Conteúdo

Perdi .......................................................................................................................................... 1 Laço Eterno................................................................................................................................ 2 A voz Imaculada e o Beijo Letal ................................................................................................. 4 Beijos de sangue...................................................................................................................... 74 O Solitudo, solo beatitudo ...................................................................................................... 78

Perdi

O branco puro do papel me encara severamente. O lápis apertado em minhas mãos. Desde quando fora tão difícil transmitir uma idéia da mente para o papel? Arrisco escrever uma palavra, mas falho miseravelmente. Apago. Não é que eu não saiba fazê-lo, apenas esqueci-me de como. Papel e lápis apenas não bastam – reflito – mesmo que acompanhados de uma mente repleta de idéias – desisto. O papel continua imaculado. Abandono-os. Papel e lápis que se entendam! Deito e fecho os olhos. Não durmo. A mente atormenta. Insisto. Persisto. Desisto. A mente é mais forte que o corpo, sempre foi. Mas não é só dela, ou do papel ou da caneta que dependo. Ah! Se fosse! Escrever, como bem sabes, também é paixão e quando não há mais desta em um escritor sua escrita se torna miserável. Então ele falha pela primeira vez e, tão logo, falhará a segunda - uma vez que a segunda é uma conseqüência da primeira - e ele falha como homem, pois também perdeu o seu amor. A terceira e ultima falha acontece quando o homem – na percepção das falhas anteriores – perde a esperança e a fé e, por fim, perde a si mesmo. De que vale a vida quando o coração se torna raso e a alma fraca? De nada, eu lhe digo, querido leitor. De nada! Ah! Se soubesses como se tornam frias e solitárias as noites de um homem que perdeu o calor da paixão em suas palavras - e em si. Tento mais uma vez. Sento em frente ao papel e seguro o lápis firmemente na mão, como se ele quisesse escapar – e talvez ele devesse -, mas ele não tenta. Penso. Tento. Contudo, nada sai, nem uma rasura sequer.

Adeus! Talvez seja dado o momento da despedida. Falhei as três vezes. Perdi a paixão, o amor e a esperança. Sem esperança não há fé, não há nada. E não há mais nada a ganhar ou perder. Não há. É o fim. Perdi.

Laço Eterno

Jamais esquecerei da noite daquela quinta-feira chuvosa. As lembranças ainda estavam nítidas demais em minha mente que era inacreditável que já tinha se passado três semanas desde então. O último beijo; a briga; o rangido da porta batendo atrás de você e, algum tempo depois, o telefone tocando; o acidente; você e, por fim, a morte. Exatamente nesta ordem.

Hoje a chuva caía com a mesma violência lá fora e o vento sibilava movimentando as cortinas azuis que recebemos como presente de casamento. O azul delas não me parecia tão interessante agora. A televisão estava ligada, mas não era como se eu a estivesse assistindo, para falar a verdade, apenas a deixei ligada nessas últimas três semanas, porque o silêncio era ameaçador demais para mim. Ele deixava evidente que você não estava mais aqui, vivo.

Um relâmpago suave iluminou fracamente as cortinas. Eu permanecia, ali, imóvel encarando aquele aparelho e as imagens que se formavam em seu visor perfeitamente quadrado. Uma luz entrou mais intensa através das cortinas azuladas seguida pelo estrondo violento de um trovão. Onde quer que Thor estivesse, ele provavelmente estaria irado. Um leve sorriso de escárnio estreitou-se em minha face, mas este desapareceu imediatamente quando a televisão desligou-se. Tentei ligá-la novamente três vezes, todas falhas. Desisti depois disso, deduzindo que provavelmente a TV havia queimado. Fechei as janelas e fui rapidamente à cozinha pegar um pouco de café; em seguida, iria para o quarto me deitar na cama e esquecer-me da minha própria existência. Tudo estava perfeitamente planejado, mas um vento frio me fez retesar. Um arrepio cruzou minha espinha, eu fechei as janelas. Não fechei? Voltei à sala ignorando o frio sobrenatural que aparentemente tomara conta da casa. Verifiquei as janelas e percebi que estava certa anteriormente, eu realmente havia

fechado as janelas. A cada momento a situação parecia mais estranha. Algo me dizia que havia alguém ali, espreitando. Não é confortável, essa sensação. É desconcertante. Olhos por todos os lados. – Desculpe-me. – uma voz terna sussurrou em meu ouvido – Não foi minha escolha te deixar, Luísa.

Virei-me inconsciente para a direção de onde provinha a voz e vi você. Vivo? Morto? Não sei, mas era você. Gostaria de ter gritado ou falado algo, mas tudo morria em minha garganta. Você estava parado, idêntico a quando o vi pela última vez. Um corte feio em sua cabeça sangrava demais, a camisa estava rasgada e marcas de queimaduras em seu peito, onde o desfibrilador tentou lhe reanimar. E ainda havia o enorme buraco em seu abdômen, onde um um pedaço de ferro entrou em você, saído das entranhas do carro para você. Eu amaldiçoo aquele motorista bêbado até hoje. A notícia de TV, a morte de você. Às vezes para de ser real e eu acho que tenho pesadelos.

– Nunca foi e nunca será. - completou enquanto os braços frios e mortos me envolviam em um abraço. - Eu nunca poderia deixar você. - uma lágrima caiu sobre meu ombro. – Isso não faz sentido! Você está... - engoli em seco, mas fui interrompida antes de continuar a falar. Em meus olhos começavam piedosas lágrimas que rolavam pelo meu rosto, borrando o que restou de minha maquiagem. – Eu sei. - sua mão gelada pousou em minha bochecha, limpando os fios de lágrimas que escorriam ali – Seus sentimentos por mim mudaram? – Não. - respondi automaticamente – Mas e o ―até que a morte os separe‖? – Eu menti.

Então ele tomou-me em seus braços frios e mortos e eu finalmente soube que ficaríamos juntos não importasse o que, para sempre.

A voz Imaculada e o Beijo Letal

A morte e a vida, mãe e filha; amor e ódio.

Nascia em 1546 uma criança inocente fruto do pecado carnal. Não, nunca fora inocente, logo suas presas cresceriam e a criança mataria para sobreviver, uma vampira. Era filha de amantes, uma sangue-puro e um nobre, a mulher faleceu durante o parto e o pai culpou a criança. Ah Pobre criança! Sem inocência, sem a mãe e sem o pai. Tinha somente um nome Megan Lewis, seu nome e dela, a mãe que perdera assim que chegou ao mundo, era tudo o que sabia; seu nome.

Fora aprisionada em sua própria casa por longos 214 anos, vivendo a maior parte de sua infância sozinha, o pai não ia vê-la, ela não era merecedora. Tirou a vida da mulher que ele mais amara em toda sua imortalidade. Seu sangue era sujo, era fétido, ela apodreceu dentro do útero de sua mãe, adoecendo-a e em seguida roubando-lhe a vida, fechando seus olhos imortais para toda eternidade. Sabia disso.

Sempre se sentiu culpada, sentia-se um monstro, era um monstro; o monstro que roubava sangue para sua própria vida, uma vampira.

Dizia sempre quando criança.

“Quão perversa sou! Sacrifico a vida dos outros para sustentar a minha, no momento em que nasci comprovei minha natureza cruel, roubei a vida da minha mamã.” “Você era apenas uma criança, não teve culpa.”

Uma voz falava carinhosamente, ela a ignorava, já tinha em minha mente não ser digna de qualquer afeto, estava acostumada a isso. Mas a voz persistia cada vez mais, de quem era aquela voz doce?

“É você mamã?”

A criança sem inocência estava confusa, seu coração pesava, seu corpo doía, estava na hora de se libertar.

Deveria estar fazendo uns quatro graus negativos do lado de fora daquele bar. não enquanto a aquela voz angelical ecoava em seus ouvidos e os olhos azuis hipnotizantes cintilassem com as luzes arranjadas. e lá dentro? Uns sete graus talvez. (Tudo está cicatrizado) No more fate and no more mystery. encanto e morte.“Viverei por você mamã e cantarei apenas para você. (Não apenas para sobreviver. a vampira que hipnotizava homens e mulheres tanto com sua voz quanto com seus olhos cantava a sua última música da noite. “Open up the night. era uma noite fria típica do inverno de Nova York.) . mas ninguém parecia se importar com o aquecimento precário.” Teu sangue. para morrer vivo. A neve caia pacificamente do céu estadunidense. Minha beleza imortal. minhas presas irão provar o doce sabor. (Sem destino e sem mistério) Even as time falls away (Mesmo que o tempo se parta) I live my days every moment and its memory. (Tudo em volta é luz) Everything is healing. (Guiada apenas por um sentimento) All around is light. (Eu vivo meus dias todos os momentos e sua memória) not only to survive to die alive. minha beleza imoral. (A noite se abre) Led by just a feeling.

não estava com a mínima vontade de conversar agora. . ―Será que aconteceu algo?‖ Pensei e apanhei minhas coisas que estavam atrás do palco. darling? Garanto uma taça de seu sangue predileto.Já vai. (Não apenas para sobreviver. heaven's just a feeling. . não agora. – respondi rapidamente.É realmente tentador Leo. (Devastando o amor. seja o que for era imperdoável ele não ver minha última apresentação. com aquele sotaque francês falso. ela não estava lá. estou indo. O paraíso é apelas um sentimento) Singing in my blood keeping me from kneeling. mas não há sangue nesse mundo que me faça ficar. Leonard. . é um sangue raro você sabe! – Deu-me uma piscadela convidativa insistindo mais uma vez. Meu único confidente e meu amante James.) Die Alive. . mas algo estava errado. Tenho coisas para resolver. „cher‟? – perguntava meu contra baixista. o AB positivo. para morrer vivo. Bye bye! – .Overwhelming love. ―O que diabos ele estava pensando? Estava mais do que combinado que essa noite ele era meu e apenas meu. Hoje era especial. aquela pessoa.‖ Pensei furiosa enquanto pegava minha bolsa. (Cantando no meu sangue mantendo-me de joelhos) No more fate and no more mystery. (Eu vivo meus dias todos os momentos e sua memória) not only to survive to die alive. (Sem destino e sem mistério) Even as time falls away (Mesmo que o tempo se parta) I live my days every moment and its memory.Mas vai perder a nossa festa de último show.Sim. (morrer vivo) Die Alive – Tarja Turunen A platéia aplaudia em frenesi enquanto a luz apagava lentamente dando sinal que o show havia terminado. diga aos outros que tive que ir embora.

as entranhas queimavam pedindo pelo alimento sagrado para os vampiros. o coitado mal poderia imaginar que na verdade ele era a presa ali. não por medo. minha garganta clamava pelo doce sangue. tínhamos uma reserva grande de sangue lá.Mas é claro que estou sua vadia. Apressei meus passos naquela rua deserta. o precioso alimento que dava imortalidade.Hey! Riquinha onde pensa que vai sozinha essa hora da noite? – ele dizia com deboche. mas eu não podia cegar-me com os instintos. era hora de acertar minhas contas com aquele vampiro egoísta com quem eu vivia e amava. seu sangue. . a ―cinderella‖ deveria estar em casa como uma abóbora. mas por estar faminta. é claro. está vendo alguma outra pessoa aqui? Gargalhei ainda de costas para meu suposto agressor.Dei as costas e sai pelos fundos daquele bar nova-iorquino imundo. em Nova York. Faltava apenas uma rua para chegar ao nosso apartamento na East 57th Street. qualquer esforço e desperdício de energia triplicariam minha sede. – Já são mais de meia noite. o meu desejo. levávamos uma vida apenas confortavelmente com alguns luxos. ele era bem espaçoso levando-se em conta que essa é a sétima rua com o metro quadrado mais caro do mundo. James e eu nunca fizemos o estereotipado gênero de vampiros ricos. talvez a nobreza do meu sangue perdeu-se quando pisei naquele lugar. um homem resolveu expor-se a minha sádica tentação de roubar sua vida. eu não hesitaria em atacar o primeiro humano que aparecesse. ―James seu bastardo filho da puta!‖ Xingava-o em pensamento. amaldiçoando e praguejando com todas as palavras que me ocorreram. Precisava chegar logo ao apartamento. Não consegui nem ao menos utilizar minha velocidade vampírica. O frio cortava-me a garganta aumentando a minha sede. se não fosse o meu sobretudo preto provavelmente estaria praticamente congelada pelo choque térmico. . Foi então que uma voz. foi difícil encontrar um bom imóvel com preço acessível. . Assim nossos ataques não eram freqüentes afastando-nos dos olhares dos caçadores. . meus olhos azuis agora eram de um vermelho intenso. O vento habitual daquela noite fria deixava uma sensação térmica de dez graus negativos.Está falando comigo? – sorri maliciosamente sem virar-me.

ele uivou de dor. ―Como se anda mais rápido quando se está alimentado. rasgando-lhe a pele do pescoço. não poderia responder-me. – Seu sangue é tão saboroso e doce. Eu via pavor no seu olhar. estava ficando cada vez mais freqüente. mas estava vazio. Meu riso parou. posso provar dos teus lábios? – O homem já estava inconsciente. – acrescentei após me aproximar mais de seu rosto paralisado em medo. “Dear Meg. não havia mais nada. já não havia mais esperança para sua alma. ainda tinha um assunto inacabado. – O-o-o que você é? – ele balbuciava aterrorizado fitando meus olhos vermelhos e minhas presas agora expostas. como se aquilo fosse ameaçador. rasgando o envelope nobre em que estava. a aflição terminaria logo. Com minha fome saciada segui para casa mais tranqüila. exceto é claro por uma vampira satisfeita. não vai doer nada. Abri a porta do nosso apartamento esperando encontrá-lo lá. Abri o bilhete rapidamente. Comecei a ler. suguei cada fio de vida que ele poderia ter e quando o deixei já não havia mais sangue em suas veias. não era do meu feitio beber sangue diretamente do pescoço. – Don‘t worry baby. James havia viajado mais uma vez este mês. – Sorri de forma doce tornando a situação mais mórbida para minha pobre vítima. Fodase a sede triplicar-se. . Cheguei rapidamente. – Não é muito difícil constatar não é. sentado em sua poltrona favorita de couro negro. chamando-me. James. Surgi atrás de seu pescoço. mas a sede havia me consumido. seu sangue. não havia ninguém lá exceto por um bilhete sobre a cama com uma gota da sua essência. aquilo divertia o monstro sanguinário que habitava em mim. meus lábios apenas se contorciam em um sorriso faminto.‖ Pensei suspirando. eu iria encontrá-lo não importa o lugar do mundo em que se metera. entretanto violei-o. agora eu teria meu alimento. Ataquei-o sem delicadeza. utilizei minha velocidade vampírica interrompendo-o e o fazendo cair para trás com o susto. podia ver as veias pulsando.. desta vez seria diferente. apliquei o meu beijo letal sugando todo resto de sangue que poderia ter sobrado.Are you crazy? Não há motivos para rir. bitch! – ele correu voraz para cima de mim com uma faca.

Já estou com saudades. Você me entende. “Logo eu poderei vê-lo. mas fui forçado por motivos maiores. I Love you. E claro. que não tardou a atender. sinto muito por perder sua última apresentação eu não queria. gostávamos de variar bastante. os humanos realmente são lentos. – Pensei que não me ligaria mais hoje. Sua voz suave logo cortou o silêncio. mas estaria melhor com você aqui. – Você nunca muda mesmo. Para passar o tempo resolvi ligar para Leo e saber como havia sido a comemoração da nossa última apresentação naquele bar. – Já estava ficando com saudades da capital inglesa mesmo. A neve já não caia tão intensa lá fora. caso eu não esteja não se preocupe. a recepção do Hazlitts Hotel daqui de Londres é impecável e não esquecerá de nenhum recado. mudou de idéia „chér‟? – Ele repetiu a tentativa de um sotaque francês. um sorriso cortou os meus lábios enrubescidos. As malas ficaram prontas em alguns segundos. já havíamos nos apresentado em quase todos os bares noturnos da ―Grande Maçã‖. o maldito táxi deveria ter se perdido. não é? .” Havia ligado para uma companhia de táxi vinte e quatro horas e já fazia mais de vinte minutos. a velocidade vampírica é bem útil nesses momentos. na 57st.Houve alguns problemas com meu emprego e tive que viajar com urgência. ainda mais que pedi para que ficassem atentos caso você ligasse. não é? Espero que possa perdoar esse vampiro fascinado por você. your James. prometo que quando voltar não deixarei você sair da nossa cama.” – Londres é? – Meus lábios se contraíram em um sorriso mal-intencionado. With love. darling! – Como está a comemoração? – Está boa. ligue-me assim que ler esse bilhete. Eu podia observar pela vidraça clássica do nosso apartamento enquanto discava o número do celular de Leo.

adorava passar-me indiretas completamente diretas e. Ainda insiste com isso baby? Na verdade estou ligando para comunicar a minha recente viagem. Sempre fora assim desde que nos conhecemos. apanharei James de surpresa. não quero chamar muita atenção. o táxi acabou de chegar.. estou indo para Londres. uma vampira linda. – Por que me ligou tão cedo. Leonard era sempre assim. – Londres? Hum.Você já chama atenção baby. – Obrigada Leo. – Chamar a atenção? – Ele gargalhou .. . Leo. ora. era um pecado negar os sentimentos que me oferecia. – Ora. possuía cabelos castanhos escuros e olhos tão negros como uma noite sem luar e sua pela alva ressaltava-os mais do que deveria.. ou talvez fizesse isso tudo para se distrair. Entretanto eu era fiel a James. ou já se esqueceu? Leo sempre seria assim. ele persiste em seus sentimentos insensatos. pode me chamar. confesso que se não fosse todo meu carinho por James eu teria caído em seus braços há tempos. baby? Pensei em receber notícias suas só amanhã. Você é uma vampira. ok! Mas não me disse para qual aeroporto você pegará o vôo. embora nunca houvesse nada entre nós. Acompanhei-o de uma forma mais discreta com apenas um sorriso tímido que só as paredes daquele cômodo tiveram o deleito de presenciar.Ele silenciou por alguns instantes – Já tem a passagem? – Pretendo alugar um jatinho particular corriqueiro. – Rimos juntos. Se James não estiver ―dando conta do recado‖. O riso cessou. sinto minha estima aumentar sempre que converso contigo. – Oh. you know.. se não tentasse me cortejar não seria realmente ele.Ele riu descontraidamente ao ritmo da música ao fundo. como eu o chamava. . dando continuidade a conversa. – Mas agora tenho que desligar.

principalmente Leo e James. parado. Em menos de uma hora e já estávamos no aeroporto. diferente da maioria das vezes. é claro. – O que? Leo? Ele desligou. Paguei cento e vinte dólares ao taxista e fui rumo ao saguão do terminal que Leo mencionara antes de desligar. mais espontânea e feliz. por que veio? – Calma ‗chér‘. – Presente? Está louco? Preciso de um avião! .– Irei para o JFK. o taxista já estava me esperando na portaria. – Ei. Darling! Pensei que não chegaria hoje. Entreguei-lhe as duas malas pretas da Prada e seguimos para o táxi. logo estaríamos chegando ao aeroporto. terminal nove.. apenas vim me despedir e te dar um . aeroporto Internacional John F Kennedy. E ele estava lá. – Como demorou. presentinho. o trânsito da “Big Apple” estava tranqüilo hoje. Aquele que fica no sudeste de Manhattan. Entrei no táxi. digamos. – Para o Aeroporto JFK. perto deles eu era completamente outra. Desci com minha bagagem pelo elevador. – Ele sorriu mostrando-me os caninos puramente brancos. alugar um avião de pequeno porte não seria problema. são um dos poucos para tratar-me com tanta liberdade. afinal somos a cidade que nunca dorme.. ei! Cuidado para não sermos vistos. certo? Encontro você lá. rápido „please‟! Recostei minha face na janela observando as luzes que passavam rápido em flash. apesar da neve cair com menos freqüência. feito uma escultura perfeita do século XV moldado com todos os cuidados que somente Michelangelo Buonarotti teria. Era pouco mais das duas e meia da manhã e o ar gélido daquela madrugada de inverno estava mais intenso. a temperatura do lado de dentro era bem mais agradável e amena. – Hum. O pessoal da banda.

Afinal estávamos em Nova York. . O aeroporto não estava muito movimentado. Parece que eles estão sendo controlados por um nobre ou coisa parecida. Observei tudo cuidadosamente. Há um traidor entre os vampiros. mesmo assim se cuide. Caminhamos por alguns minutos e logo chegamos à área de embarque particular da família Chevalier. Sempre chegamos à mesma hora em que partimos. mas ainda havia muitas pessoas em todas as partes. Esse sim poderá ser perigoso. a Inglaterra mudou muito. – Foi a última coisa que disse para ele. – Megan. chamou-me e me conduziu para dentro do avião. o mordomo. – I Know baby. A minha sereia. não se preocupe. O mordomo que até agora estava quieto. – Deu-me uma piscadela e sorrimos.Falei um pouco atordoada com a resposta. – Leonard levou-me até a porta do avião beijando carinhosamente o dorso das minhas mãos pálidas. – Good Night Srta. – E você acha que eu deixaria uma vampira rara como você nas mãos de um piloto qualquer? De forma alguma. Tom. Agora vá. parece que o tempo pára enquanto voamos. afinal eu sou uma nobre. correu até mim como se estivesse esquecendo de algo. não há como eu correr riscos com aqueles trastes. o avião da minha família está a sua disposição e pronto para partir agora. . Se cuide! Qualquer coisa pode me ligar que irei voando para te ver. a porta do avião foi fechada. o interior do avião era completamente personalizado. Leonard me conduziu pacientemente até o avião onde o seu mordomo particular e o piloto me aguardavam. tome cuidado. você é a sereia da nossa banda. . a família de Leonard realmente sabia como viajar luxuosamente. – Tomarei cuidado. Megan. I know. Vamos? – Ele falou caminhando em direção aos portões de embarque. Viajar de Nova York para a amável Londres era tão mágico.Mas muito obrigada! – Agradeci de uma forma sincera.– Exato. alright baby? – Os level E são a escória da nossa sociedade. recebi notícias que vários Level E ensandecidos estão soltos pelas ruas causando muita dor de cabeça para as autoridades e caçadores. Mas. Espero que possamos fazer um ótimo vôo. Leonard que estava acenando sorrindo para nós. – O piloto curvou-se formalmente em minha direção. – Não precisava Leo.

Acenei com um sinal positivo com a cabeça e levantei. Embebida pelo prazer do seu sangue permutado ao suor de nossos corpos. Espero que tenha gostado das rosas. Olhei pela janela e pude observar a tradicional neblina inglesa. Quando chegar até o Aeroporto Heathrow. em companhia daquele bilhete carinhoso adormeci. Eu espero que tome cuidado na Inglaterra e siga completamente as instruções que foram passadas antes da sua partida. um vermelho veludo que me fascinava. . – Senhorita Lewis. “Darling Meg. cuidado. e então. era um carro lindíssimo. A noite na graciosa Londres estava fria e naquela garagem parecia que o frio era ainda maior. suas asas cortavam o ar da madrugada fria. Descemos do avião na garagem particular dos Chevalier. Já estava mais do que na hora de eu achar James e acertar as contas. Logo chegaríamos a então capital inglesa e James se veria comigo. Entre os ramos havia um bilhete endereçado a mim. pela última vez fomos um só. sentei-me com o ramalhete no colo abrindo o cartão.trouxe-me um ramalhete de príncipes negros. vamos? – O mordomo dos Chevalier estendeu-me a sua mão para me auxiliar a levantar da confortável cadeira de veludo na qual eu me instalara. havia um vermelho tão intenso quanto o sangue.” O avião decolou. Assim que o avião pousou no solo inglês fui despertada. Adaptei o meu relógio de pulso para o horário da nobre Inglaterra. meu mordomo Tom levará você até onde desejar. E mais uma vez. Ligue-me se precisar de qualquer coisa. Boa viagem! Beijos. O mordomo então não tardou a me convidar a entrar naquele belo carro. realmente havíamos chegado. O suave perfume dos príncipes negros impregnava cada parte daquele lugar inebriando-me. O mordomo de Leo caminhou até um Bentley Zagato GTZ preto e guardou minha bagagem no porta-malas. Leo. como eram belas.

um homem estava sendo completamente drenado por três Level E. segundo andar a terceira porta a direita. – Olhei para a porta a frente conferindo-a com minha nota mental. – Desculpe-me senhorita. . mas nós não pod. Disse algo senhorita? – O mordomo indagou- Depois disso o silêncio voltou a tomar conta do veículo.. – Oh sorry. apenas pensei alto. – falei pela última vez ao servo dos Chevalier e entrei no hotel. – Não estou lhe perguntando se pode passar a informação ou não stupid! Em que quarto ele está? – Utilizei o meu dom para agilizar as coisas. Carreguei minha bagagem até o segundo andar.. sigamos para o Hazlitt's Hotel..Não permiti que o homem continuasse a frase. eu sei me virar.. Agradeça a Leonard em meu nome. não estava muito pesada e sozinha eu poderia utilizar minha velocidade vampiríca para chegar mais rápido e assim o fiz. Não foi preciso dizer mais nada. Estávamos a poucas quadras da 6 Frith St quando eu notei algo estranho. – Melhor assim.– Para onde eu deveria seguir senhorita? – Ele me perguntou olhando pelo retrovisor. – me. – Ele está em um dos nossos Deluxe Rooms. Os móveis antigos com toda a certeza davam um toque de classe àquele local. Enquanto passeávamos pelas mais variadas ruas aproveitei para relembrar minhas lembranças da antiga Londres. – Então de fato os rumores eram verdadeiros. Sim. – Não há necessidade. –Ah sim. sempre fora tão nobre. era exatamente ali. – Terceira porta a direita no segundo andar. só me faltava ter James. A decoração era perfeitamente bem escolhida. please. aquele que eu esperei tanto . mas não teve muita importância. – falei para mim.. – Agora que eu já tinha o quarto.. Segui até a recepção. eu estou procurando por James Lionel Martin. – Tem certeza que não quer que eu leve as malas até o quarto senhorita? – O mordomo insistiu mais uma vez de forma gentil. humanos são tão burocráticos. pois em menos de dez minutos havíamos chegado ao hotel. – Good night Sir. ele havia dado partida no automóvel.

queria tê-lo todo para mim naquela noite.forçou sua pélvis coberta nas minhas pernas .Sorri maliciosamente agitando a carta ao ar. não foi justo. Pareceu surpreso em me ver. A porta abriu rapidamente após isso. Ele pousou os lábios gentis em meu pescoço.esfregou seu corpo no meu. Passei minhas pernas por cima dele envolvendo-nos mais. . apertava e o mordia a cada movimento frenético de nossos corpos. estava estático olhando-me com aqueles olhos de tons esverdeados e sedutores. provocando uma onda perfeita de choques estáticos de prazer.. – Já estou com saudades. .Você sente princesa. – Era tudo que eu conseguiria dizer naquele momento.. ele me atacara de surpresa.. dos toques. Ele tocava-me. – Ficar longe da minha princesa de voz encantadora me deixa assim. Saudades do cheiro. .Então enterrou seu rosto entre meus cabelos.. prometo que quando voltar não deixarei você sair da nossa cama – Citei uma parte da carta. Quando pude me dar conta já estava em seus braços sendo amada por ele. e os homens como ele comandavam esse tipo de situação . Bati na porta sutilmente. .James. Resolvi dizer-lhe algo. Mas ele era o homem.Sente como sua falta me deixa louco. – Abra e descubra. sentindo o cheiro esplendido dele. – Por que esperar você voltar se temos uma cama aqui? .para ver estava por trás daquela porta de carvalho antiga. De início estranhei o silencio. jogando-me na cama. Alisava. mas logo foi possível ouvir passos até a porta. Eu sempre estava pronta pra ele. – Quem é? – James perguntou do outro lado.. Envolveu meu corpo esguio num abraço ressequido. – Jam.. completamente envolto das saudades que sentíamos. a mesma que ele me deixara... – Falei tentando parecer um tanto quanto misteriosa. um convite e tanto para o pecado. acariciando cada parte do meu corpo magro de vampira. mas logo depois sorriu daquela forma que me enlouquecia.. mas nada disse. Eu era mais experiente que ele em anos vampíricos.. dos beijos. James estava perfeitamente belo e sem sua camisa exibindo aquele corpo bem definido e impecavelmente pálido. James pareceu primeiramente assustado.

As saudades e a vontade de provar-nos inteiros nos puseram loucos. Ele sabia que eu queria sangue.Foi tudo rápido demais.. James penetrava em mim cada vez mais intensamente. dando o ar de mistério que só eu.. E foi o que ele fez.investia seus quadris nos meus. querendo dominá-lo.. Megan. e olhos meio fechados. Ele sabia que eu só queria sentir as estocadas que ele dava num ritmo acelerado. letal quando gemia no seu ouvindo pedindo mais. nenhuma palavra poderia definir melhor o que eu estava sentindo. Sabia que queria seu sangue. Forcei as mãos presas nas dele. Aquelas unhas poderiam ser fatais pra ele.. Assim eu era para ele.. Descontrole e prazer. se eu continuasse as cravando nas costas. As roupas minhas e de James num quarto de segundo estavam ao chão. Eu gritei e poderia gritar o mais alto que eu quisesse se fosse prazer. com força e com rapidez. Diz que é bom sentir saudades. diz que gosta quando eu fico longe. Sem espaços entre meu corpo quente e o delicioso dele. – Segurou-me pelos pulsos acima da cabeça. não beberás do meu sangue esta noite. Um anjo da morte. rasgadas. Ele sabia que eu queria mais das suas mãos. – Ele me impacientava. pedindo que ele me devorasse completamente. – Diz pra mim. E então foi a minha vez de pôr-me incontrolada embaixo dele.. Parecia que ele precisava sentir aquela cavidade o quanto antes. querendo sair. dor ou saudade.... o anjo de voz doce tinha. geme bem baixinho meu nome. segurou o membro com as mãos e penetrou. – Desista baby. pouco importava pra nós dois. As minhas presas de vampira se abriram naquele sorriso sádico e imoral. do cheiro de sangue maldito dele escorrendo das costelas até o corpo divinamente branco. repuxadas. Geme vai. cheia daquela malícia que ele amava: de sorriso torcido. . e o cheiro do seu . e sem interesse da parte dele avaliar isso quando eu afastei os joelhos. E foi sublime quando ele se alojou por completo ali dentro. de forma que nossos corpos se arrastavam pro meio da cama no impacto delicioso da pélvis na minha intimidade. – Oh. O quarto todo estava repleto de nosso cheiro doce. tocando meu corpo todo fervendo de desejo. querendo provar do sangue dele.. Mas ele continuava estocando.

Punia-o por tentar controlar minha fúria. ainda se movendo pra cima e pra baixo. e quando eu desejo algo... Num lampejo que seus olhos de metal não captaram. segurando suas mãos nas minhas. Por meros momentos ele se deixou levar pelos meus movimentos. era tudo que eu precisava. antes de eu te morder havia uma mordida lá. até porque eu já havia definhado . não é aconselhável me negar tal coisa.. Logo depois daquele ato cheio de volúpia e luxúria. ele forçou o meu quadril e numa estocada magistral que fez meus lábios segregarem de sua pele. quando ele despejou inteiro em gozo e sede no meu corpo. o suor de dois vampiros enlouquecidos pela volúpia daquela noite. Meu quadril enterrado em nele. Mas parecia cansado e fechou os olhos. Mas foi inútil.. Eu não tinha cabrestos e meu prazer também não. Minhas mãos presas pelas dele.. o que você andou fazendo? – Eu sabia que James não era nenhum santo. O maior erro que se pode cometer na cama comigo é justamente esse: abaixar a guarda. – Jam.. eu gemi alto seu nome. Cavalgando gostoso. Eu era mais forte que ele nesse quesito. lá dentro. definitivamente ele estava me provocando. o pondo deitado na cama. não . por que me negava o prazer de acariciá-lo? Bagunçar seus cabelos negros da cor dos meus enquanto gemia de prazer? O seu sangue misturava-se ao nosso suor...sangue era delicioso. mostrando meus caninos alvos. completamente inútil. Eu o punia. se afundando completamente no pênis. – Vai ter que implorar anjo. deitei em seu peitoral pálido feito mármore branca e completamente definido como sempre fazíamos. o meu quadril subindo e descendo. Eu o desejava pro completo. como só eu saberia fazer. as mãos segurando meus ombros. Ele mal pode combater as minhas presas na sua clavícula. – Jam. – sorri com prazer. eu girei meu corpo no dele sem o deixar sair de dentro de mim. seja mal. Sentido eu sugar o seu sangue quente. – Segurou com mais força as minhas mãos ávidas. James. não conseguiria me soltar facilmente e aquilo me enlouquecia. Queria morde-lo. sentir seu sangue quente cortando minha garganta. até o fim.James... deixe-me.

Mas mesmo assim não desisti da minha caçada. – Não estou louca James. – Ele olhou-me aterrorizado. não deveria estar comigo. O que eu detestava de fato eram as mentiras. Utilizando minha superioridade em velocidade em menos de alguns segundos eu já estava vestida e pus-me a segui-lo cautelosamente para que ele não me notasse. mas eu não poderia demorar demais se não o perderia de vista. Quando eu entrei pude perceber que não era uma boate comum e sim uma para vampiros e caçadores. decidi arriscar e entrar também.algumas das ‗amantes‘ dele. nunca de fato houvera alguma vampira. – Corri atrás dele apanhando minhas roupas do chão também. – Se você não confia em mim. “O que diabos James vai fazer ali?” Depois de alguns minutos em que ele entrou. saindo em seguida?” . – Você definitivamente está louca. – Ele vestiu um casaco por cima das outras roupas e advertiu. mas sempre eram todas humanas que ele usava para nos servir de alimento. – Não venha atrás de mim. Eu nunca fui uma das mais obedientes principalmente quando eu estava irritada. prendendo-me no quarto como se aquilo fosse capaz de me impedir. volte aqui. Aquele local cheirava a álcool. Olhei no relógio e ainda era um pouco mais das três da manhã Tratei de me vestir rápido. sangue e tabaco. apesar de que James parecia perdido demais em seus pensamentos para notar que eu estava o seguindo de fato. “Como aquele maldito ousa me deixar falando sozinha e ainda me chamar de louca. – Ele deixou o quarto e trancou a porta do lado de fora. Se eu entrasse muito rápido ele perceberia minha presença e tudo iria estar arruinado. – Estou convicta do que vi. Andamos uns quinze minutos no máximo até chegar a uma boate em um beco escuro nos arredores não tão nobres de Londres. – ele se levantou e pegou a própria roupa do chão. como o que acontecia agora. ela estava abarrotada e era de fato impossível eu ver James naquele ‗inferninho‟. – Impossível você deve estar louca. como se eu tivesse cometido o maior dos pecados.

para tentar achar James. “Onde você está querido?” era tudo que eu conseguia pensar. hipnotizando homens e mulheres.. Mmm-mm-mm. “Merda! Não tenho tempo para isso.Havia tantas pessoas que eu não conseguia ver o chão de forma alguma. era um bar Karaokê. minha beleza maldita e minha voz angelical. minha voz ecoou em cada canto. when your heart's not open (Você fica arrasado quando seu coração não está aberto.” Entretanto já não havia como fugir. Foi até que então um bastardo esbarrou em mim e eu tropecei por causa de um desnível a minha frente.) How can life be what you want it to be? (Como pode a vida ser aquilo que você quer que ela seja?) You're frozen. A letra da música passava diante dos meus olhos em uma tela.) You waste your time with hate and regret (Você desperdiça seu tempo com ódio e arrependimento. meu corpo e minha voz cederam ao desejo de cantar. Foi inesperado. uma luz forte acendeu sobre minha cabeça e toda a atenção do local foi direcionada a mim.. when your heart's not open (Você fica congelado quando seu coração não está aberto. vampiros e caçadores. o primeiro tom da música havia sido tocado e eu fui dominada pelos acordes daquela melodia.) Quando os primeiros versos saíram... Quando eu me levantei.) Aproveitei que a multidão estava quieta e hipnotizada pelo meu desempenho no palco. Todos estavam dominados com o meu dom divino.) You're broken. If I could melt your heart . o bar inteiro entrou em êxtase. mas eu já sabia o que fazer. You're so consumed with how much you get (Você está tão consumido com quanto você consegue. You only see what your eyes want to see (Você só vê o que seus olhos querem ver.

.(Mmm.. O maldito estava cheirando as madeixas de uma mulher com o cabelo colorido de ruivo artificialmente. We'd never be apart (Mmm..) You're frozen..) Continuei cantando.) broken partido. nós nunca ficaríamos separados. We'd never be apart (Mmm.. If I could melt your heart (Mmm. You hold the key .. ciúmes e angústia por não poder sair dali até o fim da música..... You hold the key (Mmm. se eu pudesse derreter seu coração.. você...) Mmm-mm-mm.) Love is a bird.... deixando meu corpo se mover no ritmo lento da música. Now there's no point in placing the blame (Agora não tem propósito em estabelecer a culpa... Como um anjo caído eu dominei aquele lugar. entregue-se para mim..) Mmm-mm-mm... Give yourself to me (Mmm. Give yourself to me (Mmm...) Mmm-mm-mm..... Entregue-se para mim.. Todos aqueles que estavam sentindo o tom suave da minha voz puderam sentir uma mudança repentina..... você possui a chave..) Let all the hurt inside of you die (Deixe toda a dor dentro de você morrer. Mmm-mm-mm..) Mmm-mm-mm. ela precisa voar. she needs to fly (O amor é uma ave.) Foi então quando eu finalmente o vi..) Mmm-mm-mm. se eu pudesse derreter seu coração.) Mmm-mm-mm. saber my meu [que] eu heart coração sofreria will o be ficará mesmo. when your heart's not open (Você fica frio quando seu coração não está aberto... nós nunca ficaríamos separados..) And you should know I suffer the same (E If (Se I eu você lose perder devia you... Raiva.

.. You hold the key (Mmm. nunca seria um problema. se eu pudesse derreter seu coração. entregue-se para mim. Meus olhos podiam acompanhar todos os movimentos como se tudo estivesse iluminado.. We'd never be apart (Mmm...) Mmm-mm-mm. Maldito!” Praguejei mentalmente. when your heart's not open (Você fica congelado quando seu coração não está aberto... You only see what your eyes want to see (Você só vê o que seus olhos querem ver..) Mmm-mm-mm.. If I could melt your heart (Mmm. ou até . você possui a chave.) A luz se apagou.) Mmm-mm-mm........) How can life be what you want it to be? (Como pode a vida ser aquilo que você quer que ela seja?) You're frozen....(Mmm.) “Ele estava provocando minha ira..... (Se eu pudesse derreter seu coração.. Mmm-mm-mm... nós nunca ficaríamos separados. mas aquilo não era um problema.. Give yourself to me (Mmm... você possui a chave... pelo menos não para nós vampiros...) “James você não escapará” If I could melt your heart.. o som de um tiro soou e sentimentos como raiva e pânico afloraram na pele da vampira cantora Todas as luzes se apagaram e a escuridão tomou aquele lugar..) Minha voz estava de certo com um tom ameaçador e isso aumentou o frenesi da platéia..

apesar de muitos ali serem apenas vampiros comuns ou level E. eu ainda era um ser da noite. Mas eu não poderia me distrair. juntos eles eram fortes. Nem mesmo na grande maçã os bares eram daquela forma.melhor. como de vampiros para humanos. Rapidamente consegui me retirar daquele maldito ―pulgueiro‖. A velocidade e força de uma vampira nobre é muito superior do que aquela multidão louca que eu me encontrava. e nem deveria. precisava encontrar James. eu não conseguiria me libertar daquele tumulto facilmente. Humanos realmente não sabiam apreciar o bem precioso que corre em suas veias. – Ja-James? Observei um homem que parecia estar ferido saindo do bar cambaleante. O liquido rubro estava espalhado em todos os cantos. o sangue. era preciso deixar de lado a delicadeza. provavelmente estaria tal qual a escória dos Level E. desperdiçado. Afinal. esgueirando-me entre os vampiros sedentos e loucos. não havia definição melhor. ensandecida por causa do suculento liquido vermelho. mas não consegui alcançá-lo. chamar aquilo de um pub inglês é ir muito além do eufemismo. O mesmo cheiro do sangue que tomei outrora atrás e que ainda corria no corpo de James. Corri de uma forma sutil. Além de estar entre uma multidão faminta de vampiros loucos. . A escuridão de certo melhorava a minha percepção e meus dons vampíricos. Talvez se eu não tivesse me alimentado antes. Vampira. Do lado de fora pude observar o motivo da loucura que se alastrou lá dentro. Gritos ensandecidos do lado de fora e o cheiro de sangue invadiram violentamente aquele pub. Consegui distinguir um cheiro único. “Será que aquele tiro acertou James?” Um tumulto repentino formou-se junto com a queda da luz. Mas dentre todos os odores do sangue espalhado naquela cena nefasta até para mim. Uma chacina tanto de vampiros contra vampiro.

– Eu.voltou a empunhar armas pro herdeiro legítimo da Aston Martin. eu. minutos atrás enquanto eu perseguia sua trilha mal disfarçada.O homem apontava sua arma pro meio dos olhos dele . confirmaram sua trama. nos poupe de suas mentiras. – Não preciso da Associação pra matar você. diga.. James aparentava estar incrédulo. E quando já não havia mais esperanças.James gritou caindo de joelhos encobrindo a face.. idiotas? É por isso que nos toma? Acha que temos tempo pra perder com você? . por que tem feito isso? Quem o controla? – O homem pôs-se entre a ruiva e James. Estava bem próxima quando ouvi uma voz masculina gritar. Os vampiros que Agnes matou. James. – Vamos James. . não era a voz de quem eu queria. instintos de vampira. .Foi ela. . Utilizei minha velocidade vampiresca para diminuir a distancia... Seus olhos vertiam medo. com o intuito de levantar suspeita sobre as famílias nobres e puro sangue daqui. Só me resta descobrir o porquê disso tudo. eu não.Nós já sabemos que é você quem está recrutando Level E e os trazendo a Londres. o anjo dele apareceu para salvá-lo. não era a voz de James. James. . Sim eu era tudo o que ele precisava para escapar daquela situação funesta.Agora apontava em minha direção. impedindo um ataque ofensivo de ambas as partes.Segui meus instintos de mulher. “O que?” pensei comigo mesma. estava desesperado. acusando-me de uma coisa que eu nem sequer imaginava o que poderia ser. ela me manipulou desde o começo .Não conseguiu achar palavras. “O que diabos está acontecendo?” – Ela? – A maldita ruiva que James acariciava enquanto eu fazia minha performance no palco apontou suas adagas pra mim .Essa mulherzinha sem passado quem tem feito isso? O que você pensa que somos. – Eu não fiz nada . não queria morrer daquele jeito.

– Não! Não vou deixar que vocês façam isso com ele! .Aposto que a sua maldita associação não ficaria nada contente com isso.. O que aqueles malditos poderiam querer com James? Pra que todo aquele estardalhaço? James permanecia calado. ofereceria minha ―vida‖ por ele.Fui interrompida por James que agora ameaçava cortar minha garganta com um canivete. provavelmente tinha algum plano de fuga..Falava repetidamente tentando parecer convincente.Aquele cheiro não poderia me enganar. acaso não viu o que ele tentou fazer. chorou lágrimas que nunca existiram. Eu observava aquela cena. vocês sabem o que pode acontecer com vocês caso uma vampira nobre morrer inocentemente. mas tenho certeza que.. – O caçador agora havia engatilhado sua arma. eu fui manipulado. e isso em minha mão é uma legítima . Essa maldita que agora está em meus braços irá morrer se vocês se aproximarem mais um pouco. . passando pelo corpo imponente do caçador . Nenhum passo a mais. Meu único amor. segundos atrás? – Eu realmente não entendo o que está acontecendo. mas não consegui acreditar no que via. não é? James gargalhou. se eu tardasse e ficasse observando aquela cena teatral patética James acabaria realmente morto.. Mas o que estava acontecendo afinal? Era aquele ainda o seu James? – Ei vocês. O único com quem poderia dividir o que era chamado de ―vida‖. aquele que me salvara das trevas no passado.Utilizando da velocidade vampírica entrei na frente de James a fim de protegê-lo. Ainda de joelhos fingia um desespero covarde. É hora de colocar um fim nisso. E muito menos o Conselho de Anciãos. – Saia da frente vampira! – A ruiva vociferou.Por que tenta proteger esse desprezível.. Não mesmo! – Mentiras repetidas muitas vezes não as fazem verdades. seus caçadores bastardos. – Eu sou inocente. eram caçadores. . . O que era aquilo? Por que meu James estava agindo daquela forma? Por que diabos aqueles malditos estavam falando aquilo? Não consegui entender..

James – Pude perceber que a caçadora tentava ganhar tempo pra uma possível manobra de defesa que eu deveria fazer. . Estava em choque. o único que amei. claro. – Ora Megan. – Você é bem esperto.. seu desgraçado. mais feminina. – A ruiva encerrou seu pequeno discurso de uma forma ansiosa pelo que vinha a seguir. a cantora é uma nobre. não poderia acreditar. Eu particularmente me sentiria envergonhado de ter uma filha como você.Ele encerrou seu discurso gargalhando mais uma vez.Ele gargalhou mais uma vez. eu pensei que você fosse mais esperta. simplesmente porque você é uma estúpida. É definitivamente impossível amar alguém assim como você! . Sentia-me profundamente enojado de ter que te acompanhar aqueles bares imundos e ter que consolar quando o assunto sobre sua maldita mãe e seu pai imbecil surgia.Mas como você bem disse. – Eu lhe respondo o porquê. os poderes dela excedem os seus. imperceptivelmente modificada para que um vampiro a empunhe. ou matá-la a não ser que Megan seja uma completa idiota. . sua tola imbecil. você é tão inocente. Pensei que já tinha percebido que eu apenas me aproveitava de você.. – James. Por quê? O que está acontecendo? – cochichei para que só ele pudesse me ouvir. por que ele falou tudo de forma tão cruel? Ele era aquele que eu mais confiava. Maldito seja você James. você não me serve para nada. . Um ódio inimaginável surgiu em mim. “James? Quem realmente é você? É aquele que eu amei?” – Duvido muito que vai deixá-lo feri-la. Eu não queria acreditar em tudo aquilo. "Ei James! Por que acha que meu pai me despreza tanto?"– Ele me imitava fazendo uma voz mais fina.arma de caçadores. Eu estava completamente sem chão. Pensou que eu te amava é? Apenas me aproveitei do dinheiro de sua família. – Ah! Megan. Uma inútil.

E ofertou um pro caçador.. agora você está estragando meu plano. . fazendo-o ficar cara a cara comigo. eu posso ver claramente. my sweet love? .ela sentou-se ao chão. – A ruiva satirizou a cena Será divertido ver isso . – Yagari. O que acha de morrer pelas minhas mãos? Hein. gostaria de fazer seus pulmões explodirem. sobre as próprias pernas.. que aceitou de bom grado. . .– James! Seu desgraçado.Arremessei-o na parede lateral do beco. – Tem certeza que não quer que eu faça isso.Não se preocupe querido. .Meus olhos ardiam em brasas vermelhas. se não fizesse algo logo iria morrer. . mas parecia estar atento caso eu regressasse o ataque.. . acendendo um cigarro. – Olhe nos meus olhos maldito! Os caçadores que até agora estavam em posição de ataque se surpreenderam com aquela cena. mas de forma que só eu pudesse ouvir. James despertou todo ódio que poderia haver em mim.Apertei mais o pescoço do maldito. Imprensei-o na parede daquele beco livrando-me de seus braços. acho que nossa cantora preferida acordou.. Megan? – A ruiva ainda irrompeu Me parece que você não terá fibra sufici.Neste momento você está encarando o destino que você mesmo criou. ―Desde quando Megan tinha todo aquele poder?‖ Era o que ele devia estar pensando. – Mentiroso! Acha que eu preciso do meu dom para saber quando um merda como você está mentindo? Eu posso ter sido cega durante esses últimos anos... Apertei seu pescoço erguendo-o no ar.Ele falou engasgado. . tentando forçá-lo a olhar para mim. James provavelmente não esperava aquela situação. Era para que nós fugíssemos juntos. – Megan.Você está muito enganado se pensa que poderá me enganar de novo meu caro. – Fique de lado caçadora! Isso agora é pessoal. mas agora James. eu vou te destruir. Apanhei-o pelo colarinho. jamais usaria meu dom em um traste como você.

mas aquela altura do campeonato já não me interessava nada que sairia de sua boca. – atirei-o do outro lado. clamando pela minha piedade. O maldito ainda fez menção em fugir. erguendo-o pelo pescoço novamente. Apertei de forma mais feroz o colarinho daquela camisa branca que envolvia o corpo que eu estava envolvida horas atrás.. – Mas eu estava cega de amores.Ele continuou a me ignorar.. James arrastou-se para o para-peito do prédio. mirando alcançar o topo do velho prédio. de desejo por você. sem que percebesse e escalei facilmente as paredes daquele lugar arrastando-o pelo pescoço junto comigo. Suas palavras eram tão sujas quanto o caráter que possuía. Apanhei a arma com que ele me ameaçou. Pensei em ouvir sua voz pela última vez hoje. James pareceu dizer algo. Há tempos que estava desconfiada destas suas malditas viagens. É apenas isso que eu recebo por ser uma nobre e me envolver com uma escória como você. “Maldito”. – O que você está pensando em fazer bastardo? – Você me trouxe até aqui para que fugíssemos não é? – Ele sorriu maliciosamente. . – O que você acha que eu sou James? Eu já lhe disse que eu fui facilmente enganada antes. Agora fora minha vez de gargalhar. era incrível como ele não desistia da sua fuga. enquanto tentava se levantar eu já estava ao seu lado. mas que não seria enganada agora. mas era perceptível seus olhos cheios de medo. Assim que alcançamos o topo atirei James do outro lado daquele lugar. – Não vai responder? É uma pena. mas estava fraco demais para isso.

Cravei mais uma vez o punhal em seu corpo. Sweet Love? Antes que ele pudesse perceber eu já estava na frente dele empunhando a arma que ele me ameaçou. – Mas a festa só começou my baby. Ele gritou agonizante e insensatamente tentou fugir mais uma vez. – Permita-me provar dos seus lábios pela última vez. – É bom não é? – sussurrei em seu ouvido retirando a arma que eu acabara de cravar em sua pele de vampiro. não . James correu cambaleante de forma desesperada me fazendo rir sarcasticamente. isto é perigoso. – James. Agora você pode sentir a sensação de ser traído. entrando na frente do vampiro desesperado. – Meus olhos vermelhos refletiam no olhar de pânico que o coitado me devolvera. Espremi-o em questão de segundos na parede da escadaria que tava no telhado daquele prédio. – Está sentindo essa dor seu desgraçado? Não é um quarto da dor que eu já senti. ferindo-lhe profundamente o braço. – Porque esperar tanto se estamos aqui agora. Vamos conversar outra hora. como se aquilo fosse me convencer. cravei junto a arma amaldiçoada anti-vampiros. certo? – ele ainda forçava seu sorriso estúpido pra cima de mim. Não está se divertindo mais? – sussurrei em seu ouvido para que só ele me ouvisse. sozinhos. É tão maravilhosa quanto pensou que seria para mim? – O tom da minha voz angelical transmitia tranqüilidade. Você acha que pode mesmo escapar do seu destino? – Falei sadicamente. – Megan. James.– Onde pensa que vai.. No momento em que o beijei. mas as palavras e o vermelho vibrante dos meus olhos diziam o contrário. – É uma pena que tudo acabará desta forma.. baby.

Eu chamava aquilo de amor. mesmo sem nem ao menos saber o significado desta palavra ou deste sentimento. o único que amei e que eu inteiramente confiei na verdade nunca havia sido quem eu pensava que fosse e acabara de ser morto por minhas próprias mãos. Terceira: Por ainda amá-lo depois de tudo. decapitando o desgraçado que logo esmaeceu em pó. Apesar de eu saber que aquelas lembranças ainda me perturbariam quando o banho terminasse e talvez de modo até mais assustador e doloroso. Entrei cuidadosamente por uma janela que estava aberta no quarto que estávamos antes daquela situação macabra. Uma lágrima queimou em minha face pálida de vampira no mesmo momento em que o punhal caíra de minha mão. Mas lá no fundo eu ainda estaria grata aquela mulher por acreditar em mim. O cheiro do sangue dele ainda me inebriava. Não havia nada mais que me interessasse ali. Eu precisava urgentemente retirar todo aquele sangue. Afinal. Certamente eu era uma estúpida. . Os lençóis ainda estavam da maneira que deixamos após o nosso último ato de luxúria.é? – Cravei-lhe o punhal no pescoço. Segui para o Hazlitt‘s Hotel. o cheiro de nossos corpos era inconfundível ao meu olfato sensível. não quando se pode usar a velocidade vampírica. aquele suor e tudo o mais da minha pele. Segunda: Por ter sido enganada. Se os caçadores decidissem me perseguir e matar eu já não me importava. Enchi a banheira feita da mais pura porcelana. seja lá o que fosse. “Maldito!” Amaldiçoei cada célula do meu corpo por três razões: Primeira: Por amá-lo. mesmo eu sendo uma vampira. Não estava muito distante.

o mesmo sangue que estava nos lençóis da cama em que nos amamos pela última vez. “Se as lembranças ao menos se desmanchassem em cinzas com a mesma facilidade.) [. Minha pele alva ganhava um tom mais vívido quando estava próxima daquelas brasas.) Love is a bird. eu não deveria estar pensando mais naquilo. secando cada parte do meu corpo esguio de vampira..) And you should know I suffer the same (E você devia saber [que] eu sofreria o mesmo. [.. já não havia a necessidade de falar nenhuma palavra.” . Todas elas estavam mortas assim como parte de mim havia morrido naquela noite. ela estava jogada no chão encharcada do sangue desprezível daquele desgraçado. as roupas já não me serviriam para mais nada. Assim que terminei de me enxugar apanhei a roupa que eu trajava naquela noite.) If (Se eu I lose perder you. she needs to fly (O amor é uma ave.. calei-me. você. ela precisa voar. Apenas cantarolei a única e última canção da noite. não sem ele e com todas aquelas lembranças tenebrosas que ainda me atormentavam.) Let all the hurt inside of you die (Deixe toda a dor dentro de você morrer. Fiquei observando enquanto o tecido desmanchava em cinzas. Ainda nua atirei aqueles trajes sujos na lareira. Eu precisava sair. my meu heart coração will be ficará broken partido.] Eu não conseguiria permanecer naquele lugar. precisava respirar..] Now there's no point in placing the blame (Agora não tem propósito em estabelecer a culpa. Sai da banheira secando-me com uma toalha do mais puro algodão egípcio. Logo após dizer isso.– Obrigada caçadora. seria apenas uma lembrança ruim. Suspirei frustrada. estou lhe devendo uma.

aquelas imagens voltaram atormentar minha mente. – Eu tentei disfarçar o nervosismo. – Irei lhe encontrar na mansão inglesa dos Chevalier.. – Ja-James está morto.. – Eu estava um tanto nervosa. – Megan? – Ele pareceu surpreso.. não de tristeza.. meus olhos arderam de raiva e dor. Levantei-me e fui em direção a minha bagagem para pegar alguma roupa.. Decidi-me por uma calça Jeans e um outro sobretudo combinando com os acessórios básicos para o frio inglês. darling? – ele perguntou preocupado. Tentei mais uma vez e ele atendeu. melhor. Em menos de alguns minutos eu já estava pronta. Olhei para as horas e já passavam das quatro. em dez minutos meu mordomo irá te encontrar onde ele lhe deixou na última vez que se viram. mas não sei como manter contato com o seu mordomo. Ah! Como eu odiava aquela maldita caixa postal.. – Menti e minha voz vacilou. Escolhi algo prático e que pudesse me aquecer naquela madrugada fria de Londres. não queria me destacar em meio aquela multidão de humanos. mas de ódio por ter sido manipulada tão fácil. eu precisava entrar em contato com Leo imediatamente. Quanto menos olhos sobre mim... – Não. – Aconteceu algo. “Logo deve estar amanhecendo. O telefone ficou mudo por alguns segundos que pareceram uma eternidade até para mim que já a conheço faz muitos séculos. Vasculhei minha bolsa procurando pelo meu celular. – Leo. de acordo com o fuso horário em Nova York deveria ser umas seis da manhã... – Foi a única coisa que eu consegui dizer. não imaginava que dizer o nome dele ainda poderia me doer. Aconteceu alguns problemas aqui.. espero que Leo esteja ainda acordado” Inicialmente chamou umas três vezes e caiu na caixa postal. Afinal eu havia acabado de assassinar James. – O tom da voz dele estava entre a impaciência e o nervosismo. eu carecia conversar com alguém. – Você sabe que não consegue! Agora me diz logo o que houve.. não minta pra mim! – Ele esbravejou. – Merda Megan. – Eu gostaria de ir para outro hotel. . Esteja pronta.Eu arfei ao lembrar aqueles momentos desagradáveis de outrora.

mas ajudariam um pouco e qualquer ajuda contra a maldita luz proveniente do dito“astro rei” entre os humanos era muito bem vinda. mas permaneci no tom apático. foi um sono sem . – Para onde estamos indo? – Perguntei já acomodada no confortável banco do Bentley. seguíamos pela Parliament Square em direção a Broad Sanctuary. Esfreguei os meus olhos azuis de vampira um tanto confusa quanto a minha localização. Acordei não sei quantas horas depois com a voz suave do mordomo. – Três horas? – perguntei um pouco surpresa. Olhei as horas e já passavam das seis e quarenta da manhã. mas ainda assim eram amigos.. Os senhores Chevalier preferem manterem-se resguardados de aparição em qualquer lugar. Saltei cuidadosamente pela mesma janela que eu havia entrado.. observando as luzes passarem em flash. A luz da aurora já transpassava os vidros do Bentley Zagato atrapalhando minha visão. de fato eu havia dormido por umas duas horas e não sei quantos minutos. Fechei meus olhos mentalizando em tudo que eu deveria dizer a Leonard e acabei pegando no sono. – Estamos indo para a mansão dos Chevalier em Wiltshire. Aquela noite fora tão tumultuada e o dia já estavam tão próximo que minha lassidão era inevitável. com o telefone ainda ao pé da orelha por alguns minutos que pareceram ter passado em segundos. Em três horas chegaremos lá. Ele tomou as malas das minhas mãos. meu e de James.Logo após dizer isso ele desligou. só que desta vez com a minha bagagem. daqui a meia hora chegaremos. “Merda. livrando-me do incomodo da bagagem. Meus olhos azuis cintilavam na escuridão. pela última vez. Lembro-me que estávamos seguindo para o Oeste. – Hum. – Seguiremos longe das rodovias e dos pedágios.já estava me esperando com os faróis acesos em frente ao Hazlitt‘s Hotel. – O mordomo sorriu ao dizerme isso. eles não melhorariam cem per cento. o que Leo vai fazer se descobrir?” Guardei o celular na minha bolsa e fechei minha mala que estava sobre a cama. – Agradeci desviando meus olhos para a janela. dei uma última olhada naquele cômodo e inspirei o nosso cheiro. – Senhorita Lewis. encarando o mordomo e motorista pelo retrovisor. Compreendo Thanks. O mordomo dos Chevalier gentilmente segurava a porta aberta para que eu pudesse entrar. senhorita Lewis. Eu fiquei paralisada na mesma posição. Abri minha bolsa de mão buscando pelos meus óculos escuros. Leo e James não eram muito próximos. O Bentley Zagato GTZ.

– Implorei praticamente aos prantos. – papai jogou-me em direção do mordomo. Nós vampiros apenas temos desejos. ou pelo menos acho que assim foi. não podemos.Sonhar é uma coisa humana. sonhar era tolice. nós vampiros não conseguimos sonhar.sonhos. – Não papa! Eu quero ficar com você. " . Willian era mais forte que eu na época e conseguiu me retirar daquele cômodo mesmo eu me debatendo com toda a força. pelo menos até o dia em que eu fugi. O senhor Chevalier já chegou e logo irá lhe encontrar em seus aposentos. Éramos demônios sugadores de vidas. Quando eu contei para o papa em uma das raras vezes que nos encontramos ele me repreendeu. – Chegamos senhorita Lewis. Fiquei perdida em meus devaneios até sentir o carro parar diante de uma belíssima construção provavelmente do século XVIII e a porta do Bentley se abrir. talvez fossem as trevas presentes em minha existência. a única vez em que eu poderia sentir um fio de vida em meu ser era quando ela cortava a minha garganta em forma do líquido rubro ou então nos momentos de prazer do sexo. eu sei que era ela. – Afinal ela morreu quando você nasceu não é? Você nunca poderia saber! – Os olhos deles que até então eram verdes. .. Meu sono era a mais completa escuridão. “Sonhos. a voz dizia que ela me amava ainda depois de tudo.. Foi a última vez que vi papai.” pensei e um sorriso sádico contornou meus lábios rubros.. O que você disse ter visto ou ouvido foi apenas a sua imaginação que dizia algo que você queria ouvir. verteram em um vermelho odioso. Will deixe eu ficar com o papa me solte.. – Sabe? Como você poderia saber? – Ele esbravejou segurando-me pelos braços elevando-me do chão. a voz dizia que eu não tinha culpa de nada do que aconteceu a mama. Em meu sono não deveria haver sonhos. – Mas papa. – Willian leve ela daqui. sugadores de sangue como poderíamos conhecer o significado disto? Uma vez eu achei que eu tinha sonhado com a mama quando eu era mais nova. era um sono de morte. Seus olhos esbanjaram tanto tristeza como ódio. " Desde aquele dia eu nunca mais sonhei. nenhum sonho. mas foi em vão. era uma voz tão terna e serena. eu ouvi a mama. – Eu insisti fazendo os olhos esverdeados dele se encontrarem nos meus azuis infantis. Depois daquela cena ele me manteve trancada em meu quarto. Minhaeternidade era de morte.

a água estava na temperatura ideal. Assim que pus meus pés no quarto. . Finalmente eu tomaria um banho de verdade. esquecer aquelas cenas amargas. meus olhos se depararam com os dele. As antiguidades e relíquias tanto nas paredes como sobre os móveis eram de fazer os olhos de qualquer historiador brilhar de excitação. Era uma das fragrâncias que mais me atraiam. Deixei meus cabelos negros e molhados caírem pelos meus ombros e sai do banheiro com o semblante mais tranqüilo e relaxado. lá no Hazllit‘s não deu para tomar um banho relaxante de fato. O quarto era lindo. Agora nada poderia me impedir de relaxar naquela banheira devidamente espaçosa com minha essência favorita.Maneei a cabeça positivamente e segui o mordomo que já estava com minha bagagem sendo acompanhada por duas criadas. de fato ele me conhecia bem. “Pelo visto Leonard instruiu muito bem as criadas. pois fiquei preocupada em retirar o cheiro do sangue de James de mim e. Sentei-me em uma confortável poltrona que tinha a mesma cor dos meus olhos enquanto uma das criadas desfazia a minha bagagem e arrumava no closet. Leonard sabia que assim que eu chegasse gostaria de tomar um banho. entrei na banheira. havia modernidade em cada cômodo daquele lugar. colocar-me em uma suíte era o mais agradável a minha pessoa. parecia ter saído de um dos livros de conto de fadas humanos. – levantei-me e segui para o banheiro que também tinha uma elegância impecável. – A outra criada falou fazendo uma reverencia em minha direção abrindo a porta. Do lado de dentro daquela bela construção era como se fosse algo realmente mágico. A empregada a minha esquerda apanhou um molho de chaves e rapidamente abriu a porta. Ao mesmo tempo em que tudo era tão fantasticamente antigo de acordo com a arquitetura. pelo menos parecia com a descrição que as amas me contavam nas histórias para eu dormir quando eu era pequena.” pensei despindome e mostrando minhas curvas perfeitamente moldadas. O cheiro provocante de sândalo invadiu todo o meu ser. – Senhorita Lewis o seu banho está pronto. – Obrigada. deixando-nos passar em seguida. Subimos as escadas e passamos por dezenas de quartos até pararmos diante a uma porta antiga de madeira da cor de mogno. aqueles olhos negros e profundos que só Leonard poderia possuir. Após o banho vesti um hobby especial que a empregada havia deixado para mim. Foi uma sensação sublime.

fiquei sabendo que James retirava vampiros Level E da América e levava para Londres. – James realmente odiava vampiros.Ele falou em meu ouvido e eu estremeci por completo. O que eu não entendo depois disso tudo. Ele estava completamente fora de si e só falava que a vingança não passaria daquela noite. E prosseguiu fitando meus azuis preocupados. principalmente depois que os Kripe resolveram transformar os servos antes humanos em vampiros. – Foi a morte dele. – Ele falou levantando-se da mesma poltrona que eu estava sentada antes do banho. tentando obter o máximo de informações que eu poderia ter. “Será que ele descobriu que eu o matei?” – Vem comigo. – Ele me olhou cuidadoso e prosseguiu. Você sabe de algodarling? . – Eu estava tão preocupado com você. naquele momento eu não tinha muitas informações e te contei o máximo que eu poderia para a sua própria segurança. my dear. Naquela noite em que ele não foi a nossa última apresentação ele havia me ligado. com a conclusão da investigação que aconteceu agora pouco. Na maioria das vezes era para cumprir alguma missão. – Estou melhor agora. – Por isso temi quando ele se aproximou de você. mas ele me agarrou pela cintura impedindo que eu continuasse andando. – Aquele maldito fez algo pra você Megan? . Sente-se – Ele apontou para a cama. – Ele ponderou. Mas James nunca lidou bem com isso. para depois jogarem o conselho contra essa família. – Os orbes negros preocupados nos meus azuis receosos. – Como você está? – Ele aproximou suas mãos da minha face. – A família de James era humana e servia por séculos a uma família inglesa de vampiros muito importante e influente. Bem. E ele continuou. onde planejavam fazer um ataque em massa na área que os Kripes tomavam conta. – Por isso fiquei preocupado quando você disse que iria para Londres atrás dele e a alertei. Não precisa ficar preocupado. – Retirei suas mãos da minha face seguindo em direção ao Closet. – O que? – Preferi fingir que não entendi.– Megan. Eu permaneci olhando fixamente o homem a minha frente. – Vou lhe contar o que sei. – Leonard parecia escolher cuidadosamente as palavras. – Ele puxou a poltrona azul de uma maneira tão fácil para perto da cama que um humano jamais conseguiria fazer. pelo menos foi o que ele me segredou antes de uma das viagens que ele fazia secretamente. Você sabe da influencia que o Conselho dos Anciãos tem sobre todo o mundo vampírico não é? James havia planejado tudo por anos. os Kripe.

Mas isso não importa agora. Lewis.. – Eu temia por isso. Tristeza.. Eu não sabia como eu deveria responder afinal. – Eu o abracei de volta. Como pude ser enganada por alguém como ele? – Algumas lágrimas de ódio escorreram pela minha face. – A Associação dos Caçadores já estava furiosa por ter nobres caçando os vampiros da lista deles e cobrando cada vez mais a atitude do Conselho. – Eu o matei. A leitura do testamento será feita amanhã à noite e como você é a única filha dele. – hesitei. eu sei que você não o mataria sem um motivo realmente. – Obrigada Leonard. Merda! – Ele agora andava pelo quarto preocupado. – Mensagem? – Me desvencilhei dos braços de Leonard indo em direção ao mordomo que segurava um papel. compareça sem falta. mas acabou de chegar uma mensagem no fax de extrema urgência para a senhorita Lewis. – Eu não queria matá-lo. veio a falecer anteontem. fazendo-o frear rapidamente. arrependimento passavam longe de mim naquele momento. – Desculpe se estou interrompendo alguma coisa. tenho certeza que o Conselho não irá se importar se receberem as provas que temos contra James. Até onde eu sabia papai era um vampiro forte e durão. “Srta. Havia apenas o impacto da morte dele. – O que importa é que você está bem.” Fiquei um pouco chocada.. Morrer tão de repente era no mínimo estranho. – Não precisa se explicar darling. Willian. – Merda Megan. ..Meu corpo todo estremeceu com a pergunta. – Eu. seu pai. mas uma batida na porta interrompeu sua intenção. mas resolvi dizer. mas ele era um crápula. Leonard ficou estático com a resposta. – Leonard estava tão próximo da minha face quando disse isso que pensei que ele iria me beijar. O senhor Lewis. A falta de informações também deixou-me um tanto quanto curiosa. nenhum outro sentimento além do choque me ocorreu. sua presença é importante. – Ele deixou escapar num gemido com o susto. – Leonard veio em minha direção e me abraçou. Por favor. revolta. Leonard era acima de tudo meu melhor amigo.. – Aquelas palavras soaram mais frias do que deveriam ser.. O mordomo que havia me acompanhado desde a minha partida dos Estados Unidos para a Inglaterra adentrou o cômodo com um papel nas mãos.

– Não precisa se preocupar. – Desde que ela morreu. William Shakespeare... – E mesmo que importasse ela já está morto.Ele abdicou ao cargo de pai. – Você tem razão. – Leonard falou abaixando-se para fitar-me nos olhos. – Thank you. – Leonard tomou-me em seus braços afagando meus cabelos negros. você sabe. Então não fique desse jeito. A carta escorregou entre os meus dedos. exceto quem a sente. mandarei Tom trazer-lhe um pouco de chá se não se importa. – Levantei-me da confortável poltrona acompanhando Leonard até a saída daquele cômodo.. – Falei atordoada ainda com aquelas palavras.. sofrendo pela mesma dor.. lá no fundo realmente sempre fomos iguais embora tenhamos sido egoístas demais para nos redimimos. ela havia sumido no momento em que eu li que meu pai havia falecido... sabia que esse assunto ainda me doía.... Por que eu não conseguia sentir nada? Minhas mãos trêmulas cobriram meu rosto em sinal da minha frustração. – My darling. séculos. Como eu deveria me sentir? O que eu deveria sentir? Essas perguntas me perturbavam. – Estou apenas um pouco confusa e cansada com todos esses acontecimentos repentinos.. . Estou bem.. apenas deixe-me sozinha. Eu apenas me tornei o que ele queria que eu fosse: um monstro. – Levantei minha cabeça observando os olhos negros me fitando carinhosamente. Caso precise estarei aqui imediatamente.. . Todo mundo é capaz de dominar uma dor. – Os orbes negros encaravam o chão agora com desapontamento. – Meu pai morreu . Não se preocupe.. No final nós éramos iguais. – Se você insiste. perceberíamos que anos. atormentados pela mesma mágoa. De fato.– O que houve Megan? Você ficou pálida de repente. se eu ainda tivesse alguma cor.. não se atormente com isso... agora já não se pode fazer nada.Agradeci ainda enlaçada nos braços dele. . E quando menos esperássemos. Se ele nunca se importou eu também não deveria me importar. – Desculpe-me por todo .. afinal por mais cruel e monstruoso que ele tenha sido ainda era o meu pai.Bem. – Afastei-me dele seguindo em direção a confortável poltrona. – Tomou cuidado no tom das palavras. apesar de eu não conseguir sentir nenhum pouco de tristeza ou remorso. onde sentei fitando-o de longe.. embora eu estranhe realmente isso. se passaram e nosso laço e afeto enfraqueceram tanto que eu tinha até esquecido que tinha um pai e ele provavelmente esqueceu-se que tinha uma filha..

Entretanto alguém bateu a porta fazendo-me despertar para a realidade.. – Entre. – Confessei-lhe enquanto abria a porta. mas sempre fora assim.. Como era possível existir uma ligação tão forte entre nós? Peguei-me encarando mais uma vez o branco puro do papel desaparecendo na escuridão do quarto. Abaixei-me e apanhei-a a do chão frio. Caminhei até a cama. o amor proibido de uma sangue puro e um nobre. – O Earl Grey está de bom tamanho. Nos últimos dias ela vinha me acompanhando com veemência. trouxe o chá.esse incomodo.. – Apenas relaxe e esqueça tudo isso... ok? – Roçou seus lábios em minha testa. – Não precisa. Lá deixei a xícara de chá da mais fina porcelana e a carta. em seguida dirigi-me até o criado mudo que ficava ao lado da cama. sentando-me na beirada cuidadosamente. Definitivamente agora a solidão seria minha única companheira. Atirei-me na cama logo após isso. – Falei ainda sentada na cama observando-o terminar de preparar o chá. Obrigada. não? Afinal sou um ser que se alimenta dela.. – Obrigada.. Meus lábios contorceramse em um sorriso melancólico.. beijando-me de forma terna e respeitosa. fechando a porta em seguida. – O mordomo do Chevalier carregava uma bandeja antiga de prata pura. – Eu não me importo. Olhei ao meu redor e não havia ninguém. mas ele logo desapareceu quando fitei novamente a carta. – O mordomo trouxe-me o chá em seguida após a afirmativa. Sibilei desanimada ao lembrar daquilo. – Agradeci e ele se retirou. – Com licença senhorita Lewis. Morte. – Está ao seu gosto? – Perguntou-me curvado em uma reverencia. acabei me acostumando com ela e de fato gostando.. exatamente como eu preferia estar. mas se não for de seu gosto preparamos outro. Se for a respeito de você nada será um incomodo. – O senhor Leonard achou melhor trazer um Earl Grey.. O fruto da paixão indevida. Solidão. – Yes. Viver por morte. Irônico. relaxando meu corpo por completo e quando menos percebi havia adormecido. A solidão sempre fora minha companheira. Não gosto de envolver ninguém com meus problemas. não? Minha existência por si só já era uma ironia do destino. – Chantilly? – Sim. afinal o que eu sabia sobre a minha mãe? Nada. deixando-me finalmente em paz. ... – Ele curvou-se formalmente. – Ele me sorriu como costumava fazer após suas ―indiretas‖ fazendo-me corar. o branco do papel estava definitivamente contrastando com as cores mórbidas daquele cômodo quarto. A carta que me fora entregue alguns minutos atrás parecia irradiar luz. vive por ela.

Apenas relaxe está bem? – Ele sorriu. .. – Fiz menção em continuar falando. Seria papai? Eu estava confusa. Tom já está preparando o avião e daqui à uma hora mais ou menos poderemos partir de volta a América. você pode sonhar se quiser.. – Não precisa falar agora se não quiser. Definitivamente não... Eu fechei os olhos enquanto a escuridão ia me engolindo.. – Você está bem Megan? Eu ouvi alguns gritos e fiquei preocupado. Logo estaremos de partida. . também era a única coisa com qual eu poderia sonhar: escuridão. – Você está mais pálida do que deveria estar.A escuridão do sono havia me dominado por completo. Vampiros cedo ou tarde aprendem a amá-la..... mas estou bem. reabrindo as chagas doloridas do passado. Os ébanos estavam preocupados.. A cada transmutação surgiam vozes que me atormentavam.Esfreguei os meus olhos tentando recuperar a consciência que me fugira após ―aquilo‖. – Sorry. por acaso está com sede? – Leonard estendeu o pulso esquerdo oferecendo-me um pouco do seu próprio sangue como alimento. Minha pele estava fria. entretanto eu estava suada.. – Ele arqueou as sobrancelhas como se esperasse uma resposta. – Ah! Antes que me esqueça. – Eu realmente não sei o que houve.” Os azuis abriram e fitaram os olhos de Leonard assustados sobre mim. Entretanto como num passe de mágica tudo parou e uma canção de ritmo suave me acalentou. afinal nunca conseguiríamos fugir daquilo a que pertencemos. o que monstros como nós conhecemos sobre sonhos?” Uma voz masculina sobressaiu entre as outras vozes. Então não se preocupe. Eu sempre vou te proteger. eu conseguia identificar todas. provavelmente por culpa daquelas cenas terríveis que vi enquanto eu dormia. devorando cada parte de mim. Provavelmente um pesadelo. mas não tinha a capacidade de ligá-las aos rostos que se formavam no sombrio. Uma suave e terna mão pesou em meu ombro de forma gentil e palavras doces foram sussurradas em meu ouvido antes que abrisse meus olhos. Entretanto desta vez ela ia se despedaçando e ia tomando forma.. “Pobre criança. Eu não queria preocupá-lo..... “Vampiros não podem sonhar. mas Leo calou-me com um dos dedos que encobriram meus lábios carinhosamente. Não precisa ter medo. o que diabos era aquilo? Um sonho? Não...

Era como se ele fosse feito para mim. erguendo-me da cama. – Essa foi a ultima coisa que disse antes de fechar a porta do quarto. o corte e os detalhes eram perfeitos.. Caminhei a passos largos até a janela e em um movimento rápido abri as grossas cortinas. – As criadas deixaram cuidadosamente o vestido em minhas mãos e a caixa de sapatos próxima a mim enquanto se dirigiam ao closet para arrumar novamente minha bagagem. – O senhor Leonard a espera no Jardim. Eram as mesmas criadas que me ajudaram a me acomodar no quarto. . – Está divina senhorita Lewis.. Leonard sabia disso e acertou em cheio na escolha. – As criadas falaram uníssono. As criadas me aguardavam ainda no quarto quando sai pela porta do ‗toilette‘ e sorriram quando colocaram seus olhos sobre mim. Segui para o banheiro da luxuosa suíte em que fiquei acomodada. – Estarei esperando você lá embaixo.Que horas são exatamente? – Perguntei sobressaltada. O negro contrastava com a minha pele alva e os orbes azuis intensos pareciam ganhar mais vida quando eu vestia aquele tom. – Ainda resta uma hora. O avião não irá decolar sem você. eu deveria me aprontar rapidamente. – O senhor Leonard pediu para que trouxéssemos. “Por quanto tempo será que eu adormeci?” Ouvi mais uma vez alguém bater a porta. Era minha cor favorita para itens e roupas no geral. “O que será que Leonard está planejando?” Pensei por alguns minutos enquanto fitava o belo vestido de cor ébano em minhas mãos. – O que é isso? – Perguntei surpresa. O céu já estava escuro e a bela prateada brilhava magnífica no céu. elas traziam consigo um belo vestido negro e uma caixa de sapatos. completamente moldado nas medidas exatas do meu corpo e ainda deixava-me confortável. – Ele sorriu de forma afetuosa tentando me acalmar.– Já? – Espantei-me . Lá me despi e tomei uma ducha quente e rápida apenas para retirar o suor da minha pele. Após o rápido banho vesti-me com o belo vestido que recebera de presente. Mas resolvi pensar nisso depois. eu ordenei que entrassem. – Uma das criadas falou enquanto ajudava-me a vestir um belíssimo sobretudo também negro e a outra ajudava-me com os sapatos. – Ele segurou-me por um dos braços delicadamente. não poderia me dar ao luxo de demorar muito senão poderia perder a hora e particularmente eu não gostava de atrasos. você pode se arrumar tranqüila. – Tenha calma.

. estamos quase lá. – Leo segurou minha mãe direita e fez menção para irmos e eu o segui. a neblina densa ainda deixava minha visão um tanto turva.Em poucos minutos depois daquilo eu já estava descendo as escadas de mármore brancas e era guiada pelo mordomo que nos recebera naquela mansão. Caminhei pelo hall em direção a porta principal... – Repreendi-o pelos presentes. porta qual o mordomo abriu gentilmente para que eu passasse. Tentarei me controlar da próxima vez. – Fechei meu semblante ficando com uma expressão séria. – É de Vivienne Westwood. estava trajando um terno azul marinho muito elegante. – Ora... ora darling. Apesar da forte névoa ainda conseguíamos ver a majestosa lua brilhando no céu. exceto pelo Central Park. – Que flor é esta? – Perguntei encantada com a beleza da flor. Você sabe que não gosto destas regalias. – Nós vamos à leitura de um testamento e não para uma festa. Sorte nossa sermos vampiros e a luz ser dispensável a nossa visão... – Espera. Mas não era preciso... . era ela que iluminava um pouco do nosso caminho já que as luzes do jardim estavam apagadas. – Ele sorriu sarcástico. Em Nova York não estamos acostumados com isso. mas não costumo fazer visitas freqüentes por lá. – Leonard! – Exclamei em um tom sério. – Ele virou-se para mim com o seu freqüente sorriso encantador. claro se esse ‗qualquer um‘ fosse um humano. afinal caminhar em um jardim inglês tradicional as cegas seria extremamente complicado para qualquer um.. tem algo que quero lhe mostrar. Um vento gélido brincou com meus cabelos assim que eu pus meus pés para fora da aconchegante mansão dos Chevalier. mas nada que pudesse me atrapalhar. – Pra onde está me levando? – Perguntei enquanto desviava de uma pedra que aparecera no meu caminho de forma repentina. Vejo que você apreciou os presentes. – Sorri apanhando uma flor muito bonita de um arbusto. Ela é sua estilista favorita não é? É realmente encantador que demonstre todo seu agradecimento desta forma. – O jardim é muito bonito. okay? Agora venha comigo. Percorri com meus olhos pelo jardim e o encontrei próximo a uma árvore... – Ele falou passando por dois arbustos perfeitamente podados e eu diria que até esculpidos pela tesoura de um jardineiro hábil. – Thank you. – I know dear.

havia desde árvores nativas a pinheiros e plantas esculturais. Leonard continuou conduzindo-me até chegarmos próximos a margem do lago. – Há muitas coisas que você não sabe sobre mim ou se quer pode imaginar my lady. – Pôs se a caminhar ao meu lado.. – Sorri rapidamente. – Ele maneou os braços de forma cavalheira deixando-me passar a sua frente. certamente se houvesse o paraíso em algum lugar deveria ser daquele jeito. – Falei encantada ao perceber que apesar de haver um lago ali. Andamos por mais alguns minutos e a cada passo naquela grama perfeitamente cuidada eu me surpreendia com a quantidade de espécies de flora que enfeitavam aquele jardim.– É um gerânio. Até que Leonard estacou dizendo-me que chegamos. – Bem. moldando em sua face um sorriso enigmático. – Okay... – Ele deu aquele sorriso de meia boca.. significa superação. mas ainda tem muita coisa pra mostrar e pouco tempo para ver. É um lugar muito especial para mim.. – Eu costumava vir muito aqui quando eu era menor. seria obviamente a mais pura nostalgia. Se eu pudesse descrever os sentimentos que os ébanos expressavam. – Ele apanhou a flor das minhas mãos e prendeu em meus cabelos. – Leonard fez um semblante misterioso quando disse aquilo. a névoa já não era tão intensa naquele local e a lua refletia majestosamente nas águas límpidas do lago. Apesar da delicadeza é muito resistente. Havia flores de todos os tipos. – Sempre que eu tinha problemas ou precisava relaxar eu vinha para cá. É nativo da África e suporta viver não apenas em locais quentes. – Bem vinda ao meu paraíso particular. – Assim tenho certeza que o gerânio fica mais bonito.. talvez aquele fora o meu primeiro sorriso verdadeiro após aquilo tudo. – Segui-o certificando-me que o gerânio não cairia com facilidade. alguns séculos atrás. Vamos continuar que já estamos quase chegando.. basicamente.. . O jardim parecia um bosque saído de um conto de fadas que eu lia quando pequena nos livros humanos que as criadas traziam-me escondido. – Lindo. mas também em regiões de clima frio. permitindo desfrutar plenamente o momento presente sem se fixar no passado ou se projetar no futuro. – Eu não conhecia essa sua parte especialista em flores. A força dele estimula a liberação de antigos traumas. fazendo-me corar com o elogio.

misturando-as e realizando um desejo intenso que passava do corpo dele para o meu. passando todo o calor do sentimento dele pela conexão dos nossos lábios. – Ele baixou os olhos e afastou-se de mim.. – Porque.. – Coloquei minhas mãos entre nós. – Respondi de forma automática hipnotizada com os ébanos. Eu sinto muito Leonard. – Let‟s go baby. buscando pela minha.O avião já está pronto para decolar. próximo demais. dizia afobado fazendo pausa entre as palavras para respirar.. Ele seguia na frente evitando qualquer contato comigo e eu permanecia atrás dele. mas não é um bom momento para isso. Afinal o que ele estava pensando? – Desculpe-me. – Hum? – Os azuis nos ébanos. talvez fosse melhor assim. – Procurei os senhores por toda a parte. Um silêncio intimidador tomou conta de nós. ele estava muito próximo.Acariciou minha face carinhosamente. – Sorriu forçadamente como se nada tivesse acontecido e depois pôs se a caminhar ao meu lado até a aeronave onde o mordomo abriu a porta do avião para que passássemos e assim fizemos. .– Sabe por que eu lhe trouxe aqui? . – Leonard passou por mim e estendeu a mão para que saíssemos juntos do jardim e voltássemos ao caminho inicial planejado.. – Fez uma reverencia para que nós o acompanhássemos. . – Okay. senhorita Lewis! – Tom. sigam-me. – Pausou mais uma vez. Ele parecia ter sede de mim.. eu podia sentir a respiração descompassada dele quando ele aproximou os lábios dele dos meus roçando-os carinhosamente. seguindo-o numa distancia cuidadosa para continuar a evitar o contato tão incomodo para nós dois neste momento.. – Não. ele já estava próximo demais. seu hálito quente e seu perfume inebriavam todo o meu ser. As mãos habilidosas do vampiro então me enlaçaram pela cintura enquanto os ébanos voltavam aos azuis – Você é especial para mim Megan. – N-Não posso. sua língua invadia-me carinhosamente. – Senhor Chevalier.. – Devemos voltar agora. Meu corpo ardia e queimava em desejo a cada movimento das mãos lascivas em minhas costas apertando minha cintura e trazendo-me para mais próxima dele. – Ele aproximou nossas faces. Caminhamos rapidamente até que enfim alcançamos a trilha inicial da mansão.. fazendoa arder a cada toque que fazia. o mordomo. – Ele sussurrou em meu ouvido. por favor. – Acrescentou friamente e seguiu por onde voltamos.. eu. – N-Não! – Esquivei-me dos braços do moreno enquanto ele olhava-me aturdido com meu movimento..

– Senri Shiki e Toya Rima. Fechei meus olhos tentando lembrar-me. – Por nada.. mas eu já tinha visto-os em algum lugar.A voz de Leonard despertou-me. Então voltei minha atenção aos olhos puramente azuis do homem.. “O que será que me aguarda?” "Um bom filho a casa torna. encará-lo depois de rejeitálo de uma maneira tão brusca era completamente complicado para mim.Dentro do aeroplano novamente pude relembrar o quão luxuoso ele era. – Como? – Na foto.. A viagem seria longa e o silêncio intimidador não dava trégua. Olhei ao redor e algo chamou minha atenção. Entretanto agora eu não deveria pensar sobre o que aconteceu naquele jardim.. Aproveitei do silêncio para concentrar a minha mente na carta que recebi de William sobre a morte de papai e a leitura do testamento. Ou simplesmente ele estava evitando ficar a sós comigo novamente.. muito bonita. eu até que preferia ficar sozinha. devo ressaltar também. não conseguia lembrar-me de onde.” Dito popular. Diferente do habitual. – Por quê? – O sorriso já forçado desaparecera de sua face naquele instante. São os modelos Senri Shiki e a Toya Rima. Entretanto não dizia os seus nomes. Nós dois ficamos calados grande parte da viagem. De alguma forma aqueles rostos me sorriam familiar. falando apenas quando fosse necessário. particularmente devo dizer que entre nós esse fora o primeiro longo e constrangedor silêncio.. na poltrona que estava ao meu lado esquerdo havia uma revista que estampava na capa um homem de cabelos castanho avermelhado de uma beleza admirável e uma loura. Leonard guiou-me até as confortáveis poltronas onde fiquei acomodada enquanto ele seguiu até a cabine de comando para. – Já vamos decolar. provavelmente. Apenas curiosidade.. Distrai-me pensando nos motivos para aquilo. Mas eu tinha quase certeza que não. mas foi em vão. – Ele repetiu sentando-se ao meu lado enquanto prendia o cinto. Talvez fora em alguma outra revista. Se bem que após aquela cena nos jardins da mansão. cumprimentar os comandantes. . – Você os conhece? – Continuei observando a revista faltava-me coragem ainda para encará-lo. eles eram tão apáticos. .. – Apertei os cintos cuidadosa e em seguida abri a revista folheando desinteressadamente parando em uma ou outra página.

Leonard e eu permanecemos calados evitando qualquer contato verbal ou visual. Ele gargalhou logo em seguida ao fitar minha expressão surpresa e eu o acompanhei no sorriso mais simpático que me ocorreu no momento. – Eles me deixaram um tanto quanto. – Quer um pouco de Whisky? – Ofereceu-me apontando para a garrafa próxima a ele. – Obrigada. talvez por eu enxergar na figura masculina dele o mesmo sentimento que sempre me afligia.. por favor. – Escolhi as palavras. era melhor o assunto terminar por ali.. – Não fazem Whisky como antigamente.. – Serviu-se de mais uma dose.. mas foi inútil. E olha. – Ele me sorriu o mais simpaticamente possível e tomou mais um gole do Matheson. o segredo da existência dos vampiros continuaria secreta..O silêncio imperou na maior parte da viagem. faz tempo que não me deliciava com um Whisky com tanta qualidade. – Senri Shiki. apenas o indispensável era dito. . enquanto se preocupavam se estavam vestindo a roupa da última coleção ou o que as celebridades faziam das suas vidas. – Em cinco minutos iniciaremos a descida. “Merda!” Praguejei mentalmente enquanto tentava lembrar. mas em parte isso era bom. Eu continuei folheando a revista desinteressadamente durante todo o vôo.. Peguei-me olhando a capa da revista novamente.. A sua apatia me era tão familiar. Naquele momento pelo menos era melhor assim. – Passei o meu indicador da face dele. são? – Olhei capciosa. senhorita Lewis... eu já havia passado por aquela capa várias vezes e sempre acabava hipnotizada pelos azuis indiferentes do modelo contrastando com a pele alva e os cabelos acobreados desajeitados. Tentei lembrar o nome. Senhor Chevalier. – Curiosa. era rara as vezes em que alguma reportagem chamava a minha atenção. onde estava anteriormente. arrematei de um leilão em Pennyhill Park Hotel. para a dela. apesar de que muitas pessoas de toda a mídia ainda fossem seres como eu.. talvez esta fosse a primeira vez que olhei nos olhos de Leo depois do evento no jardim. – Eles não são humanos.. – Nobres. – A voz de Leonard ecoou pelos meus ouvidos fazendo despertar a lembrança esquecida. mas não quero nada. – Leonard parecia perturbado com a nossa proximidade. – O sorriso desapareceu e ele tomou o último gole de Whisky que só agora fui perceber em sua mão. Apertem o cinto novamente. Hm. humanos às vezes eram tão fúteis. – É a Matheson..

– É um dos favoritos dos meus pais também.. – O que houve? . mas logo após isso o silêncio reinou novamente. – Thank you.. eu particularmente detestava aviões. então pusme observar as luzes que passavam em flashes pela janela no automóvel. – Ele sorriu pela última vez e o silêncio tomou conta do veículo novamente. – Comentei com Leonard assim que ele se acomodou ao meu lado no banco de trás. O engraçado é que a noite parecia haver mais luz do que no dia.. – Tom quebrou o silêncio assim que o carro arrancou saindo do estacionamento particular dos Chevalier no aeroporto.Olhei pela janela e pude observar a bela Madison iluminada. sei que ele ainda estava incomodado. Finalmente o chão. é claro. mas felizmente as luzes da noite não me faziam mal como o sol. se o trânsito da grande maçã permitir. – Mas. Continuei concentrada em qualquer outra coisa senão a descida e só consegui voltar a realidade quando senti que o avião já havia pousado e agora estávamos deslizando pelas pistas. Voltei meus olhos para a revista que ainda estava no meu colo e apertei as fivelas do cinto do avião. – Leonard falou-me com um tom inseguro. mas logo o silêncio tornou a ser quebrado. – Hum? – Girei meu corpo para observá-lo olho no olho e meus azuis encontraram os ébanos preocupados. – Megan. – Leonard gabou-se enquanto o mordomo abria a porta para que eu entrasse. Como confiar em algo planejado e feito por humanos? Definitivamente impossível. As descidas nunca me eram muito agradáveis. Evitei encarar Leonard novamente. Eu nunca lhe vi com esse antes. O mordomo dos Chevalier nos conduziu do saguão de chegada até a garagem onde outro carro extravagantemente luxuoso nos esperava. – Em uma hora no máximo chegaremos à mansão dos Lewis. – É realmente lindo.. Ele era fabuloso em todos os detalhes. era uma linda noite. – Esse é um dos meus favoritos. – Agradeci o mordomo. O céu estava estrelado e nenhuma nuvem encobria a prateada esplendorosa no céu. dessa vez era um Maybach negro.

Leo apontou para uma grandiosa casa.. tudo havia mudado muito após todos aqueles séculos menos aquela casa.. qual eu me lembrava muito bem. – Ele continuou após um longo suspiro. pois não agi como um cavalheiro e me deixei levar pelo momento.– Desculpe-me por aquela cena no jardim. – Ele finalmente tornou a sorrir e suas mãos afagaram meus cabelos como antes. – Eu devo pedir desculpas. para automóveis pelo antigo jardim. – Ele baixou os olhos para os próprios pés como uma criança arrependida faz após alguma traquinagem. Senti um calafrio percorrer pela minha espinha quando cruzamos o caminho. A porta do carro foi aberta e Tom ajudou-me a descer do automóvel. ela nunca havia saído da minha mente atormentando sempre minhas lembranças. – Você quer que eu vá embora? Se quiser eu vou. Por alguma razão ela continuava da mesma forma que eu me lembrava. mas logo seu dedo indicador calou-me quando se aproximou de meus lábios pedindo-me por silêncio. esse semblante não combina com você. – Quero estar por perto caso você precise de um ombro amigo. não gostaria de perder uma imagem sequer. .Já estamos chegando. Espero que você não tenha ficado chateada comigo. – Hm? Vocês vão acompanhar-me? – Continuei observando o jardim.. Apesar de só ter a visto pela última vez há trezentos anos. Olhei ao redor. Observei tudo ao meu redor. três para ser mais exata. Fui mantida presa entre aquelas paredes durante séculos. – Interrompi-o. . – Ele virou-me sorrindo arrancando de mim um sorriso retraído. William provavelmente estava esperando a gente. O belo Maybach parou em frente ao portão que logo se abriu. mesmo sabendo que você estava abalada eu a forcei a uma coisa que você não queria. A brisa gelada da noite acariciou minha pele alva brincando por entre meus fios negros tal qual a noite.. – Não me interrompa. – Vamos? – A mão de Leonard tocou o meu ombro fazendo-me despertar. Um pouco de nostalgia havia me invadido. – Leonard não precisa se desculpar e nem ficar assim. absorvendo todas as sensações que me foram negadas nos últimos séculos. provavelmente.

se a senhora não se importar levarei a senhorita eu mesmo. – Agora vamos! Algo me diz que esta noite será longa por demais. – Mas a leitura não seria amanhã à noite? – Leonard interveio.Despedi-me com um breve aceno de Leo e seu mordomo. Dois empregados da mansão mais o mordomo dos Chevalier nos acompanharam até o hall principal onde William nos aguardava. Ele fez uma reverencia assim que nos viu. Mas a essência do local era a mesma: fria.– Thank you. – Yes sir. – Agradeci retirando a mão do meu ombro. mas com o falecimento pelas mãos de algum caçador. tampouco poderíamos seguir pelo mesmo caminho. – Ele sorriu daquela forma maliciosa mostrando os caninos para mim. – Ele satirizou-me enquanto selava um beijo no dorso de minha mão. – Como quiser milady. William também estava um tanto diferente. agora eu e William seguiríamos para um caminho diferente dentro da mansão. – Estalou os dedos e um dos empregados aproximou-se. . os antigos candelabros foram trocados por lâmpadas elétricas. Chevalier. Foi até que então eu percebi que muitas coisas mudaram. – Acho melhor seguirmos para os quartos agora. pelo menos interiormente. parecia um pouco mais velho e maduro. – Henry levará o senhor Chevalier e o mordomo até o quarto de hóspedes. Entretanto será uma honra tê-lo aqui comigo. – Good Night Miss Lewis and Mr. ser um mordomo dos Lewis. os papeis de parede foram renovados. Ele era bastante novo quando começou a servir minha família. Mas com a chegada antecipada de Miss Lewis a leitura fora antecipada para hoje. . quanto antes saber sobre o conteúdo do testamento melhor. – Encarei Leonard com reprovação interferindo na conversa. A leitura do testamento começará em meia hora na biblioteca. espero que isso não seja um incômodo. William assumiu a responsabilidade deixada pelo pai sendo treinado para ser exímio no que faz até hoje. sou o único que guarda as chaves dos quartos principais. Os hóspedes ficavam em outra ala da casa. – Mas não precisa se preocupar. eu sei como me cuidar. alguns móveis trocados. – Certamente que não é. seu pai era o mordomo particular da nossa família.

Paramos a uma antiga porta de carvalho. – Thank you. Aquele era o meu quarto ou pelo menos fora. Daqui a dez minutos se não lhe for incomodo voltarei para guiá-la até lá. mas as incertezas em torno da morte repentina de meu pai voltaram a me assombrar. – Como meu pai morreu? – Fui direto ao ponto. – Após o testamento milady estarei disposto a responder todas as suas perguntas. Ali só haveria a relação de mordomo e mestre e de acordo com um comportamento primoroso de um mordomo. – O mordomo reverenciou mais uma vez. mas logo continuamos parando três portas depois. – Agradeci sentando na cama enquanto ele trazia minhas bagagens para perto do closet instalado na suíte.William e eu seguimos em silêncio pelos longos corredores que agora me sorriam familiares. – William espere. estávamos a sós enquanto andávamos. prefiro fazer o caminho por eu mesma. eu gostaria de perguntar a William sobre tudo o que aconteceu. – Oh. uma que eu conhecia muito bem. – Como desejar my lady. ele não deveria dirigir a palavra ao seu mestre sem o consentimento do mesmo e eu devo ressaltar que nisso William era exemplar. – Senhorita Lewis. mas não proferi uma palavra. – Ele abriu a porta revelando um moderno cômodo que não combinava com o classicismo da mansão. o que aconteceu com o meu antigo quarto? . mas agora se me der licença devo preparar a biblioteca. Ele também não parecia nenhum pouco disposto em quebrar o silêncio entre nós. Estar ali agora era como uma viagem ao passado. – William? – Chamei-o enquanto terminava de desfazer minha bagagem e arrumar no closet. ficará acomodada nesta suíte. era o momento ideal. – Yes milady? – Ele colocou a última peça no closet e virou-se para mim em uma nobre reverência. mas o mordomo se esgueirou da pergunta. se não se importa. por favor. Continuamos caminhando. okay… Mas não precisa guiar-me até a biblioteca.

– E as chaves? Você disse que era o único que possuía todas dos quartos principais. – Despachei-o voltando a ficar só. menos a do antigo quarto da senhorita.. – Pensei que tivesse fugido. – Acomodei-me em uma poltrona confortável próxima a Leonard. Caminhei até a porta e segui pelo corredor mal iluminado. – Ah! Então. Quando fui perceber já estava na hora de seguir para a biblioteca.O mordomo me fitou e permaneceu em silêncio. mas acabei por me perder no meio de tantas lembranças. O senhor Lewis era o único que possuía a chave e tampouco pensou em confiá-la a mim. “Eu deveria me sentir em casa?” pensei quando passei em frente à porta do meu antigo quarto e cada parte de meu corpo se arrepiou. Entretanto continuei seguindo até onde minhas lembranças da biblioteca me indicavam. Era como viajar no tempo de fato. mas logo começou a falar. Devo ter levado um pouco mais dos dez minutos oferecidos para chegar até a biblioteca. pois todos já estavam reunidos e um tanto quanto impacientes. – Desculpe-me pelo meu atraso cavalheiros. Eu tinha nove minutos para chegar lá em ponto. vamos ao que interessa. os medos e todos os outros sentimentos me invadiam a cada passo que eu dava. o cheiro. – O senhor Lewis mandou trancá-lo e tomou a chave de todos nós para que ninguém mais entrasse lá. – Leonard segredou em meu ouvido em um tom divertido. – Eu possuo todas. – Enfim. Obrigada. Meus olhos pararam sobre o relógio daquele quarto ainda era antigo e possuía um pêndulo que balançava continuamente. . – Gesticulei para que desse início a leitura.. poderia dizer que fiquei hipnotizada durante alguns minutos por aquele movimento continuo de ―esquerdadireita‖ marcando os segundos. Pode ir. Observei tudo ao meu redor enquanto os passos do mordomo dissipavam no silêncio constrangedor daquela casa.

. no Japão.. continue. fazia tempo que eu não ouvia ninguém dizê-lo. – Leonard sussurrou em meu ouvido. Ela pode ser cancelada a qualquer momento caso deseje. É apenas um testamento. como é do conhecimento de todos aqui presentes. tentando apaziguar a situação enquanto puxou-me pelo braço. não poderia esquecer-me disso. – Os olhos do vampiro flamejaram em um vermelho vibrante demonstrando a sua irritação com o meu comportamento. forçando-me a sentar ao seu lado novamente. mas estar com você me pareceu mais interessante.. – Eu. – Bem. – Sorriu. advogado e membro do conselho dos Anciãos. tais posses só deveram ser entregues mediante o cumprimento de uma determinada condição. A senhorita Megan Lewis deverá mudar-se para a Academia Cross. – A sua matricula já foi feita senhorita Lewis.. onde a mesma deverá comparecer as aulas da turma da noite assiduamente até se graduar. – E o que acontece caso eu não aceite e cancele a matrícula? – Indaguei desanimada. o falecimento de Mr. – Então. – O vampiro sorriu maldoso. Ele era um membro do conselho. das condições. – Japão? Academia Cross? – Eu não conseguia absorver tantas informações. – Esse era o primeiro nome do meu pai. – Senhorita Lewis contenha-se. por favor. entretanto é de sua própria escolha ir ou não. – Condição? – Engasguei-me com o chá que a pouco havia sido servido por William. – Eu até que pensei em sair por aí. – Leonard interferiu. Mas o que você faz aqui? Pensei que não iria acompanhar a leitura. – Cláusula B. visto que esta é a sua única filha e é a única a ser citada neste documento.– Não tenho porque fugir. – Mas que merda é essa? – Levantei-me deixando o chá de lado. Artur Torrance estou aqui para transmitir os seus últimos desejos por meio deste testamento que nos foi enviado logo após a sua morte por parte de seu mordomo William Scott. mas logo emudecemos quando um senhor começou a falar. Albert Lewis.. A senhorita Lewis será a única beneficiada e receberá todas as posses que antes pertenciam ao seu pai. Afinal que merda meu pai pensou quando escreveu aquilo? – Acalme-se Megan. Entretanto.

– Yes milady Lewis. Logo receberá minha resposta. – Respondi-lhe friamente enquanto me levantava. – Eu posso pensar sobre isso? – O sorriso do vampiro agora se estreitou. – Estarei aguardando ansioso por isso. provavelmente estava louco para por as mãos nas posses. – E então Megan já sabe o que vai fazer? – Leonard perguntou-me com um ar preocupado. ~x~ Não demorou muito para que chegássemos até o quarto onde eu fiquei hospedada na mansão. Se após estas dez noites não houver comunicação alguma será considerado a desistência da cláusula das condições e você perderá quaisquer chances de voltar atrás.. Cinismo parecia ser o forte daquele cão do conselho.. Meditei absorvendo todas as informações.– A clausula das condições não será cumprida impossibilitando que receba todas as posses que pertenciam ao seu pai e sua família. – Então. – Isto é tudo? – Respondi desinteressada. . – Elas serão leiloadas pelos membros dos conselhos dos Anciãos.. ou seja. acompanhado por algum outro mordomo senão William. Entretanto se quiser dar uma resposta agora poderá evitar muitas dores de cabeça no futuro. – Preciso pensar sobre isso. até hoje eu tinha tido tudo sem precisar de um centavo sequer dele. – O vampiro me instigou. – Irei de volta para o meu quarto. – Sorri-lhe o mais verdadeira que pude dirigindo-me a saída acompanhada por William.. – E o que acontecerá com as posses? – Perguntei curiosa. – O sorriso petulante permanecia no rosto do vampiro quando ele seguiu para a saída. eu precisava de respostas o quanto antes. hoje. acho melhor descansar por hoje. – Falei impassível. creio que ainda não absorvi todas as informações.. – Yes milady. Você deveria fazer o mesmo Leo. a senhorita tem um prazo de dez noites a partir da leitura do testamento. Pedi para que William trancasse a porta assim que entrássemos. – O sorriso do vampiro a minha frente alargou-se me deixando enojada. – O dinheiro pouco me importava.. ainda havia muitas perguntas a serem feitas. – Não sei. – Hm. Adeus.

algum problema? — a voz impassível atravessou meus pensamentos. Apanhei-o cuidadosa e um tanto quanto receosa. meu pai. para a prisão a qual eu pertenci por séculos. Meus olhos recaíram sobre dois objetos.– Você disse que responderia minhas perguntas assim que a leitura terminasse. despejei seu conteúdo em cima da colcha de cetim azul que forrava a cama naquela noite. E assim que consegui finalmente abri-lo. — Will! Preciso de algo para ouvir isso aqui.” O envelope deslizou rapidamente entre meus dedos ansiosos enquanto eu caminhava até a cama. apanhei as duas. antes que prossiga com as perguntas devo-lhe entregar isto. “Outra carta?” pensei.Medo de ficar sozinha. Afinal. eu sempre fui sozinha. Eu não deveria temer meu pai agora. mas foi tempo suficiente para que William se preocupasse. – Estendeu-me um envelope. “For Megan. de fato eram muitas as coisas que eu teria que compreender. o papel que antes era branco já estava um tanto amarelado pelo efeito do tempo. Eu deveria ouvi-la? E se ouvisse a voz do meu pai? O que ele queria com aquilo? Era estranho pensar em ouvir a voz dele. — Exibi a pequena fita em minha mão. Passei meus olhos pelo envelope e rapidamente encontrei uma identificação. Esbocei um sorriso de escárnio. – Deve ajudar-lhe a solucionar algumas das dúvidas que a senhorita já possui. Era a caligrafia dele. Não sei quanto tempo permaneci estática na cama com a fita entre meus dedos. – Os orbes esmeraldas do mordomo sorriram satisfeitos. por isso não deveria fraquejar em ouvir uma simples fita. só de imaginá-lo era como se retornasse para anos atrás. — Senhorita Lewis. certo? . uma chave e uma pequena fita. Onde só havia frio e medo. Sem hesitar. não mais. cortando-os rapidamente. violando-o mais rápido que eu podia naquele momento. Eu não era mais fraca e estúpida. não é? Lembrei-me de tudo que havia acontecido nos últimos dias e meus orbes azuis se fecharam tentando absorver aquilo. – Entretanto. – Yes milady.

Até que finalmente uma voz se sobrepôs. gostaria de ter lhe dito frente à frente.. achei a fita mais usual para mim e mais prática para ser conservada. Você já deve saber disso. e após a minha permissão. não quero que sinta pena de mim.. acho melhor ouvir a fita sozinha.. Mas diferente de antes. — Megan. as lembranças e a fita a espera de ser tocada. Então finalmente apertei o play e fiquei na expectativa.. ele acelerava um pouco na pronúncia. após a sua partida imaginei como lhe dizer tudo o que pretendo dizer aqui. obrigado por ouvir a fita. Megan. mas o mordomo rapidamente entregou-me um pequeno gravador que possuía um encaixe para a fita. Uma tosse intensa e seca o interrompeu. Estava tudo planejado? Fiz menção em perguntar algo. anêmico. o que quer que soe do gravador antigo me surpreenderia. Realmente feliz. —Pigarreou e prosseguiu: — Minha saúde não está uma das melhores. Agora só havia a minha ansiedade. impedindo que eu perguntasse algo ele saiu.. isso já era esperado.. Ainda não me acostumei com essa tecnologia digital humana. Isso me deixa feliz. — Milady. a respiração ia tornando-se ofegante e falha até que ele novamente pausou a fala e eu pude ouvir mais um pouco da . creio que a morte me aguarda para logo. Se precisar de mim. Mas não é isso que eu quero lhe dizer. Então ele continuou: — Desculpe por isso e pela fita em si. depois um chiado incessante.. — Senti cada parte do meu corpo arrepiar quando a voz dele ressoou por todo o quarto saindo do aparelho..O mordomo me sorriu e se dirigiu até o criado mudo próximo a cama. não com meu pai.. parecia fraco. rouca.... saiu. As palavras doces não pareciam combinar com a figura dele que eu trazia em minha mente ao longo dos tempos. porque eu não a mereço. A cada palavra. por séculos. pelo contrário. Nunca tive forças para combater a dor que se implantou em mim após a morte de sua mãe. agora a voz não tinha aquele tom imperativo. estarei do outro lado da porta aguardando ordens – despediu-se em uma pequena reverencia. eu costumava brincar muito com aquele tipo de aparelho antes. Primeiro veio o silêncio. Egoísta e covarde é tudo o que eu sempre fui em relação a você. mas novamente fui covarde. Prontamente coloquei-a no gravador. — Primeiramente.

mas mesmo assim. você canta como ela... Porque culpar alguém se não você é muito mais fácil não é? Por isso eu culpei você. a encontrava. –Você é muito parecida com ela. — Eu não quero que me perdoe filha.... Apertei fortemente a mão com a qual eu abraçava meus joelhos. os gravassem para mim. Sempre que olhava dentro dos teus. Então minha mãe realmente não odiava quem lhe tirou a vida para poder viver. se de fato considerasse a existência de um... ainda havia parte de mim que duvidava de todo o amor que eu imaginava que ela sentisse por mim. Sua mãe cantava como um anjo e. Mas. — ele frisou a última palavra. Fraquejei mais uma vez. lhe culpar. — Megan.. A verdade é que sofremos a mesma dor e sentimos a mesma perda. como se tivesse cuidado em dizê-la... Eu pude ter o deleito de assistir a alguns shows seus.. Mas além dos olhos. mas me sinto no dever de proferir. Principalmente os olhos azuis. Aproveitei e aproximei mais o aparelho de minha orelha. eu sempre soube que minha mãe me amou. eu não sei como reagiria. Era isso que me fazia continuar desejando viver. pelo menos era o que eu pensava.. Talvez seja por esse motivo que eu nunca consegui estar próximo a ti. Mas despertei dos meus pensamentos quando ele prosseguiu após um pigarro rouco.tosse seca no fundo da gravação... Uma parte de mim foi acalentada quando ouviu essas palavras. a voz angelical também. ali. agora estava tão próximo que eu poderia sentir a respiração falha dele como se sussurrasse. ou mesmo você. Os meus cabelos negros cobriam meus ombros aquecendo o frio que a lembrança paterna me trazia. Nunca tive certeza daquilo. Pedi para que alguns dos meus servos. caso você me reconhecesse. abraçando meu joelho e em seguida apoiando meu queixo sobre ele. Nunca duvide disso. que você não conhecia. mas tudo o que fiz foi lhe ignorar. Não me eram novidades... Vampiros teriam corações? Meu pai havia me ensinado que não por todas as vezes que ele me ignorou. Mas Megan. Eu poderia dizer que meu coração estava descompassado. Acolhi minhas pernas. sempre foi. eu imagino que você já saiba disso tudo que eu estou lhe dizendo aqui. Por . Eu gostaria muito de ter ido vê-la cantar ao vivo. não se esqueça que sua mãe lhe amou até o último momento. Eu não sei como conseguiria definir aquilo que senti quando ouvi aquelas palavras saindo do gravador. em meu ouvido. Sendo que você não passava de uma vítima como eu.

por saber que você está o usando. há algo lá para você.. O colar pode ser usado apenas por você Megan. Tenho certeza que ela ficará feliz. Como era possível. eu sempre estive ao seu lado. ou pelo menos eu não queria. vê a chave prateada que acompanhava a fita? Bem.. eu sempre soube que minha morte estava próxima.. então não hesite em procurá-lo. Eu já esperava ser surpreendida. Fechei-os para conter mais lágrimas que poderiam vir. Então vou direto ao assunto. eu não espero o seu perdão. Algo que nem mesmo eu tenho a permissão de tocar. pois é a única que possui o mesmo sangue dela. mas definitivamente não dessa forma. Eu vacilei e um gemido de surpresa escapou dos meus lábios. ser verdade. Afinal já é tarde demais. aumentando o suspense. Mas. Olhei para a chave que estava comprimida em minha mão. Levei o dorso da minha mão que apertava minhas pernas à boca. essa era a cor favorita da sua mãe. Ela me disse que iria deixá-lo lá para quando você completasse seus três séculos. . – Megan. ela é a única que pode abrir o teu quarto. voltando ao seu quarto.. eu não quero me prolongar aqui... Então ele havia planejado tudo para depois de sua morte? Por quê? Uma lágrima surgiu em meus olhos. onde estiver. tentando conter outros que pudessem ocorrer e meus olhos arderam feito brasas. ela pareceu congelar quando ele revelou o que ela de fato abria. Eu estava surpresa demais para que algum pensamento me ocorresse.. aquilo que soava do aparelho? Não! Não poderia ser. amenizando o ardor. Tossiu mais uma vez aquela tosse rouca.mais que você pense que te abandonei. nas sombras escondia a minha proteção que você nunca precisou. – Você provavelmente está a três portas do seu antigo quarto. Em um quarto de hóspedes e a colcha que provavelmente cobre a cama é de cetim azul.. Ou pelo menos quase. Era mesmo o meu pai que gravara aquilo? Eu não poderia acreditar.. eu não o mereço.. e em seguida desceu solitária pela minha pele pálida. por isso deixei várias ordens a William para que ele preparasse tudo para seu conforto.. Enfim.. O azul da mesma cor dos seus olhos.. Parou e tossiu mais um pouco.. É um presente dela para você.

. está tudo bem.. impedindo que ele desse mais algum passo.— Megan.. que eu te amo filha. eu o fiz repetir para mim que me amava e chorei. — censurei-o apoiada a soleira da porta. — Eu estava com um mau pressentimento. Queria dizer que o amava também. e abandonei a cama com a chave ainda na mão e segui caminhando de leve até porta. eu poderia me dar por vencida se logo atrás uma voz não ressoasse. Não! Minha filha.. Aquilo era realmente o fim.. — Leonard.Merda! – praguejei em pensamento. Então. — Está tudo bem aqui. mas não conseguiria. Mantive o gravador encostado em minha face. Ouvi um barulho vindo do corredor. como se eu tentasse absorver o calor que aquelas palavras me traziam.. — Mas como você pode ver. — William. — Megan! Está tudo bem com você? — Era a voz de Leonard.. talvez isso fosse o que mais me doeu ali. A gravação acabou e o silêncio tornou-se ensurdecedor para mim. mas William se interpôs entre nós dois. e repeti mais uma vez sem acreditar no que ouvia. Abracei mais fortemente os joelhos na tentativa de extravasar aquela angústia que me consumia. Retrocedi a fita para a parte em que ele me chamava de filha.Eu já não tenho muito a dizer aqui. As lágrimas naquele momento já não conseguiam ser contidas. o seu mordomo não deixa eu me aproximar mais. Em seguida abri a porta e pude fitá-lo. — O que está havendo? — falei em um tom baixo para que apenas William me ouvisse caso ele estivesse acompanhado. guardando a chave no decote do vestido.... – Um calafrio percorreu todo o meu corpo quando ele chamou-me de filha e as lágrimas começaram a insistir em brotar em meus olhos. Relaxe — sussurrei ao mordomo que não queria deixar a posição de guarda.. não era para você estar descansando? Daqui a algumas horas irá amanhecer.. Não depois de tanto tempo. . fiquei preocupado com você. . Ele é meu amigo. — Ele tentou se aproximar. Ainda estava com a mesma roupa que presenciou o testamento e parecia bastante aflito. Então ele finalizou: . A não ser. A prata ainda estava fria quando entrou em contato com minha pele. senhorita Lewis — o mordomo falou convicto. Voltei atrás. — Deu dois passos para trás evitando desviar os ébanos dos meus azuis.

mas eu o impedi. — O que pensa que está fazendo? — censurei o mordomo. — Eu tive um pesadelo. meus pesadelos não passam de lembranças. Leonard certamente não demorará muito..— Eu não confio nele — retorquiu num tom seco. senhorita Lewis. — Ébanos sorriram para os meus azuis e se afastaram. — Pesadelos não são sonhos. — Descanse Megan.. ele é meu amigo e ficou ressentido com o seu atrevimento. Chevalier encontrou o seu cômodo para poder descansar — respondeu-me automaticamente como se fosse a coisa mais normal do mundo. não agora. — Andou chorando? — Ergueu as sobrancelhas indagando-me. Assim que ele desapareceu da minha vista na escuridão. Depois conversaremos. Você sabe. Você não mentiria para mim não é Megan? Sabe que não consegue. — O que houve para que saísse de seus aposentos nesta essa hora? — Eu tive um pressentimento ruim em relação a você e fiquei preocupado. — Roçou seus lábios em minha testa e olhou mais uma vez de forma ágil e dissoluta para William fingindo não percebê-lo ali. O silêncio tomou conta de mim e de Will enquanto o Leo se afastava de nós pelos corredores escuros dos quartos ―principais‖. Voltei meu corpo novamente para dentro do quarto e pude ouvir passos no corredor. — Não precisa William. — Eu devo obedecer somente à milady. Fantasmas do passado que às vezes tornam a me assombrar. Eu não queria explicar para Leonard sobre a mensagem do meu pai. — Não será preciso William. — Tornei a ficar séria como sempre para que ele não desconfiasse. — Seus dedos passearam pela minha face de forma terna. William seguia na mesma direção de Leonard. — Deseja que eu me retire milady? — Reverenciou a mim da forma mais cortês possível.. aquilo estava começando a me irritar. Além do mais. arrancando um sorriso de escárnio de Leonard.. Além do mais está tarde. Eu ainda não estava preparada para isso. tornei a respirar tranqüila.. se você prefere assim. — Afastei-me dele o mais natural possível. — Piscou malicioso pra mim com um sorriso simpático... — Gesticulou de forma formal em uma reverência.. Então assim será. Preciso descansar.. . mas abandonou o posto. — Pensei que você não sonhasse. — Sorriu vitorioso enquanto aproximava sua face da minha. — Virei meus olhos para os dele.. — Irei voltar para os meus aposentos. — Eu ia checar se o Sr. — Ok. — Ah! Isso? — Afastei-me secando os resquícios de lágrimas que me denunciaram. Saindo de minha frente.

— Sussurrei para que apenas ele pudesse ouvir. Um arrepio me fez despertar do transe. arrepiando-me por completa. quero pedir para que me acompanhe. Girei a chave e num estalar rouco repleto de rangidos a porta abriu. — Gostaria que me acompanhasse até o meu antigo quarto. senti os sentimentos e lembranças todos juntos atravessando cada parte de mim impiedosamente. — Yes milady. mas não demonstrei. logo. liberava em mim milhares de sensações e recordações que há tempos estavam esquecidos e abandonados. tenho certeza que foi quase o mesmo que sofrer uma descarga elétrica. Você não deve destratar meus convidados. cruzando os braços sobre meu peito. também me recebeu de forma adorável em sua casa em Londres. Minhas pernas hesitavam a cada passo. — Mas agora. a . Amanhã pedirei perdão pelo meu comportamento ao senhor Chevalier.— William. — Yes. — Faça-o — redargüi. finalmente havíamos chegado. Dei o primeiro passo para dentro do cômodo. A nostalgia. — Apanhei a chave cuidadosamente que havia escondido em meu decote. não era necessário trancá-lo. E quando eu o fiz.. pensei e um calafrio percorreu minha espinha. Concentreime em encaixar a chave na porta. Todos os três séculos em que vivi naquela casa passaram em frente aos meus olhos como flashes. e como meu antigo quarto era mais a frente. a ansiedade e a curiosidade afloraram mais ardentemente em minha pele. Fechando a porta do quarto onde eu estava cuidadosamente. muito menos os poucos que considero como amigos — falei severa para o mordomo que pareceu entender perfeitamente que eu falava sério. a temperatura fria e nada acolhedora não havia mudado também. A cada milímetro que a porta revelava do interior do quarto que antes era o meu mundo. As três portas pareciam nunca passar. eu estava tentando me conter. era um dos últimos quartos do corredor. Meu antigo quarto.. my lady — a voz do mordomo soou um pouco mais sedosa. três portas a frente para ser exata. a tremedeira da ansiedade não ajudava muito e demorou alguns segundos para eu conseguir finalmente introduzir a chave na fechadura. — Ergui-o. só que ao invés da eletricidade em si. e as mãos tremiam de ansiedade e se agitaram mais ainda quando percebi o contorno do mordomo parado em meio à escuridão do corredor. O cheiro daquele lugar continuava o mesmo. e os sentimentos e emoções iam se tornando cada vez mais fortes e difíceis de controlar.. era preciso que passassem por nós para chegar até lá.. então ele seguiu em frente e eu o acompanhei. — Ele é meu convidado e me auxiliou muito.

Minhas esperanças estavam minguando cada vez mais.. ela estava tão empoeirada. tudo era igual e. e ele obedeceu. — Olhei através da vidraça para a lua que se despedia vagarosamente. please. pensei e segui em direção a ele. Não creio que haja algo aqui realmente. buscando por uma das minhas peças mais queridas que tive que deixar para trás na noite da minha fuga. Meus olhos pousaram então sobre meu antigo armário. irritada. — Ele mais uma vez reverenciou de forma cerimonial e correspondeu a ordem. Tenho certeza que eu deveria parecer uma criança enquanto meus dedos percorriam os títulos animados. As paredes de tom arroxeado permaneciam as mesmas. eu nunca havia reparado quando menor.. O armário não era muito maior que eu. Talvez o que faltasse naquele lugar fosse apenas o calor do amor que meu pai nunca havia me dado. Não fora por isso que eu estava ali. mas não encontravam o que eu tanto almejava. pude jurar que me vi quando mais nova lendo alguns livros humanos no canto direito da cama. — E feche a porta. sim! Eu não faço a mínima idéia de onde pode ter algo aqui para mim. — Não. era um móvel infantil de fato. Depois eu procuraria pelo livro — Algum problema milady? — O mordomo indagou com uma expressão preocupada.. Abri com cuidado as portas de madeira antiga. Suspirei sem expectativas e me virei. não é? Uma corrente de ar intensa vinha do corredor. Sacudi o pó de minhas mãos.temperatura fria de abandono era muito menos acolhedora do que eu me lembrava. Torci o nariz ao ver minha mão coberta de poeira.... — Entre — ordenei. os móveis permaneciam os mesmos. que eu nunca havia conhecido naquela casa. talvez porque aquela porta permanecesse trancada na maioria das vezes. chamando o mordomo para que me acompanhasse. já que era minha única chance de fuga daquele lugar repleto da ausência do pai que nunca tive. Olhei para trás e fitei o mordomo olhando-me com um semblante um tanto apático. mas eu não devia me deixar levar. Dei mais um passo e vi as cenas se reconstituindo. Passei com os olhos entre os títulos.. Deixei meus pés me guiarem e segui até minha antiga estante. . ainda no corredor. Estúpida!. tão diferente. Os azuis passearam travessos entre várias obras... da dor. era um dos meus passatempos favoritos.. Meus dedos finos passearam em meio aos vários best-sellers e outras obras hoje não tão conhecidas. no entanto. elas já não estavam ilustres como antes e tampouco pareciam nobres. Bem.

Vejo que sobrou uma. — Desde que milady foi embora. mas meu sorriso desapareceu quando William chamou-me. Está completamente vazio. Eu adorava aquele vestido. não precisa sujar suas mãos. mas o que mais me encantava nelas era saber que muitas que estavam ali foram escolhidas a dedo por minha mãe antes de morrer. mas isso não as deixava menos graciosas. senhorita Lewis — o mordomo disse. sentando-me na minha antiga cama.. Havia muitas e de vários materiais ali: de alabastro. quase todas as chaves. Observei-as cobertas de pó. — Será que está aí? — Olhei curiosa por entre algumas roupas que eu havia deixado para trás quando fui embora. — Vamos esvaziá-lo. Meus olhos caíram sobre a minha antiga estante de bonecas. Entre eles estava um lindo vestido vermelho sangue. entre outras datadas mais ou menos dos séculos XV e XVI. — Pronto. Era tudo tão nostálgico. Aquelas bonecas foram . de madeira. lembrei que tentei carregá-lo comigo no dia da fuga. Gostava de vê-las quando era mais nova.. A menos que... — Yes. gostava principalmente de admirar os detalhes e perfeição de cada uma. my lady. Os azuis sorriram aos orbes esmeraldas enquanto meu corpo se erguia e se distanciava para dar maior passagem ao mordomo. — Isso aqui está muito sujo. Bem. — Merda! – Praguejei abatida. — Quero dizer. Permita-me ajudá-la. Caminhei até o local onde William havia o deixado e sorri lembrando-me dele. Nada fora do comum? — O mordomo maneou a cabeça negativamente e eu arfei derrotada. de terracota.— Há quanto tempo ninguém entra aqui? — questionei a William apanhando o lenço que ele estendeu-me para que eu limpasse minhas mãos. mas ele ocupava espaço demais na minha pequena bagagem. depositando a última peça de roupa do armário.. Suspirei lembrando-me dos poucos momentos felizes que tive ali. o senhor Lewis trancou o quarto e destruiu todas as chaves que abriam a porta para que nenhum criado entrasse mais.. — Nós já tínhamos olhado em todos os lugares possíveis daquele quarto. — Não encontrou nada? — Perguntei indignada. Senti a temperatura fria amenizar um pouco quando me lembrei disso. mas depois o coloquei sobre uma velha poltrona na qual uma das amas sentava e me contava algumas histórias antes de dormir. — falei ansiosa para o mordomo que procurava um tanto atordoado entre as coisas que estavam do lado de dentro. — Ergueu-se e começou a retirar as roupas que eu havia deixado para trás e alguns pertences que eu nem me lembrava mais. — Me sorriu e abaixou-se ao meu lado.

que hoje jamais conseguiria ser reproduzida de forma tão magnífica. Algo que eu jamais conseguiria ver quando menor por causa da altura em que ela estava e de onde se ocultava. um segredo. Até que voltei meu olhar novamente para uma das bonecas de terracota. minha esperança se dissipou. mas eu o ignorei. era a penúltima e estava vestida como as antigas damas parisienses. — Não quero descansar.. me ajude aqui. Não havia nada. Ele ia depositando-as em cima da minha antiga cama infantil. — Passei a ele as bonecas. milady. Se estiver aqui nós encontraremos. Observei novamente ao redor e não achei nada que me fizesse deduzir o que o meu pai mencionara. — Merda! — praguejei quando lhe passei a última boneca e observei novamente minha esperança desfalecer. apenas bonecas. . Mas logo voltei a passar as bonecas cuidadosamente ao mordomo. Aproximei-me cuidadosamente. se estivesse ali eu iria descobrir.. embora soubesse que nunca poderia tocá-las sem destruí-las como fiz com minha mãe. para não derrubar nada. — William. uma a uma para que eu não derrubasse e muito menos as quebrasse na tentativa de achar algo. Atrás da boneca não havia nada.. — Me passe as bonecas que eu vou ordenando-as aqui na mesma ordem.. O dossel de uma madeira nobre com desenhos perfeitamente entalhados. era apenas uma sombra mal projetada da luz da lua. que invadia por uma pequena janela meu quarto. Após esvaziar as prateleiras. — retorqui fria. — Tenha calma. Por que não descansa enquanto eu coloco as bonecas no lugar? — Reverenciou.minhas únicas amigas por todos os anos que eu estive presa ali. De alguma maneira eu sentia que elas me protegiam do frio e da solidão.. Fiquei admirando-as por alguns milésimos de segundos enquanto a nostalgia ainda corria pelo meu corpo aquecendo as antigas lembranças. Ela parecia esconder algo.. conclui que era tolice procurar algo ali. Um ledo engano. Observei cada uma das outras bonecas. Uma que estava na prateleira do meio. — O que haveria aqui para mim que eu nunca soubesse após tanto tempo? — Era notável que aquilo era uma pergunta retórica. — A senhorita conhece sabe a ordem? — O mordomo pareceu intrigado. Apanhei-me admirando aquela bela mobília. era tão bela. e a retirei de lá. mas fui trazida de volta para a realidade novamente.

Eu até havia fechado os olhos como reflexo para não ver outra boneca se partindo em pedaços. me ocorreu..L. — Foi após estas palavras que a idéia daquilo ser o que estávamos atrás. — William. a caça ao tesouro terminou. A face da boneca havia sido rachada. Eu já estava próxima à porta quando a voz de William impediu-me de sair. Mesmo que tenha passado milênios.‘ atrás do pingente. William. Vamos voltar. mas era um ledo engano. mas o som que ela fez quando se chocou com o chão de madeira foi completamente diferente da anterior.. onde deveria ficar antes de eu derrubá-la.. minhas esperanças já tinham ido por água a baixo e minha mente desconcentrou-se.. com roupas semelhantes às antigas damas parisienses. — William. — falou exibindo o colar. — M. escorregou de minhas mãos e se quebrou quando encontrou o chão.L. colocando a boneca parcialmente quebrada na prateleira ao lado das outras. William começou a juntar os pedaços... Ele maneou a cabeça positivamente e colocou as partes da primeira boneca de terracota no lugar. Apanhei-a com cuidado. — Mas eu não estava de colar. — Porque só eu tenho o mesmo sangue que ela. shit! — gritei irritada e ao mesmo tempo decepcionada comigo mesma pela falta de atenção.. A manhã está . Estávamos praticamente no fim. senhorita Lewis.. me deixe vê-lo? — Estendi as mãos e o mordomo depositou a jóia entre meus dedos. derrubando mais uma boneca. — repeti as palavras do meu pai enquanto o fechava em meu pescoço. — A senhorita deixou seu colar cair. Vamos voltar — falei desanimada. Por isso eu nunca havia as tocado quando mais nova. eu não poderia esquecer. — Will. Era o fim da busca. eu sabia que eu acabaria quebrando alguma. também eram as iniciais da minha mãe.. — Um colar que só eu possa usar. foi nesse momento de desatenção que a pobre boneca de terracota. É impossível não saber. — Sorri enquanto abria o feixo do colar. Resolvi levantar-me. Não pode ser meu! — falei sem cogitar a possibilidade de ter encontrado o que estava procurando.. mas essa por sua vez não quebrou como a outra. — Ergueu a peça. — Oh. e são as mesmas iniciais de milady. mas quando o fiz acertei em cheio minha cabeça na prateleira mais baixa..— Após séculos observando para cada uma dessas bonecas. Abaixei-me afobada para tentar juntar as partes que quebraram. — Ah! É que está escrito ‗M.. Abri os olhos vagarosamente e a fitei inteiramente intacta no chão. era novamente a penúltima boneca da prateleira do meio. E eu estava cansada de procurar.. mas como eu estava muito nervosa.. — Sorri enquanto o mordomo ia passando uma a uma que eu havia retirado da estante e o entregado. Essa caça ao tesouro já havia me dado prejuízo demais por uma noite.

— Conte. — Yes. depois me traria um pouco de sangue conforme eu havia pedido. Eu estava com uma dor de cabeça infernal. . Passou a trancar-se no quarto da senhorita e recusava-se a se alimentar. mas nos últimos anos realmente ele piorou de vez. — Não sabe o que aconteceu para que ele ficasse assim? Não aconteceu nada de peculiar? — argumentei enquanto minhas presas perfuravam mais uma vez a pele do mordomo.. — É uma longa história e a senhorita precisa descansar agora. sem muito suspense ou ansiedade... — Tudo começou quando ele recebeu as gravações de alguns shows seus — concluiu.. se eu fosse levar em conta as palavras de meu pai. Talvez a „caça ao tesouro‟ tivesse durado tempo demais.. O mordomo meneou a cabeça positivamente. — Bem. Minhas pernas pareciam bem mais leves. precisamos descansar... Ou até mesmo o significado daquele colar. — falei após sorver um pouco do sangue dele. — Ainda não me disse como meu pai morreu — constatei enquanto lambia o filete de sangue que escapava no canto dos meus lábios. os primeiros raios de sol estavam começando a surgir no horizonte.próxima.. — Quem trazia as gravações era confiável? – Terminei de sorver mais um pouco do sangue dele.. — Ele começou a falar e eu pausei minha refeiçãopara que prosseguisse sem interrupções.. Infelizmente.. eu parecia inteiramente mais leve que antes. — O senhor Lewis ficou muito estranho desde a sua partida.. seu estado de espírito após ouvir meus shows. — Tentou se esquivar da pergunta. my lady. Ou de menos. – insisti e ele assentiu.. Ele confirmou positivamente com a cabeça e eu o dispensei. acatando a ordem e seguimos de volta para o quarto em que eu estava instalada. Meu humor não está dos melhores para encarar qualquer raio daquele sol maldito. Rapidamente chegamos. eu teria que adiar minha nova busca em algumas horas. A aurora estava próxima. William prepararia um banho quente e relaxante para mim no banheiro da suíte.. — William.

esmaecendo até desaparecer por completo. selando apenas um beijo doce em minha testa como seu adeus. Se é que aquilo havia sido um sonho realmente. . Suspirei. Mãe.. Logo depois. — Shh. era como se uma parte de mim fosse reparada. Ela havia ido. a cada lágrima que ela impedia de rolar. e aos poucos voltei a minha realidade.. o som gutural de um trovão atravessou a escuridão do cômodo me fazendo estremecer. não consegui. — Que horas devem ser? — falei enquanto jogava meus fios desalinhados para trás. Tudo o mais era apenas o silêncio disforme dos meus sonhos falhos. ela também sentia. eu chamei. Está na hora de acordar minha criança. os braços delicados de uma mulher acolheram-me num abraço quente e maternal. Em seguida. mas ninguém respondeu.. Esfreguei meus olhos e espreguicei-me. apertando o pingente do colar contra o meu peito. Senti algumas lágrimas nascendo em meus olhos. mas agora somente vocalizando. Eu — podia — senti-la bem ali ao meu lado.. Respirei profundamente para me recompor do susto. voltando a lembrar o que eu havia supostamente sonhado. Então eu sorri e ela repetiu meu gesto. contudo. As mãos ternas que ela possuía colheram cada lágrima carinhosamente e. A voz que era semelhante a minha chegou como sussurros ternos ao meu ouvido. Não! Acordei assustada. embaçando ainda mais a visão que eu tinha dela. A canção vazia permanecia. como se fossemos uma só. Era a despedida. — eu clamei outra vez por ela.. Era como se eu ainda pudesse sentir aquele abraço terno. eu não queria dormir e ter que deixá-la para trás outra vez. ainda ouvindo o eco da minha negação no silêncio aterrador do quarto que eu estava. Eu sentia. — Mãe.Uma voz suave e singular como a minha acalentou-me numa canção vazia.. entretanto. uma ferida curada. despertando mais rapidamente. Teria sido realmente ela? Tentei abrir — os olhos por completo mais uma vez. Não consegui abrir meus olhos completamente uma vez que a canção me induzia ao sono profundo.

. A notícia chegou agora pouco. mas nada que um pouco de alimento não me ajudasse a melhorar. ele arfava e falava com um pouco de dificuldade. — Milady. sozinha novamente. Eu estava correndo para deixar tudo pronto. Eu me divertia enquanto relembrava algumas coisas e. particularmente a claridade do dia nunca foi do meu agrado. Prendi meus cabelos em um coque e desci para o hall. — Ele fez uma longa pausa para respirar — Mas vai dar tempo. Eu não gostava de acordar antes que a lua estivesse no céu. — Aconteceu alguma coisa? — Um membro importante do conselho irá chegar daqui à uma hora. o que ainda parecia um tanto quanto nostálgico. As lembranças são tão nítidas. a lua deveria estar se erguendo triunfante no céu mais uma vez.Observei o relógio que ficava no quarto. Haviam sido poucas vezes que eu deixei meu quarto quando era mais nova. milady? . parecia ter visto um fantasma ou até um caçador de vampiros enlouquecido. os ponteiros ainda marcavam algo por volta das cinco e vinte da tarde. até finalmente me render e despertar de vez. — Não lhe preocupa... por isso eu costumava reparar em cada detalhe quando escapava. Bocejei e me joguei entre os lençóis de algodão egípcio por mais alguns minutos. eu fico feliz que já esteja acordada. troquei minhas roupas de dormir por um jeans e por uma blusa preta qualquer. de tão perdida em meus devaneios. A cor das paredes ainda eram as mesmas afinal. quando percebi William em minha frente assustei-me dando um passo para trás e quase cai.. O mordomo estava mais pálido que o normal para um vampiro.. após o banho. Dirigi-me até o banheiro e. Provavelmente já deveria ser um pouco mais das seis da noite. Estava cedo ainda. Eu estava com uma leve dor de cabeça. — E? — Voltei a caminhar e o mordomo me acompanhou logo atrás.. Prossegui minha caminhada por aqueles corredores. Mesmo que o dia estivesse nublado e o tempo propício para uma tempestade ainda era claro demais. Sorri confiante enquanto observava as cortinas azuis-marinho dançando no ritmo da brisa noturna.

— É uma pena então. onde arrumou essa jóia? — Ele sorriu. Apenas tive um bom descanso. —Sem tempo? .. isso era inegável.. – ele forçou um sotaque francês. era como se eu pudesse senti-la comigo. mas ele não se moveu. Ao alcançar o hall da mansão.. aquela notícia havia me abalado de certa forma. Não até estar devidamente alimentada. pude observar Leonard escorado na parede trajando seu habitual terno de negócios e com seus longos cabelos negros presos em um rabo de cavalo. Embora meu semblante aparentasse desinteresse. Era estranha a forma que eu estava me sentindo após o que aconteceu antes de eu acordar. — Leo? – Apressei-me. começando a descer as escadas. senti-la me protegendo. Após isso. — Sorri. – Ele olhou para o relógio ansioso. agora estou sem tempo querida. uma vez que o pingente estava justamente entre meus seios e eu podia sentir as mãos dele tão próximas.. descendo os últimos degraus rapidamente deixando meu mordomo para trás. um silêncio desconfortante caiu sobre nós dois. vamos tomar um chá e eu te conto. — De qualquer forma. entretanto. aconteceu algo? — Nada demais. – Vejo que está mais animada. Poderia eu chamar aquilo de sonho? Enfim. A cena martelava em minha cabeça. — Que bela pedra. Apertei a jóia e meus lábios se contraíram em um leve sorriso.. — falei..— Um pouco. — Ah! — Sorri tentando disfarçar — É uma longa história. eu não quero pensar nisso agora. — Puxei-o pelo braço. — Chérry. pegando o pingente com a ponta dos dedos e me fazendo corar. nada poderia tirar-me do bom humor que eu estava.

— Mas. despedindo-me dele. eu quero que leve um humano jovem até o meu quarto. — Não precisa — interrompi-o — Apenas faça o que eu ordenei.. caminhando apressadamente junto ao seu mordomo até a porta. no fim das contas. Sorri deixando à mostra meus caninos. direto da fonte. agora eu tenho que ir Megan. Leonard estava estranho.. o membro do conselho chegará logo. Continuei andando e encontrei algumas . está bem? – sussurrou no meu ouvido carinhosamente e.. chamando William para próximo de mim.. Eu queria apenas meu café e iria atrás dele. não irei matálo. Entretanto... mas mais tarde estarei de volta e conversaremos. De certa forma eu estava empolgada. eu não era como uma boneca delicada. Muito misterioso e enigmático para a postura costumeira dele. Está certo? — Ok. — Eu não sabia que você tinha negócios por aqui. Eu gostaria muito de ficar. — Você nunca perguntou. – O mordomo dele surgiu descendo as escadas – Enfim. Acenei. mas quem se importa? Eu havia vivido os últimos séculos sem toda aquela redoma de cristal em cima de mim e. — Não se preocupe. afastou-se. — Eu pego para a senhora milady. sim? Sorri-lhe e segui em direção à cozinha.—Na verdade. mas tenho negócios para resolver. Apenas preciso de um pouco de cafeína. eu prometo. Apenas leve-o até lá. já irei subir novamente. E não se preocupe. Direto da fonte como o sangue do humano que me alimentaria logo. em seguida. Suspirei.. milady. — Will. não era a coisa mais adequada de uma nobre fazer. Eu estava com fome. — Sorri maliciosa — Preciso beber do meu alimento direto da fonte. minhas entranhas pediam por sangue fresco. — Não se preocupe comigo. por favor.. não agora. não me preocuparia com isso agora. — Serei breve. – Assenti com a cabeça e ele beijou minha testa.— sussurrei ao mordomo enquanto lançava-me em direção à cozinha. eu estava apenas esperando meu mordomo pegar alguns papéis que esqueci.

Muito melhor do que assustado como um rato. Quanto mais próxima eu ficava da refeição. . O garoto deveria ter um pouco mais do que dezessete anos. Dei mais um gole no café. — ele não conseguia formar nem uma frase só com essa investida? Eu segurei o riso. eu prometo ser breve. pedi a elas que trouxessem meu café e rapidamente eu já estava saboreando a maravilha que é a cafeína. ele tinha um bom gosto. Na verdade eu não prestei atenção em nenhuma palavra do que ele disse. Sorri. A cafeína parecia tão sem graça agora. Acenei para o mordomo se retirar da frente da porta e ele apenas assentiu com a cabeça. então não saia daqui. eu estava apenas checando o que William me trouxera e. Sorri-lhe de volta como resposta.. que chato. eu o preferia assim.criadas pelo caminho. ele não haveria de fugir. — Serei breve. Will havia se tornado um perfeito cãozinho. — Mas senhorita Megan. assim como seu semblante inexpressivo. eu tinha que admitir. cabelos louros e olhos cor de mel escondidos debaixo das lentes de um óculos. Ele deveria estar guardando o local para que o humano não fugisse. De qualquer forma. Humanos gostavam tanto de falar. mais intenso o perfume dela me abria o apetite. aproximando-me do rapaz. — Como quiser milady. — sussurrei ao pé do ouvido dele. fazendo-o arrepiar-se. — Aos poucos a face do mordomo estava voltando ao normal. Ele tinha tanto potencial.. isso sim me dava pena. — Vai ficar tudo bem. Era a hora do prato principal do meu desjejum. Subi as escadas novamente. Ah! O humano! Dei um último gole na xícara de café enquanto ele prosseguia falando. eu. Pude ver William encostado em frente à porta do quarto em que eu estava. ok? —segredei-lhe antes de adentrar meu cômodo. Fechei a porta e uma voz masculina suave chamou-me. seguindo pelo mesmo corredor de antes.

— Eu já disse para não ter medo. arrastando-o para próximo da cama... — ele hesitou.. Não vou lhe machucar. mas as mãos dele interromperam minha ação no meio do caminho. — Senhorita Megan. não fale nada. Virei a face dele somente para mim.. isso. eu.. Humanos eram tão suscetíveis às influências. eu podia sentir que o fluxo do sangue dele estava mais intenso por causa disso. Isso não é correto. — sorri e tomei as mãos do rapaz. não tenha medo.. — silenciei-o acariciando seus lábios com um dos meus dedos. Tem algum problema com isso? Ele desviou o olhar do meu de uma forma adorável enquanto ajeitava a armação dos — óculos — em sua face. sentando-me. para encará-lo. As mãos dele tremiam e seu coração acelerou. Nenhum. então. . Ele estremeceu e eu sorri. Minhas mãos também eram tão menores e delicadas em comparação as dele. Ele era mais alto do que eu quando nós estávamos mais próximos. não? — ele estacou e eu — ri. Entretanto. — Aproxime-se. — Mas senhorita Lewis. — Ele segurou minhas mãos firmemente. — Nenhum problema mesmo. Afastei-me dele e segui em direção a cama. eu.— Shhh. eu tinha que inclinar minha cabeça um pouco pra cima. — acrescentei enquanto minhas mãos deslizavam pela camisa desabotoando todos os botões facilmente. — É a sua primeira vez.

— acrescentou tão formal. quase o mordi ali. A língua ferina dele buscava pela minha. Ele pareceu não se incomodar. e. Hesitei por alguns segundos enquanto amaldiçoava o filho da puta que havia me iludido e. Brincar com os desejos humanos a essa altura era tão agradável. vermelhos e famintos. Os braços dele apertaram minha cintura. Brian. sorvendo um pouco de sangue.. Nossas bocas se encontraram e nos beijamos. desci com minhas mãos pelo tórax.. Brian parecia um pouco tenso. então sussurrei para que relaxasse e ele sorriu.. deitando-me sobre o tórax desnudo dele. sutilmente. antes de continuar a retirar a camisa.. Disse a ele. ainda coberto pelo tecido de uma calça Jeans. mas após a terceira mordida. fosse eu. depois. continuei desabotoando a camisa livre de empecilhos. era um brinquedinho interessante. — Meu nome é Brian Standage. Se ele me atrapalhasse mais uma vez. Acariciei o abdômen do louro e pude sentir ele se arrepiando com o meu toque. em seguida subi em cima do seu abdômen. Feito isso. A brincadeira estava começando a ficar interessante. — Pensei que quem falava o que é certo e o que é errado aqui. ainda não era a hora e ele. Aquele desgraçado. juro que quebraria a promessa com William e o mataria no mesmo instante. ele afastou-me com o pouco de força que ele tinha e em seguida gritou como todos da sua espécie faziam quando observavam dentro dos nossos olhos bestiais. Não resisti e mordisquei-o. . — Como é mesmo o seu nome? — Eu não havia prestado atenção quando ele — Não seja havia se apresentado. Humanos são tão entediantes. Deitei-o sobre a cama e sorri ao humano. Comecei beijando seu pescoço suavemente. colando ainda mais nossos corpos. Ele era um pouco magro e sem graça em comparação ao de James.as minhas eram muito mais fortes. — Brian Standage — ele falou envergonhado. me contive. —Você já está animado? — Apertei o pênis dele carinhosamente sobre o tecido e ele soltou um gemido baixinho. Ele falava demais e isso estava começando a me irritar. de certa forma. Miss Lewis. Humanos que gostavam de falar demais eram cansativos. entretanto. pensando nisso desvencilheime facilmente do intento e silenciei-o novamente. Eu era muito mais forte. — sussurrei ao pé do ouvido dele. fui descendo até o sexo dele. Sorri maliciosa e ele corou. ele não falaria mais nada.

— Que porra é essa? Seus olhos... eles não eram azuis? — ele afastou-se de mim e eu ri, lambendo o filete de sangue que me escorria no canto da boca. — Dizem que eu sou um pouco mal educada nas refeições... — Ele me encarava um tanto assustado. — É que eu gosto de brincar com a comida. — Sorri deixando meus caninos à mostra.

Ele gritou e correu em direção a porta, eu ri pela última vez com o intento dele. A minha paciência já havia se esgotado. Andei até ele calmamente e joguei-o na cama da forma mais delicada que uma vampira com fome e impaciente poderia fazer.

— Shh... Não grite baby. — Segurei as mãos dele, imobilizando-o. — Sabe? O sangue dos virgens é o melhor... porque ele alimenta não só a nossa sede... — Lambi o pescoço dele no local onde eu iria mordê-lo. — Como também acalma a nossa besta interior. —mordi-o e ele gritou pedindo ajuda. — Maldição! Já não mandei calar a boca? Por que vocês têm que gritar tanto? — Ele pareceu não ter me ouvido, então logo o calei, dando-lhe meu beijo letal... ou quase isso. Eu não queria matá-lo no fim das contas, então apenas suguei-lhe mais um pouco de sangue e o fiz adormecer, utilizando um pouco do meu dom.

Terminada a refeição, joguei-me ao lado do corpo desmaiado do humano, sentindo o gosto do sangue descer pela minha garganta. Era tão agradável bebê-lo direto das veias, ele não perdia o calor e o sabor ainda era intacto. Duas batidas na porta de madeira antiga me fizeram levantar, deixando o humano desmaiado para trás. Eu gostava de ficar relaxando por um período de tempo após me alimentar, mas isso não aconteceria hoje. Afinal eu ainda tinha uma conversa com um membro do conselho e ter de lembrar isso fazia todo o sangue que eu havia ingerido se agitar. Merda! Eu não queria uma má digestão. Respirei fundo tentando acalmar a ansiedade que havia se instalado em mim. Ajeitei meus cabelos, que agora estavam completamente desalinhados, prendendo-os. Bati três vezes à porta e William a abriu para mim. — Ele chegou? — perguntei ao mordomo e ele assentiu. — Recebi a informação que o carro do conselheiro acabou de passar pelo portão da mansão.

— Uh — minhas pernas tremeram por um momento com a resposta direta do mordomo, havia chegado a hora — É melhor eu descer logo, certo? — sorri.

Ele assentiu com a cabeça. Era claro que eu tinha que descer logo, quem gostaria de deixar um membro do conselho esperando? Apliquei um pouco do meu perfume com essência de sândalo para diminuir o cheio de sangue fresco que eu emanava e sai do quarto, deixando para trás o mordomo e o corpo do garoto humano. Depois de ter dado três passos no corredor, pude ouvir que o mordomo apressou-se para me acompanhar. — Vai deixar o garoto lá? — perguntei desinteressada. — Eu devo acompanhar milady por agora, mandarei outros criados cuidarem do rapaz. — ele respondeu apreensivo, não parecia ser o que ele queria fazer. —O sangue dele tinha um gosto bom. — sorri provocante e umideci meus lábios lembrando do gosto saboroso; entretanto, o par de olhos do mordomo fitaram-me aborrecidos com o comentário, como se censurassem minha diversão, cessei o sorriso e voltei ao meu semblante sério — Algum problema, Will? — Nenhum, milady. — respondera automaticamente com um tom seco e até um pouco rude, embora ostentasse em sua face um sorriso doce que, obviamente, era forçado. — Por acaso está com ciúmes? — eu ri do embaraço dele. — Ciúmes? Como eu poderia ter ciúmes milady? Ele é um rapaz humano e eu um vampiro, não teria como sentir ciúmes dele... — ele atrapalhou-se enquanto tentava se justificar. — Shh... — eu sorri dando dois tapinhas de apoio no ombro do mordomo — O seu sangue também é bastante saboroso, não se preocupe... — sussurrei-lhe, mas não entendi quando ele demonstrou surpresa pelo o que eu disse. estava com Não era disso que ele ciúmes?

Já estávamos próximos as escadarias e eu pude ouvir o som da batida da porta do hall — seguida de um trovão. O céu estava desabando lá fora.

Depois

conversamos.

Falei a William quando desciamos os últimos degraus. Minha preocupação agora estava toda direcionada ao senhor que estava a poucos metros a minha frente, entregando o sobretudo ocre e o chapéu a um outro mordomo.

Beijos de sangue
Em toda sociedade há regras, estas leis é que fazem com que o mundo e os integrantes dessa sociedade consigam conviver sem haver conflitos entre qualquer espécie existente. Mas além dos olhos humanos, há uma sociedade secreta, seres que se alimentam de sangue e vivem da morte alheia: vampiros. Eles possuem suas próprias regras, seus próprios pecados e seus próprios deuses. Dentre todas as restrições que um vampiro deve ter que conviver, existem sete cláusulas imperdoáveis caso sejam quebradas. Sete pecados que podem condenar qualquer um ao pior dos infernos.

I – Matar semelhantes. II – Revelar a existência vampiresca e dos seres noturnos. III – Profanar o lar de um humano. IV – Transformar um humano sem permissão. V – Caçar humanos entre a aurora e o crepúsculo. VI – Traição. VII – Envolver-se com humanos.

Houve tolos que disseram uma vez que regras foram feitas para serem quebradas e há aqueles que ainda estão vivos tentando provar a veracidade destas palavras.

O luar prateado iluminava aquela noite impetuosa, as estrelas brilhavam igualmente belas, há tempos que lua e estrelas não sorriam de forma tão magnífica. Por dois longos meses mantive-me escondido em um casebre abandonado nos arredores de um cemitério em Hallstatt na Áustria. Caçadores de recompensas de todas as regiões venderiam suas almas para saber minha localização e de fato meu paradeiro é muito mais valioso que a alma desses trastes repugnantes. Desde a fuga da minha cidade natal na Romênia, quando fui acusado de cometer o assassinato de meu irmão, eu fui considerado um traidor entre meus semelhantes e a perseguição pela minha cabeça tornou-se o principal objetivo dos caçadores.

Meu nome estava entre os mais procurados, esconder-me e fugir constantemente era inevitável. Desde então estou sendo perseguido ferozmente e em constante mudança, mas esses malditos sempre me encontram... Apesar de que já estou até gostando, afinal ser um dos vampiros mais procurados do mundo não haveria a mínima graça se eles fossem mais estúpidos do que já são. O céu negro pairava sobre nossas cabeças e os únicos ruídos perceptíveis eram os passos descuidados daqueles bastardos e o a minha respiração, olhei para o céu mais uma vez questionando quanto tempo se passou desde o pôr do sol quando esse ‗fabuloso‘ joguinho de gato e rato começara.

– Estou começando a ficar entediado, estúpidos! – Gargalhei enquanto pousava depois de um salto ao lado de um caçador. – É tudo o que podem fazer? – Seu parceiro então atirou em minha direção, mas em um movimento ágil demais para a visão de um humano, usei o caçador ao meu lado como escudo. Eles ainda eram muito lentos. – Vai precisar se esforçar muito mais que isso para me acertar. – Segredei no ouvido do caçador com a arma enquanto ele fitava estático seu amigo cair com o tiro certeiro no peito, o sangue escorria para todos os lados. – Sente o cheiro de morte? É delicioso não é? – Sorri deixando a mostra meus caninos. – Anda bastardo, deixo você ir... Preciso que alguém conte como Vitor Strigoi está fora do alcance de vocês. – Virei gargalhando enquanto caminhava pacificamente pelas ruas tranqüilas de Hallstatt, mas o som de um tiro calou minha gargalhada. “Humanos, tsc. São tão estúpidos...” – Não vou deixar você escapar vampiro! – O caçador bradou em um tom pouco amigável, mas que tampouco me assustava. Séculos e mais séculos se passavam e os humanos continuavam os mesmos tolos... Como poderiam achar que com aquele poder ínfimo que tinham, conseguiriam vencer praticamente um Deus. Um imortal. – Acha mesmo que é páreo pra mim? – Girei meu corpo novamente para encarar o caçador e um sorriso sádico cortou os meus lábios... – Posso ter errado duas vezes, mas a terceira é definitiva. – Humanos, eram todos iguais... As mesmas frases de efeito tempo após tempo. Será que não conseguem evoluir? Entediantes. – Então prove. Atire. – Disse enquanto caminhava em sua direção. – Se a terceira é definitiva, me mate agora e prove-me que você está certo. – Parei a um palmo da arma que mirava em cheio meu abdômen, de perto aquele humano era ainda mais baixo do que

trazendo-a para próximo dos meus caninos afiados. Abaixei-me para observá-lo mais de perto.. pedindo involuntariamente para ser provado. rapidamente o buraco fechou-se e a ferida cicatrizou-se.. – O que foi? Você tem medo? – Com minha velocidade superior consegui alcançá-lo facilmente. agora só havia restado o monstro. .. mas seus dedos não. .Andei vagarosamente em sua direção. . caindo no chão provavelmente rezando para qualquer deus que acreditasse salvasse sua alma antes de eu a tomá-la através do sangue que vertia freneticamente nas veias. – Você sabia que o sangue dos caçadores é sempre mais cítrico? – Sorri de forma maliciosa quando observei o horror estampado em cada célula do corpo do homem. Enfim atirou acertandome em cheio.. levantei minha presa facilmente. O homem desesperado tombou para trás... – Já acabou? – Mostrei os caninos em um sorriso perverso. Um monstro sedento por sangue. a bala perfurou minha pele alva.Então parece que esse é o fim. O homem estava paralisado de medo. Tão previsíveis. – Umedeci meus lábios . – Coloquei uma das mãos sobre meu abdômen onde a bala perfurara sem sentir dor alguma.. – Pensei que a terceira vez fosse definitiva. – O homem em desespero disparou até as balas acabarem e novamente as feridas tinham se cicatrizado. o sangue de uma pessoa com medo era de fato muito mais saboroso do que de uma pessoa tranqüila. Aterrorizá-lo era divertido. Com uma das mãos. – Ora.. A adrenalina do medo dava com toda certeza um sabor especial ao liquido escarlate..parecia ser. o homem corria desesperado. – Está com medo? – Meus olhos mudaram dos esmeraldas para os escarlates.Mas não se preocupe. mas agora para mim nada mais importava. A caça agora era o caçador. Os olhos assustados do pequeno homem poderiam me comover se fosse há alguns séculos atrás. ora. não é menos saboroso por causa disso. Meu lado animal havia devorado minha parte humana e piedosa..

.. Entretanto não poderia ficar em evidência. Eu ainda estava faminto e não poderia ficar lutando a noite inteira. Isso de certo não me impediria. Diverti-me ao lembrar a cara assustada do caçador que tentara me capturar. . as ruelas e becos de iluminação precária eram excelentes para me esconder dos bastardos que me caçavam de forma imprudente justamente durante a noite. Meus olhos vertiam a mesma cor do sangue. humanos eram sempre iguais não importa quantos séculos passem. quando eu sou o soberano. eles sempre seriam inferiores. tão previsíveis. enquanto outros cinco entravam e saiam de onde eu estava habitando. – Arremessei-o então na parede. Meus caninos estavam prontos para perfurar a pele do caçador.. utilizei curando-me dos ferimentos da arma. O caçador medroso havia se urinado nas calças devido ao terror que sofrera. Hallstatt era um bom local para se viver independentemente de ser um vampiro. eu já estava praticamente acostumado. Humanos quando assustados pareciam ter tendências a urinar. um humano ou um caçador. exibindo meu desejo por aquele líquido escarlate. -Se eu te encontrar novamente não lhe deixarei escapar. impedindo-me de morder o homem rapidamente. Pobres coitados. Merda! – Você teve sorte dessa vez. Pude ouvir os ossos estalarem com a violência do choque do corpo com as pedras que ornamentavam o muro. o maldito havia pedido ajuda horas antes e ela estava chegando. – Ergui-o no ar pelo colarinho. Caminhei cautelosamente até o cemitério onde eu estava vivendo.. O sangue estava escasso. mas um cheiro azedo atravessou-me as narinas.. Mais uns doze caçadores vinham em meu encalce.lembrando o gosto saboroso do sangue. tão entediantes. E nos últimos dois meses... grande parte da energia que absorvi. Mas não pude continuar o ato.. visando a veia que pulsava o delicioso alimento. como se aquilo fosse livrá-los de algo.... Saí o mais rápido possível dali. O sorriso repleto de escárnio ainda estava emplastado em minha face quando fitei dois homens de guarda em frente ao cemitério. Urina. era um vilarejo pequeno.. foi o único lugar que eu pude chamar de ‗lar‘.

este era o quinto que eu consultava e era o quarto que alegava minha loucura e insistia em dizer que eu deveria consultar um psiquiatra e talvez eu realmente devesse. após meses naquela pequena cidade aprendi a conhecer cada local como a palma de minha mão. a luz solar não me incomodaria ali.. Faltava-me sangue e energia para combatê-los. Eu estava fora de mais uma clinica mais outra vez. Suspirei.. Estava na hora de procurar outro. não é? Sorri enquanto seguia para a minha mais nova morada temporária e menos de alguns minutos eu já estava em frente a ela. não é? Meus planos nunca deram certo mesmo. Sempre busquei dar o meu melhor para que. Não era o método mais adequado para se procurar e. certamente não eram. Eu também não deveria estranhar. Nada. pelo menos por aquele dia. . Entreguei o dinheiro da consulta a secretária do meu psicanalista daquela semana. a falta de energia poderia ser suprida por algumas horas de sono longe do sol. Quantas seriam necessárias? Questionei-me e segui em frente como sempre fazia. Desde que eu cheguei à cidade a casa estava vaga. talvez.. A fadiga estava começando a tomar conta do meu ser. Forcei a fechadura levemente e ela logo cedeu. O Solitudo. eles não fossem os melhores. enfim. Próximo do cemitério havia uma vila com uma casa para alugar. O relógio anunciava o fim da madrugada. logo o maldito sol apareceria e se eu permanecesse exposto a ele logo desmancharia em cinzas. esperei e esperei. Não era muito bonita e muitos menos luxuosa. mas não pude fazer nada. não seria agora que teria alguém morando lá. mas meus escarlates fitaram a torre da igreja. fazendo a porta rangente abrir deixando-me adentrar na mais perfeita escuridão do meu novo lar. chegasse ao meu objetivo e por todo o momento eu esperei. esqueceram de me avisar. Para onde eu iria? Bem. isso havia me reconfortado por um tempo e eu pretendia continuar indo a ele se três dias depois eu não descobrisse que ele havia cometido suicídio porque estava louco. solo beatitudo Correndo para atingir o inalcançável. mas pelo menos estava completamente vedada. Desisti de combatê-los esta noite.– Malditos! – Praguejei-os. eu devia ir para casa e procurar outro psicanalista ou psicólogo na internet ou na lista. um deles milagrosamente falou-me que eu era uma pessoa normal. Uma vez. foi exatamente desta maneira que eu vivi minha vida. Pensei até em arriscar.. Esperei para simplesmente nada. Esse com toda certeza não era um fim digno para mim. era a última vez que eu ia àquele lugar. Ou se deram.

eu fujo aos padrões. e todos tentaram me colocar rédeas. se conseguissem perceber que qualquer tipo de vida deveria ser respeitado. Nenhum conseguiu e ninguém conseguiria. o sofá chamava-me de volta e eu quase cedi. De certa forma eu preferia assim. era um dos poucos momentos em que eu podia conversar com alguém.. Em minha vida eu não pretendo ter um lugar para voltar. um humano. Então tudo o que eu posso fazer é apenas seguir em frente. Talvez observar o mundo com um olhar crítico seja a loucura dos lúcidos. Eu não queria que qualquer coisa do mundo fora do meu adentrasse e destruísse tudo o que eu construí para a minha paz. isso assuste aqueles que conseguem conviver nessa sociedade medíocre e hipócrita em que vivemos. não sei se minha aura transmite o que eu penso. onde eu poderia ser apenas eu. Joguei-me no sofá e ouvi apenas o silêncio de tudo. Ele costumava ser bem persuasivo quando queria. Mas nenhum deles sequer permaneceu em mim. uma pessoa fora dos padrões e. odeio admitir que eu pertença a esta espécie. Apesar de quase todos me chamarem de louca. Peguei meu maço de cigarros e escolhi o . Coloquei a chave na fechadura e abri a porta para o meu mundo. Fechei a porta e as janelas assim que entrei. eu não quero voltar. Homens e mulheres que passaram pela minha vida e sentiram minha paixão.Todos os que me julgavam louca concordavam em um ponto único: até para uma louca. ou melhor. Qualquer um. Será que a liberdade é errada? As pessoas sempre me evitavam quando eu caminhava pelas ruas. Eu pensei sobre minha vida até ali. Eu apenas me libertei.. Levantei e me dirigi para o computador. eu precisava de outro psicanalista. Não aceitar certos conceitos que a sociedade alega serem os corretos seja errado. Será todos ao meu redor conseguiam sentir todo asco que eles emitem para mim? Odeio humanos. Quem nasceu pra voar não permanecerá atado a alguém que tem seus pés presos no chão. Todos os poucos relacionamentos que tive. isso deve me fazer louca aos olhos dos outros. se ao menos não destruíssem a vida por uma quantia barata. Isso me lembra regredir.. para viver em paz.. acho que todos deviam morrer. não me permito voltar a lugar algum. nenhum deles pôde entender o que eu sentia. Mas como não são. Se ao menos não fossem tão corruptos em seus valores. Era melhor e mais ético.. pagá-los para conversar comigo. Mas o dever me chamava. Talvez eu apenas seja isso. mas aos meus eu sou apenas lúcida. Sobre meus sonhos até ali..

Por isso eu costumava fugir muito de casa. dois... Sempre desprezei as pessoas em geral. Sorri cínica. Um sorriso contornou . Só porque desprezo a nossa sociedade hipócrita e todas as leis feitas por pessoas mais hipócritas ainda? Joguei o papel com o endereço na mesinha de centro da sala e me atirei no sofá novamente. Coloquei na boca e fiquei com ele apagado por alguns minutos. Eu nunca sentiria remorso por aquilo e nem por outras coisas que fiz. dei mais um gole na cerveja e mais uma tragada no cigarro e fiquei mirando o teto azulado da minha sala. Assim. A dor alheia não me afetava. por que eu deveria me importar? Eu até me acostumei com ela.. a justiça não era mais válida. Eu prometi que seria mais cuidadosa.. Traguei mais uma vez e cuspi a fumaça. quando era mais nova. depois que ela revelou-me o seu ato.sétimo começando a contar da última fileira como sempre fazia. foi em uma dessas fugas que conheci a bebida e o cigarro. Minhas habilidades de ludibriar sempre foram boas e com o tempo só se aperfeiçoaram. o isqueiro estava muito longe e eu estava com preguiça de pegar. forcei-a a dizer onde ela havia colocado. uma menina havia roubado uma borracha minha. é mais real. O desejo do vício falava mais alto que a preguiça.. talvez por isso. Se o mundo inteiro mentia para mim porque eu não poderia mentir de volta para eles? Mais um. talvez de uma forma pior. assim que peguei a borracha novamente grampeei a mão dela com o grampeador da professora. Passado cinco minutos. pura besteira. nem a minha própria dor. Se todos eram indiferentes. Lembrei-me de uma vez. de certo modo.. da próxima vez ela não me pegaria. Mas depois acabou entendendo o meu ponto de vista ‗inocente‘ e não mandou um recado para meus pais. e seria mesmo. eu fui crescendo e fui vendo como as leis não passavam de piadas. Eu não havia feito nada de errado? Havia? Apenas puni uma ladra.. Se eu pudesse faria tudo novamente. eu detestava os homens e como minha mãe também permitia tudo aquilo logo eu passei odiar a ela também. por alguns segundos lembrei-me da minha infância. três goles de cerveja. A professora não acreditou muito em mim quando eu disse que foi sem querer. Arranquei a tampa e bebi no gargalo mesmo. Acendi o cigarro e apanhei uma garrafa de cerveja na geladeira. eu me rendi e fui atrás dele.. Todos alegavam que eu possuía certas características de transtorno de personalidade anti-social. Realmente não havia sido. Minha justiça. para falar a verdade. Fiz apenas justiça. Voltei para o computador e imprimi o endereço do próximo psicanalista que eu iria me consultar e ser chamada de louca mais uma vez. talvez porque meu pai sempre espancava a mim eminha mãe quando voltava bêbado.

nada mais me importava. Repeti o processo de escolha e peguei outro no maço. Apanhei o telefone próximo ao sofá e disquei o número. assoprei a fumaça e a vi desaparecendo no ar. .... por agora. – Espero que eu me divirta dessa vez.. Na manhã seguinte eu estaria conhecendo o meu mais novo amigo semanal. quando terminasse aquele cigarro ligaria para o novo psicanalista.os meus lábios e eu traguei o cigarro mais algumas vezes até ele terminar. Larguei a binga de cigarro no cinzeiro. Acendi-o e traguei mais uma vez.