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Prentice Mulford - Nossas Forças Mentais - Vol. 4

O documento apresenta a obra 'Nossas Forças Mentais' de Prentice Mulford, que explora a relação entre a mente, o espírito e a natureza, enfatizando a importância do pensamento positivo e da fé em si mesmo. Mulford argumenta que existe um Poder Supremo que rege o universo e que o homem pode se conectar a essa sabedoria para alcançar a felicidade e o desenvolvimento pessoal. A obra é descrita como original e sugestiva, com o potencial de inspirar e transformar a vida dos leitores.
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Prentice Mulford - Nossas Forças Mentais - Vol. 4

O documento apresenta a obra 'Nossas Forças Mentais' de Prentice Mulford, que explora a relação entre a mente, o espírito e a natureza, enfatizando a importância do pensamento positivo e da fé em si mesmo. Mulford argumenta que existe um Poder Supremo que rege o universo e que o homem pode se conectar a essa sabedoria para alcançar a felicidade e o desenvolvimento pessoal. A obra é descrita como original e sugestiva, com o potencial de inspirar e transformar a vida dos leitores.
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Prentice Mulford

NOSSAS
FORÇAS
MENTAIS
Seu uso e aplicação na vida diária, Vol. 4

UNIVERSALISMO
Sumário
Prefácio
Deus
1 — Modo de alcançar a eterna lua de mel
2 — A ciência de comer
3 — Modo de adquirir o valor
4 — A mente material e a mente espiritual
5 — A tirania mental
6 — Utilidade dos divertimentos
7 — Modo de economizar as nossas forças
8 — Deus na natureza
9 — Os bons e maus efeitos do pensamento
10 — Os talentos ignorados
11 — As preces dos homens são mandamentos de Deus
12 — Medicina mental
13 — O que devemos fortalecer em nós
14 — O poder atrativo do desejo
15 — Correntes de pensamento
16 — Cultivemos o repouso
17 — O poder da honestidade
18 — Recapitulando
Prefácio
A obra que nos é dado publicar pela primeira vez em português é um dos mais
belos e extraordinários monumentos criados pelo engenho humano.
Concebida em estilo simples, evitando calculadamente os artifícios da
linguagem, ela se eleva, entretanto, por vezes, genialmente, a incomensuráveis
alturas que chegam a causar vertigens. É seu caráter dominante a
espontaneidade e, mais que tudo, a originalidade, iluminada por unta fé
inabalável, altamente sugestiva e comunicativa em extremo, daquela espécie de
fé que pode transportar montanhas.
Ao lê-la, afigura-se-nos que penetramos numa floresta virgem, onde se respira
um vigoroso mas agreste sopro vital; onde reina a ebriedade de uma alegria
santa; onde, palpitando em cada folha, em cada ramo, em cada árvore, a vida é
um hino constante de amor.
Prentice Mulford muito mereceu da Humanidade, escrevendo Nossas Forças
Mentais.
Quando desviadas da sua sagrada missão pela preocupação de um
mercantilismo baixo, a ciência e a literatura falseiam os seus princípios,
envenenando as almas, enervando e efeminando os ânimos, aumentando
assustadoramente o coeficiente da criminalidade e do suicídio. Difundir a obra
de Mulford por entre o povo é fazer obra boa, peto bem que propaga, pela fé que
desperta, peta confiança em si que sabe inspirar a cada indivíduo.
Por isso, sua leitura não se recomenda simplesmente, mas se impõe como um
dever de humanidade, como um ato de caridade.
Em seguida abrimos espaço à brilhante apreciação que sobre esta obra fez o Sr.
Guido Ferrando, na edição italiana:
“Os ensaios de Prentice Mulford encerram uma estranha filosofia e nos dão uma
nova visão do mistério que nos circunda. Fruto genuíno e espontâneo de uma
grande intuição, eles têm um acre sabor de novidade, são eminentemente
pessoais, expressão de um pensamento virgem, algumas vezes extravagante e
até pueril, mas espesso, muito espesso, original e profundo. Falecem nestes
escritos todas as coordenações lógicas, ao passo que abundam as repetições
de formas e de conceitos; mas a grande pobreza de raciocínio contrasta com a
prodigiosa agudeza com que são expressas certas verdades simplicíssimas que,
embora se escondam aos olhos de todos, foram apanhadas e postas sob a sua
verdadeira luz. É este dom de espírito que Mulford possui em supremo grau: ele
entrevê uma verdade e no-la apresenta; nem sempre sabe discorrer sobre ela e,
amiúde, não podemos segui-lo nas suas deduções. Mas o princípio afirmado
permanece e, graças a isso, ficamos dispostos a perdoar-lhe todas as suas
deficiências de forma e de raciocínio.
“A filosofia de Prentice Mulford pode, esquematicamente, ser resumida em
poucas palavras: Existe um Poder Supremo, uma Suprema Sabedoria que
governa o universo e que preenche o espaço infinito e se acha em todas as
coisas. O Supremo Poder é todo o átomo da montanha, do mar, do ar, dos
animais, do homem: não pode ser compreendido por nós, mas podemos receber
a sapiência e, assim, participar conscientemente d’Ele. Logo que reconhecemos
esta Sublime sapiência, aprendemos a desejá-la, absorvê-la e construí-la dentro
de nós mesmos e, em seguida, podemos tornar-nos cada vez mais perfeitos. E
assim, gradativamente, por uma lenta passagem, conseguimos elevar-nos a um
estado mais alto, desenvolver todos os nossos poderes e pôr-nos em condições
de criar a nossa vida e o nosso universo; e então passamos do estado limitado
da mente inferior para o ilimitado da mente superior, e nos sublimamos na
contemplação do infinito Espírito de Deus.
“Esses princípios fundamentais, Mulford os expõe e os reputa em todos os seus
ensaios, cerca de uns setenta, que discorrem em argumentos, aparentemente
disparados, mas que, no entanto, têm unicamente por objetivo determinar as
relações do homem para consigo mesmo e a natureza, e indicar ao indivíduo
todas as suas possibilidades e todos os seus deveres.
“Pretender criticar a obra de Mulford sob um ponto de vista filosófico ou ainda
lógico, seria empresa vã. O pensador americano não criou um sistema; disse
aquilo que o coração espontaneamente sugeria e a sua voz é a de quem viveu
em íntimo conúbio com a grande e selvagem natureza e sentiu pulsar em si a
vida do universo. Pretender julgá-lo pelo estalão dos outros escritores seria um
erro; ele destaca-se por si mesmo e não pode ser classificado. Devemos tomá-
lo assim como se nos apresenta, sob as suas vestes em desalinho, defeituosas,
mas incisivas e amiúde esculturais, e aceitar dele o dom dos muitos tesouros da
sua intuição, rejeitando tudo aquilo que é transitório e simplesmente indiferente.
“Insisto sobre este ponto porque sei e sinto que se os seus escritos caírem em
mãos de um pensador para quem a lógica é tudo, eles serão julgados com
impiedade, como serão escarnecidos por aquele que acha demasiado ocioso
pensar na vida ou tem por ideal a única satisfação dos seus instintos, mais ou
menos requisitados e corruptos, de reprodução e de conservação. Mulford não
escreveu para aqueles desventurados que procuram iludir as suas horas de lazer
com a leitura de livros superficiais que lhes acariciam suavemente a fantasia e
despertam os instintos animais, nem tampouco escreveu para os que se
comprazem em considerar os problemas da vida, abstraindo-se da própria vida,
e ligam importância máxima ao processo lógico do intelecto.
É possível que entre os leitores que, por tendência e educação, estão mais em
harmonia com Mulford, muitos haja que sintam a necessidade de classificá-lo, e
o leiam com determinado preconceito, procurando nele o sustentáculo das suas
idéias, o pregoeiro das verdades que lhe são caras. Mulford não foi um místico,
no sentido ordinário da palavra. Mas um homem que pôde escrever palavras
como estas: “Todas as coisas podem servir de ponto de partida no mundo; todos
os nossos esforços e todos os nossos atos nos levam a Deus”, — devia ter visto
bem fundo no mistério da vida e devia possuir em si a luz espiritual que é a
própria de todos os idealistas da Humanidade. Ao contrário dos verdadeiros
místicos, ele nada nos disse da vida do espírito quando se une a Deus; nada
sabe contar-nos da alma que se eleva à contemplação da divindade e no êxtase
supremo acha a satisfação de todos os seus desejos; e em vão procuraremos
nele a descrição da perfeita beatitude, daquele que, como o pobrezinho de Assis,
soube purificar a sua alma e fazer dela um digno receptáculo da bondade divina
que se manifesta em todos os atos e em todos os pensamentos... Ele, Mulford,
só nos fala dos meios para chegarmos a Deus, mas sobre o princípio e fim da
vida nada tem de dizer-nos. E não devemos admirar-nos disso; Mulford não tinha
em mente escrever a história da própria alma, a narrativa das suas experiências
íntimas; ele dirigia-se às pessoas que trabalham e sofrem, e, com seus escritos,
ia-lhes ao encontro, animando-as e mostrando-lhes o que se pode obter com a
vontade e o poder do pensamento, e como a vida pode transpor-se com a fé em
si mesmo, e no próprio local.
“Aqui está todo o valor da obra de Prentice Mulford; não nas teorias tomadas
separadamente, algumas das quais, como a da existência de uma mente
superior e de uma mente inferior, e a da diferença entre espírito e matéria, e a
da reencarnação, etc., que, discutíveis assim como estão expostas, se prestam
amiúde a conclusões absolutamente inaceitáveis. E não se há de julgar Mulford
com os seus próprios princípios: nada se conseguiria. Citarei um só exempto:
Mulford afirma que um Poder Supremo enche todas as coisas, e diz também que
a mente do homem é idêntica à mente de Deus, sendo apenas aquela limitada.
Isto é puro panteísmo; mas outras vezes nos fala da Providência divina, e assim
indica a personalidade de Deus. Em que se torna, então, o seu panteísmo?
“Não discutimos, pois, o valor filosófico ou religioso de Mulford; e a importância
dos seus escritos está toda na sua poderosa originalidade e sugestão: eles têm
o dom de interessar o leitor, de abrir-lhe diante dos olhos novos horizontes, de
suscitar-lhe no ânimo novas forças. Esta força eminentemente sugestiva da sua
palavra, Mulford deve-a à imensa fé que tem na verdade das suas crenças, fé
tão espontânea e sincera que o impede de ser um charlatão e o torna uma das
figuras mais originais e simpáticas aparecidas no século findo. Ele é um
evocador de almas: não discute, não avança hipóteses, não teoriza, mas afirma;
e a sua afirmação tem tanta força íntima de convicção em si, que nos subjuga e
arrasta; e se algumas vezes nos deixa um pouco incertos, essa mesma incerteza
nos induz a pensarmos, a meditarmos e nos tornarmos melhores.
“Mas não é só como suscitador de novas energias no ânimo humano que
Prentice Mulford merece ser estudado e amado; a sua obra ganha um novo valor
quando é posta em relação com aquelas complexas correntes de pensamentos
americanos que hoje vão assumindo tanta importância e se difundem
triunfalmente até no velho continente europeu. Quero referir-me àquele grande
movimento espiritualista que se vai notando na América, nos últimos vinte anos,
e que hoje tem assumido várias formas, todas, porém, mais ou menos
intimamente conexas: do Novo Pensamento à Ciência Cristã, ao Ocultismo e à
Teosofia. Todas estas várias doutrinas, em essência, sustentam que o homem
pode, por meio do pensamento, tornar-se senhor absoluto de si mesmo e
desenvolver poderes que lhe permitem apressar o seu aperfeiçoamento moral,
criar em si uma saúde perfeita e, querendo-o, uma invejável posição no mundo.
“Não cabe aqui apreciar o mérito dessas multiformes teorias que, entretanto, têm
uma grande base de verdade e se impõem também à fria e cético ciência oficial;
eu quis apenas referir-me à derivação de Mulford.
“Os estudiosos do Novo Pensamento americano, que se desvanecem, hoje, por
contar nas suas fileiras ilustres psicologistas e cientistas, deverão ter no devido
apreço a obra do escritor de Sag Harbour; e, lendo-a, acharão nela todas aquelas
idéias que, atualmente, vão correndo mundo, debaixo de tantos e tão estranhos
disfarces, amiúde pouco sérios e muito retumbantes. Desses disfarces, Mulford
não tem culpa alguma. Ele, ao contrário dos inúmeros charlatães, grandes e
pequenos, que, a toque de bombo e inundando o mundo de opúsculos e folhetos
de toda espécie, procuram desfrutar a credulidade do público ou, no melhor dos
casos, fazer servir a fins lucrativos, teorias e princípios altamente morais e
espirituais, ele, digo eu, falou aos homens com toda simplicidade e franqueza,
movido unicamente pelo desejo de ser útil aos outros. Um homem que soube,
como Mulford, vencer uma grande batalha e transformar todos os obstáculos e
todas as paixões humanas em elementos de perfeição e de progresso espiritual,
tem direito ao nosso respeito. Aqueles que estão em harmonia com a sua alma,
escutarão em silêncio a sua palavra profunda e cheia de ensinamentos, e
sentirão crescer em si a fé na beleza e na bondade da vida.”
A EMPRESA
Deus
Um Supremo Poder e Sabedoria rege o Universo. A Inteligência Suprema é
infinita e penetra o espaço ilimitado. A Suprema Sabedoria, Poder e Inteligência
está em tudo quanto existe, desde o átomo até o astro.
Ela existe mais do que todas as coisas. A Inteligência Suprema é todas as coisas
e constitui cada átomo da montanha, do mar, da árvore, da ave, do animal, do
homem e da mulher. Nem o homem nem os seres que lhe são superiores podem
conceber a Sabedoria Suprema, mas o homem receberá sempre com alegria
profunda os vislumbres da luz e da Inteligência Suprema, que lhe permitirão
trabalhar para a sua felicidade final, ainda que sem compreender nunca todo o
mistério dela.
O Supremo Poder nos governa e rege, como governa e rege os sóis e todos os
sistemas de mundos que giram no espaço. Quanto mais profundamente
conhecermos esta sublime e inexaurível sabedoria, tanto mais aprenderemos a
pedir que ela penetre em nós, constituindo-se uma parte de nós mesmos, para
deste modo fazer-nos cada vez mais perfeitos. Este meio de melhorar
perenemente a saúde, o possui sempre, de modo progressivo, tudo quanto
existe, estabelecendo uma como transição gradual entre um mais elevado
estado de existência e o desenvolvimento de poderes que não podemos, de
maneira alguma, realizar aqui.
Não somos, no entanto, o limite posto entre as várias partes e expressões do
supremo e infinito todo. O destino de quanto existe no tempo é ver a sua própria
relação com o Supremo e saber descobrir também que o reto e estreito caminho
que nos leva à perpétua felicidade não é mais do que uma plena confiança e
dependência do Supremo, estabelecendo, assim, a total harmonia da sapiência,
que não pode ter tido origem em nossa pobre personalidade. Estejamos cheios
de fé no que temos que pedir agora e todos os dias, para que essa fé nos faça
compreender e crer que tudo quanto existe é parte do Infinito Espírito de Deus e
que todas as coisas são boas, porque Deus está nelas, e, finalmente, que tudo
aquilo que reconhecemos como formando parte de Deus existe e age
necessariamente para o nosso bem.
1
Modo de alcançar a eterna
lua de mel
Em afeições, interesses, desejos e aspirações, a mente ou o espírito é
exatamente o mesmo que era antes da morte física do corpo que o alimentou,
como certo é também que ele se não afasta do local onde viveu encarnado.
Quando dedicamos a alguém um amor profundo e verdadeiro e, com igual
sinceridade, por tal pessoa fomos correspondidos com veemente e enternecido
afeto, não resta a menor dúvida que, após a nossa morte física, continuaremos
tão próximos dela, como se ainda desfrutássemos do nosso verdadeiro corpo
material.
Os que durante a sua existência terrestre têm vivido sempre juntos, tendo gostos
idênticos e idênticas inclinações, têm ganho muitíssimas probabilidades de
continuarem reunidos depois da morte, aumentando ainda neles o prazer que
encontram na sua mútua companhia, de forma que nenhum encarnado, homem
ou mulher, se poderá interpor aos dois, sentindo, de dia para dia, com mais
intensidade, a sua solidão temporária e a tristeza da separação.
Que é que nos atraiu para a mulher que foi nossa esposa ou para o homem que
foi nosso marido? Foi, porventura, a afinidade de nossos sentimentos, gostos e
inclinações? Se assim foi, é porque já existia uma íntima e talvez perfeita fusão
de nossas mentalidades.
Essa íntima e perfeita fusão de duas mentalidades, com o profundo sentimento
da separação que o caracteriza, só é possível quando uma das mentalidades
perdeu o seu corpo físico e a outra o conserva ainda.
Convém ter sempre bem firme na mente esta ideia, sem ninguém, todavia, dever
empenhar-se em escavar ou parafusar nela, buscando toda espécie de objeções
contra a sua realidade, porquanto tais objeções serviriam apenas para afastar
cada vez mais de nós a realização de nossos desejos e a fusão necessária das
duas mentalidades.
Nós que ainda estamos encarnados, isto é, que ainda vivemos nesta terra,
consideramos a perda de um parente ou amigo sob um ponto de vista bastante
limitado e egoísta; imaginemos que a esposa, que desencarnou ou perdeu o seu
corpo material, também perdeu a seu marido; a desgraça deste pode ser muito
maior do que a sua própria, pois ela, embora destituída de corpo físico, sabe já
que ainda vive e que seu marido também vive, ao passo que ele a imagina morta
no sentido vulgar da palavra; e esta ideia torna a mulher realmente morta para
seu marido. É como se, achando-nos na presença de uma pessoa querida, no
momento em que nos dispúnhamos a acariciar-lhe o rosto, a cobri-la de suaves
beijos, se nos tomasse de repente invisível, sem ouvir a nossa voz nem nós a
dela, e sem que o seu contato nos transmitisse alguma sensação. Converter-
nos-íamos, assim, em qualquer coisa semelhante ao não ser ou aniquilamento
absoluto, quando, uma hora antes, a nossa presença era vista e sentida,
causando até intensa alegria. É muito semelhante a isto a condição dos que, ao
perderem o corpo físico, perdem também o contato dos seus amigos e parentes
terrenos.
As lágrimas que os vivos derramam sobre os entes queridos que perderam, são
frequentemente correspondidas pelos vivos invisíveis, que assim vão juntando
uma nova dor à sua dor, por não poderem dizer, em voz audível, aos entes
queridos que deixaram na terra: “Eis-me vivo entre vós, e o meu único desejo é
continuar aqui, para vos consolar, amparar e alegrar”. Pode até, a dor sentida
por esses a quem chamamos mortos por terem perdido o corpo físico, mas não
a faculdade de sentir e amar uma ou mais pessoas na terra, ser maior do que a
dor dos denominados vivos, junto dos quais, em virtude das leis de atração,
aqueles pseudomortos se vêem obrigados a permanecer, vendo-se
gradualmente esquecidos pelos que amam, à medida que os anos passam e até,
mais cedo ou mais tarde, apagada por completo a sua imagem e recordação no
coração deles, e ocupado o seu lugar por outras pessoas.
Um dia virá, com certeza, em que os que ficaram na terra revestidos do seu
invólucro físico, poderão, por infinitas maneiras, comunicar-se com os que já
morreram, como se ainda gozassem de vida carnal. E quando os mortos forem
considerados como se fossem vivos, a terra se abrirá por todos os lados para se
estabelecer nela a vida em todos os sentidos.
Os que estão no outro mundo, fosse qual fosse a sua condição neste, enquanto
persistir o seu amor e inclinação pelos vivos, nada mais fazem do que lamentar
a perda do seu corpo físico, o instrumento mediante o qual tinham se
acostumado já a exprimir-lhes o seu afeto e suas emoções.
E, a seu grande pesar, junta-se uma nova dor ao verem que esse corpo perdido
constituía o meio mais adequado para uma comunicação mais tangível com
aqueles que tanto amam ainda.
De forma que, se todos nós que perdemos amigos bons e queridos tratássemos
de atuar em suas mentalidades, pensando neles como se ainda estivessem
vivos, embora invisíveis, indubitavelmente conseguiríamos derribar e transpor a
barreira que hoje se levanta entre nós e aqueles por quem tão pungentemente
choramos e tão cruciantes saudades sentimos.
E se, além disso, robustecêssemos em nós a ideia de que esses a quem
erroneamente chamamos mortos não só estão vivos, mas sentem também o
veemente desejo e até a necessidade de volver ao seu antigo lar, tornar a ver a
sua casa, sentar-se na sua cadeira predileta, reatar as suas relações com os
velhos amigos e companheiros, certamente destruiríamos outra altíssima
barreira.
Talvez alguém me pergunte: “Como posso eu acreditar que algum dos meus
mortos necessita ou sente desejo de se aproximar de mim?” Decerto, não
esperamos de ninguém tão implícita crença. Mas pode qualquer pessoa começar
por deixar em sua mente um cantinho reservado a estas ideias, prestando
ouvidos e atenção, embora ao princípio com indiferença, às verdades que elas
representam, pois como verdades que são, chegarão a demonstrar-se por si
próprias.
Qualquer pessoa, entretanto, pode dizer-me a respeito do que aqui deixo dito e
do que anteriormente expus: “Mas o que nos dizeis não passa de teoria ou
fantasia. Como podeis demonstrar a verdade do que afirmais?” — Não é
possível, com efeito, demonstrar-se nada disto, por meios meramente materiais.
Mas se, segundo esta ordem de ideias, vos apresentasse um dia alguma coisa
como a manifestação de uma verdade, vós próprios serieis quem a
demonstraríeis. Cada um de nós possui um singular maquinismo espiritual que
nos servirá para experimentar com ele e por meio dele obter toda espécie de
testemunhos.
Nunca chegaríamos a adquirir crenças verdadeiramente arraigadas e firmes, se
tivéssemos de confiar só no que os outros nos contam. Toda a nossa vida
duvidaríamos, se por nós próprios não pudéssemos verificar a exatidão dos
fatos.
Existe uma lei mediante a qual uma verdade ou parte dessa verdade que se
apossou da mente, acaba por se arraigar nela com mais afinco de dia para dia,
e deixa-se nitidamente sentir como verdade, se não lhe for feita violenta
oposição. Se a ideia que penetra na mente é uma mentira, em breve será
arremessada para longe dela. Se é, realmente, uma verdade e no começo se lhe
ministrou uma mentira ou mesmo uma partícula dela, sem a menor dúvida esta
acabará por ser expulsa, permanecendo na mente só o trigo sem joio.
Existe igualmente outra lei, mediante a qual toda prece da mente humana há de
determinar, em tempos vindouros, para o homem, a sua representação material.
Contudo, preces há que necessitam talvez de várias gerações de homens para
serem realizadas. Durante séculos, todo mundo desejou ansiosamente tornar os
meios de locomoção mais velozes e transmitir a grandes distâncias os produtos
ou elucubrações da sua inteligência. Eis por que vieram o vapor e a eletricidade
satisfazer esta insistente petição, tornando-a uma realidade.
Por séculos e séculos inumeráveis, os homens têm se lamentado por causa
desse fenômeno por eles denominado morte, com o vivo anseio de o deter e
impedir de uma vez para sempre. Estará, por acaso, esta prece condenada a ser
uma exceção entre todas as outras preces e a nunca ser realizada? Não. É
porque, de alguma forma, esta súplica carecia, para lhe dar força e torná-la mais
imperativa e veemente. Como? O conhecimento ou antes o sentimento de que,
quanto mais forte e poderoso é o nosso desejo de nos reunirmos àqueles que
amamos, mais forte é neles também o desejo de poderem gozar novamente de
um corpo material, para se porem em comunicação outra vez com os seus
antigos e velhos amigos. Esta súplica assim reforçada e robustecida está se
generalizando agora por todo o mundo, razão por que é de esperar que se
aproxime rapidamente a sua cabal realização. Pouco importa que seja limitado
o número dos que a fazem, que pequeníssimo seja ainda o número daqueles
que a sentem; esta súplica ou prece nada tirará à sua possibilidade.
Há quem pratique esta oração: são os que, lendo este livro dizem a si próprios,
impelidos pelo seu íntimo conhecimento ou intuição consciente: Isto é
absolutamente verdade. E de cada um desses convencidos se evolará um
pensamento que despertará e chamará um ou mais corações em outros
domínios da existência, e que lhe corresponderão, soltando igual exclamação:
Isto é a pura verdade! acrescentando ainda: Também nós vos perdemos e, com
igual veemência, ansiamos também podermos comunicar-nos convosco,
tangivelmente.
Vendo-nos e fundindo as nossas mentalidades tanto nos domínios visíveis como
nos invisíveis, abrir-se-nos-ão novos e seguros horizontes, sendo-nos dados os
meios de chegarmos a essa anelada comunicação, porque para Deus, ou o
Espírito Infinito do Bem, nada é impossível.
Tempos virão, e não estão muito distantes já, em que todos os que tiverem
perdido o seu corpo material se manifestem por si próprios de forma a serem
percebidos pelos sentidos físicos das pessoas por quem mais e melhor tiverem
sido amados na terra, isto é, mais intensa, desinteressada e sinceramente.
À medida que forem aumentando a fé e o conhecimento desta lei, neste e no
outro mundo, estas provas evidentes de que a matéria pode ser dominada pelo
espírito serão cada vez mais numerosas e simples.
Eu disse: “neste e no outro mundo”, porque o conhecimento desta verdade e a
fé são tão necessários no mundo visível como no invisível para se obterem os
resultados a que aludo, podendo até afirmar-se que isso geralmente é ignorado
aqui, da mesma forma que se ignora em geral também no mundo que não
vemos. Se qualquer mente desconhecer todas estas verdades de que aqui falo,
no momento de desencarnar, não se imagine que imediatamente obtenha o
conhecimento destes preciosos e verdadeiros fenômenos.
Erro enorme é acreditar que, apenas o espírito dispa o seu invólucro terrestre,
isto é, abandone, pela chamada morte, o seu corpo, adquira imediatamente
completa sabedoria e felicidade plena. Não. Ao contrário, ele pode mesmo
permanecer por um larguíssimo lapso de tempo tão ignorante e infeliz como era
antes. A ignorância é a mãe de toda miséria e de todas as dores.
Encarnada ou desencarnada, a mente só aprenderá daqueles para quem se
sentir mais irresistivelmente atraída e de quem, nem mesmo querendo, poderá
separar-se.
É provável que ao redor de nós se achem, às vezes, algumas mentes sem corpo
físico, que não nos abandonam porque acham em nós mais agradável
companhia que em qualquer outra parte; e à medida que aprendemos estas
verdades também os espíritos que estão conosco as aprenderão, com a
circunstância de que eles só podem aprendê-las de nós. Sentem em nossa
atmosfera mental um sereno entusiasmo e animação, que não sentem nem
podem sentir em nenhuma outra parte, absorvendo assim todas as nossas ideias
e pensamentos. A suave e tranquila companhia que pode sentir uma mente
desencarnada, na atmosfera pacífica de uma mente ainda encarnada, embora
esta não chegue a dar nunca pela presença de tais entes, é muito parecida com
o sentimento de bem-estar e tranquilo sossego que por vezes se experimenta
sob as majestosas ramagens de umbrosa floresta ou em uma casa alegre e
cheia de sol, embora nela estejamos completamente sós.
Há línguas que não se lêem nem se ouvem e que, todavia, podem comunicar-
nos toda espécie de pensamentos e ideias, pois pode-se realizar a transmissão
mental por meios que não têm por base nenhum dos sentidos físicos. O que
porventura vier do mundo invisível para o nosso, não será para servir de pública
manifestação, nem para satisfazer a vã curiosidade humana e muito menos para
se transformar em uma fonte de lucro.
As mentalidades mais aptas e bem dotadas para a compreensão e obtenção de
todas as coisas, procurarão conservá-las sempre secretas, da mesma forma que
nenhum de nós se afadiga, de certo, a proclamar ao som de clarim tudo quanto
constitui a parte mais íntima e recôndita da sua própria vida. Não é natural que
tais coisas se dêem nem que se possam obter num dia, num mês ou num ano.
Só aqueles que forem capazes de perseverar na fé durante anos, hão de realizá-
los.
Tratar agora de estudar, metodicamente, os meios pelos quais se hão de obter
os resultados de que falo, seria em nós uma presunção tão ousada e até
absurda, como o teria sido o do construtor do primeiro caminho de ferro, com
todas as imperfeições e erros, se houvesse querido realizar todos os progressos
e aperfeiçoamentos que, meio século depois, nos oferecia esse rápido sistema
de locomoção.
O conhecimento e a força aumentam incessantemente, elevando-se acima de si
próprios e alcançam, muitas vezes, resultados que ninguém espera.
Quem se atreverá a predizer, hoje, o que será capaz de realizar dentro de
cinquenta anos a eletricidade? Quem se aventurará a afirmar, hoje, que possa
entrar em jogo qualquer nova força ainda desconhecida, ainda em estado
latente, a qual realize, talvez, maravilhas tão grandes como nem sequer ainda
foram sonhadas neste planeta?
Se duas pessoas, marido e mulher, achando-se embora uma delas no mundo
visível e a outra no invisível, desejarem ardentemente comunicar-se e mesmo
tornar-se patentes uma à outra, com certeza podem consegui-lo se forem
realmente marido e mulher; contando que, na mentalidade de ambos, se
encontrem fortemente firmadas as seguintes verdades:
“Que a mente é imortal e o que chamamos mente do corpo nunca será mente do
espírito, onde reside a verdadeira existência.
“Que assim como duas mentalidades podem achar-se na mais perfeita união e
harmonia enquanto ambas conservar o seu invólucro terrestre, podem da
mesma forma seguir a sua vida em comum, quando uma delas se despojou do
corpo físico.
“Que não devemos considerar aqueles a quem denominamos mortos, como se
vivessem em lugares muito afastados de nós, gozando de toda espécie de
beatitudes e indiferentes às coisas da terra; antes devemos acreditar que vivem
na mais perfeita e íntima simpatia conosco, participando das nossas alegrias e
mágoas, interessando-se por todas as minúcias da nossa vida, grandes ou
pequenas, tal como quando, revestidos de um corpo físico, viviam junto de nós.”
Quanto mais completa for a compreensão destas verdades, mais profundamente
se arraigarão na nossa vida. Nenhuma necessidade há de nos empenharmos
para nos convencermos disso; sobre nós elas próprias influirão e, com imensa
surpresa, notaremos que, à medida que o tempo for decorrendo, se nos
detivermos a refletir sobre nós próprios, pensamos e agimos até como se o ser
invisível, o morto, se achasse em um corpo físico ao nosso lado.
Se o estado da nossa mente é idêntico ao descrito aqui, isso constituirá um
potentíssimo auxílio para os defuntos que estão junto de nós. O contrário disso
sucede quando, ao pensar neles, os considerarmos como mortos e enterrados
em profundíssima sepultura.
No verdadeiro matrimônio, o marido e a mulher hão de conservar sempre o
primeiro lugar no coração e na mente um do outro, em qualquer tempo, ocasião
e circunstâncias. Se, ao despojar-se um deles do seu corpo físico, o seu lugar
predileto é tomado por uma terceira pessoa, ficam imediatamente separados,
erguendo-se altíssima barreira entre eles.
O amor entre o homem e a mulher há de ir crescendo incessantemente, quanto
à sua intensidade e pureza. Este amor é de tal natureza que pode chegar ao
extremo de o marido e a mulher serem eternamente os noivos que foram em sua
juventude, aumentando-se-lhes intimamente a felicidade recíproca que se
prodigalizam, podendo até afirmar-se que, se falta em ambos essa comunhão
de seus espíritos, não existe o verdadeiro matrimônio.
Na fusão de duas mentalidades idênticas, constituindo, de uma para outra, um
poderoso e real elemento, permutando incessantemente o desejo mútuo e formal
de se compreenderem cada vez mais ampla, perfeita, completa e
profundamente, tão grande e intenso pode chegar a ser o poder de concentração
que o seu pensamento chega a tomar, por fim, uma expressão física; e se o
maior desejo de ambos for o de construir um corpo material para o que tiver
desencarnado, indubitavelmente a força de sua concentração o chegará a
formar.
Assim como os pensamentos são coisas ou elementos reais, também os
espíritos podem chegar a materializar-se de qualquer forma, boa ou má, e fazem-
no com muitíssima frequência.
Na realidade, toda expressão física que a natureza contém, pertença a que reino
pertencer, nada mais é do que a encarnação materializada de um pensamento.
A magia nada mais significa do que esse poder agora latente na mentalidade
humana, em virtude do qual e graças a uma concentração da mente sobre a
substância material, se pode fazer tomar a esta a forma do objeto em que se
pensa.
Este poder foi conhecido e praticado não há ainda muitos séculos, mas parece
que foi a sua ciência considerada como puramente masculina, se me é permitido
dizer assim. A utilidade e necessidade de ser posto o pensamento masculino em
conjunto com o pensamento feminino, não parece terem sido reconhecidas e
ainda menos observadas.
Os resultados maiores e completos em qualquer fase da vida, obter-se-ão
somente quando o pensamento feminino e o masculino se unirem para formar
uma nova força muito mais forte e poderosa do que a dos dois isoladamente.
São hoje bem raros os homens que escutam, dando-lhes algum valor, os
conselhos e avisos da esposa, a respeito de seus negócios. E, todavia, vemos
nisso o reflexo mais puro do valor que o elemento feminino tem para o homem.
Quanto mais íntima e perfeita for a união entre o homem e a mulher, maiores,
mais amplos e perfeitos serão também os resultados obtidos em quaisquer
campos da existência, em qualquer ramo da atividade humana em que se possa
desenvolver a sua ação.
O amor não é um mero sentimento. É muito mais do que isso: é uma força
hercúlea, gigantesca, capaz de levar avante, de fazer progredir e triunfar as mais
difíceis e ousadas empresas, de emocionar e por em movimento as maiores
nações.
As mulheres são possuidoras de um poder que elas mesmas desconhecem. Se
fossem possível, num só momento, que todas as mulheres negassem aos
homens a sua simpatia e o seu amor, os negócios seriam desastrosos, e os
homens veriam desaparecer toda a sua grandeza e energia de que tanto se
jactam, o que não só seria funesto para eles, mas também para as próprias
mulheres.
Isto, porém, não se pode dar hoje, nem se dará nunca, pois é absolutamente
certo que o pensamento feminino e o masculino se coadjuvam mutuamente e
cooperam na mesma obra, embora exista ainda a ignorância em que o homem
vive com relação ao valor da mente feminina, e a própria mulher desconheça em
geral, também, o poder imenso que encerra a simpatia que dela flui
constantemente para o homem.
Toda pessoa que desejar a morte com o intuito de mais cedo se reunir ao ser
amado já desaparecido do mundo visível, debilitar-se-á e perderá o vigor e
poder, sucedendo o mesmo aos espíritos desencarnados que sintam igual
desejo veemente de se juntarem, no mundo visível, aos seres queridos que neste
deixaram.
É desta forma que, muitas vezes, acontece que o marido ou a esposa, uma vez
desencarnados, atraem para o mundo dos espíritos o que lhes sobreviveu neste.
O constante desejo de morrer é o meio mais poderoso para alcançar a morte
realmente; porém, que desilusão resulta ao se acharem no mundo invisível, sem
terem concluído a obra que lhes estava destinada na terra. É então que
compreendem não terem cumprido a sua espinhosa missão: falta-lhes ainda
muito e acham também ser muito menor o prazer, que encontram na sua mútua
companhia, do que imaginavam.
Descobrem também que não podem aproximar-se mais, um do outro, em gostos
e inclinações, do que o que fizeram na terra e que se alguma divergência de
gostos e modo de sentir os separa, tal separação é para ambos muito mais
penosa também do que o era neste mundo. Compreendem o que cada um deles
pensa e sente a respeito do outro, tão nítida e claramente como se o
exprimissem por meio de palavras: ambos contemplam mutuamente os
pensamentos um do outro como se os vissem refletidos no mais límpido espelho
e isto lhes causa imenso desagrado.
Um dos resultados da vida relativamente perfeita que se desenvolve neste
planeta consiste na aquisição desse poder espiritual que nos permite tomar ou
deixar, conforme for a nossa vontade, o corpo material, faculdade ou poder que
só num verdadeiro matrimônio se pode encontrar.
Quando um dos membros que o constituem continua vivendo no mundo visível,
de posse de um corpo físico, a sabedoria do que primeiro partiu para o mundo
invisível lhe sugerirá, decerto, a ideia de continuar a viver, insuflando-lhe toda a
coragem possível para que continue a sua viagem terrena até cumprir a missão
que por Deus lhe foi confiada, porquanto, o que ainda goza de um corpo físico,
aumentando, de dia para dia, seu saber e conhecimentos, pode também ser de
enorme auxílio para o que já só existe espiritualmente.
Todas as forças de que o homem se utiliza nesta vida são-lhe transmitidas pela
mente feminina.
Para cada mentalidade masculina existe exclusivamente uma só e única
mentalidade feminina, que é sua própria e através das idades lhe irá transmitindo
a sua maior e mais elevada força mental, força esta que só a ele pertence e que
só ele poderá utilizar, sendo impossível a qualquer homem apropriar-se dela em
qualquer tempo.
Nenhum espirito existe, masculino ou feminino, que não tenha o seu próprio e
eterno complemento no sexo oposto, e os laços da oração ou prece acabarão
por juntar, unindo-os um dia definitivamente, aqueles que, na verdade,
pertencem um ao outro, pois desde o princípio dos tempos estavam já
destinados para formarem o verdadeiro matrimônio.
São realmente esses os tais a quem Deus juntou e ninguém pode jamais separar
nesta existência nem em sucessivas reencarnações físicas.
A última fruição do gozo, a mais perfeita, maior e mais poderosa ventura nesta
vida, unicamente pode ser realizada mediante a perfeita e cada vez maior união,
ainda mais, a completa e absoluta fusão do homem e da mulher, que desde
sempre estão destinados um ao outro para toda a eternidade.
A morte do corpo nunca poderá destruir o verdadeiro matrimônio e, dado o caso
em que, por ignorância ou circunstâncias muitas vezes inteiramente alheias à
vontade e ao livre arbítrio, tanto do homem como da mulher, alguém venha a
interpor-se entre os que foram unidos pelo Infinito, nunca esse disparatado e
falso enlace, embora tenha sido feito com todas as aparências e formalidades
de um sacramento legal, constituirá o matrimônio verdadeiro.
A relativa perfeição da vida consiste em gozar de uma saúde perfeita, de um
vigor são e de uma capacidade sempre em escala ascendente para toda espécie
de alegrias e a máxima força de vontade e poder possíveis sobre o corpo, para
podermos usá-lo neste mundo físico, tanto tempo quanto ao nosso desejo
convier, o que, todavia, é apenas um princípio da vida e das possibilidades e
potências, em nós latentes e de que gozaremos plenamente algum dia.
Estas possibilidades só poderão ser alcançadas mediante a ação das Leis e da
eterna união e mútuo amparo dos espíritos masculino e feminino.
Um dia se encontrarão, decerto, os dois espíritos que devem pertencer para
sempre um ao outro, as duas almas gêmeas que têm de caminhar enlaçadas,
bem juntas, ditosas e suavemente unidas por toda a eternidade, devendo por si
próprias manifestar a sua mútua e correspondente afinidade, assim como por si
mesmo se demonstrará também em qualquer outra união o antagonismo e a falta
de correspondência necessária. Não há vida perfeita, nem em saúde física, nem
em fortuna, nem em nenhuma das outras faculdades, potências e possibilidades,
que anunciam, a não ser mediante o único e verdadeiro matrimônio, o qual, de
dia para dia, crescerá em perfeições, força e ventura e cuja lua de mel será não
só duradoura, mas eterna e cada vez mais pura e esplendorosa.
2
A ciência de comer
O estado mental em que nos achamos no momento de nos sentarmos à mesa
para comer tem uma importância capital, muito maior mesmo do que as próprias
substâncias alimentícias de que nos nutrimos, ainda mais não sendo grato ao
paladar tal alimento.
E é porque quando comemos, ao mesmo tempo que o corpo ingere os alimentos,
o Eu espiritual incorpora em si todos os pensamentos e estados mentais
predominantes em nós durante a refeição. Se, enquanto comemos, estivermos
pensando em coisas que nos desagradam, incomodam ou irritam, ou ainda
deixamos invadir a nossa alma pela tristeza ou o desânimo ou nos entregamos
a movimentos mentais de impaciência ou ansiedade, assimilamos tão nocivas
ideias e elementos, que eles começam, deste modo, a formar parte de nós
próprios. Os nossos alimentos convertem-se, então, num agente material,
mediante o qual atraímos ideias e pensamentos que nos causarão grave dano.
Embora a alimentação seja muito sã e nutritiva, de nada nos aproveitará se, ao
momento de ingeri-la, a nossa mente estiver sob a ação de pensamentos
deprimentes de pesar ou de cólera, ou elaborando, acaso, preconceitos
perniciosos que só lhes aproveitarão como um veículo magnífico para esses
maus elementos formarem parte do nosso espírito.
Comer com inteligência sossegada, com a mente num estado de tranquilidade,
bem-estar e paz, ocupando o espírito e a conservação em coisas agradáveis,
atrairá para nós uma corrente mental plena de vigor e saúde. Pode-se afirmar
que, nesse caso, ingerimos tal corrente mental ao mesmo tempo com os
alimentos, a qual desde esse momento começará a formar parte integrante do
nosso Eu espiritual.
Está encerrada uma grande e muito proveitosa verdade nesta frase: Sejamos
puros à mesa. Quer seja formulada em voz alta ou só mentalmente esta ideia,
ela nos atrairá a corrente espiritual que há de determinar, em nosso ânimo, esse
estado necessário para que os alimentos que ingerimos sejam benéficos, tanto
ao corpo como ao espírito.
E podemos exteriorizar esse desejo em qualquer lugar e ocasião, embora
tomemos apenas um bocado.
Pensar, enquanto comemos, em doenças, qualquer espécie de dor, desgosto ou
infelicidade, é atrairmos os elementos que as produzem e construir a doença, a
amargura ou a vicissitude dentro do nosso espírito.
Podemos não sofrer da enfermidade especial em que pensamos ou falamos
durante a refeição, mas se o repetirmos muitas vezes e isso chegar a converter-
se para nós num hábito, indubitavelmente um dia ou outro chegaremos a ser
atacados por ela.
Enquanto comemos assimilamos elementos mentais bons ou maus em muito
maior quantidade do que em outras ocasiões da vida, em vista das razões que
passamos a expor.
Quando comemos, achamo-nos em um estado receptivo muito mais amplo do
que nas outras horas do dia, enquanto estamos acordados. Quer isto dizer que
o espírito coloca a si próprio, e ao corpo também, num estado adequado para a
recepção das forças que os alimentos tomados encerram; e nesse estado,
naturalmente, com muito maior facilidade, pode vir para nós sob forma mental,
tudo o que de bom ou de mau existe no universo, o que fazemos quase sempre
inconscientemente. Além disso, enquanto o espírito e o corpo estiverem
recebendo forças de qualquer origem que seja, não podem produzi-las, da
mesma forma que o cavalo não pode trabalhar enquanto está comendo.
Faríamos, portanto, um dispêndio inútil de forças se, enquanto estivéssemos
comendo, a nossa mente estivesse também desagradavelmente ocupada com
algum pensamento triste, grave preocupação ou em grande tensão de espírito,
relativamente a qualquer assunto.
Por esta razão, também o estudar enquanto se está comendo, há de acabar por
nos causar um gravíssimo dano.
De forma que podemos atrair enorme quantidade de elementos benéficos, se ao
comer procurarmos colocar o nosso espírito num estado de completa serenidade
e sossego; como também atrairemos grande quantidade de elementos mentais
maléficos, se fizermos as refeições tendo o espírito fortemente preocupado por
profundo desgosto, grande impaciência ou ansiedade, ou ainda um forte
sentimento de cólera.
Aquele que, durante muito tempo, teve o costume de se sentar à mesa no estado
mental de que acabamos de falar, não julgue que pode quebrar esse mau hábito
e desligar-se dele imediatamente. Todo hábito mental que nos afeta ou domina
fisicamente, só pouco a pouco e gradualmente pode ser modificado. Vô-lo-emos
modificar no sentido benéfico, graças ao nosso persistente desejo ou prece, para
que tal mudança se realize. Ao sentarmo-nos à mesa, recordaremos de vez em
quando que, enquanto nos alimentamos, é necessário colocar-nos em boas
condições mentais e de tranquilidade e repouso, embora não sejamos capazes
de conformar-nos com elas. O corpo tem-se ido formando, por assim dizer,
através de larguíssimos anos e adquirindo gradualmente o costume do viver de
acordo com certos costumes rotineiros que não podem ser rapidamente
abandonados, nem modificados. Podemos, porém, começar por pedir pela
manhã, a realização das condições mentais necessárias para produzir o ansiado
sossego e tranquilidade do corpo e do espírito, com a segurança de irmos, assim,
nos refazendo pouco a pouco; destruiremos, destarte, tudo o que nos possa ser
prejudicial. Só pelo fato de formular este desejo atrairemos já uma nova corrente
mental, e a ação contínua e crescente exercida sobre nós por ela, há de chegar
a corrigir-nos neste ponto concreto, como pela mesma forma poderemos sempre
corrigir-nos de qualquer outro defeito.
Há uma maneira de comer excessivamente precipitada e cheia de inquietações
que nos obriga a ingerir os alimentos com tanta pressa e voracidade, e em
pedaços tão grandes que, muitas vezes, acaba por nos fazer sofrer uma
influência especial, que nos tira por completo o apetite e o gosto de comer,
apesar de nos sentirmos com demasiado apetite quando nos sentamos à mesa.
As pessoas que se deixarem dominar longo tempo por este mau hábito, acabam
frequentemente por perder totalmente a vontade de comer.
O máximo de tempo que tais pessoas gastam à mesa não passa de vinte
minutos, quando muito, e quase não conhecem nem compreendem sequer o
gozo físico e espiritual que se pode encontrar no simples fato de comer
sossegada, calma e tranquilamente, e ainda não sabem quanta extraordinária
energia nos pode proporcionar o comer no estado mental de que acabo de falar.
Esta forma de comer com sofreguidão é um péssimo costume e muito perigoso.
Em virtude desse mau hábito, o corpo, embora tenha ingerido talvez grande
quantidade de comida, sentir-se-á sempre esfomeado, necessitado de alimento;
e o comer deste modo não nutre o organismo, nem dá saúde.
Haverá até pessoas que irão emagrecendo e enfraquecendo, sem o notarem
sequer, devido a este mau hábito, até chegar um dia em que o corpo
depauperado se veja completamente abandonado pelo espírito, dando-se o que
os homens denominam morte.
Outros converter-se-ão em mártires da dispepsia, atribuindo a sua enfermidade
a este ou àquele alimento que ingeriram, quando a verdade é que esses
caluniados alimentos nada têm que ver com a doença que tanto os faz sofrer.
Em compensação, o estado mental em que se encontram enquanto comem é o
único culpado de todos esses malefícios.
Quando comemos muito às pressas, com o espírito cheio de ansiedade ou
inquietação, atraímos forças e inteligências que nenhum prazer tomam em nossa
refeição e a consideram antes como uma operação incômoda e até, talvez
repugnante, esperando impacientemente que ela acabe o mais breve possível.
Sob as nefastas influências dessas forças quase sempre inconvenientemente
atraídas, pode o organismo sentir profunda repulsa pelo alimento e até convertê-
lo, como atualmente sucede com muitas pessoas, num hábito puramente
mecânico, causando com isso imenso dano ao corpo.
Em todo trabalho corpóreo e em todo serviço que se presta ao corpo, é
necessário que a sua ação se realize de um modo vibrante e integral; de outro
modo, podemos afirmar que é um serviço improfícuo, morto, como se costuma
dizer, e isto nada mais fará que trazer enfermidade e decadência ao corpo.
O homem que chega a entregar-se tão do íntimo da alma à arte que professa ou
ao seu negócio, que nem sequer se lembra de alimentar-se e, se o faz, apenas
gasta nisso pouquíssimos minutos, para imediatamente voltar, com a máxima
precipitação, às suas ocupações, depois de mal ter tragado alguns bocados,
certamente, mais cedo ou mais tarde, virá a sofrer muitíssimo em sua saúde, por
esse motivo.
Não podemos estar continuamente refazendo as energias do corpo e do espírito,
da mesma forma que o maquinista pode manter sempre aceso o fogo da
máquina, pois, imprescindivelmente necessitamos de alguns momentos de
descanso para isso. Não é certamente bom sinal para ninguém o fato de dizer
que a qualidade do alimento é indiferente, porquanto tudo é bom, seja o que for,
contanto que mate a fome, pois quando há fome não há pão ruim, nem vale a
pena procurar só acepipes. É o espírito que pede sempre variedade no gosto e
no aroma dos manjares e, para assim o exigir, tem ele razões que não podemos
explicar neste momento.
E quando o paladar se torna indiferente e acha iguais todos os sabores, não
resta a menor dúvida que tal espírito está verdadeiramente embotado. Quanto
mais elevada é a espiritualização de qualquer pessoa, mais se depura também
o seu paladar.
Mediante o sentido físico do gosto, é o espírito quem recebe o maior prazer,
oriundo de um bom e delicado alimento. O espírito que viver e gozar em cada
uma das expressões da nossa vida física e uma dessas principais expressões é
justamente o gosto, o paladar.
Se, por falta de um uso apropriado, qualquer destas manifestações vitais fica
fechada ou morta, não há a menor dúvida que a nós próprios privamos do prazer
que nos devia proporcionar, resultando-nos disso também um gravíssimo dano.
Não deve, todavia, confundir-se isto com a gula. O glutão propriamente dito não
come nem saboreia o alimento, — devora. O comer bem consiste em deter-se a
cada bocado, e quanto mais se possa prolongar o tempo destinado ao alimento,
mais e melhor se converterá ele num meio de adquirir vida forte e salutar para o
espírito. Na verdade, o glutão pouquíssimo proveito tira da sua copiosa
alimentação; é como se na fornalha de uma máquina se lançasse de uma só vez
exagerada porção de combustível, o qual produz força que é totalmente perdida
e até prejudicial, às vezes, para o bom andamento do motor.
Meia dúzia de bocados nutritivos, comidos em paz, satisfação e sossego, bem
castigados e saboreados com verdadeira delícia, hão de sempre produzir-nos
maior benefício do que enorme quantidade de alimentos, mal mastigados,
comidos com grande precipitação, sem prazer, mesmo quase sem lhes sentir o
gosto.
Quando comemos, ingerimos com a nossa alimentação elementos positivos e
reais de saúde, de força e de tranquilidade mental. E quanto mais profundamente
em nós se radicar o hábito de comer desta maneira, mais aumentará e se
fortalecerá o poder, para atrair-nos cada vez mais tão desejáveis elementos.
Devemos, pois, também procurar fazer com que se sentem à mesa, à hora das
refeições, somente pessoas cuja companhia nos seja agradável e não estejam
cheias de impaciência, tristeza ou inquietação; nem tenham por costume estar
contínua e aflitamente pensando em seus negócios, cuja conversação amena e
interessante distraia ou instrua, e não guardem em seus corações nem
vislumbres sequer de rancor, má vontade, inveja ou zombaria para com os
outros. Teremos procurado, desta forma, o mais valioso auxílio mental para que
a nossa alimentação se transforme no maior benefício para o corpo e o espírito.
Todos os convivas reunidos neste modo concentrarão todos os seus esforços,
mesmo inconscientemente, para se atrair uma corrente mental de uma força
imensa que será tanto maior, quanto maior for também o número de convivas
que, em idêntico estado mental, ali estiverem reunidos.
Uma refeição tomada nestas boas disposições mentais, no gozo de uma alegria
plácida e calma, uma suave tranquilidade, sem a menor coisa que nos incomode
o corpo ou o espírito, embora tal refeição dure uma hora, é uma hora de
proveitoso descanso que a nós próprios proporcionamos, e, enquanto
repousamos é que adquirimos maior quantidade de energias. Além de que,
enquanto comemos, se o fizermos nas condições exigidas, é possível que o
nosso espírito atue sobre outros espíritos muito distantes, talvez, do nosso corpo
físico e a sua ação pode ser eficaz ou ainda mais do que em quaisquer outras
ocasiões. De forma que nenhum tempo perdemos enquanto estamos entregues
ao prazer da mesa e daí vem, talvez, o dito dos antigos: “À mesa ninguém se faz
velho”, mas é neste estado mental de bem-estar, alegre e calmo convívio que
obtemos novas forças.
Nunca é perdido todo o tempo gasto em qualquer prazer, se gozarmos dele de
um modo são, digna e retamente.
A ação de todo esforço, quer mental, quer puramente físico, há de produzir-nos
certamente algum prazer. Esse estado inteiramente especial de plácido e alegre
bem-estar em que, por vezes, nos sentimos, seja produzido pelo comer, dormir
ou passear, ou ainda por quaisquer outros dos nossos esforços físicos
cotidianos, torna-nos bons, joviais e é a melhor prova de que usamos da vida
retamente. Nem antes, nem enquanto estamos comendo, nos devemos
preocupar muito com a ideia de que este ou aquele alimento pode ser-nos útil ou
nocivo, ou nos assentará ou não no estômago, nem é conveniente também
pensar em tais ocasiões: “Creio que isto ou aquilo me fará mal, e receio até ter
de pagar caro depois que tiver comido ou bebido.”
Procedendo desta forma, só determinaremos as condições adequadas para que
tal suceda, pois que, assim como imaginarmos mentalmente o nosso estômago,
tal esse será, por fim.
Em lugar disso, digamos e pensemos, quando nos sentarmos à mesa para
comer:
Creio ou estou certo que tudo quanto eu comer me há de fazer boa digestão,
aproveitar e nutrir o meu organismo e aumentar as minhas forças.
As ideias prazenteiras e benéficas de que neste instante a minha mente está
repleta, começam a formar parte do meu próprio corpo com todo o bocado que
ingiro e quanto mais tempo eu prolongar a refeição e com maior calma e
tranquilidade a fizer, maior será também a quantidade de alegria e de força que
hão de penetrar em mim.
Estou comendo para glorificar a Deus — o Poder Supremo, do qual sou também
uma parte, mínima embora.
Estas palavras formuladas, ou pensadas apenas, constituem a melhor das
graças que se possa render a Deus no momento de nos sentarmos à mesa.
Depois, devemos pedir a necessária capacidade para esquecer o que nos caiu
no estômago. Não convém pensar nele, nem enquanto comemos, nem durante
o período da digestão.
O nosso alimento deve ser como o das aves que somente sabem que acharão
o seu sustento onde a natureza lhes diz que hão de encontrá-lo e, depois de o
saborearem, não se recordam mais dele nem se preocupam com processos
ulteriores que, porventura, se possam efetuar.
Se pensardes contínua e fixamente em qualquer doença de estômago, com toda
a certeza vireis a sofrer dela por fim, pois que aquilo em que persistentemente
pensamos, virá a realizar-se certamente um dia, mais cedo ou mais tarde, no
mundo material.
Que devemos comer? Com toda sinceridade, vos digo: — Comamos muito
simplesmente tudo quanto nos agradar e der algum prazer.
Deu-nos a natureza o sentido do paladar como uma sentinela de atalaia para
guardar o estômago. Se algum alimento nos repugna, não o comamos.
O comer à força seja o que for, quando o paladar pouco prazer sente nisso,
comer quase pela obrigação de cumprir uma espécie de dever, mais do que por
sentir verdadeira necessidade e desejo de fazê-lo, pouco ou nenhum benefício
nos causará. Comer qualquer coisa que o nosso paladar recebe
indiferentemente ou lhe é desagradável, é apenas obrigar o corpo e o espírito a
ingerir aquilo de que nenhuma necessidade têm.
O corpo e o espírito tiram algum benefício dos alimentos ingeridos quando a
mente tem certa fé em que eles nos serão úteis e proveitosos.
Ora, se neste estado mental experimentarmos comer algumas substâncias que
costumam fazer-nos mal, acharemos, ao cabo de algum tempo, que os efeitos
nocivos deixaram de produzir resultado no nosso organismo. É provável que isso
se não consiga imediatamente, porquanto não há ninguém que, se durante um
largo período de anos, estiver na convicção de que este ou aquele alimento lhe
fazia mal, acredite, de um momento para outro, piamente, que essa substância
deixou absolutamente de lhe ser prejudicial.
As carnes e os vegetais mais frescos são sempre os melhores, porque contêm
maior quantidade de forças. Comendo deles sensatamente, e na devida
proporção, como a mente aconselha, com conta, peso, medida e nas horas
convenientes, é quando a força que eles encerram, ou antes, o seu espírito
próprio, contribuirá para revigorar e robustecer nosso espírito.
O que neles permanece depois de salmoura, defumação ou qualquer outro
processo dos habitualmente empregados para os conservar, são unicamente os
seus elementos propriamente terrenos. As suas energias vitais mais puras e
ativas desaparecem.
Para os vegetais não há operação alguma de conserva que lhes conserve
realmente os princípios vitais tidos no momento de serem colhidos ou
arrancados.
Se, altas horas da noite, alguém se sentir com grande vontade de comer antes
de se deitar, pode fazê-lo sem receio, contanto que seja com certa moderação.
Se formos dormir sem comer quando o corpo desejava receber alimento, o mais
provável é que o espírito, cheio de apetite que não foi satisfeito, parta para algum
lugar onde se padeça fome, enquanto o corpo se acha num estado de perfeita
inconsciência e, desta forma, não poderá trazer-nos já os elementos mentais de
força e vigorosa saúde que nos teria comunicado, sem dúvida, se tivesse
deixado o corpo saciado.
Certamente foi ensinado a muitos dos meus leitores e assim o acreditaram
durante muitos anos, que o comer e ir deitar-se imediatamente é muito prejudicial
à saúde, e como toda ideia ou pensamento chega a converter-se em uma parte
de nós mesmos, é evidente que esta errônea crença terá sido para todos eles
causa de grandes danos, muitos dissabores e até graves indisposições.
Os animais, que os homens denominam irracionais, comem e adormecem logo
em seguida, e a sua digestão faz-se tão perfeita, completa e tranquila, não só
quando dormem como quando estão acordados. Ora, se procedêssemos de
igual modo, só daríamos à natureza o que realmente é propriedade sua e lhe
pertence.
Na Inglaterra existem milhares de pessoas que tomam a sua última refeição às
nove ou dez horas da noite, indo deitar-se quase em seguida, e todavia, o termo
médio do bom estado de saúde dos ingleses é, pelo menos, tão bom como o
nosso ou melhor talvez.
Se um alimento qualquer não se deu bem no estômago um dia, não é razão para
afirmar que suceda sempre o mesmo. O nosso verdadeiro Eu é apenas um
conjunto de crenças e opiniões de que resultam, por fim, os nossos próprios
costumes.
O nosso estômago pode digerir melhor ou pior, de acordo com algumas crenças
que, por acaso, tenhamos mantido dentro em nós, durante muitos anos,
inconscientemente, com relação às suas funções especiais, as quais certamente
nunca tentamos combater.
É possível abrigarmos, talvez, a convicção de que este ou aquele alimento nos
deve fazer mal, se o comemos nesta ou naquela ocasião. Pois bem, a força
gerada por esta ideia, mantida em nós por um período de tempo tão longo, é que
faz, e não outra coisa qualquer, com que esse alimento faça mal. Se
conseguirmos destruir esse erro mental, irá a verdade progredindo e percorrendo
todo o seu trajeto, recobrando então, pouco a pouco, o nosso estômago, toda a
sua força melhorando o processo digestivo e deixando, portanto, de ser
molestado por uma série de vãos caprichos que nós próprios havíamos
alimentado durante largo espaço de tempo.
Se sentirmos desejo de comer carne, comamo-la. Negando ao corpo o que ele
nos pede, causamos-lhe grave dano. Na verdade, a carne é um alimento muito
mais grosseiro e ruim do que qualquer outro, mas também o corpo é uma coisa
muito baixa e grosseira, se o compararmos com o espírito.
É natural que o corpo peça para seu sustento aquilo que mais se aproxima da
sua natureza terrena. Tanto comendo carne como alimentando-nos só de frutos
e outros vegetais, nos é facultado o dom de podermos sentir sempre o desejo
ardente de atrair para o espírito todos os elementos melhores e mais puros.
Comendo com este desejo na mente, convertemos a carne em excelente meio
para a atração dos elementos espirituais mais elevados. De igual modo,
comendo só pão do mais puro ou saborosíssimos aromáticos morangos, se, no
momento de comê-los, o nosso estado mental for de ódio, inveja, ciúme ou de
profunda mágoa e inquietação, atrairemos correntes mentais da pior espécie,
enchendo o nosso corpo e espírito das paixões mais grosseiras e baixas.
A espiritualização do corpo ou o fato de transformar o corpo num instrumento
dócil às instigações do espírito é capaz de exteriorizar os seus maravilhosos
dons ou potências, e não provém verdadeiramente de processos puramente
mecânicos, nem de métodos severamente rigorosos e inflexíveis. Provém mais
do desejo formal e positivamente expresso pelo espírito ou antes da sua santa
aspiração.
A espiritualização vai nos elevando pouco a pouco, afastando-nos, portanto,
cada vez mais dos desejos baixos e grosseiros. É bem certo que nos permite
gozar deles, quando disso há uma verdadeira necessidade, mas proíbe-nos de
abusar desse gozo, qualquer que seja, pois na realidade, enquanto não dermos
ao corpo a satisfação de um desejo imperioso por ele manifestado e exigido, não
abolimos nem destruímos o apetite do objeto desejado ansiosamente.
Se desejarmos comer carne e a comermos mentalmente, recusando-a ao corpo,
andamos pior do que se realmente a tivéssemos comido — pois que,
satisfazendo os desejos do corpo, produz-se-lhe uma quietação ao menos
temporariamente, ao passo que uma recusa obstinada, uma privação absoluta
da satisfação desses desejos, pode e costuma manter sempre vivo aquele
veemente anelo e, desta forma, o espírito está sempre comendo a carne que foi
negada ao corpo, o que concentra a maior parte das nossas forças mentais na
coisa proibida ou recusada, quando podiam antes empregar-se em intuitos e
propósitos melhores, mais úteis e proveitosos.
Os mais baixos e grosseiros apetites não ficarão, com certeza, subjugados, só
pelo fato de uma fortíssima e imperiosa vontade lhes negar obstinada e
tenazmente a sua satisfação. Podem ser reprimidos, mas não destruídos
totalmente e assim facilmente surgirão outros de novo, inesperadamente, sob
uma ou outra forma.
A pessoa que se mostra tão severa com o seu próprio corpo, com certeza o é
para com os outros também, e vê sempre com maus olhos todos aqueles que
não aceitam nem praticam a sua extrema austeridade.
É todavia verdade que podemos trabalhar também, de um certo modo, para a
progressiva espiritualização do corpo, pelo regime do jejum ou fazer com que o
nosso Eu seja mais sensível à espiritualidade que nos rodeia. Podemos chegar
a sentir com mais agudeza uma das mentalidades que nos rodeiam. Mas será
necessário lembrar que, para isso, temos de permanecer com o nosso espírito
aberto, tanto para receber as boas influências, como as más, e, como o mal nas
suas variadíssimas formas está em grande superioridade ao bem, eis a razão
por que, se mediante a abstinência de alimento debilitamos excessivamente o
corpo, encontramos em nós mesmos disposição positiva para resistir aos maus
pensamentos e arremessá-los para bem longe de nós.
Há, na carne, um elemento positivo tão duro, pesado e inflexível como uma barra
de ferro. Este elemento é o espírito da atrocidade, torpeza e ferocidade dos
animais selvagens e carnívoros e, ao engolir a carne, absorvemos também maior
ou menor quantidade de tal espírito. Temos, porém, recursos para suavizar esta
qualidade grosseira; é purificá-la um pouco até chegar a convertê-la em um
elemento útil para o corpo e o espírito. Visto não termos outro remédio senão
viver neste mundo e com a gente que o habita, não podemos, pois, neste plano
da existência, isolar-nos de todo, dentro em nós próprios, ou viver num mundo
inteiramente à parte; nem desta maneira alcançaríamos nunca a verdadeira
felicidade.
O que nos convém precisamente e o que devemos na verdade fazer é viver com
os outros, tomando do mundo o melhor que ele tiver e dando-lhe, em
compensação, o melhor que nós tivermos também.
Assim, no nosso trato com a sociedade, necessitamos possuir certa quantidade
de elementos positivos que ela própria nos dá e que absorveremos dos
organismos animais que nos rodeiam. E devemos, além disso, ter também
sempre presente ao espírito que necessitamos desses elementos positivos para
a mais sólida afirmação dos nossos próprios direitos, e precisamos deles
justamente para podermos manter-nos em estado positivo e evitar a absorção
dos errôneos pensamentos alheios.
Não devemos, certamente, ser nem pusilânimes, nem torpes, nem brutais, mas
o nosso espírito pode suavizar um tanto os baixos pensamentos que a nossa
carne contém, convertendo a ferocidade e a violência numa sensata decisão e
num prudente arrojo; nestas condições os princípios encerrados na carne podem
ser muitíssimo proveitosos para alcançar estas ótimas qualidades.
É evidente que os homens vindouros deixarão de ser carnívoros, tornando-se
mais vegetarianos e frugívoros, porquanto gradualmente irão aumentando neles
os elementos espirituais, de forma a não terem necessidade do emprego da
carne, nem o desejo de comê-la se lhes fará sentir. É uma crueldade enorme e
uma grande injustiça tirar a vida dos animais para nosso gozo. Mas a injustiça
atualmente é, de algum modo, uma necessidade.
O nosso espírito é o produto de um processo ascendente, desde o ínfimo grau
até ao mais elevado. Nos tempos remotíssimos da Antiguidade, estava o nosso
espírito alojado em corpos toscos, porque ele era ainda mais grosseiro e ruim do
que hoje é. Nas idades futuras, o nosso espírito e o nosso corpo serão muito
mais puros e perfeitos do que atualmente, de modo que a matéria ou a
substância tosca que em um outro plano ou existência é necessária, deixa de o
ser em um estado ou plano superior.
A Aspiração é que finalmente libertará o corpo de todos os apetites
excessivamente grosseiros e os desejos desordenados serão dele expulsos
completamente para sempre, e já não terá mais tentações como as tivera em
outros tempos, porque a tentação terá perdido sobre o corpo todo o seu poder e
prestígio. À medida que o nosso espírito se purifique, purificar-se-ão também os
nossos gostos físicos.
Por este andar, cada vez empregaremos maior cuidado na escolha dos nossos
alimentos, e demorando-nos mais na operação de os ingerir, faremos com a
maior tranquilidade cada refeição, o que por si só constituirá uma enorme
barreira para toda espécie de excessos.
Mas, com essa martirização do corpo, negando-lhe, pela nossa vontade
despótica, tudo o que mais anela com essa negação rigorosa e tenaz em
satisfazer-lhe os desejos, com certeza não nos colocamos sob os auspícios e a
dependência do Poder Supremo, antes é um cabal indício da falta de fé nesse
saber. É um empenho inútil e vão crer que podemos, de nosso moto próprio,
purificar e elevar a nossa existência, — o que depende, única e exclusivamente,
do Poder Supremo.
Aquele que a si próprio se abandona e põe toda a sua fé e confiança no Espírito
Eterno para que este o torne superior a toda classe de apetites baixos e
desregrados desejos, será, de dia para dia, cada vez mais virtuoso e calmo por
índole.
Pelo contrário, o que tentasse arrancar do seu corpo as raízes de um vício
qualquer, por meios meramente externos e físicos, apenas conseguiria uma
virtude simulada e aparente e, embora o tenha reprimido violentamente com toda
a força de sua potente vontade, sem cessar, ver-se-á consumido por ele.
Provavelmente ocorre, agora, a algum dos meus leitores esta idéia: “Mas, lendo
isto, pode alguém servir-se destas teorias para desculpar toda espécie de
excessos?”
Em primeiro lugar, não devemos nunca investigar ou adivinhar o que os outros
podem fazer ou pensar. A nossa primeira consideração ou reflexão deve ser feita
com relação a nós próprios. Todos solícitos e açodadamente, procuramos notar
e corrigir os defeitos do próximo, estando nós próprios carregados de vícios e
cometendo continuamente muitos pecados que estão bradando por uma grande
reforma e que nos causam grande dor, prejudicando-nos atrozmente, enquanto
não pensarmos em nos purificar.
Não cairemos novamente em nenhuma espécie de excesso, quando a mente se
tiver elevado muito acima deles, porque a purificação do espírito é que purifica o
corpo e nunca o corpo pode corrigir o espírito.
Com certeza, não havemos de corrigir-nos ou antes reformar-nos, espiritual e
fisicamente, somente pelo fato de escolhermos uma alimentação especial,
dirigida com regras e comida sensatamente.
A nossa marcha ascendente para toda espécie de simétricas perfeições não
pode realmente ser o resultado de uma transformação em uma certa ordem de
coisas unicamente, em um único aspecto da nossa existência total.
O indivíduo verdadeiramente superior ir-se-á formando e crescendo à
semelhança de uma flor perfeita: formando-se e crescendo ao mesmo tempo e
proporcionalmente, cada uma das folhas e pétalas, isto é, o seu corpo e a sua
alma.
3
Modo de adquirir o valor
O valor e a presença de espírito não são, afinal, mais do que uma e a mesma
coisa. A presença de espírito indica, por sua vez, o domínio do espírito. Toda
espécie de triunfos tem por base o valor mental ou físico.
A covardia e a falta de domínio do espírito sobre o corpo são também pouco
mais ou menos a mesma coisa. A covardia tem as suas raízes na impaciência e
no hábito de se estar sempre com receio de tudo, na carência da calma. E o
infortúnio, em todos os seus aspectos, baseia-se também na covardia ou na
timidez.
Podemos cultivar o nosso valor e até aumentá-lo em cada hora e até a todos os
minutos do dia.
Havemos de chegar ao pleno conhecimento de que cada uma das nossas ações,
até a mais insignificante, tem sempre duas fases ou aspectos diferentes, isto é,
a ação propriamente dita e a forma por que pomos em jogo essa ação, por meio
da qual podemos adquirir um novo átomo da qualidade de valor a cujo resultado
havemos de, infalivelmente, chegar, graças ao cultivo da reflexão — reflexão no
modo de falar, escrever, jogar, comer, beber, trabalhar, até brincar, em todas ou
cada uma das nossas ações vitais.
Encontra-se sempre, é certo, um pouco de medo ou temor onde há também um
pouco de impaciência; quando estamos impacientes por tomar um trem e até
quando nos pomos a correr pelo meio da rua, sem necessidade alguma, é
porque temos receio de perder o trem e esse temor é origem de todos os outros,
como consequência natural do mesmo. Quando estamos ansiosos e até
impacientes por não faltar a qualquer entrevista que alguém nos marcou, é
porque temos medo de que só o simples fato de faltar a ela nos traga grandes
prejuízos. Este hábito mental, graças à sua inconsciente cultura, pode vir a ser
tão extenso, que invada literalmente o espírito, ocupando-o todo, a ponto de
chegar até, um dia, a sentir medo a propósito de tudo, de qualquer ninharia
mesmo, e sérios temores, sem razão plausível, inteiramente inexplicáveis, sem
base alguma concreta e positiva.
Suponhamos, por exemplo, que qualquer pessoa se afadiga sobremodo para
alcançar um carro ou um bonde que vai passando na rua naquele momento,
parecendo-lhe ter sofrido uma grande perda se o não conseguir, quando, talvez,
venha logo imediatamente depois outro ou muitos mais, ou tenha só de esperar,
quando muito, dois ou três minutos. Pois o receio de ter de esperar ainda esses
dois ou três minutos avoluma-lhe na mente o fato, por forma tal, que naquele
instante se julgou talvez a pessoa mais infeliz deste mundo. O que se deixar
levar por essa especial condição da impaciência, vê-la-á converter-se em breve
na característica persistente de todas as suas ações, tornando-se-lhe cada vez
mais difícil proceder calmamente e com madura reflexão.
Esta qualidade ou condição mental da impaciência, com o cortejo de todas as
suas consequentes ações, não tem outra base mais sólida também do que o
medo.
O medo, em sua essência, nada mais é do que a carência do domínio da nossa
própria mente, ou por outra, falta de domínio sobre a espécie de pensamentos
que exteriorizamos.
Esta consciente educação mental, tão comum em tudo, é que origina a
persistência de um estado de espírito sujeito cada vez mais, de dia para dia, a
pânicos grandes ou pequenos embora, à menor dificuldade que se levante em
nosso caminho, sendo até, talvez, capaz de criá-los, quando eles não existam
na realidade, impelindo continuamente o espírito para as correntes de pavor.
Aquele que está sempre temendo, como que cultivando em si o estado de receio
a respeito de qualquer coisa, nada mais faz do que criar em seu ânimo o medo
e o receio de tudo.
Se permitirmos que nos empolgue o medo pelo simples fato de podermos, talvez,
perder o trem ou o navio em que devemos embarcar, ficaremos mais propensos,
mais acessíveis, a que se apodere de nós, durante todo o dia e até em dias
sucessivos, uma série ininterrupta de pequenos receios a respeito até de coisas
sem a menor importância, mas que a cada instante se irão levantando em nosso
espírito, ante as ocorrências mais triviais, não nos deixando um só momento de
repouso nem de tranquilidade. Adquirimos este perniciosíssimo hábito mensal,
quase sempre sob o influxo de atos a que, todavia, pouca ou nenhuma
importância ligamos.
Um exemplo: Estamos entregues à leitura, a qualquer trabalho interessante que
não desejamos interromper, como, por exemplo, escrever qualquer coisa de
importância literária, afetiva ou comercial... De repente, cai-nos a pena ao chão
e somos forçados, portanto, a apanhá-la, o que com efeito fazemos, mas
empregando para isso um movimento brusco, extremamente impaciente,
contrariados e aborrecidos por termos de executar tal ação; enquanto
apanhamos a pena do solo, a nossa mente nem um momento deixou de pensar
no trabalho encetado ou que tanto nos preocupava, resultando de tudo isso que
o nosso corpo executa mal esse ato de apanhar a pena, de má vontade,
impacientemente, tornando-se-nos tal ação sobremaneira desagradável, só
porque a mente se recusou abertamente a empregar nela toda a força e atenção
exigidas.
Persistindo em proceder deste modo, embora inconscientemente, toda ação se
torna incômoda e desagradável por não termos nela empregado a necessária
energia para se tornar fácil a sua realização. Mesmo desfrutando de um corpo
muito débil, devemos sempre tentar fazê-lo assim, porquanto o nosso organismo
possui o especialíssimo poder de reunir instantaneamente, quando o queira,
todas as suas energias sobre um determinado músculo, com o fim de tornar a
sua ação mais fácil e, portanto, mais agradável.
Esta faculdade especial que nos permite levar à vontade as nossas forças a este
ou àquele órgão, aumenta, robustece-se mediante uma consciente cultura e
educação. Se atamos à pressa, impacientemente, os laços dos nossos sapatos,
não o faremos desse jeito, só por nos desagradar aquele ato, mas principalmente
pelo receio de que o instante nisso perdido nos vá privar, talvez,
momentaneamente embora, de algo que ansiamos ver, possuir ou fazer,
deixando assim outra vez aberta à corrente do medo a nossa mente, — medo
de perder alguma coisa.
O cultivo da coragem começa no da reflexão ou calma com que se devem
executar atos semelhantes àqueles a que aludi, em geral considerados
insignificantes e trivialíssimos.
A reflexão e o valor vivem tão estreitamente aliados, como o medo e a
impaciência.
Se não aprendemos a governar a nossa própria força de vontade nas ações
destituídas de importância, muito mais difícil nos será possuir tal domínio e
presença de espirito em atos capitais e de magna importância.
Analisando o nosso estado de medo, veremos que ele martiriza muito mais a
nossa mente do que o poderia fazer a própria coisa temida. Em nenhuma das
ações da vida se pode dar mais de um passo ao mesmo tempo; não devemos,
portanto, empregar, neste passo, mais força do que aquela de que
necessitamos. Nunca devemos pensar no segundo passo antes de darmos o
primeiro.
Quanto mais educarmos em nossa mente a faculdade de concentrar as próprias
forças num só ato, prescindindo, naquele momento, de todos os outros, mais e
mais aumentaremos a nossa capacidade para empregar todo o nosso vigor e as
nossas energias em um ato único ou em uma única orientação de cada vez. A
nossa força torna-se, assim, mais extensiva, podendo ser até empregada no que
denominamos pequenas minúcias ou pequenos nadas da vida cotidiana.
Procedendo deste modo, a reflexão e os atos executados refletidamente,
tornam-se-nos habituais e, em determinado sentido, pode-se dizer mesmo que
agimos com uma reflexão inconsciente, como inconscientemente procedemos
também, quando, em virtude de um velho hábito, caminhamos numa direção
contrária e perniciosa.
A maior parte das vezes, a timidez nada mais é do que o resultado do nosso
estulto empenho em vencer de uma assentada muitas dificuldades juntas,
quando, no mundo das realidades físicas, temos de procurar vencê-las, uma a
uma, por sua vez.
Quando tivermos de visitar alguém ou nos encontrarmos de qualquer forma, seja
qual for o intuito, com uma pessoa muito irascível, orgulhosa ou demasiado
autoritária, não convém de forma alguma que estejamos o dia inteiro a pensar
nela, com medo de lhe falar e com ela nos defrontarmos, tendo já como certo
que nos há de ser hostil ou pelo menos nos receba desabrida e altivamente.
Talvez já de manhã, ao saltar da cama e enquanto nos estamos vestindo,
estejamos pensando preocupada e aflitamente naquela malfadada entrevista,
quando fora muitíssimo melhor que nos vestíssemos com cuidado e esmero para
irmos à tal temida entrevista, o que, na verdade, constituirá o primeiro e, talvez,
o mais importante passo para alcançarmos bom êxito.
É também possível que, durante as refeições, não nos saia do espírito essa
temível preocupação, quando muito melhor seria que, ao sentarmo-nos à mesa,
procurássemos conservar o espírito o mais tranquilo e despreocupado possível,
tentando achar o máximo prazer no ato de comer, porquanto o comer num
estado de espírito alegre e calmo constituirá, já por si mesmo, o segundo passo.
Quanto mais descansadamente comermos, mais e melhor gosto acharemos na
refeição e maior será também a força que o corpo tirará dos alimentos.
É possível também que o receio que nos causa tal entrevista nos acabrunhe
como uma carga pesadíssima, no momento de nos dirigirmos ao local onde nos
devemos encontrar com tal pessoa, quando muito melhor fora que, ao caminhar
para essa entrevista, procurássemos apenas tirar do passeio todo prazer
possível.
O ato de perfeito bem-estar resulta do fato de pormos o nosso pensamento ou a
nossa força mental no ato ou trabalho que estamos executando, e assim toda
dor presente ou futura provém sempre de querermos dirigir o nosso esforço
mental para as coisas ainda futuras.
Quando nos vestimos, comemos, passeamos ou realizamos qualquer outro ato,
com o pensamento ocupado em acontecimentos vindouros, apenas fazemos
com que se converta em incômodo e desagradável o ato presente, educando
deste modo o espírito para tornar desagradáveis e incômodas todas as ações
presentes e, além disso, converter também o objeto ou futuro acontecimento
temido numa verdadeira realidade, porque aquilo que nos habituamos a
considerar mentalmente como mau, nisso se converte, por fim, no mundo das
realidades. E quanto mais tempo persistir esse estado especial da nossa mente,
maiores são, decerto, as forças que reunimos para a sua pronta e breve
realização, e maior, portanto, a facilidade que tem para exteriorizar-se e tomar
uma forma real no mundo material.
Para atrairmos o que mais desejamos — a felicidade — necessitamos de exercer
completo e absoluto domínio sobre a nossa mente e o nosso espírito, em
qualquer ocasião e lugar.
Um dos meios mais importantes, o mais necessário, o mais firme e o mais eficaz
para se adquirir sempre e por todos os meios a tão desejada felicidade —
consiste nessa disciplina relativa aos atos e coisas que taxamos geralmente de
pequenos nadas da vida, assim como a disciplina e os movimentos regulares de
um exército tem por verdadeira base a sólida e especial educação das pernas e
dos braços dos seus soldados.
Aquele que tem por hábito fazer tudo à pressa, com precipitação ou, antes,
estouvadamente, melhor diríamos, tudo aquilo que ele chama pequenos nadas,
inteiramente destituídos de importância, achar-se-á em condições de não saber
o que há a fazer, completamente confuso e desorientado em qualquer
acontecimento grave e inesperado. Ora, é justamente o inesperado o que mais
frequentemente sucede na vida.
Não se deve ter sempre a mente no que chamamos situação de reserva para
poder entrar em ação em qualquer momento e direção. E podemos dizer que o
nosso pensamento não está em seu lugar, quando estamos atando o laço de
nossos sapatos e pensando, ao mesmo tempo, em alguma coisa que está muito
distante de nós, no passado ou no futuro, ou ainda quando estamos retocando
um desenho a lápis e temos a mente preocupada com algo que devemos fazer
somente amanhã. Neste caso, o pensamento está deslocado, porque o ser
humano não tem, então, o juízo no seu lugar, como diz o vulgo, e se tal estado
da mente tem chegado já a ser nele habitual, abandonando a cada instante
aquilo que tem entre as mãos, para se ocupar de acontecimentos já passados
ou ainda vindouros, indubitavelmente, de dia para dia, lhe será cada vez mais
difícil agir sensata e proficuamente quando as mesmas necessidades da vida lho
exijam.
Com maior presteza do que a própria eletricidade, o nosso pensamento se dirige
de um assunto a outro, podendo até dar-se o caso de inconscientemente
educarmos essa faculdade peculiar do espírito, de forma tal que seja totalmente
impossível mantê-lo fixo em uma só coisa, ao passo que, mediante a cultura
intelectual, o repouso mental e a reflexão em tudo o que se fizer, podemos
educar o nosso pensamento e mantê-lo fixo no assunto que quisermos e durante
todo o lapso de tempo que nos aprouver, pondo-nos até no estado mental que
mais nos convenha.
E isto nada mais é do que uma diminuta e tenuíssima parcela das enormes
possibilidades e potências que à mente humana estão reservadas no porvir.
A perfeição e o progresso da mente humana não têm limites. Os passos que nos
conduzirão a tão esplêndidos resultados são, por si só isolados, bem pequenos,
facílimos e simplicíssimos — tão simples e fáceis que, por esta mesma razão,
alguns se negam a dá-los, parecendo-lhes isso uma verdadeira puerilidade.
Incontestavelmente já nos tempos antigos foram conhecidos esses poderes, e
algumas das suas consequências eram remotas já; é certo, entretanto, que a
tradição desses maravilhosos atos não tenha chegado até nós.
Os povos da Índia, por exemplo, chegaram a possuir em grau tão elevado a
faculdade ou o poder de expelir totalmente da sua mente o medo, a ponto de
tornarem de todo invencível e invulnerável o corpo, estando sempre superiores
a toda espécie de sofrimentos físicos, motivo por que se viram muitos sofrerem
sem dor os martírios que no cativeiro lhes infligiam, e entoarem ainda,
serenamente, o canto da morte sobre a fogueira que lhes ia devorando os
membros.
O índio é muito mais calmo e refletido do que a maioria dos homens da nossa
raça, tanto na ordem mental, como na física. Já cultiva inconscientemente esse
estado mental e vive uma vida muito menos artificial do que a nossa, com o que
tem aumentado a sua força espiritual; esse domínio da mente sobre o corpo é
um poder que tem até a faculdade ou dom de diminuir toda dor e até, como das
suas posteriores possibilidades, expeli-la de uma vez para sempre; é um dos
seus mais certos e positivos resultados.
Nenhuma qualidade mental é mais necessária ao êxito de uma empresa
qualquer do que o valor — e por valor compreendo não só o que diz respeito ao
aspecto físico ou material da vida, mas também tudo quanto diz respeito aos atos
do pensamento.
Nos negócios cotidianos, vemos milhares e milhares de pessoas que se não
atrevem sequer a pensar na possibilidade de avançar um único passo na estrada
de seu adiantamento e bem-estar, só pelo fato de terem de despender para isso
uma soma um pouco maior do que aquela que dispõem pelos seus ganhos ou
ordenados, e tão grande é o seu espanto ou estupefação que, sem tardar um
segundo, arremessam para longe do espírito o que consideram inteiramente
inexequível, sem dar tempo à mente para com ela se familiarizar.
Se, porém, em lugar disto, permitirem que tal ideia permaneça e se arraigue em
seu espírito, chegariam talvez, um dia, a descobrir os meios ou, pelo menos, os
caminhos a trilhar para a aquisição do dinheiro necessário para implantarem e
levar avante com êxito essa mesma ideia que, à primeira vista, tacharam de
insensata, tão pouco viável a acharam.
Todas as pessoas podem fazer frente aos maiores perigos e conservarem-se
serenas nas mais difíceis conjunturas, inesperadas lutas e vicissitudes, quando
possuírem o necessário poder para manter a mente fixa no que estão fazendo,
no próprio momento, quer se trate de algo muito importante, quer de ações
triviais e até pueris. Em tais casos, o covarde nenhum poder tem, e é pelo fato
de não saber nem conseguir manter fixa a mente em uma coisa ou ação, durante
cinco minutos consecutivos, vendo sempre grandes perigos em tudo e por toda
parte, possuindo assim a fonte das suas desventuras em sua própria
imaginação.
Não digo que devamos empregar toda a nossa força ou energia mental em cada
um dos atos triviais ou aos quais assim chamamos, mas empreguemos neles
somente a parte necessária de força para a boa execução do ato de que se trata,
deixando em repouso absoluto o resto das nossas forças, isto é, pondo-as de
reserva. O que importa realmente é não pensarmos em muitas coisas ao mesmo
tempo e não pensarmos em coisas diversas enquanto estamos praticando um
determinado ato.
Este especial estado mental permite-nos ter os olhos da inteligência sempre
vigilantes e, através deles ou por intermédio deles próprios, teremos uma notícia
exata e cabal de tudo quanto se passa ao redor de nós, enquanto estivermos
ocupados em qualquer coisa, importante ou não, aumentando, desta forma, as
possibilidades e até as probabilidades de bom êxito em todas as carreiras que
trilhemos e em todos os negócios da vida.
Devemos ter sempre, e em tudo, a necessária e indispensável presença de
espírito para nos não deixarmos levar por impulsos arrebatados, muitas vezes
sem motivo algum sério, dando tempo ao espírito para refletir com serenidade e
optar pelo que mais convier.
Cultivemos a calma reflexão, tanto no pensamento como nas ações, a respeito
de tudo, seja o que for; sejam fatos de importância capital ou inteiramente
destituídos dela, tornando assim cada vez mais sólidas, de dia para dia, as bases
da coragem, do valor e até do heroísmo, se assim o quiserem, e de força de
vontade, tanto física como moralmente.
Não se deve, porém, confundir a reflexão e a calma, com a preguiça e a
indolência. Assim como o pensamento se move com a rapidez do relâmpago ou
mais ainda talvez, assim tem de mover-se o corpo quando a ocasião o exigir,
mas somente depois de ter sido bem delineado e amadurecido, na mente, o
plano.
É preciso também notar-se que não convém educar a mente em uma só direção,
embora por essa via ela se orientasse de forma até poder chegar à formação do
gênio... Porque a história do gênio é na maior parte das vezes uma história
tristíssima, demonstrando-nos que este estado mental que os homens
denominam superior e transcendente mesmo, o é, na verdade, muitas vezes,
porém não faz a felicidade deles.
Se, tendo lido este livro, alguém afirmar: “Algo de verdadeiro existe no que esse
autor afirma!” — pode essa pessoa ficar bem certa de que por aí tem de começar
a sua cura, porquanto com tal exclamação manifesta que sua mente principia a
entrever, a vislumbrar pelo menos as luzes da verdade, embora as não enxergue
ainda bem claramente.
Há períodos na vida em que parece havermos olvidado tudo quanto
aprendemos, receando até termos volvido a ficar imersos nas profundas trevas
da ignorância. Este esquecimento, porém, é apenas temporário ou transitório,
devido exclusivamente a causas por nós desconhecidas. Toda verdade
entrevista uma vez não pode já morrer, antes se arraiga mais e mais
vigorosamente no nosso espírito, resplandecendo com seu máximo e mais belo
esplendor quando chegar a ocasião oportuna.
O que se dá é que, quanto mais numerosas forem as verdades que conhecemos,
tanto mais são também os defeitos que descobrimos em nós, razão por que nos
poderá parecer sermos hoje piores do que ontem éramos, o que não é verdade,
pois esquecemos que ontem estávamos cegos e, por isso, não víamos as nossas
grandes faltas.
Quero igualmente declarar que, se algumas destas páginas conseguirem
despertar nos meus leitores o desejo de corrigirem-se e aperfeiçoarem-se,
tornando-se, portanto, melhores, não se me atribua o mérito disso, a mim
individualmente, pois que eu apenas fui a centelha que ateou a luz do seu
espírito.
Nunca homem algum inventou uma verdade; ela não é propriedade exclusiva de
ninguém.
Assim como o ar que respiramos, a verdade pertence a todo o mundo, é de todos
os seres humanos. O que eu apenas fiz foi aproximar-me do homem e dizer-lhe
ao ouvido: Escuta! Como poderia ter eu a estulta pretensão de igualar-me ao
Criador?!
Contento-me em desempenhar o humilde ofício do fósforo que se chega ao bico
de gás e faz com que, subitamente, se ilumine a casa toda.
Foi esta, apenas, a minha obra ao aconselhar ao homem que, antes de tudo,
peça ao Poder Supremo lhe conceda a extraordinária e preciosa qualidade da
coragem e do valor.
4
A mente material e a mente
espiritual
Todo ser humano encerra em si um Eu elevado e puro e outro Eu baixo e mau
que, através das idades, vai crescendo e purificando-se, como tem igualmente
um corpo ou mente corpórea, que é apenas uma coisa transitória que vai além
do presente dia de hoje.
O espírito está cheio de ideias sugestivas, instigadoras, e de aspirações
nobilíssimas que recebe do Poder Supremo.
O corpo ou mente corpórea considera bárbaras essas ideias e denomina tais
aspirações de utopias.
A mente espiritual contém em si possibilidades e forças muito maiores, mais
fortes e poderosas do que todas aquelas que até agora tanto o homem como a
mulher têm possuído e desfrutado através de todas as eras.
A mente material ou corpórea diz-nos que só podemos viver como nas épocas
anteriores viveram os nossos antepassados. O espírito só anela libertar-se das
cadeias e dores que o corpo lhe impõe, ao passo que a mente física se empenha
em nos demonstrar que nascemos já fadados para o mal, para sofrer, e que,
quanto mais avançarmos na senda do progresso, mais sofreremos. O espírito
deseja ser o seu próprio guia, tanto no caminho do bem, como no do mal, e
encontrar em si próprio a direção adequada e propícia para ele.
A mente material diz-nos, pelo contrário, que devemos aceitar a mesma norma
de vida até aqui seguida pelos outros, a mesma bandeira pelos outros hasteada
e sugerida pelo entusiasmo de opiniões rotineiras, crenças velhas e velhos
preconceitos.
“Nunca mintas a ti próprio”, eis um provérbio ou rifão que frequentemente se
ouve. Porém, a qual Eu se refere?
Já por diversas vezes temos dito que cada um de nós tem em si duas
mentalidades, a física e a espiritual.
O espírito é uma força e um mistério. Tudo quanto sabemos ou podemos chegar
a conhecer a seu respeito é que existe e que estende a sua ação sobre todas as
coisas e fenômenos da vida física, pois vemos e verificamos os resultados dela
em tudo, mas muitos dos seus efeitos escapam à percepção dos nossos sentidos
físicos.
O que vemos de uma coisa qualquer, árvore, animal, pedra ou homem, é apenas
uma parte mínima dessa mesma coisa. Existe uma força que mantém durante
um espaço de tempo mais ou menos longo, a pedra e o homem na forma e sob
o aspecto em que os nossos olhos físicos os vêem, e esta força atua
constantemente sobre eles, em um grau maior ou menor. É esta força que forma
a flor, desde o pólen até a sua completa maturação e esplendor. Quando tal força
cessa de atuar sobre a flor ou sobre o homem, determina o que se chama a
decadência e a morte. Esta força está transformando contínua e constantemente
a forma de todos os seres constituídos pela matéria organizada. Nem a planta,
nem o animal, nem o homem conservam hoje exatamente a mesma forma física
que tiveram ontem ou hão de ter amanhã. A esta força que está sempre ativa e
que é, de certo modo, a criadora de todas as formas que a matéria apresenta
aos nossos olhos, é que nós damos o nome especial de espírito.
O ver, o raciocinar, o apreciar e julgar da vida e de tudo quanto se lhe refere ou
lhe é inerente, no conhecimento desta força, é o que se chama a mente
espiritual.
Em virtude desse conhecimento, possuímos o maravilhoso poder de fazer uso
desta força e dirigi-la, logo que a descobrimos e sabemos que existe, para nossa
saúde, para nossa felicidade e para a paz eterna de nossa mente. Nada mais
somos do que um composto desta força e, portanto, a estamos atraindo
constantemente, para ser convertida, depois, em parte do nosso próprio ser.
Quanto maior é a quantidade de força que o nosso organismo encerra, tanto
maior será também o nosso conhecimento.
No começo da nossa existência física, deixamos essa força agir cegamente,
porque ignoramos completamente essa condição especial, a que damos o nome
de mente material. Porém, à medida que a mente cresce e se fortalece, torna-se
mais esperta e um dia interroga-se a si própria: “Por que havemos de sofrer
tanto? Por que hão de ser tão grandes as nossas dores e penas? Por que parece
que só tenhamos nascido para adoecer e morrer?”
Esta pergunta é o primeiro grito de alerta e despertar que a mente espiritual solta.
E toda interrogação feita com o firme desejo de saber, de adquirir o
conhecimento da verdade, há de forçosamente ter a satisfatória resposta, um
dia, mais cedo ou mais tarde.
A mente material é uma parte do nosso Eu, de que o corpo se tem apoderado e
por ele próprio tem sido educado também. É como se disséssemos a uma
criança que são as rodas de um barco que o fazem mover-se, sem nada lhe dizer
nem explicar a respeito do próprio vapor, que é incontestavelmente a força motriz
das rodas.
O menino educado nessa falsa ideia, quando o barco se recusasse a navegar,
procuraria a causa disso nas próprias rodas. É isto justamente o que a muitos
sucede, pois têm a pretensão de alcançar a saúde e o vigor dos seus
movimentos só pelo fato de alimentar bem, isto é, muito, o seu corpo material,
sem pensar que a imperfeição ou dano pode estar no verdadeiro motor, única
fonte da força — a mente.
A mente material ou corpórea considera e julga tudo sob o ponto de vista físico
somente, vendo apenas aquilo que em nosso próprio corpo material está contido.
Em compensação, a nossa mente espiritual vê o corpo somente como um
instrumento de que há de servir-se o nosso verdadeiro Eu para se pôr em contato
com as coisas do mundo material.
A mente corpórea ou física vê, na morte do corpo, o fim de todas as coisas, ao
passo que a mente espiritual só vê, na morte do corpo, uma nova libertação do
espírito, o ato de abandonar este instrumento, já gasto ou imprestável, inútil,
porquanto o espírito sabe que, embora invisível para os olhos materiais, existe
sempre, como antes da morte do corpo.
A mente material julga que a força nos provém toda dos músculos e nervos, sem
mesmo admitir que, ao menos em parte, ela possa provir-nos de uma fonte muito
diversa e alheia a ele e fora dele, e só nesse poder confia para agir no mundo
físico, como nós confiamos também na palavra ou na pena para nos
comunicarmos com os outros homens. Chegará contudo a descobrir um dia, a
mente espiritual, que o pensamento pode influir sobre as pessoas, embora se
encontrem muitas milhas distantes de nós, tanto a favor como contra os nossos
interesses.
A mente material não acredita que o seu pensamento seja uma coisa tão real e
verdadeira como a água que bebemos ou o ar que respiramos. Mas a mente
espiritual sabe, pelo contrário, que cada um dos mil pensamentos por nós
formulados todos os dias, secretamente, é uma coisa real, um elemento
verdadeiro que atua sobre a pessoa ou pessoas para as quais é dirigido; como
igualmente sabe, também, que toda matéria nada mais é do que manifestação
do espírito ou força; que tudo quanto é material ou físico continuamente se está
modificando de acordo com o espírito, que se exterioriza a si próprio sob a forma
por nós denominada matéria.
Por conseguinte, se com firmeza, persistência e constância, mantivermos em
nossa mente espiritual ideias de saúde, força, fortuna e ventura, e a possibilidade
de readquirir ou recuperar as nossas perdidas energias, essas mesmas ideias
terão a sua expressão física no corpo, providenciando de forma que nunca
decaia, e não tenha fim o seu vigor, nem sequer diminua, antes aumente a
acuidade de cada um de seus sentidos físicos.
A mente material acredita que a matéria, isto é, o que os nossos sentidos físicos
nos fazem conhecer, é tudo ou quase tudo quanto existe neste mundo.
Do seu lado, a mente espiritual apenas considera a matéria como a expressão
mais baixa e grosseira do espírito, sabendo também que ela é uma diminutíssima
parte de tudo quanto existe.
A mente material entristece-se ante o aspecto da decadência e da morte. A
mente espiritual nenhuma importância liga a tudo isto, por saber que o espírito
ou a força que o move tomará novamente o corpo ou a árvore apodrecida, e
vivificando todos os seus elementos, com eles constituirá outra vez alguma nova
forma material de vida e de beleza. A mente do corpo acredita que os únicos
sentidos que o homem possui são os sentidos físicos da vista, da audição, do
tato, do olfato e do paladar, porém a mente mais elevada, a mente do espírito,
sabe que ele é possuidor de mais outros sentidos por nós desconhecidos,
semelhantes aos físicos, porém ainda muito mais poderosos e de muito maior
alcance.
A mente do corpo tem sido denominada, em diversas ocasiões, mente material,
mentei mortal ou mente carnal. Todos estes termos se referem a uma só e
mesma coisa, isto é, a essa parte do nosso Eu que tem sido educada no erro,
pelo próprio corpo. Aquele que tivesse nascido e se tivesse educado sempre
entre pessoas que acreditam ser a terra uma superfície plana e que não gira em
volta do sol, acreditá-lo-ia também, tal e qual elas o acreditam.
É exatamente assim que absorvemos, durante os primeiros anos juvenis de
nossa existência terrestre, todos os pensamentos das pessoas que nos rodeiam
ou que mais próximas estão de nós, as quais crêem que é unicamente o corpo
que constitui o seu ser e de todas as coisas julgam pelo que os sentidos lhes
mostram. É isto que constitui a nossa mente material.
Vendo a mente material que se produz a decadência, a dissolução e a morte em
toda criatura humana, ou antes o que ela julga como tal, desconhecedora do fato
de que a mente espiritual ou o verdadeiro Eu nada mais faz com tal processo do
que abandonar um invólucro já gasto e inútil, pensa que a decadência e a morte
são sempre o fim de todo ente humano, de todo organismo vivo. Por este motivo,
não pode evitar a tristeza e o desalento oriundo de semelhante erro, que
preenche literalmente a maior parte da nossa existência terrestre. Um dos
resultados dessa tristeza, que nasce da falta de esperança, é um espírito
desassossegado que põe o máximo em proporcionar-se todas as alegrias e os
prazeres, sem ver se são justos e retos na atual existência do corpo. É este um
erro enorme. Toda energia que por acaso se adquira em semelhante disposição
de espírito não pode ser, de nenhuma forma, duradoura, trazendo, além disso,
consigo, em partilha, muita dor e miséria física.
A mente espiritual ensina-nos, pelo contrário, que o prazer e a alegria são os
maiores estímulos da existência. Mas estes prazeres e alegrias são muito
diversos dos prazeres e alegrias apreciados pela mente material. A mente
espiritual — que sempre está aberta às mais elevadas e puras ideias da vida —
ensina-nos que existe uma lei que regula o exercício de cada um dos sentidos
psíquicos e, quando conhecemos e seguimos fielmente esta lei, diminui a fonte
das nossas dores até estancar-se totalmente, e aumenta a dos nossos prazeres,
que crescem tanto mais, quanto mais cresce a observância da dita lei.
Por mente espiritual compreendemos uma visão mental muito mais nítida e clara
das coisas e forças existentes, ao mesmo tempo, em nós e no Universo, e das
quais a Humanidade tem vivido até agora na maior ignorância.
Atualmente, chega até nós um diminuto vislumbre destas forças e, embora a sua
claridade não seja muita, ela tem sido suficiente para convencer a alguns de que
as causas reais e verdadeiras da dor humana foram ignoradas nos tempos
antigos. Na realidade, a Humanidade tem sido como aqueles meninos que
acreditam ser o moleiro quem, do interior das velas, mói o grão, porque alguém
lhe disse isto. E até que não se lhes diga o contrário, os meninos estarão na
completa ignorância de que é o vento que faz girar o moinho.
Não se imagine que este exemplo seja uma imagem exagerada da ignorância
dos homens, a qual repele a ideia de que o pensamento é um elemento que nos
rodeia por todos os lados constituindo uma força propulsora tão potente como o
próprio vento, com a diferença que, dirigida às cegas pelos homens, no domínio
da mente material e da ignorância, fez girar as velas do moinho humano em
direções diversas, ora boas, ora más, proporcionando umas vezes resultados
magníficos e outras vezes verdadeiros desastres.
O corpo não é constituído dos trajes que ele usa e, contudo, a mente material
raciocina como se assim fosse. Não conhece que ele nada mais é do que uma
espécie de roupa para o espírito, pela ignorância em que está de que o corpo e
o espírito são duas coisas inteiramente diversas, julgando assim que é o corpo
aquilo que apenas constitui o homem e a mulher. E quando esse homem e essa
mulher caem acabrunhados pelos sofrimentos morais e físicos, empregam todos
os seus esforços em refazer o vestido em farrapos, sem se lembrarem de
restaurar e reforçar antes a força anterior, o verdadeiro fabricante da roupa.
Não há, provavelmente, duas individualidades em quem a mente corpórea e a
espiritual operem e raciocinem exatamente da mesma forma. Em alguns parece
não ter despertado ainda a mente espiritual. Em outros começa já a entreabrir
os olhos como os nossos olhos físicos fazem, quando despertamos,
aparecendo-nos todas as coisas vagas e indistintas. Outros estão quase
completamente acordados e sentem que, em volta deles, existem certas e
determinadas forças em que nunca tinham pensado, embora se servissem delas.
Nestes, já está travada a luta do predomínio entre a mente espiritual e a corporal,
luta que, algumas vezes, pode ser acompanhada de grandes perturbações
físicas, dores fortíssimas e absoluta carência de tranquilidade de espírito.
A mente corpórea, enquanto não foi subjugada e totalmente vencida e
convencida da verdade, é sempre recebida pela mente espiritual de lança em
riste e em tom de desafio.
A parte ignorante do nosso Eu opõe uma resistência hercúlea a desprender-se
dos seus modos habituais e rotineiros de pensar; e em cada caso tem o espírito
de travar uma renhida batalha para nos induzir firmemente à convicção e
libertação de um erro qualquer estabelecido.
A mente física só deseja seguir sempre os caminhos rotineiros de suas ideias
cediças. Quer fazer e continuar sempre a fazer apenas o que tem feito, o que
seus antepassados fizeram. É isto o que sucede atualmente à imensa maioria
dos homens, e, à medida que os anos passam, mais espessa e dura se torna a
crosta de seus velhos pensamentos e, portanto, maior dificuldade encontra em
se modificar ou renunciar às suas velhas e errôneas crenças.
Quer e deseja viver sempre na casa onde longos anos tem vivido, vestir segundo
seus antigos hábitos, ir aos seus negócios ou ocupações e voltar cotidianamente
à casa à mesma hora, e isto durante anos e anos.
Ao chegar a certa idade nega-se absolutamente a aprender qualquer coisa de
novo e até chega a menosprezar todas as artes, como a música, a pintura e
outros trabalhos artísticos que muito contribuíram não só para o distrair, mas
também para lhe robustecer a mente espiritual, proporcionando-lhe o repouso
necessário, sem mencionar o prazer que o espírito sente em ensinar ao corpo
maior habilidade, destreza e aptidão para uma profissão ou ofício.
No exercício de qualquer arte, a mente corpórea apenas sabe ver o meio de
ganhar dinheiro e nunca o modo de tornar aprazível e variada a existência,
destruindo toda fadiga e repousando, assim, a parte da inteligência dedicada aos
negócios ou preocupações habituais, aumentando, deste modo ou destarte, a
saúde e o vigor do espírito e do corpo. A mente material mantém fixa a ideia, à
medida que o corpo avança em idade, que já é demasiado velho para aprender.
É isto o que dizem muitíssimas pessoas antes de terem chegado ao que chamam
meia-idade, aceitando como incontestável e invencível a ideia de se irem
fazendo velhos.
A mente material diz-lhes que o seu corpo se irá debilitando gradualmente,
perdendo, pouco a pouco, as forças juvenis até chegar por fim à morte.
A inteligência ou mente corpórea diz que sempre assim tem sido e, portanto,
assim será sempre também no futuro, e aceita esta ideia sem sequer discuti-la
ao menos. Isto tem de ser assim, diz ela, com plena inconsciência do que diz.
Dizer que uma coisa há de ser é a maior força que se pode pôr em ação para
que se realize. A mente material vê que o corpo corre para uma decadência
gradual, lenta por vezes, é certo, porém inevitável. E embora trate, de quando
em quando, de afastar esse espetáculo da vista, a ideia reaparece uma vez ou
outra, como sugestionada pela morte de seus contemporâneos, o que nela
desperta a ideia de que há de ser; e este estado mental suscitado por essa frase
é o que determinará a inevitável decadência física.
O espírito, ou antes, a mente melhor inspirada diz: — “Quando alguém sentir que
está entrando no caminho da fraqueza ou decadência, dirija o seu pensamento,
com toda a energia que lhe for possível, para ideias de saúde, bem-estar e vigor;
pense em coisas materiais alegres, saudáveis, animadoras, que encerram tais
ideias; por exemplo, nas encasteladas nuvens, na fresca brisa, na espumante
cascata, nas tempestades do oceano, no bosque de robles seculares ou nos
pássaros que, nos viridentes ramos, soltam alegres e harmoniosos gorjeios,
cheios de vida e de movimentos.”
Agindo assim, atrairemos uma positiva e verdadeira corrente de vida e saúde,
encerrada nas coisas materiais aqui mencionadas e outras semelhantes. E,
acima de tudo isso e com isso, se aprende a confiar no Poder Supremo que
formou todas essas belas coisas e muitas mais, o que constitui a infinita e imortal
parte do nosso Eu mais elevado, isto é, a nossa mente espiritual; à medida que
a nossa fé no dito Poder aumente, aumentarão também as nossas forças.
Responde a mente material: “Isto é um absurdo! Se o meu corpo está doente,
devo procurar curá-lo com coisas materiais que eu possa ver e sentir; é isto, e
só isto, o que tenho a fazer. Quanto ao pensamento, é indiferente pensar na
enfermidade ou na saúde.”
Pode acontecer que qualquer mente que comece a despertar e sentir toda a
força destas verdades permita, em muitos casos, que a sua própria mente
material ridicularize e menospreze alguma destas ideias, sendo coadjuvada por
outras mentes espirituais, ainda não despertadas também de todo a estas
verdades e em quem a ignorância é a força mais positiva nela radicada
transitoriamente.
Há pessoas que, com um telescópio na mão, não vêem tão longe quanto outras
podem ver, sendo possível, por esse motivo, que elas duvidem, de boa-fé, ser
verdade o que as outras dizem ver. Embora tais pessoas não digam nem
desmintam as crenças de quem já tem a mente mais desperta e esclarecida,
nem por isso deixa de atuar o seu pensamento como uma barreira ou cortina
que intercepta a luz da verdade e a impede de chegar aos seus olhos.
Porém, quando a mente espiritual começou uma vez a despertar, nada pode
deter o seu acordar definitivo. Só a ação da matéria pode retardá-lo mais ou
menos.
“O nosso verdadeiro Eu pode não se encontrar onde se encontra o nosso corpo.
Ele está sempre onde está o nosso pensamento — no negócio, no escritório, na
oficina ou junto de alguém para quem nos sentimos atraídos pelos laços de afeto
ou de rancor, e ainda em lugares muito afastados do ponto aonde se encontra o
nosso corpo. O nosso verdadeiro Eu move-se com a mesma inconcebível
rapidez com que o faz o nosso pensamento.”
E a mente material diz: “Isto é um absurdo. O meu Eu está sempre onde o meu
corpo se encontra e em nenhuma outra parte.”
Muitos dos pensamentos ou ideias que repelimos às vezes como impossíveis ou
filhos de pura fantasia são apenas procedentes da mente espiritual, e é a mente
física quem a repele e menospreza.
Não nos ocorre ideia alguma que não encerre em si alguma verdade; o que
sucede é que nem sempre somos capazes de descobri-la e compreendê-la de
um modo perfeito. Há alguns séculos ou talvez mil anos que um homem pôde
ter concebido a ideia de que o vapor existia como fonte de força e poder
inextinguíveis. Era necessário, para isso, produzir um certo progresso —
progresso na manufatura do ferro, na construção de estradas e nas
necessidades criadas pelos homens. Mas isto não impede que a ideia de
aproveitar o vapor como origem de força não fosse uma verdade. Mantida esta
verdade, uma série de mentalidades acabou por trazer as aplicações do vapor à
sua presente e relativa perfeição, para o que a dita ideia teve que lutar contra as
negações e obstáculos que iam lançando em seu caminho as mentes materiais,
cegas e grosseiras.
Quando uma ideia qualquer nos ocorre, e dizemos a nós próprios: “Bem, eis aqui
uma coisa que poderia ser muito boa, embora não veja, neste momento, como
possa acontecer”, deitamos por terra uma grande barreira, abrindo um largo
caminho para a realização das mais novas e extraordinárias possibilidades em
nós latentes.
A mente espiritual sabe hoje que possui, para conseguir toda espécie de
fenômenos sobre o mundo físico, um poder muito maior do que a maior parte
das pessoas pensa, e vê que, a esse respeito, o mundo se acha imerso nas mais
densas trevas da crassa ignorância.
Todavia, o homem espiritual conhece já o caminho a seguir para conseguir uma
saúde perfeita, para se libertar da decadência e ainda da morte física, para se
transladar de um ponto a outro e observar quanto quiser, inteiramente
independente do corpo e para conseguir todas as coisas materiais de que tenha
necessidade ou desejo, mediante somente a ação da prece ou súplica silenciosa
em comum com os outros homens 1 ou isoladamente.
1. Bases do Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento.

A condição mental que mais devemos desejar é o completo domínio da mente


espiritual. Isto porém não significa que a mente material ou corpo deva
inteiramente e em toda ocasião ser martirizado pelo espírito; significa apenas
que a sua resistência e oposição aos impulsos do espírito têm de ser vencidas.
Nada mais significa senão que a mente material ou o corpo não deve empenhar-
se em predominar sobre o espírito, quando, na realidade, ela constitui somente
a parte inferior da personalidade humana. Pelo predomínio do espírito,
entendemos esse especial estado em que o corpo coopera de boa vontade e
alegremente com todos os desejos da mentalidade espiritual.
É então que o espírito poderá gozar de todas as suas faculdades e poderes, pois
não terá de desbaratar nenhuma porção da sua força em vencer a hostilidade da
mente material.
Podemos, então, empregar todas as nossas energias na empresa que deve ou
há de trazer-nos toda espécie de bens materiais, aumentando cada vez mais as
nossas potências, a nossa paz e a nossa felicidade, até chegar à realização do
que hoje, decerto, seria tido por milagre.
A mente material ou física nunca se deve misturar com a espiritual em coisa
alguma do que se possa referir às privações ou castigos que a nós próprios
infligimos, por pecados ou faltas cometidas. Bastaria só esta mistura para nos
levar a convertermo-nos em verdadeiros fanáticos, em homens inexoráveis e
sem piedade, tanto para conosco como para com o próximo. Esta grande e
indubitável perversão da verdade tem dado origem a frases cruéis, tais como
estas: crucificar, subjugar o corpo, martirizar a carne. Foi desta mesma
perversão ou má compreensão da verdade que brotaram essas ordens religiosas
ou associações de homens e mulheres que, caindo no extremo exagero,
procuram a santidade na privação de todo conforto e no próprio martírio.
A palavra santidade significa ação integral do espírito sobre o corpo, mediante o
conhecimento do Poder Supremo, em maior proporção de dia para dia.
Quando perdemos a paciência conosco, quando não nos podemos suportar a
nós próprios — devido às repetidas investidas e ataques da mente material ou
por nossos frequentes delitos e recaídas nos pecados que nos assediam ou por
vivermos em determinados períodos de irresistível intemperança — nenhum
bem faremos em nosso favor pensando sempre mal de nós e apostrofando-nos
com os piores epítetos.
O homem nunca deve chamar-se a si próprio: mísero pecador, e ainda menos
com maior energia e intensidade do que chamaria aos outros. Ao pronunciar esta
frase, materializamos a ideia nela contida e, pelo menos temporariamente,
convertemo-la em realidade.
Se muito frequentemente pusermos diante de nosso espírito a visão de sermos
um miserável pecador, o que inconscientemente faremos é que essa visão se
converta em um ideal que, de dia para dia, se robustecerá cada vez mais,
produzindo-nos grave dano, até obrigar-nos a retroceder no caminho do nosso
progresso, o que nos arruinará o nosso próprio corpo. Porque, após esse estado
mental que tem sido tão preconizado nos tempos passados, vem sempre a
dureza de coração, a hipocrisia, a falta de caridade pelo próximo, a misantropia
e a mesquinha concepção da vida — estados mentais próprios apenas para nos
trazerem toda espécie de enfermidades físicas.
Quando a mente material permanecer no sítio que lhe corresponde, ou antes
quando nos convencermos da existência verdadeira desta força espiritual, dentro
e fora de nós ao mesmo tempo, e quando aprendermos a fazer uso dela com
retidão — pois de alguma forma temos usado dela em todos os tempos —
compreenderemos então as palavras de Paulo: “A morte foi absorvida na vitória”,
e o pavor e a aflição da morte desaparecerão. Então se converterá a vida em
uma marcha triunfal, caminhando do prazer de hoje aos prazeres vindouros; e a
palavra viver significa somente alegria.
5
A tirania mental
Nenhuma outra tirania está tão difundida pelo mundo como a que uma
mentalidade exerce sobre outras mentalidades. É uma tirania em que,
frequentemente, o tirano ignora que a exerce e os que a sofrem ignoram que são
tiranizados.
De mais a mais, o tirano encontra-se quase sempre na mais completa ignorância
dos meios que inconscientemente emprega para tiranizar os seus semelhantes,
assim como estes os ignoram absolutamente.
Pode suceder a qualquer de nós cair, quando menos o pensarmos, sob o
despótico domínio mental de alguém e, desse momento em diante, começamos
a agir unicamente de acordo com os desejos e a vontade dessa pessoa, julgando
agir só em harmonia com os nossos próprios desejos e vontades, não chegando
nunca essa tirania a ser tão absoluta e completa como quando aqueles que a
sofrem julgam estar completamente libertos dela. A este respeito, o filho pode
ser, muitas vezes, o verdadeiro tirano dos próprios pais, e o empregado, de seus
superiores.
A criança, que nada mais é do que um espírito novamente encarnado, pode
possuir uma mente espiritual poderosíssima, extraordinariamente superior à dos
que a rodeiam. E sucede isso porque a mente espiritual dessa criança é, talvez,
muito mais velha do que a dos pais que lhe deram um novo corpo físico. Ela
pode, mediante as suas anteriores existências terrenas, ter alcançado um grau
de purificação muito mais elevado do que seus pais. É de ver que ignorará o
poder que sobre elas exerce, porém, com seus caprichos e desejos, bem como
na afirmação que inconscientemente fará do seu próprio caráter; atuando a sua
mente sobre a de seus pais, será sempre a criança quem há de governar e fazer
só o que lhe aprouver; será sempre, em sua casa, o verdadeiro rei e despótico
dominador.
Pelas palavras mente poderosa ou mente superior, não queremos exprimir a
significação que vulgarmente se lhe dá, isto é, instruída ou talentosa. Apenas
desejamos designar o poder superior dessa força que vai de uma mente à outra,
embora os respectivos corpos estejam a enormes distâncias uns dos outros.
Pode até dar-se o caso de uma pessoa ignorantíssima ser dotada dessa
extraordinária força. A tal pessoa é possível alcançar, no futuro, grandes e
incontestáveis triunfos e êxitos admiráveis em todos os negócios que
empreender. O mundo denomina isto: força de vontade ou caráter ou, ainda,
sorte. A verdadeira instrução, porém, só consiste no especial poder espiritual
que a mente possui para a ação externa e de forma alguma nas coisas e fatos,
frequentemente errôneos, aprendidos nos livros e que facilmente podem ser
acumulados na memória. Se a sua mentalidade for superior à minha,
indubitavelmente é que a sua influência sobre mim ou sobre muitos outros é
superior à minha, atua sobre todas as mentalidades que lhe forem inferiores, o
que — à falta de um termo apropriado — denominaremos aqui influência
mesmérica. Foi esta influência mental que Napoleão exerceu sobre todos os
seus soldados. Todos eles, oficiais e soldados, sentiram a influência de seu
espírito, assim como os nossos sentidos físicos sentem a ação dos raios solares.
Perguntará talvez alguém: “Então por que se não serviu ele desse poder para
obter sempre a vitória até o fim da sua vida?”
Porque, por ignorância do seu verdadeiro poder mental, incorreu no erro comum
de permitir que forças mentais estranhas, de uma ordem inferior à sua, se
mesclassem com o seu espírito, perturbando-o e adulterando-o. É como se
tivesse misturado a pólvora dos seus canhões com serradura molhada, o que
decerto lhe teria diminuído e até destruído toda a força.
Quando Napoleão abandonou Josefina para se ligar a outra mulher de
mentalidade inferior, destruiu de uma vez para sempre a força e poderosa
energia do seu espírito, não podendo, daí em diante, exercer mais sobre os
outros homens o seu antigo poder e influência; Josefina era a companheira
natural, o verdadeiro complemento de Napoleão, não segundo a lei dos homens,
mas pela lei do Infinito.
Embora separados por enormes distâncias, enquanto o espírito dela viveu com
ele, misturando-se com o seu, a influência dele foi grande sobre os outros
homens.
Aquele que tem algum fim em vista, algum propósito na vida e quer atingir a
realização de alguma empresa bem determinada, fará muito mal e se prejudicará
muitíssimo a si próprio, se, para tal empenho, se unir em íntimas e estreitas
relações de afeto e simpatia, com pessoas que não sintam interesse algum pelo
que tanto o interessa a ele.
Podemos associar-nos e unir-nos com os outros homens só na medida que for
necessária para levar avante os nossos fins, quaisquer que eles sejam. Porém,
na eleição das nossas mais íntimas amizades, devemos empregar o mais
rigoroso cuidado. Se admitirmos em nossa intimidade uma pessoa muito inferior
mentalmente a nós, compartilhando com ela nossas horas de lazer, colocamo-
nos em condições de a nossa força mental ser, em parte, desviada dos intuitos,
planos, empresas que mais nos interessavam; e até pode mais ou menos influir
essa mentalidade inferior sobre a nossa, de forma a prejudicar enormemente o
fim que tínhamos em vista.
Haverá, pois, algum perigo na mesma sociedade e união com as outras
pessoas? Certamente que sim, e enorme. Dos nossos companheiros ou amigos
mais íntimos, adquirimos elementos de vida ou de felicidade, de morte e de
desventura, de valor ou de covardia, de bondade ou de maldade, de pureza e
elevação do espírito ou de perversão e baixeza de caráter, de confiança e fé ou
de desesperança e desânimo, de clara inteligência e sensatez ou de perturbação
mental e até de completa demência.
Os elementos mentais que dos outros absorvemos e imediatamente
exteriorizamos como nossa própria ação, constituem os agentes mais poderosos
e, ao mesmo tempo, mais sutis que em todo o universo possam agir em nosso
favor ou contra nós, e operar para o nosso bem ou para nosso mal. Todavia, não
é necessário quebrarmos subitamente as relações com qualquer pessoa, só pelo
receio de que a sua amizade nos possa prejudicar, nem devemos também ligar-
nos de um momento para outro só pelo fato de nos parecer que, da sua
companhia ou associação, nos advirá grande benefício. Deixemos os espíritos
procederem de seu moto próprio e com plena liberdade em um e outro caso.
Se para nós for conveniente separar-nos ou, pelo menos, afastar-nos, embora
temporariamente desta ou daquela pessoa, é fora de toda dúvida que a própria
lei espiritual acabará por determinar essa separação, se a deixarmos operar livre,
mas gradualmente, sem choques, nem violência. Essa lei irá interpondo, entre
nós e os outros, meios ordinários, condições materiais de vida, que nos irão
afastando uns dos outros, mas naturalmente, sem, de forma alguma, alterar a
nossa paz e o sossego do espírito.
O Espírito Infinito sabe determinar toda espécie de acontecimentos pelos meios
mais fáceis e simples, conduzindo-nos ao nosso destino por caminhos retos e
suaves, ao passo que os homens quase sempre enveredam por caminhos
escabrosos e cheios de precipícios.
O homem absorve mais facilmente os elementos mentais de ordem feminina do
que os de seu próprio sexo.
Os homens são mais facilmente dominados por uma mulher do que por um
homem, da mesma forma que toda mulher, com mais facilidade, será certamente
mais dominada por um homem do que por outra mulher.
Todavia, esta influência mesmérica pode ser inteiramente inconsciente e até
ignorada pelo que a suporta ou é vitimado.
O homem que tem entre as mãos alguma empresa difícil e, nas suas horas
vagas, acha distração e encanto na companhia de qualquer mulher que pouco
ou nenhuma simpatia sente pelas aspirações ou anelos que lhe enchem o
coração e o cérebro, se, de dia para dia, maior atração sentir para ela,
conhecendo com frequência que a sua recordação lhe absorva por completo o
pensamento, não resta a menor dúvida de que tal mulher lhe fará perder uma
grande quantidade de força, que, empregada melhor, contribuiria bastante para
a realização e bom êxito dos seus projetos, tornando-se, desta forma, o que o
povo chama, talvez com justa razão — o seu gênio mau. Em tais condições, nós
próprios nos sentimos, até com surpresa, desanimados, sem coragem nem
força, e num estado de espírito inteiramente impróprio para levar avante os
nossos desejos e planos, chegando, às vezes, a tornar-nos inteiramente
indiferentes àquilo que outrora tanto nos interessava. É porque a influência
mental dessa mulher terá extinguido ou pelo menos amortecido, em nós, a calma
progressiva e o firme entusiasmo que tornam seguro o êxito.
Que sucedeu, então? Nada mais do que termos absorvido os elementos mentais
dessa mulher. Sucedeu apenas que atualmente pensamos de acordo com o seu
modo de sentir e portanto, a nossa fé, a nossa profunda crença e entusiasmo de
outrora, foram inteiramente substituídas pela sua indiferença e incredulidade.
Ora, tal seja o nosso pensamento, tal será a nossa ação.
A mentalidade dessa mulher enxertou-se na nossa, convertendo-se em uma
parte integrante de nós próprios, sendo destarte mais ou menos intensamente
dominados por ela, ainda que ela ignore por completo tal fato.
Essa mulher pode ser muito agradável e fascinadora, decorrendo rapidamente,
como por encanto, o tempo que passamos junto dela. Nela encontramos um
encanto, uma magia singular, e não nos preocupamos sequer com as horas
perdidas em sua companhia, embora tenhamos já compreendido que o espírito
dessa mulher não tem afinidade alguma com as nossas mais profundas
convicções e até procuramos esquecer a zombaria que ela faz de nossas
crenças mais íntimas e sagradas, de tudo o que nós mais respeitamos e
veneramos.
E se é a mulher quem possui a superioridade mental e, por sua vez, é subjugada
ou encantada por uma mentalidade masculina inferior, é absolutamente certo, é
evidente que gravíssimo dano ela sofrerá.
Nestas condições, o encanto não pode durar muito tempo. Tornando-se mais
íntimo o conhecimento, à medida que se vão estreitando as relações e se vai
estabelecendo maior intimidade entre eles, quando a amizade se deveria tornar
mais profunda, quebra-se de repente num e no outro, e algumas vezes
felizmente em ambos, de parte a parte, ao mesmo tempo.
Antes, porém, disso suceder, podem ter-se unido um ao outro, o homem e a
mulher, pelo que o mundo chama o matrimônio, restando-lhes então, ante si,
longos e crudelíssimos anos de sofrimentos horríveis, porquanto, desfeito o
encanto, ver-se-á que tal casamento não era o verdadeiro casamento, no
elevadíssimo sentido que esta palavra tem para nós, mas um triste simulacro de
matrimônio.
Vemos assim explicado aquele preceito apostólico: “Nunca vos unais com
vossos desiguais.” O que possuir verdadeira fé no Infinito ou na Mente Suprema,
nunca será desamparado neste ponto.
O que no homem causa todos os males e todas as perturbações morais é apenas
o seu louco empenho em querer avançar e progredir na vida sem pedir um
conselho ou guia à Sabedoria Infinita e Suprema.
O mesmerismo ou hipnotismo nada mais é do que uma das variadíssimas formas
que pode assumir a tirania mental. Nas aplicações deste fenômeno, o operador
chega a alcançar um domínio tal sobre o paciente, que o corpo deste se move e
procede em tudo só de acordo com o pensamento e a vontade daquele. Isto é,
a pessoa hipnotizada permite inconscientemente à sua própria mentalidade
separar-se do seu corpo, tornando-se o hipnotizador senhor absoluto dele, como
de seu próprio corpo.
Como pode o hipnotizador obter semelhante resultado, nem ele mesmo o pode
nem sabe explicar a si próprio satisfatoriamente. Sabe apenas que dispondo a
sua mente em determinada atitude, com relação a certa pessoa de um
determinado temperamento, pode exercer nela absoluto e completo domínio. Por
vezes, inicia a produção de tal fenômeno, fixando a atenção do paciente em um
objeto material qualquer — um dos traços, por exemplo, da sua própria mão.
Consegue, deste modo, fazer concentrar a mente do paciente em um ponto
único, permanecendo, por consequência, em situação menos positiva ou menos
antagônica ante a vontade do operador, ao passo que a mente deste último terá
o pensamento fixo no que o outro deve fazer, dizendo-lhe mentalmente: “Hás de
fazer isto ou aquilo... Hás de proceder desta ou daquela forma... Hás de
forçosamente pensar neste ou naquele assunto. O teu braço está hirto, as tuas
pernas ficam imóveis, não podes dar um passo”, etc.
As nossas ações estão sempre de acordo com o nosso pensamento. O
pensamento do operador apodera-se do pensamento do paciente e, portanto,
este só poderá agir de acordo com a vontade daquele.
Todavia nem com todas as pessoas pode o operador proceder da mesma forma.
Por quê? — Porque aquele que possui uma mente poderosa, tendo-se formado
e educado energicamente a si próprio e está firmemente resolvido a não se
deixar dominar nem ser joguete de ninguém, por ninguém pode ser realmente
dominado. Esta condição mental nos evitará igualmente cairmos sob o domínio
ou sermos simplesmente influenciados pelos homens ou mulheres que nos
rodearem ou estejam junto de nós, na vida cotidiana, onde realmente se está
produzindo continuamente esse domínio de umas mentalidades sobre as outras.
Uma mente encarnada em um corpo físico pode também ser dominada por um
espírito desencarnado, o qual poderá até utilizar-se, mais ou menos
intensamente, do corpo pertencente à mente possuidora do corpo material.
Esta fase da ação mental de uma mente sobre a outra toma em nossos dias o
nome de mediunidade.
Não devemos olvidar que a mente destituída de corpo físico pode, a seu turno,
ser trivial, vulgar, ignorante, néscia, mentirosa e até perversa. Assim como pode
também, utilizando-se do órgão da palavra de outrem, atribuir-se falsamente a si
própria os caracteres de alguma personalidade famosa, contemporânea ou de
antigas eras.
De ordinário, a mente desencarnada apodera-se da pessoa mortal cuja mente
mais pontos de contato ou semelhança oferece com a sua própria. Esta forma
de ação de uma mente sobre outra, em certas e determinadas circunstâncias e
condições, pode ser um meio de realizar e fazer grandes benefícios. Da forma,
porém, como se utilizam hoje dela, é antes fator de grandes males, como sempre
sucede com o desenvolvimento de toda força nova que neste mundo se
manifesta, até que seja bem compreendida e melhor utilizada.
Ninguém pode, sem grave dano para si mesmo, entregar-se passivamente ao
domínio ou influência mental dos outros, de outras mentalidades, quer possuam
um corpo físico, quer sejam destituídos dele.
Tais formas do domínio mental denominadas mediunidade, hipnotismo, etc., só
constituem uma pequeníssima parte da ação completa desta lei.
As mentes humanas estão exercendo o seu domínio e atuando constantemente
sobre outras mentes ou sendo dominadas por elas a seu turno. A separação ou
afastamento dos corpos tem pouquíssima influência sobre a ação destas forças
mentais. Existindo íntima amizade entre nós e qualquer pessoa, é evidente que
a sua mente pode influir e preponderar sobre a nossa, tanto para o bem, como
para o mal, embora o corpo permaneça a uma grande distância, até que a sua
força seja destituída ou desviada pela ação de alguma outra mentalidade.
Podemos viver inconscientemente sob o poder mental de outras pessoas,
podendo elas exercer a sua ação influência sobre nós, inconscientemente
também e sem mesmo terem a mínima ideia de como ou de que modo se realiza
a sua influência. Se a pessoa que atua sobre nós desta forma sente a aspiração
constante e firme de que procedamos em harmonia com os seus desejos, se
sentirmos íntima e veemente simpatia por ela e não estamos em antagonismo
com os seus desejos, sentir-nos-emos positivamente dispostos a proceder de
conformidade com ela, pensando e estando bem convencidos que somente
agimos segundo o nosso critério e mais claro entendimento, ou segundo os
nossos desejos.
Pode suceder que a nossa vontade seja positiva, a nossa mentalidade mais forte
e potente do que a da pessoa que influi sobre nós; ignorantes, porém, desta lei
mental, isto é, de que uma mente pode influir e atuar sobre outra, inteira e
independentemente da força física de qualquer natureza, desconhecendo por
completo o fato de que a dita mente pode até influir sobre a nossa, a enormes
distâncias, sentir-nos-emos naturalmente numa situação desvantajosa, pois,
ignorando a existência de uma força tão potente quanto sutil, é evidente que nem
sequer em sonhos pusemos em nossa mente a ideia de resistir-lhe ou opor-nos
ao seu influxo.
Deste modo, ficaremos indefesos contra o predomínio de qualquer pessoa. Eis
como uma mentalidade relativamente débil pode dominar outra mentalidade
mais forte, porque esta última, cega pela própria ignorância, consente em ser
algemada por essa cadeia mental. E tal tirania se exerce em toda parte e
ocasião. O marido domina a esposa, ou a esposa o marido. A irmã governa o
irmão, ou o irmão a irmã. Aquele que temos na conta do nosso melhor amigo
pode ocultar em seu coração o veemente desejo de que pratiquemos este ou
aquele ato que convenha aos seus intentos ou fins, embora na plena consciência
do seu culpado egoísmo.
Porém, inconsciente ou não, o que é evidente é que essa força exteriorizada por
aquele nosso amigo conseguirá, finalmente, o fim desejado, a não ser que,
conhecedores dessa lei, nos coloquemos em situação positiva para podermos
repeli-la.
Desde a primeira infância da criança e até mesmo talvez antes de ela nascer,
abriga a mão, no mais íntimo do seu coração, um veemente anelo, não expresso
por palavras e até mesmo inconsciente da sua parte, que pode porém formular-
se nestes termos: “Quero que o meu filho proceda desta ou daquela forma,
pense e sinta de acordo com o meu desejo e que ocupe e desempenhe esta ou
aquela posição na vida. Não quero que seja isto ou aquilo, nem faça esta ou
aquela coisa.”
O verdadeiro Eu, o espírito do menino pode ter gostos e inclinações inteiramente
diversas e opostas até mesmo às da mãe. Nestes casos, nos primeiros anos da
sua vida, ele agirá talvez em harmonia com o pensamento expresso
mentalmente por sua mãe, porquanto dela absorveu grande quantidade de
elementos mentais. À medida, porém, que ele for crescendo e aumentando a
sua experiência, a sua individualidade ir-se-á manifestando com maior firmeza e
energia, de dia para dia. E então ele quer seguir o seu verdadeiro caminho e
viver a sua própria vida, isto é, ser ele verdadeiramente. A mãe resiste e opõe-
se. Mas se o filho conseguir colocar-se em situação positiva, revolta-se e fica
aberta a guerra entre eles.
Pode dar-se também o caso de o filho, destruída a sua própria individualidade
pela ação da mente materna, acabar por não ser nada, nem o que teria sido por
si próprio, nem o que deveria ser segundo os desejos de sua mãe.
Se a força de vontade é igualmente enérgica e vigorosa na mãe e no filho, pode
até mesmo resultar, da luta travada entre eles, a morte física de um ou de ouro;
a da criança provavelmente, pois que o seu espírito contrariado em todas as
suas inclinações agita em excesso o corpo, acabando por despedaçar o laço que
a ele o ligava. Sejam quais forem os laços que unem dois seres, não é lícito nem
justo servir-se deles para atuar sobre o outro.
O pai pode, até certo ponto, proteger, vigiar e mesmo dirigir o filho durante os
primeiros anos da sua existência física. Há de chegar, porém, o momento em
que o espírito que se encarnou num corpo novo há de seguir o seu próprio
caminho, guiar-se pela própria experiência, seja qual for tal caminho; ora, se
alguém atuar nele, exercendo a sua influência sobre tal espírito, impedindo-o de
seguir uma senda ou carreira diversa da que lhe é designada, pode afirmar-se
que o dito espírito vive escravizado, mais ou menos tempo, enquanto essa
influência durar. O que influi sobre o outro, modela-o conforme o seu modo de
ser, e o que consegue, afinal, é converter aquele ser numa verdadeira boneca
mental ou num autômato. Nada mais faz do que impedir o progresso e o
crescimento da mentalidade sobre a qual atua, com a segurança de que, apenas
cesse tal influência, imediatamente deixará de viver a vida fictícia a que foi até
então obrigado.
Vivem hoje, entre nós, assim mesmerizadas, milhares e milhares de crianças,
podendo dizer-se o mesmo de todos os tempos e de todos os povos.
Espíritos há que nunca souberam quebrar um único elo da cadeia mental com
que, inconscientemente, seus próprios pais os escravizaram, sucedendo,
destarte, crerem eles o mesmo que seus progenitores creram, caírem em
idênticos erros em que eles caíram, sofrendo, portanto, o mesmo que eles
sofreram e acabando por terem de se despojar do corpo físico no meio de
grandes dores e agonias, tal e qual como os seus antepassados perderam os
próprios invólucros materiais.
Imploremos ardentemente ao Todo-Poderoso a libertação de qualquer tirania e
seremos finalmente libertos dela. O nosso conhecimento dessas leis aumentará,
assim, prodigiosamente e o nosso espírito há de sentir e conhecer quanto é
perigoso ou não deixar atuar em nós a influência e a direção alheias.
Se somos de natureza simpática e atrativa, poderemos ser mesmerizados muito
facilmente pelas pessoas que nos cercam, interessando-nos por tudo quanto
lhes diz respeito, muito mais ainda do que pelos nossos próprios negócios e
interesses. Assim têm fracassado, neste mundo, muitos bons intuitos, bem
planejados projetos, respeitáveis e sérios propósitos e fins.
Devemos conter e saber guardar as nossas simpatias, sem lhes permitir
liberdade ampla para irem irrefletidamente para todos os que as atraem, pois, de
outra forma, estropiamo-las e dividimo-las em tão pequenas parcelas que
nenhum benefício podem fazer nem a nós, nem a ninguém.
São muitas as pessoas que se acham sujeitas a uma certa tirania mental, sendo,
todavia, raríssimas as que ousarão reconhecer a realidade dela. Nestas
circunstâncias, nos sentiremos débeis e hesitantes em afirmar o que, após
maduras reflexões, cremos ser exato e razoável. Por igual motivo, receamos, às
vezes, formular certas perguntas com receio de parecermos ignorantes. E ante
quem? Ante pessoas que, se as conhecêssemos melhor, com certeza as não
teríamos em alto apreço.
Há quem suporte certos pequenos logros e zombarias de seus companheiros de
trabalho, só pelo fato de se não atreverem a protestar ou pelo receio desse
protesto fazer escândalo, dando a si próprios a desculpa de que não vale a pena
tomar a sério coisa tão insignificante em si mesma. Mas a maior parte das vezes,
a verdadeira razão não é essa. Se deixarmos de protestar, é apenas por
temermos a opinião de certas pessoas, cuja mentalidade inferior permitimos
atuar sobre a nossa.
Para a justiça verdadeira, não há coisas pequenas ou grandes; todas tem a
mesma importância.
Um simples criado pode dominar uma casa inteira. É destarte que vemos muitas
senhoras não se atreverem a ralhar, por exemplo, nem com a sua cozinheira. É
porque, mentalmente, se deixam dominar por ela. E não é só a mente da criada
que atua sobre a mentalidade da patroa, dominando-a; ela é auxiliada, nesse
despótico domínio, por um grande número de muitas outras mentalidades que a
acompanham, as quais, apesar de invisíveis para os olhos físicos, nem por isso
deixam de ser reais, como perfeitamente real e positiva é a sua ação.
Muitas indústrias, manufaturas e empresas, são de idêntica forma dirigidas não
pelo que se diz dono e parece o chefe visível das mesmas, mas por um mero
empregado ou subalterno que, embora pareça obedecer, é quem, na verdade,
governa e dirige o negócio. Em todo armazém, oficina e escritório, em toda casa,
enfim, existe uma mente especial que aí predomina sempre e a rege, embora,
na maioria dos casos, ela própria permaneça ignorante de tal poder.
Muitas mais do que podemos imaginar, são as razões que nos levam a suportar
essa espécie de tirania mental.
O mais humilde oficial ou funcionário público encontra-se no seu escritório como
na sua fortaleza: no espaço de tempo mais ou menos curto em que se move,
está repleto dos elementos do seu pensamento tirânico e dominador, bem como
das mentalidades invisíveis, que o acompanham em perfeita concordância com
a sua, dispostas a agir e atuar sobre os outros, de acordo com o seu modo de
ser dominante. Aquele que se apresentar pois cansado, alquebrado, exausto de
força em tal lugar, em um estado mental sugestivo, encontra-se, portanto, em
péssimas condições para resistir às influências visíveis ou invisíveis que ali
atuam, principalmente se desconhece a realidade delas e sua possível ação
sobre si.
Esta submissão mental chega a tomar, em alguns homens, o caráter de um
verdadeiro hábito e, por isso, os vemos frequentemente transformados em
escravos de qualquer pessoa que, em sua presença, toma ares de autoridade,
podendo até ser inteiramente dominados pela atmosfera mental que em certo
local se respira, adulando sem pudor todo aquele que ante eles exerce qualquer
superioridade ou soberania.
Não bajulemos ninguém, nem nos sintamos nunca humilhados perante pessoa
alguma, pois que, procedendo assim, só atrairemos sobre nós a corrente mental
do medo, da escravidão e da abjeção. Podemos, na verdade, admirar e respeitar
o talento ou as elevadas qualidades de qualquer personalidade e até desejarmos
lealmente igualar-nos a ela; tudo isso é lícito e com esse desejo, que é também
uma verdadeira petição ou prece, sobre nós atrairemos a corrente mental que
favorecerá o desabrochar do aumento do nosso próprio talento. E nem só por
uma individualidade podemos ser dominados, mas até muitas vezes somos
mesmerizados por uma corrente mental inteira, projetada por milhares de
mentalidades, exteriorizando pensamento de doença, pobreza, ruína e
acabando por se formar a nossa mente à sua imagem e semelhança.
Tudo isto, se fosse irremediável, seria, sem dúvida, muito desconsolador e
deprimente. Estas forças, porém, não são nada se as compararmos ao Poder
Supremo e Onipotente; e, portanto, abrindo com inteira e sincera fé a nossa
mente à ação benéfica do Poder Infinito, elas não podem prevalecer nem
perdurar.
É naturalíssimo ocorrer a algum dos meus leitores esta pergunta: “Em vista dos
perigos que a sociedade com os homens oferece, quais devem ser os meus
amigos? Como os escolherei? Não será o sistema de vida adotado pelos
eremitas o melhor? Ou somos forçados a descobrir a verdadeira intelectualidade
de todo homem e de toda mulher, que se aproxime de nós ou por quem nos
sentimos atraídos, ou deveremos tê-los sempre em conta de inimigos perigosos
e encará-los com desconfiança pelo receio de nos poderem ser prejudiciais?”
A tudo isto responderemos, em primeiro lugar, que o melhor dos resultados que
poderemos obter, devê-lo-emos ao conhecimento, quanto mais profundo melhor,
do fato de que toda mente pode influir sobre outra de um modo real e positivo, e
se podemos ser influenciados para o mal, também o podemos ser para o bem.
Além de que, já temos visto várias vezes, acima de todas as mentes individuais
e humanas, existe uma Mente Suprema e uma Força Infinita que tudo pode e da
qual todo auxílio devemos esperar, que é Deus.
Se, por meio da silenciosa e veemente prece, buscamos o modo de chegar até
a mais íntima associação com esta Mente Infinita, sem dúvida Ela virá, por fim,
para nós e o seu valioso auxílio e influência em breve se farão sentir em nosso
favor. Podemos mesmo dizer, para nos servirmos das palavras correntes, que a
nossa mente humana será dominada e mesmerizada pela Mente Suprema e
Infinita. E é neste caso que, em lugar de nos opormos a semelhante domínio,
devemos antes chamá-lo, implorá-lo com o mais profundo respeito, satisfação,
amor e acatamento, pois só tem por objeto a nossa progressiva felicidade, certos
de que, sob a sua ação, a nossa mente se tornará cada vez mais pura, lúcida e
clara, de dia para dia, e o nosso corpo cada vez mais robusto e todas as nossas
faculdades mais vigorosas, apuradas e ativas.
Devemos por sempre muito acima de toda associação individual e humana a
nossa associação com a Mente Infinita. É assim que a Suprema Sabedoria
guiará o nosso comportamento e nos dará o juízo, a perspicácia e a intuição
necessários para conhecer os homens e as mulheres, cuja sociedade e íntima
amizade mais nos convém.
Postos uma vez sob a influência e na corrente mental do Poder Supremo, já não
poderemos ser influenciados nem dominados por nenhuma mente humana,
embora muito mais poderosa do que a nossa; porque nos teremos colocado
inteiramente fora do seu alcance e esfera de ação.
Deus não pode ser dominado nem pelos homens, nem por coisa alguma de
qualquer ordem. Quanto mais estreita e íntima for a nossa aliança com o
Supremo, em maior escala poderemos utilizar-nos dos poderes, faculdades e
predicados do Supremo. Ao pormo-nos em íntima relação com Deus, Este nada
toma da nossa individualidade, antes a fortalece e aumenta.
Em todos os homens, é tendência geral crer que para alcançarem um dia a sua
salvação têm de estudar e praticar uma complicadíssima série de dificílimas
operações; que hão de viver de acordo com a razão e os ensinamentos da sua
mente material; estar continuamente vigilantes para evitar os perigos e as ciladas
do mundo e do demônio, três inimigos da alma: mundo, diabo e carne, como eles
dizem; que devem reger-se por toda espécie de rígidos e severos preceitos,
estando sempre com o temor de algo sobrenatural e extraterreno. É isto o que
ensinam os homens — não o que ensina Deus. Deus quer apenas que tenhamos
uma grande e intensa fé em seu Poder Infinito e tudo o mais virá por si mesmo
para nós. Façamos frequentemente esta prece:
“Peço o poder de me aproximar cada vez mais da Mente Infinita; que eu sinta,
de dia para dia, a sua realidade com maior força e intensidade; que possa ter
cada vez mais provas evidentes de sua existência; que a minha fé no seu Poder
se torne, de dia para dia, mais vigorosa e inabalável.”
“Imploro a Deus que toda dúvida que me ocorrer seja imediatamente esclarecida
e dissipada. Que a Mente Infinita penetre cada dia no meu íntimo e me seja
permitido caminhar sempre na vida em sua companhia como um velho e bom
amigo, chegando a reconhecer, no sentido mais amplo, literal e prático, que
estou em relações com uma realidade positiva, a qual me guia e dirige nas
menores particularidades da minha vida cotidiana, da forma idêntica àquela por
que dirige e rege a marcha deste planeta e de todos os mundos e sistemas
planetários.
“Peço, rogo e imploro ao Supremo Espírito do Bem que me dê a sensação de
absoluta tranquilidade e bem-estar, a certeza de que nenhuma espécie de mal
terá poder contra mim, nem hoje, nem nunca: — nem a fome, nem a
enfermidade, nem a miséria, nem os meus inimigos invisíveis, nem a morte, —
e que possa dizer com a mais profunda e absoluta fé:
“Ando no meio das trevas, das traições, dos perigos e da morte, mas nem as
trevas, nem as traições, nem os perigos, nem a morte me amedrontam, porque
Deus está comigo.”
6
Utilidade dos divertimentos
O homem suportará os incômodos do calor, do frio, da fome, da sede ou de
qualquer outra forma de sofrimento físico, com tanto maior facilidade, quanto
maior for a atenção que puser em algum ideal ou propósito. Se não tiver a mente
fixa em qualquer coisa que o prenda e interesse profundamente, o homem
sentirá com muito maior intensidade e rigor qualquer sofrimento físico. Disto se
deduz que, quando deixamos de pensar no frio ou no calor, deixamos também
de lhes sentir os efeitos.
Colocando-se em um especial estado de excitação, pode o homem atravessar
uma fornalha ou até uma fogueira, sem mesmo lhe sentir o calor, embora
apareçam em seus pés grandes empolas; dando à sua mentalidade uma direção
diversa, separando-a do corpo, conseguirá não sentir a ação do fogo sobre ele.
Podemos sentir-nos tão intensamente atraídos e dominados pelas emoções da
peça representada num palco, que cheguemos a nem sequer sentir o mais leve
incômodo, nem a mais ligeira impressão, sob a atmosfera deveras sufocante que
predomina em certos teatros. Significa isto que a nossa mente se distraiu ou
abstraiu-se, separando-se no sentido mais literal, do nosso corpo. A nossa
mente, como uma espécie de elemento, o nosso corpo, como outra espécie, não
têm, às vezes, senão um diminuto canal ou ponto de conexão. A mente está
ligada à dos atores, enquanto o corpo, sentado, não tem de espiritualidade senão
o indispensável para permitir aos olhos e ouvidos o cabal cumprimento das suas
funções.
Mais de uma vez se tem visto um soldado ser gravemente ferido durante uma
batalha e só dar por isso findo o combate. É porque, na excitação motivada pela
luta, a sua mente se separou do corpo, de tal forma que esse nem sequer sentiu
a dor produzida pela bala, despedaçando-lhe as carnes.
O espírito pode abstrair-se tão por completo do corpo que chegue a esquecer-
se da própria existência dele e quando esquece o corpo, este cessa de sentir
qualquer dor ou prazer.
A pessoa hipnotizada tem realmente o espírito separado do corpo, razão por que
é naturalíssimo deixar de sentir o fio de uma faca ou a ponta de uma agulha que
se lhe enterra nas carnes. O corpo só por si nada sente. É no espírito que está
realmente a sede das chamadas sensações físicas. Separemos a mente do
corpo e este converter-se-á em uma massa de matéria quase inerte e insensível.
O álcool, a morfina e o éter são as substâncias mais espiritualizadas e, portanto,
agem e atuam sobre o espírito mental em que costuma viver. Quando, desta
maneira, se alheia o espírito do corpo, deixa naturalmente de atuar sobre ele,
desaparecendo, portanto, toda e qualquer sensação que deveria experimentar
mediante o corpo.
Mais de uma vez me tem acontecido, e ao leitor também, decerto, estar em
extremo fatigado ou até profundamente acabrunhado e doente, e sentir um
súbito e mesmo completo alívio, desaparecendo todas as desagradáveis
sensações pouco antes padecidas, depois de ter estado conversando
amenamente, por algum tempo, com uma pessoa sobremodo querida ou
simpática para nós. Por que se deu isso? Simplesmente porque, durante essa
agradável conversação, o nosso espírito se distraiu, subtraindo-se totalmente
dos pensamentos acabrunhadores e aflitivos, que antes o preocupavam. Posta
a nossa mentalidade em perfeita harmonia e concordância com a mentalidade
de qualquer pessoa, atraiu-se uma nova corrente mental que em nós atuou,
trazendo-nos novos elementos de vida.
Não é o corpo, mas o espírito, quem recebe os novos elementos de vida, que o
elevam ou abatem, conforme a sua natureza e procedência.
O espírito nunca está inteiramente dentro do corpo. Ele atua sobre aquele, tal e
qual como o vento atua sobre a vela de um barco. É certo que o vento enfuna as
velas, mas não se forma no tecido delas, nem se oculta entre os seus fios para
as tomar pandas. Também o espírito não se cria no corpo nem vai armazenar a
sua força entre as células corpóreas.
Dissemos que a morte liberta o corpo de toda dor; e é uma verdade, mas é isso
devido somente ao fato do espírito se separar totalmente do corpo, quando se
dá o fenômeno do passamento desta vida terrena para a espiritual, porém não
se liberta da dor o espírito, porque nele e só nele reside a ideia da dor. O que
neste plano da existência terrestre é enfermidade e doença, continua também a
ser quando o espírito passa a viver no mundo invisível. Ao abandonar o corpo
em que, mais ou menos tempo, viveu neste planeta, consigo leva o estado ou
condição mental que aqui lhe era própria, porquanto esta nada tem de comum
com o corpo, mas sim com o espírito somente.
A mente que viver, neste nosso mundo, acabrunhada sempre pela ideia do mal,
acreditando na doença, não se libertará de tal pesadelo e de tal crença ao
despojar-se do corpo.
Se crermos nas sagradas escrituras, lá se nos depara a menção dos chamados
mortos que não podem alcançar o almejado repouso no outro mundo, nem ver-
se livres do mal que neste padeceram.
Podemos, empregando meios artificiais, libertar-nos temporariamente das dores
físicas, como possível nos é também nos livrar-nos delas eternamente de um
modo absoluto, mediante aperfeiçoamento natural, são e progressivo do espírito.
Um dos resultados desta perfeição e o mais importante deles consiste no
aumento da força de vontade ou poder para distrair ou desviar a mente de forma
tal que, quando nos sentirmos física ou mentalmente perturbados, saibamos e
possamos esquecer totalmente o motivo da nossa preocupação ou aflição.
É evidente que não podemos desviar de repente e por completo o nosso
pensamento dos pélagos de dor em que todos estamos imersos; podemos,
porém, habituar-nos, pouco a pouco, a esse exercício mental e ele só por si é
suficiente para fazer aumentar gradualmente a nossa capacidade para um dia o
conseguirmos. Tal exercício consiste muito simplesmente em divertir ou afastar
a mente do corpo e saber fixá-la em qualquer outra coisa.
Achamos demonstrado este princípio na própria vida, pois com frequência
vemos ser bastante desviar o pensamento de alguma grande dor física para
conseguirmos aliviá-la. Até a terrível dor de dentes muitas vezes cessa, ao
aproximarmo-nos da casa do dentista. É porque nesse momento a mente deixa
de ter como alvo a dor de dentes para se concentrar noutra dor muito maior, que
receia lhe cause a extração do dente dolorido.
O que convém, e é muito importante, é ter bem fixa em nossa mente a ideia de
que uma doença é sempre resultado de algum estado mental que afetou
desagradavelmente o corpo. Se se trata, por exemplo, de um resfriado, dizemos
frequentemente: “Naturalmente apanhei-o à noite passada ao receber aquela
corrente de ar” e, contudo, devemos confessar que, muitas vezes, nos
expusemos a correntes de ar capazes de produzir os maiores resfriados, sem
nos acontecer o menor dano. De igual modo nos exprimimos, se sentimos
qualquer incômodo de estômago: “Apanhei isto por comer este ou aquele
alimento”, apesar de muitas vezes termos já comido do tal alimento incriminado
e muitas outras talvez comeremos dele ainda, sem nos produzir nenhuma
espécie de perturbação. Limita-se tudo ao fato de que, ao termo-nos exposto
àquela corrente de ar ou ao comermos desta ou daquela alimentação, nos
encontrávamos em certa e especial condição mental.
Talvez tivéssemos recentemente travado relações com a miseranda mentalidade
de alguém que vê sempre tudo sob o aspecto das mais negras cores,
imaginando em toda parte doenças, não comendo um só pedaço de qualquer
coisa despreocupadamente, antes tendo sempre fixa a receosa ideia de que lhe
pudesse fazer mal ou não. Absorvemos dessa pessoa elementos mentais de
qualquer incômodo, de índole física que se nos materializou em alguma doença.
Doravante, pois, em lugar de dizer: “Apanhei um resfriado por me ter posto numa
corrente de ar”, digamos antes: “Apanhei um resfriado ou outra enfermidade
qualquer de fulano ou sicrano por eu ter permitido que o seu contagioso
pensamento atuasse sobre mim e me comunicasse esta ou aquela doença, das
muitas perturbações físicas que engendra a sua mente, geradora constante de
enfermidade.”
O pensamento dos outros é sempre contagioso, quer se trate de ideias boas e
salutares, quer de ideias nocivas.
O contágio das mentalidades plenas de fé na doença e na dor constitui um
veneno sutilíssimo. Por esta razão, ainda mais do que por qualquer outra,
precisamos ter o máximo cuidado na escolha das nossas amizades e relações
que todos os dias contraímos com tanta diversidade de pessoas de caracteres,
tendências, gostos e estados mentais tão diferentes.
Pode suceder que não possamos suportar nunca este ou aquele alimento, o que
apenas é devido a repelirmos mental ou inconscientemente, embora, essa
substância, tendo absorvido talvez com grande antecedência a ideia de tal
antipatia de alguém, sem nunca termos protestado formalmente contra ela.
Antes, pelo contrário, temo-lo fortalecido em nós com o decorrer dos anos,
chegando a dizer que tal repulsa a este ou àquele alimento é inata em nós, o
que acaba por ser exato porque nós próprios assim o quisemos.
Poderemos, de um só golpe e em resultado de um só esforço, corrigir a repulsa
que o nosso estômago sente por qualquer alimento? É provável que não.
Durante largos anos, embora inconscientemente, temos estado predispondo o
nosso estômago para tal repulsa; portanto, é claro que nos será necessário
também certo lapso de tempo para alterar agora o nosso próprio estado mental
a este respeito, até ficarem refeitos e reconstituídos os órgãos da nossa máquina
digestiva, de forma a nos deixarem certa liberdade quanto à alimentação e
bebidas. Depreende-se disto que manter na nossa mente a ideia de que toda
doença física é fundamentalmente devida a um certo e determinado estado
mental, e também a de que a cura definitiva da nossa doença pode provir de
afastarmos totalmente dela o nosso pensamento, devem ser de enorme auxílio
ao tratamento que o nosso médico nos tenha prescrito.
Podemos começar esta educação por expelir toda enfermidade da parte dolorida
ou afetada por ela, só pelo fato de mantermos em nossa mente, com a máxima
e mais enérgica persistência, a ideia da diversão.
Devemos também pedir ao Poder Supremo a necessária habilidade para
transladar rapidamente o nosso pensamento de uma coisa a outra. Principiamos
destarte a adquirir o indispensável poder para distrair ou reparar a nossa mente
do que lhe poderia ser nocivo e prejudicial, se nela se fixasse, começando então
a fluir sobre a nossa mentalidade os salutares elementos curativos que hão de
refazer o nosso organismo. É possível não se produzirem imediatamente
resultados muito apreciáveis, pois nossa mente, que ainda está débil, age
lentamente nessa direção. A nossa mente ao princípio assemelha-se a um gonzo
enferrujado que durante muitos anos não funcionou. Ela atuará de comum
acordo com o remédio que tomamos se, quando o tomarmos, pensarmos e
dissermos: Tomo isto para curar ou pelo menos aliviar a minha mente e não o
meu corpo. Tomo este remédio para auxiliar a minha mente e afastar-se da parte
doente e para ajudar o meu espírito a arremessar para bem longe de si toda ideia
de enfermidade.”
Os vegetais e minerais, atualmente usados como remédios, e muitos outros que
ainda se não usam como tais, possuem qualidade espiritual para o alívio de
certas doenças e até para a cura e alívio de certos órgãos ou parte do corpo
físico, cujas funções podem ser perturbadas por coisas diversas. Não há nada
material que esteja fora do domínio do espírito. Toda planta e todo mineral
possuem alguma propriedade específica e poder espiritual, que lhe são próprios.
Não defenderemos, pois, a exclusão absoluta do tratamento médico, porque,
quando os remédios são convenientemente ministrados, constituem um
poderoso auxílio para o espírito. Em toda doença, como em todas as nossas
grandes atribulações, ser-nos-á, incontestavelmente, de grande benefício
implorar ao Poder Supremo que nos envie algo que distraia a nossa mente da
parte enferma.
O pensar constantemente numa doença qualquer é o que a agrava, prolonga,
aumenta e propaga para o que contribuem também, muitas vezes, os parentes,
amigos e demais pessoas, aliás bem intencionadas, mas que, sem nada fazerem
em favor do enfermo, permitem que ele permaneça longo tempo silencioso,
pensando constantemente na própria doença, quando deviam antes dirigir todos
os seus esforços para fazê-lo olvidá-la. Ora, isto com certeza não se conseguirá
pondo sempre diante do enfermo rostos lacrimosos, angustiados, poções e
frascos de medicamentos e procedendo de forma que o pobre enfermo esteja o
dia inteiro ouvindo murmurar em voz baixa ou dolorida conversas e lamentos
acerca do seu estado. Em lugar disto, devemos pedir ao Supremo que lhe
distraia o pensamento da enfermidade, já que por si próprio o não pode
conseguir.
Qualquer pessoa pode chegar a adquirir uma enfermidade, à força de pensar
sempre nela. Todavia, eu não posso dizer agora ao meu leitor: “Deixa de pensar
no teu resfriado ou nesta ou naquela doença de que te queixas e tal resfriado ou
essa doença passará, como por encanto.” Isto seria certamente pedir-lhe um
impossível, no seu presente estado mental. Seria uma coisa tão insensata como
exigir de qualquer pessoa, velha e cansada, a agilidade de um acrobata,
porquanto a mente, assim como os músculos, é igualmente suscetível de
educação e é por meio dela que adquirirá cada vez maior domínio sobre si
próprio, apesar da educação da mente ser coisa muito diversa da educação dos
músculos. Por detrás do corpo físico está a mentalidade do seu proprietário,
cujos elementos são os que animam os órgãos ou partes materiais do corpo.
Estes se tornam mais hábeis e destros, à medida que os elementos mentais que
recebem forem mais frequentes e em maior quantidade.
A mente envia às diferentes partes do corpo a ideia ou representação ideal dos
atos que deseja que elas executem, as quais, adquirindo, de dia para dia, maior
aptidão e destreza para a execução de tudo aquilo de que a mente as encarrega,
chegam a aparelhá-la e conformá-la o mais adequadamente possível para o uso
que dela se requer.
Podemos aplicar esta forma mental para distrair ou afastar a nossa mente de
qualquer dos órgãos físicos que estiver afetado por uma doença qualquer.
Se o atleta e o acrobata conhecessem essa lei, não se lhes tornariam rígidos os
músculos, com o decorrer dos anos, a ponto de se impossibilitarem
completamente, pela velhice, de desempenhar a sua profissão, tal e qual como
acontece com todos os outros homens; porém, como todos eles permitem
apoderar-se de sua mente a falsa ideia de toda espécie de enfermidades,
admitindo-lhes a existência como coisa real e positiva, chegando, por este modo,
a padecê-las todas, é natural, pois, que a sua mente nenhuma habilidade
adquiriu para arremessá-las fora.
Trilhando sempre os caminhos rotineiros, nada mais faz do que pensar na
enfermidade, engendrando-a ele próprio em sua mente e robustecendo-a
imediatamente, e assim, à medida que os anos passam, cada novo ataque que
sofre, quer se produza sob uma, quer sob outra forma, se faz mais forte de dia
para dia, provindo daí uma debilidade física cada vez maior, chegando, por fim,
à decadência fatal, tornando-se-lhe o corpo incapaz de obedecer às ordens do
espírito, porque é justamente o seu espírito quem, atuando sobre o corpo, corre,
salta e dá voltas vertiginosas sobre a barra fixa ou voa de um trapézio ao outro.
Muito antes de o corpo ter adquirido a agilidade necessária para efetuar o salto
mortal, já o espírito o tinha realizado infinitas vezes, representando-se a si
mesmo como se estivesse praticando tal ato, o que lhe valeu muito mais,
decerto, do que toda a sua prática física. Podemos fazer uso de idêntica lei para
nos imaginarmos a nós próprios sempre robustos e cheios de saúde e força, pois
não há razão para pormos mentalmente qualquer limite à nossa saúde, força,
agilidade, alegria, bem-estar, fortuna e glória. Tanto nos custa ver-nos
mentalmente e saltar com êxito de uma altura de vinte pés, como somente de
dez. Imaginando-nos fortes, robustos, belos, poderosos, ricos, felizes,
construímos a nossa própria força, beleza, riqueza, poderio, felicidade.
Essa mesma força a que chamamos imaginação, invertida, cria em nosso
organismo físico toda espécie de doenças, tendo unicamente por sua verdadeira
causa o espírito.
O espírito do atleta é tão forte aos setenta anos, como o era aos vinte e cinco.
Por que motivo adquirirá, pois, o seu corpo a debilidade e a invalidez com a
idade? Porque foi educado para atuar sobre alguns dos seus músculos, sem
contudo ter sido educado de forma a ser completamente senhor de si e saber
sempre que isto lhe convenha, distrair-se dos pensamentos de aflição,
debilidade e morte. Ao contrário disso, a sua ignorância a este respeito tem sido
tanta que, ao sentir-se atingido por alguma enfermidade, ainda o seu espírito deu
mais força à mesma.
Se houver sabido que toda enfermidade ou doença é apenas o resultado de uma
ação mental exercida sobre o corpo e que é possível evitá-la divertindo-se, ou
antes distraindo-se de tal ação, da mesma forma como se foge de uma serpente
venenosa, bem diferente seria o seu estado de saúde, vigor e agilidade física ao
chegar aos setenta ou noventa anos.
Quando afirmamos que uma doença qualquer se tornou crônica é porque o
pensamento dessa enfermidade é contínuo, a ponto de se tornar realmente
crônico no enfermo ou paciente, tendo sido forjado em seu espírito pelas
pessoas que o rodeiam.
O homem não tem sabido distrair-se do pensamento produtor da sua doença, de
maneira que, até quando viaja, a ideia de tal enfermidade viaja com ele,
pensando ele constantemente nela e falando do mesmo assunto, não só com
todos os membros de sua família, mas com todas as pessoas que se lhe
aproximam, em casa ou no passeio; com ela dorme e com ela se levanta,
comendo com ela e procurando de preferência as pessoas que sofrem da
mesma moléstia. Que admira, pois, se, por fim, o seu corpo chegue a
experimentar todos os sintomas da doença imaginada?
Há pessoas que, depois de terem sofrido, durante um ou dois invernos, um forte
resfriado, apenas se aproxima a estação invernosa estão já temendo um ataque
de influenza e é mais que certo não se livrarem dela. Muito melhor seria procurar
afastar do seu pensamento tal ideia, dizendo a si próprio: “Não creio que me
resfrie este inverno”. Só este pensamento é já bastante e constitui um início de
reforma mental. Pode suceder que lhe sobrevenha um resfriado, porquanto não
é em vão que o tem estado padecendo durante longos anos e faltando sempre
às leis espirituais, como todos nós temos feito e todos os dias estamos fazendo
constantemente.
Se, ao nos despertarmos certa manhã, sentimos dores nas juntas, o corpo
pesado, a garganta, o nariz ou os olhos inflamados, além dos inúmeros remédios
que habitualmente são indicados para combater uma bronquite ou um simples
resfriado, podemos experimentar também o exercício da distração,
empenhando-nos em algum trabalho diverso das nossas ocupações cotidianas
e que mais nos prenda o espírito.
Assim é que podemos, por exemplo, comer fora de casa, dormir em outra cama,
vestir os nossos melhores trajes e com mais esmero, fumar um cigarro ou um
bom charuto, se não temos o hábito de o fazer, tomar um caminho diverso do
que costumamos tomar para ir ao escritório ou voltar para casa, beber chá, se
estamos habituados a tomar café, suar bastante, molhar os pés ou comer alguma
coisa que nunca tenhamos comido ou muitas raras vezes, embora não seja
possível introduzir todas essas alterações de vida nos nossos costumes em um
só dia ou de uma só vez.
Todas estas coisas e, muitas mais que aqui não mencionei, servem de diversão
à nossa mente, afastando-a de toda e qualquer perturbação física, podendo
fazer-se idêntica coisa com toda e qualquer atribulação moral.
Este princípio da distração mental e da sua aplicação na vida nunca nos deve
abandonar; pode permanecer latente e como soterrado em nosso espírito
algumas vezes, mas reaparece de novo e mais vigoroso do que nunca; pode
parecer adormecido, porém, cada vez que desperta, fá-lo sempre com maior
ardor, e maior influência exerce sobre nós, sentindo-nos inclinados
imperceptivelmente para uma diversidade maior de costume e de vida.
Não se deve, porém, chegar a este estado mediante uma série de esforços
puramente mecânicos, pois que no espírito nada existe de mecânico, antes é ele
uma fonte inesgotável de impulsos novos e só executa o que muito bem sabe
que lhe dará algum prazer, ao contrário do que faz o corpo, guiado por sua mente
material que reza, come, trabalha ou dorme, quando o tempo destinado para
cada uma dessas funções chegou, sinta-se ou não disposto a fazê-la. Essa rotina
converte o que denominamos religião em mera fórmula externa, isto é, em uma
paródia da verdadeira religião.
Adoração a Deus não consiste em adorá-lo e rezar-lhe a horas fixas, sem que a
isso nos sintamos impelidos, nem podemos forçar nunca essa inclinação ou
impulsos. Ela deve vir espontânea e livremente, de moto próprio, ou então deixa
de ser verdadeira.
Essa adoração pode até consistir unicamente em um clarão ou centelha de luz
divina, que num momento inesperado nos atravessa a mente, quer nos achemos
em casa, no negócio, no escritório e até na rua ou no espetáculo. Esse raio de
luz, porém, vale por um milhão ou mais de cerimônias ou observâncias religiosas
superficiais e externas.
O que devemos fazer é implorar do íntimo da alma que essas chispas de luz e
fé sejam cada vez mais frequentes em nós; e, se o rogamos com sincero e
verdadeiro anelo indubitavelmente o conseguiremos. É esta a partícula de Deus
que a cada um de nós pertence, manifestada na carne.
Deus nunca pediu a ninguém que fixasse de antemão o tempo, a hora, nem a
estação para se atear nos corações humanos o fogo sagrado do espírito. Uma
família, dispondo de raríssimas distrações e cuja vida cotidiana desliza só pelos
mesmos caminhos, será necessariamente uma família enferma e infeliz. Nem
todos os doentes jazem sempre no leito, pois até se pode mesmo asseverar que
a maior parte está fora dele.
A doença e a miséria, mesmo moral, cobrem uma grande parte da terra, tomando
frequentemente a forma de irascibilidade, mau humor, tristeza e de toda e
qualquer outra espécie de fraquezas morais que apenas são o reflexo de
idênticas debilidades físicas. Sei perfeitamente que esta afirmação pode parecer,
talvez, até insensata ao homem de vinte ou trinta anos, robusto e são; mas, se
aceitar a ideia de que, dentro de quarenta ou cinquenta anos, o seu corpo há de
forçosa e fatalmente enfraquecer-se e decair, é fora de toda dúvida que em seu
espírito e não em seu corpo existe o pensamento-semente ou germe de toda
enfermidade e, se continuar a viver sem conseguir desfazê-lo, em breve acabará
esse pensamento por dar os seus funestíssimos frutos. Nada nos custará tentar,
pelo menos, expelir para longe de nosso espírito essa daninha semente, e se,
por nossos esforços, não pudermos deixar de acreditar que a decadência física
e a morte são uma lei inexorável, existe com certeza um Poder que nos há de
ajudar a ver tudo sob um aspecto muito diverso.
Pelo que até aqui tenho dito e repetido a este respeito, não quero afirmar que a
distração seja uma panacéia para destruir doenças e regenerar o corpo. Não é
senão um dos fatores mais importantes. Aquele que trilhar sempre o reto
caminho da vida encontrará, de certo, muitos outros meios para alcançar esse
bem, mas achá-lo-á sempre dentro de si mesmo, que é realmente onde reside o
Reino dos Céus e o Reino da Vida Eterna.
Muitíssimas pessoas andam pelas ruas e sentem, num certo momento do dia,
certos sintomas de algum pequeno incômodo físico: uma leve dor de cabeça,
uma impressão de peso ou ainda de desfalecimento nas pernas e nos braços,
qualquer coisa, enfim, dos numerosos incômodos que o estômago nos faz sentir,
ou mesmo alguma preocupação ou depressão mental. Sucede também que
cada uma destas afecções físicas se apresenta associada ou intimamente
combinada com determinados hábitos, companhias ou permanências em certos
lugares. Deixemos esses hábitos, cessemos de frequentar tais lugares ou
pessoas, e os sintomas da nossa doença desaparecerão por completo, só pelo
fato de termos, desta forma, destruído as condições mentais mórbidas que os
produziam.
Despedacemos a trama mental que nos tem presos ou encerrados em um círculo
rotineiro e teremos feito, destarte, desaparecer também a doença que lhe era
inerente e tanto amargurava a nossa existência.
Não variar os nossos costumes, habituar-nos a fazer o mesmo todos os dias,
acaba por nos inutilizar, impossibilitando-nos de introduzir em nossa vida a
menor variedade e deixando-nos sempre como pregados a um canto do lar,
isolados de tudo e afugentando também de nós todo ideal ou mesmo simples
desejo de sair, passear ou fazer qualquer coisa diferente, que ao menos traga
qualquer variação à nossa vida. E assim, de dia para dia, mais penoso e
desagradável se torna para nós o pensarmos em introduzir a mais insignificante
mudança em nossa vida.
É, porém, de toda conveniência quebrar essa espécie de encanto e visitar os
museus, os jardins e os teatros, todos os lugares, enfim, onde seja possível
encontrar um salutar divertimento e as famílias que possam proporcionar-nos
alguma benéfica distração, esforçando-nos por não passar horas e horas nessa
espécie de estúpida letargia que a constante e contínua permanência em casa
nos produz, onde muitas pessoas, até marido e mulher, passam horas e dias
inteiros pasmados ou bocejando, cheios de tédio, um em frente do outro,
desejando bem no íntimo da sua alma alguma coisa de novo, inclusive alguma
cara nova, qualquer coisa, enfim, que traga um pouco de agradável diversão à
estúpida e pesada monotonia da sua existência, à qual se sentem manietados
com férreas algemas.
O Universo está repleto de uma infinidade de variadíssimas coisas, cujo gozo
nos pode dar uma felicidade mais ou menos duradoura. Quanto maior for a nossa
perfeição espiritual e elevada a nossa espiritualização, maior será também o
nosso poder para sentir e apreciar, em todo seu justo valor, essa infinita
abundância de todas as boas coisas que o mundo encerra, guardando-as
avaramente só para aqueles que as sabem descobrir e apreciar devidamente.
À medida que se for desenvolvendo e robustecendo a nossa fé no Poder
Supremo para a produção do bem, maior e mais vigoroso será em nós também
o estímulo ou impulso que havemos de sentir para procurar e conseguir a
variedade da nossa vida, indo em busca da necessária diversão em todos os
momentos da nossa existência.
O homem que chega a sentir-se fatigado, saciado de todos os prazeres da vida,
imaginando ou dizendo que já tem visto e sentido tudo, que nenhuma impressão
nova pode experimentar, porque a vida e o mundo nada de novo encerram para
ele, é um homem incapaz de sentir e ver algo mais do que o lado material das
coisas — podeis ficar certos disso. É cansado, um vencido pela vida; os seus
sentidos físicos esgotaram-se completamente por lhes faltar a necessária
vivificação e regeneração das suas forças, as quais deviam provir do elemento
espiritual que recebemos.
Permitamos pois à nossa mente fortalecer-se cada vez mais, de dia para dia, no
hábito de pedir constantemente ao Poder Supremo a sabedoria, a fé e a força
tão necessárias ao homem para fazer desta vida o que ele deveria realmente ser
— e o que, sem dúvida, será um dia: um eterno Paraíso.
7
Modo de economizar
as nossas forças
Pela forma por que hoje vivemos, malbaratamos as nossas forças,
desperdiçando-se elas constantemente, por caminhos e canais inteiramente
desconhecidos para nós.
Acima da economia monetária existe outra muito mais nobre e elevada. Quando
o homem conhecer bem essa Economia, conseguirá deter de vez a perda dessas
suas energias, tendo como resultado disso um aumento contínuo das suas
forças físicas e mentais, forças estas que têm muito mais valor do que o dinheiro,
pois que o primeiro e mais importante de seus resultados será o prolongamento
da própria existência, prolongamento que até agora ninguém se atreveu a
esperar. De acordo com esta Economia divina de nossas forças, a qual até agora
ainda não foi compreendida por ninguém, cada um de nossos atos, quer ele seja
simplesmente material ou mental ou ainda um ato reflexo sobre o corpo, será
indubitavelmente uma exuberante fonte de verdadeiro recreio; aumentando as
nossas forças, é claro que todo trabalho material ou mental, feito nestas
condições, todo exercício, quer seja físico, quer espiritual, há de forçosamente
causar-nos profundo prazer, deixando-nos, além disso, uma verdadeira reserva
de forças, tornando-nos aptos para todos os esforços corpóreos ou mentais,
muito mais prolongados e intensos do que hoje poderíamos fazer.
Uma das mais importantes causas do nosso atual desbarato e
desaproveitamento de força consiste no modo mental impaciente, colérico,
intemperante ou esbanjador do espírito. O menor movimento feito pelos nossos
músculos representa um dispêndio de força ou energia mental; a mais ligeira
expressão, o mais imperceptível movimento de um dedo sequer, ocasiona um
desperdício maior ou menor da força divina, que é também a nossa, pois que
cada um de nós é uma parte do Infinito. Mas é uma lei do Infinito que tal força
seja, por fim, empregada para nos proporcionar a maior e mais duradoura
felicidade que é possível imaginar-se.
Se não procedemos de acordo com os decretos e leis divinas, como o Infinito
entende que devemos agir, sobre nós cairão somente dores, receios, cuidados
e aflições.
Toda atribulação, seja ela qual for, é um aviso da Mente Infinita, para nos advertir
de que as nossas forças sofreram qualquer desvio.
Suponhamos que o leitor tem em sua casa um autômato, cuja força motriz é
caríssima, mas do qual necessita para os diversos atos da vida cotidiana. Não
procurará, antes de pôr em movimento o autômato e, portanto, de gastar
qualquer porção de força de que carece para movê-lo, averiguar se os serviços
por ele prestados valem a despesa que a sua força motriz acarreta?
Consentiremos, porventura, que o nosso autômato doméstico esteja em
contínuo movimento, gastando, sem necessidade alguma, a dispendiosa energia
necessária para movê-lo e dando até, com isso, lugar a que o seu mecanismo
se deteriore? Pois é isto o que, na verdade, fazemos com o nosso corpo quando,
para levantar uma folha de papel, abrir uma janela ou calçar uma luva,
empregamos maior quantidade de força do que necessitamos para bem realizar
todos os atos.
E quando é esse o nosso habitual estado mental, executando com impaciência
todos esses pequenos e trivialíssimos atos da vida cotidiana, produz-se uma
exteriorização constante ou dispêndio de nossas forças, sem receber em troca
compensação alguma, vindo, desta forma, infalivelmente, a debilidade, a doença
e a morte do nosso corpo.
Contai, se puderdes, os diversos movimentos de pernas, braços e músculos que
sois, deste modo, obrigados a executar, desde que vos levantais da cama, pela
manhã, até vos recolherdes novamente ao leito, à noite.
Pensai também nos variadíssimos movimentos que tendes de fazer para
levantar-vos, vestir-vos, calçar-vos e procurardes o mais insignificante dos
utensílios de que tendes necessidade durante todo o dia, e lembrai-vos de que,
em cada um desses movimentos, gastais maior ou menor soma dessas forças,
tanto físicas como mentais, e até que, além disso, cada uma das ideias que
ocorrer à vossa mente exige também um considerável dispêndio de forças.
Pois, o autômato a que acima aludi representa, positivamente, o nosso corpo, e
a força que atraímos para lhe dar os movimentos nos vem da Mente Infinita,
como expressão da Força Infinita também. Esta força não se compra com
dinheiro: é inapreciável porque está muito acima de toda avaliação mercantil. A
santidade do seu valor nunca diminuirá, seja qual for o ato praticado e a sua
natureza, sendo sempre o mesmo o seu valor, quer a empreguemos em
remendar um vestuário andrajoso, com que iremos pedir esmolas, quer para
fazer deslizar velozmente a pena sobre o papel para nele escrevermos uma bela
poesia, sublime de inspiração e sentimento. Em harmonia com essa sábia lei,
com essa divina Economia, a despesa das nossas forças deverá ser calculada
e regulada de forma a produzir-nos cada vez mais benefícios, da mesma forma
que, quando empregamos um pequeno capital, por insignificante que seja,
esperarmos sempre ganhar mais com ele. Consegui-lo-emos sem dúvida,
executando cada um dos nossos movimentos e ações, calma e pacientemente,
o que sem cessar imploraremos à Mente Infinita que nos conceda.
Desbaratamos maior quantidade de nossa força nas coisas denominadas
pequenas e sem importância do que nas tidas por grandes, porquanto são
aquelas geralmente as executadas num estado mental de impaciência. Se para
apanhar a tesoura ou qualquer outra coisa que nos tenha caído ao chão, nos
abaixamos com um ímpeto de cólera ou mesmo de impaciência e profundo
aborrecimento, teremos despendido, só nesse ato tão insignificante, forças
suficientes para erguer cinquenta libras de peso.
Quando nos irritamos por nos ter caído ao chão a pena, um pedaço de papel ou
qualquer outra coisa, e, nesse estado mental, nos abaixamos para apanhar o
objeto, indubitavelmente teremos gasto maior quantidade de força do que seria
necessária para se realizar um ato tão simples, e essa força que tivermos gasto
a mais, esbanjando-a sem necessidade, a perdemos de uma vez para sempre,
pois não podemos reavê-la mais.
Quando o feitio habitual de qualquer pessoa é o da impaciência e, nesse estado
mental, executa os atos mais insignificantes da sua vida, pode-se afirmar que
está desbaratando e desperdiçando continuamente suas forças, cujo último e
inevitável resultado é o esgotamento, o qual finaliza sempre por alguma séria
enfermidade.
Quando compreendermos o verdadeiro valor da nossa força, veremos que tem
igual importância todas as cotidianas ações da nossa vida e que, muitas vezes,
o simples fato de atarmos os sapatos exige da nossa parte a mesma dose de
energia de que carecemos para pronunciar um discurso. Se executarmos com
excessiva pressa, estouvadamente ou com grande impaciência qualquer ato da
nossa vida, atrairemos dessa forma a corrente mental mais adequada para
executarmos todos os outros no mesmo estado de espírito, seja qual for a
importância que dermos a cada um deles. Se dermos, por exemplo, o laço da
gravata com uma precipitação febril, despendendo, num ato tão insignificante,
maior quantidade de força do que era mister, colocar-nos-emos em condições
de executar, de um modo mental idêntico, o que consideramos, talvez, o negócio
de maior importância e interesse para nós, em todo esse dia.
Esta perda contínua de forças põe a mente nas piores condições para poder
concentrar todas as suas energias no assunto ou negócio que temos entre as
mãos e tanto cuidado nos dá, o qual poderia ser até a realização de um contrato
que para nós representasse o ganho ou a perda de muitos mil dólares e no qual
devemos entrar, examinando-o com todas as nossas forças e são critério.
O estado mental impaciente e o desperdício de forças daí resultante tendem a
deixar várias lacunas ou pelo menos pontos fracos em tudo quanto fizermos, e
determinam a falta de presença de espírito necessária, e ainda de tato e
habilidade. É o estado mental mais apropriado para afastar todo o êxito de nós.
E se ele se tornar habitual em nós, até nos desvia da nossa carreira, fazendo-
nos perder de todo o verdadeiro caminho. Ao nos impacientarmo-nos sem
necessidade, nada mais fazemos do que abrir a nossa mentalidade à corrente
espiritual da impaciência, formada por milhões de outras mentalidades
impacientes, cada uma das quais vem a ser uma espécie de bateria elétrica que
influi sobre todas as outras, constituindo a corrente total.
Quando erguemos um braço, passamos a mão pelo cabelo ou escrevemos uma
palavra, extraímos a força necessária para praticar qualquer desses atos, da
Fonte das infinitas energias, porquanto toda força de que carecemos para a
realização de qualquer desses atos e até dos mais insignificantes deles não se
forma dentro do nosso corpo.
Devemos, portanto, colocar-nos no estado mental adequado para desejar que,
da força por nós atraída para realizar cada um dos nossos trabalhos, fique de
reserva em nós, ao menos, uma pequena parte dela, tendo destarte um saldo a
nosso favor, tal e qual como se se tratasse de uma operação financeira.
Não podemos construir por nós próprios esta condição mental; podemos, porém,
implorar ao Supremo para que se digne construí-la por nós. Comecemos por nos
habituar ao exercício deste anelo, em cada um dos nossos atos menos
importantes e então o ato de nos abaixarmos para apanhar qualquer pedaço de
papel ou outra qualquer coisa que nos caiu ao chão nos proporcionará um
verdadeiro prazer físico e também um prazer moral, cada vez maior, além do
conhecimento de que cada um desses atos nos deixou como um depósito uma
pequena parte da força de que carecíamos para os realizar.
Se economizarmos um bocadinho da força em cada um dos nossos atos mais
insignificantes, poderemos auxiliar-nos logo em qualquer esforço maior, como,
por exemplo, um longo passeio pelo campo, que, desta forma, faremos com
gosto e proveito. A nossa habitação ter-se-á, então, convertido em um verdadeiro
ginásio, começando os nossos exercícios com o primeiro movimento que
faremos ao saltar da cama pela manhã e terminando-os com o último, quando
nos metemos no leito, para repousar. Esta aquisição e contínua armazenagem
de força dar-nos-ão em resultado, com certeza, maior lucidez mental e maior
agudeza ou sutileza de entendimento, porque a força e a energia de que falamos
influem sobre todos os aspectos da vida espiritual, ainda mais intensamente do
que sobre a vida física.
Os movimentos lentos e as compassadas reverências que caracterizam os ritos
e as cerimônias religiosas dos credos ou crenças de quase todos os povos,
tempos e países, baseiam-se, indubitavelmente, no intuito de cultivar o descanso
espiritual e o desejo de economizar a força infinita, mediante a qual o homem
executa todos os seus atos e cuja cotidiana observância daria, certamente, os
melhores e mais esplêndidos resultados ao homem.
O modo impaciente e ainda colérico ou estouvado por que executam, muitas
vezes, os atos mais insignificantes e vulgares, tais como varrer, limpar o pó dos
móveis, pôr em ordem uma casa, subir ou descer a escada, contribui
especialmente para esgotar as forças de muitas mulheres.
“A fadiga não está nunca no trabalho em si; a verdadeira causa de que, aos
quarenta anos, muitos homens e mulheres sejam já velhos, está unicamente na
sua condição ou estado mental.” É por esse caminho que muitas mulheres
chegam a esse desventurado estado mental que delas exige, para o mais
simples e insignificante ato de sua existência ordinária, uma força dez vezes
maior do que lhe seria necessária. Isso se dá porque esse desperdício de forças
produz falta de juízo, de previsão e de economia em todos os atos da vida
cotidiana. Os nossos sentidos perdem uma boa parte da sua agudeza e lucidez
quando estamos fatigados.
Depois de termos feito uma difícil e penosa ascensão ao cume de uma
montanha, gozaremos incomparavelmente melhor da formosura do panorama
que de lá se desfruta, se tivermos sabido poupar ou pôr de reserva uma parte
das nossas forças. São muitas as pessoas que desbaratam todas as suas
energias na ação precipitada do seu espírito e do seu corpo, por não saberem
reservar ao menos uma pequeníssima parte para calcular e prever com sensatez
e calma os seus negócios.
É esse estado mental que mantém muitíssimas pessoas na pobreza material. Se
a força de que nos servimos para fazer agir o corpo estivesse sempre sob o
domínio da mente, sobrevindo logo o repouso, após um momento de fadiga, o
aproveitamento da mesma seria muito melhor, mais amplo e completo. Ninguém
se acha em boas condições de espírito para tratar de um negócio, quando está
entregue a um exercício qualquer, como, por exemplo, o prazer da caça.
O estado mental de impaciência tanto pode assenhorear-se de nós no escritório,
na repartição, no armazém ou no passeio, como na cozinha. Poder-se-ia
escrever sobre o túmulo de mais de um rico e laborioso negociante esta
inscrição: “Não foi o trabalho que o matou, mas o excesso de forças que nele
empregou.”
A precipitação com que muitas vezes são escritas as cartas comerciais com a
sua letra desigual e mal formada, demonstra que quem a escreveu vive num
estado mental que o faz desperdiçar boa parte das suas forças.
Todavia, alguém dirá: “Se eu seguisse os conselhos do autor, nem metade dos
meus negócios poderia fazer durante o dia.” Talvez tenha razão. É, porém, certo
que pelo modo por que muitos, senão a maioria deles, procedem, o desperdício
de forças é constante, podendo afirmar-se que os resultados serão os mais
desastrosos, pois que tal estado só produz debilidade e esta a definitiva
decadência.
Todos os dias, pela manhã, ao levantar-nos, devemos fazer a seguinte prece:
“Imploro ao Poder Supremo que me conceda o estado mental de repouso e que
eu encontre satisfação e verdadeiro prazer em tudo quanto fizer.”
Todas as ações que praticamos durante o dia podem ser e são, realmente,
influenciadas pelo primeiro ato que realizamos pela manhã, ao começarmos os
nossos trabalhos cotidianos. Muitas mulheres terão entrado na corrente de
irascibilidade e mau humor, que se prolongará todo o dia, só pelo fato de se
terem queimado um dedo ou entornado a cafeteira, pela manhã, devido à grande
precipitação com que fizeram o almoço. E é conveniente notar que todos estes
dissabores lhes sucederam porque tinham sempre fixa em sua mente a terrível
e prejudicialíssima ideia do mais depressa!
Se, mediante a nossa prece ao Poder Supremo, conseguirmos que essa corrente
mental da verdadeira economia atue sobre nós, então, em lugar de termos dado
o cuidado nas nossas ações, bastará que nelas ponhamos amor e carinho e,
desta forma, nenhum incômodo nos dará o desempenhá-las.
O hábil jogador de pelota ou de bilhar e o gracioso e inteligente bailarino só
encontram prazer na execução das suas variadas e difíceis evoluções, porque
nisso puseram todo o amor da sua arte e é assim que, no futuro, o homem
realizará cada uma de suas múltiplas ações.
A ideia que está encerrada na palavra cuidado, e até a própria palavra, foi criada
ou engendrada pela mente material ou terrena. Nas mais elevadas regiões da
existência, todo cuidado converte-se em amor. Amar a ação, de um modo
natural, isto é, sem forçar a própria natureza das coisas, é o que determina a
economia das sagradas forças que em nós residem, assim como o hábil lenhador
sabe economizar a força que o manejo do machado exige, brandindo-o contra o
tronco da árvore só no momento oportuno e justamente no sítio de antemão
escolhido, convertendo, deste modo, tão árduo trabalho num verdadeiro
brinquedo.
O artista, o escritor e, em geral, todos os que, de alma e coração, se entregam
à profissão que exercem, sentem-se sempre cheios de impaciência para
começar o seu trabalho favorito, que sobre eles exerce uma espécie de
fascinação, nada mais desejando tão ardentemente como poderem absorver-se
nele. Tudo o mais os incomoda e aborrece, e o tempo que não empregam no
seu dileto trabalho, os enfastia. Vestem-se apressadamente e de qualquer jeito,
alimentam-se com precipitação e da mesma forma executam todos os outros
atos necessários à vida. E em seguida, como consequência disso tudo, ao
pegarem na pena, no lápis ou no pincel, encontram-se completamente privados
de inspiração e pessimamente dispostos para o trabalho. Por quê? Porque o
artista malbaratou uma parte de suas forças em tudo quanto fez antes de se
entregar ao seu trabalho especial e predileto.
A sábia economia das nossas forças é o princípio da vida verdadeira; é a pedra
angular do edifício que muitos homens, que desejam construir, abandonam por
descuido ou desprezo.
Certamente, muitos homens de um fortíssimo poder mental têm sido
descuidados, e nenhum carinho nem amor têm posto nos pequenos atos da vida.
Apesar disso, realizaram o que o mundo chama grandes coisas. Pois bem, esses
mesmos, se tivessem sabido economizar as suas forças, teriam realizado
certamente coisas muito maiores e mais maravilhosas.
O constante desperdício das suas forças acabou por enfraquecer-lhes o corpo,
arremessando-os finalmente no leito de dor, convertendo-o em um instrumento
inábil para o espírito poder utilizar-se dele nos domínios da vida material.
A verdadeira economia de nossas forças significa vida eterna para o corpo; não
quer isto dizer que o corpo tenha de ser sempre o mesmo, pois o corpo vai-se
renovando e purificando à medida que o espírito sabe atrair maior soma de
energia da Fonte do Poder Infinito.
O desbarato ou desperdício que fazemos de nossas forças, nos atos
insignificantes da vida, afeta de um modo prejudicial o nosso mecanismo interno.
Porquanto os pulmões, o coração, o estômago e todos os outros órgãos
funcionam de acordo com o nosso modo mental predominante, e, se este é o da
impaciência, com impaciência se realizarão as suas transcendentais funções. Se
não gastarmos o tempo indispensável para fazer as coisas com o devido método
e sossego, também o estômago não realizará, como deve e convém, as suas
funções naturais; e, desde esse momento, todos os outros órgãos irão de acordo
com o estômago, porque, quando se deteriora ou altera qualquer dos órgãos da
máquina, o funcionamento total da mesma se altera e deteriora também.
O desperdício constante de forças origina a impaciência, e a respiração de toda
pessoa impaciente ou colérica é curta, ofegante e exaustiva. A pessoa
consumida pela angústia não pode respirar salutarmente. Mas, à medida que
imploremos o Poder Supremo, no estado mental mais favorável e próprio para a
verdadeira economia de nossas forças, mais descansada, profunda, natural e
desafogadamente se fará a respiração nos nossos pulmões.
Assim como existe uma respiração material, existe também uma respiração
propriamente espiritual. Quando o nosso espírito vive na corrente mental da
verdadeira economia, pode enviar ao corpo certa quantidade de vida, a qual
penetra juntamente com ele em cada uma das respirações, e estas, pouco a
pouco, se vão tornando mais profundas, calmas e descansadas. Tal vida não
vem da terra; vem sempre das regiões espirituais, e vem proporcionalmente da
energia da nossa aspiração que consiste em pedir ao Supremo que nos eleve a
uma existência superior, mais pura e sublime, muito acima das dores e
enfermidades terrenas.
Empregar energias no ódio é o pior uso que delas podemos fazer. Odiar alguém
ou alguma coisa, seja qual for o motivo, é coisa que danifica, profunda e
positivamente, o nosso corpo.
Não é porém justo e razoável que odiemos o mal, a ingratidão e a injustiça? Não
se trata aqui de razão ou sem razão, na medida em que estas palavras podem
adaptar-se ao bem comum. Aqui só tratamos, agora, de um estado mental capaz
de trazer bons ou maus resultados a nós próprios.
Ver imperfeição em tudo e estar sempre em estado mental de completo
antagonismo com os costumes gerais, com as leis estabelecidas ou com as
pessoas, atrai-nos uma corrente mental de elementos destruidores, os quais
penetram todo o nosso organismo.
O eloquente orador que nos discursos emprega as mais ferinas invectivas e os
mais atrozes sarcasmos contra o vil opressor, frequentemente morre antes dele;
eis por que, depois de termos entrado numa corrente de luta e antagonismo
mental contra certo e determinado inimigo, já não podemos sair facilmente dela.
Essa nossa arremetida transforma-se em uma espada de dois gumes, que tanto
fere o inimigo como aquele que a maneja. É por esse motivo, justamente, que
se lavrou a bem conhecida sentença: “Quem com ferro fere, com ferro será
ferido.”
Se vivemos com as leis da Economia divina, poupamos toda essa força
desperdiçada, porquanto o ódio se não nos abrigará no coração; nos homens e
em toda a natureza somente veremos o bem. Ver sempre o bem em tudo e em
toda parte é exteriorizar uma grande força mental que nos atrairá maior
quantidade de bem e de felicidade... À medida que a nossa prece se torna mais
enérgica e mais sincera, o Poder Supremo nos ensinará o modo de encontrar
em tudo maior bem do que nós imaginamos, ficando então admirados da infinita
formosura e perfeita ordem que predominam no universo inteiro, ordem e
formosura tais, que nem sequer agora podemos sonhar.
A lei humana diz-nos que devemos repelir todo o agravo, vingando qualquer
ofensa com uma afronta; por isso, na ordem humana até agora estabelecida,
grande parte da sociedade está em contínua guerra com a outra parte, sob
pretexto de combater qualquer mal, pronunciando-se assim, de parte a parte,
palavras duríssimas e insultos pungentes. Destarte, do púlpito e da tribuna, os
homens lançam uns contra os outros tremendas acusações e anátemas terríveis,
e por esse caminho formam-se, num e noutro partido, os sentimentos mais
dúbios e transviados.
Os homens fizeram as leis para destruir o mal e não o conseguiram em coisa
alguma, mas a rotina acostuma-nos a trilhar sempre a mesma senda, e por ela
vamos seguindo sempre satisfeitos.
Porém, examinando tudo isso bem, podemos dizer, porventura, que foi este o
melhor caminho? Observamos em alguma coisa as inspirações do Onipotente?
Ou foi porque o homem se empenhou em tomar as rédeas em suas próprias
mãos, confiando demais nas suas forças para se governar?
Se nos achamos num estado mental em que nos pareça necessário fazer
diversas coisas ao mesmo tempo, porquanto as julgamos todas igualmente
indispensáveis, como sucede frequentemente à mulher, que não sabe
determinar os trabalhos de sua casa, devemos pedir ao Poder Supremo a
sabedoria necessária para conhecermos o que primeiro devemos executar, qual
das coisas nos deve ser mais útil e proveitosa. Devemos também pedir a
necessária sabedoria para saber quando as nossas forças atingiram o seu limite,
pois são numerosos os que trabalham inútil e inconscientemente muito além do
que lhes permitem as forças, alquebrando assim a saúde e abreviando o final de
seus dias neste planeta.
Gastamos em maior ou menor quantidade as nossas próprias forças até estando
ociosos e tranquilos, pois as gastamos também em cada um dos nossos
pensamentos e planos mentais, sejam grandiosos ou insignificantes.
Vemos, por exemplo, que a nossa biblioteca está coberta de pó, a nossa mesa
de trabalho em completa desordem, as nossas caixas de pintura ou de costura
em plena confusão. O propósito que mentalmente formamos de por todas essas
coisas em ordem, embora materialmente não nos tenhamos movido de nossa
cadeira, gastou-nos uma parte maior ou menor de nossas forças. Se nestas
coisas, que hão de ser feitas no futuro, pensarmos uma dúzia de vezes por dia,
pensando sempre em fazê-la, sem nunca realizar esse intento, temos gastado
quantidade de forças de que havíamos mister para executá-las materialmente;
além disso, a contemplação de tantas coisas por fazer se nos tornou deveras
incômoda e irritante, aumentando cada vez mais o aborrecimento e a irritação à
vista das coisas que deixamos por fazer durante o dia.
A simpatia e o amor, mal dirigidos e mal empregados, são também causa de
perda das nossas forças. Se dedicarmos o nosso afeto e simpatia às pessoas
cuja condição mental está muito abaixo da nossa, desperdiçamos grande parte
de elementos valiosíssimos, sem receber em troca elementos equivalentes. A lei
vital exige que haja igualdade absoluta no intercâmbio de elementos mentais
entre duas ou mais pessoas estreitamente unidas por laços afetuosos. Estar
unido ou ligado a uma pessoa, em espírito, não é positivamente uma metáfora.
Existe uma verdadeira relação espiritual, muito mais íntima e real do que as
relações ou alianças físicas de duas pessoas que passeiam de braço dado.
Se intimamente nos ligamos a alguém cuja mentalidade é inferior à nossa,
disposta sempre a dar guarida em seu cérebro e coração aos sentimentos de
ódio, inveja, impaciência e outros maus instintos deste jaez, absorvemos, sem
dúvida, de tal mentalidade, não só estes, mas também todos os outros defeitos
de que possa estar contaminada e, juntamente com eles, todos os males físicos
a que infalivelmente dão origem.
A recomendação do apóstolo: “Nunca te juntes senão aos teus iguais” é baseada
nesta ideia, porque, como diz o velho rifão: “Dize-me com quem lidas, dir-te-ei
as manhas que tens.”
O tédio e a tristeza são igualmente grandes esbanjadores da nossa força.
Todavia, todos nós nascemos com os elementos desses dois inimigos da nossa
ventura e bem-estar, dentro de nós, os quais nos causam dores cruéis, não só
quanto aos males e sofrimentos passados, mas também pelos futuros, até que,
em virtude de nossa incessante prece, todos esses baixos e vis pensamentos
sejam arremessados para bem longe da nossa mente. Dá-se, então, nela, uma
substituição por uma corrente mental muito mais elevada, por onde se chega a
descobrir que a Lei da Vida Eterna ou da religião não se funda em dogmas de
espécie alguma, nem se celebra em determinados dias e sob uma fórmula
determinada também; antes é um espírito santo e de essência divina, que
penetra cada uma das fibras do nosso ser e cuja Força Infinita se manifesta até
no simples movimento de um dedo. Em tudo isto encontraremos sempre a Fonte
inesgotável dos nossos prazeres e proveitos.
Esta corrente mental acabará por fabricar o homem novo e a mulher nova, os
quais, em todas as coisas da vida, encontrarão um motivo de alegria e deleite...
Neste sentido, deve-se compreender que o Infinito Espírito do Bem apagará um
dia da face da terra a tristeza, a miséria e as lágrimas dos olhos humanos,
conforme o que está escrito e prometido nas Sagradas Escrituras.
As nossas forças não podem ficar limitadas aos nossos atos físicos nem a
influência que devemos exercer sobre os outros ficará circunscrita à que, por
acaso, possamos ter sobre eles, mediante as nossas palavras, quer faladas,
quer escritas. A nossa mente mistura-se com outras mentalidades, providas ou
não de corpo físico, imiscuindo-se em tudo o que lhes diz respeito,
independentemente do nosso corpo e sem que este nada tenha que ver com
essas comunicações.
Enquanto o corpo está repousando, podem as nossas forças mentais estar,
talvez, em plena atividade.
Existe o reino do espírito, um mundo ainda quase por descobrir e onde, enquanto
os corpos repousam em seus leitos, as mentes que neles se alojam fazem
projetos, discutem, planejam e impelem as coisas mais importantes e de maior
transcendência, que, em seguida, se tornam numa verdadeira realidade no
mundo material.
O corpo que está estendido na cama, enquanto o espírito trabalha, é apenas
instrumento de que esse mesmo espírito se servirá pela manhã, para pôr em
prática os seus planos e atuar por seu intermédio no mundo das coisas materiais.
A mente de um homem que vive sempre absorto numa ideia extraordinariamente
grandiosa, sublime, genial, nem um só momento deixa de estar em plena
atividade, quer durante o dia, quer durante a noite. Somente o corpo repousa
alguns momentos no domínio da vida que podemos apreciar por intermédio dos
nossos sentidos físicos, ilusórios e falazes, sempre.
Se malbaratamos as nossas forças no mundo material, no espiritual as
desperdiçaremos também. Quando em qualquer desses dois mundos se produz
um desfalque ou perda de forças, tal falha se repercute logo no outro.
Se adormecemos atribulados por uma grande angústia, o nosso espírito
permanecerá toda a noite debatendo-se nas malhas apertadas dessa cruciante
dor e, ao acordar, ao nosso corpo alquebrado parecerá ainda mais insuportável
essa tremenda carga.
A mente cujo hábito é de constante impaciência, enquanto o corpo no leito
descansa, e continua vivendo no reino da impaciência e do desassossego,
aliando-se com outras mentalidades que, em idêntico estado, vivem alimentando
assim o corpo somente com os elementos da impaciência e da angústia.
As forças economizadas pelos meios de que falamos e por muitos outros é que
dão a certos adeptos de algumas seitas da Índia as extraordinárias faculdades
de que gozam, poderes em que não acredita a maioria dos ocidentais que os
qualificam de sobrenaturais. Nada de sobrenatural existe no universo; o que há
apenas é que tanto no universo como em nós próprios existe uma grande
quantidade de coisas hoje ainda ignoradas pelo homem.
Pelo decorrer dos tempos, todos os homens têm vivido com o hábito de
desperdiçar as suas próprias forças, pelo que, tratando de corrigir estes males,
devemos abster-nos o mais possível de dizer: “É necessário ou tenho de
reformar imediatamente este hábito”, porque ele não pode ser reformado
imediatamente, por isso que nenhum homem pode, só por si, individualmente,
reformá-lo em absoluto. Só a nossa incessante prece ao Poder Supremo pode
libertar-nos a mente de tão nocivo hábito.
É-nos inteiramente impossível, de um só esforço, deter esse perene desperdício
de nossas forças; a habitual impaciência que por longos anos abrigamos em nós
exigirá bastante tempo ainda para corrigir-se e transformar-se num estado
mental mais tranquilo e calmo.
As relações com pessoas cuja companhia não nos convém ou pode até ser-nos
prejudicial, também não podem ser cortadas de um golpe ou de uma só vez,
ainda mesmo quando saibamos serem elas a causa da perda das nossas forças.
Uma mente habituada ao ódio ou à inveja não pode mudar o seu feitio do dia
para a noite.
Dizer a nós mesmos ou aos outros: “É necessário corrigir-nos já, de uma vez
para sempre, do hábito de estar sempre impacientes e contrariados”, seria, na
verdade, enveredar por um péssimo caminho, pois que o esforço que fizemos
nesse sentido seria forçado e artificial, redundando tudo em prejuízo e grande
dano da pessoa que o tentasse, originando-se um estado mental falso e
destituído de naturalidade; como algumas vezes observamos em certas pessoas
que, sistematicamente, imitam ou arremedam as maneiras de outras
individualidades.
Os estados mentais daí resultantes são sempre contrafeitos e doentios,
produzindo extrema fadiga no corpo.
A correção e a distinção que se podem conseguir ou adquirir desta forma, não
perduram, pois só pode perpetuar-se pelos séculos adiante aquilo que nos
provém de Deus.
O corpo que durante trinta ou quarenta anos se habituou ao estado mental de
impaciência, convertendo esta na sua condição normal, tem em cada um dos
seus ossos a impaciência mental materializada em substância física, da qual só
podemos desprender-nos pouco a pouco, substituindo-a por uma substância
mais nova, mais salutar e mais espiritual em suma.
Atualmente vivemos no meio da ignorância, mas, por isso ninguém pode
qualificar-nos de miseráveis pecadores. Devemos, entretanto, sair desses erros.
À medida que nossos olhos se forem abrindo à luz divina, descobriremos
algumas das faltas ou erros em que temos vivido. E devemos dar muitas graças
ao Supremo Espírito do Bem por nos ter feito ver e conhecer bem as nossas
passadas faltas ou erros, pois que só o fato de as podermos ver já é uma prova
de que estamos progredindo no caminho da nossa perfeição.
O homem, porém, não pode, por si só, desenvolver essa Economia divina.
Portanto, se chegar a descobrir que está esbanjando de qualquer forma as suas
próprias forças, o que lhe convém fazer é dirigir uma fervorosa prece ao Supremo
Espírito para que lhe seja concedido o estado mental calmo, satisfeito e tranquilo.
Então começará a fluir sobre ele uma vida nova de paz e sossego, com
ensinamentos sobre a modo de poupar as suas forças, incorporando
materialmente esses ensinamentos no seu sangue, nos seus ossos, nos seus
nervos, constituindo dessa forma um novo ser e, por este caminho, à prática da
Economia divina se torna ao homem tão fácil e tão natural como lhe é agora
natural e fácil o respirar.
A Mente Infinita e a Sabedoria dos séculos, chamadas a atuar sobre os homens,
destruirão cabalmente, sem a menor perturbação de espécie alguma, todos os
obstáculos que se opuserem ao pleno desenvolvimento da vida. E o nosso modo
de ser transformar-se-á tão serena e suavemente, mudando gradualmente os
nossos estados mentais, os nossos costumes e as nossas companhias, quase
sem darmos por isso; da mesma forma que um formoso pôr de sol a cada
instante muda o aspecto do céu, colorindo-se este cada vez de mais belas e
variadas cambiantes de cor e de luz, modificando-se-lhe a coloração e os
matizes, e obrigando-nos, o deslumbrante arrebol que estamos presenciando e
admirando agora, a esquecer os esplendores passados.
É então que podemos afirmar que o reino da Bondade Infinita penetra na
mentalidade de cada um de nós tão silenciosa e sutilmente como o perfume
suave e delicado das flores.
8
Deus na natureza
Bem-aventurado é aquele que sabe amar as árvores, principalmente as árvores
silvestres ou naturais que crescem sem peias onde a próvida e onipotente
natureza, a divina Força da criação as colocou, independentemente dos
cuidados dos homens. Porque todas estas coisas, por nós denominadas
silvestres ou naturais, estão muito mais próximas da Mente Infinita do que as
que foram escravizadas e torturadas pela mão do homem e, justamente
enquanto assim estão mais perto da Mente Infinita, desfrutam também muito
melhor e em maiores proporções da Força Infinita. Eis a razão por que, quando
nos encontramos em plena natureza, no meio dos bosques ou nas montanhas,
enfim, no meio de tudo quanto é silvestre ou natural, onde se não encontra o
menor vestígio, nem mácula da mão do homem, sentimos uma íntima satisfação
e uma verdadeira liberdade de espírito, difícil de exprimir e que em nenhuma
outra parte podíamos encontrar.
É porque ali respiramos um elemento especial que as árvores, as rochas, as
aves, os animais e cada uma das expressões da Mente Infinita que nos rodeia,
desprende contínua e constantemente. Tudo isso é alegre e saudável; existe ali
mais alguma coisa do que o ar que respiramos: há a Força Infinita manifestada
em todas essas coisas absolutamente naturais, a qual influi e atua sobre nós.
Na cidade, não podemos gozar dessas coisas, nem sequer mesmo nos mais
belos e cultivados jardins e vergéis, porque estes, ao contrário da libérrima
natureza, estão impregnados da baixa e mesquinha mentalidade humana, dessa
mentalidade que acredita ser ela só que impele o progresso e o melhoramento
do universo.
É o homem propenso a acreditar que o Infinito fez o mundo tosco e grosseiro,
para ele o poder aperfeiçoar e polir. Foi esta, realmente, a orientação seguida
pelo homem, o raciocínio por ele feito ao destruir as selvas e as florestas e, com
elas, portanto, os pássaros e os outros animais que nelas habitam. Constituem,
porventura, progressos verdadeiros, na ordem natural e divina das coisas, estes
nossos rios, que arrastam o lodo e as águas infectas de tantas fábricas e
engenhos de toda espécie, e estas cidades feitas pela mão do homem, as quais
crescem e se expandem, todos os dias, sobre muitas milhas de terreno, vivendo
nelas os seus habitantes apertados como as abelhas numa colmeia, correndo
sob as suas casas os pestilentos canos de esgoto e ouvindo-se por toda parte
milhares de ruídos ensurdecedores, não falando nos inúmeros perigos de que
constantemente estamos rodeados?
Venturoso é, pois, aquele que durante a sua existência inteira sabe amar com
terno amor as árvores dos bosques, as aves e os animais, cujas vidas o homem
não artificializou ainda, compreendendo, além disso, que todos eles são
animados pelo mesmo Espírito divino, que o anima a ele também, visto serem
todos criaturas de Deus, filhos, portanto, do mesmo Pai Criador, podendo
prestar-lhe elementos verdadeiramente valiosos em troca do amor
desinteressado que lhes consagrou.
Nem as árvores das florestas, nem os pássaros que, em seus frondosos ramos,
constroem os mimosos ninhos, deixam de corresponder a tal amor, porque esse
amor não é um simples mito sem realidade alguma; antes, pelo contrário,
constitui um real elemento, uma força que de nós dirige para a árvore, o pássaro
ou a simples rocha, e por todas essas coisas é sentido na verdade.
Cada um de nós representa uma parte da Mente Infinita e cada uma de todas as
outras coisas que existem na natureza, quer seja animal, planta ou mineral,
representa outra parte da mesma Mente, sob a forma de vida que lhe é peculiar
e com a sua própria inteligência. A única diferença consiste apenas em que o
homem goza talvez de uma forma mais perfeita e que ainda se aperfeiçoará cada
vez mais nas idades vindouras.
O amor é um elemento, embora fisicamente invisível, tão verdadeiro e real como
o são a água e o ar. É, além disso, uma força sempre ativa e vivificadora, atuando
constantemente em todos os seres do mundo que nos rodeia, mas a qual os
nossos sentidos físicos desconhecem, movendo-se em ondas incessantes,
como incessantes são também as ondas dos mares.
Possui a árvore um sentido especial pelo qual percebe o nosso amor e lhe
corresponde. É certo que não mostrará a sua satisfação por uma forma que
possa ser atualmente compreendida por nós. Os seus meios de expressão são
os da Mente Infinita, da qual forma uma parte também e, portanto, não a
podemos nós entender, tendo de nos contentar com o sentimento de uma
felicidade maior experimentada.
Em todos os tempos, o homem, em determinadas circunstâncias, tem
experimentado uma paz e serenidade de ânimo que ninguém pôde
compreender, porque não há análise química, nem dissecção capaz de apreciar
e aquilatar essa paz verdadeiramente divina.
Sim, se foi o espírito divino quem fez e criou todas as coisas, como não hão de
estar cheias de Espírito Divino todas elas? E se nós amarmos as árvores, os
animais e até os rochedos, enfim, tudo o que a Força Infinita criou, como elas
nos hão de corresponder também com o seu amor, dando-nos, conjuntamente
com ele, os valiosos elementos da sabedoria que lhes são inerentes? Não nos
aproximaremos mais de Deus, dedicando o nosso amor a todas essas
expressões do amor divino, que aos nossos olhos têm especialmente a forma de
animais, plantas ou pedras? Ou, porventura, esperamos achar Deus,
compreendê-lo cada vez mais profundamente, sentir toda a força do seu
incomensurável Poder, sem nada mais fazermos do que pronunciar só as quatro
letras de seu nome?
Mais de um dos meus leitores sorriu, certamente, com esta ideia de que as
árvores e as rochas possam possuir também uma mente, e, de mais a mais,
mente que pensa e raciocina. É porque nunca se detiveram um momento a
meditar que as árvores, sob muitos pontos de vista, têm uma organização física
igual à nossa. Nelas, a seiva faz o ofício do sangue, gozando de um sistema de
circulação igual ou pelo menos equivalente ao nosso. A sua casca é a sua pele,
e as folhas são os seus pulmões. Têm também necessidade de se nutrir, tirando
o seu alimento como nós, do solo, do ar e da luz, sabendo, tal e qual o homem,
adaptar-se às circunstâncias e ao meio ambiente que as cerca.
O vetusto carvalho, que cresce e chega a atingir colossais alturas, ficando, por
essa razão, bastante exposto aos vendavais, fixa raízes fortes e profundas no
solo, prendendo-se desta forma, por vigorosos e estreitos laços, à terra que o
robustece, dando-lhe a vida e a força necessária para melhor poder resistir aos
embates das tempestades.
Os pinheiros que criam, formando entre si espessas matas ou extensíssimos
pinhais, não lançam à terra raízes tão fortes por contarem com o seu
extraordinário número para resistir à inclemente investida das rajadas, à fúria
das ventanias. Portanto, sabem eles também que a união faz a força.
Há plantas que são verdadeiras sensitivas, contraindo, pudica e
melindrosamente, as suas folhas, mal se lhes aproxima a mão do homem.
Sentem tão manifestamente, que disso lhes veio o nome. Existem muitas que só
crescem e se desenvolvem no meio especial que lhes é próprio. Se as
transportam para países longínquos ou tentam cultivá-las em condições
diferentes das que lhes são peculiares, estiolam-se e fenecem rapidamente.
Pois, com todas essas semelhanças físicas das plantas com o nosso corpo, nos
atreveremos a afirmar que as árvores e todas as plantas não possuem também
a sua porção de Mente Infinita? De forma alguma. A árvore é
incontestavelmente, também, uma parte da Mente Infinita, da mesma forma que
todos nós o somos. A árvore nada mais é do que uma das expressões também
do Espírito Infinito que está em toda parte. Só vemos, porém, essa manifestação,
quando toma a forma do tronco, dos ramos e das folhas, assim como vemos a
expressão material do nosso corpo. Da mesma forma que não vemos nosso
próprio espírito, também não podemos ver o espírito da árvore.
A árvore é, pois, na realidade, uma das expressões do pensamento divino, e esta
expressão, assim como todas as outras expressões do Eterno, merece o nosso
estudo, porque deve conter alguma porção da Sabedoria Infinita, que nós
ignoramos e necessitamos incorporar no nosso ser, pois que toda verdade que
adquirimos aumenta os nossos poderes, os quais, pouco a pouco, melhorarão o
nosso corpo, tornando-o mais forte e são, libertando-o por fim de toda debilidade,
da doença e da morte.
Porque, como já foi dito, devemos aspirar a que o nosso coração e a nossa
mente se fortaleçam; que o nosso corpo se tome ágil e não pesado, à medida
que os anos forem decorrendo e que cada novo dia nos traga também maior
ventura e um novo prazer, de forma que, em nossa alma e em nosso espírito,
penetre a divina luz de uma nova religião capaz de nos dar certezas absolutas e
não meras esperanças e teorias; que nos seja permitido sentir a Divindade de
um modo positivo, indiscutível e inteiramente indubitável, manifestando-se a
Mente Infinita em cada um dos átomos do nosso ser.
Quando vivemos nos domínios da Mente Infinita e trabalhamos para que esta
entre a formar parte de nós próprios, nada nos parecerá fútil ou inútil.
Necessitamos para os nossos projetos o auxílio de certos poderes agora ainda
negados aos homens; necessitamos vencer os obstáculos que o corpo mortal
opõe à nossa marcha, carecemos de vencer as dores e a morte, deficiências
próprias do corpo mortal.
Poderão dar-nos as árvores tudo isto. Muitíssimo auxílio podem prestar-nos na
verdade, se conseguirmos penetrar no seu espírito e compreender que,
realmente, elas contêm uma expressão da Mente Infinita e deixarmos de
considerá-las como uma coisa inanimada. Se só apreciarmos as árvores como
coisas produtivas e boas, porque nos dão lenha e madeira, quase de todo
desconheceremos a sua vida espiritual, razão por que elas nos desprezarão,
como nos desprezaria qualquer pessoa a quem considerássemos boa somente
para ser serrada ou feita em achas para queimar.
Quando vivemos realmente no amor do Espírito Infinito de Deus, amamos todas
e cada uma das partes de Deus.
Ora, uma árvore é também uma parte de Deus e, enviando-lhe a expressão do
nosso amor, ela nos enviará também a retribuição do seu e, com ele, os
elementos da sua mentalidade, os quais adicionarão aos nossos conhecimentos
um conhecimento novo e um novo poder às nossas próprias potências e
faculdades, dizendo-nos que a força que representa, sendo como é uma parte
de Deus ou a Força Infinita, tem, com relação ao homem, destinos muito mais
elevados do que o de ser convertida em fumo e cinzas. O seu amor nos dirá,
então que a árvore penetra a atmosfera com os seus ramos e as suas folhas,
para dela extrair elementos vitais que transmite à terra e dos quais o homem se
aproveita, em seguida, na proporção da sua capacidade para os receber.
Quanto mais nos aproximamos da verdadeira concepção da Mente Infinita,
quanto mais clara e nitidamente compreendermos que desta Mente estão
impregnadas todas as coisas, quanto mais intimamente sintamos a nossa
relação com o pássaro e a pedra, considerando-os como criaturas
verdadeiramente nossas irmãs também, em maior quantidade absorveremos os
elementos vitais que emanam de cada uma destas manifestações vitais da
Mente Infinita e que ela projeta sobre nós.
As pessoas que só apreciam as árvores por considerá-las boas para madeira ou
combustível, pouquíssimo podem aproveitar desses elementos vitais que, para
outra mentalidade mais elevada e perfeita, serão verdadeiros elixires da vida e
alegria.
Só absorvemos os elementos de amor, na proporção em que amamos; e só
amamos na devida proporção em que admiramos cada uma das manifestações
do Infinito, quer seja uma árvore, um arbusto, uma flor, um fruto, um pássaro, um
inseto ou qualquer outra forma das inúmeras expressões que a natureza encerra.
Não podemos destruir nem mutilar o que deveras amamos, e o amor de tudo
quanto sinceramente amamos flui até nós, penetrando-nos, pois é um elemento
tão positivo como a própria árvore, e, quanto maior for a quantidade desse
elemento vital, que recebemos e absorvemos, maiores serão também as nossas
faculdades, poderes e compreensão da vida.
A destruição de um bosque significa a perda dos elementos vitais que ele nos
podia proporcionar, e se no lugar das árvores silvestres cortadas plantamos
outras variedades exóticas ou produto de uma cultura artificial, indubitavelmente
aqueles elementos de vida foram adulterados, diminuindo extraordinariamente o
vigor que poderiam dar-nos.
Se a terra inteira se cobrir de cidades e aldeias, jardins e campos artificialmente
cultivados pela mão do homem, não teremos já de onde tirar elementos vitais
que só as florestas virgens nos podiam dar.
Desconhecendo voluntariamente que a árvore, como tudo quanto existe na
natureza, nada mais é do que uma das expressões da Mente Infinita, mantemo-
nos inábeis para absorver os elementos vigorizadores que esta exterioriza,
mediante as plantas e os animais, para com eles nos vivificar. Estão as árvores
emitindo incessantemente elementos da vida, tão necessários ao homem como
o próprio ar que ele respira.
Apenas o homem acaba alguma das suas obras, começa logo esta a converter-
se em pó, e pó respiramos constantemente nas nossas grandes e ricas cidades.
No universo nada permanece em absoluto descanso um só momento. As pedras,
os tijolos, os ferros com que construímos as nossas habitações estão também
em incessante movimento, porque lenta e insensivelmente se vão transformando
em impalpável pó.
Todas as manhãs, embora tenham estado as janelas hermeticamente fechadas,
encontramos as nossas mesas, cadeiras, livros e até os vestuários, cobertos de
poeira. Por quê? — Porque existe uma força gigantesca que, sem cessar, se
move e vai destruindo e pulverizando todas as coisas materiais. Deixai que entre
um raio de sol num quarto escuro e vereis flutuar no ar miríades de átomos de
pó espessíssimo de que ele está cheio, pois além dos minúsculos grãos de pó
que os vossos olhos materiais podem perceber, contam-se milhares deles que à
vossa vista não é dado distinguir. Tudo isto é a matéria morta, produzindo o
incessante e misterioso processo da vida, enquanto que as árvores e todas as
coisas naturais emanam de si só elementos plenos de vigor e de força vital.
Os nossos próprios corpos expelem de si continuamente, através dos poros da
pele, elementos inteiramente inúteis às boas funções do organismo e, desta
forma, nas grandes cidades, onde a população é tão densa, o ar está repleto de
miasmas e da impalpável matéria que os corpos dos homens sãos ou enfermos
expelem, respirando nós todos essa matéria, uma e muitas vezes. E esta nuvem
de matéria invisível que enche o ambiente das populosas cidades, não é uma
substância vital, pois, embora tudo o que existe participe da vida, essa matéria
já não contém os elementos apropriados para a nutrição da vida do homem.
Neste sentido é verdadeiramente matéria morta.
À medida que formos entrando na vida eterna, na saúde e na felicidade pura e
imaculada, sem dúvida a nossa mente se irá tomando mais própria para uma
íntima comunhão com as árvores, as plantas, os animais e com todas as coisas
que a próvida natureza em si encerra.
Compreenderemos e veremos, então, que o amor que votamos a todas as coisas
naturais, permitindo-lhes que a vida se desenvolva nelas em todo o seu mágico
e grandioso esplendor natural, nos é devolvido exuberantemente, recebendo
com ele a especial qualidade do Infinito, que cada uma das suas expressões
neste mundo contém a guarda. Delas fluirão, então, para nós, os elementos de
uma nova vida, de uma vida muito mais poderosa e mais feliz do que a presente
existência.
Perguntará alguém: “Mas se não cortarmos a árvore que nos dará a madeira
para construir as nossas casas e a lenha para nos aquecermos e cozinhar os
nossos alimentos, nem sacrificarmos os animais que devem servir para a nossa
alimentação, como poderemos viver?’’
Acaso não haverá outra forma de viver do que aquela que conhecemos
atualmente? Acreditamos, porventura, que nas mais puras, elevadas e perfeitas
condições mentais por nós denominadas celestes serão também necessárias,
como agora, a morte dos animais, a mutilação das árvores e a destruição de tudo
quanto seja uma expressão material da Sabedoria Suprema? Pode-se acreditar
que há de ser possível trabalhar na elevação e na purificação da nossa
mentalidade, sem nunca ter o conhecimento das leis mediante as quais esta
purificação pode ser alcançada? Isto seria o mesmo que acreditar que alguém
possa fazer dar a volta ao mundo a um navio, sem ter os menores
conhecimentos de náutica. Não devemos aspirar atingir as culminâncias
celestiais, da mesma forma que um barril vai rolando inconscientemente por uma
escarpa abaixo.
É de ver que não podemos libertar-nos imediata e completamente de escravizar
e sacrificar as plantas e os animais, nem de os excluirmos de todo na nossa
alimentação. Enquanto o corpo desejar e solicitar tal espécie de alimentos, é de
absoluta necessidade dar-lhos. À medida, porém, que o nosso corpo se for
espiritualizando e aumente a sua crença e a sua fé na purificação de seus
elementos, o estômago e o paladar repelirão a carne de qualquer gênero que
seja e não saborearão seres violentamente mortos.
O homem acreditou sempre, erroneamente, até agora, que dependia da sua
própria vontade o purificar ou elevar o seu estado mental e, para tal fim, muitos
se têm violentado a si próprios e obrigado a outros também a determinados
jejuns e penitências, abstendo-se completamente de todos os gozos e prazeres
que a sua natureza mais desejava e lhes pedia. Todavia, e apesar de tudo isso,
nunca o homem, por esses caminhos, conseguiu libertar-se da enfermidade, do
sofrimento, da decadência e da morte.
Com todas essas rudes provações, o homem só tem conseguido prejudicar-se,
passar uma existência miserável e por fim perder igualmente o seu corpo, tal e
qual como o perde também o glutão, o bebedor ou aquele que de nenhum gozo
se priva.
O asceta nunca teve a verdadeira fé de que só o Supremo o havia de fazer
elevar-se na escala da perfeição e não o seu próprio esforço, e foi esse
positivamente o maior dos seus pecados, porquanto, desta forma, cortou, pelo
menos temporariamente, a sua relação com o Supremo, fonte de onde emana
toda vida.
A salvação não está fora ou na exclusão de todo pecado, de todo excesso, de
todo e qualquer hábito prejudicial, mas na perfeita submissão ao Poder Supremo,
que com certeza afastará de nós, gradualmente, os desejos desordenados e os
anelos próprios deste ou daquele vício.
De outra forma, é claro que pode ao homem parecer que se tem corrigido, porém,
será só na aparência ou exteriormente e de forma contrafeita e artificial, pois que
repressão não é o mesmo que correção.
Fanático em todos os tempos e em todos os povos tem sido o indivíduo que a
pretensão de acreditar poder fazer facilmente de si, e por sua vontade própria,
um anjo. Foi esta crença que manteve e mantém ainda o homem no seu atraso.
O Supremo está nos dizendo a cada momento: “Vinde a mim; em todas as coisas
criadas me encontrareis; e eu vos enviarei todos os dias pensamentos novos,
novas ideias e novos elementos de vida, que irão transformando os vossos
gostos e desejos, eliminando em breve, mas pouco e pouco, de vossos corpos,
os desejos desordenados e as desregradas paixões, dando-vos, em
compensação, prazeres tão grandes e sublimes como nem sequer podeis
imaginar.”
À medida que avançarmos na senda da perfeição, a nossa existência se tornará
mais elevada e mais pura, como o universo inteiro há de purificar-se, e sentir-
nos-emos cada vez mais propensos a conceder aos animais, às plantas e a
todas as manifestações materiais da Divindade e da Força Infinita o gozo pleno
da sua vida e da sua liberdade. Então, amando-as, as respeitaremos, pois que
não se escraviza nem se mata o que deveras se ama. Prendemos um pássaro
numa gaiola para o nosso prazer e não para o seu; portanto, isto não é amar as
aves. Quando amamos do modo mais elevado que é dado ao homem fazê-lo,
abrimos, para nós próprios, um verdadeiro manancial de vida e ventura. Quando,
com amor verdadeiro, amamos alguém ou alguma coisa, é positivamente certo
que, por sua vez, esse ente nos envie o mais puro do seu amor e da sua
existência também.
Assim, à proporção que aumente e se purifique em nós este desejo e esta
faculdade de amar os pássaros e as plantas, isto é, todas as coisas criadas pelo
Infinito, receberemos delas, em maior quantidade, uma espécie de renovação da
nossa força, da nossa vida, da nossa alegria e do nosso vigor mental, não só
dos seres animados, mas também até dos que julgamos inanimados, como o
branco floco de neve que cai dos céus, o mar que ruge como um leão furioso ou
murmura brandamente, como para nos alentar e fazer dormir um suave e doce
sono à beira-mar, ou ainda a montanha que, para alegria dos nossos olhos, se
reveste de verdura e flores. E pode-se ficar certo de que este nosso amor não é
só um sentimento platônico, mas um meio seguro de recuperarmos as nossas
energias e fortalecer o nosso corpo depauperado, pois que o amor fortalece o
espírito com uma força que não o abandona mais, e que dá vigor ao espírito,
robustecendo o corpo também.
Mas só por nosso esforço próprio não podemos criar em nós essa preciosa
capacidade para amar todas as coisas e delas tirar força. E devemos pedir isto
ao Poder Supremo.
Talvez pergunte alguém: “Mas por que não nos deu já antecipadamente o Poder
Supremo essa útil capacidade? Por que tem permitido, por tão largo espaço de
tempo, esse Poder, que o homem martirizasse e escravizasse os seres naturais?
Por que consentiu Ele as tempestades, os terremotos e as guerras, deixando
que as forças da natureza e as forças humanas competissem, à porfia, em raiva
e fúria insana, para o extermínio e as produções de catástrofes e misérias?”
Nem sequer tentamos responder pelos atos da Sabedoria Divina. É suficiente
para nós saber que existe um caminho que nos conduz para a felicidade, pondo-
nos fora do alcance de toda espécie de males; bastar-nos-á também saber que,
à medida que o nosso ser se for regenerando, chegaremos ao esquecimento
absoluto de tais males terem até existido.
Em todas as forças da natureza, ainda as mais terríveis e pavorosas, só veremos
o seu lado bom, capaz de contribuir para a nossa felicidade.
Nem sempre a parte material do homem foi atingida ou molestada pelo fogo e
pela tempestade. São disso uma convincente prova aqueles três homens
hebreus que saíram são e salvos de um forno de brasas. Lembremo-nos também
de que o Cristo caminhou serenamente por cima das águas do mar encapelado,
sem lhe causar o menor dano a tempestade. O que a História nos tem
demonstrado ser possível para alguns, há de ser igualmente possível um dia
para todos, quando o seu Eu espiritual tiver atingido as culminâncias da máxima
pureza.
A comunicação com a natureza é mais do que um mero e agradável sentimento;
constitui uma verdadeira comunhão com o Ser Supremo e Infinito. Os elementos
que por essa comunhão recebemos, atuando por sua vez no corpo e no espírito,
são tão reais e verdadeiros como qualquer coisa das que vemos e tocamos.
A capacidade para essa comunhão com Deus, mediante a expressão de sua
divindade, que as nuvens, as montanhas, as árvores, os pássaros, as flores e
todas as formas materializadas da natureza contêm, não a possuem, em grau
igual, todos os homens. Muitos deles sentem-se tristes e mal dispostos, quando
isolados nos bosques ou nas montanhas. É porque então se encontram
deslocados, fora da sua costumada corrente mental. Só no bulício, no turbilhão
das cidades, no burburinho das reuniões humanas, onde tudo é artifício,
aparências e ostentação, eles se sentem bem. O espírito desses mundanos vai-
se cobrindo como de uma capa isoladora, que impossibilita toda comunicação
com as expressões de Deus na solidão da natureza, que, portanto, lhe parece
selvagem, triste e insuportável.
O que puder retirar-se, de quando em quando, à solidão da natureza, sem se
sentir molestado e mal impressionado nesse isolado retiro, antes
experimentando imensa alegria e uma íntima e profunda satisfação de si próprio,
sem a menor dúvida, ao regressar ao convívio dos outros homens, estará
possuidor de novos poderes e novas faculdades, podendo mesmo dizer-se dele
que esteve com Deus, como o espírito da Infinita Bondade.
Os videntes, os profetas, os taumaturgos e todos os que operam milagres, dos
quais nos fala a história bíblica, adquiriram desta forma os seus poderes. Cristo
retirou-se ao deserto e ali foi fortalecido por Deus. Os sectários das religiões
orientais, em quem se têm manifestado grandes, extraordinários e maravilhosos
poderes, amaram sempre a solidão da Natureza, vivendo nela felizes e
contentes, passando aí horas esquecidas em profunda e deleitosa
contemplação, quase inconscientes de tudo e inteiramente alheios a quanto os
rodeava, adquirindo assim, do Infinito, novas ideias e novos poderes.
Não é fácil citar homem algum que tenha deixado impresso na Humanidade o
assinalado vestígio da sua passagem e ação, que não tenha amado essa
comunicação com o Espírito de Deus na solidão da natureza, onde encontrou a
inspiração para as suas mais gloriosas empresas.
Ninguém, por si próprio, pode criar para si essa capacidade, que nos permite
gozar das coisas naturais e tirar delas e da natureza inteira toda espécie de
forças, energias e poderes.
O que devemos fazer, portanto, é implorar insistentemente ao Infinito a
renovação da nossa mente até podermos sentir Deus na floresta, na montanha
ou no mar, tanto na calmaria, como durante a tempestade; e não só sentirmo-
nos satisfeitos, mas também absorver os seus poderes e as suas energias,
quando a natureza se nos apresentar em todo o esplendor da sua beleza e
força... Veremos, então, como uma mentalidade nova vai substituindo a antiga e
à sua feição tudo se renova e fortifica na natureza.
9
Os bons e maus efeitos
do pensamento
Todo ser humano tem direito à beleza do rosto e do seu ser inteiro. Toda
fisionomia humana, como toda flor que desabrocha no campo ou no jardim, deve
exultar de gozo, não só ante o olhar de admiração dos outros como diante do
seu próprio olhar, e é isto justamente o que o homem terá de ver no futuro. A
beleza é um dos dons mais generosamente cedidos às infinitas manifestações
da natureza, desde as lindas formas e variegadas cores adquiridas pelas folhas
das plantas e as penas das aves, até ao mimoso floco de neve, que das nuvens
cai cristalizado sob inúmeras formas geométricas de uma simetria e proporções
maravilhosas e até fantásticas.
É digno, pois, de se repetir, muitas e muitas vezes, que a beleza, a saúde, a
fortuna e até o triunfo, em qualquer dos aspectos da nossa vida, dependem
inteiramente do nosso estado mental predominante. Se este estado mental é o
da confiança em nós próprios e naquilo que fazemos ou em que nos
empenhamos, considerando e encarando tudo pelo seu lado prazenteiro,
benéfico e salutar, com a mira sempre posta na vitória que deve ser o nosso alvo
principal, sem nunca nos deixarmos invadir pelo desânimo, e em caso de nos
sentirmos inclinados a isso, lutar denodadamente contra o desespero, podemos
estar seguros do triunfo final, pois enquanto mantemos a nossa mente naquele
estado, exteriorizamos a força que há de atrair-nos os elementos do êxito.
Quanto maior for a nossa persistência na manutenção do estado mental de que
acabamos de falar, mais fortes e firmes serão a nossa confiança e a nossa fé na
eficácia dos elementos mentais, eficácia esta até agora quase absolutamente
desconhecida e negada, dando-nos todos os dias mais numerosas e mais
absolutas provas de que é essa força que nos há de trazer a felicidade, a saúde
e o triunfo, seja qual for a nossa situação na vida.
Têm, porém, de ser observadas certas condições, para a manutenção desse
estado mental, no qual reside uma das forças mais poderosas ou talvez a mais
poderosa de todas para nos proporcionar o melhor, o mais apetecível de tudo
quanto este mundo encerra, fazendo-nos sentir também, ao mesmo tempo, o
que de mais apreciável e profundamente interessante para nós se contém em
arte, estado, profissão ou negócio a que habitualmente nos dedicamos.
Persistindo amplamente no estado mental aqui aludido, chega este a converter-
se em uma espécie de ímã, que atrai todo bem e êxito para nós e a todas as
pessoas que de algum modo nos podem coadjuvar e às quais nós próprios
poderemos ser úteis também por nossa vez.
Se, porém, a nossa mente cair com frequência ou permanecer por largo espaço
de tempo imersa em profundo estado de tristeza e abatimento, sem se esforçar
em arremessá-los para bem longe de si, então converte-se em uma espécie de
ímã negativo, que afasta de nós tudo o que for bom, atraindo sempre só o pior.
Nesta situação, se alguém nos auxilia, apenas o faz com a intenção de praticar
um ato de caridade, de fazer uma esmola, o que nunca é um verdadeiro auxílio,
porque aquele que não puder ser útil aos outros, seja qual for a sua situação no
mundo, não é considerado como um indivíduo necessário à sociedade, e não
passando, portanto, da categoria de um tolerado, apenas.
O maior obstáculo para chegar a esse estado mental, sereno, calmo, tranquilo e
confiante, que é a fonte de todas as potências, consiste apenas no fato de nos
associarmos com toda classe de pessoas, sem discernimento algum, vivendo
em contínua promiscuidade com homens e mulheres, cujo nível mental é inferior
ao nosso. Se nos associarmos, embora superficial e temporariamente, com
pessoas frívolas, ocupando-nos unicamente de futilidades, com homens
destituídos de nobres ambições e de elevados anelos, com pessoas cínicas,
maldizentes, ingratas, desleais, hipócritas, céticas, sem crenças nem a menor
confiança nas leis espirituais, movendo-se como autômatos, apenas impelidas
pelos afetos de ordem material, único mundo a que se arraigam — é fora de toda
dúvida que absorveremos também, pelo menos alguns de seus baixos e frívolos
pensamentos, ficando assim as nossas próprias faculdades suplantadas e como
esmagadas pelo peso dessas más influências, tão prejudiciais à nossa própria
saúde física e mental.
Se visitarmos amiúde uma família cujos membros são todos indivíduos
descrentes, cínicos ou muito neurastênicos, constantemente de mau humor e
desanimados, vendo tudo sempre pelo lado mau e sombrio da vida, sempre
pessimistas, embora estejam ligados a nós por uma verdadeira amizade,
sairemos da casa deles com algumas das nossas próprias potências diminuídas
ou completamente anuladas, principalmente se nos sentirmos atraídos para eles
por forte simpatia. Cada pensamento simpático que de nós vai para eles
representa uma parte da nossa força perdida, e em coisa alguma devemos por
tanta atenção como no seu bom emprego.
Posto o nosso alvo em alguma coisa bem definida e bem planejada, a atmosfera
ou aura mental de que nos rodeamos, ao tratar do que tanto nos preocupa com
qualquer pessoa, é-nos de enorme auxílio, muito mais poderoso mesmo do que
as próprias palavras que proferimos, pois tudo o que essa atmosfera envolver
terá de sofrer e sentir infalivelmente a sua ação.
Se tiverdes confiança no vosso talento, se fordes absolutamente honrado, de
uma honradez a toda prova, aqueles que convosco falarem sentirão essa
confiança e essa honradez, e mesmo depois de vos terdes afastado deles, se
persistir no vosso íntimo propósito, continuarão, com certeza, sentindo-o ainda
cada vez com mais veemência, pois é esse um poder que não deixa de atuar um
só instante.
Se, porém, apesar de termos esse talento e essa confiança, nos ligarmos ou
frequentarmos muito a companhia de pessoas de má índole, cépticas, gente de
instintos puramente materiais, não acreditando em coisa alguma espiritual, sem
dúvida alguma absorveremos nós também algo das suas qualidades mentais
que levaremos conosco para onde quer que formos.
Deste modo, quando tratarmos do nosso negócio mais importante, disso que
tanto nos interessa com as outras pessoas, estas sentirão qualquer coisa de
estranho e desagradável em nós, e, portanto, a impressão que nelas deixamos
será menos favorável aos nossos interesses.
Cada um de nós pode fabricar uma atmosfera ou aura mental que o acompanhe
por toda parte, assim como poderemos construir uma casa ou algum objeto
material; mas essa atmosfera só podemos fabricá-la associando-nos com outras
mentalidades que se encontrem no mesmo nível em que nós estamos
moralmente.
É conveniente, portanto, que todos os nossos amigos vivam no mesmo plano
mental em que nós vivemos, tenham as mesmas crenças, e os seus desejos e
aspirações sejam iguais aos nossos. Desta maneira, a nossa comunhão com
eles ser-nos-á de imensa vantagem, fortalecendo o nosso corpo e o nosso
espírito e coadjuvando-nos para não cairmos no estado mental da desconfiança,
que é igualmente a condição mental propícia à derrota.
Esta comunhão espiritual com os nossos verdadeiros amigos nos manterá
alegres, felizes e perfeitamente equilibrados, e ajuda-nos também a manter-nos
em uma ininterrupta comunhão com o Poder Supremo, penetrando de uma vez
para sempre nas correntes de eterna felicidade, as quais nos conduzirão, sem a
menor dúvida, ao seio do Eterno, como a corrente do Mississipi leva as
barquinhas para o mar.
Porém, se as mentalidades que se ajuntarem à nossa não são de um nível
idêntico ao nosso; se estas nossas amizades têm pouquíssima ou nenhuma fé
no que o mundo denomina talvez ideias esquisitas ou lunáticas, sem se
conseguir convencê-las em coisa alguma de quanto isso é verdadeiro, os
elementos mentais que delas nos provenham têm forçosamente de prejudicar-
nos enormemente, não só por deixarem de ser para nós um poderoso auxiliar,
mas também porque, misturando as suas mentalidades inferiores com as
nossas, inibir-nos-ão de ver clara e nitidamente as coisas, dificultando desta
forma a nossa iniciativa e enérgica ação em qualquer empresa que
empreendamos, desviando-nos das correntes verdadeiramente retas e potentes,
desanimando-nos e fazendo-nos perder o nosso próprio valor moral, inclinando-
nos ao desperdício de nossas forças e tornando-nos covardes, quando o azar
nos coloca em presença dos pequenos e humildes.
Enquanto nos acharmos em correspondência com essa espécie de mentalidade,
os seus peculiares estados mentais se converterão em nossos próprios, mais ou
menos. E se a sua natureza for doentia, a nossa depressa seguirá também o
mesmo caminho. Se o seu estado habitual é de pobreza, acabaremos também
de nos tornar pobres.
Tem sido sempre considerada como grande verdade ser obrigação de todo
homem de coração bem formado, o comover-se, prestar ouvidos compadecidos
e simpatizar com toda pessoa infeliz ou presa de profundos e intensos
sofrimentos. Grande equívoco tem sido este e de terríveis consequências para
muitos, porque, quando simpatizamos com alguém, damos-lhe uma parte da
nossa verdadeira força.
Ora, o que inconsideradamente dá o que é seu e, em troca, nada absolutamente
recebe que lhe restaure as forças e faculdades mentais, terminará por ficar ele
próprio depauperado, miserável, e ir-se-lhe-ão debilitando o espírito e o corpo. É
assim que, prematuramente, morreram muitos dos mais ardentes ministros de
todas as religiões, exaustos pelo seu zelo excessivo em cumprir com o que o
mundo chama os seus deveres, já visitando os enfermos, já consolando os aflitos
e atendendo às inumeráveis súplicas que lhes dirigiam. Essas pessoas, cuja
natureza simpatiza tão rapidamente com o infortúnio, deveriam ter o máximo
cuidado e a maior reserva em se deixar arrastar por seus generosos impulsos.
Pode-se ter piedade de toda gente, mas quando a nossa simpatia se exterioriza
com tanta facilidade à vista de uma dor ou infelicidade qualquer, colocamo-nos
em verdadeiro perigo de morte.
Aquele que suporta docilmente qualquer imposição ou insulto de certas pessoas
de mentalidade inferior à sua, pelo medo que dele se apodera de falar franca e
desassombradamente diante delas, com certeza será dominado pela
mentalidade inferior de tais pessoas.
De igual modo, aquele que receia exprimir desassombradamente o que lhe vai
no íntimo do seu coração e pensamento, o que sente e pensa, finalmente, diante
desta ou daquela pessoa, acaba, naturalmente, por ser dominado por ela, e,
embora a mentalidade dessa pessoa esteja muito abaixo da sua, desde esse
momento participará das suas paixões, dos seus preconceitos e até das suas
enfermidades, além de correr o perigo de poder ser inteiramente dominado por
ela e constrangido nos seus desejos e retidão de caráter.
É certo que tais pessoas podem simular afeição por nós ou até mesmo
acreditarem elas próprias que são realmente nossas amigas. Mas, neste mundo,
existem inúmeros tiranos e tiranias que se ocultam com a capa da afeição ou da
amizade. Há milhares de pessoas, dizendo-se e julgando-se elas próprias
nossas amigas verdadeiras, porém que apenas o são enquanto fazemos tudo
quanto querem, sujeitando-nos docilmente aos seus caprichos enquanto lhes
concedemos prodigamente a nossa companhia e consentimos em seguir sempre
a sua direção. Se, porém, queremos retomar um pouco a nossa autonomia,
mostram-se profundamente desgostosas e até, muitas vezes, ofendidas, se não
estamos juntos delas todo o tempo que desejam e imaginam, ou mesmo se
procuramos quaisquer outras companhias, considerando-nos, desta sorte, uma
espécie de feudo ou coisa exclusivamente sua.
Se tolerarmos tal espécie de tirania, podemos realmente afirmar que somos
verdadeiros escravos dos nossos amigos.
É esta escravidão que prejudica enormemente o nosso corpo, a nossa
inteligência e até a nossa fortuna, por causa da prolongada absorção dos
elementos mentais inferiores que nos transmitem inconscientemente, chegando
até a sentir-nos coibidos de pensar ou de tomar iniciativa própria diante dessas
pessoas, sentindo-nos como manietados, tanto física como mentalmente.
Tornamo-nos titubeantes, falta-nos a palavra e já não podemos ligar sequer o fio
do discurso, negando-se a língua a obedecer às ordens da nossa mente. E tão
veemente é a ação da sua vontade sobre a nossa espiritualidade, que chega a
afastar de nós a maior e a melhor parte dela, inibindo-nos até de nos servirmos,
como é de justiça, do nosso próprio corpo em ocasião oportuna.
Quem se encontra nestas tristíssimas circunstâncias pode e deve mesmo
procurar libertar-se dessa despótica tutela, combatendo a sua fraqueza,
raciocinando e robustecendo a sua própria mentalidade, falando mentalmente,
com toda a energia, com o seu dominador, quando estiver bem só no isolamento
de seu quarto, como poderia e devia fazer, se estivesse na sua presença, isto é,
nesta situação, deve discutir mentalmente com ele, refutando, com energia e
desassombro, todos os argumentos do imaginário antagonista.
Procedendo deste modo, irá fortalecendo o espírito até poder libertar-se, assim,
de todo, desse cruel domínio. Desta forma, entrega os melhores meios de se
despojar de uma vez para sempre da sua covardia moral, podendo-se afirmar
que, neste mundo, nada dificulta mais o triunfo em todas as esferas da ação do
que esse acanhamento e covardia moral. O melhor meio para desfazer esta
espécie de encanto consiste em cortar toda a sociedade ou comunhão com
mentalidades grosseiras e covardes, pois enquanto elas durarem, absorvemos
os seus elementos, a não ser que estejamos em constante atitude mental de
defesa, o que nos fatigaria excessivamente, enfraquecendo-nos também. Na
verdade, só existe um único modo de evitar esta espécie de tirania mental, o qual
consiste em cortar toda comunicação com os espíritos inferiores, trabalhando
para apagar de todo o que por acaso tenha já existido.
A este respeito, dir-me-á o leitor: “Mas tal gênero de vida só nos conduzirá à
eterna solidão”, e ainda me perguntará também alguém: “Devo eu, porventura,
cortar as minhas relações com a Humanidade inteira?”
De forma alguma. Procedendo como eu tenho aconselhado, nada mais fazemos
do que preparar o caminho por onde nos poremos em relação com o melhor, o
escol da nossa sociedade, da nossa própria classe; com esses homens que
realmente podem prestar-nos valiosos auxílios em todas as nossas empresas e
cujos pensamentos são dignos, na verdade, de serem absorvidos por nós, pois
darão um novo e maior vigor à nossa mentalidade, sob cada uma das suas faces.
Além de que, nos nossos períodos de isolamento mais ou menos absoluto,
podemos contribuir para a constituição de um mundo próprio e pessoal, no qual
poderemos passar, contentes e felizes, uma grande parte da nossa existência.
Evitando o mais possível pôr-nos em contato com mentalidades inferiores,
veremos, cada vez com maior lucidez, tudo quanto diz respeito aos nossos
interesses, e, onde antes só encontrávamos tédio e fadiga, acharemos agora
inesgotável manancial de grandes alegrias. Concentrados, assim, em nós
próprios em uma espécie de ímãs que atrairá todas as coisas de que carecemos
para fazer triunfar ou levar avante, com efeito, todos os nossos planos.
Há pessoas que não sabem viver sós, necessitando de companhia, seja ela qual
for. Parlam e folgam até com os criados mais boçais, se não tiverem outra classe
de pessoas com quem conversar, divertir-se. Tais pessoas têm um
pequeníssimo poder, e o pouco de que são possuidoras o desperdiçam
miseravelmente.
Um verdadeiro amigo, desses com quem podemos sempre falar franca e
lealmente, com o “coração aberto”, encarando-o bem de frente em qualquer
ocasião, é melhor e muito mais útil para nós do que todos os supostos amigos
que neste mundo possamos encontrar no nosso caminho. Um amigo assim
merece bem que o estejamos esperando durante muitos anos, reservando-lhe
em nosso coração em lugar e um culto especial, certos de que, por fim, chegará
um dia em que ele virá para nós, respondendo ao nosso ansioso apelo, em
virtude da infalível e iniludível lei da atração, desde que o desejemos bem no
íntimo da nossa alma, com a única condição de lhe prepararmos o caminho pela
forma já indicada.
A solidão, assim considerada, não quer dizer privações absolutas de qualquer
companhia. Em toda parte, saberemos achar essa companhia verdadeiramente
elevada e nobre, contanto que aprendamos a cultivar o estado mental adequado,
não só para a recebermos, mas também para nos alegrarmos com ela. Existe,
no universo, uma Força Suprema ou corrente mental que vai crescendo em
poder e energia à medida que a mente se for robustecendo também, até atingir
finalmente a necessária capacidade para tirar forças positivas de toda provação
imprevista ou inesperado êxito, podendo chegar mesmo esse poder a evitar ao
corpo todo o perigo ou dano proveniente de qualquer causa terrena ou física.
Esse mesmo poder, adquirido por determinados homens, mediante a prece
mental ou formação de um veemente desejo, foi sempre a verdadeira origem do
que, na Bíblia, são denominados milagres. Trata-se, é certo, de um poder
misterioso, impossível de ser analisado pela inteligência humana, seja qual for o
método científico de investigação que se lhe aplique. Apenas sabemos que ele
existe e pode produzir resultados maravilhosos, que apreciamos, quando,
mediante a observância de certas condições, nos colocamos no plano da sua
ação. E devemos ter sempre presente ao nosso espírito que tal poder tanto pode
ser manifestado hoje, como há milhares de anos, porquanto nada absolutamente
está mudado desde então, na lei pela qual se rege.
A luz e a sombra, a chuva e a neve, a vida animal e a vida vegetal, os ventos e
as marés, foram, nos tempos antigos, os mesmos que agora são, podendo até
afirmar-se que, de muitas dessas leis, tão mal conhecidas ainda atualmente por
nós, tiveram pleno conhecimento muitos dos antigos povos, que nelas ao nosso
ver se basearam verdadeiramente para realizar o que os homens ignorantes de
tais leis classificaram como milagres, e que, na realidade, nada mais são do que
efeitos da ação de certas leis espirituais.
O que importa é confiar só em nós, sob a proteção do divino Espírito Santo do
Bem, e isto em tudo e em todos os tempos, para nos habituarmos, tanto durante
a doença como nas mais difíceis e inesperadas conjunturas, a não depositar
confiança alguma, seja para o que for, em qualquer auxílio de natureza física.
Desta forma, irá crescendo constantemente em nós essa força ou faculdade da
confiança em nós próprios, colocando-nos em perene e perfeita comunhão e
concordância com ele. É este poder que nos coadjuvará patente e valiosamente
nos pequenos incômodos e contrariedades da vida. A ele recorreremos durante
as nossas terríveis insônias para conseguirmos conciliar o sono, quando
padecimentos físicos de somenos importância nos atormentam ou ainda quando
espíritos baixos, torpes e grosseiros procuram agir sobre nós ou aqueles que
nos cercam, e também quando imponderáveis e invencíveis temores paralisam
as nossas energias.
Desta forma, se irá fortalecendo a nossa confiança em nós; pois, como já disse
o apóstolo: algo podemos tirar de nós próprios, aproximando-nos, assim, do
plano da mentalidade divina e, uma vez nessa esfera e nessa corrente, nunca
estaremos sozinhos, porquanto estaremos, ao mesmo tempo, dentro e fora de
nós mesmos e, ao mesmo tempo, sós e acompanhados, onde quer que formos.
Também nos iremos libertando cada vez mais amplamente do desejo de andar
em busca de certas promiscuidades e perigosas companhias, que apenas
procuram escravizar-nos e causar-nos graves danos.
É este, afinal, o verdadeiro caminho de nos pormos em comunicação com os
nossos verdadeiros amigos, os quais nos hão de auxiliar benéfica e valiosamente
em tudo quanto necessitarmos e empreendermos. Poderemos, desta maneira,
em períodos mais ou menos longos, isolar-nos para fruirmos o doce prazer na
comunhão divina com o Poder Supremo, não só fortalecendo assim o nosso
corpo e o nosso espírito, mas também tornando-nos mais úteis àqueles a quem
estamos ligados, em troca do que poderemos apreciar e desfrutar melhor do que
eles fazem por nosso intermédio, pois eles estão também em comunicação com
o próprio Poder.
Quando estamos verdadeiramente com Deus, só podemos comunicar-nos com
aqueles que igualmente estiveram com Deus, podendo então dizer que eles e
nós somos realmente os hóspedes do Espírito Divino prometido por Cristo.
Isto que aqui fica expresso não é uma ideia religiosa, puramente sentimental. Ao
transformar-se ou, pelo menos, modificar-se todos os dias o nosso estado
mental, atraímos esses elementos positivos mais em harmonia com ele.
Se apenas tivermos fé nas coisas materiais que podemos ver e tocar, atrairemos
o escasso poder que dessas coisas emana e assim é uma porção diminutíssima
de forças positivas que nos rodeiam. Se não nos esforçamos por dominar essas
forças, elas acabarão por dominar a nós em nosso próprio dano.
Os meios para chegar a esse domínio mental a que aludo estão na nossa própria
atitude mental. Se tendes em mente levar avante algum projeto ou empresa
especial, procurando, desta forma, beneficiar tanto aos outros como a vós
próprios, e apesar de terdes feito todo possível para triunfar, vos encontrardes
ainda lutando com grandes dificuldades para alcançar o bom êxito do que
tiverdes em vista, deixai de fazer tudo aquilo de que não tenhais absoluta
necessidade para viver e, colocando-vos no estado mental indispensavelmente
exigido, concentrai-vos em vós mesmos, confiai, com sincera e firme fé, nessa
força misteriosa que, infalivelmente, vencerá toda espécie de obstáculos.
Desta maneira, ireis penetrando cada vez mais na corrente espiritual do Poder
Supremo, até vos surpreenderdes de ver que, um belo dia, sem já sequer nisso
pensardes, tudo quanto tão ansiosamente desejáveis, se realiza por si mesmo,
com feliz êxito, como por encanto. De um momento para outro, vos serão
proporcionados todos os meios e vias para atingir o fim há tanto tempo almejado,
encontrando inesperadamente franco acolhimento onde julgáveis só encontrar
forte oposição. Para tal conseguirdes, bastará manter-vos sempre firme no
propósito, não olvidando um só movimento de que aquela poderosíssima força
está, sem cessar, agindo por vossa conta, com a condição única de manterdes
o vosso próprio desejo firme e energicamente, sem hesitações nem vacilações,
tendo o máximo cuidado em não mesclar a vossa mentalidade com outras
mentalidades baixas e ruins.
Procurai igualmente não retroceder um só passo da posição já alcançada, pois,
desta forma, perderíeis os esforços empregados.
Se, porém, em lugar de vos concentrardes procurando robustecer as vossas
faculdades no silêncio e na quietação de uma vida solitária e íntima, desperdiçais
o tempo e as forças, correndo daqui para ali, vagando sem sorte, pairando
frivolamente com algum conhecido ou murmurando da vida alheia, muitas vezes
até daqueles a quem dais o pomposo nome de amigo, buscando somente
distrações fúteis ou, ainda, se algum dos vossos sócios deposita pouca ou
nenhuma fé nestas verdades, neste caso não só rompeis todos os laços que vos
uniam ao Poder Supremo, mas até ficais, pelo contrário, em íntima e completa
relação com as correntes mentais inferiores, inibido, portanto, de realizar a
mínima parte do muito que certamente teríeis conseguido realizar, se tivésseis
seguido o primeiro caminho, descendo por esta última senda até o plano da
materialidade rude e grosseira.
É um enorme erro, erro terrível e extremamente prejudicial, os homens e as
mulheres permitirem a si próprios reunir-se com pessoas de mentalidades muito
baixas e grosseiras, só pelo louco desejo de se proporcionarem algum prazer ou
diversão. Essa falta de escrúpulo na escolha das companhias é-lhes quase
sempre fatal. Nada prejudica tanto as mentalidades de uns e de outros.
Desta forma, se adulteram e contaminam as mentalidades dos superiores,
destruindo as suas energias e enchendo-lhes o corpo com os elementos da
enfermidade e da morte, geralmente atribuídas a mui diversas causas, porém
cuja verdadeira razão de ser é esta.
Dá-se o mesmo com as uniões denominadas matrimônios, as quais, tendo
somente por base considerações ou caprichos puramente materiais, muito cedo
dão lugar às mais tristes e tremendas decepções.
Além disso, esses falsos matrimônios são o caminho das tais tiranias mentais de
que já falamos tantas vezes. Neles é precisamente a mais pura, a mais sensível,
a melhor e mais delicada, enfim, das duas mentalidades, a vítima vencida e
sacrificada pelo fato de ficar reservada e reduzida à impotência, por desconhecer
o seu verdadeiro poder, tal e qual como um gigante cego fica à mercê de quem
lhe guia os passos vacilantes, ainda que esse guia seja apenas uma franzina e
débil criança.
Tratemos, portanto, de estar na mais perfeita, absoluta e constante comunhão
com o Poder Supremo, que é o Poder da Verdade e seremos verdadeiros reis
nos domínios da mente, pois que, nestas circunstâncias, ninguém já poderá
exercer sobre nós a terrível tirania que é, de certo, a verdadeira e mais perigosa
tirania.
A verdade nos fará livres!
10
Os talentos ignorados
São muitas as mocinhas que manifestam grande má vontade e até mesmo
repugnância para o que se chama arranjo de casa e toda espécie de trabalhos
domésticos. É porque não têm aptidão para lavar, coser, cozinhar, etc., e por
causa de tal negação para tudo quando diz respeito ao governo da casa, não
podem cumprir ou cumprem mal esses deveres de donas de casa, única missão
que até aqui o mundo impôs à mulher, que, na opinião da maior parte dos
homens, deve saber, antes de tudo, administrar a sua casa.
Não devemos obrigar a desempenhar esses deveres as meninas que se
mostram destituídas dessas vulgares aptidões; deixemo-las desenvolver-se por
si próprias, podendo ficar certos de que algum especial talento existe nelas, o
qual desabrochará, chegada a ocasião oportuna.
Há coisa muito mais importante a fazer do que obrigar uma mulher a entregar-
se a ocupações para as quais não sente a menor vocação, conseguindo apenas,
desse modo, fazer dela uma dona de casa negligente, indolente e inábil, ao
passo que deixaremos, talvez, sem o necessário alimento a alma de uma mulher
grande e forte, que algo ou muito teria mesmo feito em prol da Humanidade.
Já estou ouvindo a muitos gritar: “Que heresia! Que insânia! Toda moça deve
saber costurar, varrer, cozinhar e todas as coisas necessárias enfim à boa
administração de uma casa. Não é conveniente deixar ociosas as meninas.”
Muito bem, não permitais que a menina se crie e desenvolva no meio da alegria,
dos folguedos e das despreocupações próprias da idade e torturai-as com as
vossas costuras, os vossos pratos, caçarolas, e, dez ou quinze anos depois,
examinai-a e vede se ela fez grande honra à vossa disciplinada educação.
São muitas as pessoas cujos verdadeiros talentos têm ficado desaproveitados
ou esquecidos só por não terem sido animados como deveriam ser e era de
justiça fazer-se, quando começavam a desabrochar, obrigando-as a ser
exatamente o contrário do que realmente deveriam ter sido, torcendo-lhes, desta
forma, por completo, a vocação. Ninguém pode assinalar-se nem manifestar
completa perícia e perfeição na execução de um talento, profissão ou habilidade,
sem alguns ensaios preliminares e vacilantes tentativas, cujos resultados ou
princípios estão ainda longe de ser perfeitos.
Acaso será possível conseguir, pela violência, que uma flor de pereira se
transforme em flor de macieira? Exigir isto seria o maior dos absurdos. Pois é
justamente isto o que o mundo tenta fazer, na maioria dos casos. Desanimam-
se os artistas novos ainda, criticando-se acerbamente as suas obras, que nada
mais são do que as primeiras provas da aprendizagem, quando serão talvez
seus pais os primeiros que asfixiam, com suas intempestivas exigências, os
preciosos frutos do gênio. Por quê? Dizem: “Oh, triste sorte a dos artistas!”
Exceto raríssimas exceções, não ganham nunca o dinheiro suficiente para
ocorrer sequer às necessidades da vida! É essa uma grande verdade. E por
idêntica razão, são os próprios pais da criança que suprimem, por suas próprias
mãos, o talento do filho e o enterram de uma vez para sempre.
O poder e o talento são duas coisas que só crescem no meio da mais profunda
calma, do mais absoluto repouso.
A solução mineral que tem de produzir uma boa cristalização, necessita de ser
mantida em absoluta quietação, enquanto se está formando a nova combinação
de cristais.
Os melhores frutos da mente, sejam de ordem científica ou de ordem
sentimental, carecem de idênticas condições para se elaborarem e desabrochar.
O pensador desenvolve melhor as suas concepções enquanto se encontra
aparentemente ocioso.
Todos os homens e todas as mulheres têm talentos ou elementos embrionários
de confiança em si próprios. Toda individualidade deveria basear-se na natureza
do seu próprio espírito, devendo dizer cada um de nós, intimamente, a cada
instante: “Hoje não tenho o necessário poder para fazer triunfar os meus
desígnios; sei, porém, que esta minha faculdade muito há de aumentar. Hoje
ainda dependo do auxílio dos outros, mas a minha aspiração constante é tornar-
me independente o mais cedo possível”.
Pensar que a vossa dependência com relação a alguém ou alguma coisa terá de
prevalecer sempre, é um dos maiores e inconscientes erros da atualidade.
Ensina-nos a Teologia que o homem sem Deus não é nada e é isso uma grande
verdade. Mas Deus ou o Puro e Infinito Espírito do Bem encontra-se em toda
parte e nós já possuímos o glorioso poder, por enquanto menosprezado e
desconhecido, de atrair para nós os elementos dessa divindade, tornando-a
carne de nossa carne e espírito do nosso espírito. Deus, ou antes, o Espírito
Infinito do Bem, age em nós por nosso próprio intermédio.
Todos somos partes de Deus e, como tais, incessantemente glorificamos a Deus,
à medida que formos adquirindo, cotidianamente, uma porção da sua divindade
ou, por outra, maior quantidade de elementos para a ação, tendo, porém, bem
firme em nossa mente a ideia de que já hoje possuímos muito maior poder do
que ontem e que amanhã o possuiremos em maior grau.
Devemos procurar desprender-nos cada vez mais da ideia de que é
indispensável, essencial mesmo, depender de alguém ou de alguma coisa. Todo
indivíduo deve ser um soberano, cujo poder tem de aumentar continuamente, e
sem se deter um só momento.
Decerto não tardará que alguém me diga: “Pois não dependemos sempre dos
outros em todas as fases da vida? Como poderíamos viver se os outros não nos
preparassem os alimentos, sem cozinheiras, padeiros, costureiras, alfaiates,
sapateiros, pedreiros, lavadeiras, médicos e toda essa plêiade, enfim, de
pessoas que contribuem para o nosso conforto e bem-estar?”
A isto responderemos apenas que a lei infalível da natureza que, com quanto
maior sabedoria tratarmos de nos ajudar a nós próprios, tanto mais e melhor
poderemos ajudar aos outros e, por conseguinte, ser igualmente ajudados por
eles. A melhor sabedoria consiste em nos esforçarmos por adquirir uma saúde
perfeita e uma mente bem equilibrada. A mera posse destas qualidades é já um
benefício para todos aqueles que nos rodeiam e até para muitos outros.
Se o nosso espírito for robusto, são e poderoso, ele enviará as suas boas forças
vigorizadoras às pessoas com quem está relacionado, embora elas estejam nos
mais longínquos lugares. O espírito que adquiriu a plena e firme convicção de
que, mediante as leis da prece ou petição mental, atrairá a si as energias que
constantemente emanam da inesgotável fonte de toda força, sem nunca perder
um só átomo das energias assim adquiridas, constitui um benéfico elemento para
melhorar a sorte das pessoas cuja maioria nunca verá talvez com os seus olhos
físicos.
O espírito envia uma parte das suas energias à pessoa ou pessoas em quem
pensa fixamente, só pelo fato de nelas pensar. É semelhante a um sol que alenta
e vivifica com o seu magno calor tudo quanto ilumina, tal e qual o sol que brilha
no firmamento cerúleo, o qual dá vida e faz progredir tudo aquilo em que batem
os seus esplêndidos raios, até mesmo a árida e dura rocha.
À medida que cresce a nossa paciência, a nossa decisão, o nosso método, o
domínio de nós próprios em todas essas coisas que hão de fazer de nós um ser
perfeito e bem organizado, se evolar-se-ão constantemente do nosso espírito os
elementos dessas qualidades, para irem vigorar o espírito dos que nos cercam,
dando estes, por sua vez, robustez a muitos outros. E se lhes enviarmos os
elementos dessas qualidades, movidas por um amoroso impulso de simpatia ou
pelo benévolo desejo de lhes ser úteis, pode-se ficar certo de que, a seu tempo,
eles nos devolverão os seus próprios elementos, movidos por um reconhecido
impulso de gratidão.
Ninguém pode auxiliar os outros, se não se ajudar a si próprio. Ninguém pode
enviar aos outros a coadjuvação do seu pensamento, se eles não lhe devolverem
este auxílio até onde puderem. Ninguém pode prejudicar aos outros sem se
prejudicar a si próprio, ao mesmo tempo. Ninguém enviará aos outros nem
sequer a sombra de um mau pensamento, sem ser igualmente prejudicado por
esse mesmo pensamento.
A pessoa que em nós se apóia ou de nós depende, seja no que for, acabará por
fatigar e exaurir as nossas forças, de um modo terrível. Veremos, então, que
enorme injustiça é permitir que alguém viva em absoluta e completa submissão,
pois dessa forma lhe destruímos a sua natural capacidade para a independência,
ou pelo menos retardamos essa sua faculdade, por intermédio da qual
poderíamos indubitavelmente atrair para nós alguma das qualidades que
continuamente emanam da Força Infinita. É como se oferecêssemos muitas
pernas a uma pessoa que as tem perfeitamente sadias.
Animar, seja em que for, o espírito de dependência ou timidez, é a mesma coisa
que robustecer-lhe a crença na sua própria debilidade. É fazer dessa pessoa um
mendigo até daquilo que exuberantemente ela própria possui.
É razoável e natural esperarmos sempre a paga do que dermos, porque isso é
realmente uma necessidade para nós. Se, de contínuo, estivermos dando aos
outros uma parte das riquezas produzidas por nossa mentalidade superior; se
estivermos trabalhando sempre, física ou mentalmente, para a diversão ou bem-
estar de qualquer pessoa que se aproveita de tudo quanto lhe damos, mas, em
troca do que recebe, nada pode devolver-nos, podemos ficar certos de que nos
prejudicamos deveras, tanto a nós como a tal pessoa. É tal e qual como se, em
troca do pão que de nós tirássemos para dar a outrem, só pedras recebêssemos,
ensinando e animando, deste modo, a essa pessoa a dar unicamente pedras,
vivendo uma existência exclusivamente de estupidez e egoísmo.
De mais a mais, procedendo assim, nada mais fazemos do que impedir o
desenvolvimento dessa personalidade, tornando-nos ainda, além disso, seus
escravos, perdendo também, sob essa influência, as nossas energias e caindo
numa banalidade e achatamento, que de forma alguma não nos são peculiares,
inclinando-nos até a dizer e a fazer o que, libertos da sua nefasta influência,
nunca teríamos, decerto, dito nem feito. Assim, até os próprios projetos e planos
que fizermos para o nosso adiantamento e bem-estar, para melhorar, enfim, a
nossa situação, hão de ver-se retardados ou inteiramente destruídos,
unicamente por termos mesclado os elementos de nossas próprias energias e
ambições com os elementos inferiores da mentalidade, cujo jugo nos escraviza.
Essa escravidão mental existe, de fato, em toda dependência exclusiva de uma
ou mais pessoas, e traz sempre encerrada em si mesma todos os elementos da
covardia e do egoísmo. E quando o escravo é justamente o possuidor da
mentalidade mais elevada, isto é, o mais sábio, é ele, por certo, quem comete o
pecado maior, e maior dano faz a si próprio. Dependência ou submissão é o
mesmo que cegueira. Deve ensinar-se aos homens o modo de não dependerem
senão de si, para que trabalhem em prol da sua própria salvação. A cultura da
própria independência e da confiança em si mesmo há de começar em nossa
própria mente, mediante o nosso próprio esforço pessoal.
Pode acontecer queixarmo-nos a alguns amigos, em cuja estima confiamos, de
uma grande injustiça cometida para conosco, por alguém. Se, porém, receamos
que essa pessoa ou algum dos seus afeiçoados nos possa ouvir, calamo-nos
imediatamente. Por que motivo o fazemos? — Porque temos medo de falar.
Recolhamo-nos à casa e, no silêncio e retiro do nosso quarto, afirmemos
energicamente que nenhum medo temos de tal pessoa. Ponhamos em nossa
mente a ideia de que, diante dela, estamos expondo, calma e friamente, todos
os agravos que dela recebemos; façamos tudo isso sem nos afastarmos um só
momento da mais estrita justiça e imparcialidade da nossa parte, como se o caso
se não tivesse dado conosco. Representemo-nos em imagem como uma pessoa
que só deseja o que é justo, somente o justo e nada mais, tanto para nós como
para a pessoa de quem se trata.
Procedendo assim, não só cumprimos o nosso dever, mas trabalhamos também
para o nosso bem, pois o nosso pensamento, como uma coisa invisível que é,
atravessa o espaço e vai influir sobre a mentalidade da dita pessoa em nosso
favor.
Se mentalmente formularmos o nosso caso com toda justiça e equidade, de igual
modo estaremos aptos a fazê-lo diante da pessoa em questão. Mas o que é
importante é que, em nossa discussão, nos inspiremos unicamente em
pensamentos da mais absoluta justiça e retidão, os quais são e hão de sempre
ser os mais poderosos elementos mentais.
O justo não deseja vingar-se do mal que lhe fizeram, mas unicamente a
reparação do dano sofrido. Pode dar-se o caso de que muitas pessoas não se
atrevam a lançar em rosto de alguém, francamente, de cara a cara, os motivos
de queixa ou as ofensas que delas receberam, mas, apesar disso, sentem-se
animadas do espírito de vingança, nutrindo um forte desejo de os prejudicar, seja
no que for, ou de os fazer sofrer de acordo e mais ou menos na medida da sua
má ação.
É positivamente este o processo por meio do qual enviamos os elementos
mentais de alguma forma de maldade à pessoa na qual pensamos. É este um
sinal evidente da nossa dependência, da nossa covarde escravidão mental,
relativamente à tal pessoa, pois não tendo coragem para nos atrevermos a dizer-
lhe, face a face, o que a seu respeito pensamos, dirigimos-lhe os elementos
mentais do nosso ódio, que finalmente a atingem, irritando-a, desgostando-a,
sem ela mesma saber por quê. Se, quando pensamos nessa pessoa,
formulamos mentalmente o medo que dela temos, indubitavelmente ela sentirá
que nós estamos cheios de medo, e isto acabará por nos tornar desprezíveis a
seus olhos, isto é, por agir contra o nosso próprio interesse. Se, porém,
mentalmente nos colocarmos na situação do homem que não teme a pessoa por
quem foi ofendido, sem animarmos em nós o menor desejo de vingança, sendo
até capazes, uma vez obtida a justiça devida, de auxiliar e socorrer o nosso
ofensor, então projetamos, para fora de nós, forças que deverão ser de grande
proveito.
O sentido de espírito de justiça não é uma simples metáfora. É uma qualidade
que existe em todas as pessoas e é tão positiva como a terra que nos sustenta
ou o ar que respiramos, com a diferença de que em alguns homens é mais viva
e mais ativa do que em outros.
Quando nos conduzimos calma e tranquilamente, quando exprimimos as nossas
mágoas, sem exagero e comedidamente, faz-se sentir a ação sobre os outros
homens da mesma forma que a luz atua sobre os nossos olhos. É desta maneira
que os outros nos escutam com prazer e como os obrigamos mesmo a escutar-
nos. Se, mentalmente, procuramos pôr-nos em concordância e harmonia com o
mais puro e elevado ideal do homem ou da mulher forte, em idêntica situação
nos sentirá a pessoa em que estamos pensando, e, procedendo assim,
exteriorizamos o mais forte poder mental, que há de operar verdadeiras
maravilhas no mundo.
Uma vida independente implica sempre uma mentalidade livre e forte. A mente
verdadeiramente livre é aquela que nunca pensa no que pode molestá-la ou
torturá-la; só formula e exterioriza pensamentos que lhe hão de causar prazer
não só a ela, mas também às pessoas a quem se possa referir.
A mente que gera e exterioriza tais pensamentos está por si própria constituindo
a base da sua independência — cujos materiais (o bem-estar terrestre) lhe são
proporcionados de bom grado pelos outros homens, os quais, ao receber os
pensamentos bondosos que ela lhes envia, lhe reenviam também a ela, em
maior ou menor escala, algo dos talentos especiais que possuem.
Os nossos progressos em música, pintura ou qualquer outra arte ou ciência,
serão mais rápidos e mais seguros se pessoas nossas amigas, profundamente
conhecedoras dessas matérias, nos enviarem frequentemente os seus
pensamentos cheios de simpatia e boa vontade. Porque, como o pensamento é
um elemento real e verdadeiro, com ele nos enviam as qualidades do seu talento
especial, quando pensam benevolamente em nós, as quais absorvemos,
apropriando-nos na medida da nossa capacidade para as receber. Nossa maior
ou menor capacidade para a recepção de tais elementos depende de termos
sabido ou não libertar-nos mais ou menos completamente de toda espécie de
maus pensamentos, e de estar em concordância com o grau da nossa bondade
e generosidade. O egoísmo impedir-nos-á de absorver esses benéficos
pensamentos, ao passo que a benevolência e a generosidade nos abrirão, de
par em par, as portas para recebê-los.
O pensar em coisas repletas de vida e saúde traz-nos elementos vitais e
salutares, e melhor será, ainda, sempre que isso nos possa convir, termos diante
dos olhos, em sua forma física, essas mesmas coisas, tais como crianças
alegres e robustas, árvores e flores, pássaros e outros animais, mas em
liberdade, no seu estado natural e selvagem, e não escravizados e prisioneiros
em gaiolas e jaulas, bem como o embate e marulhar das ondas de encontro aos
rochedos da praia, a corrente de um rio ou o rápido e tumultuoso escachoar das
águas de uma catarata.
Quer se trate de coisas imaginadas, quer de coisas materialmente vistas, o que
é certo e positivo é que as ideias sugeridas à nossa mente por todas essas coisas
nos atraem uma corrente mental de vida e saúde, a qual, atuando sobre o nosso
corpo, lhe traz novos materiais, sãos e vigorosos...
Toda descrição poética de qualquer desses grandes espetáculos da natureza,
incontestavelmente há de ser-nos de salutar e poderosíssimo auxílio, e se esses
vivificantes e vigorosos espetáculos ocorrem à nossa memória, ainda melhor
será, pois é isso um sinal da nossa robustez mental. Cada vez que os
recordarmos, isso nos trará elementos positivos de um bem duradouro, tanto
para o corpo, como para o espírito.
Estes saudáveis pensamentos não só repousam a mente, tornando-a mais
robusta e mais lúcida, fortalecendo ao mesmo tempo o corpo, mas também a
forte e potentíssima corrente mental com que nos pomos em comunicação
mediante aqueles pensamentos, e que penetra em nossa mente, arremessa
para fora e bem longe dela toda espécie de ideias deprimentes e imagens de
decadência e morte, limpando-a de insalubres preconceitos e, à medida que
essa fortificante corrente mental ganhar mais fácil acesso em nosso cérebro,
expelirá de uma vez para sempre dele, também, toda escória espiritual que
possamos ter adquirido através dos tempos, causando-nos toda espécie de
dores e misérias.
E, à proporção que em nós se robusteça o estado mental resultante de tal
processo, sentiremos muito mais profunda e cabalmente a vida encerrada em
muitas das expressões naturais que nos rodeiam e são ainda consideradas por
nós como coisas inteiramente mortas.
Em tudo quanto nos desperta qualquer sensação de medo ou prazer, há de estar
algum elemento que é verdadeiro produto da emoção sentida.
O poder que denominamos espírito manifesta-se sob uma infinidade de formas.
É este o poder que dá à árvore a forma em que hoje a vemos; é esse mesmo
poder que lhe dará uma nova forma, já aumentando-lhe o tamanho, já tornando-
a mais frondosa. É ainda esse misterioso poder que vai mudando o período de
seu crescimento e da muda, como é ainda esse gigantesco poder que move e
enfurece as águas do oceano, transformando-as em vagas alterosas e
ameaçadoras, neste planeta, e agita os oceanos do ar, fazendo-se umas vezes
brisas, e outras, pavorosos ciclones. Os nossos imperfeitos sentidos físicos
apenas permitem ver a parte materializada da árvore, que a força espiritual
constituiu e desenvolveu.
Os nossos órgãos físicos não sentem o real e sempre crescente poder, que de
contínuo modifica a árvore, o pássaro e até o nosso próprio corpo. O homem
possui, porém, em estado embrionário, uma série de sentidos muito mais
perfeitos e poderosos, os quais, quando tiverem atingido o seu completo
sazonamento, nos hão de permitir chegar a ver e a sentir esse misterioso poder
ou força que determina o crescimento da árvore, do pássaro e de todos os seres
vivos ou em que se encerra um átomo de vida, incluindo até aqueles que hoje
por nós são considerados mortos.
Despertamos e estimulamos estes sentidos, quando nos regozijamos com
pensamentos alegres e sadios ou contemplamos coisas repletas de vida e força.
Tais sentidos arremessam-se, então, inteiramente para fora de nós e absorvem
a vida ou espírito vital encerrado na árvore, na ave, nas águas do mar, no vento,
até nas alvas e encasteladas nuvens que perpassam no céu, vida que logo nos
transmitem, auxiliando-nos na formação definitiva de nós próprios, tanto
espiritual, como fisicamente.
Assim, colocando-nos no dito estado mental, apoderamo-nos de uma parte do
poder ou força vital que todas as coisas que vivem neste mundo encerram.
Do que devemos tratar, porém, é de atrair os elementos vitais da planta e do
animal, quando em pleno viço, mocidade e robustez, pois, nestas condições, só
podem exercer sobre nós uma benéfica influência.
Não quero dizer com isto que devemos obrigar-nos à constante e forçada
contemplação de todas essas coisas, pois uma contemplação obtida por meios
violentos não é uma verdadeira contemplação, antes um sacrifício; e a atitude
mental proveniente dessa contrafeita contemplação nenhum poder ou força nos
comunica para absorção desses elementos mentais ou do espírito, causando-
nos, por consequência, dano e só dano. Se, porém, estivermos plenamente
convencidos do verdadeiro valor do estado mental acima indicado, e
ardentemente o desejarmos, não duvidem, um momento sequer, de que
adquiriremos, sem contestação, um modo natural e fácil de obtê-lo.
Gradualmente, e cada vez com mais frequência, se irá fixando em nossa mente
a imagem de qualquer coisa exprimindo uma vida verdadeira e repleta de força,
como o sol, uma copada floresta, uma praia beijada pelo mar, ficando
subentendido que essas imagens de forma alguma impedirão a ação das forças
que houvermos empregado no exercício da nossa arte, profissão ou negócio, da
mesma forma que o olhar que, mesmo sem querer, instintivamente, lançamos à
flor que levamos na lapela, como uma recordação de amorosa e idolatrada
esposa, de filha carinhosa ou de outra mão amiga, que ali a colocou, não afasta
os nossos pensamentos do caminho reto que devíamos seguir, para o exato
cumprimento dos nossos trabalhos cotidianos.
Esta espécie de pensamentos desperta para a vida os nossos sentidos
espirituais, atualmente, de todo, ou quase totalmente adormecidos. Quanto mais
frequente for o exercício que os obriguemos a fazer, mais cedo despertarão e
maior será o poder por eles adquirido, sendo, por consequência, em maior
quantidade também os elementos vitais que de todas as manifestações da vida
material que nos rodeiam eles tirarão, reconstituindo e rejuvenescendo assim os
nossos corpos, porquanto, na realidade, o que deve reconstituir-se primeiro é a
mente, antes mesmo de o poder ser o corpo.
Quando o espírito receber elementos espirituais vigorosos e sãos, o corpo as
assinalará, robustecendo-se, aformoseando-se e rejuvenescendo-se sem
cessar. O espírito também pode exercer a sua ação sobre todas as formas
decadentes da organização física. Mas, para fazê-lo, destrói primeiro o
organismo doente ou defeituoso, para logo em seguida o reconstituir. É como o
arquiteto que desmorona uma casa velha e feia para erguer, no mesmo local,
um formoso palacete. É assim que a matéria já decomposta e corrupta, e
juntamente com ela o espírito que em si forçosamente existe, contribuem
incessantemente para a formação e crescimento da nova planta, vigorosa e bela.
Nós, porém, não necessitamos desse poder para atuarmos sobre nós próprios,
como não devemos tampouco desejar absorver a potência das coisas
decadentes. Antes procuremos esquecer tudo quanto for capaz de destruir, e
pensemos somente naquilo que pode construir forças espirituais, afastando o
olhar dos animais mortos para os fixarmos nos vivos.
Também não devemos meditar sobre a decrepitude da vida física, nem sobre as
pavorosas trevas e o horror das cavernas e masmorras, nem ocupar o nosso
pensamento com a visão dos lagos de águas estagnadas e pântanos, nem com
a pintura bem viva de acerbas dores físicas e morais ou de misérias e mágoas
profundas, nem com os receios da morte.
Pensemos antes, pelo contrário, na ridente juventude, cheia de alegria e força;
regozijemo-nos, mentalmente, na doce contemplação das verdes campinas, por
onde serpenteiam cristalinos arroios, refletindo a luz em suas límpidas águas, e
parecendo comprazer-se e brincar aos raios benditos do sol; nos jardins floridos
e nas pinturas representativas de tudo quanto seja agradável e sadio, enfim,
quanto for a verdadeira manifestação de alegria, força, beleza e vida.
No futuro, a música e a pintura hão de vir a considerar-se tão necessárias para
a educação da mocidade, como hoje se considera o saber ler e escrever, pois
compreender-se-á, então, finalmente, que a música é um dos meios mais
poderosos para robustecer a nossa saúde e a nossa vida.
São muito mais numerosas, do que se pensa, as pessoas que em si têm latente
uma verdadeira vocação para a música, podendo dizer-se delas que já nasceram
músicos, manifestando-se de um momento para outro, com uma facilidade
espantosa, o seu inato talento musical, já servindo-se de um instrumento, já por
intermédio da própria voz, até mesmo sem terem recebido de ninguém lição
alguma dessa arte sublime.
A música é uma faculdade inerente a todo espírito humano. Tanto assim, que as
melhores, mais expressivas e maviosas canções populares brotaram, por assim
dizer, da alma magoada e dolorida do próprio povo, sem ser necessário o auxílio
de grandes mestres, sendo até, muitas vezes, de pessoas que viveram até na
mais dura escravidão. Não é também necessário estarmos sempre embevecidos
na muda e constante contemplação das árvores, das aves e de todos os
espetáculos da natureza, para atrair e absorver os elementos vitais do seu
espírito. Se isso nos é fácil ou temos a vantagem de viver em plena natureza,
tendo alguma floresta perto da nossa habitação, a qual podemos contemplar da
nossa janela, façamo-lo sempre que isso nos seja possível, porque nos será de
grande proveito. Mas empreender grandes caminhadas, através dos campos e
bosques, com o pretexto de fazer exercício ou na crença de que, procedendo
deste modo, absorveremos os elementos mentais que a natureza em si encerra,
em muitos casos pode até ser-nos prejudicial. Se o nosso corpo já estiver mais
ou menos débil e fizermos um exagerado exercício, expor-nos-emos a um
desperdício superior de forças e que absolutamente não compensa as que
pudéramos adquirir pela contemplação de um aspecto qualquer da natureza,
acabando, por fim, por nos acharmos muito mais fracos do que antes de
fazermos esse excesso.
Se o nosso corpo está relativamente forte e bem disposto, mas o tempo está
mau ou frigidíssimo, da mesma forma nos expomos a despender maiores forças,
para resistirmos à intempérie e aos elementos naturais, do que podemos gastar.
Havendo, portanto, um déficit contra nós, não podemos, neste caso, manter o
nosso espírito na condição de um ímã, atraindo a si as forças verdadeiras,
latentes em todos os elementos visíveis da natureza.
Nestas circunstâncias, bem poderemos passar a vida inteira a contemplar as
árvores, os animais e todos os outros seres da natureza, sem conseguirmos
atrair o menor átomo da sua força. Se desperdiçamos toda ou quase toda a
energia da nossa mente só em mover o corpo de um lado para outro, de forma
alguma poderemos colocar-nos nas condições mentais exigidas para atrair e
absorver tudo o que for um elemento da força espiritual.
É essa a condição mental e a sorte, por consequência, de tantos camponeses
que, aos cinquenta anos, já parecem velhos e decrépitos, alquebrados e
cruciados de dores de toda espécie. Podem eles ter vivido sempre no meio dos
maiores e mais maravilhosos espetáculos da natureza, porém passaram de todo
desapercebidos para a sua mente, que não estava ainda apta para os apreciar,
sendo, pois, mudos e áridos para eles. Na árvore apenas viram um bom meio de
obter lenha, que cortaram, sem o menor remorso, encarando todas as coisas da
natureza só como uma maneira cômoda e fácil de arranjar dinheiro. Até certo
ponto, é necessário e razoável, no nosso atual modo de ver e considerar a
existência, que o camponês trate de tirar dinheiro das árvores e plantas que o
cercam, porém, apreciando unicamente a natureza pelo interesse que daí tira,
dando somente valor ao que lhe enche a arca, sem sentir, absolutamente, nada
da significação espiritual da força que toda manifestação material encerra, o
camponês corta de seu moto próprio toda correspondência com a fonte de onde
emana exuberante vida.
Em compensação, muito terá ganho aquele que souber concentrar-se na
contemplação mental de todas essas belas manifestações da natureza,
porquanto elas podem atrair-lhe a força espiritual que em si contém, sem que ele
se mova sequer do seu próprio quarto e, embora as altíssimas muralhas que lhe
cercam a casa o impeçam até de ver uma nesga do céu, não o poderão inibir de
ficar inteiramente imerso na contemplação mental de uma graciosa cachoeira,
de uma soberba catarata, de uma costa pitoresca, do imponente e majestoso
mar, umas vezes medonhamente encapelado, debatendo-se em fúria insana de
leão enraivecido, quebrando impetuosamente de encontro aos rochedos e
tragando sem piedade tudo quanto se encontra no seu caminho; outras vezes
calmo, límpido, bonançoso, murmurando, talvez, às Ondinas, ternas endeixas ou
estendendo amorosamente sobre as finas e douradas areias da praia os seus
magníficos e rendilhados lençóis de alvíssima espuma; ou ainda uma admirável
e frondosa floresta secular, vastíssimos e floridos prados, e verdejantes
campinas, que se desenrolam até perder-se de vista no imenso e longínquo
horizonte.
Visões felizes e salutares são estas, dando à nossa alma a benéfica sensação
da força e da vida ou de uma eterna e tranquila felicidade, de um suave e calmo
bem-estar, de uma serena paz, o que, incontestavelmente, contribui muitíssimo
para nos robustecer o corpo e a alma. E tudo isto pela simples razão de que tudo
o que deixamos francamente aberto à nossa mentalidade, infalivelmente é
atraído por ela.
Por que todas as crianças gostam de ver cair uma grande nevada? Porque o
espírito que habita o seu corpo, ainda puro e tenro, sente com extraordinária
intensidade a força espiritual que da nítida e cândida alvura dos flocos de neve,
do céu cai sobre a terra como abençoada e fortalecedora chuva de rosas
brancas. É porque o espírito infantil é ainda muito sensível, muito mais
suscetível, decerto, do que o será anos mais tarde, quando o contato cotidiano,
que forçosamente a criança há de ter com pessoas muito mais velhas do que
ela, cheias de desenganos e tendo perdido toda a primitiva agudeza dos seus
sentidos espirituais, lhe tiver também embotado esse nativo e precioso dom.
Quando Cristo disse aos anciãos da Judéia: “Para entrar no reino dos céus,
tendes de ser como este menino”, quis significar, segundo se depreende destas
próprias palavras, que, ao reencarnar, encontra o espírito, no novo corpo que lhe
serve de instrumento, a capacidade de sentir e gozar dessas forças espirituais,
que estão encerradas em tudo quanto nos rodeia e que, além disso, a alegria, o
vigor, o viço e a beleza da infância não provêm, como em geral se acredita, da
juventude do corpo físico, senão do próprio espírito que, ao abandonar o seu
corpo anterior, abandonou juntamente com ele um fardo de pensamentos
errôneos, carga essa tão pesada que já não podia suportá-la por mais tempo, e
ao entrar na posse do seu novo corpo, sente-se aliviado por um período de
tempo mais ou menos longo e, por consequência, muito mais fortalecido o seu
poder espiritual.
É precisamente este estado mental que nós devemos procurar que se produza
em nós e se mantenha de um modo firme e sereno, e, ao mesmo tempo,
desejando com veemência a força espiritual que a criatura recebe nos primeiros
tempos da sua existência neste planeta.
Ora esta força há de manter-nos numa eterna juventude. Mas esse poder
especial que anima as crianças devemos desejá-lo totalmente despojado da
ignorância e da invalidez da infância. Devemos aspirar à sabedoria dos anciãos
e pedi-la ardentemente ao Espírito Infinito, mas sem a tibieza e a decrepitude
própria da velhice.
Um aumento de sabedoria fez sempre crescer todos e cada um dos nossos
sentidos. A decrepitude e a decadência da velhice não são uma prova de maior
sabedoria, antes uma verdadeira ignorância das leis eternas. “Pelos frutos se
conhece a árvore.” O alquebramento de forças físicas e o enfraquecimento
mental tão comuns na maior parte dos velhos, nada mais são do que a falta da
verdadeira sabedoria.
Suponhamos que, de súbito, encontremos em nós uma série de órgão novos,
mas semelhantes aos nossos órgãos físicos e imaginemos também que, nas
plantas, nos animais e em todas as expressões robustas e sãs da natureza,
achemos igualmente uma substância nova, um elemento até hoje desconhecido
por nós, o qual, mediante aqueles nossos órgãos novíssimos, assimilamos,
renovando e robustecendo assim extraordinariamente o nosso espírito e o nosso
corpo. De idêntica forma operam os sentidos da nossa mente, assimilando
também os elementos espirituais que emanam de tudo quanto a natureza
encerra e com os quais o espírito constitui a sua nova personalidade.
Mas estes sentidos espirituais análogos aos seus sentidos físicos que tão bem
conhecemos, ainda hoje se acham em um estado relativamente débil. Pode-se
comparar o desenvolvimento atual destes sentidos espirituais à fraqueza e à
limitadíssima capacidade do estômago de uma criancinha para digerir certas
substâncias e assimilá-las, tirando forças dos alimentos sólidos, durante os
primeiros anos de sua existência. Porém, assim como sucede às crianças,
também estes órgãos espirituais aumentarão a sua força e a sua capacidade,
mediante um exercício peculiar e bem orientado, tirando, de dia para dia, maior
proveito dos alimentos que se lhes proporcionarem.
Esta sadia e robusta mentalidade, esta força e este espírito-essência da natureza
e de todas as coisas nela contidas, é o que não somente há de vigorar-nos a
mente, mas também desenvolver-nos todos os talentos ocultos dentro de cada
um de nós, em embrião ou estado latente, convertendo-nos em homens novos
e cada vez mais poderosos e perfeitos.
O poder do pensamento não tem limites.
11
As preces dos homens são
mandamentos de Deus
A ciência de viver nunca está completamente aprendida. Não há um único
momento na vida em que se possa dizer: Sei tudo, nada mais tenho que
aprender! Nem mesmo quem, já carregado com o peso dos anos e tendo
consagrado a vida inteira ao estudo dos mais graves e importantes problemas
científicos, pode proferir essa frase.
Aquilo que hoje parece conhecermos a fundo e não conter mais nenhum segredo
para nós, pode ter amanhã, para a nossa mente, uma interpretação diversa, pois
que a mente humana está sempre aberta às expressões mais novas da
existência. Até o que hoje é para nós um mal e causa de grande e aflitiva
amargura, será, talvez, amanhã, um bem ou motivo de grande ventura. Tudo
depende dos nossos conhecimentos quanto à sua natureza.
A pólvora nas mãos de uma criança é perigosíssima; manejada, porém, por um
hábil pirotécnico, pode até ser motivo de grande admiração e regozijo públicos.
Da mesma forma, tudo aquilo que hoje consideramos um bem, pode, amanhã,
causar graves danos a nós ou aos outros.
A palavra que hoje tem uma certa significação, pode tê-la muito diversa, séculos
mais tarde.
Nunca podem ser expressas as ideias com absoluta exatidão, por meio de letras
e sílabas.
À proporção que mais vastos e novos horizontes se forem descortinando à nossa
visão mental, e mais lúcida e clara ela se for tornando também, cada palavra
usada na linguagem corrente irá naturalmente tomando nova significação, para
nós, a qual, talvez, não seja encontrada em nenhum dicionário.
Existe uma linguagem ideal que nunca poderá ser traduzida por meio de
palavras, e para a qual, portanto, não é possível organizar dicionário algum.
Desde o momento em que o homem compreenda ser também uma parte
integrante do Infinito, é-lhe vedado e impossível implorar alguma coisa ao Infinito
em tom de mendigo ou com o servilismo de abjeto pedinte. Como uma parte que
é do Todo incomensurável, pode fazer toda espécie de súplicas; só não pode
mandar nesse Poder, sem princípio nem fim, que nunca foi, nem jamais poderá
ser compreendido por qualquer mente humana. Mas, para aumentar e
engrandecer a parte de Deus que em nós vive, para alcançar o verdadeiro
conhecimento de tudo quanto nos rodeia, devemos proceder de modo que a
mente se conserve constantemente na atitude do pedido.
A palavra prece ou petição, com tanta frequência empregada neste livro, não
quer dizer que devemos dirigir-nos ao Poder Supremo no tom autoritário do
salteador que, na estrada, faz deter o viajante para, intimativamente, lhe pedir a
bolsa ou a vida, nem implica também a menor falta de reverência e acatamento.
A rogativa humana não significa, da nossa parte, mais do que um veemente
anseio de entrar a formar parte da Unidade — Deus — da Unidade Infinita, cuja
natureza é tão profunda que a mente se perde e esvai, quando tenta ao menos
compreender a essência da força que o anima, pois não tem princípio nem fim,
nem no tempo nem no espaço. Cada uma das frases de que é formado o Pai-
Nosso, tem essa feição peculiar, esse especial sentido que nós damos à prece
ou oração. Frases como estas: “Venha a nós o vosso reino”, “O pão nosso de
cada dia nos dai hoje”, “Não nos deixeis, Senhor, cair em tentação” e “Livrai-nos
de todo o mal”, são verdadeiras frases imperativas, pois em nenhuma delas se
nota esse tom humilhante e importuno da súplica abjeta e servil; constituem o
protótipo da prece ou rogativa, em perfeita concordância e harmonia com o
preceito cristão: “Pedi e sereis atendidos, recebendo a recompensa dos vossos
esforços; batei e a porta ser-vos-á aberta.”
As palavras de Cristo: “Assim seja na terra, como nos céus”, não constituem uma
súplica ou imposição ao Infinito, para que cumpra na terra os seus planos e
desígnios, como são cumpridos nos céus. Na realidade, constituem apenas uma
parte da verdadeira prece e dos rogos feitos por Cristo a uma sabedoria e o
Poder por ele reconhecidos como infinitamente superiores aos que ele próprio
possuía.
Quando uma alma desperta, enfim, inteiramente, do pesado letargo em que vivia
imersa neste mundo e exclama: “Que devo fazer para me salvar?”, já ultrapassou
os limites da súplica só com essas palavras, encontrando-se no caminho da
prece ou oração verdadeira e formal. É este o estado espiritual que o Poder
Supremo exige de nós para nos conceder o que tenciona dar-nos, porque só Ele
sabe o que nos convém e o de que carecemos.
Quando fazemos um benefício a qualquer pessoa, desejamos que ela possa e
saiba apreciar o bem que lhe fazemos, e compreenda bem o proveito que daí
lhe provirá. Essa pessoa encontra-se, então, numa situação de quem pede
vivamente, isto é, nas condições requeridas para receber o favor que se lhe quer
conceder.
O Infinito, para nos dar tudo aquilo que nos pode dar e de que temos
necessidade, exige que nos encontremos em estado idêntico. Já antes de Cristo
se realizaram muitos fatos que aparentemente estavam inteiramente fora das
leis naturais, fatos produzidos em consequência da prece ou invocação
imperativa de certos homens.
Moisés intima as águas do Mar Vermelho que se retirem e deixem passar os
israelitas, e elas deixam-lhe o caminho livre; bate com a vara na rocha dura,
fazendo o voto veemente de que dela mane um jorro de água, e da rocha árida,
que parecia uma coisa morta até ali, brota incontinenti o puro e cristalino licor
que vai matar a sede e dar vida.
Josué disse, com todo o império, ao sol: “Detém o teu curso”, e o sol parou.
Se aprofundardes a história desses chamados milagres, verificareis que todos
eles se realizam graças à invocação, deprecação, prece ou petição imperativa
dos homens, por intermédio dos quais se realizaram. Não esqueçamos nunca
estas palavras: os homens por intermédio dos quais se realizaram. Na verdade,
um milagre é o produto de uma força mental, agindo mediante certa e
determinada pessoa, homem ou mulher, dotada de vontade suficientemente
forte para, com firmeza e energia, querer que se realize esta ou aquela coisa
considerada superior ao poder e forças humanas. Não é, porém, esse homem
ou essa mulher quem opera o milagre, mas a força mental que emana do Poder
Supremo e, fluindo sobre aquela pessoa, age por seu intermédio, como o vapor
opera por meio da caldeira. Não é a máquina que arrasta o comboio na sua
carreira vertiginosa; ela é apenas um meio para o vapor agir e pôr o trem em
movimento.
Estamos em situação análoga, com relação ao Poder Supremo. Se pedimos à
Força Infinita para agir em certo e determinado sentido, infalivelmente para nós
virá essa força, na quantidade e intensidade necessárias para a desejada ação.
E quanto maior e mais viva for a fé posta na prece feita, maior será também a
força que o Poder Supremo nela põe, e maiores serão os resultados obtidos.
A inspiração que no mundo descobre e realiza grandes coisas, a qual, às vezes,
denominamos gênio, só procede da força e energia da prece ou ardente voto. É
esta força que atua no homem, obrigando-o a escrever maravilhosas estrofes, a
inventar e a empreender, a fazer qualquer coisa, em suma, que lhe dê um lugar
de destaque, tornando-o um triunfador, seja qual for a carreira por ele seguida,
prosseguindo sempre vitorioso em todos os caminhos e ramos da atividade
humana e fazendo, ele só, o que dantes ninguém fizera, nem sonhara sequer.
Foi essa força que, atuando em Shakespeare, o impeliu a escrever ideias de
uma tal sublimidade e beleza, dando-lhes uma determinada forma material que
ainda hoje são a admiração e o encanto de todos os que lêem as suas obras.
Por si próprio, nunca ele teria escrito tão maravilhosas páginas. Mas nem ele
mesmo poderia nem saberia dizer-nos como se deu tal fenômeno, pois as
sublimes concepções que ainda a humanidade intelectual hoje admira,
chegaram já completamente formadas às portas do seu entendimento, fixando-
se-lhe no cérebro, podendo somente sair de lá expressas por meio de palavras,
e seria um verdadeiro mísero se a si próprio tivesse negado o prazer de escrever.
As suas obras procediam da mesma força ou Poder que tem realizado todos
milagres até agora presenciados pelos homens, tanto antigos como modernos.
E esta não é mais do que o poder da Ideia que atua sobre os homens, exigindo
deles que a exprimam sob alguma determinada forma material, não lhes dando
um momento de tréguas e nem de sossego, até começar a ser expressa,
exteriorizando-se de uma forma visível no mundo físico e material.
Foi esse grande poder que obrigou Watts e Fulton a descobrir e aplicar a força
do vapor. Foi ainda também essa invisível potência que levou Franklin, Morse,
Édison e tantos outros beneméritos da Ciência e da Humanidade, à realização
dos milagres produzidos também em nossos dias pela eletricidade e pela ciência.
É este poder, finalmente, que tem impelido todos os inventores, poetas, sábios
e artistas, enfim, a exteriorizarem a sua inspiração, verdadeiros milagres esses,
tão grandes, senão maiores do que aqueles de que nos fala a História Sagrada.
Todos esses milagres são apenas o resultado da ação da Mente Infinita, atuando
sobre a inteligência infinita dos homens, produzindo-se como uma resposta do
Infinito dada aos rogos, votos ou petições veementes, formuladas pela mente
humana.
Está, atualmente, descendo sobre o nosso planeta uma força mental muito maior
do que tem gozado até agora, e é de uma natureza essencialmente imperativa.
Ela ensinará ao homem uma vida nova e um modo novo de a compreender,
menosprezando muitas coisas que atualmente nos parecem indispensáveis para
o nosso bem-estar, indicando-nos, em compensação, muito melhores sendas
para acharmos a felicidade.
Quando apareceu o caminho de ferro, fazendo as suas trinta milhas por hora,
foram logo abandonados a diligência e o ônibus, que andavam muito mais
devagar; os carros de tração animal nas grandes cidades cederam, em breve
trecho, o passo aos elétricos, aos autos e tantos outros novos meios de
locomoção, que, como o caminho de ferro, serão o melhor meio de transporte
para nos transladarmos de um ponto ao outro, principalmente o último, para
vencer grandes distâncias, enquanto não vier um novo meio que lhe seja
superior.
À medida que o homem se for convertendo num médium ou instrumento cada
vez mais perfeito, para, por seu intermédio, poder agir o Poder Supremo, mais
eficaz, extensa e profunda será a sua ação. E isto pode consegui-lo cada um de
nós, só pelo fato de manter bem firme na mente a ideia de que o homem é o
instrumento mediante o qual há de operar a Mente Infinita.
Assim, por exemplo, para curarmos qualquer doença, é necessário e
indispensável rogar à mente Suprema que um pensamento de saúde ocorra à
nossa mente. Por nós próprios, porém, não podemos tratar de fabricar tal
pensamento, nem ao menos impô-lo imperativamente ao nosso espírito. Isto só
ao Poder Supremo pertence. A nós só compete procurarmos manter a mente em
estado de repouso, e nela receber o que a Deus aprouver enviar-nos.
Procedendo desta forma, é como se, em substância, disséssemos à Mente
Infinita: “Peço que em mim seja cumprida a tua vontade e sendo eu, como sou,
uma parte do Todo Infinito, imploro mais que em mim seja feita física e
mentalmente, como mais convier a esse Todo”. Portanto, não serei eu quem
designará ao Infinito como deva recuperar a minha saúde; nem tampouco direi
que as minhas pernas, o meu estômago ou quaisquer partes do meu corpo se
hão de curar infalivelmente e imediatamente, porque muito maior do que a minha
é a Sabedoria que sobre mim atua, e em virtude de qualquer propósito que eu
não consigo talvez entender, porque os decretos divinos são incompreensíveis
e insondáveis, podem retardar a cura de alguma dessas partes que eu considero
essenciais, pois talvez haja necessidade de realizar-se algo de extraordinário e
urgente, antes do que recobrar eu a saúde. Peço somente que o Infinito me tome
sob sua divina proteção para que eu possa rodear-me de todos os cuidados, que
um hábil médico, em cuja ciência e boa vontade eu tenha plena confiança,
poderá indicar-me. Não peço ao Infinito para curar pelo método e da maneira
que eu considero melhores: só peço que me cure e me valha em todas as
atribulações da minha vida, pela forma e pelos meios que a sua inesgotável
Sabedoria achar melhor.
Semelhante raciocínio constitui uma força imperativa, que beneficamente opera
sobre nós e é igualmente a chave que nos abrirá a inexaurível Fonte de graças,
de toda sabedoria, determinando em nós, de quando em quando, outros
pensamentos de natureza imperativa, que sem cessar fortalecerão a nossa
saúde.
Todo pensamento junto ao ato que se lhe segue para se transformar em algo
visível há de ser de natureza positiva ou imperativa.
Se nos acharmos em estado mental vacilante e indeciso, nem um simples prego
seremos capazes de pregar bem. Nem uma só pancada de martelo daremos
bem dada no mesmo lugar, se não fixarmos toda a nossa atenção mental na
martelada que vamos dar, medindo exatamente a sua força e sua direção. Essa
atenção mental em cada martelada, querendo que o martelo caia exatamente no
prego, é um verdadeiro voto; é uma petição que dirigimos ao Infinito, e o mesmo
fazemos com todos os atos positivos da nossa vida, tanto com os grandes como
com os pequenos.
Mas se fizermos esta oração ou prece no tom plangente e servil do mendigo,
com o receio de que o martelo não caia bem a prumo sobre o prego, o mais
provável é errarmos a pancada a maior parte das vezes, a menos que a própria
divindade nos dirija a mão.
Mediante a prece em comum e em altas vozes, como se fazia nos tempos do
velho metodismo, sempre se obtiveram grandes êxitos, sendo um dos maiores
e mais gloriosos o sucedido na festa de Pentecostes, quando, reunidos todos os
apóstolos no mesmo local e em perfeita harmonia uns com os outros, ouviram o
rumor de um vento fortíssimo e viram, em seguida, descer sobre a cabeça de
cada um deles línguas de fogo, começando logo todos a falar idiomas diferentes
do seu.
É digno de nota que estes maravilhosos resultados são sempre obtidos pelos
homens menos ilustrados, os elementos inferiores da sociedade. É porque
esses, pela sua própria ignorância, são os que melhor se prestam a essa espécie
de exercícios, pois nada há como a pretendida e pretensiosa instrução para
destruir a fé.
Daí provém o serem hoje menos frequentes essas manifestações ou
exteriorizações do espírito, não podendo produzir-se senão como uma resposta
à formal e veemente prece, tal como a dos primitivos metodistas: “Senhor, que
o vosso Espírito desça sobre nós e nos ilumine.”
O Espírito da prece é uma Lei Divina atuando sobre tudo quanto Deus criou e
guiando todas as coisas criadas pelo Divino Espírito, para atingirem a infinita
perfeição. Foi essa lei que conduziu este planeta e todas as coisas nele
encerradas, desde o caos, através das inúmeras idades já decorridas, até o seu
atual grau de perfeição. Nada pode detê-la.
Se alguém tentasse fazê-la retroceder, ela avançaria de novo com maior ímpeto
e maior força do que nunca.
Uma grande e silenciosa prece se está exteriorizando hoje mediante muitos
milhares de corações. Estes corações dizem silenciosamente: “A religião até
agora seguida por nós já não nos satisfaz. Ela não cura os enfermos, não nos
dá corpos vigorosos e sadios, não nos dá força nem consolo aos nossos males,
nem nos faz nenhuma nova revelação sobre a vida futura. Nenhum sinal exterior
acompanha a prédica por meio de palavras. Os nossos amigos nos abandonam,
sumindo-se um a um, sob a pesada lousa do sepulcro, que para sempre os
oculta às nossas vistas saudosas, separando-nos talvez para sempre, e quando,
por entre lágrimas, perguntamos o que é feito da sua existência, respondem-nos
com as maiores banalidades.”
Esta grande e silenciosa prece, este veemente anseio de tantos e tantos
milhares de homens está se exteriorizando continuamente, tanto de dia como de
noite. Tal prece constitui uma força potentíssima e invisível, que continuamente
opera e continuará atuando sempre, até olvidarem, um dia, os homens, a oração
que agora formulam, pois o esquecimento transitório do objeto desejado, de
forma alguma detém a força que no-lo há de atrair. Esta prece está no coração
de muitos que nem sequer se atreveriam a confessá-la a si próprios, no mais
recôndito do seu coração.
Frequentemente procuramos esquecer determinados pensamentos e afastar de
nós certos desejos que nos perseguem e procuram dominar-nos; mas eles
volvem de novo, tornando-se cada vez mais violentos e não cessam de insistir e
tentar avassalar-nos até os acolhermos benevolamente.
São forças potentíssimas que nos batem à porta, impondo-se-nos e pedindo
imperativamente para serem admitidas na nossa mente. Esta luta pode, todavia,
durar muitos anos, e talvez o nosso primeiro ato de reconhecimento, a respeito
dessas forças, seja por nós formulado, verbalmente, ao ouvirmos exprimir a
outrem a mesma ideia, ou lendo-a em algum livro, o que nos faz exclamar com
surpresa: “Isto mesmo tenho estado pensando durante muitos anos seguidos.”
Esta silenciosa prece dará uma significação e interpretação muito mais elevadas
a todas as formas de que a crença religiosa se tem revestido em nossos dias.
Todo credo religioso tem por base a verdade, mas esta não chegou ainda a
assumir a sua última e verdadeira expressão, alterando a significação da vida e
fazendo novas todas as coisas.
A religião ou a Lei vital não é semelhante a um poste cravado no solo como a
representação da imutável palavra de Deus; antes é como uma árvore sempre
viva, expandindo-se e desenvolvendo-se sem cessar em novos ramos e em
novas folhas.
A prece silenciosa age com muito mais eficácia do que se fosse falada. O modo
ou estado mental que a mesma produz não se detém um único momento,
embora alguma vez possa ficar esquecida pela memória física. Não é o homem
que cria esta força imperiosa e soberana que sobre ele atua, nem é tampouco
ele quem a faz agir, mas sim o Poder Supremo, que é quem, única,
exclusivamente e sem cessar, nos envia sobre este nosso planeta as suas forças
criadoras que vão aperfeiçoando tudo quanto ele encerra, transformando os
homens em seres mais vigorosos, perfeitos e felizes.
São estas as crenças que não permitem às forças humanas que fossilizarem-se
neste mundo, renovando-as incessantemente. Elas fazem também com que os
homens conheçam a injustiça e a corrijam. Estas forças incitantes e imperiosas
são como raios de luz bendita que, de súbito, penetrassem nas profundíssimas
trevas de uma masmorra subterrânea. São esses raios de luz divina que vão
mudando a concepção da Divindade, fazendo-a mais amável, misericordiosa e
dizendo-nos também: “Cessa de adorar um som, uma combinação de quatro
letras, e adora-me a mim próprio mediante um conjunto e progressivo acréscimo
da tua admiração por todas as inúmeras expressões materiais, por intermédio
das quais eu mesmo me manifesto e exteriorizo. Pede-me o indispensável poder
para o conseguires e eu renovarei e aperfeiçoarei os teus sentidos, de forma
que, por meio deles, possas experimentar as novas sensações que produzirão
em ti a vista e a contemplação dos rochedos, das plantas, dos animais, do sol,
dos rios, dos mares e até da chuva e da neve que, em alvíssimos flocos, se
despenha das alturas do céu, para dar nova vida e fertilizar a terra. Assim
metamorfoseado, chegarás a ver e sentir, perfeita e cabalmente, toda a beleza
de tudo quanto te rodeia e da qual nem a mínima ideia tens agora. Dar-te-ei
tamanhos poderes sobre o teu próprio corpo, que nunca mais terás necessidade
de o perder e de te despojares dele, compreendendo, então, realmente, que o
último e maior inimigo que o homem tem de vencer é a morte.”
O homem imaginou que o melhor modo mental de se dirigir a Deus era o da
humilde timidez, da adulação servil, constituindo desta forma, em sua mente,
uma Divindade que se compraz em ser adorada baixa e servilmente, da mesma
forma que o mendigo beija a mão de quem lhe dá esmola.
Esta Divindade, que pouquíssimas mudanças tem sofrido através de todos os
povos e de todos os tempos, nada mais é do que o resultante do estado mental
do homem que até agora ainda não pôde conhecer a Deus.
Quando pedir para reconhecer os maravilhosos atributos de todas as coisas, de
todas as expressões materiais da Mente Infinita sobre a terra, tais como os
rochedos, as árvores, os animais, os mares, as nuvens, os sóis e as estrelas,
essas concepções da Divindade se dilatarão ante os seus olhos despertos e
extáticos perante tais maravilhas, como hoje dilata o horizonte, à medida que
vamos subindo até atingirmos o cume de uma elevada montanha. Se os homens
se denominam a si próprios miseráveis e desprezíveis criaturas e pecadores
impertinentes, contribuem por si próprios para converter-se nisso mesmo, pois o
que pensarmos de nós é o que realmente seremos em definitivo.
Toda mulher ou todo homem representa uma parte e é uma manifestação da
Mente Infinita. Todo espírito é também uma parte do Espírito Infinito. Este
encerra em si todos os conhecimentos, toda a onipotência e toda a sabedoria.
Deduz-se disso que, como partes integrantes do Infinito, a nós pertence também
o conhecimento, o poder e a sabedoria, na qualidade que cada um de nós está
disposto a receber e a apropriar-se. Sendo assim, devemos mendigar
servilmente o que é nosso e nos pertence também?
A Mente Infinita nada teme, nada mendiga e, como ela quer fazer os homens e
as mulheres à sua imagem e semelhança, por que nos colocarmos na atitude
mental de mendicantes quando lhe pedimos alguma coisa?
Procedendo desta forma, insultamos ao Infinito, do qual somos uma parte
também e perdemos, por um período de tempo mais ou menos longo, a
faculdade mediante a qual pode o Infinito agir, no mundo, por nosso intermédio.
Perder o respeito e o apreço de nós próprios é perder o respeito e o apreço de
Deus, o qual se manifesta na nossa própria carne.
O mendigo pede-nos uma esmola, embora insignificante, mas em compensação
pensa em nos dar absolutamente nada, procurando só, por mil formas, despertar
a nossa piedade e simpatia, para o socorrermos, com o único intuito de angariar
a esmola.
A mendicidade é uma grande mentira ou vício e um grande pecado, pois é
contrária às leis do Infinito, o que se demonstra por si mesmo, só com o fato de
se considerar que o mendigo se torna cada vez menos digno de ser sustentado:
recebe tudo quanto lhe dão e nada dá em troca, indo assim perdendo toda
dignidade, chegando a ser insensível até às pancadas e a todos os insultos.
Deste modo só visa a ser um objeto de permanente dó.
A Mente Suprema diz-nos: “Ordeno-te que a manifestação de Deus se torne em
ti e para ti cada vez mais evidente. Mas os deuses não são escravos nem
mendigos; hás de, pois, pedir que em ti se aperfeiçoem todos os atributos e
predicados divinos. Implora-me a absoluta independência. Pede-me as
qualidades necessárias para me poderes glorificar. Tu, porém, não podes dar
ordens a mim, que sou o Infinito, inesgotável, imenso, incomensurável, sem
princípio nem fim. Esse espírito todo de tímida humildade e de baixo servilismo,
sempre genuflexo ante o Supremo, nem é reverência nem adoração. O
verdadeiro sentimento de reverência não é a adulação. Ele tem por base a nossa
justa apreciação e o exato conhecimento das maravilhosas qualidades e infinitos
poderes que o Ser Supremo possui, e que existem por si só.”
Imploremos ao Infinito Espírito do Bem para que este apreço e este
conhecimento aumentem em nós e quanto maiores, mais profundos e extensos
eles forem, maior e mais sincera será também a verdadeira adoração, o profundo
respeito que rendamos a Deus e aos homens.
12
Medicina mental
O primeiro passo que devemos dar para a obtenção do poder ou faculdade de
evitar e curar todas as doenças, consiste em arremessarmos para bem longe da
nossa mente a falsa crença de que, com o decorrer da idade, a nossa força
mental se esvai ou, pelo menos, diminui ou pode diminuir, o que é
verdadeiramente impossível. Pode parecer, em certos e determinados casos,
que a nossa força mental decai ou se entibia; é isso somente devido à excessiva
dureza e amargura das dores padecidas.
Podemos exaurir e extenuar o corpo, debilitando-o, até chegar à morte, mas a
Força invisível e energia mental, que é quem atua nesse corpo e faz agir, essa
nunca enfraquece nem morre. Pode, é certo, algumas vezes, tornar-se incapaz
de atuar com eficácia nele; é bem verdade que, às vezes, por ignorância ou só
por esquecimento transitório dos exercícios próprios da mentalidade, pode essa
dita Força ser dissipada e perdida, como sucede em milhares de casos em que
o homem dispersa a sua energia mental em todas as direções, sem conseguir
fixar o pensamento numa só coisa durante dez minutos seguidos. A força mental
irradia de um só centro e, para aproveitar toda a sua energia, é necessário
concentrá-la num ponto fixo, sem o que ela se dispersa, perdendo-se
miseravelmente.
Nunca nos deve abandonar a ideia de que o homem possui uma força mental
sempre progressiva e que, sem cessar, esta força pode ser aplicada para
fortalecer e dar nova vida ao corpo. Somente a posse desta ideia proporciona-
nos já um poder espiritual imenso.
Pode parecer-nos, às vezes, que ela foi abandonada ou dela nos esquecemos
por completo, sentindo-nos como indecisos e vacilantes. Apesar de tudo, se
alguma vez formulamos aquela ideia, por si mesma, ela volverá a fixar-se no
nosso cérebro e de novo voltará uma e mais vezes, sempre com nova e mais
poderosa força, comunicando-nos, de dia para dia, mais positivas e convincentes
provas da sua realidade — provas naturalmente insignificantes ao princípio,
porém que, pouco a pouco, se irão tornando cada vez mais importantes, até nos
vermos, um dia, obrigados a convir em que as nossas enfermidades não são
frequentes como dantes e que aquelas de que padecemos rapidamente se
curam.
O segundo passo que devemos dar, aquilo que realmente devemos fazer,
consiste em nos convencermos de que toda doença tem a sua verdadeira sede
na mente e que tudo quanto nos ocasiona ou pode ocasionar dor ou miséria para
a mente, também será causa de dor e miséria para o corpo.
Se nos assustamos, logo o nosso corpo sente repercutir-se nele o medo,
debilitando-se e sentindo esvaírem-se as forças de tal modo que, muitas vezes,
se o não aparam, cai inerte por terra. Se experimentamos uma cruciante
angústia, em nosso corpo se reflete, aflita e lancinantemente, a própria emoção
com uma violência em proporção com o sofrimento moral. Se o desalento se
apodera de nós, expulsando de todo, do nosso coração, a doce e benfazeja
esperança, todos os músculos do nosso corpo se sentem lassos e sem energia
necessária para agir, a qual lhes era peculiar e tanto nos caracterizava, quando
nos sentíamos alegres e cheios de esperança. São inúmeras as pessoas que
vivem, durante anos e anos, com o coração cruciado pelos mais pungentes
desgostos e sem que o menor raio de esperança lhes ilumine as profundíssimas
trevas do seu infernal sofrimento moral; pois bem, apesar deste martírio atroz
ser apenas puramente espiritual, influiu-lhes poderosamente sobre o corpo,
debilitando-o gradualmente e afetando qualquer dos seus órgãos físicos, ou
todos eles tais como os olhos, os ouvidos, o estômago ou os pulmões.
Devemos repelir mentalmente tudo quanto nos possa causar ou proporcionar
desgosto. Não digamos nunca: “Isto está quente ou frio demais, não o posso
suportar”, ou “Eu sofro demasiado, já não posso com tantos sofrimentos”, ou “É
assim mesmo, tudo quanto é mau vem para mim; se fulano ou fulana fosse bom,
ou se isto fosse uma felicidade, não viria para a minha casa, nem para mim!” —
ou ainda “Tão atroz sofrimento é superior às minhas forças”, — pois, com estas
e outras semelhantes exclamações, vamo-nos envolvendo numa rede de
maléficos elementos que exercem a sua enérgica influência sobre nós,
causando-nos uma dor ou infelicidade mil vezes maior do que quando até aí
tínhamos sentido. Em lugar disto, digamos antes: “É verdade que o meu corpo
está tiritando de frio ou ardendo em calor, que eu sofro atrozmente neste
momento, mas o meu espírito não treme, nem tremerá nunca, e se hoje sinto o
coração despedaçado pela dor, ou se estou a braços com uma luta ingente e
que me parece desesperada, é preciso criar ânimo, porque a bondade, a
misericórdia de Deus é infinita, e como tenho confiança absoluta e ilimitada no
Infinito Espírito do Bem, aceito isto como coisa transitória, mas estou certo de
que a minha situação há de melhorar e melhorará incessantemente. Repilo com
todas as minhas forças, em nome de Deus, as forças maléficas que me torturam
o corpo ou o espírito.”
Desta forma, construímos um poder que resiste aos elementos externos que
influem ou atuam sobre o nosso corpo.
Todas as vezes que, mentalmente, nos opomos aos intensos rigores do frio ou
do calor, ou a qualquer incômodo ou sofrimento físico ou moral, adquirimos uma
força que nos há de auxiliar eficazmente para dominar e curar tais doenças,
assim como os músculos do nosso braço podem adquirir, pouco a pouco, a força
necessária e indispensável para deter a investida de um animal selvagem e
subjugá-lo.
Cada um dos nossos pensamentos formulados neste sentido é uma pedra que
juntamos à fortaleza ou baluarte que tem de nos proteger e defender de todo
mal.
Oponhamo-nos mentalmente à ação do demônio sobre o nosso corpo e o nosso
espírito, e o demônio nos deixará em paz e inteiramente livres de suas tentações
e malefícios. O demônio está em tudo o que, sob qualquer forma, procura
exercer um despótico domínio sobre nós. Se lhe não opusermos enérgica e
tenaz resistência, ele nos dominará, ainda que seja só temporariamente.
Nenhum país nos parecerá bom. Um será demasiado frio, outro demasiado
quente; as contrariedades, os trabalhos e todas as faltas de comodidades no
nosso domicílio ou de onde quer que estejamos, parecer-nos-ão também muito
maiores e tudo nos incomodará e nos porá de mau humor, até as coisas mais
insignificantes e triviais.
Não quer isto dizer que devemos forçosamente permanecer sempre no ambiente
que nos rodeia e nos é molesto e desagradável, nem que devamos torturar-nos
só pelo prazer de sofrer. O que simplesmente afirmo e aconselho
insistentemente é que procuremos sempre, e tanto quanto possível, dominar as
nossas paixões, más inclinações e repugnâncias, bem como tudo o que nos é
desagradável, e evitar que tudo quanto for incômodo nos domine.
Nada lucramos com o fato de nos infligir, voluntariamente, uma tortura de
qualquer espécie que seja. Tem sido frequentemente este o erro do asceta que,
voluntariamente, se priva de todo prazer; do eremita que considera um grande
ato meritório o viver em completa e absoluta solidão; do hindu que rasga as
próprias carnes com afiadas navalhas ou permanece longas horas suspenso
num pau. Isso significa unicamente levar ao excesso a resistência contra a dor.
Porque, pelo fato de se dever ter coragem para suportar os sofrimentos e
vicissitudes da vida, não é razão para se sofrer todos os martírios, sem
necessidade. Isso é desperdiçar forças que, empregadas melhor, nos poderiam
ser de grande utilidade e proveito.
O asceta, seja qual for a forma por que se manifeste esse excessivo sentimento
de sacrifício, vive, de contínuo, escravizado pela ideia de que todo prazer,
qualquer que seja, é um grande pecado, da mesma forma que é escravo de seu
vício o homem que está dominado por qualquer um deles. A conquista de si
próprio significa o domínio de si próprio, e o maior dos conquistadores é aquele
que sabe dominar todos os seus desejos e paixões, aquele que consegue
subjugar todos esses demônios que, muitas vezes, tirânica e impetuosamente,
lhe revolteiam no espírito, o coração e na carne.
É justo e razoável que o corpo, como instrumento natural do espírito, procure
gozar de todos os prazeres que não causem dano ao espírito. Não é útil nem
proveitoso que o corpo, o instrumento, possa obrigar o espírito, seu senhor, a
formular esta ou aquela petição.
O espírito só agirá livremente, quando puder formular as suas petições com
inteira independência do corpo e das circunstâncias que o rodeiam. O espírito
somente é livre quando procede desta forma.
Um dia, sentimos medo de um acontecimento futuro ou de qualquer pessoa; se
não procurarmos reagir mentalmente com bastante energia a tal respeito, no
nosso próprio corpo ele atuará perniciosamente, impressionando-o de forma
que, muitas vezes, ficará possuído de tão profundo abatimento que não só se
sentirá quase sem forças para encarar a situação ou a pessoa temida, mas
chegará até, não raro, a adoecer.
Pode dar-se o caso de resistirmos a esse medo, mas passarem-se muitos dias
sem observarmos nenhuma mudança favorável; não desanimemos, porém, e
fiquemos certos de que, persistindo em nossa atitude mental, procurando
manter-nos sempre serenos nos momentos de maior tristeza, aflição ou
depressão moral, nesses angustiosos momentos em que, sem forças para nada,
nos sentimos como se a vida estivesse prestes a abandonar-nos, em que não
só a mais insignificante impertinência, mas também até o mínimo ruído nos
assusta ou irrita, estejamos certos de que, por fim, há de vir para nós a força de
que atualmente carecemos, estabelecendo-se assim, em nós, um estado mental
que nos fará ver tudo quanto nos fazia sofrer ou assustava, sob um novo e mais
belo aspecto, iluminado por uma nova e mais brilhante luz. Então nos
convencemos de que o nosso temor era infundado e que só a nossa imaginação
lhe deu vulto; que os nossos inimigos e invejosos não só nos são inferiores mas
até inteiramente impotentes contra nós, e ao vermo-nos mentalmente num plano
superior ao daqueles de quem receamos ou que nos desejam mal, com certeza
acabaremos por dominá-los.
Nestes estados de excessiva timidez ou depressão moral a maior parte das
vezes temos de lutar mais com o invisível do que com o visível e a realidade
física. O poder das trevas ou antes as inteligências malévolas e invisíveis que
povoam o espaço imenso, se dispersam e irradiam em todos os sentidos,
esforçando-se por dificultar a realização dos nossos melhores planos ou deitá-
los por terra, investem contra nós, fazendo brecha pelo nosso lado fraco que eles
muito bem conhecem, tocam uma das nossas cordas mais sensíveis e criam
uma grande dificuldade, onde talvez não houvesse nenhuma. Por que lhes é
permitido fazer isto? Porque temos de criar por nós próprios uma força capaz de
se opor à sua e neutralizá-la ou anulá-la fatalmente.
Se estivéssemos e nos sentíssemos constantemente protegidos, nunca
adquiriríamos a força necessária para nos defendermos por nós próprios.
Quando, mediante uma prolongada luta contra um estado de depressão mental
ou excessiva timidez, chegamos, por fim, a adquirir uma tal ou qual quantidade
de força, essa força já é propriedade nossa e nunca mais nos abandonará.
Se a nossa mente está desequilibrada ou confusa, se pensamos ou queremos
pensar ao mesmo tempo em meia dúzia de coisas, querendo fazer tudo de uma
só vez, e não sabemos pensar que o melhor será fazermos todas estas coisas
umas após outras — o nosso escritório estará sempre em desordem, não
achando nunca à mão aquilo de que necessitamos, e se esta disposição mental
prevalecer, indubitavelmente que o nosso corpo sofrerá também forma de
desordem, pois foi dissipada a força que mantém sempre estreitamente unidos
o corpo e o espírito.
Somos um feixe desatado de nervos, o qual podemos atar de novo, só pelo fato
de nos dedicarmos a pôr calma e metodicamente em ordem um canto ao menos
do nosso gabinete de trabalho. Não tentemos fazê-lo de uma só vez, nem
pensemos em tudo quanto há para fazer. Proceder desse modo produzir-nos-á
fadiga e aborrecimento tais que constituem uma verdadeira doença para a
mente, terminando sempre, sem a menor dúvida, por uma doença física.
Se algum dia sentirdes enfraquecer os vossos olhos, não recorrais
imediatamente aos óculos, qualquer que seja o grau; deixai apenas os vossos
olhos repousarem durante alguns meses. Nenhum dos órgãos do corpo padece
tanta fadiga como os olhos, os quais obrigamos a ler as minúsculas letras dos
nossos impressos, em geral demasiado pequenas. É como se tratássemos de
sobrecarregar os nossos músculos com um peso superior às suas forças.
Ao notarmos que a nossa vista está cansada ou nos falta um pouco, o que
primeiro devemos fazer é afirmarmos mentalmente a nós próprios que nossa
vista é tão boa como sempre foi. Só o fato de começarmos a usar óculos, apenas
principiamos a notar qualquer fraqueza da vista, como milhares de pessoas
fazem, demonstra uma afirmativa inconsciente da nossa parte de que os nossos
olhos hão de ficar já débeis e enfraquecidos para todo o resto da nossa vida.
Se pusermos os óculos sobre o nariz, faremos o mesmo que darmos como
molestos os nossos órgãos visuais, e se começarmos a usá-los, nunca mais os
poderemos tirar.
Podemos dizer o mesmo a respeito de todos os nossos outros órgãos. Se
sentimos as pernas fracas ou que se fatigam depressa, não procuremos o auxílio
de muletas, antes experimentemos andar sem o auxílio de qualquer cajado.
O cansaço dos olhos pode ser devido a alguma fraqueza do corpo, debilidade
que terá talvez como origem alguma perturbação mental: — medo, angústia ou
dor — pois toda e qualquer perturbação mental esgota as forças físicas.
O repouso é o verdadeiro caminho para que todo órgão físico sobreexcitado ou
excessivamente fatigado possa recuperar as forças e a robustez primitivas.
Portanto, isso mesmo se dá com a vista.
Uma só força invisível, mas sempre a mesma, é que alimenta todos os órgãos
do corpo. Ora, usando óculos, não descansamos nossos olhos, não estimulamos
a sua força própria, aplicando-lhes uma lente, artificial, que concentra luz para
lhes fazer ver o que ainda não conseguia fazer ver a lente natural. As lunetas
são um estímulo dos órgãos da vista, tão artificial e nocivo, como o álcool com
que se costuma estimular o estômago para, transitoriamente, se lhe despertar o
apetite de que carece. Desta forma, só educamos os nossos olhos para, em
breve tempo, não poderem prescindir desse estímulo, acabando por ser seus
verdadeiros escravos. Por consequência, se tivermos de ler letras de imprensa
e isso em todos os graus de luz, ou se os nossos negócios nos obrigam a
proceder dessa forma, é claro que temos de recorrer ao auxílio de lunetas, mas
as nossas necessidades não alteram o resultado do seu emprego.
Pode até o homem destruir a sua saúde com o intuito de procurar um auxílio
honesto para se sustentar a si e à sua família, como pode atingir o mesmo
resultado, expondo-se por mera imprudência a um grande perigo.
Na lei da saúde, nada valem os motivos que a fizeram transgredir. Eis por que
tanto corre perigo aquele que, entrando numa casa incendiada, se expõe às
chamas com o nobre intuito de salvar uma preciosa vida humana, muitas vezes
até idolatrada, como infame ladrão que aí penetrou com o único fim de roubar.
Se observarmos que o nosso ouvido enfraquece, mantenhamos constantemente
a nossa mente em atitude oposta a essa surdez.
A nossa força mental pode, por si só, arremessar para longe do corpo todos os
elementos mortos ou, pelo menos, já inúteis e incapazes de reproduzir a vida.
Quando a mente deixa de se utilizar do corpo e este morre, como se diz na
linguagem dos homens, é porque perdeu toda faculdade de afastar de si as
matérias mortas que são o produto dos órgãos. Toda dor física que cresce e
aumenta de intensidade é devida à inexistência, no corpo, de força suficiente
para proporcionar ao órgão enfermo os alimentos vitais de que necessita.
Se nos sentirmos inclinados a pensar que esta ou aquela doença se há de
agravar ainda, ou é incurável, e pensamos com frequência e firmeza nesta
crença, a mente nada mais fará do que auxiliar o corpo a confirmar-se cada vez
mais na terrível ideia de que o corpo caminha infalivelmente a passos largos para
a decadência e a morte, podendo dizer-se, sem receio de desmentido, que é o
nosso espírito que alimenta a enfermidade e a toma incurável realmente.
A maioria das doenças que padecemos provém da falta de repouso. O
verdadeiro descanso é tão necessário para a mente como para o corpo.
Uma das formas de repousar consiste em respirar o mais profundamente
possível com intervalos de um segundo, entre a entrada e a saída do ar dos
pulmões.
Os ferreiros praticam este útil e benéfico exercício, quando, a cada pancada do
pesado martelo na bigorna, soltam a exclamação: Já! Os marinheiros
compassados e soltando ritmadamente certas exclamações.
A pausa que se faz entre a entrada e a saída do ar dos pulmões, ao passo que
deixa em completo repouso os nossos órgãos físicos, descansa também a
mente. E, além disso, esta forma de respirar, com ritmo e profundamente, traz-
nos aos pulmões maior quantidade de ar, e o ar é um alimento tão necessário e
indispensável como o pão. Deste modo, aumentamos a capacidade dos pulmões
para procurar esse alimento e criamos um costume melhor de respirar.
Os males que o homem sofre atualmente provêm todos ou quase todos do
mundo invisível.
Mas está despertando já no espírito dos homens a grande verdade de que, da
atitude mental em que cada um de nós se colocar, virá a melhora da sua saúde,
sendo, além disso, imenso o auxílio que receberá de outras mentalidades que,
em certo e determinado tempo, operem na mesma direção.
Se uma só mente pode exteriorizar a força mental suficiente para expulsar do
corpo de um doente toda espécie de enfermidades, que força não poderão
exteriorizar dez mentes na mesma direção e atuando como uma só força sobre
o paciente?
Fazemos um grande benefício ao nosso amigo quando falamos lisonjeiramente
dele a outras pessoas, desejando-lhe todo bem possível, mantendo sempre à
superfície as suas boas qualidades e sepultando o mais profundamente possível
os seus defeitos, de forma que ninguém dê por eles nem os possa descobrir.
Fazendo isto, enviamos ao nosso amigo uma corrente mental muito benéfica de
tão reais e positivos elementos, como os de uma corrente elétrica que atua sobre
o seu corpo, beneficiando-o e iluminando-lhe o cérebro de tão brilhante luz, que
não pode deixar de ver melhor todos os seus defeitos.
No futuro, e num futuro não muito distante já, quando algum dos nossos amigos
se achar perigosamente doente ou aflito, atribulado por alguma enorme dor, nos
concentraremos com algumas outras pessoas crentes na verdade desta Lei,
simples e puras de coração, pessoas de muita fé e, com elas reunidos num
aposento bem tranquilo, longe de todo bulício importuno, onde, com os primeiros
raios do sol, penetrem, logo de madrugada, os mais potentes elementos de vida
que o astro-rei, todas as manhãs, generosa e magnanimamente, envia à terra, e
ali permaneceremos juntos uma hora ou menos, pensando benevolamente no
amigo ausente, falando a seu respeito e desejando com veemência a sua cura.
Quando o homem começar a pôr em prática este exercício, compreenderá,
dentro em pouco tempo, que, com isso, engendra um poder imenso, uma força
capaz de restituir a saúde a qualquer pessoa enferma.
Se as pessoas que rodeiam o doente estão em inteiro antagonismo, consciente
ou inconscientemente, com os métodos aqui indicados, não será conveniente
em nossa prática mental que nos apresentemos como seus verdadeiros
antagonistas, ou com ideias diametralmente opostas às suas.
Será suficiente exteriorizarmos o pensamento e o desejo formal de que as
pessoas que rodeiam o enfermo adquiriram uma clarividência maior daquilo que
convém e deve fazer-se, pondo-se, deste modo, em íntima conexão com a
corrente mental produtora do Poder Supremo, à qual somente se chega pelos
caminhos da generosidade e do bem.
Não tardará muito que o homem se tenha convencido de que nada
absolutamente ganha em lutar pela verdade. Podem ser enviadas mentalmente,
através do espaço, fortes pancadas que causem dano aos corpos. E atingindo,
material ou mentalmente, qualquer pessoa, em que terão as nossas pancadas
feito mudar o estado mental dessa pessoa, cujo corpo podemos chegar a
destruir? Em nada absolutamente, em nada.
Se o proceder de certas pessoas nos parece inconsequente, injusto ou
prejudicial, nada ganharemos se a elas atacarmos direta ou indiretamente,
procurando prejudicá-las, além de que atrairemos também, ao mesmo tempo,
fazendo recair sobre nós, a nociva corrente do seu ódio e do seu antagonismo.
O melhor é combater o mal apresentando novos e melhores caminhos ante os
olhos dos transviados.
Se tenho uma casa melhor do que a dos outros, não hei de obrigar naturalmente
os outros a copiarem a minha casa. Poderei, talvez, convidá-los a visitarem-na,
indicando e demonstrando-lhes as suas vantagens e melhoramentos: isto será
o melhor que tenho a fazer, se eu quiser contribuir para o relativo bem-estar dos
seus semelhantes. O que conseguir ver e apreciar a superioridade da minha
casa tratará de arranjar, para si próprio, uma casa igual, e o que, por si mesmo,
não a ver, inútil será que eu me esforce em demonstrar-lho antes de ter os olhos
mais abertos, porque não o compreenderá.
A excessiva obesidade é proveniente da falta de força para expulsar do corpo as
matérias mortas, como pode também faltar-lhe para produzir os endurecimentos
da pele, que a natureza põe em nossos pés, para os proteger contra o atrito de
um calçado demasiadamente apertado e duro. Porém, estes endurecimentos da
pele podem chegar também a transformar-se numa excrescência calosa, o que
será antes um verdadeiro e doloroso incômodo do que uma proteção, sendo isto
somente devido a não ter o espírito a força bastante para deter a tempo o seu
crescimento, produzindo-se, dessa forma, o calo e convertendo o que a natureza
nos proporciona como um remédio, em uma fonte de novas dores.
Um calo não é outra coisa mais do que uma crosta ou excrescência, que o
espírito não teve tempo para destruir. Se nos limitarmos a cortar tal excrescência
anormal, nada mais faremos do que estimulá-la para de novo crescer, da mesma
forma que fazemos com as árvores frutíferas, às quais podamos todos os ramos
supérfluos, concentrando, por este modo, muito mais a força de que a árvore
dispõe, tal qual o calo, para crescer e aumentar incessantemente.
Por consequência, para diminuir a excessiva adiposidade, o que devemos fazer,
primeiro que tudo, é reduzir a quantidade de alimentação farinácea, sobretudo.
Mas a verdadeira cura desse mal funda-se, principalmente, na aquisição e no
exercício da força mental que deve expelir do corpo todas as secreções de
matéria sebácea ou morta, até ele atingir as suas elegantes simetrias e naturais
proporções. Se, porém, só desejarmos ver-nos livres da gordura e não
cuidarmos da beleza do corpo, com certeza nos libertaremos da excessiva
exuberância de carnes, porém, lentamente, visto não se basear o nosso desejo
no escopo mais elevado; e quanto mais nobre e elevado for o móvel do nosso
desejo, maiores serão os resultados obtidos pela nossa ação mental.
Neste último caso, o mais elevado e poderoso motivo em que devemos fundar o
nosso desejo, deve ser o nosso inato amor pela simetria e beleza física, como a
expressão externa do nosso próprio e peculiar estado mental ou simetria
espiritual.
Aquele que emprega todos os esforços para diminuir as suas carnes mediante
contínuas dietas, sem porém, de modo algum invocar a aquisição das forças que
faltam ao seu espírito, com toda a certeza conseguirá algum resultado e talvez
melhore até a plástica de seu corpo. Nunca poderá, porém, atingir, desta forma,
senão efeitos transitórios, como aquele que corta os calos para se livrar das
dores por eles produzidas, e viverá em contínua alternativa de gordura e
magreza, como sucedeu a Lord Byron, cuja existência inteira foi uma série de
alternativas, ora excessivamente gordo ora muito magro, devido a ser baseada
a sua aspiração em atingir a beleza física, somente em motivos de ordem baixa
e grosseira.
Entre os meios materiais para manter o corpo em proporções simétricas, a dieta
é um dos melhores; ninguém, porém, expulsará do corpo toda a matéria morta
sem formular uma forte e firme aspiração.
Durante a juventude terrena, atua e age o espírito mais vigorosamente sobre o
corpo. Eis por que vemos sararem com mais presteza todas as feridas nas
pessoas moças e libertarem-se mais facilmente de toda a matéria morta.
O corpo humano, bem como os vegetais, têm uma vida e um crescimento que
lhe são próprios, independentes da mente ou espírito. Essa vida, porém, é
limitada, como a das árvores: — tem igualmente a juventude, a sua idade madura
e a sua morte. É isso devido a não ter o espírito ainda atingido em toda plenitude
a força para, apenas chegado o corpo à sua idade viril, poder atrair a si
elementos vitais invisíveis que substituirão no corpo os elementos gastos ou
mortos.
Mas o homem ainda não está convencido de que isto é uma possibilidade. Pois
a prova de que isso é possível, já a temos, no nosso mundo atual, nesses
homens de mentalidade tão ativa e de tanta força de vontade, que, talvez
inconscientemente, formulam um veemente desejo de viver o máximo tempo
possível, atingindo tais homens, muitas vezes, graças à força que está latente
neles, uma longevidade muito além do termo médio da vida.
Se os homens de vontade firme conseguem hoje alcançar tão miraculoso
resultado, também podemos pensar que a vida humana se prolongará mais e
muito mais, quando, reconhecida a verdade desta lei, ela se praticar consciente
e inteligentemente. A magia não é outra coisa senão o meio de obter resultados
materiais, sem a intervenção de agentes físicos. Se tivéssemos uma vista
espiritual mais clara do que a que possuímos atualmente, veríamos que todas
as coisas do mundo físico se realizaram graças ao poder da magia.
O homem e a mulher possuidores de uma mente muito elevada podem dominar
e mover à sua vontade todos os outros homens e todas as outras mulheres que
possuem uma mentalidade de ordem inferior. Este poder, ninguém o pode dar a
outrem. É um poder que cria raízes no próprio indivíduo dotado desse dom, como
na criança se arraiga e vincula igualmente a força de que há de fazê-la crescer.
Certamente, qualquer pessoa que possua esta faculdade pode dar a outra uma
pequeníssima ideia desse maravilhoso poder e até do seu uso e emprego. Mas
se todo o nosso conhecimento da magia consiste apenas no que os outros têm
dito e ensinado, podemos dizer, atentamente, que não o possuímos na verdade,
porquanto não temos bebido na sua fonte principal e verdadeira. Esse vero e
puro manancial existe dentro em nós mesmos e para que ele brote e comece a
expandir-se é necessário somente o persistente anseio de duas coisas: —
Primeiro, seguirmos absolutamente o caminho da verdadeira razão e justiça, em
tudo e para tudo, inclusive para conosco próprios. Segundo, sermos capazes de
crer na realidade do Poder Supremo, do qual, mediante simples e imperativas
petições, podemos atrair cada dia maior soma de energias — ideias novas —
que vêm para nós e fortalecem o nosso espírito.
A magia nada mais é do que o uso inteligente das forças que em nós estão
latentes ou nos rodeiam, da mesma forma que hoje são utilizados os elementos
da eletricidade, até há pouco tempo quase desconhecida.
A força mental pode ser acumulada e armazenada por um só ou muitos
indivíduos, os quais podem ir continuamente aumentando as qualidades e os
poderes desta mesma força.
As qualidades e a força da mentalidade de certa e determinada pessoa podem
ser muito mais perfeitas e poderosas do que as de uma outra, e, em harmonia e
de acordo com elas, exerceremos um domínio especial sobre todas as coisas
materiais ou inerentes ao mundo físico e visível. As qualidades mentais de
qualquer pessoa podem adulterar-se ou enfraquecer pela mistura ou
combinação com as energias de outra mentalidade inferior. O poder mental de
Cristo, superior ao poder mental de todos os outros homens seus
contemporâneos, permitiu-lhe realizar fenômenos qualificados depois como
milagres. Por esses milagres são apenas e simplesmente meros resultados
materiais, obtidos por intermédio da Lei que os produz e do conhecimento
complementar de que carecemos para fazermos inteligente uso da mesma.
Os conhecimentos e o uso dessa Lei vão entrando dia a dia, com muita força,
nos domínios da ciência, como já entraram o conhecimento e a utilização do
vapor e da eletricidade.
Este conhecimento, por enquanto, ainda está velado a muitos, pois só se
manifesta àqueles que podem recebê-lo, e esses são os que, tendo o espírito
sempre alerta em procura da verdade, não repelem tola e tenazmente as ideias
novas.
Não devemos, porém, condenar nem querer mal aos que, obstinadamente,
repelem as ideias novas, pois a sua mentalidade não pode, dentro das atuais
condições, transformar-se por completo de uma só vez, até se tornar digna de
receber as novíssimas ideias.
Não existe mistério algum que o homem não possa desvendar, mas só o homem
que tiver realmente a mente aberta a toda verdade. À medida que o nosso
conhecimento espiritual for aumentando e robustecendo-se, novos agentes e
novos meios de ação virão para nós, a fim de engrandecer a nossa força mental
e evitar que se desperdice ou se adultere, e de podermos utilizá-los, em primeiro
lugar, para o nosso próprio bem, e depois em favor dos outros homens.
13
O que devemos fortalecer em nós
Blowitz, o célebre jornalista britânico, disse num dos seus artigos: ‘‘Creio na
constante intervenção de um Poder Supremo que dirige não só o Destino em
geral, mas também aquelas das nossas ações que influenciam sobre o nosso
Destino. Quando vejo que nada está entregue ao acaso na natureza; que o
menor dos astros que cintila no firmamento, percorrendo a vasta abóbada
celeste, aparece e desaparece com absoluta pontualidade no céu, não posso
abster-me de acreditar que tudo quanto diz respeito aos homens há de ser
igualmente governado por leis imutáveis e não exposto aos caprichos do acaso;
não, cada um dos indivíduos que constituem a Humanidade é regido por uma lei
bem definida e imutável.”
Nos meus escritos tenho sempre afirmado, e creio ter deixado bem patente que
toda força ou potência, tanto aquela de que nos utilizamos para mover os nossos
músculos como a de que temos necessidade, até para o mais insignificante dos
nossos esforços mentais ou intelectuais, nos provém do exterior, de fora do
nosso corpo; querendo dizer, com isto, que nos vem do Poder Supremo.
Farei notar aqui que, frequentíssimas vezes, nos meus escritos tenho
empregado a expressão Poder Supremo, o que a muitos de meus leitores terá
talvez parecido excessivo. É porque ante a notória insuficiência de termos da
nossa língua, embora rica, não encontro nenhum que melhor exprima os efeitos
desse poder onipotente que impele os planetas e faz girar os mundos na
abóbada celeste, por maravilhosas e sábias leis, e nos impele também, fazendo-
nos mover e comunicando-nos a energia necessária para a execução dos
nossos mínimos atos, tais como o movimento de um dedo ou até o agitar das
pestanas.
Não pretendemos conhecer a origem nem a natureza desse Poder; julgamos até
que Ele é e será sempre incompreensível para toda mente humana e até para
toda mente, em qualquer plano da existência em que se ache.
Cremos que a esse Poder sublime, onipotente e único, se alude neste trecho das
descrições da Bíblia: “Ante Ele os Arcanjos velam seus rostos”, que
interpretamos com conclusão de que quanto mais elevado for o conhecimento
que se tem desse Poder, com maior lucidez se vê quão mesquinho se é, e se
aprecia a imensidade da própria pequenez.
Ao contemplar de muito perto a sua ação, verificamos que nos é absolutamente
impossível compreendermos ou explicarmos a natureza de um Poder que não
teve princípio nem poderá nunca ter fim.
O homem deve ter fé, cada vez mais fé, na realidade desse Poder e na
possibilidade de atraí-lo a si, assim como o engenheiro tem fé na realidade do
vapor, que tem origem na água a ferver, e na força de tal vapor para fazer mover
as suas máquinas. Esta fé é a fonte e o segredo de toda felicidade humana, mas
não se aprenderá nem se adquirirá mediante largos estudos, nem decorando
livros inteiros, velhos ou novos. Esta fé virá para nós, apoderando-se
inteiramente da nossa alma em toda plenitude da sua força, à medida que
aprendamos a manter a nossa mente na atitude mais adequada a recebê-la;
para nós virá, então, esta fé tão fácil e rapidamente, como a chuva que cai das
nuvens.
A atitude mais apropriada a que nos referimos para nos pormos em condições
de receber esta fé, nada mais é do que o desejo ardentemente formulado de
recebê-lo.
Quando essa verdade se nos tornar tão evidente como a luz do sol que vemos
brilhar com divino esplendor nos céus, compreenderemos também que existe
um Poder verdadeiro e superior a nós próprios. A nossa própria mente
responderá, então, satisfatoriamente, a toda espécie de perguntas e nosso poder
espiritual e pessoal aumentará sem cessar, tanto se o exercitarmos mediante o
corpo, como por outros meios quaisquer. Imaginando previamente que o nosso
poder se origina dentro do nosso corpo, cortamos, com essa crença, toda nossa
comunicação com o Poder Supremo que está fora de nós.
Quando nos sobrevêm a primeira sensação de fadiga física, inconscientemente
apelamos para outro suprimento interior da força. Uma onda de poder responde
exatamente a este pedido. Mas foi este poder que usamos em má direção. Não
agiu sobre a máquina do nosso corpo para impeli-lo adiante, mas para forçá-la,
como se a força fornecida pela caldeira tocasse para trás os braços de um tear,
antes que para a frente. E se persistirmos nesse hábito mental, de dia para dia,
teremos cada vez menor capacidade para atuar no corpo, com o que o nosso
organismo sofrerá grandes danos e prejuízos, pois esta reversão de ação terá
prejudicado a nossa máquina física, tê-la-á consumido ou arrancado da sua
engrenagem, e terá posto o corpo fora da proporção.
O nosso corpo irá ganhando, pouco a pouco, em simetria e boas proporções, à
medida que a nossa mente se for dispondo na atitude para isso adequada. A
Força Suprema também intervém nos nossos negócios e atos cotidianos. Não
façamos mais do que tudo quanto pudermos fazer bem e sem esforço excessivo,
e, tendo assim cumprido cabalmente com o nosso dever, detenhamo-nos, sem
nada mais fazer, confiados inteiramente no Poder Supremo, que governa o
Universo, assim como a criança põe toda a sua confiança em seus pais.
Imploremos e desejemos, com veemência, que essa confiança aumente e se
engrandeça cada vez mais, de dia para dia, em nós, atraindo assim a força de
que carecemos para levar avante e com êxito os nossos planos e obras
cotidianas.
Os homens verdadeiramente práticos, os que dirigem grandes empresas
comerciais, políticas ou industriais; os homens verdadeiramente ativos que neste
mundo existem, por certo raríssimos, chamam a si frequentemente esse Poder
Supremo, embora inconscientemente, colocando-se no estado de espírito
apropriado para recebê-lo, a que mais de uma vez tenho aludido, dando-se isto
muito mais vezes do que se pensa. Quando uma coisa qualquer lhes parece
obscura, sem poderem penetrar bem o âmago da questão, nem ver nitidamente
se o negócio lhes convém ou não; quando se acham perplexos e descoroçoados
ou em suas mentalidades se produz algum desses estados de desânimo e
depressão mental, impossível de evitar, dizem intimamente, de si para si: “Isto
não está bem, mas como já tenho vencido outras dificuldades e feito isto ou
aquilo, tenho a convicção de que também agora poderei fazer o que pretendo e
sair vitoriosamente desse mau passo”.
E esta atitude mental é apenas resultante de uma confiança maior ou menor,
conforme a fé e a esperança que se depositam no Poder Supremo e a energia
com que é formulada tal frase, ou antes, é a confiança em algo que não existe
certamente em nós, nem somos nós, mas fora de nós reside, e muito acima de
nós, em sabedoria e poder, em Deus.
Não temos necessidade de manter sempre esta atitude implorante, pois, desde
que ingressemos neste canal reto ou nesta atitude mental, por ele seguiremos
sempre, mesmo inconscientemente, pensando ou não nele, da mesma forma
como dantes seguíamos o caminho errado, se tivéssemos entrado nele alguma
vez.
Também não nos é possível esquecer nem abandonar de repente e para sempre
o erro ou os maus hábitos que podem ter em nós dez, vinte, trinta ou quarenta
anos de existência ou mais.
Ora, assim como, sem querer, repetimos maneiras, gestos e modos de dizer e
fazer, que desejaríamos imediatamente olvidar, com frequência caímos também
nesses erros e maus hábitos, contra a nossa vontade; costumes esses todos
formados primeiro na mente, antes de se exteriorizarem mediante o corpo.
Porém, desde que agora penetrou em nossa mente esta verdade, nunca mais
poderá abandonar-nos, pois quando vem para nós, é para crescer mais ou
menos lentamente, embora de um modo indefinido e com a segurança de que,
à medida que for crescendo, arremessará para bem longe de nós todos os erros.
Temos de habituar-nos, com relação aos nossos atos físicos ou mentais, à ideia
de que a força de que nos servimos para os realizar, não tem origem dentro em
nós, mas nos vem de fora, de cima e, portanto, não devemos deixar de enviar
esforços para manufaturar esta força, e, sim, devemos simplesmente dirigir ou
governar a sua ação, precisamente como o engenheiro dirige o vapor para a
parte da máquina que ele deseja usar.
Da mesma forma, procederemos em qualquer empresa comercial ou industrial.
Em primeiro lugar, formaremos o nosso plano de acordo com os nossos desejos,
projetos e aspirações, e logo chamaremos o poder ou força que o há de impelir
e desenvolver, permanecendo nós, entretanto, bem calmos e confiantes, certos
de que aquele poder há de vir finalmente a instigar-nos a praticar a ação mais
apropriada.
E, enquanto esse Poder criador não atuar sobre nós, podemos ficar bem certos
de que, trabalhando e lutando forçadamente com a única ideia de que devemos
fazer alguma coisa, antes entorpeceremos do que beneficiaremos os nossos
negócios ou obras que tenhamos entre as mãos. É esta uma grande verdade.
Também não é necessário que nos esforcemos por estar sempre pensando na
mesma ideia, enquanto nos dedicamos aos atos da nossa própria vida cotidiana,
pois isso antes retardaria do que apressaria a sua realização, sem contar que é
impossível conservar sempre na memória um pensamento determinado, com
exclusão de todos os outros. A memória é uma faculdade que, em excesso, se
fatigaria, se se empenhasse em conservar continuamente uma ideia fixa.
Ora, devemos evitar, com grande cuidado, a extrema fadiga em qualquer parte
do nosso ser. Devemos ter plena e inabalável confiança no espírito dessa
verdade, para nos ajudar em tudo, aumentar a nossa força e podermos corrigir
os nossos velhos erros. Este espírito não necessita da memória para existir.
Existia antes dela e existirá ainda após a sua extinção.
Se entregássemos, pois, à memória, a sua existência, cairíamos outra vez no
erro de confiar na matéria, em lugar de depositar toda a nossa confiança nas
coisas espirituais.
Quando a parte espiritual do nosso ser aceitou uma verdade, significa isso que
o espírito já está apto para viver em harmonia com essa verdade e começará
então a educar, nesse sentido, o corpo, contando para isso com vários e
inúmeros meios.
Das pessoas peritas em qualquer arte ou profissão: o músico, o poeta, o orador,
o professor, o industrial, o médico, o artista, de todos aqueles, enfim, que
alcançaram magníficos resultados, em sua esfera de ação, pouquíssimos nos
poderão dizer acerca dos métodos por eles seguidos, para atingir esse alvo.
Apenas sabem que esses resultados chegaram com o decorrer do tempo, sendo
verdadeiramente inesperados em muitos casos. Foram devidos a uma longa
prática? — Certamente; mas nunca a uma prática fatigante e exaustiva. Nem
nas artes, nem nos negócios se obterão jamais bons resultados desses esforços,
que aniquilam o homem. Em lugar de serem vantajosos, tais esforços dão
sempre resultados negativos.
Quando o poder ou a força que nos impele provém direta e verdadeiramente da
Força Suprema, todo esforço se converte num verdadeiro prazer.
O operário ou o artista, que é deveras forte, põe a sua mentalidade em atitude
de submissão absoluta a respeito da Força Suprema; não tenta forçá-la e, deste
modo, o seu espírito fica com plena liberdade de ação e de chamar a si esse
Poder, que tem de atuar por seu intermédio. Esta ação é tão viva e tão rápida,
que não há palavras para exprimi-la.
O mais hábil dos artistas poderia encher páginas e páginas, tentando dar todas
as regras e métodos por ele seguidos para conseguir os seus próprios êxitos, na
certeza de que, ainda depois de todas as suas explicações, nada absolutamente
teria dito de aproveitável.
O pedir que a força do Poder Supremo venha para nós, traz-nos inspiração, e
tanto o nosso andar como os nossos gestos e palavras podem ser inspirados,
porque inspirado é todo esforço, mental ou físico, em cuja execução
encontramos prazer. A inspiração faz esquecer ao corpo que este é o
instrumento usado pelo espírito.
A inspiração converte todo trabalho em um verdadeiro brinquedo, em uma
agradável distração. Não há métodos e nem leis pelos quais o homem possa
alcançar a inspiração e, quanto mais elevada esta voa pelos páramos celestes,
mais esquiva é às leis e aos métodos que os homens fizeram.
Necessitamos da força para coisas muito mais importantes do que o movimento
de um braço, de uma perna ou de qualquer órgão físico.
Pode-se compreender como um homem forte e robusto possa ficar de repente
paralisado e como que pregado ao solo, sem poder fazer o menor movimento?
Pois todos nós sabemos que resultados idênticos a este são conseguidos
mediante o dom ou poder oculto, que há quarenta anos se chama mesmerismo
e a que muitos dão hoje o nome de hipnotismo e, talvez, daqui a cinquenta anos
se denominará de outra maneira qualquer. E que poder é esse, na realidade? —
Nada mais é do que o dom ou poder da força mental de alguém, dominando
outra mente, que em força lhe é inferior, poder igual àquele pelo qual um corpo
material subjuga outro corpo, com a única diferença de não ter necessidade de
emprego de músculos nem de órgãos físicos para agir. Todos nós possuímos
em embrião este maravilhoso e potentíssimo poder, e quando conhecermos bem
o uso dessa potência, num futuro talvez bem próximo, não haverá ninguém que
possa dominar-nos pelos meios físicos. Pelo contrário, todo esforço, até dos
mais robustos, poderá ser paralisado por nós, só pelo emprego desse invisível
poder, e converter o nosso mais encarniçado inimigo num dócil instrumento dos
nossos desejos.
E isto não é uma possibilidade longínqua, porquanto já está sendo hoje realizada
por certas individualidades. Há, porém, de desenvolver-se ainda mais, em
proporções maiores, convertendo-se em um predicado próprio, comum a todos
os homens, em menor ou maior grau, como a força muscular é, atualmente, em
maior ou menor grau, um predicado de todos.
Mas esta é somente uma das formas tomadas pelo poder que age inteiramente
independente do corpo. Este poder também pode ser empregado com maus fins,
assim como pode também ser usada com maus intuitos a força física e, nesse
sentido, muita gente usa agora dela, ainda que muitos o façam
inconscientemente.
Muitos milhares de mentalidades são hoje influenciadas, desvairadas,
transviadas, conduzidas por um falso caminho e dominadas, finalmente, por
outras mentes.
O domínio mesmérico é apenas uma das formas que pode assumir esse poder.
Existem milhares de escravos sem terem a mínima ideia da sua escravidão,
como há inúmeros senhores que ignoram o domínio que exercem. O mais
estranho e singular, porém, é que muitas vezes são dominadas justamente as
individualidades possuidoras de maiores e mais reais faculdades intelectuais e
maior poder mental, sendo isso apenas devido à sua ignorância da existência de
tal poder.
O poder adquirido pelo espírito humano pode chegar até a vencer todos os
agentes de ordem material, tornando o corpo insensível a todos os efeitos do frio
e do calor. Foi este poder que, como já se tem dito aqui, produziu esses
extraordinários fatos classificados como milagres, os quais nada mais são do
que os efeitos reais do que hoje se chama Leis Ocultas ou Ocultismo.
Um extraordinário e elevadíssimo desenvolvimento mental pode tornar o corpo
superior às leis da gravitação. Esses homens que, segundo a Bíblia, ascenderam
aos céus, foram transladados de um ponto ao outro da terra, através do espaço;
nada mais fizeram do que pôr em prática o emprego dessa força que, bem
aplicada, é capaz de levantar os corpos, conservando-os no ar contra todas as
leis físicas até hoje conhecidas. Além de que, quando o espírito alcançou todo o
seu pleno poder, pode impunemente desagregar os elementos materiais
componentes desses corpos e tornar, em seguida, a combiná-los à vontade,
quando isto lhe aprouver.
Tais possibilidades, e muito maiores ainda, assistem ao homem que necessita
apenas conhecer o modo de evitar o desperdício de suas forças, as quais juntas
e bem dirigidas são as que nos darão os milagrosos resultados de que falamos.
Lendo isto, alguém dirá, sem dúvida: “Mas, admitindo mesmo que tais
possibilidades sejam certas, o que é certamente problemático, o meu ser
espiritual permanecerá ainda por muitos milhares de anos sofrendo, antes de
podê-las desfrutar, e se a sua realização está tão distante, nem o mínimo
interesse oferecem para mim.”
Só este pensamento já é uma forte barreira que impede e se antepõe ao nosso
progresso para a perfeição. Ao pormos um limite ao nosso aperfeiçoamento
futuro, tal como hoje o podemos conceber, impossibilitamos a nossa perfeição
espiritual e inibimo-nos a nós próprios de dar o primeiro passo no caminho dessa
indiscutível perfeição. Enquanto admitimos a possibilidade deste ou daquele
resultado ou efeito espiritual, embora muito longínquo no futuro do nosso ser,
com toda a certeza vamos caminhando para ele, atingindo-o, por fim, um dia.
Mas dizendo: “É impossível!” pomos um obstáculo quase insuperável no nosso
caminho ascendente, só com essas palavras.
Não precisamos, porém, falar destes assuntos, com o primeiro que se nos
depara. Nunca devemos perder a cabeça, nem olvidar a terra que nos dá, neste
mundo, os alimentos materiais, para hoje mesmo nos lançarmos em plenas
regiões das nuvens, no espaço infinito, ou medirmos nossas forças com um
lutador robusto, só por estarmos convencidos de possuirmos um poder ainda em
embrião, mas destinado a vencer toda força muscular, prescindindo dos
músculos, pois é natural que não possamos servir-nos já desse poder,
justamente por ser ainda embrionário.
Ninguém dirá, decerto, que as pevides de uma maçã sejam árvores crescidas e
frondosas; todavia, todos nós sabemos que nessa pequena semente, como,
aliás, em qualquer outra semente de árvore, está encerrada uma árvore formosa,
completa, abrigando-nos à sua sombra e oferecendo-nos os seus saborosos
frutos.
Ninguém pode dizer, também, que da semente da maçã há de sair um raquítico
arbusto, pois dela pode brotar também uma árvore bela e vigorosa. De igual
modo, não podemos dizer dos nossos próprios poderes que eles só são capazes
de produzir resultados pequenos e insignificantes, pois neles está também
latente a possibilidade dos maiores e mais maravilhosos sucessos.
No entanto, devido à ignorância da maior parte dos homens, a tendência mais
generalizada, hoje, é a de se deixarem perder estas forças, ou antes, a de usar
delas tão impropriamente, que não produzirão em nosso espírito nenhum
aumento de poder. É este, justamente, o poder de que carecemos para
mantermos a nossa mentalidade no estado adequado para dela expulsar toda
ideia ou pensamento de enfermidade ou de dor, porquanto, persistindo na mente
a ideia de doença, acaba por determinar, no mundo físico, qualquer das suas
numerosíssimas formas.
Nos nossos dias, milhões e milhões de pessoas estão penando continuamente
em dores físicas, ou em qualquer forma de enfermidade, conseguindo, destarte,
que o que ao princípio não passa de uma simples ideia, se converta, dentro em
pouco, numa pavorosa realidade material e tangível. São sem número os que,
ao sentar-se à mesa das refeições, preferem falar de assuntos tristes e
dolorosos, do que de coisas alegres e prazenteiras. Desses pensamentos
dolorosos e fúnebres está repleta a atmosfera e são eles, que, frequentemente,
em nós suscitam certos sintomas de desgosto e aflitivos mal-estares, que não
podemos nem sabemos definir, nem dizer de onde provêm.
Porque a mente do camponês está concentrada inteiramente na sua faina e,
nesse estado de espírito, não pode atuar nela a desagradável ideia do calor; o
seu corpo nada em suor, tanto ou mais do que o dos outros homens, mas não o
incomoda essa copiosa transpiração.
Por que pode o lavrador lavrar a terra sob os ardentes raios do sol abrasador,
enquanto que a maior parte das pessoas ociosas não cessa de agitar o leque,
parecendo derreter-se com o calor?
Vista esse mesmo homem roupas limpas e elegantes, passeando ocioso pelo
campo, e o calor fá-lo-á sofrer igualmente como aqueles senhores que
costumam passar a vida ociosa, pela singelíssima razão de nada mais fazer
nessa ocasião, também, não podendo concentrar a mente em nenhum trabalho
importante, ficando esta em condições apropriadas para receber a ideia do calor
até lhe produzir os mesmos efeitos que nos outros produz.
Deve a mente do homem chegar a adquirir uma força especial tão grande que
até permita esquecer-se de todo quanto lhe possa causar dano ou dor ao corpo,
para somente pensar no que lhe deverá ser agradável.
Hoje, porém, a mentalidade de milhares e milhares de pessoas, exerce a sua
ação na direção mais prejudicial. Em geral, são consideradas inevitáveis mil
dores e sofrimentos de natureza física. Continuamente se lança no espaço a
ideia de que a decadência orgânica, a fraqueza da velhice e a morte física são
coisas inerentes à Humanidade. Os homens da época atual alimentam todas as
doenças físicas pela insistência de nelas pensar, em lugar de resistir e destruir-
lhes os efeitos. A mentalidade predominante já está educada na falsa orientação,
própria para formar e desenvolver toda espécie de enfermidade. Pode-se dizer
que, em toda parte, se conta com as doenças como coisa certa e indubitável e,
por assim dizer, as convidam a entrar em todas as casas; acredita-se firme e
positivamente que as crianças hão de ter o sarampo, a difteria e as várias
doenças que toda gente considera peculiares à infância.
Que a Humanidade há de ser sempre dominada pela dor, a doença e a morte,
são coisas que nem se discutem, tão certas se consideram.
Todos estes pensamentos e muitos outros, de igual natureza deletéria e
prejudicial para a felicidade e o bem-estar dos homens e das mulheres,
condensando-se, constituem o que nós denominamos o poder das trevas ou
infernal, ou antes, a potência reunida e concentrada das mentalidades baixas e
grosseiras, a qual nos cerca e envolve a todos nós. Precisamos, pois, de nos
fortalecer, para combater vitoriosamente esse nefasto poder, e assim lhe
resistiremos.
Esse início de resistência, hoje por nós intentado, constituirá o primeiro passo, o
passo preparatório para logo depois darmos muitos outros na senda do nosso
progresso mental, a atingirmos no porvir os mais miraculosos e surpreendentes
resultados. Porém, como já muitas vezes o temos repetido, não é conveniente
prodigalizarmos o nosso afeto e a nossa simpatia àqueles que qualificam de
utopias e quimeras estas verdades, porquanto só erros e enfermidades nos
darão em troca, e de escassíssimo auxílio lhes servirão, perante o que, alguém
perguntará, talvez: “Mas é, então, esta a nossa verdadeira e tão apregoada
fraternidade humana? Está porventura isto de acordo com o preceito de Cristo:
‘Amarás ao próximo como a ti mesmo?’”
Não nos devemos esquecer, porém, de que Cristo disse também: “Deixa que os
mortos enterrem os seus mortos.” Ou, por outras palavras: — Deixa os que não
queiram ou não puderem ver as verdadeiras e expansivas leis da vida eterna
seguirem o seu estreito caminho, vivendo sempre aferrados aos seus erros, e
sofrendo por causa deles.
Se, por experiência própria, conheces que este ou aquele caminho é muito
melhor do que os outros, e o segues, enquanto o teu próximo segue o pior de
todos, porque não crê ou não lhe é possível crer em tuas palavras, não julgues
fazer-lhe benefício algum por estares sempre enviando-lhe a corrente da tua
simpatia, não, ao inverso disso, a ti próprio te estarás prejudicando
enormemente.
Se, porém, os teus irmãos em Cristo crerem na Lei Divina, virem e sentirem o
mesmo que tu vês e sentes, então a sua companhia é para ti muito útil e
vantajosa, e só bem te fará, como a tua faz a eles: — pois que, ao reunires as
tuas crenças às deles, crias uma força maior que será extremamente benéfica e
de um auxílio imenso para todos.
As pessoas possuidoras de mentalidades idênticas, reunindo-se, prestam um
grande e mútuo auxílio; mas os que procuram juntar-se, tendo crenças e
mentalidades inteiramente diversas e opostas, nada mais fazem do que se
prejudicar uns aos outros.
Podemos julgar benevolamente o nosso próximo, apesar de não seguirmos o
seu caminho, nem vivermos a sua própria vida, quando sentimos de um modo
diferente e diversas são também as nossas crenças. Seguindo outro diferente
modo de proceder, só a nós próprios nos prejudicaríamos, sem beneficiar nem
sermos úteis aos outros, mais de uma vez o temos dito e não nos cansamos de
repeti-lo. Unindo a nossa vida à vida de outra pessoa, tornamos nossos todos os
seus cuidados, como igualmente partilhamos todas as suas tristezas e todas as
suas alegrias e bem-estar.
Mas se tal pessoa não pensa como nós e não sente e nem crê de acordo com
as nossas crenças e o nosso modo de sentir e pensar, podemos bem dizer que
essa pessoa nos é adversa ou está contra nós.
“Aquele que não estiver comigo em corpo e alma está contra mim”, isto é, “quem
não é por mim é contra mim”, ou é meu inimigo. É possível que este fato se dê
inconscientemente da sua parte, mas seja como for a verdade é que quem está
contra mim é meu antagonista, e as consequências disso só podem ser-nos igual
e mutuamente nefastas.
Aqui deixei expresso algo do que devemos vigorizar em nós e do que convém
pedir à Fonte Inesgotável do Poder Supremo, na certeza de que, se agora
pedimos pouco, enquanto fazemos a nossa petição, se está preparando lá em
cima muito para nós, na proporção da nossa sinceridade, da nossa fé e pureza
de coração; caminhando assim sempre, doravante, de vitória em vitória, de uma
grande alegria e felicidade a outra alegria muito maior; de triunfo em triunfo, de
um poder humano e efêmero, a outro poder eterno, divino e incomensurável.
14
O poder atrativo do desejo
Por que não podemos manter-nos em uma serenidade mental bem equilibrada?
Por que estamos sujeitos a grandes períodos de depressão mental?
É isto devido ao fato de que, embora nós estejamos completamente
compenetrados do nosso próprio ideal de vida neste mundo, pode atuar também
sobre nós, em maior ou menor grau, a perturbação mental que por toda parte
reina.
Devemos ter benevolência e respeito por todos os animais da criação. Apesar
disto somos, algumas vezes, testemunhas da morte dos passarinhos que,
descuidadamente, fazem os ninhos nos copados bosques, pela barbaridade,
embora inconsciente, de algum caçador, sem que possamos evitá-lo.
Vivemos constantemente no meio de cenas de crueldade e de morte. Os animais
domésticos criados sob as vistas e os cuidados dos homens são tratados e
educados o mais artificialmente, crescendo assim, naturalmente, num meio
contrafeito, vivendo sempre uma vida constrangida e insalubre, inteiramente
imprópria para se desenvolver neles as faculdades que lhes tornariam a vida
mais alegre e útil.
A natureza entregue a si própria faz muito mais e melhor em prol da vida dos
animais do que todos os cuidados e desvelos humanos, pois todos os animais,
assim como o homem, têm direitos individuais. Impondo a um irracional qualquer
o nosso desejo, causamos-lhe grande dano, razão por que todos os animais
inferiores, vivendo num estado por nós denominado de domesticidade, crescem
enfermos, acabando por degenerar-se; ora, como todo estado doentio de que
estamos rodeados implica e quer infelicidade, afeta-nos igualmente a nós
também, direta ou indiretamente.
Quanto mais perfeito for o nosso organismo físico e mais disposto estiver à
sublimidade de uma vida espiritual muito elevada, mais facilmente pode ser
atingido nocivamente pelos males que nos rodeiam.
Por enquanto, é totalmente impossível caminhar na vida sem suportar o
medonho cortejo de grandes dores físicas e mentais.
As nossas casas, os nossos grandes estabelecimentos enchem-se durante o
inverno, dos deletérios vapores produzidos pelas matérias combustíveis de que
nos utilizamos, bem como das emanações dos corpos humanos, que neles estão
acumulados. Sucede, desta forma, dormirmos, talvez em aposentos, onde,
enquanto nos entregamos ao repouso, absorvemos o insalubre calor e deletérias
emanações.
Todos esses nocivos elementos, respiramo-los no inconsciente estado da
recuperação das nossas forças e, ao despertar, nos encontramos com todos
esses maus elementos incorporados no nosso ser. Estamos igualmente
expostos a ingerir os piores elementos quando comemos, embora nos sentemos
à mesa do mais luxuoso, higiênico e asseado dos hotéis.
Por toda parte se nos oferecem terríveis cenas de crueldade e injustiça, que
muito nos fazem sofrer, porque tal como é o pensamento ativo dominante
naquele ambiente, onde se comprimem as multidões humanas, tal a nossa boa
ou má impressão; o nosso bem-estar ou desventura. Portanto, os pensamentos
que particularmente imperam ali atuam também mais ou menos dolorosamente
sobre o nosso.
Cada uma de todas as coisas materiais que nos rodeiam encerram um
pensamento ou ação mental, ou, para dizer com mais propriedade, é a
encarnação deles, dependendo da maior ou menor pureza da sua mentalidade
interna a ação externa de todas as coisas físicas ou materiais. O comer uma
fruta mal sazonada, caída murcha da árvore ou extemporânea, pode produzir-
nos um estado de profunda melancolia.
Em compensação, se comemos uma fruta viçosa, bem madura, far-nos-á um
benefício imenso, robustecendo a nossa própria vida. A decadência é apenas a
desagregação da matéria; devemos, pois, alimentar-nos com frutas perfeitas e
bem sazonadas, e nunca com aquelas que ainda não atingiram suficiente grau
de maturação ou estão já em princípio de decomposição.
Sendo possível, ingeriremos sempre os alimentos no próprio momento em que
eles tenham chegado ao seu completo desenvolvimento, à plenitude da sua vida,
à maturação perfeita, e assim receberemos nós também o vigor que nessa
ocasião os anima.
Por ignorância ou inconsciência, e também, muitas vezes, por necessidade,
violamos um grande número de leis da higiene física e mental. Vimos ao mundo
auxiliados por meios artificiais que contribuem para o nosso completo
desenvolvimento físico, sem contar que, além disso, nos corre nas veias um
sangue, produto dos meios artificiais e contrafeitos em que muitas gerações que
nos precederam têm vivido.
Esta vida contrafeita e artificial há de, forçosamente, produzir a dor sob qualquer
dos seus aspectos. Os estimulantes alcoólicos só momentaneamente nos
levantam as forças vitais, sobrevindo, imediatamente depois, um período de
depressão mental, muito longo e penoso. Porém, os males ocasionados pelo
álcool são realmente pequenos, se o compararmos com o que a própria
Humanidade produz e desenvolve, atuando cotidianamente em torno de nós.
Dirá alguém: “Admito que não possamos fruir dessa serenidade mental bem
equilibrada entre as multidões; porém, por que não poderemos alcançá-la em
uma sociedade e aposentos apropriados? No silêncio de uma agradável e
amena solidão, no doce retiro de uma habitação tranquila e adequada à
meditação?”
Quem assim falar, recorda-se de que talvez já tenha estado enfermo alguma vez
durante longos dias, física e, portanto, mentalmente também, e nunca esperou
curar-se instantaneamente da sua doença. Certos hábitos mentais só se podem
corrigir lenta e gradualmente, sucedendo o mesmo com certos costumes
corpóreos, que são apenas consequências dos hábitos da mente, influindo sobre
os nossos menores atos cotidianos. O resultado de todos esses atos combinados
é o esgotamento, verdadeira origem de todos os males que flagelam a nossa
carne fraca.
Tudo o que exaure o nosso corpo, seja inspirado pela Generosidade ou pelo
egoísmo, seja em prol de uma boa causa ou em favor do mal, diminui sempre o
nosso poder de resistência contra todas essas causas produtoras da dor e, por
consequência, da depressão espiritual.
Quanto mais baixo e grosseiro tiver sido o espírito dos nossos antepassados,
mais atrairá para nós tudo quanto for terreno e material, sendo-nos muito mais
difícil distinguir o bem do mal, obrigando-nos a formar juízos errôneos na maioria
das vezes; à medida que se vão tornando mais espirituais os nossos
ascendentes, muito melhor e com muito mais lucidez veremos nós, sempre, o
bem em tudo, e por eles seremos atraídos com maior ou menor força. Então
amaremos mais do que odiaremos. Ao contrário disto, enquanto predominar, no
homem, a parte terrena ou a matéria, os seus ódios prevalecerão sobre seus
amores.
Atualmente, encontra o homem, no mundo, mais coisas dignas de desprezo do
que de admiração. Ele é cego para o bem e muito acessível ao mal, sentindo
antes, em tudo, mais o lado mau do que o bom, influindo e dominando, na
existência, a maldade.
Odiarmos o próximo, estarmos sempre de opinião antecipada e cheia de
preconceitos contra todo o mundo, é, nem mais nem menos do que estarmos,
de contínuo, vibrando profundos golpes contra nós próprios. Ser capazes de
admiração, saber descobrir o lado bom, até nas naturezas mais baixas e
grosseiras, desejar ter sempre longe das nossas vistas todo o mal, é para nós
inexaurível manancial de saúde, força, alegria e aumento constante de nossos
poderes e faculdades mentais.
O amor é uma potência e, colocando-nos no estado da admiração e do êxtase,
seremos os mais fortes e poderosos.
A atração é a lei celeste, como a repulsão é a lei da terra. A espiritualidade é
sempre atraída por tudo em que houver coisa idêntica a ela própria; descobre o
diamante bruto, embora ele esteja jazendo nas profundezas do solo e, de igual
modo, vê, com a máxima lucidez, o germe das qualidades superiores que a
natureza mais baixa, tosca e rústica pode ocultar dentro de si.
Fixará os olhos somente neste belo germe e apenas lhe verá o lado bom, a
límpida formosura, sem se deter, e procurando mesmo ignorar que elementos
grosseiros possam constituir-lhe o tosco invólucro. E, desta forma, envia o seu
poder a esse embrião, alenta-o com o valor da sua própria vida, facilitando-lhe
assim o progressivo desenvolvimento. A natureza mais baixa, rude e atrasada
ascende, destarte, até o seu nível mais elevado, devido justamente ao influxo de
uma natureza mais adiantada e perfeita. O verdadeiro missionário não tem
necessidade de pregar por meio de palavras; expande em torno de si uma
atmosfera de santidade e amor, de divindade, enfim, que todos sentem,
penetrando-lhes, amolecendo-lhes e dulcificando-lhe os corações.
Os preceitos divinos querem antes ser sentidos do que ouvidos. O preceito
contra o pecador nada mais é do que uma preocupação de espírito que macula
e contamina tudo quanto toca.
Enquanto experimentamos esse forte sentimento de repulsão, que só a vista ou
o conhecimento dos defeitos dos outros nos faz sentir, vivemos sob o domínio
desse mau sentimento, ficando acorrentados por eles; neste estado, sentimo-
nos tão cheios de ódio, que nem sequer temos a capacidade para ver o que
possa haver de bom em nós próprios.
O cinismo brota da má fé, do preconceito, da antipatia e da repulsão levados ao
extremo. O cínico e o céptico acabam por duvidar do bem, de tudo e de todos,
por acharem tudo e todos insuportáveis e desprezíveis, acabando, finalmente,
por se odiarem a si próprios. Nenhum cínico pode gozar de boa saúde. O
cinismo, a descrença e a maldade são grandes venenos para o sangue. O cínico
anda sempre em busca de um ideal externo, que não encontra nunca, porque
não é fora de nós, mas dentro em nós mesmos que devemos buscar o ideal
verdadeiro, e com este estado de espírito nunca satisfeito, com esse constante
descontentamento e triste aspiração mental, infecciona a atmosfera que o
envolve, contaminando todos quantos o cercam ou dele se aproximam.
Contudo, a Divindade também é contagiosa ou comunicativa e, assim não fosse,
pouca honra faria ao Poder Supremo e mui pouco diria dEle. A bondade também
é contagiosa e, dentro em breve, o mundo aprenderá que a saúde também o é.
Até agora, porém, os homens tanto temeram e até admiraram o demônio,
imensamente convencidos de que só as más qualidades podem ser inoculadas
artificialmente, de um modo rápido e fácil, no corpo do homem, ao passo que as
boas só podem ser adquiridas pela miserável natureza humana, à custa de
muitos sofrimentos, dores e laboriosíssimos processos.
É impossível fluir para nós o vigor e a saúde do corpo, sem aspirarmos ao mais
elevado e sublime, e sem a absoluta pureza de pensamento. O pensamento puro
torna puro o sangue e nos vivifica. O pensamento impuro, a desconfiança, a
inveja, o desespero, a tristeza, a impaciência e a cólera, corrompem-nos o
sangue, tirando-lhe toda a pureza e enchendo o nosso organismo com todos os
elementos de doença.
Sem essa aspiração da Divindade, os maiores cuidados que prodigalizamos ao
nosso corpo serão infrutíferos e de todo inúteis. Podemos ser de uma limpeza
extrema e até luxuosos no nosso modo de vestir e no asseio de toda a nossa
pessoa, empregar o máximo cuidado na alimentação, mas, fazendo isso tudo,
apenas cuidamos da parte externa do nosso ser físico, deixando talvez toda
espécie de imundície no nosso íntimo.
Pois, à medida que a pureza do nosso pensamento aumenta, o asseio, o puro e
o cuidadoso desvelo com o nosso corpo vêm naturalmente de per si, como uma
coisa natural e indispensável, não as considerando mais como uma pesada
obrigação, mas um verdadeiro prazer. O alimento será regulado pela solicitação
natural do apetite.
O gosto ou sabor será o nosso guia para aceitarmos ou repetirmos os alimentos,
e os excessos serão impossíveis porquanto, estando sadio o paladar, ele nos
advertirá, ao primeiro sinal de termos comido suficientemente. Essa aspiração,
esse anseio pelo mais elevado e pelo melhor, sempre é o que, às vezes, produz
entre nós um como verdadeiro renascimento do corpo, refazendo-lhe, por assim
dizer, por completo, a carne, os ossos, o sangue, os músculos e os nervos.
O domínio do espírito sobre a carne toma esta invulnerável a toda enfermidade,
faz mais poderosa cada uma das nossas potências e faculdades, dá-nos maior
capacidade para nos movermos e progredirmos em todas as esferas da ação
humana e assegura-nos uma morte física sem dores; uma simples queda do
corpo em um sono eterno, para o espírito poder logo despertar livremente, liberto
de todas as peias, no mundo imaterial e invisível.
O poder, a força da autocura, estriba-se no veemente apelo aos princípios da
saúde e energia vital, para expulsar do corpo enfermo todos elementos da
doença.
Imploremos, isto é, roguemos do íntimo da nossa alma que para nós venham
esses salutares elementos, e eles virão. A força é um dos elementos do espírito
ou, antes, um produto da matéria mais depurada. Quanto mais nos exercitarmos
em pedir ao Supremo Poder essa força, mais absoluta certeza teremos de a
possuir. Tal é o segredo para mantermos um perpétuo e progressivo aumento
de vigor em qualquer das qualidades desejadas.
Um dia, ao levantarmo-nos pela manhã, sentimo-nos débeis, de uma languidez
extrema, exaustos de forças físicas e mentais; esse estado predominará em nós,
enquanto não sairmos da atmosfera criada pela nossa própria enfermidade. O
que, portanto, devemos fazer é por bem firme a nossa mente nos pensamentos
de força, bem-estar, vigor, saúde, atividade, alegria e, como auxílio para levantar
e robustecer essa nova condição mental, pensemos fixamente em símbolos ou
ilustrações das forças da natureza, tais como na tempestade desenfreada; no
oceano, ora majestosa, ora encapelado e enraivecido em fúria insana,
ameaçando levar de vencida e despedaçar tudo, com os seus vagalhões
gigantescos e pavorosos; no esplêndido nascer do sol, quando, pela madrugada,
o belo astro-rei se dispõe a enviar magnanimamente à terra os seus benéficos
raios que hão de fazer prosperar e dar vigor aos homens, a todos os animais e
às plantas. Se tiverdes à mão algum trecho de uma magnífica descrição em
prosa ou verso de algum desses grandes espetáculos, mas que profundamente
vos impressione, lede-o com atenção, silenciosamente ou em voz alta. Desta
forma, colocareis vossa mente nas melhores condições para receber toda
espécie de salutares energias espirituais, que são também forças físicas.
Enfim, pensai em tudo quanto for forte, poderoso, alegre, — e a força, o poder e
a alegria vos virão.
Finalmente, se, pelo contrário, permitirdes à mente habituar-se a permanecer
longo tempo pensando somente nas coisas débeis e caducas, infalivelmente vos
virão todos os elementos produtores de tudo quanto é oposto e nocivo à saúde
e à força.
Como a decadência atrai e produz decadência, em tudo quanto vemos na ordem
da vida física, assim também sucede no mundo espiritual, onde a ideia ou
pensamento deprimente e deletério, de decadência e morte, determina
resultados mentais da mesma natureza, isto é, das coisas que não vemos.
Muitas pessoas doentes alimentam a própria enfermidade muito mais do que
alimentam o corpo, que as sustém, pensando constantemente na mesma e não
falando senão da sua enfermidade, sua ideia fixa.
Não pretendo sustentar aqui a ideia de que, por este meio, o alívio do sofrimento
seja imediato. A mente que, durante certo tempo, tem seguido sempre a mesma
e invariável direção, nutrindo, pelo pensamento, a sua doença física e
aumentando, portanto, a sua fraqueza, não pode, de um momento para outro,
transformar-se por completo e mudar a sua orientação para um alvo inteiramente
diverso do que até ali seguia. Podeis estar tão habituados a viver na penumbra,
que o rápido esplendor da luz vos cegue ou, pelo menos, vos moleste a vista,
necessitando de muito tempo para vos acostumardes a ela. À medida, porém,
que vosso desejo se for tornando mais persistente e o estado de vossa mente
se robusteça, aumentará também em vós o poder para a manutenção desse
especial estado mental, que produzirá em definitivo o triunfo. Devemos fazer o
primeiro esforço. Pode isso levar-nos algum tempo, mas cada átomo de esforço
firme implica um aumento das próprias energias, o qual não se perderá nunca
mais.
Não imploremos nunca, porque seria arbitrário e despótico, que um membro
designado do nosso corpo se liberte de qualquer moléstia ou que alguma das
suas peculiares funções se fortaleça especialmente, talvez em detrimento das
outras. O nosso corpo é como um indivíduo independente e inteiramente
separado do espírito, com uma vida física que lhe é peculiar e própria.
Por sua vez, o seu organismo é o resultado de um agregado de órgãos, cada um
deles destinado à realização e ao desempenho de uma função especial,
constituindo igualmente também, cada uma delas, uma organização individual,
atuando em todas elas esse poderoso e divino elemento, denominado amor, que
podemos enviar a cada uma das partes do nosso corpo ou ao nosso próximo.
Tratemos com carinhoso amor e desvelo a ferida que tivermos recebido numa
perna, num braço ou em qualquer outra parte do nosso corpo e os elementos
que constituem esse amor influirão na casa, cicatrizando gradualmente a chaga
e unindo as partes despedaçadas. Se fizermos o curativo indiferentemente ou
como um trabalho fatigante e que nos repugna, este sentimento impedirá
incontestavelmente a rápida cura da ferida, porque, com o nosso ódio e
desprezo, envenenamos a chaga.
Os elementos do ódio são tão venenosos quanto os de amor são salutares. Os
mesmos princípios e o mesmo processo se aplicam à fraqueza que pode atacar
cada um dos nossos órgãos físicos.
Enviemos os fluidos do nosso amor aos nossos olhos fatigados, aos nossos
ouvidos, enfraquecidos por qualquer doença e, nesse estado mental, tendo
posto todo o amor neles, imploremos ao Supremo para podermos recuperar as
nossas forças perdidas. Se o estado de nosso espírito for de impaciência e de
aflição, por não poderem desempenhar bem as suas funções os nossos olhos,
os nossos ouvidos ou qualquer outra parte do nosso corpo, os elementos dessa
impaciência e desse desânimo influirão nos nossos supraditos órgãos,
enfraquecendo ainda mais e frustrando os próprios esforços para melhorar e
recobrar o vigor primitivo.
Todo pensamento ou desejo que de nós parta com sinceridade e veemência,
para nos enobrecermos, elevarmos e atingirmos a perfeição, libertando-nos de
toda malícia, ciúme ou má fé, com relação aos outros, origina essa potentíssima
força que nos eleva e, por assim dizer, nos imaterializa, transportando-nos onde
os elementos da vida são puros e mais espirituais. À medida que essa nossa
aspiração persiste, mais se eleva e enobrece o nosso espírito. A frase o homem
justo significa o efeito produzido por estes invisíveis elementos atraídos pela
nossa aspiração e que nos faz física e espiritualmente altruístas, cheios de
abnegação; isentos inteiramente do egoísmo que só trata de tudo o que lhe
possa proporcionar a satisfação pessoal, sem se ocupar em coisa alguma da
felicidade dos outros.
Quando estamos possuídos pelo poder da gravitação, isto é, pela atração das
coisas materiais, os nossos ombros se abaularão, curvando-nos o corpo; e a
nossa cabeça, sempre inclinada, conservará os nossos olhos sempre a olhar
fixamente para a terra, e até o nosso coração, dantes altivo e cheio de elevados
sentimentos e nobres aspirações, vergará para a terra, ao peso da angústia, da
impaciência, da cólera, do desalento ou de outra qualquer forma de
pensamentos insensatos, produzidos por toda espécie de coisas terrenas, ou
das formas mais grosseiras assumidas pelo espírito: dá-se isso porque existe
sempre uma correspondência verdadeira e absoluta entre os elementos visíveis
e os invisíveis de tudo o que tem forma e substância material, e as coisas
imateriais e espirituais.
O aspecto exterior de todo homem e de toda mulher, a expressão do seu rosto,
todos os seus gestos e maneiras, até o próprio estado da sua saúde física, nada
mais é do que a exata correspondência do seu estado espiritual ou, para dizer
melhor, é pura e simplesmente uma consequência do estado da sua mente.
O ser físico ou visível do homem é apenas o duplo do seu ser espiritual e
invisível.
À proporção que em nós atuar o poder atrativo, à medida que em nós se fortaleça
o desejo de nos aproximarmos de Deus, da Divindade perfeita e infinita; à
medida que, à nossa vontade, pudermos expulsar todo mal que há dentro de nós
e este é o único caminho para vencermos todo mal que fora de nós existe,
também a nossa forma exterior se embelezará, fortalecendo-se em harmonia
com a nossa mente; o nosso olhar tornar-se-á mais límpido e penetrante, o nosso
coração retomará um novo alento e as nossas faces se colorirão de cores mais
frescas e vivas e o nosso sangue, enriquecendo-se de novos elementos, cada
vez mais poderosos e puros, comunicará às nossas pernas e a todos os nossos
músculos, maior força, destreza e vigor, maior flexibilidade e agilidade a todos
os nossos movimentos.
Podemos dizer, neste estado mental, que nos alimentamos com o verdadeiro
Elixir de Longa Vida, o qual, na verdade, não é um mito, mas uma grande
realidade e uma possibilidade verdadeira do espírito.
Até agora, a raça humana tem sido escravizada pela atração das coisas físicas
ou elementos visíveis e materiais, afirmando peremptoriamente que só existe o
que pode ser visto pelos olhos físicos, se toma tangível para nós ou é apreciado,
enfim, por qualquer dos nossos sentidos corporais, que são, como é natural, os
mais grosseiros e inferiores.
Pode morrer à sede qualquer homem próximo de uma fonte de água cristalina,
por ignorar a existência desse abençoado manancial; ora, se desconhecia onde
encontrar o remédio para o seu mal, era absolutamente como se tal coisa para
ele não existisse. A condição humana tem até agora sido idêntica à desse
desventurado, perecendo por ignorância.
A Humanidade vindoura, bem mais perfeita do que a atual, não sofrerá, como
agora, a dor da morte.
Toda dor mental é a consequência do pecado ou de uma transgressão à Lei da
Vida. No porvir, a morte de um corpo físico será apenas o ponto inicial para o
nascimento de um novo corpo, diminuindo, pouco a pouco, os intervalos, um do
outro, até o espírito ter adquirido a suficiente potência para atrair a si os
elementos materiais indispensáveis para a formação de um corpo, de que poderá
utilizar-se durante todo o tempo que lhe aprouver.
Tal é a condição futura da Humanidade, prevista e predita pelo apóstolo Paulo,
quando proferiu estas sentenças: “Ó morte, onde está o teu gládio? Ó tumba,
onde está a tua vitória?” Estas verdades, que são possibilidades, quando o poder
do homem tiver aumentado a ponto de lhe ser fácil proporcionar a si próprio um
corpo mais perfeito e a transbordar de vida, força e saúde, não devemos
considerá-las afetando a Humanidade com relação aos tempos futuros, mas
também a nós próprios, os homens de hoje; os homens atuais gozam igualmente
do poder necessário para adquirir corpos novos, mais perfeitos e mais vigorosos
do que os velhos.
Porém, como fazermos uso dele, se ninguém nos diz nada a seu respeito?
Neste caso, somos semelhantes ao mendigo que levasse, sem o saber, sob os
seus andrajos, um maço de notas de banco, cosido ao forro do jaleco
esfarrapado.
O que, porém, se dá conosco é que não podemos servir-nos desse poder ou
dom acumulado pelos nossos irmãos, pelo nosso próximo. O poder de que nos
servirmos tem de ser o nosso e só o nosso.
A aspiração à Divindade, a prece ou pedido, dirigida ao Supremo para nos
tornarmos melhores de dia para dia, e adquirirmos maior poder e sermos cada
vez mais puros, atrai-nos sem cessar os elementos e as forças do mundo
invisível; há de ser, porém, com a indispensável condição de exprimirmos o
desejo ardente de que os benefícios que recebermos os recebam também os
outros, até os nossos desafeiçoados. Não podemos pedir a plenitude do poder
só para nós, se temos a intenção de viver encerrados dentro em nós mesmos.
É certo e evidente que a nossa petição, com o intuito egoísta de nos
beneficiarmos exclusivamente a nós, e em nós pensando somente, pode trazer-
nos talvez fama, riqueza, bem-estar social e material. Ai! porém, de quem olvidar
que a prece ou petição baseada só no interesse próprio e egoísta, terminará por
acabrunhar o homem sob o peso da dor, da enfermidade física e da morte!
15
Correntes de pensamento
Devemos ser cuidadosos no que pensamos e falamos, porque os pensamentos
se reúnem em correntes tão reais como as do ar e da água. Conforme o que
pensamos e falamos, atraímos para nós uma corrente idêntica de pensamentos,
que age sobre o corpo de modo benéfico ou maléfico.
Se o pensamento fosse visível aos olhos físicos, veríamos suas correntes
partirem das pessoas e se dirigirem para elas. Veríamos que as pessoas de
temperamento, caráter e gostos semelhantes estão, em realidade, na mesma
corrente de pensamentos. Veríamos que a pessoa de disposição contrária ou
irritada se acha na mesma corrente de outras assim dispostas, e que cada
pessoa que se acha nesta corrente age como bateria e produtora desta espécie
de pensamentos, fortalecendo assim a corrente. Veríamos também estas forças
agindo de modo semelhante sobre os esperançosos, alegres e corajosos,
unindo-nos a outros de idênticas qualidades.
Quando estamos numa disposição inferior ou abatida, recebemos a ação da
corrente mental proveniente de todos os que estão no mesmo estado. Estamos,
então, em uníssono com a espécie de pensamentos desanimados.
A vossa mente se acha em estado doentio, que pode ser destruído, porém a cura
permanente não vem imediatamente, pois estais habituado a dar entrada em
vossa mente a estas baixas correntes.
Ao atrairmos a corrente de uma espécie de mal, por algum tempo ficamos unidos
a este mal. Pelo contrário, na corrente mental do Supremo Poder para o bem,
nos unimos cada vez mais com este poder, e no dizer da Bíblia, tornamo-nos
unos com Deus, isto é, com a corrente que nos convier atrair.
Se um grupo de pessoas fala de qualquer doença, sofrimento ou cena de morte,
se cultiva este gosto mórbido para as coisas doentias e horríveis, que formam
sua principal conversa, atrai para si uma corrente mental cheia de imagens de
doenças e sofrimentos. Esta corrente agirá sobre tais pessoas e, com o tempo,
lhes trará doença e sofrimento.
Se falarmos muito de pessoas doentes e estivermos muito tempo no meio delas,
ou falarmos delas, sejam quais forem as nossas razões para isso, atraímos uma
corrente de pensamentos doentios, e seus maus efeitos, com o tempo, se
materializarão em nossos corpos.
Temos muito mais a fazer para nos salvar do que agora compreendemos.
Quando os homens falam de negócios, atraem uma corrente de ideias
comerciais. Quando mais estiverem de acordo, mais atraem esta corrente mental
e mais ideias e sugestões recebem para desenvolver e aperfeiçoar o negócio. É
desta forma que a discussão entre os membros dirigentes da associação cria a
força que leva para frente seus negócios.
Viajais em carros de primeira classe, vesti-vos com fazendas de qualidade
superior e hospedai-vos em hotéis de primeira ordem, sem cairdes no extremo
da fatuidade. Achareis nestas coisas um auxílio para vos colocardes numa
corrente de poder e êxito relativos.
Se vossa bolsa não garante agora tais despesas ou pensais que ela não as
garante, começai a viver assim mentalmente. Isto vos fará dar o primeiro passo
nesta direção. As pessoas que triunfam no plano financeiro vivem
inconscientemente de acordo com esta lei.
O desejo certamente levará alguns por este caminho, porém há outra força e
fator que também os impele. Ela é uma sabedoria da qual suas mentes materiais
têm pouca consciência; é a sabedoria do espírito que lhes ensina a entrar na
corrente mental dos que triunfam, sendo levados por ela ao êxito. Este não é um
triunfo perfeito, porém, em si mesmo, é bom. Se nossas mentes, por uma falsa
economia, estão sempre dirigidas para coisas baratas, — casas, alimentos e
vestuários de baixo preço, — entramos na corrente mental dos barateiros,
relaxados e tímidos.
Nossas ideias sobre a vida e nossos planos serão influenciados e desviados por
elas. Ela paralisará a coragem e os empreendimentos baseados no antigo
adágio: “Quem não arrisca, não petisca.” Absorvido por esta corrente e tendo-a
a agir sempre sobre vós, ela é logo sentida quando entrais em contato com os
homens de êxito e os faz se afastarem de vós. Eles sentem em vós a falta deste
elemento que lhes dá relativo êxito. Ela age como uma barreira, impedindo que
a sua simpatia flua para vós. A simpatia é um fator importante nos negócios.
Apesar da oposição e da concorrência, uma certa corrente mental de simpatia
une uns aos outros, aqueles que triunfam.
A mania da barateza está na corrente mental de medo e insucesso. As correntes
mentais de medo e insucesso e as correntes de coragem e êxito não se
misturarão nem reunirão os indivíduos que se acham nos respectivos planos
mentais. Elas são contrárias e, entre as duas classes de mentalidades, há uma
barreira mais impenetrável do que se fosse feita de pedra.
Vivei completamente numa ideia e entrareis na corrente mental daqueles que a
levam ao extremo. Não há reformas a não ser no exagero das coisas, do que
resultam prejuízos para os que assim procedem, colocando a razão e o juízo de
um só lado.
Daí provêm os fanáticos, beatos, originais e lunáticos — pertença a ideia a uma
arte, estudo, ciência, reforma ou movimento qualquer. Assim as pessoas
extremas se relacionam numa corrente mental, seja qual for a especialidade
delas. Tais pessoas, muitas vezes acabam por se tomar furiosos inimigos de
tudo o que delas difere, e com este ódio gastam forças para arruinar a si
mesmas. O lado seguro está no pedido diário da corrente mental de sabedoria
da Mente Infinita.
Quando esta sabedoria for mais invocada, nossas reformas e organizações para
o bem comum não resultarão em discussões internas, logo após serem
concluídas. Como elas são feitas agora, a corrente mental de ódio e antagonismo
ao opressor e monopolizador é admitida desde sua origem. Esta mesma força
alimenta questões e dissensões entre os membros. É uma força empregada para
derrubar em vez de edificar, é como tirar o fogo empregado para produzir vapor
nas caldeiras e espalhá-lo através do edifício.
Quando as pessoas se reúnem e manifestam, pela conversa, sua má vontade
para com os outros, estão atraindo para si, com um poder dez vezes maior, uma
prejudicial corrente mental. Assim acontece, porque quanto mais mentalidades
se unem para qualquer fim, mais poder atraem para este fim. A corrente mental
atraída desta forma pelos que se queixam continuamente, se lastimam e
preocupam com coisas escandalosas, prejudicará seus corpos.
Todo pensamento conservado muito tempo na mente se materializa no corpo.
Se vivemos sempre pensando e falando nas imperfeições das pessoas, estamos
atraindo sempre essa corrente e assim incorporando-as em nós mesmos.
Dissemos, em volumes precedentes, que a palavra cria força e que quanto mais
forem os que conversam em simpatia, maior é o volume e poder da corrente
mental gerada ou atraída para o bem ou para o mal.
Um grupo de desocupados que nunca pode reunir-se sem comentar as faltas
dos ausentes, está pondo inconscientemente em ação uma lei que lhes trará
terríveis resultados.
A crítica é atraente; há uma hilaridade no escândalo e na crítica das faltas de
nossos amigos ou inimigos, quase igual à que provém da bebida, porém, no final,
pagamos muito caro por estes prazeres.
Se duas pessoas tivessem de encontrar-se em intervalos regulares e falar de
saúde, energia e vigor do corpo e da mente, abrindo, ao mesmo tempo, suas
mentes para receber do Supremo a melhor ideia sobre os meios de alcançar
estas bênçãos, atrairiam para si uma corrente mental de tais ideias. Se estas
pessoas conversarem em tempo e lugar determinado, tendo prazer nestas
conversas que sejam naturais e não forçadas, se puderem realizá-las sem
controvérsias e entrar nelas sem ideias preconcebidas e sem que a menor ponta
de censura nelas penetre, ficariam admiradas, ao terminar o ano, dos resultados
benéficos auferidos pela mente e o corpo. Assim fazendo e reunindo-se com um
pedido silencioso para obter do Supremo a melhor ideia, atrairão para si uma
corrente de força vitalizadora.
Que apenas duas pessoas comecem, pois não é fácil de encontrar-se mesmo
duas pessoas que se achem no perfeito acordo necessário para obter resultados.
O desejo destas reuniões deve ser espontâneo e não deve haver outro motivo
que possa fazer obstáculo à mais alta corrente mental do bem.
O antigo sistema de reunião com um campo apropriado para ela, por meio da
ação combinada e ao desejo de numerosas mentes, produzia uma corrente
mental de que resultava o fervor e entusiasmo que as caracterizava. Os índios
norte-americanos entregavam-se freneticamente às suas danças guerreiras por
uma lei idêntica. Pela força de desejos unidos, eles atraíam uma corrente mental
que os estimulava e até os intoxicava. Seu único desejo era entregar-se a esta
intoxicação mental e quanto maior número de mentalidades agia nesta direção,
mais depressa vinha o resultado.
O orador real, em seu esforço, atrai uma corrente de pensamento que, sendo-
lhe reenviada pelos assistentes, o anima. O mesmo se dá com os atores
inspirados: atraem um elemento mental elevado e poderoso, primeiramente para
si, e este fluindo através deles, age sobre a assistência.
Se muito vos preocupardes com as vossas próprias faltas, pelas mesmas leis
atraireis cada vez mais correntes da mesma natureza e assim aumentareis as
faltas. Basta reconhecerdes em vós mesmos estas faltas. Nunca digais de vós
mesmo: “Sou fraco, covarde, nervoso ou imprudente”. Deveis atrair para vós
mesmo, de preferência, a corrente mental de força, coragem, calma, prudência
e todas as outras boas qualidades. Conservai na mente a imagem destas
qualidades e as tornareis parte de vós mesmos.
Muitas vezes ficais absorto, preocupado e até aborrecido, durante dias, ao
pensar no terno que precisais comprar, no corte, na cor, no modelo, na escolha
do chapéu ou da gravata, até que, finalmente, não sois mais que roupa, chapéu,
gravata ou outro qualquer acessório de vossa vida. Podeis não conseguir
estabelecer o que haveis de comprar, ficando assim, mentalmente, indeciso
durante dias. Entrastes, então, na corrente mental de milhares de outras mentes
que continuamente vivem nesta disposição mental.
O meio mais certo para uma jovem se tornar feia é ser descontente, egoísta,
invejosa e dada à queixa dos outros, pois neste estado mental ela está atraindo
para si a substância invisível do pensamento, que age sobre o corpo e o
prejudica. É ele quem arruína a compleição, faz as linhas e sulcos do rosto, dá
agudeza ao nariz e, em tempo muito curto, transforma a face da juventude na de
sua fealdade.
Não estou pregando moral ou dizendo: “Não deveis fazer assim.” É apenas
questão de causa e efeito. Se colocardes o vosso rosto no fogo, ficará queimado
e desfigurado por causa de um elemento que age sobre ele. Colocai vossa mente
no fogo da má vontade, da inveja, do ciúme, e ela também ficará queimada e
desfigurada, por causa de um elemento tão real como o fogo, porém invisível,
que age sobre ela.
Todas as coisas más e imperfeitas, tais como desagradáveis características nos
outros, coisas desagradáveis que vemos ou ouvimos, devem ser postas fora de
vossa mente com a maior brevidade possível. Pelo contrário, se demorardes
nelas, atraireis suas correntes mentais. Elas se tornarão, então, permanentes
moldes espirituais que, com o tempo, se materializarão nas correspondentes
formas físicas. Se conservarmos sempre na mente a pessoa que faz um erro,
tornamo-nos inclinados a fazê-lo também.
Procuremos, pois, com o auxílio do Poder Supremo, entrar na corrente mental
de coisas sadias, naturais, fortes e belas. Procuremos evitar pensamentos de
doenças, sofrimentos ou defeitos. Um campo de cereais ou o movimento das
vagas são melhores para contemplar-se do que os horrores de um acidente de
estrada de ferro. Não sabemos quanto somos deprimidos física e mentalmente
pela incessante galeria de horrores que nos prepara a imprensa diária. Na sua
leitura, atraímos uma corrente mental repleta de coisas e imagens de horror e
sofrimento. Desta forma, nos colocamos em relação e em uníssono com todas
as outras mentes mórbidas e doentias que vivem nesta corrente que nos leva
para a doença e a morte.
Nem vós nem os outros tiram proveito de saberem de todos os incêndios,
explosões, assassinatos, roubos e crimes que os jornais noticiam diariamente.
Se lermos livros escritos por mentalidades cínicas e sarcásticas, que se acham
tão viciadas que só vêem faltas e são incapazes de ver o bem, atraímos para
nós suas doentias correntes de pensamento e nos unimos a elas.
A seta da malícia e do sarcasmo é mortal para quem a emprega ou, por outras
palavras, o homem que está atraindo o desassossego, a doença e o infortúnio,
sem dúvida os receberá e, quando muito nos preocupamos com coisas idênticas,
preparamos os mesmos resultados para nós.
Podeis ser cuidadoso e metódico no vestir, exato e correto em vosso trabalho,
porém se vos associardes aos que não o são, notareis em vós uma tendência
ao desleixo e descuido, havendo certa dificuldade em voltardes a ser metódico
e cuidadoso. Isto acontece, não só porque absorvestes pensamentos das
mentes descuidadas e que têm falta de paciência para fazer as coisas com
calma, mas também recebestes os fragmentos mentais que assim estão agindo
como magneto para atrair-vos correntes mentais da mesma natureza.
Quando um mal é conhecido, já está em princípio de cura. Não vos esqueçais
que, quando vos achais num estado mental desagradável, é uma corrente mental
desta natureza que está agindo sobre vós. Não vos esqueçais que então sois
como alguém que estivesse ligado por um fio elétrico a muitas outras mentes
mórbidas que produzissem pensamentos desagradáveis e os enviassem aos
outros.
A primeira coisa a fazerdes é pedir para sairdes desta corrente de maus
pensamentos, pois não o podereis fazer somente pelo vosso próprio esforço.
Deveis pedir ao Supremo Poder que a afaste de vós.
Podemos atrair cada vez mais a corrente mental de coisas que são vivas,
brilhantes e divertidas. A vida deve ser de alegria, pois a seriedade contínua é
apenas um grau superior à tristeza e à melancolia. Milhares de pessoas vivem
demasiado na corrente mental de seriedades, muitas nunca se riem e aquelas
que o fazem é por escárnio. Algumas há, até que não sabem mais sorrir e se
ofendam quando vêem os outros se rirem.
As doenças são alimentadas e fortalecidas pela tristeza da disposição mental. O
hábito fortalece continuamente a disposição de pensar na doença, o que a
princípio será coisa de pouca importância. As pessoas, porém, tanto penetram
nesta corrente, que terríveis doenças resultam de uma pequena irritação em
alguma parte do corpo.
Muitas coisas materiais são úteis para afastar uma corrente mental que está
agindo de modo desagradável sobre vós. Podem apresentar-se diariamente
diversos episódios desagradáveis, parecendo estarem ligados às ocupações
diárias de vossa vida. As refeições, o vestuário, a conversa e até as pessoas que
vos rodeiam parecem despertá-los.
As viagens os destroem completamente. A vista de panoramas e objetos
diferentes afasta esta corrente de pensamentos. Os remédios materiais também
podem produzir temporariamente o mesmo resultado, da mesma forma que
qualquer mudança repentina de vida ou ocupação. Tudo isto, porém, é
secundário ao Supremo Poder.
A corrente mental do medo está em toda parte. Toda a humanidade teme alguma
coisa, a doença, a morte, a perda de fortuna, a perda de amigos ou de alguma
coisa qualquer. Cada um tem seu temor próprio, que se estende até às coisas
mais triviais da vida. As ruas estão cheias de pessoas que, se não têm outros
temores, receiam ao menos não encontrar um lugar no primeiro carro.
Quanto mais sensível fordes à impressão dos pensamentos, mais facilmente
podeis ser afetado por esta corrente de medo, enquanto vosso espírito, por um
constante pedido ao Supremo Poder, não construa para si uma trincheira de
pensamentos positivos a esta corrente e que a impeça de chegar a vós. Podeis
começar esta construção quando fordes afetado por esta forma ou de um modo
desagradável, dizendo: “Recuso-me a aceitar este pensamento e o estado
mental que ele me trouxe para afetar meu corpo.”
Começais, assim, a repelir a corrente mental do mal.
Todos têm algum temor especial — temem alguma doença que nunca lhes virá,
alguma coisa que receiam muito perder. Alguma ninharia, até mesmo uma
palavra de outrem, desperta na mente este medo. Devido ao longo hábito, a
mente volta instantaneamente a este temor, abre-se a ele e o pensamento
completo, ou a corrente, penetra nela e produz seu efeito. Esta age e vibra na
corda particular de vossa natureza que, durante anos, ressoou às vossas
fraquezas. Então, o corpo é afetado desagradavelmente de qualquer forma,
resultando daí milhares de sintomas. O corpo pode tornar-se fraco e trêmulo.
Pode haver perda de apetite, tremor, secura da língua, mau gosto na boca,
fraqueza das juntas, sonolência, dificuldade de concentrar a mente nos negócios
e muitas outras sensações desagradáveis.
Esses sintomas, muitas vezes, são classificados como malária ou impaludismo.
Em certo sentido, o nome é correto. Somente o que acontece é que na maioria
dos casos é uma má atmosfera ou corrente que está agindo sobre nossas
mentes, em vez da suposta má atmosfera física.
Sem dúvida, uma atmosfera cheia de decomposição vegetal ou animal afetará
muitas pessoas. Todavia, muitos vivem durante anos, no meio de brejos e águas
estagnadas sem ter malária, ao passo que outros que se achem longe desses
lugares, em terras altas e secas, são atacadas por esse mal. Isto provém de
termos recebido uma corrente mental de medo. Colocai-vos numa casa em que
houve recentemente susto e pânico, sem que saibas do sucedido. Levantai-vos
pela manhã e logo este conjunto de sensações desagradáveis vos afetam,
porque o lugar está saturado de uma corrente mental de medo. Despertai numa
cidade o medo de uma epidemia ou de alguma grande calamidade e milhares
dos mais sensíveis, que não terão o medo delas, serão também afetados
desagradavelmente. Esta corrente mental os afeta em seus pontos fracos.
Um fanático prediz alguma grande catástrofe, os jornais amantes de notícias de
sensação tomam nota do caso, publicam-no, procuram ridicularizá-lo, porém
escrevem sobre ele. Isto leva muitas mentalidades a pensar e a falar dele.
Quanto mais falam, mais produzem forças prejudiciais. Resulta daí que milhares
de pessoas são afetadas por ela de modo desagradável, umas de uma forma e
outras de outra, porque o conjunto de forças desta corrente de medo é desejado
sobre elas. Muitos morrem disso. Totalmente ignorantes da causa, abrem cada
vez mais a mente para ela, permanecem secretamente nela, não emitem
pensamentos de resistência, até que, afinal, o espírito, incapaz de continuar com
este fardo, corta os laços pelos quais está preso ao corpo.
Quanto mais impressionável fordes aos pensamentos que vos rodeiam, mais
estais em perigo de serdes afetado assim.
Porém, podeis adestrar vossa mente a repeli-los, podeis prepará-la
gradualmente a fechar esta entrada para a fraqueza e conservar aberta só a da
força. Podeis fazê-lo, cultivando o modo de atrair a corrente de pensamentos
que vem de Deus ou do Supremo Poder do Bem e de vos conservar nela.
A impressionabilidade ou a capacidade de receber pensamentos é uma fonte de
vigor ou de fraqueza. As mentes mais sensitivas, desenvolvidas e elevadas de
hoje, muitas vezes, têm os mais fracos corpos, porque, devido à ignorância,
estão sempre atraindo alguma destas correntes do mal, sem conhecerem sua
existência ou os meios de afastá-las. Eles rodeiam ingenuamente estas
correntes e se expõem a elas. As inconvenientes associações individuais são
uma das principais fontes de exposição.
A delicada organização feminina é mais sensível a toda espécie de pensamento
que a rodeia, bom ou mau. Os homens, absortos em seus negócios, produzem
durante algum tempo certa positividade que repele a corrente de medo, porém
esse estado positivo não pode durar sempre.
Por esta razão, as mulheres, na intimidade do lar, sofrem muito mais do que o
homem julga. Em geral, o homem chama isto de capricho feminino e se admira
porque ela é tão nervosa, fantástica e doentia.
À medida que colocais vossa confiança na Mente Infinita para vos libertardes
destes agentes do mal, esta Mente vos fornecerá auxílios materiais para vos
ajudar a ficar livre. Esta Mente vos sugerirá remédios, alimentos, meios e
mudanças que não só vos ajudarão temporariamente, mas também de modo
permanente, de forma que, desde que fiqueis curado, isto se dará para sempre.
Uma mentalidade alegre, expansiva e esperançosa (nenhuma mentalidade é
mais alegre, esperançosa e expansiva, sem estar mais próxima do Infinito, do
que aquela que é desanimada e triste), seja a de vosso médico ou amigo, vos
ajudará melhor a sair desta prejudicial corrente mental.
Considerai esta corrente como um auxílio do Infinito, porém, não depositeis uma
confiança absoluta nesse indivíduo. Colocai toda a confiança no Supremo Poder
que vos enviou um indivíduo como auxílio temporal, até que vossas forças
espirituais vos permitam andar por vós mesmos.
Quanto mais penetrais na corrente mental proveniente da Mente Infinita,
tornando-vos, cada vez mais, parte íntima desta mente (exatamente como
podeis tornar-vos parte de uma fonte de pensamentos inferiores, mórbidos e
doentios, abrindo-os a esta corrente), mais rapidamente sereis renovado física e
mentalmente.
Vós vos tomareis continuamente um ser novo, havendo rápidas mudanças para
melhor aumento de vosso poder de conseguir resultados.
Perdereis também, gradualmente, o medo, porque vos será cada vez mais
provado que, quando estais na corrente mental do Infinito Bem, nada há para
temer.
Compreendereis, então, que há um grande poder que cuida de vós. Ficais
admirado pelo fato de que, quando vossa mente segue a direção reta, tudo vos
vem com pouquíssimo esforço físico ou externo.
Ficais, então, admirado da trama e da luta dos homens, arrastando-se para a
morte, quando, por este esforço excessivo, afastam de si o bem perfeito da
saúde, felicidade e prosperidade material ao mesmo tempo.
Vereis, nesse pedido do mais alto bem, que estais alcançando poderes muito
além do que sonhastes. Ele vos provará que a vida real, destinada aos poucos
que se despertam agora, e, no futuro, a muitos, é um sonho encantado, uma
realização permanente de que a existência é uma felicidade, uma serenidade e
um contentamento sem cansaço, uma transição de um prazer para outro ainda
maior.
À medida que entrais na corrente da Infinita Mente, vereis que não vos é
necessário um trabalho exaustivo, porém que, quando vos entregais com
confiança a esta corrente e deixais que ela vos leve para onde quiser, tudo o que
precisardes vos virá.
Ao penetrardes na verdadeira corrente mental, por algum tempo, sentireis mais
desconforto físico e mental do que até então. Isto provém de que o novo
elemento que age sobre vós vos torna mais sensitivo à presença do mal; o novo
está expulsando o velho.
A nova corrente de pensamento descobre e detém todo o erro em vossa mente
que, anteriormente, vos passava despercebido e o repele. Isto produz uma luta
que afeta, por algum tempo, a mente e o corpo. É como o ato de varrer uma
casa, que produz muito pó e perturbação. O novo espírito que penetrou em vós
está varrendo vossa casa espiritual.
Não há limite ao poder da corrente mental que podeis atrair e nem limites às
coisas que podem ser feitas por ele através do indivíduo. No futuro, algumas
pessoas atrairão tão grande quantidade de pensamentos superiores que, por
meio deles, realizarão o que alguns chamariam milagres.
Na capacidade que a mente humana tem de atrair para si uma corrente mental
sempre crescente em firmeza de qualidade e em poder está o segredo do que
foi chamado magia.
16
Cultivemos o repouso
O repouso é uma qualidade que pode ser cultivada e alcançada gradualmente,
fazendo-se a mente fixar nele.
Fixai a palavra em vosso cérebro; gravai-a nele ou em algum objeto de vosso
uso. Precisai tê-la na mente, deveis plantá-la ali para que cresça, pois assim
criará raízes e se desenvolverá.
À medida que ela cresce, apesar de milhares de insucessos, achareis vosso
proveito. Tereis de corrigir-vos muitíssimas vezes de atos precipitados; porém,
cada correção vos fará dar um passo, por menor que seja, para a frente. Se ficais
aborrecidos pelos vossos insucessos, melhor ainda porque é sinal que
conheceis os vossos defeitos.
É também um exercício em que deveis aprender sempre por vós mesmos. Pode
ser praticado desde que vos levanteis pela manhã, ao vestir-vos, ao andar, ao
comer, ao abrir e fechar as portas. Nenhum ato está fora dele ou lhe é superior.
Cada ato assim vos deixa sua pequena porção de capital, até que o hábito se
torna uma segunda natureza e o ensino forçado se transforma em involuntário.
Há uma lei que produz o bom sono da infância. Há outra lei que governa o mau
sono, tão comum na meia-idade, se não antes. A lei governa tudo. Uma lei
governa a ruína de uma construção, a decadência de um corpo ou de uma
planta, assim como o seu desenvolvimento sadio.
À noite, não deixamos o nosso Eu real permanecer em descanso. Apenas o
corpo, instrumento que empregamos no domínio material da expressão,
deixamos permanecer em descanso para revigorar-se.
Quando o espírito adquire novas forças fora do corpo, como deve dar-se, ele
volta com estas forças para agir sobre o corpo, de manhã, se alcançarmos a
melhor condição de sono. Existem duas espécies de sono: um bom, que fortifica
e refresca o corpo, e um doentio e desassossegado, do qual o corpo desperta
com pouquíssima força.
Quando estais desperto, vosso espírito ou pensamento está em ação sobre o
corpo e o emprega. Se estiver sempre em ação, ele logo cansa o corpo, como
acontece com a insônia.
Quando dormis, vosso espírito ou pensamento ainda age, pensa e trabalha,
porém fora do corpo. Ele pode agir, assim, num plano mental sadio ou doentio.
No primeiro caso, enviará ao corpo elemento mental sadio para revigorá-lo. Se
for para um plano doentio, só enviará ao corpo elemento desta natureza.
A sua ida para um plano espiritual sadio ou doentio depende inteiramente de
vosso estado mental, ao retirar-vos para dormir. Se o sol se põe sem
abrandardes vossa ira, irritabilidade ou ódio aos outros, durante a noite, a vossa
mente continuará a enviar ao corpo o elemento doentio de ira, ódio e irritação.
Se, por exemplo, vosso espírito estiver desanimado, aborrecido e sem
esperança, ele enviará ao corpo a mesma qualidade de elemento.
Quando pensais, estais trabalhando ou fazendo esforço e, ao deitar-vos, não
deveis fazer absolutamente nada.
Em muitos casos, quando nos deitamos, a mente se torna mais ativa do que
antes e fica repleta de planos, projetos, ansiedades e aborrecimentos. Isto cansa
o corpo e produz desassossego e horas de insônia. A mente é, então, mais ativa,
porque se acha momentaneamente afastada de todo esforço corpóreo.
Deveis fazer vossa mente abandonar todo pensamento, ao deitar-vos, e pensar
só no repouso. Antes de adormecerdes, conservai na mente a palavra repouso.
A palavra traz a ideia de descanso, que gradualmente mudará a atitude e a
direção de vosso pensamento e vos trará elementos de descanso. A princípio
podereis não conseguir alcançar o sono imediatamente, pois tereis de vencer o
hábito mental de anos; todavia, aos poucos, o conseguireis, se perseverardes.
Talvez sejam necessários meses até chegardes a resultados apreciáveis.
Contudo, desde que tenhais vencido a insônia, não mais tereis de trabalhar para
isso. De um momento para outro, não podeis mudar qualquer hábito mental, que
talvez provenha de anos, da mesma forma que não podeis mudar logo um hábito
do corpo, um modo qualquer, um andar, uma expressão de linguagem.
Se, por uma razão qualquer, vossa mente estiver muito perturbada, durante o
dia, ela enviará à noite, ao corpo inconsciente ou à existência física inconsciente,
o mesmo elemento perturbador.
A disposição mental predominante em vosso estado de vigília é a que ocupará
vossa mente durante o sono.
A mente nunca dorme, como a eletricidade e o elemento que o sol nos envia (a
causa da luz e do calor, quando chega a este planeta) também não o fazem.
A criança é um espírito que vem a esta vida física com um novo corpo.
Felizmente, falta-lhe a memória de todas as perturbações da sua existência
anterior. É necessário, no nosso estado imperfeito e de tão pouco poder para
governar as nossas mentes e desviá-las das coisas desagradáveis, que não
saibamos o que sofremos no passado. Se o soubéssemos, teríamos de começar
à idade de dois anos com as perturbações que tivemos aos setenta, na
existência anterior.
Até certa idade, a criança tem perfeita confiança em seus pais sobre o
fornecimento de alimentos, roupa e residência. Quando ela começa a trabalhar
por si mesma, surge a perturbação que vai com ela ao leito. Não confia, então,
em ninguém, sendo talvez esta a causa de toda sua perturbação e insônia.
Pouco ou nenhum valor tem o dizer-se: Confia em Deus, porque também o dizem
as pessoas que não confiam em Deus, mas em seus próprios esforços físicos,
relativamente fracos, ou na fraca e imperfeita razão que se apóia em coisas
inteiramente físicas.
Quando Cristo mostrou a criancinha confiante e tranquila aos anciãos da Judéia,
que, talvez, estavam preocupados e aborrecidos e lhes disse: “A não ser que vos
torneis mentalmente livres de cuidados como esta criancinha e aprenderdes a
confiar, em todas as vossas necessidades, na Infinita Força Onipresente ou Pai,
não podereis entrar no Reino dos Céus” (que é um reino inteiramente mental),
ele quis dizer que o pensamento humano, sendo fixo persistentemente numa
coisa ou fim, porá em movimento a força invisível que realizará este objetivo e
que é a Infinita Força ou Deus, agindo por nosso intermédio. Ele quiz dizer que,
se tiverdes um vivo desejo de fazer alguma coisa que vos beneficiará e aos
outros ou ser alguma coisa no domínio da Arte — orador, escritor, ator, pintor ou
inventor — o desejo vivo e persistente é a grande Força invisível que parte de
vós como partícula de Deus ou do Infinito Poder governador de tudo, para vos
conduzir ao êxito.
Mostrou que quanto mais confiais neste desejo, depois de terdes feito planos e
esforços razoáveis para os resultados materiais, deixais de lado as
preocupações e cuidados a respeito deles, maior será a Força realizadora que
age para vós.
Quando disse: “Vinde a mim todos vós que estais sob um pesado fardo e eu vos
darei descanso”, quis dizer: — Vinde a mim, que represento esta grande e
incompreensível Lei da Natureza.
Se aqui estivesse agora, ele diria, para dar exemplo da Lei: “Tenho na mente
uma coisa a fazer. Confio no forte desejo de fazê-la. Peço sabedoria para dirigir
meus atos. Emprego meu corpo na ação, à medida que o espírito me dirige. Se
não posso ver claramente o caminho, ainda assim confio no desejo ou poder do
Infinito de que sou parte, sabendo que a Força que pus em movimento está
trabalhando para mim dia e noite. Quando me deito para dormir, faço-o com uma
perfeita confiança e Fé que esta Força alhures me adiantará na realização de
amanhã, como a criancinha confia em que seus pais a sustentarão no dia
seguinte.
Em tal confiança e Fé, o espírito deixa o corpo e vai a algum plano em que há
mais confiança, Fé, conhecimento, prova e compreensão das Leis e de lá envia,
pelo fio que o prende ao corpo adormecido, cada vez mais elemento mental de
confiança, Fé, poder e descanso.
Quando adquirirmos esta confiança e Fé, como o faremos por meio de mais
provas da realidade do poder em que se baseia, teremos alcançado o mais
importante para um sono sadio. O desejo incessante de possuir esta confiança
terá de trazê-la.
O elemento que o sol nos envia é a força que dá vida a todas as formas do que
chamamos matéria orgânica em nosso planeta. Agindo sobre a vida da semente
que está na terra, dá-lhe uma nova força que a desenvolve em vida nova.
Nosso corpo tem mais força pela manhã, porque então o calor da força solar nos
chega. Nosso espírito absorve esta força e o vigor assim dado ao espírito é
comunicado ao corpo.
À tarde, a parte da terra em que habitamos se afasta da força solar e ela não
mais nos afeta como de manhã. Por esta razão, há menos força e vigor na mente
e no corpo durante esta parte do dia.
É por esta razão também que, na maioria das aves e animais, há tendência para
descansar o corpo à noite. A noite é o tempo de descanso do corpo por causa
da ausência do elemento emitido pelo sol, que é o grande estimulador de vida
de todas as coisas neste planeta.
Estamos mais de acordo com a Lei Natural, quando fazemos o trabalho que
exige mais esforço, pela manhã. Tiramos, então, o maior proveito da Força que
vem à Terra. À tarde é melhor deixar a mente recrear-se em coisas agradáveis,
permanecer em reflexão e qualquer trabalho que não exija grande esforço, pois,
neste estado mental, estamos facilitando à mente o cessar de agir sobre o corpo,
quando nos deitamos.
As pessoas trabalham por muitas formas à tarde e realizam muitas coisas,
porém, no fim, pagam caro. Elas fixam tanto seus pensamentos em um negócio
ou numa só linha de esforço, que lhes é impossível sair deste círculo vicioso. A
mente permanece nas mesmas ideias, tanto durante o sono, como no estado de
vigília.
O maior descanso se obtém pela mudança de linha de esforço. Trazer um
negócio ou estudo continuamente no pensamento, durante o dia e à noite, não
é realmente o meio de fazê-lo progredir tanto como esquecendo-o em intervalos
e deixando a mente descansar, como o fazeis com os vossos músculos, depois
de qualquer exercício físico.
A mente que descansa adquire novas ideias e novas forças para realizá-las. Uma
nova ideia merece sempre ser esperada. Porém, se o negócio e o trabalho são
contínuos durante a última parte do dia e durante a noite, como geralmente se
faz agora, a mente, embora o corpo esteja em condições de descansar, não
pode, ao menos com facilidade, desprender-se completamente dos
pensamentos e, mesmo quando ela o faz e os sentidos físicos do corpo se
tornam inconscientes, a outra parte, a dos sentidos espirituais, continua a
trabalhar na mesma linha de ação.
Pouco ou nada ganhamos com isso. Enviamos ao corpo somente ideias
passadas e de segunda mão, que são vida de segunda categoria. Pela manhã
tomamos novamente posse do corpo para empregá-lo, com as mesmas
espécies de pensamentos, opiniões, planos e aborrecimentos do dia anterior,
porque, quando o corpo ficou inconsciente, nosso espírito foi para o mesmo
elemento mental para cujo plano foi dirigido ao fecharmos os olhos.
Qual é o remédio? — Mais recreação. Mais variedade de ocupação. Menos
monotonia em nossa vida. Mais personalidade em nossa pessoa.
Para alcançarmos a mais alta e feliz existência, devemos ter duas, três ou mais
vidas numa só. Ser comerciante pela manhã, artista ou outra coisa qualquer à
tarde, e em cada uma destas ocupações esquecer totalmente a outra,
descansando assim as faculdades que com ela se relacionam, recuperando-as
e refrescando-as, para, no dia seguinte, voltar aos negócios, arte ou ciência com
mais força e ideia, como fazem muitos dos mais prósperos comerciantes, que
deixam seus escritórios muito cedo e vão divertir-se.
Se dormirdes com outra pessoa cuja mente esteja mais perturbada que a vossa,
que se ache aborrecida, irritada ou desanimada, vosso pensamento estando
mais ou menos dirigido para ela, acontecerá que, à noite, o vosso espírito será
atraído para o plano mental inferior desta pessoa.
Sereis, então, presos ao plano inferior da vida noturna desta pessoa. O vosso
espírito não absorverá, então, os elementos sadios que devia receber se
dormísseis só. Ele envia, portanto, ao vosso corpo o elemento mental mais
perturbado da outra pessoa. Acontece também que, ao voltar ao seu corpo, o
vosso espírito se acha mais ou menos embaraçado com os elementos que
absorveu do pensamento de outra pessoa, e tem muito menos poder para agir
sobre seu corpo.
O prejuízo que resulta para uma pessoa jovem, ao dormir com outra idosa, dá-
se quando a mente da última está abandonando a vida, tomando cada vez menor
interesse nela, considerando-se, erroneamente, demasiado idosa para aprender,
pensando que, por estar cansado o corpo, a vida vai-se embora. Toda a vida que
a pessoa mais nova adquire pela sua ida a um plano novo de pensamento é, em
parte, absorvida pela outra, que assim, inconscientemente, se apodera do
estímulo da mais moça.
Tende em mente que a nossa juventude real não depende da idade do corpo,
que a juventude indica incessantemente vigor e atividade mental, e cada vez
mais aspirações, e que é possibilidade certa para a vida futura deste planeta que
este estado mental, se nos firmarmos nele, constantemente revigorará e
rejuvenescerá o corpo.
O corpo tem certa vida própria, separada do espírito, de que é instrumento.
Como uma planta, tem sua juventude, madureza e velhice. Sua vida física no
período juvenil é um auxiliar à vida e vigor do espírito. Esta vida física auxilia o
vosso espírito como um remédio material fornece certa força ao espírito para
vencer a doença ou fraqueza.
Porém, o auxílio do corpo, neste ponto, apenas dura por algum tempo, se não
for renovado pelo poder da mente ou espírito, e não havendo conhecimento
deste poder de renovação, o corpo, como construção material semelhante a
outra qualquer, terá de arruinar-se.
Há muita crença inconsciente em falsidade. Ireis notando continuamente que,
durante toda esta existência física, acreditais implicitamente em alguma
falsidade. Nunca pusestes em dúvida a verdade dela e nem vos veio a ideia de
a investigar. Ficareis surpreendido com o número de erros em que acreditais, à
medida que eles aparecem.
A vossa crença inconsciente tornou estas falsidades onipotentes no que se
refere aos seus efeitos em vossa vida. Se viverdes crendo firmemente num erro,
ele será uma mancha qualquer em vossa vida. É esta crença firme em falsidade
que produz toda espécie de doença ou perturbação para a nossa raça.
“A verdade vos fará livres”, diz a Bíblia, livres de todos os sofrimentos e
perturbações.
Desde que começais a duvidar da verdade destas ideias falsas, tanto tempo
acatadas, o reino delas está para acabar. Vêm, então, as perturbações que
resultam de sua expulsão de vossa mente.
Na infância podeis ter aprendido a crer num espantalho de qualquer espécie.
Podeis ter receado andar no escuro por causa disso, acreditando implicitamente
nele durante algum tempo. Com a idade, duvidais disso e, por fim, deixais de
acreditar nele, na forma em que vos foi apresentado.
Quando acreditáveis firmemente no espantalho, o pensamento dele, ao achar-
vos só, na escuridão, vos causava desagradáveis sensações físicas. A vossa
carne se arrepiava, vosso cabelo se eriçava e ficáveis abatido e trêmulo, isto é,
ficastes um tanto adoentado pelo pensamento de uma coisa que não tinha
existência.
Se alguma pessoa irrefletida, para assustar-vos, simulou um lobisomem ou
fantasma, o vosso corpo certamente foi ainda mais afetado. A perturbação física
devia ter sido maior. Podeis ter corrido risco de morte ou de loucura, como tem
acontecido com crianças em circunstâncias idênticas. Assim é que podeis ter
perdido o corpo ou a razão por causa da ideia de uma coisa que não tinha
existência real.
Os espantalhos, acreditados firmemente por pessoas crescidas, agem sobre o
corpo de um modo semelhante. Uma falsa ideia em relação ao esforço do
espírito para regenerar o corpo torna este esforço um espantalho, que, por fim,
age sobre a mente para destruir o corpo.
O espírito pede descanso do corpo e precisa toda sua força para construí-lo
novamente. Ele faz este pedido ao diligente homem de negócios, que trabalhou
ativamente durante anos. O pedido pode vir na forma de cansaço ou qualquer
espécie de inatividade.
À medida que o processo regenerador prossegue, devemos nos tornar mais
naturais em nossos hábitos e modos de vida. Em todas as coisas naturais, nos
animais e vegetais, não cultivados pelo homem, encontramos a mais perfeita
expressão da infinita mente, embora eles não sejam expressões aperfeiçoadas.
Nada no universo é perfeito e acabado. Tudo progride sempre em perfeição e
este desenvolvimento deve ser como deseja a Mente Infinita e não como quer o
homem.
Quando o homem se afasta do natural, cria imperfeições e deformidades. No
pássaro selvagem e no amestrado, vemos a diferença que há entre a vida
artificial e contrária à natureza e a vida natural e sadia. O pássaro selvagem é
como Deus o fez. Desde que o homem se preocupou com ele, privou o pássaro
de força, agilidade, beleza e inteligência.
Inteligência, instinto e espiritualidade são a mesma coisa. Indicam um
conhecimento, recebido não de livros, mas da Mente Infinita. Este conhecimento,
em maior ou menor grau, está em todas as formas da matéria. Está no mineral,
na planta, no animal e no homem, mas não é igual em todos os homens.
Em nenhum homem atual ele existe tanto como existirá no homem futuro, sendo
dado a este um tal grau que ele se tornará imortal. Este homem conseguirá uma
felicidade e uma paz tão inutilmente procuradas hoje e tão raramente
encontradas. Ele alcançará uma felicidade não sonhada ainda, felicidade que
será sempre crescente, porque verá claramente que existe uma força
inesgotável, a mente e a sabedoria que se manifestam em tudo e nele mesmo,
e que tudo o que tem a fazer para alcançar uma felicidade crescente é confiar
neste poder do bem, entregar-se a ele para ser levado de um estado de prazer
a outro melhor ainda.
Fizeram todas invenções e progressos da civilização mais feliz e sadia a nossa
raça? Não é a luta pela existência tão pesada como o era há cem ou mil anos
atrás? Não continuam as doenças e os sofrimentos por toda parte? Não há, por
toda parte, preconceitos, contrariedades e aborrecimentos?
Creio que ninguém poderá afirmar: “Minha vida está livre de cuidados,
ansiedades, ciúmes ou descontentamentos. Minha vida é um sonho de alegria e
gozo. Minha vida, desde o amanhecer até ao anoitecer, é uma série de
momentos agradáveis. Sei que meus dias de prazer não só continuarão, mas
também que a minha alegria interna aumentará sempre. Não tenho ansiedade
sobre o dia de amanhã, porque experimentei este grande poder e Ele deu alegria
aos meus dias passados e estou certo que o mesmo sucederá com o futuro.”
Confiando, então, neste poder e levado por ele, o homem, tornando-se mais que
mortal, não terá ocasião para semear, colher, ou inventar máquinas, como não
o fazem os pássaros selvagens que estão livres desta praga. O seu
desenvolvimento espiritual lhe dará poderes que o libertarão destas
necessidades do presente.
Neste processo regenerador, nosso espírito ou Eu Superior exigirá mais
descanso para o corpo. Ele exigirá que a noite seja toda dada ao sono, porque,
durante o dia, o tempo é mais próprio para a expressão física. O mundo material
é, então, movido pela força material que provém do sol.
Quando esta força é tirada e vem à noite, há outra força que predomina. É um
poder espiritual que pode alimentar o material, quando a atividade material está
paralisada.
Quando vos deitais, à noite, com o desejo de estar livre de uma disposição
irritada ou ansiosa, e com um pedido silencioso ao Supremo Poder para serdes
levado no caminho da mais alta sabedoria e felicidade, estais em caminho para
obter a espécie de sono que mais aproveitará.
Um repouso sadio, durante a noite, trará o seu correspondente durante o dia. O
repouso é o estado mental mais necessário à nossa raça. Ele não é a preguiça
ou inércia. Dá prazer no fazer as coisas e aumenta as forças no agir. Impede o
cansaço, torna agradável o serviço e evita que este se torne aborrecido.
O repouso dá força aos nervos e firmeza à mão, seja qual for a profissão seguida.
Faz tudo com cuidado e carinho. Depois de algum tempo de hábito, ele vos fará
perder todo sentimento do tempo. É este aborrecimento, proveniente do
cansaço, que leva os homens a dizerem: “Que devo fazer para passar o tempo?
Quão aborrecido está o tempo!”
O repouso é um estímulo sadio e tranquilo que, do espírito que está próximo da
Mente Suprema, flui continuamente ao corpo. Dá, de um modo permanente, o
descanso mental que os homens procuram no álcool e no ópio.
O prazer tirado destes agentes é, porém, passageiro, espasmódico e sujeito a
reações que levam à tristeza, logo que termina a excitação alegre. O repouso
vos conserva num plano sereno de felicidade e, à medida que continuais a
invocar a Mente Suprema, sereis levado gradualmente a um estado cada vez
mais alto e feliz.
O repouso vos torna companheiro de vós mesmo, contente convosco e
agradável a vós mesmo. Quando é esta a vossa disposição predominante, sois
sempre agradáveis aos outros, como eles vos são agradáveis. Deixais, então,
de depender da companhia dos outros. Porém, assim fazendo, recebeis o melhor
dos outros e dai-lhes o melhor de vossa parte, nunca tendo, por essa razão, falta
de companhia.
O repouso traz planos e ideias para um êxito permanente e a força para alcançá-
lo. O êxito é muito mais do que ganhar dinheiro. O êxito de hoje, muitas vezes,
dá fortuna e fama, porém não a felicidade.
Será um êxito um homem poder considerar-se senhor de um império, se seu
corpo que é o único instrumento pelo qual o possui, não tem dez anos de vida
em si?
Não afirmo aqui que apenas deitar-se cedo seria uma panacéia para todos os
males da raça, nem que o emprego da noite em lugar do dia é a causa de todos
os males que a acabrunham. Porém, afirmo que um estado espiritual doentio
tende a empregar a noite em lugar do dia e que, à medida que o espírito se torna
mais sadio e natural, ele nos impelirá ao sono, quando a natureza, lançando o
véu da escuridão sobre o mundo material, indica o tempo para o mundo material
cessar a atividade.
O repouso abre cada vez mais as faculdades espirituais, os elevados poderes
perceptivos, a faculdade de ver a beleza e a utilidade de muitas coisas que
desprezamos.
17
O poder da honestidade
O desenvolvimento de qualquer empresa comercial baseada totalmente nas leis
mentais exige bastante fé e paciência. A paciência não quer dizer uma
esperança penosa, conservada em suspenso, e uma inquietação de que os fatos
se sucedam. A paciência, em sua expressão superior, significa uma espera
cercada de uma disposição alegre e expansiva, divertindo-nos, entretanto, e
conservando o nosso propósito sempre firme, porém não pensando nele
ansiosamente.
Suponhamos que sois um conferencista ou ator, e desejais obter assistência
proveitosa. Deveis, primeiramente, ter fé e confiança em vossa capacidade para
interessar e divertir vosso auditório.
Estais para fazer vossa primeira tentativa diante do público. Que deveis fazer em
primeiro lugar? Deveis alcançar a simpatia de alguns amigos sinceros que
realmente desejam o vosso êxito. Dissemos, muitas vezes, que a simpatia é uma
força. Ela é como que um elemento real que provém destas mentes, elemento
invisível, porém muito poderoso, inócuo e sutil em sua ação. Sendo emitido por
estas mentes, ele age na criação de um interesse em vosso favor, mesmo
quando adormeceis vós e eles também. Cinco ou dez mentes que conservem
esta disposição de amizade real para convosco estão sempre trabalhando
mentalmente em vosso proveito. Elas valem para nós mais que dez mil
mentalidades que queiram mostrar um interesse em vosso proveito, que, na
realidade, não tenham.
Conservai em vossa mente, fiéis a vós, as pessoas que podem ajudar-vos,
quando vedes claramente que o contato mental entre vós e elas lhes é melhor.
Se vedes um homem ou uma mulher que gasta suas forças por ignorância e
incapacidade de empregá-las para algum fim, se vedes que eles sofrem e se
arruínam por causa disto, tendes certo direito de usá-las por algum tempo,
porque, sob a influência de vossa mente, receberão a verdade. Poderão ser bem
educados enquanto vos servem, recebendo tanto poder espiritual quanto dão.
Estas forças ou pensamentos de simpatia e bons desejos dos outros para vosso
fim especial devem ter tempo para produzir frutos. Conservai-as
determinadamente neste propósito e elas frutificarão. Ficai desanimados e
abandonai-as, e seu desenvolvimento tendente a um resultado material estará
arruinado.
Quando estas forças estiverem maduras, vós o sabereis por algum impulso que
vos leva a ir para a frente e a dar mais um passo. São as forças das outras
mentes que criam estes impulsos e vos fazem dar este passo, que aparecerá
sob a forma de uma oferta ou oportunidade. Abraçai-a, concentrai-vos nela e
fazei o melhor para esta ocasião.
Estas forças podem concentrar-se num indivíduo para que trabalhe em vosso
favor, fazendo-vos uma proposta ou preparando-vos de qualquer forma para que
vos adianteis mais um passo.
Não deveis pensar que, por fazerdes certos esforços, sem obterdes resultados,
eles são insucessos. Não o são. Eles apenas agitaram vosso nome e criaram
mais desejo de vos ouvir ou ver. Conservai sempre na mente que, por maior que
seja o esforço físico que fizerdes para adiantar vosso negócio, propaganda ou
conferência, é secundário e bastante inferior à vossa força espiritual, apoiada no
Supremo Poder de que é atraída sempre.
CONSERVAI ÉSTE PODER ACIMA DE TUDO. Dizei mentalmente em cada
esforço que fazeis: “Desejo ser dirigido perfeitamente por esta Infinita Força e
Sabedoria, que opera por meu intermédio; peço cada vez mais para ver com
clareza e saber sem possibilidade de dúvida, que este Poder é uma realidade,
de modo que possa confiar cada vez mais nele com a mente tranquila.
A tranquilidade e o contentamento mental são a prova de que estais na
disposição de perfeita confiança.
Às vezes, um conjunto invisível de inteligências individuais pode ver
espiritualmente mais longe do que vedes algum ato ou passo que deveis realizar
para obterdes o maior e mais permanente êxito. A princípio, podereis ser cego
ou indiferente a ele. Neste caso, as coisas parecem ser aliadas, quando, em
realidade, estão esperando até que vossa mente se desperte e compreenda esta
necessidade. Ela vos virá com o tempo, desde que conserveis vossa mente
sempre receptiva e aberta às suas sábias sugestões.
Se fazeis esforços para conseguirdes o favor do povo, para agradá-lo
socialmente, fazer que vos admire, não o façais com a disposição única de torná-
lo sujeito. Agradai-o pelo simples agrado. Não leveis convosco, em toda parte, o
interesse de vosso negócio. Não cultiveis a sociedade apenas para o progresso
do vosso negócio. Não considereis vossas qualidades sociais apenas como meio
para aumentar vossa fortuna.
Se o fizerdes, ficareis desnorteado mais tarde. Por mais atraente e fascinador
que sejais, as pessoas sentirão na vossa mentalidade qualquer coisa que lhes
será desagradável. Isto vos atrasará, em vez de dar-vos um êxito permanente.
Aspirai ao mais alto êxito e mais vasto campo de ação para vosso esforço.
Podereis concentrar as vossas forças num esforço simples e relativamente
pequeno. Porém, vede-vos mentalmente muito além. Algumas pessoas nunca
podem afastar a mente de seu pequeno negócio: a pequena loja, a pequena
confeitaria que lhes dá uma vida simples. Eles se tornam tão envolvidos em seus
cuidados e pequenas querelas, que não deixam lugar, em sua mentalidade, para
as aspirações mais altas e vastas, e, por isso, assim permanecem.
Um homem pode aplicar todo o seu pensamento no cuidado e cultivo de um
alqueire de terra, quando podia estendê-lo a dez ou cem. Nunca digais a vós
mesmo: “Só posso possuir uma canoa; os grandes navios pertencem a homens
mais aptos do que eu.”
Quando vos conservais em disposição de planejar e aspirar a coisas melhores,
vossa mente profetizará vosso futuro com perfeição, desde que desejeis o Direito
e a Justiça para vós e os outros.
Assim vendo e planejando, estais preparando de antemão as condições para o
futuro e maior êxito.
Um limpa-chaminés, cuja mentalidade não tem maior aspiração do que ele pode
limpar num dia, nunca sai de tal ocupação.
Às vezes, tudo parece entrar em paralisação nos vossos empreendimentos.
Podeis ter trabalhado, ter falado, ter manifestado vossos planos aos outros, sem
que apareça qualquer resultado. Este lado desanimador dos negócios apenas
está no lado material. É apenas a aparência externa. Porém, as forças espirituais
e invisíveis, que são os poderes originadores de todos os resultados físicos,
estão cheias de atividade. O que mais vos é necessário é firmar-vos em vosso
propósito e conservar-vos o mais possível livres de desânimo.
Conservai-vos também fora da companhia daqueles que não têm fé nestas
verdades, exceto quando é necessário conviver com eles.
O lado externo do ovo apresenta poucos sinais do desenvolvimento do pinto que
nele está. A planta, um mês antes de readquirir suas folhas, pode estar
exteriormente tão nua como no rigor do inverno; porém, dentro destas formas da
matéria, está uma disposição muito diferente de coisas do que nos meses
anteriores, porque há, na Mente Infinita, o propósito de produzir certo resultado
do ovo e da planta. Ela se move com crescente rapidez para a realização deste
fim. Vós, como partes desta Mente, alcançareis resultados pelas mesmas leis. A
Força Infinita se agita dentro de todas as coisas, lutando para alcançar o mesmo
resultado, que poderá ser bom, mau ou trivial. Nenhum ente humano está fora
do alcance desta força e cada qual deve fazer alguma coisa.
As coisas, acontecimentos ou métodos materiais pelos quais os resultados se
realizam, tomam formas por si mesmos. Por isso, não insistais mentalmente para
que o resultado desejado venha por uma forma e não por outra. Sede adaptável
e estejais prontos para irdes onde a corrente vos leva, pois, muitas vezes,
esperais o resultado num determinado lugar e ele se realiza num outro muito
afastado. As forças espirituais nada têm que ver com as distâncias. As mentes
são unidas na ação, quer seus corpos estejam perto, quer estejam longe e nem
sempre é fácil determinar o lugar exato em que elas focalizam um resultado
material.
Há miséria na barateza, e a vida mais extravagante é a vida barata. Um alimento
barato quase sempre é de pouco sustento e não dá força ao corpo e à mente.
Vosso vigor físico e mental é a vossa principal provisão comercial e tem valor em
cruzeiros. Uma alimentação permanente constituída por alimentos baratos pode
tornar-vos doentes, impedir-vos de trabalhar, fazer-vos perder o ordenado de
muitos dias e trazer-vos despesas de médico e farmácia.
As coisas baratas e inferiores custam muito mais do que as de boa qualidade.
Comprais uma mala ordinária; ela se despedaça conforme o desejo do
carregador e mostra os lamentáveis segredos de vosso vestuário.
Comprais um temo barato e já pronto. Há muita probabilidade de não obterdes
uma boa fazenda, embora o comerciante vos faça julgar o contrário. Desde o
começo, vos parece barata e logo mostra sua barateza por toda parte aonde
ides. Em três semanas perde o brilho e em seis semanas está tão gasto como
um tecido realmente bom, em quatro meses. Uma boa fazenda teria durado duas
vezes mais. Tereis, assim, de pagar, por dois ternos ordinários, mais do que
pagareis por um só de boa qualidade e, com os dois, não tendes a qualidade e
o estilo do melhor, embora este, a princípio, viesse a custar mais. Ao abandonar
os dois temos baratos, gastastes mais dinheiro e recebestes muito menos por
ele. Isto é extravagância.
Economia não é empregar coisas inferiores por serem baratas. É o emprego das
melhores coisas para obter delas o máximo proveito. Podeis comprar um cavalo
magro e doentio por um preço muito baixo. Ele não vos pode levar para toda
parte, gastais dinheiro para curá-lo e conservá-lo, necessita de cuidados e
despesas, sem que daí tires proveito algum, mas sim aborrecimentos.
A concorrência que procura abaixar o preço das coisas é a morte do comércio.
Ela abaixa cada vez mais o preço, até que não há lucro para ninguém; a
fabricação cessa e o operário nada tem a fazer.
A concorrência na barateza não produz artistas, mas apenas imitadores e
falsificadores.
Uma hábil costureira que tinha interesses artísticos em seu trabalho disse, após
uma semana de experiência num dos grandes bazares de Nova Iorque, onde
centenas de vestidos por dia eram devolvidos: “Aqui não há incentivo para um
trabalho bom, cuidadoso e bem feito. A moda que pode gastar mais linha em
maior quantidade de fazenda, produzindo uma semelhança de vestido, é a que
melhor paga recebe e é mais elogiada pelo patrão.”
Ao comprardes fazendas baratas, dais incentivo à imitação e à falsificação.
Incentivais os trabalhos feitos sem consciência e só pelo lucro. Desanimais as
pessoas honestas e os trabalhos em que se empregam cérebro, habilidade,
consciência e tempo. Tais são os trabalhos artísticos. Estais, assim, ajudando a
fraude. Auxiliais a maroteira, opondo-vos à justiça e à honestidade.
Se comprardes onde vos for possível comprar mais barato com o único fim de
gastar o menos possível, estais animando a fraude e a injustiça.
Vós vos queixais que o vosso trabalho é mal pago, porém, quando procurais o
artigo mais barato e estais pronto a defender o homem determinado a vender
mais barato que todos os outros, estais dando incentivo e auxiliando, animando
e pagando o homem cujo desejo é abaixar cada vez mais o preço de tudo o que
compra. Se fazeis vassouras e ele as compra, o faz com o desejo de pagar o
menor preço. A sua mente está sempre pensando em vos pagar menos.
O mundo comercial se esforça atualmente em procurar que cada um trabalhe
pelo menor preço possível e faça artigos da melhor qualidade. Por exemplo, na
fabricação de calçados ou chapéus, procurais com insistência obter pessoas que
trabalhem pelo menor preço na confecção; com o maior cuidado, procurais obter
os materiais pelo mais baixo preço, sem vos incomodar se A, B e C, que vos
fornecem os diversos materiais, tiram o mínimo lucro e se ganham o suficiente
para comer e viver. Não os conheceis e nem desejais conhecê-los. O que
desejais é sua força, habilidade e inteligência pelo menor preço possível, de
modo que, quando esta força e habilidade vos vierem sob a forma de calçado,
chapéu, etc., possais ganhar seis, oito ou dez vezes mais pelo trabalho de
vender do que eles em prepará-los para a venda.
Se comprais um artigo de superior qualidade por preço muito baixo, vós vos
alegrais por terdes feito um bom negócio. Perguntais: “Foi bem pago o homem
pelo trabalho de fazer este artigo?” Ou preocupa-vos que ele tenha ganho
pouco? Sois, porventura, o guarda desse irmão?
Predomina e tem durado muito, no mundo, a opinião de que, em todos os
negócios, a desonestidade está sempre em luta vitoriosa com a honestidade.
Pelo contrário, a absoluta honestidade traz consigo o maior poder do universo
para nos dar resultados nos negócios, nas artes e em todas as coisas.
Esta é uma lei da ciência da vida. A mente desonesta e o pensamento
desonesto, que sempre parte daquela, podem ganhar, pela ilusão e a trapaça,
muito dinheiro. Este, porém, é um êxito parcial, pois, com tal ganho virão, pela
ação de uma lei, resultados desagradáveis e fatais para o indivíduo.
A mente desonesta e trapaceira nunca pode ter a mais perfeita saúde física. A
desonestidade e a trapaça trazem má saúde e a morte para o corpo. Nenhum
ganho em bilhões de cruzeiros pode compensar a decadência e a doença do
corpo.
Existe uma honestidade material que nos impele a fazer o que é reto e justo aos
nossos irmãos no mundo das coisas materiais. Há outra, uma honestidade
superior e espiritual, que se refere totalmente às nossas relações conosco
mesmos e cujo resultado vai muito além da honestidade que recusa furtar, e
paga pontualmente suas dívidas.
A honestidade superior consiste, em primeiro lugar, na qualidade de ter um vivo
desejo de saber o melhor caminho a seguir na vida. Nem todas as pessoas têm
a capacidade de possuir este vivo desejo. Sua evolução espiritual ainda não
alcançou o ponto em que são capazes deste desejo. Estão no estado imperfeito
em que são como os cataventos, impelidos à direita e à esquerda pelos ventos
da opinião ou pelas influências que lhes chegam. Não podem ser sinceros a seu
Eu Superior.
A absoluta honestidade é muito mais importante do que a simples seriedade em
assuntos financeiros. Se manifestarmos por outrem uma consideração que não
sentimos realmente, não somos honestos. Quando não vivemos de acordo com
as nossas convicções de direito e mesmo de bom senso, quando fazemos como
os outros, por medo de sermos considerados excepcionais ou singulares, não
somos honestos.
Se numa família, quando o chefe da casa entra, a conversa da mulher e de outros
membros é muito diferente da usual durante sua ausência, se então a liberdade
da conversa cessa e o assunto muda completamente, há bastante falsidade
nesta casa, embora, pelo hábito, os esposos não o observem.
Quando vemos um mal em nós mesmos e não queremos confessá-lo a nós
mesmos ou a alguma outra pessoa, não somos honestos, pois nada é mais útil
para nos libertar de uma falta do que confessá-la (não a todos), mas a alguém
em quem pudermos confiar.
Um miserável orgulho proveniente da mente material nos leva a sustentar a
ilusão de que somos perfeitos atualmente e que tudo o que fazemos é justo e
não pode ser melhorado.
Se a nossa natureza material é covarde, inclinada ao roubo ou ao assassinato,
é melhor dizermos assim: “A parte inferior de mim mesmo é covarde, porém a
superior não o é e despreza a covardia. A minha parte material tem tendências
homicidas, eu as possuo, não o nego, porque a verdade é essa, porém Deus
que está em mim expulsará de mim esta inclinação. O meu corpo tem tendências
ao roubo, sou tentado a furtar; a minha natureza superior condena esta
tendência, porém ela é, às vezes, vencida pela inferior.”
Desde que uma convicção é contrariada, há desonestidade. Essa convicção
provém de nosso Eu superior ou Deus em nós. O Eu material ou inferior
combate-a, opõe-se a ela e procura esquecê-la. Somos, então, como duas
pessoas que questionam, ou uma casa dividida contra si mesma. O resultado é
uma luta e, com a luta, vem o sofrimento e o desassossego. A parte superior de
nosso Eu vê uma verdade e procura viver de acordo com ela. A outra, a natureza
inferior e animal, não se importa em vê-la ou em viver de acordo com ela, pois
sabe que se a superior governar, ela perderá seu poder, que na verdade, ela
será destruída. É portanto, da parte da natureza inferior uma luta para defender
sua existência.
Se, no falar ou agir, estais sempre manifestando pensamento de velhacaria,
estais atraindo para vós mesmos a corrente mental de engano. Seja qual for o
pensamento que vós atraís, ele se materializa em vosso corpo.
Vossos ossos, sangue, nervos e músculos são então, realmente, formações
destes maus pensamentos. Estais, por assim dizer, vestido de um corpo que,
sendo formado de velhacarias, vos leva apenas a ver, pensar em mentiras e
praticar falsidade, mesmo quando desejais falar, agir ou de qualquer forma
afirmar a verdade. É este mau desenvolvimento que torna mais fácil a muitos,
presentemente, mentir do que falar a verdade. O hábito de mentir tornou-se fixo.
Não podem abandoná-lo nem que o queiram. Nada podem dizer sem exagerar.
A mentira sai-lhes dos lábios sem que eles tenham consciência do que fazem.
Quando não há mentira por palavra, há uma disposição ou atitude, cujo fim real
é iludir.
Isto acontece quando alguém segue uma forma religiosa para manter uma
posição na sociedade ou nos negócios. Esta é uma mentira em ação, não em
palavras.
Por fim, podemos ficar cobertos por uma tal materialização de mentiras que
diremos mentiras a nós mesmos e nelas acreditaremos.
Muito tempo de prática e contato com as trapaças fará que a pessoa desonesta
se considere honesta. Sua mente se torna hábil em iludir a consciência superior
e em desculpar-se das desonestidades. Uma e talvez a mais frequente das
desculpas é esta: “Se eu não fizer assim, alguém o fará.”
A Lei que, em suas operações, não se desvia um fio de cabelo para a direita ou
para a esquerda, traz um terrível castigo por ter-se a disposição de pensar de
modo desonesto. Ela não perturbará tanto a visão mental ou a percepção
espiritual que nos faz crer na falsidade, em vez de na verdade. Ela nos fará
também sermos mais facilmente iludidos pelos outros e nos tornará a verdade
tão desagradável que não queremos conhecê-la ou nela crer. Poderá também
fazer que a verdade nos pareça ridícula e falsa. Portanto, se somos forçados a
crer na falsidade atrairemos a doença, o sofrimento e a miséria que resultam de
falsas crenças.
A natureza mais honesta sente de modo desagradável o pensamento da pessoa
desonesta quando se acha junto dela. Vê imediatamente no íntimo da pessoa
desonesta, analisa e coloca-se em guarda contra suas artimanhas. Assim, um
poder da honestidade é o ver e perceber o engano, o que, com certeza, é uma
valiosa qualidade em qualquer negócio.
Podemos fazer o que nos parece reto e justo, embora aos outros pareça
incorreto, e ser muito mais honestos do que se fizéssemos o que os outros
julgam justo.
Não estamos em base firme quando aceitamos a ideia de justiça dos outros e
não temos a nossa. Se cometemos um erro, julgando que era o melhor que
podíamos fazer e tendo fins elevados, logo conheceremos o nosso erro.
Não é a mais alta qualidade de bondade a inspirada pelo motivo de ser alguma
coisa julgada boa pelos outros, pois, neste caso, aceitamos uma regra
estabelecida pelos nossos inferiores e vivemos de acordo com ela. Este caminho
nos leva à hipocrisia.
Peço ao leitor que, antes de encetar a leitura do último capítulo da minha obra,
procure colocar-se na atitude mental de simpatia com as ideias nela expressas,
em harmonia e concordância com o que tenho dito até aqui, único modo de tirar
algum proveito dos seus ensinamentos.
18
Recapitulando
As ideias contidas neste último capítulo da minha obra vêm a ser como o resumo
de todos os meus escritos até o presente. Novamente chamo a atenção dos
meus leitores para as principais verdades aqui expressas, pois no grau de
conhecimento a que já temos chegado, e tendo sobretudo em vista e em
consideração o meio em que atualmente vivemos, será extremamente
proveitoso recordar, de quando em quando, a base que deixo escrita e
rememorar, refrescando as ideias acerca do conhecimento destas leis
demasiado novas para os homens da atualidade.
Estamos de tal modo habituados aos nossos antigos e péssimos métodos
mentais que, no meio dos nossos cuidados cotidianos e dos negócios que nos
absorvem inteiramente a atenção, facilmente esquecemos a eficácia das leis
espirituais, mesmo estando convencidos da sua verdade. Nenhum dos homens
de hoje pode esperar que, de um jato, entre em sua mente toda inteira e
inabalável, a crença firme e absoluta nas leis de que falamos, e ainda menos
metamorfosear-se de um momento para outro, a ponto de mudar radicalmente o
seu modo de viver, sentir, ver e achar bom tudo quanto ontem ainda achava
péssimo, inverossímil e insensato.
Posto que convencidos inteiramente da verdade dos ensinamentos recebidos,
sempre permanece em nós uma parte indócil que resiste tenazmente,
conservando-se hostil àquelas verdades. Esta parte do nosso ser é a mente
material ou corpórea.
EXISTE UM PODER SUPREMO E UMA FORÇA REGULADORA QUE INVADE
E REGE TODO O ILIMITADO UNIVERSO.
CADA UM DE NÓS É UMA PARTE DESTE PODER.
E, COMO PARTE QUE SOMOS DESTE PODER, TEMOS A FACULDADE,
MEDIANTE A PRECE OU DEPRECAÇÃO E CONSTANTE E VEEMENTE
DESEJO, DE ATRAIRMOS, CADA DIA MAIS, AS QUALIDADES PRÓPRIAS E
CARACTERÍSTICAS DESTE PODER.
Todo pensamento é uma coisa real e uma força.
Devemos repetir esta frase o mais frequentemente possível. Todo nosso
pensamento contribui para o nosso bem ou para o nosso mal, que tem
infalivelmente de se desenvolver ou imediatamente, ou num futuro mais ou
menos próximo.
Perguntar a alguém o que está pensando em determinado momento, se a sua
mente está repleta de pensamentos alegres e suaves, ou tristes e tenebrosos,
se pensa bem ou mal do próximo, é o mesmo que lhe perguntar: “Como estás
construindo o teu futuro?” “Qual será a tua existência futura?”
Se hoje és obrigado a viver pobremente ou entre pessoas rústicas e vulgares,
nunca digas a ti próprio: “Será sempre assim a minha vida!” Ao contrário disso,
não deixes um momento de esperar que a tua situação melhore, e dize isso
intimamente a ti só, no recôndito do teu coração, porém frequente e firmemente.
Vive mentalmente no melhor palácio que puderes imaginar, põe na tua
imaginação que estás comendo as iguarias mais delicadas, esplêndida e
luxuosamente servindo e sempre rodeado de pessoas distintas, boas, ilustradas,
leais, amáveis e bem educadas, na melhor sociedade, enfim, e carinhosamente
acolhido por amigos sinceros. Quando conseguires que esse estado mental
persista em ti, não duvides de que todas as tuas energias se dirigirão para
melhorar, e muito, a tua situação. Sê rico espiritualmente, sê opulento, poderoso
e feliz na tua imaginação e podes ficar bem certo de que algum dia serás também
poderoso, feliz e rico das coisas materiais.
O modo mental em que hoje vivemos, baixo e rasteiro ou nobre e elevado, é que
constitui, de acordo com a sua própria natureza, as condições físicas da nossa
vida futura.
Idêntica lei rege a formação e perfeição do corpo. Eis a razão pela qual, embora
sejamos franzinos e doentios, é conveniente e muito útil imaginar-nos ágeis,
robustos e saudáveis.
Nunca devemos por limites nem barreiras às nossas possibilidades futuras.
Nunca devemos dizer: “Tenho de permanecer sempre nesta miséria, neste
inferno de vida; nunca poderei subir, estarei sempre na dependência, sempre
abaixo deste ou daquele, nunca poderei atingir o nível deste ou daquele grande
homem. O meu corpo decairá, debilitando-se gradualmente, perecendo, por fim,
como tem sucedido com os corpos dos outros homens, que, no passado, se
enfraqueceram até acabarem por perecer também.”
Igualmente não devemos dizer: “O meu talento e as minhas faculdades e
aptidões são medíocres, mal chegando ao vulgar. Viverei e morrerei como
muitos milhões de homens têm vivido e morrido antes de mim.”
Quando formulamos esses pensamentos ou outros semelhantes, como um
número infinito de homens costuma fazer, inconscientemente, tornamo-nos a
nós próprios escravos de uma grande mentira, atraindo-nos os males e as dores
que são o produto e natural apanágio de toda mentira, algemando também com
isso a nossa aspiração, impedindo-nos de obter possibilidades superiores além
do estado presente do conhecimento do mundo, colocando um obstáculo
insuperável entre nós e a verdade mais elevada e mais nobre.
Cada homem e cada mulher possuem, em estado latente, algum talento ou
aptidão especial muito diversos dos talentos e habilidades dos outros homens e
das outras mulheres.
Não existem duas mentalidades exatamente iguais, porque a Força Infinita
assume, em sua expressão externa, uma variedade infinita de formas, quer se
trate de um raio de luz, quer da constituição da mente humana.
Implora amiúde que o Poder Supremo te liberte permanentemente de todo
sentimento de medo. Cada segundo que nesse pedido empregares, contribuirá
para te livrar da escravidão do pavor. A Mente Infinita nada teme: o destino do
homem é aproximar-se cada vez mais dessa sublime Mente Infinita. Absorvemos
incontestavelmente o pensamento, o estado mental daqueles que nos rodeiam
ou com quem mais convivemos ou para os quais nos atrai mais a nossa simpatia.
Podemos até dizer que enxertamos a sua mente no nosso espírito e, se a sua
mentalidade é inferior à nossa e nem sequer vive no mesmo plano, o que apenas
fazemos com tal absorção é cultivar um enxerto de ruim qualidade, que
muitíssimo nos prejudicará.
De igual modo, quando cultivamos larga amizade com pessoas que não se
preocupam com coisa alguma, não tendo nenhuma aspiração, nem fé em si nem
nos outros, que nenhum plano definido formam na vida, e em nada têm
estabilidade, pomo-nos na corrente mental da decadência definida, da queda
irremediável, da inevitável ruína, para a qual, desde aquele momento,
infalivelmente corremos a passos acelerados; isto porque, estando estreitamente
ligados a essas pessoas, forçosa e indubitavelmente havemos de absorver parte
da sua mentalidade e, uma vez por nós absorvida, pensaremos como essas
pessoas pensam, e pouco a pouco reconheceremos que agimos em tudo como
elas próprias agem, apesar mesmo de os nossos dotes mentais serem muito
mais elevados e superiores aos delas e embora antes de nos unirmos tanto com
elas e de lhes termos recebido a influência, procedêssemos em tudo com grande
discernimento e sensatez.
Sem sabermos o motivo, notaremos que os nossos atos e iniciativas têm perdido
muito do seu antigo valor.
A nossa mente absorve evidentemente toda espécie de ideias que estão em
contato imediato com ela. Se nos pomos em relação com os afortunados,
absorveremos ideias de êxito e triunfo. Os infelizes, desafortunados e pobres
estão, de contínuo, exteriorizando as ideias de falta de ordem, a carência
absoluta de um bom método ou sistema de vida e também toda espécie de
pensamentos de desalento e desânimo.
Se a nossa mente permanece em prolongada comunicação com eles,
indubitavelmente absorverá todos esses prejudiciais elementos, da mesma
forma que a esponja absorve a água. Para o mais brilhante e completo êxito nos
teus negócios, para os rápidos progressos na tua profissão ou empresa, é muito
melhor que não tenham intimidade, não te ligues estreitamente com nenhuma
espécie de mentalidades desordenadas e desleixadas, nem frequentes muito
tais companhias.
Quando cortares mentalmente todas as tuas relações com infelizes e miseráveis,
materialmente viverás também afastado deles, entrando ao mesmo tempo em
outra corrente mental que te porá em relações com gente mais afortunada e feliz.
Quando não souberes o que deves fazer em algum negócio ou outro assunto,
sem poderes ou nem saberes tomar uma resolução decisiva, uma determinação
bem concreta, é melhor esperares e nada fazeres. Afasta da tua mente tudo
quanto te incomodar e sobretudo a ideia do que tanto te preocupa e dá cuidado;
pois nem por isso se enfraquecerá o teu projeto e propósito. Enquanto esperas,
vai acumulando forças que poderás empregar ao serviço desse mesmo plano.
A resolução que aguardares há de vir, mas do Poder Supremo, vindo um dia
qualquer para ti sob a forma de uma ideia nova, uma inspiração ou um
acontecimento inesperado e muito oportuno.
Podes, pois, afirmar não teres perdido o teu tempo, enquanto estiveste na
expectativa. Além das ideias novas ou da inspiração adquirida, tens também o
que a tua mente, durante todo esse tempo, pode atrair a ti.
Quando, em alguma empresa, depositamos toda a nossa confiança em um ou
diversos indivíduos e não no Poder Supremo, colocamo-nos inteiramente fora do
caminho que devia conduzir-nos ao êxito mais completo. Estamos, na verdade,
transviados.
O verdadeiro triunfo obtido pelo homem, na vida, consiste em obter, juntamente
com as riquezas materiais, saúde perfeita e vigorosa, e um incremento constante
e ascendente em seus poderes e faculdades para se transformarem em
realidades os maravilhosos acontecimentos que os homens de hoje denominam
milagres, possibilidades que eles nem sequer podem compreender ainda.
Não fales a ninguém dos teus negócios, dos teus planos e projetos, nem de coisa
alguma que, de longe ou de perto, se possa relacionar com eles, a não ser que
tenhas a certeza absoluta, a plena convicção de que os teus interlocutores
desejam tanto a tua fortuna como tu próprio a desejas.
Não fales a ninguém que te não preste a devida e benévola atenção, pois cada
uma das palavras que então disseres seria uma força inteiramente perdida,
desbaratada, sendo limitadíssimo o número daqueles a quem podes falar sobre
o que te diz respeito, proveitosamente. Mas um bom desejo de um verdadeiro
amigo, se ele te escutou atentamente e de boa vontade, dez minutos que fosse,
constituirá para ti uma força viva, enérgica e ativa, que te auxiliará em teus
projetos e muito contribuirá em teu favor. E se o teu projeto for razoável e justo,
podes ficar certo de que serás ajudado por aqueles que houverem merecido a
tua confiança. O teu ser espiritual, o teu sentido interno ou pressentimento, te
indicará, sem sombras da menor dúvida, sem a menor hesitação, quem são
aqueles em quem podes confiar ou não.
Quando retamente implores justiça para ti próprio, tu a pedes igualmente para
todos os outros homens.
Se, porém, consentes em ser iludido ou dominado por outrem, quem quer que
seja, sem protestar interna ou externamente, tornas-te cúmplice da escravidão e
do logro comum.
As pessoas habitualmente murmuradoras, bisbilhoteiras, que em tudo deitam
malícia, que falam constantemente e sem critério de tudo, sendo indiscretas,
destituídas de senso comum, sempre maledicentes, vendo e esmerilhando todos
os escândalos e divulgando-os por toda parte, geram uma força especialmente
produtora de escândalos, murmurações e mal-estares; e os elementos que
enviam tão impiedosamente ao espaço voltam imediatamente do ricochete para
elas, prejudicando-lhes sobretudo o corpo, a alma ou a mente.
É muito mais útil falar com os outros de coisas produtoras do bem e do progresso
moral, artístico ou social do que de misérias e da vida alheia. Nunca devemos
esquecer-nos de que cada uma das nossas frases, cada um dos nossos
pensamentos expressos por meio de palavras é uma força espiritual que atua
sobre os nossos semelhantes, benévola ou malevolamente, conforme a natureza
dela.
Dez minutos gastos em maldizer a tua sorte ou a invejar a sorte dos que são
mais felizes e afortunados do que tu, a falar mal deles, serão, sem mais nem
menos, dez minutos gastos no desperdício da tua própria força, da tua própria
saúde e fortuna.
Cada pensamento de inveja ou de ódio que envias ao teu próximo é uma flecha
que cruza o espaço, volvendo depois ao seu lugar de partida, para te vibrar
também um golpe mortal. O sentimento de ódio e inveja que experimentamos,
ao vermos outros que passam em belas carruagens e vivem no meio do luxo e
da opulência, ou têm todos os predicados e regalias que tornam a vida suave e
feliz, ou ocupam elevadas e brilhantes posições em qualquer das esferas da
sociedade e da atividade humana, seja na política, nas finanças, nas artes ou
nas letras, aos quais nós julgamos mal e increpamos de nos humilharem e
fazerem sombra, por não podermos atingir essas posições de destaque, que os
tornam sobranceiros a nós, esse ódio, repito, representa uma enorme porção de
força mental despendida inutilmente e, além disso, com esse louco e cruel modo
de proceder, inutilizamos a nossa tranquilidade de espírito e coração e só
contribuímos para a destruição da nossa própria ventura, saúde e fortuna no
porvir.
Se o teu hábito mental predominante tem sido esse, não é provável podê-lo
modificar de todo e de um instante para outro. Porém, convencido, finalmente,
do dano que esse péssimo feito mental te causa, uma nova força fluirá para ti,
destruindo, pouco a pouco, a tua velha mentalidade e criando uma mentalidade
nova. Essa transformação, porém, será indubitavelmente lenta e gradual. O
aposento mais íntimo e retirado da tua casa é o mais propício para servir de
gerador da tua própria força ou energia espiritual, ou antes, da essência e
substância que há de constituir o teu novo Eu.
Se tudo estiver em desordem no teu quarto, não encontrando nunca ao alcance
da tua mão qualquer objeto de que necessites, significa isso, com toda certeza,
que tua mente está no mesmo estado desordenado, resultando daí que, quando
a tua mente necessitar e tiver de influir sobre os outros para bom andamento e
desenvolvimento dos teus projetos, a sua ação será, sem dúvida alguma, muito
menos eficaz e positiva, em virtude do seu estado de desordem e indecisão, do
seu desequilíbrio e da sua constituição excessivamente desorganizada.
O estado constante de mau humor, de suspeita, de auto-desconfiança,
constituem uma verdadeira doença.
A mente que se acha sujeita a esses estados perniciosos em qualquer grau,
pode dizer-se que está verdadeiramente doente, nesse mesmo grau. O espírito
enfermo torna enfermo também o corpo. São numerosíssimos os doentes
verdadeiros que não estão de cama.
Quando estiveres de mau humor, pensa que a tua mente está realmente doente
e pede com toda veemência e sinceridade que ela se restabeleça depressa.
Quando disseres a ti próprio: “Vou fazer uma visita agradável ou passar um
agradabilíssimo dia no campo”, o que em verdade tu fazes é enviar diante do teu
corpo, à guisa de benfazejos batedores, os elementos que te hão de tornar
agradável a visita ou a projetada ida ao campo.
Se, antes da tua partida, te encontrares de mau humor ou sob o domínio do
temor ou apreensão de alguma coisa desagradável que te irá suceder, de um
mau pressentimento, enfim, é fora de dúvida que diante dos teus passos envias
os elementos ou agentes invisíveis que te hão de produzir incômodo, desgosto
ou pelo menos grande contrariedade.
A natureza dos nossos pensamentos, ou antes, o nosso estado mental é que
antecipadamente determina o bem ou o mal que nos há de suceder no futuro.
À medida que mais frequentemente se produzir em nós aquele estado mental,
menor necessidade teremos de o provocar artificialmente, até que, por último,
por si mesmo ele se produzirá chegando até o converter-se numa parte da nossa
própria natureza e já não poderemos, então, abandoná-lo ou afastar-nos dele,
nem evitar que se produza.
O nosso verdadeiro Eu é o que não podemos ver, nem ouvir, nem tocar,
mediante os nossos sentidos físicos: a Mente. O corpo é apenas o seu
instrumento, por meio do qual ela pode agir no mundo sensível e visível.
Podemos afirmar que somos constituídos por um conjunto de forças que
denominaremos pensamentos.
Quando esses pensamentos são maus ou extemporâneos, só nos trazem dores,
contrariedades e toda espécie de amarguras e infortúnios. Portanto, devemos ir
substituindo esses maus pensamentos por outros, cada vez mais puros,
melhores e salutares, sendo apenas suficiente, para isso, formular o veemente
desejo de que sobre nós venha fluindo uma corrente mental de ordem superior,
e ela certamente sobre nós fluirá, tomando-nos cada vez mais felizes, mais
afortunados, mais sadios e joviais.
Na verdade, o homem nunca cessa de achar-se no verdadeiro estado de súplica
ou prece. Quem escreve este livro não considera como oração ou prece qualquer
fórmula ou agregado de palavras fixas e invariáveis. A pessoa, cuja mentalidade
esteja sempre inclinada a ver tudo pelo pior lado da vida, por um prisma de cores
sempre sombrias, rememorando todos os dias e reavivando, por assim dizer, as
vicissitudes, infortúnios e catástrofes que lhe despedaçaram a vida e dilaceraram
o seu coração nos tempos idos, nada mais faz do que rogar para que outras
desditas e novos infortúnios, talvez ainda mais pungentes, se produzam no
futuro. E se, ao olhar para o dia de amanhã, essa pessoa só sabe ver tristeza,
desespero e trevas, roga igualmente para que tais tristezas, infelicidades e
escuridão se produzam no futuro, as quais, dadas realmente essas condições,
não deixarão efetivamente de se produzir.
Quando vais a qualquer parte, não conduzes só o teu corpo contigo; levas
também, o que é bem mais importante, o teu pensamento ou feitio mental, para
onde quer que vás, e este estado mental ou pensamento, embora sejas de
poucas palavras ou permaneças até silencioso, exercerá sobre os outros uma
impressão que te será propícia ou adversa e, conforme atuar sobre as outras
mentes, produzirá para ti resultados favoráveis ou desfavoráveis, em harmonia
com a sua própria natureza ou caráter.
O que pensas é de bem maior importância que o que dizes e fazes, pois que o
teu pensamento nem por um instante detém a sua ação, benéfica ou maléfica,
sobre as outras mentes ou sobre as coisas em que se fixa durante um lapso de
tempo mais ou menos longo.
O pensamento ou estado mental mais útil e favorável para ti e de consequências
mais imediatas e permanentes é o desejo sincero de ser justo e bom. Este desejo
não é nenhum sentimento, segundo geralmente se acredita, mas, sim, uma
verdadeira ciência; porquanto a índole da tua mentalidade determina ao redor de
ti os acontecimentos, atrairá pessoas e oportunidades, de acordo com ela
própria, com tanta e ainda maior exatidão que o estado da atmosfera determina
bom ou mau tempo.
Ser justo é atrair a justiça e a felicidade perpétua. É conveniente que tu próprio
faças a experiência.
Ser justo, contudo, não consiste em fazer tudo quanto os outros pensam ou
dizem que é justo. Se não tiveres uma diretriz segura que te indique sem
hesitação o bem e o mal, nada mais fazes do que imitar os outros e agir em
harmonia com as suas opiniões.
A tua mentalidade está continuamente atuando sobre outras mentalidades, ora
em sentido propício, ora prejudicial para ti, quer estejas acordado, quer
dormindo.
O teu verdadeiro Eu, sob a forma de pensamento, viaja e cruza o espaço em
todas as direções, com muito maior velocidade do que a corrente elétrica.
Pode-se ainda afirmar que, enquanto o teu corpo se encontrar sob a ação do
sono é que a tua mente está mais apta e em melhores condições para a
aquisição das suas qualidades mais delicadas. Desta forma, se te entregares ao
sono com o coração opresso e cruciado de angústia, ou de desespero e
descrença em tudo o que é bom, a tua mentalidade ver-se-á arrastada, durante
o teu estado de inconsciência física, aos domínios sobremodo nocivos do
desalento, da angústia e do desespero, o que, sem dúvida, te atrairá, em primeiro
lugar, os elementos, e, mais tarde, a realidade de todo o mau êxito, da derrota e
da ruína, consequências inevitáveis de todos os estados de angústias e
desesperança.
A melhor garantia de saúde achamo-la contida naquele sábio conselho da Bíblia:
“Não permitas que o sol se ponha sobre a tua ira.” Todo estado mental acarreta
para a nossa carne, os nossos ossos e o nosso sangue, elementos e condições
de vida idênticos ao seu próprio caráter.
As pessoas que passam anos após anos vivendo sempre tristes e desalentadas,
estão a fazer aderir de contínuo ao seu corpo os elementos da tristeza e da falta
de fé em si próprias, não sendo, depois, fácil destruir-lhes nem evitar-lhes os
péssimos resultados.
O hábito da impaciência mental enfraquece mais corpos e mata mais pessoas
do que geralmente se pensa.
Se, ao te levantares pela manhã, te vestes com grande precipitação e atas os
teus sapatos atabalhoadamente para acabares essa pequena tarefa mais
depressa, colocas-te em condições especiais para permaneceres o dia inteiro no
prejudicialíssimo estado de impaciência.
O que, então, deves fazer é implorar ao Supremo Poder para te afastar dessa
perniciosa corrente mental e fazer-te entrar na da calma e do repouso.
Entregares-te aos teus negócios nesse terrível estado de impaciência mental,
far-te-á por certo perder muitíssimo dinheiro.
O poder para manteres o teu corpo sempre forte e vigoroso, o poder para
exerceres a tua influência e atuares proficuamente sobre as pessoas que te
rodeiam ou são dignas de teu interesse, o poder do êxito em todas as empresas,
enfim, só procede desse estado de repouso e calma, verdadeiro restaurador da
mente, o qual, enquanto o teu corpo descansa, trabalhando relativamente pouco,
deixa que o espírito veja, com toda a nitidez e clareza, o que há de suceder para
o teu bem ou mal.
Se, ao despertares pela manhã, quem quer que sejas, leitor amigo, homem ou
mulher, começas logo a pensar fixa, e obstinadamente em tudo o que hás de
fazer naquele dia, e até no dia de amanhã, sentindo-te já cheio de angústia e
ansiedade pelo muito que tens que fazer, os cuidados da casa a teu cargo, as
cartas que deves escrever, as pessoas com quem tens de tratar, os negócios
dos quais é obrigado a te ocupares, etc., senta-te comodamente em qualquer
cadeira, trinta segundos que sejam e pensa, ou pronuncia mesmo, em voz alta:
Não quero deixar-me acabrunhar, não consinto que o meu espírito se deixe
subjugar nem arrastar por tantas obrigações juntas ao mesmo tempo. Agora,
começarei a fazer uma coisa só, uma vez, e deixo que as outras sigam
normalmente, até que eu tenha terminado o que tenho entre as mãos.
Pões assim do teu lado todas as probabilidades de ficar bem feito tudo quanto
dizeres, e, fazendo bem a primeira coisa que estás fazendo, naturalíssimo e
provável é que também todas as outras fiquem bem feitas.
Além disso, a corrente mental que tu atraias com este continuado exercício, te
porá em comunicação com pessoas que te hão de servir muito mais, te serão de
grande auxílio e de muito maior utilidade e proveito do que todos aqueles de que
te verias rodeado, se em ti predominasse um estado mental de impaciência.
Todos nós acreditamos hoje num número enorme de mentiras. Crença
inconsciente é esta — é certo — porque ninguém nos tem demonstrado o erro e
a falsidade dela. Desta forma vivemos e agimos em harmonia com este
inconsciente erro, e as dores e misérias nada mais são do que as tristes
consequências dessas crenças errôneas.
Roguemos, pois, todos os dias ao Altíssimo para que nos seja concedida a
capacidade e a indispensável sabedoria para descobrirmos as nossas falsas
crenças, os nossos erros, e, se verificarmos que em nós se abriga muito maior
número de erros do que acreditávamos possuir, não desanimemos, tendo em
consideração que nem todos podem ser descobertos e corrigidos de uma vez.
Nunca tomes como sintoma de doença o sentimento de fadiga ou de profunda
languidez que, durante alguns momentos, em ti se manifesta. Isso indica ou
denota simplesmente que a tua mente necessita e pede repouso, fatigada por
alguma prolongadíssima e rotineira ocupação.
Se o teu estômago estiver desarranjado, torna responsável por isto só a tua
mente, que é a única culpada, e diz, íntima e mentalmente a ti próprio: “A
desagradável impressão que neste momento estou experimentando provém de
qualquer erro da minha própria mentalidade.”
Se te sentires débil, nervoso ou demasiadamente excitado ou ainda muito
abatido, não culpes dessa má disposição o teu corpo. Dize antes: “Deve-se isto
a um estado especial da minha mente, que é a única causadora desta doença
de caráter físico”, e pede ao Supremo que te liberte desse estado e em ti
determine outro melhor.
Se julgares que qualquer remédio te pode fazer bem positivo, toma-o sem receio,
mas, enquanto o estás tomando e ainda depois, pensa com toda energia e
persistentemente: “Tomo este remédio, não para curar o meu corpo, mas para
curar o meu espírito.”
A criança que vês a teu lado é apenas uma mentalidade que, tendo-se despojado
do seu corpo físico de que desfrutou numa existência física anterior, vivendo
talvez num país distante do nosso e pertencendo até a uma raça diversa,
adquiriu um corpo novo, como cada um de nós o fez na sua infância. Procura
fazer com que essa criança não se habitue a pensar desprezivelmente de si
própria, porquanto, se essa for a sua atitude mental característica e costumeira,
os outros o sentirão perfeitamente, habituando-se a considerá-la, primeiro
enquanto criança e já depois de adulto, como um homem de mui pouco valor e
pouquíssimo digno de estima.
Nada prejudica tanto o indivíduo como o menosprezo de si próprio e não são
poucas as crianças que viram destruída a sua existência, por se estar
habitualmente zombando delas, metendo-as a ridículo ou ralhando-lhes a cada
instante, por tudo, depreciando-as sempre, a ponto de lhes incutir no espírito a
firme convicção de que são apenas uns seres desprezíveis, sem préstimo nem
valor algum.
Educa os teus filhos a serem confiantes e enérgicos para vencerem todas as
dificuldades, criando neles o gosto de as vencer, até nos seus estudos e,
principalmente, incute-lhes a ideia de ter sempre plena confiança no bom êxito.
Isto mesmo devemos fazer conosco próprios, pois nada mais somos, na
verdade, do que verdadeiras e eternas crianças, enquanto vivemos neste
mundo, embora com um corpo físico mais velho alguns anos do que o seu.
No dia de hoje, apenas temos uma ideia muito vaga e indecisa do que a vida na
realidade significa, e ainda das possibilidades que guarda em reserva para nosso
benefício e bem-estar. Uma das faculdades ou poderes da vida relativamente
perfeita que a Humanidade desfrutará nos tempos vindouros consiste na
conservação de um corpo material durante tanto tempo quanto a mente ou
espírito desejar, corpo que estará inteiramente isento da enfermidade e da dor,
e que poderá tomar ou deixar à vontade.
Dizer a respeito de qualquer coisa: Há de fazer-se, é o mesmo que pôr em ação
uma invisível força para que essa tal coisa se faça.
Enquanto a nossa mente ou espírito se achar em concordância com o estado
significativo desse dever fazer-se — tenhamos ou não na imaginação o objeto
do nosso desejo, aquilo a que verdadeira e veementemente se aspira — a força
posta em movimento não cessa um instante sequer a sua ação até conseguir a
realização ou materialização do seu desejo.
No que devemos por especial cuidado é em fixar bem o alvo ou objeto em que
se há de aplicar a sua ação, o tal deve fazer-se, pois de outro modo poderia
trazer-nos os mais tristes e nefastos resultados, e com muita frequência no-los
traz hoje.
Em todos os teus projetos e aspirações, hás de por toda a tua inteira e plena
confiança no Poder Supremo e na Sabedoria Infinita.
O que tu mais desejares pode, sem essa divina intervenção, converter-se, para
ti, num verdadeiro castigo. Devemos portanto manter-nos no estado mental de
quem diz:
Existe um Poder que conhece muito melhor do que eu o que me há de
proporcionar a felicidade verdadeira, a felicidade eterna. Se a realização do meu
desejo não for para meu benefício, que Ele não permita que se realize, e dessa
forma eu só ganharei com isso.
Se concederes pensamentos de afeto e simpatia a todos os que o solicitam, com
certeza te restará mui pouca energia para a ti próprio ajudares. É absolutamente
necessário termos grande cuidado na escolha daqueles a quem entregamos o
nosso amor e todo o nosso pensamento. Uns podem elevar-nos até ao sublime
e ajudar-nos a subir os pináculos da felicidade, da glória e até às culminâncias
do poder, de tudo o que há de mais elevado; outros forçam-nos a resvalar até ao
mais baixo e despenhar-nos nas profundezas do mais negro e pavoroso abismo,
de onde muito dificilmente ou nunca mais poderemos sair.
Roguemos, pois, ao Supremo Espírito do Bem que se digne dar-nos a necessária
sabedoria para bem e de pronto conhecermos quem merece e quem não merece
o nosso afeto mais íntimo, puro e acrisolado.
Sendo cada um de nós, como é, parte do Poder Supremo, podemos considerar-
nos cada um de nós parte melhor e mais perfeita desse Todo, sem que ninguém
possa igualar-nos nem sequer exceder-nos na expressão dos nossos especiais
poderes e faculdade da inteligência. Nos tempos vindouros, o homem dirigirá
como senhor absoluto o mundo da sua mentalidade, e cometerias, pois, um
grande pecado contra ti próprio se te degradasses ou envilecesses diante dos
outros, mesmo que fosse mentalmente.
Idolatria é a cega adoração de alguma coisa ou de alguém que não é a Força
Infinita, de onde unicamente podemos extrair a energia vital e a inspiração que
são a fonte da verdadeira vida.
O pensamento de uma mulher, fluindo cheio de afetuosa simpatia e sincero amor
para a mentalidade de um homem e cujas aspirações e desejos sejam idênticos
aos seus, será para ele um inesgotável manancial de saúde física e de força
intelectual. O pensamento feminino, que deste modo dá força e sutileza à
inteligência do homem, é um elemento tão real, como as coisas que se tornam
visíveis ou tangíveis. Se estiveres unido ou pensares demasiado numa mulher
que te é mentalmente inferior, indubitavelmente a tua inteligência se embotará,
obscurecendo-se e, talvez, até a tua saúde física padeça muito, perdendo tu,
assim, grande parte dos teus próprios e peculiares poderes.
Homem ou mulher, quem quer que tu sejas, que me estás lendo, a tua vida não
estará perfeita e completa, não progredirás rapidamente, nem ascenderás
facilmente aos mais elevados e perfeitos poderes, enquanto não conseguires
reunir-te e juntar-te ao ser que, forçosamente, tem de formar o teu complemento
eterno e espiritual, o qual só podes encontrar no sexo oposto.
No ato de comer e beber, recordemo-nos sempre de que, com cada bocado que
ingerirmos, ingerimos sempre também os elementos espirituais correspondentes
ao estado mental em que nos achamos enquanto estamos à mesa.
Convém, pois, que estejas sempre alegre e cheio de confiança em ti próprio, nas
tuas empresas, durante as tuas refeições, e se, por qualquer motivo, não
puderes obter da tua mente esse feliz estado, roga ao Poder Supremo a força
necessária para o conseguires.
Pede, pede sem descanso, noite e dia, ao Poder Supremo, ao Infinito Espírito do
Bem, a mais alta e perfeita sabedoria — o maior dos bens e a mais duradoura
das felicidades — reconhecendo, na tua súplica ou prece, a superioridade
indiscutível da Sabedoria Eterna e Onisciente, sobre a tua própria sabedoria.
Isto é exatamente o mesmo que te colocares, com toda a certeza, na corrente
espiritual de maior e mais robusta saúde mental e física. Porque começa, então,
a fluir para ti uma nova e mais poderosa corrente de ideias, a qual te irá tirando,
pouco a pouco, dos teus erros, enveredando-te pelo estreito e verdadeiro
caminho da verdade.
Esta nova corrente de ideias ir-te-á encaminhando gradualmente pelas melhores
sendas no porvir, proporcionando-te os mais diversos meios de vida, pondo-te
em contato com toda espécie de pessoas e coisas boas, como tudo quanto te
possa ser útil, fazendo-te travar relações com as pessoas que te são
necessárias, até que, finalmente, te unirá intimamente ao ser expressamente
feito para ti, à alma irmã gêmea da tua, ao ser único, enfim, que deve e tem de
construir o teu verdadeiro e eterno complemento.

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