POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá

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Rogério Almeida

Belém-PA 2012

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Livre pensar
A vida é um pé de manga Um dia tu manga (s) de mim Noutro dia eu mango de tu E a vida Manga de nós Todos os dias
Dito popular ouvido em PE

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In memoriam de Joacy Jamys (quadrinhista, programador visual e grande pessoa humana). Demasiadamente humano, falecido no ano de 2007. Um ano antes de partir diagramou a minha primeira publicação, Araguaia-Tocantins: Fios de uma História camponesa. Dedico a presente obra aos anos de inquietude da educadora Rosa Elizabeth Acevedo Marin (NAEA/UFPA), à militância política de Raimundo Gomes da Cruz Neto (Raimundinho), Emanuel Wamberg (Manu), Marluze Pastor e ao Padre Roberto de Valicourt. Agradecimentos: serei eternamente grato à generosidade de Albano Gomes e Maria de Nazaré Barreto Trindade pela revisão da obra, aos alunos de publicidade da Unama Cleverson Velasco e Carolina Ongaratto pela criação da capa e ao professor Marcus Dickson pela supervisão e ao Dr. Jean Hébette, por prefacia-la. A Rosa Rocha pelo afeto e companheirismo Aos irmãos e irmãs da rede Fórum Carajás Aos amigos/as do Núcleo Piratininga de Comunicação- NPC-RJ Ao Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (CEPASP), ONG de Marabá, Rosa Rocha, Irmão Antônio (Justiça nos Trilhos) e Thiago Cruz, pela cessão das fotos.

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:: E X P E D I E N T E:: POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a (s) Amazônia (s) de cá Capa – Agência Unama – profº Marcus Dickson, Cleverson Velasco e Carolina Ongaratto Revisão – Albano Gomes e Maria de Nazaré Barreto Trindade Fotos: arquivo do Cepasp, Rogério Almeida, Rosa Rocha, Irmão Antônio (Justiça nos Trilhos) e Thiago Cruz Contato do autor – araguaia_tocantins@hotmail.com Todos Direitos Reservados a Rogério Almeida

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Almeida, Rogério Henrique POROROCA PEQUENA: marolinhas sobre a (s) Amazônia (s) de cá / Rogério Henrique Almeida. – Belém, 2012. 212 f.: 15x21. cm ISBN: 978-85-913900-0-7 Inclui bibliografias 1. Grandes Projetos - Amazônia. 2. Conflitos agrários Amazônia. 3. Mineração – Amazônia. 4. Agrobiodiversidade Amazônia. 5. Projeto de desenvolvimento- Amazônia. I. Título. CDD 21. ed. 336.09811

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SUMÁRIO
Sobre o autor .............................................................................. 09 Prefácio ........................................................................................ 11 A Gênese do Pororoca .............................................................. 13 01ª Parte - ESTADO E OS GRANDES PROJETOS ......... 17 1 - Nova SUDAM? ..................................................................... 17 2 - BR-163- dias piores virão? ...................................................... 22 3 - Grandes Projetos na Amazônia: mineração em Juruti e a produção de energia ............................................... 28 4 - Geração de energia na Amazônia: caso de Estreito em questão .................................................................................... 35 5 - Siderurgia em crise: o vendaval da economia especulativa e a mineração na Amazônia ..................................... 50 02ª Parte - ARAGUAIA - TOCANTINS TERRITÓRIO EM DISPUTA ................................................ 64 1 - Araguaia - Tocantins: fragmentos de 20 anos de luta pela terra ............................................................................ 64 2 - Bico do Papagaio: dias de sangue, dias de UDR, 24 anos atrás ....................................................................... 72 3 - A luta pela terra na Amazônia: camponeses/as, a família Mutran, Daniel Dantas e outros sujeitos ...................... 77 4 - Agrobiodiversidade na Amazônia: movimentos sociais apontam agroecologia como forma de desenvolvimento .......... 100 5 - O julgamento do caso João Canuto: tudo uma ilusão? ....... 106 6 - Carajás, o novo cenário? ....................................................... 113 7 - Amazônia, Pará e o mundo das águas do baixo tocantins .... 122 8 - Carajás – interesses da Vale pressionam territórios de camponeses e indígenas ......................................................... 132 03ª Parte - BELÉM - A CIDADE ......................................... 114 1 - Coletivo Rádio Cipó: a inquietação cultural na quebrada da Amazônia ............................................. 141 2 - Bosque Rodrigues Alves, o jardim botânico da Amazônia: 120 anos de história ............................................. 148

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04ª Parte – ENTREVISTAS ................................................... 161 1 - A Amazônia sob a análise de Lúcio Flávio Pinto ................. 161 2 - Amazônia e as novas frentes de expansão mineral e do agronegócio no sul e sudeste do Pará entrevista com Batista Afonso- CPT/Marabá ............................ 192 3 - Extrativismo mineral em Juruti: passivos sociais e ambientais e a peleja dos nativos contra o grande projeto - entrevista com Gerdeonor Pereira camponês do oeste do Pará ......................... 199 4 - Maranhão: as vísceras do sertão - entrevista com Antonio Gomes (criolo)- ativista pastoral do oeste do MA ............................................................. 205 5 - Baixo amazonas, grandes projetos e as comunidades tradicionais – entrevista com Irene Pinheiro - quilombola ...................................................... 210

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Sobre o autor
Rogério Almeida é graduado em Comunicação Social/UFMA, com especialização e mestrado em planejamento pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA/UFPA), com pesquisa laureada com Prêmio NAEA/2008. Tem produzido artigos, reportagens e entrevistas sobre as dinâmicas de grandes projetos na Amazônia, em particular no Pará. Foi articulista do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE), Ecodebate e colaborador da rede Fórum Carajás. Sempre que pode anima o blog http: //www.rogerioalmeidafuro.blogspot.com/ Gosta de samba, choro, maracatu, bumba meu boi e outros batuques.

Email para contato: araguaia_tocantins@hotmail.com

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PREFÁCIO
Em “POROROCA PEQUENA: Marolinha sobre a(s) Amazônia(s) de cá”, o jornalista Rogério Almeida, bem conhecido entre nós por sua militância junto aos movimentos sociais no campo pinta uma paisagem das contradições sociais e políticas que nos afetam, a nós, moradores da imensa Amazônia irrigada por uma igualmente imensa bacia hidrográfica. Tão imensa e diversificada do ponto de vista físico, econômico, social, político e, principalmente, cultural, que autores – notadamente geógrafos, como Ariovaldo de Oliveira – a desdobram, como Rogério Almeida prefere desdobrála - o que lhe permite não esconder sua particular simpatia pela Amazônia dos rios Tocantins e Araguaia, como se estes dois afluentes do Amazonas, já por só imensos, oferecessem uma espécie de síntese de todas elas. Apesar da “modéstia” que o autor atribui – modestamente – a seu livro, vários de seus textos já foram apresentados em reuniões e encontros científicos, e mereceram publicações em revistas reconhecidas como Caros Amigos, Democracia Viva do IBASE e do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. A coletânea reúne 20 trabalhos distribuídos em quatro partes: a primeira, referida aos chamados Grandes Projetos, cada vez maiores na dimensão dos seus impactos sociais; a segunda, mais substancial, traça a audaciosa saga dos pequenos produtores rurais por aí imigrados em confronto com o latifúndio especulativo e ilegal; na terceira parte, o autor dá um pulo rápido para a cidade de Belém, antes de concluir, na quarta parte, com cinco entrevistas com testemunhas significativas de nossa história recente. Esta paisagem sugere uma arte de pirotecnia com um fogo de artifício de flashes brilhantes e percutidores lançados em todos os horizontes da vida sofrida do campesinato amazônico. Destes flashes se destaca uma quantidade de números preciosos coletados em fontes confiáveis. A narração flui, fugindo à linguagem acadêmica a qual o redator

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teve que se submeter na sua dissertação do mestrado apresentado ao Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA), preferindo um estilo jornalístico mais florido, recheado de metáforas, às vezes tangentes a certo preciosismo. Na sua “modéstia”, o livro ora publicado pode ser muito útil para leitores que, sem quererem se aprofundar no assunto, fazem questão de se manter a par dos eventos mais significativos da região nos último cinco anos. Muito útil, sobretudo, para professores do ensino fundamental das diversas disciplinas, assim como para estudantes universitários. Neste sentido, referências mais explícitas à literatura citada en passant seriam bem-vindas. Espera-se do jornalista Rogério Almeida que, dando sequência a seu livro anterior “AraguaiaTocantins. Fios de uma história camponesa” (2006) e deste novo nos gratifique, também, com análises mais detidas nas quais se treinou nos tempos de seu mestrado. Jean Hébette – Professor da UFPA

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A Gênese do Pororoca
A Amazônia é um vasto mundo. Mundo irrigado por rios e gentes. Gentes de conhecimento milenar. Povos originários que desde os primeiros colonizadores socializam as mazelas da “conquista” do novo mundo, mas que apesar da condição subalternizada não deixam de se sublevar. Gentes que nas narrativas inaugurais sempre foram tratadas como inferiores, rudes, obtusas e selvagens. Gentes que foram escravizadas, assassinadas e catequizadas, e que apesar das condições contrárias insistem em suas manifestações culturais, mobilizam esforços em várias formas de organizações sociais e políticas. Seja em ilhas ou terra firme, ou em locais marcados pela realidade do estuário, paraná-mirins, furos, rios ou rodovias. E ainda em vilas, em quilombos, em aldeias, em projetos de assentamento rurais e ocupações e reservas extrativistas. Em pequenas, médias e grandes cidades. Gentes que alguns meios de comunicação insistem em tratar como exuberantes ou exóticos. Uma ressignificação das visões preconceituosas do colonizador. Uma fração das realidades que compõe o Pará, Maranhão e Tocantins dá corpo a este livro, em particular as do Araguaia Tocantins. Trata-se de região considerada de colonização recente, onde corporações de mineração, de monoculturas de grãos, de construtores de hidrelétricas e de pecuária pressionam territórios de populações consideradas tradicionais e camponesas. A identificação com as dinâmicas da região ajudaram a cimentar a presente iniciativa. O ânimo tem âncora ainda no reconhecimento da produção através da publicação parcial ou na íntegra dos artigos, reportagens e entrevistas em espaços acadêmicos ou jornalísticos. A revista paulista Caros Amigos, a rede Fórum Carajás, o Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (LPP/UERJ), o site Ecodebate, a Revista Democracia Viva do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE/ RJ), a Revista Estudos Avançados da USP foram alguns dos espaços que ajudaram na publicização desse material. Registre-se a criação do blogue FURO, iniciado em setembro de 2008, além da Revista Sem Terra (impressa). Tem-se ainda a

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publicação de material e participação no 3º Encontro da Rede de Estudos Rurais, ocorrido em Campina Grande, Paraíba, em setembro de 2008, o artigo Araguaia-Tocantins: fragmentos de 20 anos de luta pela terra. O material ora publicado compreende produções realizadas entre os anos de 2003 a 2010. Em algumas passagens do presente registro é possível encontrar inflexões sobre o papel do Estado, as tensões entre os diferentes agentes que disputam o território e as riquezas nele existentes e o modelo de projeto de desenvolvimento. Alguns trabalhos exigiram empreitada em campo, para se verificar as relações entre os grandes empreendimentos e as populações locais. Foi assim no caso da ocupação da fazenda Maria Bonita em Eldorado do Carajás, sudeste do Pará. A presente reportagem registra os protagonistas antigos e recentes na disputa pela terra no sudeste do Pará. Tem-se aqui o Estado, a família Mutran, o MST e o banqueiro Daniel Dantas, indicado como novo ator no cenário da disputa pela terra no estado. O mesmo é indiciado por uma série de ilícitos, como formação de quadrilha, evasão de divisas e crime contra o mercado financeiro. Através da empresa Agropecuária Santa Bárbara, passou a controlar inúmeras propriedades na região. As terras em questão um dia foram castanhais livres, que passaram a ser apropriadas indevidamente através do expediente jurídico de aforamento. Ferramenta jurídica que concede o direito ao uso da terra apenas para fins de extrativismo da Castanha do Pará, e não o direito de posse, como os negociadores Mutran e Dantas querem fazer crer. Outros casos foram o polo de gusa de Pequiá em Açailândiaoeste do Maranhão e a construção da hidrelétrica de Estreito, na mesma região. O primeiro empreendimento nos remete a mais de duas décadas, surgido através do Poloamazônia, quando a política nacional instalou na região a perspectiva de desenvolvimento a partir dos polos madeireiros, de mineração e pecuária. Já o caso da hidrelétrica de Estreito atualiza a intervenção do Estado numa orientação de desenvolvimento a partir de eixos de integração, onde a geração de energia desponta como sendo um deles. Enquanto, no primeiro caso, a Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM) era o agente de indução da economia, no segundo, tem-se o Banco Nacional de

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Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), como ponta de lança, não só na região, mais em dimensões continentais. Ainda em campo tem-se o registro da experiência em agroecologia desenvolvida na região do Baixo Tocantins, Pará, iniciativa empreendida pela ONG Associação Paraense de Apoio às Comunidades Carentes (APACC) com sindicatos de trabalhadores rurais. A ambição de buscar a transição de práticas consideradas tradicionais do uso dos recursos da floresta para práticas agroecológicas teve início nos primeiros anos da década de 2000. O trabalho de campo foi uma necessidade de se presenciar os passivos sociais e ambientais induzidos pelos grandes projetos e aspectos aplicados pela APACC no Baixo Tocantins. E um aprendizado ao ouvir alguns invisíveis: trabalhadores rurais, donas de casa, desempregados, idosos, prostitutas, moto-taxistas, estudantes de graduação, donos de botequim, dirigentes sindicais e profissionais liberais como educadores e jornalistas. As dinâmicas dos mundos rurais dão corpo ao modesto projeto. A exceção é o capítulo dedicado à cidade de Belém. Duas reportagens pontuam nuances da metrópole. O primeiro trata de militância cultural centrada na música, a partir do grupo Coletivo Rádio Cipó. A trupe é nascida no bairro da Pedreira, conhecida zona boemia. Jovens e outros nem tão jovens somam em poesia e sonoridade numa produção original. Dona Onete e o mestre Laurentino, como reza o clichê, são as estrelas da companhia. O segundo texto recupera fragmentos dos 120 anos do Bosque Rodrigues Alves, um naco de floresta dentro da cidade. Um ponto de visita de turistas e das famílias de Belém. Assim como o Bosque do Museu Emilio Goeldi. O POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá foi puxado a fórceps, numa peleja desprovida de apoios institucionais, exceto amparos pontuais da rede Fórum Carajás. Vinte trabalhos integram a obra, entre artigos, reportagens e entrevistas distribuídos em quatro seções: 1ª Parte. ESTADO E OS GRANDES PROJETOS; 2ª Parte. ARAGUAIATOCANTINS- TERRITÓRIO EM DISPUTA; 3ª Parte. BELÉMA CIDADE e, finalmente, 4ª Parte. ENTREVISTAS com dirigentes sindicais e populares e assessores e uma com o jornalista Lúcio Flávio Pinto. Esta última, realizada com o auxílio luxuoso dos ex- colegas de mestrado do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA/

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UFPA), Guilherme Carvalho e Nanani Albino, a quem sou grato pela colaboração. As Amazônia (s) do Brasil são várias. Seria pretensão desejar um nome pomposo a este singelo trabalho, ante a complexidade de redes econômicas, políticas e sociais que se espraiam pela região na disputa pelo território e pela definição de seus projetos de desenvolvimento. Por isso a opção pelo nome adotado. A publicação é apenas um sopro sobre a vastidão de delicados cenários que conformam as dinâmicas econômicas, sócio-culturais e politicas da região. Espera-se que possa de alguma forma ser produtivo como fonte de pesquisa e debates. Ainda que modesto.

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01ª Parte

ESTADO E OS GRANDES PROJETOS
1 Nova SUDAM?

2 BR-163- dias piores virão?

3 Grandes Projetos na Amazônia: mineração em Juruti e a produção de energia

4 Geração de Energia na Amazônia: caso de Estreito em questão

5 Siderurgia em crise: o vendaval da economia especulativa e a mineração na Amazônia

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1 - Nova SUDAM¹? A corrupção é a primeira relação que se materializa ao pronunciar a palavra SUDAM. Tal realidade nem tanto reservada a bastidores e muito menos nova foi o que mais lhe deu visibilidade. Ninho de oligarcas da elite amazônica e empresários do Centro-Sul, íntimos com a prática do patrimonialismo, a SUDAM lhes serviu como uma galinha de ovos de ouro por mais de três décadas. As denúncias festejadas na imprensa em 2000/2001 nasceram do entrevero entre os “coronéis”, Antonio Carlos Magalhães da Bahia e Jader Barbalho do Pará, quando governava o país, Fernando Henrique Cardoso. Em sua certidão de nascimento SUDAM significa Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia. Juridicamente uma autarquia, criada através da Lei 5.173 de 27.10.1966, em substituição a Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA) (Lei n.º 1.806 de 06.01.1953). Posteriormente, a Agência de Desenvolvimento da Amazônia (ADA) veio substituíla em 02 de maio de 2001, por conta de inúmeras denúncias de corrupção. Prestes ao seu renascimento, após a aprovação no Congresso Nacional, ocorre interrogar que caminho a mesma seguirá. A autarquia atua no raio de nove estados da Amazônia Legal (Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Tocantins, Mato Grosso, Roraima, Rondônia e Maranhão). Tem a sua sede em Belém, capital do Pará. Não foi a pororoca de corrupção publicizada que levou à extinção da SUDAM. Na verdade a alteração de estratégia já existia há pelo menos quatro anos, com base técnica. Tudo resultado da nova concepção do papel do Estado exigida pela recente conjuntura da economia mundial, onde se prega a redução ao máximo do mesmo na economia. Bem como à crise fiscal e financeira que abala o país desde a década de 1980. Assim advoga parte da tese de doutoramento defendida em 2005, no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA), da Universidade Federal do Pará (UFPA), pelo economista,

1 Texto publicado originalmente no boletim eletrônico Notícias da Amazônia, da Secretaria do MST/Pará, n. 66, de 18 de janeiro de 2006 e posteriormente no site do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (LPP/UERJ).

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Sérgio Roberto Bacury de Lira, Morte e ressurreição da SUDAM: uma análise da decadência e extinção do padrão de planejamento regional da Amazônia. Na análise do pesquisador sobre a extinção da SUDAM em 2001 representou um oportunismo do Estado, que não colocou em debate a questão que seria central, o modelo de desenvolvimento regional com base em incentivos fiscais. O economista defende que a extinção da SUDAM resulta da desestruturação e do término de um modelo de planejamento regional brasileiro. Os registros das academias sobre a SUDAM sinalizam tratar-se de uma agência criada no sentido de promover o desenvolvimento regional e a integração da Amazônia ao restante do país com base em pesados incentivos fiscais às grandes empresas do Centro-Sul e mesmo internacionais. Acreditava-se na tese de que só assim seria possível o desenvolvimento regional, tornando a região um polo exportador interno e externo de produtos primários. A segunda etapa do processo de industrialização marcava o contexto da época, onde se verificava a associação do capital industrial nacional com o internacional. Modelo gerido pela escola cepalina (Comissão Econômica para América Latina e Caribe), conhecido como de substituição de importação, onde o Estado exerceu papel central. Ao se investigar tal modelo de planejamento desenhado no regime militar, cuja característica principal residia na verticalidade, temos entre os resultados: concentração de terra e renda, internalização de passivos sociais e ambientais, além de transferência de riquezas. Na “conquista” da Amazônia, outros vetores somaram-se aos projetos estabelecidos no Poloamazônia, pela SUDAM, uma das medidas elencadas no Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), que visava a implantação de projetos nos setores da pecuária, madeira, minério e obras de infraestrutura para a região. Ressalte-se o Programa Grande Carajás, que determinou a instalação da exploração de minério na Serra de Carajás, polos siderúrgicos, exploração de bauxita (matéria prima para a produção de alumínio), na região do Trombetas, oeste do Pará, construção da hidrelétrica de Tucuruí, sudeste do Pará, e instalação de fábricas de lingotes de alumínio no Pará e no Maranhão. Sedimentava-se assim a conquista da fronteira, marcada por uma

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abissal indiferença ao cidadão amazônico, numa região estabelecida na cabeça dos planejadores como um vazio demográfico. Se de alguma forma a região se integrou ao resto do país, as medidas não reduziram as diferenças regionais. Com a radicalização do que se convencionou chamar de políticas neoliberais, quando as grandes corporações hegemonizam o processo de organização da economia mundial, em detrimento dos Estados nacionais, que papel caberia a uma agência regional de desenvolvimento num país de condição periférica e numa região periférica nacional? Como será a definição de suas metas para a região, em face do que o Plano Plurianual (PPA), política que define os investimentos do Governo Federal já estabelece como questões estratégicas? Notase, no conjunto, projetos com semblante similar aos de outrora batizados de grandes, como os de infraestrutura. No portfólio temse a construção de transporte multimodal (estradas, ferrovias, hidrovias), com vistas a garantir o escoamento de grãos que têm na soja seu carro-chefe. Além de uma série de hidrelétricas, que historicamente funcionaram como degradadoras ambientais, e motivadoras de expulsão da população nativa. Como a corrupção emerge em nossa História como prática de enriquecimento, destaque-se que ainda em 1980, a Comissão Interministerial de Avaliação de Incentivos Fiscais (COMIF) já denunciava a questão na SUDAM. Mesmo em 1970 já se tinha registro. Como é quase impossível desvencilhar o nome da agência de práticas fraudulentas, ocorre aqui relembrar protagonistas de tal ação. No rol, nomes reconhecidos na política nacional, como o chefe político Jader Barbalho. Mesma dimensão ocupada por Antonio Carlos Magalhães com relação a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE). Como tudo na Amazônia costuma ter uma dimensão gigantesca, as estatísticas de fraude na SUDAM não fogem à regra. Os números levantados pelo economista Lira sobre o processo de fraudes indicam que até abril de 2001, o montante desviado estava na casa de R$1,7 bilhão, dos quais R$600 milhões seriam frutos de 35 projetos considerados irregulares e R$1,1 bilhão seriam oriundos de 159 empresas (de um total de 213 projetos considerados fraudulentos), que foram cancelados pelo Conselho da SUDAM.

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Ainda conforme pesquisa do professor Lira, consta que entre 1996 e 2001, dos 274 projetos que receberam recursos da SUDAM, apenas cinco escritórios foram responsáveis pela metade dos projetos, com valor estipulado em R$616 milhões. No mesmo balaio 68 projetos foram elaborados por um escritório de uma ex-diretora da SUDAM. O centro-oeste do Pará é um dos destinos de tais recursos. Um dos fazendeiros Délio Fernandes, teria desviado R$4,2 milhões. Foi da sede da fazenda de Fernandes que Bida, um dos mentores da execução da missionária Dorothy Stang, ligou para pedir apoio para fuga. Entre esses muitos projetos escandalosos cumpre lembrar o ranário da esposa do Barbalho, a senhora Márcia, com valor de R$9,6 milhões. Os relatórios do Ministério da Fazenda apontam que ao longo de mais de três décadas um dos maiores beneficiados foi o fazendeiro goiano José Osmar Guedes, que teria sangrado R$400 milhões. Investigações divulgadas na época indicam que o fazendeiro depositou U$ 41 mil em contas pessoais de José Arthur Guedes Tourinho, então-diretor da SUDAM, indicado por Barbalho. Tourinho foi presidente do clube de futebol Paysandu. Na prestação de contas de campanha do ex-governador do Amazonas, Amazonino Mendes (PFL/DEM), constam várias empresas suspeitas de desviarem recursos da SUDAM, como a Distribuidora Genal Ltda. e Chocam Chocolate da Amazônia. Até onde chegaram os tentáculos da rede que ajudou a desviar recursos aos baldes da SUDAM? O elenco é de primeira linha: advogados, contadores, economistas, mediadores, com escritórios plantados em várias cidades dentro e fora da região, sob a ingerência de políticos de todos os estados da Amazônia Legal. A nova SUDAM volta à vida tendo no rastro de suas três décadas marcas profundas de corrupção. A superintendência foi ressuscitada segundo Projeto de Lei da Câmara Federal de nº. 60, integrada ao Sistema de Planejamento e Orçamento Federal. A finalidade ficou definida como promover o desenvolvimento includente e sustentável de sua área de atuação e a integração competitiva da base produtiva regional na economia nacional e internacional.

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Referências HOLANDA, de S. B. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. LIRA, S. R. B. Morte e ressurreição da SUDAM: uma análise da decadência e extinção do padrão de planejamento regional da Amazônia. 2005. Dissertação (Mestrado em Planejamento do Desenvolvimento) – Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, Universidade Federal do Pará, Belém, 2005. MONTEIRO, M. Siderurgia e carvoejamento: drenagem energético-material e pauperização regional. Belém: NAEA/UFPA, 1998. SÁ, P Carajás: proposta de desenvolvimento regional integrado. In: . COSTA, J. M. M. (coord.). Os Grandes projetos da Amazônia: impactos e perspectivas. Belém: NAEA/UFPA, 1987. p. 73-103. (Cadernos do NAEA, n. 9)

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2 - BR-163: dias piores virão?2 A conquista do tri campeonato de futebol pelo escrete canarinho é um dos emblemas da década de 1970, instante em que o Estado de exceção conforma a politica no Brasil. Na cena econômica tem-se o “milagre econômico”. Para a Amazônia é marcante o projeto de integração da região ao resto do país, numa lógica de planejamento periférico e vertical desenhada nos gabinetes dos militares. A regra ditava a ampliação da fronteira agrícola e exploração de matériasprimas para a conquista da região. No Araguaia pipocava a guerrilha. Com vistas à exploração das riquezas minerais e ampliação da agricultura e pecuária, obras de infraestrutura surgiram na floresta como símbolos da modernidade. Entre elas a BR-163, que liga Cuiabá, no Mato Grosso a Santarém, no oeste do Pará. Nos anos inaugurais da década de 2000, o assunto BR-163 hegemonizou o debate nas universidades locais, nacionais e mesmo internacionais, quando o assunto era a Amazônia. Discussão que envolve ainda associações de trabalhadores, ambientalistas, setores da economia nacional, internacional, governos federal e estaduais. No centro constava a tentativa de construção de um referencial de organização do território a partir do Zoneamento Econômico e Ecológico (ZEE). No grupo de atores sociais que disputa o uso da terra e dos recursos naturais constam: sojeiros, madeireiros, garimpeiros, populações indígenas, extrativistas, pecuaristas, agricultores e mineradoras. Grilagem de terras, exploração ilegal de madeira, elevado índice de trabalhadores em condições de escravidão, execuções de trabalhadores rurais e seus apoiadores ajudam a compor a aquarela da região. Entre os dias 19 e 20 de setembro de 2005, a Universidade Federal do Pará (UFPA), através do Núcleo de Altos Amazônicos (NAEA), em parceira com a Agência de Desenvolvimento da Amazônia (ADA – agora novamente SUDAM), Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), entre outros, ZEE, encaminhado pelo governo federal em parceria com os estados do Amazonas, Pará e Mato Grosso. Na ocasião, a obra dividida em quatro volumes de
2 Texto publicado originalmente no boletim eletrônico Notícias da Amazônia, da Secretaria do MST/Pará. Nº 59, de 20 de setembro de 2005 e posteriormente no site do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (LPP/UERJ).

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autoria do pesquisador Jean Hébette, “Cruzando a fronteira: 30 anos de estudo do campesinato na Amazônia”, que examina o processo desde a década de 1970, abriu o debate sobre a ocupação na Amazônia. Inspirado na perspectiva desenvolvimentista e na busca incessante do superávit primário, o Governo Federal visa semear e colaborar para a melhoria de obras de infraestrutura. Na lógica de transporte multimodal (rodovias, hidrovias, ferrovias), em seu Plano Plurianual (PPA), a BR-163 volta à pauta como prioridade para melhorar a circulação da produção de grãos, que se avoluma no Centro-Oeste do país. No celeiro dos interessados verifica-se além das empresas multinacionais, o rei da soja e também do governador do Mato Grosso, Blairo Maggi (PPS). O empreendimento inaugura a mistura do tempero entre o público e o privado, na burocracia estatal batizado de Parceria Público Privado (PPP). Se a oportunidade econômica faz brilhar cifrões nos olhos dos produtores de grãos, o contrário ocorre entre as populações nativas (índios, extrativistas, trabalhadores rurais, ribeirinhos, entre outros). Na perspectiva dos planejadores e dos ditos investidores, são sempre elevados à categoria de empecilho ao desenvolvimento. Alvo da coerção pública e privada. Como a registrada na reserva Raposa do Sol, Roraima, no dia 17 de setembro de 2005, com o ataque de 150 pistoleiros armados contra os indígenas. Se a possibilidade econômica revela-se excelente, alarmante os impactos sociais e ambientais que se desnudam. Experiências pretéritas contabilizam os passivos sociais e ambientais aos montes. Quase que inquestionáveis. A defesa do projeto é escudada no chamado desenvolvimento sustentável, ainda que não se discuta o paradoxo de tal tese, coadunar desenvolvimento baseado em uso intensivo de recursos naturais; e sustentável ancorado em algo que advoga o socialmente justo, economicamente viável e ambientalmente zeloso. Como efetivar tal proposta numa democracia marcada pelo aleijão da concentração de terra e renda, em rincões onde a diferença não é reconhecida, onde o poder econômico e político imperam, em detrimento de qualquer parâmetro legal? A produção de grãos pesa na balança comercial (estimada em 50%), ainda que os números das dívidas dos produtores sejam omitidos pelos principais meios de comunicação, que no caminho

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oposto esmeram-se na demonização do movimento camponês. Além da festejada produção de soja, que põe abaixo milhares de hectares da floresta amazônica e do cerrado, biomas que marcam a região, a paisagem é hoje a principal área de exploração ilegal de madeira, grilagens de terras e violência contra camponeses e seus apoiadores, como a irmã Dorothy, executada em fevereiro de 2005. Tal violência contra camponeses, seus apoiadores e assessores deu o primeiro sinal com a morte do sindicalista Ademir Federecci (Dema), 36 anos, executado na região de Altamira, no ano de 2001, quando denunciava o processo de exploração ilegal de madeira, corrupção nos processos de financiamento da extinta Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM) e grilagens de terra. Em seguida ocorreu a execução do dirigente sindical Bartolomeu Morais da Silva (o Brasília), morto com 21 tiros após sessão de tortura, ironicamente numa comunidade batizada de Castelo dos Sonhos. No ano de 2003, uma chacina envolvendo seis trabalhadores rurais e um médio produtor denuncia o deslocamento do morticínio do sul e sudeste do Pará rumo ao sudoeste do estado. A diversidade dos recursos naturais e sociais é maior que os passivos sociais e ambientais e a possibilidade de faturamento financeiro. A região abriga três imensas bacias hidrográficas (Teles Pires/Tapajós, Xingu e Amazonas) e dezenas de tributários. Dessa riqueza natural dependem aproximadamente dois milhões de habitantes, envolvendo diversos grupos sociais e econômicos. Assim explica o documento base do Plano de Desenvolvimento Sustentável. No desenho do plano visa-se a integração de políticas que possibilitem o desenvolvimento integrado da região. Ao se espelhar no passado, a fé entra em refluxo. Nesses instantes criam-se os tais espaços de participação pública, as audiências. Ainda que signifique um passo à frente, a assimetria marca o debate, que acaba por se assemelhar a espaços circenses como os já registrados nas audiências do projeto Juruti, oeste do Pará (exploração de bauxita, matériaprima para a produção de alumínio) e nas audiências do projeto da hidrelétrica de Estreito, oeste do Maranhão e norte do Tocantins. Em tais espaços verificou-se a capacidade de empresas, muitas delas multinacionais, em persuadir, do sapateiro ao prefeito, na formação do coral do “a favor” do projeto, sem explicar muitos pontos delicados, como o deslocamento e reassentamentos de

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agricultores, índios, extrativistas etc. Aqui o tempo sempre nubla. Isso sem falar nas imperfeições de engenharia, como a imprecisão do local da barragem de Estreito. Aos que desafinam no coro “do pró” olhares de esguelha, deboche e mesmo a ira dos contrários. Outro elemento recai sobre o hermetismo da linguagem técnica, o que provoca o monopólio da fala. Na geografia o documento do Governo Federal explica que a área do projeto reúne 71 municípios, sendo 28 no estado do Pará, 37 no estado do Mato Grosso, e seis no estado do Amazonas, perfazendo uma área total de 1,23 milhão de km2 (123 milhões de hectares) que correspondem a 24,6% da Amazônia Legal e 14,47% do território nacional. Desse total, 828.619 mil km2 encontram-se no Pará (66,41% do território estadual), 280.550 km2 no Mato Grosso (31,06% do estado) e 122.624 km2 no Amazonas (7,81% do estado). Aqui inclusa a já celebridade nacional, Terra do Meio, oeste do Pará. No município de Santarém alguns setores festejam a introdução da soja, e até um porto, construído pela empresa Cargil, no maior flagrante de indiferença à legislação ambiental. O mesmo foi erguido quando o processo encontrava-se na Justiça, sem uma definição. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) do Pará já engrossa os seus registros com mortes de trabalhadores da região, como denunciado numa audiência com a oficial da Organização das Nações Unidas (ONU), Asma Jahangir. Verifica-se, assim, a concentração do debate do ordenamento do território em certa medida no Pará, posto Mato Grosso já possuir um zoneamento. Qual a trilha a seguir para a manutenção ou uso equilibrado dos recursos naturais e a inversão da gramática dessa modalidade de projeto, que tem por regra a expropriação dos nativos? A criação de áreas de reservas? Parece ser essa a indicação do Governo Federal em alguma escala consensuado pelo Governo do Pará, que juntos desejam a definição de nove áreas. Teríamos assim a criação de um mosaico que, conforme os dados oficiais garantiria a proteção de 60% do território em debate. O objetivo do projeto é criar em parceria com o Instituto Brasileiro dos Recursos Naturais Renováveis e do Meio Ambiente (IBAMA) e o Governo do Estado, nove unidades de conservação, divididas nas Florestas Nacional ou Estadual de Trairão, do Amaná, do Crepori, do Iriri e do Jamanxim; os parques Nacional ou Estadual do

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Jamanxim e do Rio Novo; e a Área de Proteção Ambiental Tapajós. Estas reservas ocupariam áreas nos municípios de Jacareacanga, Novo Progresso, Trairão, Itaituba, Rurópolis e Altamira, todos localizados no Pará. Que cenários se desenham no horizonte da Amazônia com a tentativa de disciplinamento do uso do território na BR-163? Em alguma medida os pesquisadores indicam que em certa escala já ocorre uma territorialização na região através de sojeiros, grande pecuária, mineradoras canadenses, empresas juniores de mineração e agricultores. No entanto, indícios indicam que uma situação de caos é interessante para o processo de transferência de terras públicas para a iniciativa privada, principalmente no bioma cerrado, como se verifica em Santarém, onde 500 famílias foram expulsas numa única tacada da comunidade de Santa Rosa, e engrossam hoje bolsões de miséria na periferia de Santarém. A esfera jurídica e militar tem sido a regra no planejamento do estado para tratar da questão de disputa de terras ao longo dos 10 anos de mando do Partido da Social Democracia no Pará (PSDB). Nesse sentido, criou varas agrárias que em tese seriam espaços para se diluir as disputas pela terra. E, ainda, no aparato armado criou uma divisão especial na Polícia Militar, Divisão Especial de Conflitos Agrários (DECA). Impossível tratar do assunto sem citar o Massacre de Eldorado, ocorrido em 1996, quando 19 trabalhadores sem terra foram executados e 69 feridos. Já no ano de 2005 numa só caneta o juiz da Vara Agrária de Marabá, Líbio Moura, expediu 50 liminares de reintegração de posse. A maior da História. A ação das tropas da PM durou três meses e foi marcada pela denúncia de truculência, onde lavouras foram queimadas e barracos destruídos. Mas, no estado onde mais se mata “sem terra”, o governo garante que tudo vai mudar com a implantação do Projeto Pará Rural, calçado com financiamento do Bando Mundial, que visa a integração subordinada do agricultor ao mercado. Dias piores virão?

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Referências ACEVEDO MARIN, R. E. Conflitos agrários no Pará. In: FONTES, Edilza (org.) Contando a história do Pará. Belém: Emotion, 2002. v. 2, p. 211-262. ALMEIDA, A W. B.O Intransitivo da transição: o Estado, os conflitos agrários e a violência na Amazônia (1965-1989). In: LÉNA, Philippe; OLIVERIA, Adélia E. (orgs.). Amazônia a fronteira agrícola: 20 anos depois. Belém: MPEG, 1991. p. 259-290. ANDRIOLI. A. I. A reforma agrária e o Governo Lula: entre a expectativa e a possibilidade. Revista Espaço Acadêmico, Maringá (PR), n. 31, dez. 2003. Disponível em: <www.espacoacademico.com.br> Acesso em: 10 de 08 de 2005. CARVALHO, G. A integração sul-americana e o Brasil: o protagonismo brasileiro na implementação do IIRSA. Belém: FASE, 2004. PINTO, L. F. Os grandes projetos e a crise. In: COSTA, J. M. M. (coord.). Os grandes projetos da Amazônia: impactos e perspectivas. Belém: NAEA/UFPA, 1987. p. 164-168 (Cadernos do NAEA, n. 9) ROSSET, P. O bom, o mau e o feio: a política fundiária do Banco Mundial. In: MARTINS, M. D. (org.) O Banco Mundial e a terra: ofensiva e resistência na América Latina, África e Ásia. São Paulo: Viramundo, 2004. p. 16-26 SÁ, P Carajás: proposta de desenvolvimento regional integrado. In: . COSTA, J. M. M. (coord.). Os grandes projetos da Amazônia: impactos e perspectivas. Belém: NAEA/UFPA, 1987. p. 73-103. (Cadernos do NAEA, n. 9)

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3 - Grandes Projetos na Amazônia: mineração em Juruti e a produção de energia3 1.500 pessoas ocuparam no dia 28 de janeiro de 2009 uma área de operação da empresa estadunidense Alcoa, no município de Juruti, oeste do Pará. No local é explorada uma mina de bauxita, matériaprima para a produção de alumina que é em seguida transformada em alumínio. O empreendimento fica na bacia do Amazonas. Um bilhão de reais deve ser aplicado para produzir quatro milhões de toneladas do minério. Desse total de investimento a sociedade brasileira vai entrar com 500 milhões através do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) a juros módicos. A companhia é uma das maiores mineradoras do mundo e opera em 32 países nos quatro continentes. No Maranhão mantém uma empresa de produção de lingotes de alumínio, Alumar, desde a década de 1980, em sociedade com a BHP Billiton e que deverá incrementar a produção de 368 mil para 420 mil toneladas. Por isso o interesse na mina de Juruti, que também vai emancipar a Alcoa do fornecimento da Mineração Rio do Norte, da Vale, que extrai a bauxita no município de Oriximiná, na mesma região. Além das frentes de mineração, o baixo Amazonas tem em pauta a construção de hidrelétricas no rio Tapajós e é impactado pela monocultura de grãos e pelo porto da Cargil. Além de negócios no Maranhão e agora no Pará, a Alcoa também é acionista majoritária do consórcio Baesa, responsável pela usina hidrelétrica de Barra Grande, localizada na região Sul do país. Junto com o grupo Votorantim, a Alcoa foi denunciada pela violação das Diretrizes para Empresas Multinacionais da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A Alcoa e o grupo Votorantim foram denunciados pelo Movimento de Atingidos por Barragens (MAB) no ano de 2005. As empresas aproveitaram a Avaliação de Impacto Ambiental apresentada, em 1999, pela empresa Engevix Engenharia S. A., que atestava de modo fraudulento a viabilidade ambiental da exploração

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Trabalho publicado no site www.plataformabndes.org.br em fevereiro de 2009

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do potencial hidroelétrico no rio Pelotas, afluente do rio Uruguai, informa nota do MAB. No caso do Pará, os militantes denunciam os danos aos recursos hídricos, redução do pescado, impedimento do direito de ir e vir dos ribeirinhos, diminuição da coleta da castanha do Brasil, andiroba e outras fontes de proteína e recursos da flora usados para fins medicinais. O projeto representa também um risco de morte aos trabalhadores, por conta da construção da ferrovia que escoará o minério. Eles explicam que não há túneis ou desvios nos trechos que cortam os projetos de assentamento impactados pela obra. Durante a ocupação, a tropa de choque da Polícia Militar foi acionada. Os policiais usaram gás de pimenta e bombas de gás lacrimogêneo contra os manifestantes. Crianças e mulheres foram atingidas. Afinal, quem é o inimigo? Documento sistematizado por Raimundo Gomes da Cruz Neto, sociólogo que visitou as comunidades atingidas, esclarece que a mina está localizada numa área de floresta densa, nas cabeceiras do lago Juruti Grande, caracterizada por três platôs. A ferrovia atravessa dois projetos de assentamento de agricultores, criados pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Um deles é o Socó, com 420 famílias, das quais 43 tiveram seus lotes atravessados pela ferrovia, e receberam por indenização R$ 0,24/ metro quadrado, por força de um acordo entre o sindicato e a empresa, enquanto reivindicavam R$ 3,00. O porto está colado à cidade, sede do município de Juruti, de onde várias famílias do bairro Terra Preta, estruturadas social e economicamente, foram expulsas. Gerdeonor Pereira, dirigente no Projeto de Assentamento Extrativista (PAE) Juruti Velho, informa que 80% do minério estão no PAE. O militante informa que pelo menos 50 mil hectares de floresta devem ser derrubados. “O projeto trouxe para a cidade umas 15 mil pessoas. O município não tem estrutura para cuidar desse povo com moradia, saúde e escola. Hoje a empresa já iniciou as demissões porque as construções estão em fase de conclusão. Para onde esse povo vai”? Interroga Pereira. Há informes de que por conta da migração o município passou por dois surtos de hepatite. Considera-se que é na fase de construção que a prefeitura mais fatura com a arrecadação

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do Imposto Sobre Serviço (ISS). A estimativa é de um milhão por mês desde 2006. A presença da empresa também incrementou o mercado de prostituição, drogas, especulação imobiliária e ocupações. Os passivos socioambientais já experimentados nas 60 comunidades onde vivem cerca de quatro mil famílias num total aproximado de nove mil pessoas foram omitidos nos estudos de impactos ambientais, realizados pela empresa CNEC Engenharia e apresentado pela Alcoa para obter a licença. A CNEC é a mesma empresa que realizou os estudos para a construção da hidrelétrica de Estreito, onde a Alcoa é sócia da Vale, da Suez Energy, da BHP Billiton e da Camargo Correa. A hidrelétrica de Estreito está sendo erguida no rio Tocantins, fronteira do Maranhão com o estado do Tocantins e é considerado o maior empreendimento do setor no Brasil. No caso de Estreito, entre as omissões consta que as áreas indígenas nos dois estados, Krahô, Apinajé, no estado do Tocantins, e Gavião e Krikati no Maranhão não serão afetadas pela obra. Informação contestada pelas comunidades indígenas e pelos defensores dos direitos humanos. As omissões nos relatórios que indicam os impactos ambientais da exploração da bauxita do Pará estão entre as motivações da ação movida na justiça pelos Ministérios Públicos Federal e Estadual (MP) desde 2005. Nestes termos, a Alcoa funciona na ilegalidade em terras do Pará, posto as contestações dos MP sobre o processo de licenciamento da exploração de bauxita. O não cumprimento da recomendação dos MP também resvala no governo do estado do Pará. Gabriel Guerreiro, deputado estadual (PV) e Walmir Ortega, ambos ex-secretários do meio ambiente, respondem por improbidade administrativa. O primeiro pela aprovação da licença de operação da Alcoa e o segundo pela manutenção, contrariando a recomendação dos MP que decidiram , pela suspensão. Assim como a Cargil que produz grãos no município vizinho de Santarém, e ergueu um porto ao arrepio da lei, a Alcoa finaliza a construção de rodovia, ferrovia, porto e tanques de contenção de rejeitos para a extração do minério. O MPF e o MPE consideram que o Instituto Brasileiro dos Recursos Renováveis e do Meio Ambiente (IBAMA) deveria

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licenciar o projeto Juruti e não a Secretaria de Meio Ambiente, como ocorreu. Os elementos que demonstram a necessidade de que o licenciamento se dê no âmbito federal são: 1 - A área na qual estão localizadas as minas de bauxita pertence à União, tendo sido objeto de arrecadação administrativa e, hoje, encontra-se em processo de regularização fundiária, tendente a permitir a fixação dos clientes da reforma agrária; 2 - Todas as atividades para a obtenção da bauxita (escavações e deposição de rejeitos nas cavas) ocorrerão sobre o aquífero Alterdo-Chão, importante reserva de água doce que atravessa dois estados (Pará e Amazonas); 3 - O porto está localizado às margens do rio Amazonas, rio internacional, sem que tal impacto tenha sido nem mesmo corretamente mensurado ou nem sequer estudado; 4 - Todo o Projeto Juruti está contido na bacia hidrográfica do Amazonas, sob jurisdição federal; 5 - Há o registro de 73 ocorrências de sítios arqueológicos na Área de Influência Direta (AID), até esta fase; 6 -Na AID existem espécies vegetais (castanheiras, pau-cravo, pau rosa) protegidas pela legislação ambiental; 7 - Na AID existem os ecossistemas de várzeas. Negociações - Após a mobilização da população atingida pelo grande projeto de mineração que deve durar entre 80 a 100 anos, uma rodada de negociação foi realizada entre os dias 9 a 11 de fevereiro de 2009, no município polo da região, Santarém. Além dos atingidos pelo projeto, participaram dos debates o representante da Alcoa na América Latina, Franklin Feder, dos Ministérios Públicos, Prefeitura de Juruti e representantes do Governo do Estado. A rodada teve várias divisões. Dia de debate com todos os envolvidos na questão, dia dedicado ao debate entre os atingidos e a empresa e uma rodada de negociação encerrada com a participação de Walmir Ortega, o então Secretário de Meio Ambiente do Pará, informa Pereira. Reivindicações – A Associação das Comunidades de Juruti Velho exige, entre outras coisas, a participação em 1,5 % dos lucros da empresa, investimentos em educação, saúde e moradia e a definição de uma agenda de compromisso. Gerdeonor Pereira esclarece que a primeira reivindicação já foi atendida.

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Tal tipo de empreendimento na Amazônia coloca em lados opostos grandes corporações com staff de capacidade internacional de negociação e populações consideradas tradicionais. Tanto no caso do Pará como na fronteira do Maranhão com o Tocantins, a empresa apresenta um discurso de redenção da pobreza através do grande empreendimento, que deve ser seguido como se fosse um mantra da prosperidade. A cooptação de políticos e agentes que representem algum tipo de liderança consta como agenda da ação da empresa, em particular para fazerem coro pró-empreendimento nas audiências públicas onde são apresentados os estudos de impactos ambientais. A empresa também não se descuida em “convencer” os meios de comunicação locais da sua nobre causa. É raro algum veículo de comunicação dar visibilidade às mazelas dos grandes projetos. No caso da Alcoa nenhum veículo informou que a mesma opera de forma ilegal. O destaque conferido recaiu sobre a nota da empresa sobre os possíveis prejuízos. Tanto no caso da usina de Estreito, como no caso da exploração mineral em Juruti, o fato foi verificado. Qualquer questionamento que soe a ambientalismo é logo satanizado. E os portadores de inquietações sobre os impactos socioambientais tratados como agentes que defendem o “atraso” do lugar. O processo de licenciamento das obras e as populações tradicionais locais são classificados como os grandes entraves pelos empreendedores. Os mesmos podem ter em breve as suas demandas aceitas no que tange ao processo de licenciamento de obras na Amazônia. Ao menos, se depender do esforço de Mangabeira Unger, que deseja azeitar o já delicado processo. O desenvolvimento e o progresso formam a dorsal do discurso de defesa dos grandes empreendimentos, que segundo as empresas, vai fazer germinar como se fosse leite e mel, o emprego e a fortuna nos rincões. Numa clara linha de desinformação sobre a lógica que conforma tais empreendimentos nas periferias do planeta, o enclave. Ou seja, o saque dos recursos naturais.

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Mineração na Amazônia e os eixos de integração do continente O extrativismo tem regido a economia na Amazônia. O ciclo mais recente é o mineral, iniciado na década de 1950, no estado do Amapá, quando o mesmo ainda tinha o status de território. A exploração do manganês na Serra do Navio foi o pontapé inicial, e que em apenas cinco décadas se exauriu, restando apenas o buraco, literalmente. A exploração mineral no Amapá, considerada a primeira na Amazônia, foi protagonizada pela empresa estadunidense de Daniel Ludwig, a Bethlehem Steel Company em sociedade com o empresário Augusto Trajano de Azevedo Antunes, dono da Indústria e Comércio de Mineração S. A. (ICOMI). O ciclo da mineração ganhou maiores proporções na Amazônia a partir da região de Carajás com a presença da Vale na extração do minério de ferro na década de 1980, no Pará. É creditado a Eliezer Batista, ex-executivo da Vale, a construção do mapa das riquezas naturais na América do Sul. Batista é pai de Eike, festejado como o novo bilionário nacional. Obra do acaso? Os levantamentos de Batista foram encomendados pela Corporação Andina de Fomento (CAF). A CAF é um dos agentes do projeto de Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA). Do conjunto de 10 eixos de integração, quatro se destacam, por suas riquezas naturais e possibilidades de conexões: o Amazonas, o Hidrovia Paraná-Paraguay, o Capricórnio e o Andino. O objetivo central prima em facilitar a circulação de mercadorias. O eixo do Amazonas compreende os seguintes países: Colômbia, Peru, Equador e Brasil e visa criar uma rede eficiente de transportes entre a bacia amazônica e o litoral do Pacífico, com vistas à exportação. Nesse sentido o BNDES exerce protagonismo continental, financiando obras de integração além de nossas fronteiras. Outro ator importante no longa metragem de extração das riquezas do continente é o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). No mundo do Brasil, alguns se arriscam em pontuar que o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) é uma miniatura do IIRSA. Antes do fim no dia 16 de setembro de 2009 o Pará viveu um dia histórico. Em Belém, o aparato policial foi usado contra populares numa audiência pública sobre o projeto da hidrelétrica de Belo

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Monte. Enquanto isso, no município de Juruti a governadora Ana Júlia Carepa (PT) cortava a fita do projeto de mineração de bauxita da Alcoa. Além de cortar a fita, a governadora plantou uma árvore. Uma exacerbação do marketing. Os dois projetos estão localizados na mesma região, sudoeste do estado. Numa foto de um diário local a governadora aparece amparada pelo representante da Alcoa na América Latina, Franklin Feder. Ainda na mesma foto, destaque para o ministro das Minas e Energia, Edson Lobão, uma figura íntima do senador José Sarney. Desde o regime de exceção. Essa tal de governabilidade.... Mais irônico, o Instituto de Pesquisa Aplicada (IPEA), acabava de apresentar relatório onde indica que a produção de alumínio é um desastre para região amazônica.

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4 - Geração de energia na Amazônia: caso de Estreito em questão4 O presidente Lula inaugurou no dia 04 de outubro de 2008 a segunda casa de força da hidrelétrica de Tucuruí, no sudeste do Pará. A UHE de Tucuruí é a maior hidrelétrica, genuinamente nacional, e foi erguida no rio Tocantins há 24 anos para alimentar com energia subsidiada as empresas de produção de alumínio Albrás e Alunorte, do grupo Vale, no Pará, e a Alumar, da estadunidense Alcoa, no Maranhão. 75% da produção de energia de Tucuruí vai para a exportação e o estado possui uma das tarifas domésticas mais caras do país. O derradeiro reajuste foi de 16% na tarifa doméstica. A segunda casa tem potência instalada de 4,1 mil megawatts. Junto com a primeira casa de força, a potência instalada de Tucuruí vai ser de 8,3 mil megawatts. O maior empreendimento do setor de energia encontra-se em construção no mesmo rio, na fronteira do estado do Maranhão com o Tocantins, no município de Estreito. A construção de hidrelétricas na Amazônia integra um portfólio de projetos baseados no uso intensivo dos recursos naturais da região. O modelo de desenvolvimento tem na concentração da terra, renda e do poder político e econômico seus pilares e ativa tensões entre populações consideradas tradicionais e grandes corporações do capital mundial. No caso de Estreito, tais projetos tensionam com as comunidades indígenas Krahô, Apinajé, no estado do Tocantins, e Gavião e Krikati no Maranhão. Na fronteira há ainda pescadores, extrativistas e camponeses, ladeados por reservas como a Chapada das Mesas do lado maranhense e um sítio de árvores fossilizadas no Tocantins. A hidrelétrica de Estreito prestes a completar o terceiro ano em fevereiro de 2009 avança sobre o rio.

Reportagem publicada originalmente no blog Furo em novembro de 2008 e reproduzida no site do www.forumcarajas.org.br, que apoiou o trabalho.
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Estreito em questão- um mapa de enclaves

A BR-010 corta o município de Estreito, oeste do Maranhão. A cidade há três anos tinha uma população estimada em 10 mil habitantes localizados na sede do município de um total de 26.490, conforme os dados do ano de 2007 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ainda conforme o IBGE, até 2001 a população total do município era calculada em torno de 22.930 habitantes, bem antes do início da obra, em fevereiro de 2007.

BR-010- município de Estreito/MA- Foto: Rogério Almeida/2008

O município de Estreito encontra-se numa região repleta em implantação de grandes projetos públicos e privados. A cidade dista

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100 km do polo de soja considerado um dos mais importantes do país, na cidade de Balsas, sul do Maranhão e tem como vizinha Aguiarnopólis, cidade do norte do Tocantins e dista mais de 500 km da capital do estado, São Luís. Os economistas tratam esse modelo econômico de enclave, traduzindo, não dinamiza a economia local. Além do polo de soja, o município é impactado pela implantação da ferrovia Norte-Sul, pela ampliação da BR-010 e construção do maior projeto hidrelétrico do país, a hidrelétrica de Estreito, no rio Tocantins. Não muito distante dali, no município de Açailândia, um polo de gusa dinamiza uma cadeia de destruição ambiental e de trabalho escravo para a produção do carvão vegetal. O Grotão e o Planeta O empreendimento da UHE de Estreito pluga o grotão marcado por inúmeras chacinas de camponeses ao resto do mundo através da geração de energia. O empreendimento pertence ao Consórcio Ceste, que aglutina as grandes corporações do quilate da Camargo Corrêa (4,44%), Alcoa (25,49%), Vale (30%) e da belga Suez-Tractebel (40,07%). O custo da obra é estimado em R$ 2,5 bilhões para que Estreito gere 1.087 MW de energia. Os barramentos no rio devem ultrapassar a casa das 50 unidades entre grandes e Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCH). As PC produzem no máximo 3 mil kw. Ambientalistas que tratam sobre barragens advertem que caso se sacramente o planejamento estatal, o rio Tocantins deve se transformar num grande lago, onde os impactos ambientais e cumulativos são imensuráveis. A radical alteração do ciclo de reprodução dos peixes, a destruição da mata ciliar e inundação de florestas nativas que abrigam animais silvestres são alguns dos impactos pontuados. Empreendimentos de grande porte tendem a atrair grandes contingentes de migrantes. 5.500 operários da construção civil estão no canteiro de obras atualmente. Cabe interrogar: para onde essa população irá após a conclusão da obra, prevista para 2010? Estreito e Carolina no estado do Maranhão, e Aguiarnópolis, Babaçulândia, Barra do Ouro, Darcinópolis, Filadélfia, Goiatins, Itapiratins, Palmeirante, Palmeiras do Tocantins e Tupiratins serão os municípios afetados diretamente pela obra. As cidades abaladas

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pelo empreendimento tendem a ter os preços da terra, do aluguel e da venda de imóveis inflacionados. As periferias proliferam ladeadas pela marginalidade, aumento do consumo de álcool e da criminalidade. Até três anos atrás, no município de Estreito não se via mendigos nas ruas. Um passeio na rodoviária local indica a alteração dessa realidade.

Ao fundo a ponte que separa o município de Estreito/MA da cidade de Aguiarnópolis/TO Foto Rogério Almeida/2008

Carros das empresas sinalizados com uma bandeira vermelha com um xis, homens fardados de variadas indumentárias que indicam a variedade de empresas que atuam no canteiro de obras da barragem e ônibus que carregam os trabalhadores fazem parte da nova paisagem na cidade. O trabalho é terceirizado.

BR - 010- a rodovia escoa a produção de soja do sul do Maranhão – Foto Rogério Almeida/2008

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A hidrelétrica de Estreito encontra-se em croquis dos planejadores de velha data. Localiza-se na bacia Araguaia-Tocantins, considerada a de maior potencial de geração de energia hidroelétrica do Brasil. Tal modelo de empreendimento ratifica uma economia baseada no uso intensivo dos recursos naturais, ou seja, extrativa. O hoje ministro das Minas e Energia, Edson Lobão, reconhecido pelos serviços prestados à ditadura, integrante do ninho da família Sarney, ainda quando senador foi um dos mais fervorosos defensores da implantação da hidrelétrica de Estreito. Dono de meios de comunicação na região Tocantina, cedeu os veículos que controla para que alardeassem as “benesses” da instalação do empreendimento. A Tractebel em Góias Bento Rixen, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Goiás, em artigo de 2003, numa publicação do Fórum Carajás, “Escritos sobre a água” alerta sobre os passivos sociais e ambientais provocados pela empresa na construção da hidrelétrica de Cana Brava, nos municípios de Minaçu e Cavalcante. Por conta da indiferença dos diretores da Tractebel em relação às populações atingidas, a CPT mobilizou a visita de um grupo de representantes de ONGs belgas. Os militantes internacionais puderam conhecer o cotidiano das famílias que foram expulsas de suas terras e os desdobramentos do lago que surgiu depois da construção da barragem. Rixen no artigo explicita que a indenização proposta aos atingidos pela barragem ficou no patamar de R$ 5.300,00. O militante da CPT adverte que muitos não aceitaram esse valor considerado uma “mixaria”. No Ministério Público de Brasília e em Goiânia um documento enumera 804 famílias cadastradas como atingidas. O reassentamento é uma das questões mais delicadas no processo de implantação de hidrelétricas. Em geral não se consegue criar as mesmas condições de reprodução de vida das origens dos trabalhadores rurais. O que tem sido um questionamento constante, e a construção de Lajeado e Serra da Mesa, no estado do Tocantins ratificam a tese sobre essa questão. A equipe de belgas visitou uma área onde 26 famílias foram reassentadas pela empresa Tractebel. Apesar de boa casa e uma parcela

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de 20 ha, eles não estão bem. Entrevistados, reclamam que só é possível produzir em um hectare, posto ter de manter a reserva ambiental e a impossibilidade de plantar sobre os morros. Segundo a família, a plantação tem de ser irrigada, mas eles não possuem dinheiro para pagar a energia da bomba de irrigação, revela Rixen. Um grupo de 42 famílias à época vivia debaixo da lona preta na periferia de Minaçu. Os belgas denunciaram que eles ficaram sem comida, sem água potável e sem emprego. A “moradia” ficava a 500 metros de uma área de mineração de amianto, em um terreno que a própria prefeitura cedeu. Em outro local de visita da equipe, as terras férteis viraram brejos por conta da proximidade com o lago da barragem. Tornou-se impossível produzir os alimentos para sustento da família. O cheiro de fermentação e os mosquitos completavam o quadro crítico. Desenvolvimento para quem? O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) é o principal agente financiador da obra, ou seja, a sociedade financia um modelo de desenvolvimento arcaico. Não seria mais prudente o Estado induzir um modelo de desenvolvimento contrário, em setores intensivos em tecnologia, por exemplo? Artigo no jornal Le Monde Diplomatique Brasil, edição de outubro de 2008, do professor João Roberto Lopes Pinto, da Pontifícia Universidade Católica (PUC/RJ), baseado em relatórios do próprio BNDES, indica que tal opção de desenvolvimento intensiva no uso dos recursos naturais, induz a um crescimento menor de renda e de produtividade, onde prevalece a ocupação informal, precária e de baixa qualificação. Gozam da gentileza do Estado os setores da mineração, celulose e etanol. Tal modelo de desenvolvimento induzido pelo Estado tende a fortalecer ainda mais as desigualdades existentes no país. Nesse sentido, um conjunto de organizações sociais e políticas compuseram a frente “Plataforma BNDES,” explica o artigo do professor Pinto. A frente deseja pressionar o governo para que reoriente a política do BNDES em favor de um desenvolvimento que busque a superação das desigualdades e promova os direitos sociais. Pinto reflete que a Plataforma argumenta que se faz necessário, entre outros pontos:

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a) Fortalecer a economia de base camponesa e familiar, que garanta produção para o mercado interno; b) Descentralizar o crédito e fomentar a diversificação produtiva e a inovação técnica; c) Incentivar a participação pública em obras de infraestrutura social, como uma política de saneamento básico. Comissão mundial de barragens adverte

Canteiro de obra da hidrelétrica de Estreito/MA – Foto Rogério Almeida

Entre os anos de 1997 e 2000 uma comissão realizou estudos sobre a construção de barragens em todo o mundo. Tucuruí foi o caso selecionado na América Latina. A construção de barragens no Brasil é responsável por 40% do valor da dívida externa. Entre os impactos da construção de barragens como a de Estreito os estudos organizados pela Comissão Mundial de Barragens (Banco Mundial, construtores, atingidos por barragens, pesquisadores) verificaram-se: a) O alagamento e a salinização afetam um quinto das terras irrigadas no mundo, incluindo terras irrigadas por grandes barragens e apresentam graves impactos de longo prazo, muitas vezes permanentes, sobre a terra, a agricultura e a subsistência da população; b) As grandes barragens provocam impactos cumulativos sobre a água, inundações naturais e a composição de espécies quando várias

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barragens são implantadas em um só rio (caso da bacia AraguaiaTocantins); c) As grandes barragens provocam destruição da floresta e locais selvagens, o desaparecimento de espécies e a destruição das áreas de captação à montante devido à inundação da área do reservatório; d) As grandes barragens provocam o deslocamento de 40 a 80 milhões de pessoas em todo o mundo; muitas das pessoas deslocadas não são reconhecidas (ou cadastradas) como tal e, portanto, não são reassentadas ou indenizadas. Histórias de garimpeiros Na região as histórias de venturas e desventuras sobre a busca de riqueza fácil em garimpos no Pará é generosa. Francisco foi o moto-taxista que serviu como guia na ensolarada Estreito. Ele soma uns 40 anos e é filho de migrantes do Ceará, estado para o qual nunca chegou a retornar após ter ficado adulto. O nosso guia perambulou pelos garimpos do sudeste do Pará nos municípios de Xinguara, Rio Maria, Redenção e São Félix do Xingu. Mamão, Pedra Rica, Camuru são alguns dos garimpos em que Francisco passou. Num deles ganhou um pouco de dinheiro com o ouro encontrado. Fala que não guardou muito da sorte que teve na década de 1980. “Dinheiro de garimpo parece que é amaldiçoado. Nunca durou muito”, reflete o moto-taxista. Francisco informa que passou no maior garimpo a céu aberto do mundo, o de Serra Pelada, mas não ficou por lá. Ele lembra uma pessoa que “bamburrou” (achou muito ouro) até 300 quilos de ouro. Teve fortuna em fazendas de gado e casas, como o caso de um garimpeiro que mora em Estreito conhecido como Índio. O afortunado é do município de Codó. Quando ele pegou o dinheiro comprou uma penca de carros e invadiu a cidade natal exibindo o “sucesso” em terras paraenses, conta Francisco. Nas idas e vindas de Francisco ao Pará em busca de riqueza perdeu dois irmãos. A perda mais trágica foi a do caçula. Francisco lembra que o irmão tinha apenas 16 anos, e que era muito generoso com as pessoas do seu entorno. Mas, a realidade do garimpo não permite tal atitude. Após achar uma pequena porção de ouro foi tocaiado e morto por parceiros de farra em bebidas e cabarés. Outro irmão não tem notícia faz mais de 15 anos. Francisco acredita que ele mora em Redenção, sudeste do Pará.

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A busca pelas fotos

Canteiro de obra da hidrelétrica de Estreito/MA – Foto Rogério Almeida/ 2008

Falo a Francisco do interesse em fazer fotos da obra da UHE de Estreito. Ele sugere que alugue uma canoa. Somente ela pode levar você até o local onde a construção começou. Numa viagem até um portinho tenho sorte, deparo-me com José Antônio por volta das 11h da manhã de um dia escaldante. Antônio entre outras atividades é pescador, feirante e dono de sítio.

Antônio, nosso timoneiro na arriscada viagem no caudaloso Tocantins. Estreito/MA/2008.

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Passou toda a manhã numa exaustiva viagem, onde foi buscar a esposa e uns porcos para criar no sítio que tem na periferia do município de Estreito. Acusando cansaço resistiu em pegar a empreitada de uma viagem que durou mais de uma hora (ida e volta) no caudaloso Tocantins até o canteiro da obra. A viagem ganha em emoção posto o motor da canoa padecer de panes quando esquenta. O jeito é parar e apreciar a paisagem. No portinho algumas embarcações. Uma barraca comercializa bebidas. Moradores se divertem no rio e tomam umas pingas. As casas humildes destoam do gigantismo da obra vizinha. A arquitetura de compensado e cobertura de palha socorre os moradores nos dias de chuva. Antônio limpa a merda dos porcos da canoa e iniciamos a viagem. Ainda de onde saímos é possível avistar o local.

Portinho na cidade de Estreito/MA

Dragas, barcos de vigilância, numa paisagem aonde é possível se avistar babaçuais e outros tipos de vegetação que antecipam a nossa chegada. A passagem de uma embarcação veloz conhecida como voadeira forma banzeiros e faz a nossa canoa sacudir no meio do Tocantins. Antônio sugere cuidado. O pescador avisa que os vigilantes do barco ficam ali para impedir a passagem dos ribeirinhos quando usam dinamite na obra. Segundo ele, as explosões são comuns no raiar do dia e no apagar da tarde.

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Máquinas no rio Tocantins, município de Estreito/MA. Foto Rogério Almeida/ 2008

Há luz nos grotões? A instalação da hidrelétrica de Estreito coleciona diversos capítulos. Os relatórios de impactos socioambientais amplamente criticados, as ações nos Ministérios Públicos do Maranhão e Estreito, mobilizações do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), apoiados pelo MST, atentado à bala de um gerente de operações contra militantes contrários à instalação da barragem, greve de operários do canteiro de obras por conta da péssima qualidade da comida e assédio moral de um gerente, que acabou sendo espancado pelos operários. O progresso, a geração de emprego e o desenvolvimento são os

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argumentos dos alinhados na defesa do projeto. Qualquer voz que destoe de tal perspectiva é tratada como ressonância de forças externas que não desejam o progresso do país. É comum a ojeriza a movimentos sociais e manifestações de xenofobia a análises e ONGs internacionais que fazem oposição ao modelo do empreendimento. Isso foi verificado desde o processo de audiências públicas. A força da “grana” coopta de clérigos a políticos, passa pelo incentivo à criação de associações de fachada, como no caso da Associação de Atingidos pela Barragem, entre outras. As audiências que seriam um espaço de debate possuem ares de congresso de “partido único”, isso na capital ou no interior. A propaganda é a alma do negócio? Os boletins do Ceste celebram uma série de ações junto aos mais diversos segmentos da sociedade. Um posto de atendimento ao migrante localizado na pequena rodoviária indica às pessoas que preencham ficha no Sistema Nacional de Emprego (SINE), sempre com filas enormes. Escritórios do consórcio se espraiam em cidades estratégicas nos dois estados. Os jornais do consórcio celebram ainda cursos que passam pela “inclusão digital” com a Colônia de Pescadores Z-35, que se manifestou contra o acampamento do MAB, doação de ambulância, doação de computadores a unidades de saúde, o que traduz uma confusão sobre o papel do Estado e o da empresa. São ofertados ainda, em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), cursos de panificação e costura. Não raro os boletins inundam suas páginas com depoimentos de famílias que já foram desapropriadas pelo Consórcio. Tudo é flor nesse jardim? Uma série de reportagens de Beatriz Camargo, publicada no site Repórter Brasil, no mês de julho indicam que não. Sobre a especulação imobiliária, a série indica que houve pressão por parte de pessoas de empresas terceirizadas na compra de imóveis, com vistas a serem desapropriados com um melhor preço pelo consórcio. A não inclusão dos povos indígenas como setores que podem ser afetados pela construção é outro ponto. O certo é que desde o começo do processo há uma série de temas nublados. Enquanto isso as obras avançam sobre o rio, sobre as histórias das populações

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locais, a reconfigurar uma região prenhe em conflitos na disputa pela terra e recursos naturais nela existentes.

Aterramento do rio Tocantins, Estreito/MA. Foto: Rogério Almeida/2008

Sindicato dos trabalhadores rurais (STR) Raimundo Carvalho, conhecido como Cabeça Branca, dirigente sindical rural de Estreito, explica que no começo todo mundo achava que a barragem ia ser boa. Aos poucos o povo vai aprendendo que não é bem assim. Carvalho foi operário na construção da barragem de Boa Esperança, no rio Parnaíba, no estado do Piauí na década de 1960, e também um atingido pela própria obra que ajudou a erguer. Carvalho lembra que com o dinheiro que ganhou não conseguiu comprar nem um metro de terra depois. “Com a terra a gente comia todos os dias, ganhava um dinheirinho e podia trabalhar a família por muito tempo. Dinheiro não é tudo na vida”, arremata o senhor. Ele alerta que a média de indenização tem sido de R$ 30 mil. Ele teme pelos idosos. “Tenho um colega que mora só. Vai ser desabrigado. Tem uns 80 anos. O que ele vai fazer aqui na cidade?”, interroga o sindicalista.

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Construção Civil - sindicato em construção

Carvalho- dirigente sindical rural, no município de Estreito/MA. Foto Rogério Almeida/2008

Delfino Araújo é o presidente do recém-criado Sindicato da Construção Civil de Estreito, que tem 140 sócios como fundadores. Ele explica que o registro para a criação do sindicato foi publicado no Diário Oficial em fevereiro deste ano. O sindicato ainda está em fase de construção, é o que se conclui após a conversa com o dirigente. Araújo ainda não sabe quantificar quantas empresas estão no canteiro de obras da hidrelétrica e nem o número preciso de operários. Ele informa que já solicitou os dados para o setor responsável. Sobre a paralisação de 11 dias dos operários no mês de julho, Araújo relata que as condições precárias de trabalho e a ração foram os motivadores. O dirigente alerta que o sindicato necessita tomar pé dos dados, para que possa garantir uma intervenção qualificada.

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Paisagem na beiro do rio Tocantins, município de Estreito/MA. Foto: Rogério Almeida/2008

5 - Siderurgia em crise: o vendaval da economia especulativa e a mineração na Amazônia5 Quando o Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) anunciou a realização da Exposição Internacional da Mineração da Amazônia, no Centro de Convenções Hangar em Belém, ocorrida entre 10 e 13 de novembro de 2008, a crise econômica mundial ainda não havia dado o ar de sua graça nestas plagas regionais. O anúncio foi realizado pelo menos um mês antes. O vendaval da especulação na economia fez com que o polo de siderurgia de Carajás entrasse em refluxo. As empresas instaladas nas cidades de Marabá, sudeste do Pará e no município de Açailândia, oeste do Maranhão, promoveram vários expedientes para manter o quadro funcional, entre eles férias coletivas. José Sampaio, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Açailândia, reflete que o clima é de incerteza. A imprensa do município salienta que o comércio local já foi atingido pela crise e que houve uma redução de 25% em sua dinâmica. Sampaio informa que o setor
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Trabalho publicado no site da rede www.forumcarajas.org.br em novembro de 2008.

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deu férias coletivas a 20% dos funcionários no dia 31 de outubro. O sindicato tem orientado para que os operários não façam dívidas. O ferro-gusa da região tem os EUA como o principal destino. O mercado americano consumiu no ano de 2007 cerca de 5,95 milhões de toneladas, mais de 60% das exportações nacionais. A queda de preços tem sido vertiginosa, a tonelada que chegou a US$900,00 no começo de 2008, em agosto ocupou a casa de US$500,00 a US$600,00 e por último as empresas estrangeiras ofereciam US$380,00 quando o patamar suportável é a casa dos US$500,00, conforme matéria do Valor Econômico do mês de outubro. O site oficial do evento festeja a participação de 85 empresas de várias partes do país, como São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina, Ceará, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul e Bahia, deste total, 25 empresas são do Pará. O Estado é um gigante do setor, e muito se deve aos números estratosféricos da mina de Carajás. Cogita-se que pelo menos cerca de 80% do superávit da balança comercial do Pará deve-se ao extrativismo do minério de ferro. Ao se considerar o delicado contexto, o evento que propagou ser uma oportunidade de lançamento de novas tecnologias e métier de negócios, ganhou outros ares. O clima do evento tornou-se mais

Sampaio, sindicalista em Açailândia/MA. Foto: Rogério Almeida/2008

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sombrio com a libertação de 51 pessoas em condições análogas a escravidão em carvoarias no sudeste do Pará no dia da abertura. Entre os libertados, mulheres e adolescentes de 15 anos. As grandes corporações da mineração em nota à mídia celebram os louros do evento, onde, segundo eles, pode-se notar a preocupação com a questão da sustentabilidade. Ao se visitar os grotões onde as empresas operam, outro mundo desponta. Parece que os especialistas são de outro planeta. Sobre a questão, o professor de semiótica Edílson Cazeloto em artigo intitulado “Entre ecorrevolucionários e ecorreformistas o papel da mídia”, publicado na edição 36, setembro de 2007 da revista Democracia Viva/IBASE, esclarece com sobriedade a disputa sobre a categoria. Em um trecho da análise o professor enfatiza: Enquanto a maior parte da humanidade vê no aquecimento global a iminência de uma tragédia ímpar, os bens aventurados do capital, já sentem no ar o cheiro de oportunidades para o lucro. Para essa parcela, a sustentabilidade tornou-se uma forma de agregar valor às marcas de seus produtos e ao capital de suas empresas. É o chamado capitalismo verde, que vem ganhando a adesão de empresas (na maioria, corporações globais) como um novo Eldorado (GAZELOTO, 2007).

Carreta de carvão na região de Açailândia/MA. Foto: Rogério Almeida/2008

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O polo de Carajás – Em seu artigo, o sociólogo e agrônomo Raimundo Gomes da Cruz Neto dispara que já no século VII temse registro da atividade de siderurgia no mundo. No século XIX a indústria impulsionou a economia dos Estados Unidos. No Brasil a atividade ganha relevância no início dos anos de 1930, tempos de Getúlio Vargas. A atividade aporta no Pará na década de 1980, no apagar da ditadura militar, através do Programa Grande Carajás (PGC). O autor acompanha de velha data os abissais processos de transformações da região de Carajás. O polo Carajás é constituído por 15 empresas, sendo oito no Pará e sete no Maranhão. São responsáveis, atualmente, por mais de 60% das exportações brasileiras de ferro-gusa, o principal insumo na indústria do aço, informa site do Sindicato das Empresas de FerroGusa do Estado do Pará. Um dos setores interessados é a indústria bélica. A Vale é a responsável pelo fornecimento da matéria-prima para a produção de gusa do polo de Carajás, que há mais de duas décadas ativa uma série de cadeias de destruição ambiental e de formas análogas de trabalho escravo através da produção de carvão vegetal. Medidas mitigadoras? A pressão nacional e internacional fez com que o setor lançasse em fevereiro de 2007, um fundo de reflorestamento, com a adesão de 11 empresas. A iniciativa é no mínimo estranha, posto que entre as exigências para a instalação das empresas na região, que se deu a partir de uma política de renúncia fiscal através da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM), um dos itens

Ponte ferroviária da Vale que escoa o minério de ferro no município de Açailândia/MA Foto: Rogério Almeida/2008

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impostos recai sobre uma política de reflorestamento. Outra medida no sentido de fazer oposição ao trabalho escravo foi a criação do Instituto Carvão Cidadão (ICC), ou seria uma mera questão de marketing, travestida em responsabilidade social? Por essas e outras, as siderúrgicas foram multadas em R$ 550 milhões no ano de 2005, que poderia ter chegado a R$ 770 milhões, se fosse aplicado o que rege o Código Florestal e a Lei de Crime Ambiental. Hoje, só no Distrito Industrial de Marabá estão em funcionamento oito siderúrgicas, perfazendo um total de 17 alto fornos, para uma produção de quase três milhões de toneladas de ferro-gusa, recupera Raimundo Gomes em artigo intitulado “Siderurgia em Carajás - 20 anos de destruição”. No Pará, a Secretaria de Meio Ambiente realizou várias operações de fiscalização para ajustamento de condutas das empresas. Neste contexto, a monocultura de eucalipto tem florescido em alguns municípios do nordeste do estado, na região de Paragominas e em Marabá e São João do Araguaia, a sudeste. No Maranhão existe desde remotos tempos, com a destruição do cerrado. O propósito era a implantação de fábrica de celulose, que não veio a deslanchar, devido ao recuo de um grupo oriental. O que ocorreu foi o não cumprimento de um item do acordo por parte das empresas. Um dos muitos descumpridos. Maurílio de Abreu Monteiro, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), explica que para a produção de uma tonelada de ferro-gusa é preciso queimar 2,6 toneladas de madeira. Como a produção de gusa na região Norte em 2003 foi de 2,2 milhões de toneladas, isso representa a queima de 5,7 milhões de toneladas de madeira. David Carvalho, economista, também professor da UFPA, em vários artigos sobre a mineração atesta tratar-se de um projeto de enclave, em resumo, não dinamiza a economia local. Antes do turbilhão da crise o cenário da mineração no Pará vivia um momento de ampliação com a expansão de várias frentes de exploração, que ultrapassam a fronteira de Carajás, como no caso dos municípios de Ourilândia do Norte, Tucumã, Xinguara, São Félix do Xingu, Paragominas e Juruti. Vale e Alcoa protagonizam o momento de transbordamento das frentes. No caso das novas frentes de mineração, o momento é marcado por tensão entre trabalhadores rurais assentados pela reforma agrária,

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indígenas e a Mineração Onça Puma, do grupo Vale. As organizações de defesa dos direitos humanos da região, como a Comissão Pastoral da Terra (CPT), tornaram a situação pública. Em maio de 2012 o Ministério Público Federal (MPF) do Pará solicitou a suspensão das atividades do projeto que explora níquel em Ourilândia do Norte. O ponto de tensão são termos condicionantes em favor dos povos indígenas Xikrin e Kayapó. O MPF quer a condenação da Vale a pagar todos os danos materiais e morais causados a esses povos nos últimos dois anos, em que o empreendimento não cumpriu as medidas mitigadoras. As indenizações devem ultrapassar a casa de mais de R$ 1 milhão por mês para cada comunidade afetada. Conforme o MPF, a ação tramita na Vara Única Federal de Redenção. O procurador da República André Casagrande Raupp, responsável pelo caso, sustenta que a Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Pará (Sema) impôs condicionantes ao empreendimento para assegurar a sobrevivência física e cultural dos povos indígenas afetados, mas concedeu todas as licenças sem cobrar o cumprimento de condicionantes, permitindo uma situação em que os prejuízos se concretizaram para os índios e a mineradora recolhe os lucros sem cumprir obrigação nenhuma.

Placa indica o perigo na área de depósito dos resíduos do polo de gusa em Açailândia/ MA. Foto: Rogério Almeida/2008

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Não bastassem as questões de ordem ambiental e social, somase ao setor a Lei Kandir, que isenta de imposto a exportação dos minérios e semielaborados. O descompasso rege a modalidade de extrativismo mineral, enquanto o faturamento da Vale cresce. Somente no Pará, tem sido maior que o crescimento nacional, a região de Carajás coleciona passivos de toda ordem.

Distrito de Pequiá, onde se localiza o polo de gusa no município de Açailândia/MA. Foto Rogério Almeida/2008

21 municípios do Pará estão entre os 100 que mais desmatam na Amazônia. Dessas duas dezenas de cidades, 19 estão no sudeste do Pará, que além da mina abriga o polo siderúrgico. Boa parte desses municípios ocupa linha de frente em desmatamento e também lidera o ranking de violência. Os estudos foram realizados por meio do Projeto Prodes – Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite/2007. Outra questão, esta de ordem trabalhista, reside em índices recordes de ações contra a Vale no município de Parauapebas. Gusa em Açailândia - A oeste do Maranhão, no município de Açailândia operam quatro empresas, Vale do Pindaré, Viena Siderúrgica, Gusa NE e Fergumar y Simasa. Relatórios da área ambiental atestam que as empresas não nutrem demasiado zelo quando o assunto é meio ambiente. Todos os resíduos ganham a vizinhança sem nenhum tratamento. Famílias afetadas pela poluição das empresas, em particular da Gusa NE, com sede em Belo

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Horizonte e filiada ao ICC, têm denunciado a questão. No total são 20 processos contra a empresa que reivindicam indenizações da gusa e que duram mais de três anos.

Tempestade de escória em Pequiá-Açailândia/MA. by irmão Antonio/2008

Dois relatórios que abordam os impactos do polo de gusa sobre a vizinhança se complementam quanto aos danos provocados à saúde das famílias do Distrito Industrial de Pequiá, onde as empresas encontram-se instaladas. Informações do relatório da perícia ambiental realizada no fim de 2006 e apresentado em março de 2007 pelo perito Ulisses Brigatto Albino, para a Vara Judicial da Comarca de Açailândia indicam desleixo em várias situações sobre a operação da Gusa NE. A empresa opera amparada por Licença de Operação fornecida pela Secretaria de meio Ambiente do Maranhão, vencida no dia 19 de outubro de 2008. Estudo realizado pela engenheira ambiental Mariana de la Fuente Gómez, datado de 2007, ratifica os dados sobre os danos ao meio ambiente e à saúde dos moradores da região. Edvar e Joaquim, dois senhores que mobilizam os moradores para a organização da luta pelos seus direitos, lembram que a comunidade existe desde a década de 1970, e que o polo começou nos anos 1980. Eles recordam que ainda havia muita mata na região e que a exploração da madeira foi a primeira frente da economia do lugar.

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Poluição no Distrito de Pequiá-Açailândia-MA. Foto irmão Antonio/2008

Distrito de Pequiá As casas ficam imprensadas entre a BR-222, num elevado, e as empresas. A perícia indica que a presença das famílias antecede a das indústrias. A idade das árvores dos quintais, muitas com mais de 20 anos, ultrapassa o período de instalação das gusas e (confirma) atesta a tese. A empresa Gusa Nordeste opera três altos-fornos, nenhum possui filtro antipartículas nas chaminés, que emitem grande quantidade de fuligem de carvão e minério. Em todas as seis casas visitadas pelo perito o pó da fuligem foi encontrado. Os pátios das empresas ficam próximo aos quintais das casas. Os riachos padecem com os resíduos das fábricas e com o esgoto sem tratamento das moradias. Gases, fuligem, poeira, águas poluídas e escória são alguns dos agentes da poluição da comunidade de Pequiá, que soma cerca de 1.500 famílias em moradias humildes, muitas de madeira e não atendidas com saneamento básico. Problemas de ordem respiratória, alergias, dores de cabeça são algumas das queixas dos moradores, o que já registrou até o óbito de uma criança.

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Via pública de Pequiá, Açailândia/MA. Foto: Rogério Almeida/2008

Entre as poluições provocadas pela Gusa NE a perícia ambiental verificou os seguintes pontos: a) fuligem - provoca a poluição do ar; b) poeira - carvão vegetal, minério e o seixo compõem parte da matéria-prima para a produção do minério. Uma trituração antecede a queima nos altos-fornos, o que provoca a emissão de pó, posto o composto ser transportado através de esteiras; d) gases - a ausência de filtros químicos ou aparelhos de incineração de gases faz com que vapores provenientes da combustão dos altos-fornos sejam lançados na atmosfera e espalhados pelo vento. A temperatura oscila de 1800 a 2000º C. A análise do perito sinaliza que ainda que não prejudiquem a saúde humana, os gases emitidos no processo contribuem para o aquecimento global; e) água de resfriamento - a água é que faz o resfriamento dos altos-fornos, é retirada do riacho Pequiá e armazenada em caixa d’água. Através da gravidade a água resfria os fornos e volta ao riacho, carregando resíduos que atravessam vários quintais. O laudo do perito Ulisses Brigatto revela uma enxurrada de problemas. Soma-se aos indicados acima, a drenagem das águas das chuvas. O laudo da perícia ambiental atesta que as poças de água são comuns nos pátios da empresa. A água contém ferro e outros elementos provenientes da siderurgia e pode carreá-los para corpos d’água localizados próximos à fábrica. A Gusa NE não conta com rede de captação e tratamento de águas pluviais. Os resíduos são lançados para fora da empresa para

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Escória da produção de ferro gusa-Pequiá-Açailândia-MA. Foto: Rogério Almeida/2008

uma lagoa a 400 metros de distância. Há registro da poluição das águas dos poços consumidas pelos animais domésticos, que fazem parte da dieta das famílias. Um grave problema é a escória, que alguns tratam de “munha” ou “moinha”. Uma parte do resíduo pode ser usada na construção civil, calçamento de rodovias ou como suporte de construção de ferrovias. Outra, se devidamente tratada, pode ser usada em fertilizantes.

Escória da produção de ferro gusa-Pequiá-Açailândia-MA. Foto: Rogério Almeida/2008

O contato com o ambiente pode causar sérios danos à natureza e intoxicação de plantas, pessoas e animais. A escória é depositada a céu aberto próximo a um riacho conhecido como Quarenta, ainda que poluído, continua a ser lugar de diversão de alguns moradores.

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É comum a lavagem de carros e a visita de animais. O laudo de Brigatto propõe que a empresa se equipe com filtros antipartículas nas chaminés, incineradores de gases e rede de drenagem. E que a escória seja acondicionada em uma caixa de concreto, ao contrário do que ocorre hoje, uma montanha a céu aberto, sujeita a ser espalhada sobre as moradias próximas por conta das pancadas dos ventos. O laudo sugere a remoção das famílias que moram próximas à Gusa NE. Vizinhos em conflito Francisca da Silva é uma senhora negra e energética. Fala com profunda indignação sobre os impactos da fábrica, que praticamente fica no quintal de sua casa. Dona Francisca reclama do ruído, posto a indústria operar 24h ininterruptamente. “Tenho um marido adoentado pelo derrame. Outro dia a fábrica soltou um gás na madrugada. Todo mundo da casa saiu correndo para a rua com medo de explosão”, informa a senhora.

D. Francisca- queixa-se da poluição das fábricas-Açailândia-MA. Foto: Rogério Almeida/2008

O Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos (CDVDH), ONG com sede em Açailândia tem sido um mediador da luta das comunidades afetadas ao lado dos padres e irmãos cambonianos. O CDVDH também é procurado em casos de trabalho escravo. É esta ONG que denuncia dois graves acidentes na escória depositada a cerca de 450 metros da fábrica.

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Os relatórios do CDVDH indicam que o primeiro ocorreu em setembro de 1992 com um garoto de oito anos. O segundo com outro garoto de sete anos, Gilcivaldo Oliveira de Souza. A família narra que o menino se acidentou na montanha da escória e que provocou queimaduras de terceiro grau. Gilcivaldo veio a óbito no mês de dezembro do mesmo ano do acidente. A empresa argumenta em sua defesa que o garoto se acidentou em uma caieira, prática comum para a produção de carvão. O segundo acidente ocorreu em novembro de 2001, com o jovem de 21 anos, Ivanilson Rodrigues. O jovem sofreu queimaduras de terceiro grau e carece de cuidados especiais. Após várias situações de conflito entre a empresa, o vitimado e o CDVDH, a empresa garantiu o tratamento em clínica particular para o rapaz. Todos os casos foram encaminhados para o Ministério Público Federal. As demandas colocadas acima é que mobilizam um coletivo de organizações populares no movimento “Justiça nos Trilhos”. O grupo realizou uma série de debates sobre as questões durante o Fórum Social Mundial, que ocorreu entre janeiro e fevereiro de 2009, em Belém. O coletivo busca a partir de estudos realizados pelas universidades federais do Maranhão e Pará, a construção de medidas que diminuam os impactos do setor nas comunidades atingidas e a garantia de um fundo de desenvolvimento, extinto após a privatização da Vale, em 1997.

Seminário Justiça nos Trilhos- Pequiá-Açailândia-MA Foto: Irmão Antonio

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02ª - Parte

ARAGUAIATOCANTINS TERRITÓRIO EM DISPUTA

1 - Araguaia - Tocantins: fragmentos de 20 anos de Luta pela Terra 2 - Bico do Papagaio: dias de sangue, dias de UDR, 24 anos atrás 3 - A luta pela terra na Amazônia: camponeses/as a família Mutran, Daniel Dantas e outros sujeitos 4 - Agrobiodiversidade na Amazônia: movimentos sociais apontam agroecologia como forma de desenvolvimento 5 - O julgamento do caso João Canuto: tudo uma ilusão? 6 - Carajás, o novo cenário? 7 - Amazônia, Pará e o mundo das águas do Baixo Tocantins 8 - Carajás – interesses da Vale pressionam territórios de camponeses e indígenas

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1 - ARAGUAIA-TOCANTINS: fragmentos de 20 anos de luta pela terra6 É lugar comum dedicar aos anos redondos algumas linhas. Seja no sentido de exaltar ou de oposição. No ano de 2007 alguns fatos relacionados com a luta pela terra no Pará somam duas décadas. Faz 20 anos que o primeiro projeto de assentamento (PA) da reforma agrária no sudeste do Pará foi criado, o Castanhal Araras, no município de São João do Araguaia. Mesmo tempo do assassinato do advogado ligado ao PCdoB, deputado Paulo Fonteles, reconhecido pela militância junto aos (às) camponeses(as). Ao longo das duas décadas ocorreu no sul e no sudeste do Pará uma reconfiguração que passa pela dimensão física, política, social e econômica, com a efetivação do campesinato na fronteira. Período igual de vida tem a obra “A oligarquia do Tocantins e o domínio dos castanhais”, assinada pela professora Marília Emmi, da Universidade Federal do Pará (UFPA). A dissertação de mestrado defendida no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA), sob a orientação do professor Jean Hébette, recupera elementos políticos, sociais, jurídicos e econômicos que concorreram para a construção da oligarquia no sudeste paraense. Ainda hoje a obra é leitura indicada aos que buscam compreender a aguda disputa pelos recursos naturais e território na região celebrizada sob a lente triste onde mais se matou camponeses no Brasil. Na fronteira agromineral concorrem índios, empresas mineradoras, fazendeiros, madeireiros, camponeses de toda ordem, com terra ou ocupantes, além de garimpeiros. Ao longo dos séculos é o extrativismo que tem regido o diapasão da economia amazônica, ou saque, como preferem alguns. É de almoxarifado a condição irreversível da região? Cá aflui a tecnologia de ponta de uma das principais mineradoras do mundo, a Companhia Vale do Rio do Doce (CVRD), que atualmente renomeada para Vale,

Artigo apresentado no 3º Encontro da Rede de Estudos Rurais, realizado de 9 a 12 de setembro de 2008, Campina Grande - PB, Brasil. Além dos anais do encontro, o artigo foi publicado na Revista Democracia Viva, nº 41, janeiro de 2009, do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE/RJ) e em vários sites.
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com formas rudimentares de cultivo. Locus onde não raro trabalhadores são libertados aos montes do cativeiro da terra, escravizados para amansar a floresta, que cede cada vez mais lugar ao gado e a monoculturas e novas frentes mineradoras. Na região a floresta arde em carvoarias para a produção de carvão vegetal que alimenta siderurgias no Maranhão e Pará. Pedaço de chão onde se agita um “movimento” separatista ancorado num discurso emocional que visa ao calor de cada eleição, a criação do estado de Carajás. O mesmo se dá a oeste e sul do Maranhão. Uma terra marcada por passivos de todos os vernizes. Consultada em plebiscito, em novembro de 2011, a população paraense rejeitou a tese pela divisão do estado. Numa viagem no quente rincão, em todos os sentidos, assaltanos uma paisagem de terra arrasada. Nas serrarias, montanhas de resíduos de madeira ladeiam as oficinas. Nas rodovias estaduais e federais, cerca e pasto entediam qualquer viajante. Ao longe o gado busca sombra sob a torre de alta tensão do linhão da hidrelétrica de Tucuruí, que alimenta empresas de produção de alumínio no município de Barcarena, no Pará, controladas pela CVRD, e na capital do Maranhão, São Luís, de propriedade da estadunidense ALCOA. Uma foto 3x4 do que foi a conquista da fronteira, baseada em polos de produção: madeira, gado, energia, mineração e siderurgia. Estado e o capital nacional e internacional dançavam de mãos dadas numa trilha sonora econômica marcada pelo planejamento pragmático. O Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) destoa em algo? Terra arrasada - dias de luta Para que um território seja construído outro deve fenecer. Tem sido assim ao longo das eras: a eterna construção e desconstrução dos territórios e a alternância de poder. Assim, sob o decreto de número 3.938, em 15 de janeiro de 1987, numa área de 5.058.4728 hectares foram assentadas 92 famílias do que veio a ser o primeiro PA da reforma agrária no sudeste do Pará, o Castanhal Araras, localizado no município de São João do Araguaia. Dava-se, assim, início a desconstrução do que ficou conhecido como polígono dos castanhais. Fruto de atos de ocupação, por posseiros, da terra indígena do povo Gavião e inúmeros acampamentos em órgãos públicos.

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Cupuaçu, castanha-do-Pará, pupunha, açaí constavam na flora do lugar. Um experimento de modelo de organização social e política através de fomento de caixa agrícola, organização de movimento de mulheres, realização de festival ecológico foram realizados no PA Araras, a 40 km de Marabá. A ONG Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (CEPASP) foi um dos principais animadores no PA. Pelo pioneirismo a comunidade acabou por servir de berço a vários dirigentes que ocuparam e ainda ocupam cargos na Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Pará (Fetagri) e na central de cooperativas da região. Conseguiu eleger vereadores e até um viceprefeito. A experiência de Araras se alastrou para os municípios vizinhos de Nova Ipixuna e Eldorado do Carajás. O prognóstico na fronteira não previa a permanência do campesinato. Sucedia afirmar que o mesmo seguiria em itinerância cedendo lugar à “eficiência capitalista”. Mas, o que se desnudou no sudeste seguiu o sentido contrário. Até fevereiro de 2006, a Superintendência Regional (SR) 27 do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), contabilizava 450 PA no sudeste e sul do Pará, além de cem áreas em avaliação para desapropriação. O universo de 58.152 famílias se espraia por 14.753419.1623 hectares, o que corresponde a 52% do território de 36 municípios do sul e sudeste do Pará, gerenciados pela SR-27, INCRA de Marabá. Os dados do INCRA indicam um déficit a menor de 26.909 famílias. À primeira vista tem terra sobrando. Então o que falta para ocorrer a distensão? Sabe-se que cortar a terra (demarcar) é apenas um passo. Mas, há como inverter a agenda de pesquisa dos institutos, coadunar ações conjuntas das diferentes esferas do poder público com vistas a melhorar a qualidade de vida do (a) assentado(a), ainda prenhe de precariedade? Defende-se que a região deva ser ocupada por cientistas, que o conhecimento preceda os sistemas de uso dos recursos naturais, mas questiona-se: que ciência cara pálida, para quem? Aos alinhados ao capitalismo agrário, não tem sentido a efetivação de PA, aos olhos deles, uma mera representação do atraso ou favelas rurais, como preferem. A territorialização camponesa iniciada ao apagar das luzes da década de 1980, além da dimensão física, registra a construção de

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representações políticas e institucionais. Como a efetivação de uma regional da FETAGRI, o MST e a recentemente criada Federação dos Trabalhadores Rurais na Agricultura Familiar (FETRAF). Tratase de uma cidadania conquistada e não concedida, que ultrapassa os limites da mera análise física da reconfiguração da região. Considerase prudente ponderar sobre o reconhecimento político, social e econômico da categoria. Tem-se registro da criação da Escola Família Agricultura (EFA), com sede em Marabá, dedicada aos (às) filhos (as) dos (as) assentados (as), da edificação de cooperativas e associações de produtores e prestadoras de assistência técnica, aos moldes da COOPSERVIÇOS, ligada à Fetagri, bem como da mobilização de uma organização de combate à impunidade no campo, como o Comitê Rio Maria. Instituição que conseguiu levar a julgamento os assassinos dos militantes Expedito Ribeiro e João Canuto, ainda que a luta tenha ultrapassado a casa de uma década. Mas, a naturalização das mortes de camponeses(as) e a impunidade tem sido a regra. Ainda na esfera da educação, a primeira turma de Pedagogia foi formada no ano de 2006, e encontra-se em curso a primeira turma de Agronomia, e debate em torno da formação de uma turma de Letras. Ainda que insuficientes, têm-se políticas de crédito para fomento, produção e moradia. Como se nota, são direitos garantidos pela Constituição e somente efetivados através de mobilizações. O que há de demoníaco nisso? Qual o sentido da parcialidade nos meios de comunicação de massa sobre a ação da categoria, o de criminalizar a ação da mesma? Os ricos fazem lobby, os marginais mobilização. A memória é outra dimensão do processo de territorialização, como a nomeação de PA e ocupações com nomes que lembram chacinas e mortos na disputa pela terra. A exemplo do PA 17 de Abril, em memória dos mortos no Massacre de Eldorado, Paulo Fontelles, Gabriel Pimenta, ambos advogados, José Dutra da Costa (Dezinho), militante da FETAGRI assassinado em 2000, no município de Rondon do Pará, a ocupação 26 de Março, que homenageia os militantes assassinados do MST “Fusquinha” e “Doutor”, PA Pe Josimo Tavares, PA Expedito Ribeiro, entre tantos. Registre-se ainda, que locais marcados por chacinas de posseiros na década de 1980, a mais sangrenta, são hoje PA, como o Castanhal Cuxiú e Ubá e a fazenda Princesa.

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Na dimensão política tem-se a exoneração de dois superintendentes do INCRA de Marabá, Petrus Emile Abi-Abib e Victor Hugo da Paixão. Bem como, a participação dos representantes dos assentados no processo de definição do Programa Operacional (PO) da SR-27 que até 1997 era definido a portas fechadas entre prefeitos e técnicos do INCRA. Verifica-se a participação dos dirigentes na disputa por cargos no legislativo e executivo municipais, que tensiona o status quo nos rincões. Se antes não se decidia um pleito eleitoral sem a mediação da família Mutran, - o tronco familiar com maior robustez no tempo dos castanhais - registra-se nos dias de hoje um refluxo. Atualmente não tem nenhum representante na Câmara Municipal de Marabá, e quase não goza de influência nos pleitos do Executivo. Na derradeira eleição a representante da família, ex-deputada estadual Cristina Mutran, saiu como vice numa chapa encabeçada por também exdeputada estadual Elza Miranda, que conseguiu somente o terceiro lugar. Registra-se ainda a perda do único assento na Assembléia Legislativa. A fazenda Peruano, localizada no município de Eldorado do Carajás e a Cabaceiras, localizada no município de Marabá estão ocupadas pelo MST. A última foi desapropriada recentemente. As mesmas constam no livro da “lista suja” do trabalho escravo do Ministério Público do Trabalho (MPT), assim como a Mutamba. A fazenda Cedro, também em Marabá, foi repassada ao banqueiro Daniel Dantas, que tem adquirido inúmeras fazendas na região com o maior rebanho de gado do Pará. Se nas décadas pretéritas o universo camponês do sudeste paraense era povoado por vários mediadores, como a Igreja Católica através de suas Pastorais e das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), o Movimento de Educação de Base (MEB), partidos políticos legítimos e clandestinos, ONG, Universidade Federal do Pará via programa do Centro Agro-ambiental do Tocantins (CAT), tem-se hoje uma apropriação do discurso pelo próprio ator social, o camponês, motivo de inquietação de um cipoal de pesquisas. Sublinhe-se que no início da desapropriação dos castanhais era o ministro da reforma agrária nada mais, nada menos que o senhor Jader Barbalho, no então governo do presidente José Sarney, instantes da redemocratização do país. A corda e a caçamba. A pasta da

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comunicação tinha como titular o finado ACM. Era ou não era uma linha de ataque capaz de causar terror a qualquer defesa? Cumpre pontuar que o processo serviu mais para oxigenar a vida econômica dos coronéis, enquanto a luta dos posseiros de São João do Araguaia foi assim desvirtuada do seu sentido original. Dias em que os latifundiários, mobilizados no que ficou conhecido como “Centrão”, fizeram radical oposição ao Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA). Radicalização que ganhou aspectos de esquadrão da morte através de sua entidade de representação, a União Democrática Ruralista (UDR), que tinha (tem) como timoneiro o goiano Ronaldo Caiado. O Bico do Papagaio, sudeste do Pará, oeste do Maranhão e o norte do atual estado do Tocantins, saíram do anonimato neste período. Região imortalizada pelas inúmeras chacinas e execuções de camponeses(as) e seus pares. Números da luta e institucionalidades Nos anos de 1987/1988 foram desapropriadas 24 áreas/castanhais para fins de reforma agrária. Entre 1989 e 1991 experimenta-se um imobilismo com a efetivação somente de sete PA. Ao se investigar o período que compreende entre 1992 a 1995 são criados 33 PA. É a ação reativa do Estado ante o Massacre de Eldorado de Carajás que ativa a criação massiva de PA na região. No período entre 1996 e 1999 são criados 202 PA, 44,8% do total de 450 PA. Dias do governo de Fernando Henrique Cardoso, que reconheceu numerosas áreas ocupadas na Amazônia como PA. Trata-se de reforma agrária ou regularização fundiária? Entre os anos de 2000 e 2005 criam-se 184 PA, o que equivale a 40,8%. O Massacre de Eldorado do Carajás é o estopim para efetivação de inúmeras instituições. No momento, o posto avançado do INCRA ganha o status de superintendência regional, Polícia Federal e Ministério Público Federal são instalados na tensa fronteira amazônica. Esse mesmo modelo foi efetivado no Xingu após o assassinato da missionária estadunidense Dorothy Stang, região para onde se desloca a violência antes concentrada no sul e sudeste do estado. Na década de 1990 o tema reforma agrária fez parte da agenda política do governo por vários fatores internos, entre eles: a luta

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pela terra e as chacinas de Corumbiara, Rondônia (1995) e o Massacre de Eldorado do Carajás, Pará (1996). E elementos externos, tais como: a política mitigadora de reforma agrária do Banco Mundial, com vistas a assanhar o mercado de terras, e a distensionar a luta pela terra na América Latina, Ásia e África. No entanto, os eixos de integração desenhados pela macropolítica econômica (energia, comunicação e transporte) operaram no sentido oposto da demanda dos movimentos sociais do campo. Efetiva-se em sua contradição a territorialização camponesa, marcada por pelo menos dois pilares. O do semblante camponês, a luta pela terra; e o segundo pelo processo capitalista, com a mercantilização da terra em detrimento de sua função social, como desejavam os(as) camponeses(as) e pares. Interroga-se: INCRA e as entidades de classe dos(as) trabalhadores(as) possuem pernas para administrar o vasto universo de assentamentos? Sabe-se que o apogeu da ação comunitária da luta camponesa dá-se no processo de organização e ocupação de áreas consideradas improdutivas, e que ao “cortar a terra” verificase o retorno da cultura do individualismo. Realidade tanto ativada pelas políticas públicas, quanto pelas cada vez mais presentes igrejas neopentecostais em ocupações e assentamentos, que ancoram o seu discurso numa perspectiva da prosperidade individual. Como reflete o poeta Leminski, “problema tem família grande”. É certo que ocorre ainda a crise de legitimidade de dirigentes e entidades de representação de classe, disputas internas, processo de diferenciação no interior de ocupações e assentamentos. E ainda, a presença de pessoas consideradas “infiltradas” do Estado e do setor privado que monitoram as ações nas áreas, como registrado no ano de 2001, quando um serviço do Exército Brasileiro foi descortinado em Marabá. O mesmo tinha a missão de monitorar a agenda das entidades ligadas à defesa da reforma agrária, meio ambiente e direitos humanos. Ainda que tenha havido uma audiência pública em Marabá através da Câmara Federal, nunca mais se ouviu falar no assunto e não se tem conhecimento de algum desfecho. No mesmo ano ocorreu um recrudescimento da violência pública e privada na região, com registro de inúmeras mortes, prisão de dirigentes e uma sistemática ação de reintegração de posse. A precariedade conforma o universo camponês, que muitas vezes não

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resiste e repassa seus lotes a comerciantes, médios e pequenos produtores, que reconstroem os minifúndios. Sabe-se de casos de fazendeiros oferecendo suas terras para desapropriação no INCRA. Na imbricada engrenagem da delicada questão fundiária amazônica quem ganha com a efetivação de tantos PA? E a massa de camponeses(as) terá capacidade de construir um modelo de desenvolvimento a partir dos PA? Será possível a definição de políticas para a região sem uma regularização fundiária, sem um zoneamento econômico e ecológico? A sobreposição marca a cartografia do lugar, com PA em áreas indígenas, por exemplo. É certa a conquista política da categoria ante o Estado marcado pelo autoritarismo numa área de fronteira militarizada por longos anos. Migração espontânea e estimulada através de projetos de colonização oficiais e privados. Grandes projetos e garimpos são fatores pontuados como estimuladores da migração na região. Impregnada de maranhenses, estado considerado o principal exportador de tensão social do país, como reflete o antropólogo Alfredo Wagner Berno de Almeida. Dos 19 mortos no Massacre de Eldorado do Carajás, 11 eram do Maranhão. Eles(as) estão nos PA´s, na coordenação de entidades de classe. São alvos de preconceito na região através de piadas que os relacionam a questões pejorativas. Mesmo preconceito existente entre manauaras e belenenses. Mesmo tratamento pejorativo que ganha relevo nos meios de comunicação regionais quando tratam da luta pela terra, onde “sem terra” é relacionado a coisas desagradáveis. Ainda não se tem notícia da construção de um espaço de visibilidade para a produção camponesa, como o fez o latifundiário, que celebra seus bois há mais de duas décadas, na principal feira agropecuária regional, a de Marabá. Eis o posseiro alçado à condição de assentado da reforma agrária, reconhecido pelo Estado. Fato que inverteu o cotidiano das entidades de representação dos camponeses, com agenda repleta de reuniões com órgãos públicos, guinando-as a uma tarefa burocratizada em detrimento de uma agenda política. Em meio à criação do Distrito Florestal de Carajás, ainda um bicho anuviado no horizonte, que à primeira vista soa como um mero socorro aos produtores de gusa que ao longo de duas décadas

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corroboraram o desflorestamento da região e não cumpriram acordos no sentido oposto. Prestes a tornar o mundo degradado em monocultura de eucalipto. Uma vez mais o socorro vem do Estado. Desta feita via o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Antes foi a Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM), a bengala do capital privado. 2 - Bico do Papagaio: dias de sangue, dias de UDR, 24 anos atrás7 A defesa intransigente na manutenção de grandes extensões de terras na região de fronteira integrou o DNA da formação da União Democrática Ruralista, UDR. A mesma nasceu no imortalizado Bico do Papagaio, quando o norte do atual estado do Tocantins, pertencia ao estado de Goiás. O Bico se completa com o sul do Pará, e o oeste do Maranhão. Região cantada em prosa, verso, pesquisas, reportagens, lugar onde mais se matou camponeses na disputa pela terra no Brasil. No extenso obituário de camponeses uma parcela significativa é creditada ao escudo da UDR. Ainda hoje a região é palco de execuções de trabalhadores (as) rurais que defendem a reforma agrária. Passadas duas décadas, tal latitude do país continua a registrar índice alarmante de trabalhadores em condições análogas à escravidão. A UDR surge no cerrado goiano em 1985 a partir da reunião de dirigentes da Federação da Agricultura de Goiás, da Associação dos Criadores de Gir, Nelore e Zebu de Goiás, da Associação dos Fazendeiros de Araguaína e da Associação dos Fazendeiros do Xingu. No ninho de animadores destacam-se: Ronaldo Ramos Caiado, estrela de primeira grandeza da sigla-, Jairo de Andrade, um dos organizadores da “Marcha com Deus, pela Família, pela Liberdade”, idos de 1964, mineiro do município de Passos, Altair Veloso e Salvador Farina, donos de terras em Goiás. Plínio Junqueira Júnior, engenheiro agrônomo de tradicional família paulista foi o único fazendeiro de fora da região a integrar a cúpula de fundação da UDR.

Trabalho publicado na página do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC/RJ) em junho de 2006.
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As informações aqui elencadas tomam como base a obra: Donos de Terras: trajetória da União Democrática Ruralista – UDR, da pesquisadora Marcionila Fernandes, publicada em 1999, em Belém, Pará. A obra resulta de pesquisa de dissertação defendida no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA), da Universidade Federal do Pará (UFPA), ano de 1992. Inquieta a pesquisadora: conhecer qual a gênese da representação patronal, sob que princípios atua, quem são os seus representantes, e que táticas usam. Fernandes adverte que um dos motivadores para a fundação da UDR reside na ameaça de desapropriação de áreas consideradas como de situação de conflito, conforme a agenda do Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA), de 1985. O PNRA nasceu sob o contexto da Nova República, no governo de José Sarney, que repassou o Ministério da Reforma Agrária (MIRAD) para Jader Barbalho. Nas investigações da pesquisadora sobre o perfil do quadro da entidade, destaca tratar-se de pessoas do centro sul do país, que desenvolvem atividades nos setores de comércio, indústria, serviços e mesmo bancárias (Bamerindus), e que por via legal ou não, adquiriram grandes extensões de terras, caso da família Lunardelli, à época da pesquisa, dona de 11 empreendimentos na Amazônia. Ou mesmo produtores de tradição rural paulista, que possuem origem na oligarquia cafeeira, como a família Lanari. Sobre o Grupo Quagliato, dono da Empresa Agropecuária QUAMASA- Quagliato da Amazônia Agropecuária S/A, detinha três fazendas na região, e era dona da Usina São Luiz S/A. Em Ourinhos, São Paulo, Quagliato processava açúcar e álcool. Outra família citada é a Bannach, que hoje batiza um município na região. A família tem origem ligada à atividade madeireira, vindos do Paraná. Tão expressivo é o poder? Formalmente a UDR do sul do Pará foi criada no dia 17 de maio de 1986, no Parque Agropecuário de Redenção. Compuseram a mesa, Ronaldo Caiado, fundador da UDR em Goiás, Roberto Paranhos Rio Branco, presidente da Associação dos Empresários da Amazônia, Alceline Veronese, prefeito de Redenção, Plínio Junqueira, de São Paulo e Udelson Franco, de Minas Gerais. Em sua análise, a pesquisadora pontua como uma das características da matriz da UDR no Pará, a articulação entre o norte-sul. A entidade também teve as suas versões em Marabá e Altamira.

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No entanto, o estudo deixa claro o protagonismo do sul do estado e do município de Paragominas, nordeste do Pará. Fernandes esclarece que a versão de Paragominas dialogava com frequência com a capital, Belém, espécie de quartel general. A Associação Rural da Pecuária do Pará - ARPP é matriz da versão da UDR de Paragominas, a partir de uma reunião com os dirigentes Plínio Junqueira e Ronaldo Caiado. Com a intervenção dos irmãos Lincoln e Luiz Bueno, paulistas do celeiro dos cafeicultores, aportados na região desde a década de 1970, a entidade ganha forma. “Um pioneiro”. Tem sido esse o amparo de gestos mais largos para a manutenção do poder de tal setor. A que tudo e todos devem se submeter. Onde não há espaço para a diferença. Entre outros artífices no processo de defesa da intocabilidade das grandes porções de terras na fronteira, a pesquisa pontua a presença do então estudante de Direito da UFPA, Leonardo Lobato, integrante do que ficou conhecido como UDR Jovem. Há ainda Gastão Carvalho Filho, mineiro, e Luiz Otávio Rodrigues da Cunha, paulista, descendente de famílias proprietárias de terras em vários estados da União. Engrossam o escrete do processo de privatização de terras, setores tradicionais de pressão. Entre eles: Grupo Belauto, Grupo Marcos Marcelino, Grupo EBD, Grupo Jonasa e a Construtora Estacon. Assim como a pesquisadora, outros estudiosos indicam a intervenção do Estado como fator importante para a oxigenação da saúde financeira de tais atores da fronteira. Recursos em particular, advindos de fundos da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM), reeditaram a prática do patrimonialismo. Diferente de seus pares tradicionais, como a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Sociedade Rural Brasileira (SRB), Organização das Cooperativas do Brasil (OCB), cujo dirigente da época era nada mais, nada menos do que ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, a UDR não tinha esmero em dialogar com o Estado. A partir desse mosaico ruralista, floresce a Frente Ampla da Agropecuária Brasileira, em 1986, que vai desaguar no que ficou conhecido na Assembléia Nacional Constituinte, como “Centrão”, frente parlamentar que abortou a possibilidade de uma reforma

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agrária. Enfileirados na defesa do latifúndio, vestiam a camisa da UDR pelo Pará: Asdrubal Bentes, Jorge Arbage e Fausto Fernandes. Outras expressões residiam em Afif Domingues (PL/SP) e Alysson Paulinelli (PFL/MG), Ubiratan Spinelli (MT), Cunha Bueno (SP), José Lourenço (BA). No derradeiro pleito eleitoral de Marabá em 2004, o Partido dos Trabalhadores-PT emprestou a estrela como vice, na chapa de Asdrubal Bentes, que ficou em segundo lugar. (Tempos modernos?) Dias de sangue Formalmente pode-se afirmar que a existência da UDR no Pará foi curta, meia década. A entidade enrolou a bandeira em 1991 (será?), no mesmo local onde havia nascido cinco anos antes. O pouco tempo de existência imortalizou a região como a mais violenta do país na disputa pela terra. Entre os anos de 1985 a 1987 há ocorrências de sete chacinas na região, com o saldo de 62 mortes. As chacinas estão assim distribuídas: Chacina dos IrmãosXinguara, junho de 1985, 06 mortos; Chacina Ingá – Conceição do Araguaia, 13 mortos, maio de 1985; Chacina Surubim- Xinguara, 17 mortos, junho de 1985; Chacina Fazenda Ubá – São João do Araguaia, 08 mortos, 13.06.1985/18.06.1985; Chacina Fazenda Princesa-Marabá, 05 mortos, setembro de 1985; Chacina ParaúnasSão Geraldo do Araguaia, 10 mortos, junho de 1986; Chacina Goianésia – Goianésia do Pará, , 03 mortos, outubro de 1987 (Relatório de violação dos direitos humanos na Amazônia – CPT2005). Os massacres que tiveram o processo de apuração iniciados são: a chacina da Ubá, e o caso da fazenda Princesa, com cinco camponeses executados, quando alguns tiveram as cabeças decepadas e os corpos jogados no rio. Ambos os processos tramitam há 23 anos. No episódio ocorrido em Goianésia do Pará, o processo é dado como desaparecido. No mesmo período o município de Rio Maria registrou a morte de membros da família Canuto, ligados ao PC do B, assim como do advogado Paulo Fontelles, Gabriel Pimenta, João Batista e Pe. Josimo, este último caso em Imperatriz, Maranhão. É possível sinalizar que a gana da UDR arrefeceu na região? Episódios ocorridos no primeiro semestre do ano de 2006 parecem indicar a direção contrária. Os ânimos dos ruralistas exaltaram-se

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com a prisão de pares e intermediários em execuções de camponeses ocorridas na década de 1980, e mesmo em período mais recente. São os casos das prisões de Marlon Lopes Pidde, fazendeiro, acusado de ter coordenado a chacina de cinco trabalhadores rurais na fazenda Princesa, município de Marabá, em setembro de 1985; Manoel Cardoso Neto, o Nelito, fazendeiro acusado de ser o mandante do assassinato do advogado Gabriel Sales Pimenta, crime ocorrido em Marabá, em 1982; Domicio de Sousa, o Raul, acusado de ser um dos intermediários do assassinato do Sindicalista José Dutra da Costa, o Dezinho, crime ocorrido em Rondon do Pará, em 21 de novembro de 2000, e José Serafim Sales, o Barreirito, pistoleiro condenado a vinte e cinco anos de prisão por ter assassinado, em 02 de fevereiro de 1991, o sindicalista Expedito Ribeiro de Souza, no município de Rio Maria. Barreirito foi preso em Boston, EUA. As prisões foram efetuadas pela Policia Federal, após constante pressão das instituições ligadas aos camponeses, como a Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Xinguara, junto ao Ministério da Justiça. Outro elemento da cena recente tem sido as constantes denúncias e libertações de trabalhadores rurais em condições análogas à escravidão nas fazendas e carvoarias. O Pará responde sozinho a 50% dos casos brasileiros. Ao menos onde a fiscalização consegue alcançar. Completa o quadro, a ocupação pelo MST, da fazenda Rio Vermelho, do Grupo Quagliato; a ocupação da fazenda Maria Bonita, no município de Eldorado do Carajás, que envolve a família Mutran e o banqueiro Daniel Dantas. Ofendidos em seus brios, os ruralistas pediram a cabeça do frei Henri des Roziers, advogado da CPT de Xinguara, ao bispo de Conceição do Araguaia. Pedido que foi negado. As reuniões com vistas à degola do frei foram mediadas pelo senhor Ronaldo Caiado. Há cinzas nesse rescaldo?

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3 - A luta pela terra na Amazônia: Camponeses(as), a família Mutran, Daniel Dantas e outros sujeitos8 Raimundo Nonato do Carmo, de 53 anos, ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) do município de Tucuruí, sudeste do Pará, foi executado com sete tiros na noite de 16 de abril de 2009, véspera da passagem de 13 anos do Massacre de Eldorado do Carajás. O nome de Nonato integrou uma lista de 260 pessoas ameaçadas de morte no estado. Entre os ameaçados há dirigentes sindicais, ambientalistas, advogados, indígenas e religiosos.

Ao centro o sindicalista de Tucuruí, Raimundinho, executado no dia 16 de abril de 2009. FOTO: arquivo do Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (CEPASP).

No dia 18 do mesmo mês, nove trabalhadores sem terra foram baleados por “seguranças” da fazenda Espírito Santo, no município de Xinguara. Militantes do MST ocupam a fazenda desde fevereiro. Há registro de outros grupos de camponeses na mesma área. Se na década de 1980, período considerado o mais sangrento do lugar, a União Democrática Ruralista (UDR) exerceu o protagonismo da violência e a milícia fazia a defesa da propriedade privada, atualmente as “empresas” de segurança configuram o braço armado das grandes propriedades.
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A reportagem resulta de vários trabalhos publicados anteriormente nos formatos de artigos e reportagens, e foi publicado na página da rede www.forumcarajas.org.br e parcialmente na Revista Sem Terra , em 2009.

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Desde o início da década de 2000 as organizações camponesas denunciam a questão aos órgãos públicos. Através de uma audiência pública realizada em Marabá, a comissão de direitos humanos da Câmara Federal tomou conhecimento do assunto no ano de 2001. A audiência foi motivada pelo recrudescimento da violência no campo. Entre julho e agosto daquele ano 121 camponeses foram presos e sete executados. Sendo três da mesma família, caso do sindicalista de Marabá, José Pinheiro Lima (Dedezinho), a esposa e o filho de 15 anos. No mesmo período, documentos de espionagem do Exército em Marabá, direcionados para monitorar as ações dos movimentos sociais taxavam os mesmos de “forças adversas passíveis de eliminação”. Os documentos do quartel general do Exército Brasileiro (EB) direcionado para monitorar as ações dos movimentos sociais foram divulgados através de várias reportagens do jornalista Josias de Souza, da Folha de São Paulo, em agosto de 2001. A fazenda Espírito Santo, onde os sem terra foram baleados, está em nome da Agropecuária Santa Bárbara Xinguara, do grupo Opportunity, do banqueiro Daniel Dantas. A propriedade já foi flagrada com uso de mão-de-obra escrava9 pela Delegacia Regional do Trabalho (DRT). Dantas é o mais novo sujeito da cena econômica e política a exercer pressão sobre as terras e as riquezas locais. Uma presença ainda não digerida para as pessoas que se inquietam em entender as dinâmicas da região. Mas, relatórios da Polícia Federal assinados pelo delegado Ricardo Andrade Saadi revelam indícios de lavagem de dinheiro.

José Pereira Ferreira ganhou notoriedade, em novembro de 2008, quando foi aprovada pelo Congresso uma indenização no valor de R$ 52 mil. Zé Pereira tinha sido reduzido à condição de escravo na fazenda Espírito Santo, cidade de Sapucaia, Sul do Pará. Em setembro de 1989, com 17 anos, fugiu dos maus-tratos e foi emboscado por funcionários da propriedade, que atingiram seu rosto. O caso, esquecido pelas autoridades tupiniquins, foi levado à Organização dos Estados Americanos (OEA), que condenou o Brasil. Ferreira, goiano de São Miguel do Araguaia, veio com oito anos para o Pará acompanhar o pai, que também fazia serviços para fazendas. Hoje, com 31 anos e o dinheiro da indenização, pretende começar vida nova para compensar a vida roubada pelos anos de tratamento para salvar a visão atingida pelos pistoleiros, pelas ameaças recebidas e a escravidão. “Eu estou comprando uma chácara. Bem longe daquele lugar (Leonardo Sakamoto, Repórter Brasil, 02.06.2004).
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Quanto à posse legal das terras, em 30 de janeiro de 2009 o juiz Líbio Araújo de Moura, titular da vara agrária de Redenção, bloqueou os títulos das fazendas Castanhal, Espírito Santo e Castanhal Carajás. As duas fazendas somam 10 mil hectares e foram negociadas por R$ 85 milhões pelo pecuarista Benedito Mutran. As áreas estão indisponíveis para qualquer tipo de negociação. As fazendas vendidas pelo Mutran não poderiam ter sido negociadas, posto serem terras cedidas pelo Estado através da ferramenta jurídica do aforamento, que concede direito de uso para fins do extrativismo da castanha do Brasil e não de posse. Desde os tempos coloniais a terra e os recursos nela existentes mobilizam redes econômicas, políticas e sociais. Nos dias atuais, por onde se lança a atenção nas Amazônias do Brasil ou fora dela há registros de tensão entre grandes corporações e as populações locais. O sul e o sudeste do Pará, banhados pela bacia do AraguaiaTocantins, no curso de sua “conquista” se configuraram como uma espécie de emblema da expropriação e da violência pública e privada contra as populações indígenas e camponesas na Amazônia. Trata-se de uma fronteira agromineral, onde tensionam pelo controle dos territórios, empresas do quilate da Vale, madeireiros, fazendeiros, pecuaristas, indígenas, garimpeiros, frigoríficos de grande porte, camponeses assentados, ocupantes filiados ou não a alguma representação política, sob uma situação fundiária de abissal incerteza. Para efeito didático trataremos apenas de sudeste as duas regiões em questão.

Registro do cartaz de uma mobilização realizada em Belém contra a violência no campo na década de 1980. Foto: Miguel Chikaoka/Jornal Resistência.

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A grilagem de terras na Amazônia 6.102 títulos de terra registrados nos cartórios estaduais possuem irregularidades. Somados, os papéis representam mais de 110 milhões de hectares, quase um Pará a mais, em áreas possivelmente griladas. Os dados resultam de três anos de pesquisa dos órgãos ligados à questão fundiária no estado, através da Comissão Permanente de Monitoramento, Estudo e Assessoramento das Questões Ligadas à Grilagem (Tribunal de Justiça, do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, Advocacia Geral da União, Ordem dos Advogados do Brasil, Federação dos Trabalhadores na Agricultura, Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos, Comissão Pastoral da Terra e a Federação dos Trabalhadores da Agricultura do Estado do Pará). O documento foi apresentado em 30 de abril de 2009 no auditório do Ministério Público Federal (MPF) Conforme o site do MPF, a magnitude dos problemas nos registros – que abrangem de fraudes evidentes a erros de escriturários - levou a um pedido, dirigido à Corregedoria do Interior do Tribunal de Justiça, para que iniciasse imediatamente o cancelamento administrativo de todos os títulos irregulares, já bloqueados por medida do próprio TJ. A desembargadora Maria Rita Lima Xavier, corregedora do interior, negou o pedido no último mês de março. O cancelamento dos títulos vai evitar a criação de seis mil processos para o cancelamento dos títulos que podem durar infinitos anos no tribunal já sobrecarregado. Com o indeferimento da desembargadora Maria Rita Lima Xavier, a comissão recorreu ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para que o mesmo defira pelo cancelamento dos títulos falsos. Felício Pontes Jr, procurador da República e representante do MPF na comissão, argumenta que os indícios de fraude são evidentes demais para ficarem esperando processo judicial. O pedido de cancelamento dos títulos é subscrito pelo Ministério Público do Estado, Instituto de Terras do Pará (ITERPA) e Procuradoria Geral do Estado (PGE) e foi enviado ao CNJ através dos Correios no mesmo dia de apresentação dos dados. Entre os episódios de grilagem mais famosos do Pará está o do “fantasma” Carlos Medeiros, ente jurídica e fisicamente inexistente que acumula 167 títulos de terra irregulares. Todos os títulos de Medeiros que somam 1,8 milhões de hectares estão bloqueados. As

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terras se espraiam em dez municípios paraenses. A mesma situação nubla os empreendimentos da Agropecuária Santa Bárbara Xinguara S/A. no sudeste do estado. Sudeste do Pará A aguda disputa pela terra alçou a região à condição de mais violenta na disputa pela terra no país. Os dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) estimam em cerca de 600 pessoas executadas na disputa pela terra ao longo de três décadas. A impunidade beira a casa de cem por cento. Por conta da abundância da riqueza mineral, no regime militar a região ganhou o status de área de segurança nacional. A Guerrilha do Araguaia também colaborou para a militarização da fronteira. Na cena econômica o extrativismo da castanha do Brasil, com apogeu até 1970 é considerado relevante na historiografia regional. Tempos marcados pelas oligarquias. Foi justo nesta delicada região, considerada uma das mais tensas na disputa pela terra no país, que Dantas nos derradeiros três anos fez sem muito estardalhaço um pequeno feudo. Assim como os interesses, não é nítida a quantidade exata de terras e gado sob o controle da pessoa jurídica do senhor Dantas em terras do Pará, a Agropecuária Santa Bárbara Xinguara, dirigida pelo ex-cunhado Carlos Rodenburg.

Mobilização de camponeses em Marabá/PA na década de 2000. Foto: Arquivo do Centro de Educação,Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (CEPASP).

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Estima-se em cerca de 40 fazendas distribuídas em nove municípios do sul e sudeste do estado. Mas, os gerentes da empresa se defendem alegando que controlam somente 15 propriedades, que totalizam 510 mil hectares com 450 mil cabeças de gado. Desde julho de 2008, o Governo do Pará através do ITERPA realiza um levantamento sobre as fazendas controladas pela empresa. Algumas matérias realizadas por jornais regionais indicam que os fazendeiros locais festejam as ações da pecuária Santa Bárbara, inclusive concedendo-lhe honrarias de excelência da categoria no estado através da Federação da Agricultura e Pecuária do Para (FAEPA). Antecedentes regionais Houve um tempo em que os castanhais das terras do AraguaiaTocantins10 eram livres. Os rios configuravam as principais vias de transporte. Os dias reinaram assim até o ano de 1920. Na época, a Amazônia respirava o ocaso do ciclo do extrativismo da borracha. O comércio dos irmãos Chamom fazia o aviamento11 nos municípios de Marabá e Tucuruí (na época Alcobaça), sudeste do Pará. Desta forma, era ativado o extrativismo da castanha12. Enquanto cabia às empresas Bittar Irmãos, Dias & Cia, Nicolau da Costa e A Borges & Cia, entre tantos, aviarem em Belém. Europa e Estados Unidos foram os destinos da produção, explica a pesquisadora Marília Emmi, na obra “A oligarquia do Tocantins e o domínio dos castanhais”. Até então os índios Gavião e seus sub grupos (Krikateje, Parketeje e Akrikateje), bem como, Kaapor, Xicrin, Atikum, Guajajara, Suruí,

10 A bacia do Araguaia-Tocantins banha três regiões do território nacional: Norte, parte do Nordeste e Centro Oeste. Mede 813.674 km² e corta os Estados do Maranhão, Tocantins, Pará, Goiás, Mato Grosso e parte do Distrito Federal. Dois biomas integram a bacia do Araguaia-Tocantins, Cerrado e Floresta Amazônica, com predomínio do primeiro. Para melhor compreender a disputa pela terra na região sugiro a leitura da obra “A oligarquia do Tocantins e o domínio dos castanhais”, da pesquisadora e professora da Universidade Federal do Pará (UFPA), Marília Emmi, 1999, 2ª edição. 11 Aviamento consistia na forma de poder dos comerciantes sobre os coletadores de castanha. Os comerciantes adiantavam suprimentos necessários aos dias de trabalho na floresta, cabendo ao coletador a venda obrigatória da castanha ao comerciante. 12 Castanha do Pará (Bertholletia Excelsa) é uma frondosa árvore. Em remotos tempos, abundou em vários estados do Norte. É do ouriço, o fruto, que se extrai a castanha.

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Operários “amansando” a floresta na região de Marabá/PA. Foto: arquivo do Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (CEPASP).

entre outros povos, eram os senhores do lugar, ainda que o Estado viesse a declarar durante o regime militar a porção de terras um vazio demográfico. Trabalho escravo, mandonismo e clientelismo davam contorno ao poder dos coronéis. Conforme pesquisa de Emmi, o comerciante e político Deodoro de Mendonça e sua parentela hegemonizam no domínio dos castanhais até 1940. No período, aportou na região descendente de sírio-libaneses, a família Mutran, oriunda do município de Grajaú, Maranhão, num distante 1920. Já em 1930 arrenda e adquire várias terras. Coube à empresa A Borges & Cia aviar a família. Hoje a atividade da pecuária predomina na região. A iniciativa ganhou proporção a partir de uma política indutora da economia do Estado na Amazônia, em particular no sudeste do Pará. O sudeste paraense detém o maior rebanho de gado do estado. Os anos eram de chumbo, e além da pecuária o estado incentivou a atividade madeireira e minerária. A ideia era fazer com que a região prosperasse a partir desses três polos: madeira, gado e minério.

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Bateria de fornos para produção de carvão na região de Marabá/PA. Foto: arquivo do Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (CEPASP).

Assim, vastas extensões de terras foram transferidas ou apropriadas por empresas nacionais do Centro-Sul e internacionais. Entre elas podem ser encontrados bancos como Bradesco, Real e o extinto Bamerindus, sem falar na Volkswagen. Por falar em banco, outro que antecipou Dantas foi Calmon de Sá, do falido Banco Econômico. A renúncia fiscal foi a política adotada para a atração de empresas. A prática tinha nos agentes de planejamento e do financeiro estatais a ponta de lança, leia-se Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM) e Banco da Amazônia (BASA). Região explosiva É complexo o xadrez de agentes e suas respectivas redes que atuam no sudeste do Pará. Cá aflora a grande mineradora Vale, privatizada desde 1997, numa operação considerada um crime de lesa pátria. Por ser a detentora de tecnologia de ponta é ela quem estrutura e desestrutura o território do lugar, como ocorre em várias partes do Pará, a exemplo da tensão registrada no município de Ourilândia do Norte e vizinhança, onde inúmeras famílias de projetos de assentamento da reforma agrária têm sido expulsas por conta de sua Mineradora Onça Puma (MOP), que explora níquel, conforme denúncias de entidades locais. Agem ainda pelo controle do território, grupos indígenas, em

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certa medida já aculturados pelos hábitos do mundo não índio. Na década de 1980, quando a disputa pela terra torna-se mais aguda, a refrega ganha ares de esquadrão da morte a partir da ação da UDR, ligada a fazendeiros do Bico do Papagaio, norte do Tocantins, sudeste do Pará e oeste do Maranhão. A instituição era animada por Ronaldo Caiado, político radicado em Goiás.

Acampamento de camponeses/as em Ourilândia do Norte/PA, em 2008. Foto: Raimundo Gomes da Cruz Neto

Com tal contexto, ninguém ousou indicar que o campesinato da fronteira iria se territorializar. Hoje a categoria controla mais de 50% do território no sudeste paraense através de projetos de assentamento em 36 municípios sob a responsabilidade do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). O reconhecimento de áreas ocupadas, algumas delas há mais de duas décadas, teve no trágico episódio do Massacre de Eldorado o estopim. Não resta dúvida quanto ao peso dos fazendeiros na região, mas a conversão de fazendas ocupadas em projetos de assentamento demonstra o avanço do poder de mobilização dos movimentos sociais camponeses, expressos através da Federação dos Trabalhadores Rurais na Agricultura do Pará e Amapá (FETAGRI), regional sudeste, com atuação que soma mais de uma década. Mesmo período contabiliza o MST. Além desses agentes registra-se a presença de garimpeiros. Fora os projetos de assentamento há outras expressões do poder do

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campesinato local, traduzidas na efetivação da Escola Família Agrícola (EFA), nos cursos de nível superior, como Agronomia, Pedagogia e Letras, no assento de representações da categoria nas câmaras e executivos municipais e iniciativas de rádios comunitárias e outras ferramentas de comunicação. Por conta dos projetos de assentamento germinam na região empresas de prestação de assistência técnica rural. O sudeste do Pará é uma região que merece atenção especial por parte do Poder Público. Ela coleciona graves passivos oriundos da experiência dos grandes projetos. A região é recordista em trabalho escravo, assassinatos contra dirigentes e militantes da reforma agrária, concentra boa parte dos municípios mais violentos do país, sem citar a devastação florestal. Mas, o cenário atual não soa animador. Um exame no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) sinaliza para aumento da pressão sobre a terra e recursos naturais nela existentes. Há uma série de obras de infraestrutura: rodovias, hidrovias, hidrelétricas na bacia do Araguaia-Tocantins que irão reorientar, como nos anos da ditadura, e do Programa Grande Carajás (PGC), na dedada de 1980, o cenário econômico, social e político da região. Uma perspectiva similar desponta a oeste do estado, com a expansão da frente mineral no município de Juruti, a partir da bauxita. O minério explorado pela empresa estadunidense Alcoa é matéria para a produção de alumínio. A Alcoa é uma das maiores empresas do setor. Ainda a oeste tem-se a agenda da construção de inúmeras barragens no rio Tapajós e no Xingu e desde 1980 a bauxita é extraída pela Vale no município de Oriximiná. Família Mutran – A senhora dos Castanhais Na paisagem das oligarquias dos castanhais, a dos Mutran se tornou a de maior destaque. Notabilizou-se na história do sudeste paraense pelo abuso da violência. A condição de escravidão, ou modo similar de submissão, continua a ocorrer nas terras do AraguaiaTocantins. O modelo é apenas uma face das variadas modalidades de violência que povoam a atmosfera local. Uma bela expressão da modernidade. São muitas as acusações de crimes que pesam nas costas do clã dos Mutran. Assassinatos, corrupção na administração da prefeitura

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de Marabá, manutenção de cemitérios clandestinos em “suas” fazendas, submissão de trabalhadores rurais à condição de trabalho escravo e devastação dos castanhais para a implantação da pecuária. Em listas sujas divulgadas pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), constam três propriedades da família. As “listas sujas” do trabalho escravo foram divulgadas nos anos de 2003 e 2004. As propriedades são: Fazenda Cabaceiras, ocupada pelo MST desde 26 de março de 1999, a Fazenda Peruano, também ocupada pelo MST em abril de 2004, e a Mutamba, onde o MST ocupou, mas não conseguiu se manter. Sob força de liminar os nomes das fazendas foram retirados das listas. Desta forma o fazendeiro pode pleitear financiamento público. Na página www.repoterbrasil.com.br a reportagem de Leonardo Sakamoto, divulgada no dia 30 de julho de 2004, denuncia que a empresa Jorge Mutran Exportação e Importação Ltda. foi obrigada a pagar a multa de R$ 1.350.440,00, por ter sido autuada mais de uma vez por trabalho escravo em sua fazenda Cabaceiras, em Marabá, sudeste do Pará. Na época foi a maior indenização no Brasil por um caso de redução de pessoas à condição análoga à de escravo.

Reintegração da fazenda Cabaceiras em 1999, Marabá/PA Fonte: J. Sobrinho (1999)

A reportagem de Sakamoto conta ainda que a sentença foi expedida por Jorge Vieira, da 2ª Vara da Justiça do Trabalho de Marabá, e resulta de uma ação civil pública movida pelo Ministério

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Público do Trabalho. Os réus aceitaram as determinações do MPT e o juiz homologou a sentença. A ela não coube recurso. Os responsáveis pela empresa citados no processo da Cabaceiras são os irmãos Evandro (dono também da fazenda Peruano), Délio e Celso Mutran e Helena Mutran. A fazenda Cabaceiras mantinha cemitério clandestino. A denúncia veio à tona em setembro de 1999, através de reportagem assinada por Ismael Machado, publicada na revista Caros Amigos, de São Paulo, na edição de número 30. A denúncia da presença de cemitério clandestino na fazendeira Cabaceiras foi realizada por uma testemunha de 64 anos, que foi mantida no anonimato. O depoimento ocorreu no dia 21 de julho na Procuradoria da República do Pará. A fazenda foi desapropriada pelo INCRA recentemente. A Quincas Bonfim e Sebastião Pereira Dias (Sebastião da Teresona), lendários pistoleiros da região, cabia a contratação de peões para a derrubada da mata nativa e implantação de pasto. Além da contratação de peões constava na rotina dos pistoleiros a eliminação de desafetos e peões insubordinados. Conta a matéria de Machado que pelo menos 40 homicídios ocorreram entre 1982 e 1989. Antes de pertencer ao clã Mutran, a fazenda Cabaceiras foi administrada pela empresa Nelito Indústria e Comércio S. A. Foi com Benedito Mutran Filho que o senhor Dantas negociou a compra de inúmeras fazendas, entre elas a Maria Bonita, ocupada por cerca de 600 famílias ligadas ao MST no dia 25 de julho de 2008, quando se celebra o Dia do Trabalhador Rural. A ação do movimento foi um ato contra a corrupção no país, no sentido de se obter mais agilidade na política de reforma agrária, assim explica nota divulgada pelo movimento. Boa parte das terras sob o domínio da família é uma cessão de uso do Estado para fins do extrativismo da castanha, e não pode ser repassada para terceiros. As fazendas São Roque e Cedro também seguiram a mesma linha das citadas acima na negociação com Dantas. Vavá - o chefe da família Osvaldo dos Reis Mutran, tratado pelos pares como Vavá foi julgado pelo Júri Popular e absolvido no dia 24 de agosto de 2005, em Marabá, pelo assassinato de uma criança de oito anos, David Ferreira Abreu de Souza, crime ocorrido em 2002, no km 07, no

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Bairro Nova Marabá. O garoto foi morto com um tiro na cabeça quando jogava futebol em frente a uma propriedade de Vavá. Na ocasião, populares provocaram um quebra-quebra na casa do chefe do clã.

O braço escravo das carvoarias ajuda a queimar a floresta na região de Marabá/PA. Foto: arquivo do Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (CEPASP).

A Sociedade de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH) atua no caso como Assistência da Acusação do Ministério Público. No corolário de impropérios cometidos pelo senhor de 73 anos de idade na época do julgamento, consta ainda a morte de um fiscal da Fazenda do Estado, Daniel Lira Mourão, idos de 1990. Entre a década de 1950 e meados de 1980, tal notícia da realização de júri popular tendo como réu um Mutran soaria como galhofa no oco dos ouvidos dos chefes dos castanhais da região. O filho de Nagib foi prefeito nomeado de Marabá e deputado estadual. Vavá é pai de dois filhos: Nagib Neto, que foi prefeito de Marabá e Osvaldo Júnior, vereador - casado com Ezilda Pastana, juíza em Marabá. Vavá tem dois irmãos: Guido - com um filho exvereador (Guido Filho) - e Aziz. Vavá e Nagib Neto tiveram os mandatos cassados, conta Sakamoto em reportagem. Já o filho Júnior veio a morrer no fim de 2005, quando brincava de roleta russa. Por conta da execução do fiscal da Receita, Osvaldo Mutran foi alvo de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, e foi cassado do

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cargo de deputado estadual e condenado a oito anos de prisão. Não cumpriu a pena integralmente. Pelo crime cometido Vavá foi premiado com indulto (perdoado). Mourão foi morto por não concordar em deixar o fazendeiro passar gado sem registro, o que o livraria de pagar impostos. Já Nagib, o filho, foi cassado por corrupção na prefeitura e condenado a repor ao erário público cerca de R$ 1 milhão. Atualmente é vereador em Marabá. Aforamento Trata-se de um mecanismo de cessão de uso da terra concedido pelo Estado a terceiros. No caso do sudeste do Pará os registros históricos indicam que a prática remonta aos anos de 1920. No Pará, o aforamento abrange um período de concessão de 1955 a 1966 (a partir daí eles só serão adquiridos por transferências de direitos dos foreiros originais). O Estado nesse período concedeu 252 aforamentos, dos quais, 168, ou seja, 66,66% foram em Marabá, informa pesquisa da professora Marília Emmi. A obra da professora da Universidade Federal do Pará (UFPA) esclarece que a Lei de nº 913 previa a concessão de um único aforamento com área de 3.600 hectares para cada requerente, o que se observou desde o início foi uma tendência à concentração do domínio das áreas de castanhais por grupos familiares. O bom negócio residia na coleta e no comércio da castanha. Através da força, arrendamento e aforamento, as terras públicas foram transferidas para o poder privado. Desta forma a família Mutran, a partir de 1950, vai se configurar como a de maior robustez no Pará. Na pesquisa de Emmi há indicadores que em 1960 a família chegou a ser detentora de 80% dos castanhais. A partir do presente cenário, em certa medida anuviado sobre os reais interesses do senhor Dantas no Pará, em parceria com fazendeiros da mais fina estampa, é que se dirige a ação de ocupação das fazendas Maria Bonita, em Eldorado do Carajás, Espírito Santo, no município de Xinguara e da fazenda Cedro, em Marabá. A ocupação, forma de pressão que visa democratizar a terra, emerge assim como uma ação que questiona uma estrutura de poder local e a homogeneização de projeto de desenvolvimento baseado na grande propriedade rural.

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Ocupações: a fazenda Maria Bonita Nessa peleja pela terra em Carajás, o MST tem orientado suas ações contra as representações do poder tradicional do lugar e modelo de desenvolvimento local. O movimento ocupou ou incentivou a ocupação de inúmeras fazendas da família Mutran. Assim, o movimento afrontou as cercas das fazendas Peruano e Baguá, no município de Eldorado do Carajás e das fazendas Cabaceiras e Mutamba, em Marabá. Em todas as fazendas foram registradas ocorrências de trabalho escravo, crimes ambientais e títulos da terra sob suspeita.

Ocupação da fazenda Maria Bonita, Eldorado do Carajás/PA, no dia 25 de julho de 2008. Foto: Thiago Cruz, estudante de sociologia, campi de Marabá/UFPA.

Em 2008 o MST ocupou a fazenda Maria Bonita, localizada às margens da PA-150. Cerca de 100 km separam Eldorado do Carajás, do município polo da região, Marabá. Onde antes se encontrava uma frondosa floresta de castanha e mogno, vislumbra-se hoje, cerca, pasto e gado. Quem segue no sentido de Marabá rumo a Eldorado do Carajás, antes de chegar à fazenda Maria Bonita, passa pela Curva do S, local do massacre de Eldorado em 1996. Eidê Oliveira, uma das coordenadoras do acampamento dos sem terra, ao lembrar da madrugada da ocupação da Maria Bonita recorda que a ação da empresa de segurança da fazenda e dos vizinhos foi rápida. “Aqui na porteira encheu de carro da empresa Atalaia Serviços

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de Segurança com licença da Polícia Federal para operar no estado do Tocantins. Os homens estavam encapuzados”, informa Oliveira, uma jovem de pouco mais de 40 anos, mãe de cinco filhos e avó de quatro netos, que há seis anos milita no MST. Oliveira lembra que o clima ficou tão tenso que o gerente da fazenda deixou a arma cair. Entrar no acampamento foi fácil. O dia é ensolarado e o local parece bem calmo. Os homens estão caçando numa mata vizinha, onde também pescam no rio Vermelho. O local serve ainda para a retirada de palhas e madeira para a construção dos barracos. Eidê conta que no rio Vermelho é possível encontrar muitos peixes, entre eles o saboroso pintado. “Acampamento é uma escola sobre a luta pela terra. Mas, nem todos resistem. O processo até se alcançar a desapropriação demora. A gente vive muitas privações”, reflete a avó militante. Eidê explica que desde o dia 12 de agosto de 2008 as carretas com o gado da fazenda não param de sair. Ela estima em pelo menos cem. Para a militante isso é um bom sinal. O acampamento está organizado em 23 núcleos de base, cada núcleo com em média dez famílias. Durante a prosa com a militante fomos interrompidos em vários momentos com a chegada de representantes de família para a inscrição no cadastro. Pergunto como fazem para identificar possíveis infiltrados, ela informa que alguns já são conhecidos. E sempre que chegam não são bem-vindos. Desde o dia 01 de agosto de 2008 uma liminar de reintegração de posse foi expedida pela justiça de Marabá. Já a audiência no dia 7 de agosto no INCRA de Marabá terminou em impasse. A reunião foi entre a assessoria jurídica do Grupo Santa Bárbara e a representação dos movimentos sociais locais, mediada pelo ouvidor nacional Gercindo Filho. Enquanto a equipe jurídica da Santa Bárbara exige a saída imediata dos ocupantes, a representação do MST enfatizou a permanência na área até a conclusão do levantamento sobre a cadeia dominial da fazenda.

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Ocupação da fazenda Maria Bonita, Eldorado do Carajás/PA, no dia 25 de julho de 2008. Foto: Thiago Cruz, estudante de sociologia, campi de Marabá/UFPA

A fazenda Castanhal Espírito Santo 280 camponeses ligados ao MST ocuparam a fazenda Espírito Santo, localizada no município de Xinguara, no dia 28 de fevereiro de 2009. Os trabalhadores rurais ligados ao movimento foram antecedidos por outros grupos que também atuam na região, entre eles, a Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (FETRAF). Xinguara na década de 1980 foi locus de chacinas como Surubim (17 mortos) e Dos Irmãos (6 mortos). Ambas as chacinas não possuem processo para apurar os responsáveis. Nos dias atuais, o município foi palco de ação de uma “empresa de segurança” da fazenda Espírito Santo, que feriu a bala de vários calibres oito militantes do MST no dia 18 de abril de 2009. A ação dos seguranças disparando escopetas e revólveres foi transmitida em cadeia nacional. O staff jurídico e de imprensa da Agropecuária Santa Bárbara, com reconhecida competência, hegemoniza os seus argumentos na mídia no sentido de criminalizar as ações do movimento. Argumentos replicados nos mais diferentes meios de comunicação. Os dirigentes do MST informam que os jornalistas têm viajado às áreas ocupadas do grupo em aviões fretados pela empresa. Questiona-se então: com que isenção os jornalistas podem avaliar

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os fatos? No caso da Espírito Santo noticiou-se que os mesmos foram mantidos em cárcere privado pelos militantes, notícia desmentida pelo depoimento na delegacia do repórter Vitor Haôr, da TV Liberal de Marabá, segundo notícia do site do MST publicada em 27 de abril de 2009, em matéria assinada pelo jornalista Max Costa. Edinaldo de Souza, repórter do jornal Opinião de Marabá também desmente a notícia de cárcere privado e que os mesmos teriam sido usados como escudo humano. Ele conta que não retornou no mesmo dia do conflito a Marabá de avião em razão de a aeronave ter partido lotada, transportando o cinegrafista Felipe Almeida, um segurança ferido e um sem-terra baleado. Ele retornaria a Marabá dia seguinte (19.04), por volta de 14h 30min, juntamente com o restante dos repórteres e a advogada Brenda Santis. A notícia foi veiculada no dia de 27 de abril de 2009 no blog do jornalista e publicitário Hiroshi Bógea, radicado em Marabá. No caso da fazenda Espírito Santo, os jornalistas não informam que o registro da propriedade foi suspenso em janeiro de 2009 pela Vara Agrária de Redenção. Ou mesmo da prática de trabalho escravo na área, e que a propriedade pública foi comercializada pelo pecuarista Benedito Mutran ao grupo Santa Bárbara de forma ilegal. Um linchamento político e ideológico, deste modo pode ser analisada a cobertura da maioria da imprensa local e nacional sobre a presença do MST em áreas controladas pelo grupo Santa Bárbara Xinguara do banqueiro Daniel Dantas. A disputa recente pela terra no Pará já registrou pedidos de intervenção federal pela senadora Kátia Abreu (DEM/TO), a representante mor da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) no mês de março de 2009. No dia 22 de abril do mesmo ano, o pedido foi reendossado na Procuradoria Geral da República. A representação regional da entidade, a Federação de Agricultura e Pecuária do Pará (FAEPA) foi flagrada no mesmo período por má aplicação de verbas públicas na campanha de combate da febre aftosa no estado pelo presidente da entidade, Carlos Xavier. Um jantar orçado em quatro mil reais é um dos questionamentos. Mas, a agenda negativa dos pecuaristas não teve amplificação da mídia. A reportagem foi veiculada no jornal da TV Globo, Bom Dia Brasil, de 25 de março de 2009. A reportagem realizada por Roberto Paiva explica que 40% da

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carne consumida no estado não passa por fiscalização sanitária. Os recursos, oriundos da Agência de Defesa Agropecuária do Estado Pará (ADEPARÁ) para o combate da febre aftosa, R$1.441 milhão foram repassados desde 2007 através de três convênios para o presidente do Fundo, o senhor Carlos Xavier, que nunca prestou contas. Entre as notas flagradas pela auditoria consta uma compra de 150 projéteis para armas de calibre 38. Cura-se aftosa na bala ou seriam para os “seguranças” das fazendas? Tem-se ainda uma nota fiscal no valor de R$ 21 mil para aluguel de carros. Se as ocupações ocupam generoso espaço dos meios de comunicação local, não ocorre a mesma atenção sobre os “deslizes” dos empreendedores da pecuária. Enquanto as ações de ocupação dos sem terra ganham ares de satanização da maioria da cobertura da mídia, as execuções de dirigentes sindicais, as chacinas de camponeses(as) e as libertações de trabalhadores(as) das fazendas e carvoarias de condições análogas à escravidão são naturalizadas.

Ocupação da fazenda Maria Bonita, Eldorado do Carajás/PA, no dia 25 de julho de 2008. Foto: Thiago Cruz, estudante de sociologia, campi de Marabá/UFPA.

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Também não gozou da devida atenção nas coberturas jornalísticas locais, o fato histórico da condenação, numa única tacada, de 27 fazendeiros por manterem pessoas escravizadas, numa sentença expedida pelo juiz federal de Marabá, Carlos Henrique Borlido Haddad e divulgada em 4 de março de 2009. Lista dos fazendeiros condenados e as respectivas penas

Fonte: Justiça Federal do Pará, Marabá (2009)

A parcialidade é a principal estampa da cobertura sobre os fatos que envolvem a disputa pela terra no Pará. A complexa realidade fundiária sempre é secundada, em detrimento do horizonte positivista em defesa da propriedade privada. Ainda que os meios para a construção da mesma sejam em sua maioria questionáveis.

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A fazenda Cedro 240 famílias ligadas ao MST ocuparam a fazenda Cedro no dia primeiro de março de 2009. A propriedade é festejada no mundo do agronegócio por seu caráter de excelência na produção de gado zebu, no município de Marabá. A área é objeto de imbróglio jurídico que envolve o estado, a família Mutran e o grupo Santa Bárbara. Ao longo dos anos o castanhal deixou de existir e em seu lugar surgiu o pasto. Com a fazenda Cedro, atualmente são três as fazendas ocupadas pelo MST que envolvem o nome da Pecuária Santa Bárbara. A “faca” na jugular da governadora Ana Júlia No começo de 2008, Ana Júlia Carepa, governadora do Pará (PT), foi surpreendida pela visita do advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, um reconhecido militante do PT paulista. Um sujeito alinhado na defesa dos direitos humanos de camponeses e de presos políticos, em tempos idos. Em 1986 o advogado esteve em Belém em ato simbólico que denunciava a violência contra camponeses, o Tribunal da Terra. O ato simbólico teve entre os organizadores sindicatos de trabalhadores rurais, CPT, OAB e ocorreu entre os dias 18 e 19 de abril de 1986, no Palácio da Justiça, com o objetivo de levantar denúncias contra multinacionais, Estado e o latifúndio. As chacinas Surubim e Ubá constavam no rol de casos, que somaram 83 mortes no ano de 1985 na região. Registraram-se ainda, o assassinado do sindicalista Benedito Bandeira, no município de Tomé Açu, onde a comunidade revoltada com a execução destruiu a delegacia e matou os três pistoleiros, que receberam CR$ 5.000,00 do fazendeiro Acrino Breda, que nunca chegou a ser preso pelo caso. O Pe. Josimo que coordenou a CPT de Imperatriz, Maranhão, morto em 10 de maio de 1986, participou do Tribunal para denunciar o atentado que sofrera. Um mês depois foi executado com tiros dados pelas costas. 23 anos depois da realização do ato simbólico, Luiz Eduardo Greenhalgh aporta no Pará do outro lado da cerca, na condição de lobista do banqueiro Daniel Dantas. Em entrevista ao repórter Leandro Fortes, da revista Carta Capital, edição de nº 544, em maio de 2009, Ana Júlia denuncia que o antigo defensor levou a tiracolo o

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gerente máximo da Agropecuária Santa Bárbara, Carlos Rondenburg, indiciado pela Polícia Federal junto com Daniel Dantas, ex-cunhado, por gestão fraudulenta, formação de quadrilha, evasão de divisas, lavagem de dinheiro e empréstimo vedado. O objetivo da visita era o pedido de revisão de uma notificação de crime ambiental expedida pela Secretaria de Meio Ambiente contra a fazenda Espírito Santo. Conforme a entrevista, Ana Júlia avalia hoje que desde 2008 há uma agenda de pressão pró-Dantas em diferentes flancos e no sentido de desqualificar o governo estadual na mídia e no Congresso. Em seguida a governadora recebeu o telefonema do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, pedindo informações sobre as reintegrações de posse no estado. Outro passo é a presença da senadora Kátia Abreu (DEM/TO) e chefe da CNA com pedido de intervenção federal no estado, seguido de discurso/ anúncio na Câmara Federal do correligionário Abelardo Lupion (DEM/PR), integrante da “bancada ruralista”, de chacina de camponeses sem terras paraenses. Na análise da governadora, além da desqualificação do governo na tensa disputa pela terra em solo paraense, a frente ruralista deseja a qualquer custo a reedição de episódios como o protagonizado na administração do PSDB, quando o médico Almir Gabriel governou o estado e Fernando Henrique o país, o trágico Massacre de Eldorado dos Carajás, ainda hoje impune, como muitos outros. Gilmar Mendes baixa em Marabá - No dia 04 de dezembro de 2009, o presidente do STF esteve em Marabá para ativar o primeiro mutirão fundiário do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que visa reduzir em 10% as tensões no campo. O principio é a conciliação dos ânimos. Interroga-se: e os títulos grilados de terras, os crimes impunes, a morosidade da justiça? Antes do fim – O enredo ganhou mais um capítulo no dia 21 de junho de 2012. Era uma quinta feira de sol quando 12 pessoas foram feridas à bala por jagunços da fazenda Cedro, localizada no município de Marabá, sudeste do Pará. Uma criança e uma mulher estão entre os feridos. A criança de dois anos de idade foi atingida por um tiro na cabeça. Conforme a coordenação do MST no Pará há feridos com gravidade. Nenhuma morte foi anunciada.

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A violência ocorreu pela manhã quando trabalhadores rurais sem terra ligados ao MST no sudeste do Pará realizavam um ato político que denunciava a grilagem de terra pública, de desmatamento ilegal, uso intensivo de venenos na área e violência cotidiana contra trabalhadores. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Marabá e o MST do Pará argumentam ao todo são em número de seis as fazendas do Grupo de Dantas ocupadas pelos movimentos sociais no período. A juíza da Vara Agrária de Marabá negou o pedido de liminar de despejo feito pelo grupo em 2010, mesmo assim o Tribunal de Justiça do Estado cassou a decisão da juíza e autorizou o despejo de todas as famílias. As mesmas organizações que defendem a reforma agrária na região informam que através de mediação da Ouvidoria Agrária Nacional, foi proposto um acordo judicial perante a Vara Agrária de Marabá, através do qual, os Movimentos Sociais, com apoio do INCRA, desocupariam três fazendas (Espírito Santo, Castanhais, Porto Rico) e outras três (Cedro, Itacaiunas e Fortaleza) seriam desapropriadas para o assentamento das famílias. O Grupo Santa Bárbara, que administra as fazendas do banqueiro, concordou com a proposta. Em ato contínuo, os trabalhadores sem terra desocuparam as três fazendas, mas, o Grupo Santa Bárbara tem se negado a assinar o acordo. 4 - Agrobiodiversidade na Amazônia: movimentos sociais apontam práticas agroecológicas como forma de desenvolvimento13 A disputa pela terra e recursos nela existentes coloca no centro a disputa pelo projeto de desenvolvimento em que estão em oposição grandes corporações do setor do agronegócio, mineradoras, construtoras de barragens, base de lançamento de foguetes de Alcântara, empresas de cosméticos e farmácia; e no outro extremo, camponeses, indígenas e quilombolas e demais modos de vida considerados tradicionais na Amazônia. No setor de sementes os

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Trabalho publicado na página da rede www.forumcarajas.org.br em novembro de 2009

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mastodontes são a Monsanto, Dupont e Syngenta, que controlam próximo de 40% do mercado mundial. A diferença de força e do poder político e econômico entre as partes envolvidas foi um dos pontos de reflexão do Seminário Agrobiodiversidade da Amazônia, ocorrido nos dias 17 e 18 de novembro de 2008, na ilha de São Luís, Maranhão. Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA), Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) foram os organizadores do evento. A ensolarada cidade recebeu cerca de 130 pessoas de todo o canto da Amazônia e de outras regiões do país para refletir sobre a questão e expor produtos numa feira dedicada à riqueza de variedades da natureza e do artesanato. Cachaças, licores, mel, comidas típicas, geléias e compotas foram expostos, entre outros itens. Na semana que reflete sobre a Consciência Negra, num estado de grande contingência afro, o Tambor de Crioula do Mestre Felipe fez as honras da casa. A consolidação de ações em rede a partir de frentes que alternem mobilização política de pressão nos níveis locais e nacionais e a potencialização das iniciativas locais de agroecologia e fortalecimento da troca de experiências foram algumas sugestões de enfrentamento com a conjuntura que favorece as grandes corporações. Quilombolas, camponeses, indígenas e assessores partilharam práticas baseadas nos princípios da agroecologia e que ainda carecem de maior visibilidade como possibilidades concretas de desenvolvimento que contemple o saber e os modos de produção das populações da terra firme, várzea, ilha, estuário, cerrado, áreas de colonização consideradas antigas e as áreas de colonização mais recentes na Amazônia. Grandes projetos em questão Nice Tavares, uma negra quebradeira de coco babaçu do Maranhão e integrante do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), reflete que a manutenção da agrobiodiversidade representa a garantia da vida. A militante arremata que o desenvolvimento baseado nas grandes empresas só traz destruição ao povo que vive no campo. A interpretação da Tavares comunga da fala dos depoimentos de militantes de outras regiões, como no caso do José Maria, do

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Baixo Parnaíba, mesorregião leste maranhense (Chapadinha, Coelho Neto, Caxias, Codó e Chapada do Alto Itapecuru), onde proliferam monoculturas de soja e cana. No contexto de expansão de grandes grupos sobre áreas de populações consideradas tradicionais é comum a lógica da violência em diferentes níveis: expulsão da família camponesa, grilagens de terra, corrupção do poder público, destruição ambiental, condições análogas a trabalho escravo, prostituição e violência urbana. O militante indica que o Grupo João Santos é um dos protagonistas. José Maria informa ainda o elevado índice de poluição dos recursos hídricos por conta do uso intensivo da monocultura da soja. Marly e Santinha são índias Makuxi da área da Raposa Serra do Sol, em Roraima. Além do povo Makuxi a reserva registra os povos Ingarikó, Patamona, Taurepang e Wapixana. As simpáticas índias informam que o processo da presença dos sulistas na região teve início lá na década 1960 e foi se aprofundando com o passar dos anos. Elas festejam o fracasso eleitoral do prefeito de Pacaraima, Paulo César Quartiero, o mais voraz opositor da demarcação continua da reserva. A ação contra a União que visa o esquartejamento da reserva Raposa Serra do Sol foi movida pelos senadores Augusto Afonso Botelho Neto (PT/RR) e Francisco Mazarildo de Melo Cavalcanti (PTB/RR), com o endosso do governador do estado, Ottomar Pinto (PSDB). As indígenas relatam que os grandes produtores de arroz expulsam os homens da região e cometem todos os tipos de violência contra crianças e mulheres. As mulheres são estupradas, ressalvam com revolta as índias. As Makuxi pontuam que a monocultura do arroz destrói os mananciais e os buritizais, palmeira comum na região. Uma artimanha corrente para a composição de latifúndios tem sido a compra de lotes em projetos de assentamento da reforma agrária. Além do arroz registra-se a introdução da leguminosa Acácia Manja, uma planta exótica.

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Dinâmicas agroecológicas O seminário alternou dois momentos distintos. O primeiro dedicado à reflexão e o segundo à apresentação de experiências locais. Silenciosamente homens e mulheres do campo fazem uma pequena revolução. A oeste do Maranhão a ONG, que tem como caráter ser dirigida por trabalhadores/as rurais tem consolidado uma prática em agroecologia que contempla inúmeras dimensões, como gênero, geração, educação e tecnologias baratas. Trata-se do Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural (CENTRU), que tem entre seus integrantes o histórico militante da luta camponesa Manoel Conceição Santos. Ainda no Maranhão, na região do Mearim, região marcada pela proeminência de palmeiras de babaçu, a Associação de Assentamentos no Estado do Maranhão (ASSEMA), incentiva uma prática em agroecologia que já alcançou o mercado internacional e tem na linha de frente mulheres camponesas. Já na região do Baixo Tocantins, onde predomina uma dinâmica de estuário, onde a vida se condiciona às oscilações das marés, a Associação Paraense de Apoio às Comunidades Carentes (APACC) anima uma rede de agricultores/as em agroecologia em três municípios locais. Experiências em agroecologia ASSEMA é uma organização dirigida por trabalhadores rurais e quebradeiras de coco babaçu que tem atuação no Médio Mearim, região central do Estado do Maranhão, situado no Meio Norte do Brasil. Seu trabalho envolve famílias de 17 áreas de assentamento dos municípios de São Luiz Gonzaga do Maranhão, Lima Campos, Lago do Junco, Lago dos Rodrigues, Esperantinópolis e Peritoró, todos situados na referida região, com uma população entre 10 e 20 mil habitantes. Comércio solidário e produção agroecológica norteiam a atuação da organização. No município de Lima Campos, 11 famílias da Associação dos Agricultores da Gleba Riachuelo participam da experiência consorciando o plantio de banana, abacaxi, caju, jaca e mamão com leguminosas, árvores madeireiras da região e a palmeira do babaçu.

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Em Lago do Junco, a ASSEMA assessora uma escola familiar agrícola que atende atualmente 42 jovens entre 12 e 18 anos de oito comunidades. Lá, os jovens aprendem técnicas de produção diversificada, no sistema integrado que inclui o plantio de roças, criação de pequenos animais, hortas medicinais e alimentícias. O CENTRU tem na década de 1970 a sua semente e se estruturou em 1980 no Maranhão e Pernambuco. No Maranhão tem uma ação diversificada em agroecologia em múltiplas linhas que passa pela formação de núcleos de base familiar, fomento a organização de cooperativas, fábricas de beneficiamento de castanha de caju, centro de difusão de tecnologias e escola técnica de agroecologia voltada para filhos/as de agricultores/as. O Centro de Estudos do Trabalhador Rural (Cetral) recebe visitas de trabalhadores rurais de outros estados do país e do exterior, além de professores e pesquisadores. É nele que funciona a Escola Técnica de Agroecologia e onde há mais de uma década se desenvolve um sistema agroflorestal em dez hectares. Nos 10 hectares são cultivados horta, trinta e nove espécies de frutíferas, entre elas, acerola, caju, banana, abacaxi, coco, jaca, goiaba, cupuaçu, murici. Entre as madeiras podem ser encontradas, cedro, ipê, inharé, copaíba, mogno, paricá e nim. No caso das leguminosas usadas para adubação verde, existe farta produção de feijão guandu, mucuna preta e sabiá. A estrutura do Cetral conta com alojamento e auditório. A modelagem da experiência CENTRU encontra-se no Projeto de Desenvolvimento Sustentável e Solidário (PDSS) – O Cerrado é vida! Uma espécie de orientador das ações da organização. Uma das pernas fundamentais é a CCAMA (Central de Cooperativas Agroextrativistas do Maranhão), que reúne sete cooperativas nos municípios de Amarante (Cooprama), João Lisboa (Coopajol), Imperatriz (Coopai), Montes Altos (Coopemi), São Raimundo das Mangabeiras (Coopevida), Loreto (Coopral), Balsas (COOPAEB). A CCAMA é o resultado de mais de dez anos de atuação do Centru junto aos trabalhadores/as rurais no oeste e sul do Maranhão. São 1.935 famílias, conforme os dados do projeto. Se multiplicarmos por cinco, a média de pessoas por família, teremos 9.675 pessoas envolvidas.

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Associação APACC Faz oito anos que a APACC atua na região do Baixo Tocantins desenvolvendo atividades voltadas para a transição do modelo de agricultura tradicional para o modelo baseado na agroecologia. Ao longo desse tempo a APACC fomentou um pouco mais de 1.000 experimentos baseados na agroecologia, em aproximadamente 130 comunidades, que envolveu cerca de 2.500 pessoas nos município de Cametá, Oeiras do Pará e Limoeiro do Ajuru. A caminhada incentivou canais de diálogo com uma diversidade de sujeitos sociais regionais, nacionais e internacionais, entre eles, universidades, associações e cooperativas de produtores rurais, Casa Familiar Rural, sindicatos de trabalhadores rurais, colônias de pescadores e inúmeras instituições dos governos municipais, estadual e federal. Um pouco da vasta experiência encontra-se registrada em artigos na Revista Agriculturas - experiências em agroecologia, em citações de trabalhos científicos de pesquisas universitárias, nos relatos dos trabalhadores e trabalhadoras rurais em participação de vários encontros dentro e fora do Pará. Em novembro a APACC lança o livro que recupera um pouco da História da experiência. A produção contextualiza os elementos econômicos, políticos e sociais do Baixo Tocantins e sinaliza para a metodologia de trabalho que alterna o diálogo e produção de experimentos na área de produção e saúde preventiva de forma integrada. O livro registra ainda os desdobramentos positivos e limites da experiência. A avaliação sobre a intervenção da APACC nos mais diversos níveis do diálogo da instituição é, em regra geral, positiva e entusiasmada. Essa avaliação positiva pode ser encontrada nos relatórios de observadores externos, na esfera nos financiadores e principalmente em depoimentos do sujeito social que é o principal parceiro da APACC, o trabalhador/a rural, que efetivou uma Rede de Multiplicadores em Agroecologia. O reconhecido e inovador trabalho da APACC tem como pontos positivos a diversificação da produção camponesa do Baixo Tocantins. Sobre isso se reflete que antes da intervenção da APACC o produtor mantinha uma ou duas linhas de produção, e após a troca de conhecimento com a equipe multidisciplinar da ONG a unidade

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produtiva mantém entre quatro a seis linhas de produção. Isso possibilita segurança alimentar e renda durante todo o ano. O manejo do açaí é uma das práticas com maior repercussão no aumento da produção. 5 - O Julgamento do caso João Canuto- tudo uma ilusão?14 A história da luta pela terra no sudeste paraense é impregnada de sangue camponês, em que a década de 1980 do século XX é considerada a mais pujante. Na distensão da ditadura, enquanto as representações políticas camponesas se reorganizavam, os pecuaristas em oposição à possibilidade da efetivação de um plano nacional de reforma agrária, ao mesmo tempo em que se fortificaram no Congresso Nacional, impulsionaram a radicalização na defesa da propriedade privada através da União Democrática Ruralista (UDR), tendo o município de Redenção, no sudeste paraense, como berço principal. É a UDR que se credita a mobilização de fazendeiros na região do Bico do Papagaio, norte do Tocantins, oeste do Maranhão e sudeste do Pará no enfrentamento contra as ações de ocupações de terras pelos camponeses. As inúmeras chacinas e execuções de dirigentes sindicais rurais e seus apoiadores despontam neste instante. Os assassinatos de membros da família Canuto e do sindicalista Expedito Ribeiro, militantes do PC do B e dirigentes do Sindicato de Trabalhadores Rurais (STR) no município de Rio Maria ocorrem nesse período. Por conta da morosidade da justiça local em apurar os inúmeros casos de assassinatos no campo paraense o estado brasileiro tem sido denunciado em cortes internacionais, a exemplo da Organização dos Estados Americanos (OEA). A morosidade se constitui como uma nódoa na ação da justiça local quando se trata de processos sobre as execuções de dirigentes sindicais pró reforma agrária. E se constitui como uma seiva que irriga a manutenção da violência. Há casos que ultrapassam a casa de uma década e outros que somam mais de vinte anos.

Trabalho publicado parcialmente na Revista Cadernos do Terceiro Mundo, edição de nº246, no ano de 2003.
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A demora na justiça tem impulsionado várias frentes de mobilização dentro e fora do país com vistas a levar a julgamento os mandantes dos crimes contra dirigentes camponeses/as. O caso de João Canuto de Oliveira levou 17 anos e cinco meses até ir a julgamento, numa mobilização do Comitê Rio Maria. 18 tiros disparados por dois pistoleiros não identificados mataram Canuto no dia 18 de dezembro de 1985, às 15.30h, em frente ao cemitério da cidade. Ao cair da tarde, às 18.35h da tarde do dia 23 de maio de 2003, após dois dias de julgamento, Adilson Carvalho Laranjeira e Vantuir Gonçalves de Paula foram condenados a 19 anos e 10 meses de prisão no Tribunal do Júri de Belém, Pará. Roberto Moura, juiz da 1ª Vara Penal (o mesmo do caso Eldorado do Carajás), fez o pronunciamento da pena de dois, dos cinco fazendeiros acusados de mandantes do assassinato do presidente do STR de Rio Maria, João Canuto de Oliveira. Os outros três fazendeiros acusados de mando da morte do sindicalista e que estão foragidos são: Ovídio Gomes Oliveira, Jurandir Pereira da Silva e Gaspar Roberto Fernandes. Luzia Canuto, filha de João, é historiadora e coordena o Comitê Rio Maria. A organização anima a luta por justiça a favor dos militantes da reforma agrária assassinados no Pará. Luzia comemorou a sentença dos fazendeiros ao lado da mãe, dona Geraldina, 65 anos na época, e o irmão Orlando. O irmão de Luzia é sobrevivente de um sequestro cinco anos após a execução do pai, onde dois irmãos José e Paulo foram mortos. Quando do julgamento, Orlando presidia a Câmara Municipal de Rio Maria. O julgamento dos acusados da morte de João Canuto entra para a história por dois motivos: primeiro pelo fato de ser a sétima vez em que acusados de envolvimento de morte de animadores da reforma agrária sentam no banco dos réus; e o segundo, por conta das brechas da Lei, que possibilitou aos dois fazendeiros condenados gozarem do direito de recorrem em liberdade, por serem primários e “gozarem de bons antecedentes”. O desejo de dona Geraldina era vê-los saírem algemados direto para a cadeia. Ainda assim, perto de 600 trabalhadores rurais acampados desde o primeiro dia do julgamento festejaram a sentença.

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As Testemunhas Dois meses antes de ser morto, João Canuto de Oliveira ficou escondido dos pistoleiros na casa do defensor público José Roberto da Costa Martins, que atuou a partir de 1983 em Conceição do Araguaia, 200 quilômetros de Rio Maria. Martins declarou em seu depoimento que Canuto lhe havia confessado que Vantuir tinha interesse na morte dele. No tribunal, Martins denuncia que vários depoimentos relativos ao caso do sindicalista sumiram da delegacia de Rio Maria, que por conta do fato, tiveram de ser retomados em Conceição do Araguaia. Aqui vale uma ressalva no que diz respeito ao chefe de delegacia no interior do Pará naqueles dias distantes. Os mesmos não eram obrigados a terem graduação em Direito. Os chefes de delegacia eram alcunhados de “bate pau”, não raro, pistoleiro, homem de confiança do prefeito. Na época da morte de Canuto, Adilson Laranjeira era prefeito de Rio Maria. Padre Ricardo Rezende Figueira atuou na região entre 1977 a 1989 como membro da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Rezende assina dois livros essenciais para quem se interessa por essa latitude da Amazônia A Justiça do Lobo, posseiros e padres do Araguaia (Vozes, 1986) e Rio Maria, o Canto da Terra (Vozes,1993). Por conta de seu vínculo de amizade com João Canuto o depoimento ganhou outra conotação, a de informante. No livro Rio Maria, o canto da terra (página 177), Rezende registra uma conversa com o lavrador João Martins, onde narra uma fala do mesmo: “Se falava que houve reunião para matar João Canuto. Uma com vinte e cinco pessoas, na casa do Valter Valente. O cabeça era Laranjeira. Quando os dois pistoleiros chegaram para acertar Canuto, vinham da fazenda Canaã, do Ovídio.” Rezende recorda em seu depoimento que se comentava na cidade que os fazendeiros e políticos se reuniram algumas vezes para planejar a morte de Canuto e dos deputados estaduais Paulo Fonteles e João Batista (assassinados em 1987 e 1988) e do ex-deputado federal Ademir Andrade, hoje vereador em Belém pelo PSB. Entre os participantes da reunião estavam Laranjeira, o prefeito de Conceição do Araguaia, Orlando Mendonça e seus irmãos Marcondes e Jordão Mendonça; Dirceu, Danilo e Juscelino, o médico Eurico, Jurandir e o fazendeiro Elviro Arantes, encarregado da contratação dos pistoleiros ao lado do fazendeiro Zanela.

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A Testemunha chave Olinto Domingos Vieira, comerciante de sementes em Rio Maria foi o depoimento decisivo para condenar os fazendeiros Adilson Laranjeira e Vantuir de Paula. O comerciante confessou em júri que esteve em uma reunião de fazendeiros que decidiu pela execução de Canuto. A reunião foi três dias antes da morte do sindicalista e serviu para se fazer a coleta do dinheiro que iria pagar os pistoleiros. Vieira sentenciou que além de Vantuir de Paula, estavam presentes os fazendeiros Renê Simões, o dono da casa de prenome Danilo, o irmão de um dos réus, conhecido como Valtinho. Vieira informa que chegou a ver o fazendeiro Adilson Laranjeira deixando a casa onde ocorreu a reunião. “Ouvi quando todos eles falaram que tinham que eliminar o João Canuto senão as invasões iam continuar”. Todos foram unânimes, finalizou Vieira. Para o promotor Edson Cardoso o depoimento do comerciante fornecia evidências de sobra para o tribunal do júri condenar os fazendeiros a 30 anos de reclusão em regime fechado, pena máxima por homicídio culposo qualificado. Só que não foi bem assim o desfecho. Impressões do Julgamento O ministro Nilmário Miranda, secretário nacional dos Direitos Humanos, e o presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha presenciaram o final do julgamento. Para João Paulo, a condenação é emblemática, passo fundamental para o fim da impunidade no país. Apesar de verem com bons olhos a condenação dos fazendeiros, representantes da Anistia Internacional e da Federação Internacional de Direitos Humanos prometem vigilância com relação ao caso e com outras ocorrências de assassinatos de militantes da luta pela reforma agrária no Brasil. Apesar da demora no andamento do processo, 17 anos e cinco meses, o observador da Anistia Internacional, o uruguaio Edgar Carvalho, avaliou como positivo o desfecho da luta do movimento popular brasileiro. Annie Marie Delmares, advogada do Tribunal de Hauts de Siene, França e integrante da Federação Internacional de Direitos Humanos discordou do bom senso dos colegas estrangeiros, para Delmares, para que o julgamento seja perfeito é necessário que a sentença seja cumprida.

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“Uma ilusão” disparou frei Henri des Roziers, advogado francês assistente da acusação, e da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Xinguara, cidade vizinha a Rio Maria. Frei Henri comparou o desfecho do Caso Canuto com o julgamento do Eldorado de Carajás, onde o major José Maria Oliveira e o coronel Mário Pantoja, que também foram condenados em junho em 2002 respondem em liberdade até hoje. O estado do Pará ostenta o recorde de crimes contra lideranças populares executadas na luta pela reforma agrária, 541 casos só no sul e sudeste do Estado desde 1980. Isso motivou a presença do presidente nacional da CPT no julgamento do caso Canuto, D. Tomás Balduíno, que considera: “A violência no sul e sudeste do Pará é emblemática. É o Estado mais conflitivo na disputa pela terra por causa do governo e da justiça, que emperra a reforma agrária e gera a impunidade”. Justiça “A omissão do Poder Judiciário é, de maneira geral, extremamente óbvia e grave. Tem muita omissão, mais que omissão. Eu, pessoalmente, sou testemunha da existência de poucos juízes absolutamente autênticos, de promotores de justiça honestos, competentes e corajosos. O Judiciário do Brasil, principalmente o do Pará, apresenta muitos problemas. Uma das razões para isso é a falta de um sistema de fiscalização legítimo. É fundamental que exista uma fiscalização do Judiciário, a partir da sociedade organizada. O funcionamento do Judiciário quase sempre foi a favor dos fazendeiros, dos ricos e das pessoas que têm poder econômico, social e político,” a observação é do Frei Henri des Roziers, coordenador da CPT de Xinguara, a revista Em Questão (Belém, nº07, 2ª quinzena de 2003). Quando se examina o diagnóstico organizado pela CPT do Pará de 541 mortes ocorridas no sul e sudeste do Estado desde 1980, e somente sete casos entre mandantes (03), intermediário (01), e pistoleiros (03), foram a júri e nenhuma pessoa se encontra presa, fica evidente que há algo de grave na província do Pará. É a partir de tal quadro que o movimento popular cimenta o discurso que é a certeza de impunidade que motiva a pistolagem contra lideranças sindicais e do MST.

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Caso do fazendeiro Jerônimo Alves de Amorim, que foi julgado e condenado no dia seis de junho de 2000 a 19 anos e meio de prisão como mandante da morte do também sindicalista Expedito Ribeiro de Souza. O fazendeiro cumpre pena domiciliar em sua mansão em Goiânia, Goiás, alegando motivo de saúde. Ainda conforme documento da CPT, sete júris foram realizados envolvendo sindicalistas de Rio Maria, incluindo o caso do fazendeiro Jerônimo Alves. Ubiratan Ubirajara, assassino dos filhos de João Canuto, José e Paulo, foi condenado a 50 anos de prisão, foragido da penitenciária de Belém dois anos após ser condenado; José Serafim Sales, conhecido como “Barreirito”, assassino de Expedito Ribeiro, condenado a 25 anos de prisão, foragido desde 1999 da penitenciária de Marabá; Francisco de Assis atende pela alcunha de “Grilo”, intermediário da morte de Expedito Ribeiro, 21 anos de prisão; Paulo César, tentativa de assassinato contra Carlos Cabral, condenado a dois anos de reclusão. Há ainda o caso do exsargento da PM Edson Matos, foragido do quartel da PM mesmo antes de ir ao tribunal do júri. Outro exemplo que não pode deixar de ser lembrado é o caso do Massacre de Eldorado do Carajás, onde 19 trabalhadores rurais sem terra foram mortos pela PM do Pará, em 17 de abril de 1996. Na questão de Eldorado somente dois oficiais dos 154 policiais envolvidos foram condenados pelo último júri de 2001, e esperam em liberdade julgamento de recurso. Por essas e outras demandas relacionadas com a luta pela terra que em 1999 a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), condenou o estado brasileiro pela lentidão em apurar o caso de João Canuto. As cartas recentes de Rio Maria A vitória do Caso Canuto foi parcial, avaliou Jax Pinto, excoordenador da CPT do Pará. “Acreditamos que há um avanço no que diz respeito aos casos de levar a julgamento os envolvidos na morte de lideranças empenhadas na luta pela reforma agrária no Brasil. É resultado da pressão do movimento no Brasil e internacional. Hoje a reforma agrária é pauta nacional. Isso resulta da luta, da ação em rede do movimento”, arremata Pinto.

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Alerta Durante a conversa Pinto foi enfático em salientar a sua preocupação em relação ao que considera a última fronteira da Amazônia. Trata-se da Terra do Meio, a derradeira reserva de Mogno, madeira de grande valor comercial no mercado mundial. A região fica na Amazônia Oriental, entre os rios Xingu e Iriri, bandas dos municípios de Altamira, São Félix do Xingu, Itaituba e Novo Progresso. “Lá tudo é grande, até o pequeno proprietário de terra. Lá a dinâmica pela disputa da terra é entre o grande e o pequeno, e entre os grandes proprietários e índios. Há um casamento cruel entre a destruição ambiental e a violência. A situação da região nos preocupa bastante, e pode ficar mais grave. Sem falar na construção da polêmica hidrelétrica de Belo Monte”, finaliza Pinto. Apreensão é a palavra chave que traduz o sentimento dos envolvidos na condenação dos fazendeiros que encomendaram a morte de João Canuto. O processo de recurso pode durar até cinco anos entre as instâncias estaduais e nacionais. Nos recentes documentos do Comitê Rio Maria distribuídos pela internet, reside a avaliação que o juiz Moura poderia ter decretado a prisão imediata por ser um crime considerado hediondo. Além da convocação para a manutenção da pressão das entidades nacionais e internacionais para a prisão dos condenados, o documento do Comitê Rio Maria salienta que: “... é óbvio que os condenados e seus parceiros poderosos e violentos não ficarão passivos. Eles vão tentar calar de uma maneira ou de outra a voz daqueles que lutaram e lutam pela Justiça na região e para que este julgamento e condenação se realizassem”. Assina a nota, a família Canuto, Comitê Rio Maria, CPT e o STR. Tribunal Simbólico “O Tribunal Internacional de Crimes de Latifúndio no Pará” foi realizado de 27 a 30 de outubro de 2003, como forma de pressionar as autoridades sobre a omissão de mortes na luta pela terra. Foi lançado no último dia do julgamento dos fazendeiros que encomendaram a morte de Canuto. Foi um tribunal popular que julgou alguns processos de visibilidade nacional, como o dos acusados pelo Massacre de

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Eldorado do Carajás e pelas mortes de “Fusquinha” e “Doutor” (integrantes do MST mortos em Parauapebas), e “Dezinho” (integrante da Federação dos Trabalhadores na Agricultura – Fetagri, morto em Rondon do Pará, 2000). Edmilson Rodrigues, prefeito de Belém à época e D. Tomás Balduíno, coordenador da CPT nacional estiveram no lançamento do Tribunal. Dira Paes, Marcos Winter, Letícia Sabatela, Carla Marins e Leonardo Vieira foram alguns dos artistas que estiveram presentes no julgamento. Eles integram um comitê que apóia a luta pela reforma agrária no Brasil. Naquele mesmo momento outra chacina no Xingu era noticiada. Dona Geraldina Canuto, viúva de João, veio a óbito no dia 15 de outubro de 2009. O derradeiro depoimento de dona Geraldina foi dado a jovens realizadores, que produzem um documentário sobre as viúvas e mães de trabalhadores rurais da região. 6 - Carajás, o novo cenário?15 A passagem do ano de 2003 para 2004 na região do Bico do Papagaio, norte do Tocantins, sul do Pará e oeste do Maranhão, foi marcada pelo alarde apaixonante de defesa do meio ambiente por conta dos possíveis impactos ambientais e inundações que a hidrelétrica de Marabá venha a causar caso saia dos croquis dos engenheiros. 25 municípios dão vida ao Bico do Papagaio, com uma população estimada em 150 mil pessoas. Uma região imortalizada na história, pela Guerrilha do Araguaia, e a violência e morte de dirigentes sindicais rurais. O inusitado é que o primeiro apito tenha soado da boca de Siqueira Campos (PSDB), ex-governador do Estado do Tocantins, denunciado por uma revista de circulação nacional como o dono de todas as iniciativas financeiras exitosas no estado. Um animador do desenvolvimentismo, cujo slogan de sua administração ganhava caráter na frase: Tocantins, o Estado da livre iniciativa. Mais estranho ainda é que oito hidrelétricas estão planejadas para o Tocantins, sendo que a hidrelétrica de Lajeado já está produzindo. É energia para

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Trabalho publicado no site www.riosvivos.org.br me janeiro de 2004

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exportação. A propaganda nos sertões do Brasil é que tais projetos vão promover o desenvolvimento, geração de emprego, vão trazer o progresso aos rincões do Brasil. A hidrelétrica de Marabá está desenhada, como outras 15 da bacia do Araguaia Tocantins, desde a década de 80 (na década de 80 eram previstas 27, segundo planejamento do Programa Grande Carajás). A cidade de Marabá tem cerca de 200 mil habitantes, é a principal do sudeste do Pará. Tem no comércio sua base econômica. E goza da boa fama de se resolver tudo na ponta da peixeira ou da bala. A cidade tem alma violenta e violentada. Um resíduo do processo de colonização marcado por grandes projetos, ausência de debate, violação de leis e direitos. Algo similar com o que vem sendo reeditado em toda a região do Bico do Papagaio. Com um custo estimado de U$2 bilhões de dólares, e um prazo de construção médio de oito anos, a hidrelétrica deverá ser uma das maiores do país, com capacidade de produção de 2.160 megawatts. Segundo dados da “Cartilha Águas sem barragens”, editada em 2003, pelo Fórum Carajás (2003-, rede de organizações populares da área de abrangência da Ferrovia de Carajás), 11 municípios serão atingidos. A hidrelétrica afetará ainda as comunidades indígenas Gavião, aldeia Mãe Maria e Suruí Aiwekar no Pará. Total de 16.465 pessoas dos estados do Pará, Tocantins e Maranhão serão deslocadas de seus locais de origem. Deste, 4.364 pessoas da área urbana e 12.100 da zona rural, entre camponeses, indígenas, extrativistas e pescadores. O Parque Estadual do Encontro das Águas, onde os rios Tocantins e Araguaia se encontram poderá sumir. Pedra de Amolar, o marco geográfico da divisa entre os três estados deverá ter a mesma sina. O que soa mais grave é que segundo estudos da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) a hidrelétrica de Marabá está inserida na zona de transição do rio Araguaia, onde se verifica entre abril e setembro a migração de espécies de peixes que deixam o reservatório de Tucuruí, sul do Pará, e os lagos e igarapés nas proximidades de Itupiranga e Marabá, Pará. Ao mesmo tempo, há cardumes descendo o Araguaia em direção ao Tocantins. O que a caracteriza como uma área com restrição à implantação de hidrelétrica.

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A Cnec Engenharia S/A, empresa paulista é a responsável pela realização dos estudos de viabilidade técnica e dos impactos ambientais e sociais. A empresa é a mesma que vem fazendo estudos nas hidrelétricas do Vale do Araguaia Tocantins, - o maior em potencial hidrelétrico do país, como a de Estreito, oeste do Maranhão. Segundo matérias publicadas nos jornais do Tocantins, os municípios do Estado serão os mais atingidos com a formação do lago de 10 bilhões de metros cúbicos de água, numa área de 1.300 quilômetros quadrados. Os impactos sociais e ambientais imediatos são de difícil mensuração, sem falar nos cumulativos. A região é bela. Marcada pela presença de vários sítios arqueológicos, um pôr de sol extraordinário e nativos sem pressa. Esperantina e Araguatins, cidades do Estado do Tocantins, correm o risco de submergirem com a formação do lago. É válida a mobilização que ocorre no Tocantins, mas, uma vez mais se palmilha o mesmo erro de outrora, não se discutir o modelo de desenvolvimento estabelecido para a região. No mapa dos grandes projetos as hidrelétricas são apenas um dos pontos. Consta ainda a abertura de estradas, portos, construção da Ferrovia Norte-sul, monocultura da soja via Projeto Sampaio no próprio Tocantins, novos projetos de exploração da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), com o cobre em Canaã do Carajás, bauxita em Paragominas, nova siderúrgica em Marabá, implantação de empresa de produção de placas de aço em São Luís, Maranhão, construção de linhas de energia para as empresas de Alumina e Alumina em Barcarena no Pará (Alunorte/ Albrás), e a Alumar, São Luís; concomitantemente a hidrelétrica de Tucuruí passou por uma duplicação de sua capacidade produtiva com a implantação de 10 novas turbinas. O que se nota é uma nova reconfiguração espacial a partir desses novos grandes projetos. Pelo montante dos empreendimentos que emergem, é como se surgisse um novo Projeto Carajás. Agora no contexto de uma economia globalizada, não mais sob a égide da doutrina de segurança nacional. Pelo que podemos notar ao longo da experiência dos anos do projeto Carajás, não há nada de novo na paisagem. A lógica permanece a mesma desde o descobrimento do país: o saque das riquezas, e a socialização das catástrofes sociais e ambientais. Para efeito de comprovação basta uma visita aos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH), e outros.

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O que se registra de novo no front é uma mobilização dos setores populares da região do Bico do Papagaio, que ocorre há uns quatro anos, através da realização de vários seminários, campanhas contra a construção de barragens que têm como interessadas as empresas de alumínio (Alcoa, Billliton, Votorantim, CVRD) que objetivam a autonomia de energia, o maior insumo na produção do minério. Produção de livros, cartilhas e artigos também fazem parte do rosário das ações dos populares. O que desponta na janela é a reedição de uma história tantas vezes lida.

Alguns dados sobre as hidrelétricas do Vale Araguaia Tocantins
1 - Cana Brava (GO) 350 famílias não foram indenizadas, outras tantas receberam compensações pífias. 35 mil hectares de terra submergiram nos municípios de Minaçu, Cavalcante e Colinas do Sul, todos em Goiás, além de atingir áreas dos índios Awa-canoeiros. Depois de longos debates com o Ministério Público Federal, a empresa responsável pelo empreendimento, a Tractebel, concordou em “discutir ações compensatórias”, mas a instituição encarregada de defender os direitos dos índios ainda não deu prosseguimento ao acordo. Um dos reflexos da usina de Cana Brava na área dos Awa-canoeiros foi a transformação de um rio de corredeiras, impossível de navegar, em um lago que possibilita a entrada de estranhos por via fluvial. A hidrelétrica gera 471 MW. O empreendimento custou US$ 420 milhões, parte dos quais financiados por bancos de fomento como BNDES e BID . • Empresa interessada: Tractebel. 2 - Serra da Mesa (GO) Encheram o reservatório Serra da Mesa em 1997, criando o maior lago, em termos de volume de água (54,4 milhões de métros cúbicos) da América Latina (área 1.784 km2). O lago banha nove municípios, entre eles: Uruaçu, Campinorte, Colinaçu, Cavalcante, Minacú e Campinaçú. Segundo o MAB são mais de 1.800 famílias atingidas e nem uma foi indenizada, apenas alguns grandes proprietários, mais localizados na região do canteiro. Segundo a

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FURNAS e pelo IEA, na época eram 1.390 famílias, sendo 1.295 atendidas. Faltam 95, destas 75 estão com o dinheiro depositado em juízo, e as outras 20 estão nas áreas de remanso. Hoje existem mais de 100 casos na justiça reivindicando revisão das indenizações. Houve uma litigação litígio com enfoque na existência de um grupo de 6 Índios Avá-Canoeiro em terras que foram inundadas (8% da reserva). Isso provocou uma série de ações da Funai e um “programa” da Furnas em favor dos indígenas, inclusive uma porcentagem dos “royalties”. Segundo a CPT-Goiás, o caso de Serra da Mesa é bem dramático, pois não se fez nenhuma tentativa de negociação coletiva, tudo que aconteceu e o que não aconteceu foi individualmente, o que dificultou e muito a luta tardia daquele povo. A potência de Serra da Mesa é 1275MW. • Empresas interessadas: Furnas, Votorantim, Banco Bradesco e Camargo Côrrea. 3 - Serra Quebrada (MA/TO) Deve inundar os municípios de Itaguatins/TO e Governador Edson Lobão/MA e desalojará 14 mil pessoas, além de alterar o modo de vida dos oleiros e pescadores da região. Também deve afetar áreas dos povos indígenas Krikati e Apinajé. Com relação aos povos Apinagés isso vai se dar em suas áreas mais férteis. A previsão é de que a hidrelétrica produza 1.328MW. A licitação está prevista para o 1º semestre de 2002. • Empresas interessadas: Alcoa, Billiton, Eletrobrás, Eletronorte, Votorantim e Vale do Rio Doce. • Últimas informações: nas audiências sobre a hidrelétrica de Estreito foi relatado que existe mais de vinte ações na justiça contra Serra Quebrada. 4 - Estreito (MA/TO) Situa-se entre os municípios de Aguiarnópolis/TO e Estreito/ MA, com impactos mais profundos nas cidades de Carolina/MA, Babaçulândia/TO, que deve ser inundada, e Filadélfia/TO atingindo diretamente 1.150 pessoas e indiretamente a reserva indígena krahô, além do Monumento Natural das Árvores Fossilizadas. A avaliação é de que a água que abastece várias cidades ao longo do rio Tocantins sofrerá danos com a hidrelétrica. A licitação está prevista para o 1º

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semestre de 2002. A hidrelétrica de Estreito deve produzir 1.087MW. O empreendimento tem o financiamento do BNDES. • Empresas interessadas: Alcoa, Billiton, Camargo Correa, Tractabel e Vale do Rio Doce. • Últimas informações: o Ministério Público Federal de Imperatriz entrou com uma ação questionando os processos de licitação e licenciamento do empreendimento. 60% da construção já foi realizada na metade de 2009. 5 - Tupirantins (TO) Deve atingir os municípios de Tupirantins e Itapirantins, além de áreas indígenas. A licitação está prevista para o 1º semestre de 2002. Esta hidrelétrica deve produzir 820 megawatts de energia. • Empresa interessada: EDP . 6 - Lajeado (TO) Inundou os municípios de Miracema, Lajeado, Palmas, Porto Nacional, Brejinho de Nazaré e Ipueiras, desalojando três mil famílias. A hidrelétrica entrou em funcionamento no 2º semestre de 2001, com a perspectiva de produzir 850 megawatts de energia. • Empresas que adquiriram a concessão: EDP Grupo Rede, , CEB e CMS Energy. 7 - Peixe Angical (TO) Começou a operar em 2006 com capacidade de produzir 452 megawatts. A hidrelétrica fica entre os municípios de Peixe e São Salvador. A licitação aconteceu no 1º semestre de 2001. O consórcio Enerpeixe. O processo de licenciamento foi questionado pelo IBAMA, que apresentou 37 recomendações. Essas recomendações diziam respeito às compensações que serão oferecidas para os donos de mineração, a atualização da listagem de flora, fauna e ictiofauna, a reformulação do programa de reassentamento para as famílias atingidas e a apresentação de estudos complementares sobre a vila de Espírito Santo, próxima à cidade de Paranã. • Empresas interessadas: EDP e Grupo Rede. 8 - São Salvador (TO) Foi inaugurada em 2009 pelo presidente Luiz Inácio Lula da

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Silva (PT). Situada entre os municípios de São Salvador do Tocantins e Paranã. O licenciamento ambiental foi contestado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), que considerou insatisfatórias as informações apresentadas no processo e que aspectos relevantes à análise do processo não foram contemplados ou sequer abordados. A situação desse empreendimento é que a empresa foi notificada acatou a notificação. A hidrelétrica gera 243 megawatts. • Empresa interessada: Tractebel. 9 - Marabá (PA) Localizar-se-á no Rio Tocantins, próximo a confluência com o rio Araguaia. Inundará terras de onze municípios, afetando cerca de 12.100 pessoas da área rural e 4.364 pessoas da área urbana. O impacto deste aproveitamento sobre a terra indígena Mãe Maria (Grupo Gavião) foi considerado crítico. A interferência se dará sobre 10% da terra indígena e também afetará a área indígena Sororó, do povo Suruí Aiwekar. Os impactos também se darão em áreas de extração de castanha-do-pará e babaçu e do parque estadual do Encontro das Águas. A capacidade instalada deve ser de 2.160 MW num investimento de quase US$2bi. • Últimas informações: caso Marabá seja aprovada, toda a justificativa para a negação da licença ambiental para Santa Isabel cai por terra. 10 - Couto Magalhães (GO/MT) Deve inundar áreas do Parque das Emas, em Goiás, assim como o projeto da hidrelétrica de Itumirim(GO), que foi embargada recentemente pelo Ibama, e atingir os municípios de Santa Rita do Araguaia e Alto do Araguaia, numa das últimas áreas em bom estado de conservação do cerrado As empresas que se mostraram interessadas são a EDP e o grupo rede. A hidrelétrica de Couto Magalhães obteve o maior ágio no leilão de novembro de 2001, mas até hoje não recebeu o licenciamento prévio por parte do Ibama. Seu EIA-Rima (Estudo de Impacto Ambiental) apresentou cinco espécies de mamíferos ameaçados, mas os técnicos do Ibama verificaram cerca de dez espécies de mamíferos e uma de arara azul protegidas por lei federal. A situação de Couto Magalhães é que a empresa foi notificada. Está previsto que sejam gerados 150

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megawatts de energia. • Empresa interessada: Consórcio Enercouto (EDP e Grupo Rede). 11 - Santa Isabel (TO/PA) Situada no baixo curso do Rio Araguaia, próximo à Santa Isabel do Araguaia, deve inundar áreas pertencentes aos municípios de Palestina do Pará, Piçarra e São Geraldo do Araguaia, 7,4% da reserva ecológica da serra das Andorinhas e parte da APA de São Geraldo do Araguaia, no estado do Pará, e dos municípios de Ananás, Araguanã, Riachinho e Xambioá do estado do Tocantins, desabrigando 974 pessoas na área rural e 1404 pessoas de área urbana. Também afetará áreas dos povos indígenas Surui e Karajá. Essa é uma área de transição entre formações florestais e vegetação de cerrado. O projeto prevê a geração de 1200MW. • Empresas interessadas: Alcoa, Billiton, Votorantim, Camargo Correa e Vale do Rio Doce. • Últimas notícias: as empresas desistiram da construção de Santa Isabel. O seu licenciamento ambiental foi negado pelo Ibama, dentro da perspectiva de deixar o rio Araguaia ileso, tanto em relação à construção de hidrelétricas como da construção da hidrovia Araguaia-Tocantins. 12 - Araguanã (TO/PA) É um desdobramento da hidrelétrica de Santa Isabel, sendo que tem seu eixo localizado logo após a montante de Santa Isabel, numa área de transição entre a área integrada, ao norte, e a área de integração incipiente, ao sul. Inundará o território de 18 municípios, atingindo 10.000 pessoas na área Rural e 18% das terras da Comunidade Indígena Karajá de Xambioá, numa área equivalente a 2.297 km2. Segundo Glenn Switkes, da Rede Internacional de Rios, haveria efeitos difíceis de prever sobre os pantanais da ilha do Bananal. A sua capacidade instalada deve ser de 960MW. A CVRD A Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) é sem dúvida o principal ator econômico da região sudeste do Pará, e a principal empresa mineradora do país. Privatizada desde 1997, e colecionando

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sucessivos recordes de faturamento, a sétima mineradora do mundo possui em seu planejamento, uma série de recentes investimentos, que combinados com várias obras de infraestrutura agendadas no Plano Plurianual (PPA) do governo anterior, e sem uma definição diferente no atual governo configuram o que chamo de nova expansão do capital na região do Vale do Araguaia - Tocantins. Nas contas do jornalista Lúcio Flávio Pinto, a CVRD é a empresa que mais exporta no Brasil, responsável por 20% do comércio exterior da balança comercial, 70% dos produtos da Vale são extraídos do solo do Pará. Com 22 mil funcionários, a empresa faturou U$ 5,2 bilhões de dólares em 2002. Com um valor estimado hoje em U$ 13 bilhões de dólares, a empresa navega sob o comando da Bradespar (do Bradesco) e do grupo de fundos de pensão liderados pela Previ (do Banco do Brasil). Avançar num debate sobre a CVRD não é a proposta deste trabalho, no entanto julgo a necessidade de aclarar alguns elementos recentes da história da empresa, posto a relevância da CVRD para a compreensão da região. A fonte de informação é a recente publicação da editora Cejup, CVRD: a sigla do enclave na Amazônia, assinado pelo sociólogo e jornalista Lúcio Flávio Pinto. A ideia é tentar nominar alguns projetos. O atual estágio de desenvolvimento econômico evidencia na região mais que nunca, o que se convencionou chamar de nova ordem mundial. E avalio que a CVRD é a encarnação dessa lógica do capital em escala internacional. O desenho de vários eixos de integração para o continente latinoamericano parece não soar algo aleatório. Faz parte das políticas de integração encaminhadas a partir da Casa Branca, que como rios, devem desaguar na Área de Livre Comércio das Américas (ALCA). Algo similar se reflete na América Central com o Plano Panamá Puebla (PPP). Segundo Pinto, a CVRD investiu 5,3 bilhões de dólares na incorporação de 13 companhias. Em abril concluiu investimento de mais de um bilhão de dólares em quatro grandes negócios: a compra de metade do capital que sua sócia japonesa Mitsui possuía na mineradora Caemi; a inauguração da duplicação da usina de alumina da Alunorte, Barcarena, Pará, de 2,4 milhões para 4,2 milhões de toneladas; a conclusão da maior pelotizadora de ferro do país, em São Luís, no Maranhão, de 6 milhões de toneladas, e a aquisição da

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Mineração Vera Cruz (antes TRZ), para começar a lavrar a bauxita em Paragominas, assegurando o abastecimento da Alunorte como a maior produtora do continente e das maiores de alumina do mundo. Outro projeto com semblante de grande porte é a siderurgia de placas de aço. A empresa deseja implantar a fábrica no Porto da Ponta da Madeira, em São Luís Maranhão, em parceria com a siderúrgica chinesa- Baosteel. Por se tratar de uma ilha, os impactos ambientais podem ser graves. Uma associação de várias organizações sociais da cidade organizou um movimento contrário à instalação da fábrica. No movimento há várias representantes da zona rural da cidade. São pescadores, extrativistas, trabalhadores rurais que correm o risco de perder terras que são usadas há mais de cem anos. A instalação ameaça ainda o abastecimento, já precário, de água potável na ilha. 7 - Amazônia, Pará e o Mundo das águas do Baixo Tocantins16 O Brasil é o país que concentra a maior parcela da principal floresta tropical do mundo, a Amazônia. Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela são os demais países onde incide a floresta. Do território nacional cerca de 60% é constituído pela Amazônia Legal (Acre, Amapá, Amazonas, oeste do Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins), com uma população estimada em 20 milhões de pessoas. A floresta é um mundo de gentes, olhares, saberes, cores, cheiros e histórias. A abundância de recursos florestais, minerais e hídricos a torna alvo dos mais diferentes interesses em variadas dimensões: econômicas, sociais, políticas e ambientais. O direito à propriedade privada da terra tem se sobreposto à posse ancestral. As Amazônias do Brasil são várias. Nesse vasto mundo, o Pará é o segundo estado em extensão territorial. Há áreas de colonização

O presente artigo integra a publicação Na Trilha do Anilzinho: Resistência e Multiplicação de Conhecimentos Agroecológicos na Região do Baixo Tocantins-PA, recuperação sobre a experiência em agroecologia da ONG Associação Paraense de Apoio às Comunidades Carentes (APACC) na região do Baixo Tocantins. O artigo foi publicado na Revista Estudos Avançados, da Universidade de São Paulo/USP, Nº69\2010.
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mais recentes, como o sudeste; e as de colonização mais antiga, como a Bragantina e o Baixo Tocantins, inseridas na mesorregião Nordeste, além da fronteira em disputa, caso do sudoeste do estado. No sudeste do Pará a disputa pela terra ainda é aguda. Já na Bragantina e no Baixo Tocantins o quadro é considerado bem definido. O contrário ocorre a sudoeste que tem se constituído em cenário de deslocamento da violência contra camponeses e seus pares, antes concentrada a sudeste do estado. O rio inunda a vida dessas gentes de realidades ímpares. O rio as distancia e aproxima, alimenta e é espaço de lazer, contemplação poética e quintal de lendas: Iara, Boto, Boiúna e sabe-se lá quantas outras. O rio é a vida e às vezes a morte dessa população. Numa parte do ano ele invade ruas, casas, roças e pastos, chegando, em algumas regiões, a causar danos materiais. Noutra época do ano recua e forma praias. Nas regiões marcadas pela realidade do estuário, caso do Baixo Tocantins, a oscilação de seis em seis horas dos rios condiciona a vida da população. O pôr do sol é uma pintura. No mundo de rios da Amazônia do Brasil pretende-se erguer outro mundo, o do concreto, para geração de energia. Os planos do Governo Federal já realizaram isso no caudaloso rio Tocantins, e continuam a fazê-lo. Assim, também agendam o mesmo rumo para o rio Xingu, o rio Tapajós, o rio Araguaia e o rio Madeira. Energia para quem? Eis a pergunta que se encontra no ar. No caldeirão dos povos da Amazônia há índios, negros e mestiços. Nativos e os que para cá vieram em busca de dias melhores: migrantes internos, com ênfase nordestina e gente de terras mais distantes, caso de europeus e asiáticos. Eles podem ser encontrados em terra firme, várzea ou ilhas. A Amazônia é uma aventura? Um tanto dessa gente veio em busca de riqueza “mágica” nos garimpos, outro tanto atraída pelo sonho de emprego nos grandes projetos de mineração, ferrovia, siderurgia e barragens. Hoje engrossam a constelação das faces dessa terra. Quando se investiga a colonização recente marcada pela implantação de grandes projetos, o quadro social destoa da beleza do pôr do sol. Subempregados, alguns empregados em ocupações secundárias, muitos escravizados em fazendas e carvoarias, ao lado da destruição da floresta, poluição dos rios e redução do pescado, constituem o quadro da realidade social e ambiental.

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Uma parte dessa gente da Amazônia do Pará encontrou um rumo na vida na agricultura familiar. Uma espécie de retorno às origens. Alguns estão na direção das organizações de representação camponesas e outra parcela sentou o passo em projetos de assentamentos rurais ou ainda disputa um pedaço de terra. Muitos (as) foram mortos (as) na disputa pela terra. E existe uma boa parcela no trecho (estrada) com as borocas (mochilas) nas costas em busca de um canto para viver. A terra e os recursos nela existentes na Amazônia animam um conjunto de interesses e disputas de infinitas redes econômicas, sociais e políticas, em escalas regionais, nacionais e internacionais que conectam a Região Amazônica ao resto do planeta, o que põe em cena a disputa pelo modelo de desenvolvimento. Dias melhores virão? Baixo Tocantins: economia, política e campesinato O cotidiano no mundo das águas da micro região de Cametá, mais conhecida como Baixo Tocantins é organizado pelos rios Moju, Pará e o caudaloso Tocantins. Sete municípios compõem a região: Abaetetuba, Igarapé Miri, Limoeiro do Ajuru, Cametá, Mocajuba, Baião e Oeiras do Pará. Em maior ou menor profundidade a região sofre os impactos da barragem de Tucuruí, com ênfase para a redução do pescado. Desse conjunto, apenas o município de Oeiras do Pará não é banhado pelo Tocantins e sim pelo rio Pará. No estuário é a oscilação das marés que condiciona a vida da população local. Cascos (canoas), voadeiras e popopôs, - nome de embarcação adquirido por conta do ruído do motor - constituem a principal forma de transporte e canal das relações comerciais entre os agricultores, pescadores e extrativistas com o meio urbano. As viagens, que às vezes ultrapassam 10h, são momentos de contemplação, solidariedade, troca de informação, conto de causos, fofoca, galhofas diversas entre os (as) conhecidos (as). O Baixo Tocantins encontra-se numa zona de fronteira. A microrregião localiza-se entre a Amazônia Central e Amazônia Oriental, no nordeste do Pará, por onde passa a linha dividindo coincidentemente a microrregião do Baixo Tocantins e a de Tucuruí (COSTA, 2006, p. 21). A microrregião integra a bacia do Tocantins,

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considerada a segunda mais importante do país, superada apenas pela bacia do rio Amazonas. É ainda indicada como a de maior potencial para a geração de energia hidroelétrica. A bacia do Tocantins-Araguaia constitui um dos eixos de planejamento do Governo Federal, com enfoque em transporte e geração de energia, o que prenuncia outros impactos sociais e ambientais para as populações locais. O rio Tocantins, como parte desse complexo estuário amazônico, se comunica com o rio Pará, se junta ao rio Guamá para formar a baía do Guajará e o conjunto fluvial da foz do gigante rio Amazonas, o qual despeja diariamente milhões de metros cúbicos de água doce no oceano Atlântico (COSTA, 2006, p. 23). A Eletronorte, empresa responsável pela UH de Tucuruí, nos derradeiros anos tem se empenhado em implantar alguns projetos que reduzam os impactos resultantes da obra. Recentemente a usina teve a sua capacidade duplicada para acompanhar o ritmo de aumento da produção nas indústrias de alumínio do Pará e Maranhão, ligadas a grandes corporações, a Vale e a Alcoa. A obra de engenharia foi erguida durante o regime militar para alimentar as grandes corporações do setor de alumínio no Pará e no Maranhão com energia barata. Entre os impactos provocados pela barragem há registros de: inundação de vasta extensão de floresta, deslocamento de populações indígenas, não indenização de famílias deslocadas pela obra, redução do pescado e poluição, erosão do leito e das margens do rio e elevado índice de malária. Sem falar do não atendimento das populações nativas com a energia gerada pela hidrelétrica. Sobre a população da região do Baixo Tocantins os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2000) apontam que corresponde a 353.860 habitantes. A população rural ocupa duas dinâmicas distintas: terra firme e a região das ilhas. Na primeira predomina o cultivo da mandioca para a produção de farinha; enquanto nas ilhas o açaí desponta como a principal produção. Além da palmeira do açaí, nas ilhas há grande incidência de buritizais, entre outras espécies. Por conta do açaí, ora coqueluche nacional e internacional, chegam à região uma série de empresas de comercialização do Pará, e de regiões economicamente mais desenvolvidas, como o sudeste

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do país e mesmo empresas européias e americanas. A presente corrida sobre o açaí tem motivado junto aos trabalhadores rurais a necessidade de fortalecer a organização dos produtores para que se consiga uma melhor capacidade de negociação. No momento as empresas tendem a estipular o preço do produto. A cobertura vegetal do Baixo Tocantins é classificada por especialistas como floresta equatorial densa. As pesquisas sobre a Amazônia indicam que a atividade madeireira tem sido o primeiro passo para o início do desflorestamento. As investigações realizadas por Gilson Costa sobre o Baixo Tocantins apontam que o processo na região teve início na década de 1960, com prolongamento até a década de 1990, quando se registra a redução do estoque de madeira, tendo como consequência a migração das madeireiras para outras regiões. As áreas de terra firme desflorestadas são ocupadas por agricultura tradicional de corte e queima, onde basicamente cultivase mandioca, o principal produto dessa zona. Quanto à região das ilhas, que também sofreu desflorestamento no mesmo período, este foi bem menos intenso, com menor impacto, até porque não havia grandes concentrações de espécies madeiráveis como na região de terra firme, o que, dentre outros fatores, permitiu a essas áreas relativa conservação (COSTA, 2006, p. 25). A exploração do cacau e da seringa configurou a cena econômica por longos anos na região de Cametá, até meados da década de 1970. Seguida da exploração madeireira, que antecipou a monocultura da pimenta-do-reino, duas matrizes em demasia caras ao equilíbrio ambiental. Nos dias atuais as atividades de agricultura e do extrativismo regem a economia local. As análises de Gilson Costa sobre a região atestam que a renda agrícola advinda da agricultura e do extrativismo, responde por mais de 60% da economia dos municípios da região do Baixo Tocantins. Um pouco da história do campesinato do Baixo Tocantins Em termos gerais, os estudos considerados clássicos sobre a categoria campesinato indicam que é a condição subordinada que o conforma nas diferentes sociedades escravocratas, feudais, socialistas e capitalistas, a partir da transferência do excedente de sua produção

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para outras classes sociais. A base de produção familiar e o controle relativo sobre os meios de produção são outras características em comum nas observações de diferentes pesquisadores. Embora a condição subalterna o conforme, tal condição não anula a sua revolta ante os agentes de sua condição. Já as pesquisas sobre o campesinato na Amazônia indicam que a precariedade é uma característica que integra a vida do (a) camponês (a) na região. Precariedade que passa pela baixa escolaridade, baixo uso de insumos, pouca capacidade na produção e comercialização de produtos, grandes distâncias dos centros de comercialização, o que facilita a ação de atravessadores, além de ausência/insuficiência de assistência técnica. As famílias numerosas emergem como um fator de pressão sobre os recursos naturais e a terra. No Baixo Tocantins, por exemplo, há casos de famílias com mais de dez filhos. No que diz respeito à organização, o campesinato do Baixo Tocantins é considerado um dos mais antigos e importantes da Amazônia. O caráter combativo é uma marca da sua trajetória. Há dois momentos históricos marcantes na luta em busca da emancipação: o da Cabanagem, revolução ocorrida no século XIX e o Movimento de resistência conhecido como Anilzinho, anos 1970, quando o país ainda vivia num processo de ditadura militar. A Cabanagem (1835-1840) é um dos momentos mais significativos nessa trajetória de insurgência no período regencial do Brasil. Avalia-se que pela primeira vez os oprimidos conseguiram chegar ao poder. Entretanto, o movimento agrupava representantes das elites locais e o povo pobre da região. O nome do movimento é uma referência às moradias humildes das comunidades ribeirinhas. A repressão contra a revolta cabana chegou a assassinar cerca de 30% da população do Pará na época, estimada em cem mil habitantes. Já o movimento do Anilzinho se constitui como um marco recente do campesinato do Baixo Tocantins. O movimento que aconteceu no município de Baião foi o primeiro no contexto da luta pela tomada do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) pelos trabalhadores alinhados politicamente com o “novo sindicalismo”. Esse conflito ocorreu em 1979, numa região denominada Anilzinho, situada às margens de um rio de mesmo nome. Constituiu um fato importante no processo de adesão da Igreja Católica local à luta pela terra que já iniciara em diversas regiões do Brasil e sobre a qual a

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Igreja Católica manifestou-se publicamente, através do documento “Igreja e problemas da terra” (CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL, 1980). A trajetória do campesinato amazônico na busca pela emancipação registra várias mediações, que transitam por partidos políticos, segmentos da Igreja Católica, ONGs, entre outros. A Igreja Católica é um dos mediadores mais presentes a partir da década de 1960, e avança até a década de 1990. Na caminhada camponesa amazônica foi relevante a presença da Igreja Católica a partir das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) na formação de STR, associações e cooperativas. Na experiência de Cametá são conhecidas as comunidades cristãs que fomentaram experiências com o cultivo da pimenta-do-reino, a criação de cantinas comunitárias e a assistência técnica. O campesinato do Baixo Tocantins realizou em momentos mais recentes inúmeras frentes de atuação. Nos registros de pesquisa de Valdomiro de Sousa encontram-se o Movimento em Defesa da Região Tocantina (Modert) e o Movimento Nacional dos Atingidos por Barragens (Monab) e ainda o Movimento Nacional dos Trabalhadores da Pesca (Monape). Nota-se na História do Baixo Tocantins um conjunto de inúmeras formas de mobilização que passa pelos gritos da terra, acampamentos de camponeses no município de Cametá, - cidade pólo da região-, ocupações em órgãos públicos no município e em Belém, marcam os anos 1990. Na década de 1990 registrou-se uma vasta mobilização camponesa em todo o país em busca do reconhecimento econômico, social e político. Nesse contexto de lutas realizam-se mobilizações no município de Cametá e no vizinho município de Tucuruí na luta pela energia elétrica. Os acampamentos que tiveram a participação do bispo D. José Elias só foram desfeitos após acordo e recebimento de fax do Ministro das Minas e Energia da época atendendo a reivindicação dos acampados no fim da década de 1990. A conquista do Fundo Constitucional do Norte (FNO) especial é considerada um marco do momento recente da luta sindical dos (as) trabalhadores (as) rurais do Baixo Tocantins. Assim também é percebida a eleição de representantes da categoria em diferentes níveis de poder: executivo e legislativo em escalas municipal e estadual. Em certa medida um passo significativo na relação de poder contra

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as forças tradicionais. Além do FNO a luta sindical alcançou outras políticas públicas para a região como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). Se o momento inaugural foi marcado pelo foguetório, o seguinte não teve tanta celebração. Sucedeu um profundo endividamento. Entre os fatores indicados encontram-se a ausência de habilidade do trabalhador/a rural com as entrelinhas da dinâmica bancária. Gilson Costa sublinha que os camponeses foram duramente atingidos, enquanto os setores do agronegócio ligados à produção dos insumos agropecuários conseguiram lucrar bastante com a venda de maquinário e adubo químico. Técnicos que atuam na assistência rural regional revelam que o modelo dos projetos foi equivocado, marcado pelo incentivo de monoculturas da pimenta-do-reino, e de espécies frutíferas estranhas à região, como o murici. Uma ação na contramão do que preconizam os estudos sobre a Amazônia, que sugerem a dinâmica da diversificação de culturas e Sistemas Agroflorestais (SAF). No campo da assistência técnica a região registra a presença da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) e a Comissão Executiva da Lavoura Cacaueira (Ceplac) e de forma considerada não sistemática existem ações de algumas prefeituras. Os registros históricos sobre as ações da Prelazia de Cametá com o incentivo da pimenta-do-reino sinalizam como limites além da dinâmica de monocultura, o uso intensivo de adubos químicos. O golpe de misericórdia na monocultura de pimenta-do-reino foi a redução do preço no mercado externo. A outra fase diz respeito às linhas de financiamento do governo que tiveram como resultado o endividamento das famílias camponesas, o que resultou num clima de insegurança e desconfiança entre os/as trabalhadores/as rurais sobre qualquer intervenção externa. Eis uma modesta reconstrução sobre a vasta história da região em que vai se desenvolvendo a experiência no contexto recente, da Associação Paraense de Apoio às Comunidades Carentes (APACC) na construção de um processo de transição do modo de produção camponesa, tendo como centro a agroecologia. Entre os desdobramentos da jornada, que soma aproximadamente oito anos, tem-se, a construção da rede de camponeses (as) multiplicadores (as) no horizonte da agroecologia

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e saúde preventiva, seguindo uma orientação cuja base reside no diálogo e na troca das diferentes formas de conhecimento, para o cultivo de práticas inovadoras de produção camponesa. Ao longo desse tempo a APACC fomentou um pouco mais de 1.000 experimentos baseados na agroecologia, em aproximadamente 130 comunidades, que envolveu cerca de 2.500 pessoas nos municípios de Cametá, Oeiras do Pará e Limoeiro do Ajuru. A caminhada incentivou canais de diálogo com uma diversidade de sujeitos sociais regionais, nacionais e internacionais, entre eles, universidades, associações e cooperativas de produtores rurais, Casa Familiar Rural, sindicatos de trabalhadores rurais, colônias de pescadores e inúmeras instituições dos governos municipais, estadual e federal. Um pouco da vasta experiência encontra-se registrada em artigos na Revista Agriculturas - experiências em agroecologia, em citações de trabalhos científicos de pesquisas universitárias, nos relatos dos trabalhadores e trabalhadoras rurais em participação de vários encontros dentro e fora do Pará. Em janeiro deste ano, quando da realização do Fórum Social Mundial em Belém, Pará a APACC lançou o livro Na Trilha do Anilzinho: Resistência e multiplicação de Conhecimentos Agroecológicos na Região do Baixo Tocantins-PA. A publicação recupera um pouco da História da experiência. A produção contextualiza os elementos econômicos, políticos e sociais do Baixo Tocantins e sinaliza para a metodologia de trabalho que alterna o diálogo e produção de experimentos na área de produção e saúde preventiva de forma integrada. O livro registra ainda os desdobramentos positivos e limites da experiência. Avaliação em regra geral é positiva e entusiasmada sobre a intervenção da APACC nos mais diversos níveis do diálogo da instituição. A avaliação positiva pode ser encontrada nos relatórios de observadores externos, na esfera nos financiadores e principalmente nos depoimentos do sujeito social que é o principal parceiro da APACC, o trabalhador/a rural, que efetivou uma Rede de Multiplicadores em Agroecologia. O reconhecido e inovador trabalho da APACC tem como pontos positivos a diversificação da produção camponesa do Baixo Tocantins. A inovação se reflete que antes da intervenção da APACC o produtor

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mantinha uma ou duas linhas de produção, com após a troca de conhecimento com a equipe multidisciplinar da ONG a unidade produtiva mantém entre quanto a seis linhas de produção. Isso possibilita segurança alimentar e renda durante todo o ano. O manejo do açaí é uma das praticas com maior repercussão no aumento da produção. Referências Associação Paraense de Apoio às Comunidades Carentes (APACC). Tecendo saberes: agricultura familiar com princípios agroecológicos na Amazônia paraense, APACC, 2007. BORDENAVE, J. O que é comunicação rural. 2ª. ed. São Paulo: Brasiliense, 1985. CAPORAL. F.R; COSTABEBER,J. Agroecologia e Extensão Rural: Por uma nova Extensão Rural: fugindo da obsolescência, Porto Alegre/RS, 1994. Disponível em <http://www.agroeco.org/brasil/ material/costabeber.htm#_Toc13019702>. Acesso em 25/07/2008. CAPORAL, F.R.; RAMOS L. F. Da extensão rural convencional à extensão rural para o desenvolvimento sustentável: enfrentar desafios para romper a inércia. In MONTEIRO D. & M. MONTEIRO. Desafios na Amazônia: uma nova Assistência Técnica e Extensão Rural. UFPA, Belém, 2006. CARMO. E. S. Replicação dos conhecimentos da pedagogia da alternância para o desenvolvimento das comunidades no município de Cametá/Pa. FIPAM/NAEA/UFPA. Belém, 2007 COSTA. G. S. Desenvolvimento rural sustentável com no paradigma da agroecologia. NAEA/UFPA. Belém, 2006 D´INCAO. M. C. & TOPALL, O. Relatório de Avaliação Externa, 2003. FREIRE, P Extensão ou comunicação. 10ª ed. Rio de Janeiro, Paz e . Terra, 1992 MACIEL, F. & outros. Aprimorando o manejo tradicional de açaizais nativos. In Revista Agriculturas- experiências em agroecologia, v3,nº3Rio de Janeiro/ RJ, outubro de 2006. p. 20 a 23 POMPEU, C. Resgate e valorização da sabedoria popular sobre o uso de ervas medicinais no Baixo Tocantins (PA). In Revista Agriculturas- experiências em agroecologia, v4, nº4, Rio de Janeiro/ RJ, dezembro de 2007. p. 15 a 17

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SOUSA. R. V. Campesinato na Amazônia: da subordinação à luta pelo poder. NAEA/UFPA, Belém, 2002. SOUSA, R. SILVA, R. & MACIEL, F. Multiplicadores dos conhecimentos agrecológicos: a experiência de extensão rural na região Tocantina (Pará). In PETERSEN, P. DIAS, A. Construção do conhecimento agroecológico. Articulação Nacional de Agroecologia, 2007. p.88 a 102 8 - Carajás – interesses da Vale pressionam territórios de camponeses e indígenas17 Elevada taxa de violência contra camponeses, desmatamento, trabalho escravo e infantil, prostituição, concentração de terra e renda estão entre os elementos que resultaram do processo de internalização do capital no sul e sudeste do Pará. Tais passivos quase sempre são ocultos da pauta dos grandes meios de comunicação e nos discursos políticos. No entanto, as populações que lá habitam os conhecem bem. No século passado, o regime de exceção (1964-1985) é considerado um marco histórico da integração da Amazônia ao resto do país. O estado foi consagrado como o principal indutor da economia que tem ainda hoje como matriz o extrativismo. E tem sido o extrativismo mineral que inseriu o Pará entre os estados que mais contribui para a formação do superávit primário do país. O ciclo da mineração na Amazônia iniciado na década de 1950 na Serra do Navio, no Amapá, e que se aprofundou com a descoberta do ferro e outros minérios na região de Carajás, agora ganha outras nuances com a exploração em outros municípios do Pará. Canaã dos Carajás, Paragominas, São Félix do Xingu, Ourilândia do Norte, Xinguara e Juruti são alguns deles. O aprofundamento do extrativismo mineral dialoga com outros projetos, como a produção de energia e transporte. Eles configuram eixos de desenvolvimento que norteiam a ação do planejamento do governo federal. O modelo coloca no primeiro plano a disputa pelo território e as riquezas naturais existentes.

Publicado originalmente no site da Rede Fórum Carajás e no blog Furo em julho de 2010.
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Estão em oposição grandes corporações do capital nacional e internacional que gozam do financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e as populações locais consideradas tradicionais, como camponeses, extrativistas, pescadores, quilombolas e indígenas. Vale, Alcoa, MMX estão entre as empresas mineradoras. Entre as construtoras de hidrelétricas temse, entre outras: Camargo Correa, Alcoa e Tractebel Suez. Sem falar da própria Vale e Alcoa. Carajás - tensões na disputa pelo território - 21 municípios do Pará estão entre os cem que mais desmatam na Amazônia. Dessas duas dezenas de cidades, 19 estão no sudeste do Pará, que além da mina de Carajás abriga o pólo siderúrgico. Boa parte desses municípios que ocupa linha de frente em desmatamento também lidera o ranking de violência. Somente no primeiro semestre de 2010 cerca de 300 pessoas foram assassinadas de forma violenta no sul e sudeste do Pará. Os estudos foram realizados através do Projeto Prodes – Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite/2007. Uma outra questão, esta de ordem trabalhista, reside em índices recordes de ações contra a Vale no município de Parauapebas. A região também lidera o ranking de trabalho escravo em fazendas e carvoarias. É a mineradora, por conta do poder econômico, controle de tecnologia de ponta, além das relações políticas em diferentes níveis de poder, que tem estruturado e reestruturado o território na região de Carajás. É ela que pressiona áreas de projetos de assentamento da reforma agrária e áreas indígenas, e tem induzido a remodelação das cidades, a exemplo do que ocorre em Marabá. O município considerado polo da região passa por alterações em sua geografia física, social e econômica. Registram-se inúmeras ocupações, loteamentos, ampliação de vias consideradas estratégicas, como a duplicação da ponte sobre o rio Tocantins, duplicação de parte da Transamazônica que corta a cidade, ampliação do polo industrial com a construção da indústria Aços Laminados do Pará (ALPA). A empresa que será movida a carvão mineral deverá produzir 2,5Mt/ano de aço plano, na forma de placas e bobinas. O município registra ainda o fenômeno da proliferação da construção de inúmeras vilas de kitnet para atender a demanda de operários e migrantes, e o surgimento de outros atores políticos e econômicos.

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A mineração da Vale encontra-se em expansão, tal ampliação tem implicado incremento da infraestrutura de transporte multimodal para escoar a produção. A ferrovia de Carajás terá a duplicação de 600 km do total de 800. Tem-se ainda a efetivação da hidrovia do Araguaia-Tocantins, a construção de um porto em Marabá e a ampliação do Porto do Itaqui em São Luís, Maranhão. E a construção de inúmeras Hidrelétricas na bacia do AraguaiaTocantins, a exemplo da hidrelétrica de Estreito, na fronteira do Maranhão com o Tocantins, onde as mineradoras Vale e Alcoa são associadas da Camargo Corrêa e da Tractebel Suez.

Vale de mineração na região de Canaã dos Carajás/PA\Foto: Rogério Almeida

Os territórios já efetivados são pressionados a cada novo projeto de mineração e construção de obras de infraestrutura. O que implica em novas tensões. Na ferrovia de Carajás circula o maior trem do mundo, com 330 vagões e uma extensão de 3.500 metros com capacidade para carregar 40 mil toneladas de minério. Os números sempre são estratosféricos, assim como os problemas. Ourilândia do Norte - O conflito norteia a realidade da região de Carajás, que às vésperas de cada eleição, coloca a emancipação em pauta. No fim de 2011, a população decidiu pela manutenção do território. Frações de poder do Baixo Amazonas e Carajás pleiteavam

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a criação dos estados do Tapajós e Carajás. Situações de conflito marcam as realidades locais. Documentos sistematizados pelo Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (CEPASP) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT), com sede em Marabá, descrevem situações de tensão entre as empresas mineradoras e as populações camponesas nas cidades de Canaã dos Carajás, Ourilândia do Norte, Curionópolis e Marabá. Os dados atestam que no município de Ourilândia do Norte, onde se explora níquel, lotes de famílias assentadas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) são adquiridos de forma ilegal desde 2003. A Canico do Brasil Mineração Ltda, uma subsidiária da canadense INCO foi a primeira empresa que controlou as minas. Em seguida foi a Mineradora Onça Puma. A Vale adquiriu o direito da exploração de níquel no município em 2005. Somente num módulo de exploração, a estimativa é de 57 mil toneladas do minério por ano e investimento de 1,1 bilhão de dólares. Em 2006 a Vale adquiriu a INCO. Um ano antes de somar a primeira década de privatização. Ao menos para a empresa, o empreendimento é considerado de excelente viabilidade econômica, ponderam especialistas em cadernos de economia dos principais jornais do país. O destino da produção é a Ásia. Além do município de Ourilândia do Norte o níquel incide em São Félix do Xingu e Parauapebas. No caso de Ourilândia, os lotes envolvidos na compra ilegal pela Vale são provenientes dos projetos de assentamento Tucumã, Campos Altos e Santa Rita. Os dados indicam que pelo menos 80 lotes foram negociados. Em seguida, a empresa derruba as casas, plantações e outras benfeitorias. O documento denuncia que 20 mil pés de cacau financiados pelo Banco da Amazônia (BASA) para fins de reflorestamento foram destruídos. A situação de conflito entre a empresa mineradora e os assentados da reforma agrária resultou na fragilização da cadeia de produção de leite. A extração do minério tem poluído o rio Cateté, que corta a reserva indígena do povo Xikrin. No mesmo documento há a informação que pelo menos duas nascentes de água foram soterradas para a implantação do projeto. Por conta dessa situação, na passagem de 2007 para 2008, o INCRA nacional criou uma comissão para avaliar a situação. O

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Ministério Público Federal indicou que o INCRA não tem competência para deferir ou indeferir a desafetação de áreas de interesse da Vale. Conforme a assessoria da CPT, as tensões sobre os territórios de interesse da mineração ou para as obras de infraestrutura estão configurando as principais demandas da instituição. Desde 2007 a CPT tem acompanhado a questão. No caso de Ourilândia do Norte, um acordo entre as partes envolvidas vai garantir o reassentamento de 20 famílias afetadas. Conforme o acerto, a Vale fica obrigada a construir casas, estradas vicinais, escolas, cemitérios e outras infraestruturas. A mineradora deve investir pelo menos 16 milhões. A metade do recurso será administrada por um fundo coletivo. E a outra metade distribuída entre as famílias. Para a assessoria jurídica trata-se de uma grande vitória, posto a resistência da Vale para sentar à mesa quando do início da mobilização dos trabalhadores rurais. Canaã dos Carajás - o município integra a área de atuação da Vale. Se na bíblia a terra, onde correria leite e mel em abundância, seria a prometida para o povo de Deus, tal profecia soa mais coerente para os interesses da megacorporação, no caso do Pará.

Canaã dos Carajás, Foto: Rogério Almeida

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A cidade nasceu como projeto de assentamento agrícola na década de 1980, quando da implantação do projeto Grande Carajás. No ano da privatização da Vale, 1997, o distrito foi emancipado da cidade de Parauapebas, que abriga a mina de ferro de Carajás. A inquietação de militantes populares recai sobre o dia seguinte após o encerramento da extração mineral. A lógica do saque das riquezas naturais continua a mesma desde os tempos coloniais, avaliam. O cobre é extraído da mina do Sossego. A estimativa de exploração do projeto é de duas décadas. Ele já soma seis anos. Por ano, a Vale extrai dois milhões de toneladas. Calcula-se que a mina tenha 244,7 milhões de toneladas de minério de cobre. A Vale investiu 1,2 bilhão de reais. Devastação do meio ambiente por conta de transbordamento de tanques de rejeitos do processo de extração do minério, assédio da Vale e da empresa terceirizada. Diagonal sobre camponeses assentados para a aquisição de lotes, problema de abastecimento de água, violência, não democratização da informação são algumas das questões levantadas por algumas das associações ligadas ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) no município de Canaã dos Carajás, no sudeste do Pará. O CEPASP e a CPT assessoram as representações camponesas no processo de organização de dados e debates sobre a mineração na região. Além das situações citadas acima, uma questão considerada grave é a do abastecimento de água. Em suas propagandas e artigos sobre responsabilidade social, a Vale informa que efetivou o saneamento e o abastecimento de água da cidade. No entanto, os depoimentos de pessoas indicam o contrário. Dirigentes de associações informam que além da má qualidade da água, há problemas de abastecimento. E tem ainda a tarifa do serviço cobrado pela prefeitura, que chega às vezes a taxas de R$ 400,00. Com relação à compra de lotes de pessoas assentadas, há uma estimativa que a Vale tenha adquirido pelo menos 124 lotes em áreas de interesse para a exploração de minério ou para a construção de infraestrutura. O Ministério Público Federal (MPF) já foi acionado. Faz cinco anos que a empresa explora cobre no município. É de praxe quando da efetivação desse tipo de projeto a especulação do mercado de terras no campo e na cidade, aumento do preço da terra e da locação e venda de imóvel e elevação dos preços de diárias em hotéis.

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José de Ribamar, presidente do STR de Canaã (boné claro – ao fundo) e Raimundo Gomes, sociólogo do Cepasp (boné escuro – 1º plano) discutem sobre as áreas de tensão na mineração da Vale - STR de Canaã, Foto: Rogério Almeida

Elevação da taxa de migração, alcoolismo, prostituição e uso de drogas são passivos sociais que resultam da implantação de grandes projetos na região. Tais empreendimentos são considerados como enclaves, transferem riquezas para outros locais. As relações de solidariedade e companheirismo entre as pessoas que moram no local também são afetadas. A “terra prometida” fica cravada no vale com vários platôs a serem explorados pela empresa. A estrada para se alcançar Canaã é sinuosa. Mas, bem pavimentada. No percurso atravessamos algumas fazendas e ocupações. A extração do minério e a pecuária conformam a economia local. Nos municípios onde tais projetos são instalados é comum a elevação do Produto Interno Bruto (PIB) e da renda per capita, em contrapartida, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e demais, costumam ser os piores. O nome da mina de cobre soa como uma ironia, Sossego. Ela passa a batizar empreendimentos na cidade. Apesar de inúmeros alertas nos mais diferentes níveis, as queimadas ainda fazem parte da realidade local. Uma delicada situação fundiária, disputa pelo controle do território, posse e uso das riquezas locais, modelo de projeto de desenvolvimento e papel do Estado constam como elementos de

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pano de fundo sobre a região, que conecta o local ao global por conta do extrativismo mineral. No caso de Canaã a tensão recai sobre a Vila de Mozartinópolis, localmente tratada de Rachaplaca. 80 famílias de médias e pequenas propriedades estão envolvidas na disputa pelo território de interesse da Vale. Desse total, a maioria é de baixa renda. A vila não tem uma representação política que aglutine os interesses das famílias afetadas. O STR em associação com a CPT e o Cepasp realizam a mediação entre os interesses das famílias e a mineradora. Mas há o elemento religioso bem significativo. Há casos que em projetos de assentamento chegam a ter mais de três templos evangélicos. Já ocorreu uma primeira no dia 09 de julho. Agora as organizações deverão apresentar uma proposta de reassentamento das famílias. Batista Afonso, advogado da CPT, reflete que a terra foi conquistada com muita luta. Peleja que durou mais de duas décadas, e que é marcada por grandes enfrentamentos com pistoleiros, Estado e fazendeiros. E que não é justo a renúncia nem mesmo de um palmo de chão. A garantia de reassentamento das famílias com as mesmas condições e infraestrutura tem orientado a reivindicação das organizações populares. Afonso sublinha que a maioria é pobre. E que a pauta principal reside na efetivação das mesmas condições de reprodução econômica, política e social encontrada pela mineradora. O advogado explica ainda, que outro ponto de tensão entre a Vale e os camponeses recai no município de Marabá por conta da ALPA. Conforme informações do agente pastoral, a CPT conseguiu reverter a desapropriação de 41 famílias do projeto de assentamento Belo Vale. A localização do projeto de assentamento é considerada ótima para o escoamento da produção, próximo à Transamazônica. Conforme dados sistematizados pela prestadora de assistência técnica rural, Coopserviços, o assentamento chega a faturar por ano, um milhão e duzentos mil reais numa produção volumosa e diversificada. A produção envolve frutas, hortaliças, pequenos animais, mel, gado, leite e artesanato. Os projetos de assentamentos rurais representam hoje, cerca de 52% do território do sul e sudeste do Pará e aglutinam perto de 80 mil famílias em um número de projetos de assentamento que beira a casa dos 500.

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03ª Parte

Belém - a cidade

1 - Coletivo Rádio cipó: a inquietação cultural na quebrada da Amazônia

2 - Bosque Rodrigues Alves, o Jardim Botânico da Amazônia: 120 anos e História

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1 - Coletivo Rádio Cipó- A inquietação cultural nas quebradas da Amazônia18 Há cidades na Amazônia. Ao contrário da perspectiva exuberante dos que percebem a região. Uma delas, Belém, soma mais de um milhão e meio de habitantes, cresce de costas para o rio. A cidade que é quase uma ilha coleciona favelas. Os espigões proliferam por toda parte, como o mercado informal. O cimento sufoca furos, igarapés e rios em Santa Maria do Grão do Pará, nome de batismo da capital paraense. Não há emprego para todos. A cidade é para todos? Os condomínios, verticais ou não, despontam como signos da tragédia social que conforma o país. A cidade se avoluma descoberta de saneamento básico, desprovida de transporte coletivo digno, sob um calor escaldante, sufocada em engarrafamentos. Ela é negra, índia, branca e mestiça. Inóspita para a maioria dos filhos seus. Nela os canais proliferam, assim como as gangues e a venda de balas e picolés e a mendicância nos coletivos. É a mais barulhenta da nação. A informalidade integra a paisagem. Há vendedores de inúmeros produtos: picolé, água, água de côco e o que for possível comercializar. À noite a fumaça dos churrasquinhos nubla alguns pontos da cidade. Em várias vicinais o corpo é comercializado. Tudo parece banal. A polícia é a presença mais constante do Estado nas baixadas, numa dessas, à Rua Álvaro Adolfo, no bairro da Pedreira, renomado pela sua boemia, abrigo de inúmeras manifestações populares germinou o Coletivo Rádio Cipó. O balaio de animação cultural agrupa gente jovem e outros não tão jovens assim. A rua que é considerada celeiro de artistas, abriga uma série de grupos de carimbó.

Trabalho publicado originalmente na edição comemorativa de 30 anos do Jornal Resistência, da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SPDDH), em outubro de 2008 e posteriormente no site Overmundo.
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Lá Ruy Montalvão e Carlinhos Vas encontraram D. Onete. A professora aposentada é compositora e cantora, venceu vários festivais de carimbó no estado. Mestre Bereco é outro carimbozeiro do grupo, que ainda tem o mais veterano roqueiro do Brasil, mestre Laurentino, 82 anos de praia. O Coletivo se autodefine como um núcleo de produção de mídia sonora aliado à tecnologia de áudio digital caseira na produção de pesquisas sonoras experimentais com o objetivo de divulgar essa produção para o Brasil e no exterior. Dão seiva ao grupo MC RatoBoy (vocal), MC Jamant (vocal), Renato Chalu (guitarra), Jarede das Arabias (baixo e guitarra) e Luís Bolla (percussões), Carlinhos Vas, Mestre Laurentino e Dona Onete. Primeiros passos O vocalista Ruy Montalvão, “RatoBoy”, explica que a gênese de tudo se encontra no fim da década de 1990, quando o mesmo militava na banda autoral Manga Beso, ao lado de outros músicos como Carlinhos Vas, Vlad Cunha, Bernardo e Márcio Maués. “Fervilhava o festival “Rock das 6h” na cidade e a banda iria se apresentar pela primeira vez num palco com estrutura. Ná Figueredo, conhecido animador cultural em Belém, nos chamou e pediu para que um senhor, mestre Laurentino, abrisse o show da banda. Apelou que o coroa fazia um som bacana na gaita harmônica. O grupo topou e seu Laurentino caiu na graça de todos”, recorda Montalvão. Se é necessário sorte na vida e estar num lugar certo e na hora certa, seu Laurentino foi laureado por ela. Hermano Vianna, doutor em antropologia, pesquisador na área de música e coordenador do site Overmundo, se encontrava no espetáculo. O irmão do Herbert Vianna, vocalista da banda Paralamas do Sucesso, observava o show. O intento do pesquisador era garimpar artistas locais para integrar a iniciativa Música do Brasil, e convidou Laurentino para o projeto. Foi a janela para o mestre ser conhecido em território nacional. Após a experiência, cada membro da banda tomou um rumo, voltando a se encontrar tempos depois motivados pela aprovação de um projeto com incentivo de lei municipal, Tó Teixeira. “Foi aí que fui morar com o Vas na Álvaro Adolfo, após uma temporada em São Paulo. Fizemos a experiência de uma rádio popular de poste. A gente tocava além da música do grupo a do pessoal local. A experiência

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durou até o chefe de uma gangue solicitar o fim da rádio, pois estava prejudicando os interesses da emissora dele”, lembra Montalvão.

Coletivo Rádio Cipó\Divulgação

O som do Coletivo mescla a musicalidade regional com batidas eletrônicas. Soa hip hop desprovido de chatice e repetição. A sonoridade que nasceu na quebrada amazônica com ensaios realizados nas ruas do próprio bairro já ganhou o país. A via foi a divulgação através da rede mundial de computadores tanto das faixas do primeiro CD, Formigando na calçada do Brasil, lançado este ano pelo selo Ná Records, como através de videoclipes. Outra possibilidade de visibilidade do trabalho do grupo é a participação em festivais considerados alternativos que pipocam em todo o país. Tais festivais soam como uma afirmação que se pode produzir sem a mediação de grandes corporações do mercado fonográfico. A cada dia mais esquálido. Assim o grupo já foi aclamado em São Paulo, Rio de Janeiro Goiás, Pernambuco e Brasília. As músicas da Rádio Cipó impregnadas da influência do rock, dubby e ragga muffy estão postadas no site da gravadora Trama e mantém o próprio site, www.coletivoradiocipo.org. O projeto mais ambicioso do Coletivo é a produção do registro da obra do mestre Laurentino em várias mídias: DVD, CD e livro.

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Mestre Laurentino – o neto de escravos que virou pop depois dos 70 anos Encontramos João Laurentino da Silva, mais conhecido no mundo pop como mestre Laurentino, numa manhã ensolarada de setembro na Praça da República. O neto de escravos veio ao mundo no dia primeiro de janeiro de 1926, no município de Ponta de Pedras, arquipélago do Marajó, terra de nascimento do escritor Dalcídio Jurandir. Aos quatro anos foi adotado pelo juiz de direito Francisco das Costa Palmeira. Não tem mais irmãos vivos e depois de adotado não manteve mais contato com os pais biológicos. Estudou até a quinta série. Trabalhou como técnico de manutenção de aviões na extinta empresa Real Aerovias, que existiu entre 1946 a 1961. O autor do hit Lourinha Americana, que tira um sarro do pedantismo estadunidense, também passou pela roça e pela exploração da madeira. “A música é sucesso internacional. Já recebi comentários da Itália, Capa do primeiro CD Portugal, França, Alemanha e até do próprio Estados Unidos”, fala com orgulho o serelepe senhor de 82 anos. A música foi gravada pela banda pernambucana Mundo Livre S/A, no CD Por pouco. Num trecho a canção dispara: Essa lourinha americana (lourinha americana)/Está querendo me escolachar/Foi dizendo que eu sou neguinho (bem neguinho)/E que na América eu não posso entrar. O aposentado que recebe um salário mínimo por mês reflete que o mundo se encontra cheio de bandalheira e que não gosta de lari-lari. Humilde, apesar da popularidade, considera-se pequeno, menor que um grão de mostarda. Laurentino tem memória prodigiosa. Lembra de fatos históricos e políticos antigos. Como uma eleição do tempo do interventor Magalhães Barata, quando era comum se emprenhar urnas.

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O mestre em detalhes O mestre mora na ilha do Outeiro, região metropolitana de Belém, com Elza Freire da Silva, com quem teve 10 filhos. Mas, somando com outros relacionamentos Laurentino contabiliza o total de 16 rebentos. Além da companheira Elza o compositor que guarda as canções que faz na cachola, tem como xodós dona Maria Josefina, acreana descendente de europeus e a dona Leonice dos Santos. Segundo o mestre, ele ainda confere o placar em noites chuvosas.

Mestre Laurentino, Foto: Rosa Rocha

Por cinco mil réis comprou a primeira gaita aos 18 anos. Desde menino manifestou interesse por música. Passou por incontáveis programas de auditórios nas emissoras de rádio e TV´s locais. Narra aventuras do tempo da PRC-5, atual Rádio Clube. O hoje celebrizado mestre já foi homenageado pela câmara municipal de Ponta de Pedras e em Belém.

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Recentemente recebeu um incentivo da governadora Ana Júlia para a construção de uma escolinha e aquisição de instrumentos para a sua banda de rock. “Não esquece de colocar isso” exige o artista que no CD, que deve ser lançado ainda este ano, versa sobre a disputa eleitoral estadunidense. Mestre Laurentino só toma vinho e há oito anos abandonou o cigarro. Adora andar e contar causos. Diz ele que chega a percorrer até 14 km quando visita o município de São Caetano de Odivelas, onde tem uma terrinha. Sem modéstia afirma que aonde chega esbandalha tudo. “Tomo conta”, afirma o roqueiro mais antigo do Brasil. Entre as aventuras das múltiplas viagens ele conta que no festival de Goiânia os “malucos” o apanharam do palco e o jogaram para o alto. Caiu em cima da caixa de som e quebrou os óculos. Na manhã que comungamos nota-se a preocupação e amor do mestre pela natureza. Em certo momento da conversa ele interrompe e aponta a brincadeira de um par de passarinhos. “Coisa linda,” exclama. Além da coleção de chapéus, relógios e anéis, - as mãos sempre estão repletas deles-, o mestre coleciona cães, são mais de 14, afirma. Tirando o som com a batida das mãos ele cantarola várias canções do primeiro CD solo, em fase de produção. Numa delas filosofa: “No galho de nossas fantasias cada um tem a sua aranha”.

Mestre Laurentino, Foto: Rosa Rocha

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2 - Bosque Rodrigues Alves, O Jardim Botânico Da Amazônia. 120 Anos De História19 A fé e o rio conduzem Santa Maria de Belém do Grão-Pará, o nome oficial da capital do Pará, Belém. A cidade foi erguida por portugueses na foz do rio Amazonas em 12 de janeiro de 1616, na terra dos índios Tupinambás. Francisco Caldeira Castelo Branco comandava a expedição dos colonizadores, conta a história oficial. Aqui todo mês de outubro uma população estimada em 1,5 milhão de pessoas se reúnem para celebrar a Virgem no Círio de Nazaré, a principal manifestação religiosa do estado.

Fachada do Bosque, Foto: Rogério Almeida

Belém é quase uma ilha. Dos 505.823 km2, 332.037 km2 é região insular (65,64%), formada por 43 ilhas. Sob um clima quente úmido, numa temperatura média de 30º C, é o comércio que faz cidade se mover economicamente. A hidrografia é rica, baías, rios igarapés, furos. Tanto em sua parte continental quanta na insular. Baía do Guajará, baía do Marajó, baía de Santo Antônio, baía do Sol, rio Guamá, rio Murubira, rio Mari-Mari, igarapé do Tucunduba são alguns dos recursos que compõem a península.

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Trabalho publicado originalmente na Revista Ecologia e Desenvolvimento, Rio de Janeiro, n. 108, 2003.

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Aqui, lendas e histórias pulsam na mesma intensidade: Curupira, Boiúna, Boto, Matinta Pereira, Vitória Régia, Mapinguari figuram como alguns dos mitos amazônicos. A Revolução Cabanagem erguida e coordenada por populares entre 1835/1840, onde 30 mil pessoas morreram soa como orgulho. Em Belém o ciclo da borracha, o que ficou conhecido como Belle-Époque, segunda metade do século XIX, ergue na Amazônia teatros, parques e palácios de fina estampa. A Europa era o espelho do modelo de urbanismo. A memória histórica do Bosque É no ápice do extrativismo da borracha que surge o Bosque Rodrigues Alves, o Jardim Botânico da Amazônia. Nasce no bojo do processo de modernização da urbanização da cidade. A Europa respirava a Revolução Industrial. No Brasil vivia-se o ocaso da Monarquia e o surgimento da República. O capital gerado pela exploração da borracha colaborava para tornar Belém a “Paris dos Trópicos”. Teatro da Paz, Palacete Bolonha, Praça da República, Praça Batista Campos, Mercado de Ferro do Ver-o-Peso, hoje monumentos históricos despontavam na floresta como signos da elite local. Duas datas se confundem para definir a criação do Bosque Rodrigues Alves. A primeira defende que o logradouro nasce oficialmente, segundo documento do Departamento de Extensão Cultural do Bosque, em 1870, através de decreto do 4º vicepresidente da província do Grão-Pará, Abel Graça, uma espécie de vice-governador.

Foto: Rogério Almeida

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A segunda data, a mais aceita, confere ao senhor João Diogo Clemente Malcher, então presidente da Câmara Municipal, numa sessão de 25 de agosto de 1883, a criação do espaço de lazer dos ricos que surgiam com o lucro da exportação do látex. A iniciativa teria partido do senhor José Coelho Gama Abreu, o Barão de Marajó, um geógrafo da Amazônia, intendente de Belém, espécie de prefeito da cidade (1879/1881). A memória do Bosque narra que a inspiração teria sido o “Bois de Boulogne”, de Paris. Bosque Municipal do Marco da Légua, uma referência ao limite da cidade, é o primeiro nome do Bosque. A valorização dos elementos da natureza como o ar, a luz e a água serviam como ideário de qualidade de vida, progresso e higiene. A história do Bosque Rodrigues Alves é marcada por várias reformas. A mais importante é creditada ao senhor Antônio Lemos, intendente da província entre 1897/1912. O intendente teve papel definitivo para definição da urbanística de Belém. Em 1900 Lemos decide pela realização de uma grande reforma do Bosque. A mesma dura três anos. Monumentos como grutas, riachos, cascatas, viveiros, definição espacial de hoje foram realizadas por Lemos. Eduardo Hass, diretor do Bosque e o arquiteto José Castro Figueiredo foram os responsáveis pela empreitada. Erguido em frente à ferrovia Belém-Bragança, que ligava a capital ao interior, o Bosque Rodrigues Alves ganha seu nome definitivo em 17 de dezembro de 1906, através de uma resolução do Conselho Municipal. O nome é uma homenagem ao correligionário de Lemos, o então Presidente da República do Brasil, Francisco de Paula Rodrigues Alves. O Bosque por dentro Um pedaço da Amazônia nativa de terra firme no centro nervoso da cidade de Belém. O portão principal do Bosque fica em frente à Avenida Almirante Barroso, uma das principais da cidade, que liga alguns bairros da periferia ao centro. O tráfego de carros é intenso. Os 15 hectares do Rodrigues Alves, 150 mil metros quadrados, tomam um quarteirão inteiro do bairro do Marco. O Bosque é como um pulmão no meio da urbe. Passear pelo Bosque é fazer uma viagem pela história de Belém. Além do fragmento da floresta nativa, pode-se verificar a presença de vários monumentos históricos do

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áureo período da borracha. Na flora encontramos 4.987 árvores de 50 famílias, 194 gêneros e 309 espécies que foram catalogadas pela equipe técnica de flora do Bosque em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), através do Laboratório de Sementes Florestais, com coordenação da doutora Noemir Viana, e o Laboratório de Botânica, através da doutora Regina Célia, e a Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), num censo realizado entre setembro 1998 e junho de 1999. Para efeito de catalogação foram consideradas as árvores a partir de 10 cm de diâmetro. Do conjunto levantado cerca de 2.000 são consideradas como jovens.

Interior do Bosque, Foto: Rogério Almeida

O tombamento de árvores no logradouro era um problema a ser superado. Para tanto se fazia necessário conhecer a diversidade da floresta e classificá-la. O Censo concluiu que existem 333 árvores por hectare. Flávio Contente, engenheiro florestal, coordenador de flora do Bosque, explica que tais dados são de grande importância, considerando que estamos falando da principal metrópole da Amazônia. O trabalho contribuiu ainda para se conhecer a saúde da flora e se planejar uma intervenção visando administrar o tombamento das árvores, que despontava como uma ameaça aos visitantes do Jardim Botânico. O censo verificou que 94% da flora do Bosque é composta de

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árvores nativas da Amazônia. Outro aspecto que o censo levantou é que a floresta está num estágio de regeneração, o que significa dizer que há várias árvores consideradas novas. Entre os 6% da flora considerada exótica são encontrados bambus, palmeira imperial, mangueira, palmeira rabo de peixe e tamarindo. O fragmento de floresta está dividido em quatro quadrantes e em 112 canteiros. Após o censo da flora, depois da medição da altura e diâmetro, cada árvore ganhou uma placa de identidade. Todos os

Interior do Bosque, Foto: Rogério Almeida

dados levantados estão informatizados no programa Autocad, o que permite a localização de cada árvore. Entre as árvores do Bosque Rodrigues Alves existe a cumaru, típica da Amazônia. A cumaru produz, em sua semente, a substância cumarina, usada pelas indústrias de cosméticos como fixador de perfumes. Atualmente a patente pertence a multinacional de cosméticos Chanel. A cumarina também é usada na medicina para o controle da arritmia cardíaca. Outra informação destacada no censo é a presença de 16 árvores de maçaranduba. Além de muito resistente só começa a produzir por volta de 300 anos de vida, quando alcança a idade adulta. Tamatá é a árvore mais importante do Bosque em índices de fitosociologia (classificação por família, gênero, espécie). Acapu americana, espécie em vias de extinção, que exige condições especiais para a sua reprodução consta na flora no Bosque.

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Outra árvore relevante no acervo é a andiroba, usada em várias áreas da medicina alternativa. A árvore que possibilitou a geração de riqueza do Pará, a seringueira, está catalogada na flora do Rodrigues Alves. Paricá, marupá e açaí são outras espécies verificadas. Os bichos do Bosque

Foto: Rogério Almeida

O censo para identificar os bichos do bosque ainda está em andamento. É o que explica Jairo Moura, veterinário do Bosque. Do que já foi realizado da fauna livre chegou-se ao diagnóstico que 65% é composta de mamíferos, 21% de aves, 12% de répteis e 02% de anfíbios. Além de Moura, uma bióloga, três estagiários e dois tratadores de animais completam a equipe que cuida da fauna. Entre os mamíferos são encontradas cutias, vistas facilmente quando se faz a trilha ecológica para os visitantes. Pacas, preguiça real, macaco de cheiro, morcegos, tatu, são outros animais encontrados. Entre esses animais, o morcego tem papel fundamental para a manutenção da floresta, destaca Moura. O veterinário explica que pelo menos 500 espécies de árvores dependem da ação do morcego para a sua reprodução. Das 150 espécies de morcegos existentes do Brasil, 11 foram catalogadas no Rodrigues Alves. O trabalho foi realizado em parceria com a Universidade Estadual de São Paulo (UNESP), campus de Botucatu, através do Departamento de Zoologia.

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O morcego é considerado o formador de florestas, fala com entusiasmo Moura. “Quando fazemos as trilhas com os estudantes, trabalhamos a desmistificação que é dada comumente a esse animal. O morcego defeca de 12 em 12 minutos, onde expele pelo menos seis mil sementes por noite”, explica o veterinário. Sabiá, periquito, papagaio são algumas aves que fazem uso da floresta. Entre os répteis podemos encontrar a jibóia e o camaleão. Além de uma infinidade de insetos. Apesar de o carro chefe ser a floresta, o Rodrigues Alves mantém um acervo de animais da Amazônia em cativeiro. Entre eles uma quantidade de quelônios (tracajá, muçuã, tartaruga, perenas, jabuti), araras, papagaios, e a ararajuba, espécie ameaçada de extinção, são as aves mantidas pelo Bosque. Que mantém ainda macaco prego, e os peixes tambaqui, pirarucu e o poraquê, conhecido como peixe elétrico. Jacarés e o mamífero peixe boi podem ser vistos no lago do Bosque. Monumentos do Bosque Chalé de ferro - é uma estrutura pré-fabricada de ferro com 378 m2 , de origem belga, construído entre os anos de 1892/1900 para servir de residência para os ricos empresários do látex. É um dos três existentes em Belém. O segundo encontra-se no campus do Guamá da Universidade Federal do Pará (UFPA), o terceiro desmontado e com paradeiro ignorado. A sua origem é a Societe Anonyme des Foges d´Aiseau, da cidade de Aiseau, Bélgica. O sistema de construção foi patenteado em 1885 por Josef Danly. O chalé é tombado pelos patrimônios histórico municipal, estadual e nacional. O prédio integra o acervo da arquitetura do ferro, significativo na história de Belém, conhecida como a cidade das mangueiras. O chalé pertencia à Sociedade Beneficente Portuguesa, foi remontado no Bosque em 1985, trabalho que tomou de seis a sete meses. A construção do prédio foi idealizada para o clima da região. Algo que facilitasse a circulação do vento e fosse resistente às intempéries do clima amazônico. Atualmente o prédio abriga o Setor de Extensão Cultural do Bosque, a Coordenação de Articulação Educacional e Comunicação Social, uma exposição permanente da coleção didático-científico de fauna e flora.

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Chalé de Ferro, Foto: Rogério Almeida

Chalé de Ferro, Foto: Rogério Almeida

A última reforma do chalé custou R$ 50 mil, teve apoio da Petrobrás, durou três meses. É um dos seis projetos apoiados pela empresa. A reforma foi pensada para melhor atender os visitantes. O prédio recebeu nova pintura, reparos na cobertura e na estrutura de madeira, além de tratamento anticorrosivo na estrutura de ferro. Ainda como parte integrante da arquitetura de ferro no Rodrigues Alves existe coretos e viveiros para aves.

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O Monumento aos Intendentes – revela a não nova preocupação dos políticos com o culto à própria imagem. O monumento fica bem no meio do Bosque. Inaugurado em 1906 numa homenagem ao congresso de intendentes de todo Pará e caciques do Partido Republicano realizado em 1903. O grande objetivo residia em garantir na reforma constitucional do Estado a reeleição do governador Augusto Montenegro. O projeto do monumento é de autoria do senhor Maurice Blaise, um professor da Escola Normal do Pará, fruto de concurso internacional onde competiram artistas sul-americanos e europeus. A matriz inspiradora seria a Fonte de Médicis do parque do Palácio de Luxemburgo de Paris. No monumento constam os bustos de Augusto Montenegro e Antônio Lemos.

Monumento aos Intendentes, Foto: Rogério Almeida

Homenagem aos naturalistas - dois medalhões de bronze foram inaugurados em 1939 no Bosque Rodrigues Alves. Um dedicado ao naturalista João Barbosa Rodrigues, um dos mais importantes naturalistas do Brasil. Tem trabalhos nos ramos de botânica, etnografia e arqueologia. Como estudioso da Amazônia, percorreu em 1874 os rios Tapajós, Urubu, Jatapu, Ualumã, Jamundá, Trombetas e Capim. Em 85 volumes registrou informações sobre indígenas, materiais sobre a pedra polida, geografia, trabalho sobre a pororoca no rio Capim. O outro naturalista e botânico homenageado é Gerg Hubner.

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Os mitos amazônicos estátuas do Curupira e do Mapinguari, protetores da floresta, estão localizadas na primeira clareira do Bosque. As entidades mitológicas fazem parte do imaginário da Amazônia. O Curupira é a Mãe do Mato, apesar do uso do artigo masculino. É descrito como um ser de estatura pequena, traços de índio, e que possui os pés virados para trás. À entidade é conferido o dom da invisibilidade. Conta a lenda que o Curupira protege a floresta dos seus inimigos deixando-os sem rumo. Haja Curupira para tanta devastação. Um ser de grande porte, feições de macaco, só que com um único olho cravado no meio da testa e dono de uma grande boca, que se estende até a barriga na direção do umbigo. Assim é a descrição do Mapinguari. Alguns nativos narram que o Mapinguari tem os pés no formato de uma mão de pilão. A lenda narra que a entidade só anda pela mata durante o dia. E que só apareceria em dias santos e feriados. Ainda como parte da lenda, há pessoas que acham que o Mapinguari é um índio que alcançou uma idade avançada e virou um monstro. O Jardim Botânico da Amazônia O Bosque Rodrigues Alves ganhou o status de Jardim Botânico da Amazônia em 2002, em Recife, Pernambuco, durante a 11ª reunião da Comissão Nacional de Jardins Botânicos, com base na resolução 266 do Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA). Agora o logradouro passa a integrar a Botanic Gardens Conservation Internacional (BGCI), rede mundial com 1.846 jardins em 148 países. O certificado foi entregue em cerimônia pela passagem dos 119 anos do Rodrigues Alves pelo presidente da Rede Brasileira de Jardins Botânicos, Sérgio Bruni.

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A elevação do Bosque Rodrigues Alves à categoria de Jardim Botânico é o fato mais importante da memória recente do logradouro. Tal fato descortina uma terceira fase na história do Bosque, depois de sua inauguração e a reforma realizada pelo intendente Antônio Lemos, explica Flávio Contente. Com o novo status, o Bosque espera facilidade para a captação de recursos em nível nacional e internacional para desenvolvimento de projetos. A construção de uma biblioteca no Chalé de Ferro, uma coleção especial de plantas e o apoio dos parques ecológicos de Belém e Mosqueiro, distrito de Belém, são projetos agendados pela coordenação do Rodrigues Alves Bosque. Com a elevação do Bosque à categoria de Jardim Botânico, passamos a integrar uma rede nacional de jardins botânicos e outra internacional. Devemos entender que o horizonte do Bosque agora segue uma diretriz estabelecida pela Rede Brasileira de Jardins Botânicos, ressalta Contente. Conservação da biodiversidade, capacitação de pessoal, trabalho em educação ambiental e pesquisas estão em desenvolvimento. Agora o Rodrigues Alves passa a ser uma área protegida, onde o acervo da flora cientificamente já reconhecido e identificado através do censo terá como finalidade o estudo, a pesquisa e a documentação da flora do país. Entre as atividades a serem desenvolvidas como diretrizes dos jardins botânicos constam o desenvolvimento de pesquisa, o intercâmbio científico, a manutenção da biodiversidade, a organização de biblioteca e o desenvolvimento de programa de educação ambiental. Alguns projetos desenvolvidos pelo Bosque SOS Ararajuba - um casal de ararajubas no mercado negro pode custar até US$20 mil. Na Amazônia estima-se que existam cerca de 2.500. Na lista dos animais em vias de extinção, a ararajuba pertence à família dos Psitacídeos, atinge um tamanho de 34 centímetros. A reprodução da ave é anual, uma média de dois a oito ovos, onde 80% dos filhotes conseguem sobreviver. A ararajuba é muito conhecida no exterior, chegou a valer até dois escravos no século XVI. Tem a coloração amarela e as pontas das asas verdes. A Sociedade Brasileira de Ornitologia defende no Congresso Nacional, através de projeto-lei, que a ave se torne símbolo do Brasil.

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No projeto de assentamento (PA) José Pinheiro, localizado próximo de Marabá, sudeste do Pará, na Transamazônica, criado há dois anos pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), verifica-se uma boa incidência da ararajuba. É lá que a equipe de fauna do Rodrigues Alves deu o pontapé inicial do Projeto SOS Ararajuba. O projeto reúne como parceiros as 40 famílias do PA, Petrobrás, Ibama, Batalhão de Policiamento Ambiental e o Museu Emílio Goeldi, que também possui o status de Jardim Botânico. Por conta das limitações de sobrevivência no PA, 30% da proteína animal consumida pelas famílias é proveniente da caça. Após um curso sobre educação ambiental, as famílias estão recebendo animais de pequeno porte para a manutenção da taxa de proteína animal, e evitar a caça. O projeto iniciado em julho do ano passado está orçado em 70 mil reais. O próximo passo do projeto é um trabalho nas feiras livres de Belém em parceria com a Secretaria Municipal de Economia (SECON), pra evitar o tráfico de animais silvestres nas feiras da 25 de Setembro, Terra Firme e Ver-o-Peso. O trabalho terá como mote a educação ambiental. Na trilha da Amazônia - 200 mil pessoas passam pelo Rodrigues Alves por ano. A maioria desse público é oriunda de escolas. 12 escolas por semana visitam a área. A trilha ecológica é um subprograma inserido na pauta do Projeto de Educação Ambiental do Bosque, desempenhando a função de canal de disseminação das informações levantadas pelo censo. O programa possibilita que os visitantes conheçam a história do Bosque e os recursos de flora e fauna que ele abriga. Assim se supera o horizonte do Bosque ser percebido apenas como espaço de lazer. A ciência e a história são passadas de forma lúdica. Os visitantes com a ajuda de um técnico do Bosque passam a conhecer as árvores, os animais, a importância histórica do Rodrigues Alves, os monumentos. Quem desejar passar o dia inteiro na área não terá problemas com a alimentação. Um restaurante com comidas típicas do Pará funciona todos os dias. Para socorrer a sede tem ainda quiosques que comercializam sorvetes de frutas da região e água. Para as crianças existe um pequeno parque. E o visitante que desejar descansar, pode

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sossegar as nádegas num dos bancos de estilo neoclássico com a gravação de uma esfinge em cada lado, assentado no início do século passado. Dos 15 hectares de área, seis constam como área reservada. É lá a maior densidade de plantas. É nesse canto que a fauna livre pode viver e se reproduzir distante da presença humana. É nesse canto que as jibóias vivem. Terapias na selva - A Fundação Mokiti Okada é quem anima o projeto de ginástica para a terceira idade em conjunto com a Fundação Papa João XXIII (FUNPAPA), que integra a administração indireta da Prefeitura de Belém. O projeto visa a utilização do Rodrigues Alves com ambição de melhorar a qualidade de vida física e psicológica da comunidade. A Fundação Okada desenvolve as atividades com base na terapia Johrei incentivada desde 1931 por Mokiti Okada, que consiste no uso das mãos para a canalização da energia vital do universo. Exercícios leves de ginástica e reeducação dos movimentos denominada Lian Gong são aplicados a um público estimado em 100 pessoas desde 2001. A administração – 70 pessoas, lotadas no Departamento de Gestão de Áreas Especiais da Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Belém (SEMMA), trabalham para que o Bosque Rodrigues Alves, o Jardim Botânico da Amazônia se mantenha sempre limpo e os projetos saiam do papel. A Guarda Municipal de Belém (GBEL) garante a segurança. 120 anos, a festa – Além de uma campanha publicitária para a publicização do aniversário, consta na agenda, a realização de reforma em alguns espaços do Bosque. Na semana dos 120 anos do Rodrigues Alves ocorrerá sessão solene na Câmara Municipal de Belém, apresentação dos projetos, apresentações artísticas, distribuição de mudas de árvores nativas da Amazônia e sessões de vídeo. Em 2012 o Ministério Público Federal (MPF) exigiu que o prefeito de Belém, Duciomar Costa (PTB) garantisse quadro técnico para o zelo da fauna e flora do Bosque. “Dudu”, como é tratado pelos pares mais próximos, governa a cidade pela segunda vez. A administração é considerada um desastre, nos mais diferentes campos.

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04ª Parte - Entrevistas

1 - A Amazônia sob a análise de Lúcio Flávio Pinto

2 - Amazônia e as novas frentes de expansão mineral e do agronegócio no sul e sudeste do Pará - Entrevista com Batista Afonso- CPT/Marabá

3 - Extrativismo mineral em Juruti: passivos sociais e ambientais e a peleja dos nativos contra o grande projeto- Entrevista com Gerdeonor Pereira camponês do oeste do PA

4 - Maranhão: as vísceras do sertão- Entrevista com Antonio Gomes (Criolo)- ativista pastoral do oeste do MA

5 - Baixo Amazonas, grandes projetos e as comunidades tradicionais – Entrevista com Irene Pinheiro

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1 - A Amazônia sob a análise de Lúcio Flávio Pinto20 Nosso entrevistado é um homem gentil e de aspecto grave, daquele tipo de repórter investigativo que não se faz mais. Durante três horas de conversa, ficou claro porque o jornalista e sociólogo Lucio Flavio Pinto, 54 anos, vive há quase duas décadas sob a pressão de vários processos judiciais. O motivo? Escrever em seu Jornal Pessoal, formato tablóide, com tiragem de 2 mil exemplares, o que ninguém mais tem coragem de publicar sobre os principais conflitos da região amazônica, como a grilagem de terra, a exploração ilegal de madeira e a conivência do Judiciário com esses delitos. “Antes o grileiro tinha o seu parceiro no 38. Hoje os grileiros descobriram que o Judiciário, por desconhecimento, insensibilidade, omissão ou conivência, é o principal parceiro do grileiro na Amazônia”. Ganhador de quatro prêmios Esso, dois da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas Profissionais), e o maior prêmio jornalístico da Itália (o prêmio Colombe d’Oro per la Pace), percorreu, ao longo de 38 anos de profissão, diversas redações como do Estadão, Veja e Isto É, e publicações alternativas, como dos extintos jornais Opinião e Movimento. Têm 10 livros publicados, todos sobre a Amazônia. Nesse momento, corre o risco de ser condenado e ir para a cadeia. “Acho interessante que durante o regime militar, fui jornalista por 19 anos e só fui processado uma vez. Desde 1992, já foram 15 processos, além de mais um na justiça eleitoral. Em pleno regime democrático, sinto-me mais perseguido do que na ditadura.” *Entrevistadores: Rogério Almeida, Guilherme Carvalho e Nanani Albino. Rogério Almeida - Como foi o início de sua carreira? Comecei no jornalismo em 1966, com 16 anos, em A Província do Pará. Aí fui pro Rio de Janeiro, onde trabalhei no Correio da Manhã. Voltei então para Belém, onde fiquei até janeiro de 1969. Quando foi baixado o AI-5, eu era editor de A Província do Pará, depois de ter sido seu secretário de redação por um período. Resolvi ir para São Paulo porque não havia mais condição de trabalho em Belém.

Trabalho publicado nas páginas da revista paulistana Caros Amigos em julho de 2004 e posteriormente no livro o Jornalismo na linha de tiro autoria do entrevistado no ano de 2006.
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Trabalhei no Diário de S. Paulo e no Diário da Noite, que fazia parte dos Diários Associados, e participei da edição especial da revista Realidade sobre a Amazônia, que ganhou o Prêmio Esso de Reportagem de 1971. Naquela época a edição foi de 450 mil exemplares. Uma edição de 400 páginas, toda ela sobre a Amazônia. Uma edição antológica. Trabalhei também na Rádio Eldorado do grupo Mesquita, do Estadão. Depois voltei para Belém, onde fui correspondente do Estadão e da Veja. Guilherme Carvalho – Quando foi esse regresso? Eu ia e voltava sempre. Nesse período era muito inconstante. Voltei mesmo em fim de 1971. Fiquei aqui até o fim de 1972, daí voltei para São Paulo, para o jornal O Estado de S. Paulo, onde fiquei 17 anos, de 1971 a 1988. Voltei para cá no fim 1974,quando fiquei como correspondente. Trabalhei no Opinião, para mim, o maior jornal alternativo daquela época. Trabalhei ainda no Movimento e no EX. Todas eram publicações alternativas. Em seguida, trabalhei no O Liberal (jornal de maior circulação do Norte do país) e na TV Liberal. Trabalhei na Isto É e no Jornal da República. Aí, em 1987, comecei a fazer o Jornal Pessoal. Antes havia feito o Informe Amazônico, que foi o embrião do Jornal Pessoal. Foram 12 números do Informe Amazônico. Antes, em 1975, havia feito o Bandeira 3, um tablóide semanal de 18 páginas. Nanani Albino – Antes de entrar no Jornal Pessoal, gostaria de voltar um pouco na sua trajetória. A Amazônia é rica em história de intensa migração. Gostaria de saber a história de sua família. Qual é o seu movimento familiar? Minha família é totalmente migratória. Meu avô por parte de mãe é português. Meu avô por parte de pai veio da seca do Nordeste para o Acre, depois para o Pará. Por parte de mãe português e acreano e cearense e acreano por parte de pai. Nanani Albino – Sempre em Belém ou interior? Santarém. Eu nasci em Santarém e minha mãe também. Eles se juntaram lá. Depois viemos para cá. Nanani Albino – O que fazia o seu pai? Meu pai era precoce. Começou a trabalhar no Nordeste com meu avô que era comerciante com oito anos, carregava semente de algodão. Meu avô voltou para a Amazônia e meu pai dava aula de inglês e era fotógrafo. Foi o primeiro locutor esportivo em Santarém,

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com 14 anos. Fundou o jornal Baixo Amazonas. Depois foi presidente da Congregação Mariana e secretário do prefeito da cidade. Como o prefeito era muito inibido, era ele quem fazia os discursos, o que lhe rendeu o apelido de “papagaio do prefeito”. Iniciou a primeira campanha para a industrialização da juta, fibra que havia sido trazida pelos japoneses para o Baixo Amazonas com sementes da Ásia. Como era muito audacioso, escreveu para Getúlio Vargas e conseguiu uma audiência com o presidente, no Palácio do Catete, Rio no Janeiro, na época sede do governo. O presidente liberou a importação das máquinas para a industrialização da juta. As máquinas vieram da Inglaterra e meu pai começou a montar a fábrica. Em 1954, ele foi deputado estadual pelo PTB, com a quinta maior votação do Estado. A família o acompanhou para Belém quando assumiu o cargo. Ele fez carreira como deputado pelo PTB, daí integrou a comissão de planejamento da SPVEA (Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia). Rogério Almeida - O embrião da SUDAM? Não era o embrião da SUDAM. A SPVEA foi criada em 1953, por Vargas, substituída pela SUDAM. Ela deveria continuar, mas desapareceu em 1966, no regime militar. Bem, meu pai trabalhou na SPVEA, depois foi prefeito de Santarém, pelo MDB (atual PMDB). Rogério Almeida - Então o senhor não teve problemas para estudar, já que era de classe média? A nossa vida foi um pouco incerta. Depois que meu avô perdeu tudo com a seca meu pai ficou pobre e eu estudava em escola pública. Num dado momento, meu pai começou a enriquecer como empresário e comerciante. Chegou a ter três fábricas, duas delas de fibras, a Tecejuta, em Santarém, e a Tecefátima, no município de Capanema, e a de cerâmica Marajó. Nessa época éramos de classe média alta. Pude ter um bom estudo. Meu maior patrimônio era uma conta corrente em aberto na Livraria Martins. Podia tirar o que quisesse. Guilherme Carvalho - Quantos irmãos? Somos sete. Seis homens e uma mulher. Guilherme Carvalho – Como foi o episódio que ocorreu com teu pai durante a ditadura? Naquele tempo, o Pará só tinha 83 municípios. Dos 83, o MDB,

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de oposição, só elegeu dois em Santa Isabel, um pequeno município e Santarém, o segundo mais importante município do Estado. Meu pai tinha conseguido uma vitória grande sobre a Arena, com uma margem de 65% dos votos. Ele já havia sido “garfado” duas vezes no “mapismo” (a fraude que era praticada quando se fechava a apuração dos votos). Então, desde o início ele ficou atravessado. A arena tinha o controle político e ele tentou uma composição com o governador Alacid Nunes com o pretexto de irregularidades nas contas dele, meu pai foi afastado pela Câmara Municipal, onde era minoria. Tinha apenas três representantes do total de nove. Afastado, a Câmara resolveu pela sua cassação. Ele entrou na Justiça no município de Óbidos, o juiz era Christo Alves, que veio a ser desembargador depois. Ele concedeu mandado de segurança para a reintegração do meu pai no cargo. No dia da execução do mandado de segurança, Alacid enviou uma tropa com 150 homens da PM com ordem de não permitir a posse. Papai teve apoio do deputado mais votado da região, o brigadeiro Haroldo Veloso, que tinha sido líder da revoltas de Jacareacanga e Aragarças contra Juscelino kubistchek e era da ala radical da Aeronáutica embora fosse da Arena. Ele disse que ia liderar a passeata para papai reassumir a prefeitura. Quando a passeata saiu, às cinco horas da tarde para a prefeitura, a PM começou a atirar. Morreram três pessoas. Papai teve que fugir e recebeu a cobertura do brigadeiro Paulo Vítor, que se deslocou para lá com tropas, avião da Aeronáutica. Isso aconteceu em 1968. Ele conseguiu fugir e depois teve o mandato cassado. Talvez seja o único político cassado duas vezes. Primeiro o mandato e depois os direitos políticos. E Santarém foi declarada área de Segurança Nacional, não pôde mais eleger seu prefeito. Rogério Almeida – Como foi a sua saída para o Sudeste. Foi convite de algum meio de comunicação de lá ou uma iniciativa sua? Vi que aqui não dava mais. A imprensa estava acomodada. Fui primeiro para o Rio de Janeiro. Parte de minha família morava lá e mesmo sem contato nenhum consegui trabalhar no Correio da Manhã. Na última fase de D. Niomar. A gente já começava a ver o início da decadência do jornal que havia sido o mais importante da República. Por problema de família, voltei para Belém. Fiquei indo e vindo um certo período. Até que fiquei em Belém por mais tempo e participei

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de uma série de transformações em A Província do Pará. A primeira página dessa época era só de telegramas nacionais e internacionais. Fizemos chamadas de primeira página, introduzimos suplementos. Aí veio o AI- 5. Li a íntegra na redação, fim de noite. Vi que não tinha como ficar mais em Belém. Rogério Almeida - Do Pará, quem assinou foi o Jarbas Passarinho? Passarinho era o ministro do Pará, autor da célebre frase sobre “jogar fora os escrúpulos da consciência” para poder assinar o AI-5. É a frase mais infeliz de Passarinho. Vi que não tinha chance, que os donos de jornais iriam aceitar a censura, determinada por via telefônica, como aceitaram mais tarde. No dia 2 de janeiro de 1969, fui para São Paulo e ainda peguei a decadência dos Diários Associados, que durante um certo período foi um dos mais importantes de São Paulo. Chegamos a criar ainda um suplemento de vanguarda aos domingos. Nesse período o que me interessava era o cosmopolitismo, sociologia cultural e sociologia política. Meu sonho era passar um tempo fora, sair do Brasil. Estava fazendo mestrado de política na USP, com Oliveiros Ferreira. Minha tese era mostrar que às vezes o pensamento conservador pode ser mais modernizador do que o pensamento de esquerda e analisava os intelectuais das décadas de 20 e 30 no Brasil. Fui entrevistar o presidente da Associação dos Empresários da Amazônia, na antiga sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a Fiesp, que era no Viaduto Maria Paula, o Eduardo Celestino Ribeiro, bandeirante típico, dono da Cetenco Engenharia. No meio da entrevista, ele começou a falar da Amazônia que bandeirantes como ele estavam criando. Na medida em que ele falava (já havia escrito dois livros sobre isso), entrava em pânico. Dizia para mim mesmo: se ele conseguir fazer isso, a minha Amazônia, na qual nasci e havia vivido a maior parte da minha vida, desaparece. Era o auge da pecuária de corte. Decidi voltar para a Amazônia. Nanani Albino - Era a contradição de sua tese? Não é contradição. É aplicação histórica. Aquelas tendências modernizadoras dos anos 20 e 30 se tornaram conservadoras. Avalio que há uma diferença entre conservadorismo e reacionarismo. Meu marco teórico na época era Karl Manheimm. Eu dizia que às vezes a reação contra a mudança exerce um papel muito importante de

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oxigenação das idéias. Isso ocorreu com o fim do feudalismo na Europa. O pensamento dos nobres da oligarquia era mágico. Isso fez surgir uma literatura fantástica, muito rica. Eles escapavam da realidade para o mundo da imaginação. Isso é bom para gerar controvérsia. Um ambiente mais democrático. Foi isso que ocorreu com os intelectuais de 20 e 30 chamados de direita: Oliveira Vianna, Azevedo Amaral, Lourival Fontes. Todos estão atentos a Nelson Werneck Sodré, Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda. E esquecendo essa vertente, incluindo Gilberto Freyre, que conheciam o Brasil melhor dos que os de esquerda. Os pensadores conservadores, como Paulo Prado, conheciam muito o Brasil. Rogério Almeida – E os conservadores de hoje, conhecem? Acho que não conhecem mais. Nanani Albino – O que desconhecem? O brasileiro continua a viver como caranguejo, arranhando o litoral, para usar a imagem quinhentista. Do ponto de vista do pensamento, a imagem vale até hoje. É sempre o pensamento do litoral voltado para fora do Brasil. O Brasil não conhece o Brasil. A penetração para o sertão, a corrida para o Oeste, mais destrói do que conscientiza. A descoberta do Brasil não passa de movimentos espasmódicos e cheios de exotismo. É o descobridor querendo que a paisagem original seja de acordo com a visão do colonizador. Isso me levou a desistir da grande imprensa. Houve um momento importantíssimo para mim, principalmente entre 1971 e 1979. Quem quiser escrever a história da Amazônia tem que obrigatoriamente consultar o jornal O Estado de S. Paulo nesse período. A história da Amazônia desse período está no Estadão. Em nenhum outro lugar a história da Amazônia é mais visível. Isso foi um trabalho paulatino de convencimento da direção Nanani Albino – Isso se deve a quê? Por que você estava lá? Quando fui para o Estadão, não havia um só paraense na redação, nem de qualquer outra parte da Amazônia. Várias coincidências fizeram aproximar-me do dono do jornal, Júlio Mesquita Neto. Em alguns momentos ele precisou de determinadas coisas que forneci, inclusive escrever editorial. Naquela época fiz a “heresia” de entrar na sala do doutor Júlio que ninguém entrava. Não tinha muito respeito pela sacralidade do “aquário” (ambiente da direção do jornal) do chefe. O Estadão tinha a mácula do Estado Novo, quando o

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governo entrou no Estadão e o administrou. A propósito, o Estadão melhorou tecnicamente nesse período. A marca do liberalismo do Estadão dessa época era não aceitar censura. A rede de informação do Estadão era bem fraca. Sob a liderança do Raul Martins Bastos, do Departamento de Sucursais e Correspondentes, que naquela época não tinha muita importância, ajudei a fazer a mudança de toda a rede de correspondentes do jornal no país. Havia pessoas que trabalhavam no jornal fazia muito tempo, e entraram numa rotina que era pobre para o jornalismo. Rogério Almeida – Quem veio cobrir a Guerrilha? Nós tínhamos feito o levantamento e faltava apenas a senha, que viria a ser a ACISO - Ação Cívico Social do Exército, que arrancava dentes da população carente e outras coisas, além de o repórter enviado era tido como de confiança do governo. Os oito parágrafos iniciais eram dedicados a essa história da ACISO, o resto era só a história da guerrilha, a única que furou a muralha da censura no período. Depois disso, se decidiu que o Estadão ia ser o grande jornal da Amazônia. O plano, aprovado pessoalmente pelo doutor Júlio, era para eu vir para cá e montar a sucursal, a primeira sucursal verdadeiramente regional do jornal. Fizemos uma grande reunião com todos os correspondentes da região, e logo acordamos que São Paulo não mexeria em nosso texto. A nossa idéia era depurar a visão exótica da Amazônia. Permitir que a Amazônia verdadeira emergisse na grande imprensa. Rogério Almeida – Como foi a decisão da direção? A gente apresentou o projeto e foi aprovado. Rogério Almeida – Ainda é exótico o olhar da grande imprensa sobre a Amazônia? Hoje a cobertura da grande imprensa é muito pior do que na época do regime militar, eles aceitam a Amazônia como o lugar onde ocorrem os fatos insólitos, originais e inéditos. Eles não conseguem fazer uma cobertura sistemática. Nanani Albino – Quem são “eles”? Toda a grande imprensa. Na época nós tínhamos a sucursal do Estadão, da Veja, Manchete. Todos os grandes jornais tinham correspondentes.

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Rogério Almeida – Não é contraditório quando a Amazônia é pauta em todo canto do mundo? É um interesse estandartizado. É o que se quer que seja a Amazônia. Essa é a regra para a Amazônia. Para acompanhar a Amazônia bem, é preciso uma boa estrutura, gente bem paga e qualificada. Eles não querem isso. Exemplo disso é Klester Cavalcanti, repórter da Veja. Ele apareceu um dia dizendo que foi seqüestrado, embora o caso nunca tenha sido bem elucidado, provavelmente pelos grileiros de terras. Ele foi retirado de Belém logo em seguida como se fosse uma operação de guerra. Uma história cheia de contradição. Dois terços da matéria que saiu em Veja era sobre o seqüestro dele. O que ele escreveu sobre grilagem de terras não justificava de jeito nenhum qualquer ato hostil. Era muito menos do que qualquer um aqui da terra já havia escrito várias vezes. Ele saiu como o Indiana Jones, de volta à metrópole cosmopolita depois de aventuras na jungle feroz e primitiva. Guilherme Carvalho – Nesse caso o seu Jornal Pessoal surge para se contrapor a isso? Como disse, fiquei 17 anos no Estadão. Existe uma regra que se você sobrevive há 15 anos na empresa, você é indemitível, para usar um neologismo. Quando pedi demissão, o doutor Júlio me ligou. Ele se sentia desconfortável, eu vim com um compromisso dele. Pedi demissão porque não acreditava mais que o Estadão pudesse fazer uma cobertura decente da Amazônia, como havia feito no passado. Nanani Albino – O que havia mudado? Tinha mudado o seguinte, vou citar um exemplo: eu estava fazendo uma cobertura sobre um assunto. No melhor dia a matéria não saiu. Liguei para o editor de São Paulo e perguntei o que estava acontecendo. Ele falou que havia dado dois dias seguidos de Amazônia e que precisava dar uma matéria de Fortaleza. Vi que o Estadão não voltaria mais a ser o que era. Quando saí, depois de 22 anos na grande imprensa, sabia que não tinha volta. Meu compromisso era com a Amazônia. Escrever o que a grande imprensa não escrevia. Eu já tinha iniciado o Jornal Pessoal, em setembro de 1987. Rogério Almeida – Você ainda estava no Liberal? Eu ainda estava em O Liberal. Começou exatamente por causa da morte de Paulo Fontelles, que foi deputado estadual pelo PMDB

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e advogado que defendia os posseiros no sul do Pará. Ele não conseguiu se eleger deputado federal. Seria reeleito fácil se saísse deputado estadual. Aí ele assumiu o vínculo com o PC do B. Três dias antes a gente havia participado de um debate no Instituto Lauro Sodré, do qual fez parte Luiz Pinguelli, que ficou pouco tempo na Eletrobrás, porque ele não tem voto, Lula o demitiu para colocar o Silas Randeau. Rogério Almeida - Por pressão do PMDB? Da ala conservadora do PMDB e porque o Pinguelli queria executar o programa do PT para energia. Mas o PT já tinha mudado e não queria mais o programa de energia. Rogério Almeida – Pinguelli é a maior autoridade de energia no Brasil? Não é a maior, mas digo que é uma grande autoridade é respeitado por todas as pessoas. O que o PT fez com ele foi uma coisa indecente. Decidiu demiti-lo sem que ele nem fosse consultado. Como fez com o Christovam Buarque. Bem, voltando ao episódio Paulo Fontelles, nós estávamos no debate, Paulo e eu, depois conversamos longamente. Parecia um desabafo dele. Três dias depois, quando estava fazendo uma cobertura na Sudam, um colega que cobria polícia informou que ele havia sido morto. Vi o corpo dele quando ainda estava no carro. Ele estava no banco do carona. Ainda com o cigarro na mão. Foram três tiros de mestre dados na cabeça dele. Morreu na hora, sem a menor possibilidade de reação. Foi no dia 10 de junho de 1987. Uma regra não escrita do crime de encomenda dizia que quem estava em Belém estava a salvo. Era a sede dos poderes institucionais. Agora, no sertão, não; era a lei da selva. Em Belém, os pistoleiros respeitavam. O caso do Paulo foi o primeiro crime político na região metropolitana de Belém. Eu disse que a gente tinha que impedir que o crime ficasse impune. Só assim seria possível frear uma escalada, como viria a ocorrer. No ano seguinte, foi morto o advogado João Batista, em pleno exercício de seu mandato de deputado estadual. Passei três meses investigando. Escrevi uma grande matéria, que veio a ganhar o prêmio da FENAJ, no ano de seu lançamento. Escrevia nessa época a coluna Repórter 70, a mais influente do jornal O Liberal, apresentava um programa de entrevistas na TV Liberal e tinha minha própria coluna assinada no jornal. Na época do assassinato do Paulo, o dono da empresa

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tinha acabado de morrer, o Romulo Maiorana. Entreguei a matéria para a Rosângela Maiorana Kzan, que depois viria a entrar com cinco ações ns Justiça contra mim. Ela falou que a matéria era impressionante, só que tinha um problema: denunciava as pessoas mais ricas do Pará. Com o Joaquim Fonseca, que se dizia o maior armador fluvial do mundo e o Jair Bernadino de Souza, da Belauto, a maior revendedora de automóveis. Ela disse que não podia publicar a matéria porque citava dois dos maiores anunciantes do jornal. Sugeri que ia fazer um jornal, ela falou que imprimiria o meu jornal de graça, contanto que não citasse isso. Depois, entraram com uma ação na justiça para que citasse onde era a impressão do Jornal Pessoal, para intimidar as gráficas, que realmente se amedrontavam. No segundo número, foi uma denúncia de um rombo de 30 milhões de dólares no Banco da Amazônia (BASA), que nenhum jornal publicava, pelo presidente interino do banco, que era o advogado de O Liberal, Augusto Barreira Pereira. O Liberal não publicava porque um dos envolvidos era o procurador dele, e A Província do Pará não publicava porque outro dos envolvidos era o famoso Billy Blanco, irmão do Milton Trindade, superintendente da empresa. Rogério Almeida - O compositor? O compositor se beneficiou, são as fraquezas da alma. Aí O Liberal disse que não imprimiria o jornal. Passei para a segunda gráfica, das 11 pelas quais o Jornal Pessoal já passou. Em seguida, publiquei uma denúncia de uso de cocaína bem antes da escalada da droga, sobre a penetração da cocaína na alta sociedade. Envolvia uma pessoa que era amiga do dono dessa segunda gráfica, que não podia imprimir por causa disso. O que avaliei é que se o Jornal Pessoal não saísse, mesmo saindo pouco, com pouca circulação, determinadas matérias nunca seriam publicadas na imprensa local e nacional. Local por causa dos compromissos, nacional pelo desinteresse. O Jornal Pessoal se mantém nessa trincheira. Se não sair no Pessoal, provavelmente não sai em nenhum lugar. Nanani Albino – Você sofre ameaças? Além de situações constrangedoras de perda de amizades, há ameaças anônimas. A primeira você fica em desespero. Depois aprende a filtrar as ameaças dos trotes, que são sérias. É preciso tratar com seriedade o assunto. Tem gente que é vítima de brincadeiras de humor negro e se diz perseguida. Houve um momento em que os

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telefonemas anônimos não vinham para mim. Foi feito um para o diretor de redação de O Liberal, que era o Cláudio Augusto de Sá Leal, que já morreu. Dizia a voz: “Doutor, prepare a manchete de amanhã: Assassinado Lúcio Flávio Pinto”. Descobri de onde vinham as ameaças. Isso foi em 1985, o Jader Barbalho era o governador do Estado. liguei para ele, informei-o e lhe disse que se fosse investigar saberia de onde estava vindo. Comuniquei-lhe que estava com uma carta para ser enviada para o dono do Estado de S. Paulo, contando que as ameaças de morte estavam vindo dele. Depois do impacto, o Jader reagiu, disse que a carta seria usada pelos seus inimigos para tentar prejudicá-lo. Retruquei que lia eu que estava sendo ameaçado de ser destruído. Ele pediu 24 horas para desmontar o esquema. No dia seguinte, ligou dizendo que era verdade e que ele havia desmontado o esquema. Guilherme Carvalho – Os caras estavam mesmo interessados em assassinar você? O Jader apurou minha denúncia e desfez qualquer esquema que pudesse ser montado contra mim afirmando, numa reunião com seu esquema de segurança, literalmente, que “cortaria o saco” de quem pretendesse me fazer mal. Na época, eu estava fazendo a primeira denúncia de corrupção do Jader. Foi por isso a reação. A denúncia estava muito bem documentada. Eles não tinham como rebater. Foi o momento mais crítico. Por ironia, dizem que protejo o Jader. Nanani Albino- Por que dizem isso? Eu e o Jader estudamos na mesma época no Colégio Paes de Carvalho. Da turma, fui o único que não subiu com o Jader. O resto todo subiu. Quando o Jader estava formando o primeiro secretariado dele, me chamou na sede do IDESP (Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social do Pará, órgão extinto no governo Almir Gabriel, do PSDB). Estavam ele e o Roberto Ferreira, que seria o secretário da Fazenda. Ele perguntou o que eu queria ser no governo dele. Nessa época eu escrevia muito sobre terras, ele sugeriu a presidência do Iterpa (Instituto de Terras do Pará). Falei que não, ele sugeriu que eu fosse o coordenador do Conselho Superior de Desenvolvimento, que seria o órgão-chave da administração dele, mas se reuniu uma vez. Falei que não queria nada, que seguiria jornalista e crítico dele.

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Guilherme Carvalho -Você responde a quantos processos e qual a natureza deles? Acho interessante que durante o regime militar (1964-1985), fui jornalista por 19 anos e só fui processado uma vez. O caso foi por causa do suplemento Encarte, que editava em O Liberal. Denunciei o processo de tortura que uns presos sofreram após uma fuga. Eles eram levados para o “interrogatório” de barco para a ilha de Cotijuba. Na lancha Marta da Conceição houve a fuga e jogaram na baía o tenente responsável pela tortura, Teodorico Rodrigues. Fizemos as fotos da tortura, publicamos. O governador da época era o Aloysio Chaves, que mandou investigar as denúncias. O chefe do inquérito era o então major Antonio Carlos (depois coronel da PM e secretário de Segurança Pública). Ele me chama de lado e informa que todos os jornalistas que foram lá haviam admitido que as fotos tinham sido montadas. Desmentiram tudo o que haviam feito. E que o interesse da polícia era pegar o repórter policial Paulo Ronaldo. O Paulo foi um célebre repórter, tinha sido eleito deputado estadual pela oposição. Ele era muito popular e tinha tido uma votação estrondosa. A polícia era louca para pegá-lo. Eu e o Paulo fomos indiciados na Lei de Segurança Nacional por incitarmos a sociedade contra as autoridades. Depois o crime foi desqualificado na justiça militar e o processo arquivado na justiça comum. Desde 1992, quando a Rosângela Maiorana Kzan entrou com a primeira ação, das cinco que moveu contra mim, já foram 15 processos, além de mais um na justiça eleitoral. Em pleno regime democrático, sintome mais perseguido do que na ditadura. Rogério Almeida - O que se passa? A Justiça está sendo usada como instrumento de quadrilhas. Vejamos uma coisa absurda. A história da maior grilagem da humanidade usa como autor um certo Carlos Medeiros. Todo mundo sabe que o Carlos Medeiros não existe. Foi forjado por uma quadrilha de advogados e corretores de terras. Foi inventado inclusive por um advogado que morreu recentemente. Eles vão aos cartórios com os juízes e desembargadores em nome de uma pessoa que não existe. Já escrevi várias vezes no Jornal Pessoal que a OAB – Ordem dos Advogados do Brasil exigisse do advogado a apresentação em carne e osso do cliente, o Carlos Medeiros. E caso o advogado não se apresentasse no prazo de uma semana, cassasse a licença do

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advogado. A Justiça hoje, por ser o poder menos fiscalizado, se tornou um poder terrível. Rogério Almeida- Desse rosário de processos, nove são sobre grilagem de terras? Nove são de grilagem de terras e extração de madeira na Terra do Meio, lá no Xingu. Cinco são da dona do Liberal, a Rosângela Maiorana Kzan. Chegou ao cúmulo dela entrar com ação cível para me proibir de falar o nome dela para sempre. Fiz a seguinte pergunta no Tribunal: caso ela ganhe, como vai ser a execução da sentença? Vão mandar um censor do Tribunal? Vou ter que submeter o Jornal Pessoal a um censor do Tribunal? É um absurdo. A ação prospera até hoje. Guilherme Carvalho - A Justiça paraense nesse caso, ou o Judiciário de um modo geral, está ser vindo como instrumento para que a ação dessas quadrilhas de grilagens de terras proliferem? Veja o caso da desembargadora Maria do Céu Duarte. Ela se sentiu ofendida por um artigo meu no qual reproduzia trecho de uma decisão dela. Disse que a ofensa era agravada pelo fato de eu ter colocado aspas na declaração dela, denotando intenção de ofenda. Rogério Almeida – Para tentar ser didático. São três os atores que o processam. Os dois desembargadores, a Maiorana e o pessoal da grilagem de terras. E tem a figura intolerante do prefeito de Belém, que também é dono de uma ação, Edmilson Rodrigues (PT/PA). A ação é porque ele dava dinheiro para um escroque, um crápula do jornalismo para defender a prefeitura e garantir uma coluna com pseudônimo, que era o “Décio Malho”. Usando essa gazua, ele ofendia todas as pessoas inimputavelmente. Mostrei que o PT que vinha para estabelecer a moralidade, estava usando o dinheiro público para chantagem. Rogério Almeida- Qual era o jornal? Jornal Popular Rogério Almeida – Ainda existe? Quando o prefeito deixou de pagar o jornal, deixaram de falar bem dele. No processo, uso a figura jurídica da exceção da verdade. Ou seja, a possibilidade de provar que tudo que estou dizendo é verdade. E as pessoas não deixam. A primeira sentença que me condenou foi manuscrita. Tinha 54 páginas. Foi dada por uma juíza

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que jamais havia dado uma sentença parecida. Você visualizando notava que não era a mesma letra. Há uma regra da lavratura de sentença que diz que se o juiz começar a manuscrever a sentença, tem que fazer do principio ao fim, rubricar cada página e assinar no final. A juíza não fez isso. Pedi perícia. Afirmava que não havia sido a juíza quem havia escrito aquela sentença. Pedi perícia grafotécnica e grafológica. Era mais de um modelo de letra. Rogério Almeida – Qual foi a acusação? Foi na ação da Rosângela Maiorana, por crime de imprensa. Rogério Almeida – O que a motivou a processar você? Mostrei a briga entre os irmãos Maiorana. Mostrei que havia uma dissensão entre os irmãos. Que eles estavam usando o mesmo funcionário para criar duas empresas para fazer no Amapá a mesma coisa para um e outro, sem que um soubesse da iniciativa do outro, em negócios pessoais paralelos ao da empresa. Estavam criando empresa satélite para um e para outro. Depois o funcionário foi demitido por justa causa. Acho importante dizer que em nenhuma das 15 ações qualquer dos autores usou o direito de resposta. Ninguém quis exercer o direito de reposta no meu jornal ou em outro espaço, inclusive um servidor público, como é o desembargador. Por que eles não prestam contas? Publico qualquer tipo de carta. Nanani Albino –Você tem alguma condenação? O primeiro caso foi esse da Rosângela Maiorana. O segundo foi o do desembargador João Alberto Paiva. No primeiro pedi a perícia. Acabou não sendo feita a perícia. A desembargadora que autorizou a perícia foi alvo de uma campanha contra ela no jornal O Liberal. Tentei esclarecer o caso. Não tive espaço nem no jornal oponente, o Diário do Pará (propriedade do deputado federal Jader Barbalho). O próprio Jader interferiu para a não publicação da explicação, quando o pai dele já havia autorizado. Rogério Almeida- Tem um problema também com os órgãos de imprensa aqui no Pará? Tem. No O Liberal sou proibido de sair. A coisa é tão séria, que fui fazer uma palestra num cursinho. O dono resolveu anunciar no jornal O Liberal, pagando nos classificados. Nem anúncio pago com o meu nome sai no Liberal. A pedido meu, numa das audiências, a juíza interrogou Rosângela Maiorana se era verdade que o meu nome

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era proibido de sair no jornal. Ela respondeu que não. Que no dia em que eu morrer, sai. Quanto ódio, meu Deus! Rogério Almeida – Como é a história mais recente de sua batalha processual, a da condenação do processo movido pelo desembargador Paiva? Em 1996, o Instituto de Terras do Pará (Iterpa) propôs, na comarca de Altamira, uma ação de anulação e cancelamento dos registros imobiliários que havia ali em nome da Incenxil (Indústria, Comércio, Exportação e Navegação do Xingu). A Incenxil era uma empresa de Altamira, que foi comprada pela Rondon Agropecuária, do grupo C. R. Almeida. O que havia de ativo na Incenxil? Registros de posse, com uma cadeia dominial longa, mas que não mostrava a origem da titulação. Cadeia dominial são os registros sucessivos que o imóvel tem no cartório. A propriedade privada só se caracteriza quando o domínio da terra sai do patrimônio público para o particular. O primeiro registro, de 1923, tinha a seguinte informação: “título hábil”, mas sem informar qual era o título. Evidentemente que era uma cadeia dominial incompleta. Rogério Almeida – Altamira ainda é o maior município em extensão territorial do mundo? Ainda é o maior município. No “chute”, uns 150 mil quilômetros quadrados. O Iterpa pediu para o juiz Torquato Alencar uma tutela antecipada. O que é isso? Autorizar que na margem do registro constasse, com autorização do juiz: “Esta terra está sub-judice com ação de cancelamento proposta pelo ITERPA”. Para que isso? Para alertar terceiros de boa fé. Qualquer pessoa que quisesse comprar essas terras iria saber que a terra estava sob litígio. Assim, qualquer comprador seria de má fé. Sem direito a indenização. O juiz deu a tutela antecipada. A empresa recorreu em Belém. O agravo foi para o desembargador João Alberto Paiva. Ele decidiu, em liminar, sem examinar o mérito da questão, que as terras são “inquestionavelmente de propriedade particular”. A liminar é dada quando o direito é evidente (sem maior indagação) e há iminência de dano irreparável. Como, se o Iterpa entrou com o pedido de anulação e cancelamento dos registros imobiliários que havia no cartório de Altamira da Incenxil? O desembargador deixou de ouvir o Ministério Público. São 5 milhões de hectares. São duas vezes e meia a área da Bélgica. Todos os órgãos públicos, federais e estaduais,

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dizem que a terra é pública. Avalio que o juiz deveria ter tido cautela na questão. Quatro meses depois da decisão, o Ministério Público se manifestou contrariamente. Nanani Albino – Você fez alguma crítica sobre o desembargador ou somente sobre a decisão dele? A minha crítica é sobre o ato. Ao longo desses 40 anos, nunca entrei num assunto se não tenho prova. Nunca fui processado por falta de provas. A questão é sintomática. A C. R. Almeida, antes entrar com as ações, tinha o jornalista Oliveira Bastos como seu assessor especial. Mandou-me duas cartas violentíssimas. A tentativa era me desmoralizar. Não conseguiu. Depois ele saiu da empresa. No terreno do debate, não fui vencido. Só escrevo depois de ler, verificar, me convencer da questão. Não produzo com base em dossiê. Só escrevo quando domino o assunto. Guilherme Carvalho - Lúcio, você tem tido dificuldade de conseguir advogado aqui? Quando a Rosângela Maiorana Kzan, em setembro de 1992, entrou com a primeira das cinco sucessivas ações, procurei oito advogados. Em geral, de esquerda. Todos, sob diferentes pretextos, não aceitaram a minha causa. Uns alegando dor de cabeça, amizade... Um amigo, que não era advogado militante, sem escritório, topou fazer a defesa. O acordo era que eu freqüentasse o Fórum e ajudasse na elaboração das peças. Aí comecei a estudar Direito e freqüentar o Fórum. São doze anos. Usei de todos os institutos do Direito Penal. Sempre é a Lei de Imprensa. Avalio que não haja alguém que conheça a Lei de Imprensa melhor do que eu. Nanani Albino - Por que a Lei de Imprensa, criada em pleno regime militar, ainda não foi derrubada? A lei é inconstitucional. Só que alguém tem que entrar com Ação de Declaração de Inconstitucionalidade (ADIN). Aí fica o sindicato, a Federação, ficam os grandes líderes dos direitos humanos dizendo que a lei é entulho do regime autoritário. E ninguém toma uma atitude positiva. A Constituição revogou tacitamente a lei. Como a Lei de Imprensa é especial, ela deve ser inconstitucional e tem que ter uma outra lei para revogá-la. Por quê? Porque os democratas de ontem são os autoritários de hoje. Edmilson Rodrigues, prefeito do PT, usou a Lei de Imprensa contra mim. Lula não vive dizendo que a imprensa é denuncista? Não interessa ao poder, de direita ou de

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esquerda, abolir a Lei de Imprensa. Guilherme Carvalho - Qual avaliação que você faz da relação entre os meios de comunicação, governo e esses grupos econômicos que estão controlando mais terras, grilando? Acho que a imprensa deva ser democrática. Se você manda uma carta e o jornal não a publica, já deveria ser considerado crime, a recusa da publicação da carta. Se você mandou e em 48 horas, o jornal não publicou, já seria crime. Bastaria entrar na Justiça provando o recebimento da carta e que não foi publicada. A partir desse dia, multa violenta na empresa, em dinheiro. Com isso se resguardaria o direito do cidadão de se defender daquilo que foi escrito contra ele na imprensa. Por esse lado, se defenderia o cidadão. Outro ponto seria que ninguém poderia entrar na Justiça sem antes esgotar a via administrativa. Nesses moldes, nenhum dos desembargadores poderia me processar, já que não exerceram o direito de resposta. Acho também que com a criação de alguns mecanismos seria possível estabelecer uma relação democrática dos meios de comunicação. Por exemplo: cada empresa que alcançasse determinada tiragem, ou determinado capital, deveria ficar obrigada a abrir o seu capital. E a empresa não poderia absorver as ações totais, deveria permitir que 10% fossem comprados pelo cidadão. Não acredito no modelo de conselho, como feito no Peru. O Estado, quando entra no campo cultural, é totalitário por atavismo. É o cidadão que deve ter o controle. Não o Estado. Quando optei pelo Jornal Pessoal, nunca aceitei publicidade. Nanani Albino – Como ele sobrevive? Há horas em que ele se paga. Há horas em que não se paga. Isso hoje é o que menos importa. Numa época ele só era vendido através de assinaturas. Cheguei a ter 1.200 assinantes. Mais que o Jornal Liberal, que tinha 800. Mas para manter as assinaturas, teria que virar empresa. Nanani Albino – Qual é a tiragem? 2 mil exemplares. Nanani Albino - E a distribuição? Só em banca. Guilherme Carvalho- Voltando naquela relação dos meios de comunicação. Poder Judiciário e os grupos econômicos...

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A C. R. Almeida criou uma pendência judicial. Enquanto tiver a pendência judicial, ela domina a terra. É uma forma mais sofisticada de grilagem do que as formas anteriores. A forma antiga era falsificação de título, corromper o cartório. Agora eles fazem questão de manter a questão sub-judice. A justiça pode tomar uma decisão. No próximo número do Jornal Pessoal farei um comentário sobre uma resolução baixada pela corregedora geral de Justiça do interior, Carmencin Cavalcante. Ela usou seu poder de arbítrio numa questão. O poder arbitrário do Estado deve ser em defesa do interesse público. Se há dúvida de registro de uma terra imensa, cancela-se e o particular que vá para a justiça. Guilherme Carvalho – A Justiça no Pará não decide por quê? Porque não quer. Há esse exemplo da doutora Carmencin Cavalcante. Ela baixou uma resolução em que ela cancela. No caso da Jarí, ela cancelou a unificação de terras em 940 mil hectares. Exerceu o poder de arbítrio. Tem de usar. Falta vontade ao judiciário. Agora mesmo estão com recurso de plotagem, GPS. Sim, de que adianta ter tudo isso sem vontade política? Nanani Albino - Você ainda é réu primário? Sou. Porque a questão está suspensa. Tentaram armar uma trama quando fui condenado pela primeira vez. Eles queriam me colocar na cadeia e fotografar, para pôr a minha foto no jornal. Mesmo que eu saísse no primeiro minuto. A justiça é terrível. É um poder triturador –lento, mas inelutável. Por isso há o ditado: quem tem juízo, não vai a juízo. Quando li a decisão do Tribunal, passei o fim de semana questionando onde havia errado. Não posso errar. Não posso deixar o inimigo se alimentar de falhas. Sobretudo das pequenas, que desviam da apreciação do mérito e se restringem a uma preliminar formal. Nanani Albino– Como você consegue com tanta pressão ser um repórter investigativo? O que significa ser um repórter investigativo? As pessoas pensam que repórter investigativo é aquele presenteado por dossiê. Investigar significa ir atrás do fio da meada e questionar sempre. Se você não tem dossiê, vai atrás dos fatos. A escola de repórter de polícia continua sendo a grande escola. Morto não manda release. Não tem assessor de imprensa. O problema é

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que consigo desagradar todo mundo. O PT não me considera um aliado. O PSDB não me considera aliado. O PFL, idem. Azar deles. E azar o meu. Guilherme Carvalho – Você falou do governo Edmilson e falou do Jader. E quanto ao governo do Estado, os governos de Almir Gabriel e Simão Jatene (atual governador do Pará/ PSDB). O Ministério Público faz o que o Executivo quer? Infelizmente. Quando ele passou a se tornar muito forte, os procuradores passaram a ter carreira política. Marília Crespo, Manoel Santino saíram do MP diretamente para a política. Acho isso uma promiscuidade. Acho que não se deveria mandar lista tríplice para o governador. O colegiado do Ministério Público deveria escolher seus novos integrantes. Não tem porque representante do Ministério Público ser desembargador. Nem gente da OAB. A promoção deveria se restringir aos integrantes da carreira. O governador não deveria nomear ninguém. Todos acabam dependendo do poder executivo. Nanani Albino – Você falou que a melhor escola para investigar os fatos é estar diante dos fatos e perguntar. No que tange à Amazônia, o que te inquieta? Quais os fatos que deveriam estar na pauta e não estão? Sempre lembro, como metáfora, o exemplo de Isaac Newton. Estavam os dois irmãos debaixo da macieira. Felizmente a maçã caiu na cabeça de Newton. Fosse na cabeça do irmão, teria gerado no máximo um palavrão. O jornalista é aquele que faz a pergunta certa, na hora certa. O jornalista é aquele que incomoda o poder. Seja qual for. Ideológico, econômico, institucional. Uma vez, em Tucuruí, o presidente da Eletronorte afirmava que a água do lago era boa. A TV filmando. Então pedi: “beba essa água”. Ele não tomou. Ninguém estava esperando. Liquidou-se. Um outro episódio foi com o pistoleiro que executou o deputado João Batista, de nome Péricles. Numa pequena sala da Assembléia Legislativa, ele dava entrevista. Só entrava uma equipe de TV de cada vez. O arquivo está na Cultura. Ele afirmava que nunca tinha pegado numa arma. Pedi para o soldado tirar as balas do revólver e passá-lo para mim. O capitão, que estava ao lado, autorizou. Peguei o revólver e disse para o Péricles: “pega”. Ele tomou a arma de minha mão na hora. Era um profissional. A equipe da TV Cultura, que filmou tudo, saiu correndo para exibir o filme. Jornalismo é isso. Em cima do lance. E às vezes não. Até porque

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as sociedades que mais se desenvolvem são aquelas que dão tempo para as pessoas ficarem no ócio, refletindo. Não existe verdade sem ócio. Outra coisa foi Sossego. Dezenas de matérias. Rogério Almeida - Você poderia explicar o que é Sossego? É a primeira mina de cobre a entrar em produção, que vai tornar o Brasil autossuficiente. É a primeira das cinco minas da região de Carajás, no Sudeste do Pará. Em 1977, estava lá quando começou a pesquisa no Salobo 3 Alfa, em Carajás e comecei a estudar cobre. O principal são as boas fontes. Acompanhei a história da Caraíba, do Geisel, dos estudos do Estado-Maior das Forças Armadas para abastecer de cobre o Brasil. O cobre é o segundo item na balança de importações minerais. Concluí que ocorreria um paradoxo. Vamos ser auto-suficientes e vamos continuar importando cobre. Vamos exportar concentrado e importar cobre metálico. Porque há uma incompatibilidade entre a Caraíba Metais e a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD). Com os calos de 20 anos tentando estudar a questão, você faz a pergunta certa. Escreve uma matéria que, talvez, ninguém vá escrever, ao menos naquele momento, em cima do fato. Em Marabá, em 1995, na Escola Mendonça Virgolino, houve um debate sobre o projeto de cobre do Salobo. Valor do projeto: 1,6 bilhão de dólares. Não se sabia onde ia ficar. Se em Marabá ou Parauapebas, ambas no Pará, ou Rosário do Oeste, no Maranhão. Aí o Haroldo Bezerra, então prefeito de Marabá, informa no meio do debate que o pessoal da Salobo Metais tinha visitado a cidade no dia anterior. Interroguei se ele havia perguntado se a quantidade de minério daria para produzir, durante 20 anos, 140 mil toneladas de concentrado ao ano. Bezerra retruca o por que da pergunta. Expliquei que se não fosse assim a mina não sairia. Não teria viabilidade econômica, fosse lá onde ficasse instalada. Nanani Albino – Você avalia que as pessoas que estão no planejamento das políticas públicas para a Amazônia estão fazendo as perguntas certas? Alguns são honestos e competentes possuem a resposta. Outros, não. As pessoas que fizeram os contratos de minério de ferro, bauxita (matéria prima para a produção do alumínio), os contratos da Albrás (maior empresa de alumínio do Brasil, instalada no município de Barcarena, a 40 Km de Belém), sabiam que estavam cometendo um crime contra o Brasil.

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Rogério Almeida – Todos esses projetos se deram no regime militar? Todos. Todas as pessoas que assinaram contratos dos grandes projetos na Amazônia deveriam estar respondendo a processos. A base do meu diálogo são os fatos. Eliezer Batista (ex-executivo da CVRD - Companhia Vale do Rio Doce), um dos homens mais importantes da história contemporânea, que concebeu todo o Grande Carajás, disse que, caso não tivesse havido corrupção na construção de Tucuruí, nós não teríamos precisado subsidiar o alumínio. E a CVRD é uma empresa do alumínio. O subsídio custou dois bilhões de dólares. Fui apurar e escrevi matérias sobre o assunto no Jornal Pessoal. Em contato com o ex-deputado federal do PT, Geraldo Pastana, sugeri que ele convocasse o Eliezer. Não foi aprovado o pedido. Então, pedimos informações no TCU - Tribunal de Contas da União, depois de dois anos tivemos a reposta deles, de que se tratava de águas passadas. Rogério Almeida- Dois bilhões em subsídio? De subsídio no alumínio e de corrupção na construção de Tucuruí. Rogério Almeida – A empresa no caso era a Camargo Corrêa? A Camargo Corrêa teve um lucro líquido de 500 milhões de dólares na construção da hidrelétrica de Tucuruí. Sempre que posso, toco no assunto. As pessoas não se indignam. Fico estupefato com a questão. No regime militar, descobri que balanço de empresa é uma fonte preciosa de informação. Principalmente pelo que não está dito. O Banco do Estado Pará (Banpará) foi eleito o banco do ano em 1983, quando eu havia escrito que o banco era uma porcaria e que todas as suas operações estavam erradas. E a revista Exame, uma publicação aparentemente de conceito, afirmava se tratar do banco com o melhor desempenho no Brasil. Passei a estudar balanço, consultar gente que sabia. Fui estudar o balanço da Albrás de 1987 e conclui que só a variação cambial entre a moeda japonesa e o dólar relativos à moeda nacional, que proporcionou a maior aplicação de capital de risco estrangeiro na história do Brasil representava três vezes o orçamento do Estado do Pará. Perdemos três vezes o orçamento do Estado. Consultei o cidadão que fazia o orçamento no Rio de Janeiro e ele confirmou a conta. Escrevi matéria em O Liberal. Imaginava um escândalo nacional e nada houve.

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Nanani Albino- Por que a opinião pública parece não se aliar a você? Há um descompasso entre a agenda da opinião pública e a agenda da história. Estamos numa situação colonial. Caso a gente soubesse o que está acontecendo de verdade, não seríamos coloniais. Rogério Almeida – Existe saída para essa condição colonial? Tem. Ciência e tecnologia, o modelo de colonização que defendo é a ocupação através da ciência e tecnologia. Deveríamos ter aqui não colono de soja e não colono de arroz. Nanani Albino – O que é isso? Em vez de colonos, cientistas. Ele não vai só produzir ciência, se ele estuda arroz, vai plantar arroz. Vai ensinar como é que faz, fazendo. Vamos pegar o cara e colocar no campo, e não no campus, com bolsa de pesquisa, uma estrutura mínima. Se a gente não colocar a formação antes da transformação está liquidada a Amazônia. Sei que serão necessários muitos milhões no começo. Quando comecei a visitar o Araguaia, a densidade de mogno era o dobro do que existe no Xingu, eram 10 árvores por hectare. Não tem mais nada lá. Diziam que a gente ia aprender com a experiência do Araguaia. Estamos fazendo pior no Xingu. Aí só vai restar o Acre. Uma árvore por hectare. Araguaia era a maior reserva de mogno do mundo. Nanani Albino – Você fala em mudança substancial em investimento em pesquisa ? Devemos conceber investimento em pesquisa não como retaguarda, mas como vanguarda. Vamos pegar a meninada da USP , UFRJ e outras com uma boa bolsa e vamos para o campo aprender. Os orientadores também devem ir ao campo, com condições de trabalho bons salários. Nanani Albino – E as universidades federais locais? Todo mundo iria para o campo. É como se estivesse em Israel. A nossa guerra é a guerra da ciência. Guerra da ciência não é ficar fazendo o seu trabalhozinho acadêmico. É fazer a difusão da ciência no campo. Nanani Albino - Agora é a hora? Tem que começar já senão nunca vai começar. Nanani Albino – E os colonos não científicos? Ele vai aprender e ensinar. Você coloca o doutor em genética na

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Transamazônica para fazer melhoramento no campo com uso do conhecimento tradicional e empírico. Considero que o pessoal tem que ir a campo. O doutor tem que deixar de canto essa postura arrogante. Nanani Albino – Como você avalia a ciência produzida na Amazônia? Quando comecei a fazer palestras, começavam a fazer perguntas sobre a minha formação e eu dizia malandramente que era jornalista. Era um constrangimento. Jornalista não tem valor científico. Aí eu dizia: sou sociólogo e tinha o carimbo da academia. Depois dizia: “vamos para o debate!” O critério da verdade é o debate. Se vocês são os cientistas, os doutores, vocês vão me vencer no debate. Caso eu vença, não adianta ser doutor. Nanani Albino – No Brasil, existe a tradição do debate? Aqui o debate costuma ser improdutivo, assistemático e acientífico. O que grita mais alto, as pessoas aplaudem, vence o debate. Todos sabem do rigor que tenho com os dados. Caso esteja errado, corrijo. Num determinado debate, soube da proibição por decreto pelo presidente José Sarney do uso do alumínio nos garimpos. Disse que seria pior. Que os garimpos iriam usar cianeto. A pessoa que conversava iria palestrar pela tarde. Cheguei na hora em que ela falava de uma importante denúncia que a Amazônia iria ser inundada por “cianureto”. Mandei um bilhete informando que não era cianureto e sim cianeto. Guilherme Carvalho – Qual a perspectiva da Amazônia diante de mais um Plano Plurianual aprovado? Quando Lula foi eleito, elogiou a tecnocracia do regime militar. Escrevi um artigo dizendo que ele tinha certa razão. Acho que nunca se fez tanto plano. Alguns tão bem feitos que não poderiam nem ser executados. Uma vez, em Brasília, fui ao Instituto de Pesquisa de Econômica Aplicada (IPEA), cujo chefe era o ministro João Paulo dos Reis Veloso, do Planejamento, que sempre se preocupava com a história, por isso apadrinhou intelectuais marxistas. Não queria passar como o tecnocrata dos ditadores. Em 1972, andando pelo IPEA, entrei inadvertidamente numa sala onde estava sendo dada uma aula sobre Marx. Aquilo era uma heresia privatizada. Nessa época, o IPEA publicou um livro crítico sobre a colonização dirigida na Amazônia. Critica o INCRA, os incentivos fiscais que motivaram a formação

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dos latifúndios com metodologia marxista. Caso for analisar a história pela fonte secundária, você vai dizer que esse era um déspota esclarecido. Agora a bíblia sobre a Amazônia é um livro sobre o II Plano de Desenvolvimento da Amazônia – PDA (1975/1979). Esse documento diz o que da Amazônia? Diz que o papel da Amazônia é fornecer insumos para o Brasil moderno e matérias-primas para o mundo. Com isso, ela vai aumentar o ritmo do desenvolvimento brasileiro, pois o Brasil não tem poupança suficiente para isso, e também manter a roda do processo produtivo do mundo. É isso que interessa. Tudo dito claramente sem filigranas ou cosméticos. É um futuro colonial. Como mudar isso? Tornar o povo participante. Rogério Almeida – Qual é orçamento para a ciência na Amazônia? Zero, dois ou meio por cento do orçamento em ciência e tecnologia. Rogério Almeida – Estamos condenados ao colonialismo? Se tirassem as verbas estrangeiras seriam o,ooo qualquer coisa. Nanani Albino – Qual é o investimento em pesquisa vindo do exterior? Dois terços dos investimentos da pesquisa são em moeda estrangeira. A Amazônia não é prioridade nem para o Brasil. Nanani Albino – E o resultado? É o modelo colonial. O projeto MADAM (Programa Manejo e Dinâmica nas Áreas de Manguezais), por exemplo, é interesse alemão. Há documentos que são produzidos em alemão, e que nunca foram traduzidos. O que o mundo desenvolvido quer da Amazônia? Preservar uma parte da Amazônia e estudá-la antes que acabe. Ninguém no mundo sério tem dúvida de que a gente vai acabar com a Amazônia. Somos destruidores como eles também foram e são. A história da humanidade é a história da destruição da floresta. Na Amazônia, é a primeira vez que a gente tem a possibilidade de uma civilização florestal. É o único lugar que tem floresta expressiva hoje. Temos a consciência e os meios, se a gente não usar a consciência e os meios, vamos seguir a tradição do homo agrícola. Vamos destruir a floresta. A Amazônia só tem futuro no mundo. Onde Marx escreveu O Capital? No Museu Britânico. O Marx nunca

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entrou numa fábrica. Em quais dados primários se baseia O Capital? Nos relatórios dos fiscais de fábrica da Inglaterra. Rogério Almeida- Então não era um bom jornalista Era ótimo jornalista. Rogério Almeida – Mesmo distante do campo? Mesmo não indo para o campo. Quando ele ia para o campo, ele era o editor da Nova Gazeta Renana. Ele escreveu sobre o monopólio da lenha e a liberdade de imprensa. A luta dele contra o censor. O censor esperando ele na redação e ele dormindo. Até o momento que ele se tornou profeta tinha muito bom humor. Rogério Almeida – A gente estava falando em ciência, e o SIVAM – Serviço de Vigilância da Amazônia? São 20 anos de verba de ciência e tecnologia na Amazônia que estão sendo distorcido pela visão geopolítica. Hoje nós temos o SIVAM pronto. Isso significa maior segurança para a Amazônia? O prisma da geopolítica é o que mais distorce a visão da Amazônia. Desde Arthur Cezar Ferreira Reis, que é a matriz desse pensamento. A nossa relação com o mundo tem que ser diferente. Quanto mais a gente se desenvolve, mais a gente fica subdesenvolvido. Continua aquela visão de Euclides da Cunha do seringueiro. Aquele que quanto mais trabalha, mais se escraviza. Aquele que compra produtos caros no barracão, e vende produtos baratos. Uma relação de troca desfavorável. Rogério Almeida - Essa questão da regulação fundiária, gostaria que a gente retomasse. É uma questão séria na Amazônia. Está em vigor o Estatuto da Terra. Foi baixado pelos militares em novembro de 1964, o Estatuto é melhor que a Constituição. O Estatuto diz o seguinte: ninguém pode ser dono de mais de 600 vezes o modulo rural. Rogério Almeida – O módulo rural hoje é de 25 hectares? Há vários tipos de módulos. Há de um hectare, para a horticultura, ao maior, que é o silvicultural, que é de 120 hectares. Pela letra da lei, ninguém pode ser dono de mais de 72 mil hectares. Vamos pegar os Estados Unidos, onde há cadastros fundiários desde o século XVIII. São amarrações por posições astronômicas. Como a gente não tinha isso, a nossa amarração foi através de acidentes naturais. Só que a gente não conhecia o interior. No início da República expedimos 40 mil títulos de posse. Isso só existe no Pará

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e na Bahia. Era uma carta do poder público autorizando a ocupação do interior por quem estivesse disposto a ocupar. O limite máximo era uma légua quadrada, que corresponde a 4.356 hectares. Com base nisso, ninguém poderia aparecer com título de posse com 5 milhões de hectares. Desses 40 mil títulos, apenas 3 mil buscaram a regularização depois. O resto deu origem a essas grilagens. É fraude. Caso o senhor Cecílio Rego Almeida aparecesse com um título desses nos Estados Unidos, poderia ser preso. Rogério Almeida – Vamos falar um pouco sobre a CVRD -Companhia Vale do Rio do Doce. A Vale é maior que o Pará? É maior. A CVRD tem uma verba de investimento maior que a do Estado. O faturamento da CVRD é maior que a receita do Estado. Caso o modelo de enclave prospere, a CVRD vai ser três vezes maior que o Pará. É um modelo baseado em matéria-prima, quantidade crescente de minério de ferro. Vinte milhões de toneladas era o ponto de viabilidade da mina de Carajás. Hoje está em 55 milhões de toneladas. Por quê? O primeiro trem saiu de Carajás com a tonelada de minério a 26 dólares, hoje são 15 dólares. Ocorre que tem de produzir cada vez mais. O Pará é o 2º Estado em território, 9º em população, 16º em Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), 19º em Índice de Desenvolvimento Juvenil (IDJ). É o modelo da África do Sul. Nós somos a África do Sul da Amazônia. Rogério Almeida - A privatização foi um crime de lesa pátria? A melhor análise que saiu foi da Euromoney, uma revista de negócios da Europa, foram 16 páginas. Eles mostraram o absurdo que foi o preço de avaliação de arremate da CVRD. O absurdo é tanto que hoje os japoneses estão na CVRD. Uma das regras da privatização era que comprador não poderia ser acionista da CVRD. O modelador da privatização, que é o Bradesco, é o principal controlador fora dos fundos federais. Que privatização é essa? Foi um dos maiores escândalos do Brasil. As ações propostas na Justiça não foram decididas até hoje. Nanani Albino – Há 12 anos você vem sendo processado. Qual a postura das entidades de classe, federação, sindicato de jornalistas em relação a isso? Bem, fui do sindicato do tempo em que o Lula tentava implantar

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as delegacias sindicais no ABC, no fim da década de 70. A gente foi o primeiro sindicato a ter salário profissional e delegacia sindical. Depois perdemos no Superior Tribunal do Trabalho. A gente fez isso primeiro. No primeiro processo, o presidente do sindicato escreveu uma nota de solidariedade tão sórdida, que pedi o meu desligamento do sindicato. A solidariedade era pior do que se tivesse feito um ataque a mim. Ele dizia que a Rosangela Maiorana tinha razão, mas que tinha de ser solidário pelo espírito de corpo. Nesse recente episódio (do desembargador João Paiva) a nota de solidariedade foi comandada pelas ONG´s: Instituto Sócio Ambiental (ISA), Amigos da Terra, Greenpeace. FENAJ e sindicato aderiram. A iniciativa não foi deles. O episódio mais triste que ocorreu nesses quase 40 anos de profissão foi quando denunciei a infiltração do narcotráfico na Amazônia, em 1991, ano em que ocorreu o assassinato de uma figura da sociedade, que era lavador do dinheiro do narcotráfico internacional. Durante meses, o Jornal Pessoal foi o único que publicou os fatos. Era a história de Bruno Matos. Quatro meses depois, saiu uma única matéria nos três jornais da cidade, dizendo que ele tinha se suicidado. Ele morreu na BR 316, a 90Km/h, recebeu um tiro na distância mínima de três metros, de cima para baixo, da esquerda e ele era destro. Foi um único tiro, preciso. Esse é o suicídio mais inverossímil da história da humanidade. Um tiro a três metros de distância, dirigindo o carro a 90Km/h. Após o Jornal Pessoal encadear os fatos, a PF apreendeu uma tonelada de cocaína no Marajó e no rio??? Amazonas. Toda a imprensa foi para a sede da PF para a coletiva. Fui e não fiz qualquer pergunta. Os colegas interrogaram sobre o meu silêncio. Falei que tinha ido para conversar em off com o delegado José Salles, hoje superintendente aqui no Pará. O colega declarou, então, que iria ficar. Que agora é que ia começar o bom. Retruquei que não existe off coletivo. Que se tratava de uma conversa particular, estabelecida através da confiança mútua. Concordei em que todos participassem, com o compromisso de que todos publicassem o que ia ser dito ali. Todos foram embora. O Salles, delegado, interrogou: são esses seus colegas? Nanani Albino – Você tem 38 anos de jornalismo. O Jornal Pessoal muitas vezes não cobre nem sequer os custos. Você hoje consegue viver da profissão?

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Dou palestras, escrevo artigos para fora, escrevo livros. Do Jornal Pessoal, não. O Jornal Pessoal é a pedra no sapato. Guilherme Carvalho – A mosca na sopa? O Roger Aguinelli, presidente da CVRD, um dos homens mais poderosos do Brasil, num vôo leu um clipping do Jornal Pessoal. A CVRD mantém o Jornal Pessoal no seu clipping. Ele ficou furioso. Contatou o chefe de comunicação, que estava indo para o Maranhão, para antes parar no Pará. Queria que me dissesse que ele não era banqueiro, que faz filantropia e que destina todo o dinheiro das suas participações em conselhos a obras de caridade. Estava furioso com o Jornal Pessoal. Agora, nesse episódio (da condenação), recebi uma carta do Jarbas Passarinho em solidariedade. Ele fez o que nenhum colega meu fez. “Use essa carta, se quiser”, disse ele. Fomos adversários. Nunca me processou. Mesmo quando ele era o homem mais poderoso do Pará. Nanani Albino– Que preço você paga? No Jornal Pessoal, quem quiser entrar, tem que me convencer. Não interessa se é poderoso. O Hélio Gueiros (ex-governador do Pará e ex-prefeito de Belém, candidato nesse pleito de 2004 à prefeitura de Belém), mandou uma carta para mim que começava assim: “Lúcio Flávio, porque tu não vais chupar o cu da puta que te pariu?” Publiquei a carta. Ele não imaginava que publicaria e nunca mais quis falar sobre isso. Rogério Almeida – São quantos livros? Dez livros e participação em muitas obras coletivas. Rogério Almeida – A produção dos livros obedece à mesma lógica do Jornal Pessoal, bancados por ti mesmo? Agora, sim. Antes, não. O melhor que fiz foi bancado por uma bolsa de pesquisa americana, da Universidade da Flórida, que me permitiu falar mal de um do símbolos americanos, o Daniel Ludwig, do projeto Jari. Recebi uma boa bolsa de seis meses. Passei seis meses pesquisando e estudando nos Estados Unidos, escrevendo um livro contra um símbolo do capitalismo americano. Esse foi o livro que mais me gratificou. Quanto aos outros, não tive essa retaguarda. Foi um dos melhores períodos da minha vida.

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Guilherme Carvalho – Você é um homem cético ou esperançoso? Se fosse cético, já teria entregado as armas. Tenho esperança. Agora, a minha consciência diz que estou numa luta perdida. Vou continuar a luta até o último dia. Nanani Albino –Você acha que vai pagar atrás das grades por expor fatos que mais ninguém publica? Cipriano Barata foi muito mais jornalista do que eu. Toda vez que ia para as grades, escrevia um jornal. Escrevia na guarita da fortaleza maranhense. É um exemplo. O meu algoz, a Rosângela Maiorana, que já foi minha amiga, disse que iria me mandar para a prisão. Retruquei que o risco era que eu iria ter tempo para escrever um Jornal Pessoal por dia. Iria imitar o Cipriano Barata. Como diz o Gramsci, pessimismo na inteligência, otimismo na vontade. Tenho clareza que a máquina está me triturando. Vou capitular? Não sei? Nanani Albino - Você falou que a salvação da Amazônia está no mundo. Você acha que a salvação para Lúcio Flávio Pinto está fora da Amazônia? Na Itália, tem um grande jornalista chama Maurizio Chierice. É um dos principais enviados especiais da imprensa italiana. Cobre todos os conflitos internacionais. Ele escreveu um artigo no L’Unità, na primeira página, sobre o meu caso, edição do dia 19 de julho. Ele pediu para não calar a voz da Amazônia. Além do artigo, mandou uma carta para o embaixador brasileiro, o Itamar Franco. Não interessa o que vai acontecer. Interessa que eu não pedi. Foi ele quem me indicou para o maior prêmio de jornalismo da Itália, em 1997. Fui o primeiro não europeu que recebeu esse prêmio. No ano que recebi, o deputado federal da Irlanda do Norte, John Humme também ganhou, que, no ano seguinte, foi Prêmio Nobel da Paz. Recebeu também um jornalista, poeta e escritor albanês, Fatos Lubonja, que passou 19 anos preso. O governo brasileiro mandou um funcionário da embaixada numa ocasião em que estavam lado a lado, pela primeira vez na Europa, os embaixadores da Inglaterra e da Irlanda. Ao registrarem o fato, o auditório os aplaudiu. Depois vim a saber que o Itamaraty, consultado pelo embaixador, havia dito que eu não era “confiável”. Por isso o embaixador não foi. Fiquei contente em saber que eu não era confiável para o poder.

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Rogério Almeida – Como você avalia a presença dos Estados Unidos na Amazônia? Os Estados Unidos não conseguem entender a América do Sul. São incapazes. Clinton esteve para lançar o Plano Colômbia em Nova Granada. Ele não conseguia perceber que estava diante da sede de um poder imperial que foi maior do que os Estados Unidos, que foi o da Espanha. No século XVI, metade das universidades da Europa estava na península ibérica. Nós levamos quatro séculos para fazer a nossa universidade. A rigor, a nossa universidade foi criada em 1950, a Universidade do Brasil. Ele esqueceu que existe uma história hispânica anterior aos Estados Unidos. Fomos maiores que os Estados Unidos até D. Pedro II. Ele era uma pessoa brilhante, mas infelizmente travou a nossa história por 50 anos. Quando a biblioteca de Washington sofreu um incêndio, a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro era muito mais rica e importante. Perdemos o rumo da história nesse período. Entre 1822 e 1850, não tinha Lei de Terras no Brasil, a lei, não escrita, era a da ocupação, o princípio da posse, que fez a grandeza dos Estados Unidos. Quando criaram a Lei 601, de 1850, a ocupação física foi substituída pelo papel. E só pode ter papel, quem tem dinheiro. Liquidaram com um projeto do Brasil, que estava na cabeça do patriarca José Bonifácio. Ninguém fala desse período. A diplomacia americana se baseia na falta de conhecimento. Qualquer que seja o conteúdo do Plano Colômbia, ele é trágico. Um equívoco para o continente e para os Estados Unidos. Hoje o cidadão médio americano bem informado não tem dúvida de que Bush deve ser colocado para fora. Podem vir a fazer um novo Vietnã na América do Sul se insistirem em mais presença física americana. Temos que contrapor a ela uma integração econômica continental. Tem que acabar com esse negócio de ALCA, Mercosul, por algo mais amplo na América do Sul. Onde a gente possa se unir para nos tornarmos mais fortes? Se você inverter o rio?? Cassiquiare, vai abrir o caminho pelo centro da América do Sul, vai entrar pelo Caribe e vai sair na Bacia do Prata. Você vai acabar com o esquema de comércio no mundo inteiro. Com uma inversão de águas, você já começa a revolução. Aí tem lógica fazer hidrelétrica no Madeira. Enquanto isso não vem, não tem lógica. Nós estamos trazendo 200 megawatts por dia do sistema Guri da Venezuela para Boa Vista usar 72 megawatts. Estamos jogando fora 128 megawatts. Guri é atualmente

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a maior hidrelétrica do mundo. A estrutura do domínio do Estado é poderosa no sistema de gestão do desenvolvimento venezuelano. A Venezuela pode quebrar essa estrutura burocrática, que gera, de um lado, americanofilismo, e de outro lado esse fidelismo do Chávez. Temos que resolver as coisas passo a passo. Temos que mudar a matriz de energia e o modal de transporte do continente. Não é fazendo retórica contra plano Colômbia, fazendo SIVAM. Isso é perfumaria. Rogério Almeida— Esse modelo de integração econômica para o continente que você fala é via ALCA? Não. Acaba com isso de ALCA, Mercosul, ALADE. Vamos trabalhar as nossas potencialidades. Rogério Almeida – Quando você fala a gente, fala América Latina? América Latina. Só vamos pensar lá fora depois que a gente fizer uma hidrovia do Caribe à Bacia do Prata. Não podemos integrar para sermos esmagados. Carajás não tem carvão, vamos trazer o carvão da Colômbia. Guilherme Carvalho – Lúcio, construir uma hidrovia desse jeito não significa destruir boa parte do pantanal? Não vai passar no Pantanal. Passa ao largo. Sempre defendemos que o caminho natural é o rio. Sempre brigamos contra as rodovias. Por que agora achamos que todas as hidrovias vão destruir? Podemos fazer hidrovias perfeitamente válidas. Não podemos é fazer como foram feitas as rodovias e as ferrovias. A hidrovia é para desenvolver o interior, o núcleo das regiões conforme as suas aptidões. Devemos optar por ciência e projetos que agregam valor. Guilherme Carvalho – Isso é um problema. As hidrovias não são pensadas nesse modelo. São pensadas para soja. A própria lei dá os antídotos para esse problema. Só vamos aprovar hidrovias se tiver comitê de bacia. Dos 103 comitês de bacia, nenhum é da Amazônia. Não podemos aprovar um projeto de hidrovia sem um plano de desenvolvimento, transformado em lei e aprovado pela Assembléia Legislativa e referendado pelo Congresso Nacional. Terminou a fase da esquerda dizer, sou contra, diagnostico certo, mas não sei fazer. Tem que saber fazer. Rogério Almeida – Você ainda está dando aula? Faz sete anos que não dou aula. Estou aprendendo de novo.

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Sobre os entrevistadores: Todos cursaram o mestrado em planejamento no Núcleo de Altos Amazônicos (NAEA), na Universidade Federal do Pará (UFPA). Rogério é jornalista. Nanani é jornalista. Guilherme é historiador e técnico da FASE Pará. 2 - Amazônia a as novas frentes de Expansão Mineral e do Agronegócio no Sul e Sudeste do Pará21 Batista Afonso é um militante dos direitos humanos numa explosiva região da Amazônia, o sudeste do Pará, onde é o coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) no município de Marabá, cidade polo da região. Afonso é advogado e integra o colegiado nacional da CPT, instituição ligada à Igreja Católica alinhada na defesa da reforma agrária. A disputa pela terra na região sudeste do Pará imortalizou a mesma como a mais sangrenta do país. Capítulo escrito com grande violência na década de 1980, com o registro estimado em quase 600 casos de mortes contra camponeses, com quase cem por cento de impunidade. A última década, contada a partir do Massacre de Eldorado do Carajás, fez com que a região experimentasse profundas transformações. Modificações indicadas a partir do reconhecimento de inúmeras áreas ocupadas como projetos de assentamento, avanço da exploração mineral tendo como sujeito a Vale, implantação de grandes frigoríficos, como o do grupo Bertin, a “compra” massiva de várias fazendas pela Agropecuária Santa Bárbara, “empreendimento” rural do banqueiro Daniel Dantas, suspeito de um mundo de crimes no sistema financeiro. No entanto, a efetivação de projetos de assentamento não fez com que a atividade pecuária sofresse algum refluxo. Ao mesmo tempo o polo de gusa se amplia em Marabá, imensas obras de infraestrutura do Governo Federal ativam a migração e inchaço das cidades polo e pequenas cidades onde os projetos de mineração iniciam, como no caso de Ourilândia do Norte, Tucumã, Canaã de Carajás, Floresta do Araguaia e São Félix do Xingu. Se na

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década de 1980 o fazendeiro aplacava a diferença sobre o domínio da terra contra o camponês com um 38, vivencia-se, hoje, um processo de criminalização a partir de condenações de dirigentes e advogados por conta das ações de ocupações. A exemplo do que ocorreu no caso do Batista Afonso e em seguida com mais três dirigentes do MST e dos garimpeiros. O capital se alastra sobre as terras amazônicas, advoga sua perspectiva de desenvolvimento da região em editoriais de grandes jornais, notas de primeira página em edições dominicais, em reportagens que indicam que fora de tal diapasão não há saída, como matéria publicada na revista Exame sobre os louros do projeto da multinacional do setor de alumínio, Alcoa, que explora bauxita no pequeno município de Juruti. Os dias de hoje registram outro momento de tensão no sul e sudeste do Pará e em outras áreas da Amazônia, com um radical avanço do interesse do capital sobre a terra e os recursos nela existentes. A cortina de tal teatro de destruição já foi erguida em anos distantes. A história de mortes, destruição da natureza, apropriação irregular de terra, corrupção pública, hegemonia do poder da grana deixam isso evidente. É sobre o complexo contexto vivenciado hoje no sudeste do Pará que Batista Afonso reflete nesta entrevista concedida a Rogério Almeida, colaborador da rede Fórum Carajás. Fórum Carajás (FC) – Qual o contexto atual no sul e no sudeste do Pará? Batista Afonso (BA) – A reflexão que os movimentos da região fazem hoje é que a região está vivendo uma nova investida do capital, que na verdade não é nova, existe desde 1960, quando se descobriu a reserva de minério de Carajás. Mas, a tensão antes residia na ação do latifúndio contra os camponeses e assessores. Foi isso que tornou a região conhecida mundialmente. A questão do minério estava concentrada no município de Parauapebas. Recentemente o capital da atividade minerária avançou sobre outros municípios, triplicando ou quadruplicando os investimentos. Isso impulsiona outras atividades, como a produção de gusa. A produção de gusa alavanca a exploração irregular de madeira, a produção de carvão baseada na mão-de-obra escrava e a monocultura de eucalipto. A mineração impacta hoje não apenas Parauapebas, mas também Canaã dos Carajás, com a exploração de níquel através do projeto Sossego e o

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Salobo. Há ainda a ampliação do polo de gusa de Marabá e o anúncio da aciaria da Vale para a produção de liga de ferro. Os municípios próximos a Marabá sofrerão grandes impactos com essa nova frente. Tem os casos ainda de Ourilândia do Norte, Tucumã, Água Azul do Norte, São Feliz do Xingu através da mineração da Onça Puma do grupo Vale e vários outros projetos, como em Floresta do Araguaia. Há outras mineradoras internacionais em Xinguara e Rio Maria. A investida do capital a partir da mineração acarreta uma série de situações de conflitos contra os posseiros, os assentados, contra os trabalhadores que residem nessa área de interesse das mineradoras. Há inúmeros projetos de assentamento em áreas de interesse do setor da mineração. Tais projetos de mineração tendem a atrair uma forte migração para a região. Em municípios como Marabá, Parauapebas, Ourilândia e vários outros há uma projeção de crescimento populacional, salve em engano, calculada numa margem acima de 8% ao ano. Não há emprego para toda essa população que migra, que acaba por engrossar as populações marginais nas periferias. Marabá registra hoje inúmeras ocupações urbanas. A situação é marcada pela precariedade, sem apoio das prefeituras locais. A situação é de pobreza. As questões ambientais dos grandes projetos de minerais são graves e não são fiscalizadas, como a poluição dos rios e do ar. A atividade da mineração anima a tensão tanto no campo como na cidade. FC – Como é o caso da Mineração Onça Puma (MOP) no município de Ourilândia do Norte? BA – O caso é uma expressão do poder que possui a Vale e outras empresas de mineração que se implantam aqui na região. As empresas são indiferentes às comunidades que residem aqui. O poder econômico se impõe sobre qualquer outro direito da população local. A MOP decide implantar um gigantesco projeto de mineração onde vivem oitocentas famílias assentadas somente no raio de abrangência do projeto. A lei é clara, a empresa tem a licença de pesquisa e o alvará de exploração do minério. Mas, para a mina funcionar necessita resolver o problema das pessoas que vivem na área, posseiros, proprietários etc. A empresa não pode passar por cima das pessoas, abrir o buraco que quiser e expulsar as pessoas. Pelo código de mineração o projeto só pode ser implantado depois a resolução do problema dos que moram na área. A MOP saiu comprando lotes da

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reforma agrária ignorando que não podia fazer negócio com os assentados e destruir o patrimônio público ali encontrado. FC – Em que pé se encontra a questão hoje? BA – Sobre os abusos da empresa a gente ingressou no Ministério Público Federal (MPF). O MPF decidiu protocolar ação civil pública na justiça federal de Marabá para requerer que a MOP cessasse os abusos e pagasse aquilo que fosse de direito dos trabalhadores que tiveram de sair da área. Só que, antes do MPF a Procuradoria do INCRA de Brasília interpôs a ação. Não avaliamos de forma positiva a ação da Procuradoria. O correto seria a Procuradoria do INCRA ter procurado o MPF para combinar uma ação única. Assim teremos uma ação com mais peso. O MPF tem dois caminhos, ingressar na ação com novas denúncias e documentos ou não ingressar e ficar como fiscal da lei. A nossa expectativa é que o MPF ingresse como membro da ação. Isso trará mais legitimidade e melhores condições na defesa dos interesses dos trabalhadores. A gente necessita entrar com outras ações. FC – O movimento já possui uma avaliação sobre os reais interesses do grupo do senhor Daniel Dantas na região? BA – A gente ainda não tem uma clareza. Mas, há indícios fortes de lavagem de dinheiro, como já noticiou a imprensa. Mas, isso necessita ser investigado pela justiça. Outra questão são os interesses do agronegócio a partir das monoculturas, como a soja e a cana, o dito agronegócio mais moderno. A gente acredita que esse setor deseje controlar áreas já devastadas pela pecuária. A soja e a cana hoje gozam de bastante incentivo do governo por conta dos biocombustíves. Há ainda a valorização das commodities no mercado internacional. O sul e o sudeste possuem grande interesse dessa frente. Aqui não há mais floresta. Tudo foi transformado em capim. Os nossos vizinhos Maranhão e Tocantins estão repletos de soja e eucalipto. A monocultura de eucalipto já ocupa boa parte das terras do oeste do Maranhão, nos municípios de São Pedro da Água Branca, Açailândia e Imperatriz. O cultivo já ultrapassou a fronteira. Hoje as regiões sul e sudeste do Pará já possuem uma imensa área plantada. Assim como o gado cruzou a fronteira tempos atrás, as monoculturas estão fazendo isso hoje.

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FC – O movimento já conhece a quantidade de áreas controladas pelo grupo Santa Bárbara? BA – O que a gente conhece é o que a imprensa divulgou, em torno de 500 mil hectares de terras. Considerando o curto espaço de tempo para a aquisição das áreas, a gente sugere que há algo de errado. Há muito dinheiro envolvido. Fazendo um paralelo com o caso da fazenda Cabaceiras, a família Mutran pediu de 30 a 40 milhões para a desapropriação. As áreas comercializadas pelos Mutran não são inferiores a esses valores. Tem ainda o gado. Devem ter comprado porteira fechada. Isso tudo consolida a suspeita de lavagem de dinheiro. FC – E sobre a questão da legalidade da comercialização da terra, não era apenas uma concessão do Estado para o extrativismo da castanha? BA – Isso o Governo Federal e o estado do Pará devem investigar melhor. Não somente as áreas do grupo Santa Bárbara, mas também de outros casos, como do Grupo Rio Vermelho e Mutran. A nossa questão fundiária é bem delicada. As terras eram do Estado e depois foram aforadas e de uma hora outra para outra se tornaram título definitivos. Isso precisa ser investigado. Há uma margem de terras públicas incorporadas por esses grupos junto à faixa considerada legal. Uma triagem do Governo Federal e do estado vai encontrar várias irregularidades. FC – Isso é o caso da fazenda Peruano dos Mutran ocupada pelo MST? BA – Quando a Peruano foi ocupada a imprensa alardeou que a fazenda era exemplo de produtividade. Isso foi um estardalhaço geral. A imprensa defendia a propriedade como modelo, a mais produtiva do sudeste do Pará. Ao final da investigação realizada, conclui-se que mais da metade era irregular e foi devastada completamente para a implantação da pecuária e a reserva florestal acabada. A parte que é considerada legal não há reserva de floresta legal. A fazenda tinha anda registro de trabalho escravo em 2003. O conceito da propriedade produtiva é meramente ideológico. É uma forma de encobrir um festival de irregularidades. As áreas submetidas aos critérios previstos na Constituição Federal não resistem à primeira investigação para se concluir que de produtivo não tem nada.

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FC – Qual a avaliação do movimento com relação à fazenda Maria Bonita? Será desapropriada? BA – A expectativa é que o Instituto de Terras do Pará (ITERPA) e o INCRA realizem a triagem sobre a área. Não resta dúvida que a triagem vai encontrar ali terra pública incorporada ilegalmente. Aquela área ali está numa localização estratégica, situada na beira da PA-150. É uma área propícia para a reforma agrária. FC – E quanto aos atos da Justiça com relação às ações dos movimentos que defendem a reforma agrária na região? BA – No caso da justiça estadual ela sempre manteve (juízes e promotores), relação estreita com o latifúndio local. Sem falar nas policias militar e civil. Aqui sempre foi comum a expedição de liminares de reintegração de posse, como se diz aqui na região, nas coxas. Não havia cuidado de averiguar se há posse de boa fé ou não ou crimes de grilagens. A partir da pressão dos movimentos sociais as varas agrárias foram efetivadas e o Tribunal de Justiça criou uma comissão de combate à grilagem de terras. A maioria das varas agrárias têm o cuidado de averiguar a legitimidade dos títulos de terras. Mas, infelizmente não temos juízes atuando sempre na vara agrária, pois há casos de licenças e férias. Aí ocorre o caso dos cargos serem ocupados por juízes comuns, que não conhecem a questão. Quando isso ocorre muitos juízes repetem a mesma linha de atuação que existia antes das varas agrárias. FC – Foi o que ocorreu no caso da fazenda Maria Bonita? BA – Isso. A orientação aqui na região é que antes da decisão da reintegração de posse deve haver uma audiência prévia e o debate entre o INCRA e o ITERPA. Só que a juíza expediu a liminar sem cumprir essa etapa, ferindo diretrizes da vara agrária e acordos do Tribunal de Justiça e a Ouvidoria Agrária audiência a um mês atrás. Outro aspecto é a atuação da Justiça Federal. Aí entram os interesses dos grandes grupos de mineração, em particular a Vale. Quando se intensifica a luta dos movimentos sociais por conta da expansão da mineração, isso tem se transformado em processo e a decisão tem sido dura contra os movimentos sociais. FC – E quanto à sua condenação de dois anos e meio de detenção? BA – A minha condenação é um caso claro. A pena estabelecida de um a três anos o código diz que só pode se aproximar do máximo

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quando o acusado possuir péssimos antecedentes, responder a outros processos, possuir antecedentes que o desabonem na sociedade. Não é o meu caso. Não respondo a outro processo, tenho ocupação definida, residência fixa etc. Mesmo assim o juiz Carlos Haddad arbitrou ao máximo a pena. Além disso, em condenações estipuladas até quatro anos, cabe a pena alternativa, benefício que foi negado. Em tese a avaliação é que a intenção da justiça é impor um retrocesso ao movimento social da região. FC – E a condenação dos militantes do MST e dos garimpos, segue a mesma linha? BA – Ocorreu a condenação de três militantes do MST e dos garimpeiros pela obstrução da ferrovia de Carajás. Cada um foi condenado a pagar multa de cinco milhões de reais. No nosso ponto de vista é uma questão absurda ética e moralmente, sem falar no aspecto jurídico. As multas estabelecidas eram multas individuais para todos os ocupantes que desobedeceram à ordem da justiça. Os advogados da Vale calcularam que cerca de 700 pessoas ocuparam a ferrovia. Baseado nos valores calculados pelos advogados da Vale o juiz decidiu imputar a multa somente aos três dirigentes. A avaliação que a gente faz é que o sentido desse tipo de ato é criminalizar os movimentos sociais. FC – Quantas são as ocupações que aguardam a desapropriação de terras para reforma agrária na região? BA – Hoje no sul e no sudeste a gente estima em cem ocupações com uma população aproximada de 12 mil famílias. FC – Para finalizar, qual a perspectiva para região ante o cenário de expansão da produção mineral e do agronegócio? BA – A avaliação é que as tensões irão continuar. Mas, com uma ligeira mudança. A expansão dessas frentes muda a relação com o camponês. O latifúndio antes resolvia os seus interesses com o 38. As frentes de mineração e do agronegócio não agem assim. Eles não sujam a mão desse jeito. Eles agem no sentido de criminalizar e difamar as ações do movimento social. Além da impunidade. O processo ocorre através da mobilização de vários advogados das grandes corporações que movem várias ações contra os dirigentes. A justiça que nós temos ainda mantém uma visão preconceituosa contra os movimentos sociais e considera que o poder econômico deve prevalecer. Hoje temos uma dezena de dirigentes sendo

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processados. Precisamos acompanhar isso com muito cuidado sob a pena desses dirigentes serem condenados e terem suas vidas inviabilizadas. Outro lado é a campanha realizada pelas grandes corporações nas empresas de comunicação através de reportagens parciais, enquanto os crimes por eles cometidos são omitidos. FC – Qual a saída? BA – Somar forças. A união entre indígenas, lavradores, quilombolas e trabalhadores em geral. 3 - Extrativismo Mineral em Juruti: passivos sociais e ambientais e a peleja dos nativos contra o Grande Projeto22 Juruti, município cravado a oeste do Pará, com mais de cem anos de existência, dono de densa floresta repleta de castanheiras, escapou do anonimato por conta de situação de conflito que envolve a mineradora estadunidense Alcoa, uma das maiores do mundo no setor de alumínio, num extremo; e populações consideradas tradicionais no outro. Desde a década de 1980 a região experimenta o ciclo do extrativismo mineral. A Mineração Rio do Norte (MRN), empresa do grupo Vale, explora bauxita no município de Oriximiná. Ela protagonizou um dos maiores acidentes ambientais da Amazônia, ao depositar por mais de 10 anos, rejeitos do processo de mineração no lago do Batata. A situação de disputa pelo território e os recursos nele existentes impregnam a aquarela de tensão na Amazônia. Nuances que dialogam com processos gerados em grandes centros de desenvolvimento que demandam matérias primas, como no caso da China, bem como os processos de integração regional como a Iniciativa de Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA) e o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), da alçada do Governo Federal.

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Trabalho publicado originalmente do blog Furo e na página da rede www.forumcarajas.org.br em fevereiro de 2009.

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No horizonte, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) emerge como ponta de lança. No caso do projeto de extração da bauxita, uma mina de cerca de 700 milhões de toneladas de minério de excelente qualidade, o banco entra com 500 milhões de reais do total de um bilhão a ser aplicado. Em fevereiro de 2009 o Instituto de Terras do Pará (ITERPA) mediou um debate sobre mais de um milhão de hectares de terras públicas na região. Um dos sujeitos econômicos e sociais que agitam a disputa pela terra e as riquezas lá existentes é a Vale, que protocolou junto ao Departamento Nacional de Produção e Mineração (DNPM), 21 pedidos de direito de prospecção e lavra. A peleja envolve ainda comunidades indígenas e tradicionais, grileiros de terras e madeireiros. Ajudam a agitar a pororoca de tensões uma agenda de construção de cerca de 10 hidrelétricas e hidrovias. Isso sem falar na monocultura da soja e um porto de escoamento do grão da também estadunidense Cargil. No caso da Alcoa em Juruti, as 60 comunidades, cerca de nove mil pessoas, decidiram pela ocupação de pontos estratégicos no dia 28 de janeiro de 2009, quando ocorria em Belém, o Fórum Social Mundial. A medida, explica um dos coordenadores do movimento, foi uma forma de chamar a atenção do mundo e da sociedade sobre as irregularidades cometidas pela Alcoa no território dos camponeses. É domingo, 15 de fevereiro de 2009. Chove em Belém. No bairro do Jurunas, celeiro de manifestações carnavalescas, a vizinhança se agita. Estamos na parte do bairro próxima à Cidade Velha, onde as trupes de momo costumam se concentrar. Na casa de religiosas encontramos o dirigente Gerdeonor Pereira, pai de quatro filhos, camponês do Projeto de Assentamento Extrativista Juruti Velho, que vai contar um pouco do que ocorre no coração da Amazônia desde 2000. Furo – O que motivou a manifestação de ribeirinhos afetados pelas obras da mineradora Alcoa? Gerdeonor Pereira (GP) – A primeira motivação foi aproveitar a oportunidade de chamar a atenção do mundo para os problemas sociais e ambientais que estamos sofrendo por conta da mineração da Alcoa. Era a época do Fórum Social Mundial (FSM). O mundo estava de olho em nós. A gente queria aproveitar isso e chamar a

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atenção da sociedade brasileira. O segundo momento foi pressionar a empresa a assinar um termo de compromisso que tentamos negociar desde 2005. A empresa não levou a sério. Ela saiu da mesa de negociação após conseguir a licença prévia (LP). Furo – Nesse intervalo de tempo, o que os camponeses fizeram? GP – Nesse meio tempo continuamos a nossa jornada de luta em Santarém, em Belém e em Brasília com a empresa, Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e o Ministério Público (MP). Furo – Qual era a inquietação? GP – O reconhecimento da comunidade como população tradicional. Temos mais de século de história. A empresa não reconhece a gente como população tradicional e nem a nossa Associação de Comunidades Ribeirinhas do Distrito de Juruti Velho (ACORJUV). A empresa queria que a titulação do INCRA fosse individual. Assim fica mais fácil de manipular. O nosso pleito é a titulação coletiva. Furo – Vocês moram no Projeto de Assentamento Extrativista (PAE) de Juruti Velho? GP – Isso. O nosso PAE foi criado em 2005. Somos mais de nove mil pessoas. Furo – Quais os principais danos que a Alcoa provoca na região? GP – No caso dos ambientais temos o desmatamento de 800 hectares de floresta. Em nosso PAE são 40 hectares. Centenas de castanheiras foram derrubadas e enterradas. Perdemos a conta dos igarapés que foram soterrados e as cabeceiras de rios contaminadas. A Secretaria de Meio Ambiente (SEMA) que deveria fiscalizar demora para ir até Juruti. A Alcoa no Estudo de Impacto Ambiental (EIA-RIMA) desconsidera que a gente existe. A gente não se encontra no EIA. São 3.500 famílias de 60 comunidades. Furo – Como foi a ação de mobilização? GP – Colocamos 1.500 pessoas no dia 28 de janeiro. Bloqueamos a área da ferrovia, porto e a rodovia e ficamos na porta da base da empresa. A polícia chegou e jogou gás de pimenta e bombas de gás lacrimogêneo na gente. Ficamos nove dias acampados. Furo – Quantas são as reivindicações e quais as principais? GP – Temos 15 pontos em nossa pauta. Consideramos os

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principais a indenização pelos danos e prejuízos já sofridos. Pagamento pela ocupação do terreno. A Alcoa vai ficar em nossa terra uns 70 anos. Ela vai ocupar 50 mil hectares. A floresta que existe vai ser derrubada. Queremos ainda 1,5 % de participação da lavra da bauxita e pagamento da retirada da água de nosso lago. A Alcoa vai usar cinco mil litros de água por hora do lago Juruti Velho. Desejamos ainda uma agenda de compromisso que contemple as 60 comunidades que moram no distrito de Juruti Velho. Furo – Qual o tamanho do PAE Juruti Velho? GP – 109 mil hectares. Estamos numa frente de atuação chamada Juruti em Ação. Tem pessoas e organizações do município e gente de fora da região. Movimentos sociais, como a Via Campesina. Furo – E quanto às empresas que estão dentro do PAE? GP – Queremos que elas se retirem do assentamento. Hoje temos duas. A CNEC Engenharia, responsável pelos Planos de Controle Ambiental (PCA). São 35 PCA. Enquanto a gente trabalha para unir as prestadoras de serviço da Alcoa fazem o caminho oposto. No dia 02 de março o Walmir Ortega, que é o secretário de meio ambiente, vai debater com a gente os 35 PCA. Até agora a gente não conhece nenhum. Esperamos que o Ortega compareça. Na semana que foi de negociação (09 a 13 de fevereiro), o secretário mandou apenas técnicos. Furo – O que há de compromisso firmado? GP – Os danos e prejuízos a Alcoa se comprometeu em pagar. Temos um documento assinado pelo representante da empresa na América Latina, Franklin Feder e os outros diretores. A Alcoa também assinou o documento sobre a participação no lucro da lavra. Isso depende da titulação da terra, que deve sair até o dia 15 de abril, conforme negociação com o INCRA. Pelejamos pelo reconhecimento de nossas terras há 28 anos. Furo – Nessa semana de negociação quem estava à mesa com vocês? GP – A empresa, o INCRA, o Instituto de Terras do Pará (ITERPA), os Ministérios Públicos Federal e Estadual e o André Farias, secretário de estado. Furo – Qual era a pauta com os MP? GP – Queríamos saber das audiências realizadas nas comunidades e informação sobre a ação movida contra a Alcoa.

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Furo – E com o órgão fundiário do Estado? GP – Com o ITERPA a nossa agenda tem questões com duas glebas Curumucuri e Mumuru. Furo – Quais são as reinvidicações para o Governo do Estado? GP – Questões com o meio ambiente e investimentos na saúde, educação, moradia e eletricidade. Onde moramos não há energia elétrica. Temos energia somente de 18 da tarde às 23 horas. É na base do gerador que funciona com diesel. A prefeitura é que abastece. O secretário de estado André Farias assinou documento garantido que antes do ano acabar a gente tem energia elétrica. Furo – Já existe algum projeto de energia? GP – Temos um projeto firmado no valor de seis milhões entre INCRA, prefeitura e a nossa associação para a construção de uma micro-central de energia. Isso foi documentado e filmado. A imprensa aqui não tava falando nada. Começou somente depois que furamos o bloqueio da região. Furo – Qual é a agenda com a Secretaria de Meio Ambiente? GP – Primeiro que o secretário não foi falar com a gente. Ele mandou uma equipe técnica. Nós não aceitamos. Há coisas em nossa agenda que o técnico não pode decidir. Somente o secretário. Precisamos rever os PCA. Necessitamos de um marco legal sobre a retirada da água do nosso lago. Furo – Como vocês avaliam o processo de luta? GP – Avançamos com algumas coisas. Como a titulação da terra. O INCRA tem até o dia 15 de abril para resolver o assunto. Com a Alcoa avançamos com relação ao pagamento dos danos e prejuízos causados. Mas, com a empresa a gente fica com o pé atrás. Na empresa é delicado confiar. Furo – A empresa não costuma cumprir o que assina? GP – Nos Projetos de Assentamento (PA) Socó I e Socó II a Alcoa assinou acordos e não cumpriu. É nesses PA que passa a ferrovia. A empresa prometeu a construção de desvios e passarelas e não fez nada. Não fez escola e nem as estradas. A Alcoa fez uma agenda de compromisso com a comunidade dos PA e não cumpriu. Furo – Como você avalia a empresa nesse processo? GP – Na verdade ela não queria pagar nada. A alegação dos

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advogados da empresa é que a mineração é um processo devastador e que não tem que indenizar os moradores. Estamos exigindo o que o código de mineração nos garante. Mesmo que ela pague os nossos prejuízos, esse dinheiro não vai cobrir a destruição de 50 mil hectares de floresta nativa. Furo – O que falta para a empresa iniciar a lavra? GP – A licença de operação. O processo para a lavra exige três etapas. A licença prévia, licença de instalação e a de operação. A licença de operação está condicionada ao pagamento das indenizações. Furo – Como é a fiscalização? GP – Temos um problema sério. Os técnicos da SEMA quando vão para o campo ficam nas estruturas da Alcoa. Como vou fiscalizar um projeto e fico dentro da estrutura da empresa? Não conhecemos os PCA. Eles ficaram de entregar os documentos até o dia 22 de fevereiro. E ficamos de discutir tudo no dia 02 de março com o secretário Ortega. Furo – Como é ler o EIA-RIMA? GP – É complicado. É muito grande e tem muita informação técnica. Mas, a gente entendeu quando eles disseram que a gente não existe e nem a floresta. E que não vai haver alteração em nossos rios e igarapés. As águas dos igarapés Fifi, Maranhão e Juruti já estão sendo afetadas. Essas informações eles omitem. A empresa pisou na lei brasileira. A gente compreende que seria necessário o EIA-RIMA para o porto, outro para a rodovia e outro para a ferrovia. Furo – Quem vai avaliar os danos e prejuízos da Alcoa? GP – Uma empresa que o INCRA vai indicar. Furo – Além da Alcoa, tem mais gente pressionando sobre os recursos naturais? GP – Os madeireiros. Ano passado denunciamos a retirada ilegal de seis balsas de madeira. Furo – E no boletim de ocorrência feito pela Alcoa contra a ação de vocês, quais foram as acusações? GP – A empresa denunciou que a gente tava fazendo formação de quadrilha e invasão da propriedade privada. Os advogados da Alcoa indicaram o meu nome, o nome da irmã Brunildes e da nossa advogada Regiane e do companheiro Antonio Marcos. A gente entende que quem invadiu foi a Alcoa. Isso deixa a gente mais

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indignado. Sou agricultor familiar, pai de quatro filhos e nunca tive uma passagem na polícia. Depois eles retiraram a queixa. Fez parte da negociação. Furo – E a imprensa local, como funciona? GP – E difícil de falar dos danos provocados pela empresa. 4 - Maranhão - as vísceras do Sertão23 O Maranhão é o principal estado exportador de mão-de-obra escrava. No sul do estado, grandes corporações como Bunge e Cargil hegemonizam o cultivo da monocultura da soja. A mesma região registra vários casos de trabalho escravo e imensas fazendas controladas por produtores oriundos do Sul do país em parceria com a família Sarney. Açailândia e Balsas estão entre os municípios que mais desmatam no estado, informam os dados do Instituto Brasileiro dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). Respectivamente os municípios estão no oeste e sul do estado, região de pré-Amazônia, onde incide o bioma cerrado. O primeiro município abriga um polo de produção de ferrogusa; já o segundo um polo de produção de soja. Ambos os empreendimentos gozaram de generosos incentivos fiscais do governo para a instalação. No mundo erguido pelos projetos, intensivos no uso dos recursos naturais, o rastro de passivos serpenteia na paisagem marcada pelo bioma cerrado, onde se localizam várias nascentes de rios, germinam um universo marcado pela degradação ambiental, trabalho escravo e prostituição de crianças. Antonio Gomes de Moraes, conhecido como “Criolo”, é militante da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Balsas, sul do Maranhão e integra a frente de defesa do bioma cerrado na região. Ele pinça um pouco do vasto mundo do sertão do Maranhão, o estado que exporta mais de 40% de toda mão-de-obra escrava liberta em todo o país.

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Trabalho publicado originalmente em dezembro de 2008 no site da rede www.forumcarajas.org.br

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Furo – Qual a área de atuação da diocese? Antonio Gomes (AG) – Temos aqui na diocese de Balsas 18 municípios (Balsas, Mirador, Alto Parnaíba, Riachão, Feira Nova, Fortaleza dos Nogueiras, São Raimundo das Mangabeiras, Loreto, Benedito Leite, São Domingos do Azeitão, Nova Iorque, Sucupira do Norte, Fortaleza dos Nogueiras, São Félix de Balsas, Nova Colina, Tasso Fragoso, Sambaíba e Pastos Bons). Mas, o total abrange cerca de 28 cidades, limitando com os estados do Tocantins e Piauí, para onde se alastra a fronteira agrícola da soja. Furo – Como se configura o cenário aqui na região sul do Maranhão? AG – Os grandes projetos aqui na região, baseados na monocultura da soja, cana, e as carvoarias configuram como os grandes desestabilizadores do mundo rural da região. A história começou aqui no fim de 1970, com a presença dos sulistas para o cultivo da soja. Depois vieram os paulistas e por último a turma do Mato Grosso. Isso se deu graças aos incentivos do governo. Furo – Quais as empresas que estão aqui na região de Balsas? AG – As maiores aqui são a Bunge e a Cargil. Furo – Onde se concentra a monocultura de soja? AG – Balsas, Tasso Fragoso e Alto Parnaíba são os municípios com maior incidência. Para se ter uma ideia somente a fazenda Agroserra, na fronteira dos municípios de São Raimundo das Mangabeiras outra parte em Fortaleza dos Nogueiras, controla 230 mil hectares. A propriedade é da família Ticianeli, de origem paranaense. São três irmãos. Soubemos que a família Sarney possui ações no grupo. Creio em que em 2005 cerca de 1.700 trabalhadores foram flagrados em condições degradantes de trabalho na produção da cana. Furo – Além da Agroserra, que outras fazendas possuem esse gigantismo? AG – Carolina do Norte, Parnaíba, Nova Holanda, de propriedade da família Sarney. No momento são as que lembro, mas tem mais. Furo – Como fica o rio Balsas e a vegetação local? AG – Outro dia fizemos umas imagens áreas. O rio Balsas se encontra totalmente degradado e a sua mata ciliar em destroços. O

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desmatamento aqui é o mais perverso possível. A prática é do correntão, que consiste em amarrar uma grande corrente em dois tratores para a derrubada da mata nativa, no caso aqui, o cerrado. Furo – E como fica a madeira? AG – A madeira é utilizada para a produção de carvão vegetal que alimenta as empresas de gusa. Furo – A produção de carvão é indicada como fonte de trabalho escravo, aqui também é assim? AG – Aqui temos trabalho escravo nas fazendas de grão e cana e nas carvoarias. Em 2004 foram libertados 28 trabalhadores em São Raimundo das Mangabeiras na produção de carvão vegetal, em 2005 foram libertados mais 20 em Tasso Fragoso, em fazenda de soja. Em outubro foram soltos no município de Balsas em fazenda de soja mulheres e crianças. Furo – Na questão além da destruição da mata ciliar e do cerrado, que outro passivo a monocultura da soja provoca? AG – Temos a poluição. A monocultura de soja é tratada através de aviões. E na questão social registram-se a expropriação camponesa. O Maranhão é hoje o principal exportador de mão-de-obra escrava. Muito se deve às monoculturas que expulsam as famílias camponesas. Para se ter uma ideia da tragédia do trabalho no estado, o Maranhão responde com 40% de toda mão de obra escrava libertada em todo o país. Isso se configura como um desastre social. Furo – Qual o balanço que o senhor faz da soja na região? AG – Venderam que Balsas ia ser o melhor lugar do mundo. Balsas é um bom lugar para poucas pessoas, somente para os que possuem dinheiro. Para a gente fica o deserto, a terra e a água poluída pelo veneno lançado pelos aviões. Furo - Já ocorreu algum caso de óbito de animais ou pessoas por contaminação? AG – Tivemos o caso do lugar do Vão da Salina, aqui em Balsas, o registro de óbito de animais. Em Loreto também tivemos registros de dois óbitos de crianças. O caso ocorreu na comunidade conhecida como Brejão, um projeto chamado Serra Vermelha, do ex-ministro da agricultura, Roberto Rodrigues. Em uma semana todas as famílias da comunidade tiveram o mesmo problema de saúde: vômito e diarreia. No fim da semana as duas crianças vieram a óbito no mesmo dia.

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Furo – O que dizia o laudo médico? AG – Os médicos se recusaram a informar a causa mortis. Sabese ainda da morte de animais no mesmo perímetro. Furo – O senhor faz ideia da quantidade de veneno usado? AG – Em um hectare de soja são colocados 509 quilos de produtos químicos durante todo o cultivo. Furo – Como tem sido a ação dos movimentos sociais da região com relação a esses passivos sociais e ambientais? AG – Nos anos de 1980 era mais atuante. Já nos anos de 1990, quando Fernando Henrique assume o governo, a gente avalia que engessou o movimento. Hoje os sindicatos estão bitolados em encaminhar aposentadorias rurais. É a burocratização do movimento e a perda do espírito de luta. Furo – Como é a ação da CPT na região? AG – A nossa equipe é muito pequena para a dimensão física e dos problemas da região. A gente se empenha em tentar formar a militância. Furo – Tem havido ocupações na região? AG – Nos anos de 2000 tem-se registro de algumas ocupações que esperam pela efetivação de projetos de assentamentos rurais. Isso de 2002 para cá. São os casos da fazenda Taboão, no município de São Raimundo das Mangabeiras, fazenda Sucupira e na fazenda Ponteira, ambas no município de Riachão. São mais de 200 famílias que estão na terra. Ainda pressionamos o INCRA para a efetivação dos projetos de assentamento. Furo – Falando em INCRA, como funciona aqui na região? AG – Em assembleia dos movimentos sociais aqui foi pedido o afastamento de quatro funcionários que estavam em conluio com fazendeiros. Aqui a instituição é muito lenta. Furo – Queria voltar ao assunto sobre trabalho escravo. E quanto aos acordos coletivos em que os sindicatos de trabalhadores rurais (STR) integram o grupo que trata do assunto, como se desenvolve? AG – Primeiro que esses acordos coletivos de trabalho em sua maioria tem sido mero faz-de-conta para mascarar o trabalho escravo. Às vezes os STR funcionam mais como um desagregador dos

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trabalhadores. Voltemos ao caso da Agroserra. Em dois casos houve manifestações dos trabalhadores contra a empresa. A fazenda produz soja e cana. Furo – Quando a monocultura da cana chegou? AG – A Agroserra que trouxe, têm 21 mil hectares cultivados, onde 16 mil são irrigados. É a morte do rio Neri. A empresa do outro lado detona as cabeceiras do rio Itapecuru. O lugar fica ali na Reserva Estadual do Mirador, uma ilha cercada de soja e agora cana por todos os lados. Mais de 500 famílias estão sendo retiradas da reserva. Quando da criação do parque na década de 1980, o governo se manifestou pela garantia do reassentamento das famílias, que nunca ocorreu.

5 - Baixo Amazonas, grandes projetos e as comunidades tradicionais24

Irene Pinheiro, dirigente popular do Baixo Amazonas, Foto: Rogério Almeida

Publicado originalmente no site da Rede Fórum Carajás em maio de 2009

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Há algum rincão na Amazônia em que não haja situação de tensão pelo controle do território e dos recursos lá existentes? A oeste do Pará, região banhada pelo principal rio da Amazônia, o Amazonas, incidem situações entre comunidades tradicionais e as grandes corporações de mineração, de monocultivos e projetos de geração de energia. Lá a empresa Mineração Rio do Norte (MRN), com controle acionário do grupo Vale em associação com a BHP Billiton, Alcan, CBA, Alcoa Alumínio, Alcoa Word Alumínio, Nork Hidro do Brasil e a Abalco extrai a matéria prima para a produção de alumínio, a bauxita, faz mais de três décadas. A atividade protagonizou o desastre ambiental do Lago do Batata, com o depósito dos rejeitos do processo da extração mineral por uma década (1979 a 1989). O desastre do Lago do Batata é considerado um dos mais graves acidentes ambientais da Amazônia. Na mesma região a Cargil é responsável pelo monocultivo da soja e a Alcoa ergue uma planta industrial para a extração de bauxita no município de Juruti. A extração é responsável pela derrubada de cerca de 300 hectares de floresta por ano. O empreendimento conta com o financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Em oposição a processos de implantação de grandes projetos na região os segmentos contrários realizam seminários, fóruns e distribuem, por meio da internet manifestos, relatórios e denúncias sobre as expropriações que sofrem as comunidades consideradas tradicionais. Irene Pinheiro integra o movimento quilombola de Oriximiná. Soma 48 anos. É mãe de três filhos a caçula com 15 anos, a segunda com 21 e o terceiro com 23, separada, graduada em ciências sociais, fala ao Fórum Carajás sobre as dinâmicas econômicas, sociais e políticas da região. Irene anima o movimento de mulheres da região do Baixo Amazonas. É uma quilombola da comunidade Irepecuru Cuminá. A militante esteve em Belém, entre os dias 13 a 15 de maio para participar do encontro da coordenação do Fórum da Amazônia Oriental (FAOR), que reuniu organizações sociais do Maranhão, Pará, Tocantins e Amapá, na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Foi lá que conversamos sobre a comunidade de Irene, as folias, as pelejas e as lutas sociais travadas na região.

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Fórum Carajás (FC) – A qual comunidade você pertence? Irene Pinheiro (IP)- Erepecuru Cuminá. São mais de 300 famílias. Em nossa cena cultural mantemos a folia chamada de aiué. Foi a família do meu pai que ajudou a multiplicar. Lembra a festa de São Benedito. Realizamos sempre em janeiro. É uma dança. FC- Há outras manifestações? IP- Temos ainda o lundu, a mazurca e a desfeiteira… FC -O que é a desfeiteira? IP- Funciona como se fosse um desafio. Tem os casais. Um diz um verso para o outro e o rival tem de responder. Isso com música e dança rolando. FC- Como é a produção nas comunidades? IP- Tem ainda muita castanha do Brasil. É a base. Temos a cooperativa que ajuda na organização. Mas, não conseguimos inserir a mesma e seus derivados na merenda escolar. A agricultura familiar com a produção de macaxeira e lavoura branca serve como forma de subsistência. Algumas famílias produzem peixes e quelônios. FC- Como anda a agenda da luta da mulher na região? IP– Temos em nossa agenda a criação de conselhos da condição feminina e das delegacias das mulheres. Há problemas culturais com o machismo. Isso se reflete nas estruturas de poder nos diferentes níveis da administração pública e na justiça. FC- Já existem delegacias especiais na região? IP-Existe em Oriximiná, resultado de um seminário sobre políticas públicas. Há uma delegada, mas ela não tem atuado como delegada da mulher. Isso limita a nossa ação. A rotina acaba empurrando a ação da delegada para outros rumos. FC- E com relação às questões ambientais, quais as principais demandas? IP – Temos demandas com a empresa chamada Rio Tinto (angloaustraliana) no município de Monte Alegre, Óbidos e Alenquer. Vai explorar bauxita do lado direito do rio Amazonas, no rio Curuá. A Alcoa (estadunidense) encontra-se no município de Juriti na exploração de bauxita e a Mineração Rio do Norte (MRN), explora o mesmo minério em Oriximiná tem mais de trinta anos. Estes são alguns dos grandes projetos na região, sem falar na soja da empresa Cargil em Santarém, cidade pólo. Tem-se ainda vários projetos de hidrelétricas para o rio Tapajós.

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FC- Quais os impactos sociais e ambientais que você nota por conta desses grandes projetos? IP- Temos o assoreamento dos rios, a redução do pescado e a derrubada de floresta. Isso ocorre conforme as empresas avançam sobre os platôs, em particular na derrubada das castanheiras. Tem o histórico acidente do Lago do Batata, onde os rejeitos da extração foram depositados por 10 anos. FC- Como anda o lago hoje? IP- Recuperou um pouco. Mais não é como era antes. Nunca mais vai ser. FC- A Vale faz associação com as comunidades? IP- Faz umas coisas pontuais na cidade. A empresa tem uma tal de agenda 21 lá. O que a empresa faz muito na cidade é doar um computador aqui outro ali, um carro para a secretaria da prefeitura. Há casos na zona rural da empresa implanta uma criação de alevinos…é isso…É tudo pouco. Muito pouco. FC- Há uma agenda hoje do movimento quilombola da região do Baixo Amazonas? IP- Hoje não temos uma agenda bem definida como era antes, como a briga pela titulação das nossas terras ancestrais. Ainda temos essa agenda pela titulação, legalização das associações quilombolas e por política de geração de renda. FC- E a agenda quilombola com o governo do Pará? IP- As comunidades quilombolas através da EMATER buscam uma política de assistência técnica especifica. Estamos construindo isso. Temos ações pontuais. As mulheres possuem mais ações. As mulheres quilombolas predominam na cena do movimento de mulheres. FC- Você pode explicar melhor? IP- Os grupos parecem mais organizados. Temos ações em todos os municípios da região. Hoje estão desenvolvendo no setor de produção atividades com defumados (galinha, porco e peixe) e com derivados da castanha. É uma forma de conservar alimentos e agregar valor. Não temos energia. Tem um experimento de defumados na comunidade de Santa Rita. O trabalhão é feito através da Associação das Associações das Comunidades Quilombolas, paróquias, sindicatos, pastorais sociais, etc. FC- Existe uma representação que congregue esse povo todo? IP- É a Associação das Organizações das Mulheres Trabalhadoras do Baixo Amazonas, ela atua em 13 municípios da região, através de 32

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organizações associadas. Temos uma assembléia anual e é nesse espaço que avaliamos as nossas ações e realizamos o nosso planejamento. A associação integra o colegiado do Território da Cidadania. Através da política estamos buscando ações afirmativas na geração de renda. Em nossa agenda há a realização da primeira feira da produção feminina do oeste do Pará. O indicativo é que ela se realize em setembro no município de Santarém. Já realizamos três reuniões e estamos consolidando as parcerias. FC- Quais as linhas de atuação do movimento de mulheres? IP- Temos a preocupação de emprego e renda, questão de gênero, violência contra a mulher e o empoderamento da mulher em todo o Baixo Amazonas. O nosso movimento do município de Oriximiná a ênfase é a família quilombola.

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