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Presidência da República Secretaria - Geral Secretaria Nacional de Juventude

Coordenação Nacional do ProJovem

Arco Ocupacional

Esporte e Lazer

Coleção ProJovem

Guia de Estudo

Programa Nacional de Inclusão de Jovens

ProJovem Arco Ocupacional Esporte e Lazer Coleção ProJovem Guia de Estudo Programa Nacional de Inclusão de

2006

PROGRAMA NACIONAL DE INCLUSÃO DE JOVENS (ProJovem)

Esporte e Lazer : guia de estudo / coordenação, Laboratório Trabalho & Formação / COPPE - UFRJ / elaboração, grupo de pesquisa anima : lazer, animação cultural e estudos culturais / UFRJ.

Brasília : Ministério do Trabalho e Emprego, 2006. 162p.:il. (Coleção ProJovem – Arco Ocupacional)

ISBN 85-285-0078-0

1. Ensino de tecnologia. 2. Reconversão do trabalho. 3. Capacitação para o trabalho. I. Ministério do Trabalho e Emprego. II . Série.

CDD - 607

T675

Ficha Catalográfica

Presidência da República

Luiz Inácio Lula da Silva

Secretaria Geral da Presidência da República

Ministro Chefe - Luiz Soares Dulci

Ministro de Desenvolvimento Social e Combate à Fome

Patrus Ananias

Ministro da Educação Fernando Haddad

Ministro do Trabalho e Emprego

Luiz Marinho

Secretaria-Geral da Presidência da República

Ministro Chefe - Luiz Soares Dulci

Secretaria Executiva Secretária Executiva - Iraneth Monteiro

Secretaria Nacional da Juventude

Secretário - Luiz Roberto de Souza Cury

Secretaria Nacional Adjunta

Regina Célia Reyes Novaes

Coordenação Nacional do Programa Nacional de Inclusão de Jovens - ProJovem

Coordenadora Nacional

Maria José Vieira Féres

Assessoria do ProJovem

Articulação com os Municípios

Gilva Alves Guimarães

Administração e Planejamento

Maurício Dutra Garcia

Gestão da Informação

Rosângela Rita Guimarães Dias Vieira

Gestão Orçamentária Financeira

Sérgio Jamal Gotti

Gestão Pedagógica

Renata Maria Braga Santos Márcia Seroa Motta Brandão

Supervisão e Avaliação

Tereza Cristina Silva Cotta

Comitê Gestor do ProJovem

Coordenadora

Iraneth Monteiro

Integrantes

Luiz Roberto de Souza Cury – SNJ Maria José Vieira Féres – CNProJovem Jairo Jorge da Silva – MEC Ricardo Manuel dos Santos Henriques – MEC Márcia Helena Carvalho Lopes – MDS Osvaldo Russo de Azevedo – MDS Marco Antonio Oliveira – MTE Antônio Almerico Biondi Lima – MTE

Comissão Comissão Técnica Técnica Interministerial Interministerial

Coordenadora

Maria José Vieira Féres

Integrantes

Renata Maria Braga Santos – CNProJovem Aidê Cançado Almeida – MDS José Eduardo de Andrade – MDS Timothy Ireland – MEC Ivone Maria Elias Moreyra – MEC Antonio Almerico Biondi Lima – MTE Ricardo André Cifuentes Silva – MTE

ESPECIALISTAS DO PROJOVEM

Juventude Regina Célia Reyes Novaes

Educação Básica Vera Maria Massagão Ribeiro

Ação Comunitária Renata Junqueira Ayres Villas-Bôas

Coordenadora Pedagógica Maria Umbelina Caiafa Salgado

Equipe Pedagógica Ana Lúcia Amaral Maria Regina Durães de Godoy Almeida

Equipe do Ministério do Trabalho e Emprego Antônio Almerico Biondi Lima Misael Goyos de Oliveira Francisco de Assis Póvoas Pereira Marcelo Silva Leite

Revisores de Conteúdo / Pedagogia Leila Cristini Ribeiro Cavalcanti (Coppetec) Marilene Xavier dos Santos (Coppetec)

Arco Ocupacional Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ Coordenação dos Programas de Pós-Graduação de Engenharia - COPPE Programa de Engenharia de Produção - PEP Laboratório Trabalho & Formação - LT&F Grupo de Pesquisa Anima: lazer, animação cultural e estudos culturais /UFRJ

Coordenação dos Arcos Ocupacionais Fabio Luiz Zamberlan Sandro Rogério do Nascimento

AUTORES

Elaboração Grupo de Pesquisa Anima: lazer, animação cultural e estudos culturais /UFRJ

Coordenação e Elaboração Prof. Dr. Victor Andrade de Melo

Pesquisa e Elaboração Prof. Dr. Victor Andrade de Melo Prof. Ms. Alex Pina Profa. Ms. Angela Brêtas Prof. Ms. Coriolano Pereira da Rocha Junior Prof. Ms. Fabio de Faria Peres Produtora Cultural Luciana Dantas Profa. Ms. Maria Inês Galvão Souza

Projeto Gráfico e Editoração Eletrônica (miolo/capa) Lúcia Lopes

Ilustração

Fernanda Fiani

Montagem Fotos Capa Eduardo Gregório Eduardo Ribeiro Lopes

Caros participantes do ProJovem!

Chegamos ao fim da primeira etapa deste processo de Qualificação para o Trabalho. Nos meses passados, vocês tomaram conhecimento e debateram aspectos do trabalho que estão presentes em quase todas as ocupações, dentro da Formação Técnica Geral (FTG). Estudaram conceitos, conteúdos e técnicas relacionadas aos temas: Mobilidade e Trabalho; Atividades Econômicas na Cidade; Organização do Trabalho, Comunicação, Tecnologia e Trabalho; Gestão e Planejamento; Organização da Produção; Outras Possibilidades de Trabalho.

Enfatizamos sua participação em muitas atividades, na escola e fora dela. Vocês não só resolveram as coisas no papel, mas também exercitaram os conhecimentos, movimentaram-se na cidade, buscaram informações, fizeram contatos e conversaram sobre o que estudaram. Teoria e prática andaram juntas. Parabéns pelos estudos que concluíram!

Após terem feito essa travessia, é chegada a hora de acrescentarmos conhecimentos que os fortaleçam na formação para o mundo do trabalho. Agora tem início uma nova fase da Qualificação para o Trabalho, na qual serão tratados os temas específicos dos Arcos Ocupacionais.

Cada Arco Ocupacional é composto por quatro ocupações e foi construído com conteúdos que possibilitarão a vocês diversificada iniciação profissional, abrindo espaço de atuação nessas ocupações. Esta formação não os tornarão um especialista em cada uma delas, mas vocês conhecerão muito mais amplamente o trabalho desenvolvido no conjunto das ocupações.

Por exemplo, você escolheu Esporte e Lazer, vai iniciar-se em Recreador, Agente Comunitário de Esporte e Lazer, Monitor de Esportes e Lazer e Animador de Eventos. Essa variedade de ocupações certamente aumentará as possibilidades de obtenção de trabalho e emprego.

Desejamos a vocês bom trabalho nesta fase de seus estudos. Abraços e boa sorte a todos!

de trabalho e emprego. Desejamos a vocês bom trabalho nesta fase de seus estudos. Abraços e

Anita

Sumário

INTRODUÇÃO

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11111
E 22222
E
22222

RECREADOR

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1 - O que chamamos de recreação

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2 - Os diversos tipos de atividades de recreação

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3 - Como trabalhar com jogos

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4 - Caracterização da ocupação

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5 - Onde trabalha o recreador

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AGENTE COMUNITÁRIO DE ESPORTE

LAZER

55

1 - O que chamamos de lazer

57

2 - A animação cultural

62

3 - Pensando a ação comunitária

67

4 - Caracterização da ocupação

72

5 - Onde trabalha o agente comunitário de esporte e lazer

75

79

33333
33333

MONITOR DE ESPORTES E LAZER

1 - O que chamamos de esporte

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2 - Alguns princípios básicos para quem trabalha com esporte

86

3 - Aspectos pedagógicos do trabalho com esportes e com regras

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4 - Organização de torneios e campeonatos

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5 - Caracterização da ocupação

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6 - Onde trabalha o monitor de esportes e lazer

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139

44444
44444

ANIMADOR DE EVENTOS

1 - O que chamamos de evento

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2 - Todas as fases de organização de um evento

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3 - Animando o evento

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4 - Caracterização da ocupação

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5 - Onde trabalha o animador de eventos

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Introdução

Cara aluna, caro aluno

Os temas “esporte” e “lazer” durante muitos anos foram vistos como assuntos menores, entendidos como “pura diversão”, algo sem maiores con- seqüências para a vida das pessoas. Por trás desse pensamento encontramos a supervalorização do trabalho e da produção econômica, comuns em uma so- ciedade capitalista como a nossa, onde, em muitos períodos da história e la- mentavelmente até os dias de hoje, a qualidade de vida foi algo abandonado em nome do lucro financeiro de poucos.

Felizmente as coisas estão mudando, ainda que um pouco menos rápido do que desejamos. Aos poucos, vemos aumentar o grau de importância con- cedido a esses temas de estudo e assim também fica ressaltada a necessidade de formar com qualidade o profissional que vai atuar nesses campos.

É fato concreto que nas áreas de esporte e lazer crescem visivelmente os postos de trabalho e as oportunidades de atuação. Governos e empresas em geral (e aqui também falamos das Organizações Não Governamentais, conhe- cidas como Ongs) começam cada vez mais a perceber e entender a verdadeira importância social desse profissional.

Mas não comemoremos muito. Ainda existem muitos preconceitos, mui- tas imprecisões e muitos equívocos a serem superados em nossas áreas de atuação. Além de tudo, se o nosso campo de atuação se amplia, isso também ocorre porque muitos o encaram como simples possibilidade de ganhar dinhei- ro, o que diminui as contribuições para a educação dos cidadãos e para a construção de uma nova realidade social, mais digna e mais justa, que ofereça possibilidades similares a todos.

Foi considerando tais reflexões iniciais que preparamos este curso para você. Desde logo queremos agradecê-lo por ter escolhido o arco ocupacional “Esporte e Lazer” e convocá-lo a dar prosseguimento junto conosco às mui- tas conquistas que ainda temos pela frente. Não pense que é fácil atuar em nossa área! Os desafios são diversos, a necessidade de dedicação e envolvi- mento é constante, as dificuldades não são poucas. Mas as possibilidades de gratificação também são fantásticas e no decorrer do tempo você verá o quanto é fascinante e multifacetado o nosso exercício profissional. Estamos certos de que você será mais um parceiro(a) nessa longa jornada que trilharemos juntos.

No material que você agora tem em mãos é possível encontrar as infor- mações básicas para entender um pouco das peculiaridades de algumas ocu- pações relacionadas à área de esporte e lazer. As quatro ocupações por nós escolhidas (“Recreador”, “Agente Comunitário de Esporte e Lazer”, “Moni- tor de Esporte e Lazer” e “Animador de Eventos”) oferecem possibilidades concretas de inserção profissional. Além de tudo, em tal escolha, tivemos que considerar o atual estágio de sua formação, sua escolaridade, bem como as restrições legais existentes.

Temos certeza que você pode conseguir trabalhar em nosso campo, seja como contratado de alguém ou, ainda mais desejável, criando cooperati- vas para uma atuação em conjunto. No decorrer de seu curso vá vendo entre seus colegas aqueles que podem compor contigo uma equipe de trabalho, aqueles com os quais você tem mais afinidades e confiança, aqueles que realmente topariam e se interessariam em fazer tal investimento.

Você perceberá nesse material, cuidadosamente organizado para ajudar

a enriquecer e dinamizar sua formação profissional, que algumas informações

podem estar aproximadamente repetidas em diversas ocupações. Isso tem um motivo claro. Por mais que existam diferenças entre elas, todas compõem o grande quadro de “profissionais de esporte e lazer”, por isso há reflexões em comum que permeiam suas formações específicas. Quer uma dica? Não se limite a buscar somente informações sobre a ocupação de sua preferência. Leia todo o livro e adquira conhecimento sobre todas elas. Isso certamente

aumentará sua possibilidade de adquirir maior qualidade profissional e ampli- ará suas oportunidades de atuação.

Obviamente que este curso é só o início de uma longa trajetória. Se ele é suficiente para te dar uma capacitação inicial, não substitui outros níveis de formação, nem tampouco o seu empenho diário e cotidiano para ampliar sua capacitação. Não se contente com este curso inicial! Busque ampliar seus co- nhecimentos, pense em dar prosseguimento a seus estudos, seja curioso e inquieto, deseje sempre ser o melhor profissional possível. Certamente seu professor poderá lhe dar algumas dicas e sugestões. Aproveite ao máximo essa

e outras oportunidades que surgirão em sua vida! Aliás, mais ainda, corra atrás dessas oportunidades.

Ao final do livro apresentamos uma lista de referências bibliográficas imprescindíveis à sua capacitação, para que você pesquise e se informe mais sobre o assunto. Ela pode até não parecer obrigatória, mas acredite, é de gran- de importância. Quanto mais informações gerais e específicas você buscar

sobre o assunto, mais estará ampliando seus conhecimentos sobre a sua área de atuação e mais estará enriquecendo a qualidade de sua capacitação profis- sional!

No mais, desejamos que você tenha um grande curso e que esse seja realmente útil e prazeroso. Esteja certo que, dentro dos limites de um curso como esse, organizamos este material com muito carinho e empenho, com o desejo profundo e sincero de contribuir contigo, na esperança de que ele possa de alguma maneira colaborar tanto para o seu sucesso profis- sional quanto para a construção de uma nova realidade, uma nova socieda- de, um novo mundo.

Bem, agora é contigo! Mãos à obra e um bom trabalho! Mantenhamos a esperança viva, nos empenhemos e vamos em frente!

Um abraço e nossos desejos de sucesso,

Victor, Alex, Angela, Coriolano, Fabio, Luciana e Inês

autores do livro

frente! Um abraço e nossos desejos de sucesso, Victor, Alex, Angela, Coriolano, Fabio, Luciana e Inês

RECREADOR

O que chamamos de recreação

INTRODUÇÃO

As discussões sobre o conceito de “recreação” têm uma longa trajetória em nosso país e certamente, nos dias de hoje, se perguntarmos a qualquer pessoa o seu significado, uma posição ou sugestão será dada sobre o assunto. Podemos pensar de início que todos indivíduos de alguma forma devem sentir a necessidade de se “recrear”, o que normalmente é relacionado a algo prazeroso, divertido e cada vez mais entendido como necessário em nossa vida.

e cada vez mais entendido como necessário em nossa vida. Mas vamos com calma, pois as

Mas vamos com calma, pois as coisas não são tão simples assim. Inicialmente podemos di- zer que, por incrível que pareça, algumas pessoas tendem a não querer ou não valorizar as ativida- des de recreação. Quais as razões disso? Em nos- so mundo há uma supervalorização simbólica do trabalho e muita gente, influenciada por esse pen- samento, acaba deixando de lado seus momentos de diversão. Algo realmente lamentável e que deve ser motivo de nossa preocupação e atenção.

RELAÇÕES COM O TRABALHO

Vocês já devem ter ouvido a frase “o trabalho enobrece o homem”, mas provavelmente nunca ouviram “a diversão enobrece o homem”. Não se trata de dizer que o trabalho é algo menos importante, pois lógico que é uma das dimen- sões fundamentais para os seres humanos, não só por causa dos aspectos financei- ros ligados à possibilidade de se construir uma vida com qualidade, como também porque deveria ser uma fonte de realização e prazer. Apenas estamos dizendo que o trabalho não é a coisa mais importante da vida; as atividades de não-trabalho, entre as quais as de diversão, são tão importantes quanto nossas tarefas funcionais.

Na verdade, já que estamos falando das relações com o trabalho, há um pro- blema ainda maior. Como a maioria da população vive em uma situação financeira de grande dificuldade, conseqüência de um modelo econômico injusto e cruel, não são poucos aqueles que acabam ocupando a maior parte do tempo de suas vidas com tarefas profissionais, trabalham em vários lugares, fazem todo o possível para ter um padrão de vida um pouco melhor. Há verdadeiramente uma grande explo- ração de nossa mão-de-obra: trabalhamos muito e ganhamos pouco.

Além disso, aumenta o tempo que dedicamos a outras tarefas decorrentes ou relacionadas a nosso exercício profissional. Por exemplo, nas grandes cidades a população menos favorecida normalmente mora nas periferias, longe do centro, lugar onde habitualmente se encontra o maior número de postos de trabalho. As- sim, desperdiçamos um tempo enorme nos locomovendo de nossos lares até a

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ESPORTE E LAZER

empresa, algo que é ainda mais desgastante já que nosso sistema urbano de trans- porte apresenta grandes deficiências. Parem para pensar e verifiquem quantas horas por dia algumas pessoas passam dentro de ônibus ou trens no caminho de casa para o trabalho e vice-versa.

Outro exemplo: cada vez mais levamos “tarefas para casa”, deixamos para fazer em nossas residências o que não deu tempo para fazer na hora do trabalho. Isso, além de ser uma injustiça, já que não ganhamos para trabalhar em casa, reduz ainda mais nosso tempo livre. Que tempo resta para nos di- vertirmos?

Em decorrência dos problemas econômicos, há ainda outro problema. Para grande parte da população sobra pouco dinheiro para as atividades de diversão. Lembremos que muitos mal têm possibilidades de prover com quali- dade as suas necessidades básicas, como as de comer, morar, estudar, entre outras. Nem sempre se divertir é barato em um mundo em que as atividades de lazer estão inseridas no que chamamos de “sociedade do consumo”.

Isto é, um contexto social onde somos estimulados a con- sumir a todo instante, em
Isto é, um contexto social onde somos estimulados a con-
sumir a todo instante, em que muitas vezes se valoriza
mais o “ter alguma coisa” do que “ser alguém digno”, em
que alguns poucos podem ter muito e exibir altos padrões
de luxo e conforto, enquanto para a grande maioria isso
não é possível.

O PROBLEMA DO ACESSO

maioria isso não é possível. O PROBLEMA DO ACESSO Acabaram os problemas? Não, ainda há dois

Acabaram os problemas? Não, ainda há dois que precisam ser reconhecidos. Um deles é o fato de haver uma concentração de cer- tos “equipamentos culturais” nas áreas “mais nobres” das cida- des, aquelas mais próximo do centro ou aquelas onde mora a população mais rica. Chamamos de “equipamentos cul- turais” a toda estrutura urbana que pode ser utilizada em nossos momentos de diversão, isto é, parques públicos, campos de futebol, áreas livres, cinemas, museus, centros culturais, teatros, bibliotecas etc.

Para e pense na sua cidade. Onde estão concentra- dos os cinemas? Aliás, devemos lembrar que em alguns mu- nicípios eles sequer existem! Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) demonstram que somente 7% das cidades do Brasil possuem este equipamento cultural. E normalmente, onde há, estão localizados longe da periferia. Quando existem na periferia, comumente a programação é de qualida-

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RECREADOR

de menor, não há tantas possibilidades de escolha. Isso também pode ser obser- vado com museus, teatros, parques públicos, bibliotecas etc.

Bem, abordemos então o último problema. Imaginemos que a partir de amanhã, como em um passe de mágica, surgissem equipamentos culturais distri- buídos por toda a cidade, que todos tivessem remuneração justa e que tivésse- mos um tempo livre maior. Será que buscaríamos acessar todo o potencial de atividades de diversão oferecido?

Primeiro é bom dizer que logicamente isso nunca vai acontecer por mági- ca, mas só será possível com luta e reivindicação, quando a população entender que sua diversão é um direito social como outro qualquer e que deve ser motivo de sua solicitação freqüente, afinal é tão importante quanto qualquer outra coisa de sua vida. Segundo, mesmo que isso ocorresse esbarraríamos com outra ques- tão: se não somos educados em nossa vida para conhecer outras formas de diver- são, como vamos espontaneamente procurá-las? Não tenderíamos a reproduzir as coisas que já fazemos usualmente? É provável que sim.

as coisas que já fazemos usualmente? É provável que sim. ATIVIDADE 1 Vamos agora, sob orientação

ATIVIDADE 1

Vamos agora, sob orientação do profes- sor, fazer as seguintes atividades:

a) Levantar as possibilidades de diversão existentes em seu bairro;

b) Construção de um mural comparativo das atividades de seu bairro e de outros bairros de sua cidade.

atividades de seu bairro e de outros bairros de sua cidade. Cidade de Porto Velho -
atividades de seu bairro e de outros bairros de sua cidade. Cidade de Porto Velho -

Cidade de Porto Velho - Rondônia

A QUESTÃO DA EDUCAÇÃO

Chegamos então a um ponto fundamental de nossa discussão. No de- correr de nossa vida, na escola, na igreja, em nossa família, nossa educação é em grande parte direcionada para o mundo do trabalho, somos disciplinados a seguir normas que facilitam nossa inserção profissional. E ainda assim com deficiências sérias, o que faz com que o trabalho seja também um problema enorme para muitas pessoas, até porque cada vez menos há trabalho digno para todos. No fundo, somos educados a aceitar ordens, para sermos manda- dos, para sermos passivos perante as injustiças, ainda que muitos de nós esta- beleçamos resistências no decorrer de nossas vidas.

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Já para aproveitar os nossos momentos de diversão, somos pouco ou qua- se nada educados. Aprendemos, por exemplo, pouco de música, de artes plásti- cas, de cinema, de teatro e mesmo de esporte (está aí uma das explicações para entender em nosso país a “monocultura do futebol”, isto é, a supervalorização desse esporte e o pouco conhecimento de outras formas de atividade física, que podem ser tão prazerosas e agradáveis quanto o futebol).

Acaba que quem nos “educa” primordialmente são os meios de comunica- ção, notadamente a televisão, uma das principais formas de diversão da maioria do povo brasileiro. Acredite, em nosso país já há um número maior de televisões do que de geladeiras! Um determinado canal emite sua programação para 98% das cidades! Já pararam para imaginar o seu poder de influência?

Observem a grade de “atrações” de nossas emissoras e pensem: ela é de qualidade? Está
Observem a grade de “atrações” de nossas emissoras e
pensem: ela é de qualidade? Está preocupada em educar
o povo? Está preocupada em desenvolver um senso críti-
co perante a realidade? Se não, estamos falando de algo
bastante perigoso: não há grandes possibilidades de diver-
são para a maioria da população e a principal dessas formas
de alguma maneira pode ser, em certo sentido, prejudicial, ou melhor,
atender aos interesses daqueles que já detêm o poder.
ESPORTE E LAZER
interesses daqueles que já detêm o poder. ESPORTE E LAZER ATIVIDADE 2 Selecione pessoas de sua

ATIVIDADE 2

Selecione pessoas de sua comunidade, de sexo e faixas etárias diferentes, e pergunte a elas:

Quanto tempo gastam diariamente para ir ao trabalho? Quanto tempo gastariam para buscar outras opções de diversão em outros bairros? Quanto gastariam em transporte?

OS DESAFIOS PROFISSIONAIS

Bem, ao apresentar tantos problemas não queremos parecer pessimistas. Não, de forma alguma! Apenas desejamos desde o início deixar claro o enorme desafio para quem pretende atuar como recreador a partir de uma perspectiva diferenciada, bem como apresentar os principais parâmetros que definem a nos- sa característica de atuação profissional. Acreditamos que nós, juntos, a partir de nossa postura enquanto cidadãos e profissionais, podemos sim dar grandes con- tribuições não só para tornar melhor a vida dos indivíduos, como também para a 18 superação desse modelo atual de sociedade, para a construção de uma sociedade

RECREADOR

mais justa, com maior respeito aos direitos sociais, com mais igualdade.

Durante muitos anos o recreador foi considerado como alguém responsá- vel por simplesmente oferecer, de forma pouco conseqüente, uma série de jogos, por passar o tempo das pessoas, por oferecer um prazer provisório, sem conce- ber nenhuma articulação com o contexto social em que trabalha.

Assim, vários equívocos podem ser observados. Além do já apontado de oferecer a “atividade pela atividade”, sem a entender a partir de outros potenci- ais, havia (e muitas vezes lamentavelmente ainda há) a compreensão de que basta- va conhecer uma série de “brincadeiras”, que seriam aplicadas a qualquer grupo, desconsiderando as peculiaridades de cada local, de cada público, a especificida- de de cada situação.

Vejamos então que estamos dizendo que o recreador (e na verdade todo profissional de esporte e lazer) deve ter em vista duas funções pedagógicas. Em uma dessas, ele educaria pelas próprias atividades de recreação, aproveitaria o potencial de cada jogo, de cada brincadeira, para estimular seu público a pensar sobre a sua realidade, sobre a sociedade, sobre sua vida, contribuindo para a formação de indivíduos mais críticos. Uma atividade deve ser pensada como uma estratégia para alcançar objetivos maiores, ainda que em si ela deva ter o potencial de divertir, algo que não pode ser abandonado.

Um segundo aspecto importante é que ele pode, ao diversificar seu progra- ma de atividades, ao incluir novas atividades, também contribuir para que os indivíduos conheçam outras possibilidades de diversão, ampliando o leque de conhecimento de opções possíveis de serem buscadas nos momentos de lazer. Reconhecendo o que já dissemos antes, que não somos educados cotidianamente para nos divertir, o recreador deve também cumprir essa função.

Isso tem, na verdade, vários intuitos. Um deles é contribuir para que o público entenda que os momentos de diversão constituem-se em direitos sociais e devem ser motivos de reivindicação, tendo articulação com todas ou- tras dimensões da vida, direito à moradia, à educação, à saúde, a transporte de qualidade, a uma vida digna. O se- gundo é que contribuí para contestar a supervalorização do trabalho, comum em nossa sociedade capitalista, conforme já discutimos.

Outro intuito é contribuir para contrapor o enorme poder da televisão e dos meios de comunicação. Se o indivíduo conhecer e for educado para buscar outras atividades de diversão, ele pode se tornar mais crítico perante ao que é veiculado pelas emissoras, e isso o ajuda a se tornar mais atento à luta política social. Portanto, também acreditamos que buscar alternativas de diversão contri- bui para ampliar a visão do indivíduo sobre a sociedade, já que ele vai ter acesso a novas formas de ver a realidade.

para ampliar a visão do indivíduo sobre a sociedade, já que ele vai ter acesso a

ESPORTE E LAZER

Por fim, lembremos sempre: a diversidade de atividades de recreação não pode ser privilégio de uma minoria. Cada cidadão deve compreender que pode desfrutar de tudo o que uma cidade oferece. E se isso não é possível, por moti- vos diversos, ele deve lutar para que seja respeitado nesse direito.

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ele deve lutar para que seja respeitado nesse direito. 20 ATIVIDADE 3 Em um intervalo de

ATIVIDADE 3

Em um intervalo de tempo determina- do pelo professor, cada trio irá listar:

os esportes que conhece; os gêneros musicais que conhece ou que já ouviu falar (música erudita, bossa nova, samba, bolero, blues, jazz, forró, tango, rumba, salsa, hip hop etc); pintores (famosos ou não); peças de teatro a que assistiu; grandes atores do teatro brasileiro; filmes a que assistiu, indicando país de origem e gênero (comédia, drama, romance, policial etc) e exposições que visitou.

origem e gênero (comédia, drama, romance, policial etc) e exposições que visitou. Parque do Ibirapuera -

Parque do Ibirapuera - São Paulo

origem e gênero (comédia, drama, romance, policial etc) e exposições que visitou. Parque do Ibirapuera -

Os diversos tipos de atividades

de recreação (Os interesses culturais)

INTRODUÇÃO

Quais são as características das atividades recreativas? Conhecer todas as possibilidades e potencialidades é algo fundamental para o recreador, para que ele não pense que sua tarefa se resume a somente trabalhar com jogos e brinca- deiras, as facetas mais conhecidas desse exercício profissional. De início pode- mos dizer que as atividades recreativas são sempre “culturais”.

RECREADOR
RECREADOR
recreativas são sempre “culturais”. RECREADOR ATIVIDADE 4 Vamos juntos ler todas as informações desse

ATIVIDADE 4

Vamos juntos ler todas as informações desse item. A turma será dividida em grupos de três pessoas. Cada grupo formulará 3 perguntas relaciona- das com as informações lidas. O professor sorteará uma das questões para que a turma responda.

perguntas relaciona- das com as informações lidas. O professor sorteará uma das questões para que a

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ESPORTE E LAZER

ESPORTE E LAZER

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CULTURA

Na verdade, há alguns equívocos acerca do que seja cultura. Nós recreadores precisamos conhecê-los e contribuir para desfazer tais apreensões. Primeiramente devemos entender que não é somente coisa para os mais inteligentes ou mais ricos, nem tampouco atividades chatas e complicadas de entender, exibidas em locais refinados. Todos nós temos a capacidade de ir ao cinema, ao teatro, a espetáculos de música e deles extrair prazer e lições para nossa vida, desde que sejamos educa- dos para tal, que sejamos preparados para entender um pouco da lógica desses espaços específicos. E aí está, como já vimos, uma de nossas tarefas.

Outra coisa que temos que fazer é não concordar com a idéia de que existe uma “alta cultura” e uma “baixa cultura”. Assim, é um equívoco dizer que quem vai a espetáculos de música clássica é culto, enquanto quem vai a um baile funk ou vai a uma roda de samba não o é. Aliás, a princípio, nada impede de que alguém goste de ópera e também goste de forró. A dança que praticamos nas festas em que vamos é tão importante quanto o balé clássico; e por certo as bailarinas podem sentir prazer quando praticam outras danças em outros espaços de lazer.

Mas isso significa que todas as manifestações culturais têm a mesma quali- dade? Por certo que não! E aqui entra o que discutimos no item anterior. Como as pessoas podem melhor escolher que atividades vão usufruir nos seus momen- tos de diversão se somos cotidianamente pouco educados para tal? Assim sendo, ao desconhecermos outras possibilidades, nos limitamos a um tipo de produto emitido prioritariamente pelos meios de comunicação. A questão passa a ser en- tão, sem preconceito, contribuir para educar e ampliar o leque de opções dos indivíduos, deixando que eles, agora com mais condições, possam escolher aqui- lo que dá prazer.

Na verdade, devemos mesmo é entender que não se trata a cultura de sim- plesmente uma série de atividades. Cinema, teatro, música são manifestações cul- turais, mas somente uma parte do que mais amplamente chamamos de cultura. Para além da arte, todas as atividades humanas são culturais, inclusive os jogos, as brincadeiras, o esporte. Os cantos, folguedos e festas populares também o são. Assim como nossa forma de se vestir, de comer, de namorar, de trabalhar. Pense na roupa de alguém que mora na Arábia, não é diferente da nossa? Sim, pois é típica da cultura deles. Não é melhor nem pior do que a nossa, é só diferente.

Assim, quando falamos de cultura, estamos nos referindo a um conjunto de valores, normas, hábitos que regem a vida humana em sociedade. A cultura é típica dos seres humanos, que organizados em comunidades cada vez mais complexas necessitam estabelecer princípios para que possam viver com alguma harmonia. Obviamente que esse não é um processo simples, por abarcar os diversos desejos humanos, bastante diferenciados. Sendo assim, falamos de algo tenso, construído a partir do diálogo e do conflito, a partir de trocas, manipulações, embates.

É importante notarmos que quando falamos de cultura, estamos na ver-

RECREADOR

dade nos referindo a “culturas”. Todos nós, de alguma forma, fazemos parte e estamos fora de um ou outro contexto cultural. Existe uma cultura brasileira que nos aproxima, mas cada região do país tem certas peculiaridades de vida. E em cada Estado, em cada cidade, vemos diferentes sotaques, hábitos alimenta- res, formas de se comportar, maneiras de vi- ver, formas de se divertir.

de se comportar, maneiras de vi- ver, formas de se divertir. Danças tradicionais gaúchas. Boi-bumbá -

Danças tradicionais gaúchas.

ver, formas de se divertir. Danças tradicionais gaúchas. Boi-bumbá - Pernambuco Folia de Reis - Rio

Boi-bumbá - Pernambuco

Danças tradicionais gaúchas. Boi-bumbá - Pernambuco Folia de Reis - Rio de Janeiro C ULTURA E

Folia de Reis - Rio de Janeiro

CULTURA E EDUCAÇÃO

Assim, uma das funções do recreador é ser um educador no âmbito da cultu- ra. O que fazemos na verdade é contribuir para que os indivíduos se tornem mais críticos perante a essa nossa cultura atual, que não é espontânea, isso é, não surge do nada, mas é fruto das disputas econômicas, políticas e sociais existentes em qual- quer sociedade. A grande questão é contribuir para que o nosso público-alvo possa se perguntar e refletir se essas dimensões culturais que norteiam a sua vida são realmente interessantes ou se são frutos de uma certa manipulação para garantir os interesses de um pequeno número de poderosos.

ou se são frutos de uma certa manipulação para garantir os interesses de um pequeno número

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ESPORTE E LAZER

De qualquer forma, quando prepara sua atuação, o recreador faz uso das linguagens/manifestações culturais para compor seu programa. Seria interessan- te então que pudéssemos compreender um panorama geral de tais possibilidades de intervenção. Nesse sentido, um quadro classificatório seria muito útil como auxiliar em nossa tarefa de programação.

Uma classificação das atividades de recreação nos é apresentada por um sociólogo chamado Joffre Dumazedier. Este autor procura dividir cada uma dessas atividades de acordo com o interesse central desencadeado, aquele que motiva o indivíduo a buscar a atividade. O recreador pode compor seu progra- ma tendo em vista as diversas possibilidades de mobilizar diferentes sensibili- dades, movimentar diferentes interesses, ampliando o alcance de sua atuação.

Mesmo sendo de grande utilidade e interesse, não devemos considerar tal classificação de forma extremamente rígida, até mesmo porque os interesses humanos não se encontram estaticamente divididos. O indivíduo pode procu- rar uma determinada atividade com os mais diversos desejos conjugados, além do que não necessariamente o faz com plena consciência de tal procura.

A classificação proposta por Dumazedier não é perfeita, nem pretende ser. Deve ser considerada antes como um guia para o recreador, que sempre deve ter em vista as possibilidades de cruzamentos complexos que podem se estabelecer entre os diversos interesses. Não devemos considerar os limites da classificação como falhas, mas como ocorrências possíveis e como aliados e nosso trabalho de programação, que, aliás, não deve se restringir à mera seleção de uma série de atividades soltas, mas estar ligado a um intuito maior, onde estão contemplados nossos objetivos educacionais, nossa visão de mun- do, nossa vontade de intervir na sociedade.

estão contemplados nossos objetivos educacionais, nossa visão de mun- do, nossa vontade de intervir na sociedade.

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RECREADOR ATIVIDADE 5 Vamos, em grupos, pesquisar aspectos característicos de várias culturas diferentes. Vamos debater

ATIVIDADE 5

Vamos, em grupos, pesquisar aspectos característicos de várias culturas diferentes. Vamos debater as peculiaridades de cada uma dessas culturas.

Vamos debater as peculiaridades de cada uma dessas culturas. O S INTERESSES CULTURAIS Os interesses físicos

OS INTERESSES CULTURAIS

Os interesses físicos

O primeiro tipo de atividade é aquele que contempla os “interesses físi-

cos”. As atividades físicas, entre os quais os esportes, estão entre as mani-

festações culturais mais procuradas e difundidas pelos meios de comuni- cação, estando mesmo diretamente ligadas a diversos estilos de vida. É comum ao redor dessas práticas a existência de uma série de procedi- mentos, posturas e produtos (roupas, músicas, alimentos) que identifi- cam entre si os praticantes e os diferenciam de outros grupos.

Entre essas práticas, podemos encontrar diferenças claras que estimulam sua busca por parte dos indivíduos. Vejamos alguns exemplos. Existem

as atividades de aventura, também conhecidas como esportes radicais,

que colocam os praticantes em uma situação de risco controlado, poden- do ser realizadas na natureza (rafting, escalada) ou em ambientes cons- truídos (skate). Entre os interessados por atividades realizadas em con- tato direto com a natureza, existem ainda aqueles que as procuram como forma de espiritualização e fuga do estresse cotidiano (caminhadas).

De outro lado, algumas pessoas preferem atividades mais intensas, en- contradas nas academias (musculação, diversos tipos de ginástica) ou pra- ticadas fazendo uso de diversos equipamentos urbanos (corredores, tria- tletas). Existem os que preferem os diversos tipos de esportes, sejam os coletivos (futebol, voleibol), os individuais (natação), as diferentes lutas (judô, karatê, capoeira, jiu-jitsu) e mesmo alguns ainda mais restritos aos que possuem maior poderio econômico, sendo mesmo símbolo de dife- renciação social (hipismo, golfe).

Em comum entre os diversos grupos, podemos situar uma busca de bem- estar por meio da movimentação corpórea, embora o grau de movimen- tação seja bastante diferenciado entre as atividades, e um certo discurso de preocupação com a saúde, mesmo que muitas vezes isto seja mais observável no discurso do que na prática, uma vez que a compreensão de saúde é bastante difusa e até mesmo superficial.

no discurso do que na prática, uma vez que a compreensão de saúde é bastante difusa
no discurso do que na prática, uma vez que a compreensão de saúde é bastante difusa

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ESPORTE ESPORTE E E LAZER LAZER

Trata-se então de uma dupla possibilidade de intervenção para o profis- sional de recreação. Deve-se sim pensar na introdução de atividades físi- cas nos programas de atividades, tentando sensibilizar o grupo para as possibilidades de prazer possíveis com tais práticas. Logicamente, deve- mos tomar cuidado com o grau de movimentação exigida, respeitando- se tanto os limites físicos do grupo, quanto os desejos de cada indivíduo nesse processo. Nem todos gostarão de se sentir exaustos ao final da atividade, assim como para algumas pessoas determinados exercícios são “muito fáceis”, o que pode vir a desestimular a prática.

Porém mais do que simplesmente estimular as pessoas a praticarem tais atividades, é importante que nesse processo possamos também falar so- bre as suas diversas peculiaridades e sobre os sentidos e significados des- tas na ordem social contemporânea. É importante que as pessoas apren- dam a desvendar de forma crítica os discursos correntes ao redor da prática de atividades físicas; difundidos com constância pelos meios de comunicação. Perceber-se-á como tais discursos carregam determinados valores e/ou mitos.

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Por exemplo, percebam como a prática de de atividades físicas divulga um tipo de corpo considerado belo. Você acha que a beleza se confunde necessariamente com esse tipo de corpo? Ou será que isso nos estimula a comprar determinados produtos? Outro exemplo: será que ter saúde é ser muito forte? Será que na verdade isso é um mito? Temos sempre que estar atentos a todas essas dimensões.

É preciso esclarecer tais dimensões para nosso público-alvo, bem como explicitar como a prática de atividades físicas hoje se constitui em um poderoso mecanismo para venda de produtos. É preciso descortinar os princípios básicos que regem o “sistema esportivo”, que de aparente- mente ingênuo, nada de ingenuidade tem na verdade.

Nesse sentido, é importante lembrar como é forte a influência do chama- do “esporte de alto nível” na prática de esportes no momento de diver- são, fazendo com que outros setores do campo esportivo, não ligados a federações, reproduzam de forma perniciosa esses modelos de prática, onde são comumente exaltadas a competição exacerbada e a vitória a todo custo. Devemos lembrar que devem ser desenvolvidos modelos de prática esportiva próprios e adequados às peculiaridades dos momentos de recreação, sendo um equívoco reproduzir e estimular modelos já pré- configurados.

Temos que tomar cuidado para não reproduzir os mesmos modelos que estimulam a vitória a qualquer custo! O mais importante é que todos possam participar e se divertir.

Para relembrar, chamamos de atividades de interesse físico: esportes diversos, caminhadas, diferentes tipos de jogos, gincanas, ginástica, dança, entre outras.

Teatro da Paz - Belém RECREADOR
Teatro da Paz - Belém
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Os interesses artísticos

Passemos para outro grupo de interesses, os “artísticos”. Afinal, o que é arte? A resposta a essa pergunta exigiria vários livros inteiros e ainda assim algo ficaria de fora, ainda mais no contexto atual, quando as fron- teiras da arte ficaram menos definidas.

A arte estaria nos museus, bibliotecas, cinemas, teatros, centros culturais?

Sem sombra de dúvida, mas não somente, estando também na cultura popular, nas quadras de escolas de samba e nas tradições folclóricas, na qual nosso país se destaca. A arte seria produzida por artistas notáveis

com trabalhos magníficos? Com certeza, mas também está dentro de cada um de nós, podendo ser estimulada se nossa sensibilidade for edu- cada para tal.

Mesmo que a experiência estética não seja exclusiva da manifestação ar- tística (estando presente em relação a vários outros objetos, como no esporte e até nos produtos industriais que consumimos diariamente), podemos dizer que é por excelência o que impulsiona a busca da arte, o prazer que as diversas linguagens ocasionam nos indivíduos. Obviamen-

te que não estamos falando da arte pela arte, nem do prazer pelo prazer, mas argumentando que desenvolver novas sensibilidades, e nesse pro- cesso ter acesso a novos valores ou ao questionamento dos valores vi- gentes, é uma dimensão fundamental a ser provocada pelo contato com esta(s) poderosa(s) linguagem (ns).

O recreador não pode deixar de contemplar os interesses artísticos em seu programa, a partir de uma dupla dimensão. Deve contribuir para

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ESPORTE ESPORTE E E LAZER LAZER

educar a sensibilidade de seu público-alvo, apresentando novas lingua- gens, fundamentalmente possibilitando a vivência de novas experiências artísticas e a partir disso discutir e apresentar as peculiaridades de cada manifestação em sua diversidade de correntes e propostas. Nesse pro- cesso, não pode ter preconceito, apresentando tanto as manifestações da chamada cultura erudita quanto da cultura popular.

Mas não se trata de somente incorporar esses interesses na perspectiva da contemplação. Podemos (e devemos) também contribuir para des- pertar nos indivíduos seu senso de produção artística. Isso não significa estritamente contribuir para a formação de renomados artistas plásticos, músicos, escritores etc, e sim levar cada um a perceber que pode extrair prazer ao pintar, cantar, tocar, representar, escrever.

Para resumir, são atividades artísticas: a pintura, o cinema, a música, a dança (que também pode ser uma atividade física), o teatro, a literatura, entre outras.

atividade física), o teatro, a literatura, entre outras. Jardim Botânico no Rio de Janeiro - Um

Jardim Botânico no Rio de Janeiro - Um exemplo de trabalho em jardinagem

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Os interesses manuais

Um terceiro grupo é o dos “interesses manuais”, aqueles cujo prazer se encontra fundamentalmente na manipulação de objetos e produtos, sendo bastante confundidos com os hobbies, embora entre esses sejam também encontradas atividades relacionadas a atividades não necessariamente manu- ais. Entre as atividades de interesse manual podemos encontrar a jardina- gem, a carpintaria, a marcenaria, a costura, a culinária.

Algumas vezes as atividades manuais também se misturam com as artísti- cas, na medida que a questão estética também fica destacada. Um indiví- duo que tem como hobby a marcenaria, vai se preocupar em produzir móveis bonitos, de bom gosto. Até que ponto uma prática de modelagem

não é também de escultura, do ato de esculpir? Como dissemos, há limites

na classificação, que deve ser encarada mais como um guia do que como um receituário.

De qualquer forma, podemos sim incorporar tais atividades em nossos pro-

gramas, somente tomando cuidado para não as encararmos como prepara- ção para o trabalho. O programa de recreação não se justifica por sua liga-

ção com o trabalho e o fim que se espera das atividades é o prazer ocasiona-

do pela atividade em si. Se depois os indivíduos vão dar significados dife-

rentes ao que foi abordado nos programas, isso é um direito deles, mas enquanto recreadores nossa preocupação básica não é de performance ou

de formação para o mundo do trabalho.

Logo, as atividades manuais são: corte e colagem, carpintaria, jardinagem, culinária, artesanato, hobbies diversos como colecionar coisas, entre outras.

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Os interesses intelectuais

Falemos agora dos “interesses intelectuais”. Se existe um interesse específico para o intelecto, significa então que nos outros não há ação intelectual? Claro que não, em todos os momentos da vida estamos com nosso interes- se intelectual funcionando. O que ocorre é que nesse gru-

po de atividades a ênfase central e a busca de prazer estão

mais diretamente ligadas a atividades de raciocínio.

Certamente é mais um caso em que se misturam campos

de interesse. Como dizer que algumas pessoas ou que al-

gumas vezes não vamos ao cinema ou ao teatro tendo em vista as reflexões que os filmes e as peças podem ocasionar em nossas vidas? Aqui não é o caso de definir categoricamente as diferenças, pois, como temos dito, o que importa é considerar esta classificação como um guia auxiliar a nossa pro- gramação.

Nesse grupo de atividades estão enquadrados, por exemplo, todos os jo- gos conhecidos como intelectuais: xadrez, dama, etc. Também incluímos a busca de palestras e cursos, desde que esses não estejam sendo procurados motivados pelas necessidades do trabalho.

O profissional deve estar atento às expectativas do grupo e inserir esse

conjunto de interesses em seu programa, até mesmo como forma de po- tencializar o alcance de outros interesses. É o caso já citado do trabalho

com interesses artísticos. Se estivermos trabalhando com uma determinada manifestação/linguagem, podemos organizar palestras sobre ela, potenci- alizando a compreensão e as possibilidades de prazer de nosso grupo.

Resumindo, são atividades “intelectuais”: cursos, palestras, jogos de racio- cínio, filmes utilizados para refletir sobre a realidade, entre outras.

Festa Junina - Pernambuco Os interesses sociais ESPORTE ESPORTE E E LAZER LAZER
Festa Junina - Pernambuco
Os interesses sociais
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Por fim, falemos dos “interesses sociais”. A princípio, todas as ativida- des de recreação tendem (e deveríamos sempre investir nessa idéia) a envolver grupos e desenvolver a sociabilidade, mas nesse âmbito de interesses destacamos aquelas na qual o elemento motivador é exata- mente o fato de promover de forma pronunciada tais encontros, como festas, freqüência em bares/restaurantes e saídas noturnas, e notadamente os passeios e atividades turísticas em geral.

Lembramos que a promoção de encontros e a organização de grupos não são objetivos menores, ainda mais se levarmos em conta que existe um processo claro de fragmentação e individualização excessiva no âm- bito de nossa sociedade atual, notadamente em algumas faixas etárias (caso dos idosos, que vão perdendo as referências e se sentindo solitári- os com o decorrer do tempo) e em algumas metrópoles, fruto dos pro- blemas urbanos (como o medo da violência, que acaba estimulando as pessoas a se esconderem dentro de seus lares). Quando falamos de turismo, devemos estar atentos que estamos nos refe- rindo a um dos campos de atuação que mais cresce recentemente, em fun- ção mesmo do significado econômico que o setor vem adquirindo. Nesse ponto em especial, um papel importante que o recreador pode ocupar é o de apresentar a cidade a seu público-alvo. Lamentavelmente, em função da concentração de equipamentos culturais nas áreas “mais nobres” da cidade grande, parte da população sequer conhece as belezas e potencialidades de seu município. É importante para o recreador incluir atividades que, ao apresentá-las a seu público, também estabeleça uma discussão acerca da estrutura urbana. Por que alguns têm acesso a tudo

enquanto outros não? Por que algumas partes da cidade são mais organi-

zadas, enquanto outras abandonadas? Não deveríamos reivindicar uma cidade mais justa para todos, independente do local de moradia e do padrão sócio-econômico? Todas essas questões podem ser desencade- adas ao utilizarmos tal tipo de atividade. Então, passeios/excursões e festas diversas são as principais ativida- des sociais.

Bem, de posse desse conhecimento, agora você já pode preparar sua programação consideran- do melhor
Bem, de posse desse conhecimento, agora você já pode preparar sua programação consideran-
do melhor a grande diversidade de opções com as quais conta o recreador. Um lembrete: não se
trata de programar as atividades de forma ocasional.Você deve fazê-lo a partir do contato com
seu público-alvo, considerando suas possibilidades (que equipe possui, com quais recursos
materiais pode contar, seu orçamento) e nunca esquecer que devem estar inseridas em objeti-
vos mais amplos; essas atividades são as estratégias que você vai usar para promover seu
processo de intervenção pedagógica.
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seu processo de intervenção pedagógica. RECREADOR ATIVIDADE 6 Vamos agora listar atividades relacionadas a

ATIVIDADE 6

Vamos agora listar atividades relacionadas a cada um dos interesses culturais. Depois disso, vamos fazer a experiência de elaborar programa- ções que considerem essas diferentes atividades listadas.

disso, vamos fazer a experiência de elaborar programa- ções que considerem essas diferentes atividades listadas. 31

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ESPORTE E LAZER

Como trabalhar com jogos

INTRODUÇÃO

Nessa ocupação nos dedicaremos a discutir mais profundamente a questão da aplicação de jogos, por ser uma das ferramentas mais utilizadas pelo recrea- dor em sua atuação. Ressaltamos, contudo, que: a) lembre-se que o programa de recreação não se resume a isso, como vimos no item anterior; b) em outras partes deste livro você pode encontrar mais opções para ampliar suas alternativas de trabalho.

Antes de começarmos a conversar sobre a aplicação dos jogos propria- mente ditos, é interessante fazer uma consideração teórica que nos ajudará a com- preendê-los um pouco melhor. A primeira, e talvez mais importante, é que os jogos, bem como suas possíveis explicações, são construções históricas e cultu- rais, o que significa que precisamos estar atentos com relação ao tempo e o lugar nos quais foram criados. É a partir desta perspectiva que poderemos compreen- der o desaparecimento de alguns jogos, o surgimento de outros, a incorporação de tecnologias aos brinquedos, bem como as limitações, as inconsistências e os possíveis erros das contribuições teóricas que buscam explicar os jogos e as brin- cadeiras.

inconsistências e os possíveis erros das contribuições teóricas que buscam explicar os jogos e as brin-

RECREADOR

HABILIDADES MOTORAS BÁSICAS E AS ESTRUTURAS MOTORAS DE BASE

As Habilidades Motoras Básicas, também chamadas de Movimentos Básicos Fundamentais, formam a base de toda a movimentação corporal especificamente humana: andar, correr, saltar - cair, saltitar, subir - descer, lançar – receber, quicar, chutar. Quanto mais oportunidades a criança tiver de experimentar estes movimen- tos, maior será o domínio que terá sobre seu corpo, mais facilmente executará movimentos e com mais segurança realizará tarefas motoras.

As Estruturas Motoras de Base são funções relacionadas aos aspectos cog- nitivos, emocionais e do movimento corporal; integradas favorecem o desen- volvimento harmonioso do sujeito. São elas: coordenação motora, equilíbrio, lateralidade, organização espaço-temporal e esquema corporal.

Uma outra questão que pretendemos abordar está ligada às faixas etárias dos indivíduos com quem iremos trabalhar. É fácil perceber que muitas das brincadei- ras que agradam a crianças de seis anos, não agradam a crianças de nove ou a ado- lescentes. Apesar de acharmos que é muito interessante, principalmente para as mais novas, que crianças de diferentes idades brinquem juntas, é prudente conhecer um pouco das preferências infantis no que diz respeito às brincadeiras e aos jogos. Importa também que se procure conhecer as preferências das crianças sobre as atividades. Nada é mais desagradável e inadequado do que agir como se elas nada soubessem, nada compreendessem ou nada pudessem fazer.

Outro aspecto a destacar é que as características que apresentaremos a seguir correspondem ao que, de uma maneira geral, se espera de uma criança que tenha chances de se movimentar livremente. É claro que poderão ser encontradas dife- renças em relação às habilidades e às capacidades de movimento das crianças, pois isso irá depender do modo como elas são criadas, se no local onde vivem há espaço para que possam se movimentar, se isso lhes é permitido ou se têm sua movimen- tação tolhida pelo fato de terem que se manter sempre limpas, arrumadas ou quie- tas. Isto significa que, no trabalho com crianças, temos que considerá-las a partir do que elas são e não daquilo que lhes falta, procurando não criar expectativas em relação ao seu desempenho e às suas atitudes, pois o meio social no qual estão inseridas influencia fortemente seu comportamento.

Nesta perspectiva vamos apresentar um quadro que deverá servir mais como um apoio do que como uma informação imutável.

AS FAIXAS ETÁRIAS

1) Faixa etária: 2 a 4 anos

Características: Inicialmente apresentam um pequeno controle sobre seus próprios movimentos, mas vão se tornando mais seguras a partir das experiências.

um pequeno controle sobre seus próprios movimentos, mas vão se tornando mais seguras a partir das

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ESPORTE E LAZER

Considerações: As crianças devem se movimentar de diferentes for- mas para aumentar o controle corporal e ampliar seu repertório de movimentos experimentando as Habilidades Motoras Básicas.

Sugestões de atividades: Utilizar todo o repertório das Habilidades Motoras Básicas, isto é, andar, correr, saltar, subir-descer, lançar-rece- ber, rastejar, quicar e chutar. Atividades com música: utilizar diferentes ritmos e instrumentos musicais; fazer com que acompanhem o ritmo batendo palmas, tocando as diferentes partes do corpo ou tocando ins- trumentos de percussão; brincar de roda, utilizar brinquedos cantados e músicas do folclore local e regional; contar histórias; fornecer tecidos, máscaras e maquiagem para que possam dramatizar histórias conheci- das e/ou criar outras. Apresentar materiais de diferentes formas, cores, pesos e volumes e deixá-los manusear livremente. A partir dos três anos, trabalhando junto com elas, pode ser viável criar histórias e con- feccionar máscaras e fantoches para representá-las; confeccionar ins- trumentos de percussão usando sucata; cantar e dançar com estes ins- trumentos; utilizar atividades de recorte e colagem.

2) Faixa etária: 4 a 6 anos

Características: Apresentam uma maior segurança na execução dos movimentos.

Considerações: As crianças devem experimentar as Habilidades Mo- toras Básicas consideradas de um modo mais complexo.

Sugestões de atividades: Utilizar todo o repertório das Habilidades Motoras Básicas, isto é, andar, correr, saltar, subir-descer, lançar-receber, rastejar, quicar e chutar, apresentados em pequenos circuitos e em jogos com regras bem simples. As experiências de contar, elaborar e representar histórias, inclusive as do folclore local e regional, além da confecção do material utilizado são recomendadas; conhecer, cantar e dançar músicas folclóricas; confeccionar instrumentos de percussão com sucata; ativida- des de recorte e colagem; jogos com olhos vendados para perceber os outros sentidos (tato, audição, olfato e paladar).

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3) Faixa etária: 6 a 8 anos

Características: São capazes de executar com domínio e segurança uma boa parte dos movimentos desde que estimuladas e ensinadas.

Considerações: As crianças podem vivenciar as mais diversas com- binações das Habilidades Motoras Básicas.

Sugestões de atividades: Utilizar combinadamente e com complexi- dade crescente as Habilidades Motoras Básicas, em circuitos, contestes e pequenos jogos cujas regras também podem ir se tornando mais

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complexas; lançar mão de atividades que privilegiem experiências com os outros sentidos; o trabalho com o folclore pode incluir a confecção de máscaras, roupas, cenários e instrumentos musicais. Utilizar materiais de diferentes formas, cores, volumes e pesos, de maneira livre e orientada.

4) Faixa etária: 8 a 10 anos

Características: Executam com domínio e segurança todas as Habili- dades Motoras Básicas em suas variadas combinações.

Considerações: As crianças podem e devem experimentar combina- ções cada vez mais complexas das Habilidades Motoras Básicas.

Sugestões de atividades: Utilização das Habilidades Motoras Básicas em situações nas quais as crianças se sintam desafiadas a resolver pro- blemas tanto individual quanto coletivamente. É possível criar situa- ções-problema nas quais seja necessário que se organizem, elaborando táticas e estratégias, em grupos para resolvê-las.

5) Faixa etária: 10 a 12 anos

Características: Apreciam atividades competitivas e disputas entre sexos; são capazes de negociar, organizar e criar situações de intera- ção, e estão mais preocupados com a execução perfeita do movimen- to; são capazes de criar e discutir novas regras, espaços e número de participantes de jogos.

Considerações: As crianças passam a utilizar as Habilidades Moto- ras Básicas em jogos pré-desportivos.

Sugestões de atividades: Aumentar a complexidade das regras dos jogos; podem ser utilizados os jogos pré-desportivos e outras ativi- dades competitivas nos quais possam se organizar, discutir e criar novas regras.

6) Faixa etária: 12 a 14 anos

Características: Maior interesse pelo sexo oposto; gostam muito de atividades competitivas; têm necessidade de pertencer a um grupo; são bastante influenciáveis. São capazes de jogar com pleno conheci- mento das regras, analisando-as e discutindo-as; são capazes de fazer críticas elaboradas sobre fatos da realidade e também sobre questões morais e éticas.

Sugestões de atividades: Preferem atividades nas quais sejam capa- zes de mostrar suas habilidades de movimento. Esportes radicais, gin- canas, jogos pré-desportivos e desportivos são os mais indicados.

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7) Faixa etária: 14 a 18 anos

Características: Total interesse pelo sexo oposto; grande interesse por atividades competitivas. São capazes de analisar e discutir tais di- ferenças; ampliam sua capacidade de analisar e discutir os fatos da realidade.

Sugestões de atividades: Esportes radicais, jogos desportivos, gin- canas, caça ao tesouro, acampamentos e acantonamentos, excursões e atividades que desafiem suas habilidades e capacidades.

8) Idosos:

As atividades destinadas a idosos devem considerar suas necessidades e preferências. Atividades que privilegiem encontros e interações sociais são adequadas, portanto, podem ser exibidos filmes, organizados pas- seios, torneios de jogos de salão, bailes e outras atividades de movimen- to de baixo impacto são indicados, isto é, atividades que apresentem grande exigência de sobrecarga.

JOGOS E BRINCADEIRAS: EXEMPLOS

de sobrecarga. J OGOS E B RINCADEIRAS : EXEMPLOS Vamos apresentar a seguir alguns exemplos de

Vamos apresentar a seguir alguns exemplos de jogos e brincadeiras sem a preocupação de estabelecer rigidamente as faixas etárias para as quais poderiam ser mais apropriados. Antes, porém, são necessárias algumas observações.

O recreador deverá observar o grupo com o qual irá trabalhar de modo a sugerir as atividades mais adequadas às suas características e necessidades, sem ten- tar enquadrá-lo em um modelo pré-determinado. Importa que as crianças intera- jam ente si e com o profissional, que troquem informações e saberes e que se auxi- liem mutuamente, porque acreditamos que assim constroem conhecimentos e estabelecem víncu- los fundamentais para sua formação.

Outro aspecto a ser destacado tem rela- ção com a divisão da turma em grupos. É ób- vio que as crianças gostam de se manter próxi- mas de seus amigos em todas as ocasiões, inclusi- ve nos jogos. Entretanto, o recreador deve estar atento para possibilitar que novos grupos sejam formados, permitin- do que as crianças tenham a chance de jogar com todos os colegas.

as crianças tenham a chance de jogar com todos os colegas. Um modo interessante de fazer

Um modo interessante de fazer isso é intervir na divisão da turma, separando-os em grupos de nascidos no primeiro e no segundo semestre; aqueles que moram em ruas cujos nomes se iniciem com vogais ou com consoantes; aque- les cujo nome da mãe tem um número par ou ímpar de letras; aqueles que estão

36 com camisas de cor clara ou escura etc. Para identificar os grupos, podemos usar

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camisas ou coletes, mas também, podemos usar pequenas tiras de papel crepom colorido amarradas nos punhos dos participantes.

Com relação aos jogos, acreditamos que devem ser compreendidos nas suas inúmeras possibilidades de serem jogados. Isto significa que podem ser vis- tos como um espaço para as recriações e para as mudanças, sejam elas das regras, do número de participantes, do número de bolas em campo, da área a ser ocupa- da e do que for preciso modificar para que as pessoas se sintam à vontade para participar. O jogo é o espaço da liberdade, da subversão e da imprevisibilidade, por isso abre caminhos para novas relações dos sujeitos com eles mesmos e com os outros.

No que diz respeito à competição, pensamos que nosso adversário deve ser visto como aquele que permitirá que possamos ter um melhor conhecimen- to sobre nós mesmos, isto é, sobre nossos limites e capacidades, e não aquele que deve ser destruído ou humilhado. É preciso esclarecer que sem ele não teríamos a chance de superar nossas próprias limitações cognitivas e corporais, por isso devemos a ele todo o respeito e admiração.

Interessa que todos tenham a oportunidade de jogar, independente de suas habilidades e o recreador deve estar atento de modo a não privilegiar ape- nas os mais hábeis, velozes ou fortes. Há que se pensar nos mais tímidos, fracos ou menos habilidosos e, no jogo, deve haver espaço para todos. Não devemos reforçar a exclusão ou a idéia de vencer a qualquer preço ou, ainda, de levar vantagem em tudo. O profissional deverá estar atento para analisar, perceber e introduzir valores que vão abrir espaços para interações saudáveis e para a vi- vência de relações mais solidárias e cooperativas.

Atividades com as Habilidades Motoras Básicas

Como vimos, o trabalho com estas atividades é indicado para crianças de dois a dez anos. Vamos apresentar alguns exemplos que, como você poderá per- ceber, poderão ir se tornando cada vez mais complexos. Desta maneira, será possível utilizá-los e/ou modificá-los de acordo com as necessidades e preferên- cias de seu grupo de crianças.

Por exemplo:

Caminhar: livremente; ao sinal do recreador caminhar para frente, para trás, para um lado, para o outro; na ponta dos pés; sobre figuras geomé- tricas ou diferentes tipos de linhas no chão (retas, curvas e sinuosas); segu- rando diferentes partes do corpo – próprio ou do colega; batendo pal- mas; imitando robôs; imitando gigantes; imitando uma pessoa idosa; se- gurando em alguma parte do corpo do colega; no ritmo das palmas (ou de qualquer outro instrumento de percussão) do recreador que deverá variar do mais lento ao mais rápido.

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Brinquedos cantados

Como vimos, crianças pequenas gostam muito de brincar de roda ou de aliar música e dança. Com passos bem simples podemos ensinar a elas alguns brinquedos cantados, desde os mais conhecidos e tradicionais até aqueles que fazem parte do folclore de sua região. Dentre os primeiros temos: Atirei o pau no gato; Pirulito que bate, bate; Cai, cai balão; A linda rosa juvenil; Rá, rá rá minha machadinha; A canoa virou; Bão-ba-la-lão; Teresinha de Jesus; O pião; O cravo e a rosa; Lá vem o Seu Noé; Se essa rua fosse minha; Ciranda, cirandinha; Escravos de Jó e Capelinha de melão.

As crianças, muito provavelmente, conhecerão músicas cantadas por artis- tas de TV. Caberá ao recreador perceber que estas devem ser ponto de partida para um trabalho com brinquedos cantados e, por isso, não devem ser descarta- das, mas sim, consideradas como parte da cultura lúdica infantil da atualidade.

Crianças pequenas também gostam muito de cantar ou declamar versinhos que são referidos a partes do corpo. Isto é, a letra da música os leva a tocar ou a movimentar as diferentes partes do corpo. Como exemplo podemos citar a mú- sica “das palminhas”: (a melodia é a mesma da música “Ciranda, cirandinha”).

“Palminhas, palminhas Nós vamos bater Depois as mãozinhas

Pra trás esconder Pro lado, pro outro (*)

Nós vamos bater Depois as mãozinhas

Pra trás esconder” (*) Pra cima, pra baixo / Pra frente, pra trás

Repare que nestas atividades estão presentes algumas Habilidades Motoras Básicas, tais como andar, saltar e saltitar; e algumas Estruturas Motoras de Base, tais como, coordenação motora ampla, coordenação visomotora, organização espaço-temporal e equilíbrio.

visomotora, organização espaço-temporal e equilíbrio. Brincadeiras e jogos com regras simples Brincadeiras de

Brincadeiras e jogos com regras simples

Brincadeiras de mímica e de adivinhação.

Exemplo:

Uma das crianças realiza movimentos que represen- tem animais ou pessoas executando tarefas simples, tais como: penteando o cabelo, escovando os dentes, lavando a lou- ça, ninando um bebê, tocando um instrumento etc. As outras cri- anças deverão adivinhar e todos deverão passar pela experiência de ser o mímico.

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Brincadeiras que utilizam os outros sentidos do corpo Exemplo:

“Eu acho que ouvi um gatinho”

a) Formação: Crianças sentadas em círculo e ao centro uma outra sentada de olhos vendados.

b) Desenvolvimento: Ao sinal do recreador, uma criança se aproxima do que está com os olhos vendados e dá um miado. A criança terá que adivinhar o nome de quem miou. Todos devem passar pela experiên- cia de estar no centro.

Variação 1: a criança que mia não sai do lugar;

Variação 2: ao invés de miar a criança pronuncia o nome de um colega ou diz “Bom dia”.

Piques

a) Pique pega

Uma das crianças é escolhida para ser o pegador. Ao tocar em outra criança, esta passará a ser o pegador.

b) Pique ajuda

Uma das crianças é escolhida para ser o pegador. Ao tocar em outra criança, esta passará a ser mais um pegador. Cada vez que alguém for pego, passará a ser pegador e a ajudar a pegar os demais.

c) Pique corrente

Uma das crianças é escolhida para ser o pegador. Ao tocar em outra criança, esta lhe dará as mãos e as duas passarão a correr de mãos dadas. Cada criança que for pega deverá unir-se às outras na corrente e correr sem rompê-la.

d) Pique pega o rabinho

Todas as crianças recebem uma tirinha de papel (crepom ou de jor- nal) e a prendem na parte de trás da roupa como se fosse um rabinho. Ganha o jogo a criança que conseguir proteger seu rabinho e, ao mes- mo tempo, pegar uma maior quantidade de rabinhos dos colegas.

Jogos tradicionais com regras simples

Exemplo:

“Meus pintinhos venham cá”

a) Formação: Numa extremidade do espaço (salão, quadra ou campo) está uma criança que será a “galinha”. Na outra extremidade, dispostos lado a lado, estão as demais crianças que serão os “pintinhos”. Entre eles, na

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ESPORTE ESPORTE E E LAZER LAZER

lateral, está a criança que será a “raposa”. b) Desenvolvimento:

a criança que será a “raposa”. b) Desenvolvimento: A “galinha” fala para seus “pintinhos”: —”Meus

A “galinha” fala para seus “pintinhos”:

—”Meus pintinhos venham cá!”. Eles respondem:

— “Tenho medo da raposa!”

A galinha retruca:

— “A raposa não faz mal!”

E os “pintinhos”:

— “Faz sim!”

A “galinha”, então, pergunta se querem comer alguns alimentos (pão,

melão, feijão etc.) e eles sempre respondem em conjunto:

—”Não!”

Quando ela pergunta se querem milho, eles correm em sua direção. Aquele que for pego vira “raposa” e vai ajudar a pegar os outros “pin- tinhos”.

Estes jogos que agradam muito as crianças pequenas são, basicamente, pi- ques-pega com personagens, pois há corrida, perseguição e captura. Do ponto de vista da aprendizagem e do desenvolvimento são excelentes, pois suas regras são simples e de fácil entendimento. Além disso, envolvem Habilidades Motoras Básicas, Estruturas Motoras de Base e Funções Psíquicas Superiores, tais como memória, atenção e comportamento voluntariamente controlado. Com este mes- mo tipo de organização podemos encontrar “Os lobos e os carneirinhos”, “A bruxa e as fadas”, “A travessia da floresta”, “Os caçadores e as raposas” etc.

Jogos com bola e regras simples

Exemplo: Bola maluca

etc. Jogos com bola e regras simples Exemplo: Bola maluca a) Formação: Crianças sentadas em círculo.

a) Formação: Crianças sentadas em círculo. Uma delas segura uma bola.

b) Desenvolvimento: Ao sinal do recreador (ou ao som de uma música) a bola vai sen- do rapidamente passada, de um em um. Quando a música pára, a criança que estiver segurando a bola deve, também rapidamente, passá-la na outra direção. O profissional deve vari- ar o intervalo entre os sinais. Quem não mudar a direção da bola deverá ficar em quatro apoios de modo que a bola seja passada por baixo de seu corpo.

RECREADOR

Jogos sem material com regras simples

Exemplo:

“O gato e o rato”

a) Formação: Crianças de pé, com as pernas afastadas, de mãos dadas for- mando um círculo. No centro, uma criança é o “rato” e, outra, fora é o “gato”.

b) Desenvolvimento: O “rato” deve fugir do “gato”. Ambos podem entrar e sair do círculo por baixo das pernas dos colegas. Quando o rato for pego substituem-se as crianças. Todos devem passar pela experiência de ser “gato” e “rato”.

Variação 1: O “rato” só pode passar por baixo dos braços dos colegas, e o “gato”, só pode passar por baixo das pernas.

Variação 2: O “rato” tem passagem livre, mas o “gato” tem sua passagem dificultada pelos outros participantes que não podem soltar as mãos.

Atividades com jornais

Correr com uma folha de jornal apoiada em diferentes partes do corpo sem deixá-la cair no chão, por exemplo: na cabeça, na barriga, no braço, em um dos pés, na coxa etc.;

a) Formação: Dispostas lado a lado, atrás de uma linha traçada no chão, cada criança possui duas folhas de jornal.

b) Desenvolvimento: Ao sinal do recreador, deverão colocar uma folha no chão, à sua frente e pisar sobre ela. O outro passo deverá ser sobre a outra folha de jornal, e assim sucessivamente, até alcançarem a linha de chegada.

O recreador pode elaborar junto com as crianças uma história cujos per- sonagens deverão ser vestidos com roupas feitas de jornal. Os jornais também podem ser usados na produção de máscaras e cenários.

Contestes

Exemplos:

a) Formação: Crianças de pé, com as pernas afastadas, dispostas em duas colunas com número igual de participantes.

Material: Duas bolas.

Desenvolvimento: Ao sinal do recreador, a primeira criança de cada colu- na passa a bola por entre as suas pernas para a que está atrás, e assim sucessivamente, até que a bola chegue ao último da coluna. Este sairá correndo e ocupará o primeiro lugar. Vence o grupo cuja criança que iniciou o jogo voltar para sua posição original.

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ESPORTE ESPORTE E E LAZER LAZER

Variação 1: A bola deverá ser passada por cima da cabeça.

Variação 2: O primeiro jogador passa a bola por entre as pernas, o segundo por cima da cabeça, o terceiro por entre as pernas, o quarto por cima da cabeça e, assim, sucessivamente.

b) Formação: Crianças de pé dispostas em duas colunas com número igual de participantes.

Material: Dois cones (ou duas garrafas pet) colocados a uma distância de aproximadamente três metros à frente de cada coluna.

Desenvolvimento: Ao sinal do recreador, a primeira criança de cada coluna sai correndo, dá uma volta ao redor do cone, retorna, bate na mão da segunda criança e vai para o final da coluna. A segunda criança só pode- rá sair de seu lugar após o primeiro bater em sua mão. Vence o grupo cuja criança que iniciou o jogo voltar para sua posição original.

Jogos com características cooperativas

Exemplos:

a) Queimado em “X”

Formação: A quadra é dividida em um “X” e a turma é dividida em qua- tro grupos identificados por quatro cores diferentes. Cada grupo ocupa um espaço do “X”.

Material: Bolas de borracha

Desenvolvimento: Cada vez que uma criança é queimada, ela vai, levando a bola, para o grupo da pessoa que a queimou, passando a fazer parte deste novo grupo. Todos os grupos podem queimar os outros, o que gera uma intensa movimentação e troca de lugares. Podem ser usadas duas bolas.

e troca de lugares. Podem ser usadas duas bolas. b) Basquetebol por zona Formação: A quadra

b) Basquetebol por zona

Formação: A quadra é dividida em áreas retangulares e paralelas formando as zonas de jogo – “a, b, c, d”. A turma é dividida em dois times.

Material: Bola de basquete

Desenvolvimento: Em cada zona ficam de dois a três representantes dos dois grupos. Se estipularmos a cesta “x” para o time Lua, as áreas “a” e “b”

Deste modo, a cesta “y” será do time Sol, suas zonas de ataque serão “a” e “b” e suas zonas de defesa serão “c” e “d”.

O jogo começa com a bola no centro da quadra. A bola é disputada zona a zona, pode ficar por poucos segundos em cada uma, deve ser passada para a zona seguinte e não pode ser lançada deixando de pas- sar por qualquer uma delas. Quando uma equipe marca ponto, os joga- dores trocam de zona, fazendo um rodízio das posições. Todos deve- rão passar pela experiência de atacar e defender seu time.

Variação 1: Dependendo das características do grupo, a cesta pode ser a cesta de basquete, um gol, um arco, um balde ou outro objeto adequado.

O mesmo princípio pode ser empregado com bolas de handebol.

RECREADOR
RECREADOR

Cesta “x” Zonas de defesa do time Lua Zonas de ataque do time Sol

Cesta “y” Zonas de defesa do time Sol Zonas de ataque do time Lua

c) Futebol em duplas

Formação: Turma dividida em duas equipes. A mesma formação do fute- bol, apenas os participantes jogam em duplas ou em trios, de mãos da- das. Pode ou não haver goleiros.

Desenvolvimento: Os jogadores não podem soltar as mãos. A cada gol, são formadas novas duplas entre os jogadores da mesma equipe.

Variação 1: A cada gol, o time ganha o ponto, mas a dupla que o marcou vai para o outro time.

Variação 2: Podem ser usadas mais de uma bola ao mesmo tempo.

Matroginástica

A matroginástica é excelente oportunidade para aproximar membros da

mesma família. É uma atividade divertida que acontece ao som de músicas

animadas e reúne grande quantidade de pessoas, para executar movimentos

de baixo impacto, que possibilitam interações entre os participantes. Estes

movimentos podem ser realizados individualmente, em duplas e trios.

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ESPORTE ESPORTE E E LAZER LAZER

É muito utilizada em festas de final de ano em empresas, escolas e clubes.

a) Material necessário: Palco, aparelhagem de som, alto-falantes e microfones; jornais, bolas de gás, bastões, fitas coloridas, arcos e cordas.

b) Duração: Cerca de quarenta e cinco minutos.

c) Atividades indicadas: As já conhecidas Habilidades Básicas: andar, correr, saltar, saltitar, lançar-receber, subir-descer; dançar; brincar de roda, imi- tar os movimentos do companheiro; brincadeiras de fazer carrinho de mão, cadeirinhas, cavalinho, passar por baixo das pernas do parceiro; pular corda, fazer “cabo-de-guerra”, passar por baixo da corda em dife- rentes alturas, saltar por cima da corda de diferentes alturas, etc.

d) Desenvolvimento: A atividade inicia com uma música bem animada. O recreador pode levar as pessoas a dançar, bater palmas e fazer diver- sos movimentos para desinibi-las. As atividades em duplas formadas por pais/mães e filhos são indicadas. Com o passar do tempo podem ser realizadas atividades que impliquem na participação de grupos formados por mais de uma família e, ao final, é interessante fazer uma grande roda que envolva a todos.

Gincanas

Existem vários tipos de gincanas (culturais, esportivas, beneficentes etc.), mas de uma maneira geral, são atividades recreativas, de caráter competitivo, rea- lizadas por grupos que se dispõem a cumprir tarefas (as provas) previamente determinadas. O cumprimento destas tarefas resulta em pontos para o grupo que, ao final, serão somados para que se conheça o vencedor.

As gincanas exigem um trabalho de organização que envolve a elaboração do regulamento, a definição do espaço que será utilizado, o material dispo- nível, o número de participantes, a seleção das provas e de seu valor, os critérios de pontuação, e a escolha de árbitros.

As provas podem ser do tipo: trazer o objeto mais antigo; trazer a pessoa mais idosa, trazer uma nota de dólar; trazer um representante do governo municipal; fazer um levantamento dos grupos musicais e folclóricos do bairro e divulgá-los nas casas comerciais; trazer um artesão do bairro e divulgar seu trabalho; trazer um vestido de noiva; conseguir juntar cin- qüenta quilos de alimentos; responder perguntas sobre assuntos diversos; trazer um artista de sucesso etc.

De um modo geral, as gincanas iniciam com o sorteio das tarefas pela ma- nhã e, ao final do dia, há a contagem dos pontos e a entrega dos prêmios.

Finalizando este nosso item, é importante reforçar que estes são apenas al- guns exemplos. Certamente você pode encontrar muitas outras possibilidades em

44 manuais de jogos, livros diversos, levantando junto às crianças e mesmo lembran-

RECREADOR

do de sua tempo de infância. Uma possibilidade interessante é também inventar seus jogos e/ou construir junto com as crianças novas brincadeiras.

Aliás, apesar de termos nos prendido muito na faixa etária da infância, é bom lembrar: adulto também joga e gosta de jogar. Obviamente você vai ter sempre que utilizar jogos adequados a cada período da vida, considerando as questões locais, culturais, econômicas etc. Uma brincadeira que dá certo em um lugar, por vezes não funciona em outro. Algo que parece plenamente apropri- ado, nem sempre funciona como esperamos. Por isso devemos estar prepara- dos para imprevistos e termos opções para mudar nossa programação inicial, caso algo não surta o efeito que esperávamos.

Ainda falando de públicos específicos, não se esqueça dos jovens! Assim como em outros casos, eles merecem um cuidado especial e uma programação adequada aos seus interesses.

especial e uma programação adequada aos seus interesses. ATIVIDADE 7 Nesse momento, sob orientação do professor,

ATIVIDADE 7

Nesse momento, sob orientação do professor, vamos experimentar a utilização de jogos com grupos diferenciados. Seu professor ajudará na preparação das atividades, para o qual você deve considerar o conjunto de informações já apresentadas.

na preparação das atividades, para o qual você deve considerar o conjunto de informações já apresentadas.
na preparação das atividades, para o qual você deve considerar o conjunto de informações já apresentadas.

ESPORTE E LAZER

Caracterização da ocupação

46

Nesse item conversaremos sobre determinadas características sugeridas para quem pretende trabalhar como Monitor de Recreação. De início podemos dizer que um dos principais aspectos deste trabalho é que você terá que lidar com muitas pessoas, algumas extremamente diferentes de você.

Um primeiro cuidado, portanto, é não se deixar levar por preconceitos e antipatias gratuitas, afinal você será o responsável pelo desenvolvimento do trabalho durante um determinado período. Você será a pessoa a quem todos recorrerão caso haja algum problema ou aconteça algum imprevisto.

É claro que se você não apresentar todas as características aqui levanta-

das, isso não significa que tenha feito a opção errada ou que não terá sucesso em sua atuação. O interessante de tudo isso é a possibilidade que você está tendo de se conhecer melhor e, mais, a chance (que deve ser aproveitada) de se aprimorar como ser humano, a partir do instante em que sentir a necessidade de modificar um ou outro aspecto de seu comportamento. Lembre-se que tais características não são “dons do destino”, podem ser treinadas e aprendidas, basta atenção e empenho.

O recreador é alguém muito especial. Em sua área de atuação lida com as

pessoas em momentos de descontração, de festa, de alegria e de prazer, por isso, não pode ser uma pessoa sisuda, de poucas palavras ou pouco comunica- tiva. Seu trabalho consiste em reunir pessoas, fazê-las estabelecer contatos en- tre si, brincar com elas, fazer com que brinquem, dancem, riam, divirtam-se. Mas tudo isso deve ser feito sem perder de vista suas responsabilidades de estimulá-las a pensar sobre sua realidade.

Como já foi dito, o recreador deve educar as pessoas para o divertimento, por isso, não pode ser uma pessoa tímida, que tenha vergonha de se expor ou de falar para um grupo. Como estará sempre se comunicando, é importante que seja ouvido e bem compreendido. Logo, é aconselhável expressar-se com clareza, articulando bem as palavras, emitindo-as em alto e bom som.

Os grupos com os quais você irá trabalhar poderão ser os mais diversifi- cados, compostos por variados tipos de pessoas, de diferentes classes sociais e faixas etárias. Você poderá atuar com crianças, adolescentes, adultos, idosos, idosas, donas de casa, trabalhadores etc. Poderão (e deverão sempre que possí- vel) ser incluídas pessoas portadoras de deficiência,. Não é aceitável qualquer tipo de preconceito, para isso não há justificativa. Devemos estar prontos a não permitir esses tipos de manifestações em nossas atividades, sejam motivadas por questões raciais, econômicas, etárias, de gênero ou de orientação sexual.

Por isso, é fundamental que você saiba ser firme sem ser agressivo ou

RECREADOR

grosseiro, tenha habilidade para resolver conflitos, saiba respeitar as limita- ções, as habilidades e as capacidades individuais; seja criativo para lidar com os problemas e imprevistos, saiba ouvir e respeitar aqueles que têm opini- ões diferentes das suas, além de ter clareza sobre os valores éticos que de- vem nortear as relações sociais.

Você poderá ter que elaborar projetos de atividades recreativas, o que requer, dentre outras atribuições, analisar espaços físicos e equipamentos dis- poníveis, agendar atividades, definir cronogramas, distribuir tarefas etc. Para isso, terá que ter calma, organização e método; deverá conseguir delegar po- deres, isto é, confiar que outras pessoas de sua equipe de trabalho terão capa- cidade de realizar as tarefas de maneira satisfatória e adequada.

Muitas vezes você terá que recepcionar clientes, esclarecendo dúvidas, orientando acerca de vestimentas, alimentação, higiene pessoal etc., por isso terá que ser firme sem ser grosseiro, expressar-se bem, fazer-se ouvir e ser tolerante.

Você poderá ser chamado para coordenar ou administrar um determi- nado Setor de Recreação, para isso terá que demonstrar organização, imparci- alidade, capacidade de liderar equipe, capacidade de tra- tar bem os seus subordinados; terá que de- monstrar condições de recrutá-los, capacitá- los e avaliá-los; poderá ter que definir, com- prar, organizar e supervisionar equipamen- tos bem como o uso de materiais e, para isso, mais uma vez, são competências im- portantes a capacidade de organização, a res- ponsabilidade, a tolerância, a capacidade de análise de um fato ou de uma dada situação, a im- parcialidade, a firmeza e a cordialidade.

Ser recreador é estar o tempo todo em contato com o público, mas também estar o tempo todo em contato com você mesmo. É refletir sobre suas atitudes, sobre sua personalidade e sobre seu comportamento, como também sobre o alcance, as possibilidades e os limites de seu trabalho.

o alcance, as possibilidades e os limites de seu trabalho. ATIVIDADE 8 Sob orientação do professor,
o alcance, as possibilidades e os limites de seu trabalho. ATIVIDADE 8 Sob orientação do professor,

ATIVIDADE 8

Sob orientação do professor, vamos fazer uma dinâmica de grupo para que possamos discutir nossa postura profissional.

Onde trabalha o recreador

O recreador pode desenvolver atividades nos mais diferentes espaços, sen- do os mais comuns: festas, colônias de férias, manhãs recreativas, hotéis, casas de festas infantis, clubes, empresas, associações comunitárias, igrejas, centros religio- sos, hospitais, asilos e ônibus de turismo.

Cada um desses locais possui peculiaridades que você precisa conhecer para melhor desenvolver seu trabalho.
Cada um desses locais possui peculiaridades que você precisa conhecer para
melhor desenvolver seu trabalho. Vamos ver com maiores detalhes as festas, os
clubes, as empresas e os ônibus de turismo.
ESPORTE E LAZER

Festa da lavagem das escadarias do Senhor do Bonfim- Salvador -Bahia

AS FESTAS

Você pode ser chamado para animar festas de aniversário infantil; de con- fraternização de final de ano de alguma empresa; de uma casa geriátrica; para as crianças da comunidade promovida pela associação de moradores, ou outros tipos de festividades. Uma festa pode fazer parte de uma programação mais ampla ou ser uma atividade mais pontual.

Você, como recreador, pode ser convidado a participar da elaboração de toda a programação ou para se ocupar apenas das crianças. Caso você participe da equipe de organização, pode utilizar seus conhecimentos sobre os interesses culturais (já vimos isso em um dos itens anteriores, lembra?) e, tendo em mente a idéia de que deve contribuir para a ampliação do conheci- mento acerca das possibilidades de diversão dos sujeitos, sugerir uma progra- mação que envolva a exibição de filmes, passeios pelos equipamentos cultu- rais da cidade, excursões, piqueniques, caminhadas pela própria comunidade com temáticas bem humoradas sobre os problemas do bairro, palestras sobre

48 DST/AIDS e violência doméstica, apresentação de um grupo de pagode do

RECREADOR RECREADOR

bairro, festival de pipas, torneio de futebol, de bola de gude, de vôlei e o que mais a sua imaginação mandar, o restante da equipe concordar e a verba dis- ponível ou o patrocínio permitir.

É muito interessante ter, ao menos, uma noção do que as pessoas da comunidade gostam e/ou costumam fazer em seus momentos de lazer e sem- pre que possível envolvê-los em todas as fases do evento (para mais informa- ções sobre isso, dê uma olhada no item sobre a ação comunitária de lazer, na ocupação “agente comunitário de esporte e lazer”). Esse pode ser o ponto de partida ou de chegada da programação, por exemplo, se houver uma escola de samba ou um bloco carnavalesco, ou ainda um grupo do folclore da região. Eles podem se apresentar, iniciando ou encerrando a festa.

É possível que você também possa ser convidado a trabalhar com anima- ção de festas infantis. Neste caso, você apenas pode ter alguma idéia acerca do número de crianças e de sua faixa etária. Como crianças maiores não costumam participar das atividades propostas, você pode supor que terá um grupo com idade máxima de dez (10) anos (o que não significa que você não deve se empe- nhar em também envolver outras faixas etárias). Este tipo de atuação requer ma- terial específico e, para fugir da mesmice que normalmente impera nessa área, você deve se preparar com um grande repertório de atividades atraentes.

preparar com um grande repertório de atividades atraentes. Ô NIBUS DE TURISMO Digamos que você tenha

ÔNIBUS DE TURISMO

Digamos que você tenha decidido organizar um passeio ou uma excursão para alguma cidade próxima. Tudo acertado, todos os passageiros já estão acomodados, chegou a hora da partida.

Durante o trajeto você pode desenvolver um trabalho dentro do ônibus com o objetivo de estimular e integrar as pessoas. Este trabalho apresen- ta, pelo menos, três dificuldades: a primeira é que se deve evitar os deslocamen- tos dos passageiros, o ideal é que todos permaneçam em seus lugares, por ques- tão de segurança. A segunda é a falta de espaço e a terceira é a instabilidade do ônibus que gera uma instabilidade da posição do recreador.

Entretanto, nada disso impede que possam ser utilizadas cantorias e brinca- deiras de adivinhação; competição en- tre os sentados na janela contra os senta- dos no corredor, ou dos sentados do lado direito contra os do lado esquer- do; brincadeira do telefone; brincadeira do “Qual é a música?”; concurso de pia-

contra os do lado esquer- do; brincadeira do telefone; brincadeira do “Qual é a música?”; concurso

49

ESPORTE E LAZER

das; concursos culturais (com perguntas do tipo: “Qual é o nome do ministro da Fazenda?”); e concursos de abobrinhas (com perguntas do tipo: “Quais são os nomes das Meninas Super-Poderosas?”).

Mas atenção: cuidado para não ser inconveniente. Em alguns momentos, em certas atividades ou com alguns públicos específicos, as pessoas querem utilizar o momento do ônibus para descansar e não para mais brincadeiras.

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EMPRESAS

O recreador pode também ser contratado para atuar em empresas, o que requer atenção especial para, ao menos, quatro aspectos:

Com relação ao próprio recreador

Existem, no mínimo, duas possibilidades deste trabalho acontecer. O re- creador pode ser contratado pela empresa para organizar/animar festas em datas específicas (tais como Dia das Crianças, Dia das Mães, Dia dos Pais, Festa de Natal etc.) ou pode ser contratado para desenvolver ativi- dades ao longo de todo o ano. Em alguns casos, talvez seja difícil traba- lhar sozinho, daí haver necessidade de conseguir alguns auxiliares, que também podem ser contratados ou podem ser do corpo de funcionários da própria empresa.

Com relação à empresa

Para qualquer uma das opções acima, o recreador deverá observar o es- paço disponível na empresa, isto é, verificar se as festas e/ou atividades podem ser realizadas no local de trabalho ou se haverá necessidade de utilizar um outro local. Uma outra possibilidade é a empresa possuir uma sede campestre e o profissional ser contratado para trabalhar apenas nos finais de semana.

Com relação ao número de participantes

Esta é uma facilidade que pode existir quando se trata de empresas. O recreador poderá obter dados um pouco mais seguros sobre o número de funcionários e seus dependentes, sobre seus gostos pessoais, sobre sua faixa etária e sobre quem pretende participar da programação.

Com relação às atividades É muito importante que o recreador, considerando os interesses culturais e a idéia de que deve contribuir para a ampliação do conhecimento acerca das possibilidades de diversão das pessoas, diversifique bastante a pro- gramação. Esta programação pode incluir atividades infantis, infanto-juvenis e para adultos e idosos de ambos os sexos; atividades que envolvam pais e fi-

lhos, somente pais e somente filhos. É interessante procurar atender às

RECREADOR

diferentes necessidades dos indivíduos, pois há aqueles que gostam de movimento e aqueles que preferem se divertir sem muita agitação. Por exemplo, para os primeiros você pode pensar em uma sessão de matrogi- nástica, em uma gincana, em torneios esportivos, bailes etc. Para o segun- do grupo você pode planejar torneios de jogos de salão, torneios de jo- gos de baralho, bingos etc. O teatro e o cinema, geralmente, satisfazem a todos, por isso é possível pensar em uma apresentação teatral e na exibi- ção de um bom filme. Também pode ser interessante lançar mão dos grupos artísticos que porven- tura existam na própria empresa. O recreador também pode (e deve) estimu- lar a criação de grupos de teatro, de dança, de música etc.

Um pouco mais sobre empresa

Se o recreador for contratado para desenvolver o trabalho ao longo do ano, poderá ter mais tranqüilidade para elaborar uma programação que abarque todos os interesses culturais.

É interessante também pensar em montar um mural em algum lugar de grande circulação da empresa de modo que seja possível divulgar o calen- dário cultural da cidade e a programação cultural elaborada. O recreador poderá ainda organizar passeios pelos equipamentos culturais da cidade; organizar caravanas para assistir as peças e os filmes em cartaz; levar gru- pos de funcionários e suas famílias para visitar os centros culturais e as exposições; organizar palestras sobre os mais diversos assuntos etc. Pode ainda tentar obter descontos em ingressos de modo a viabilizar uma mai- or participação. Também há a chance de estreitar a relação dos funcioná- rios da empresa com o SESC ( Serviço social do comércio) ou o SESI ( Serviço social da indústria) que possuem ampla programação de lazer destinada a trabalhadores.

CLUBES

Os clubes podem ser agrupados em duas grandes categorias: os clubes de bairro ou urbanos e os clubes campestres. Para atuar nesses espaços devemos considerar:

Com relação às instalações

Os clubes urbanos variam bastante de tamanho. De uma maneira geral, possuem grande área construída com a tendência ao aproveitamento de todo o espaço. Naqueles que possuem instalações simples, a quadra de futebol ou poli desportiva tem destaque e é acompanhada por vestiários, banheiros e cantina. Vamos encontrar outros maiores, com mais de uma piscina, quadras cobertas e descobertas, campos de futebol, salões de baile, salas de ginástica, salas de balé e outras modalidades desportivas, teatro e lojinhas.

51

ESPORTE ESPORTE E E LAZER LAZER

Os clubes campestres geralmente possuem amplas áreas ao ar livre, cam- pos de futebol, quadras externas, piscinas, salão de baile, áreas para chur- rasco e piqueniques, bares ao ar livre, criação de pequenos animais etc.

Com relação às atividades desenvolvidas

Normalmente nos clubes urbanos são desenvolvidas atividades durante

toda a semana. Eles podem oferecer diversas possibilidades para a práti-

ca

de esportes ou para reuniões sociais.

O

recreador pode ser funcionário do clube e participar da elaboração da

programação das atividades oferecidas ou pode ser contratado apenas para atuar em eventos ou datas específicas, tais como Dia das Crianças, Dia das Mães, Festa de São João, Festa de Natal etc. Em ambos os casos, antes de montar a programação deve ter o cuidado de conhecer bem o clube, examinando os locais que poderão ser utilizados e observar se sua programação não irá interferir na rotina de utilização dos espaços. Caso isso ocorra, é interessante confirmar o que pode ser modificado, se a pro- gramação ou se o espaço que seria utilizado. Deverá observar se irá tra- balhar sozinho ou se poderá contar com o auxílio de outras pessoas. Um detalhe importante é saber quem providenciará a contratação dos auxili- ares, se o recreador principal ou o clube.

Em seguida deve partir para elaborar a programação. Deve ser previsto

o desenvolvimento de atividades que acontecerão ao mesmo tempo,

em lugares diversos, de modo a contemplar pessoas de diferentes faixas etárias.

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que acontecerão ao mesmo tempo, em lugares diversos, de modo a contemplar pessoas de diferentes faixas
RECREADOR
RECREADOR
RECREADOR ATIVIDADE 9 O professor dinamizará e organizará uma visita dos alunos a clubes, em- presas,

ATIVIDADE 9

O professor dinamizará e organizará uma visita dos alunos a clubes, em- presas, associações de moradores, centros religiosos etc. O objetivo será conhecer as instalações, identificar a existência ou não de projetos de recre- ação e mesmo verificar a possiblidade de implantação de um novo projeto. Registre aqui suas observações.

recre- ação e mesmo verificar a possiblidade de implantação de um novo projeto. Registre aqui suas

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AGENTE COMUNITÁRIO DE ESPORTE E LAZER

O que chamamos de lazer

UM POUCO DE HISTÓRIA

A palavra lazer se incorporou de tal forma ao nosso cotidiano que pouco

nos perguntamos hoje quais são suas origens e porque estudiosos de diversas áreas se preocupam tanto com esse fenômeno que nos parece tão simples. Va- mos começar definindo o momento histórico do seu aparecimento para enten- dermos sua importância no momento atual.

No final do século XVIII, a Revolução Industrial, desencadeada inicial- mente na Inglaterra, marcada entre outras coisas pela substituição das ferramen- tas manuais pelas máquinas à vapor e do modo de produção doméstico pelo sistema fabril, acaba por promover uma série de mudanças na sociedade. Naque-

le momento histórico, com a implantação de um novo modelo de organização de

trabalho nas fábricas, as cidades começam a ter uma nova dinâmica.

Neste novo modelo de organização social, o tempo de trabalho passa a ser mais controlado, com horários de en- trada, de almoço e de saída. Ou seja,

o tempo de trabalho (e todos ligados

a nossa vida) passa a ser regulado pelo tempo de produção das máquinas. Com a rigidez de horário imposta por esse novo sistema, o momento de não-trabalho começa também a ser mais re- gulado e da mesma forma controlado. É nesse contexto que vemos surgir na história a definição do fe- nômeno do lazer, tal como entendemos hoje.

do fe- nômeno do lazer, tal como entendemos hoje. ATIVIDADE 10 Responda, em uma folha de
do fe- nômeno do lazer, tal como entendemos hoje. ATIVIDADE 10 Responda, em uma folha de

ATIVIDADE 10

Responda, em uma folha de papel, ás seguintes perguntas:

a) Para você, o que é lazer?

b) Como usar seu tempo de lazer?

A partir de suas respostas, o professor dinamizará um debate com a turma.

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ESPORTE E LAZER

LAZER NOS DIAS DE HOJE

Podemos perceber então que o lazer enquanto fenômeno moderno se de- sencadeou em meio a tensões e lutas por direitos das novas classes sociais que se organizavam naquele momento. Daí a importância de o entendermos historica- mente situado.

Assim, devemos ter em vista que se nos dias de hoje temos um maior tem- po livre, se considerarmos os séculos passados, isso ainda não é uma conquista completa. A maioria da população, por exemplo, nem sempre tem grande tem- po livre, muitas vezes sequer tem emprego e comumente não tem a possibilidade de usufruir qualitativa e eqüitativamente das manifestações e dos equipamentos de lazer existentes.

Pense: como você ocupa o seu tempo livre. Você tem algum grupo que se reúne para jogar bola, cartas, dançar em bailes, ir ao cinema ou papear na pracinha mais próxima? Você gosta de ler ou prefere ver televisão nos dias de folga? Você já se preocupou com o seu tempo de lazer? Você se organiza para diversificar suas ativi- dades de lazer? Vai ao cinema, teatro, museus? Tem acesso a todas opções que quer? É bem provável que não.

Na verdade, nos dias de hoje, com tantas preo- cupações relacionadas ao que é considerado “básico” para a vida (como saúde, trabalho e moradia), não paramos para pensar no nos- so tempo de lazer. Com o aumento das de- sigualdades econômicas, as preocupações financeiras se tornam freqüentes e muitos problemas são deflagrados pela falta de re- cursos. Assim, a tendência é não pensarmos na importância do lazer, pois ele suposta- mente não é elemento fundamental para a nossa sobrevivência: um grave equívoco.

fundamental para a nossa sobrevivência: um grave equívoco. Não dando a devida atenção aos momentos de

Não dando a devida atenção aos momentos de lazer, abandonamos um espaço de conquista de qualidade de vida e de possível reflexão sobre a realidade, inclusive de nos organizarmos para juntos construirmos pautas comuns de reivindicação. Você deve se lembrar daquela música do grupo Titãs: “Você tem sede de que? / Você tem fome de que? / A gente não quer só comida, / A gente quer comida, diversão e arte. / A gente não quer só comida, / A gente quer saída para qualquer parte./ A gente não quer só comida, / A gente quer bebida, diversão, balé. / A gente não quer só comida, / A gente quer a vida como a vida quer”.

Voltemos um pouco ao passado para continuarmos a discutir os mo- mentos de lazer. No final do século XIX começa a se configurar o que chamamos de indústria do lazer e do entretenimento, que se expande con-

AGENTE COMUNITÁRIO DE ESPORTE E LAZER

para trazer as pessoas para o espaço público das cidades em crescimento, mas o atual crescimento da pobreza e da violência acaba fazendo com que os habitantes, principalmente dos grandes centros urbanos, reduzam sua presença nestes locais, muitas vezes sem se dar conta disso. Até porque o que a cidade apresenta como espaço alternativo de ocupação, não poucas vezes está a serviço da alta circulação de capital. Se você quer se divertir com supostas segurança e liberdade, você tem que pagar, e pagar caro.

O entretenimento se transformou em uma grande indústria muito bem arti-

culada. Repleta de alternativas, seus produtos são criados para atender diferentes camadas sociais, mas não com a mesma possibilidade de acesso: quem não pode pagar para se divertir no cinema, pode assistir a programação de qualidade duvi- dosa das tardes de domingo nas redes de televisão. A cidade que deveria ser um espaço de encontro dos cidadãos está sendo cada vez mais cercada para a realiza- ção de eventos privados de lazer, servindo aos privilegiados que têm dinheiro. Assim, as elites continuam incorporando esses benefícios como capital cultural, o que colabora para a construção e a manutenção das diferenças sociais. Soma-se a tudo isso, portanto, o fato de que, com a expansão dos meios de comunicação, tornou-se cada vez mais “cômodo” as práticas domésticas de lazer.

Encontramos assim muitos motivos para a redução da ocupação dos espa- ços públicos: violência, falta de dinheiro, alternativas domésticas, e dessa forma as pessoas vão se conformando e não percebem que perderam muitos momen- tos de encontros, festas públicas e outros espaços de divertimento.

Esse processo de privatização das vivências públicas substitui antigas expe- riências que tinham as ruas como espaço de lazer. Meios como a televisão, o rádio e o computa- dor podem criar uma espécie de fantasia e de sonho sobre a vida, algo que não corres- ponde à realidade. Não estamos aqui que- rendo afirmar que os novos meios de co- municação são de todo ruins. Pelo contrá- rio, existem sim programas nas emissoras de rádio e TV de muita qualidade, que nos trazem muitas informações sobre temas dos mais diversos. Somente chamamos aqui a atenção para o fato de não experimentarmos ou- tras formas de lazer.

o fato de não experimentarmos ou- tras formas de lazer. L AZER E E DUCAÇÃO E

LAZER E EDUCAÇÃO

E de que forma as atividades de lazer podem interferir nessas fortes estrutu-

ras? De início podemos dizer que nós, profissionais de lazer, podemos atuar obje- tivando a construção de uma cidade com opções de lazer mais acessíveis a todos. Para isso, é fundamental possibilitar novas experiências, acesso as mais diferentes manifestações culturais, entre as quais as artísticas, podendo gerar assim olhares

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ESPORTE E LAZER

mais sensíveis e atentos às necessárias transformações sociais.

É importante frisar que não adianta possibilitar acesso a bens artísticos e culturais se os indivíduos não forem educados para entenderem e se interessa- rem por essas atividades de lazer. É necessária uma preparação, uma educação para o desenvolvimento do interesse e do conhecimento das produções cultu- rais, o que não acontece “naturalmente”.

Neste sentido, três dimensões devem ser consideradas de forma articula- da quando tratamos da questão do acesso aos equipamentos de lazer: a sua presença e existência, preferencialmente próximo à residência dos habitantes (aspecto físico e geográfico), o valor cobrado e os gastos necessários para que seja possível freqüentar o espaço (aspecto econômico) e a disposição e estímu- lo para que as pessoas procurem este espaço (aspecto cultural, aqui diretamente relacionado à ação pedagógica).

Da mesma forma, não adianta a realização de programas esporádicos (ati- vidades que ocorrem só de vez em quando, sem uma sequência) de oferecimento de alguma atividade de lazer sem a construção de um projeto pedagógico claro e contínuo. Os indivíduos podem passar a gostar de determinadas linguagens cul- turais porque tiveram oportunidades e foram informados sobre suas peculiari- dades, especificidades, sobre as diversas dimensões dessas linguagens.

Uma questão também fundamental é percebermos se a distribuição dos equipamentos de lazer está relacionada ao poder aquisitivo dos moradores da nossa cidade. Muitas vezes, além da distância em que estão localizados os espa- ços de diversão, cobra-se um valor muito alto, impossível de ser pago pela maioria da população. Vale lembrar que estamos chamando de equipamentos de lazer os espaços naturais ou construídos, criados ou organizados para a rea- lização de atividades de diversão, como teatros, museus, cinemas, centros cultu- rais, campos de futebol, etc.

Os shoppings, os centros comunitários, as lojas são espaços de lazer. Os shop- pings, hoje em dia muito procurados, estão se proliferando pelo nosso país e em muitos municípios têm se tornado a principal opção de lazer. Não podemos deixar de lembrar, contudo, que trata-se de um complexo de lojas, e que lojas são feitas para que a gente compre. É claro que esses espaços também possuem salas de cinema, parques e praças de alimentação, que muitas vezes apresentam shows de música gratuitos. O que estamos reforçando aqui é que não podemos nos esquecer que enquanto estamos nos divertindo nesses espaços, estamos também sendo seduzidos ao máximo para consumirmos os produtos à venda.

Caminhando para concluir este item, devemos então explicitar que o pro- fissional de lazer não é o responsável por simplesmente oferecer atividades para passar o tempo das pessoas, contribuindo com a idéia que se trata de um momento de alienação dos problemas sociais, políticos e econômicos. A atua- ção dos profissionais de lazer é eminentemente política, pode estimular a po-

60 pulação a se divertir sim, mas nesse processo compreender que deve reivindicar

AGENTE COMUNITÁRIO DE ESPORTE E LAZER

políticas públicas que possam dar conta ou pelo menos minimizar progressiva- mente as desigualdades sociais e fazer com que cada cidadão se sinta mais “per- tencente” em sua cidade.

Para concluir, definamos então que as atividades de lazer são: sempre culturais; realizadas no tempo livre das obrigações de trabalho, religiosas, do- mésticas e necessidades diárias; são buscadas eminentemente pelo prazer (ca- racterística que não é exclusiva dessas atividades), o que não retira a possibilida- de de que se estabeleçam como ferramentas de conscientização da realidade.

Há duas posturas possíveis nos momentos de lazer: assistir ou prati- car. Podemos assistir um grupo de folclore ou fazer parte de um deles; podemos comparecer a um espetáculo de música ou tocar em uma banda; podemos pintar um quadro ou comparecer a uma exposição. Para nós, pro- fissionais de lazer, o importante é buscar equilibrar as duas posturas em nossos programas de atuação.

as duas posturas em nossos programas de atuação. ATIVIDADE 11 Seu professor levará para a sala,

ATIVIDADE 11

Seu professor levará para a sala, revistas e jornais. Junto com seus colegas, você fará cartazes para dinamizar uma discussão sobre os principais problemas que cercam os momentos de lazer.

você fará cartazes para dinamizar uma discussão sobre os principais problemas que cercam os momentos de
você fará cartazes para dinamizar uma discussão sobre os principais problemas que cercam os momentos de

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ESPORTE E LAZER

A animação cultural

EDUCAÇÃO PARA E PELO LAZER

Estamos percebendo então que a atuação do profissional de lazer possui uma via dupla de ação educativa: pelo lazer e para o lazer.

Quando aproveitamos as atividades de lazer como veículo da educação, esti- mulando a compreensão e transformação de valores e comportamentos, estamos educando pelo lazer. Muitos trabalhos de artistas trazem reflexões que se desenca- deiam a partir de imagens, letras de música, movimentos de dança, textos teatrais e outras linguagens. O artista não necessariamente está preocupado com o alcance de suas mensagens, mas cabe ao profissional de lazer encaminhar questões para que os indivíduos reflitam sobre o que foi apresentado.

Nesse processo é fundamental que o educador não “imbecilize” os indivídu- os, mas que saiba conduzi-lo instigando reflexões, discussões, contextualizando a obra, criando relações com outras linguagens, instigando críticas e análises. Por meio das diversas linguagens culturais podemos estimular nosso público-alvo a buscar novas formas de ver o mundo.

Na aprendizagem de muitos conteúdos as atividades de lazer também podem oferecer muitas contribuições. Você já pensou que poderíamos aprender história através das artes plásticas (pinturas, esculturas), apren- der matemática ou física através de atividades esportivas ou de aulas de música, poderíamos entender melhor a língua portuguesa através da leitura de peças teatrais ou aprender especificidades das regiões do nosso país através das lendas e danças folclóricas? Pois veja só quantas coisas poderíamos aprender utilizando o lazer como meio, ou seja, aprenderíamos com muito mais prazer.

como meio , ou seja, aprenderíamos com muito mais prazer. Por outro lado, a educação para

Por outro lado, a educação para o lazer também é fundamental, já que vive- mos num grande caldeirão cultural onde muitos não conseguem ter acesso a deter- minadas produções por não se interessarem, reflexo da falta de informações, da falta da educação para essas determinadas produções.

Vamos exemplificar para ficar mais claro.

Quando um professor entra numa comunidade da periferia do Rio de Janei- ro para dar aulas de dança e coloca, na primeira aula, música clássica para os alunos dançarem, é provável que seus alunos não gostem. É possível que por isso corra até o risco de sua turma se reduzir nas aulas seguintes.

Sabemos que em muitas comunidades da periferia do Rio de Janeiro, as pesso- as têm o costume de ouvir funk. Como ouvem funk, gostam de dançar funk. Muitas

62 vezes as pessoas não gostam de outro estilo de música porque não estão acostuma-

AGENTE COMUNITÁRIO DE ESPORTE E LAZER

das ou nunca foram apresentadas a outro estilo musical. As pessoas têm seus sentidos apurados conforme o ambiente onde estão inseridas, conforme seu con- texto cultural.

Não estamos colocando aqui nenhum juízo de valor em relação ao funk ou a música clássica. Estamos aqui colocando a necessidade de todos poderem conhe- cer diferentes tipos de linguagem para que assim possam escolher o que preferem, para que decidam sobre seus desejos e prazeres, com base no conhecimento das diversidades culturais. É preciso ampliar as possibilidades de intervenção para que diferentes pessoas gostem do funk e da música clássica e para isso é necessário um processo de educação para entender o funk e a música clássica.

CONCEITO DE ANIMAÇÃO CULTURAL

Todo esse processo de atuação denomina-se animação cultural. A primeira palavra se origina do latim anima, que significa, na língua portuguesa, alma (ou seja, aquilo que move ou dá movimento). Esse termo define com maior precisão

a atuação do profissional do lazer e ao mesmo tempo reforça a necessidade da

procura por parte dos animadores de um conhecimento mais amplo acerca das produções culturais sejam elas no campo das artes, do esporte, da culinária, da

moda, enfim, de todas manifestações.

A animação cultural é um processo complexo que nunca se esgota, pois não se trata de uma simples passagem e acúmulo de informações sobre dife-

rentes linguagens culturais. A animação cultural é uma composição de redes, é

a possibilidade de construção de diferentes gostos a partir da aproximação de

um ambiente cultural múltiplo. A animação cultural é o estimulo para a busca do conhecimento e a vivência da diversidade cultural, isto é, dos mais diferentes tipos de atividades e não somente um conjunto restrito. Lembremos que só exis- te a liberdade de escolher quando se tem e se sabe sobre o que escolher.

Obviamente que existem tensões no âmbito cultural, relações de poder e interesses de grupos. Devemos então ter bastante cuidado na realização de programas de lazer para não agirmos sem deixar espaço para que os indivíduos se posicionem e aprendam a escolher, reproduzindo da mesma forma relações hierárquicas. Temos que contribuir para despertar o interesse pelas diferentes formas de cultura, mas não devemos achar que a “melhor cultura” é aquela difundida pelas elites.

Para entendermos melhor, vamos trabalhar alguns aspectos das linguagens culturais que podem facilitar a elaboração de planos de ação para a animação cultu- ral. Podemos distinguir três padrões de organização cultural, que não se constitu- em de forma isolada e fechada, mas criam tensões e trocas entre si. Na verdade, assim o apresentamos somente por esforço didático, já que na prática há uma enor- me mistura, os produtos culturais se interinfluenciam todo o tempo.

Os três padrões de organização cultural são:

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Banda Sinfônica Jovem ESPORTE E LAZER
Banda Sinfônica Jovem
ESPORTE E LAZER

Cultura erudita

São manifestações que geralmente se organizam em “escolas”. Destacam- se por construírem ao seu redor uma idéia de prestígio e de poder de de- cisão, difundindo valores e padrões estéticos que se perpetuam no tem- po. São historicamente apreciadas pelas elites.

Você já parou para pensar que mani- festações fazem parte desse grupo? Nas artes plásticas podemos exempli- ficar a cultura erudita através do ro- mantismo, do impressionismo, do sur- realismo, entre outros. Na dança, atra- vés do balé acadêmico, da dança mo- derna e da dança contemporânea.

No cinema, temos o exemplo do expressionismo alemão, do neo-realis- mo italiano, entre outros.

A primeira observação a ser feita é que não se gosta dessas manifesta- ções por se possuir um dom natural, inato. O que acontece é que nas escolas, em casa e em momentos de lazer, alguns poucos privilegiados têm a oportunidade de aprender as especificidades dessas linguagens, sendo estimulados a desenvolverem o gosto por elas. Enquanto isso, muitos outros são privados desse direito e se quer têm consciência dele.

Na verdade todos os indivíduos dispõem de potencial para apreciar esses tipos de manifestações, o que nem todos têm são as condições concretas necessárias para tal. Nesse sentido é fundamental a criação de projetos pedagógicos que apresentem e esclareçam as peculiaridades das lingua- gens e, ao mesmo tem- po, apontem alternati- vas e soluções para a ne- cessidade concreta de se promover e incentivar a criação de espaços (como centros culturais, museus, tea- tros e cinemas) mais próximos das localida- des onde vivem as populações de baixa ren- da, inclusive com preços mais acessíveis.

mais próximos das localida- des onde vivem as populações de baixa ren- da, inclusive com preços

AGENTE COMUNITÁRIO DE ESPORTE E LAZER

Cultura de massas

Produzida pela grande indústria cultural, a cultura de massas, como o pró- prio nome diz, é destinada ao consumo em larga escala. Atende ao gosto médio da população. Sendo assim, nesse processo nem sempre está preo- cupada com investimentos que elevem seu nível de qualidade. Seu maior problema está nos interesses comerciais de grupos específicos. Logicamen-

te não existem somente produtos de baixa qualidade, apesar de serem a

maioria. O investimento dessa indústria numa produção heterogênea deixa muito claro o objetivo maior de ampliação do mercado.

Não estamos negando o prazer que as pessoas obtém com as atividades

da cultura de massas; muito pelo contrário, esse prazer deve ser conside- rado ao planejarmos os nossos programas de lazer. Acreditamos tam- bém que os indivíduos não recebem as manifestações de forma totalmen-

te passiva. Há processos de resignificação, de reelaboração que devem ser considerados pelos profissionais de lazer.

Pelos desníveis de acesso decorrentes das desigualdades sociais, as ativi- dades da cultura de massas acabam sendo as mais, e muitas vezes únicas, acessíveis para o grande conjunto da população. É muito mais fácil o acesso a televisões e rádios do que teatros, museus e cinemas.

Cultura popular

e rádios do que teatros, museus e cinemas. Cultura popular A cultura popular é geralmente rela-

A cultura popular é geralmente rela-

cionada à uma produção local. Com menor poder de influência e decisão, torna-se muitas vezes mais frágil pe- rante a ação do mercado cultural. Apesar de se relacionar bastante ao conceito de tradição, é comumente modificada também em função dos encontros e diálogos culturais, bem como a partir dos interesses da indústria cultural, que a trans- forma em produto de consumo mais vendável.

Enquanto profissionais de lazer, devemos estar atentos para a inclu- são das manifestações populares em nossos programas e para a sua valori- zação, estimulando grupos produtores à manutenção de suas atividades.

Enfim, o que aqui procuramos ressaltar é a necessidade de pensarmos em utilizar diferentes linguagens e manifestações culturais em nossos programas de lazer, criando realmente a possibilidade de livre escolha dentre as diferentes for- mas de organização da cultura, por meio da educação pelo e para o lazer.

Se um número maior de pessoas experimentasse o prazer proporcionado por:

músicas clássicas, populares e eletrônicas; espetáculos de dança e teatro; poesias; ro-

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ESPORTE E LAZER

ESPORTE E LAZER Roda de capoeira - Salvador - Bahia das de capoeira; exposições de artesanatos

Roda de capoeira - Salvador - Bahia

das de capoeira; exposições de artesanatos e vídeo-ins- talações; filmes de arte e de grande circuito; e muitas outras atividades que pode- riam ser aqui citadas, você não concorda que podería- mos estar gerando focos de reivindicação por uma ci- dade que melhor distribu- ísse os diferentes bens e equipamentos culturais?

Obviamente que para inserir uma grande diversidade de atividades em nos- sos programas, precisamos pensar em um projeto estratégico progressivo. Te- mos que pensar num percurso que parta de experiências menos difíceis de serem acessadas, ou até mesmo já vividas anteriormente, que possam fazer mediações para a apresentação de novas possibilidades. Para dar seguimento a essa idéia, na verdade temos também que ampliar nossa própria formação, desenvolvendo novas competências, ampliando nossa possibilidade de trabalhar com diferentes estratégias.

A animação cultural, enfim, é uma tecnologia educacional, é uma pro- posta de intervenção pedagógica baseada na idéia de mediação, que busca con- tribuir para um entendimento mais profundo dos diferentes sentidos e signifi- cados culturais. Nesse processo objetiva-se provocar questionamentos acerca da ordem social estabelecida, contribuindo assim para a construção de uma sociedade mais justa.

Acreditamos que o animador cultural pode contribuir para que os indiví- duos se sintam estimulados a buscar e a acessar os mais variados bens culturais, inclusive aqueles relacionados com a nossa tradição e nossa cultura popular, esti- mulando também a preservação da nossa memória social.

mulando também a preservação da nossa memória social. ATIVIDADE 12 Agora tente listar entre as manifestações

ATIVIDADE 12

Agora tente listar entre as manifestações que você conhece, aquelas liga- das à cultura erudita, popular e de massas. Tente, também, classificar nessas categorias, os programas de televisão.

AGENTE COMUNITÁRIO DE ESPORTE E LAZER

Pensando a ação comunitária

A tarefa do profissional de lazer não é nada fácil, embora algumas vezes o

pareça. Além de ter que mediar atividades que respeitem o prazer e a escolha dos participantes, ainda deve educá-los num momento em que eles não se colocam explicitamente disponíveis para tal. A ação pedagógica do profissional deve se caracterizar pelo talento e esforço para que exista uma “negociação” coerente, que dê margens para o surgimento e discussão de idéias e propostas.

É muito importante a busca da participação ativa de todos na composição

do programa de lazer, e para tal é fundamental que o profissional estabeleça estratégias de mediação, intervindo no processo, fazendo com que a administra- ção do programa se dê em conjunto com a comunidade. Para entendermos melhor essa possibilidade de atuação, vamos exemplifi- car a partir de uma proposta concreta elaborada e aplicada por um grupo de professores e estagiários da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em parceria com o Serviço Social do Comércio (Sesc) e 32 prefeituras de municípios do Estado do Rio de Janeiro, nos anos de 2003 e 2004.

PROPOSTA METODOLÓGICA PARA ELABORAÇÃO DE PROGRAMAS DE LAZER A PARTIR DA IDÉIA DA AÇÃO COMUNITÁRIA DE LAZER

Inicialmente, a partir da elaboração de um manual para otimização de utiliza- ção de equipamentos de lazer, foi realizado um encontro para capacitação de re- presentantes (um representante da comunidade local e um da prefeitura) de 32 municípios do Estado do Rio de Janeiro, na unidade do Sesc de Nogueira.

A idéia inicial era melhor aproveitar a utilização de quadras esportivas que

haviam sido construídas nesses municípios, estimulando as comunidades a ocupa- rem com qualidade esse equipamento, bem como se empenhando para que não fossem destruídos em função da falta de utilização e do abandono. Os passos e fases sugeridos na proposta metodológica a seguir, baseados nas experiências do prof. Nélson Carvalho Marcellino (veja maiores informações na bibliografia), podem e devem sofrer adaptações conforme a realidade da comuni- dade envolvida. Apontaremos a seguir as referências que foram utilizadas e tam- bém adaptadas para cada comunidade de cada município. É fundamental enten- dermos que não encontraremos nunca receitas prontas: é necessário um olhar sen- sível para cada situação.

1ª Fase

1 o passo

Nesse primeiro passo o profissional de lazer busca conhecer a comunida-

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ESPORTE E LAZER

de em que vai se inserir. É fundamental:

* Compreender as características dos locais

Trata-se de tomar conhecimento tanto dos aspectos complicadores quan- to das potencialidades do local: grupos artísticos já formados, times esportivos, descobrir outros espaços de lazer, outras iniciativas já de- senvolvidas em outros locais.

* Identificar as lideranças comunitárias

Trata-se de descobrir e contactar quem são as lideranças, tanto no nível formal, como membros de associações de moradores, quanto informal, isto é, aqueles indivíduos que de alguma maneira são reconhecidos e respeitados no local.

* Convocar as lideranças para uma reunião ampliada

local. * Convocar as lideranças para uma reunião ampliada A reunião tem o objetivo de comunicar

A reunião tem o objetivo de comunicar os intuitos de implantação de

um programa de lazer em conjunto com a comunidade, buscando apoio das lideranças e identificando possíveis colaboradores para a operacio- nalização e organização da estrutura do programa (um marceneiro para elaboração de barraquinhas ou palcos, um eletricista para instalar equi- pamentos de som ou luz, um animador de festas para conduzir o even- to, uma pessoa que organize a parte de alimentação e exposições, e todos que também queiram ajudar).

2 o passo

A equipe realiza uma capacitação de animadores culturais para os indi-

víduos da própria comunidade. As discussões com as lideranças desta- cam a importância do lazer e suas possibilidades de atuação. Nesse mo- mento, além de estarmos nos aproximando das comunidades, conhe- cendo algumas peculiaridades de cada uma, delineamos em conjunto objetivos e estratégias para a realização do programa de lazer.

3 o passo

O terceiro passo tem como meta organizar e realizar uma atividade de

impacto. Essa atividade tem o objetivo de marcar o início das ativida- des de lazer, chamando a atenção para os espaços das comunidades que podem ser ocupados (quadras, ginásios, praças, parques), envol- vendo o maior número possível de pessoas. A atividade de impacto deve ser um grande evento que chame a atenção da comunidade para

o espaço utilizado e as atividades programadas, ou seja, voltar a aten- ção das pessoas para o potencial de sua comunidade com relação à

produção cultural, possíveis atividades de lazer, formas de encontrar

as pessoas do próprio bairro, espaços que podem ser ocupados. Para

esse evento, devemos tentar ampliar a equipe, a partir da identificação e do envolvimento dos parceiros antes citados.

AGENTE COMUNITÁRIO DE ESPORTE E LAZER

O evento pode ser, por exemplo, a organização de um grande “Dia de Lazer”, com
O evento pode ser, por exemplo, a organização de um
grande “Dia de Lazer”, com atividades como campeo-
natos, apresentações de grupos de dança, bailes, apre-
sentação de bandas locais, aulas para todos os públicos,
exposições de artistas locais, lanches.

Em todas as etapas do projeto não podemos deixar de envolver a co- munidade. O profissional de lazer deve se empenhar para que a comu- nidade esteja ativa e participante.

É

importante chamar a atenção para que esse evento seja apenas o estímu-

lo

para um envolvimento maior da população em relação ao seu bairro.

4 o passo

O último passo da primeira fase é a avaliação do evento. O profissional

de lazer, junto às lideranças e aos novos integrantes da equipe (no dia do primeiro evento sempre identificamos novos integrantes para a

equipe), avaliam o processo e os resultados do evento dando continui- dade à coleta de informações para a continuidade do programa de lazer.

Essa primeira fase do programa é caracterizada pela tentativa de sensi- bilização da comunidade, pela integração dos esforços do profissional de lazer junto à comunidade.

2ª Fase

 

É

um período em que identificamos além dos resultados que eram

esperados e foram decorrentes do evento, também os que não eram esperados. Identificamos os novos movimentos na quadra esportiva em função do evento; se estão sendo realizados jogos, aulas de dança, etc. Enfim, novas discussões são estabelecidas com o objetivo de en- volver mais pessoas que possam ocupar o espaço, desenvolvendo as potencialidades da comunidade.

Nessa fase buscamos dar maior autonomia de organização à equipe co- munitária, isto é, nosso intuito é que cada vez mais a comunidade se envolva com a proposta. Descobrindo e revelando possíveis animado- res culturais da própria comunidade, incentivamos a programação de novos eventos e atividades que se realizem mais freqüentemente.

É

importante identificar um grupo que se responsabilize por trazer pro-

postas e as necessidades da comunidade, se envolvendo diretamente em

suas organizações.

3ª Fase

Atuando em conjunto, comunidade e profissional de lazer dão prosse-

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guimento ao programa, planejando, implementando, avaliando e reori- entando as atividades oferecidas. O objetivo central é sempre o de buscar a autonomia da comunidade. A ação dos profissionais deve ser fundamentalmente de acompanhamento, mediação, consultoria e or- ganização conjunta. Essa é a natureza de sua intervenção.

ESPORTE ESPORTE E E LAZER LAZER
ESPORTE ESPORTE E E LAZER LAZER

Centro de Comunidade da Vila Floresta - Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Foto: Ivo Gonçalves / PMPA

Na nossa experiência, dentre os muitos desdobramentos que alcançamos no final de nossa atuação junto às comunidades podemos citar os mais signifi- cativos: observamos um número maior de comunidades mobilizadas ao redor da quadra esportiva; houve uma ampliação no número de pessoas envolvidas na condução e organização de atividades de lazer, que também se ampliaram e se diversificaram; em alguns municípios, espaços foram recuperados, pois a prefeitura começou a olhar os espaços da comunidade com mais cuidado. En- fim, esses são apenas alguns desdobramentos relacionados à comunidade, pois poderíamos escrever muitas páginas sobre os desdobramentos em relação à própria equipe da UFRJ e do Sesc.

Enfim, para alcançarmos mudanças na comunidade em que atuamos, por meio do desenvolvimento de um projeto no campo do esporte e lazer, é neces- sário num primeiro momento estabelecermos metas, para que as propostas sejam lançadas de acordo com os objetivos que queremos alcançar.

Ao elaborarmos nossa programação em parceria com a comunidade, de- vemos estar atentos para a necessidade de diversificar as atividades, de forma que os mais diversos interesses e gostos sejam contemplados e assim então todos

AGENTE COMUNITÁRIO DE ESPORTE E LAZER

Assim devemos considerar:

* Faixa etária - crianças, adolescentes, adultos e idosos

* Gênero - homens e mulheres

* Portadores de deficiências

* Grau de preparação e de aptidão para a realização do que for oferecido

Devemos tentar possibilitar também, através de uma mesma atividade, a in- tegração de públicos diferentes, promovendo assim a aproximação e a troca de experiências e vivências que são próprias desses grupos. Para isso, o profissional de lazer deve estar atento para não permitir qualquer manifestação de preconcei- to ou discriminação em relação às questões de faixa etária, raça, gênero, orienta- ção sexual, deficiência física, enfim, todos devem ter o direito de participar seja da preparação, da execução ou da avaliação do programa de lazer.

Quando desejamos realizar determinada atividade e não dispomos do ma- terial ou do espaço necessário para aquele grupo específico, devemos procurar adaptar a situação, aproveitando outro tipo de material ou espaço. Por exemplo, alguns locais têm escadas que dificultam a locomoção de pessoas mais velhas ou portadores de deficiência. Nesse caso, poderíamos pensar na colocação de rampas, que podem facilitar a mobilidade. Quando programamos jogos, pode- mos adaptar a altura de tabelas e bolas, se o público for de crianças. Enfim, a equipe deve estar atenta e sensível para tentar solucionar possíveis problemas na execução do programa.

solucionar possíveis problemas na execução do programa. ATIVIDADE 13 Em grupos, vamos preparar uma simulação de

ATIVIDADE 13

Em grupos, vamos preparar uma simulação de projeto de ação comunitá- ria de lazer. Tentemos seguir todos os passos descritos. Tal projeto será discutido por todos, para que seja possível que todos deêm suas sugestões.

para que seja possível que todos deêm suas sugestões. Outra questão fundamental é a segurança do
Outra questão fundamental é a segurança do público na realização das atividades. Observar se os
Outra questão fundamental é a segurança do público
na realização das atividades. Observar se os pisos são
escorregadios, se existem buracos e desníveis nos locais
onde serão realizadas as atividades práticas e, sempre que
possível, contar com algum tipo de equipe médica no
local. No mínimo, temos que dispor de um bom material
de primeiros socorros e ter próximo alguém capaz de
ministrar os primeiros cuidados em caso de algum acidente.

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ESPORTE E LAZER

Caracterização da ocupação

Bem, você que agora se inicia na profissão de agente comunitário pode estar se perguntando: mas que habilidades devo desenvolver para ser um bom profissional? Quais as características de um bom agente comunitário de esporte e lazer?

Obviamente não é possível traçar um “receituário” do que seja um profissi- onal adequado. Cada agente comunitário terá determinadas características, algu- mas inclusive de personalidade, que podem ou não favorecer o seu exercício pro- fissional. Além disso, há determinados traços que são comuns a qualquer profissão. Por exemplo: responsabilidade, bom senso, ética, respeito às diferenças são coisas que se esperam de qualquer um, em qualquer ocupação.

O que vamos apresentar aqui são algumas características básicas e específicas para quem atua como agente comunitário, algo que deve ser sempre buscado por esses profissionais, detalhes e informações que não devemos perder de vista se desejamos ser ainda melhores profissionais.

Comecemos pela própria formação que você está recebendo nesse momen- to. Você a julga suficiente? Pois saiba que não é. Estas informações são apenas o início. Se em todo campo profissional é necessário que o profissional busque man- ter atualização constante, para os profissionais de esporte e lazer essa necessidade é ainda maior. E veja bem, quando falamos isso não estamos somente nos referin- do à formação técnica, ou seja, teorias, novas referências, outras propostas, experi- ências recentes.

referências, outras propostas, experi- ências recentes. Como nós profissionais de lazer trabalhamos diretamente com

Como nós profissionais de lazer trabalhamos diretamente com as manifestações culturais, é necessário que também estejamos atentos ao que de novo surge nesse campo. Assim, o profissional de lazer precisa também cuidar de sua formação cultural, ir ao cinema, ir ao teatro, ler bastante, ouvir música etc.

Isso cria um ambiente de coerência (afinal, se acreditamos que a cultura tem um poder de promover mudanças a partir de uma perspectiva crítica e educacio- nal, nós também temos que nos submeter a esse processo) e nos apresenta diferen- tes estratégias para que possamos utilizar com nosso público-alvo. Quer uma dica? Leia muito, participe do máximo que puder, não se deixe acomodar.

Procure sempre entender as suas ferramentas de atuação, as manifestações culturais, enquanto fenômenos sociais, que tem uma história, que estão relacio- nadas às tensões sociais e as contradições de nossa vida em sociedade. Amplie seu conhecimento sobre elas, estude, seja curioso, prove na sua própria pele a

AGENTE COMUNITÁRIO DE ESPORTE E LAZER

Esta dica também tem relação com uma segunda necessidade: o profissio- nal de esporte e lazer deve exercitar constantemente a sua criatividade. Isso ajuda a tornar seus programas mais atrativos e a solucionar os problemas que por ven- tura podem surgir (e, acredite, surgirão) no contato que estabelecemos com a comunidade. Exercite a capacidade de inovar, criar e recriar em suas propostas. Pratique a capacidade de, ao dialogar com seu público, descobrir alternativas para a composição de seu programa de intervenção.

Bem, já que você terá contato constante com comunidades, com pessoas, há duas outras habilidades que você deve buscar desenvolver: liderança e co- municação.

Liderar é conduzir equipes, coletivos, grupos, estimulando sua participa- ção crítica e o desenvolvimento de seu potencial criativo. Liderar não é deter- minar que as pessoas façam exatamente o que você quer, mas através do diálo- go constante saber o momento de respeitar os desejos de seu grupo, o momen- to de negociar algo diferente, bem como o momento em que você deve intervir de forma mais direta, de forma a garantir um avanço na sua proposta e/ou mesmo preservar os envolvidos de uma situação perigosa.

O que desejamos é que nosso grupo desenvolva suas potencialidades, logo não podemos ser autoritários e não deixar aberto os canais para uma am- pla participação. Avaliar constantemente é uma boa dica. Se auto-avalie a todo momento, descon- fie, pense e convoque seu público a contigo per- ceber o que está bom, o que não está, o que preci- sa ser mantido, o que precisa ser alterado.

Tendo em vista essa necessidade, a questão da comunicação passa a ser muito importante. Você vai trabalhar com gente e isso requer paciência e dispo- sição para contatos freqüentes. Você deverá exercitar a habilidade de negociar e comunicar cuidadosamente as coisas que deseja.

de negociar e comunicar cuidadosamente as coisas que deseja. Além disso você provavelmente vai trabalhar e

Além disso você provavelmente vai trabalhar e lidar com profis- sionais de diferentes áreas, o que significa que os pontos de vista sempre serão muito diversos. Saber como tratar tais diferenças no sentido de construir uma proposta de qualidade é um enorme desafio do qual devemos ter clareza.

Certamente carisma, bom humor e bom-trato para com o outro não são suficientes, pois de nada essas coisas valem se você não tiver claros os seus obje- tivos. Mas também não são características que devemos esquecer, afinal ninguém espera ser recebido por um profissional de lazer mal humorado, chato, com pou- ca paciência, não é mesmo?

Percebeu que o tempo inteiro falamos de “grupos”. Pois bem, aí está outra característica importante: o profissional de esporte e lazer deve aprender a traba- lhar com um número ampliado de pessoas, deve entender os desafios de atuar sempre em conjunto com outras pessoas. Deve portanto exercitar a capacidade

73

ESPORTE E LAZER

de saber se posicionar, mas também de ouvir o que o outro tem a dizer; de se posicionar criticamente com respeito e também escutar atenciosamente o que o outro tem a falar. Ouvir e falar são duas partes que compõem um diálogo; por- tanto, nenhuma das duas deve ser esquecida.

A próxima dica vale para qualquer um: seja organizado. Estabeleça objeti- vos de curto, médio e longo prazo. Saiba onde quer chegar, mesmo que reconhe- ça que pode demorar um bom tempo para alcançar o que desejas. Não deixe de planejar nunca, ainda que saiba que muitas vezes seu planejamento não sairá exa- tamente da maneira esperada, o que é normal na nossa prática cotidiana. Não vamos confundir “flexibilidade” (todos nós devemos ter isso em mente) com desorganização e/ou abandono de seus objetivos maiores. Lá vai outra dica então! Planeje, prepare-se o melhor possível para cada atividade e nunca deixe de avaliar, pois só esse momento lhe permitirá entender o que deu certo, o que não deu, o que precisa ser ajustado. Por fim, não esqueça nunca que você é um educador e pode ocupar uma importante função na comunidade em que está trabalhando. Lembre-se que as atividades de lazer não são um mero passatempo ou uma coisa menos impor- tante na vida das pessoas, mas para você é uma fértil possibilidade de promover mudanças na vida de cada indivíduo, no cotidiano da comunidade em que estás inserido. Portanto, você precisará sempre exercitar seu senso crítico para com tudo que o cerca: a situação social, o público-alvo, a equipe que está atuando junto contigo e consigo mesmo. Repito para que fique claro: não somos profissionais de lazer para simplesmente passar o tempo das pessoas. Devemos estar atentos a tudo que nos cerca durante todos os momentos.

AGENTE COMUNITÁRIO DE ESPORTE E LAZER

Onde trabalha o agente comunitário de esporte e lazer

O campo de trabalho para o agente comunitário de esporte e lazer é cada vez maior. Isso se deve ao fato de que, em função do lamentável avanço do número de comunidades de baixa renda em situação de risco social, crescem também o núme- ro de “projetos sociais” que, supostamente, pretendem contribuir para a melhoria da qualidade de vida da população.

Nesses projetos, muitas vezes o esporte e as manifestações culturais em geral são utilizados como um dos principais atrativos, ferramentas principais para promoção da intervenção. Mesmo que em muitos desses projetos se ofereça alguma forma de for- mação profissional, as atividades de lazer ocupam espaço de importância. Assim sen- do, aí encontra espaço de trabalho o profissional de esporte e lazer.

Apesar de ser um excelente campo de trabalho, o agente comunitário de esporte e lazer deve ter atenção às suas oportunidades profissionais. A verdade é que são muito diferentes as instituições, normalmente Organizações Não-Gover- namentais (Ongs), que oferecem e organizam estes “projetos sociais”. Algumas são bastante sérias e realmente demonstram preocupação denotada com a co- munidade em que estão inseridas. Outras já não apresentam tanto cuidado e aca- bam investindo mais nas atividades de manutenção de seu funcionamento do que na comunidade em si.

Além disso, devemos lembrar que nunca somente boas intenções são sufici- entes para o desenvolvimento de boas propostas. Os projetos a serem desenvolvi- dos devem contemplar boa articulação entre teoria e prática, visão estratégica, honestidade e um intuito político claro de não somente atenuar os problemas pe- los quais passa momentânea e pontualmente a comunidade, mas sim dar contribui- ções para a construção de uma nova sociedade, ainda que se trate isso de um obje- tivo de longo prazo.

Assim sendo, o agente comunitário de esporte e lazer não pode perder de vista seus objetivos. Mais do que ser mero profissional que segue as normas estabe- lecidas pela coordenação dos projetos, deve estar pronto a dar sua contribuição na elaboração, reorientação e avaliação constante, a partir dos conhecimentos aqui apresentados.

Obviamente que esse processo de interferências nos rumos dos projetos deve ser encaminhado com cuidado. Caso nos sintamos incomodados com os rumos do projeto em que estamos envolvidos, devemos com habilidade comunicar nos- sos desconfortos e ir aos poucos apresentando nossas sugestões para que ajuste- mos as propostas implementadas. Lembre-se: habilidade política e de negociação é sempre algo esperado do agente comunitário de esporte e lazer.

Certamente, nos dias de hoje, são as ONGs as maiores empregadoras de

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ESPORTE E LAZER

agentes comunitários de esporte e lazer, mas também cada vez mais organiza- ções governamentais aumentam a contratação desses profissionais (falamos de secretários de esporte e lazer dos municípios, estados e do âmbito federal). Isso tem um motivo claro: finalmente percebe-se que a eficácia de um trabalho comu- nitário tem um de seus grandes trunfos na forma como se estabelece contato com a população.

Aos poucos vemos ser abandonada uma perspectiva tradicional de ação comunitária, quando quem vinha de fora oferecia o que pensava ser melhor para a comunidade, sem que essa fosse consultada. Percebe-se que o sucesso desses projetos está também em conseguir envolver a comunidade em todas as fases, sabendo de seus desejos, suas expectativas, ao mesmo tempo em que se busca problematizar tais pontos de vista. Assim sendo, cresce a consideração do agente comunitário como profissional de importância para o sucesso das propostas.

Então, o agente comunitário de esporte e lazer pode encontrar postos de trabalho nesses projetos governamentais. E aí o profissional deve também estar atento aos objetivos dos projetos. Assim como ocorre com as organizações não- governamentais, há órgãos públicos mais sérios e outros nem tanto. Algumas pro- postas estão efetivamente interessadas em beneficiar as comunidades; já outras são puramente eleitoreiras, implementadas próximas de eleições ou simplesmente des- tinadas a captar a popularidade das atividades de esporte e lazer.

Há ainda uma terceira possibilidade. Vocês que estão fazendo este curso podem for- mar equipes de trabalho e usar os co- nhecimentos obtidos para oferecer seus serviços. Aproveitem essa formação básica, juntem-se de forma a potenci- alizar a característica de cada um, or- ganizem uma proposta e apresentem um projeto de intervenção, seja para or- ganizações governamentais, seja para órgãos públicos ou mesmo se transformem em grupo autô- nomo, que junto a outras instâncias da comunidade (como, por exemplo, a associação de moradores) possam implemen- tar seu trabalho.

de moradores) possam implemen- tar seu trabalho. Mesmo que as comunidades de baixa renda sejam as

Mesmo que as comunidades de baixa renda sejam as opções prioritárias de trabalho deste profissional, ele não deve perder de vista outras possibilidades de atuação. Com os conhecimentos que possui pode trabalhar também em condo- mínios, em clubes, em colônias de férias, em manhãs de lazer, em qualquer outro lugar onde possa, de forma mais contínua, implementar sua atuação. Para tal, pode também considerar as possibilidades que falamos anteriormente: ou ser contratado ou organizar equipes para oferecer serviços.
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AGENTE COMUNITÁRIO DE ESPORTE E LAZER

Obviamente que, nesses casos, nem sempre é possível seguir fielmente o que discutimos nessa ocupação. Na verdade, na prática quase nunca isso é possí- vel. O importante é você ter em vista essas informações como um modelo ideal, algo que vai buscar se aproximar ao máximo, já sabendo que cada local de traba- lho, cada espaço específico, vai exigir de você adaptações, muitas vezes certas concessões e certamente bastante paciência.

O importante é que você não perca de vista seus objetivos educacionais e políticos: esses sim devem nortear suas ações no decorrer do tempo, para o qual você vai traçar suas metas de curto, médio e longo prazo.

você vai traçar suas metas de curto, médio e longo prazo. Programa Ribeira Azul - Estimula

Programa Ribeira Azul - Estimula a atuação comunitária, preparando líderes e a comunidade como um todo para participar do planejamento comunitário - Salvador - Bahia

participar do planejamento comunitário - Salvador - Bahia ATIVIDADE 14 Caminhe por sua localidade (bairro, região

ATIVIDADE 14

Caminhe por sua localidade (bairro, região administrativa e se possível cidade) e busque identificar onde você pode atuar como agente comuni- tário de esporte e lazer. Registre aqui suas impressões.

busque identificar onde você pode atuar como agente comuni- tário de esporte e lazer. Registre aqui

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ESPORTE E LAZER

ESPORTE E LAZER 78

O que chamamos de esporte

UM POUCO DE HISTÓRIA

Na defini- ção do surgimento do esporte, pode-se situar duas grandes tendências. Na primeira delas,
Na defini-
ção do surgimento do
esporte, pode-se situar duas grandes
tendências. Na primeira delas, acredita-se
que o esporte já existia na Antigüidade,
sendo identificado em jogos que eram
praticados por muitos povos. Assim, alguns estudiosos
dizem, por exemplo, que o futebol já era praticado por
egípcios, chineses e italianos na Idade Média.
Já na outra tendência, procura-se entendê-lo como um
fenômeno mais recente, que mesmo apresentando semelhan-
ças técnicas com antigas práticas corporais, possui sentidos
MONITOR DE ESPORTES DE LAZER

e significados completamente diferenciados daqueles jogos

“pré-esportivos”. Nesse sentido, o esporte é uma manifestação que surgiu no

final do século XVIII, notadamente nas escolas inglesas, com o objetivo de manter

a disciplina entre os jovens, de preparar novos líderes e posteriormente como uma eficaz maneira de obter lucros com a organização de eventos esportivos.

de obter lucros com a organização de eventos esportivos. ATIVIDADE 15 Vamos usar o teatro para

ATIVIDADE 15

Vamos usar o teatro para melhor entender a história do esporte? Seu professor fará uma dinâmica bem divertida com a turma!

ESPORTE E LAZER

A despeito dessas diferenças de concepção, não há como negar que desde aquele momento essa prática social apresenta características marcantes e obser- váveis até os dias de hoje:

a) uma organização em forma de clubes, federações, confederações e ou- tras entidades; antes os jogos não seguiam essa forma de organização mais estruturada;

b) possui um calendário próprio, já não mais sendo praticada estritamente de acordo com outros tempos sociais; isto é, antigamente os jogos eram praticados relacionados a datas festivas, a cerimônias religiosas; a deter- minadas épocas do ano; hoje, os calendários esportivos independem disto e, ao contrário, em determinadas competições, como é o caso de Copas do Mundo de Futebol, chegam a influenciar nos outros calendá- rios (já perceberam que quando há jogos do Brasil, o expediente de tra- balho acaba mais cedo?);

c) possui um corpo técnico especializado, cada vez maior, trabalhando em seu interior; não havia antes a figura do treinador, nem tampouco do atleta profissional; hoje além desses dois há um sem número de profissi- onais trabalhando no campo esportivo: psicólogos, preparadores físi- cos, nutricionistas, jornalistas especializados e até mesmo profissionais que ensinam as práticas esportivas, como você, futuro monitor de es- porte e lazer;

d) gera um enorme mercado ao seu redor, que extrapola até mesmo o que a princípio poderia ser considerado específico da prática esportiva; já percebeu quantos produtos são vendidos ao redor do esporte? Tênis, camisas, bonés, bolas, entre muitas outras coisas.

Tênis, camisas, bonés, bolas, entre muitas outras coisas. E SPORTE , JOGO E ATIVIDADES FÍSICAS É

ESPORTE, JOGO E ATIVIDADES FÍSICAS

É importante obser- var que no seu momento inicial ainda não estava de- finitivamente estabelecida uma relação entre o espor- te e a atividade física. Não por acaso, em muitos paí-

ses, inclusive no Brasil, o turfe (corrida de cavalos) esteve entre os primeiros esportes a se organizarem.

Atividade física regular

O fortalecer da relação entre o esporte e o exercício físico se dá com o aumento das preocupações com o saneamento das cidades e com a saúde da população, que se desenvolveram em muitos países devido a desdobramentos do avanço da industrialização e da rápida urbanização. Como as cidades cresce-

82 ram muito rapidamente, os problemas de saúde tornaram-se cada vez mais co-

MONITOR DE ESPORTES DE LAZER

muns e isso interferia na produção e prejudicava os negócios.

Assim, era necessário estabelecer novos parâmetros de convivência que per- mitissem as nações rumarem em “direção ao progresso”. Nesse sentido, cada vez mais se fazem necessárias estratégias de controle corporal e de preparação de um corpo saudável para a condução da nova perspectiva sócioeconômica.

O esporte passa então a também ser concebido como estratégia de forma-

ção corporal; uma boa ferramenta para a preparação de corpos musculosos (que passaram a ser considerados como padrões de “saúde”), bem como para a difu- são desse modelo, ao redor do qual seria gerado um verdadeiro estilo de vida. Supostamente os que tivessem mais músculos estariam mais preparados para tra- balhar, renderiam mais frutos para os donos das fábricas, inclusive porque se esperava que ficassem menos adoentados.

No Brasil, o esporte exemplar dessa mudança é o remo. No remo, já não é mais um animal que corre, mas sim um homem que conduz o barco com seus próprios braços. No turfe, o jóquei era fraco e pequeno (isso garantiria que o cavalo corresse mais rápido), enquanto no remo eram homens fortes e “saudá- veis”, constantemente retratados em posições que valorizassem seu físico.

A partir do remo, os esportes em geral foram aos poucos perdendo a ca-

racterística de jogos de azar (uma influência do turfe) e ganhando cada vez mais um caráter de escola de virtudes e caráter. Sim, é verdade, no início, ao redor das práticas esportivas havia as apostas e essas eram a parte do espetáculo mais apre- ciada. Não havia prática esportiva em que elas não existiam.

Mas o contexto de moralização dos esportes e da sociedade como um todo acabou por restringir esse costume. Além disso, algumas atividades populares passa- ram a ser proibidas em muitos países: não se podia mais, por exemplo, realizar brigas de galo (ainda que ilegalmente, lamentavelmente essa prática cruel ainda persista). É tão grande a mudança que muitos sequer consideram o turfe como um esporte, em- bora ele ainda hoje freqüente as páginas esportivas de jornais.

É importante perceber que desde o início da organização do “campo es-

portivo” (pois estamos falando não de uma prática que se encerra em si, mas que, além de ter certa autonomia, tem influências para além de suas especificidades),

estavam concebidas e implementadas estratégias de negócios.

As elites, responsáveis pela condução das competições, obtinham lucros com as vendas de ingressos, com as apostas e loterias, com a venda de cavalos. Ao redor disso, ganhava-se dinheiro das mais diversas formas. Por exemplo, com a venda de material para a prática do turfe.

A imprensa também lucrava, ao vender espaços para a propaganda dos

clubes e ao aumentar sua vendagem em dias próximos às competições. Com a vinculação do esporte à “saúde” (uma relação equivocadamente direta que per- manece até os dias de hoje), muitos outros produtos passam a ser vendidos:

tônicos, fortificantes, extratos.

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ESPORTE E LAZER

ESPORTE, SAÚDE, ESTILO DE VIDA, NEGÓCIOS

Depende de como o utilizamos em nossos programas. O grande problema do esporte é que tendemos a copiar a mesma estrutura do chamado “alto nível” (jogos olímpicos, competições internacionais, Copas do Mundo etc.) em outros espaços. Veja, quando estamos trabalhando em comunidades, com crianças e jovens, não é necessário que supervalorizemos os resultados.

A questão é ver o esporte como uma possibilidade para educar. Como ele

pode ser por nós utilizado para estimular as pessoas a melhor viver, a buscar uma melhor qualidade de vida, a compreender as contradições de uma sociedade tão injusta quanto a nossa. Esse é o grande desafio do monitor de esporte e lazer: não reproduzir os métodos utilizados para grandes atletas, nem se limitar a somente ensinar um conjunto de técnicas e táticas, mas sim usar essas estratégias com fins políticos claros, de superação desse modelo de sociedade. Daí que acreditamos na necessidade de uma boa formação para esse profissional.

Outra coisa que devemos entender é que cada vez mais o esporte é identifi- cado como uma “forma de viver”, a qual os “modernos” adotam. No vestuário, por exemplo, vemos surgir e se popularizar o paletó, o tênis, o short, todos pro- dutos decorrentes da prática esportiva. O esporte lança moda e influência a vida das pessoas por todo o mundo. O mercado ao redor do campo não só faz uso das imagens esportivas para vender seus produtos, como também, nesse proces- so, ajuda a reforçar valores que nem sempre são os mais interessantes para o grande conjunto da população.

Por certo, por tais características, o esporte também foi e continua sendo utilizado diversas vezes por regimes políticos e administrações governamentais como forma de investimento para encaminhar suas propostas de intervenção social e fundamentalmente como forma de propaganda de uma suposta eficácia administrativa.

É importante perceber que, devido ao seu valor econômico e a sua adequa-

ção aos novos valores culturais vigentes (dimensões que devem ser compreendidas de forma articulada), o esporte passa paulatinamente a ser uma das práticas cultu- rais mais difundidas no século XX. Sem sombra de dúvida, pode-se afirmar que é a manifestação que maior número de pessoas consegue mobilizar ao seu redor, ten- do grande interferência nos comportamentos, hábitos e costumes.

Não por acaso, ao final do século XX, o esporte é apontado pelos econo- mistas como um dos maiores produtos de negócios e assisti-se a rápida profissi- onalização de sua administração. Percebe-se o auge de um longo processo. Para se ter uma idéia de seu potencial, Rudolph Murdoch (e sua News Corp., empresa do ramo do entretenimento) pagou US$ 4,4 bilhões para exibir os jogos da liga de futebol americano, e US$ 750 milhões para exibir os jogos da liga de beisebol. Além disso, tentou comprar o Machester United, tradicional clube de futebol inglês, por US$ 1,03 bilhão, só não concretizando o negócio por intervenção
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MONITOR DE ESPORTES DE LAZER

contrária do governo da Grã-Bretanha.

No Brasil, as indústrias de materiais esportivos movimentam, somente com as vendas, mais de R$ 8 bilhões. Somente no país, US$ 237 milhões foram gastos com o marketing esportivo, uma quantia aliás considerada muito pequena pelos especialistas, principalmente se comparada a outros países como os Estados Unidos, a Alemanha e o Japão.

Enfim, o esporte não se trata, como nunca se tratou, de uma ingênua diver- são, mas sim de uma prática social poderosa, influente, que envolve emocionalmen- te um grande número de pessoas, e que hoje se apresenta definitivamente como uma eficaz forma de negócios, capaz de mexer com sonhos e difundir idéias, com- portamentos, atitudes.

Em linhas gerais, chamamos de marketing, o processo de planejamento e execução de um conceito sobre um produto, de forma a privilegiar sua divulgação ou seu uso em estratégias de difusões, tendo ou não fins comerciais.

Assim, você futuro monitor de esporte e lazer, deve estar atento as diversas contradições que existem ao redor dessa fascinante prática cultural. Especialização precoce (o equívoco de acelerar a formação de atletas e, bus- ca de resultados entre indivíduos de faixas etárias mais no- vas), competitividade exacerbada (lembremos que os re- sultados não devem ser os principais motivos da prática esportiva), usos políticos, violência, arma- ções em resultados, desonestidade, tudo isso existe no campo esportivo, juntamente com outras coisas boas: com- panheirismo, amizade, sentido de grupo e coletividade, solidariedade.

Nada é garantido a princípio. O que vai determinar se o esporte pode ou não ser uma boa ferramenta educacional é a qualidade de trabalho do monitor de esporte e lazer (na verdade, de qualquer profissional da área). É a sua forma de trabalho que vai determinar o quanto o esporte pode ser útil para a vida de seu público-alvo, para além de ser um simples entretenimento, um simples passatempo.

de ser um simples entretenimento, um simples passatempo. ATIVIDADE 16 Utilizando jornais e revistas, vamos fazer
de ser um simples entretenimento, um simples passatempo. ATIVIDADE 16 Utilizando jornais e revistas, vamos fazer

ATIVIDADE 16

Utilizando jornais e revistas, vamos fazer cartazes, para discutir os princi- pais assuntos tratados, relativos ao esporte e a prática de atividades físicas.

Alguns princípios básicos para quem trabalha com esporte

INTRODUÇÃO

Agora que já sabe- alguns aspectos importan- po e o que acontece com ele exercício
Agora que já sabe-
alguns aspectos importan-
po
e o que acontece com ele
exercício ou
alguma ativi-
deremos, de
maneira bas-
cípios do treinamento es-
mos o que é esporte, veremos
tes a respeito do nosso cor-
quando praticamos algum
dade física em geral. Apren-
tante resumida, alguns prin-
portivo, algumas proprieda-
des básicas de como funci-
cuidados a serem tomados
cios físicos de maneira sau-
jogando futebol, nadando,
minhando, inúmeras altera-
so corpo é submetido ao
ona o nosso corpo e alguns
para a realização de exercí-
dável e segura. Afinal, seja
correndo ou até mesmo ca-
ções ocorrem quando o nos-
esforço.
ESPORTE E LAZER

Devemos ressaltar que as informações aqui apresentadas não são suficien- tes para você treinar fisicamente uma equipe ou preparar um programa de condi-

cionamento físico, até porque este não é o intuito do monitor de esporte e lazer.

O que objetivamos é que você compreenda melhor alguns princípios para poder

gerenciar com segurança as atividades físicas, entre as quais as esportivas, que

você utilizará cotidianamente em seu exercício profissional.

BENEFÍCIOS DA ATIVIDADE FÍSICA

Na realidade, muitos sistemas e órgãos corporais, senão quase todos, são colo- cados em situações diferentes das condições normais de repouso. Pulmões, rins, cé- rebro, glândulas, músculos e muitos outros órgãos passam a funcionar de maneira bastante diferente para que o nosso corpo produza, entre outras coisas, mais energia e, conseqüentemente, realize o esforço necessário para a atividade física que estamos praticando. Nosso coração, por exemplo, pode bater duas ou até três vezes mais rápido ao praticarmos um exercício de intensidade moderada a alta, enquanto que a quantidade de ar que entra e sai dos nossos pulmões pode aumentar mais de 15 vezes. Aliás, até mesmo antes de iniciarmos o exercício, nosso coração começa a bater mais

86 rápido já se preparando para o que será exigido dele.

São essas mudanças e adaptações no nosso corpo que fazem com que a atividade física tenha inúmeros benefícios à saúde e à qualidade de vida. Quan- do adequadamente utilizados, os exercícios podem trazer benefícios ao sistema respiratório, circulatório, imunológico, digestivo, metabólico entre outros.

Veja no quadro abaixo alguns exemplos de benefícios à saúde que a ativida- de física pode proporcionar:

MONITOR DE ESPORTES DE LAZER
MONITOR DE ESPORTES DE LAZER

Entretanto, é necessário que tenhamos uma série de cuidados para que a prática regular de exercícios possa ser segura e proporcione todos os benefícios para saúde que a atividade física pode trazer. Mas, ao contrário do que pode- mos imaginar, tais cuidados não se restringem somente ao momento da prática em si, mas também ao momento anterior e até mesmo posterior ao exercício.

FASES DE UMA SESSÃO DE ATIVIDADES FÍSICAS

ao exercício. F ASES DE UMA SESSÃO DE ATIVIDADES FÍSICAS Embora esta divisão seja meramente didática,

Embora esta divisão seja meramente didática, ela nos ajudará a melhor conceber e preparar um programa esportivo e de atividade física. A fase prece- dente ao exercício, por exemplo, é o momento no qual planejamos e organiza- mos a atividade (que pode também ser chamada de parte “teórica” do exercício).

Já a fase de execução é a etapa na qual o exercício é realizado, comumente denominada de parte “prática”. É nesta fase que colocaremos em teste o que foi concebido e planejado na fase precedente. Ao contrário do que pode parecer,

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esta fase não se limita simplesmente à realização do esporte em si, como jogar apenas futebol, por exemplo, mas pode englobar uma série de atividades com- plementares e até mais importantes do que o jogo em si, dependendo da ênfase que queremos dar aos diversos componentes que influenciam o condicionamen- to físico e o desempenho desportivo.

E por último, mas não menos importante, a fase de avaliação e recuperação na qual re-avaliaremos a fase precedente confrontando-a com aquilo que aconte- ceu na fase de execução, a fim de identificar o que funcionou bem e o que deu errado a partir do que foi planejado. Ou seja, fazemos uma “síntese” entre “teo- ria” (fase precedente) e “prática” (fase de execução). É nesta fase que recupera- mos o nosso organismo e nos preparamos para uma nova sessão de exercícios.

Vamos então aprofundar mais um pouco o nosso conhecimento a respei- to dos procedimentos, métodos
Vamos então aprofundar mais um pouco o nosso conhecimento a respei-
to dos procedimentos, métodos e cuidados em cada fase. Afinal, o alcance de
nossos objetivos depende da compreensão e do entendimento de tais etapas e
da relação existente entre elas.
ESPORTE ESPORTE E E LAZER LAZER

FASE PRECEDENTE

a) Princípios básicos do treinamento desportivo

Para melhor planejarmos as nossas atividades esportivas ou até mesmo os exercícios físicos em geral é necessário conhecermos alguns princípi- os que se referem às mudanças e à capacidade de adaptação dos nossos corpos. De certa forma, tais princípios se aplicam a diversos compo- nentes do desempenho e do condicionamento físico, como força, resis- tência muscular, flexibilidade, resistência cardiorrespiratória, entre ou- tros. Vejamos agora alguns destes princípios:

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a.1) Princípio da Sobrecarga

Como o próprio nome já diz, o princípio da sobrecarga se refere ao

fato de que para que se tenha melhora do condicionamento físico é

MONITOR DE ESPORTES DE LAZER

necessário que se aumente a “carga” a que o aluno está acostumado. Em outras palavras, se realizarmos exercícios considerados “fáceis”, aos quais o nosso corpo já está adaptado, estes exercícios não induzi- rão a uma adaptação adicional ao treinamento e, conseqüentemente, não melhorarão nosso desempenho e condicionamento físico. Assim, o efeito do treinamento só será alcançado se nos exercitarmos em um nível acima do qual estamos acostumados.

A sobrecarga pode ser expressa em termos de volume, intensidade e

freqüência do treinamento. O volume, ou seja, a quantidade de traba- lho realizado, pode ser descrito, por exemplo, em termos de duração, distância, número de repetições e até em quantidade de quilocalorias

gastas no treinamento. A intensidade, por sua vez, pode ser caracteri- zada, entre outras coisas, pela velocidade média (ritmo) ou pela varia- ção do peso levantado em uma mesma velocidade. Já a freqüência pode englobar o número de sessões de treinamento por semana ou o núme-

ro de sessões por dia.

Vejamos um exemplo: se você correr três vezes por semana a mesma distância a 10km/h, o seu organismo vai se adaptar a esse esforço e o

que poderia ser difícil nas primeiras semanas se tornará bastante fácil

ao longo de dois meses. Isto não quer dizer que não houve benefícios,

mas se você permanecer realizando este mesmo exercício, você não conseguirá melhorar ainda mais o seu desempenho e sua condição físi- ca. Deve-se, então, aumentar a “sobrecarga”, que pode ser expressa pelo aumento da distância, da velocidade, da freqüência ou pelas di- versas combinações possíveis entre estas variáveis.

Lembre-se que mudanças simples podem alterar a sobrecarga. Uma leve inclinação, por exemplo, ou uma mudança na posição de um peso, podem aumentar muito a intensidade do exercício.

Mas cuidado! O que pode ser considerado “fácil” para uma pessoa, pode ser extremamente difícil
Mas cuidado! O que pode ser considerado “fácil” para uma
pessoa, pode ser extremamente difícil para outra. Ao elaborar
um programa de exercícios, devemos levar em conta a idade,
sexo, nível de condicionamento físico, experiência esportiva,
objetivos pessoais (a curto, médio e longo prazo) entre outros
fatores, para que o programa seja compatível com a capacida-
de de cada aluno. Além disso, as adaptações não ocorrem
rapidamente, de uma hora para outra. Elas demandam tempo.

Existem limites para a capacidade adaptativa do corpo humano. Quan- do excedidos, tais limites podem representar não apenas uma estagna- ção ou piora da condição física, mas um risco para a saúde, sendo mais perigosos do que um treinamento deficiente. Há, inclusive, um

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ESPORTE E LAZER

ditado que diz que “fazer menos é melhor do que fazer demais”.

Assim, o aumento dos componentes da sobrecarga – volume, intensidade

e freqüência - deve ser gradual e lento, não sendo recomendável mudanças muito altas em um curto espaço de tempo. Ao abordarmos a fase de recuperação e avaliação falaremos um pouco mais a este respeito.

a.2) Princípio da Reversibilidade

Diretamente relacionado ao princípio da sobrecarga, o princípio da reversibilidade indica que quando há interrupção parcial ou total da atividade física os ganhos adquiridos com o treinamento são rapida- mente perdidos. Ou seja, a melhoria do condicionamento físico con- seguida ao longo dos treinos é transitória quando a sobrecarga é re- movida. Os benefícios adquiridos são, assim, reversíveis.

Neste sentido, se eu, por exemplo, estou acostumado a jogar bas- quete três vezes na semana e passo a praticá-lo uma vez por mês, certamente haverá decréscimos em minhas habilidades motoras, em minha resistência muscular e em outros fatores do meu condiciona- mento físico. A mesma coisa ocorre quando imobilizamos alguma parte do nosso corpo por um longo período. Você já reparou a dife- rença entre os nossos braços ou dos nossos amigos quando, por exem- plo, o gesso é removido? Então, isso acontece porque os músculos não foram estimulados, perdendo massa muscular.

Não podemos esquecer, entretanto, que a sobrecarga do exercício de- pende do volume, da intensidade e da freqüência do exercício. Assim, qualquer redução em uma dessas variáveis por um longo período de tempo resultará em perdas no condicionamento físico. Por outro lado, temos que ter cuidado com o treinamento excessivo (assunto que será abordado com mais ênfase na fase de avaliação e recuperação).

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a.3) Princípio da Especificidade

De maneira simples, podemos explicar o princípio da especificidade da seguinte maneira: um exercício específico terá efeitos específicos em nosso organismo. Isto significa que nosso corpo se adapta especificamente ao que lhe é demandado.

Peguemos um exemplo: se um corredor deixa de treinar corrida e passa

a nadar apenas, seu rendimento na corrida, com o tempo, será reduzido.

Mesmo que a natação atue sobre a resistência cardiovascular, há inúme-

ros fatores diferentes, como os músculos trabalhados e a amplitude do movimento, que impedem que haja transferência entre o desempenho adquirido na natação e o desempenho na corrida. Assim, não há nada que garanta que um bom esportista em uma determinada modalidade seja bom em outra.

MONITOR DE ESPORTES DE LAZER

O princípio da especificidade indica, portanto, que o treino para um

determinado esporte – quando não envolve a prática em si da modali- dade específica – deve se aproximar dos movimentos, habilidades e re- quisitos da própria modalidade.

Neste sentido, pode-se, por exemplo, executar movimentos similares a um chute ou a uma braçada na sala de musculação para que haja aumen-

to do rendimento esportivo no campo e na piscina respectivamente. No

entanto, nada impede que haja combinações entre modalidades esportivas e exercícios diferentes. Na verdade, a prática de outros esportes e de ou-

tros exercícios pode exercer influência positiva tanto na recuperação como

no estado emocional e psicológico do praticante.

b) Aspectos avaliativos e prescritivos gerais para o condicionamen- to físico

Para planejarmos a nossa sessão de treinamento, além de sabermos os princípios do treinamento desportivo, é também necessário que saiba- mos avaliar o condicionamento físico dos nossos alunos e prescrever

o exercício adequado ao perfil, aos interesses e às necessidades deles. De maneira geral, o condicionamento físico e o desempenho esporti- vo envolve diversos componentes, como por exemplo:

* força e potência muscular;

* flexibilidade;

* resistência cardiorrespiratória;

* resistência muscular localizada, entre outros.

Dificilmente estes componentes aparecem isolados. Quando praticamos um esporte ou uma atividade física tais componentes são integrados e associados em graus variados, podendo haver predominância de um ou mais destes componentes. Em provas olímpicas, por exemplo, uma cor- redora de 100m ou um nadador de 50m em estilo livre precisará muito mais de força e potência muscular do que uma corredora de maratona (42,195km) ou um nadador de 1500m. Já as atletas de ginástica olímpica necessitam integrar flexibilidade, força, potência e resistência muscular e outros componentes que afetam o desempenho, como a coordenação e

o equilíbrio.

Por outro lado, em um bom programa de exercícios relacionado à saúde e à qualidade de vida é desejável que sejam trabalhados os diversos compo- nentes do condicionamento, levando-se em consideração o perfil e os inte- resses de nossos alunos. Para os idosos, por exemplo, um programa ade- quado voltado para a saúde e para a qualidade de vida deverá ter como objetivo a associação de diversos desses componentes, bem como ativi- dades divertidas que favoreçam a formação de grupos sociais. Teremos

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ESPORTE E LAZER

que propor, além disso, exercícios que se aproximem das necessidades que os idosos possuem no seu dia-a-dia (lembrem-se do princípio da especificidade). Um exemplo é a dificuldade que muitos idosos têm na sua locomoção, como no caso de levantar, sentar e manter o equilíbrio. A idéia é que o programa vise à melhora da autonomia e da qualidade de vida do idoso.

Para cada variável do condicionamento físico e do desempenho esporti- vo, existe uma infinidade de métodos que podem ser utilizados como instrumentos para avaliar a condição atual do nosso aluno. Apresentare- mos a seguir alguns deles.

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b.1) Anamnese e informações gerais

A anamnese é um método simples para conhecer um pouco melhor o

nosso aluno. Trata-se, na verdade, de um questionário, no qual traça- mos um pequeno histórico do aluno. Perguntamos se ele já praticou ou pratica algum esporte ou atividade física, a freqüência e a duração dessa prática, seus hábitos e seu estilo de vida (se fuma ou usa bebidas alcoólicas, por exemplo), qual a disponibilidade por semana para se dedicar às atividades físicas e desportivas e se recebe ou já recebeu algum cuidado médico especial (como por exemplo, se toma algum medicamento, se possui dor de cabeça constante, pressão alta, dores no peito, cãibras nas pernas, dor em alguma parte do corpo, articula- ções inchadas, dificuldade ao respirar, alergia, se já sofreu alguma ci- rurgia). Nesta etapa, deve-se avaliar os diversos fatores de riscos que o aluno pode apresentar.

Um dos instrumentos para avaliar se a atividade física pode represen- tar um risco (na verdade, sempre é bom a procura de aconselhamento médico antes de praticar qualquer atividade), se chama PAR-Q (Physi- cal Activity Readiness Questionnaire, ou traduzido, Questionário do grau de preparação para a atividade física). Trata-se de um questioná- rio bastante simples, desenvolvido pelo British Columbia Ministry of Health, no qual basta responder sim ou não às perguntas enunciadas, como mostrado no quadro a seguir. Aproveite e preencha você mes- mo o PAR-Q.

Além disso, é fundamental que se identifique as necessidades e os objeti- vos que o aluno pretende alcançar. No entanto, estes devem ser realistas e não ultrapassar a capacidade de realizá-los. O sucesso do programa dependerá muito disso. Em muitos casos, há um exagero quando traça- mos os objetivos ou as necessidades, não se adequando ao perfil ou ao estilo de vida do aluno, o que o afasta do programa. Na verdade, trata-

se de um processo de “negociação” entre o aluno e o monitor. A relação

entre monitor e aluno deve ser de aprendizagem mútua, sempre respei-

QUESTIONÁRIO PAR-Q

MONITOR DE ESPORTES DE LAZER
MONITOR DE ESPORTES DE LAZER

tando o princípio norteador de qualquer programa de exercícios: não ser prejudicial à saúde.

É necessário saber como, quando e por onde começar, de maneira a estabelecerem juntos, monitor e aluno, os objetivos a curto, a médio e a longo prazo. Pode-se perguntar: o que o aluno pretende com a prática regular de exercícios? Por que ele pretende fazer isso? Para se sentir me- lhor? Para se apresentar melhor e ficar com uma aparência mais bonita? Tornar-se mais saudável? Ou melhorar seu desempenho em uma ativi- dade esportiva específica? Afinal, os objetivos e as necessidades do alu- no, determinará o tipo de programa a ser planejado.

Basicamente, estes podem ser de dois tipos diferentes: programas de treinamento e programas de condicionamento - cada um representan- do objetivos, métodos e exigências diferentes. Certamente, uma pes- soa idosa que possui problemas de mobilidade e de excesso de tecido adiposo (“gordura”) deve ter um programa bastante diferente de um jovem corredor de 20 anos que quer correr uma milha (aproximada- mente 1,6km) abaixo de 4 minutos.

No programa de exercício de treinamento, o objetivo principal está relacionado à melhora do desempenho esportivo, enquanto que o trei- namento para o condicionamento, os objetivos envolvem a melhora da qualidade de vida e da saúde (como a perda de peso e uma maior flexibilidade).

ESPORTE E LAZER

ver o condicionamento de diversas variáveis, ou seja, um condiciona- mento integral que inclua atividades que melhorem a flexibilidade, a força e a resistência muscular, o sistema cardiorrespiratório, entre ou- tros. Veja o esquema abaixo:

cardiorrespiratório, entre ou- tros. Veja o esquema abaixo: b.2) Frequência Cardíaca Quando praticamos um esporte ou

b.2) Frequência Cardíaca

Quando praticamos um esporte ou uma atividade física qualquer, nos- so coração começa a bater mais rápido e mais forte. Isto acontece, entre outras coisas, por causa do aumento da demanda de oxigênio pelos nossos músculos. Ou seja, ao nos exercitarmos nossos músculos necessitam de maiores quantidades de oxigênio para produzir mais energia e, por conseguinte, realizar o exercício. Em função disto, esta demanda por oxigênio pode aumentar cerca de 15 a 20 vezes em um exercício intenso, fazendo com que cerca de 80% da quantidade de sangue bombeada pelo nosso coração por minuto seja destinada aos músculos em contração (normalmente em repouso, esse percentual varia entre 15 a 20%).

Por sua vez, em exercícios muito intensos, a oferta de oxigênio pode ser insuficiente o que diminuirá a nossa capacidade de manter o exer- cício por um tempo mais prolongado. Um lutador de judô, por exem- plo, dificilmente conseguirá manter a mesma potência de seus golpes durante muito tempo ininterruptamente, sem que haja interrupções ou intervalos durante as lutas. A mesma coisa acontece com os cor- redores. Atualmente, um corredor de 100m de nível olímpico conse- gue manter uma velocidade média maior que 36km/h. Se o mesmo atleta tentasse correr uma prova de 5000m, dificilmente ele conse- guiria atingir uma velocidade média de 22km/h.

MONITOR DE ESPORTES DE LAZER

mos nos submetendo é através da freqüência cardíaca (FC), que é ge- ralmente expressa em número de batimentos por minuto (bpm). As- sim, a freqüência cardíaca “reflete” a intensidade do exercício, sendo um indicador do trabalho que o nosso coração está exercendo.

Um dos métodos para verificar a freqüência cardíaca consiste em apal-

par manualmente (geralmente com os dedos indicador e médio) a ar- téria radial que se localiza no pulso ou a artéria carótida no pescoço. Este é um método que requer bastante treino e sensibilidade. Lembre- se que não é necessário apertar demasiadamente as artérias para sentir

a pulsação. Na verdade, basta com um leve toque para que você as

identifique. O mais difícil mesmo é identificá-las. Em algumas ativida-

des, como lutas e esportes aquáticos, você terá maior dificuldade em mensurar a FC.

Experimente verificar agora mesmo a sua pulsação. Conte quantas pul- sações são realizadas em 60 segundos. Pronto! Você já saberá quantos batimentos por minuto o seu coração está realizando. Para tornar este procedimento mais rápido e simples, ao invés de contar as pulsações durante 60 segundos, você poderá contar as pulsações em, por exemplo,

6, 10, 15, 20 ou 30, bastando multiplicá-las por 10, 6, 4, 2, respectiva- mente. A princípio, quanto maior o tempo de contagem, mais preciso é

a verificação (uma outra forma de verificar a FC é através de monitores

que, embora facilitem a verificação da FC e são mais precisos que a verificação manual, são geralmente bastante caros). Experimente verifi- car de novo a sua FC, preenchendo o quadro abaixo:

verifi- car de novo a sua FC, preenchendo o quadro abaixo: Para medirmos nossa FC de

Para medirmos nossa FC de repouso é recomendado que estejamos deitados e bastante calmos e relaxados (normalmente, é indicado que verifiquemos a nossa FC de repouso logo quando acordamos, antes de levantar da cama). Em repouso, a FC na maior parte das pessoas varia entre 60 e 80 bpm. Entretanto, as freqüências cardíacas variam muito de pessoa para pessoa. Dependem de algumas variáveis como estado emocional, altura, hábitos e estilo de vida, idade, sexo e condiciona- mento físico. Em muitos atletas, pode-se encontrar até mesmo a FC de repouso de 30 bpm. A explicação para isso é que conforme melhora- mos o nosso condicionamento físico, nosso coração fica mais forte e precisa bater menos vezes para enviar a mesma quantidade de sangue

95

ESPORTE E LAZER

para as diversas partes do nosso corpo. Ou seja, o nosso coração fica mais eficiente! É por isso que acompanhar a FC de repouso ao longo do treinamento é fundamental para avaliarmos o progresso do nosso condicionamento físico. No entanto, não há uma regra muito clara que estabeleça de quanto em quanto tempo é recomendado verificar a FC de repouso, que pode variar entre 2 a 4 meses.

Como dissemos anteriormente, existe uma relação entre o aumento da nossa freqüência cardíaca e a intensidade do exercício. Neste sentido, é possível planejarmos o nosso treinamento a partir do estabelecimento de um intervalo de FC (também chamado de “zona-alvo” ou “freqüên- cia cardíaca alvo”) que indicará a intensidade necessária para alcançar- mos os nossos objetivos com o exercício.

Para calcularmos a zona alvo de treinamento é necessário, antes de tudo, calcularmos a nossa FC máxima (que é o número máximo de batimentos que o nosso coração pode atingir). Embora exista uma grande variedade de fórmulas e métodos para calcularmos a nossa FC máxima, uma bas- tante empregada (inclusive, recomendada pelo American College of Sports Medicine; traduzindo Colégio Americano de Medicina Esportiva) e tam- bém de fácil utilização é expressa na seguinte fórmula:

de fácil utilização é expressa na seguinte fórmula: Se você, por exemplo, tiver 20 anos, a

Se você, por exemplo, tiver 20 anos, a sua FC máxima provável será de 200 bpm. Ou seja, o número máximo de contrações por minuto que o seu coração poderá atingir será de 200. Cuidado! Lembramos que esta fórmula não deve ser utilizada com crianças e que pode haver variações de até 12 bpm.

Com a FC máxima já calculada, vamos agora calcular as zonas-alvo do nosso treinamento. Elas podem ser dividas em 5 zonas, cada uma representando um grau diferente de intensidade: Zona de Atividade Moderada, Zona de Controle de Peso, Zona Aeróbica, Zona do Li- miar Anaeróbico e Zona de Esforço Máximo. Cada uma delas repre- senta cinco níveis de intensidade que são determinados através de um cálculo a partir da FC máxima. A zona de atividade moderada, por exemplo, representa 50 a 60% da FC máxima. Para calcularmos a zona-alvo de uma pessoa de 20 anos, como no exemplo utilizado acima, basta multiplicarmos 200 por 0.5, que é igual a 100, e 200 por 0.6, que é igual a 120. Assim, a FC de uma pessoa de 20 anos deve permanecer entre 100 e 120 bpm para que ela faça uma atividade de intensidade moderada. Veja abaixo as diferentes zonas-alvo e os per- centuais da FC Máxima que elas representam:

MONITOR DE ESPORTES DE LAZER

MONITOR DE ESPORTES DE LAZER Tente agora calcular as suas zonas-alvo. Primeiro, calcule a sua FC

Tente agora calcular as suas zonas-alvo. Primeiro, calcule a sua FC Máxima:

as suas zonas-alvo. Primeiro, calcule a sua FC Máxima: Agora calcule os diferentes limites de cada

Agora calcule os diferentes limites de cada zona-alvo, multiplicando a sua FC Máxima pelos diferentes percentuais:

multiplicando a sua FC Máxima pelos diferentes percentuais: Como dissemos, cada zona-alvo representa um nível de

Como dissemos, cada zona-alvo representa um nível de intensidade di- ferente e, conseqüentemente, as diferentes exigências do nosso corpo. Lembre-se dos princípios do treinamento e dos cuidados necessários para que a atividade física proporcione benefícios à saúde. Recomenda- se, por exemplo, que iniciantes e pessoas que estão sedentárias há muito tempo comecem pela zona-alvo mais baixa. Além disso, a zona de esfor- ço máximo só deve ser utilizada por atletas ou aqueles que estão em ótimas condições físicas e, mesmo assim, devem ser sempre alternadas com sessões e atividades leves. Por outro lado, pode-se combinar na mesma sessão diferentes zonas-alvo. Posso, por exemplo, começar em

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ESPORTE E LAZER

uma zona de atividade moderada e depois variar entre duas outras zo- nas, uma mais intensa e outra menos.

Mas como começar? E quanto é necessário para obter algum benefício para a saúde? Geralmente, recomenda-se a realização de exercícios por, no mínimo, 30 minutos ao dia, de 3 a 5 vezes por semana, de atividade moderada. No entanto, deve-se iniciar em um nível que seja confortável, mesmo que este não alcance a zona de atividade moderada ou que não atinja os 30 minutos recomendados ou que apenas consiga fazer 3 vezes por semana. Neste caso, pode-se até dividir a sessão diária em 3 sessões de 10 minutos. Gradualmente, aumente o tempo de duração e o número de dias de exercícios. Um exercício relativamente seguro para a maior parte das pessoas e de fácil acesso (já que quase nenhum requisito ou equipamento é necessário) é a caminhada. Só posteriormente, quando se consegue realizar a atividade confortavelmente durante um longo tem- po, é que se deve pensar em exercícios com uma intensidade razoavel- mente mais intensa.

Vamos passar agora para a próxima etapa da nossa sessão de exercícios.

agora para a próxima etapa da nossa sessão de exercícios. ATIVIDADE 17 Seu professor realizará, com

ATIVIDADE 17

Seu professor realizará, com a turma, uma atividade para verificr se você entendeu bem esse conteúdo. Aproveite para tirar todas as suas dúvidas.

esse conteúdo. Aproveite para tirar todas as suas dúvidas. F ASE DE E XECUÇÃO Antes de

FASE DE EXECUÇÃO

Antes de começar a fase de execução propriamente dita, alguns cuidados, além daqueles apresentados nas fases anteriores, devem ser tomados para ga- rantir uma prática segura, saudável e confortável. Veja aqui alguns exemplos:

Hidrate-se antes, durante e depois da atividade física. Beba água sempre que possível, pois a taxa de transpiração aumenta com a intensidade do exercício. Lembre-se de não se basear apenas na sensação de sede para hidratar-se. A desidratação pode diminuir o volume de sangue ejetado pelo coração, aumentando a freqüência cardíaca;

Ao praticar atividades em ambientes externos use protetor solar;

Use vestimentas de acordo com a atividade, com o ambiente e com o meio escolhido. Em ambientes quentes e úmidos, por exemplo, use

MONITOR DE ESPORTES DE LAZER

mas atividades, dependendo do solo, exigem calçados com uma maior absorção de impacto;

Respeite os seus limites;

Não use equipamentos e acessórios novos. Teste-os e acostume seu cor- po a eles. Tênis, shorts ou quimonos novos, por exemplo, podem causar bolhas, assaduras entre outras coisas.

a) Aquecimento

Antes da atividade em si ou do exercício principal, um conjunto de exer- cícios preliminares de baixa intensidade e de alongamento - também chamados de exercícios de aquecimento; são recomendados para me- lhorar a passagem do estado de repouso para o exercício ou desporto. Um aquecimento adequado antes de qualquer atividade física é impor- tante para garantir uma sessão de exercícios segura e efetiva. Busca-se ao longo do aquecimento um aumento gradativo da atividade até que a intensidade adequada seja alcançada. Afinal, o aquecimento é capaz, entre outras coisas, de:

* Aumentar a temperatura corporal

* Aumentar a capacidade de extensão muscular

* Reduzir a possibilidade de lesões;

* Aumentar o fluxo sanguíneo e, conseqüentemente, de disponibilidade de oxigênio para os músculos;

* Aumentar as reações metabólicas, melhorando a eficiência energética necessária à realização do exercício; e

* Melhorar o desempenho.

Normalmente, para um aquecimento adequado, sugere-se que sejam feitas as seguintes etapas: (1) Aquecimento Geral; (2) Alongamento; e (3) Aquecimento Específico.

a.1) Aquecimento Geral

Os exercícios de aquecimento devem começar com algumas atividades de baixa a moderada intensidade. A idéia é que o aquecimento aumente levemente a freqüência cardíaca. Pode-se, por exemplo, começar com uma caminhada de 5 minutos ou até com alguns poucos movimentos específicos da própria atividade, desde que estes não sejam intensos e desgastantes.

a.2) Alongamento

Após os exercícios de aquecimento geral, recomenda-se a realização de alguns exercícios de alongamento (embora, você possa realizá-los tam- bém em outros momentos fora da sessão de treinamento). Devem ser alongados, não apenas os músculos específicos que serão usados na ati-

99

ESPORTE E LAZER

vidade ou esporte em si, mas também os grandes grupamentos muscu- lares. Ou seja, se você corre, por exemplo, é indicado que você, não alongue apenas as pernas e a região anterior e posterior da coxa, mas também a musculatura das costas, dos braços e dos ombros entre ou- tras. Em muitas atividades, sobretudo naquelas que envolvem força e potência, é imprescindível que se tenha atenção redobrada com os exer- cícios de alongamento.

Lembre-se sempre que o alongamento deve ser realizado de forma lenta e suave, sem dor. Evite realizá-lo apressadamente, ao chegar à posição, mantenha-a por 20 a 30 segundos. Cada posição pode ser repetida 2 ou 3 vezes. É contra-indicada a realização de exercícios de alongamento de forma balística, balançado o corpo com movimentos violentos e abrup- tos. Este tipo de alongamento tem um grande índice de lesão. Veja abaixo alguns exemplos de exercícios de alongamento tanto para os membros inferiores como superiores:

100

tanto para os membros inferiores como superiores: 100 Músculos da Panturrilha Músculos Posteriores da Coxa

Músculos da Panturrilha

inferiores como superiores: 100 Músculos da Panturrilha Músculos Posteriores da Coxa Músculos Anteriores da Coxa e

Músculos Posteriores da Coxa

100 Músculos da Panturrilha Músculos Posteriores da Coxa Músculos Anteriores da Coxa e do Quadril Músculos

Músculos Anteriores da Coxa e do Quadril

Músculos Posteriores da Coxa Músculos Anteriores da Coxa e do Quadril Músculos Posteriores do Braço e

Músculos Posteriores do Braço e do Ombro

MONITOR DE ESPORTES DE LAZER

MONITOR DE ESPORTES DE LAZER Músculos Peitorais e Anteriores do Ombro Músculos da Virilha e Parte

Músculos Peitorais e Anteriores do Ombro

ESPORTES DE LAZER Músculos Peitorais e Anteriores do Ombro Músculos da Virilha e Parte Interna da

Músculos da Virilha e Parte Interna da Coxa

do Ombro Músculos da Virilha e Parte Interna da Coxa Músculos Laterais do Tronco e Musculatura

Músculos Laterais do Tronco e Musculatura do Antebraço

Músculos Laterais do Tronco e Musculatura do Antebraço Músculos Posteriores do Ombro Músculos Posteriores da

Músculos Posteriores do Ombro

e Musculatura do Antebraço Músculos Posteriores do Ombro Músculos Posteriores da Coxa, Inferiores das Costas e

Músculos Posteriores da Coxa, Inferiores das Costas e Glúteos

Posteriores do Ombro Músculos Posteriores da Coxa, Inferiores das Costas e Glúteos Músculos Laterais do Corpo

Músculos Laterais do Corpo

ESPORTE E LAZER

ESPORTE E LAZER Músculos Laterais Pescoço a.3) Aquecimento Específico Músculos Extensores das Costas Na fase final

Músculos Laterais Pescoço

a.3) Aquecimento Específico

Músculos Laterais Pescoço a.3) Aquecimento Específico Músculos Extensores das Costas Na fase final do aquecimento

Músculos Extensores das Costas

Na fase final do aquecimento é indicada a realização de exercícios específicos para a atividade ou esporte que será realizado, sempre de forma gradual e lenta. O aquecimento específico pode levar de 5 a 10 minutos, mas se a atividade ou esporte for muito intenso, pode-se au- mentar o tempo do aquecimento específico.

Se a atividade a ser realizada é corrida, deve-se começar com uma leve corrida, aumentando-se a intensidade gradualmente. No caso do fute- bol de campo, pode-se realizar desde uma corrida, com alguns peque- nos piques de 15 a 20 metros, até a realização de alguns fundamentos básicos de futebol como chute, passe entre outros. A intenção é que o seu corpo – após ser alongado e aquecido - esteja preparado suficien- temente para a atividade ou esporte.

b) Atividade Física Formal ou Esporte

Estando devidamente aquecido e alongado, a atividade física ou o es- porte já pode ser iniciado. Nesta etapa, será executado o que foi plane- jado na fase precedente. De acordo com os objetivos e, por conse- guinte, com o tipo de programa escolhido (programa de treinamento ou programa de condicionamento), pode-se dar ênfases diferentes aos diversos componentes do condicionamento integral. Para cada um deles, existe uma infinidade de tipos, métodos e sistemas de treinamento.

Pode-se, por exemplo, em sessões, cuja intenção é aumentar a eficiência do sistema cardiorrespiratório em receber e transportar oxigênio para os músculos ativos e a capacidade deles o utilizarem para produzir energia, realizar treinos intervalados (que envolve períodos de exercícios com intensidade razoável, intercalados por períodos de intensidade mais bai- xa), treinos contínuos com alta intensidade e treinos em ritmos lentos

MONITOR DE ESPORTES DE LAZER

Mas esta etapa não se resume a fazer exatamente o que foi planejado. Afinal, é nesta fase que são obtidas as informações para a próxima fase de reavaliação e recuperação. É necessário que o praticante “sinta” e “escute” o seu corpo e o monitor esportivo tenha a sensibilidade neces- sária para perceber o que está funcionando bem e o que está funcionan- do mal. Caso seja necessário, os primeiros ajustes no que foi planejado já devem ser realizados. Pode-se, por exemplo, aumentar ou diminuir a duração, a distância ou a velocidade. E até mesmo, dependendo do caso, mudar a modalidade da atividade ou suspendê-la.

Trata-se, então, de uma etapa fundamental para todo o processo do pro- grama, não apenas por conter a atividade formal, mas também por defi- nir a continuidade e o desencadeamento da próxima fase.

c) Resfriamento ou “Volta à Calma”

Ao terminar o exercício, não se deve parar de fazê-lo simplesmente. O resfriamento ou a “volta à calma” é tão importante quanto o aquecimen- to. Mas ao contrário deste, o resfriamento deve gradualmente diminuir a intensidade da atividade, para que haja retorno gradativo da freqüência cardíaca e da respiração a níveis próximos do de repouso.

Além disso, esta etapa é fundamental por ajudar a diminuir alguns produ- tos finais (como, o ácido lático) causadores da fadiga muscular, resultando em uma recuperação mais rápida do que o repouso imediato após o exer- cício. Assim, permanecer ativo após o exercício é um importante compo- nente do resfriamento, que deve durar de 5 a 10 minutos, sendo seguido de uma nova etapa de exercícios de alongamento. Veremos agora a última etapa da nossa sessão de exercício.

FASE DE AVALIAÇÃO E RECUPERAÇÃO

Como dissemos no início deste capítulo, esta fase envolve a avaliação entre o que foi planejado na fase precedente com o que realmente aconteceu na fase de execução. Analisamos o que funcionou ou não como esperávamos, o que deu certo

e

o que deu errado, tentando identificar os elementos que dificultam ou prejudicam

e

os elementos que potencializam o programa de atividade física e fazendo os ajus-

tes necessários para a próxima sessão e, conseqüentemente, para o nosso planeja- mento do progresso do treinamento a curto, médio e a longo prazo. Devemos

lembrar que a interação aluno e monitor é fundamental também nesta fase.

Pode-se perceber, por exemplo, que a atividade planejada foi mais inten- sa para o aluno do que se esperava. Neste caso, deve-se investigar as suas causas (como a motivação do aluno, a dificuldade de recuperação, alimentação e hidra- tação deficiente ou avaliação equivocada do condicionamento do aluno) e pla- nejarmos melhor a próxima sessão (resolver as causas, além de elaborar uma sessão de menor intensidade).

103

ESPORTE E LAZER

ESPORTE E LAZER Alguns erros são bastantes comuns e me- recem cuidados. Um deles é o

Alguns erros são bastantes comuns e me- recem cuidados. Um deles é o excesso de treina- mento que pode diminuir o desempenho e apre- sentar sérios riscos à saúde, como lesões muscu- lares, redução da resistência e desgastes emocio- nais. O excesso de treinamento é mais freqüente do que podemos imaginar. O melhor remédio para o excesso de treinamento é a prevenção. Neste caso, preste muita atenção na boa utilização do princípio da sobrecarga e da progressão gradual do nosso corpo aos estímulos proporcionados pela atividade física.

Isto nos leva a um outro erro bastante comum: a pouca atenção à recupera- ção. Em geral, imaginamos que o ciclo do treinamento se restringe à prática da atividade em si. Então, nos exercitamos, mas não descansamos o suficiente. O que pouca gente sabe é que a melhora no condicionamento e no desempenho se dá principalmente pós-exercício, durante o período de descanso e recuperação Esse período é, portanto, extremamente importante. É necessário, em vista dis- so, que as sessões sejam suficientemente espaçadas. Leve em conta também às necessidades nutricionais e a adequada hidratação do aluno.

Um outro erro comum está relacionado ao princípio da especificidade. Ou seja, quando planejamos apenas exercícios ou atividades que são incompatíveis ou que tenham pouco a ver com os objetivos e as necessidades do aluno. Obvia- mente, tais exercícios podem fazer parte do programa, mas devem estar associa- dos a outros exercícios que estejam de acordo com as necessidades e objetivos definidos em conjunto com o aluno.

MONITOR DE ESPORTES DE LAZER

CONSIDERAÇÕES ADICIONAIS

Mas poderíamos nos perguntar: afinal, qual é a melhor atividade física ou esportiva?

Nossa posição é que – desde que não seja prejudicial à saúde – a melhor atividade é aquela que dá mais prazer e que o aluno gosta de realizar. Neste sentido, se tiver que escolher entre diversas modalidades, escolha sempre aque- la que seja mais divertida. Pode-se, inclusive, fazer amigos de treino, ouvir mú- sica, ver vídeos entre outros artifícios para tornar as atividades mais agradáveis e prazerosas. Ou seja, torne o exercício divertido!

Entretanto, uma advertência: é necessário nos afastarmos dos nossos pre- conceitos a respeito das diversas atividades físicas e esportivas. Mais uma vez a interação e o diálogo aluno e monitor são fundamentais. O monitor deve tentar experimentar diversas manifestações esportivas com seu público-alvo, e não ficar restrito ao futebol ou outras práticas mais populares.

A idéia é que o monitor tente educar e sensibilizar os seus alunos para as diversas atividades físicas e esportivas. Assim, o aluno poderá escolher aquelas atividades que lhe dão mais prazer a partir de um conhecimento mais amplo sobre as diversas atividades físicas e esportivas.

Depois de apresentar alguns princípios gerais da prática de atividade física e esportiva, vamos ver agora alguns aspectos pedagógicos no trabalho com esporte e com regras.

de atividade física e esportiva, vamos ver agora alguns aspectos pedagógicos no trabalho com esporte e

ESPORTE E LAZER

Aspectos pedagógicos do trabalho com esportes e com regras

PLANEJAMENTO

Conhecendo a realidade

Antes de você colocar a mão na massa, é necessário conhecer as suas habili- dades para lidar com a realidade com a qual vai trabalhar. A isso chamamos sondagem, diagnóstico ou avaliação diagnóstica.

Fazer isto é importante para nos situarmos melhor em relação ao público, ao local de trabalho e aos recursos disponíveis. Então ai vão alguns passos:

106

aos recursos disponíveis. Então ai vão alguns passos: 106 1) Questões pessoais a serem respondidas: *

1)

Questões pessoais a serem respondidas:

* O que eu gosto de fazer?

* Quais são minhas habilidades/competências?

* Quais meus objetivos?

2)

Questões do grupo

* Com que grupo você vai trabalhar? Quais são suas principais características?

* Que idade têm os envolvidos?

* Onde moram?

* Qual sua classe social?

* Estão ligados a algum grupo (musical, esportivo, religioso, folclórico etc)?

* O que eles gostam de fazer?

* Por que escolheram esta atividade?

3)

Que espaço você vai ter para trabalhar? Onde se situa e quais as condições físicas do equipamento (quadra, campo, praça, salão etc)?

4)

Que material você vai ter para trabalhar? De que material esportivo você dispõe (bolas, arcos, colchões, cordas, cones etc.)? Você terá TV, vídeo e/ou DVD?

5)

Que tipo de trabalho você terá que desenvolver?

Algumas atribuições do monitor de esporte: ensinar esportes; organizar

e participar de torneios, campeonatos e competições; organizar passeios

a instalações esportivas, a clubes de esportes, a eventos esportivos;

organizar olimpíadas, gincanas e festivais esportivos; promover rodas de leitura, apreciação de filmes e espetáculos esportivos, entre outras.

MONITOR DE ESPORTES DE LAZER

Determinando os objetivos

O

que é determinar objetivos? É a escolha dos resultados que você preten-

de

alcançar com seu trabalho. Por exemplo: por que pintar a sua casa? Para

que ela fique mais bonita ou mais limpa. Então o objetivo é: quero colo-

car a minha casa mais bonita. Ação: Vou pintá-la. Para que organizar um torneio de futebol entre os meus aprendizes? Para avaliar o nível do aprendizado, para reunir o grupo, para motivar o grupo. Então o objetivo é: motivar os alunos que praticam futebol. Ação: Vou organizar um torneio. Toda vez que você se dispõe a realizar um trabalho, você tem um objetivo em mente.

Quando você pretende ensinar um esporte a um grupo, esse é o seu grande objetivo (chamado de objetivo geral). Mas só este não basta, é necessário ter objetivos mais detalhados, tais como ensinar a chutar, ensinar a rolar, ensinar a driblar, ensinar a saltar, estes são seus pequenos objetivos (chama- dos objetivos específicos). Mais ainda, aqui também você estabelece o que pretende do ponto de vista educacional: desejo desenvolver senso crítico, desejo fortalecer laços de solidariedade, entre outros.

Quando temos como tarefa ensinar alguma coisa a alguém, estabele-

cendo objetivos definimos o que pretendemos mudar no que se refere

a comportamentos, desenvolver habilidades e ampliar conhecimen-

tos. Podemos estabelecer objetivos afetivos (comportamentos), psi- comotores (habilidades corporais) e cognitivos (conhecimentos).

Na verdade, esta divisão é meramente didática, pois os três são indis- sociáveis. Quando você vai dar um saque, habilidade que você está aprendendo, isto envolve emoção (afetivo), o trabalho é físico (psico- motor) e, para realizar uma tarefa, por mais simples que seja, você precisa conhecê-la (cognitivo).

De qualquer forma, essa classificação nos ajuda a pensar em nosso traba- lho de forma mais ampla e ordenada.

Conteúdos – informações para desenvolver o conhecimento

Os conteúdos estão relacionados diretamente aos objetivos, a como vou alcançar minhas metas. Precisamos determinar o que utilizar para alcance do que se deseja. Exemplo:

* Objetivo: ensinar a execução de rolamentos.

Um dos mais conhecidos rolamentos é a “cambalhota”, outro é o rola- mento do judô; então o nosso conteúdo será rolar para frente, rolar para trás, rolar para os lados, sempre no chão. As ações serão os conteúdos aplicados para alcançar os objetivos. Estas ações deverão ser escolhidas cuidadosamente para que o aluno desenvolva o conhecimento (de forma cumulativa e permanente). O conteúdo deve ser organizado de maneira

107

ESPORTE E LAZER

que facilite sua apreensão pelos alunos.

O planejamento dessas ações é fundamental para que o monitor apresente

um conjunto de conhecimentos ordenados, de forma que o resultado final possa ser observado por ele e percebido e vivenciado pelo aluno. Lembre- mos que o conteúdo é dinâmico, na medida em que o aluno deverá ter a cada dia mais informações, aprendendo novas ações e as articulando com

as anteriores.

É importante que nos reportemos à sondagem (diagnóstico) que devemos

utilizar a cada nova ação: O que cada aluno sabe sobre aquele conteúdo? E

o que ele poderá vir a saber? É neste ponto que iremos atuar. O que ele sabe servirá de base para que realize novas aprendizagens. Parece algo muito complexo, mas podemos fazê-lo de forma simples e eficiente. Observem o exemplo:

* Conteúdo: corrida.

Solicitamos que a turma corra o mais rápido possível uma determinada distância; Depois que corram sem parar por um determinado tempo. Nes- tes dois exercícios podemos observar (avaliação diagnóstica):

- que alunos correm mais rápido;

- que alunos correm mais tempo, sem parar;

- que alunos dominam a técnica da corrida rápida;

- que alunos dominam a técnica da corrida longa (constante);

- que alunos dominam as duas técnicas;

- que alunos não dominam nenhuma das duas técnicas.

Com esta avaliação nas mãos, podemos determinar o nível da turma em relação ao conteúdo
Com esta avaliação nas mãos, podemos determinar o nível
da turma em relação ao conteúdo a ser desenvolvido: quantos
alunos já conhecem as técnicas; que exercícios devemos enfati-
zar; que alunos precisam de maior atenção. Ou seja, coletamos
uma série de dados preciosos para que possamos planejar a nossa
aula despertando o máximo de interesse do grupo.

Isto nos remete a escolha das nossas ações e elas dependem:

- das vivências corporais que nossos alunos trazem;

- da forma como nós as apresentamos;

- da seqüência que propomos;

- do tempo e dos materiais que dispomos.

108 Logo, além da sondagem (diagnóstico), que deve estar prevista no nosso

MONITOR DE ESPORTES DE LAZER

planejamento, precisamos organizar o conteúdo numa ordem tal que desafie

o aluno a que possa ir, passo a passo, aumentando seus conhecimentos e suas habilidades, na medida em que a ação anterior já foi aprendida.

Para isso necessitamos propor atividades que despertem o interesse dos alunos. No caso dos esportes, atividades lúdicas (alegres, prazerosas). Por exemplo: aprender a chutar procurando acertar um alvo (gol, arco, cone, árvore) ou vencendo um obstáculo (goleiro, a distância, a precisão). Estes desafios motivam o aluno a praticar o “conhecimento” (movimento) de forma que ele realize a ação proposta, com prazer.

A organização do conteúdo deve ser dividida em aulas, com tempo defini- do e o material disponível. As aulas podem incorporar diferentes estratégi- as: as atividades físicas, a exibição de filmes sobre a temática, a leitura e discussão de textos (notícias de jornal, por exemplo), visitas a instalações esportivas, observação de jogos/exibições do esporte.

Avaliando o trabalho desenvolvido

Na medida em que avançamos no nosso trabalho, devemos nos perguntar

a todo instante se estamos no caminho certo. Da mesma forma que não

devemos nos contentar com a sondagem (avaliação diagnóstica) feita no início do trabalho, é necessário que avaliemos o tempo inteiro, pois isso nos ajudará a constatar se os objetivos foram alcançados e se os conteúdos que selecionamos são os mais adequados.

Uma maneira interessante de avaliar é, ao final de cada aula, conversar com os alunos e, a partir do esclarecimento dos seus objetivos na aula daquele dia, fazer perguntas do tipo: gostaram da aula? Qual a parte que mais gos- tou? O que não gostou? Por que?

Essas são formas de avaliar permanentemente o que está sendo ensinado e de estimular os alunos a se empenharem nas atividades, pois sabem que o professor está interessado no seu aprendizado.

Para que a avaliação seja ampla e de qualidade são necessários quatro ações

diárias:

1) apresentar e discutir os objetivos da aula;

2) adequar o planejamento, após a sondagem, às características do grupo;

3) trabalhar com pequenos grupos dentro da turma. A forma de divisão destes grupos variará de acordo com os interesses. Podem ser homo- gêneos, de acordo com o conhecimento/habilidade; podem ser alea- tórios, de acordo com a ordem alfabética; podem ser de livre escolha dos alunos. É importante que as escolhas variem de tal modo que fa- voreçam os interesses da turma. A variação dos grupos tanto permite que os alunos pratiquem suas escolhas, quanto facilita as necessidades pedagógicas do professor;

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ESPORTE E LAZER

4) avaliar teoricamente os conhecimentos adquiridos, solicitando ao alu- no que escreva o que foi praticado, que explique verbalmente como deve ser feito um exercício ou demonstre um movimento que apren- deu na aula.

Estas avaliações permanentes mantém o professor e os alunos informados do nível de aprendizado, favorecendo as correções ao longo do curso. São chamadas tecnicamente de Avaliações Formativas.

Também devem ser consideradas como avaliação as impressões dos alu- nos em relação a um passeio a um centro esportivo, a participação em um torneio, a um filme assistido. O professor deve estimular estas discussões após quaisquer eventos, pois isso leva os alunos a refletir sobre o que viram e pode favorecer o desenvolvimento do seu senso crítico.

As avaliações podem ser mais formais, quando solicitamos aos alunos que escrevam suas impressões sobre a atividade, ou mais informais, quan- do discutimos com eles acerca do que acharam da atividade.

Finalmente podemos utilizar a avaliação ao fim de um período de traba- lho. São as chamadas “avaliações somativas”, de uma forma geral utiliza- das para classificar os alunos de acordo com o rendimento apresentado ao cabo de um tempo determinado.

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS

Como ensinar esportes? É importante que tenhamos claro o conhecimento que precisamos dominar para que exerçamos nossa atividade. Há aspectos específicos neste trabalho e para conhecê-lo devemos levantar alguns questiona- mentos iniciais, tais como:

- Que habilidades devem ser desenvolvidas? Por quê?

Quais são as principais características motoras e sociais do nosso aprendiz?

- Como ensinar os fundamentos para o aprendizado do esporte?

- Além das habilidades motoras, que outras capacidades podemos desen- volver?

- Que atividades paralelas devem ser implementadas para ampliar o co- nhecimento sobre o universo de determinado esporte?

- Que equipamentos e materiais são necessários para a aplicação rotineira da atividade?

O monitor de esporte deverá conhecer uma série de características relaci- onadas com os diversos grupos que irá dirigir. Para ordenarmos nosso

110 estudo de agora em diante, começaremos abordando as características

MONITOR DE ESPORTES DE LAZER

mais marcantes das diversas faixas etárias, estas influenciam e são influenci- adas pelo esporte ensinado.

Habilidades motoras

As habilidades motoras são em grande parte desenvolvidas dos dois aos seis anos. Para que a criança amplie seu campo de atuação, aumente sua segurança e conseqüentemente sua autonomia, será necessário que ela domine a locomoção, a estabilidade e a manipulação, as chamadas Habi- lidades Motores Fundamentais.

As crianças dessa faixa aprendem com facilidade a rolar, a chutar e a se equilibrar de diversas formas. Mas as atividades são essencialmente indi- viduais. Na atividade coletiva, cada qual tem um papel e a criança, para participar, precisará saber exatamente que movimento deverá executar. As parcerias serão desenvolvidas mais tarde.

Atividades como correr, saltar, parar, arremessar, receber e passar, quicar, chutar, rolar e suas infinitas combinações, são formas de desenvolver as habilidades básicas para o aprendizado esportivo.

A partir dos sete anos, ela começa a participar mais ativamente do jogo coletivo, ainda exercendo um papel solo. É um período de conhecimento das regras e do julgamento do que é certo e errado. Para ela, as regras são rígidas, pois ainda não tem o poder de abstração que favorece a interpre- tação e a crítica.

O relacionamento em grupo desenvolve o entendimento da necessidade

das regras para que o jogo possa acontecer. É uma época de discussão

minuciosa de cada regra.

Entre os sete e os dez anos as Habilidades Motoras Fundamentais são refinadas, combinadas e elaboradas para uso de exigências cada vez maio- res. Até aos dez anos estas habilidades são ampliadas rapidamente, sendo um período privilegiado para o aprendizado das técnicas esportivas.

As habilidades básicas aplicadas em situações concretas do esporte, como

na busca do gol ou da cesta, a corrida mais veloz ou o salto mais distante, são chamadas de Habilidades Motoras Especializadas e resultam do melhor controle motor, da capacidade de perceber qual o movimento mais adequado a ser utilizado naquele momento e da grande satisfação experimentada a cada nova descoberta.

A partir dos dez anos, as instruções até então transmitidas por alguém mais experiente, dão lugar à criação dos seus próprios jogos e regras. Estes pas- sam a ser adaptados às limitações de espaço, ao tempo, ao material (quer alguns exemplos interessantes? O jogo de futebol com chapinha ou bola de papel, praticado pelos meninos, ou o jogo de elástico, criado pelas meninas, brincadeiras típicas da hora do recreio escolar.

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ESPORTE E LAZER

ESPORTE E LAZER As regras vão sendo testadas, discutidas e praticadas no dia a dia. Transgres-

As regras vão sendo testadas, discutidas e praticadas no dia a dia. Transgres- sões, reorganizações, propostas novas são comuns; a competição está pre- sente em muitos momentos. Nesta fase o aluno sente grande atração pelo jogo, sendo por isso um tempo privilegiado para desenvolver atividades cooperativas visando à compreensão do esporte coletivo como o resultado do esforço de diversas pessoas diferentes para um determinado fim.

Compreender o seu papel, o dos seus companheiros e o dos adversários

neste projeto coletivo, normalmente emocionante, que demanda esforço físico acima do rotineiro e que, ganhando ou perdendo, nos dá uma satisfa- ção enorme de ter participado, é uma forma de ampliar o autoconhecimen-

to

e o conhecimento do grupo. Auto-estima, auto-afirmação e autoconfian-

ça

dependem em grande parte da qualidade da participação do indivíduo no

grupo. O entendimento das relações estabelecidas por meio do jogo, as habi- lidades mais sofisticadas, a compreensão e a interpretação das regras com maior segurança, faz com que o/a pré-adolescente privilegie os esportes co- letivos. É importante frisar que existem pessoas que, apesar de participarem destes, mantém características marcadamente individuais, como é o caso dos goleiros no futebol. Muitos têm mesmo preferência por esportes individuais, como o atletismo, o surfe ou a natação.

A partir dos onze/doze anos é a fase mais adequada para trabalhar táticas

e estratégias para os esportes e possíveis competições, pois o amadureci- mento do raciocínio concreto e abstrato permite que ele(a) compreenda

as situações de jogo e faça sugestões que lhe pareçam pertinentes. O seu poder de crítica começa a ser cada vez mais testado.

O crescimento corporal acelerado e as alterações sexuais podem influen-

ciar nas habilidades motoras; a prática regular de esportes ajuda a estrutu-

MONITOR DE ESPORTES DE LAZER

Após os treze anos, o/a adolescente passa a evitar as ati- vidades esportivas nas quais não tiver confiança. Por falta de segurança nas suas habilidades e espírito crítico em excesso, consigo e com os demais, muitas vezes abando- na o esporte.

É fundamental que o monitor de esporte conheça estas

questões para que esteja atento e possa intervir de forma eficiente. Ele pode ajudar o (a) aprendiz a superar esta fase levando-o (a) a conhecer suas limitações e possibilidades, tanto em relação aos esportes coletivos, o que por vezes envolve negociações pro- blemáticas, quanto nos esportes individuais, pelo confronto direto com as habilidades dos demais participantes.

Nesta faixa etária o comportamento vai do agressivo ao passivo sem mai- ores explicações, o que requer do monitor de esportes um olhar diferenci- ado para cada aluno. Neste período de amadurecimento do grupo é im- portante organizar jogos, torneios e outros eventos esportivos que contem com a participação efetiva dos seus alunos, de todos e não somente dos mais hábeis.

Você perceberá a capacidade de alguns, que não obrigatoriamente são os mais habilidosos, para negociar os conflitos que surgem. A aceitação e a inclusão no grupo são importantíssimas. Logo o monitor de esportes deve proporcionar ao participante o maior núme