Conteúdo

Perdi .......................................................................................................................................... 1 Laço Eterno................................................................................................................................ 2 A voz Imaculada e o Beijo Letal ................................................................................................. 4 Beijos de sangue...................................................................................................................... 74 O Solitudo, solo beatitudo ...................................................................................................... 78

Perdi

O branco puro do papel me encara severamente. O lápis apertado em minhas mãos. Desde quando fora tão difícil transmitir uma idéia da mente para o papel? Arrisco escrever uma palavra, mas falho miseravelmente. Apago. Não é que eu não saiba fazê-lo, apenas esqueci-me de como. Papel e lápis apenas não bastam – reflito – mesmo que acompanhados de uma mente repleta de idéias – desisto. O papel continua imaculado. Abandono-os. Papel e lápis que se entendam! Deito e fecho os olhos. Não durmo. A mente atormenta. Insisto. Persisto. Desisto. A mente é mais forte que o corpo, sempre foi. Mas não é só dela, ou do papel ou da caneta que dependo. Ah! Se fosse! Escrever, como bem sabes, também é paixão e quando não há mais desta em um escritor sua escrita se torna miserável. Então ele falha pela primeira vez e, tão logo, falhará a segunda - uma vez que a segunda é uma conseqüência da primeira - e ele falha como homem, pois também perdeu o seu amor. A terceira e ultima falha acontece quando o homem – na percepção das falhas anteriores – perde a esperança e a fé e, por fim, perde a si mesmo. De que vale a vida quando o coração se torna raso e a alma fraca? De nada, eu lhe digo, querido leitor. De nada! Ah! Se soubesses como se tornam frias e solitárias as noites de um homem que perdeu o calor da paixão em suas palavras - e em si. Tento mais uma vez. Sento em frente ao papel e seguro o lápis firmemente na mão, como se ele quisesse escapar – e talvez ele devesse -, mas ele não tenta. Penso. Tento. Contudo, nada sai, nem uma rasura sequer.

Adeus! Talvez seja dado o momento da despedida. Falhei as três vezes. Perdi a paixão, o amor e a esperança. Sem esperança não há fé, não há nada. E não há mais nada a ganhar ou perder. Não há. É o fim. Perdi.

Laço Eterno

Jamais esquecerei da noite daquela quinta-feira chuvosa. As lembranças ainda estavam nítidas demais em minha mente que era inacreditável que já tinha se passado três semanas desde então. O último beijo; a briga; o rangido da porta batendo atrás de você e, algum tempo depois, o telefone tocando; o acidente; você e, por fim, a morte. Exatamente nesta ordem.

Hoje a chuva caía com a mesma violência lá fora e o vento sibilava movimentando as cortinas azuis que recebemos como presente de casamento. O azul delas não me parecia tão interessante agora. A televisão estava ligada, mas não era como se eu a estivesse assistindo, para falar a verdade, apenas a deixei ligada nessas últimas três semanas, porque o silêncio era ameaçador demais para mim. Ele deixava evidente que você não estava mais aqui, vivo.

Um relâmpago suave iluminou fracamente as cortinas. Eu permanecia, ali, imóvel encarando aquele aparelho e as imagens que se formavam em seu visor perfeitamente quadrado. Uma luz entrou mais intensa através das cortinas azuladas seguida pelo estrondo violento de um trovão. Onde quer que Thor estivesse, ele provavelmente estaria irado. Um leve sorriso de escárnio estreitou-se em minha face, mas este desapareceu imediatamente quando a televisão desligou-se. Tentei ligá-la novamente três vezes, todas falhas. Desisti depois disso, deduzindo que provavelmente a TV havia queimado. Fechei as janelas e fui rapidamente à cozinha pegar um pouco de café; em seguida, iria para o quarto me deitar na cama e esquecer-me da minha própria existência. Tudo estava perfeitamente planejado, mas um vento frio me fez retesar. Um arrepio cruzou minha espinha, eu fechei as janelas. Não fechei? Voltei à sala ignorando o frio sobrenatural que aparentemente tomara conta da casa. Verifiquei as janelas e percebi que estava certa anteriormente, eu realmente havia

fechado as janelas. A cada momento a situação parecia mais estranha. Algo me dizia que havia alguém ali, espreitando. Não é confortável, essa sensação. É desconcertante. Olhos por todos os lados. – Desculpe-me. – uma voz terna sussurrou em meu ouvido – Não foi minha escolha te deixar, Luísa.

Virei-me inconsciente para a direção de onde provinha a voz e vi você. Vivo? Morto? Não sei, mas era você. Gostaria de ter gritado ou falado algo, mas tudo morria em minha garganta. Você estava parado, idêntico a quando o vi pela última vez. Um corte feio em sua cabeça sangrava demais, a camisa estava rasgada e marcas de queimaduras em seu peito, onde o desfibrilador tentou lhe reanimar. E ainda havia o enorme buraco em seu abdômen, onde um um pedaço de ferro entrou em você, saído das entranhas do carro para você. Eu amaldiçoo aquele motorista bêbado até hoje. A notícia de TV, a morte de você. Às vezes para de ser real e eu acho que tenho pesadelos.

– Nunca foi e nunca será. - completou enquanto os braços frios e mortos me envolviam em um abraço. - Eu nunca poderia deixar você. - uma lágrima caiu sobre meu ombro. – Isso não faz sentido! Você está... - engoli em seco, mas fui interrompida antes de continuar a falar. Em meus olhos começavam piedosas lágrimas que rolavam pelo meu rosto, borrando o que restou de minha maquiagem. – Eu sei. - sua mão gelada pousou em minha bochecha, limpando os fios de lágrimas que escorriam ali – Seus sentimentos por mim mudaram? – Não. - respondi automaticamente – Mas e o ―até que a morte os separe‖? – Eu menti.

Então ele tomou-me em seus braços frios e mortos e eu finalmente soube que ficaríamos juntos não importasse o que, para sempre.

A voz Imaculada e o Beijo Letal

A morte e a vida, mãe e filha; amor e ódio.

Nascia em 1546 uma criança inocente fruto do pecado carnal. Não, nunca fora inocente, logo suas presas cresceriam e a criança mataria para sobreviver, uma vampira. Era filha de amantes, uma sangue-puro e um nobre, a mulher faleceu durante o parto e o pai culpou a criança. Ah Pobre criança! Sem inocência, sem a mãe e sem o pai. Tinha somente um nome Megan Lewis, seu nome e dela, a mãe que perdera assim que chegou ao mundo, era tudo o que sabia; seu nome.

Fora aprisionada em sua própria casa por longos 214 anos, vivendo a maior parte de sua infância sozinha, o pai não ia vê-la, ela não era merecedora. Tirou a vida da mulher que ele mais amara em toda sua imortalidade. Seu sangue era sujo, era fétido, ela apodreceu dentro do útero de sua mãe, adoecendo-a e em seguida roubando-lhe a vida, fechando seus olhos imortais para toda eternidade. Sabia disso.

Sempre se sentiu culpada, sentia-se um monstro, era um monstro; o monstro que roubava sangue para sua própria vida, uma vampira.

Dizia sempre quando criança.

“Quão perversa sou! Sacrifico a vida dos outros para sustentar a minha, no momento em que nasci comprovei minha natureza cruel, roubei a vida da minha mamã.” “Você era apenas uma criança, não teve culpa.”

Uma voz falava carinhosamente, ela a ignorava, já tinha em minha mente não ser digna de qualquer afeto, estava acostumada a isso. Mas a voz persistia cada vez mais, de quem era aquela voz doce?

“É você mamã?”

A criança sem inocência estava confusa, seu coração pesava, seu corpo doía, estava na hora de se libertar.

Minha beleza imortal.“Viverei por você mamã e cantarei apenas para você. minhas presas irão provar o doce sabor. (Guiada apenas por um sentimento) All around is light. mas ninguém parecia se importar com o aquecimento precário. a vampira que hipnotizava homens e mulheres tanto com sua voz quanto com seus olhos cantava a sua última música da noite. (A noite se abre) Led by just a feeling. encanto e morte. A neve caia pacificamente do céu estadunidense. e lá dentro? Uns sete graus talvez. era uma noite fria típica do inverno de Nova York.) . (Tudo em volta é luz) Everything is healing.” Teu sangue. Deveria estar fazendo uns quatro graus negativos do lado de fora daquele bar. (Sem destino e sem mistério) Even as time falls away (Mesmo que o tempo se parta) I live my days every moment and its memory. (Eu vivo meus dias todos os momentos e sua memória) not only to survive to die alive. (Tudo está cicatrizado) No more fate and no more mystery. não enquanto a aquela voz angelical ecoava em seus ouvidos e os olhos azuis hipnotizantes cintilassem com as luzes arranjadas. “Open up the night. (Não apenas para sobreviver. minha beleza imoral. para morrer vivo.

Sim. (Não apenas para sobreviver. Meu único confidente e meu amante James. (Cantando no meu sangue mantendo-me de joelhos) No more fate and no more mystery. seja o que for era imperdoável ele não ver minha última apresentação.Overwhelming love. mas não há sangue nesse mundo que me faça ficar. (Sem destino e sem mistério) Even as time falls away (Mesmo que o tempo se parta) I live my days every moment and its memory. o AB positivo. aquela pessoa. diga aos outros que tive que ir embora. ―Será que aconteceu algo?‖ Pensei e apanhei minhas coisas que estavam atrás do palco. Hoje era especial. Tenho coisas para resolver. . (Eu vivo meus dias todos os momentos e sua memória) not only to survive to die alive. darling? Garanto uma taça de seu sangue predileto.) Die Alive. (morrer vivo) Die Alive – Tarja Turunen A platéia aplaudia em frenesi enquanto a luz apagava lentamente dando sinal que o show havia terminado. para morrer vivo. heaven's just a feeling. ―O que diabos ele estava pensando? Estava mais do que combinado que essa noite ele era meu e apenas meu. „cher‟? – perguntava meu contra baixista. . O paraíso é apelas um sentimento) Singing in my blood keeping me from kneeling. estou indo.Já vai. – respondi rapidamente. com aquele sotaque francês falso. Bye bye! – . Leonard. mas algo estava errado. (Devastando o amor. ela não estava lá. não agora. não estava com a mínima vontade de conversar agora.Mas vai perder a nossa festa de último show.É realmente tentador Leo. .‖ Pensei furiosa enquanto pegava minha bolsa. é um sangue raro você sabe! – Deu-me uma piscadela convidativa insistindo mais uma vez. .

o coitado mal poderia imaginar que na verdade ele era a presa ali. . Precisava chegar logo ao apartamento. Não consegui nem ao menos utilizar minha velocidade vampírica. ele era bem espaçoso levando-se em conta que essa é a sétima rua com o metro quadrado mais caro do mundo. minha garganta clamava pelo doce sangue. o meu desejo. foi difícil encontrar um bom imóvel com preço acessível. qualquer esforço e desperdício de energia triplicariam minha sede. é claro. Assim nossos ataques não eram freqüentes afastando-nos dos olhares dos caçadores. em Nova York. ―James seu bastardo filho da puta!‖ Xingava-o em pensamento. mas por estar faminta. Apressei meus passos naquela rua deserta. eu não hesitaria em atacar o primeiro humano que aparecesse.Está falando comigo? – sorri maliciosamente sem virar-me.Hey! Riquinha onde pensa que vai sozinha essa hora da noite? – ele dizia com deboche. era hora de acertar minhas contas com aquele vampiro egoísta com quem eu vivia e amava. um homem resolveu expor-se a minha sádica tentação de roubar sua vida. . O vento habitual daquela noite fria deixava uma sensação térmica de dez graus negativos. tínhamos uma reserva grande de sangue lá. está vendo alguma outra pessoa aqui? Gargalhei ainda de costas para meu suposto agressor. – Já são mais de meia noite. levávamos uma vida apenas confortavelmente com alguns luxos. não por medo. James e eu nunca fizemos o estereotipado gênero de vampiros ricos. . talvez a nobreza do meu sangue perdeu-se quando pisei naquele lugar. o precioso alimento que dava imortalidade. Foi então que uma voz.Mas é claro que estou sua vadia. O frio cortava-me a garganta aumentando a minha sede. se não fosse o meu sobretudo preto provavelmente estaria praticamente congelada pelo choque térmico. a ―cinderella‖ deveria estar em casa como uma abóbora. mas eu não podia cegar-me com os instintos. .Dei as costas e sai pelos fundos daquele bar nova-iorquino imundo. meus olhos azuis agora eram de um vermelho intenso. seu sangue. amaldiçoando e praguejando com todas as palavras que me ocorreram. as entranhas queimavam pedindo pelo alimento sagrado para os vampiros. Faltava apenas uma rua para chegar ao nosso apartamento na East 57th Street.

desta vez seria diferente. sentado em sua poltrona favorita de couro negro. James havia viajado mais uma vez este mês. meus lábios apenas se contorciam em um sorriso faminto. James. suguei cada fio de vida que ele poderia ter e quando o deixei já não havia mais sangue em suas veias. Abri o bilhete rapidamente. – Sorri de forma doce tornando a situação mais mórbida para minha pobre vítima. bitch! – ele correu voraz para cima de mim com uma faca. a aflição terminaria logo. ele uivou de dor. Surgi atrás de seu pescoço. não havia ninguém lá exceto por um bilhete sobre a cama com uma gota da sua essência.. não havia mais nada. estava ficando cada vez mais freqüente.‖ Pensei suspirando. . rasgando-lhe a pele do pescoço. – Don‘t worry baby. – Não é muito difícil constatar não é. “Dear Meg. não era do meu feitio beber sangue diretamente do pescoço. mas estava vazio. apliquei o meu beijo letal sugando todo resto de sangue que poderia ter sobrado. não poderia responder-me. Ataquei-o sem delicadeza. podia ver as veias pulsando. – O-o-o que você é? – ele balbuciava aterrorizado fitando meus olhos vermelhos e minhas presas agora expostas. – Seu sangue é tão saboroso e doce. – acrescentei após me aproximar mais de seu rosto paralisado em medo. mas a sede havia me consumido. posso provar dos teus lábios? – O homem já estava inconsciente. ainda tinha um assunto inacabado. Com minha fome saciada segui para casa mais tranqüila. utilizei minha velocidade vampírica interrompendo-o e o fazendo cair para trás com o susto. eu iria encontrá-lo não importa o lugar do mundo em que se metera. Fodase a sede triplicar-se. entretanto violei-o. Comecei a ler. chamando-me. não vai doer nada. aquilo divertia o monstro sanguinário que habitava em mim. rasgando o envelope nobre em que estava. seu sangue. agora eu teria meu alimento. Abri a porta do nosso apartamento esperando encontrá-lo lá. Cheguei rapidamente. Eu via pavor no seu olhar. Meu riso parou.Are you crazy? Não há motivos para rir. como se aquilo fosse ameaçador. exceto é claro por uma vampira satisfeita. ―Como se anda mais rápido quando se está alimentado. já não havia mais esperança para sua alma.

mas estaria melhor com você aqui. mudou de idéia „chér‟? – Ele repetiu a tentativa de um sotaque francês. gostávamos de variar bastante. não é? . ligue-me assim que ler esse bilhete. – Pensei que não me ligaria mais hoje. Sua voz suave logo cortou o silêncio. – Você nunca muda mesmo. Eu podia observar pela vidraça clássica do nosso apartamento enquanto discava o número do celular de Leo. “Logo eu poderei vê-lo. na 57st. Já estou com saudades. não é? Espero que possa perdoar esse vampiro fascinado por você. caso eu não esteja não se preocupe.” – Londres é? – Meus lábios se contraíram em um sorriso mal-intencionado. With love. prometo que quando voltar não deixarei você sair da nossa cama. o maldito táxi deveria ter se perdido. A neve já não caia tão intensa lá fora.Houve alguns problemas com meu emprego e tive que viajar com urgência. já havíamos nos apresentado em quase todos os bares noturnos da ―Grande Maçã‖. a velocidade vampírica é bem útil nesses momentos. – Já estava ficando com saudades da capital inglesa mesmo. que não tardou a atender. ainda mais que pedi para que ficassem atentos caso você ligasse.” Havia ligado para uma companhia de táxi vinte e quatro horas e já fazia mais de vinte minutos. um sorriso cortou os meus lábios enrubescidos. os humanos realmente são lentos. As malas ficaram prontas em alguns segundos. Você me entende. darling! – Como está a comemoração? – Está boa. E claro. mas fui forçado por motivos maiores. sinto muito por perder sua última apresentação eu não queria. your James. a recepção do Hazlitts Hotel daqui de Londres é impecável e não esquecerá de nenhum recado. I Love you. Para passar o tempo resolvi ligar para Leo e saber como havia sido a comemoração da nossa última apresentação naquele bar.

embora nunca houvesse nada entre nós. – Mas agora tenho que desligar. adorava passar-me indiretas completamente diretas e. ou talvez fizesse isso tudo para se distrair. ou já se esqueceu? Leo sempre seria assim. Ainda insiste com isso baby? Na verdade estou ligando para comunicar a minha recente viagem. – Oh. confesso que se não fosse todo meu carinho por James eu teria caído em seus braços há tempos. Se James não estiver ―dando conta do recado‖. como eu o chamava. baby? Pensei em receber notícias suas só amanhã. Sempre fora assim desde que nos conhecemos. Acompanhei-o de uma forma mais discreta com apenas um sorriso tímido que só as paredes daquele cômodo tiveram o deleito de presenciar. o táxi acabou de chegar. – Por que me ligou tão cedo. Leo. – Obrigada Leo. se não tentasse me cortejar não seria realmente ele.. era um pecado negar os sentimentos que me oferecia. ora. Leonard era sempre assim. apanharei James de surpresa. . Entretanto eu era fiel a James.. . – Ora. ele persiste em seus sentimentos insensatos. dando continuidade a conversa. O riso cessou. you know. ok! Mas não me disse para qual aeroporto você pegará o vôo.Ele riu descontraidamente ao ritmo da música ao fundo.Você já chama atenção baby. – Londres? Hum. Você é uma vampira. pode me chamar. possuía cabelos castanhos escuros e olhos tão negros como uma noite sem luar e sua pela alva ressaltava-os mais do que deveria. uma vampira linda. estou indo para Londres. sinto minha estima aumentar sempre que converso contigo. – Rimos juntos...Ele silenciou por alguns instantes – Já tem a passagem? – Pretendo alugar um jatinho particular corriqueiro. não quero chamar muita atenção. – Chamar a atenção? – Ele gargalhou .

a temperatura do lado de dentro era bem mais agradável e amena. o trânsito da “Big Apple” estava tranqüilo hoje. – Hum. aeroporto Internacional John F Kennedy. E ele estava lá. – O que? Leo? Ele desligou.. – Presente? Está louco? Preciso de um avião! . o taxista já estava me esperando na portaria. logo estaríamos chegando ao aeroporto. Entrei no táxi. Entreguei-lhe as duas malas pretas da Prada e seguimos para o táxi. apenas vim me despedir e te dar um . perto deles eu era completamente outra. Desci com minha bagagem pelo elevador. feito uma escultura perfeita do século XV moldado com todos os cuidados que somente Michelangelo Buonarotti teria. O pessoal da banda. é claro. mais espontânea e feliz. certo? Encontro você lá. principalmente Leo e James. rápido „please‟! Recostei minha face na janela observando as luzes que passavam rápido em flash. – Ei. terminal nove. parado. – Para o Aeroporto JFK.– Irei para o JFK. presentinho. Paguei cento e vinte dólares ao taxista e fui rumo ao saguão do terminal que Leo mencionara antes de desligar. alugar um avião de pequeno porte não seria problema. são um dos poucos para tratar-me com tanta liberdade. ei! Cuidado para não sermos vistos. Darling! Pensei que não chegaria hoje.. Em menos de uma hora e já estávamos no aeroporto. apesar da neve cair com menos freqüência. – Ele sorriu mostrando-me os caninos puramente brancos. diferente da maioria das vezes. digamos. Era pouco mais das duas e meia da manhã e o ar gélido daquela madrugada de inverno estava mais intenso. – Como demorou. por que veio? – Calma ‗chér‘. Aquele que fica no sudeste de Manhattan. afinal somos a cidade que nunca dorme.

parece que o tempo pára enquanto voamos. Leonard me conduziu pacientemente até o avião onde o seu mordomo particular e o piloto me aguardavam. o mordomo. – E você acha que eu deixaria uma vampira rara como você nas mãos de um piloto qualquer? De forma alguma. Se cuide! Qualquer coisa pode me ligar que irei voando para te ver. . Sempre chegamos à mesma hora em que partimos. I know. – Deu-me uma piscadela e sorrimos. – Megan. recebi notícias que vários Level E ensandecidos estão soltos pelas ruas causando muita dor de cabeça para as autoridades e caçadores. alright baby? – Os level E são a escória da nossa sociedade. – Good Night Srta. . o avião da minha família está a sua disposição e pronto para partir agora. não se preocupe. – O piloto curvou-se formalmente em minha direção. Parece que eles estão sendo controlados por um nobre ou coisa parecida. – Foi a última coisa que disse para ele. Afinal estávamos em Nova York. Há um traidor entre os vampiros. Mas. Megan. O mordomo que até agora estava quieto. afinal eu sou uma nobre.– Exato. – I Know baby. Leonard que estava acenando sorrindo para nós. tome cuidado. a família de Leonard realmente sabia como viajar luxuosamente. você é a sereia da nossa banda. chamou-me e me conduziu para dentro do avião.Mas muito obrigada! – Agradeci de uma forma sincera. mesmo assim se cuide. correu até mim como se estivesse esquecendo de algo. Caminhamos por alguns minutos e logo chegamos à área de embarque particular da família Chevalier. O aeroporto não estava muito movimentado. mas ainda havia muitas pessoas em todas as partes. Viajar de Nova York para a amável Londres era tão mágico. Tom. – Tomarei cuidado. – Leonard levou-me até a porta do avião beijando carinhosamente o dorso das minhas mãos pálidas. Espero que possamos fazer um ótimo vôo. a porta do avião foi fechada. Vamos? – Ele falou caminhando em direção aos portões de embarque. Agora vá. a Inglaterra mudou muito. – Não precisava Leo. o interior do avião era completamente personalizado. . A minha sereia.Falei um pouco atordoada com a resposta. Observei tudo cuidadosamente. Esse sim poderá ser perigoso. não há como eu correr riscos com aqueles trastes.

Boa viagem! Beijos. A noite na graciosa Londres estava fria e naquela garagem parecia que o frio era ainda maior. Eu espero que tome cuidado na Inglaterra e siga completamente as instruções que foram passadas antes da sua partida.” O avião decolou. como eram belas. Assim que o avião pousou no solo inglês fui despertada. pela última vez fomos um só. “Darling Meg. Logo chegaríamos a então capital inglesa e James se veria comigo. Descemos do avião na garagem particular dos Chevalier. O suave perfume dos príncipes negros impregnava cada parte daquele lugar inebriando-me. era um carro lindíssimo. Adaptei o meu relógio de pulso para o horário da nobre Inglaterra. – Senhorita Lewis. Quando chegar até o Aeroporto Heathrow.trouxe-me um ramalhete de príncipes negros. em companhia daquele bilhete carinhoso adormeci. suas asas cortavam o ar da madrugada fria. O mordomo de Leo caminhou até um Bentley Zagato GTZ preto e guardou minha bagagem no porta-malas. O mordomo então não tardou a me convidar a entrar naquele belo carro. Leo. Embebida pelo prazer do seu sangue permutado ao suor de nossos corpos. havia um vermelho tão intenso quanto o sangue. vamos? – O mordomo dos Chevalier estendeu-me a sua mão para me auxiliar a levantar da confortável cadeira de veludo na qual eu me instalara. Olhei pela janela e pude observar a tradicional neblina inglesa. Ligue-me se precisar de qualquer coisa. Acenei com um sinal positivo com a cabeça e levantei. Já estava mais do que na hora de eu achar James e acertar as contas. Espero que tenha gostado das rosas. realmente havíamos chegado. . E mais uma vez. meu mordomo Tom levará você até onde desejar. cuidado. e então. Entre os ramos havia um bilhete endereçado a mim. sentei-me com o ramalhete no colo abrindo o cartão. um vermelho veludo que me fascinava.

– Então de fato os rumores eram verdadeiros. era exatamente ali. humanos são tão burocráticos. – me. – Good night Sir. – falei para mim. um homem estava sendo completamente drenado por três Level E. só me faltava ter James. – Não estou lhe perguntando se pode passar a informação ou não stupid! Em que quarto ele está? – Utilizei o meu dom para agilizar as coisas.. pois em menos de dez minutos havíamos chegado ao hotel. eu sei me virar. – Terceira porta a direita no segundo andar. aquele que eu esperei tanto .. – Olhei para a porta a frente conferindo-a com minha nota mental. –Ah sim. Carreguei minha bagagem até o segundo andar. sempre fora tão nobre. – Agora que eu já tinha o quarto. Sim. Disse algo senhorita? – O mordomo indagou- Depois disso o silêncio voltou a tomar conta do veículo.. eu estou procurando por James Lionel Martin. – Oh sorry. – Melhor assim. – Tem certeza que não quer que eu leve as malas até o quarto senhorita? – O mordomo insistiu mais uma vez de forma gentil. sigamos para o Hazlitt's Hotel. Agradeça a Leonard em meu nome. – Desculpe-me senhorita. Estávamos a poucas quadras da 6 Frith St quando eu notei algo estranho. . – Ele está em um dos nossos Deluxe Rooms. não estava muito pesada e sozinha eu poderia utilizar minha velocidade vampiríca para chegar mais rápido e assim o fiz. segundo andar a terceira porta a direita.Não permiti que o homem continuasse a frase.. Enquanto passeávamos pelas mais variadas ruas aproveitei para relembrar minhas lembranças da antiga Londres. mas não teve muita importância.. A decoração era perfeitamente bem escolhida. – Não há necessidade.. please. mas nós não pod. Segui até a recepção. Não foi preciso dizer mais nada. – falei pela última vez ao servo dos Chevalier e entrei no hotel.– Para onde eu deveria seguir senhorita? – Ele me perguntou olhando pelo retrovisor. ele havia dado partida no automóvel. apenas pensei alto. Os móveis antigos com toda a certeza davam um toque de classe àquele local.

. – Por que esperar você voltar se temos uma cama aqui? . Saudades do cheiro.James. – Era tudo que eu conseguiria dizer naquele momento. um convite e tanto para o pecado. – Falei tentando parecer um tanto quanto misteriosa. Alisava. prometo que quando voltar não deixarei você sair da nossa cama – Citei uma parte da carta. ele me atacara de surpresa. mas logo foi possível ouvir passos até a porta. estava estático olhando-me com aqueles olhos de tons esverdeados e sedutores.. a mesma que ele me deixara.. Bati na porta sutilmente. Envolveu meu corpo esguio num abraço ressequido. .para ver estava por trás daquela porta de carvalho antiga.Você sente princesa. – Jam. não foi justo. apertava e o mordia a cada movimento frenético de nossos corpos. mas nada disse. Pareceu surpreso em me ver. – Já estou com saudades.esfregou seu corpo no meu. Mas ele era o homem. . mas logo depois sorriu daquela forma que me enlouquecia. dos toques.. Passei minhas pernas por cima dele envolvendo-nos mais. acariciando cada parte do meu corpo magro de vampira. sentindo o cheiro esplendido dele.. provocando uma onda perfeita de choques estáticos de prazer. jogando-me na cama.Então enterrou seu rosto entre meus cabelos. – Abra e descubra. Eu sempre estava pronta pra ele. Resolvi dizer-lhe algo.. – Ficar longe da minha princesa de voz encantadora me deixa assim. James estava perfeitamente belo e sem sua camisa exibindo aquele corpo bem definido e impecavelmente pálido. completamente envolto das saudades que sentíamos..Sente como sua falta me deixa louco. e os homens como ele comandavam esse tipo de situação .. A porta abriu rapidamente após isso. .. Ele pousou os lábios gentis em meu pescoço.. De início estranhei o silencio.forçou sua pélvis coberta nas minhas pernas . Eu era mais experiente que ele em anos vampíricos. Ele tocava-me. Quando pude me dar conta já estava em seus braços sendo amada por ele. . – Quem é? – James perguntou do outro lado. queria tê-lo todo para mim naquela noite. dos beijos.Sorri maliciosamente agitando a carta ao ar. James pareceu primeiramente assustado.

Sabia que queria seu sangue. Megan. querendo provar do sangue dele. Sem espaços entre meu corpo quente e o delicioso dele. pouco importava pra nós dois. Descontrole e prazer. Eu gritei e poderia gritar o mais alto que eu quisesse se fosse prazer. Ele sabia que eu só queria sentir as estocadas que ele dava num ritmo acelerado. de forma que nossos corpos se arrastavam pro meio da cama no impacto delicioso da pélvis na minha intimidade.. geme bem baixinho meu nome. querendo sair. não beberás do meu sangue esta noite. Diz que é bom sentir saudades. Assim eu era para ele.Foi tudo rápido demais. e sem interesse da parte dele avaliar isso quando eu afastei os joelhos.. se eu continuasse as cravando nas costas. E então foi a minha vez de pôr-me incontrolada embaixo dele. o anjo de voz doce tinha. Ele sabia que eu queria mais das suas mãos. nenhuma palavra poderia definir melhor o que eu estava sentindo. rasgadas.. O quarto todo estava repleto de nosso cheiro doce.. As saudades e a vontade de provar-nos inteiros nos puseram loucos. Aquelas unhas poderiam ser fatais pra ele. com força e com rapidez. do cheiro de sangue maldito dele escorrendo das costelas até o corpo divinamente branco.investia seus quadris nos meus.. As minhas presas de vampira se abriram naquele sorriso sádico e imoral. Parecia que ele precisava sentir aquela cavidade o quanto antes. dor ou saudade. pedindo que ele me devorasse completamente. E foi sublime quando ele se alojou por completo ali dentro. Um anjo da morte. letal quando gemia no seu ouvindo pedindo mais. diz que gosta quando eu fico longe. . segurou o membro com as mãos e penetrou. dando o ar de mistério que só eu.. Mas ele continuava estocando.. James penetrava em mim cada vez mais intensamente. – Diz pra mim. e olhos meio fechados. – Ele me impacientava. Forcei as mãos presas nas dele.. Geme vai. As roupas minhas e de James num quarto de segundo estavam ao chão.. Ele sabia que eu queria sangue. e o cheiro do seu . cheia daquela malícia que ele amava: de sorriso torcido.. E foi o que ele fez. repuxadas. – Oh. – Desista baby. querendo dominá-lo. tocando meu corpo todo fervendo de desejo. – Segurou-me pelos pulsos acima da cabeça.

. se afundando completamente no pênis. Eu não tinha cabrestos e meu prazer também não. por que me negava o prazer de acariciá-lo? Bagunçar seus cabelos negros da cor dos meus enquanto gemia de prazer? O seu sangue misturava-se ao nosso suor.. quando ele despejou inteiro em gozo e sede no meu corpo. Queria morde-lo. definitivamente ele estava me provocando. Ele mal pode combater as minhas presas na sua clavícula. até porque eu já havia definhado . o pondo deitado na cama. Meu quadril enterrado em nele. o meu quadril subindo e descendo. – Segurou com mais força as minhas mãos ávidas. eu gemi alto seu nome. Minhas mãos presas pelas dele. Mas foi inútil.. até o fim. Sentido eu sugar o seu sangue quente. – sorri com prazer. o suor de dois vampiros enlouquecidos pela volúpia daquela noite. – Jam. O maior erro que se pode cometer na cama comigo é justamente esse: abaixar a guarda. – Jam. Eu o punia. Cavalgando gostoso. Num lampejo que seus olhos de metal não captaram.sangue era delicioso.. Por meros momentos ele se deixou levar pelos meus movimentos. ainda se movendo pra cima e pra baixo. e quando eu desejo algo. Eu o desejava pro completo. ele forçou o meu quadril e numa estocada magistral que fez meus lábios segregarem de sua pele. completamente inútil. seja mal. deixe-me.James. como só eu saberia fazer. era tudo que eu precisava.. lá dentro. não conseguiria me soltar facilmente e aquilo me enlouquecia. James.. – Vai ter que implorar anjo. Eu era mais forte que ele nesse quesito.... não . deitei em seu peitoral pálido feito mármore branca e completamente definido como sempre fazíamos. Logo depois daquele ato cheio de volúpia e luxúria.. o que você andou fazendo? – Eu sabia que James não era nenhum santo. segurando suas mãos nas minhas. eu girei meu corpo no dele sem o deixar sair de dentro de mim. as mãos segurando meus ombros. não é aconselhável me negar tal coisa. antes de eu te morder havia uma mordida lá. Punia-o por tentar controlar minha fúria. mostrando meus caninos alvos. sentir seu sangue quente cortando minha garganta. Mas parecia cansado e fechou os olhos.

como o que acontecia agora. “O que diabos James vai fazer ali?” Depois de alguns minutos em que ele entrou. saindo em seguida?” . – Se você não confia em mim. – Corri atrás dele apanhando minhas roupas do chão também. como se eu tivesse cometido o maior dos pecados. – Ele deixou o quarto e trancou a porta do lado de fora. não deveria estar comigo. mas eu não poderia demorar demais se não o perderia de vista. – Impossível você deve estar louca. ela estava abarrotada e era de fato impossível eu ver James naquele ‗inferninho‟. Andamos uns quinze minutos no máximo até chegar a uma boate em um beco escuro nos arredores não tão nobres de Londres. apesar de que James parecia perdido demais em seus pensamentos para notar que eu estava o seguindo de fato.algumas das ‗amantes‘ dele. Aquele local cheirava a álcool. – Não estou louca James. – Estou convicta do que vi. mas sempre eram todas humanas que ele usava para nos servir de alimento. prendendo-me no quarto como se aquilo fosse capaz de me impedir. decidi arriscar e entrar também. Quando eu entrei pude perceber que não era uma boate comum e sim uma para vampiros e caçadores. Se eu entrasse muito rápido ele perceberia minha presença e tudo iria estar arruinado. Eu nunca fui uma das mais obedientes principalmente quando eu estava irritada. – Ele olhou-me aterrorizado. O que eu detestava de fato eram as mentiras. Utilizando minha superioridade em velocidade em menos de alguns segundos eu já estava vestida e pus-me a segui-lo cautelosamente para que ele não me notasse. “Como aquele maldito ousa me deixar falando sozinha e ainda me chamar de louca. – Não venha atrás de mim. volte aqui. Olhei no relógio e ainda era um pouco mais das três da manhã Tratei de me vestir rápido. – Você definitivamente está louca. nunca de fato houvera alguma vampira. Mas mesmo assim não desisti da minha caçada. – ele se levantou e pegou a própria roupa do chão. – Ele vestiu um casaco por cima das outras roupas e advertiu. sangue e tabaco.

. minha beleza maldita e minha voz angelical. meu corpo e minha voz cederam ao desejo de cantar. mas eu já sabia o que fazer. Todos estavam dominados com o meu dom divino. Quando eu me levantei. Foi até que então um bastardo esbarrou em mim e eu tropecei por causa de um desnível a minha frente.. hipnotizando homens e mulheres. You only see what your eyes want to see (Você só vê o que seus olhos querem ver. era um bar Karaokê. “Merda! Não tenho tempo para isso.) You're broken.Havia tantas pessoas que eu não conseguia ver o chão de forma alguma. o bar inteiro entrou em êxtase.) Quando os primeiros versos saíram..) Aproveitei que a multidão estava quieta e hipnotizada pelo meu desempenho no palco.” Entretanto já não havia como fugir. o primeiro tom da música havia sido tocado e eu fui dominada pelos acordes daquela melodia. uma luz forte acendeu sobre minha cabeça e toda a atenção do local foi direcionada a mim. If I could melt your heart .) You waste your time with hate and regret (Você desperdiça seu tempo com ódio e arrependimento. Mmm-mm-mm. minha voz ecoou em cada canto. vampiros e caçadores.) How can life be what you want it to be? (Como pode a vida ser aquilo que você quer que ela seja?) You're frozen. when your heart's not open (Você fica arrasado quando seu coração não está aberto.. You're so consumed with how much you get (Você está tão consumido com quanto você consegue. when your heart's not open (Você fica congelado quando seu coração não está aberto. A letra da música passava diante dos meus olhos em uma tela. para tentar achar James. Foi inesperado. “Onde você está querido?” era tudo que eu conseguia pensar.

Todos aqueles que estavam sentindo o tom suave da minha voz puderam sentir uma mudança repentina.. We'd never be apart (Mmm... entregue-se para mim....) Mmm-mm-mm. Entregue-se para mim. nós nunca ficaríamos separados. We'd never be apart (Mmm.. ciúmes e angústia por não poder sair dali até o fim da música.. Raiva.... she needs to fly (O amor é uma ave. when your heart's not open (Você fica frio quando seu coração não está aberto..) Mmm-mm-mm...) You're frozen.) Mmm-mm-mm.. Give yourself to me (Mmm. nós nunca ficaríamos separados.) Love is a bird.) And you should know I suffer the same (E If (Se I eu você lose perder devia you.) Continuei cantando.. deixando meu corpo se mover no ritmo lento da música... você.......) broken partido... If I could melt your heart (Mmm..) Mmm-mm-mm.) Foi então quando eu finalmente o vi. O maldito estava cheirando as madeixas de uma mulher com o cabelo colorido de ruivo artificialmente.) Mmm-mm-mm.. saber my meu [que] eu heart coração sofreria will o be ficará mesmo.. você possui a chave...) Mmm-mm-mm... You hold the key (Mmm.(Mmm... se eu pudesse derreter seu coração... You hold the key .. Mmm-mm-mm..) Let all the hurt inside of you die (Deixe toda a dor dentro de você morrer.. Como um anjo caído eu dominei aquele lugar. ela precisa voar. se eu pudesse derreter seu coração. Give yourself to me (Mmm. Now there's no point in placing the blame (Agora não tem propósito em estabelecer a culpa.

. pelo menos não para nós vampiros.) “Ele estava provocando minha ira.. Meus olhos podiam acompanhar todos os movimentos como se tudo estivesse iluminado.. when your heart's not open (Você fica congelado quando seu coração não está aberto.... You only see what your eyes want to see (Você só vê o que seus olhos querem ver.. ou até .. se eu pudesse derreter seu coração......(Mmm.. If I could melt your heart (Mmm..) Minha voz estava de certo com um tom ameaçador e isso aumentou o frenesi da platéia.. (Se eu pudesse derreter seu coração....) Mmm-mm-mm.. mas aquilo não era um problema.... nunca seria um problema.. Give yourself to me (Mmm.....) How can life be what you want it to be? (Como pode a vida ser aquilo que você quer que ela seja?) You're frozen. We'd never be apart (Mmm.) Mmm-mm-mm... entregue-se para mim. você possui a chave... Mmm-mm-mm.. Maldito!” Praguejei mentalmente.. você possui a chave. You hold the key (Mmm. nós nunca ficaríamos separados.. o som de um tiro soou e sentimentos como raiva e pânico afloraram na pele da vampira cantora Todas as luzes se apagaram e a escuridão tomou aquele lugar.) Mmm-mm-mm.) A luz se apagou.) “James você não escapará” If I could melt your heart..

ensandecida por causa do suculento liquido vermelho. era preciso deixar de lado a delicadeza. Além de estar entre uma multidão faminta de vampiros loucos. O mesmo cheiro do sangue que tomei outrora atrás e que ainda corria no corpo de James. Nem mesmo na grande maçã os bares eram daquela forma. o sangue. Corri de uma forma sutil. como de vampiros para humanos. Mas dentre todos os odores do sangue espalhado naquela cena nefasta até para mim. Do lado de fora pude observar o motivo da loucura que se alastrou lá dentro. chamar aquilo de um pub inglês é ir muito além do eufemismo. Mas eu não poderia me distrair. esgueirando-me entre os vampiros sedentos e loucos. . Humanos realmente não sabiam apreciar o bem precioso que corre em suas veias. Gritos ensandecidos do lado de fora e o cheiro de sangue invadiram violentamente aquele pub. não havia definição melhor. e nem deveria. mas não consegui alcançá-lo. juntos eles eram fortes. “Será que aquele tiro acertou James?” Um tumulto repentino formou-se junto com a queda da luz. eu ainda era um ser da noite. A velocidade e força de uma vampira nobre é muito superior do que aquela multidão louca que eu me encontrava. Uma chacina tanto de vampiros contra vampiro. Afinal. O liquido rubro estava espalhado em todos os cantos. eu não conseguiria me libertar daquele tumulto facilmente. Vampira.melhor. A escuridão de certo melhorava a minha percepção e meus dons vampíricos. Consegui distinguir um cheiro único. Talvez se eu não tivesse me alimentado antes. Rapidamente consegui me retirar daquele maldito ―pulgueiro‖. precisava encontrar James. apesar de muitos ali serem apenas vampiros comuns ou level E. – Ja-James? Observei um homem que parecia estar ferido saindo do bar cambaleante. provavelmente estaria tal qual a escória dos Level E. desperdiçado.

por que tem feito isso? Quem o controla? – O homem pôs-se entre a ruiva e James. . instintos de vampira. Só me resta descobrir o porquê disso tudo. idiotas? É por isso que nos toma? Acha que temos tempo pra perder com você? . .Segui meus instintos de mulher.. com o intuito de levantar suspeita sobre as famílias nobres e puro sangue daqui.. Os vampiros que Agnes matou. “O que?” pensei comigo mesma. não era a voz de James. confirmaram sua trama.voltou a empunhar armas pro herdeiro legítimo da Aston Martin. Seus olhos vertiam medo.James gritou caindo de joelhos encobrindo a face. nos poupe de suas mentiras.Não conseguiu achar palavras. impedindo um ataque ofensivo de ambas as partes. – Não preciso da Associação pra matar você.Nós já sabemos que é você quem está recrutando Level E e os trazendo a Londres. não era a voz de quem eu queria. Utilizei minha velocidade vampiresca para diminuir a distancia.O homem apontava sua arma pro meio dos olhos dele . – Eu não fiz nada . eu.. ela me manipulou desde o começo .Essa mulherzinha sem passado quem tem feito isso? O que você pensa que somos.. James.Foi ela. estava desesperado. . James. minutos atrás enquanto eu perseguia sua trilha mal disfarçada.Agora apontava em minha direção. – Vamos James. Sim eu era tudo o que ele precisava para escapar daquela situação funesta. o anjo dele apareceu para salvá-lo. Estava bem próxima quando ouvi uma voz masculina gritar. não queria morrer daquele jeito. . E quando já não havia mais esperanças. – Eu. diga. acusando-me de uma coisa que eu nem sequer imaginava o que poderia ser. “O que diabos está acontecendo?” – Ela? – A maldita ruiva que James acariciava enquanto eu fazia minha performance no palco apontou suas adagas pra mim . James aparentava estar incrédulo. eu não.

e isso em minha mão é uma legítima . passando pelo corpo imponente do caçador . – O caçador agora havia engatilhado sua arma.Aquele cheiro não poderia me enganar.. – Saia da frente vampira! – A ruiva vociferou. É hora de colocar um fim nisso. ofereceria minha ―vida‖ por ele.. acaso não viu o que ele tentou fazer. O único com quem poderia dividir o que era chamado de ―vida‖. O que aqueles malditos poderiam querer com James? Pra que todo aquele estardalhaço? James permanecia calado. .Aposto que a sua maldita associação não ficaria nada contente com isso... Meu único amor.Falava repetidamente tentando parecer convincente. Não mesmo! – Mentiras repetidas muitas vezes não as fazem verdades.Por que tenta proteger esse desprezível. eu fui manipulado. mas não consegui acreditar no que via. aquele que me salvara das trevas no passado. – Não! Não vou deixar que vocês façam isso com ele! . Essa maldita que agora está em meus braços irá morrer se vocês se aproximarem mais um pouco. eram caçadores. . Ainda de joelhos fingia um desespero covarde. E muito menos o Conselho de Anciãos. mas tenho certeza que. segundos atrás? – Eu realmente não entendo o que está acontecendo. Eu observava aquela cena. não é? James gargalhou. – Eu sou inocente. Mas o que estava acontecendo afinal? Era aquele ainda o seu James? – Ei vocês. seus caçadores bastardos. O que era aquilo? Por que meu James estava agindo daquela forma? Por que diabos aqueles malditos estavam falando aquilo? Não consegui entender.Fui interrompida por James que agora ameaçava cortar minha garganta com um canivete.Utilizando da velocidade vampírica entrei na frente de James a fim de protegê-lo.. Nenhum passo a mais. vocês sabem o que pode acontecer com vocês caso uma vampira nobre morrer inocentemente.. chorou lágrimas que nunca existiram. . provavelmente tinha algum plano de fuga. se eu tardasse e ficasse observando aquela cena teatral patética James acabaria realmente morto.

– Eu lhe respondo o porquê. Um ódio inimaginável surgiu em mim.. os poderes dela excedem os seus. você é tão inocente. a cantora é uma nobre. Pensou que eu te amava é? Apenas me aproveitei do dinheiro de sua família. claro. sua tola imbecil. – James. . o único que amei.. Uma inútil. James – Pude perceber que a caçadora tentava ganhar tempo pra uma possível manobra de defesa que eu deveria fazer. Eu não queria acreditar em tudo aquilo. Pensei que já tinha percebido que eu apenas me aproveitava de você. "Ei James! Por que acha que meu pai me despreza tanto?"– Ele me imitava fazendo uma voz mais fina. imperceptivelmente modificada para que um vampiro a empunhe. . – Ora Megan. Maldito seja você James.arma de caçadores. você não me serve para nada. – A ruiva encerrou seu pequeno discurso de uma forma ansiosa pelo que vinha a seguir. É definitivamente impossível amar alguém assim como você! . Eu estava completamente sem chão. – Você é bem esperto. . “James? Quem realmente é você? É aquele que eu amei?” – Duvido muito que vai deixá-lo feri-la. Eu particularmente me sentiria envergonhado de ter uma filha como você. ou matá-la a não ser que Megan seja uma completa idiota. Estava em choque. seu desgraçado. por que ele falou tudo de forma tão cruel? Ele era aquele que eu mais confiava.Ele gargalhou mais uma vez. mais feminina.Mas como você bem disse. não poderia acreditar. eu pensei que você fosse mais esperta. simplesmente porque você é uma estúpida. – Ah! Megan. Por quê? O que está acontecendo? – cochichei para que só ele pudesse me ouvir.Ele encerrou seu discurso gargalhando mais uma vez. Sentia-me profundamente enojado de ter que te acompanhar aqueles bares imundos e ter que consolar quando o assunto sobre sua maldita mãe e seu pai imbecil surgia.

mas parecia estar atento caso eu regressasse o ataque. sobre as próprias pernas. – Olhe nos meus olhos maldito! Os caçadores que até agora estavam em posição de ataque se surpreenderam com aquela cena. Era para que nós fugíssemos juntos. .. acendendo um cigarro.Arremessei-o na parede lateral do beco. fazendo-o ficar cara a cara comigo. James despertou todo ódio que poderia haver em mim. jamais usaria meu dom em um traste como você. O que acha de morrer pelas minhas mãos? Hein. . que aceitou de bom grado.. mas de forma que só eu pudesse ouvir. Imprensei-o na parede daquele beco livrando-me de seus braços.. – Tem certeza que não quer que eu faça isso.Apertei mais o pescoço do maldito. gostaria de fazer seus pulmões explodirem.. . eu vou te destruir.Neste momento você está encarando o destino que você mesmo criou. Apertei seu pescoço erguendo-o no ar. . Apanhei-o pelo colarinho. – Yagari. E ofertou um pro caçador. – Fique de lado caçadora! Isso agora é pessoal. – Mentiroso! Acha que eu preciso do meu dom para saber quando um merda como você está mentindo? Eu posso ter sido cega durante esses últimos anos. ―Desde quando Megan tinha todo aquele poder?‖ Era o que ele devia estar pensando.Ele falou engasgado. – A ruiva satirizou a cena Será divertido ver isso . mas agora James. my sweet love? . eu posso ver claramente.ela sentou-se ao chão.. . – Megan. se não fizesse algo logo iria morrer. tentando forçá-lo a olhar para mim. James provavelmente não esperava aquela situação. .Não se preocupe querido.– James! Seu desgraçado. . agora você está estragando meu plano.. Megan? – A ruiva ainda irrompeu Me parece que você não terá fibra sufici.Meus olhos ardiam em brasas vermelhas.Você está muito enganado se pensa que poderá me enganar de novo meu caro. acho que nossa cantora preferida acordou.

Apertei de forma mais feroz o colarinho daquela camisa branca que envolvia o corpo que eu estava envolvida horas atrás. – Mas eu estava cega de amores.. – O que você acha que eu sou James? Eu já lhe disse que eu fui facilmente enganada antes. – atirei-o do outro lado. mas estava fraco demais para isso. O maldito ainda fez menção em fugir. mirando alcançar o topo do velho prédio. “Maldito”. era incrível como ele não desistia da sua fuga. Assim que alcançamos o topo atirei James do outro lado daquele lugar. mas aquela altura do campeonato já não me interessava nada que sairia de sua boca.Ele continuou a me ignorar. James arrastou-se para o para-peito do prédio. Suas palavras eram tão sujas quanto o caráter que possuía. sem que percebesse e escalei facilmente as paredes daquele lugar arrastando-o pelo pescoço junto comigo. . enquanto tentava se levantar eu já estava ao seu lado. de desejo por você. James pareceu dizer algo. – Não vai responder? É uma pena. erguendo-o pelo pescoço novamente. Pensei em ouvir sua voz pela última vez hoje. Há tempos que estava desconfiada destas suas malditas viagens. É apenas isso que eu recebo por ser uma nobre e me envolver com uma escória como você. Apanhei a arma com que ele me ameaçou. mas que não seria enganada agora. – O que você está pensando em fazer bastardo? – Você me trouxe até aqui para que fugíssemos não é? – Ele sorriu maliciosamente. Agora fora minha vez de gargalhar. mas era perceptível seus olhos cheios de medo.. clamando pela minha piedade.

Ele gritou agonizante e insensatamente tentou fugir mais uma vez. entrando na frente do vampiro desesperado. – É bom não é? – sussurrei em seu ouvido retirando a arma que eu acabara de cravar em sua pele de vampiro. – Mas a festa só começou my baby. Sweet Love? Antes que ele pudesse perceber eu já estava na frente dele empunhando a arma que ele me ameaçou.. isto é perigoso. – É uma pena que tudo acabará desta forma. não . – Meus olhos vermelhos refletiam no olhar de pânico que o coitado me devolvera. Vamos conversar outra hora. – Porque esperar tanto se estamos aqui agora. ferindo-lhe profundamente o braço. cravei junto a arma amaldiçoada anti-vampiros. certo? – ele ainda forçava seu sorriso estúpido pra cima de mim. Cravei mais uma vez o punhal em seu corpo. James correu cambaleante de forma desesperada me fazendo rir sarcasticamente. Agora você pode sentir a sensação de ser traído. mas as palavras e o vermelho vibrante dos meus olhos diziam o contrário.– Onde pensa que vai. sozinhos. É tão maravilhosa quanto pensou que seria para mim? – O tom da minha voz angelical transmitia tranqüilidade.. Espremi-o em questão de segundos na parede da escadaria que tava no telhado daquele prédio. No momento em que o beijei. Não está se divertindo mais? – sussurrei em seu ouvido para que só ele me ouvisse. baby. James. – James. – Está sentindo essa dor seu desgraçado? Não é um quarto da dor que eu já senti. – Megan. – Permita-me provar dos seus lábios pela última vez. como se aquilo fosse me convencer. Você acha que pode mesmo escapar do seu destino? – Falei sadicamente.

Os lençóis ainda estavam da maneira que deixamos após o nosso último ato de luxúria. Segunda: Por ter sido enganada. O cheiro do sangue dele ainda me inebriava. não quando se pode usar a velocidade vampírica. Enchi a banheira feita da mais pura porcelana. mesmo eu sendo uma vampira. Eu chamava aquilo de amor. Mas lá no fundo eu ainda estaria grata aquela mulher por acreditar em mim. Entrei cuidadosamente por uma janela que estava aberta no quarto que estávamos antes daquela situação macabra. Segui para o Hazlitt‘s Hotel. . Eu precisava urgentemente retirar todo aquele sangue. decapitando o desgraçado que logo esmaeceu em pó. “Maldito!” Amaldiçoei cada célula do meu corpo por três razões: Primeira: Por amá-lo. Não estava muito distante. Certamente eu era uma estúpida. mesmo sem nem ao menos saber o significado desta palavra ou deste sentimento. o cheiro de nossos corpos era inconfundível ao meu olfato sensível. Não havia nada mais que me interessasse ali. seja lá o que fosse. Se os caçadores decidissem me perseguir e matar eu já não me importava. Afinal. o único que amei e que eu inteiramente confiei na verdade nunca havia sido quem eu pensava que fosse e acabara de ser morto por minhas próprias mãos. Terceira: Por ainda amá-lo depois de tudo. Apesar de eu saber que aquelas lembranças ainda me perturbariam quando o banho terminasse e talvez de modo até mais assustador e doloroso.é? – Cravei-lhe o punhal no pescoço. aquele suor e tudo o mais da minha pele. Uma lágrima queimou em minha face pálida de vampira no mesmo momento em que o punhal caíra de minha mão.

] Eu não conseguiria permanecer naquele lugar. ela precisa voar.) And you should know I suffer the same (E você devia saber [que] eu sofreria o mesmo.– Obrigada caçadora. Sai da banheira secando-me com uma toalha do mais puro algodão egípcio. secando cada parte do meu corpo esguio de vampira. Logo após dizer isso. Assim que terminei de me enxugar apanhei a roupa que eu trajava naquela noite. Todas elas estavam mortas assim como parte de mim havia morrido naquela noite.. eu não deveria estar pensando mais naquilo. Minha pele alva ganhava um tom mais vívido quando estava próxima daquelas brasas.” .) Let all the hurt inside of you die (Deixe toda a dor dentro de você morrer.. seria apenas uma lembrança ruim. ela estava jogada no chão encharcada do sangue desprezível daquele desgraçado. Suspirei frustrada. “Se as lembranças ao menos se desmanchassem em cinzas com a mesma facilidade. você. [. não sem ele e com todas aquelas lembranças tenebrosas que ainda me atormentavam. já não havia a necessidade de falar nenhuma palavra. Eu precisava sair. my meu heart coração will be ficará broken partido. precisava respirar. Apenas cantarolei a única e última canção da noite. Ainda nua atirei aqueles trajes sujos na lareira. calei-me.) [.) Love is a bird.. o mesmo sangue que estava nos lençóis da cama em que nos amamos pela última vez. estou lhe devendo uma..) If (Se eu I lose perder you.] Now there's no point in placing the blame (Agora não tem propósito em estabelecer a culpa. Fiquei observando enquanto o tecido desmanchava em cinzas. she needs to fly (O amor é uma ave. as roupas já não me serviriam para mais nada.

Levantei-me e fui em direção a minha bagagem para pegar alguma roupa. – Não... – O tom da voz dele estava entre a impaciência e o nervosismo.Eu arfei ao lembrar aqueles momentos desagradáveis de outrora. – Eu estava um tanto nervosa. Afinal eu havia acabado de assassinar James. Ah! Como eu odiava aquela maldita caixa postal. – Eu tentei disfarçar o nervosismo. O telefone ficou mudo por alguns segundos que pareceram uma eternidade até para mim que já a conheço faz muitos séculos. mas de ódio por ter sido manipulada tão fácil.. em dez minutos meu mordomo irá te encontrar onde ele lhe deixou na última vez que se viram. darling? – ele perguntou preocupado... não minta pra mim! – Ele esbravejou. eu precisava entrar em contato com Leo imediatamente. – Aconteceu algo. Esteja pronta. – Irei lhe encontrar na mansão inglesa dos Chevalier. “Logo deve estar amanhecendo. Aconteceu alguns problemas aqui. não imaginava que dizer o nome dele ainda poderia me doer. eu carecia conversar com alguém.. Quanto menos olhos sobre mim. Escolhi algo prático e que pudesse me aquecer naquela madrugada fria de Londres. Decidi-me por uma calça Jeans e um outro sobretudo combinando com os acessórios básicos para o frio inglês. – Merda Megan.. não queria me destacar em meio aquela multidão de humanos. – Ja-James está morto. aquelas imagens voltaram atormentar minha mente.. de acordo com o fuso horário em Nova York deveria ser umas seis da manhã.. melhor.. – Foi a única coisa que eu consegui dizer. Vasculhei minha bolsa procurando pelo meu celular. – Leo.. Olhei para as horas e já passavam das quatro. – Megan? – Ele pareceu surpreso. Em menos de alguns minutos eu já estava pronta. meus olhos arderam de raiva e dor. . – Eu gostaria de ir para outro hotel. Tentei mais uma vez e ele atendeu. não de tristeza. – Você sabe que não consegue! Agora me diz logo o que houve. – Menti e minha voz vacilou.. espero que Leo esteja ainda acordado” Inicialmente chamou umas três vezes e caiu na caixa postal. mas não sei como manter contato com o seu mordomo.

de fato eu havia dormido por umas duas horas e não sei quantos minutos. Saltei cuidadosamente pela mesma janela que eu havia entrado. só que desta vez com a minha bagagem. mas ajudariam um pouco e qualquer ajuda contra a maldita luz proveniente do dito“astro rei” entre os humanos era muito bem vinda. A luz da aurora já transpassava os vidros do Bentley Zagato atrapalhando minha visão. Meus olhos azuis cintilavam na escuridão. Os senhores Chevalier preferem manterem-se resguardados de aparição em qualquer lugar. – Estamos indo para a mansão dos Chevalier em Wiltshire. eles não melhorariam cem per cento.. Lembro-me que estávamos seguindo para o Oeste. – Senhorita Lewis. Olhei as horas e já passavam das seis e quarenta da manhã. pela última vez. Abri minha bolsa de mão buscando pelos meus óculos escuros. livrando-me do incomodo da bagagem. dei uma última olhada naquele cômodo e inspirei o nosso cheiro. O mordomo dos Chevalier gentilmente segurava a porta aberta para que eu pudesse entrar. – Agradeci desviando meus olhos para a janela. Leo e James não eram muito próximos. com o telefone ainda ao pé da orelha por alguns minutos que pareceram ter passado em segundos. – Três horas? – perguntei um pouco surpresa. “Merda. Fechei meus olhos mentalizando em tudo que eu deveria dizer a Leonard e acabei pegando no sono. Esfreguei os meus olhos azuis de vampira um tanto confusa quanto a minha localização. daqui a meia hora chegaremos. Em três horas chegaremos lá. meu e de James. encarando o mordomo e motorista pelo retrovisor. Eu fiquei paralisada na mesma posição. – Para onde estamos indo? – Perguntei já acomodada no confortável banco do Bentley. – Hum.já estava me esperando com os faróis acesos em frente ao Hazlitt‘s Hotel. Acordei não sei quantas horas depois com a voz suave do mordomo.Logo após dizer isso ele desligou. mas ainda assim eram amigos.. Compreendo Thanks. – Seguiremos longe das rodovias e dos pedágios. seguíamos pela Parliament Square em direção a Broad Sanctuary. senhorita Lewis. foi um sono sem . observando as luzes passarem em flash. o que Leo vai fazer se descobrir?” Guardei o celular na minha bolsa e fechei minha mala que estava sobre a cama. Aquela noite fora tão tumultuada e o dia já estavam tão próximo que minha lassidão era inevitável. O Bentley Zagato GTZ. mas permaneci no tom apático. Ele tomou as malas das minhas mãos. – O mordomo sorriu ao dizerme isso.

mas foi em vão. O senhor Chevalier já chegou e logo irá lhe encontrar em seus aposentos. ou pelo menos acho que assim foi. eu sei que era ela.sonhos.Sonhar é uma coisa humana. Foi a última vez que vi papai. não podemos. Fiquei perdida em meus devaneios até sentir o carro parar diante de uma belíssima construção provavelmente do século XVIII e a porta do Bentley se abrir. " . Quando eu contei para o papa em uma das raras vezes que nos encontramos ele me repreendeu. – Afinal ela morreu quando você nasceu não é? Você nunca poderia saber! – Os olhos deles que até então eram verdes. – Mas papa. Minhaeternidade era de morte. sonhar era tolice. era um sono de morte. nenhum sonho. Seus olhos esbanjaram tanto tristeza como ódio. .” pensei e um sorriso sádico contornou meus lábios rubros. Meu sono era a mais completa escuridão. – Implorei praticamente aos prantos. verteram em um vermelho odioso. Will deixe eu ficar com o papa me solte. Nós vampiros apenas temos desejos. – Não papa! Eu quero ficar com você. pelo menos até o dia em que eu fugi. talvez fossem as trevas presentes em minha existência. “Sonhos. era uma voz tão terna e serena. – Willian leve ela daqui. Éramos demônios sugadores de vidas. a voz dizia que ela me amava ainda depois de tudo. Willian era mais forte que eu na época e conseguiu me retirar daquele cômodo mesmo eu me debatendo com toda a força. – Sabe? Como você poderia saber? – Ele esbravejou segurando-me pelos braços elevando-me do chão. eu ouvi a mama. – papai jogou-me em direção do mordomo. nós vampiros não conseguimos sonhar. – Eu insisti fazendo os olhos esverdeados dele se encontrarem nos meus azuis infantis.. O que você disse ter visto ou ouvido foi apenas a sua imaginação que dizia algo que você queria ouvir. a única vez em que eu poderia sentir um fio de vida em meu ser era quando ela cortava a minha garganta em forma do líquido rubro ou então nos momentos de prazer do sexo. a voz dizia que eu não tinha culpa de nada do que aconteceu a mama. – Chegamos senhorita Lewis. Em meu sono não deveria haver sonhos... " Desde aquele dia eu nunca mais sonhei. sugadores de sangue como poderíamos conhecer o significado disto? Uma vez eu achei que eu tinha sonhado com a mama quando eu era mais nova.. Depois daquela cena ele me manteve trancada em meu quarto.

entrei na banheira. – Obrigada. deixando-nos passar em seguida.” pensei despindome e mostrando minhas curvas perfeitamente moldadas. meus olhos se depararam com os dele. colocar-me em uma suíte era o mais agradável a minha pessoa. O cheiro provocante de sândalo invadiu todo o meu ser. a água estava na temperatura ideal. havia modernidade em cada cômodo daquele lugar. Sentei-me em uma confortável poltrona que tinha a mesma cor dos meus olhos enquanto uma das criadas desfazia a minha bagagem e arrumava no closet. Agora nada poderia me impedir de relaxar naquela banheira devidamente espaçosa com minha essência favorita. Leonard sabia que assim que eu chegasse gostaria de tomar um banho. Subimos as escadas e passamos por dezenas de quartos até pararmos diante a uma porta antiga de madeira da cor de mogno. Era uma das fragrâncias que mais me atraiam. Ao mesmo tempo em que tudo era tão fantasticamente antigo de acordo com a arquitetura. Deixei meus cabelos negros e molhados caírem pelos meus ombros e sai do banheiro com o semblante mais tranqüilo e relaxado. Foi uma sensação sublime. O quarto era lindo. As antiguidades e relíquias tanto nas paredes como sobre os móveis eram de fazer os olhos de qualquer historiador brilhar de excitação. A empregada a minha esquerda apanhou um molho de chaves e rapidamente abriu a porta. Após o banho vesti um hobby especial que a empregada havia deixado para mim. Finalmente eu tomaria um banho de verdade. “Pelo visto Leonard instruiu muito bem as criadas. pois fiquei preocupada em retirar o cheiro do sangue de James de mim e. Do lado de dentro daquela bela construção era como se fosse algo realmente mágico. – levantei-me e segui para o banheiro que também tinha uma elegância impecável. parecia ter saído de um dos livros de conto de fadas humanos. pelo menos parecia com a descrição que as amas me contavam nas histórias para eu dormir quando eu era pequena. Assim que pus meus pés no quarto. de fato ele me conhecia bem. aqueles olhos negros e profundos que só Leonard poderia possuir.Maneei a cabeça positivamente e segui o mordomo que já estava com minha bagagem sendo acompanhada por duas criadas. . – Senhorita Lewis o seu banho está pronto. – A outra criada falou fazendo uma reverencia em minha direção abrindo a porta. esquecer aquelas cenas amargas. lá no Hazllit‘s não deu para tomar um banho relaxante de fato.

com a conclusão da investigação que aconteceu agora pouco. – Leonard parecia escolher cuidadosamente as palavras. Naquela noite em que ele não foi a nossa última apresentação ele havia me ligado. – Como você está? – Ele aproximou suas mãos da minha face. – Estou melhor agora. – Por isso temi quando ele se aproximou de você. os Kripe. – Retirei suas mãos da minha face seguindo em direção ao Closet. – Eu estava tão preocupado com você. – Ele ponderou. para depois jogarem o conselho contra essa família. – Ele falou levantando-se da mesma poltrona que eu estava sentada antes do banho. – Ele me olhou cuidadoso e prosseguiu. – Vou lhe contar o que sei. Mas James nunca lidou bem com isso. – Ele puxou a poltrona azul de uma maneira tão fácil para perto da cama que um humano jamais conseguiria fazer. “Será que ele descobriu que eu o matei?” – Vem comigo. Eu permaneci olhando fixamente o homem a minha frente. naquele momento eu não tinha muitas informações e te contei o máximo que eu poderia para a sua própria segurança. Na maioria das vezes era para cumprir alguma missão. tentando obter o máximo de informações que eu poderia ter. Sente-se – Ele apontou para a cama. my dear. mas ele me agarrou pela cintura impedindo que eu continuasse andando. O que eu não entendo depois disso tudo. pelo menos foi o que ele me segredou antes de uma das viagens que ele fazia secretamente. – Os orbes negros preocupados nos meus azuis receosos. E ele continuou. Você sabe da influencia que o Conselho dos Anciãos tem sobre todo o mundo vampírico não é? James havia planejado tudo por anos. – Por isso fiquei preocupado quando você disse que iria para Londres atrás dele e a alertei. fiquei sabendo que James retirava vampiros Level E da América e levava para Londres. – Foi a morte dele.Ele falou em meu ouvido e eu estremeci por completo. principalmente depois que os Kripe resolveram transformar os servos antes humanos em vampiros. E prosseguiu fitando meus azuis preocupados. – A família de James era humana e servia por séculos a uma família inglesa de vampiros muito importante e influente. Ele estava completamente fora de si e só falava que a vingança não passaria daquela noite. Você sabe de algodarling? . onde planejavam fazer um ataque em massa na área que os Kripes tomavam conta. Bem. Não precisa ficar preocupado. – James realmente odiava vampiros. – Aquele maldito fez algo pra você Megan? .– Megan. – O que? – Preferi fingir que não entendi.

– A Associação dos Caçadores já estava furiosa por ter nobres caçando os vampiros da lista deles e cobrando cada vez mais a atitude do Conselho. Por favor. – Desculpe se estou interrompendo alguma coisa. . “Srta. – Leonard estava tão próximo da minha face quando disse isso que pensei que ele iria me beijar. compareça sem falta. Havia apenas o impacto da morte dele. A falta de informações também deixou-me um tanto quanto curiosa.. Tristeza. – Leonard veio em minha direção e me abraçou. mas acabou de chegar uma mensagem no fax de extrema urgência para a senhorita Lewis..” Fiquei um pouco chocada. – O que importa é que você está bem. mas ele era um crápula. – Merda Megan. Morrer tão de repente era no mínimo estranho. – Eu temia por isso. – Mensagem? – Me desvencilhei dos braços de Leonard indo em direção ao mordomo que segurava um papel. Leonard era acima de tudo meu melhor amigo. revolta. mas resolvi dizer. Mas isso não importa agora. – Aquelas palavras soaram mais frias do que deveriam ser.. Merda! – Ele agora andava pelo quarto preocupado. – Obrigada Leonard. fazendo-o frear rapidamente. – Eu o matei. eu sei que você não o mataria sem um motivo realmente. O mordomo que havia me acompanhado desde a minha partida dos Estados Unidos para a Inglaterra adentrou o cômodo com um papel nas mãos. – Não precisa se explicar darling.. – Eu. – Eu o abracei de volta. Willian. – Ele deixou escapar num gemido com o susto. Eu não sabia como eu deveria responder afinal. sua presença é importante.Meu corpo todo estremeceu com a pergunta. nenhum outro sentimento além do choque me ocorreu. – hesitei. Até onde eu sabia papai era um vampiro forte e durão. seu pai. arrependimento passavam longe de mim naquele momento. – Eu não queria matá-lo. A leitura do testamento será feita amanhã à noite e como você é a única filha dele.. tenho certeza que o Conselho não irá se importar se receberem as provas que temos contra James. Como pude ser enganada por alguém como ele? – Algumas lágrimas de ódio escorreram pela minha face.. O senhor Lewis. veio a falecer anteontem. Lewis. Leonard ficou estático com a resposta. mas uma batida na porta interrompeu sua intenção.

se passaram e nosso laço e afeto enfraqueceram tanto que eu tinha até esquecido que tinha um pai e ele provavelmente esqueceu-se que tinha uma filha. – E mesmo que importasse ela já está morto. – Tomou cuidado no tom das palavras. – Desde que ela morreu. exceto quem a sente.. – Levantei minha cabeça observando os olhos negros me fitando carinhosamente... mandarei Tom trazer-lhe um pouco de chá se não se importa. Como eu deveria me sentir? O que eu deveria sentir? Essas perguntas me perturbavam.. séculos. – Não precisa se preocupar. lá no fundo realmente sempre fomos iguais embora tenhamos sido egoístas demais para nos redimimos.. afinal por mais cruel e monstruoso que ele tenha sido ainda era o meu pai. – Levantei-me da confortável poltrona acompanhando Leonard até a saída daquele cômodo. – Leonard tomou-me em seus braços afagando meus cabelos negros. perceberíamos que anos. Estou bem. William Shakespeare. Todo mundo é capaz de dominar uma dor. .. sofrendo pela mesma dor. – Thank you. Então não fique desse jeito. Se ele nunca se importou eu também não deveria me importar. – Estou apenas um pouco confusa e cansada com todos esses acontecimentos repentinos. se eu ainda tivesse alguma cor... Por que eu não conseguia sentir nada? Minhas mãos trêmulas cobriram meu rosto em sinal da minha frustração. onde sentei fitando-o de longe. apenas deixe-me sozinha. agora já não se pode fazer nada. – Os orbes negros encaravam o chão agora com desapontamento..Ele abdicou ao cargo de pai. ela havia sumido no momento em que eu li que meu pai havia falecido.– O que houve Megan? Você ficou pálida de repente...... embora eu estranhe realmente isso. – Falei atordoada ainda com aquelas palavras.. Eu apenas me tornei o que ele queria que eu fosse: um monstro. A carta escorregou entre os meus dedos. – My darling. – Afastei-me dele seguindo em direção a confortável poltrona.. – Se você insiste. De fato. sabia que esse assunto ainda me doía. apesar de eu não conseguir sentir nenhum pouco de tristeza ou remorso.. atormentados pela mesma mágoa. .. – Leonard falou abaixando-se para fitar-me nos olhos. – Meu pai morreu . No final nós éramos iguais. Não se preocupe. Caso precise estarei aqui imediatamente. você sabe. .Bem. E quando menos esperássemos.Agradeci ainda enlaçada nos braços dele. não se atormente com isso.. – Desculpe-me por todo . – Você tem razão..

não? Minha existência por si só já era uma ironia do destino. o branco do papel estava definitivamente contrastando com as cores mórbidas daquele cômodo quarto. Como era possível existir uma ligação tão forte entre nós? Peguei-me encarando mais uma vez o branco puro do papel desaparecendo na escuridão do quarto. sentando-me na beirada cuidadosamente. – O mordomo do Chevalier carregava uma bandeja antiga de prata pura. exatamente como eu preferia estar.esse incomodo. A carta que me fora entregue alguns minutos atrás parecia irradiar luz. afinal o que eu sabia sobre a minha mãe? Nada.. Atirei-me na cama logo após isso. mas sempre fora assim.. relaxando meu corpo por completo e quando menos percebi havia adormecido. – Entre. – Obrigada. Se for a respeito de você nada será um incomodo. Olhei ao meu redor e não havia ninguém. Viver por morte.. – Ele curvou-se formalmente. Definitivamente agora a solidão seria minha única companheira.. – Ele me sorriu como costumava fazer após suas ―indiretas‖ fazendo-me corar. Irônico. – Confessei-lhe enquanto abria a porta.. – Falei ainda sentada na cama observando-o terminar de preparar o chá. Nos últimos dias ela vinha me acompanhando com veemência. vive por ela. Obrigada. Sibilei desanimada ao lembrar daquilo. beijando-me de forma terna e respeitosa.. – Chantilly? – Sim. Entretanto alguém bateu a porta fazendo-me despertar para a realidade. Lá deixei a xícara de chá da mais fina porcelana e a carta. Não gosto de envolver ninguém com meus problemas. fechando a porta em seguida. em seguida dirigi-me até o criado mudo que ficava ao lado da cama. deixando-me finalmente em paz. Caminhei até a cama. – Agradeci e ele se retirou. – Apenas relaxe e esqueça tudo isso. Morte. mas se não for de seu gosto preparamos outro.. o amor proibido de uma sangue puro e um nobre. – Está ao seu gosto? – Perguntou-me curvado em uma reverencia. trouxe o chá. A solidão sempre fora minha companheira. Abaixei-me e apanhei-a a do chão frio.... acabei me acostumando com ela e de fato gostando.. não? Afinal sou um ser que se alimenta dela. O fruto da paixão indevida. – Yes. – O senhor Leonard achou melhor trazer um Earl Grey. ok? – Roçou seus lábios em minha testa. Meus lábios contorceramse em um sorriso melancólico. – Não precisa. . – O Earl Grey está de bom tamanho. – Com licença senhorita Lewis.. mas ele logo desapareceu quando fitei novamente a carta. – O mordomo trouxe-me o chá em seguida após a afirmativa. – Eu não me importo. Solidão.

Eu sempre vou te proteger..” Os azuis abriram e fitaram os olhos de Leonard assustados sobre mim.. – Eu realmente não sei o que houve.. Definitivamente não. A cada transmutação surgiam vozes que me atormentavam. – Ah! Antes que me esqueça... mas não tinha a capacidade de ligá-las aos rostos que se formavam no sombrio. . Eu fechei os olhos enquanto a escuridão ia me engolindo.. – Não precisa falar agora se não quiser... também era a única coisa com qual eu poderia sonhar: escuridão. Uma suave e terna mão pesou em meu ombro de forma gentil e palavras doces foram sussurradas em meu ouvido antes que abrisse meus olhos. – Sorry. o que monstros como nós conhecemos sobre sonhos?” Uma voz masculina sobressaiu entre as outras vozes.. mas Leo calou-me com um dos dedos que encobriram meus lábios carinhosamente.. Logo estaremos de partida.. mas estou bem. Entretanto como num passe de mágica tudo parou e uma canção de ritmo suave me acalentou. – Ele arqueou as sobrancelhas como se esperasse uma resposta. reabrindo as chagas doloridas do passado.. por acaso está com sede? – Leonard estendeu o pulso esquerdo oferecendo-me um pouco do seu próprio sangue como alimento. afinal nunca conseguiríamos fugir daquilo a que pertencemos. – Você está bem Megan? Eu ouvi alguns gritos e fiquei preocupado... Os ébanos estavam preocupados. Seria papai? Eu estava confusa. Eu não queria preocupá-lo. Entretanto desta vez ela ia se despedaçando e ia tomando forma. o que diabos era aquilo? Um sonho? Não..A escuridão do sono havia me dominado por completo.. Então não se preocupe. devorando cada parte de mim.Esfreguei os meus olhos tentando recuperar a consciência que me fugira após ―aquilo‖. eu conseguia identificar todas. Vampiros cedo ou tarde aprendem a amá-la... Tom já está preparando o avião e daqui à uma hora mais ou menos poderemos partir de volta a América. entretanto eu estava suada. Não precisa ter medo. “Vampiros não podem sonhar. – Fiz menção em continuar falando. Apenas relaxe está bem? – Ele sorriu. – Você está mais pálida do que deveria estar. . você pode sonhar se quiser. Minha pele estava fria. Provavelmente um pesadelo. provavelmente por culpa daquelas cenas terríveis que vi enquanto eu dormia. “Pobre criança.

– Ainda resta uma hora. – As criadas deixaram cuidadosamente o vestido em minhas mãos e a caixa de sapatos próxima a mim enquanto se dirigiam ao closet para arrumar novamente minha bagagem. Após o rápido banho vesti-me com o belo vestido que recebera de presente. O avião não irá decolar sem você. não poderia me dar ao luxo de demorar muito senão poderia perder a hora e particularmente eu não gostava de atrasos. o corte e os detalhes eram perfeitos. Segui para o banheiro da luxuosa suíte em que fiquei acomodada. Caminhei a passos largos até a janela e em um movimento rápido abri as grossas cortinas. “Por quanto tempo será que eu adormeci?” Ouvi mais uma vez alguém bater a porta. Leonard sabia disso e acertou em cheio na escolha..Que horas são exatamente? – Perguntei sobressaltada. “O que será que Leonard está planejando?” Pensei por alguns minutos enquanto fitava o belo vestido de cor ébano em minhas mãos. – Ele sorriu de forma afetuosa tentando me acalmar. – Uma das criadas falou enquanto ajudava-me a vestir um belíssimo sobretudo também negro e a outra ajudava-me com os sapatos. Mas resolvi pensar nisso depois. Era minha cor favorita para itens e roupas no geral. erguendo-me da cama. eu ordenei que entrassem. você pode se arrumar tranqüila. – Ele segurou-me por um dos braços delicadamente. eu deveria me aprontar rapidamente. O negro contrastava com a minha pele alva e os orbes azuis intensos pareciam ganhar mais vida quando eu vestia aquele tom. Eram as mesmas criadas que me ajudaram a me acomodar no quarto. completamente moldado nas medidas exatas do meu corpo e ainda deixava-me confortável. . – Está divina senhorita Lewis. – O que é isso? – Perguntei surpresa.– Já? – Espantei-me . – Estarei esperando você lá embaixo.. – O senhor Leonard pediu para que trouxéssemos. – As criadas falaram uníssono. – O senhor Leonard a espera no Jardim. Era como se ele fosse feito para mim. As criadas me aguardavam ainda no quarto quando sai pela porta do ‗toilette‘ e sorriram quando colocaram seus olhos sobre mim. – Tenha calma. elas traziam consigo um belo vestido negro e uma caixa de sapatos. – Essa foi a ultima coisa que disse antes de fechar a porta do quarto. Lá me despi e tomei uma ducha quente e rápida apenas para retirar o suor da minha pele. O céu já estava escuro e a bela prateada brilhava magnífica no céu.

. – Nós vamos à leitura de um testamento e não para uma festa. Apesar da forte névoa ainda conseguíamos ver a majestosa lua brilhando no céu. – Ele sorriu sarcástico. mas nada que pudesse me atrapalhar.. Ela é sua estilista favorita não é? É realmente encantador que demonstre todo seu agradecimento desta forma. Tentarei me controlar da próxima vez. Mas não era preciso. – O jardim é muito bonito. – Ele falou passando por dois arbustos perfeitamente podados e eu diria que até esculpidos pela tesoura de um jardineiro hábil. – Sorri apanhando uma flor muito bonita de um arbusto. – Ele virou-se para mim com o seu freqüente sorriso encantador.. claro se esse ‗qualquer um‘ fosse um humano. Vejo que você apreciou os presentes.. a neblina densa ainda deixava minha visão um tanto turva. era ela que iluminava um pouco do nosso caminho já que as luzes do jardim estavam apagadas. – Thank you. exceto pelo Central Park. – I know dear. estamos quase lá. Caminhei pelo hall em direção a porta principal.. – É de Vivienne Westwood. tem algo que quero lhe mostrar. Um vento gélido brincou com meus cabelos assim que eu pus meus pés para fora da aconchegante mansão dos Chevalier. – Que flor é esta? – Perguntei encantada com a beleza da flor.. mas não costumo fazer visitas freqüentes por lá. – Leo segurou minha mãe direita e fez menção para irmos e eu o segui. . – Pra onde está me levando? – Perguntei enquanto desviava de uma pedra que aparecera no meu caminho de forma repentina. – Repreendi-o pelos presentes.. – Leonard! – Exclamei em um tom sério.. okay? Agora venha comigo. – Fechei meu semblante ficando com uma expressão séria. Percorri com meus olhos pelo jardim e o encontrei próximo a uma árvore. Em Nova York não estamos acostumados com isso. – Espera. afinal caminhar em um jardim inglês tradicional as cegas seria extremamente complicado para qualquer um. Você sabe que não gosto destas regalias.. Sorte nossa sermos vampiros e a luz ser dispensável a nossa visão.. estava trajando um terno azul marinho muito elegante. ora darling... porta qual o mordomo abriu gentilmente para que eu passasse. – Ora.Em poucos minutos depois daquilo eu já estava descendo as escadas de mármore brancas e era guiada pelo mordomo que nos recebera naquela mansão.

Andamos por mais alguns minutos e a cada passo naquela grama perfeitamente cuidada eu me surpreendia com a quantidade de espécies de flora que enfeitavam aquele jardim. mas ainda tem muita coisa pra mostrar e pouco tempo para ver. a névoa já não era tão intensa naquele local e a lua refletia majestosamente nas águas límpidas do lago. permitindo desfrutar plenamente o momento presente sem se fixar no passado ou se projetar no futuro.. significa superação. Se eu pudesse descrever os sentimentos que os ébanos expressavam. . É um lugar muito especial para mim. Até que Leonard estacou dizendo-me que chegamos. certamente se houvesse o paraíso em algum lugar deveria ser daquele jeito. – Eu costumava vir muito aqui quando eu era menor.. havia desde árvores nativas a pinheiros e plantas esculturais.. – Assim tenho certeza que o gerânio fica mais bonito. moldando em sua face um sorriso enigmático. – Ele maneou os braços de forma cavalheira deixando-me passar a sua frente. – Bem. É nativo da África e suporta viver não apenas em locais quentes. – Leonard fez um semblante misterioso quando disse aquilo. seria obviamente a mais pura nostalgia. Havia flores de todos os tipos. – Ele deu aquele sorriso de meia boca. O jardim parecia um bosque saído de um conto de fadas que eu lia quando pequena nos livros humanos que as criadas traziam-me escondido. Vamos continuar que já estamos quase chegando. fazendo-me corar com o elogio. A força dele estimula a liberação de antigos traumas. – Segui-o certificando-me que o gerânio não cairia com facilidade.. alguns séculos atrás.– É um gerânio.. Apesar da delicadeza é muito resistente. basicamente. mas também em regiões de clima frio. – Eu não conhecia essa sua parte especialista em flores. – Okay. talvez aquele fora o meu primeiro sorriso verdadeiro após aquilo tudo. – Falei encantada ao perceber que apesar de haver um lago ali... – Sorri rapidamente. – Há muitas coisas que você não sabe sobre mim ou se quer pode imaginar my lady. – Sempre que eu tinha problemas ou precisava relaxar eu vinha para cá. Leonard continuou conduzindo-me até chegarmos próximos a margem do lago. – Pôs se a caminhar ao meu lado. – Ele apanhou a flor das minhas mãos e prendeu em meus cabelos. – Lindo.. – Bem vinda ao meu paraíso particular.

dizia afobado fazendo pausa entre as palavras para respirar.. mas não é um bom momento para isso. Ele parecia ter sede de mim..– Sabe por que eu lhe trouxe aqui? . – Coloquei minhas mãos entre nós. – Respondi de forma automática hipnotizada com os ébanos.. As mãos habilidosas do vampiro então me enlaçaram pela cintura enquanto os ébanos voltavam aos azuis – Você é especial para mim Megan.O avião já está pronto para decolar... talvez fosse melhor assim. – Não. buscando pela minha. ele estava muito próximo. o mordomo.. fazendoa arder a cada toque que fazia. – N-Não! – Esquivei-me dos braços do moreno enquanto ele olhava-me aturdido com meu movimento. eu. – Porque. – Senhor Chevalier. Eu sinto muito Leonard. Afinal o que ele estava pensando? – Desculpe-me. – Pausou mais uma vez. seu hálito quente e seu perfume inebriavam todo o meu ser. – Ele baixou os olhos e afastou-se de mim. – Ele aproximou nossas faces... Meu corpo ardia e queimava em desejo a cada movimento das mãos lascivas em minhas costas apertando minha cintura e trazendo-me para mais próxima dele. Ele seguia na frente evitando qualquer contato comigo e eu permanecia atrás dele. – Let‟s go baby. por favor. senhorita Lewis! – Tom.Acariciou minha face carinhosamente. – Fez uma reverencia para que nós o acompanhássemos. – Devemos voltar agora. misturando-as e realizando um desejo intenso que passava do corpo dele para o meu. – Sorriu forçadamente como se nada tivesse acontecido e depois pôs se a caminhar ao meu lado até a aeronave onde o mordomo abriu a porta do avião para que passássemos e assim fizemos. sua língua invadia-me carinhosamente. próximo demais. – Leonard passou por mim e estendeu a mão para que saíssemos juntos do jardim e voltássemos ao caminho inicial planejado. – Procurei os senhores por toda a parte. – Ele sussurrou em meu ouvido. sigam-me. Caminhamos rapidamente até que enfim alcançamos a trilha inicial da mansão.. – Okay. – Acrescentou friamente e seguiu por onde voltamos. – N-Não posso. Um silêncio intimidador tomou conta de nós. passando todo o calor do sentimento dele pela conexão dos nossos lábios. seguindo-o numa distancia cuidadosa para continuar a evitar o contato tão incomodo para nós dois neste momento. ele já estava próximo demais. – Hum? – Os azuis nos ébanos. . .. eu podia sentir a respiração descompassada dele quando ele aproximou os lábios dele dos meus roçando-os carinhosamente.

“O que será que me aguarda?” "Um bom filho a casa torna.. mas eu já tinha visto-os em algum lugar. Talvez fora em alguma outra revista. – Por nada. – Senri Shiki e Toya Rima. muito bonita. cumprimentar os comandantes. Olhei ao redor e algo chamou minha atenção. – Apertei os cintos cuidadosa e em seguida abri a revista folheando desinteressadamente parando em uma ou outra página. – Ele repetiu sentando-se ao meu lado enquanto prendia o cinto.. Ou simplesmente ele estava evitando ficar a sós comigo novamente. eles eram tão apáticos. Então voltei minha atenção aos olhos puramente azuis do homem. – Já vamos decolar. Apenas curiosidade. na poltrona que estava ao meu lado esquerdo havia uma revista que estampava na capa um homem de cabelos castanho avermelhado de uma beleza admirável e uma loura. falando apenas quando fosse necessário. – Você os conhece? – Continuei observando a revista faltava-me coragem ainda para encará-lo. não conseguia lembrar-me de onde. Aproveitei do silêncio para concentrar a minha mente na carta que recebi de William sobre a morte de papai e a leitura do testamento.. Diferente do habitual. encará-lo depois de rejeitálo de uma maneira tão brusca era completamente complicado para mim. mas foi em vão. particularmente devo dizer que entre nós esse fora o primeiro longo e constrangedor silêncio.. – Por quê? – O sorriso já forçado desaparecera de sua face naquele instante. De alguma forma aqueles rostos me sorriam familiar.. provavelmente. Leonard guiou-me até as confortáveis poltronas onde fiquei acomodada enquanto ele seguiu até a cabine de comando para. – Como? – Na foto.. Entretanto não dizia os seus nomes. eu até que preferia ficar sozinha. São os modelos Senri Shiki e a Toya Rima. Entretanto agora eu não deveria pensar sobre o que aconteceu naquele jardim. . Distrai-me pensando nos motivos para aquilo. Mas eu tinha quase certeza que não.A voz de Leonard despertou-me.. Nós dois ficamos calados grande parte da viagem.. .” Dito popular. Fechei meus olhos tentando lembrar-me. Se bem que após aquela cena nos jardins da mansão.Dentro do aeroplano novamente pude relembrar o quão luxuoso ele era. A viagem seria longa e o silêncio intimidador não dava trégua. devo ressaltar também.

– Não fazem Whisky como antigamente. por favor. – Ele me sorriu o mais simpaticamente possível e tomou mais um gole do Matheson. Apertem o cinto novamente. – Serviu-se de mais uma dose... humanos às vezes eram tão fúteis. – Escolhi as palavras. Eu continuei folheando a revista desinteressadamente durante todo o vôo.. enquanto se preocupavam se estavam vestindo a roupa da última coleção ou o que as celebridades faziam das suas vidas. talvez esta fosse a primeira vez que olhei nos olhos de Leo depois do evento no jardim. era melhor o assunto terminar por ali. faz tempo que não me deliciava com um Whisky com tanta qualidade. arrematei de um leilão em Pennyhill Park Hotel. Hm.. apenas o indispensável era dito. talvez por eu enxergar na figura masculina dele o mesmo sentimento que sempre me afligia. – Curiosa. A sua apatia me era tão familiar. Ele gargalhou logo em seguida ao fitar minha expressão surpresa e eu o acompanhei no sorriso mais simpático que me ocorreu no momento. ... onde estava anteriormente. – O sorriso desapareceu e ele tomou o último gole de Whisky que só agora fui perceber em sua mão. Tentei lembrar o nome. – Leonard parecia perturbado com a nossa proximidade. o segredo da existência dos vampiros continuaria secreta... – Passei o meu indicador da face dele. mas em parte isso era bom. para a dela. Leonard e eu permanecemos calados evitando qualquer contato verbal ou visual. apesar de que muitas pessoas de toda a mídia ainda fossem seres como eu. mas não quero nada. – Eles não são humanos.. Naquele momento pelo menos era melhor assim. – Eles me deixaram um tanto quanto. são? – Olhei capciosa.. – Senri Shiki. – Nobres. E olha. eu já havia passado por aquela capa várias vezes e sempre acabava hipnotizada pelos azuis indiferentes do modelo contrastando com a pele alva e os cabelos acobreados desajeitados. – Quer um pouco de Whisky? – Ofereceu-me apontando para a garrafa próxima a ele. – É a Matheson.O silêncio imperou na maior parte da viagem. “Merda!” Praguejei mentalmente enquanto tentava lembrar. – A voz de Leonard ecoou pelos meus ouvidos fazendo despertar a lembrança esquecida. mas foi inútil. era rara as vezes em que alguma reportagem chamava a minha atenção. – Obrigada. Peguei-me olhando a capa da revista novamente... Senhor Chevalier. senhorita Lewis. – Em cinco minutos iniciaremos a descida.

Como confiar em algo planejado e feito por humanos? Definitivamente impossível.. Continuei concentrada em qualquer outra coisa senão a descida e só consegui voltar a realidade quando senti que o avião já havia pousado e agora estávamos deslizando pelas pistas. – Leonard falou-me com um tom inseguro. – Comentei com Leonard assim que ele se acomodou ao meu lado no banco de trás. – Esse é um dos meus favoritos. O mordomo dos Chevalier nos conduziu do saguão de chegada até a garagem onde outro carro extravagantemente luxuoso nos esperava. – É realmente lindo. – Tom quebrou o silêncio assim que o carro arrancou saindo do estacionamento particular dos Chevalier no aeroporto.Olhei pela janela e pude observar a bela Madison iluminada. – O que houve? . – Ele sorriu pela última vez e o silêncio tomou conta do veículo novamente. Voltei meus olhos para a revista que ainda estava no meu colo e apertei as fivelas do cinto do avião.. – Thank you. As descidas nunca me eram muito agradáveis. se o trânsito da grande maçã permitir. mas logo após isso o silêncio reinou novamente. Finalmente o chão. – Hum? – Girei meu corpo para observá-lo olho no olho e meus azuis encontraram os ébanos preocupados. – Leonard gabou-se enquanto o mordomo abria a porta para que eu entrasse. dessa vez era um Maybach negro.. então pusme observar as luzes que passavam em flashes pela janela no automóvel. era uma linda noite. – Megan. Ele era fabuloso em todos os detalhes. Evitei encarar Leonard novamente. – Mas. mas logo o silêncio tornou a ser quebrado.. eu particularmente detestava aviões. mas felizmente as luzes da noite não me faziam mal como o sol. é claro. Eu nunca lhe vi com esse antes. – Em uma hora no máximo chegaremos à mansão dos Lewis. – Agradeci o mordomo. O céu estava estrelado e nenhuma nuvem encobria a prateada esplendorosa no céu. O engraçado é que a noite parecia haver mais luz do que no dia. – É um dos favoritos dos meus pais também. sei que ele ainda estava incomodado.

. esse semblante não combina com você. qual eu me lembrava muito bem. – Quero estar por perto caso você precise de um ombro amigo. – Ele virou-me sorrindo arrancando de mim um sorriso retraído. tudo havia mudado muito após todos aqueles séculos menos aquela casa. Um pouco de nostalgia havia me invadido. Observei tudo ao meu redor. Leo apontou para uma grandiosa casa. para automóveis pelo antigo jardim. pois não agi como um cavalheiro e me deixei levar pelo momento. Senti um calafrio percorrer pela minha espinha quando cruzamos o caminho. A brisa gelada da noite acariciou minha pele alva brincando por entre meus fios negros tal qual a noite. William provavelmente estava esperando a gente. . A porta do carro foi aberta e Tom ajudou-me a descer do automóvel. – Hm? Vocês vão acompanhar-me? – Continuei observando o jardim. – Ele finalmente tornou a sorrir e suas mãos afagaram meus cabelos como antes. – Ele baixou os olhos para os próprios pés como uma criança arrependida faz após alguma traquinagem. Fui mantida presa entre aquelas paredes durante séculos. Apesar de só ter a visto pela última vez há trezentos anos. – Interrompi-o. provavelmente. – Eu devo pedir desculpas.– Desculpe-me por aquela cena no jardim.Já estamos chegando.. – Você quer que eu vá embora? Se quiser eu vou. – Não me interrompa. ela nunca havia saído da minha mente atormentando sempre minhas lembranças. Por alguma razão ela continuava da mesma forma que eu me lembrava. mesmo sabendo que você estava abalada eu a forcei a uma coisa que você não queria. não gostaria de perder uma imagem sequer. Olhei ao redor. – Leonard não precisa se desculpar e nem ficar assim. mas logo seu dedo indicador calou-me quando se aproximou de meus lábios pedindo-me por silêncio. O belo Maybach parou em frente ao portão que logo se abriu. . – Vamos? – A mão de Leonard tocou o meu ombro fazendo-me despertar. Espero que você não tenha ficado chateada comigo. absorvendo todas as sensações que me foram negadas nos últimos séculos... três para ser mais exata. – Ele continuou após um longo suspiro.

– Como quiser milady. . – Yes sir. – Henry levará o senhor Chevalier e o mordomo até o quarto de hóspedes. tampouco poderíamos seguir pelo mesmo caminho. – Mas a leitura não seria amanhã à noite? – Leonard interveio. Entretanto será uma honra tê-lo aqui comigo. Ele fez uma reverencia assim que nos viu. – Agora vamos! Algo me diz que esta noite será longa por demais. – Mas não precisa se preocupar. .Despedi-me com um breve aceno de Leo e seu mordomo. Os hóspedes ficavam em outra ala da casa. Foi até que então eu percebi que muitas coisas mudaram. eu sei como me cuidar. Dois empregados da mansão mais o mordomo dos Chevalier nos acompanharam até o hall principal onde William nos aguardava. William assumiu a responsabilidade deixada pelo pai sendo treinado para ser exímio no que faz até hoje. Mas a essência do local era a mesma: fria. – Agradeci retirando a mão do meu ombro. A leitura do testamento começará em meia hora na biblioteca. quanto antes saber sobre o conteúdo do testamento melhor. Chevalier. os antigos candelabros foram trocados por lâmpadas elétricas. sou o único que guarda as chaves dos quartos principais. – Acho melhor seguirmos para os quartos agora. – Ele satirizou-me enquanto selava um beijo no dorso de minha mão. Ele era bastante novo quando começou a servir minha família. seu pai era o mordomo particular da nossa família. parecia um pouco mais velho e maduro. espero que isso não seja um incômodo. – Good Night Miss Lewis and Mr. ser um mordomo dos Lewis. mas com o falecimento pelas mãos de algum caçador. os papeis de parede foram renovados. se a senhora não se importar levarei a senhorita eu mesmo. pelo menos interiormente. – Ele sorriu daquela forma maliciosa mostrando os caninos para mim. alguns móveis trocados.– Thank you. – Estalou os dedos e um dos empregados aproximou-se. – Certamente que não é. Mas com a chegada antecipada de Miss Lewis a leitura fora antecipada para hoje. William também estava um tanto diferente. agora eu e William seguiríamos para um caminho diferente dentro da mansão. – Encarei Leonard com reprovação interferindo na conversa.

eu gostaria de perguntar a William sobre tudo o que aconteceu. – Yes milady? – Ele colocou a última peça no closet e virou-se para mim em uma nobre reverência. – Como meu pai morreu? – Fui direto ao ponto. – Agradeci sentando na cama enquanto ele trazia minhas bagagens para perto do closet instalado na suíte. – Oh. o que aconteceu com o meu antigo quarto? . era o momento ideal.William e eu seguimos em silêncio pelos longos corredores que agora me sorriam familiares. Continuamos caminhando. estávamos a sós enquanto andávamos. – Ele abriu a porta revelando um moderno cômodo que não combinava com o classicismo da mansão. – O mordomo reverenciou mais uma vez. – William espere. mas não proferi uma palavra. mas as incertezas em torno da morte repentina de meu pai voltaram a me assombrar. – Thank you. – Como desejar my lady. mas o mordomo se esgueirou da pergunta. okay… Mas não precisa guiar-me até a biblioteca. mas agora se me der licença devo preparar a biblioteca. Paramos a uma antiga porta de carvalho. – Senhorita Lewis. uma que eu conhecia muito bem. – Após o testamento milady estarei disposto a responder todas as suas perguntas. ficará acomodada nesta suíte. mas logo continuamos parando três portas depois. Estar ali agora era como uma viagem ao passado. – William? – Chamei-o enquanto terminava de desfazer minha bagagem e arrumar no closet. Ele também não parecia nenhum pouco disposto em quebrar o silêncio entre nós. Ali só haveria a relação de mordomo e mestre e de acordo com um comportamento primoroso de um mordomo. Daqui a dez minutos se não lhe for incomodo voltarei para guiá-la até lá. prefiro fazer o caminho por eu mesma. ele não deveria dirigir a palavra ao seu mestre sem o consentimento do mesmo e eu devo ressaltar que nisso William era exemplar. por favor. se não se importa. Aquele era o meu quarto ou pelo menos fora.

– Ah! Então. . mas acabei por me perder no meio de tantas lembranças. o cheiro. Obrigada. Meus olhos pararam sobre o relógio daquele quarto ainda era antigo e possuía um pêndulo que balançava continuamente. – Eu possuo todas.O mordomo me fitou e permaneceu em silêncio. poderia dizer que fiquei hipnotizada durante alguns minutos por aquele movimento continuo de ―esquerdadireita‖ marcando os segundos. – Pensei que tivesse fugido. Quando fui perceber já estava na hora de seguir para a biblioteca. Caminhei até a porta e segui pelo corredor mal iluminado. – Leonard segredou em meu ouvido em um tom divertido. pois todos já estavam reunidos e um tanto quanto impacientes. vamos ao que interessa. “Eu deveria me sentir em casa?” pensei quando passei em frente à porta do meu antigo quarto e cada parte de meu corpo se arrepiou.. mas logo começou a falar. – Acomodei-me em uma poltrona confortável próxima a Leonard. Devo ter levado um pouco mais dos dez minutos oferecidos para chegar até a biblioteca. menos a do antigo quarto da senhorita. – Despachei-o voltando a ficar só. Observei tudo ao meu redor enquanto os passos do mordomo dissipavam no silêncio constrangedor daquela casa. Eu tinha nove minutos para chegar lá em ponto. Pode ir.. – E as chaves? Você disse que era o único que possuía todas dos quartos principais. O senhor Lewis era o único que possuía a chave e tampouco pensou em confiá-la a mim. os medos e todos os outros sentimentos me invadiam a cada passo que eu dava. Era como viajar no tempo de fato. – O senhor Lewis mandou trancá-lo e tomou a chave de todos nós para que ninguém mais entrasse lá. – Enfim. – Desculpe-me pelo meu atraso cavalheiros. – Gesticulei para que desse início a leitura. Entretanto continuei seguindo até onde minhas lembranças da biblioteca me indicavam.

Mas o que você faz aqui? Pensei que não iria acompanhar a leitura. É apenas um testamento. – A sua matricula já foi feita senhorita Lewis. – Condição? – Engasguei-me com o chá que a pouco havia sido servido por William. – Cláusula B. – Leonard interferiu. Artur Torrance estou aqui para transmitir os seus últimos desejos por meio deste testamento que nos foi enviado logo após a sua morte por parte de seu mordomo William Scott.– Não tenho porque fugir. – Os olhos do vampiro flamejaram em um vermelho vibrante demonstrando a sua irritação com o meu comportamento. advogado e membro do conselho dos Anciãos.. – Leonard sussurrou em meu ouvido. – Eu até que pensei em sair por aí.. Ela pode ser cancelada a qualquer momento caso deseje. Entretanto. Afinal que merda meu pai pensou quando escreveu aquilo? – Acalme-se Megan. – O vampiro sorriu maldoso. no Japão. forçando-me a sentar ao seu lado novamente. – Bem. – Sorriu. A senhorita Megan Lewis deverá mudar-se para a Academia Cross. – Japão? Academia Cross? – Eu não conseguia absorver tantas informações. como é do conhecimento de todos aqui presentes. das condições. visto que esta é a sua única filha e é a única a ser citada neste documento. tentando apaziguar a situação enquanto puxou-me pelo braço. – E o que acontece caso eu não aceite e cancele a matrícula? – Indaguei desanimada. .. – Eu. fazia tempo que eu não ouvia ninguém dizê-lo. entretanto é de sua própria escolha ir ou não. continue. – Mas que merda é essa? – Levantei-me deixando o chá de lado. por favor. Ele era um membro do conselho.. – Então. mas logo emudecemos quando um senhor começou a falar. tais posses só deveram ser entregues mediante o cumprimento de uma determinada condição. – Senhorita Lewis contenha-se. não poderia esquecer-me disso. mas estar com você me pareceu mais interessante. Albert Lewis. onde a mesma deverá comparecer as aulas da turma da noite assiduamente até se graduar. o falecimento de Mr. A senhorita Lewis será a única beneficiada e receberá todas as posses que antes pertenciam ao seu pai. – Esse era o primeiro nome do meu pai.

– E o que acontecerá com as posses? – Perguntei curiosa. – Eu posso pensar sobre isso? – O sorriso do vampiro agora se estreitou. – Falei impassível. provavelmente estava louco para por as mãos nas posses. ~x~ Não demorou muito para que chegássemos até o quarto onde eu fiquei hospedada na mansão. Você deveria fazer o mesmo Leo.. até hoje eu tinha tido tudo sem precisar de um centavo sequer dele. – Preciso pensar sobre isso. Adeus. – Irei de volta para o meu quarto. – Estarei aguardando ansioso por isso.. – Respondi-lhe friamente enquanto me levantava.– A clausula das condições não será cumprida impossibilitando que receba todas as posses que pertenciam ao seu pai e sua família. – E então Megan já sabe o que vai fazer? – Leonard perguntou-me com um ar preocupado. – Não sei. – O sorriso do vampiro a minha frente alargou-se me deixando enojada. ainda havia muitas perguntas a serem feitas. Logo receberá minha resposta. – Yes milady Lewis. – Isto é tudo? – Respondi desinteressada. eu precisava de respostas o quanto antes. – O vampiro me instigou. acho melhor descansar por hoje. – Elas serão leiloadas pelos membros dos conselhos dos Anciãos. Entretanto se quiser dar uma resposta agora poderá evitar muitas dores de cabeça no futuro. acompanhado por algum outro mordomo senão William. . – Yes milady.. ou seja. a senhorita tem um prazo de dez noites a partir da leitura do testamento.. – O dinheiro pouco me importava. hoje. – Hm. Se após estas dez noites não houver comunicação alguma será considerado a desistência da cláusula das condições e você perderá quaisquer chances de voltar atrás. creio que ainda não absorvi todas as informações. Pedi para que William trancasse a porta assim que entrássemos. – O sorriso petulante permanecia no rosto do vampiro quando ele seguiu para a saída. Meditei absorvendo todas as informações. – Sorri-lhe o mais verdadeira que pude dirigindo-me a saída acompanhada por William... Cinismo parecia ser o forte daquele cão do conselho. – Então.

cortando-os rapidamente.Medo de ficar sozinha. só de imaginá-lo era como se retornasse para anos atrás. para a prisão a qual eu pertenci por séculos. Afinal. — Exibi a pequena fita em minha mão. não mais. – Entretanto. meu pai. Apanhei-o cuidadosa e um tanto quanto receosa. Sem hesitar. Passei meus olhos pelo envelope e rapidamente encontrei uma identificação. E assim que consegui finalmente abri-lo. o papel que antes era branco já estava um tanto amarelado pelo efeito do tempo. — Senhorita Lewis.– Você disse que responderia minhas perguntas assim que a leitura terminasse. mas foi tempo suficiente para que William se preocupasse. Meus olhos recaíram sobre dois objetos. Era a caligrafia dele. violando-o mais rápido que eu podia naquele momento. uma chave e uma pequena fita. Eu não deveria temer meu pai agora. “Outra carta?” pensei. – Deve ajudar-lhe a solucionar algumas das dúvidas que a senhorita já possui. não é? Lembrei-me de tudo que havia acontecido nos últimos dias e meus orbes azuis se fecharam tentando absorver aquilo. algum problema? — a voz impassível atravessou meus pensamentos. certo? . “For Megan.” O envelope deslizou rapidamente entre meus dedos ansiosos enquanto eu caminhava até a cama. — Will! Preciso de algo para ouvir isso aqui. Eu deveria ouvi-la? E se ouvisse a voz do meu pai? O que ele queria com aquilo? Era estranho pensar em ouvir a voz dele. Esbocei um sorriso de escárnio. apanhei as duas. – Estendeu-me um envelope. despejei seu conteúdo em cima da colcha de cetim azul que forrava a cama naquela noite. Eu não era mais fraca e estúpida. – Os orbes esmeraldas do mordomo sorriram satisfeitos. Onde só havia frio e medo. antes que prossiga com as perguntas devo-lhe entregar isto. por isso não deveria fraquejar em ouvir uma simples fita. Não sei quanto tempo permaneci estática na cama com a fita entre meus dedos. eu sempre fui sozinha. de fato eram muitas as coisas que eu teria que compreender. – Yes milady.

Estava tudo planejado? Fiz menção em perguntar algo. a respiração ia tornando-se ofegante e falha até que ele novamente pausou a fala e eu pude ouvir mais um pouco da .. — Senti cada parte do meu corpo arrepiar quando a voz dele ressoou por todo o quarto saindo do aparelho. Uma tosse intensa e seca o interrompeu. Mas diferente de antes. parecia fraco. Se precisar de mim. Então ele continuou: — Desculpe por isso e pela fita em si. não quero que sinta pena de mim. As palavras doces não pareciam combinar com a figura dele que eu trazia em minha mente ao longo dos tempos. o que quer que soe do gravador antigo me surpreenderia.. Você já deve saber disso. Realmente feliz. estarei do outro lado da porta aguardando ordens – despediu-se em uma pequena reverencia. saiu. ele acelerava um pouco na pronúncia. após a sua partida imaginei como lhe dizer tudo o que pretendo dizer aqui. —Pigarreou e prosseguiu: — Minha saúde não está uma das melhores. impedindo que eu perguntasse algo ele saiu. A cada palavra. Nunca tive forças para combater a dor que se implantou em mim após a morte de sua mãe. achei a fita mais usual para mim e mais prática para ser conservada.. mas o mordomo rapidamente entregou-me um pequeno gravador que possuía um encaixe para a fita. agora a voz não tinha aquele tom imperativo. Então finalmente apertei o play e fiquei na expectativa.. acho melhor ouvir a fita sozinha. creio que a morte me aguarda para logo. as lembranças e a fita a espera de ser tocada. Ainda não me acostumei com essa tecnologia digital humana.. isso já era esperado. — Megan. anêmico..O mordomo me sorriu e se dirigiu até o criado mudo próximo a cama. porque eu não a mereço.. depois um chiado incessante.. não com meu pai. e após a minha permissão. Primeiro veio o silêncio. pelo contrário.. Até que finalmente uma voz se sobrepôs... eu costumava brincar muito com aquele tipo de aparelho antes. obrigado por ouvir a fita. Prontamente coloquei-a no gravador. rouca. Mas não é isso que eu quero lhe dizer. Agora só havia a minha ansiedade. — Milady. gostaria de ter lhe dito frente à frente. mas novamente fui covarde. por séculos. Egoísta e covarde é tudo o que eu sempre fui em relação a você. — Primeiramente. Megan. Isso me deixa feliz..

lhe culpar. Fraquejei mais uma vez. agora estava tão próximo que eu poderia sentir a respiração falha dele como se sussurrasse. Mas Megan. Vampiros teriam corações? Meu pai havia me ensinado que não por todas as vezes que ele me ignorou. –Você é muito parecida com ela.. caso você me reconhecesse. Não me eram novidades. Então minha mãe realmente não odiava quem lhe tirou a vida para poder viver. eu sempre soube que minha mãe me amou. Por . eu não sei como reagiria..... Aproveitei e aproximei mais o aparelho de minha orelha. você canta como ela. Principalmente os olhos azuis. Eu gostaria muito de ter ido vê-la cantar ao vivo. Mas além dos olhos... sempre foi.. Eu não sei como conseguiria definir aquilo que senti quando ouvi aquelas palavras saindo do gravador. Eu pude ter o deleito de assistir a alguns shows seus. Pedi para que alguns dos meus servos. Uma parte de mim foi acalentada quando ouviu essas palavras. pelo menos era o que eu pensava. Nunca tive certeza daquilo. Porque culpar alguém se não você é muito mais fácil não é? Por isso eu culpei você. os gravassem para mim. mas tudo o que fiz foi lhe ignorar.. Sua mãe cantava como um anjo e. Mas.tosse seca no fundo da gravação. ainda havia parte de mim que duvidava de todo o amor que eu imaginava que ela sentisse por mim. ou mesmo você. não se esqueça que sua mãe lhe amou até o último momento. como se tivesse cuidado em dizê-la.. Apertei fortemente a mão com a qual eu abraçava meus joelhos. que você não conhecia. Era isso que me fazia continuar desejando viver. se de fato considerasse a existência de um. a encontrava. a voz angelical também. Eu poderia dizer que meu coração estava descompassado. em meu ouvido.. Talvez seja por esse motivo que eu nunca consegui estar próximo a ti.. eu imagino que você já saiba disso tudo que eu estou lhe dizendo aqui. mas mesmo assim.. Acolhi minhas pernas. Nunca duvide disso. mas me sinto no dever de proferir. Mas despertei dos meus pensamentos quando ele prosseguiu após um pigarro rouco. abraçando meu joelho e em seguida apoiando meu queixo sobre ele. ali. — Megan... A verdade é que sofremos a mesma dor e sentimos a mesma perda. Sempre que olhava dentro dos teus. Os meus cabelos negros cobriam meus ombros aquecendo o frio que a lembrança paterna me trazia. — Eu não quero que me perdoe filha.. Sendo que você não passava de uma vítima como eu. — ele frisou a última palavra.

Tenho certeza que ela ficará feliz.. Fechei-os para conter mais lágrimas que poderiam vir.. por saber que você está o usando. Então vou direto ao assunto. Eu estava surpresa demais para que algum pensamento me ocorresse. ela é a única que pode abrir o teu quarto.. Afinal já é tarde demais. Ela me disse que iria deixá-lo lá para quando você completasse seus três séculos. É um presente dela para você... por isso deixei várias ordens a William para que ele preparasse tudo para seu conforto. – Você provavelmente está a três portas do seu antigo quarto. eu sempre estive ao seu lado. Olhei para a chave que estava comprimida em minha mão. O azul da mesma cor dos seus olhos... voltando ao seu quarto. Era mesmo o meu pai que gravara aquilo? Eu não poderia acreditar. eu não o mereço.. vê a chave prateada que acompanhava a fita? Bem.. onde estiver. ou pelo menos eu não queria. aquilo que soava do aparelho? Não! Não poderia ser. Como era possível. pois é a única que possui o mesmo sangue dela. Eu já esperava ser surpreendida. Em um quarto de hóspedes e a colcha que provavelmente cobre a cama é de cetim azul. – Megan. essa era a cor favorita da sua mãe. Eu vacilei e um gemido de surpresa escapou dos meus lábios.. há algo lá para você. então não hesite em procurá-lo. e em seguida desceu solitária pela minha pele pálida. mas definitivamente não dessa forma. Tossiu mais uma vez aquela tosse rouca.. eu não quero me prolongar aqui. amenizando o ardor. Enfim. Então ele havia planejado tudo para depois de sua morte? Por quê? Uma lágrima surgiu em meus olhos. ..mais que você pense que te abandonei. Parou e tossiu mais um pouco. Mas. eu sempre soube que minha morte estava próxima. Levei o dorso da minha mão que apertava minhas pernas à boca. eu não espero o seu perdão. nas sombras escondia a minha proteção que você nunca precisou. Ou pelo menos quase. O colar pode ser usado apenas por você Megan.. tentando conter outros que pudessem ocorrer e meus olhos arderam feito brasas. aumentando o suspense. Algo que nem mesmo eu tenho a permissão de tocar.. ela pareceu congelar quando ele revelou o que ela de fato abria. ser verdade.

Queria dizer que o amava também.. talvez isso fosse o que mais me doeu ali. A não ser. Então ele finalizou: . . Ele é meu amigo. — Megan! Está tudo bem com você? — Era a voz de Leonard... Relaxe — sussurrei ao mordomo que não queria deixar a posição de guarda.. senhorita Lewis — o mordomo falou convicto. Abracei mais fortemente os joelhos na tentativa de extravasar aquela angústia que me consumia... não era para você estar descansando? Daqui a algumas horas irá amanhecer. está tudo bem. mas não conseguiria... — Está tudo bem aqui. Não depois de tanto tempo. e repeti mais uma vez sem acreditar no que ouvia. – Um calafrio percorreu todo o meu corpo quando ele chamou-me de filha e as lágrimas começaram a insistir em brotar em meus olhos. — Eu estava com um mau pressentimento. que eu te amo filha. — William. Então. — Deu dois passos para trás evitando desviar os ébanos dos meus azuis. Aquilo era realmente o fim.. — Leonard.— Megan. Ouvi um barulho vindo do corredor. impedindo que ele desse mais algum passo. — Ele tentou se aproximar. — Mas como você pode ver. Em seguida abri a porta e pude fitá-lo.. As lágrimas naquele momento já não conseguiam ser contidas. eu o fiz repetir para mim que me amava e chorei. como se eu tentasse absorver o calor que aquelas palavras me traziam.Merda! – praguejei em pensamento. mas William se interpôs entre nós dois. Voltei atrás. — censurei-o apoiada a soleira da porta.. Retrocedi a fita para a parte em que ele me chamava de filha. Não! Minha filha. — O que está havendo? — falei em um tom baixo para que apenas William me ouvisse caso ele estivesse acompanhado. e abandonei a cama com a chave ainda na mão e segui caminhando de leve até porta.. A prata ainda estava fria quando entrou em contato com minha pele. guardando a chave no decote do vestido. Ainda estava com a mesma roupa que presenciou o testamento e parecia bastante aflito. fiquei preocupado com você. Mantive o gravador encostado em minha face. A gravação acabou e o silêncio tornou-se ensurdecedor para mim. o seu mordomo não deixa eu me aproximar mais. . eu poderia me dar por vencida se logo atrás uma voz não ressoasse.Eu já não tenho muito a dizer aqui.

— Irei voltar para os meus aposentos. mas eu o impedi. — Ébanos sorriram para os meus azuis e se afastaram. não agora. — Não será preciso William.. Depois conversaremos. — Pensei que você não sonhasse.. Você não mentiria para mim não é Megan? Sabe que não consegue. Então assim será. — Deseja que eu me retire milady? — Reverenciou a mim da forma mais cortês possível.. — Seus dedos passearam pela minha face de forma terna. Além do mais está tarde. William seguia na mesma direção de Leonard. aquilo estava começando a me irritar. Fantasmas do passado que às vezes tornam a me assombrar. — Eu devo obedecer somente à milady. — Ok.— Eu não confio nele — retorquiu num tom seco. — O que houve para que saísse de seus aposentos nesta essa hora? — Eu tive um pressentimento ruim em relação a você e fiquei preocupado. Além do mais. Saindo de minha frente. — Ah! Isso? — Afastei-me secando os resquícios de lágrimas que me denunciaram. Assim que ele desapareceu da minha vista na escuridão.. — Sorriu vitorioso enquanto aproximava sua face da minha. se você prefere assim. — O que pensa que está fazendo? — censurei o mordomo. Eu ainda não estava preparada para isso. Eu não queria explicar para Leonard sobre a mensagem do meu pai.. mas abandonou o posto. — Piscou malicioso pra mim com um sorriso simpático. — Tornei a ficar séria como sempre para que ele não desconfiasse.. — Pesadelos não são sonhos. . senhorita Lewis. O silêncio tomou conta de mim e de Will enquanto o Leo se afastava de nós pelos corredores escuros dos quartos ―principais‖... Preciso descansar. Leonard certamente não demorará muito. — Eu tive um pesadelo. ele é meu amigo e ficou ressentido com o seu atrevimento. Chevalier encontrou o seu cômodo para poder descansar — respondeu-me automaticamente como se fosse a coisa mais normal do mundo. — Não precisa William.. meus pesadelos não passam de lembranças. arrancando um sorriso de escárnio de Leonard.. Você sabe. — Virei meus olhos para os dele. — Afastei-me dele o mais natural possível. — Roçou seus lábios em minha testa e olhou mais uma vez de forma ágil e dissoluta para William fingindo não percebê-lo ali. Voltei meu corpo novamente para dentro do quarto e pude ouvir passos no corredor. — Eu ia checar se o Sr. — Descanse Megan. — Andou chorando? — Ergueu as sobrancelhas indagando-me. tornei a respirar tranqüila. — Gesticulou de forma formal em uma reverência.

senti os sentimentos e lembranças todos juntos atravessando cada parte de mim impiedosamente. Todos os três séculos em que vivi naquela casa passaram em frente aos meus olhos como flashes. — Gostaria que me acompanhasse até o meu antigo quarto. Meu antigo quarto.. então ele seguiu em frente e eu o acompanhei. só que ao invés da eletricidade em si.— William. E quando eu o fiz. Fechando a porta do quarto onde eu estava cuidadosamente. my lady — a voz do mordomo soou um pouco mais sedosa. era preciso que passassem por nós para chegar até lá. Um arrepio me fez despertar do transe. e como meu antigo quarto era mais a frente. — Sussurrei para que apenas ele pudesse ouvir.... logo. Girei a chave e num estalar rouco repleto de rangidos a porta abriu. e as mãos tremiam de ansiedade e se agitaram mais ainda quando percebi o contorno do mordomo parado em meio à escuridão do corredor. Minhas pernas hesitavam a cada passo. a tremedeira da ansiedade não ajudava muito e demorou alguns segundos para eu conseguir finalmente introduzir a chave na fechadura. A nostalgia. — Ele é meu convidado e me auxiliou muito. arrepiando-me por completa. Você não deve destratar meus convidados. três portas a frente para ser exata. — Yes milady. cruzando os braços sobre meu peito. a temperatura fria e nada acolhedora não havia mudado também. — Apanhei a chave cuidadosamente que havia escondido em meu decote. muito menos os poucos que considero como amigos — falei severa para o mordomo que pareceu entender perfeitamente que eu falava sério. tenho certeza que foi quase o mesmo que sofrer uma descarga elétrica. eu estava tentando me conter. — Mas agora. finalmente havíamos chegado. — Ergui-o. mas não demonstrei. O cheiro daquele lugar continuava o mesmo. era um dos últimos quartos do corredor. — Yes. A cada milímetro que a porta revelava do interior do quarto que antes era o meu mundo. também me recebeu de forma adorável em sua casa em Londres. e os sentimentos e emoções iam se tornando cada vez mais fortes e difíceis de controlar. pensei e um calafrio percorreu minha espinha. Dei o primeiro passo para dentro do cômodo. As três portas pareciam nunca passar. Concentreime em encaixar a chave na porta. a ansiedade e a curiosidade afloraram mais ardentemente em minha pele. quero pedir para que me acompanhe. não era necessário trancá-lo. Amanhã pedirei perdão pelo meu comportamento ao senhor Chevalier. — Faça-o — redargüi. a . liberava em mim milhares de sensações e recordações que há tempos estavam esquecidos e abandonados.

irritada. Sacudi o pó de minhas mãos. da dor.. Meus dedos finos passearam em meio aos vários best-sellers e outras obras hoje não tão conhecidas. era um móvel infantil de fato. — Não.. — Entre — ordenei. sim! Eu não faço a mínima idéia de onde pode ter algo aqui para mim. Torci o nariz ao ver minha mão coberta de poeira. Abri com cuidado as portas de madeira antiga. Talvez o que faltasse naquele lugar fosse apenas o calor do amor que meu pai nunca havia me dado.. chamando o mordomo para que me acompanhasse. era um dos meus passatempos favoritos. Não creio que haja algo aqui realmente. Olhei para trás e fitei o mordomo olhando-me com um semblante um tanto apático.. os móveis permaneciam os mesmos. Os azuis passearam travessos entre várias obras. elas já não estavam ilustres como antes e tampouco pareciam nobres. O armário não era muito maior que eu. talvez porque aquela porta permanecesse trancada na maioria das vezes. please. Estúpida!. . Bem.. não é? Uma corrente de ar intensa vinha do corredor. Não fora por isso que eu estava ali. que eu nunca havia conhecido naquela casa.. Dei mais um passo e vi as cenas se reconstituindo.. As paredes de tom arroxeado permaneciam as mesmas. tão diferente. eu nunca havia reparado quando menor. mas eu não devia me deixar levar. — Ele mais uma vez reverenciou de forma cerimonial e correspondeu a ordem. pude jurar que me vi quando mais nova lendo alguns livros humanos no canto direito da cama. — Olhei através da vidraça para a lua que se despedia vagarosamente.. Depois eu procuraria pelo livro — Algum problema milady? — O mordomo indagou com uma expressão preocupada. Passei com os olhos entre os títulos. já que era minha única chance de fuga daquele lugar repleto da ausência do pai que nunca tive.temperatura fria de abandono era muito menos acolhedora do que eu me lembrava. Minhas esperanças estavam minguando cada vez mais. buscando por uma das minhas peças mais queridas que tive que deixar para trás na noite da minha fuga. tudo era igual e. Deixei meus pés me guiarem e segui até minha antiga estante. ainda no corredor. no entanto. ela estava tão empoeirada.. — E feche a porta. Meus olhos pousaram então sobre meu antigo armário.. Suspirei sem expectativas e me virei. e ele obedeceu. pensei e segui em direção a ele. mas não encontravam o que eu tanto almejava. Tenho certeza que eu deveria parecer uma criança enquanto meus dedos percorriam os títulos animados.

Gostava de vê-las quando era mais nova. quase todas as chaves. — Quero dizer. depositando a última peça de roupa do armário. Bem. Está completamente vazio. Permita-me ajudá-la. sentando-me na minha antiga cama. — Desde que milady foi embora. — Isso aqui está muito sujo. my lady. Caminhei até o local onde William havia o deixado e sorri lembrando-me dele.. Suspirei lembrando-me dos poucos momentos felizes que tive ali. — Pronto. mas meu sorriso desapareceu quando William chamou-me. o senhor Lewis trancou o quarto e destruiu todas as chaves que abriam a porta para que nenhum criado entrasse mais. de madeira. Vejo que sobrou uma. Os azuis sorriram aos orbes esmeraldas enquanto meu corpo se erguia e se distanciava para dar maior passagem ao mordomo. Meus olhos caíram sobre a minha antiga estante de bonecas. — falei ansiosa para o mordomo que procurava um tanto atordoado entre as coisas que estavam do lado de dentro. Aquelas bonecas foram .. mas ele ocupava espaço demais na minha pequena bagagem. — Merda! – Praguejei abatida. mas depois o coloquei sobre uma velha poltrona na qual uma das amas sentava e me contava algumas histórias antes de dormir. lembrei que tentei carregá-lo comigo no dia da fuga. Senti a temperatura fria amenizar um pouco quando me lembrei disso. — Vamos esvaziá-lo. Observei-as cobertas de pó.. — Me sorriu e abaixou-se ao meu lado. — Nós já tínhamos olhado em todos os lugares possíveis daquele quarto. — Yes. Entre eles estava um lindo vestido vermelho sangue. mas o que mais me encantava nelas era saber que muitas que estavam ali foram escolhidas a dedo por minha mãe antes de morrer. mas isso não as deixava menos graciosas. A menos que.. — Ergueu-se e começou a retirar as roupas que eu havia deixado para trás e alguns pertences que eu nem me lembrava mais. — Não encontrou nada? — Perguntei indignada. Era tudo tão nostálgico.— Há quanto tempo ninguém entra aqui? — questionei a William apanhando o lenço que ele estendeu-me para que eu limpasse minhas mãos.. de terracota. gostava principalmente de admirar os detalhes e perfeição de cada uma. senhorita Lewis — o mordomo disse. — Será que está aí? — Olhei curiosa por entre algumas roupas que eu havia deixado para trás quando fui embora. Havia muitas e de vários materiais ali: de alabastro.. entre outras datadas mais ou menos dos séculos XV e XVI. não precisa sujar suas mãos. Eu adorava aquele vestido. Nada fora do comum? — O mordomo maneou a cabeça negativamente e eu arfei derrotada.

De alguma maneira eu sentia que elas me protegiam do frio e da solidão. Algo que eu jamais conseguiria ver quando menor por causa da altura em que ela estava e de onde se ocultava. Um ledo engano. Observei cada uma das outras bonecas.minhas únicas amigas por todos os anos que eu estive presa ali.. que invadia por uma pequena janela meu quarto.. que hoje jamais conseguiria ser reproduzida de forma tão magnífica. — Não quero descansar. um segredo. apenas bonecas. se estivesse ali eu iria descobrir. Atrás da boneca não havia nada. uma a uma para que eu não derrubasse e muito menos as quebrasse na tentativa de achar algo. Apanhei-me admirando aquela bela mobília. Mas logo voltei a passar as bonecas cuidadosamente ao mordomo. Se estiver aqui nós encontraremos. Não havia nada. Até que voltei meu olhar novamente para uma das bonecas de terracota. minha esperança se dissipou. milady. Ela parecia esconder algo. — Merda! — praguejei quando lhe passei a última boneca e observei novamente minha esperança desfalecer. — William. O dossel de uma madeira nobre com desenhos perfeitamente entalhados. Fiquei admirando-as por alguns milésimos de segundos enquanto a nostalgia ainda corria pelo meu corpo aquecendo as antigas lembranças. — Passei a ele as bonecas. era apenas uma sombra mal projetada da luz da lua. Ele ia depositando-as em cima da minha antiga cama infantil. . — Tenha calma... me ajude aqui. conclui que era tolice procurar algo ali. era a penúltima e estava vestida como as antigas damas parisienses. Uma que estava na prateleira do meio. — A senhorita conhece sabe a ordem? — O mordomo pareceu intrigado... mas eu o ignorei. — retorqui fria. era tão bela. embora soubesse que nunca poderia tocá-las sem destruí-las como fiz com minha mãe. Após esvaziar as prateleiras. — Me passe as bonecas que eu vou ordenando-as aqui na mesma ordem. — O que haveria aqui para mim que eu nunca soubesse após tanto tempo? — Era notável que aquilo era uma pergunta retórica. mas fui trazida de volta para a realidade novamente. para não derrubar nada. Observei novamente ao redor e não achei nada que me fizesse deduzir o que o meu pai mencionara. Aproximei-me cuidadosamente. e a retirei de lá. Por que não descansa enquanto eu coloco as bonecas no lugar? — Reverenciou.

eu não poderia esquecer. Eu já estava próxima à porta quando a voz de William impediu-me de sair. minhas esperanças já tinham ido por água a baixo e minha mente desconcentrou-se. — A senhorita deixou seu colar cair. Vamos voltar — falei desanimada.. com roupas semelhantes às antigas damas parisienses. — Mas eu não estava de colar. escorregou de minhas mãos e se quebrou quando encontrou o chão. A face da boneca havia sido rachada. onde deveria ficar antes de eu derrubá-la. Por isso eu nunca havia as tocado quando mais nova.L.‘ atrás do pingente. Essa caça ao tesouro já havia me dado prejuízo demais por uma noite.. — Sorri enquanto abria o feixo do colar. Apanhei-a com cuidado. É impossível não saber. e são as mesmas iniciais de milady.. senhorita Lewis. Não pode ser meu! — falei sem cogitar a possibilidade de ter encontrado o que estava procurando. mas como eu estava muito nervosa. — repeti as palavras do meu pai enquanto o fechava em meu pescoço. era novamente a penúltima boneca da prateleira do meio.. A manhã está .. shit! — gritei irritada e ao mesmo tempo decepcionada comigo mesma pela falta de atenção. — William. Abaixei-me afobada para tentar juntar as partes que quebraram. Abri os olhos vagarosamente e a fitei inteiramente intacta no chão. — falou exibindo o colar.. a caça ao tesouro terminou. — Ergueu a peça. mas era um ledo engano.. — Porque só eu tenho o mesmo sangue que ela. mas essa por sua vez não quebrou como a outra. Vamos voltar. Resolvi levantar-me. colocando a boneca parcialmente quebrada na prateleira ao lado das outras. — M.— Após séculos observando para cada uma dessas bonecas. Eu até havia fechado os olhos como reflexo para não ver outra boneca se partindo em pedaços. Estávamos praticamente no fim.. me deixe vê-lo? — Estendi as mãos e o mordomo depositou a jóia entre meus dedos. E eu estava cansada de procurar. — Will. mas quando o fiz acertei em cheio minha cabeça na prateleira mais baixa. Era o fim da busca. também eram as iniciais da minha mãe.... William. — Oh. Ele maneou a cabeça positivamente e colocou as partes da primeira boneca de terracota no lugar.L. eu sabia que eu acabaria quebrando alguma. derrubando mais uma boneca. me ocorreu. mas o som que ela fez quando se chocou com o chão de madeira foi completamente diferente da anterior. — Ah! É que está escrito ‗M. William começou a juntar os pedaços. — Um colar que só eu possa usar. — William. — Sorri enquanto o mordomo ia passando uma a uma que eu havia retirado da estante e o entregado. Mesmo que tenha passado milênios. foi nesse momento de desatenção que a pobre boneca de terracota.... — Foi após estas palavras que a idéia daquilo ser o que estávamos atrás.

Rapidamente chegamos. depois me traria um pouco de sangue conforme eu havia pedido. — Quem trazia as gravações era confiável? – Terminei de sorver mais um pouco do sangue dele. Ou até mesmo o significado daquele colar. — Ele começou a falar e eu pausei minha refeiçãopara que prosseguisse sem interrupções.. — Tudo começou quando ele recebeu as gravações de alguns shows seus — concluiu. Passou a trancar-se no quarto da senhorita e recusava-se a se alimentar. mas nos últimos anos realmente ele piorou de vez.. se eu fosse levar em conta as palavras de meu pai.próxima. Ou de menos. — Yes. William prepararia um banho quente e relaxante para mim no banheiro da suíte. — Tentou se esquivar da pergunta. os primeiros raios de sol estavam começando a surgir no horizonte.. — William. — O senhor Lewis ficou muito estranho desde a sua partida. precisamos descansar. sem muito suspense ou ansiedade.. — falei após sorver um pouco do sangue dele.. Infelizmente.. eu parecia inteiramente mais leve que antes. Minhas pernas pareciam bem mais leves. A aurora estava próxima. eu teria que adiar minha nova busca em algumas horas. Meu humor não está dos melhores para encarar qualquer raio daquele sol maldito. — Conte. acatando a ordem e seguimos de volta para o quarto em que eu estava instalada. — Ainda não me disse como meu pai morreu — constatei enquanto lambia o filete de sangue que escapava no canto dos meus lábios... — Bem... my lady.. Talvez a „caça ao tesouro‟ tivesse durado tempo demais.. ... Eu estava com uma dor de cabeça infernal. – insisti e ele assentiu. seu estado de espírito após ouvir meus shows. Ele confirmou positivamente com a cabeça e eu o dispensei. O mordomo meneou a cabeça positivamente. — É uma longa história e a senhorita precisa descansar agora. — Não sabe o que aconteceu para que ele ficasse assim? Não aconteceu nada de peculiar? — argumentei enquanto minhas presas perfuravam mais uma vez a pele do mordomo.

entretanto.. a cada lágrima que ela impedia de rolar. Suspirei. os braços delicados de uma mulher acolheram-me num abraço quente e maternal. Teria sido realmente ela? Tentei abrir — os olhos por completo mais uma vez.. como se fossemos uma só.Uma voz suave e singular como a minha acalentou-me numa canção vazia. ela também sentia. eu chamei. Está na hora de acordar minha criança.. Respirei profundamente para me recompor do susto. mas agora somente vocalizando. mas ninguém respondeu. Esfreguei meus olhos e espreguicei-me. era como se uma parte de mim fosse reparada. A voz que era semelhante a minha chegou como sussurros ternos ao meu ouvido. Eu sentia. Era como se eu ainda pudesse sentir aquele abraço terno. embaçando ainda mais a visão que eu tinha dela. — eu clamei outra vez por ela. o som gutural de um trovão atravessou a escuridão do cômodo me fazendo estremecer.. Senti algumas lágrimas nascendo em meus olhos.. contudo. — Shh. As mãos ternas que ela possuía colheram cada lágrima carinhosamente e. Não consegui abrir meus olhos completamente uma vez que a canção me induzia ao sono profundo. ainda ouvindo o eco da minha negação no silêncio aterrador do quarto que eu estava. Então eu sorri e ela repetiu meu gesto. não consegui. Em seguida. — Que horas devem ser? — falei enquanto jogava meus fios desalinhados para trás. Logo depois. despertando mais rapidamente. eu não queria dormir e ter que deixá-la para trás outra vez. Era a despedida. Eu — podia — senti-la bem ali ao meu lado. Se é que aquilo havia sido um sonho realmente. apertando o pingente do colar contra o meu peito. — Mãe. uma ferida curada. Mãe. esmaecendo até desaparecer por completo. Não! Acordei assustada. Tudo o mais era apenas o silêncio disforme dos meus sonhos falhos. e aos poucos voltei a minha realidade. Ela havia ido. A canção vazia permanecia. voltando a lembrar o que eu havia supostamente sonhado.. selando apenas um beijo doce em minha testa como seu adeus. .

Provavelmente já deveria ser um pouco mais das seis da noite. particularmente a claridade do dia nunca foi do meu agrado. As lembranças são tão nítidas. Prendi meus cabelos em um coque e desci para o hall. Estava cedo ainda. Bocejei e me joguei entre os lençóis de algodão egípcio por mais alguns minutos. A cor das paredes ainda eram as mesmas afinal. — Aconteceu alguma coisa? — Um membro importante do conselho irá chegar daqui à uma hora. O mordomo estava mais pálido que o normal para um vampiro. Haviam sido poucas vezes que eu deixei meu quarto quando era mais nova. quando percebi William em minha frente assustei-me dando um passo para trás e quase cai. Eu não gostava de acordar antes que a lua estivesse no céu. até finalmente me render e despertar de vez.. ele arfava e falava com um pouco de dificuldade.. parecia ter visto um fantasma ou até um caçador de vampiros enlouquecido. milady? . eu fico feliz que já esteja acordada.. Mesmo que o dia estivesse nublado e o tempo propício para uma tempestade ainda era claro demais. de tão perdida em meus devaneios. — E? — Voltei a caminhar e o mordomo me acompanhou logo atrás. mas nada que um pouco de alimento não me ajudasse a melhorar. após o banho. Prossegui minha caminhada por aqueles corredores. — Milady. Sorri confiante enquanto observava as cortinas azuis-marinho dançando no ritmo da brisa noturna.Observei o relógio que ficava no quarto. por isso eu costumava reparar em cada detalhe quando escapava. A notícia chegou agora pouco. sozinha novamente. — Não lhe preocupa. a lua deveria estar se erguendo triunfante no céu mais uma vez.. Eu estava com uma leve dor de cabeça. — Ele fez uma longa pausa para respirar — Mas vai dar tempo. Dirigi-me até o banheiro e. o que ainda parecia um tanto quanto nostálgico. troquei minhas roupas de dormir por um jeans e por uma blusa preta qualquer.. os ponteiros ainda marcavam algo por volta das cinco e vinte da tarde. Eu me divertia enquanto relembrava algumas coisas e. Eu estava correndo para deixar tudo pronto..

aconteceu algo? — Nada demais. descendo os últimos degraus rapidamente deixando meu mordomo para trás. A cena martelava em minha cabeça. Poderia eu chamar aquilo de sonho? Enfim. — Ah! — Sorri tentando disfarçar — É uma longa história. —Sem tempo? . era como se eu pudesse senti-la comigo. — falei. Apertei a jóia e meus lábios se contraíram em um leve sorriso. pude observar Leonard escorado na parede trajando seu habitual terno de negócios e com seus longos cabelos negros presos em um rabo de cavalo. um silêncio desconfortante caiu sobre nós dois. — Puxei-o pelo braço. vamos tomar um chá e eu te conto. — Leo? – Apressei-me... onde arrumou essa jóia? — Ele sorriu. – Vejo que está mais animada. eu não quero pensar nisso agora.. — É uma pena então. Ao alcançar o hall da mansão. isso era inegável. — Sorri. Não até estar devidamente alimentada. Embora meu semblante aparentasse desinteresse. pegando o pingente com a ponta dos dedos e me fazendo corar. agora estou sem tempo querida. – Ele olhou para o relógio ansioso. – ele forçou um sotaque francês. Apenas tive um bom descanso. Após isso. senti-la me protegendo.. uma vez que o pingente estava justamente entre meus seios e eu podia sentir as mãos dele tão próximas. — Que bela pedra. — De qualquer forma. mas ele não se moveu. aquela notícia havia me abalado de certa forma. Era estranha a forma que eu estava me sentindo após o que aconteceu antes de eu acordar.— Um pouco.. — Chérry. nada poderia tirar-me do bom humor que eu estava. entretanto. começando a descer as escadas..

— Não se preocupe. eu não era como uma boneca delicada. minhas entranhas pediam por sangue fresco. Eu queria apenas meu café e iria atrás dele. Apenas leve-o até lá. — Eu não sabia que você tinha negócios por aqui.. eu prometo. não era a coisa mais adequada de uma nobre fazer. eu quero que leve um humano jovem até o meu quarto. mas tenho negócios para resolver.. no fim das contas... caminhando apressadamente junto ao seu mordomo até a porta. — Você nunca perguntou. — Will. despedindo-me dele. – O mordomo dele surgiu descendo as escadas – Enfim. Entretanto. não me preocuparia com isso agora. em seguida.. não agora. eu estava apenas esperando meu mordomo pegar alguns papéis que esqueci. Está certo? — Ok. — Mas. Eu estava com fome. sim? Sorri-lhe e segui em direção à cozinha. Leonard estava estranho. De certa forma eu estava empolgada. Suspirei. Muito misterioso e enigmático para a postura costumeira dele. mas quem se importa? Eu havia vivido os últimos séculos sem toda aquela redoma de cristal em cima de mim e. — Eu pego para a senhora milady. Direto da fonte como o sangue do humano que me alimentaria logo.. por favor. o membro do conselho chegará logo. direto da fonte. — Sorri maliciosa — Preciso beber do meu alimento direto da fonte. Sorri deixando à mostra meus caninos. agora eu tenho que ir Megan.. já irei subir novamente. — Não se preocupe comigo. mas mais tarde estarei de volta e conversaremos.—Na verdade. não irei matálo. Apenas preciso de um pouco de cafeína. Acenei.— sussurrei ao mordomo enquanto lançava-me em direção à cozinha. — Serei breve. Continuei andando e encontrei algumas . milady. – Assenti com a cabeça e ele beijou minha testa. Eu gostaria muito de ficar.. afastou-se. — Não precisa — interrompi-o — Apenas faça o que eu ordenei. chamando William para próximo de mim. E não se preocupe. está bem? – sussurrou no meu ouvido carinhosamente e.

Pude ver William encostado em frente à porta do quarto em que eu estava. Dei mais um gole no café. A cafeína parecia tão sem graça agora. Muito melhor do que assustado como um rato. que chato. então não saia daqui. mais intenso o perfume dela me abria o apetite. eu tinha que admitir. Sorri-lhe de volta como resposta. fazendo-o arrepiar-se. eu o preferia assim. — Vai ficar tudo bem. — Mas senhorita Megan. ele não haveria de fugir. . Quanto mais próxima eu ficava da refeição... Acenei para o mordomo se retirar da frente da porta e ele apenas assentiu com a cabeça. De qualquer forma. seguindo pelo mesmo corredor de antes. Ah! O humano! Dei um último gole na xícara de café enquanto ele prosseguia falando. Humanos gostavam tanto de falar. — Serei breve.criadas pelo caminho. Ele tinha tanto potencial. isso sim me dava pena. Fechei a porta e uma voz masculina suave chamou-me. O garoto deveria ter um pouco mais do que dezessete anos. eu prometo ser breve. Subi as escadas novamente. aproximando-me do rapaz. Sorri. — Aos poucos a face do mordomo estava voltando ao normal. eu. pedi a elas que trouxessem meu café e rapidamente eu já estava saboreando a maravilha que é a cafeína. — sussurrei ao pé do ouvido dele. Era a hora do prato principal do meu desjejum. eu estava apenas checando o que William me trouxera e. cabelos louros e olhos cor de mel escondidos debaixo das lentes de um óculos. ele tinha um bom gosto. Ele deveria estar guardando o local para que o humano não fugisse. Na verdade eu não prestei atenção em nenhuma palavra do que ele disse. ok? —segredei-lhe antes de adentrar meu cômodo. — ele não conseguia formar nem uma frase só com essa investida? Eu segurei o riso. — Como quiser milady. assim como seu semblante inexpressivo. Will havia se tornado um perfeito cãozinho.

isso.. Entretanto. Virei a face dele somente para mim. . — É a sua primeira vez. Afastei-me dele e segui em direção a cama. não? — ele estacou e eu — ri. eu tinha que inclinar minha cabeça um pouco pra cima. Ele era mais alto do que eu quando nós estávamos mais próximos... — acrescentei enquanto minhas mãos deslizavam pela camisa desabotoando todos os botões facilmente. mas as mãos dele interromperam minha ação no meio do caminho. — Nenhum problema mesmo. então. Não vou lhe machucar. arrastando-o para próximo da cama. As mãos dele tremiam e seu coração acelerou. eu.— Shhh. Isso não é correto. Ele estremeceu e eu sorri.. não tenha medo. — Ele segurou minhas mãos firmemente. eu. — Senhorita Megan. Humanos eram tão suscetíveis às influências.. sentando-me. — sorri e tomei as mãos do rapaz. — Eu já disse para não ter medo. — ele hesitou. não fale nada. Tem algum problema com isso? Ele desviou o olhar do meu de uma forma adorável enquanto ajeitava a armação dos — óculos — em sua face. — silenciei-o acariciando seus lábios com um dos meus dedos. eu podia sentir que o fluxo do sangue dele estava mais intenso por causa disso. — Mas senhorita Lewis. Minhas mãos também eram tão menores e delicadas em comparação as dele. para encará-lo.. — Aproxime-se. Nenhum.

Humanos são tão entediantes. de certa forma. Sorri maliciosa e ele corou. Disse a ele.as minhas eram muito mais fortes. Comecei beijando seu pescoço suavemente. ainda não era a hora e ele. Deitei-o sobre a cama e sorri ao humano. quase o mordi ali. mas após a terceira mordida.. Eu era muito mais forte. Aquele desgraçado. Acariciei o abdômen do louro e pude sentir ele se arrepiando com o meu toque. Ele pareceu não se incomodar. antes de continuar a retirar a camisa. então sussurrei para que relaxasse e ele sorriu. Ele era um pouco magro e sem graça em comparação ao de James.. depois. entretanto. — Pensei que quem falava o que é certo e o que é errado aqui. desci com minhas mãos pelo tórax. fosse eu. em seguida subi em cima do seu abdômen. me contive. — acrescentou tão formal. era um brinquedinho interessante. pensando nisso desvencilheime facilmente do intento e silenciei-o novamente. Nossas bocas se encontraram e nos beijamos. Brian parecia um pouco tenso. —Você já está animado? — Apertei o pênis dele carinhosamente sobre o tecido e ele soltou um gemido baixinho. A língua ferina dele buscava pela minha. — sussurrei ao pé do ouvido dele. sutilmente. Ele falava demais e isso estava começando a me irritar. Humanos que gostavam de falar demais eram cansativos.. A brincadeira estava começando a ficar interessante. ele não falaria mais nada. — Meu nome é Brian Standage. e. fui descendo até o sexo dele. Brian. Brincar com os desejos humanos a essa altura era tão agradável. ele afastou-me com o pouco de força que ele tinha e em seguida gritou como todos da sua espécie faziam quando observavam dentro dos nossos olhos bestiais. sorvendo um pouco de sangue. Não resisti e mordisquei-o.. Os braços dele apertaram minha cintura. colando ainda mais nossos corpos. — Como é mesmo o seu nome? — Eu não havia prestado atenção quando ele — Não seja havia se apresentado. juro que quebraria a promessa com William e o mataria no mesmo instante. vermelhos e famintos. continuei desabotoando a camisa livre de empecilhos. Feito isso. . Miss Lewis. deitando-me sobre o tórax desnudo dele. Hesitei por alguns segundos enquanto amaldiçoava o filho da puta que havia me iludido e. Se ele me atrapalhasse mais uma vez. — Brian Standage — ele falou envergonhado. ainda coberto pelo tecido de uma calça Jeans.

— Que porra é essa? Seus olhos... eles não eram azuis? — ele afastou-se de mim e eu ri, lambendo o filete de sangue que me escorria no canto da boca. — Dizem que eu sou um pouco mal educada nas refeições... — Ele me encarava um tanto assustado. — É que eu gosto de brincar com a comida. — Sorri deixando meus caninos à mostra.

Ele gritou e correu em direção a porta, eu ri pela última vez com o intento dele. A minha paciência já havia se esgotado. Andei até ele calmamente e joguei-o na cama da forma mais delicada que uma vampira com fome e impaciente poderia fazer.

— Shh... Não grite baby. — Segurei as mãos dele, imobilizando-o. — Sabe? O sangue dos virgens é o melhor... porque ele alimenta não só a nossa sede... — Lambi o pescoço dele no local onde eu iria mordê-lo. — Como também acalma a nossa besta interior. —mordi-o e ele gritou pedindo ajuda. — Maldição! Já não mandei calar a boca? Por que vocês têm que gritar tanto? — Ele pareceu não ter me ouvido, então logo o calei, dando-lhe meu beijo letal... ou quase isso. Eu não queria matá-lo no fim das contas, então apenas suguei-lhe mais um pouco de sangue e o fiz adormecer, utilizando um pouco do meu dom.

Terminada a refeição, joguei-me ao lado do corpo desmaiado do humano, sentindo o gosto do sangue descer pela minha garganta. Era tão agradável bebê-lo direto das veias, ele não perdia o calor e o sabor ainda era intacto. Duas batidas na porta de madeira antiga me fizeram levantar, deixando o humano desmaiado para trás. Eu gostava de ficar relaxando por um período de tempo após me alimentar, mas isso não aconteceria hoje. Afinal eu ainda tinha uma conversa com um membro do conselho e ter de lembrar isso fazia todo o sangue que eu havia ingerido se agitar. Merda! Eu não queria uma má digestão. Respirei fundo tentando acalmar a ansiedade que havia se instalado em mim. Ajeitei meus cabelos, que agora estavam completamente desalinhados, prendendo-os. Bati três vezes à porta e William a abriu para mim. — Ele chegou? — perguntei ao mordomo e ele assentiu. — Recebi a informação que o carro do conselheiro acabou de passar pelo portão da mansão.

— Uh — minhas pernas tremeram por um momento com a resposta direta do mordomo, havia chegado a hora — É melhor eu descer logo, certo? — sorri.

Ele assentiu com a cabeça. Era claro que eu tinha que descer logo, quem gostaria de deixar um membro do conselho esperando? Apliquei um pouco do meu perfume com essência de sândalo para diminuir o cheio de sangue fresco que eu emanava e sai do quarto, deixando para trás o mordomo e o corpo do garoto humano. Depois de ter dado três passos no corredor, pude ouvir que o mordomo apressou-se para me acompanhar. — Vai deixar o garoto lá? — perguntei desinteressada. — Eu devo acompanhar milady por agora, mandarei outros criados cuidarem do rapaz. — ele respondeu apreensivo, não parecia ser o que ele queria fazer. —O sangue dele tinha um gosto bom. — sorri provocante e umideci meus lábios lembrando do gosto saboroso; entretanto, o par de olhos do mordomo fitaram-me aborrecidos com o comentário, como se censurassem minha diversão, cessei o sorriso e voltei ao meu semblante sério — Algum problema, Will? — Nenhum, milady. — respondera automaticamente com um tom seco e até um pouco rude, embora ostentasse em sua face um sorriso doce que, obviamente, era forçado. — Por acaso está com ciúmes? — eu ri do embaraço dele. — Ciúmes? Como eu poderia ter ciúmes milady? Ele é um rapaz humano e eu um vampiro, não teria como sentir ciúmes dele... — ele atrapalhou-se enquanto tentava se justificar. — Shh... — eu sorri dando dois tapinhas de apoio no ombro do mordomo — O seu sangue também é bastante saboroso, não se preocupe... — sussurrei-lhe, mas não entendi quando ele demonstrou surpresa pelo o que eu disse. estava com Não era disso que ele ciúmes?

Já estávamos próximos as escadarias e eu pude ouvir o som da batida da porta do hall — seguida de um trovão. O céu estava desabando lá fora.

Depois

conversamos.

Falei a William quando desciamos os últimos degraus. Minha preocupação agora estava toda direcionada ao senhor que estava a poucos metros a minha frente, entregando o sobretudo ocre e o chapéu a um outro mordomo.

Beijos de sangue
Em toda sociedade há regras, estas leis é que fazem com que o mundo e os integrantes dessa sociedade consigam conviver sem haver conflitos entre qualquer espécie existente. Mas além dos olhos humanos, há uma sociedade secreta, seres que se alimentam de sangue e vivem da morte alheia: vampiros. Eles possuem suas próprias regras, seus próprios pecados e seus próprios deuses. Dentre todas as restrições que um vampiro deve ter que conviver, existem sete cláusulas imperdoáveis caso sejam quebradas. Sete pecados que podem condenar qualquer um ao pior dos infernos.

I – Matar semelhantes. II – Revelar a existência vampiresca e dos seres noturnos. III – Profanar o lar de um humano. IV – Transformar um humano sem permissão. V – Caçar humanos entre a aurora e o crepúsculo. VI – Traição. VII – Envolver-se com humanos.

Houve tolos que disseram uma vez que regras foram feitas para serem quebradas e há aqueles que ainda estão vivos tentando provar a veracidade destas palavras.

O luar prateado iluminava aquela noite impetuosa, as estrelas brilhavam igualmente belas, há tempos que lua e estrelas não sorriam de forma tão magnífica. Por dois longos meses mantive-me escondido em um casebre abandonado nos arredores de um cemitério em Hallstatt na Áustria. Caçadores de recompensas de todas as regiões venderiam suas almas para saber minha localização e de fato meu paradeiro é muito mais valioso que a alma desses trastes repugnantes. Desde a fuga da minha cidade natal na Romênia, quando fui acusado de cometer o assassinato de meu irmão, eu fui considerado um traidor entre meus semelhantes e a perseguição pela minha cabeça tornou-se o principal objetivo dos caçadores.

Meu nome estava entre os mais procurados, esconder-me e fugir constantemente era inevitável. Desde então estou sendo perseguido ferozmente e em constante mudança, mas esses malditos sempre me encontram... Apesar de que já estou até gostando, afinal ser um dos vampiros mais procurados do mundo não haveria a mínima graça se eles fossem mais estúpidos do que já são. O céu negro pairava sobre nossas cabeças e os únicos ruídos perceptíveis eram os passos descuidados daqueles bastardos e o a minha respiração, olhei para o céu mais uma vez questionando quanto tempo se passou desde o pôr do sol quando esse ‗fabuloso‘ joguinho de gato e rato começara.

– Estou começando a ficar entediado, estúpidos! – Gargalhei enquanto pousava depois de um salto ao lado de um caçador. – É tudo o que podem fazer? – Seu parceiro então atirou em minha direção, mas em um movimento ágil demais para a visão de um humano, usei o caçador ao meu lado como escudo. Eles ainda eram muito lentos. – Vai precisar se esforçar muito mais que isso para me acertar. – Segredei no ouvido do caçador com a arma enquanto ele fitava estático seu amigo cair com o tiro certeiro no peito, o sangue escorria para todos os lados. – Sente o cheiro de morte? É delicioso não é? – Sorri deixando a mostra meus caninos. – Anda bastardo, deixo você ir... Preciso que alguém conte como Vitor Strigoi está fora do alcance de vocês. – Virei gargalhando enquanto caminhava pacificamente pelas ruas tranqüilas de Hallstatt, mas o som de um tiro calou minha gargalhada. “Humanos, tsc. São tão estúpidos...” – Não vou deixar você escapar vampiro! – O caçador bradou em um tom pouco amigável, mas que tampouco me assustava. Séculos e mais séculos se passavam e os humanos continuavam os mesmos tolos... Como poderiam achar que com aquele poder ínfimo que tinham, conseguiriam vencer praticamente um Deus. Um imortal. – Acha mesmo que é páreo pra mim? – Girei meu corpo novamente para encarar o caçador e um sorriso sádico cortou os meus lábios... – Posso ter errado duas vezes, mas a terceira é definitiva. – Humanos, eram todos iguais... As mesmas frases de efeito tempo após tempo. Será que não conseguem evoluir? Entediantes. – Então prove. Atire. – Disse enquanto caminhava em sua direção. – Se a terceira é definitiva, me mate agora e prove-me que você está certo. – Parei a um palmo da arma que mirava em cheio meu abdômen, de perto aquele humano era ainda mais baixo do que

– O homem em desespero disparou até as balas acabarem e novamente as feridas tinham se cicatrizado.Então parece que esse é o fim. .. – Coloquei uma das mãos sobre meu abdômen onde a bala perfurara sem sentir dor alguma.. – Umedeci meus lábios . Meu lado animal havia devorado minha parte humana e piedosa. Enfim atirou acertandome em cheio. – Pensei que a terceira vez fosse definitiva. – Você sabia que o sangue dos caçadores é sempre mais cítrico? – Sorri de forma maliciosa quando observei o horror estampado em cada célula do corpo do homem.. .. O homem estava paralisado de medo. o sangue de uma pessoa com medo era de fato muito mais saboroso do que de uma pessoa tranqüila. a bala perfurou minha pele alva. trazendo-a para próximo dos meus caninos afiados.. Tão previsíveis. Os olhos assustados do pequeno homem poderiam me comover se fosse há alguns séculos atrás. A adrenalina do medo dava com toda certeza um sabor especial ao liquido escarlate. caindo no chão provavelmente rezando para qualquer deus que acreditasse salvasse sua alma antes de eu a tomá-la através do sangue que vertia freneticamente nas veias. ora. – O que foi? Você tem medo? – Com minha velocidade superior consegui alcançá-lo facilmente. mas seus dedos não.. – Está com medo? – Meus olhos mudaram dos esmeraldas para os escarlates. não é menos saboroso por causa disso. Um monstro sedento por sangue. O homem desesperado tombou para trás. Abaixei-me para observá-lo mais de perto..Andei vagarosamente em sua direção.parecia ser. levantei minha presa facilmente. – Ora. Aterrorizá-lo era divertido. pedindo involuntariamente para ser provado. – Já acabou? – Mostrei os caninos em um sorriso perverso. agora só havia restado o monstro... . rapidamente o buraco fechou-se e a ferida cicatrizou-se. mas agora para mim nada mais importava.Mas não se preocupe. A caça agora era o caçador. Com uma das mãos. o homem corria desesperado..

– Arremessei-o então na parede.. Pude ouvir os ossos estalarem com a violência do choque do corpo com as pedras que ornamentavam o muro. Hallstatt era um bom local para se viver independentemente de ser um vampiro... eles sempre seriam inferiores. era um vilarejo pequeno. grande parte da energia que absorvi. . Humanos quando assustados pareciam ter tendências a urinar.. Eu ainda estava faminto e não poderia ficar lutando a noite inteira.. tão previsíveis. O sangue estava escasso. Diverti-me ao lembrar a cara assustada do caçador que tentara me capturar. -Se eu te encontrar novamente não lhe deixarei escapar. – Ergui-o no ar pelo colarinho. Mais uns doze caçadores vinham em meu encalce. Isso de certo não me impediria.. Mas não pude continuar o ato. visando a veia que pulsava o delicioso alimento.. quando eu sou o soberano. eu já estava praticamente acostumado... Saí o mais rápido possível dali.. um humano ou um caçador. utilizei curando-me dos ferimentos da arma. Urina... Caminhei cautelosamente até o cemitério onde eu estava vivendo. como se aquilo fosse livrá-los de algo. E nos últimos dois meses. enquanto outros cinco entravam e saiam de onde eu estava habitando. o maldito havia pedido ajuda horas antes e ela estava chegando. Merda! – Você teve sorte dessa vez. Pobres coitados.lembrando o gosto saboroso do sangue. Meus olhos vertiam a mesma cor do sangue. foi o único lugar que eu pude chamar de ‗lar‘. O caçador medroso havia se urinado nas calças devido ao terror que sofrera. Entretanto não poderia ficar em evidência. O sorriso repleto de escárnio ainda estava emplastado em minha face quando fitei dois homens de guarda em frente ao cemitério. exibindo meu desejo por aquele líquido escarlate. impedindo-me de morder o homem rapidamente. humanos eram sempre iguais não importa quantos séculos passem. Meus caninos estavam prontos para perfurar a pele do caçador. mas um cheiro azedo atravessou-me as narinas. as ruelas e becos de iluminação precária eram excelentes para me esconder dos bastardos que me caçavam de forma imprudente justamente durante a noite. tão entediantes.

. a falta de energia poderia ser suprida por algumas horas de sono longe do sol. mas pelo menos estava completamente vedada. isso havia me reconfortado por um tempo e eu pretendia continuar indo a ele se três dias depois eu não descobrisse que ele havia cometido suicídio porque estava louco. Próximo do cemitério havia uma vila com uma casa para alugar. Entreguei o dinheiro da consulta a secretária do meu psicanalista daquela semana. enfim. Sempre busquei dar o meu melhor para que. pelo menos por aquele dia. Quantas seriam necessárias? Questionei-me e segui em frente como sempre fazia. após meses naquela pequena cidade aprendi a conhecer cada local como a palma de minha mão. era a última vez que eu ia àquele lugar. Não era o método mais adequado para se procurar e. chegasse ao meu objetivo e por todo o momento eu esperei. Eu também não deveria estranhar. esperei e esperei. mas não pude fazer nada. eles não fossem os melhores. não é? Sorri enquanto seguia para a minha mais nova morada temporária e menos de alguns minutos eu já estava em frente a ela. Forcei a fechadura levemente e ela logo cedeu. Pensei até em arriscar. .. certamente não eram. Desde que eu cheguei à cidade a casa estava vaga. Não era muito bonita e muitos menos luxuosa. a luz solar não me incomodaria ali.. O Solitudo. Estava na hora de procurar outro. mas meus escarlates fitaram a torre da igreja. A fadiga estava começando a tomar conta do meu ser. fazendo a porta rangente abrir deixando-me adentrar na mais perfeita escuridão do meu novo lar. Eu estava fora de mais uma clinica mais outra vez. solo beatitudo Correndo para atingir o inalcançável. Para onde eu iria? Bem. um deles milagrosamente falou-me que eu era uma pessoa normal.– Malditos! – Praguejei-os. Nada. foi exatamente desta maneira que eu vivi minha vida. Desisti de combatê-los esta noite. Esperei para simplesmente nada. não seria agora que teria alguém morando lá. este era o quinto que eu consultava e era o quarto que alegava minha loucura e insistia em dizer que eu deveria consultar um psiquiatra e talvez eu realmente devesse. Suspirei. Uma vez.. O relógio anunciava o fim da madrugada. talvez. não é? Meus planos nunca deram certo mesmo. esqueceram de me avisar. Faltava-me sangue e energia para combatê-los. Esse com toda certeza não era um fim digno para mim. logo o maldito sol apareceria e se eu permanecesse exposto a ele logo desmancharia em cinzas. eu devia ir para casa e procurar outro psicanalista ou psicólogo na internet ou na lista. Ou se deram.

Mas o dever me chamava.. Peguei meu maço de cigarros e escolhi o . isso deve me fazer louca aos olhos dos outros. Então tudo o que eu posso fazer é apenas seguir em frente. eu fujo aos padrões. acho que todos deviam morrer. não sei se minha aura transmite o que eu penso. Eu pensei sobre minha vida até ali. Talvez observar o mundo com um olhar crítico seja a loucura dos lúcidos. onde eu poderia ser apenas eu. eu não quero voltar. Isso me lembra regredir. não me permito voltar a lugar algum.. ou melhor.Todos os que me julgavam louca concordavam em um ponto único: até para uma louca. Ele costumava ser bem persuasivo quando queria. o sofá chamava-me de volta e eu quase cedi.. Homens e mulheres que passaram pela minha vida e sentiram minha paixão. eu precisava de outro psicanalista. isso assuste aqueles que conseguem conviver nessa sociedade medíocre e hipócrita em que vivemos. Não aceitar certos conceitos que a sociedade alega serem os corretos seja errado. Qualquer um. Será todos ao meu redor conseguiam sentir todo asco que eles emitem para mim? Odeio humanos.. um humano. Mas nenhum deles sequer permaneceu em mim. Apesar de quase todos me chamarem de louca. e todos tentaram me colocar rédeas. pagá-los para conversar comigo. mas aos meus eu sou apenas lúcida. Nenhum conseguiu e ninguém conseguiria. Joguei-me no sofá e ouvi apenas o silêncio de tudo. se ao menos não destruíssem a vida por uma quantia barata. Em minha vida eu não pretendo ter um lugar para voltar.. nenhum deles pôde entender o que eu sentia. Sobre meus sonhos até ali. De certa forma eu preferia assim. Mas como não são. Era melhor e mais ético. Será que a liberdade é errada? As pessoas sempre me evitavam quando eu caminhava pelas ruas. Quem nasceu pra voar não permanecerá atado a alguém que tem seus pés presos no chão. Eu não queria que qualquer coisa do mundo fora do meu adentrasse e destruísse tudo o que eu construí para a minha paz. era um dos poucos momentos em que eu podia conversar com alguém. odeio admitir que eu pertença a esta espécie. uma pessoa fora dos padrões e. Coloquei a chave na fechadura e abri a porta para o meu mundo. Se ao menos não fossem tão corruptos em seus valores. Todos os poucos relacionamentos que tive. se conseguissem perceber que qualquer tipo de vida deveria ser respeitado.. Fechei a porta e as janelas assim que entrei. Talvez eu apenas seja isso. Eu apenas me libertei. Levantei e me dirigi para o computador. para viver em paz.

Sorri cínica.sétimo começando a contar da última fileira como sempre fazia. Todos alegavam que eu possuía certas características de transtorno de personalidade anti-social. depois que ela revelou-me o seu ato. Mas depois acabou entendendo o meu ponto de vista ‗inocente‘ e não mandou um recado para meus pais. Assim... quando era mais nova. Se eu pudesse faria tudo novamente. da próxima vez ela não me pegaria. para falar a verdade. foi em uma dessas fugas que conheci a bebida e o cigarro. O desejo do vício falava mais alto que a preguiça. Eu prometi que seria mais cuidadosa. Voltei para o computador e imprimi o endereço do próximo psicanalista que eu iria me consultar e ser chamada de louca mais uma vez. é mais real.. Eu nunca sentiria remorso por aquilo e nem por outras coisas que fiz. e seria mesmo. Eu não havia feito nada de errado? Havia? Apenas puni uma ladra. talvez de uma forma pior. eu detestava os homens e como minha mãe também permitia tudo aquilo logo eu passei odiar a ela também. Traguei mais uma vez e cuspi a fumaça. forcei-a a dizer onde ela havia colocado. Sempre desprezei as pessoas em geral. Se o mundo inteiro mentia para mim porque eu não poderia mentir de volta para eles? Mais um. de certo modo. dei mais um gole na cerveja e mais uma tragada no cigarro e fiquei mirando o teto azulado da minha sala. três goles de cerveja. Um sorriso contornou . uma menina havia roubado uma borracha minha. dois. Fiz apenas justiça.. Por isso eu costumava fugir muito de casa. A dor alheia não me afetava. nem a minha própria dor. Só porque desprezo a nossa sociedade hipócrita e todas as leis feitas por pessoas mais hipócritas ainda? Joguei o papel com o endereço na mesinha de centro da sala e me atirei no sofá novamente. Minha justiça.. Arranquei a tampa e bebi no gargalo mesmo. Se todos eram indiferentes. A professora não acreditou muito em mim quando eu disse que foi sem querer. a justiça não era mais válida. assim que peguei a borracha novamente grampeei a mão dela com o grampeador da professora. por que eu deveria me importar? Eu até me acostumei com ela. por alguns segundos lembrei-me da minha infância.. Lembrei-me de uma vez. talvez porque meu pai sempre espancava a mim eminha mãe quando voltava bêbado. Passado cinco minutos. Minhas habilidades de ludibriar sempre foram boas e com o tempo só se aperfeiçoaram. eu fui crescendo e fui vendo como as leis não passavam de piadas. Coloquei na boca e fiquei com ele apagado por alguns minutos. talvez por isso. eu me rendi e fui atrás dele. o isqueiro estava muito longe e eu estava com preguiça de pegar. Acendi o cigarro e apanhei uma garrafa de cerveja na geladeira. Realmente não havia sido... pura besteira.

por agora. Apanhei o telefone próximo ao sofá e disquei o número. Na manhã seguinte eu estaria conhecendo o meu mais novo amigo semanal.. ... Repeti o processo de escolha e peguei outro no maço.os meus lábios e eu traguei o cigarro mais algumas vezes até ele terminar. – Espero que eu me divirta dessa vez.. Acendi-o e traguei mais uma vez. nada mais me importava. assoprei a fumaça e a vi desaparecendo no ar. Larguei a binga de cigarro no cinzeiro. quando terminasse aquele cigarro ligaria para o novo psicanalista.