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Petição à Ministra da Educação organizada por Pais e Encarregados de

Educação

A situação a que chegámos é talvez o culminar da "tomada de assalto" das


escolas pela burocracia e pelas elites que fomos criando em muitos anos de
políticas educativas atípicas para a própria condição humana. Ela reflecte
bem o estado geral da educação em Portugal, e não augura nada de bom se
não ponderarmos o rumo em que estamos lançados. Várias ameaças pairam
sobre a educação nacional neste momento, sobre as quais tecemos as
seguintes considerações:

a) Avaliação dos professores

Afirmamos a necessidade de um sistema de avaliação de desempenho,


tanto para os professores como para as escolas enquanto instituições
colectivas. A avaliação não é uma questão laboral mas sim uma questão
educativa de fundo e uma indispensável ferramenta estratégica para a
melhoria de competências e práticas pedagógicas e científicas, e para
garantia da qualidade das aprendizagens.

Em consciência, não podemos concordar com sistemas de avaliação "fast-


food", criados à luz de critérios economicistas, sem quadros independentes,
formados e especializados na problemática educativa, e sem critérios e
objectivos de longo prazo devidamente estabelecidos. É imperativo saber o
que queremos da escola moderna e dos novos professores para saber o que
vamos avaliar.

Consideramos prejudicial aos interesses dos nossos filhos e do futuro do


país, um sistema de avaliação que visa pressionar o professor a facilitar a
avaliação dos alunos. Os nossos filhos merecem uma preparação efectiva e
não meramente estatística.As estatísticas de sucesso podem servir para
abrilhantar relatórios, mas não servem os interesses dos nossos filhos nem
o futuro do país.

b) O estatuto do aluno - em particular o novo regime de faltas

Não podemos concordar com o abandono de valores culturais essenciais


para a formação do carácter individual e colectivo de uma sociedade de
sucesso. Rigor, esforço, dedicação, dever, responsabilidade e disciplina
estão cada vez mais longe da escola.

Consideramos uma grave subversão dos valores que a escola transmite


quando se trata por igual situações que são antagónicas, premiando a
irresponsabilidade e prejudicando o empenho. Não há sensação de justiça
quando se equipara uma falta por doença ou motivo justificativo a uma
simples "balda" ou "gazeta".

Acreditamos numa escola humanista, tolerante e geradora de solidariedade


que seja capaz de dar todas as oportunidades a todos os alunos. Mas a
escola nunca o será verdadeiramente se não for capaz de premiar a
competência, reconhecer o esforço, e censurar o desleixo.

Apelando à serenidade e a meios de expressão em que prevaleça o respeito


pela ordem pública e pela diferença de opinião, prestamos a nossa
homenagem, admiração e solidariedade ao movimento estudantil e às
associações de estudantes onde, afinal, o espírito crítico ainda sobrevive. É
para nós um desejo que as novas gerações possam ser mais pró-activas (e
menos passivas) no uso e reivindicação do seus direitos, liberdades e
garantias, numa cultura de intervenção cívica própria das sociedades mais
desenvolvidas.

Lamentamos profundamente e recusamos quaisquer atestados de


menoridade ou de incapacidade crítica, implícitos nas insinuações de que os
nossos filhos estão a ser manipulados. Aos que as fazem, lembramos as
palavras de Epicleto: "Não devemos acreditar na maioria que diz que
apenas as pessoas livres podem ser educadas, mas sim acreditar nos
filósofos que dizem que só as pessoas educadas são livres".

c) Apelamos a um debate nacional, e a uma reflexão profunda

Em tempo de mudança, de uma Sociedade da Informação que se quer


transformar em Sociedade do Conhecimento, da velha pessoa "reactiva"
para a nova pessoa "pró-activa", que seja um verdadeiro agente de
transformação, capaz de construir conhecimento, que aluno é que
queremos?

Em tempo de mudança, dos velhos sistemas analógicos para a era digital,


em que jovens teclam tão rápido num telemóvel ou num computador e em
que nos habituámos a ver o mundo em mudança rápida e permanente até
ficar bem diferente poucos anos depois de se ter iniciado o percurso escolar;
que professor é que queremos?

Em tempo de mudança, o que é mais importante: traçar um perfil novo para


o professor, o educando e as aprendizagens e acompanhar com uma
avaliação honesta, sensata e rigorosa, ou avaliar sem se saber o que se está
a avaliar porque não se sabe o que se quer? Que escola é que queremos?

Queremos a escola que Kant nos descreve, quando afirma "É por isso que se
mandam as crianças à escola: não tanto para que aprendam alguma coisa,
mas para que se habituem a estar calmas e sentadas e a cumprir
escrupulosamente o que se lhes ordena, de modo que depois não pensem
mesmo que têm de pôr em prática as suas ideias"?

Ou acreditamos em Tucídides, quando afirma "Não pensem que um ser


humano possa ser muito diferente de outro. A verdade é que fica com
vantagem quem tiver sido formado na escola mais rude"?

d) Afinal, o que é que queremos construir?! Afinal, o que é que queremos


avaliar?! Resignamo-nos à mediocridade, à falta de meios, à falta de
ambição?

A maior derrota é perder a capacidade de reflectir. Perder a oportunidade de


parar para pensar, para dialogar. Essa perda afecta o homem e a sociedade
no seu último elo: a sociabilidade.

Ao longo dos últimos anos temos vindo a assistir ao desaparecimento das


ciências sociais e humanas dos currículos educativos. À luz daquilo em que
se transformou a política - discursos e estatísticas - esta acabou por
transformar a educação em Português e Matemática.

Como afirmou o reconhecido académico António Damásio, "(...) o ensino das


Artes e das Humanidades é tão necessário quanto o ensino da Matemática e
das Ciências,(...) Ciência e Matemática, por si, são insuficientes para formar
cidadãos".

Não admira pois que alguns titulares de órgãos de soberania tenham "fracos
índices de cultura social". São já fruto de políticas educativas avessas à
própria condição de cidadania. Não mudemos nada, e imaginem como serão
aqueles que nos governarão amanhã.

Resta-nos a esperança de que com o novo modelo de gestão, as escolas


passem a responder perante a comunidade e não perante o sistema. Resta-
nos a convicção de que com o reforço do peso dos pais e outros elementos
da comunidade na gestão das escolas possamos, em conjunto com os
professores e os nossos filhos, mudar um destino fatal.

Assim, e pelo exposto, os Pais e Encarregados de Educação abaixo assinado,


requerem a Sua Ex.a a Ministra da Educação:

A suspensão do Decreto-Regulamentar 2/2008 de 10 de Janeiro, que


regulamenta o regime de avaliação de desempenho do pessoal docente do
pré-escolar e dos ensinos básico e secundário;

A urgente abertura de um processo negocial, que promova um amplo


debate nacional e uma reflexão séria sobre os objectivos nacionais a atingir
através das políticas educativas;
A abertura de um processo de revisão da lei 3/2008 de 18 de janeiro, que
aprova o Estatuto do Aluno dos Ensinos Básico e Secundário, de forma a
consagrar princípios de justiça e uma cultura de empenho, rigor, esforço e
exigência na vida escolar dos nossos filhos e futuros pais, líderes e garantes
deste país.