 11:36

"o qual se opõe e se levanta contra tudo que se chama Deus…"

"

e se levantará, e se engrandecerá "

sobre todo deus

2:4b

Eze. 28:2

"… a ponto de assentar-se no santuário de Deus, ostentando-se como se fosse o próprio Deus".

"

e

dizes: Eu sou Deus,

sobre a

cadeira de Deus me assento".

2:8

Isa. 11:4 "[o Messias] ferirá a terra com a vara de sua boca e com o sopro dos seus lábios matará o perverso".

"então, será, de fato, revelado o iníquo, a quem o Senhor Jesus matará com o sopro de sua boca…"

Paulo funde estas 3 alusões aos soberanos que estão contra Deus para informar os santos como identificar o anticristo quando surgir na era da igreja, até dentro do cristianismo, como o "templo de Deus" sobre a terra (ver também At. 20:29-31). Paulo usa o princípio da tipologia cristã quando aplica à era da igreja as promessas e as ameaças de Deus a Israel (ver 1 Cor. 10:1-11; Gál. 4:21-31). A relação de um tipo do Antigo Testamento com um antítipo do Novo Testamento se determina teologicamente por sua conexão com o Jeová antes da cruz, e sua conexão com Cristo na era da igreja. Na perspectiva profética, a distância temporária entre o tipo e o antitipo não tem importância. Sua ênfase está no fato que o mesmo Deus que atua no cumprimento histórico iminente, também atuará no juízo e a salvação finais. Dessa forma, Paulo contempla os reis de Tiro e de Babilônia que se idolatram a si mesmos (no Ezeq. 28:2 e Isa. 14:13, 14), como tipos proféticos da essência religiosa do anticristo (2 Tes. 2:4). O adversário de Cristo na era cristã ensinará e julgará como se fora Deus, com autoridade divina e infalibilidade.

A Aplicação que Paulo Faz do Antimessias Predito por Daniel

Como em Daniel 8 e 11, Paulo localiza a apostasia blasfema do inimigo escatológico de Deus "no templo de Deus" (2 Tes. 2:4). Sem o princípio apostólico do cumprimento cristológico, são inevitáveis os perigos do literalismo ou o alegorismo ao

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interpretar a frase "templo de Deus" em 2 Tessalonicenses 2 como um templo literal e reedificado em Jerusalém no qual o anticristo se estabelecerá para exigir a adoração dos judeus depois do rapto da igreja. Uma interpretação mais popular é tomar o "templo" neste capítulo como um símbolo do trono de Deus no céu, recorrendo a Isaías 14:13, 14 e 66:1. Em outras palavras, entendem o "templo de Deus" como uma metáfora para indicar que o iníquo tratará de usurpar o lugar de Deus e exigirá honras divinas e obediência. Isto se aplica depois a qualquer sistema totalitário de governo, a deificação do Estado, quando se derrubarem a lei e a ordem e a violência demoníaca explore em perseguição da igreja. Em outras palavras, a frase "o homem da iniqüidade" aplica-se aos governos totalitários ateus. As interpretações precedentes de 2 Tessalonicenses 2:4 podem parecer atrativas e convencer a alguns. Mas a questão vital é: deu-se a consideração apropriada ao contexto fundamental do Antigo Testamento no qual Paulo apóia sua descrição apocalíptica?

A alusão de Paulo a Daniel 11:36 deve nos levar em primeiro lugar a considerar a

profanação religiosa do templo por parte do "rei do norte" em Daniel 11:31-45 e em Daniel 8:9-13. Ele originará a corrupção ou apostasia entre o povo do pacto. A origem da apostasia profetizada por Paulo está em Daniel 11:32. Os expositores protestantes dos dias do Lutero e Calvino interpretaram tradicionalmente que este rei que se exalta a si mesmo de Daniel 11:36 e o homem de

iniqüidade de 2 Tessalonicenses 2:4 são um mesmo indivíduo que se engrandecerá por cima de todos os deuses (Dan. 11:37). Não pode ser um ideólogo ateu, porque o homem da iniqüidade pretende ser Deus. Captamos a essência teológica da abominação de Daniel quando observamos que o desolador porá no templo de Deus uma adoração falsificada que ensina um falso sistema de expiação (ver Dan. 8:11-13; 11:31; 12:11). Isto define a "rebelião" como uma apostasia religiosa da adoração ordenada no templo de Deus. Na aplicação que Cristo faz da "abominação desoladora" de Daniel ao exército romano (Mat. 24:15; Mar. 13:14) vê-se um cumprimento parcial, um tipo que assinala

mais à frente do ano 70 a seu antítipo universal, a abominação maior dentro da igreja. Paulo explica que a manifestação histórica do culto religioso apóstata deve acontecer antes da vinda de Cristo.

O contexto mais amplo do Novo Testamento relaciona a verdadeira adoração de

Deus na terra com a intercessão de Cristo no templo celestial (Heb. 4:14-16; 7:25; 8:1, 2). É absolutamente essencial não separar o templo terrestre do celestial. Profanar o "templo" ou a igreja na terra significa também a profanação do ministério de Cristo no templo celestial (Apoc. 13:6). Assim como o antimessias de Daniel 8 é destruído repentinamente "não por mão humana" (v. 25), e assim como "o rei do norte" é destruído repentinamente sem que ninguém lhe ajude (Dan. 11:45), assim o anticristo na descrição do Paulo será destruído pela aparição de Cristo, "com o espírito de sua boca" (2 Tes. 2:8; ver Isa.

As Profecias do Tempo do Fim

65

O Momento Histórico Exato do Anticristo Segundo Paulo

A carga pastoral de Paulo em 2 Tessalonicenses 2 é corrigir entre os cristãos da

Tessalônica a opinião falsa de que já tinha começado o dia do Senhor (2 Tes. 2:2). Recorda-lhes o que lhes havia dito verbalmente, que primeiro [próton] deve surgir a rebelião [hei apostasia] (2 Tes. 2:3) dentro do templo de Deus. Só então virá o dia do Senhor e destruirá o "iníquo" com "o resplendor de sua vinda" (2 Tes. 2:3-8). Na opinião de Paulo, um conhecimento da seqüência dos eventos é essencial para acautelar uma expectativa iminente injustificada. Introduz a idéia de um atraso prolongado do surgimento do anticristo por causa da existência de um poder que

refreia: "E agora vós sabeis o que o detém" (2 Tes. 2:6). A igreja apostólica aparentemente não tinha problemas a respeito da identidade desse poder que "retinha". Sabiam qual era. É interessante que a maioria dos primeiros Pais na igreja pós- apostólica (igreja primitiva) ensinaram que a ordem civil do Império Romano, com o imperador à sua cabeça, era o poder que impedia, ao qual Paulo se referiu em 2

Tessalonicenses 2:6 e 7. Apesar de várias teorias novas a respeito (por exemplo que o Espírito Santo ou a missão de Paulo poderiam ser esse poder), vários eruditos de primeira linha de nossos dias sustentam que a interpretação clássica é a que mais satisfaz.

O Império Romano governou o mundo desde ano 168 a.C. até 476 d.C. Depois

veio a divisão da Europa Ocidental em vários reinos mais pequenos. Em Daniel 7, o poder blasfemo, o "chifre pequeno", saiu dentre estes reino que existiam simultaneamente (7:7, 8, 24). Esta sucessão histórica no esboço de Daniel – quer dizer,

primeiro a "besta" e depois o surgimento do "chifre" anticristão – se encontra na base do esboço histórico de Paulo em 2 Tessalonicenses 2. Só essa perspectiva histórica de Daniel 7 pode decifrar o enigma do misterioso "agente retardador do desenvolvimento" que estava atrasando o desenvolvimento do anticristo.

É obvio, mais importante que esse "agente retardador" é o que escreve Paulo a

respeito da vinda do "homem da iniqüidade" (ánthropos tes anomias) ou, de acordo com manuscritos de menor autoridade, "o homem do pecado" (amartias). O apóstolo declara que a manifestação pública do "iníquo" (ho ánomos, v. 8) ocorrerá só depois de um desenvolvimento histórico prolongado de forças ocultas que já estavam ativas no próprio tempo de Paulo (v. 7). Paulo coloca a revelação efetiva do iníquo imediatamente depois que o Império Romano (como "o que o detém") tenha sido "tirado do meio" (2 Tes. 2:7), e indica firmemente que o próprio trono ocupado pelo

que o detém seria ocupado pelo homem da iniqüidade.

A inferência da mensagem de Paulo em 2 Tessalonicenses 2 é inconfundível:

Quando o Império Romano tenha caído, o surgimento do anticristo já não será restringido ou retido em Roma. Portanto, o anticristo será revelado sem demora na era seguinte, usualmente denominada a Idade Média. Este período prolongado foi descrito por Daniel como os 3 ½ tempos de opressão política dos santos (Dan. 7:25; 12:7).

Nesta era cristã é onde Paulo localiza a apostasia. O bispo anglicano Christopher Wordsworth, extraiu uma conclusão convincente:

As Profecias do Tempo do Fim

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"Posto que Paulo também descreve aqui ao homem do pecado como continuando no mundo do tempo da eliminação do poder que o impede, inclusive até o segundo advento de Cristo (2 Tes. 2:8), o poder que aqui se personifica no 'homem do pecado' deve ser por conseguinte um que continuou no mundo por muitos séculos, e continua até o tempo atual. Também, sendo que lhe atribuiu esta longa permanência na profecia, uma permanência que excede em muito a vida de qualquer indivíduo, devido a isso o 'homem de pecado' não pode ser uma só pessoa". 1

O propósito de Apocalipse de João é animar a igreja universal até o próprio fim, para resistir ao poder enganador e perseguidor da besta-anticristo e de seu aliado, o falso profeta, e triunfar sobre a marca escatológica da besta quando for imposta nas nações. A carta de Paulo aos Tessalonicenses reconhece a presença do 4.º império de Daniel 7. Ensinou à igreja que o "chifre pequeno" de Daniel não se levantaria durante o Império Romano. Entretanto, o Apocalipse de João põe de sobreaviso a igreja universal sobre o momento exato quando apareceria a besta depois do desaparecimento do Império Romano, e João descreve este poder, o anticristo, com os característicos do chifre pequeno de Daniel que governaria as nações por 42 meses (Apoc. 13:5), uma variante dos 3 ½ tempos (Dan. 7:25). Por conseguinte, este tempo simbólico em Daniel e no Apocalipse deve aplicar-se ao período depois da queda de Roma em 476 d.C. Isto leva a Idade Média a situar-se dentro da esfera da profecia bíblica,

Em resumo, a aplicação histórica que Paulo faz de Daniel 7 em 2 Tessalonicenses 2, favorece o enfoque contínuo-histórico antes que a exclusiva estrutura contemporânea ou a futurista. O esboço de Paulo da futura história da igreja em períodos sucessivos com respeito à apostasia e ao poder que o retém, demonstra que o apóstolo não cria em uma expectativa do fim de um momento ao outro. De fato, 2 Tessalonicenses 2 propõe-se a refutar esta mesma idéia sobre a base da perspectiva histórica do Daniel.

O Anticristo de Paulo como uma Paródia de Cristo

Deveria dar-se atenção especial ao fato de que Paulo descreve a apostasia do

vindouro "homem de iniqüidade" como uma que nega tanto a verdadeira adoração

cristã como toda a adoração pagã; "opõe-se

objeto de culto" (2 Tes. 2:4). Exaltar-se-á até o ponto do auto-endeusamento dentro do templo de Deus, "tanto que se senta no templo de Deus, fazendo-se passar por Deus" (V. 4). Paulo adota esta caracterização específica de adoração religiosa do anticristo, do antimessias predito por Daniel (Dan. 7:25; 8:11-13; 11:31; 12:11). Nas profecias de Daniel, o chifre pequeno ou o rei que se ensoberbece, invade a terra santa, e se mete pela força no santuário de Deus e de seu Messias. Profana o culto religioso divino do santuário não só mudando a lei divina e os tempos sagrados (por exemplo, o sábado; ver Dan. 7:25), mas também por sua própria "abominação": a adoração falsificada de

contra tudo o que se chama Deus ou é

As Profecias do Tempo do Fim

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si mesmo como o "deus das fortalezas" (ou poder) desconhecido para o povo do pacto (Dan. 11:31, 36-38). Parece que Paulo molda intencionalmente o anticristo à imagem de um Cristo falso, porque o descreve na necessidade de que seja "revelado" em seu "vinda" (2 Tes. 2:3, 8, 9), termos que aplica igualmente a Cristo (ambos têm uma revelação pessoal [apokálupsis] e sua vinda [parousia; cf. 2 Tes. 1:7; 2:8]). Isto sugere que Paulo considera o anticristo como um rival do Messias, cuja "vinda" é uma paródia da vinda de Cristo. Assim como a revelação de Deus culminou em Cristo, assim a manifestação do mal encontrará sua culminação no anticristo, cuja aparição é a caricatura satânica de Cristo. Já Irineu tinha declarado que o anticristo de 2 Tessalonicenses 2 seria um "apóstata" religioso, que desencaminhará os que o adorem "como se fora Cristo". 2 É significativa a descrição de Paulo de que o "iníquo" virá "por obra de Satanás" [kat enérgeian tou sataná], quem energizará e dará poder ao anticristo através de "toda classe de milagres, sinais, prodígios enganosos" (2 Tes. 2:9, BJ). Uma vez mais Paulo parece indicar por meio desta tríplice frase (milagres, sinais e prodígios) que o anticristo tentará imitar o ministério de Cristo (ver Mat. 24:24; At. 2:22). O livro do Apocalipse descreve mais plenamente a maneira como Satanás dará energia à besta do mar ou anticristo: "E o dragão lhe deu seu poder e seu trono, e grande autoridade" (Apoc. 13:2).

O Mistério da Iniqüidade

porque já

está em ação o mistério da iniqüidade" (2 Tim. 2:7); ou, literalmente, "o mistério da

impiedade já está atuando" (BJ). Aqui o apóstolo reconhece que uma força malvada já estava operando em uma forma secreta, além da atividade humana, decidida a conseguir a supremacia sobre a igreja de Cristo. A princípio, o poder político imperante no tempo do Paulo impediu que se levasse a cabo este plano anticristão (v. 6). Não obstante, quando o que retinha foi tirado, as forças da apostasia surgiram imediatamente e chegaram a ser conhecidas publicamente durante a Idade Média. Nos escritos de Paulo o termo "mistério" leva em si o conceito básico de verdade salvadora, mantido anteriormente oculto por Deus mas agora manifestado no evangelho (ver Rom. 16:25, 26; Ef. 1:9, 10; Col. 1:26, 27; 1 Cor. 2:7). O conteúdo deste mistério é o plano redentor de Deus para salvar a humanidade por meio da união com Cristo. Este "mistério" divino esteve personificado em Cristo como o grande "mistério da piedade: Deus foi manifestado em carne" (1 Tim. 3:16). Por outro lado, quando Paulo falou do "mistério da iniqüidade", muito bem pôde ter tido em mente exatamente o contrário da verdade salvadora de Deus em Cristo: o mistério caracterizado pelo anticristo:

Paulo se refere à atividade satânica do mal nesta frase significativa: "

As Profecias do Tempo do Fim

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(1) Este mistério nunca será inoperante, mas sim atua continuamente do tempo do Paulo até o fim. Por conseguinte, a incessante atividade satânica não nos permite localizar "o mistério da iniqüidade" exclusivamente em algum período histórico isolado no passado ou no futuro, como postulam as teorias do preterismo e do futurismo. Exatamente o oposto é o que ensina Paulo: depois da queda de Roma, este mistério de rebelião estará ativo e prosperará sem limitações (2 Tes. 2:7). (2) Entretanto, este segredo satânico o conhecem os verdadeiros escolhidos de Cristo, pois "não ignoramos suas maquinações" (2 Cor. 2:11). Iluminados pela sabedoria divina que vem do livro de Daniel (ver Dan. 11:33; 12:10), sabem que o ataque de Satanás está dirigido contra o reino de Deus e seu plano de redenção, centrado este no santuário com sua santa lei e o evangelho. (3) Por analogia com o "mistério da piedade" – o plano de Deus para revelar o Messias e seu evangelho de salvação –, o "mistério da iniqüidade" indica o maligno propósito de Satanás de opor-se ao plano de Deus por meio de um plano contrário

diabólico e um culto religioso contrário que exalta o falso rei-sacerdote. Um erudito bíblico define esta frase paulina com profundo discernimento: "Em um estilo paralelo,

o mistério da iniqüidade, o plano contrário de Satanás, é um propósito diabólico fixo,

um ardil contínuo, para opor-se à realização do decreto divino (de redenção)". 3 Paulo conclui declarando que existe um antagonismo fundamental entre a verdade do evangelho de Cristo e a decepção do homem de iniqüidade: "Perecem, porque não receberam o amor da verdade para se salvarem. E, por isso, Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam a mentira, para que sejam julgados todos os que não creram a verdade; antes, tiveram prazer na iniqüidade" (2 Tes. 2:10-12). A apostasia anticristã está apoiada em uma hostilidade profundamente arraigada contra o evangelho de Deus e de seu Cristo. Neste encontro, a humanidade deve fazer suas decisões finais em favor ou contra Cristo. Segundo o apóstolo, a decisão que alguém faça por Cristo agora, revela em princípio a eleição que todos terão que fazer no tempo do fim entre Cristo e o anticristo. Toda a história está governada pelo conflito espiritual entre Deus e Satanás, e a era da igreja se caracteriza pelo conflito entre a verdade do evangelho de Cristo e a mentira do anticristo. Devido a isto, o apóstolo Paulo alerta a igreja a estar em guarda contra o engano de um mestre poderoso do cristianismo que sustentará que fala em lugar de Cristo e que insiste em que só sua vontade é lei divina. Paulo nos admoesta não simplesmente contra um evangelho falsificado e adoração falsa no futuro, mas sim por cima de tudo assinala a origem cósmica deste engano mestre: é o artifício e o engano de Satanás (2 Tes. 2:9). Para esta dimensão sobrenatural Paulo encontrou apoio nas Escrituras. Daniel tinha revelado uma batalha cósmica entre Deus e Satanás como o poder

motivador por trás dos conflitos religiosos na terra (ver Dan. 10). Isaías tinha apontado

a Lúcifer, ou a estrela da manhã no céu, como quem quis ser como Deus e trabalha por meio dos governantes da terra (Isa. 14:12-14).

O Ato que Coroará o Drama do Engano

As Profecias do Tempo do Fim

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A perspectiva profética do Paulo em 2 Tessalonicenses 2 indica que o fim do

tempo trará consigo cada vez mais sinais sobrenaturais, que apoiarão o "homem da iniqüidade", "o filho da perdição" (2 Tes. 2:3). Estas designações últimas do anticristo sugerem que aparecerá como um indivíduo que está em um definido contraste com "o

Filho do Homem". Isto dá lugar para um engano quase irresistível para o homem: a personificação que Satanás fará de Cristo e de sua vinda à terra. Deliberadamente, Paulo faz um paralelo entre as aparições do homem da iniqüidade e as de Cristo, tendo cada uma sua própria parousia; seus próprios sinais e milagres, e exigindo cada uma adoração. Em todas as aparições, Satanás se disfarça "como um anjo de luz" (ver 2 Cor. 11:14). Seu objetivo supremo sempre foi exigir a dignidade e as prerrogativas de Deus (2 Tes. 2:4); por conseguinte, seu último pecado é a idolatria que exige para que o adorem. Paulo recalca que o rechaço universal da verdade do evangelho preparará a humanidade para o último engano e rebelião (2 Tes. 2:10, 11; 1:7, 8). Nesse ponto de maturação do mal, Deus retira seu Espírito de todos os que rechacem "o amor da verdade". Como resultado já não haverá mais nenhuma limitação ao "poder enganoso para que creiam a mentira" (2 Tes. 2:11 ). Desta forma, Paulo aponta ao fim do tempo de prova da humanidade, quando começa o ato final de Satanás. Esta cena aparece ampliada em Apocalipse 16:13-16, onde os espíritos de demônios levam os habitantes do mundo a unir-se em rebelião contra Deus, enganando até os governantes civis. Um erudito resume a situação nas seguintes palavras: "Com o rechaço final dos rogos do Espírito de Deus virá a dissolução da lei civil, e então as promulgações do 'homem do iniqüidade' levarão aos homens a guerrear contra o santo". 4 Além disso, até ameaça a humanidade um ato capital de engano: a personificação de Cristo e sua vinda. Estas palavras de discernimento espiritual nos põem em guarda:

"Assim, o grande enganador fará parecer que Cristo veio. Em várias partes da Terra, Satanás se manifestará entre os homens como um ser majestoso, com brilho deslumbrante, assemelhando-se à descrição do Filho de Deus dada por João no

Apocalipse (cap.

ergue as mãos e sobre eles pronuncia uma bênção, assim como Cristo abençoava Seus

O povo se prostra em adoração diante dele, enquanto este

discípulos quando aqui na Terra esteve". 5

Resumo

A aplicação histórica de Paulo das visões do anticristo de Daniel formam um elo

interpretativo indispensável entre Daniel e Apocalipse. O esboço estrutural de Paulo em 2 Tessalonicenses 2 funciona como o respaldo apostólico do enfoque contínuo- histórico das profecias de Daniel. Paulo caracteriza a futura apostasia cristã como um culto de adoração espúrio, autorizado por um rival do Messias, que se levantaria dentro do templo cristão de Deus muito pouco depois da queda da Roma pagã.

O livro do Apocalipse (nos caps. 13 aos 19) desenvolve o tema teológico do

anticristo com maiores detalhes como a besta e seu falso profeta.

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70

Referências

Para a Bibliografia, ver as páginas 107-108.

1. Ch. Wordsworth, Is the Papacy predicted by St. Paul? An Inquiry, p. 15.

2. Irineu de Lyon, Contra hereges, 25, ANF, T. 1, P. 554.

3. P. H. Furfey, "The Mystery of Lawlessness", CBQ 8 (1946), p. 190.

4. D. Ford, The Abomination of the Desolation…, p. 225.

5. Ellen White, GC 624.

FONTES BIBLIOGRÁFICAS DO CAPÍTULO VII

Livros

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Perspectives, 1986. Biblical Perspectives [Perspectivas Bíblicas] 6, pp. 151-161.

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Testamento: Tessalonicenses

].

Grand Rapids, MI: Baker Book House, 1955.

Bruce, F. F. 1 and 2 Thessalonians [1 e 2 Tessalonicenses]. Waco, Texas: Word Books Publishers, 1982. Word Biblical Commentary [Comentário Bíblico da Palavra] 45. Ford, Desmond. The Abomination of the Desolation… Cap. 5.

As Profecias do Tempo do Fim

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Froom, LeRoy E. The Prophetic Faith of Our Fathers. 4 ts. Ladd, George E. A Theology of the New Testament [Uma teologia do Novo Testamento]. Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans, 1974. Ridderbos, Herman. El Pensamiento del apóstol Paulo. Buenos Aires: La Aurora, 1987. T. 2, pp. 243-271. Vos, G. The Pauline Eschatology [A Escatologia Paulina]. Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans, 1972. Cap. 5: "The Man of Sin" [O homem do pecado]. Wenham, David. Paul and the Synoptic Apocalypse [Paulo e o Apocalipse dos Sinóticos]. Tomo 2 da Coleção Perspectivas do Evangelho (R. T. France e D. Wenham, eds.). Sheffield: JSOT, 1981. Pp. 345, 375. Wordsworth, Christopher. Is the Papacy predicted by St. Paul? An Inquiry [Predisse São Paulo o Papado? Uma investigação]. Cambridge: The Harrison Trust, 1985, 3a ed.

Artigos

Furfey, P. H. "The Mystery of Lawlessness" [O Mistério da Iniqüidade], CBQ 8

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, "The Middle Ages Within the Scope of Apocalyptic Prophecy" [A

Idade Média Dentro da Esfera da Profecia Apocalíptica], JETS 32:3 (1989), pp.

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Waterman, G. "The Sources of Paul's Teaching on the 2nd Coming of Christ in 1 and 2 Thessalonians" [As Fontes do Ensino de Paulo sobre a Segunda Vinda de Cristo em 1 e 2 Tessalonicenses], JETS 18:2 (1975), pp. 105-113.

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INTRODUÇÃO AO APOCALIPSE

O último livro da Bíblia é completamente diferente em estilo e composição a qualquer outro escrito do Novo Testamento. Está estruturado engenhosamente, com um equilíbrio excepcional em seu desenho literário. Sua disposição indica a unidade do livro. Uma composição tal nos proíbe isolar qualquer versículo ou seção da totalidade do livro. O Apocalipse foi destinado para lê-lo como um tudo, de maneira que seu movimento do começo até o fim possa produzir seu impacto pleno sobre nossas mentes e corações. Embora se enfoca sobre suas profecias do tempo do fim, precisamos estar inteirados de que podemos apreciar seu significado só quando recuperamos o movimento interno e a perspectiva completa de todo o Apocalipse. Devido ao fato de que seu arranjo literário e sua mensagem teológica estão entretecidas, o possuir um conhecimento de seu plano arquitetônico contribui substancialmente à nossa compreensão de sua mensagem. João transmite sua unidade por sua construção de um modelo simétrico, um paralelismo inverso chamado quiasmo. Isto se faz evidente em primeiro lugar no fato de que o começo (prólogo; Apoc. 1:1-8) e o final (epílogo; Apoc. 22:6-21) correspondem-se mutuamente. E as sete promessas às igrejas nos capítulos 2 e 3 encontram seu contraparte nas sete visões do tempo do fim (cada uma começando com as palavras "então vi") em Apocalipse 19:11 aos 22:21. A primeira e a última séries de setes se relacionam entre si como a promessa e o cumprimento divinos, a igreja militante e a igreja triunfante. Ambas as unidades começam com uma cristofania (aparição de Cristo) esplêndida: Apocalipse 1:12-18; 19:11-16. O modelo simétrico se estende a outros duetos, que se concentram em uma seção central. Tal ensambladura literária, "uma arquitetura verdadeiramente monumental", 1 foi reconhecido por numerosos eruditos e chegou a ser um requisito indispensável para a compreensão do Apocalipse. Essa forma serve para esclarecer o significado da mensagem do Apocalipse. Uma lição que se aprendeu de um consenso cada vez major de estudos críticos é a convicção de que o Apocalipse como um tudo é uma carta apostólico-profética, dirigida às igrejas do Senhor Jesus Cristo, em qualquer tempo e em qualquer lugar. Portanto, não é legítimo separar as sete cartas de Apocalipse 2 e 3 das visões seguintes (Apoc. 4-22). Esta unidade interna do Apocalipse é reconhecida amplamente, como afirma K. A. Strand: "A maioria dos expositores reconhece que a descrição da Nova Jerusalém e a nova terra nos capítulos finais do Apocalipse, recordam (como cumprimento) as promessas feitas aos vencedores nas mensagens às sete igrejas nos capítulos iniciais". 2 O Apocalipse promete a Nova Jerusalém sobre a nova terra a todos os seguidores de Cristo em todas as igrejas. É especialmente digno de menção o movimento da igreja no tempo de João (Apoc. 1-3) através da era cristã tão cheia de acontecimentos (Apoc. 12 e 13), até que entra sem perigo na Cidade de Deus no paraíso restaurado sobre a terra (Apoc. 21 e 22). Primeiro, o Cristo ressuscitado apresenta sua avaliação da condição da igreja

As Profecias do Tempo do Fim

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apostólica nas sete cartas às sete igrejas (Apoc. 2 e 3). Mas estas mensagens não foram destinadas só para a igreja primitiva, como se o Senhor da história estivesse interessado só naquele período de tempo. As promessas de Cristo nessas cartas mostram uma progressão significativa, que assinala cada vez mais a sua segunda vinda. As mensagens das cartas de Cristo devem entender-se em mais de um nível. Primeiro, como dirigidas às igrejas do primeiro século, depois a cada membro individual da igreja em qualquer tempo durante a era da igreja, e finalmente, às diversas condições da igreja durante a era cristã. Os intérpretes historicistas ressaltaram em forma crescente este aspecto preditivo das sete cartas. 3 Hoje em dia, estes três aspectos são reconhecidos pelos expositores adventistas. 4 Esta breve declaração é representativa: "As sete igrejas, estudadas em sua ordem, concordam com a experiência predominante da igreja cristã durante sete eras sucessivas". 5 As cartas estão vinculadas com as visões seguintes e se iluminam mutuamente com uma urgência crescente enquanto avança a história. Esta progressão está recalcada pelas visões sucessivas que João teve do templo, que seguem a seqüência dos festivais anuais do antigo tabernáculo de Israel. As primeiras visões do templo em Apocalipse 1:12-16 e nos capítulos 4 e 5 descrevem graficamente o Senhor ressuscitado como tendo completo as festas da primavera da Páscoa (Apoc. 1:5, 17, 18) e o Pentecostes (5:6-10). Depois o Apocalipse continua na visão do templo de Apocalipse 8:2-6 para revelar o ministério a longo prazo de Cristo na série das "sete trombetas" (Apoc. 8, 9 e 11 ) que levam à Festa das Trombetas de Israel, a primeira de todas as festas do ano religioso judeu. A seqüência dos festivais do outono é significativo: Festa das Trombetas, Dia da Expiação e Festa dos Tabernáculos (Lev. 23; Núm. 29). Richard M. Davidson assinala que

" assim

como a Festa das Trombetas (também chamada Rosh Hashana) convocava

ao antigo o Israel a preparar-se para o vindouro dia do juízo, o Yom Kippur, assim também

as trombetas do Apocalipse põem especialmente de relevo a aproximação do Yom Kippur antitípico". 6

A Festa das Trombetas ocorre como a culminação dos sete festivais lunares. Formam a ponte entre os festivais da primavera e o solene Dia da Expiação e a Festa dos Tabernáculos. No Apocalipse o ponto central de atração muda gradualmente ao dia do juízo final e à terra restaurada quando Jesus morará com seu povo. A sétima trombeta apresenta uma cena do templo que se centra no "arca de seu pacto" (Apoc. 11:15, 19). No tabernáculo de Israel o "arca" estava no lugar santíssimo do santuário e só era vista durante o ritual de purificação final, no Dia da Expiação (Lev. 16:15). Nesse dia, Israel era julgado e se limpavam os pecados que contaminavam o povo por meio do bode emissário (Lev. 16:19, 22; 23:29, 30). De igual maneira, Apocalipse 10 anuncia que não haverá mais tempo ou demora quando o sétimo anjo esteja a ponto de tocar a trombeta. Então, "o mistério de Deus se consumará" (Apoc. 10:6, 7). Em Apocalipse 15 observamos a terminação da obra mediadora de Cristo no templo celestial, seguindo-se o juízo retributivo das sete últimas pragas (Apoc. 16 e 17). Em Apocalipse 19:1-10 ouvimos que "chegaram as bodas do Cordeiro e sua esposa preparou-se" (v. 7).

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Apocalipse 20 e 21 introduzem o milênio de triunfo para todos os que morreram no Senhor (20:4-6). A Nova Jerusalém descende sobre uma terra renovada: "Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens, e ele morará com eles" (21:3). Isto aponta ao glorioso cumprimento da festa dos tabernáculos, quando Israel celebrava sua liberação

e se regozijava diante do Senhor com o ondulação dos ramos de palmeira (Lev. 23:40,

43). Este simbolismo descreve a salvação futura da igreja de Cristo, formada de todos os povos da terra (Apoc. 7:9, 10; 15:24). Devemos relacionar a estrutura do livro com

seu movimento progressivo se é que vamos compreender o significado do Apocalipse. O significado deliberado do Apocalipse não é simplesmente documentar um momento histórico da igreja no Ásia Menor ou proporcionar um estímulo apostólico para a igreja em crise nos dias da Roma imperial. Acima de tudo, coloca a cada igreja na luz examinadora dos olhos do Senhor, de maneira que cada igreja possa saber o que

é que Cristo espera de seu povo. Dessa maneira, Cristo coloca tanto suas expectativas

como suas responsabilidades diante de todas as igrejas. Isto desperta nossa consciência para contemplar a relação íntima que existe entre Cristo e seu povo em todos os tempos. Jacques Ellul o expressa desta maneira:

"O Senhor da igreja, quem ao mesmo tempo é o Senhor da história, não é um Deus distante, inacessível e incompreensível; é o que fala com sua igreja, é o que vive na história por meio de seu povo". 7

Os diferentes septenários (séries de setes) – tais como as cartas, os selos, as trombetas e as taças com as últimas pragas – contêm uma luz que se projeta sobre os acontecimentos do tempo do fim. Este fenômeno reiterativo indica que o Apocalipse coloca uma ênfase particular sobre o período do tempo do fim da igreja e do mundo. Ellen White expressa esta visão mais ampla quando diz:

" Esta revelação foi dada para guia e conforto da igreja através da dispensação Suas verdades são dirigidas aos que vivem nos últimos dias da história da Terra, como o foram aos que viviam nos dias de João". 8

Referências

1. J. Ellul, Apocalypse, The Book of Revelation, p. 36.

2. F. B. Holbrook, ed., Symposium on Revelation – Book 1 [Simpósio sobre o Apocalipse – Livro 1] (Silver Spring, Maryland: Biblical Research Institute, 1992), p. 31.

3. Ver Froom, The Prophetic Faith of Our Fathers, v. 4, pp. 848, 1118.

4. Ver D. Ford, Crisis! A Commentary on the Book of Revelation [Crise! Um Comentário sobre o Livro do Apocalipse] (Newcastle, Califórnia: Desmond Ford Publications, 1982; 2 ts.), T. 2, pp. 264-308; C. Mervyn Maxwell, Apocalipsis: sus revelaciones (Florida, Buenos Aires: Asociación Casa Editora Sudamericana, 1991), pp. 89-145; R. C. Naden, The Lamb Among the Beasts. Finding Jesus in the Book of Revelation [O Cordeiro Entre as Bestas. Encontrando a Jesus no Livro do Apocalipse] (Hagerstown, Maryland: Review and Herald, 1996), caps. 4 e 5.

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5. Maxwell, Apocalipsis: sus revelaciones, p. 94.

6. Richard M. Davidson, Simpósio sobre o Apocalipse, T. 1, p. 123.

7. Ellul, Apocalypse, The Book of Revelation, p. 51.

8. Ellen White, AA 583, 584.

O PROPÓSITO DO APOCALIPSE

"Revelação de Jesus Cristo" (Apoc. 1:1) enuncia claramente seu propósito ao princípio: "Para manifestar a seus servos as coisas que em breve devem

que são e as que têm que ser depois destas" (vs. 1, 19). Isto significa

que a perspectiva histórica do livro não é nem o presente imediato nem o futuro distante, e sim toda a história da igreja do tempo do autor até o segundo advento. Isto faz com que o Apocalipse seja um guia único para a igreja em qualquer tempo. Constitui uma continuação dos quatro Evangelhos que se concentram especificamente no primeiro advento. Em sua filosofia da história, o Apocalipse está enfaticamente centrado em Cristo, chamando Cristo de "o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim" (22:13). Sua mensagem profética não é meramente vaticinar o curso futuro da história da igreja. Sua maior preocupação é pastoral: guiar e aconselhar aos crentes em Cristo Jesus em tempos de perseguição, animá-los a perseverar até o fim na verdadeira fé, e admoestá-los e alertá- los contra o engano e as crenças falsas.

O Apocalipse assegura aos "servos" de Cristo que seu Redentor está em seu meio em todo momento, porque caminha entre os sete "castiçais" celestiais, que representam "as sete igrejas" (1:13, 20). Aparentemente, estas "sete igrejas" não podem limitar-se ao número literal de sete congregações locais na província romana da Ásia Menor. Cristo é o Senhor de todas as igrejas em toda a história. Estas "sete igrejas" representam suas igrejas, as comunidades que o adoram entre todas as nações, do tempo de João até ele voltar. Este Apocalipse ou revelação do Jesus Cristo tampouco se dirigiu aos judeus ou aos gentios, e sim a seus "servos" (1:1). Precisam da segurança de que o Senhor ressuscitado permanece intimamente conectado com seu novo povo do novo pacto e que os preparará para a prova final e o triunfo da fé. O reino de Deus será realizado completamente neste mundo como seu ato final, para o qual se dirige toda a criação (11:15; 21:1-5). Sete vezes Cristo promete ao "vencedor" em cada igreja uma recompensa específica de salvação ao fim do tempo:

"Ao vencedor, dar-lhe-ei que se alimente da árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus" (2:7). "O vencedor de nenhum modo sofrerá dano da segunda morte" (v. 11). "Ao vencedor, dar-lhe-ei do maná escondido, bem como lhe darei uma pedrinha branca, e sobre essa pedrinha escrito um nome novo, o qual ninguém conhece, exceto aquele que o recebe" (v. 17).

acontecer"

"as

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"Ao vencedor, que guardar até ao fim as minhas obras, eu lhe darei autoridade sobre

as nações

"O vencedor será assim vestido de vestiduras brancas, e de modo nenhum apagarei o seu nome do Livro da Vida; pelo contrário, confessarei o seu nome diante de meu Pai e diante dos seus anjo " (3:5). "Ao vencedor, fá-lo-ei coluna no santuário do meu Deus, e daí jamais sairá" (v. 12). "Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como também eu venci e me sentei com meu Pai no seu trono" (v. 21).

Além destas promessas, o Apocalipse proporciona sete bem-aventuranças para esta era presente, com o fim de motivar a cada crente a ser perseverante (1:3; 14:13; 16:15; 19:9; 20:6; 22:7, 14). Desse modo, o Apocalipse é o livro de esperança, consolo e inspiração para sua igreja durante sua viagem cheia de acontecimentos através das idades. Deus não nos prometeu uma navegação tranqüila, a não ser uma chegada segura! Ele está conosco até o fim do tempo. Cada coisa depende de quem é nosso Rei. Nossa segurança eterna descansa em sua fidelidade. O Apocalipse é principalmente uma revelação do próprio Cristo e de sua fidelidade ao pacto; é "a testemunha fiel" (1:5).

dar-lhe-ei ainda a estrela da manhã" (vs. 26,28).

Cristo Como Nosso Juiz Divino

Nenhum livro no novo Testamento enfatiza a glória e a soberania do Cristo

ressuscitado como o Apocalipse faz. A visão inaugural de João (1:12-20) apresenta a Cristo como o Messias celestial ao designá-lo como "um semelhante ao Filho do Homem" (1:13), uma expressão apocalíptica adotada da visão do Daniel do Juiz-Rei messiânico (Dan. 7:13, 14). O Messias glorificado não só é o doador da revelação, mas também é seu tema central (Apoc. 1:7). Como o mediador exclusivo de nossa

salvação, pode dizer com verdade: "Eu sou

que vivo pelos séculos dos séculos" (vs. 17, 18). Tem em sua mão direita as "sete estrelas", que são os "anjos das sete igrejas" (Apoc. 1:16, 20). Como Cabeça da igreja, "esquadrinha a mente e o coração" em cada etapa da história da igreja. Ele "recompensará" a todos os crentes conforme as suas obras (2:23; 22:12). A ele foi entregue o juízo messiânico de todos os habitantes do mundo (1:7; 14:14-20; 19:11-21). Ele é o guerreiro divino que vindicará a seu povo remanescente fiel. Como Rei de reis e Senhor de senhores, esmagará a todos os poderes anticristãos no fim do tempo (12:5; 17:14; 19:11-16). Os títulos distintivos e as prerrogativas divinas que no Antigo Testamento estavam reservados só para Deus, agora no Apocalipse se aplicam a Cristo. Descreve o

o que vivo, e estive morto; mais eis aqui

Cristo glorificado em Apocalipse 1:14 e 15 com característicos tirados da aparição de Deus em Daniel 7:9. Assim como Daniel apresenta em suas visões o Ancião de dias,

assim também Cristo tem sua cabeça e seus cabelos "brancos

olhos como chama de fogo (Dan. 7:9; 10:6; Apoc. 1:14). Assim como os olhos de Yahveh, que no Antigo Testamento percorrem toda a terra (Zac. 4:10), assim os "sete olhos" de Cristo ou o séptuple Espírito se envia "por toda a terra" (Apoc. 5:6). Como Deus esquadrinha a mente e prova o coração de seu povo do pacto (Jer. 17:10; Sal.

como a neve" e seus

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7:9), assim agora Cristo examina e avalia a sua igreja (Apoc. 2:23). Enquanto se diz o que os vestidos do Yahveh estão salpicados com o sangue de seus inimigos declarados (Isa. 63:1, 2), esta mesma descrição se aplica à vinda de Cristo como Rei-Juiz em Apocalipse 19:13. Como Moisés chamou o Deus de Israel "Senhor de senhores" (Deut. 10:7), isto agora se aplica a Cristo (Apoc. 17:14; 19:16). Em síntese, o Apocalipse transforma de uma maneira consistente a teofania ou aparição do Yahveh do Antigo Testamento em uma cristofania ou sublime aparição de Cristo. O Senhor Jesus ressuscitado assumiu a autoridade e o poder executivo do Todo-poderoso (Apoc. 19:15, 16; 22:1; cf. Mat. 28:18). Ele é um com o Pai e o executor da vontade do Pai. O Apocalipse descreve a Cristo com mais de 30 alusões à visão do juízo de Daniel 7. Esta visão central de Daniel se desempenha como a fonte imediata da descrição da missão final de Cristo como "um como um filho de homem" (Dan. 7:13, 14) em Apocalipse 14:14-16. Dessa maneira expressa João em uma linguagem pictórica o cumprimento messiânico do dia do juízo de Deus. Apocalipse 14 confirma o que Cristo tinha declarado antes aos dirigentes judeus em Jerusalém:

"E também o Pai a ninguém julga, mas deu ao Filho todo o juízo de exercer o juízo, porque é o Filho do Homem" (João 5:22, 27).

E deu-lhe o poder

Cristo, o Único Sumo Sacerdote do homem

João contempla a seu exaltado Senhor estando entre os sete castiçais celestiais, "vestido até aos pés de uma veste comprida e cingido pelo peito com um cinto de ouro" (Apoc. 1:13). Esta veste comprida sugere seu papel atual como nosso Mediador (ver Êxo. 28:4, 5; 39:5). A faixa ou o cinto "de ouro" ao redor de seu peito é também parte da visão do Daniel de um mensageiro messiânico que lhe fez entender a mensagem de Deus (Dan. 10:5, 6). A descrição apocalíptica de Cristo em Apocalipse 1 ensina a igreja que seu Senhor agora está cumprindo em realidade o que tinha prefigurado o sacerdócio de Israel. O Cristo vivente ouve nossas confissões e perdoa nossos pecados com segurança absoluta. Cristo substituiu todos os sacerdócios terrestres ao estabelecer a validez de seu presente sacerdócio (ver Heb. 10:9). Portanto, Cristo é até maior que Melquisedeque, o rei-sacerdote, a quem Abraão lhe deu o dízimo de tudo (7:1-10). O sacerdócio de Cristo é eficaz, devido a seu "poder de uma vida indestrutível" confirmado por um solene juramento de Deus (7:16-21; Sal. 110:4). E devido a este juramento divino, "Jesus é feito fiador de um melhor pacto" (Heb. 7:22). O Cristo ressuscitado agora "pode também salvar perpetuamente aos que por ele se aproximam de Deus, vivendo sempre para interceder por eles" (V. 25). Esta mensagem apostólica de consolação está confirmada dramaticamente pela visão inaugural de João em Apocalipse 1. Aqui Cristo começa a falar com sua igreja em termos mais específicos por meio das sete cartas que dita a João (ver Apoc. 2 e 3). Não é João, e sim Cristo, que fala do céu para animar e admoestar as sete igrejas começando com Éfeso, e através delas a todas suas igrejas onde quer estejam em qualquer tempo. Obviamente Cristo considera sete igrejas específicas ao fim do

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primeiro século como representativas de sete estados ou condições da igreja que existem em sua igreja que se estende até o fim. Em outras palavras, Cristo considera estas sete comunidades originais eclesiásticas como protótipos do futuro desenvolvimento da igreja em todo mundo. Nas sete cartas de Apocalipse 2 e 3, Cristo fala hoje com as igrejas cristãs. O fato de que Cristo termina cada carta com a mesma súplica, é importante: "Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas" (2:7, 11, 17, 29; 3:6, 13, 22). Esta sétupla súplica a todas as igrejas prova que Cristo inclui a cada igreja. Desta forma, Cristo até pastoreia a seus seguidores. Sua preocupação é salvar e santificar a suas congregações pecadoras. Ele não rechaça imediatamente a nenhuma delas, mas sim lhes dá tempo para corrigir seus caminhos, doutrinas e sacramentos. Cristo conhece perfeitamente o coração e a mente de cada um (At. 1:24; 15:8; Mar. 2:8; João 21:17). Revela a seus servos que a única maneira como podem estar seguros, acha-se em permanecer unidos a ele por meio da fé. Podem ser a luz do mundo unicamente ao refletir sua luz e a pureza de sua verdade. A segurança do Senhor ressuscitado é que seu povo estará preparado para sua vinda e que iluminarão toda a terra com a luz de seu poder pentecostal (ver Apoc. 18:1).

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CHAVES INTERPRETATIVAS DENTRO DO APOCALIPSE

O livro do Apocalipse é datado por volta do ano 96 de nossa era, quando já

estavam escritos os Evangelhos do Novo Testamento. Os quatro Evangelhos – Mateus,

Marcos, Lucas e João –, todos falam a respeito da primeira vinda do Messias Jesus e

se concentram em sua vida, sua missão e morte, sua ressurreição e sua ascensão. Aí

terminam os quatro Evangelhos. Mas o livro do Apocalipse começa depois de sua ressurreição, com Cristo exaltado à mão direita do Pai, levando a cabo sua obra de intercessão em preparação para sua volta. Desse modo, o Apocalipse se concentra

sobre sua mediação em favor da igreja durante a era cristã e em sua obra final de juízo

e libertação como a introdução para seu segundo advento. O Apocalipse é o

complemento dos quatro Evangelhos. É o único livro revelado por Cristo diretamente do céu. Ele o chama seu próprio "testemunho destas coisas nas igrejas" (Apoc. 22:16). Em sentido especial, o livro do Apocalipse é o testemunho de Jesus e o testemunho do Espírito (V. 17; 2:7, 11 ).

A primeira chave

Que chaves temos para decifrar seu simbolismo apocalíptico? A primeira chave interpretativa se apresenta virtualmente em cada versículo do livro. A edição grega do Novo Testamento indica que o Apocalipse contém mais de 600 alusões aos escritos do Antigo Testamento. A Bíblia Hebraica continua sendo o fundamento e a raiz do Novo Testamento, e só quando mantemos juntos ambos os Testamentos temos uma Bíblia completa. Em grande parte, o Antigo Testamento é profecia e o Novo Testamento proclama seu cumprimento em Cristo e em seu povo. Não podemos entender completamente um sem o outro. O fato de que o Apocalipse se refira mais de 600 vezes à história do Antigo Testamento e a seus conceitos hebraico, sugere que o Antigo Testamento é a primeira chave para decifrar o livro do Apocalipse. Em seu livro Atos dos Apóstolos, Ellen White declara que "no Apocalipse todos os livros da Bíblia se encontram e se cumprem" (p. 585). Essa é uma declaração teológica profunda e fascinante! Todos os outros livros da Bíblia, 65 em total, encontram seu significado recôndito e sua consumação no Apocalipse. Isto quer dizer que os livros de Moisés, os profetas, e também os Salmos, encontram sua aplicação final no livro do Apocalipse. Significa que todos os atos históricos de Deus em salvação e juízo voltarão a acontecer em uma escala mundial.

O fato de que o Antigo Testamento seja a chave para o Apocalipse tem sido

reconhecido hoje em dia como um descobrimento importante na história dos estudos apocalípticos. Não obstante, alguns intérpretes até tratam de explicar o livro do Apocalipse por si mesmo, literalizando suas palavras e imagens como se fossem fotografias atuais de eventos futuros. Por conseguinte, o centro de atenção muda

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imediatamente para longe de Cristo ao povo judeu no Oriente Médio e a outros eventos políticos. O monte Sião em Apocalipse 14 se aplica a um monte literal em Jerusalém. Este enfoque se chama literalismo. Outros foram ao extremo oposto segundo o qual cada símbolo se explica especulativamente, sem nenhuma norma bíblica. Esse enfoque se chama alegorismo. Tanto o literalismo como o alegorismo são especulações injustificadas. A única chave que decifra o significado recôndito do Apocalipse é a chave que o mesmo livro indica. Seus conceitos simbólicos e seus termos estão tirados do Antigo Testamento. Ali encontramos o significado dos símbolos apocalípticos em seu marco do pacto original e da história da salvação. No Antigo Testamento encontramos os protótipos na história do que Deus vai fazer no futuro. Deus revela o futuro mostrando-nos como atuou no passado. Diz ao povo de Cristo que têm um sublime chamado e um grande futuro, devido ao que Deus prometeu no passado. O Apocalipse destaca a autoridade de Cristo ao declarar que é "a revelação do Jesus Cristo, que Deus lhe deu" (1:1). O que é que quer dizer por Deus"? O Deus do pacto, o Deus de Israel, o Deus de Abraão, Isaque e Jacó. O Deus do pacto está falando agora "para manifestar a seus servos as coisas que devem acontecer logo" (v. 1). Estas palavras: "que devem acontecer logo", com exceção da palavra "logo", todas estão citadas de Daniel. Estando perante Nabucodonosor, o rei de Babilônia, disse Daniel: "Mas há um Deus nos céus, o qual revela os mistérios, e ele tem feito saber ao rei Nabucodonosor o que tem que acontecer nos últimos dias" (Dan. 2:28). Estas palavras se repetem como o tema do Apocalipse. Entretanto, João acrescenta a palavra "logo" (Apoc. 1:1). Isto nos diz que a primeira vinda de Cristo levou a expectativa da esperança de Daniel muito mais perto de sua realização histórica. Para apreciar o cumprimento da profecia do Daniel, devemos saber em que tempo recebeu a visão. Daniel viveu durante o Império Neobabilônico (604-539 a.C.). No capítulo 2, Daniel revela uma visão que Deus deu ao rei Nabucodonosor. Consistia de uma estátua metálica feita de quatro metais: uma cabeça de ouro; seu peito e seus braços de prata; seu ventre e suas coxas de bronze; suas pernas de ferro; seus pés, em parte de ferro e em parte de barro cozido, um fundamento muito frágil para uma estátua tão pesada. Esta é uma revelação de como Deus vê o curso da história do mundo, com a humanidade erguida sobre pés de barro. Entretanto, no quadro vivo de Daniel, Deus tem uma parte. Duas vezes se destaca que uma pedra foi cortada "sem intervenção humana" (Dan. 2:34, 45, NBE), indicando que o homem não tem nada que ver com o destino final do mundo. No tempo indicado por Deus, descerá uma rocha do céu, dirigindo-se para o planeta terra. A estátua simboliza nosso mundo em sua história política do tempo do profeta Daniel. Começando com Babilônia, apresenta os impérios sucessivos de Medo-pérsia, Grécia- Macedônia, para ser seguidos pela autoridade de ferro do Império Romano que durou desde ano 164 a.C. até 476 d.C. Depois disso viria um mundo "dividido" (v. 41). Hoje em dia não existe um governo mundial, embora alguns tentaram fazê-lo pela força durante os últimos séculos, incluindo Carlos Magno, Napoleão e Hitler. Nossa

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situação mundial presente está surpreendentemente representada pelos pés da estátua da profecia. Somos testemunhas da época avançada na história do mundo, tal como se esboça em Daniel 2. Deus é o Senhor da história, e por meio de Cristo a levará a sua conclusão decretada. Quando Cristo venha pela segunda vez, terminará com todas as estruturas políticas de poder, tal como se prediz em Daniel 2:44 e 45. Deus não é um espectador da história mundial; ele guia e dirige ativamente o fluir da história para seu destino, seja que lhe ajudemos ou não. Em Apocalipse nos volta a assegurar que tudo será novo: "Eis aqui eu faço novas todas as coisas" (Apoc. 21:5). Nenhuma comunidade pode restaurar o paraíso. O Apocalipse começa com a garantia de que a predição de Daniel acontecerá "logo"! Há uma nova oportunidade em Apocalipse que não está presente em Daniel. Uma indicação adicional desta urgência do fim do tempo é o fato de que o rolo do Daniel estava "selado" até o tempo do fim (Dan. 12:4). Daniel 8 foi selado explicitamente para "um futuro remoto" (8:26, NBE). Daniel não escreveu para seu próprio tempo. Suas visões ficaram seladas porque eram para as gerações futuras. Por outro lado, o livro do Apocalipse termina com esta ordem direta: "Não sele as palavras da profecia deste livro, porque o tempo está perto" (Apoc. 22:10). Portanto, o livro selado de Daniel fica aberto gradualmente no Apocalipse. Isto significa que um não pode entender o livro do Apocalipse sem entender suas raízes em Daniel. Isto se confirma pela primeira declaração que faz João do tema fundamental do Apocalipse:

"Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até quantos o traspassaram. E todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. Certamente. Amém!" (Apoc. 1:7).

Esta linguagem figurada por si mesma não dá a conhecer todo seu profundo significado. A chave para entender seu significado se encontra na Bíblia Hebraica! A raiz central primária do Antigo Testamento de Apocalipse 1:7 é Daniel 7. Este capítulo de Daniel constitui a visão apocalíptica principal para o livro do Apocalipse. Daniel mesmo ficou profundamente comovido pelo que ouviu e viu. Sua nova visão ampliou sua predição profética anterior do capítulo 2. Agora se descrevem os quatro metais da estátua em Daniel 2 como quatro bestas insólitas que surgem do mar das nações como impérios mundiais, em forma sucessiva. Depois segue uma nova revelação que desenvolve o significado da pedra que cai do céu e esmiúça a estátua.

A segunda chave

Escreve Daniel: "Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha com as nuvens do céu um como o Filho do Homem" (Dan. 7:13). Esta representação específica forma a fonte da proclamação de João em Apocalipse 1: "Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá" (v.7). Na visão de Daniel, o semelhante a um filho de homem, o ser celestial, foi até o "Ancião de Dias" (Dan. 7:13).

"Foi-lhe dado domínio, e glória, e o reino, para que os povos, nações e homens de todas as línguas o servissem; o seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino jamais será destruído" (Dan. 7:14).

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Esta coroação celestial do Messias celestial em Daniel 7 desenvolve o centro culminante em Daniel 2 onde a rocha cortada "sem intervenção humana" investe contra a estátua, pulveriza-a e é levada pelo vento de maneira que não fica nada a não ser a rocha, que chega a ser o paraíso restaurado. Dessa forma, tanto no capítulo 2 como no 7, o profeta nos assegura que o reino de Deus será restaurado sobre a terra. Há algo muito importante que se desenvolve entre o Daniel 2 e 7. A pedra de Daniel 2 chega a ser o Messias, representado como "um como um filho de homem", em contraste com as "bestas" ímpias do capítulo 7. Esta revelação assombrosa revela que no céu há outro personagem celestial além de Deus o Pai, um de aparência divina, que aparece sobre um carro de nuvens celestial: "Com as nuvens!" Estas devem representar as nuvens de anjos celestiais. A linguagem figurada de "nuvens" indica uma aparência divina (ver Êxo. 13:21; 14:19; 19:16; 40:34; Lev. 16:2; Núm. 9:15-23; Sal. 104:3; Isa. 19:1; Deut. 33:26). O Messias divino virá para julgar e restaurar (Dan. 7:22). O Pai lhe dá todo o domínio sobre a terra. Este Messias governará nosso mundo de parte de Deus. Declara Daniel:

"O reino, e o domínio, e a majestade dos reinos debaixo de todo o céu serão dados ao povo dos santos do Altíssimo" (Dan. 7:27).

Aqui lemos que os santos receberão o reino de Deus. Esse "reino será reino eterno, e todos os domínios o servirão e lhe obedecerão" ao divino Filho de Homem (7:27). Dessa maneira Deus transfere no céu ao Messias divino toda a autoridade e o poder soberano sobre nosso planeta.

O Filho de Homem celestial deve provir do céu e dirigir-se à Terra. Nesse ponto,

Apocalipse 1 continua e supera Daniel 7. Apocalipse 1 anuncia: "Eis que vem com as nuvens". Virá "logo" a nossa terra: "E todo olho o verá" (v. 7). Esta não é uma vinda espiritual, invisível, porque até os incrédulos em todo mundo verão sua vinda. Significa o glorioso reaparecimento do Senhor Jesus Cristo ressuscitado (ver também At. 1:9-11; Heb. 9:28). Para os judeus, o Messias era primordialmente um personagem político e militar. Jesus não desejava confirmar estas expectativas messiânicas (João 6:15). Distanciou- se da imagem messiânica prevalecente em seus dias e escolheu um símbolo do Antigo Testamento que não estava carregado com essa interpretação errônea. Jesus se chamou a si mesmo "o Filho do Homem". Mudou a expressão de Daniel de "um como um filho de homem" a um termo messiânico mais explícito. Cristo se chamou a si mesmo em repetidas ocasiões "o Filho do Homem". De fato aparece assim 77 vezes nos quatro Evangelhos.

A frase "o Filho do Homem" não quer dizer que Jesus foi meramente um homem.

Cristo explica seu autodesignação da visão de Daniel 7: "Pois para que saibam que o Filho do Homem tem poder na terra para perdoar pecados, te digo: levante-te" (Mar. 2:10, 11). Aqui Cristo se chamou a si mesmo "o Filho do Homem". Como o filho de homem daniélico, tem o poder para perdoar pecados. Nenhum sacerdote Levítico disse nunca: "Perdôo teus pecados". Não há nenhum pastor protestante que afirme: "Perdôo seus pecados". Só o sacerdote católico romano afirma: "Perdôo seus pecados" ("Ego te absolvo"). Segundo a Sagrada Escritura só Deus pode perdoar nossos pecados (Sal.

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32:5; Isa. 43:25). Por isso, quando o "filho de homem" de Daniel 7 vem para perdoar pecados, a frase "Filho do Homem" significa o Messias celestial ou "Filho de Deus" (ver João 5:27). Só à luz do Daniel 7 podemos entender que o Filho do Homem é um Messias divino com autoridade igual a de Deus o Pai. Quando o Apocalipse enfatiza que Cristo logo voltará, isto são boas novas para os seguidores de Jesus. Virá para executar seu juízo sobre os ímpios. Se pela fé "estamos em Cristo" não temos nada a temer, porque Cristo já nos livrou que a condenação divina (Rom. 8:1). Em realidade, devemos recebê-lo com satisfação e desejar juiz divino, como insígnia o livro de Salmos. No Salmo 96 todas as árvores do bosque "transbordam de contente", porque Deus deve julgar o mundo com justiça (vs. 11-13). O Apocalipse proclama que todos os que estão sobre a terra serão testemunhas de sua segunda vinda, até aqueles que o "transpassaram". Esta expressão se refere claramente à morte de Jesus. Jesus foi transpassado pela lança de um soldado romano. Do corpo de Jesus fluiu água e sangue (João 19:34, 37). Mas em um sentido especial todos os oponentes principais de Cristo Jesus na história estão incluídos em "os que o transpassaram" por meio das "lanças" de suas palavras e ações. Esta frase também tem sua raiz principal no Antigo Testamento. O profeta Zacarias havia predito antes que Jerusalém "transpassaria" a seu próprio Messias Pastor e então todas as tribos do Israel se afligiriam por ele (Zac. 12:10-14; cf. 9:9; 13:7). O cumprimento das predições de Zacarias começou quando Cristo apareceu pela primeira vez, durante sua entrada triunfal em Jerusalém como seu Messias Rei (ver Mat. 21:4, 5). Uma semana mais tarde Jesus anunciou que agora todas as suas ovelhas seriam dispersas, como havia predito Zacarias (ver Mat. 26:31). Zacarias predisse que Jerusalém rechaçaria e "transpassaria" a seu Messias:

"E olharão para mim, a quem traspassaram; e o prantearão como quem pranteia por um unigênito; e chorarão amargamente por ele, como se chora amargamente pelo primogênito" (Zac. 12:10).

Jesus recalcou que as doze tribos de Israel "se lamentariam" (Zac. 12:12-14). Este pranto nacional incluso ainda não se realizou na nação judaica. Apocalipse 1 faz esta aplicação ampliada:

"Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até quantos o traspassaram. E todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. Certamente. Amém!" (Apoc. 1:7).

Isto significa que todos os povos da terra se lamentarão com desespero quando vier pela segunda vez, "por causa dele". O Apocalipse desenvolve esta cena com mais dramatismo em suas visões seguintes (ver 6:15-17; 14:14-20; 19:11-21). A importância deste ponto culminante no Apocalipse fica sublinhado pelas palavras proféticas de Jesus no Evangelho de Mateus:

"Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e muita glória" (Mat. 24:30).

Porque "todo olho" o verá e "todas as tribos" ou povos da terra farão lamentação por ele; ninguém que rechace a Cristo na geração final será capaz de esconder-se deste glorioso Rei-Juiz no último dia.

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Resumo

Sintetizando os descobrimentos desta investigação, o Apocalipse revela duas

chaves específicas de interpretação para decifrar seus conceitos simbólicos:

A primeira chave é que seu simbolismo está copiado do Testamento mais antigo,

a Bíblia Hebraica. Isto mantém a continuidade do Deus do pacto com seu verdadeiro

Israel. A palavra de Deus não foi anulada devido à rebelião de Israel. O Messias de Deus apareceu em Israel e cumpriu sua missão (ver Mar. 10:45 e João 19:30).

A segunda chave é a verdade evangélica que se encontra nos quatro Evangelhos

do Novo Testamento: o crucificado e ressuscitado Jesus de Nazaré é o Messias da profecia. Isto significa que todos os termos e as imagens do antigo pacto estão agora refundidas na linguagem figurada do novo pacto que está centrado em Cristo. Um erudito católico romano ficou tão impressionado pela "releitura cristã do Antigo Testamento" feita por João, que concluiu: "Agora perece que este uso deliberado do Antigo Testamento que faz o autor do Apocalipse deveria estudar-se mais cuidadosamente do que foi estudado até agora". 1 Devem estudar-se múltiplas conexões do Apocalipse com o Antigo Testamento, não para mostrar a maneira como João engenhosamente adaptou os símbolos e as profecias hebraicas, a não ser para entender de que maneira o Deus de Israel consumará suas promessas que fez no antigo pacto por meio de Cristo e seu povo do novo pacto.

Referência

1. André Feuillet, The Apocalypse [O Apocalipse] (Staten Island, Nova York:

Alvorada House, 1965; da ed. francesa [Paris: Desclée deo Brouwer, 1962]), p.

79.

A COMPOSIÇÃO LITERÁRIA DO APOCALIPSE

O Apocalipse contém um plano arquitetônico detalhado em sua estrutura literária

que até recentemente foi passado por cima. Um erudito moderno declara que "a chave

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para entender uma obra é sua forma literária". 1 Enquanto que o Apocalipse é apreciado como uma obra de poesia e é considerado como um poema artisticamente engenhoso, João não compôs seu livro por amor à arte. O propósito foi "sublinhar os diferentes aspectos da mensagem teológica do livro". 2 Isto implica que o plano literário é uma parte essencial do ensino de João. Até C. Mervyn Maxwell conclui dizendo que o desenho simétrico do Apocalipse proporciona "uma das chaves mais valiosas para abrir o significado do livro". 3 A correlação da forma literária e o conteúdo teológico requer que o leitor preste atenção cuidadosa à estrutura do livro. Revela algumas pautas inerentes para interpretar o Apocalipse. O Apocalipse de João está construído de acordo com o modelo de um paralelismo inverso, comparável aos braços correspondentes de um candelabro ou menorá, no qual os braços da parte esquerda são paralelos aos da direita. Este modelo simétrico divide o Apocalipse em duas divisões principais, sugiriendo um tema duplo no livro: a presença continuada de Cristo e sua gloriosa segunda vinda (Apoc. 1:7, 8, 17, 18; 22:12, 13). Conclui Kenneth Strand dizendo que:

"A primeira parte maior do livro (caps. 1-14) trata com a era na qual o Alfa e o Ômega é o protetor e sustentador de seu povo apesar das provas e perseguições que possam surgir em seu caminho. A segunda parte maior do livro, começando com o capítulo 15, trata com os juízos escatológicos que se agrupam e se centram na consumação da era: a segunda vinda de Cristo". 4

O Apocalipse pode dividir-se de uma maneira diferente se se aplicarem outros pontos de vista que não sejam o do fim do tempo de graça. A gente pode ver as visões do tempo do fim começando já no capítulo 10, com referência à chamada final do céu para ter um povo que pode subsistir firme contra o império anticristiano. Mas é um fato ineludível que o livro está arrumado em duas grandes divisões que se correspondem mutuamente. Vamos vê-lo em cinco aspectos bem marcados:

1. A primeira indicação deste modelo literário é a natureza paralela do prólogo (Apoc. 1:1-8) e do epílogo (22:6-21). Em ambas as seções se fala de um anjo enviado por Deus para mostrar a seus servos "as coisas que devem acontecer logo" (1:1 e 22:6). Ambas as partes contêm a mesma bem-aventurança para os que ouvem a profecia de João (1:3 e 22:7). Além disso, Apocalipse 1:2 explica que o livro contém "a palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo", e o epílogo conclui: "Eu Jesus, enviei meu anjo para lhes dar testemunho destas coisas nas igrejas" (22:16). Ambas as seções mencionam o tema dominante da volta de Cristo (1:7 e 22:7, 12, 20). As duas vezes lêem que "o tempo está perto" (1:3 e 22:10). No prólogo, Deus é chamado o Alfa e o Ômega (1:8), enquanto que o epílogo descreve a Cristo como o Alfa e o Ômega (22:13). Além de tudo isto, ambas as seções mencionam o Espírito como parte da Deidade (1:4, 5 e 22:6, 9, 16, 17). Estas correspondências revelam que o prólogo e o epílogo formam um modelo deliberado de complementos ou paralelos. Esta é a indicação inicial de um paralelismo intencional dentro do Apocalipse. 2. O segundo conjunto de contrapartes surpreendentes se encontra nos capítulos 2, 3, 21 e 22 do livro. As sete cartas que aparecem em Apocalipse 2 e 3 contêm

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promessas específicas para a igreja militante. Estas promessas retornam em Apocalipse 21 e 22 como sendo cumpridas na visão que João teve da Nova Jerusalém no paraíso restaurado. Por exemplo, Cristo promete a "árvore da vida" no paraíso (2:7), enquanto que Apocalipse 22:2 mostra seu cumprimento. A promessa de "não sofrer dano da segunda morte" (2:11), cumpre-se em Apocalipse 20:6, 14 e 21:4, 8. A promessa de receber a "estrela da manhã" (2:28) aparece em Apocalipse 22:16 como cumprida em Cristo. O "livro da vida" (3:5) reaparece em Apocalipse 21:27 como o

livro da vida do Cordeiro. A promessa de chegar a ser "coluna no templo de Deus" com a inscrição dos nomes de Deus e de Cristo e da Nova Jerusalém (3:12), realiza-se em Apocalipse 21:7, 10, 22 e 22:4. A promessa de ter um lugar com Cristo em seu trono (3:21) vê-se cumprida em Apocalipse 20:4 e 22:3-5. Estas promessas à igreja nos capítulos 2 e 3 do livro reaparecem em Apocalipse 21 e 22 como promessas cumpridas na igreja triunfante. Estas correspondências intencionais mostram que para ter a compreensão total de uma parte se requer a integração de seu contraparte ou complemento. Portanto, as sete cartas de Cristo em Apocalipse 2 e 3 não podem divorciar-se legitimamente do resto do livro. Essas cartas tratam com a igreja militante, enquanto que Apocalipse 21 e 22 nos asseguram de sua chegada a salvo à Nova Jerusalém. Todas as partes da primeira divisão do livro (caps. 1-14) antecipam a segunda visão. Como se mencionou na introdução, há uma progressão sensível de tempo entre as duas divisões principais do Apocalipse.

3. O terceiro paralelismo principal pode observar-se entre as visões do trono de

Apocalipse 4 aos 6 e 19 e 20. Ambas as seções começam com um céu aberto no qual 24 anciões e 4 seres viventes adoram a Deus sentado em seu trono (ver 4:1, 4, 9; 5:13,

14; 19:1, 4). Ambas as unidades descrevem a um cavaleiro sobre um cavalo branco; explicam assim reciprocamente o começo e a terminação da missão evangélica (6:2; 19:11), e descrevem graficamente o progresso no tempo, cuja dimensão está descrita com grandiosidade por meio das almas dos mártires nos capítulos 6, 19 e 20. Durante o quinto selo, João ouve que os mártires clamam: "Até quando, Senhor,

santo e verdadeiro, não julgas e vingas nosso sangue nos que moram na terra?" (6:10).

Em Apocalipse 19 escuta o canto de vitória: "Aleluia!

vingou o sangue de seus servos da mão dela [a grande

meretriz]" (vs. 1, 2). Apocalipse 20:4 mostra a vindicação dos mártires. Esta é uma

Deus] são verdadeiros e justos

porque teus juízos [os de

evidência adicional da progressão contínua da história da salvação entre Apocalipse 4 a 6 e 19 e 20. A justiça que se solicita em Apocalipse 6 chega a ser a que se outorga em Apocalipse 19 e 20.

4. Pode detectar um quarto paralelismo simétrico nas duas séries que falam de

juízo: a seqüência das sete trombetas nos capítulos 8 e 9 mostra correspondências surpreendentes com a seqüência das sete taças (ou pragas) em Apocalipse 16. Ambas as séries proféticas descrevem juízos de Deus e usam símbolos idênticos. Ambas as

seções adotam o motivo do êxodo hebreu com suas pragas-juízos que revelam a majestade do Deus de Israel. Entretanto, chega a ser patente que as pragas de

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Apocalipse 16 são mais intensas e extensas que as pragas das trombetas, que afetam só uma terça parte do mundo. As taças com as pragas representam os juízos finais de Deus sobre a última geração de um mundo rebelde. Seu cenário é depois que terminou o tempo de graça (Apoc. 15:7, 8). Isto confirma a composição literária do livro no qual as trombetas estão colocadas na parte histórica, enquanto que as taças com as 7 pragas últimas estão estritamente na divisão do juízo final. A progressão clara de tempo que se dá a entender entre os juízos das trombetas e das pragas mostra o caráter misericordioso de Deus, que é "tardio para a ira" (Êxo. 34:6), no aumento gradual da intensidade dos juízos. As trombetas de Apocalipse 8 e 9 formam os tipos de admoestação durante a era cristã, dos juízos sem misericórdia nas últimas pragas de Apocalipse 16, que se derramarão ao fim da história. 5. Finalmente, a visão profética de Apocalipse 12 mostra alguns paralelos chamativos com os últimass sobre Babilônia que aparecem no capítulo 17. Ambas as visões descrevem uma "mulher" simbólica (12:1; 17:1) e uma besta de 7 cabeças e 10 chifres (13:1; 17:3). Uma vez mais notamos o avanço no tempo nestas seqüências proféticas. As "coroas" do dragão mudam das 7 cabeças aos 10 chifres entre Apocalipse 12 e 13. Em Apocalipse 17:10 ouvimos que 5 dos 7 poderes ímpios "caíram, um existe, e o outro ainda não chegou". Desta maneira se declara enfaticamente o desenvolvimento no tempo. A linha de demarcação entre a era histórica e o juízo apocalíptico pode ver-se no fim de Apocalipse 14. O capítulo 15 começa com o anúncio da terminação da mediação celestial no templo de Deus. Por conseguinte, Apocalipse 1-14 abrange a era cristã por meio de vários ciclos progressivos de seqüências proféticas. Entender-se-á melhor cada seqüência profética no Apocalipse se se levar em conta seu complemento correspondente na outra divisão do livro. Por exemplo, o significado do misterioso capítulo 17 (com seu juízo sobre a besta com 7 cabeças) pode entender-se adequadamente só na perspectiva do cumprimento gradual de Apocalipse 12 e 13, onde esta besta aparece descrita em seu surgimento histórico e desenvolvimento como o anticristo. Estes exemplos de correspondência literária entre as duas divisões principais do Apocalipse implicam um princípio inerente de interpretação: Cada unidade profética deve relacionar-se com sua própria divisão e tema teológico, já seja com a era histórica da igreja (Apoc. 1-14) ou com o juízo futuro, depois que tenha terminado o tempo de graça (Apoc. 15-22). A progressão entre as duas divisões nos leva a interpretar as trombetas e os selos como seqüências proféticas que cobrem a história da igreja, enquanto que as pragas se descrevem como juízos específicos do tempo do fim. Podem encontrar-se ocasionalmente algumas exortações morais dentro da divisão onde aparece o juízo (17:9-12; 16:15; 18:1, 4; 20:6; 19:9). Isto coloca ao milênio de Apocalipse 20 na era futura, depois que terminar o tempo de graça (cap. 15). Entender toda a intenção da profecia e do cumprimento requer uma relação cuidadosa das partes correspondentes em ambas as divisões. Este procedimento segue o plano arquitetônico do Apocalipse. Desse modo, ao vincular a teologia e a

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composição, o Apocalipse revela a chave para sua compreensão. Portanto, não é válido isolar do arranjo total do livro qualquer versículo ou seção.

Análise Estrutural

Muitos expositores apresentaram um esboço detalhado da estrutura do livro. Dividem o livro em 5, 6 ou 7 séries de visões. Alguns dividem cada uma destas ulteriormente em 7 unidades ou septenários, segundo o exemplo das 7 igrejas, os 7 selos, as 7 trombetas e as 7 pragas. Merril C. Tenney e outros distinguem dentro das séries independentes de Apocalipse 12 a 14, 7 personagens simbólicos (a mulher, o dragão, o menino, Miguel, a besta do mar, a besta da terra, o cordeiro) e dentro de Apocalipse 21 e 22, 7 "coisas novas". Entretanto, parece melhor concentrar-se no significado dos explícitos septenários que apresenta João das igrejas (caps. 2 e 3), os selos (cap. 6), as trombetas (caps. 8 e 9) e as pragas (cap. 16). Cada série de setes contém uma seqüência completa que lhe é própria. Entretanto, em forma notável, depois do sexto selo, depois da sexta trombeta e depois da sexta praga, há um intervalo especial com uma visão concentrada, que trata de explicar com mais detalhe os eventos precedentes em cada série, com assuntos pastorais para o povo de Deus do tempo do fim. Maxwell denomina a estes parêntese nas visões: "… cenas de obrigações ou encargos para o tempo do fim, e de segurança". 5 Estes intervalos pastorais pertencem às visões mais significativas e consoladoras de Apocalipse (Apoc. 7; 10, 11; 16:15). Estas passagens do tempo do fim requerem nossa atenção especial. Os 3 últimos septenários terminam com a dramática vinda de Cristo em juízo (6:12-17) ou com os sinais de sua guerra santa contra os ímpios (11:19; 16:17-21). Estas terminações apocalípticas de cada cadeia indicam que as 3 séries não são 3 seqüências cronológicas, que cada uma segue à outra. Pelo contrário, repetem a mesma seqüência histórica vista sob perspectivas diferentes. Cada vez o septenário seguinte intensifica o foco sobre os eventos finais, como em uma escada em caracol. Isto cria uma urgência cada vez maior no Apocalipse. Como explicou Robert H. Mounce: "Cada nova visão, intensifica a realização do juízo vindouro. Assim como uma tormenta que se arma no mar, cada nova crista da onda conduz a história mais perto de seu destino final". 6 Precisamos reconhecer o estilo literário de recapitulação no Apocalipse. O princípio de repetição e ampliação já está presente nos esboços proféticos de Daniel (Dan. 2, 7, 8, 11 ). Dessa forma, o estilo de recapitulação e intensificação que usa João, adotou-o do estilo literário do livro apocalíptico de Daniel. Tanto no prólogo (Apoc. 1:2) como no epílogo (22:6), João anuncia que o tema do Apocalipse é: "As coisas que logo devem acontecer". Isto é tomado diretamente do livro de Daniel (Dan. 2:28, 29, 45, nas versões gregas), com a exceção do termo "logo" ou "breve" que agora é acrescentado pelo próprio João. O livro do Daniel também serve como modelo para o tema teológico de João: o grande conflito entre

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Cristo e sua igreja por um lado, e Satanás e os poderes de seu anticristo pelo outro. Assim como Daniel, a ênfase de João está sobre o resultado do conflito, o juízo universal-cósmico e a ulterior restauração do reino de Deus na terra. Como assinalou George K. Beale, "a idéia de um juízo cósmico, escatológico, não é um tema principal de nenhum dos livros do Antigo Testamento exceto no de Daniel". 7 Pode-se inferir que o Apocalipse representa o desenvolvimento cristocéntrico das profecias do Daniel. André Feuillet até chamou o Apocalipse "o livro do Daniel do cristianismo". 8 As repetidas alusões a Daniel 2 neste livro, sugerem que o Apocalipse de João tem o propósito de ser a continuação e o desenvolvimento ulterior das profecias de Daniel. Observamos que os ciclos proféticos dos selos (Apoc. 4-7), das trombetas (caps. 8-11) e das pragas (caps. 15 e 16) rodeiam a parte central do livro, que se encontra nos capítulos 12 a 14. Esta unidade, dentro de si mesmo, descreve o desenvolvimento principal da história da igreja. Começa com o primeiro advento de Cristo durante o Império Romano (12:1-5), continua com a igreja no deserto por 1.260 dias proféticos ou 3 ½ tempos proféticos (12:6, 14) e finaliza com a igreja remanescente do tempo do fim (12:17). Apocalipse 13 desenvolve o tema do anticristo e seu falso profeta. Apocalipse 14 revela o ultimato de Deus para um mundo que está unido em uma rebelião contra Deus. Esta chamada final para a restauração da verdadeira adoração produz um povo de Deus fiel antes que chegue o juízo (ver 14:6-12). Dessa forma, o tema da igreja como a comunidade da salvação nos últimos dias não só se acha no começo e no fim do livro, mas sim também constitui o núcleo do Apocalipse. Este arranjo literário confirma a convicção de que o Apocalipse não contém simplesmente 7 cartas a 7 igrejas (caps. 2 e 3). Todo o Apocalipse como um tudo indivisível está dirigido como uma carta profética apostólica à igreja universal. Através do arranjo simétrico do livro, João enfatiza que a comunidade cristã é o ponto focal do Apocalipse. Todos os termos e as imagens simbólicas devem relacionar-se com Cristo e com seu povo como o verdadeiro Israel de Deus. Nos capítulos restantes do livro, João usa o estilo de um paralelismo contrastante entre Babilônia como "a grande meretriz" (17:1) e a Nova Jerusalém como "a esposa do Cordeiro" (21:9), e por essa razão ensina a relação destas duas seções finais (17:1- 19:10 e 19:11-22:5). Juntas descrevem dramaticamente o duplo tema de retribuição e recompensa. O fato de que ambas as cenas – a queda de Babilônia e o triunfo da Nova Jerusalém – seja introduzida pelo próprio anjo das pragas (cap. 16; ver 17:1; 21:9), sugere que toda a seção de Apocalipse 17-22 é o desenvolvimento ulterior da dupla colheita do mundo que se apresenta em Apocalipse 14:14-20. Permanecemos admirados ante a engenhosa concepção do Apocalipse de João e o aceitamos como a habilidade artística da inspiração divina. Concordamos com C. Mervyn Maxwell quando afirma que

"… o Apocalipse é um livro que põe de manifesto uma arte interior inspirada por Deus e escrito com amante e inteligente devoção. Inclusive a forma em que Deus e São João nos fizeram chegar, confirma nossa convicção de que o Senhor se preocupa conosco porque nos ama". 9

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Esboços Simétricos

O esboço mais singelo do Apocalipse que mostra a composição literária de um paralelismo inverso é o seguinte acerto:

A. A igreja militante Caps. 1-3

B. Cristo começa a guerra Caps. 4:1-8:1

C. Chamado de trombeta para arrepender-se Caps. 8:2-11:19

D. Panorama da era cristã Caps. 12-14 C 1 . Termina o tempo de prova: juízos retributivos Caps. 15 e 16

B 1 . Cristo termina a guerra Caps. 17-20

A 1 . A igreja triunfante Caps. 21 e 22 Um esboço mais detalhado da composição literária do Apocalipse é apresentado por Elisabeth Schüssler Fiorenza da seguinte maneira: 10

A. Prólogo, 1:1-8

B. A comunidade sob juízo, 1:9-3:22 (7 mensagens)

C. O reino de Deus e de Cristo, 4:1-9:21; 11:14-19 (7 selos e 7 trombetas)

D. A comunidade e seus opressores, 10:1-11:13; 12:1-15:4 A comissão profética, 10:1-11:13 Inimigos da comunidade, 12:1-14:5 Colheitas escatológicas, 14:6-20; 15:2-4.

C 1. O juízo de Babilônia / Roma, 15:1, 5-19:10 As sete pragas, 15:5-16:21 Roma e seu poder, 17:1-18 Juízo sobre Roma, 18:1-19:10 B 1 . O juízo final e a salvação, 19:11-22:9 A 1 . Epílogo, 22:10-21.

O esboço mais detalhado da estrutura quiástica do Apocalipse é apresentado por Kenneth A. Strand em seu estudo: "The Eight Basic Visions" [As oito visões básicas]. Também coloca Apocalipse 11:19 a 14:20 como a cúpula das visões históricas. 11 Em todos os esboços, a mensagem básica do livro se destaca claramente no centro: Apocalipse 12-14 (ampliado pelo parêntese do Apoc. 10 e 11). Esta parte principal do livro enfoca a igreja do Senhor Jesus como a comunidade adoradora durante a era cristã. Dentro desta estrutura, o farol de luz da profecia muda da igreja apostólica à igreja no deserto e finalmente se estende à comunidade remanescente no tempo do fim (caps. 12-14). Não se pode fazer um estudo responsável pelas profecias do tempo do fim se se divorciarem algumas porções seletas da Escritura de seus contextos inalienáveis. O Apocalipse reiteradamente dirige seu feixe de luz sobre a conclusão dos ciclos proféticos dos selos e das trombetas, de maneira que é necessária a perspectiva de cada ciclo para entender uma visão específica do tempo do fim e sua mensagem de consolo.

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Isto é o mais imperioso já que os apóstolos aplicam as profecias do tempo do fim do Antigo Testamento a todo o período entre os adventos de Cristo e não meramente a algum segmento específico da história da salvação. Por exemplo, tanto Pedro como Paulo vêem a profecia do tempo do fim de Joel 2:32 como já em processo de cumprimento na igreja apostólica e em seu alcance missionário mundial do Pentecostes (ver Hech. 2:16-21; Rom. 10:9-13). Mas o Apocalipse de João aplica Joel 2:32 em sua consumação final à última geração dos seguidores de Cristo (ver Apoc. 7 e 14:1-5; 17:12-14; 18:1-4; 19:11-21). Este modelo de cumprimentos do Novo Testamento aponta à dinâmica de um cumprimento progressivo das profecias do Israel do tempo do fim. O Apocalipse constitui a pedra fundamental de todas as revelações proféticas desde Moisés. As dimensões apocalípticas de todos os outros livros da Bíblia encontram sua consumação no Apocalipse de João.

Referências

Para a Bibliografia, ver na página 140.

1. A. Y. Collins, The Apocalypse. New Testament Message, t. 22, p. x.

2. K. A. Strand, "The Eight Basic Visions" [As Oito Visões Básicas], Simpósio sobre o Apocalipse. t. 1, p. 35.

3. Maxwell, Apocalipsis: sus revelaciones, 54.

4. Strand, Simpósio sobre o Apocalipse. t. 1, p. 30.

5. Maxwell, Apocalipsis: sus revelaciones, p. 61.

6. Mounce, The Book of Revelation, p. 46.

7. Beale, The Use of Daniel in Jewish Apocalyptic Literature and in the

Revelation of St. John, p. 414.

8.

Feuillet, The Apocalypse, p. 65.

9.

Maxwell, Apocalipsis: sus revelaciones, p. 62.

10.

Schüssler Fiorenza, Apêndice.

11.

Strand, "The Eight Basic Visions" [As Oito Visões Básicas], Simpósio sobre o Apocalipse, t. 1, pp. 36, 37.

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FONTES BIBLIOGRÁFICAS DO CAPÍTULO XI

Livros

Collins, Adela Y. The Apocalypse. New Testament Message [O Apocalipse. Mensagem do Novo Testamento]. Wilmington, Michael Glazier, 1979. Feuillet, André The Apocalypse [O Apocalipse] (Staten Island, Nova York:

Alvorada House, 1965; da ed. francesa [Paris: Desclée de Brouwer, 1962]). Maxwell, Mervyn. Apocalipsis: sus revelaciones (Florida, Buenos Aires:

Asociación Casa Editora Sudamericana, 1991). Mounce, Robert H. The Book of Revelation [O livro do Apocalipse]. The New

International Commentary on the New Testament [O novo comentário internacional sobre o Novo Testamento]. Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans,