Você está na página 1de 212

POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá

| 1

POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá

Rogério Almeida

Belém-PA 2012

Miolo pororoca.pmd

1

24/7/2012, 14:55

2 |

POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá

Miolo pororoca.pmd

2

24/7/2012, 14:55

POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá

| 3

Livre pensar
A vida é um pé de manga Um dia tu manga (s) de mim Noutro dia eu mango de tu E a vida Manga de nós Todos os dias
Dito popular ouvido em PE

Miolo pororoca.pmd

3

24/7/2012, 14:55

4 |

POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá

Miolo pororoca.pmd

4

24/7/2012, 14:55

aos alunos de publicidade da Unama Cleverson Velasco e Carolina Ongaratto pela criação da capa e ao professor Marcus Dickson pela supervisão e ao Dr. Jean Hébette. Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (CEPASP). ONG de Marabá. Emanuel Wamberg (Manu). Araguaia-Tocantins: Fios de uma História camponesa. programador visual e grande pessoa humana). pela cessão das fotos. Miolo pororoca.pmd 5 24/7/2012. Irmão Antônio (Justiça nos Trilhos) e Thiago Cruz. Dedico a presente obra aos anos de inquietude da educadora Rosa Elizabeth Acevedo Marin (NAEA/UFPA). A Rosa Rocha pelo afeto e companheirismo Aos irmãos e irmãs da rede Fórum Carajás Aos amigos/as do Núcleo Piratininga de Comunicação. Demasiadamente humano. falecido no ano de 2007. à militância política de Raimundo Gomes da Cruz Neto (Raimundinho). Marluze Pastor e ao Padre Roberto de Valicourt. por prefacia-la.NPC-RJ Ao Centro de Educação.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 5 POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a (s) Amazônia (s) de cá In memoriam de Joacy Jamys (quadrinhista. Agradecimentos: serei eternamente grato à generosidade de Albano Gomes e Maria de Nazaré Barreto Trindade pela revisão da obra. Rosa Rocha. 14:55 . Um ano antes de partir diagramou a minha primeira publicação.

I. 212 f.Amazônia. Grandes Projetos . – Belém. Conflitos agrários Amazônia. Projeto de desenvolvimento. Agrobiodiversidade Amazônia. 4.com Todos Direitos Reservados a Rogério Almeida Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Almeida.09811 Miolo pororoca. Rosa Rocha.Amazônia. 5. 14:55 . 2.: 15x21. Rogério Almeida. Rogério Henrique POROROCA PEQUENA: marolinhas sobre a (s) Amazônia (s) de cá / Rogério Henrique Almeida. Cleverson Velasco e Carolina Ongaratto Revisão – Albano Gomes e Maria de Nazaré Barreto Trindade Fotos: arquivo do Cepasp.pmd 6 24/7/2012. Título. 2012. cm ISBN: 978-85-913900-0-7 Inclui bibliografias 1. CDD 21. 3. 336. Irmão Antônio (Justiça nos Trilhos) e Thiago Cruz Contato do autor – araguaia_tocantins@hotmail. ed.6 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá :: E X P E D I E N T E:: POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a (s) Amazônia (s) de cá Capa – Agência Unama – profº Marcus Dickson. Mineração – Amazônia.

.............................................................................................ARAGUAIA .............................BELÉM .......Bico do Papagaio: dias de sangue.........Amazônia......... 148 Miolo pororoca....................................BR-163......................Agrobiodiversidade na Amazônia: movimentos sociais apontam agroecologia como forma de desenvolvimento ............................................................................. Pará e o mundo das águas do baixo tocantins ................................. o jardim botânico da Amazônia: 120 anos de história ... 14:55 ........................... 22 3 .........Bosque Rodrigues Alves.A luta pela terra na Amazônia: camponeses/as.......Nova SUDAM? .................................................. 132 03ª Parte .Grandes Projetos na Amazônia: mineração em Juruti e a produção de energia ......Geração de energia na Amazônia: caso de Estreito em questão .. 64 1 ..........POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 7 SUMÁRIO Sobre o autor .........Carajás............................ 09 Prefácio ............. 28 4 .................... 122 8 ........................................O julgamento do caso João Canuto: tudo uma ilusão? ........ 11 A Gênese do Pororoca ................... a família Mutran............Araguaia .......................Siderurgia em crise: o vendaval da economia especulativa e a mineração na Amazônia ........... 141 2 .................. o novo cenário? ............ESTADO E OS GRANDES PROJETOS ...Carajás – interesses da Vale pressionam territórios de camponeses e indígenas ............ 17 2 ................... 106 6 .... 113 7 .... 77 4 ...pmd 7 24/7/2012..................TOCANTINS TERRITÓRIO EM DISPUTA ..... 24 anos atrás ....................A CIDADE .............. 50 02ª Parte ......................Coletivo Rádio Cipó: a inquietação cultural na quebrada da Amazônia ...................................................................................................... 35 5 ...Tocantins: fragmentos de 20 anos de luta pela terra .................... 72 3 .......... 114 1 ........... dias de UDR....... 100 5 . Daniel Dantas e outros sujeitos ........................................ 64 2 .......................... 13 01ª Parte ........ 17 1 ..................................dias piores virão? ...........

............ativista pastoral do oeste do MA .. 14:55 ........entrevista com Gerdeonor Pereira camponês do oeste do Pará ..............Maranhão: as vísceras do sertão .. 161 2 ................ 199 4 .... 192 3 ............Extrativismo mineral em Juruti: passivos sociais e ambientais e a peleja dos nativos contra o grande projeto .......... 210 Miolo pororoca............. 205 5 ................. 161 1 .......pmd 8 24/7/2012........quilombola .......Amazônia e as novas frentes de expansão mineral e do agronegócio no sul e sudeste do Pará entrevista com Batista Afonso...............CPT/Marabá .............A Amazônia sob a análise de Lúcio Flávio Pinto .........................8 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá 04ª Parte – ENTREVISTAS .....................entrevista com Antonio Gomes (criolo)....Baixo amazonas................ grandes projetos e as comunidades tradicionais – entrevista com Irene Pinheiro ........................

Foi articulista do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE). choro. com especialização e mestrado em planejamento pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA/UFPA).com Miolo pororoca. em particular no Pará. bumba meu boi e outros batuques. Ecodebate e colaborador da rede Fórum Carajás. maracatu. 14:55 .POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 9 Sobre o autor Rogério Almeida é graduado em Comunicação Social/UFMA. reportagens e entrevistas sobre as dinâmicas de grandes projetos na Amazônia.com/ Gosta de samba. Sempre que pode anima o blog http: //www. Email para contato: araguaia_tocantins@hotmail.rogerioalmeidafuro.blogspot.pmd 9 24/7/2012. Tem produzido artigos. com pesquisa laureada com Prêmio NAEA/2008.

14:55 .10 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá Miolo pororoca.pmd 10 24/7/2012.

a nós. A narração flui. 14:55 . vários de seus textos já foram apresentados em reuniões e encontros científicos. Democracia Viva do IBASE e do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. já por só imensos. que autores – notadamente geógrafos. como Rogério Almeida prefere desdobrála .o que lhe permite não esconder sua particular simpatia pela Amazônia dos rios Tocantins e Araguaia.pmd 11 24/7/2012. bem conhecido entre nós por sua militância junto aos movimentos sociais no campo pinta uma paisagem das contradições sociais e políticas que nos afetam. moradores da imensa Amazônia irrigada por uma igualmente imensa bacia hidrográfica. na quarta parte. Tão imensa e diversificada do ponto de vista físico. o jornalista Rogério Almeida. fugindo à linguagem acadêmica a qual o redator Miolo pororoca. como Ariovaldo de Oliveira – a desdobram. A coletânea reúne 20 trabalhos distribuídos em quatro partes: a primeira. principalmente.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 11 PREFÁCIO Em “POROROCA PEQUENA: Marolinha sobre a(s) Amazônia(s) de cá”. cultural. Esta paisagem sugere uma arte de pirotecnia com um fogo de artifício de flashes brilhantes e percutidores lançados em todos os horizontes da vida sofrida do campesinato amazônico. Apesar da “modéstia” que o autor atribui – modestamente – a seu livro. como se estes dois afluentes do Amazonas. na terceira parte. social. e mereceram publicações em revistas reconhecidas como Caros Amigos. o autor dá um pulo rápido para a cidade de Belém. traça a audaciosa saga dos pequenos produtores rurais por aí imigrados em confronto com o latifúndio especulativo e ilegal. cada vez maiores na dimensão dos seus impactos sociais. referida aos chamados Grandes Projetos. econômico. político e. a segunda. mais substancial. oferecessem uma espécie de síntese de todas elas. antes de concluir. com cinco entrevistas com testemunhas significativas de nossa história recente. Destes flashes se destaca uma quantidade de números preciosos coletados em fontes confiáveis.

pmd 12 24/7/2012. Muito útil.12 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá teve que se submeter na sua dissertação do mestrado apresentado ao Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA). referências mais explícitas à literatura citada en passant seriam bem-vindas. Na sua “modéstia”. assim como para estudantes universitários. Neste sentido. com análises mais detidas nas quais se treinou nos tempos de seu mestrado. dando sequência a seu livro anterior “AraguaiaTocantins. o livro ora publicado pode ser muito útil para leitores que. sem quererem se aprofundar no assunto. recheado de metáforas. Jean Hébette – Professor da UFPA Miolo pororoca. preferindo um estilo jornalístico mais florido. sobretudo. às vezes tangentes a certo preciosismo. também. 14:55 . fazem questão de se manter a par dos eventos mais significativos da região nos último cinco anos. Fios de uma história camponesa” (2006) e deste novo nos gratifique. Espera-se do jornalista Rogério Almeida que. para professores do ensino fundamental das diversas disciplinas.

POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 13 A Gênese do Pororoca A Amazônia é um vasto mundo. de construtores de hidrelétricas e de pecuária pressionam territórios de populações consideradas tradicionais e camponesas. Registre-se a criação do blogue FURO. em particular as do Araguaia Tocantins. Seja em ilhas ou terra firme. Maranhão e Tocantins dá corpo a este livro. de monoculturas de grãos. 14:55 . A identificação com as dinâmicas da região ajudaram a cimentar a presente iniciativa. Gentes de conhecimento milenar.pmd 13 24/7/2012. em aldeias. onde corporações de mineração. O ânimo tem âncora ainda no reconhecimento da produção através da publicação parcial ou na íntegra dos artigos. furos. ou em locais marcados pela realidade do estuário. rudes. o site Ecodebate. Mundo irrigado por rios e gentes. iniciado em setembro de 2008. além da Revista Sem Terra (impressa). a Revista Democracia Viva do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE/ RJ). assassinadas e catequizadas. Trata-se de região considerada de colonização recente. em projetos de assentamento rurais e ocupações e reservas extrativistas. Gentes que alguns meios de comunicação insistem em tratar como exuberantes ou exóticos. Tem-se ainda a Miolo pororoca. Em pequenas. Gentes que foram escravizadas. reportagens e entrevistas em espaços acadêmicos ou jornalísticos. Uma fração das realidades que compõe o Pará. E ainda em vilas. Uma ressignificação das visões preconceituosas do colonizador. mas que apesar da condição subalternizada não deixam de se sublevar. paraná-mirins. e que apesar das condições contrárias insistem em suas manifestações culturais. mobilizam esforços em várias formas de organizações sociais e políticas. o Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (LPP/UERJ). rios ou rodovias. A revista paulista Caros Amigos. médias e grandes cidades. Povos originários que desde os primeiros colonizadores socializam as mazelas da “conquista” do novo mundo. a Revista Estudos Avançados da USP foram alguns dos espaços que ajudaram na publicização desse material. em quilombos. Gentes que nas narrativas inaugurais sempre foram tratadas como inferiores. obtusas e selvagens. a rede Fórum Carajás.

A presente reportagem registra os protagonistas antigos e recentes na disputa pela terra no sudeste do Pará.pmd 14 24/7/2012. e não o direito de posse. ocorrido em Campina Grande. Foi assim no caso da ocupação da fazenda Maria Bonita em Eldorado do Carajás. Outros casos foram o polo de gusa de Pequiá em Açailândiaoeste do Maranhão e a construção da hidrelétrica de Estreito. as tensões entre os diferentes agentes que disputam o território e as riquezas nele existentes e o modelo de projeto de desenvolvimento. As terras em questão um dia foram castanhais livres. evasão de divisas e crime contra o mercado financeiro. no primeiro caso. o MST e o banqueiro Daniel Dantas. Alguns trabalhos exigiram empreitada em campo. O material ora publicado compreende produções realizadas entre os anos de 2003 a 2010. onde a geração de energia desponta como sendo um deles. como formação de quadrilha. surgido através do Poloamazônia. O primeiro empreendimento nos remete a mais de duas décadas. a Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM) era o agente de indução da economia. Enquanto. indicado como novo ator no cenário da disputa pela terra no estado. 14:55 . Ferramenta jurídica que concede o direito ao uso da terra apenas para fins de extrativismo da Castanha do Pará. quando a política nacional instalou na região a perspectiva de desenvolvimento a partir dos polos madeireiros. em setembro de 2008. Já o caso da hidrelétrica de Estreito atualiza a intervenção do Estado numa orientação de desenvolvimento a partir de eixos de integração. o artigo Araguaia-Tocantins: fragmentos de 20 anos de luta pela terra. como os negociadores Mutran e Dantas querem fazer crer. no segundo.14 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá publicação de material e participação no 3º Encontro da Rede de Estudos Rurais. Em algumas passagens do presente registro é possível encontrar inflexões sobre o papel do Estado. O mesmo é indiciado por uma série de ilícitos. passou a controlar inúmeras propriedades na região. Tem-se aqui o Estado. de mineração e pecuária. sudeste do Pará. Através da empresa Agropecuária Santa Bárbara. Paraíba. na mesma região. a família Mutran. tem-se o Banco Nacional de Miolo pororoca. para se verificar as relações entre os grandes empreendimentos e as populações locais. que passaram a ser apropriadas indevidamente através do expediente jurídico de aforamento.

ESTADO E OS GRANDES PROJETOS.colegas de mestrado do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA/ Miolo pororoca. O POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá foi puxado a fórceps. E um aprendizado ao ouvir alguns invisíveis: trabalhadores rurais. A ambição de buscar a transição de práticas consideradas tradicionais do uso dos recursos da floresta para práticas agroecológicas teve início nos primeiros anos da década de 2000. não só na região. donas de casa. idosos. Duas reportagens pontuam nuances da metrópole. Pará. finalmente. BELÉMA CIDADE e. Vinte trabalhos integram a obra.pmd 15 24/7/2012. Esta última. conhecida zona boemia. reportagens e entrevistas distribuídos em quatro seções: 1ª Parte. numa peleja desprovida de apoios institucionais. como ponta de lança. O segundo texto recupera fragmentos dos 120 anos do Bosque Rodrigues Alves. moto-taxistas. 3ª Parte. iniciativa empreendida pela ONG Associação Paraense de Apoio às Comunidades Carentes (APACC) com sindicatos de trabalhadores rurais. desempregados. realizada com o auxílio luxuoso dos ex.TERRITÓRIO EM DISPUTA. As dinâmicas dos mundos rurais dão corpo ao modesto projeto. são as estrelas da companhia. como reza o clichê. 2ª Parte. um naco de floresta dentro da cidade. estudantes de graduação. O primeiro trata de militância cultural centrada na música. dirigentes sindicais e profissionais liberais como educadores e jornalistas.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 15 Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Ainda em campo tem-se o registro da experiência em agroecologia desenvolvida na região do Baixo Tocantins. ARAGUAIATOCANTINS. A exceção é o capítulo dedicado à cidade de Belém. donos de botequim. 14:55 . 4ª Parte. a partir do grupo Coletivo Rádio Cipó. Jovens e outros nem tão jovens somam em poesia e sonoridade numa produção original. prostitutas. Assim como o Bosque do Museu Emilio Goeldi. O trabalho de campo foi uma necessidade de se presenciar os passivos sociais e ambientais induzidos pelos grandes projetos e aspectos aplicados pela APACC no Baixo Tocantins. Dona Onete e o mestre Laurentino. ENTREVISTAS com dirigentes sindicais e populares e assessores e uma com o jornalista Lúcio Flávio Pinto. Um ponto de visita de turistas e das famílias de Belém. mais em dimensões continentais. A trupe é nascida no bairro da Pedreira. exceto amparos pontuais da rede Fórum Carajás. entre artigos.

Por isso a opção pelo nome adotado. Miolo pororoca. ante a complexidade de redes econômicas. Espera-se que possa de alguma forma ser produtivo como fonte de pesquisa e debates. A publicação é apenas um sopro sobre a vastidão de delicados cenários que conformam as dinâmicas econômicas.pmd 16 24/7/2012. As Amazônia (s) do Brasil são várias. 14:55 . sócio-culturais e politicas da região. Seria pretensão desejar um nome pomposo a este singelo trabalho.16 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá UFPA). a quem sou grato pela colaboração. políticas e sociais que se espraiam pela região na disputa pelo território e pela definição de seus projetos de desenvolvimento. Guilherme Carvalho e Nanani Albino. Ainda que modesto.

14:55 .dias piores virão? 3 Grandes Projetos na Amazônia: mineração em Juruti e a produção de energia 4 Geração de Energia na Amazônia: caso de Estreito em questão 5 Siderurgia em crise: o vendaval da economia especulativa e a mineração na Amazônia Miolo pororoca.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 17 01ª Parte ESTADO E OS GRANDES PROJETOS 1 Nova SUDAM? 2 BR-163.pmd 17 24/7/2012.

Amazonas. Mato Grosso. onde se prega a redução ao máximo do mesmo na economia. no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA). Bem como à crise fiscal e financeira que abala o país desde a década de 1980. após a aprovação no Congresso Nacional. A autarquia atua no raio de nove estados da Amazônia Legal (Acre. Fernando Henrique Cardoso.173 de 27.º 1. 1 Texto publicado originalmente no boletim eletrônico Notícias da Amazônia. Em sua certidão de nascimento SUDAM significa Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia. criada através da Lei 5. Miolo pororoca. Ninho de oligarcas da elite amazônica e empresários do Centro-Sul. a Agência de Desenvolvimento da Amazônia (ADA) veio substituíla em 02 de maio de 2001. Posteriormente. íntimos com a prática do patrimonialismo. capital do Pará. em substituição a Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA) (Lei n.Nova SUDAM¹? A corrupção é a primeira relação que se materializa ao pronunciar a palavra SUDAM.18 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá 1 . a SUDAM lhes serviu como uma galinha de ovos de ouro por mais de três décadas.01. Não foi a pororoca de corrupção publicizada que levou à extinção da SUDAM.806 de 06. n. da Secretaria do MST/Pará. Prestes ao seu renascimento. Assim advoga parte da tese de doutoramento defendida em 2005. de 18 de janeiro de 2006 e posteriormente no site do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (LPP/UERJ).1966. Tocantins. Rondônia e Maranhão). Amapá. Roraima. Na verdade a alteração de estratégia já existia há pelo menos quatro anos. quando governava o país. 14:55 . ocorre interrogar que caminho a mesma seguirá. pelo economista. 66. Pará. Tudo resultado da nova concepção do papel do Estado exigida pela recente conjuntura da economia mundial. por conta de inúmeras denúncias de corrupção. Juridicamente uma autarquia. Antonio Carlos Magalhães da Bahia e Jader Barbalho do Pará. Tal realidade nem tanto reservada a bastidores e muito menos nova foi o que mais lhe deu visibilidade. com base técnica.10.pmd 18 24/7/2012. As denúncias festejadas na imprensa em 2000/2001 nasceram do entrevero entre os “coronéis”. Tem a sua sede em Belém. da Universidade Federal do Pará (UFPA).1953).

onde o Estado exerceu papel central. 14:55 . outros vetores somaram-se aos projetos estabelecidos no Poloamazônia. o modelo de desenvolvimento regional com base em incentivos fiscais. conhecido como de substituição de importação. A segunda etapa do processo de industrialização marcava o contexto da época. oeste do Pará. madeira. na região do Trombetas. que determinou a instalação da exploração de minério na Serra de Carajás. polos siderúrgicos. minério e obras de infraestrutura para a região. pela SUDAM. além de transferência de riquezas. Ressalte-se o Programa Grande Carajás. cuja característica principal residia na verticalidade. que não colocou em debate a questão que seria central. temos entre os resultados: concentração de terra e renda. onde se verificava a associação do capital industrial nacional com o internacional. Modelo gerido pela escola cepalina (Comissão Econômica para América Latina e Caribe). Acreditava-se na tese de que só assim seria possível o desenvolvimento regional. O economista defende que a extinção da SUDAM resulta da desestruturação e do término de um modelo de planejamento regional brasileiro. Sedimentava-se assim a conquista da fronteira. exploração de bauxita (matéria prima para a produção de alumínio). tornando a região um polo exportador interno e externo de produtos primários. internalização de passivos sociais e ambientais. Ao se investigar tal modelo de planejamento desenhado no regime militar. Os registros das academias sobre a SUDAM sinalizam tratar-se de uma agência criada no sentido de promover o desenvolvimento regional e a integração da Amazônia ao restante do país com base em pesados incentivos fiscais às grandes empresas do Centro-Sul e mesmo internacionais. construção da hidrelétrica de Tucuruí.pmd 19 24/7/2012. uma das medidas elencadas no Plano Nacional de Desenvolvimento (PND). marcada por uma Miolo pororoca. que visava a implantação de projetos nos setores da pecuária. Na análise do pesquisador sobre a extinção da SUDAM em 2001 representou um oportunismo do Estado. Na “conquista” da Amazônia. e instalação de fábricas de lingotes de alumínio no Pará e no Maranhão. Morte e ressurreição da SUDAM: uma análise da decadência e extinção do padrão de planejamento regional da Amazônia.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 19 Sérgio Roberto Bacury de Lira. sudeste do Pará.

o montante desviado estava na casa de R$1. como os de infraestrutura. com vistas a garantir o escoamento de grãos que têm na soja seu carro-chefe. como o chefe político Jader Barbalho. 14:55 . Mesma dimensão ocupada por Antonio Carlos Magalhães com relação a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE). projetos com semblante similar aos de outrora batizados de grandes. ferrovias. numa região estabelecida na cabeça dos planejadores como um vazio demográfico. Mesmo em 1970 já se tinha registro. Como tudo na Amazônia costuma ter uma dimensão gigantesca. em detrimento dos Estados nacionais. as medidas não reduziram as diferenças regionais.7 bilhão. dos quais R$600 milhões seriam frutos de 35 projetos considerados irregulares e R$1. nomes reconhecidos na política nacional. Além de uma série de hidrelétricas. ocorre aqui relembrar protagonistas de tal ação.pmd 20 24/7/2012. hidrovias). as estatísticas de fraude na SUDAM não fogem à regra. Como a corrupção emerge em nossa História como prática de enriquecimento. no conjunto. No portfólio temse a construção de transporte multimodal (estradas. que foram cancelados pelo Conselho da SUDAM. em face do que o Plano Plurianual (PPA). quando as grandes corporações hegemonizam o processo de organização da economia mundial. Os números levantados pelo economista Lira sobre o processo de fraudes indicam que até abril de 2001. No rol. que historicamente funcionaram como degradadoras ambientais. destaque-se que ainda em 1980. Miolo pororoca. que papel caberia a uma agência regional de desenvolvimento num país de condição periférica e numa região periférica nacional? Como será a definição de suas metas para a região. Se de alguma forma a região se integrou ao resto do país. a Comissão Interministerial de Avaliação de Incentivos Fiscais (COMIF) já denunciava a questão na SUDAM.1 bilhão seriam oriundos de 159 empresas (de um total de 213 projetos considerados fraudulentos).20 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá abissal indiferença ao cidadão amazônico. e motivadoras de expulsão da população nativa. Como é quase impossível desvencilhar o nome da agência de práticas fraudulentas. política que define os investimentos do Governo Federal já estabelece como questões estratégicas? Notase. Com a radicalização do que se convencionou chamar de políticas neoliberais.

Na prestação de contas de campanha do ex-governador do Amazonas. Tourinho foi presidente do clube de futebol Paysandu. mediadores. No mesmo balaio 68 projetos foram elaborados por um escritório de uma ex-diretora da SUDAM. Investigações divulgadas na época indicam que o fazendeiro depositou U$ 41 mil em contas pessoais de José Arthur Guedes Tourinho. com valor de R$9. A superintendência foi ressuscitada segundo Projeto de Lei da Câmara Federal de nº.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 21 Ainda conforme pesquisa do professor Lira. contadores. consta que entre 1996 e 2001. um dos mentores da execução da missionária Dorothy Stang. O centro-oeste do Pará é um dos destinos de tais recursos. A nova SUDAM volta à vida tendo no rastro de suas três décadas marcas profundas de corrupção.2 milhões. com escritórios plantados em várias cidades dentro e fora da região. como a Distribuidora Genal Ltda. ligou para pedir apoio para fuga. que teria sangrado R$400 milhões. Amazonino Mendes (PFL/DEM). com valor estipulado em R$616 milhões. Um dos fazendeiros Délio Fernandes. Entre esses muitos projetos escandalosos cumpre lembrar o ranário da esposa do Barbalho. Os relatórios do Ministério da Fazenda apontam que ao longo de mais de três décadas um dos maiores beneficiados foi o fazendeiro goiano José Osmar Guedes.6 milhões. constam várias empresas suspeitas de desviarem recursos da SUDAM. 60. então-diretor da SUDAM. A finalidade ficou definida como promover o desenvolvimento includente e sustentável de sua área de atuação e a integração competitiva da base produtiva regional na economia nacional e internacional. e Chocam Chocolate da Amazônia. indicado por Barbalho. a senhora Márcia. Miolo pororoca. economistas. teria desviado R$4. integrada ao Sistema de Planejamento e Orçamento Federal. 14:55 .pmd 21 24/7/2012. sob a ingerência de políticos de todos os estados da Amazônia Legal. Foi da sede da fazenda de Fernandes que Bida. apenas cinco escritórios foram responsáveis pela metade dos projetos. dos 274 projetos que receberam recursos da SUDAM. Até onde chegaram os tentáculos da rede que ajudou a desviar recursos aos baldes da SUDAM? O elenco é de primeira linha: advogados.

(coord. Morte e ressurreição da SUDAM: uma análise da decadência e extinção do padrão de planejamento regional da Amazônia. Universidade Federal do Pará.22 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá Referências HOLANDA. B. São Paulo: Companhia das Letras. M. P Carajás: proposta de desenvolvimento regional integrado. In: . Dissertação (Mestrado em Planejamento do Desenvolvimento) – Núcleo de Altos Estudos Amazônicos. M. SÁ. R. 14:55 . 1987. Raízes do Brasil. Os Grandes projetos da Amazônia: impactos e perspectivas. Belém: NAEA/UFPA. COSTA. de S. Siderurgia e carvoejamento: drenagem energético-material e pauperização regional. 2005. 2003.). (Cadernos do NAEA. B. S. M. 9) Miolo pororoca. 1998. Belém: NAEA/UFPA. p. Belém. 73-103. J.pmd 22 24/7/2012. n. MONTEIRO. LIRA. 2005.

Nos anos inaugurais da década de 2000. Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG). o assunto BR-163 hegemonizou o debate nas universidades locais. obras de infraestrutura surgiram na floresta como símbolos da modernidade. elevado índice de trabalhadores em condições de escravidão. no oeste do Pará. Grilagem de terras. agricultores e mineradoras. ZEE. em parceira com a Agência de Desenvolvimento da Amazônia (ADA – agora novamente SUDAM).pmd 23 24/7/2012. que liga Cuiabá. Pará e Mato Grosso. de 20 de setembro de 2005 e posteriormente no site do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (LPP/UERJ). governos federal e estaduais. nacionais e mesmo internacionais. execuções de trabalhadores rurais e seus apoiadores ajudam a compor a aquarela da região. Miolo pororoca. entre outros. extrativistas. setores da economia nacional. encaminhado pelo governo federal em parceria com os estados do Amazonas. numa lógica de planejamento periférico e vertical desenhada nos gabinetes dos militares. A regra ditava a ampliação da fronteira agrícola e exploração de matériasprimas para a conquista da região. instante em que o Estado de exceção conforma a politica no Brasil. Na ocasião. Para a Amazônia é marcante o projeto de integração da região ao resto do país. a obra dividida em quatro volumes de 2 Texto publicado originalmente no boletim eletrônico Notícias da Amazônia.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 23 2 . Entre os dias 19 e 20 de setembro de 2005. Na cena econômica tem-se o “milagre econômico”. Discussão que envolve ainda associações de trabalhadores. exploração ilegal de madeira. 14:55 . no Mato Grosso a Santarém. madeireiros. Nº 59. No grupo de atores sociais que disputa o uso da terra e dos recursos naturais constam: sojeiros. internacional. Com vistas à exploração das riquezas minerais e ampliação da agricultura e pecuária. através do Núcleo de Altos Amazônicos (NAEA). No Araguaia pipocava a guerrilha. populações indígenas. Entre elas a BR-163. quando o assunto era a Amazônia. garimpeiros. pecuaristas.BR-163: dias piores virão?2 A conquista do tri campeonato de futebol pelo escrete canarinho é um dos emblemas da década de 1970. da Secretaria do MST/Pará. a Universidade Federal do Pará (UFPA). ambientalistas. No centro constava a tentativa de construção de um referencial de organização do território a partir do Zoneamento Econômico e Ecológico (ZEE).

O empreendimento inaugura a mistura do tempero entre o público e o privado. onde o poder econômico e político imperam. Na perspectiva dos planejadores e dos ditos investidores. Experiências pretéritas contabilizam os passivos sociais e ambientais aos montes. abriu o debate sobre a ocupação na Amazônia. com o ataque de 150 pistoleiros armados contra os indígenas. e sustentável ancorado em algo que advoga o socialmente justo. coadunar desenvolvimento baseado em uso intensivo de recursos naturais. que no caminho Miolo pororoca. ferrovias). ainda que os números das dívidas dos produtores sejam omitidos pelos principais meios de comunicação. Na lógica de transporte multimodal (rodovias. Se a oportunidade econômica faz brilhar cifrões nos olhos dos produtores de grãos. alarmante os impactos sociais e ambientais que se desnudam. em seu Plano Plurianual (PPA).24 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá autoria do pesquisador Jean Hébette. hidrovias. entre outros). na burocracia estatal batizado de Parceria Público Privado (PPP). Como a registrada na reserva Raposa do Sol. o rei da soja e também do governador do Mato Grosso. economicamente viável e ambientalmente zeloso. trabalhadores rurais. extrativistas. Alvo da coerção pública e privada. “Cruzando a fronteira: 30 anos de estudo do campesinato na Amazônia”. que examina o processo desde a década de 1970. Se a possibilidade econômica revela-se excelente. no dia 17 de setembro de 2005. Inspirado na perspectiva desenvolvimentista e na busca incessante do superávit primário. o contrário ocorre entre as populações nativas (índios. No celeiro dos interessados verifica-se além das empresas multinacionais. em detrimento de qualquer parâmetro legal? A produção de grãos pesa na balança comercial (estimada em 50%). Como efetivar tal proposta numa democracia marcada pelo aleijão da concentração de terra e renda. são sempre elevados à categoria de empecilho ao desenvolvimento. em rincões onde a diferença não é reconhecida. a BR-163 volta à pauta como prioridade para melhorar a circulação da produção de grãos. ainda que não se discuta o paradoxo de tal tese. que se avoluma no Centro-Oeste do país. Blairo Maggi (PPS). o Governo Federal visa semear e colaborar para a melhoria de obras de infraestrutura. 14:55 . ribeirinhos.pmd 24 24/7/2012. Roraima. A defesa do projeto é escudada no chamado desenvolvimento sustentável. Quase que inquestionáveis.

do sapateiro ao prefeito. 14:55 . uma chacina envolvendo seis trabalhadores rurais e um médio produtor denuncia o deslocamento do morticínio do sul e sudeste do Pará rumo ao sudoeste do estado. No ano de 2003. em persuadir. as audiências. Dessa riqueza natural dependem aproximadamente dois milhões de habitantes. a paisagem é hoje a principal área de exploração ilegal de madeira. Em tais espaços verificou-se a capacidade de empresas. Xingu e Amazonas) e dezenas de tributários. executado na região de Altamira. envolvendo diversos grupos sociais e econômicos. A região abriga três imensas bacias hidrográficas (Teles Pires/Tapajós. Além da festejada produção de soja. ironicamente numa comunidade batizada de Castelo dos Sonhos. como a irmã Dorothy. A diversidade dos recursos naturais e sociais é maior que os passivos sociais e ambientais e a possibilidade de faturamento financeiro. seus apoiadores e assessores deu o primeiro sinal com a morte do sindicalista Ademir Federecci (Dema). grilagens de terras e violência contra camponeses e seus apoiadores. oeste do Maranhão e norte do Tocantins. na formação do coral do “a favor” do projeto. 36 anos. executada em fevereiro de 2005. que põe abaixo milhares de hectares da floresta amazônica e do cerrado.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 25 oposto esmeram-se na demonização do movimento camponês. No desenho do plano visa-se a integração de políticas que possibilitem o desenvolvimento integrado da região. a assimetria marca o debate. Nesses instantes criam-se os tais espaços de participação pública. Ao se espelhar no passado. oeste do Pará (exploração de bauxita.pmd 25 24/7/2012. biomas que marcam a região. corrupção nos processos de financiamento da extinta Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM) e grilagens de terra. no ano de 2001. matériaprima para a produção de alumínio) e nas audiências do projeto da hidrelétrica de Estreito. Tal violência contra camponeses. que acaba por se assemelhar a espaços circenses como os já registrados nas audiências do projeto Juruti. muitas delas multinacionais. Em seguida ocorreu a execução do dirigente sindical Bartolomeu Morais da Silva (o Brasília). como o deslocamento e reassentamentos de Miolo pororoca. a fé entra em refluxo. quando denunciava o processo de exploração ilegal de madeira. sem explicar muitos pontos delicados. morto com 21 tiros após sessão de tortura. Ainda que signifique um passo à frente. Assim explica o documento base do Plano de Desenvolvimento Sustentável.

Asma Jahangir. 828. Teríamos assim a criação de um mosaico que. 37 no estado do Mato Grosso. que tem por regra a expropriação dos nativos? A criação de áreas de reservas? Parece ser essa a indicação do Governo Federal em alguma escala consensuado pelo Governo do Pará. Aqui inclusa a já celebridade nacional.6% da Amazônia Legal e 14. oeste do Pará. do Crepori. como a imprecisão do local da barragem de Estreito. que juntos desejam a definição de nove áreas. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) do Pará já engrossa os seus registros com mortes de trabalhadores da região. índios. construído pela empresa Cargil. extrativistas etc. deboche e mesmo a ira dos contrários. O objetivo do projeto é criar em parceria com o Instituto Brasileiro dos Recursos Naturais Renováveis e do Meio Ambiente (IBAMA) e o Governo do Estado. sem uma definição. a concentração do debate do ordenamento do território em certa medida no Pará. Na geografia o documento do Governo Federal explica que a área do projeto reúne 71 municípios. Verifica-se. Isso sem falar nas imperfeições de engenharia. no maior flagrante de indiferença à legislação ambiental. Desse total. os parques Nacional ou Estadual do Miolo pororoca. o que provoca o monopólio da fala. Qual a trilha a seguir para a manutenção ou uso equilibrado dos recursos naturais e a inversão da gramática dessa modalidade de projeto. sendo 28 no estado do Pará. assim. Outro elemento recai sobre o hermetismo da linguagem técnica.26 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá agricultores.23 milhão de km2 (123 milhões de hectares) que correspondem a 24.41% do território estadual). Terra do Meio. posto Mato Grosso já possuir um zoneamento. Aos que desafinam no coro “do pró” olhares de esguelha. e seis no estado do Amazonas.550 km2 no Mato Grosso (31. Aqui o tempo sempre nubla. perfazendo uma área total de 1. como denunciado numa audiência com a oficial da Organização das Nações Unidas (ONU).619 mil km2 encontram-se no Pará (66. 280. e até um porto. do Iriri e do Jamanxim. conforme os dados oficiais garantiria a proteção de 60% do território em debate. nove unidades de conservação. divididas nas Florestas Nacional ou Estadual de Trairão.pmd 26 24/7/2012.06% do estado) e 122. do Amaná.81% do estado). O mesmo foi erguido quando o processo encontrava-se na Justiça.624 km2 no Amazonas (7. No município de Santarém alguns setores festejam a introdução da soja. 14:55 .47% do território nacional.

que visa a integração subordinada do agricultor ao mercado. A esfera jurídica e militar tem sido a regra no planejamento do estado para tratar da questão de disputa de terras ao longo dos 10 anos de mando do Partido da Social Democracia no Pará (PSDB). expediu 50 liminares de reintegração de posse. como se verifica em Santarém. ainda. Que cenários se desenham no horizonte da Amazônia com a tentativa de disciplinamento do uso do território na BR-163? Em alguma medida os pesquisadores indicam que em certa escala já ocorre uma territorialização na região através de sojeiros. Divisão Especial de Conflitos Agrários (DECA). Novo Progresso. no aparato armado criou uma divisão especial na Polícia Militar.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 27 Jamanxim e do Rio Novo. Estas reservas ocupariam áreas nos municípios de Jacareacanga. Nesse sentido. no estado onde mais se mata “sem terra”. grande pecuária. criou varas agrárias que em tese seriam espaços para se diluir as disputas pela terra. mineradoras canadenses. Líbio Moura. ocorrido em 1996. o governo garante que tudo vai mudar com a implantação do Projeto Pará Rural. Mas. No entanto. A ação das tropas da PM durou três meses e foi marcada pela denúncia de truculência. E. onde lavouras foram queimadas e barracos destruídos. quando 19 trabalhadores sem terra foram executados e 69 feridos. 14:55 . Itaituba. e a Área de Proteção Ambiental Tapajós. A maior da História. e engrossam hoje bolsões de miséria na periferia de Santarém. empresas juniores de mineração e agricultores. todos localizados no Pará.pmd 27 24/7/2012. Dias piores virão? Miolo pororoca. Já no ano de 2005 numa só caneta o juiz da Vara Agrária de Marabá. Trairão. indícios indicam que uma situação de caos é interessante para o processo de transferência de terras públicas para a iniciativa privada. onde 500 famílias foram expulsas numa única tacada da comunidade de Santa Rosa. Rurópolis e Altamira. calçado com financiamento do Bando Mundial. principalmente no bioma cerrado. Impossível tratar do assunto sem citar o Massacre de Eldorado.

J. 14:55 . 164-168 (Cadernos do NAEA. 2. Revista Espaço Acadêmico. 16-26 SÁ. p. 211-262. M. Amazônia a fronteira agrícola: 20 anos depois. Disponível em: <www. Maringá (PR). p.br> Acesso em: 10 de 08 de 2005.com. CARVALHO. Os grandes projetos da Amazônia: impactos e perspectivas. L. n.pmd 28 24/7/2012. In: LÉNA. África e Ásia. Os grandes projetos da Amazônia: impactos e perspectivas.). G. COSTA. M. 73-103. Philippe. A. I. Os grandes projetos e a crise. F. B.) O Banco Mundial e a terra: ofensiva e resistência na América Latina. ALMEIDA. 9) ROSSET.) Contando a história do Pará. Belém: FASE. R. Belém: NAEA/UFPA.espacoacademico. p.). p. 1987. 31. P. 9) Miolo pororoca. 259-290. A integração sul-americana e o Brasil: o protagonismo brasileiro na implementação do IIRSA. In: COSTA. 2004. In: FONTES. 2003. P Carajás: proposta de desenvolvimento regional integrado. n. 1987. In: . o mau e o feio: a política fundiária do Banco Mundial. A W. Edilza (org. M. São Paulo: Viramundo. os conflitos agrários e a violência na Amazônia (1965-1989). (Cadernos do NAEA. (orgs. (coord. O bom. PINTO. In: MARTINS. v.). (coord. M. OLIVERIA. 2002.28 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá Referências ACEVEDO MARIN. D. Adélia E. A reforma agrária e o Governo Lula: entre a expectativa e a possibilidade. p. M. Belém: Emotion. n. Belém: NAEA/UFPA.O Intransitivo da transição: o Estado. E. 1991. (org. dez. 2004. Conflitos agrários no Pará. J. Belém: MPEG. ANDRIOLI.

POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá

| 29

3 - Grandes Projetos na Amazônia: mineração em Juruti e a produção de energia3 1.500 pessoas ocuparam no dia 28 de janeiro de 2009 uma área de operação da empresa estadunidense Alcoa, no município de Juruti, oeste do Pará. No local é explorada uma mina de bauxita, matériaprima para a produção de alumina que é em seguida transformada em alumínio. O empreendimento fica na bacia do Amazonas. Um bilhão de reais deve ser aplicado para produzir quatro milhões de toneladas do minério. Desse total de investimento a sociedade brasileira vai entrar com 500 milhões através do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) a juros módicos. A companhia é uma das maiores mineradoras do mundo e opera em 32 países nos quatro continentes. No Maranhão mantém uma empresa de produção de lingotes de alumínio, Alumar, desde a década de 1980, em sociedade com a BHP Billiton e que deverá incrementar a produção de 368 mil para 420 mil toneladas. Por isso o interesse na mina de Juruti, que também vai emancipar a Alcoa do fornecimento da Mineração Rio do Norte, da Vale, que extrai a bauxita no município de Oriximiná, na mesma região. Além das frentes de mineração, o baixo Amazonas tem em pauta a construção de hidrelétricas no rio Tapajós e é impactado pela monocultura de grãos e pelo porto da Cargil. Além de negócios no Maranhão e agora no Pará, a Alcoa também é acionista majoritária do consórcio Baesa, responsável pela usina hidrelétrica de Barra Grande, localizada na região Sul do país. Junto com o grupo Votorantim, a Alcoa foi denunciada pela violação das Diretrizes para Empresas Multinacionais da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A Alcoa e o grupo Votorantim foram denunciados pelo Movimento de Atingidos por Barragens (MAB) no ano de 2005. As empresas aproveitaram a Avaliação de Impacto Ambiental apresentada, em 1999, pela empresa Engevix Engenharia S. A., que atestava de modo fraudulento a viabilidade ambiental da exploração

3

Trabalho publicado no site www.plataformabndes.org.br em fevereiro de 2009

Miolo pororoca.pmd

29

24/7/2012, 14:55

30 |

POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá

do potencial hidroelétrico no rio Pelotas, afluente do rio Uruguai, informa nota do MAB. No caso do Pará, os militantes denunciam os danos aos recursos hídricos, redução do pescado, impedimento do direito de ir e vir dos ribeirinhos, diminuição da coleta da castanha do Brasil, andiroba e outras fontes de proteína e recursos da flora usados para fins medicinais. O projeto representa também um risco de morte aos trabalhadores, por conta da construção da ferrovia que escoará o minério. Eles explicam que não há túneis ou desvios nos trechos que cortam os projetos de assentamento impactados pela obra. Durante a ocupação, a tropa de choque da Polícia Militar foi acionada. Os policiais usaram gás de pimenta e bombas de gás lacrimogêneo contra os manifestantes. Crianças e mulheres foram atingidas. Afinal, quem é o inimigo? Documento sistematizado por Raimundo Gomes da Cruz Neto, sociólogo que visitou as comunidades atingidas, esclarece que a mina está localizada numa área de floresta densa, nas cabeceiras do lago Juruti Grande, caracterizada por três platôs. A ferrovia atravessa dois projetos de assentamento de agricultores, criados pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Um deles é o Socó, com 420 famílias, das quais 43 tiveram seus lotes atravessados pela ferrovia, e receberam por indenização R$ 0,24/ metro quadrado, por força de um acordo entre o sindicato e a empresa, enquanto reivindicavam R$ 3,00. O porto está colado à cidade, sede do município de Juruti, de onde várias famílias do bairro Terra Preta, estruturadas social e economicamente, foram expulsas. Gerdeonor Pereira, dirigente no Projeto de Assentamento Extrativista (PAE) Juruti Velho, informa que 80% do minério estão no PAE. O militante informa que pelo menos 50 mil hectares de floresta devem ser derrubados. “O projeto trouxe para a cidade umas 15 mil pessoas. O município não tem estrutura para cuidar desse povo com moradia, saúde e escola. Hoje a empresa já iniciou as demissões porque as construções estão em fase de conclusão. Para onde esse povo vai”? Interroga Pereira. Há informes de que por conta da migração o município passou por dois surtos de hepatite. Considera-se que é na fase de construção que a prefeitura mais fatura com a arrecadação

Miolo pororoca.pmd

30

24/7/2012, 14:55

POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá

| 31

do Imposto Sobre Serviço (ISS). A estimativa é de um milhão por mês desde 2006. A presença da empresa também incrementou o mercado de prostituição, drogas, especulação imobiliária e ocupações. Os passivos socioambientais já experimentados nas 60 comunidades onde vivem cerca de quatro mil famílias num total aproximado de nove mil pessoas foram omitidos nos estudos de impactos ambientais, realizados pela empresa CNEC Engenharia e apresentado pela Alcoa para obter a licença. A CNEC é a mesma empresa que realizou os estudos para a construção da hidrelétrica de Estreito, onde a Alcoa é sócia da Vale, da Suez Energy, da BHP Billiton e da Camargo Correa. A hidrelétrica de Estreito está sendo erguida no rio Tocantins, fronteira do Maranhão com o estado do Tocantins e é considerado o maior empreendimento do setor no Brasil. No caso de Estreito, entre as omissões consta que as áreas indígenas nos dois estados, Krahô, Apinajé, no estado do Tocantins, e Gavião e Krikati no Maranhão não serão afetadas pela obra. Informação contestada pelas comunidades indígenas e pelos defensores dos direitos humanos. As omissões nos relatórios que indicam os impactos ambientais da exploração da bauxita do Pará estão entre as motivações da ação movida na justiça pelos Ministérios Públicos Federal e Estadual (MP) desde 2005. Nestes termos, a Alcoa funciona na ilegalidade em terras do Pará, posto as contestações dos MP sobre o processo de licenciamento da exploração de bauxita. O não cumprimento da recomendação dos MP também resvala no governo do estado do Pará. Gabriel Guerreiro, deputado estadual (PV) e Walmir Ortega, ambos ex-secretários do meio ambiente, respondem por improbidade administrativa. O primeiro pela aprovação da licença de operação da Alcoa e o segundo pela manutenção, contrariando a recomendação dos MP que decidiram , pela suspensão. Assim como a Cargil que produz grãos no município vizinho de Santarém, e ergueu um porto ao arrepio da lei, a Alcoa finaliza a construção de rodovia, ferrovia, porto e tanques de contenção de rejeitos para a extração do minério. O MPF e o MPE consideram que o Instituto Brasileiro dos Recursos Renováveis e do Meio Ambiente (IBAMA) deveria

Miolo pororoca.pmd

31

24/7/2012, 14:55

32 |

POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá

licenciar o projeto Juruti e não a Secretaria de Meio Ambiente, como ocorreu. Os elementos que demonstram a necessidade de que o licenciamento se dê no âmbito federal são: 1 - A área na qual estão localizadas as minas de bauxita pertence à União, tendo sido objeto de arrecadação administrativa e, hoje, encontra-se em processo de regularização fundiária, tendente a permitir a fixação dos clientes da reforma agrária; 2 - Todas as atividades para a obtenção da bauxita (escavações e deposição de rejeitos nas cavas) ocorrerão sobre o aquífero Alterdo-Chão, importante reserva de água doce que atravessa dois estados (Pará e Amazonas); 3 - O porto está localizado às margens do rio Amazonas, rio internacional, sem que tal impacto tenha sido nem mesmo corretamente mensurado ou nem sequer estudado; 4 - Todo o Projeto Juruti está contido na bacia hidrográfica do Amazonas, sob jurisdição federal; 5 - Há o registro de 73 ocorrências de sítios arqueológicos na Área de Influência Direta (AID), até esta fase; 6 -Na AID existem espécies vegetais (castanheiras, pau-cravo, pau rosa) protegidas pela legislação ambiental; 7 - Na AID existem os ecossistemas de várzeas. Negociações - Após a mobilização da população atingida pelo grande projeto de mineração que deve durar entre 80 a 100 anos, uma rodada de negociação foi realizada entre os dias 9 a 11 de fevereiro de 2009, no município polo da região, Santarém. Além dos atingidos pelo projeto, participaram dos debates o representante da Alcoa na América Latina, Franklin Feder, dos Ministérios Públicos, Prefeitura de Juruti e representantes do Governo do Estado. A rodada teve várias divisões. Dia de debate com todos os envolvidos na questão, dia dedicado ao debate entre os atingidos e a empresa e uma rodada de negociação encerrada com a participação de Walmir Ortega, o então Secretário de Meio Ambiente do Pará, informa Pereira. Reivindicações – A Associação das Comunidades de Juruti Velho exige, entre outras coisas, a participação em 1,5 % dos lucros da empresa, investimentos em educação, saúde e moradia e a definição de uma agenda de compromisso. Gerdeonor Pereira esclarece que a primeira reivindicação já foi atendida.

Miolo pororoca.pmd

32

24/7/2012, 14:55

E os portadores de inquietações sobre os impactos socioambientais tratados como agentes que defendem o “atraso” do lugar. vai fazer germinar como se fosse leite e mel. A cooptação de políticos e agentes que representem algum tipo de liderança consta como agenda da ação da empresa. o enclave. No caso da Alcoa nenhum veículo informou que a mesma opera de forma ilegal. o emprego e a fortuna nos rincões. em particular para fazerem coro pró-empreendimento nas audiências públicas onde são apresentados os estudos de impactos ambientais. 14:55 .pmd 33 24/7/2012. que deseja azeitar o já delicado processo. Ao menos. O processo de licenciamento das obras e as populações tradicionais locais são classificados como os grandes entraves pelos empreendedores. que segundo as empresas. Miolo pororoca. o saque dos recursos naturais. se depender do esforço de Mangabeira Unger. como no caso da exploração mineral em Juruti. Os mesmos podem ter em breve as suas demandas aceitas no que tange ao processo de licenciamento de obras na Amazônia. É raro algum veículo de comunicação dar visibilidade às mazelas dos grandes projetos. O desenvolvimento e o progresso formam a dorsal do discurso de defesa dos grandes empreendimentos. que deve ser seguido como se fosse um mantra da prosperidade. O destaque conferido recaiu sobre a nota da empresa sobre os possíveis prejuízos. Tanto no caso da usina de Estreito. o fato foi verificado. A empresa também não se descuida em “convencer” os meios de comunicação locais da sua nobre causa. a empresa apresenta um discurso de redenção da pobreza através do grande empreendimento. Qualquer questionamento que soe a ambientalismo é logo satanizado.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 33 Tal tipo de empreendimento na Amazônia coloca em lados opostos grandes corporações com staff de capacidade internacional de negociação e populações consideradas tradicionais. Numa clara linha de desinformação sobre a lógica que conforma tais empreendimentos nas periferias do planeta. Ou seja. Tanto no caso do Pará como na fronteira do Maranhão com o Tocantins.

Obra do acaso? Os levantamentos de Batista foram encomendados pela Corporação Andina de Fomento (CAF). Nesse sentido o BNDES exerce protagonismo continental. O ciclo mais recente é o mineral. O eixo do Amazonas compreende os seguintes países: Colômbia. A CAF é um dos agentes do projeto de Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA). o Hidrovia Paraná-Paraguay. quando o mesmo ainda tinha o status de território. Antes do fim no dia 16 de setembro de 2009 o Pará viveu um dia histórico. É creditado a Eliezer Batista. no estado do Amapá. o Capricórnio e o Andino. quatro se destacam. O ciclo da mineração ganhou maiores proporções na Amazônia a partir da região de Carajás com a presença da Vale na extração do minério de ferro na década de 1980. ex-executivo da Vale.34 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá Mineração na Amazônia e os eixos de integração do continente O extrativismo tem regido a economia na Amazônia. A exploração mineral no Amapá. com vistas à exportação. A. por suas riquezas naturais e possibilidades de conexões: o Amazonas. no Pará. e que em apenas cinco décadas se exauriu. a construção do mapa das riquezas naturais na América do Sul. Do conjunto de 10 eixos de integração. Outro ator importante no longa metragem de extração das riquezas do continente é o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).pmd 34 24/7/2012. Peru. literalmente. 14:55 . alguns se arriscam em pontuar que o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) é uma miniatura do IIRSA. Batista é pai de Eike. festejado como o novo bilionário nacional. dono da Indústria e Comércio de Mineração S. Em Belém. considerada a primeira na Amazônia. foi protagonizada pela empresa estadunidense de Daniel Ludwig. No mundo do Brasil. a Bethlehem Steel Company em sociedade com o empresário Augusto Trajano de Azevedo Antunes. A exploração do manganês na Serra do Navio foi o pontapé inicial. o aparato policial foi usado contra populares numa audiência pública sobre o projeto da hidrelétrica de Belo Miolo pororoca. financiando obras de integração além de nossas fronteiras. O objetivo central prima em facilitar a circulação de mercadorias. (ICOMI). restando apenas o buraco. Equador e Brasil e visa criar uma rede eficiente de transportes entre a bacia amazônica e o litoral do Pacífico. iniciado na década de 1950.

POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá

| 35

Monte. Enquanto isso, no município de Juruti a governadora Ana Júlia Carepa (PT) cortava a fita do projeto de mineração de bauxita da Alcoa. Além de cortar a fita, a governadora plantou uma árvore. Uma exacerbação do marketing. Os dois projetos estão localizados na mesma região, sudoeste do estado. Numa foto de um diário local a governadora aparece amparada pelo representante da Alcoa na América Latina, Franklin Feder. Ainda na mesma foto, destaque para o ministro das Minas e Energia, Edson Lobão, uma figura íntima do senador José Sarney. Desde o regime de exceção. Essa tal de governabilidade.... Mais irônico, o Instituto de Pesquisa Aplicada (IPEA), acabava de apresentar relatório onde indica que a produção de alumínio é um desastre para região amazônica.

Miolo pororoca.pmd

35

24/7/2012, 14:55

36 |

POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá

4 - Geração de energia na Amazônia: caso de Estreito em questão4 O presidente Lula inaugurou no dia 04 de outubro de 2008 a segunda casa de força da hidrelétrica de Tucuruí, no sudeste do Pará. A UHE de Tucuruí é a maior hidrelétrica, genuinamente nacional, e foi erguida no rio Tocantins há 24 anos para alimentar com energia subsidiada as empresas de produção de alumínio Albrás e Alunorte, do grupo Vale, no Pará, e a Alumar, da estadunidense Alcoa, no Maranhão. 75% da produção de energia de Tucuruí vai para a exportação e o estado possui uma das tarifas domésticas mais caras do país. O derradeiro reajuste foi de 16% na tarifa doméstica. A segunda casa tem potência instalada de 4,1 mil megawatts. Junto com a primeira casa de força, a potência instalada de Tucuruí vai ser de 8,3 mil megawatts. O maior empreendimento do setor de energia encontra-se em construção no mesmo rio, na fronteira do estado do Maranhão com o Tocantins, no município de Estreito. A construção de hidrelétricas na Amazônia integra um portfólio de projetos baseados no uso intensivo dos recursos naturais da região. O modelo de desenvolvimento tem na concentração da terra, renda e do poder político e econômico seus pilares e ativa tensões entre populações consideradas tradicionais e grandes corporações do capital mundial. No caso de Estreito, tais projetos tensionam com as comunidades indígenas Krahô, Apinajé, no estado do Tocantins, e Gavião e Krikati no Maranhão. Na fronteira há ainda pescadores, extrativistas e camponeses, ladeados por reservas como a Chapada das Mesas do lado maranhense e um sítio de árvores fossilizadas no Tocantins. A hidrelétrica de Estreito prestes a completar o terceiro ano em fevereiro de 2009 avança sobre o rio.

Reportagem publicada originalmente no blog Furo em novembro de 2008 e reproduzida no site do www.forumcarajas.org.br, que apoiou o trabalho.
4

Miolo pororoca.pmd

36

24/7/2012, 14:55

POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá

| 37

Estreito em questão- um mapa de enclaves

A BR-010 corta o município de Estreito, oeste do Maranhão. A cidade há três anos tinha uma população estimada em 10 mil habitantes localizados na sede do município de um total de 26.490, conforme os dados do ano de 2007 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ainda conforme o IBGE, até 2001 a população total do município era calculada em torno de 22.930 habitantes, bem antes do início da obra, em fevereiro de 2007.

BR-010- município de Estreito/MA- Foto: Rogério Almeida/2008

O município de Estreito encontra-se numa região repleta em implantação de grandes projetos públicos e privados. A cidade dista

Miolo pororoca.pmd

37

24/7/2012, 14:55

38 |

POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá

100 km do polo de soja considerado um dos mais importantes do país, na cidade de Balsas, sul do Maranhão e tem como vizinha Aguiarnopólis, cidade do norte do Tocantins e dista mais de 500 km da capital do estado, São Luís. Os economistas tratam esse modelo econômico de enclave, traduzindo, não dinamiza a economia local. Além do polo de soja, o município é impactado pela implantação da ferrovia Norte-Sul, pela ampliação da BR-010 e construção do maior projeto hidrelétrico do país, a hidrelétrica de Estreito, no rio Tocantins. Não muito distante dali, no município de Açailândia, um polo de gusa dinamiza uma cadeia de destruição ambiental e de trabalho escravo para a produção do carvão vegetal. O Grotão e o Planeta O empreendimento da UHE de Estreito pluga o grotão marcado por inúmeras chacinas de camponeses ao resto do mundo através da geração de energia. O empreendimento pertence ao Consórcio Ceste, que aglutina as grandes corporações do quilate da Camargo Corrêa (4,44%), Alcoa (25,49%), Vale (30%) e da belga Suez-Tractebel (40,07%). O custo da obra é estimado em R$ 2,5 bilhões para que Estreito gere 1.087 MW de energia. Os barramentos no rio devem ultrapassar a casa das 50 unidades entre grandes e Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCH). As PC produzem no máximo 3 mil kw. Ambientalistas que tratam sobre barragens advertem que caso se sacramente o planejamento estatal, o rio Tocantins deve se transformar num grande lago, onde os impactos ambientais e cumulativos são imensuráveis. A radical alteração do ciclo de reprodução dos peixes, a destruição da mata ciliar e inundação de florestas nativas que abrigam animais silvestres são alguns dos impactos pontuados. Empreendimentos de grande porte tendem a atrair grandes contingentes de migrantes. 5.500 operários da construção civil estão no canteiro de obras atualmente. Cabe interrogar: para onde essa população irá após a conclusão da obra, prevista para 2010? Estreito e Carolina no estado do Maranhão, e Aguiarnópolis, Babaçulândia, Barra do Ouro, Darcinópolis, Filadélfia, Goiatins, Itapiratins, Palmeirante, Palmeiras do Tocantins e Tupiratins serão os municípios afetados diretamente pela obra. As cidades abaladas

Miolo pororoca.pmd

38

24/7/2012, 14:55

Ao fundo a ponte que separa o município de Estreito/MA da cidade de Aguiarnópolis/TO Foto Rogério Almeida/2008 Carros das empresas sinalizados com uma bandeira vermelha com um xis. BR .a rodovia escoa a produção de soja do sul do Maranhão – Foto Rogério Almeida/2008 Miolo pororoca. Um passeio na rodoviária local indica a alteração dessa realidade. As periferias proliferam ladeadas pela marginalidade.pmd 39 24/7/2012. homens fardados de variadas indumentárias que indicam a variedade de empresas que atuam no canteiro de obras da barragem e ônibus que carregam os trabalhadores fazem parte da nova paisagem na cidade. O trabalho é terceirizado.010. 14:55 . no município de Estreito não se via mendigos nas ruas. do aluguel e da venda de imóveis inflacionados.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 39 pelo empreendimento tendem a ter os preços da terra. Até três anos atrás. aumento do consumo de álcool e da criminalidade.

no estado do Tocantins ratificam a tese sobre essa questão. Por conta da indiferença dos diretores da Tractebel em relação às populações atingidas.300. A equipe de belgas visitou uma área onde 26 famílias foram reassentadas pela empresa Tractebel. No Ministério Público de Brasília e em Goiânia um documento enumera 804 famílias cadastradas como atingidas. da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Goiás. Localiza-se na bacia Araguaia-Tocantins. cedeu os veículos que controla para que alardeassem as “benesses” da instalação do empreendimento. Em geral não se consegue criar as mesmas condições de reprodução de vida das origens dos trabalhadores rurais. ainda quando senador foi um dos mais fervorosos defensores da implantação da hidrelétrica de Estreito.pmd 40 24/7/2012. O militante da CPT adverte que muitos não aceitaram esse valor considerado uma “mixaria”. a CPT mobilizou a visita de um grupo de representantes de ONGs belgas. O hoje ministro das Minas e Energia. integrante do ninho da família Sarney. ou seja. reconhecido pelos serviços prestados à ditadura. O reassentamento é uma das questões mais delicadas no processo de implantação de hidrelétricas. “Escritos sobre a água” alerta sobre os passivos sociais e ambientais provocados pela empresa na construção da hidrelétrica de Cana Brava. Dono de meios de comunicação na região Tocantina. A Tractebel em Góias Bento Rixen. em artigo de 2003. 14:55 . e a construção de Lajeado e Serra da Mesa. Rixen no artigo explicita que a indenização proposta aos atingidos pela barragem ficou no patamar de R$ 5. numa publicação do Fórum Carajás. Os militantes internacionais puderam conhecer o cotidiano das famílias que foram expulsas de suas terras e os desdobramentos do lago que surgiu depois da construção da barragem. Apesar de boa casa e uma parcela Miolo pororoca. Tal modelo de empreendimento ratifica uma economia baseada no uso intensivo dos recursos naturais. extrativa. Edson Lobão. O que tem sido um questionamento constante. considerada a de maior potencial de geração de energia hidroelétrica do Brasil.00.40 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá A hidrelétrica de Estreito encontra-se em croquis dos planejadores de velha data. nos municípios de Minaçu e Cavalcante.

as terras férteis viraram brejos por conta da proximidade com o lago da barragem. 14:55 .” explica o artigo do professor Pinto. revela Rixen. Nesse sentido. Tal modelo de desenvolvimento induzido pelo Estado tende a fortalecer ainda mais as desigualdades existentes no país. celulose e etanol. da Pontifícia Universidade Católica (PUC/RJ). edição de outubro de 2008. ou seja. Em outro local de visita da equipe. eles não estão bem. a plantação tem de ser irrigada. do professor João Roberto Lopes Pinto. Pinto reflete que a Plataforma argumenta que se faz necessário. onde prevalece a ocupação informal. Segundo a família. em um terreno que a própria prefeitura cedeu. a sociedade financia um modelo de desenvolvimento arcaico. baseado em relatórios do próprio BNDES. precária e de baixa qualificação. sem água potável e sem emprego. Não seria mais prudente o Estado induzir um modelo de desenvolvimento contrário.pmd 41 24/7/2012. A “moradia” ficava a 500 metros de uma área de mineração de amianto. entre outros pontos: Miolo pororoca. Tornou-se impossível produzir os alimentos para sustento da família. O cheiro de fermentação e os mosquitos completavam o quadro crítico. Entrevistados. Desenvolvimento para quem? O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) é o principal agente financiador da obra. Gozam da gentileza do Estado os setores da mineração. em setores intensivos em tecnologia. induz a um crescimento menor de renda e de produtividade. mas eles não possuem dinheiro para pagar a energia da bomba de irrigação. Um grupo de 42 famílias à época vivia debaixo da lona preta na periferia de Minaçu. por exemplo? Artigo no jornal Le Monde Diplomatique Brasil. A frente deseja pressionar o governo para que reoriente a política do BNDES em favor de um desenvolvimento que busque a superação das desigualdades e promova os direitos sociais. Os belgas denunciaram que eles ficaram sem comida. um conjunto de organizações sociais e políticas compuseram a frente “Plataforma BNDES.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 41 de 20 ha. posto ter de manter a reserva ambiental e a impossibilidade de plantar sobre os morros. reclamam que só é possível produzir em um hectare. indica que tal opção de desenvolvimento intensiva no uso dos recursos naturais.

pesquisadores) verificaram-se: a) O alagamento e a salinização afetam um quinto das terras irrigadas no mundo. incluindo terras irrigadas por grandes barragens e apresentam graves impactos de longo prazo. b) As grandes barragens provocam impactos cumulativos sobre a água. Tucuruí foi o caso selecionado na América Latina. como uma política de saneamento básico. A construção de barragens no Brasil é responsável por 40% do valor da dívida externa. inundações naturais e a composição de espécies quando várias Miolo pororoca. atingidos por barragens. sobre a terra. construtores. Entre os impactos da construção de barragens como a de Estreito os estudos organizados pela Comissão Mundial de Barragens (Banco Mundial. Comissão mundial de barragens adverte Canteiro de obra da hidrelétrica de Estreito/MA – Foto Rogério Almeida Entre os anos de 1997 e 2000 uma comissão realizou estudos sobre a construção de barragens em todo o mundo. a agricultura e a subsistência da população.42 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá a) Fortalecer a economia de base camponesa e familiar.pmd 42 24/7/2012. b) Descentralizar o crédito e fomentar a diversificação produtiva e a inovação técnica. c) Incentivar a participação pública em obras de infraestrutura social. que garanta produção para o mercado interno. muitas vezes permanentes. 14:55 .

não são reassentadas ou indenizadas. Outro irmão não tem notícia faz mais de 15 anos. 14:55 . Nunca durou muito”. “Dinheiro de garimpo parece que é amaldiçoado. conta Francisco. O afortunado é do município de Codó. Francisco acredita que ele mora em Redenção. sudeste do Pará. Teve fortuna em fazendas de gado e casas. e que era muito generoso com as pessoas do seu entorno. d) As grandes barragens provocam o deslocamento de 40 a 80 milhões de pessoas em todo o mundo. Mas. Histórias de garimpeiros Na região as histórias de venturas e desventuras sobre a busca de riqueza fácil em garimpos no Pará é generosa. portanto. Ele soma uns 40 anos e é filho de migrantes do Ceará.pmd 43 24/7/2012. Ele lembra uma pessoa que “bamburrou” (achou muito ouro) até 300 quilos de ouro. Camuru são alguns dos garimpos em que Francisco passou. Mamão. o de Serra Pelada. reflete o moto-taxista.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 43 barragens são implantadas em um só rio (caso da bacia AraguaiaTocantins). estado para o qual nunca chegou a retornar após ter ficado adulto. Pedra Rica. Nas idas e vindas de Francisco ao Pará em busca de riqueza perdeu dois irmãos. como o caso de um garimpeiro que mora em Estreito conhecido como Índio. Rio Maria. Após achar uma pequena porção de ouro foi tocaiado e morto por parceiros de farra em bebidas e cabarés. Fala que não guardou muito da sorte que teve na década de 1980. Francisco lembra que o irmão tinha apenas 16 anos. Num deles ganhou um pouco de dinheiro com o ouro encontrado. Francisco foi o moto-taxista que serviu como guia na ensolarada Estreito. o desaparecimento de espécies e a destruição das áreas de captação à montante devido à inundação da área do reservatório. c) As grandes barragens provocam destruição da floresta e locais selvagens. Francisco informa que passou no maior garimpo a céu aberto do mundo. A perda mais trágica foi a do caçula. muitas das pessoas deslocadas não são reconhecidas (ou cadastradas) como tal e. Quando ele pegou o dinheiro comprou uma penca de carros e invadiu a cidade natal exibindo o “sucesso” em terras paraenses. O nosso guia perambulou pelos garimpos do sudeste do Pará nos municípios de Xinguara. a realidade do garimpo não permite tal atitude. mas não ficou por lá. Redenção e São Félix do Xingu. Miolo pororoca.

Antônio. deparo-me com José Antônio por volta das 11h da manhã de um dia escaldante.44 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá A busca pelas fotos Canteiro de obra da hidrelétrica de Estreito/MA – Foto Rogério Almeida/ 2008 Falo a Francisco do interesse em fazer fotos da obra da UHE de Estreito. Ele sugere que alugue uma canoa.pmd 44 24/7/2012. Antônio entre outras atividades é pescador. nosso timoneiro na arriscada viagem no caudaloso Tocantins. Estreito/MA/2008. 14:55 . Miolo pororoca. Somente ela pode levar você até o local onde a construção começou. Numa viagem até um portinho tenho sorte. feirante e dono de sítio.

Uma barraca comercializa bebidas. No portinho algumas embarcações. A viagem ganha em emoção posto o motor da canoa padecer de panes quando esquenta. Moradores se divertem no rio e tomam umas pingas. Antônio sugere cuidado. Antônio limpa a merda dos porcos da canoa e iniciamos a viagem. Acusando cansaço resistiu em pegar a empreitada de uma viagem que durou mais de uma hora (ida e volta) no caudaloso Tocantins até o canteiro da obra. numa paisagem aonde é possível se avistar babaçuais e outros tipos de vegetação que antecipam a nossa chegada. Portinho na cidade de Estreito/MA Dragas.pmd 45 24/7/2012. barcos de vigilância. 14:55 . Segundo ele. A passagem de uma embarcação veloz conhecida como voadeira forma banzeiros e faz a nossa canoa sacudir no meio do Tocantins. Miolo pororoca. As casas humildes destoam do gigantismo da obra vizinha. onde foi buscar a esposa e uns porcos para criar no sítio que tem na periferia do município de Estreito. O pescador avisa que os vigilantes do barco ficam ali para impedir a passagem dos ribeirinhos quando usam dinamite na obra.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 45 Passou toda a manhã numa exaustiva viagem. as explosões são comuns no raiar do dia e no apagar da tarde. O jeito é parar e apreciar a paisagem. Ainda de onde saímos é possível avistar o local. A arquitetura de compensado e cobertura de palha socorre os moradores nos dias de chuva.

que acabou sendo espancado pelos operários. atentado à bala de um gerente de operações contra militantes contrários à instalação da barragem. município de Estreito/MA. Foto Rogério Almeida/ 2008 Há luz nos grotões? A instalação da hidrelétrica de Estreito coleciona diversos capítulos. a geração de emprego e o desenvolvimento são os Miolo pororoca.46 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá Máquinas no rio Tocantins. apoiados pelo MST. greve de operários do canteiro de obras por conta da péssima qualidade da comida e assédio moral de um gerente. 14:55 . mobilizações do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). O progresso.pmd 46 24/7/2012. as ações nos Ministérios Públicos do Maranhão e Estreito. Os relatórios de impactos socioambientais amplamente criticados.

entre outras. passa pelo incentivo à criação de associações de fachada. doação de ambulância. Escritórios do consórcio se espraiam em cidades estratégicas nos dois estados. no mês de julho indicam que não. Isso foi verificado desde o processo de audiências públicas. 14:55 . A força da “grana” coopta de clérigos a políticos. Um posto de atendimento ao migrante localizado na pequena rodoviária indica às pessoas que preencham ficha no Sistema Nacional de Emprego (SINE). Enquanto isso as obras avançam sobre o rio. em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI). A propaganda é a alma do negócio? Os boletins do Ceste celebram uma série de ações junto aos mais diversos segmentos da sociedade. Os jornais do consórcio celebram ainda cursos que passam pela “inclusão digital” com a Colônia de Pescadores Z-35.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 47 argumentos dos alinhados na defesa do projeto. São ofertados ainda. As audiências que seriam um espaço de debate possuem ares de congresso de “partido único”. Tudo é flor nesse jardim? Uma série de reportagens de Beatriz Camargo. Não raro os boletins inundam suas páginas com depoimentos de famílias que já foram desapropriadas pelo Consórcio. com vistas a serem desapropriados com um melhor preço pelo consórcio. como no caso da Associação de Atingidos pela Barragem. Qualquer voz que destoe de tal perspectiva é tratada como ressonância de forças externas que não desejam o progresso do país. doação de computadores a unidades de saúde. sempre com filas enormes. É comum a ojeriza a movimentos sociais e manifestações de xenofobia a análises e ONGs internacionais que fazem oposição ao modelo do empreendimento. O certo é que desde o começo do processo há uma série de temas nublados. que se manifestou contra o acampamento do MAB. cursos de panificação e costura. Sobre a especulação imobiliária. A não inclusão dos povos indígenas como setores que podem ser afetados pela construção é outro ponto. sobre as histórias das populações Miolo pororoca. publicada no site Repórter Brasil. isso na capital ou no interior. o que traduz uma confusão sobre o papel do Estado e o da empresa. a série indica que houve pressão por parte de pessoas de empresas terceirizadas na compra de imóveis.pmd 47 24/7/2012.

no rio Parnaíba. Vai ser desabrigado. Foto: Rogério Almeida/2008 Sindicato dos trabalhadores rurais (STR) Raimundo Carvalho. no estado do Piauí na década de 1960. ganhava um dinheirinho e podia trabalhar a família por muito tempo.48 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá locais. Aos poucos o povo vai aprendendo que não é bem assim. Miolo pororoca. Dinheiro não é tudo na vida”.pmd 48 24/7/2012. Ele alerta que a média de indenização tem sido de R$ 30 mil. e também um atingido pela própria obra que ajudou a erguer. conhecido como Cabeça Branca. Ele teme pelos idosos. dirigente sindical rural de Estreito. Tem uns 80 anos. “Com a terra a gente comia todos os dias. Carvalho lembra que com o dinheiro que ganhou não conseguiu comprar nem um metro de terra depois. arremata o senhor. O que ele vai fazer aqui na cidade?”. “Tenho um colega que mora só. 14:55 . Aterramento do rio Tocantins. a reconfigurar uma região prenhe em conflitos na disputa pela terra e recursos naturais nela existentes. Carvalho foi operário na construção da barragem de Boa Esperança. Estreito/MA. interroga o sindicalista. explica que no começo todo mundo achava que a barragem ia ser boa.

Foto Rogério Almeida/2008 Delfino Araújo é o presidente do recém-criado Sindicato da Construção Civil de Estreito. 14:55 . Miolo pororoca. para que possa garantir uma intervenção qualificada. no município de Estreito/MA. O dirigente alerta que o sindicato necessita tomar pé dos dados. Sobre a paralisação de 11 dias dos operários no mês de julho. O sindicato ainda está em fase de construção.pmd 49 24/7/2012. que tem 140 sócios como fundadores. Araújo relata que as condições precárias de trabalho e a ração foram os motivadores. Ele explica que o registro para a criação do sindicato foi publicado no Diário Oficial em fevereiro deste ano.sindicato em construção Carvalho. Araújo ainda não sabe quantificar quantas empresas estão no canteiro de obras da hidrelétrica e nem o número preciso de operários. é o que se conclui após a conversa com o dirigente.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 49 Construção Civil .dirigente sindical rural. Ele informa que já solicitou os dados para o setor responsável.

a crise econômica mundial ainda não havia dado o ar de sua graça nestas plagas regionais. promoveram vários expedientes para manter o quadro funcional. sudeste do Pará e no município de Açailândia. Foto: Rogério Almeida/2008 5 .forumcarajas.br em novembro de 2008. município de Estreito/MA. no Centro de Convenções Hangar em Belém.50 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá Paisagem na beiro do rio Tocantins. As empresas instaladas nas cidades de Marabá. O vendaval da especulação na economia fez com que o polo de siderurgia de Carajás entrasse em refluxo. presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Açailândia.Siderurgia em crise: o vendaval da economia especulativa e a mineração na Amazônia5 Quando o Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) anunciou a realização da Exposição Internacional da Mineração da Amazônia. O anúncio foi realizado pelo menos um mês antes. oeste do Maranhão. Sampaio informa que o setor 5 Trabalho publicado no site da rede www.org. reflete que o clima é de incerteza. ocorrida entre 10 e 13 de novembro de 2008. entre eles férias coletivas. A imprensa do município salienta que o comércio local já foi atingido pela crise e que houve uma redução de 25% em sua dinâmica. 14:55 . Miolo pororoca. José Sampaio.pmd 50 24/7/2012.

Rio Grande do Sul e Bahia. como São Paulo. 14:55 .00 a US$600. O ferro-gusa da região tem os EUA como o principal destino.00 e por último as empresas estrangeiras ofereciam US$380. Ao se considerar o delicado contexto. Cogita-se que pelo menos cerca de 80% do superávit da balança comercial do Pará deve-se ao extrativismo do minério de ferro. 25 empresas são do Pará. em agosto ocupou a casa de US$500. Santa Catarina. Minas Gerais. ganhou outros ares. O mercado americano consumiu no ano de 2007 cerca de 5. a tonelada que chegou a US$900. o evento que propagou ser uma oportunidade de lançamento de novas tecnologias e métier de negócios.00 no começo de 2008. conforme matéria do Valor Econômico do mês de outubro. Ceará. Rio de Janeiro.95 milhões de toneladas. O sindicato tem orientado para que os operários não façam dívidas. e muito se deve aos números estratosféricos da mina de Carajás.pmd 51 24/7/2012. O site oficial do evento festeja a participação de 85 empresas de várias partes do país. mais de 60% das exportações nacionais. O Estado é um gigante do setor. O clima do evento tornou-se mais Sampaio. Foto: Rogério Almeida/2008 Miolo pororoca.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 51 deu férias coletivas a 20% dos funcionários no dia 31 de outubro. A queda de preços tem sido vertiginosa. deste total.00. Paraná.00 quando o patamar suportável é a casa dos US$500. sindicalista em Açailândia/MA.

já sentem no ar o cheiro de oportunidades para o lucro. corporações globais) como um novo Eldorado (GAZELOTO. 2007). esclarece com sobriedade a disputa sobre a categoria. publicado na edição 36. Para essa parcela. Carreta de carvão na região de Açailândia/MA. setembro de 2007 da revista Democracia Viva/IBASE. outro mundo desponta. o professor de semiótica Edílson Cazeloto em artigo intitulado “Entre ecorrevolucionários e ecorreformistas o papel da mídia”. segundo eles. os bens aventurados do capital. Parece que os especialistas são de outro planeta. Entre os libertados. As grandes corporações da mineração em nota à mídia celebram os louros do evento. onde.pmd 52 24/7/2012. Em um trecho da análise o professor enfatiza: Enquanto a maior parte da humanidade vê no aquecimento global a iminência de uma tragédia ímpar. a sustentabilidade tornou-se uma forma de agregar valor às marcas de seus produtos e ao capital de suas empresas. Ao se visitar os grotões onde as empresas operam. mulheres e adolescentes de 15 anos. É o chamado capitalismo verde. 14:55 .52 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá sombrio com a libertação de 51 pessoas em condições análogas a escravidão em carvoarias no sudeste do Pará no dia da abertura. Foto: Rogério Almeida/2008 Miolo pororoca. que vem ganhando a adesão de empresas (na maioria. Sobre a questão. pode-se notar a preocupação com a questão da sustentabilidade.

com a adesão de 11 empresas. 14:55 . A atividade aporta no Pará na década de 1980. A Vale é a responsável pelo fornecimento da matéria-prima para a produção de gusa do polo de Carajás. A iniciativa é no mínimo estranha. um dos itens Ponte ferroviária da Vale que escoa o minério de ferro no município de Açailândia/MA Foto: Rogério Almeida/2008 Miolo pororoca. por mais de 60% das exportações brasileiras de ferro-gusa. No Brasil a atividade ganha relevância no início dos anos de 1930. que se deu a partir de uma política de renúncia fiscal através da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM). O polo Carajás é constituído por 15 empresas. O autor acompanha de velha data os abissais processos de transformações da região de Carajás.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 53 O polo de Carajás – Em seu artigo. através do Programa Grande Carajás (PGC). Medidas mitigadoras? A pressão nacional e internacional fez com que o setor lançasse em fevereiro de 2007. informa site do Sindicato das Empresas de FerroGusa do Estado do Pará. São responsáveis. que há mais de duas décadas ativa uma série de cadeias de destruição ambiental e de formas análogas de trabalho escravo através da produção de carvão vegetal. atualmente.pmd 53 24/7/2012. sendo oito no Pará e sete no Maranhão. No século XIX a indústria impulsionou a economia dos Estados Unidos. o sociólogo e agrônomo Raimundo Gomes da Cruz Neto dispara que já no século VII temse registro da atividade de siderurgia no mundo. o principal insumo na indústria do aço. posto que entre as exigências para a instalação das empresas na região. tempos de Getúlio Vargas. Um dos setores interessados é a indústria bélica. um fundo de reflorestamento. no apagar da ditadura militar.

No caso das novas frentes de mineração. Miolo pororoca.54 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá impostos recai sobre uma política de reflorestamento. Como a produção de gusa na região Norte em 2003 foi de 2. só no Distrito Industrial de Marabá estão em funcionamento oito siderúrgicas. Um dos muitos descumpridos. na região de Paragominas e em Marabá e São João do Araguaia. 14:55 . São Félix do Xingu. a sudeste. explica que para a produção de uma tonelada de ferro-gusa é preciso queimar 2. David Carvalho. Tucumã. Neste contexto. também professor da UFPA. O propósito era a implantação de fábrica de celulose. para uma produção de quase três milhões de toneladas de ferro-gusa. Hoje. em vários artigos sobre a mineração atesta tratar-se de um projeto de enclave. isso representa a queima de 5. que não veio a deslanchar. com a destruição do cerrado. travestida em responsabilidade social? Por essas e outras.6 toneladas de madeira. a Secretaria de Meio Ambiente realizou várias operações de fiscalização para ajustamento de condutas das empresas.20 anos de destruição”. economista. No Maranhão existe desde remotos tempos. ou seria uma mera questão de marketing. No Pará. O que ocorreu foi o não cumprimento de um item do acordo por parte das empresas. devido ao recuo de um grupo oriental. que ultrapassam a fronteira de Carajás. Antes do turbilhão da crise o cenário da mineração no Pará vivia um momento de ampliação com a expansão de várias frentes de exploração. Paragominas e Juruti. se fosse aplicado o que rege o Código Florestal e a Lei de Crime Ambiental. Vale e Alcoa protagonizam o momento de transbordamento das frentes. não dinamiza a economia local. professor da Universidade Federal do Pará (UFPA). perfazendo um total de 17 alto fornos. Xinguara. que poderia ter chegado a R$ 770 milhões.pmd 54 24/7/2012.2 milhões de toneladas.7 milhões de toneladas de madeira. a monocultura de eucalipto tem florescido em alguns municípios do nordeste do estado. em resumo. Outra medida no sentido de fazer oposição ao trabalho escravo foi a criação do Instituto Carvão Cidadão (ICC). recupera Raimundo Gomes em artigo intitulado “Siderurgia em Carajás . Maurílio de Abreu Monteiro. o momento é marcado por tensão entre trabalhadores rurais assentados pela reforma agrária. as siderúrgicas foram multadas em R$ 550 milhões no ano de 2005. como no caso dos municípios de Ourilândia do Norte.

Conforme o MPF. a ação tramita na Vara Única Federal de Redenção. 14:55 . As organizações de defesa dos direitos humanos da região. permitindo uma situação em que os prejuízos se concretizaram para os índios e a mineradora recolhe os lucros sem cumprir obrigação nenhuma.pmd 55 24/7/2012. O MPF quer a condenação da Vale a pagar todos os danos materiais e morais causados a esses povos nos últimos dois anos. do grupo Vale. como a Comissão Pastoral da Terra (CPT). As indenizações devem ultrapassar a casa de mais de R$ 1 milhão por mês para cada comunidade afetada. O procurador da República André Casagrande Raupp. tornaram a situação pública. sustenta que a Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Pará (Sema) impôs condicionantes ao empreendimento para assegurar a sobrevivência física e cultural dos povos indígenas afetados.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 55 indígenas e a Mineração Onça Puma. Foto: Rogério Almeida/2008 Miolo pororoca. em que o empreendimento não cumpriu as medidas mitigadoras. mas concedeu todas as licenças sem cobrar o cumprimento de condicionantes. Placa indica o perigo na área de depósito dos resíduos do polo de gusa em Açailândia/ MA. Em maio de 2012 o Ministério Público Federal (MPF) do Pará solicitou a suspensão das atividades do projeto que explora níquel em Ourilândia do Norte. responsável pelo caso. O ponto de tensão são termos condicionantes em favor dos povos indígenas Xikrin e Kayapó.

Vale do Pindaré. Distrito de Pequiá. esta de ordem trabalhista. Famílias afetadas pela poluição das empresas. Gusa NE e Fergumar y Simasa. no município de Açailândia operam quatro empresas. Todos os resíduos ganham a vizinhança sem nenhum tratamento. tem sido maior que o crescimento nacional. Outra questão. Dessas duas dezenas de cidades. Os estudos foram realizados por meio do Projeto Prodes – Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite/2007. Gusa em Açailândia .pmd 56 24/7/2012. Foto Rogério Almeida/2008 21 municípios do Pará estão entre os 100 que mais desmatam na Amazônia. enquanto o faturamento da Vale cresce. onde se localiza o polo de gusa no município de Açailândia/MA. 19 estão no sudeste do Pará. em particular da Gusa NE. que além da mina abriga o polo siderúrgico. Boa parte desses municípios ocupa linha de frente em desmatamento e também lidera o ranking de violência. a região de Carajás coleciona passivos de toda ordem. reside em índices recordes de ações contra a Vale no município de Parauapebas. Somente no Pará. 14:55 . O descompasso rege a modalidade de extrativismo mineral. Relatórios da área ambiental atestam que as empresas não nutrem demasiado zelo quando o assunto é meio ambiente. somase ao setor a Lei Kandir.A oeste do Maranhão. com sede em Belo Miolo pororoca. que isenta de imposto a exportação dos minérios e semielaborados.56 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá Não bastassem as questões de ordem ambiental e social. Viena Siderúrgica.

datado de 2007. A empresa opera amparada por Licença de Operação fornecida pela Secretaria de meio Ambiente do Maranhão. by irmão Antonio/2008 Dois relatórios que abordam os impactos do polo de gusa sobre a vizinhança se complementam quanto aos danos provocados à saúde das famílias do Distrito Industrial de Pequiá. Estudo realizado pela engenheira ambiental Mariana de la Fuente Gómez. dois senhores que mobilizam os moradores para a organização da luta pelos seus direitos.pmd 57 24/7/2012. Informações do relatório da perícia ambiental realizada no fim de 2006 e apresentado em março de 2007 pelo perito Ulisses Brigatto Albino. 14:55 . lembram que a comunidade existe desde a década de 1970. ratifica os dados sobre os danos ao meio ambiente e à saúde dos moradores da região. têm denunciado a questão. e que o polo começou nos anos 1980. vencida no dia 19 de outubro de 2008. Miolo pororoca.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 57 Horizonte e filiada ao ICC. onde as empresas encontram-se instaladas. para a Vara Judicial da Comarca de Açailândia indicam desleixo em várias situações sobre a operação da Gusa NE. Edvar e Joaquim. Tempestade de escória em Pequiá-Açailândia/MA. No total são 20 processos contra a empresa que reivindicam indenizações da gusa e que duram mais de três anos. Eles recordam que ainda havia muita mata na região e que a exploração da madeira foi a primeira frente da economia do lugar.

que emitem grande quantidade de fuligem de carvão e minério. Problemas de ordem respiratória. muitas de madeira e não atendidas com saneamento básico. Foto irmão Antonio/2008 Distrito de Pequiá As casas ficam imprensadas entre a BR-222. Os riachos padecem com os resíduos das fábricas e com o esgoto sem tratamento das moradias. fuligem.58 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá Poluição no Distrito de Pequiá-Açailândia-MA.500 famílias em moradias humildes.pmd 58 24/7/2012. o que já registrou até o óbito de uma criança. águas poluídas e escória são alguns dos agentes da poluição da comunidade de Pequiá. poeira. num elevado. Os pátios das empresas ficam próximo aos quintais das casas. Miolo pororoca. A empresa Gusa Nordeste opera três altos-fornos. 14:55 . Em todas as seis casas visitadas pelo perito o pó da fuligem foi encontrado. e as empresas. alergias. A idade das árvores dos quintais. dores de cabeça são algumas das queixas dos moradores. A perícia indica que a presença das famílias antecede a das indústrias. muitas com mais de 20 anos. que soma cerca de 1. nenhum possui filtro antipartículas nas chaminés. Gases. ultrapassa o período de instalação das gusas e (confirma) atesta a tese.

d) gases . minério e o seixo compõem parte da matéria-prima para a produção do minério. e) água de resfriamento .POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 59 Via pública de Pequiá. O laudo do perito Ulisses Brigatto revela uma enxurrada de problemas. b) poeira . Foto: Rogério Almeida/2008 Entre as poluições provocadas pela Gusa NE a perícia ambiental verificou os seguintes pontos: a) fuligem . posto o composto ser transportado através de esteiras.a água é que faz o resfriamento dos altos-fornos. a drenagem das águas das chuvas. A água contém ferro e outros elementos provenientes da siderurgia e pode carreá-los para corpos d’água localizados próximos à fábrica. Os resíduos são lançados para fora da empresa para Miolo pororoca.provoca a poluição do ar. Uma trituração antecede a queima nos altos-fornos. carregando resíduos que atravessam vários quintais. os gases emitidos no processo contribuem para o aquecimento global. 14:55 .pmd 59 24/7/2012. A temperatura oscila de 1800 a 2000º C. A análise do perito sinaliza que ainda que não prejudiquem a saúde humana. é retirada do riacho Pequiá e armazenada em caixa d’água. Soma-se aos indicados acima.carvão vegetal. Através da gravidade a água resfria os fornos e volta ao riacho. Açailândia/MA.a ausência de filtros químicos ou aparelhos de incineração de gases faz com que vapores provenientes da combustão dos altos-fornos sejam lançados na atmosfera e espalhados pelo vento. A Gusa NE não conta com rede de captação e tratamento de águas pluviais. O laudo da perícia ambiental atesta que as poças de água são comuns nos pátios da empresa. o que provoca a emissão de pó.

Foto: Rogério Almeida/2008 O contato com o ambiente pode causar sérios danos à natureza e intoxicação de plantas. continua a ser lugar de diversão de alguns moradores. Um grave problema é a escória. pode ser usada em fertilizantes. ainda que poluído. 14:55 .60 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá Escória da produção de ferro gusa-Pequiá-Açailândia-MA. Uma parte do resíduo pode ser usada na construção civil. Foto: Rogério Almeida/2008 uma lagoa a 400 metros de distância. Outra. que fazem parte da dieta das famílias. calçamento de rodovias ou como suporte de construção de ferrovias.pmd 60 24/7/2012. A escória é depositada a céu aberto próximo a um riacho conhecido como Quarenta. que alguns tratam de “munha” ou “moinha”. pessoas e animais. Escória da produção de ferro gusa-Pequiá-Açailândia-MA. Miolo pororoca. se devidamente tratada. Há registro da poluição das águas dos poços consumidas pelos animais domésticos.

Dona Francisca reclama do ruído. informa a senhora. incineradores de gases e rede de drenagem. Miolo pororoca. uma montanha a céu aberto. O CDVDH também é procurado em casos de trabalho escravo. Francisca. Todo mundo da casa saiu correndo para a rua com medo de explosão”. ONG com sede em Açailândia tem sido um mediador da luta das comunidades afetadas ao lado dos padres e irmãos cambonianos. O laudo sugere a remoção das famílias que moram próximas à Gusa NE.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 61 É comum a lavagem de carros e a visita de animais. ao contrário do que ocorre hoje. D. Vizinhos em conflito Francisca da Silva é uma senhora negra e energética. que praticamente fica no quintal de sua casa. Foto: Rogério Almeida/2008 O Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos (CDVDH). sujeita a ser espalhada sobre as moradias próximas por conta das pancadas dos ventos. Outro dia a fábrica soltou um gás na madrugada. O laudo de Brigatto propõe que a empresa se equipe com filtros antipartículas nas chaminés. E que a escória seja acondicionada em uma caixa de concreto. “Tenho um marido adoentado pelo derrame. 14:55 .queixa-se da poluição das fábricas-Açailândia-MA.pmd 61 24/7/2012. posto a indústria operar 24h ininterruptamente. É esta ONG que denuncia dois graves acidentes na escória depositada a cerca de 450 metros da fábrica. Fala com profunda indignação sobre os impactos da fábrica.

Todos os casos foram encaminhados para o Ministério Público Federal. O segundo acidente ocorreu em novembro de 2001. O coletivo busca a partir de estudos realizados pelas universidades federais do Maranhão e Pará.62 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá Os relatórios do CDVDH indicam que o primeiro ocorreu em setembro de 1992 com um garoto de oito anos. a construção de medidas que diminuam os impactos do setor nas comunidades atingidas e a garantia de um fundo de desenvolvimento. a empresa garantiu o tratamento em clínica particular para o rapaz. o vitimado e o CDVDH. Ivanilson Rodrigues. Seminário Justiça nos Trilhos. As demandas colocadas acima é que mobilizam um coletivo de organizações populares no movimento “Justiça nos Trilhos”.pmd 62 24/7/2012. com o jovem de 21 anos. Gilcivaldo veio a óbito no mês de dezembro do mesmo ano do acidente. Gilcivaldo Oliveira de Souza. em Belém. A família narra que o menino se acidentou na montanha da escória e que provocou queimaduras de terceiro grau. Após várias situações de conflito entre a empresa. prática comum para a produção de carvão. em 1997. A empresa argumenta em sua defesa que o garoto se acidentou em uma caieira. O segundo com outro garoto de sete anos. O grupo realizou uma série de debates sobre as questões durante o Fórum Social Mundial. 14:55 .Pequiá-Açailândia-MA Foto: Irmão Antonio Miolo pororoca. que ocorreu entre janeiro e fevereiro de 2009. extinto após a privatização da Vale. O jovem sofreu queimaduras de terceiro grau e carece de cuidados especiais.

24 anos atrás 3 .Agrobiodiversidade na Amazônia: movimentos sociais apontam agroecologia como forma de desenvolvimento 5 .POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 63 02ª .Araguaia .pmd 63 24/7/2012.Tocantins: fragmentos de 20 anos de Luta pela Terra 2 .Bico do Papagaio: dias de sangue. Daniel Dantas e outros sujeitos 4 .Carajás – interesses da Vale pressionam territórios de camponeses e indígenas Miolo pororoca.Parte ARAGUAIATOCANTINS TERRITÓRIO EM DISPUTA 1 .A luta pela terra na Amazônia: camponeses/as a família Mutran.Carajás. Pará e o mundo das águas do Baixo Tocantins 8 . dias de UDR.O julgamento do caso João Canuto: tudo uma ilusão? 6 . o novo cenário? 7 .Amazônia. 14:55 .

Campina Grande .ARAGUAIA-TOCANTINS: fragmentos de 20 anos de luta pela terra6 É lugar comum dedicar aos anos redondos algumas linhas. Ainda hoje a obra é leitura indicada aos que buscam compreender a aguda disputa pelos recursos naturais e território na região celebrizada sob a lente triste onde mais se matou camponeses no Brasil. Na fronteira agromineral concorrem índios. camponeses de toda ordem. como preferem alguns. o artigo foi publicado na Revista Democracia Viva. madeireiros. o Castanhal Araras. janeiro de 2009. Seja no sentido de exaltar ou de oposição. ou saque. Período igual de vida tem a obra “A oligarquia do Tocantins e o domínio dos castanhais”. sociais. política.64 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá 1 . Brasil. com a efetivação do campesinato na fronteira. realizado de 9 a 12 de setembro de 2008. recupera elementos políticos. deputado Paulo Fonteles. Artigo apresentado no 3º Encontro da Rede de Estudos Rurais. reconhecido pela militância junto aos (às) camponeses(as). A dissertação de mestrado defendida no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA). jurídicos e econômicos que concorreram para a construção da oligarquia no sudeste paraense.pmd 64 24/7/2012. Além dos anais do encontro. No ano de 2007 alguns fatos relacionados com a luta pela terra no Pará somam duas décadas. Ao longo dos séculos é o extrativismo que tem regido o diapasão da economia amazônica. empresas mineradoras. sob a orientação do professor Jean Hébette. com terra ou ocupantes. 14:55 . assinada pela professora Marília Emmi. além de garimpeiros. do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE/RJ) e em vários sites. 6 Miolo pororoca. que atualmente renomeada para Vale. a Companhia Vale do Rio do Doce (CVRD). no município de São João do Araguaia. É de almoxarifado a condição irreversível da região? Cá aflui a tecnologia de ponta de uma das principais mineradoras do mundo. nº 41. Ao longo das duas décadas ocorreu no sul e no sudeste do Pará uma reconfiguração que passa pela dimensão física. fazendeiros. Faz 20 anos que o primeiro projeto de assentamento (PA) da reforma agrária no sudeste do Pará foi criado. da Universidade Federal do Pará (UFPA). Mesmo tempo do assassinato do advogado ligado ao PCdoB.PB. social e econômica.

escravizados para amansar a floresta.938. por posseiros. que alimenta empresas de produção de alumínio no município de Barcarena. Uma foto 3x4 do que foi a conquista da fronteira. energia. Estado e o capital nacional e internacional dançavam de mãos dadas numa trilha sonora econômica marcada pelo planejamento pragmático. Assim. Numa viagem no quente rincão. baseada em polos de produção: madeira. em 15 de janeiro de 1987. início a desconstrução do que ficou conhecido como polígono dos castanhais. O Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) destoa em algo? Terra arrasada . Pedaço de chão onde se agita um “movimento” separatista ancorado num discurso emocional que visa ao calor de cada eleição. Dava-se. Fruto de atos de ocupação.4728 hectares foram assentadas 92 famílias do que veio a ser o primeiro PA da reforma agrária no sudeste do Pará.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 65 com formas rudimentares de cultivo.058. Tem sido assim ao longo das eras: a eterna construção e desconstrução dos territórios e a alternância de poder. São Luís. O mesmo se dá a oeste e sul do Maranhão. Nas serrarias.dias de luta Para que um território seja construído outro deve fenecer. Miolo pororoca. da terra indígena do povo Gavião e inúmeros acampamentos em órgãos públicos. Consultada em plebiscito. localizado no município de São João do Araguaia. a população paraense rejeitou a tese pela divisão do estado. Nas rodovias estaduais e federais. assim. sob o decreto de número 3. Na região a floresta arde em carvoarias para a produção de carvão vegetal que alimenta siderurgias no Maranhão e Pará. montanhas de resíduos de madeira ladeiam as oficinas. Ao longe o gado busca sombra sob a torre de alta tensão do linhão da hidrelétrica de Tucuruí. numa área de 5. 14:55 . e na capital do Maranhão.pmd 65 24/7/2012. em novembro de 2011. Locus onde não raro trabalhadores são libertados aos montes do cativeiro da terra. cerca e pasto entediam qualquer viajante. de propriedade da estadunidense ALCOA. a criação do estado de Carajás. Uma terra marcada por passivos de todos os vernizes. mineração e siderurgia. assaltanos uma paisagem de terra arrasada. o Castanhal Araras. em todos os sentidos. gado. que cede cada vez mais lugar ao gado e a monoculturas e novas frentes mineradoras. no Pará. controladas pela CVRD.

66 |

POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá

Cupuaçu, castanha-do-Pará, pupunha, açaí constavam na flora do lugar. Um experimento de modelo de organização social e política através de fomento de caixa agrícola, organização de movimento de mulheres, realização de festival ecológico foram realizados no PA Araras, a 40 km de Marabá. A ONG Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (CEPASP) foi um dos principais animadores no PA. Pelo pioneirismo a comunidade acabou por servir de berço a vários dirigentes que ocuparam e ainda ocupam cargos na Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Pará (Fetagri) e na central de cooperativas da região. Conseguiu eleger vereadores e até um viceprefeito. A experiência de Araras se alastrou para os municípios vizinhos de Nova Ipixuna e Eldorado do Carajás. O prognóstico na fronteira não previa a permanência do campesinato. Sucedia afirmar que o mesmo seguiria em itinerância cedendo lugar à “eficiência capitalista”. Mas, o que se desnudou no sudeste seguiu o sentido contrário. Até fevereiro de 2006, a Superintendência Regional (SR) 27 do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), contabilizava 450 PA no sudeste e sul do Pará, além de cem áreas em avaliação para desapropriação. O universo de 58.152 famílias se espraia por 14.753419.1623 hectares, o que corresponde a 52% do território de 36 municípios do sul e sudeste do Pará, gerenciados pela SR-27, INCRA de Marabá. Os dados do INCRA indicam um déficit a menor de 26.909 famílias. À primeira vista tem terra sobrando. Então o que falta para ocorrer a distensão? Sabe-se que cortar a terra (demarcar) é apenas um passo. Mas, há como inverter a agenda de pesquisa dos institutos, coadunar ações conjuntas das diferentes esferas do poder público com vistas a melhorar a qualidade de vida do (a) assentado(a), ainda prenhe de precariedade? Defende-se que a região deva ser ocupada por cientistas, que o conhecimento preceda os sistemas de uso dos recursos naturais, mas questiona-se: que ciência cara pálida, para quem? Aos alinhados ao capitalismo agrário, não tem sentido a efetivação de PA, aos olhos deles, uma mera representação do atraso ou favelas rurais, como preferem. A territorialização camponesa iniciada ao apagar das luzes da década de 1980, além da dimensão física, registra a construção de

Miolo pororoca.pmd

66

24/7/2012, 14:55

POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá

| 67

representações políticas e institucionais. Como a efetivação de uma regional da FETAGRI, o MST e a recentemente criada Federação dos Trabalhadores Rurais na Agricultura Familiar (FETRAF). Tratase de uma cidadania conquistada e não concedida, que ultrapassa os limites da mera análise física da reconfiguração da região. Considerase prudente ponderar sobre o reconhecimento político, social e econômico da categoria. Tem-se registro da criação da Escola Família Agricultura (EFA), com sede em Marabá, dedicada aos (às) filhos (as) dos (as) assentados (as), da edificação de cooperativas e associações de produtores e prestadoras de assistência técnica, aos moldes da COOPSERVIÇOS, ligada à Fetagri, bem como da mobilização de uma organização de combate à impunidade no campo, como o Comitê Rio Maria. Instituição que conseguiu levar a julgamento os assassinos dos militantes Expedito Ribeiro e João Canuto, ainda que a luta tenha ultrapassado a casa de uma década. Mas, a naturalização das mortes de camponeses(as) e a impunidade tem sido a regra. Ainda na esfera da educação, a primeira turma de Pedagogia foi formada no ano de 2006, e encontra-se em curso a primeira turma de Agronomia, e debate em torno da formação de uma turma de Letras. Ainda que insuficientes, têm-se políticas de crédito para fomento, produção e moradia. Como se nota, são direitos garantidos pela Constituição e somente efetivados através de mobilizações. O que há de demoníaco nisso? Qual o sentido da parcialidade nos meios de comunicação de massa sobre a ação da categoria, o de criminalizar a ação da mesma? Os ricos fazem lobby, os marginais mobilização. A memória é outra dimensão do processo de territorialização, como a nomeação de PA e ocupações com nomes que lembram chacinas e mortos na disputa pela terra. A exemplo do PA 17 de Abril, em memória dos mortos no Massacre de Eldorado, Paulo Fontelles, Gabriel Pimenta, ambos advogados, José Dutra da Costa (Dezinho), militante da FETAGRI assassinado em 2000, no município de Rondon do Pará, a ocupação 26 de Março, que homenageia os militantes assassinados do MST “Fusquinha” e “Doutor”, PA Pe Josimo Tavares, PA Expedito Ribeiro, entre tantos. Registre-se ainda, que locais marcados por chacinas de posseiros na década de 1980, a mais sangrenta, são hoje PA, como o Castanhal Cuxiú e Ubá e a fazenda Princesa.

Miolo pororoca.pmd

67

24/7/2012, 14:55

68 |

POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá

Na dimensão política tem-se a exoneração de dois superintendentes do INCRA de Marabá, Petrus Emile Abi-Abib e Victor Hugo da Paixão. Bem como, a participação dos representantes dos assentados no processo de definição do Programa Operacional (PO) da SR-27 que até 1997 era definido a portas fechadas entre prefeitos e técnicos do INCRA. Verifica-se a participação dos dirigentes na disputa por cargos no legislativo e executivo municipais, que tensiona o status quo nos rincões. Se antes não se decidia um pleito eleitoral sem a mediação da família Mutran, - o tronco familiar com maior robustez no tempo dos castanhais - registra-se nos dias de hoje um refluxo. Atualmente não tem nenhum representante na Câmara Municipal de Marabá, e quase não goza de influência nos pleitos do Executivo. Na derradeira eleição a representante da família, ex-deputada estadual Cristina Mutran, saiu como vice numa chapa encabeçada por também exdeputada estadual Elza Miranda, que conseguiu somente o terceiro lugar. Registra-se ainda a perda do único assento na Assembléia Legislativa. A fazenda Peruano, localizada no município de Eldorado do Carajás e a Cabaceiras, localizada no município de Marabá estão ocupadas pelo MST. A última foi desapropriada recentemente. As mesmas constam no livro da “lista suja” do trabalho escravo do Ministério Público do Trabalho (MPT), assim como a Mutamba. A fazenda Cedro, também em Marabá, foi repassada ao banqueiro Daniel Dantas, que tem adquirido inúmeras fazendas na região com o maior rebanho de gado do Pará. Se nas décadas pretéritas o universo camponês do sudeste paraense era povoado por vários mediadores, como a Igreja Católica através de suas Pastorais e das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), o Movimento de Educação de Base (MEB), partidos políticos legítimos e clandestinos, ONG, Universidade Federal do Pará via programa do Centro Agro-ambiental do Tocantins (CAT), tem-se hoje uma apropriação do discurso pelo próprio ator social, o camponês, motivo de inquietação de um cipoal de pesquisas. Sublinhe-se que no início da desapropriação dos castanhais era o ministro da reforma agrária nada mais, nada menos que o senhor Jader Barbalho, no então governo do presidente José Sarney, instantes da redemocratização do país. A corda e a caçamba. A pasta da

Miolo pororoca.pmd

68

24/7/2012, 14:55

POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá

| 69

comunicação tinha como titular o finado ACM. Era ou não era uma linha de ataque capaz de causar terror a qualquer defesa? Cumpre pontuar que o processo serviu mais para oxigenar a vida econômica dos coronéis, enquanto a luta dos posseiros de São João do Araguaia foi assim desvirtuada do seu sentido original. Dias em que os latifundiários, mobilizados no que ficou conhecido como “Centrão”, fizeram radical oposição ao Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA). Radicalização que ganhou aspectos de esquadrão da morte através de sua entidade de representação, a União Democrática Ruralista (UDR), que tinha (tem) como timoneiro o goiano Ronaldo Caiado. O Bico do Papagaio, sudeste do Pará, oeste do Maranhão e o norte do atual estado do Tocantins, saíram do anonimato neste período. Região imortalizada pelas inúmeras chacinas e execuções de camponeses(as) e seus pares. Números da luta e institucionalidades Nos anos de 1987/1988 foram desapropriadas 24 áreas/castanhais para fins de reforma agrária. Entre 1989 e 1991 experimenta-se um imobilismo com a efetivação somente de sete PA. Ao se investigar o período que compreende entre 1992 a 1995 são criados 33 PA. É a ação reativa do Estado ante o Massacre de Eldorado de Carajás que ativa a criação massiva de PA na região. No período entre 1996 e 1999 são criados 202 PA, 44,8% do total de 450 PA. Dias do governo de Fernando Henrique Cardoso, que reconheceu numerosas áreas ocupadas na Amazônia como PA. Trata-se de reforma agrária ou regularização fundiária? Entre os anos de 2000 e 2005 criam-se 184 PA, o que equivale a 40,8%. O Massacre de Eldorado do Carajás é o estopim para efetivação de inúmeras instituições. No momento, o posto avançado do INCRA ganha o status de superintendência regional, Polícia Federal e Ministério Público Federal são instalados na tensa fronteira amazônica. Esse mesmo modelo foi efetivado no Xingu após o assassinato da missionária estadunidense Dorothy Stang, região para onde se desloca a violência antes concentrada no sul e sudeste do estado. Na década de 1990 o tema reforma agrária fez parte da agenda política do governo por vários fatores internos, entre eles: a luta

Miolo pororoca.pmd

69

24/7/2012, 14:55

É certo que ocorre ainda a crise de legitimidade de dirigentes e entidades de representação de classe.70 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá pela terra e as chacinas de Corumbiara. prisão de dirigentes e uma sistemática ação de reintegração de posse. Como reflete o poeta Leminski. Rondônia (1995) e o Massacre de Eldorado do Carajás. A precariedade conforma o universo camponês. com registro de inúmeras mortes. marcada por pelo menos dois pilares.pmd 70 24/7/2012. Interroga-se: INCRA e as entidades de classe dos(as) trabalhadores(as) possuem pernas para administrar o vasto universo de assentamentos? Sabe-se que o apogeu da ação comunitária da luta camponesa dá-se no processo de organização e ocupação de áreas consideradas improdutivas. e a distensionar a luta pela terra na América Latina. Efetiva-se em sua contradição a territorialização camponesa. Ásia e África. nunca mais se ouviu falar no assunto e não se tem conhecimento de algum desfecho. E ainda. disputas internas. O mesmo tinha a missão de monitorar a agenda das entidades ligadas à defesa da reforma agrária. e que ao “cortar a terra” verificase o retorno da cultura do individualismo. os eixos de integração desenhados pela macropolítica econômica (energia. com vistas a assanhar o mercado de terras. Realidade tanto ativada pelas políticas públicas. Pará (1996). O do semblante camponês. que muitas vezes não Miolo pororoca. Ainda que tenha havido uma audiência pública em Marabá através da Câmara Federal. e o segundo pelo processo capitalista. tais como: a política mitigadora de reforma agrária do Banco Mundial. comunicação e transporte) operaram no sentido oposto da demanda dos movimentos sociais do campo. como registrado no ano de 2001. quanto pelas cada vez mais presentes igrejas neopentecostais em ocupações e assentamentos. No entanto. a luta pela terra. a presença de pessoas consideradas “infiltradas” do Estado e do setor privado que monitoram as ações nas áreas. meio ambiente e direitos humanos. processo de diferenciação no interior de ocupações e assentamentos. quando um serviço do Exército Brasileiro foi descortinado em Marabá. No mesmo ano ocorreu um recrudescimento da violência pública e privada na região. “problema tem família grande”. 14:55 . E elementos externos. que ancoram o seu discurso numa perspectiva da prosperidade individual. com a mercantilização da terra em detrimento de sua função social. como desejavam os(as) camponeses(as) e pares.

pmd 71 24/7/2012. Migração espontânea e estimulada através de projetos de colonização oficiais e privados. Impregnada de maranhenses. 11 eram do Maranhão. Ainda não se tem notícia da construção de um espaço de visibilidade para a produção camponesa.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 71 resiste e repassa seus lotes a comerciantes. reconhecido pelo Estado. por exemplo. Mesmo preconceito existente entre manauaras e belenenses. com PA em áreas indígenas. médios e pequenos produtores. São alvos de preconceito na região através de piadas que os relacionam a questões pejorativas. como reflete o antropólogo Alfredo Wagner Berno de Almeida. ainda um bicho anuviado no horizonte. guinando-as a uma tarefa burocratizada em detrimento de uma agenda política. na coordenação de entidades de classe. Dos 19 mortos no Massacre de Eldorado do Carajás. Em meio à criação do Distrito Florestal de Carajás. Na imbricada engrenagem da delicada questão fundiária amazônica quem ganha com a efetivação de tantos PA? E a massa de camponeses(as) terá capacidade de construir um modelo de desenvolvimento a partir dos PA? Será possível a definição de políticas para a região sem uma regularização fundiária. onde “sem terra” é relacionado a coisas desagradáveis. 14:55 . Eles(as) estão nos PA´s. como o fez o latifundiário. com agenda repleta de reuniões com órgãos públicos. Eis o posseiro alçado à condição de assentado da reforma agrária. na principal feira agropecuária regional. Mesmo tratamento pejorativo que ganha relevo nos meios de comunicação regionais quando tratam da luta pela terra. Fato que inverteu o cotidiano das entidades de representação dos camponeses. que reconstroem os minifúndios. estado considerado o principal exportador de tensão social do país. sem um zoneamento econômico e ecológico? A sobreposição marca a cartografia do lugar. É certa a conquista política da categoria ante o Estado marcado pelo autoritarismo numa área de fronteira militarizada por longos anos. Sabe-se de casos de fazendeiros oferecendo suas terras para desapropriação no INCRA. Grandes projetos e garimpos são fatores pontuados como estimuladores da migração na região. a de Marabá. que celebra seus bois há mais de duas décadas. que à primeira vista soa como um mero socorro aos produtores de gusa que ao longo de duas décadas Miolo pororoca.

um dos organizadores da “Marcha com Deus. reportagens. mineiro do município de Passos. donos de terras em Goiás. engenheiro agrônomo de tradicional família paulista foi o único fazendeiro de fora da região a integrar a cúpula de fundação da UDR. Desta feita via o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). No ninho de animadores destacam-se: Ronaldo Ramos Caiado. Uma vez mais o socorro vem do Estado. pertencia ao estado de Goiás. O Bico se completa com o sul do Pará. UDR. Passadas duas décadas. pela Família. da Associação dos Fazendeiros de Araguaína e da Associação dos Fazendeiros do Xingu. A UDR surge no cerrado goiano em 1985 a partir da reunião de dirigentes da Federação da Agricultura de Goiás. tal latitude do país continua a registrar índice alarmante de trabalhadores em condições análogas à escravidão.Bico do Papagaio: dias de sangue. Prestes a tornar o mundo degradado em monocultura de eucalipto. a bengala do capital privado. Nelore e Zebu de Goiás. dias de UDR. estrela de primeira grandeza da sigla-. Trabalho publicado na página do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC/RJ) em junho de 2006. Jairo de Andrade. 2 . Região cantada em prosa. idos de 1964. 14:55 . pesquisas. da Associação dos Criadores de Gir. verso. lugar onde mais se matou camponeses na disputa pela terra no Brasil.pmd 72 24/7/2012. Antes foi a Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM). pela Liberdade”. No extenso obituário de camponeses uma parcela significativa é creditada ao escudo da UDR. A mesma nasceu no imortalizado Bico do Papagaio. e o oeste do Maranhão. Plínio Junqueira Júnior. Ainda hoje a região é palco de execuções de trabalhadores (as) rurais que defendem a reforma agrária. Altair Veloso e Salvador Farina. 7 Miolo pororoca. quando o norte do atual estado do Tocantins. 24 anos atrás7 A defesa intransigente na manutenção de grandes extensões de terras na região de fronteira integrou o DNA da formação da União Democrática Ruralista.72 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá corroboraram o desflorestamento da região e não cumpriram acordos no sentido oposto.

Roberto Paranhos Rio Branco. e que táticas usam. A família tem origem ligada à atividade madeireira. que repassou o Ministério da Reforma Agrária (MIRAD) para Jader Barbalho. Em Ourinhos. no Parque Agropecuário de Redenção. indústria. a pesquisadora pontua como uma das características da matriz da UDR no Pará. adquiriram grandes extensões de terras. da Universidade Federal do Pará (UFPA). conforme a agenda do Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA). Ronaldo Caiado. serviços e mesmo bancárias (Bamerindus). A entidade também teve as suas versões em Marabá e Altamira. detinha três fazendas na região. sob que princípios atua. dona de 11 empreendimentos na Amazônia. no governo de José Sarney. Nas investigações da pesquisadora sobre o perfil do quadro da entidade. publicada em 1999. Sobre o Grupo Quagliato. de Minas Gerais. Ou mesmo produtores de tradição rural paulista. O PNRA nasceu sob o contexto da Nova República. de 1985. Pará. que desenvolvem atividades nos setores de comércio. e que por via legal ou não. Em sua análise. 14:55 . destaca tratar-se de pessoas do centro sul do país. e era dona da Usina São Luiz S/A.pmd 73 24/7/2012.Quagliato da Amazônia Agropecuária S/A. fundador da UDR em Goiás. que hoje batiza um município na região. à época da pesquisa. Plínio Junqueira. quem são os seus representantes. Miolo pororoca. Alceline Veronese. Fernandes adverte que um dos motivadores para a fundação da UDR reside na ameaça de desapropriação de áreas consideradas como de situação de conflito. que possuem origem na oligarquia cafeeira. dono da Empresa Agropecuária QUAMASA. Inquieta a pesquisadora: conhecer qual a gênese da representação patronal. A obra resulta de pesquisa de dissertação defendida no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA). prefeito de Redenção. Compuseram a mesa. a articulação entre o norte-sul. Outra família citada é a Bannach. como a família Lanari. São Paulo. presidente da Associação dos Empresários da Amazônia. da pesquisadora Marcionila Fernandes. de São Paulo e Udelson Franco.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 73 As informações aqui elencadas tomam como base a obra: Donos de Terras: trajetória da União Democrática Ruralista – UDR. vindos do Paraná. Quagliato processava açúcar e álcool. ano de 1992. caso da família Lunardelli. em Belém. Tão expressivo é o poder? Formalmente a UDR do sul do Pará foi criada no dia 17 de maio de 1986.

“Um pioneiro”. como a Confederação Nacional da Agricultura (CNA). frente parlamentar que abortou a possibilidade de uma reforma Miolo pororoca. a pesquisa pontua a presença do então estudante de Direito da UFPA. Leonardo Lobato. A partir desse mosaico ruralista. o estudo deixa claro o protagonismo do sul do estado e do município de Paragominas. mineiro. Sociedade Rural Brasileira (SRB). Fernandes esclarece que a versão de Paragominas dialogava com frequência com a capital. aportados na região desde a década de 1970. cujo dirigente da época era nada mais. Engrossam o escrete do processo de privatização de terras. que vai desaguar no que ficou conhecido na Assembléia Nacional Constituinte. descendente de famílias proprietárias de terras em vários estados da União. Há ainda Gastão Carvalho Filho. Grupo Jonasa e a Construtora Estacon. Entre eles: Grupo Belauto.ARPP é matriz da versão da UDR de Paragominas. nada menos do que ex-ministro da Agricultura. integrante do que ficou conhecido como UDR Jovem. outros estudiosos indicam a intervenção do Estado como fator importante para a oxigenação da saúde financeira de tais atores da fronteira. advindos de fundos da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM). Diferente de seus pares tradicionais. Grupo EBD. como “Centrão”. Entre outros artífices no processo de defesa da intocabilidade das grandes porções de terras na fronteira. e Luiz Otávio Rodrigues da Cunha. Roberto Rodrigues.74 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá No entanto. a UDR não tinha esmero em dialogar com o Estado. Recursos em particular. setores tradicionais de pressão. 14:55 . Assim como a pesquisadora. Belém. A que tudo e todos devem se submeter. paulista. em 1986. espécie de quartel general. Organização das Cooperativas do Brasil (OCB). Tem sido esse o amparo de gestos mais largos para a manutenção do poder de tal setor. Com a intervenção dos irmãos Lincoln e Luiz Bueno. reeditaram a prática do patrimonialismo. floresce a Frente Ampla da Agropecuária Brasileira. a partir de uma reunião com os dirigentes Plínio Junqueira e Ronaldo Caiado. Grupo Marcos Marcelino. nordeste do Pará. a entidade ganha forma. A Associação Rural da Pecuária do Pará . paulistas do celeiro dos cafeicultores. Onde não há espaço para a diferença.pmd 74 24/7/2012.

Chacina Goianésia – Goianésia do Pará. Maranhão.06. este último caso em Imperatriz. 03 mortos. 13 mortos. 13. José Lourenço (BA).1985/18. No mesmo período o município de Rio Maria registrou a morte de membros da família Canuto. Chacina Surubim. Chacina ParaúnasSão Geraldo do Araguaia. Os ânimos dos ruralistas exaltaram-se Miolo pororoca. Ambos os processos tramitam há 23 anos. A entidade enrolou a bandeira em 1991 (será?). meia década. (Tempos modernos?) Dias de sangue Formalmente pode-se afirmar que a existência da UDR no Pará foi curta. junho de 1986. Chacina Fazenda Ubá – São João do Araguaia. .pmd 75 24/7/2012. As chacinas estão assim distribuídas: Chacina dos IrmãosXinguara. maio de 1985. com o saldo de 62 mortes.06. com cinco camponeses executados. O pouco tempo de existência imortalizou a região como a mais violenta do país na disputa pela terra. setembro de 1985. 17 mortos. 05 mortos. João Batista e Pe. assim como do advogado Paulo Fontelles.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 75 agrária. No episódio ocorrido em Goianésia do Pará. o Partido dos Trabalhadores-PT emprestou a estrela como vice. 10 mortos. 08 mortos. Gabriel Pimenta. junho de 1985. É possível sinalizar que a gana da UDR arrefeceu na região? Episódios ocorridos no primeiro semestre do ano de 2006 parecem indicar a direção contrária. no mesmo local onde havia nascido cinco anos antes. que ficou em segundo lugar. Os massacres que tiveram o processo de apuração iniciados são: a chacina da Ubá. vestiam a camisa da UDR pelo Pará: Asdrubal Bentes.1985. Outras expressões residiam em Afif Domingues (PL/SP) e Alysson Paulinelli (PFL/MG). 06 mortos. quando alguns tiveram as cabeças decepadas e os corpos jogados no rio.Xinguara. Enfileirados na defesa do latifúndio. Jorge Arbage e Fausto Fernandes. 14:55 . Chacina Ingá – Conceição do Araguaia. na chapa de Asdrubal Bentes. Ubiratan Spinelli (MT). Entre os anos de 1985 a 1987 há ocorrências de sete chacinas na região. e o caso da fazenda Princesa. Josimo. Chacina Fazenda Princesa-Marabá. o processo é dado como desaparecido. No derradeiro pleito eleitoral de Marabá em 2004. ligados ao PC do B. junho de 1985. Cunha Bueno (SP). outubro de 1987 (Relatório de violação dos direitos humanos na Amazônia – CPT2005).

Barreirito foi preso em Boston. o Raul. em setembro de 1985. que envolve a família Mutran e o banqueiro Daniel Dantas. da fazenda Rio Vermelho. no município de Eldorado do Carajás. em 1982. As prisões foram efetuadas pela Policia Federal.76 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá com a prisão de pares e intermediários em execuções de camponeses ocorridas na década de 1980. crime ocorrido em Rondon do Pará. crime ocorrido em Marabá. após constante pressão das instituições ligadas aos camponeses. Pedido que foi negado. em 21 de novembro de 2000. os ruralistas pediram a cabeça do frei Henri des Roziers. Outro elemento da cena recente tem sido as constantes denúncias e libertações de trabalhadores rurais em condições análogas à escravidão nas fazendas e carvoarias. como a Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Xinguara.pmd 76 24/7/2012. em 02 de fevereiro de 1991. e mesmo em período mais recente. Há cinzas nesse rescaldo? Miolo pororoca. 14:55 . Ao menos onde a fiscalização consegue alcançar. Ofendidos em seus brios. do Grupo Quagliato. O Pará responde sozinho a 50% dos casos brasileiros. Completa o quadro. acusado de ter coordenado a chacina de cinco trabalhadores rurais na fazenda Princesa. ao bispo de Conceição do Araguaia. advogado da CPT de Xinguara. Domicio de Sousa. município de Marabá. e José Serafim Sales. fazendeiro. São os casos das prisões de Marlon Lopes Pidde. Manoel Cardoso Neto. o sindicalista Expedito Ribeiro de Souza. EUA. junto ao Ministério da Justiça. acusado de ser um dos intermediários do assassinato do Sindicalista José Dutra da Costa. pistoleiro condenado a vinte e cinco anos de prisão por ter assassinado. a ocupação pelo MST. o Barreirito. fazendeiro acusado de ser o mandante do assassinato do advogado Gabriel Sales Pimenta. o Nelito. As reuniões com vistas à degola do frei foram mediadas pelo senhor Ronaldo Caiado. o Dezinho. no município de Rio Maria. a ocupação da fazenda Maria Bonita.

14:55 . e foi publicado na página da rede www.A luta pela terra na Amazônia: Camponeses(as). 8 A reportagem resulta de vários trabalhos publicados anteriormente nos formatos de artigos e reportagens. a família Mutran.forumcarajas. Militantes do MST ocupam a fazenda desde fevereiro. foi executado com sete tiros na noite de 16 de abril de 2009.pmd 77 24/7/2012. ambientalistas. indígenas e religiosos. Há registro de outros grupos de camponeses na mesma área. véspera da passagem de 13 anos do Massacre de Eldorado do Carajás. de 53 anos. atualmente as “empresas” de segurança configuram o braço armado das grandes propriedades. a União Democrática Ruralista (UDR) exerceu o protagonismo da violência e a milícia fazia a defesa da propriedade privada. Daniel Dantas e outros sujeitos8 Raimundo Nonato do Carmo. advogados. período considerado o mais sangrento do lugar. Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (CEPASP). no município de Xinguara. Se na década de 1980. Raimundinho. Entre os ameaçados há dirigentes sindicais.org. ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) do município de Tucuruí. em 2009. O nome de Nonato integrou uma lista de 260 pessoas ameaçadas de morte no estado.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 77 3 . executado no dia 16 de abril de 2009. Ao centro o sindicalista de Tucuruí. nove trabalhadores sem terra foram baleados por “seguranças” da fazenda Espírito Santo. FOTO: arquivo do Centro de Educação. sudeste do Pará.br e parcialmente na Revista Sem Terra . Miolo pororoca. No dia 18 do mesmo mês.

a comissão de direitos humanos da Câmara Federal tomou conhecimento do assunto no ano de 2001. goiano de São Miguel do Araguaia. Através de uma audiência pública realizada em Marabá.78 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá Desde o início da década de 2000 as organizações camponesas denunciam a questão aos órgãos públicos. Os documentos do quartel general do Exército Brasileiro (EB) direcionado para monitorar as ações dos movimentos sociais foram divulgados através de várias reportagens do jornalista Josias de Souza. Em setembro de 1989. Sul do Pará. Sendo três da mesma família. Hoje. direcionados para monitorar as ações dos movimentos sociais taxavam os mesmos de “forças adversas passíveis de eliminação”. 14:55 . com 31 anos e o dinheiro da indenização. José Pinheiro Lima (Dedezinho). José Pereira Ferreira ganhou notoriedade. cidade de Sapucaia. onde os sem terra foram baleados.2004). Ferreira. documentos de espionagem do Exército em Marabá. pretende começar vida nova para compensar a vida roubada pelos anos de tratamento para salvar a visão atingida pelos pistoleiros. do grupo Opportunity. a esposa e o filho de 15 anos.pmd 78 24/7/2012. Repórter Brasil. A fazenda Espírito Santo. A propriedade já foi flagrada com uso de mão-de-obra escrava9 pela Delegacia Regional do Trabalho (DRT). esquecido pelas autoridades tupiniquins. Zé Pereira tinha sido reduzido à condição de escravo na fazenda Espírito Santo. está em nome da Agropecuária Santa Bárbara Xinguara. caso do sindicalista de Marabá. Entre julho e agosto daquele ano 121 camponeses foram presos e sete executados. O caso. No mesmo período. foi levado à Organização dos Estados Americanos (OEA). pelas ameaças recebidas e a escravidão. Mas. quando foi aprovada pelo Congresso uma indenização no valor de R$ 52 mil. veio com oito anos para o Pará acompanhar o pai. da Folha de São Paulo. Uma presença ainda não digerida para as pessoas que se inquietam em entender as dinâmicas da região. Bem longe daquele lugar (Leonardo Sakamoto. que atingiram seu rosto. com 17 anos. em agosto de 2001. A audiência foi motivada pelo recrudescimento da violência no campo. 02. fugiu dos maus-tratos e foi emboscado por funcionários da propriedade.06. “Eu estou comprando uma chácara. Dantas é o mais novo sujeito da cena econômica e política a exercer pressão sobre as terras e as riquezas locais. que também fazia serviços para fazendas. relatórios da Polícia Federal assinados pelo delegado Ricardo Andrade Saadi revelam indícios de lavagem de dinheiro. 9 Miolo pororoca. que condenou o Brasil. em novembro de 2008. do banqueiro Daniel Dantas.

em 30 de janeiro de 2009 o juiz Líbio Araújo de Moura. indígenas. titular da vara agrária de Redenção. frigoríficos de grande porte. As áreas estão indisponíveis para qualquer tipo de negociação. As duas fazendas somam 10 mil hectares e foram negociadas por R$ 85 milhões pelo pecuarista Benedito Mutran. Para efeito didático trataremos apenas de sudeste as duas regiões em questão. posto serem terras cedidas pelo Estado através da ferramenta jurídica do aforamento. por onde se lança a atenção nas Amazônias do Brasil ou fora dela há registros de tensão entre grandes corporações e as populações locais. onde tensionam pelo controle dos territórios. Desde os tempos coloniais a terra e os recursos nela existentes mobilizam redes econômicas. madeireiros. Nos dias atuais. 14:55 . que concede direito de uso para fins do extrativismo da castanha do Brasil e não de posse. no curso de sua “conquista” se configuraram como uma espécie de emblema da expropriação e da violência pública e privada contra as populações indígenas e camponesas na Amazônia.pmd 79 24/7/2012. Miolo pororoca. políticas e sociais. bloqueou os títulos das fazendas Castanhal. garimpeiros. fazendeiros. empresas do quilate da Vale. ocupantes filiados ou não a alguma representação política. Foto: Miguel Chikaoka/Jornal Resistência. O sul e o sudeste do Pará. Espírito Santo e Castanhal Carajás. pecuaristas. Trata-se de uma fronteira agromineral.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 79 Quanto à posse legal das terras. camponeses assentados. banhados pela bacia do AraguaiaTocantins. Registro do cartaz de uma mobilização realizada em Belém contra a violência no campo na década de 1980. sob uma situação fundiária de abissal incerteza. As fazendas vendidas pelo Mutran não poderiam ter sido negociadas.

argumenta que os indícios de fraude são evidentes demais para ficarem esperando processo judicial. Advocacia Geral da União. O cancelamento dos títulos vai evitar a criação de seis mil processos para o cancelamento dos títulos que podem durar infinitos anos no tribunal já sobrecarregado. do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. negou o pedido no último mês de março. corregedora do interior. para que iniciasse imediatamente o cancelamento administrativo de todos os títulos irregulares. A desembargadora Maria Rita Lima Xavier. Instituto de Terras do Pará (ITERPA) e Procuradoria Geral do Estado (PGE) e foi enviado ao CNJ através dos Correios no mesmo dia de apresentação dos dados. a magnitude dos problemas nos registros – que abrangem de fraudes evidentes a erros de escriturários . procurador da República e representante do MPF na comissão. O pedido de cancelamento dos títulos é subscrito pelo Ministério Público do Estado. Entre os episódios de grilagem mais famosos do Pará está o do “fantasma” Carlos Medeiros.8 milhões de hectares estão bloqueados.levou a um pedido. quase um Pará a mais. através da Comissão Permanente de Monitoramento. Todos os títulos de Medeiros que somam 1. Comissão Pastoral da Terra e a Federação dos Trabalhadores da Agricultura do Estado do Pará). ente jurídica e fisicamente inexistente que acumula 167 títulos de terra irregulares. dirigido à Corregedoria do Interior do Tribunal de Justiça. Ordem dos Advogados do Brasil. Estudo e Assessoramento das Questões Ligadas à Grilagem (Tribunal de Justiça. Somados. Com o indeferimento da desembargadora Maria Rita Lima Xavier. já bloqueados por medida do próprio TJ. Felício Pontes Jr. Os dados resultam de três anos de pesquisa dos órgãos ligados à questão fundiária no estado. As Miolo pororoca. a comissão recorreu ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para que o mesmo defira pelo cancelamento dos títulos falsos.pmd 80 24/7/2012.102 títulos de terra registrados nos cartórios estaduais possuem irregularidades. Federação dos Trabalhadores na Agricultura. em áreas possivelmente griladas. Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos. os papéis representam mais de 110 milhões de hectares. O documento foi apresentado em 30 de abril de 2009 no auditório do Ministério Público Federal (MPF) Conforme o site do MPF.80 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá A grilagem de terras na Amazônia 6. 14:55 .

Foi justo nesta delicada região. não é nítida a quantidade exata de terras e gado sob o controle da pessoa jurídica do senhor Dantas em terras do Pará. A impunidade beira a casa de cem por cento. 14:55 . Mobilização de camponeses em Marabá/PA na década de 2000. Foto: Arquivo do Centro de Educação. no regime militar a região ganhou o status de área de segurança nacional. com apogeu até 1970 é considerado relevante na historiografia regional. Assim como os interesses. Sudeste do Pará A aguda disputa pela terra alçou a região à condição de mais violenta na disputa pela terra no país. Tempos marcados pelas oligarquias. A Guerrilha do Araguaia também colaborou para a militarização da fronteira.Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (CEPASP). Miolo pororoca. a Agropecuária Santa Bárbara Xinguara. Por conta da abundância da riqueza mineral. Os dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) estimam em cerca de 600 pessoas executadas na disputa pela terra ao longo de três décadas. que Dantas nos derradeiros três anos fez sem muito estardalhaço um pequeno feudo. no sudeste do estado.pmd 81 24/7/2012. A mesma situação nubla os empreendimentos da Agropecuária Santa Bárbara Xinguara S/A. considerada uma das mais tensas na disputa pela terra no país. Na cena econômica o extrativismo da castanha do Brasil. dirigida pelo ex-cunhado Carlos Rodenburg.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 81 terras se espraiam em dez municípios paraenses.

É do ouriço. 12 Castanha do Pará (Bertholletia Excelsa) é uma frondosa árvore. Enquanto cabia às empresas Bittar Irmãos. Até então os índios Gavião e seus sub grupos (Krikateje. Parketeje e Akrikateje). que totalizam 510 mil hectares com 450 mil cabeças de gado. Marília Emmi. Na época. Antecedentes regionais Houve um tempo em que os castanhais das terras do AraguaiaTocantins10 eram livres. Goiás. Algumas matérias realizadas por jornais regionais indicam que os fazendeiros locais festejam as ações da pecuária Santa Bárbara. Guajajara. explica a pesquisadora Marília Emmi.674 km² e corta os Estados do Maranhão. 14:55 .pmd 82 24/7/2012. Atikum. cabendo ao coletador a venda obrigatória da castanha ao comerciante. Suruí. 11 Aviamento consistia na forma de poder dos comerciantes sobre os coletadores de castanha. aviarem em Belém. o Governo do Pará através do ITERPA realiza um levantamento sobre as fazendas controladas pela empresa. inclusive concedendo-lhe honrarias de excelência da categoria no estado através da Federação da Agricultura e Pecuária do Para (FAEPA). 10 A bacia do Araguaia-Tocantins banha três regiões do território nacional: Norte. com predomínio do primeiro. parte do Nordeste e Centro Oeste. Xicrin. Tocantins. Para melhor compreender a disputa pela terra na região sugiro a leitura da obra “A oligarquia do Tocantins e o domínio dos castanhais”. a Amazônia respirava o ocaso do ciclo do extrativismo da borracha. 1999. Desde julho de 2008. na obra “A oligarquia do Tocantins e o domínio dos castanhais”. bem como. Dois biomas integram a bacia do Araguaia-Tocantins. que se extrai a castanha. Europa e Estados Unidos foram os destinos da produção. Nicolau da Costa e A Borges & Cia. Mato Grosso e parte do Distrito Federal. Os dias reinaram assim até o ano de 1920. Mede 813. Dias & Cia. Os rios configuravam as principais vias de transporte. era ativado o extrativismo da castanha12. O comércio dos irmãos Chamom fazia o aviamento11 nos municípios de Marabá e Tucuruí (na época Alcobaça). sudeste do Pará. entre tantos. Pará. da pesquisadora e professora da Universidade Federal do Pará (UFPA). Desta forma. os gerentes da empresa se defendem alegando que controlam somente 15 propriedades. abundou em vários estados do Norte. Os comerciantes adiantavam suprimentos necessários aos dias de trabalho na floresta. o fruto. 2ª edição. Mas. Cerrado e Floresta Amazônica. Miolo pororoca. Em remotos tempos. Kaapor.82 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá Estima-se em cerca de 40 fazendas distribuídas em nove municípios do sul e sudeste do estado.

Já em 1930 arrenda e adquire várias terras. O sudeste paraense detém o maior rebanho de gado do estado. o comerciante e político Deodoro de Mendonça e sua parentela hegemonizam no domínio dos castanhais até 1940. a família Mutran. Trabalho escravo. gado e minério. oriunda do município de Grajaú. 14:55 . aportou na região descendente de sírio-libaneses. Foto: arquivo do Centro de Educação. ainda que o Estado viesse a declarar durante o regime militar a porção de terras um vazio demográfico. No período. mandonismo e clientelismo davam contorno ao poder dos coronéis. Maranhão. Coube à empresa A Borges & Cia aviar a família. Miolo pororoca. Os anos eram de chumbo.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 83 Operários “amansando” a floresta na região de Marabá/PA. e além da pecuária o estado incentivou a atividade madeireira e minerária. num distante 1920. entre outros povos. A iniciativa ganhou proporção a partir de uma política indutora da economia do Estado na Amazônia. Hoje a atividade da pecuária predomina na região. eram os senhores do lugar. Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (CEPASP).pmd 83 24/7/2012. A ideia era fazer com que a região prosperasse a partir desses três polos: madeira. em particular no sudeste do Pará. Conforme pesquisa de Emmi.

Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (CEPASP). 14:55 .84 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá Bateria de fornos para produção de carvão na região de Marabá/PA. Cá aflora a grande mineradora Vale. sem falar na Volkswagen. privatizada desde 1997. Agem ainda pelo controle do território. conforme denúncias de entidades locais. em Miolo pororoca. Região explosiva É complexo o xadrez de agentes e suas respectivas redes que atuam no sudeste do Pará. Entre elas podem ser encontrados bancos como Bradesco. como ocorre em várias partes do Pará. Real e o extinto Bamerindus. grupos indígenas. Assim. do falido Banco Econômico. leia-se Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM) e Banco da Amazônia (BASA). Foto: arquivo do Centro de Educação. numa operação considerada um crime de lesa pátria. onde inúmeras famílias de projetos de assentamento da reforma agrária têm sido expulsas por conta de sua Mineradora Onça Puma (MOP). Por ser a detentora de tecnologia de ponta é ela quem estrutura e desestrutura o território do lugar. que explora níquel. Por falar em banco. outro que antecipou Dantas foi Calmon de Sá. vastas extensões de terras foram transferidas ou apropriadas por empresas nacionais do Centro-Sul e internacionais. A prática tinha nos agentes de planejamento e do financeiro estatais a ponta de lança.pmd 84 24/7/2012. a exemplo da tensão registrada no município de Ourilândia do Norte e vizinhança. A renúncia fiscal foi a política adotada para a atração de empresas.

mas a conversão de fazendas ocupadas em projetos de assentamento demonstra o avanço do poder de mobilização dos movimentos sociais camponeses. ninguém ousou indicar que o campesinato da fronteira iria se territorializar. em 2008. expressos através da Federação dos Trabalhadores Rurais na Agricultura do Pará e Amapá (FETAGRI). norte do Tocantins. Acampamento de camponeses/as em Ourilândia do Norte/PA. sudeste do Pará e oeste do Maranhão. Não resta dúvida quanto ao peso dos fazendeiros na região. O reconhecimento de áreas ocupadas. A instituição era animada por Ronaldo Caiado. com atuação que soma mais de uma década. 14:55 . Hoje a categoria controla mais de 50% do território no sudeste paraense através de projetos de assentamento em 36 municípios sob a responsabilidade do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Fora os projetos de assentamento há outras expressões do poder do Miolo pororoca. Além desses agentes registra-se a presença de garimpeiros. a refrega ganha ares de esquadrão da morte a partir da ação da UDR. algumas delas há mais de duas décadas. quando a disputa pela terra torna-se mais aguda. Na década de 1980. Foto: Raimundo Gomes da Cruz Neto Com tal contexto. político radicado em Goiás. ligada a fazendeiros do Bico do Papagaio.pmd 85 24/7/2012. teve no trágico episódio do Massacre de Eldorado o estopim. regional sudeste. Mesmo período contabiliza o MST.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 85 certa medida já aculturados pelos hábitos do mundo não índio.

a dos Mutran se tornou a de maior destaque. traduzidas na efetivação da Escola Família Agrícola (EFA). como Agronomia. Ainda a oeste tem-se a agenda da construção de inúmeras barragens no rio Tapajós e no Xingu e desde 1980 a bauxita é extraída pela Vale no município de Oriximiná. hidrelétricas na bacia do Araguaia-Tocantins que irão reorientar. corrupção na administração da prefeitura Miolo pororoca. a partir da bauxita. O minério explorado pela empresa estadunidense Alcoa é matéria para a produção de alumínio. Assassinatos. Mas. Uma bela expressão da modernidade. assassinatos contra dirigentes e militantes da reforma agrária. no assento de representações da categoria nas câmaras e executivos municipais e iniciativas de rádios comunitárias e outras ferramentas de comunicação. com a expansão da frente mineral no município de Juruti. A região é recordista em trabalho escravo. A Alcoa é uma das maiores empresas do setor. Notabilizou-se na história do sudeste paraense pelo abuso da violência. Por conta dos projetos de assentamento germinam na região empresas de prestação de assistência técnica rural.pmd 86 24/7/2012. Há uma série de obras de infraestrutura: rodovias. ou modo similar de submissão. o cenário atual não soa animador. A condição de escravidão. nos cursos de nível superior. social e político da região. o cenário econômico. 14:55 . e do Programa Grande Carajás (PGC). como nos anos da ditadura.86 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá campesinato local. na dedada de 1980. Uma perspectiva similar desponta a oeste do estado. Pedagogia e Letras. O sudeste do Pará é uma região que merece atenção especial por parte do Poder Público. sem citar a devastação florestal. São muitas as acusações de crimes que pesam nas costas do clã dos Mutran. continua a ocorrer nas terras do AraguaiaTocantins. Família Mutran – A senhora dos Castanhais Na paisagem das oligarquias dos castanhais. O modelo é apenas uma face das variadas modalidades de violência que povoam a atmosfera local. Um exame no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) sinaliza para aumento da pressão sobre a terra e recursos naturais nela existentes. Ela coleciona graves passivos oriundos da experiência dos grandes projetos. hidrovias. concentra boa parte dos municípios mais violentos do país.

Na época foi a maior indenização no Brasil por um caso de redução de pessoas à condição análoga à de escravo. ocupada pelo MST desde 26 de março de 1999.440. também ocupada pelo MST em abril de 2004.com. Sobrinho (1999) A reportagem de Sakamoto conta ainda que a sentença foi expedida por Jorge Vieira. manutenção de cemitérios clandestinos em “suas” fazendas. mas não conseguiu se manter. e resulta de uma ação civil pública movida pelo Ministério Miolo pororoca. e a Mutamba.pmd 87 24/7/2012. As propriedades são: Fazenda Cabaceiras.00. denuncia que a empresa Jorge Mutran Exportação e Importação Ltda. submissão de trabalhadores rurais à condição de trabalho escravo e devastação dos castanhais para a implantação da pecuária. constam três propriedades da família. As “listas sujas” do trabalho escravo foram divulgadas nos anos de 2003 e 2004. Sob força de liminar os nomes das fazendas foram retirados das listas. Reintegração da fazenda Cabaceiras em 1999. 14:55 . Em listas sujas divulgadas pelo Ministério Público do Trabalho (MPT).repoterbrasil. por ter sido autuada mais de uma vez por trabalho escravo em sua fazenda Cabaceiras. foi obrigada a pagar a multa de R$ 1. sudeste do Pará. da 2ª Vara da Justiça do Trabalho de Marabá. Na página www. onde o MST ocupou. Marabá/PA Fonte: J. Desta forma o fazendeiro pode pleitear financiamento público.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 87 de Marabá. a Fazenda Peruano. em Marabá.br a reportagem de Leonardo Sakamoto. divulgada no dia 30 de julho de 2004.350.

A ela não coube recurso. A. Antes de pertencer ao clã Mutran. em Marabá. e não pode ser repassada para terceiros. no Miolo pororoca. através de reportagem assinada por Ismael Machado.pmd 88 24/7/2012. Boa parte das terras sob o domínio da família é uma cessão de uso do Estado para fins do extrativismo da castanha. a fazenda Cabaceiras foi administrada pela empresa Nelito Indústria e Comércio S. O depoimento ocorreu no dia 21 de julho na Procuradoria da República do Pará. quando se celebra o Dia do Trabalhador Rural. crime ocorrido em 2002. lendários pistoleiros da região. Conta a matéria de Machado que pelo menos 40 homicídios ocorreram entre 1982 e 1989. Os réus aceitaram as determinações do MPT e o juiz homologou a sentença. no sentido de se obter mais agilidade na política de reforma agrária. Délio e Celso Mutran e Helena Mutran. A fazenda foi desapropriada pelo INCRA recentemente. A ação do movimento foi um ato contra a corrupção no país. cabia a contratação de peões para a derrubada da mata nativa e implantação de pasto. A denúncia veio à tona em setembro de 1999. A denúncia da presença de cemitério clandestino na fazendeira Cabaceiras foi realizada por uma testemunha de 64 anos. entre elas a Maria Bonita. ocupada por cerca de 600 famílias ligadas ao MST no dia 25 de julho de 2008. na edição de número 30. David Ferreira Abreu de Souza.88 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá Público do Trabalho. As fazendas São Roque e Cedro também seguiram a mesma linha das citadas acima na negociação com Dantas. no km 07. 14:55 . Vavá .o chefe da família Osvaldo dos Reis Mutran. Os responsáveis pela empresa citados no processo da Cabaceiras são os irmãos Evandro (dono também da fazenda Peruano). pelo assassinato de uma criança de oito anos. de São Paulo. A fazenda Cabaceiras mantinha cemitério clandestino. A Quincas Bonfim e Sebastião Pereira Dias (Sebastião da Teresona). Além da contratação de peões constava na rotina dos pistoleiros a eliminação de desafetos e peões insubordinados. que foi mantida no anonimato. assim explica nota divulgada pelo movimento. tratado pelos pares como Vavá foi julgado pelo Júri Popular e absolvido no dia 24 de agosto de 2005. publicada na revista Caros Amigos. Foi com Benedito Mutran Filho que o senhor Dantas negociou a compra de inúmeras fazendas.

14:55 . Osvaldo Mutran foi alvo de uma Comissão Parlamentar de Inquérito. idos de 1990.casado com Ezilda Pastana. A Sociedade de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH) atua no caso como Assistência da Acusação do Ministério Público. Vavá é pai de dois filhos: Nagib Neto. No corolário de impropérios cometidos pelo senhor de 73 anos de idade na época do julgamento.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 89 Bairro Nova Marabá. O garoto foi morto com um tiro na cabeça quando jogava futebol em frente a uma propriedade de Vavá.pmd 89 24/7/2012. conta Sakamoto em reportagem. populares provocaram um quebra-quebra na casa do chefe do clã. Já o filho Júnior veio a morrer no fim de 2005.com um filho exvereador (Guido Filho) . quando brincava de roleta russa. e foi cassado do Miolo pororoca. Daniel Lira Mourão. Na ocasião. Entre a década de 1950 e meados de 1980. tal notícia da realização de júri popular tendo como réu um Mutran soaria como galhofa no oco dos ouvidos dos chefes dos castanhais da região. Vavá e Nagib Neto tiveram os mandatos cassados. Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (CEPASP).e Aziz. O filho de Nagib foi prefeito nomeado de Marabá e deputado estadual. Foto: arquivo do Centro de Educação. consta ainda a morte de um fiscal da Fazenda do Estado. Por conta da execução do fiscal da Receita. Vavá tem dois irmãos: Guido . O braço escravo das carvoarias ajuda a queimar a floresta na região de Marabá/PA. juíza em Marabá. vereador . que foi prefeito de Marabá e Osvaldo Júnior.

o que se observou desde o início foi uma tendência à concentração do domínio das áreas de castanhais por grupos familiares. Atualmente é vereador em Marabá. arrendamento e aforamento.pmd 90 24/7/2012. No Pará. Aforamento Trata-se de um mecanismo de cessão de uso da terra concedido pelo Estado a terceiros. dos quais. forma de pressão que visa democratizar a terra. Já Nagib. Mourão foi morto por não concordar em deixar o fazendeiro passar gado sem registro. Pelo crime cometido Vavá foi premiado com indulto (perdoado). o filho. 66. 168. A partir do presente cenário.600 hectares para cada requerente.90 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá cargo de deputado estadual e condenado a oito anos de prisão. em Eldorado do Carajás. Miolo pororoca. Não cumpriu a pena integralmente. No caso do sudeste do Pará os registros históricos indicam que a prática remonta aos anos de 1920. emerge assim como uma ação que questiona uma estrutura de poder local e a homogeneização de projeto de desenvolvimento baseado na grande propriedade rural. é que se dirige a ação de ocupação das fazendas Maria Bonita. em Marabá. O bom negócio residia na coleta e no comércio da castanha.66% foram em Marabá. Através da força. A ocupação. o que o livraria de pagar impostos. A obra da professora da Universidade Federal do Pará (UFPA) esclarece que a Lei de nº 913 previa a concessão de um único aforamento com área de 3. em parceria com fazendeiros da mais fina estampa. Desta forma a família Mutran. O Estado nesse período concedeu 252 aforamentos. as terras públicas foram transferidas para o poder privado. a partir de 1950. no município de Xinguara e da fazenda Cedro. foi cassado por corrupção na prefeitura e condenado a repor ao erário público cerca de R$ 1 milhão. Espírito Santo. informa pesquisa da professora Marília Emmi. vai se configurar como a de maior robustez no Pará. Na pesquisa de Emmi há indicadores que em 1960 a família chegou a ser detentora de 80% dos castanhais. o aforamento abrange um período de concessão de 1955 a 1966 (a partir daí eles só serão adquiridos por transferências de direitos dos foreiros originais). em certa medida anuviado sobre os reais interesses do senhor Dantas no Pará. 14:55 . ou seja.

Quem segue no sentido de Marabá rumo a Eldorado do Carajás. passa pela Curva do S. uma das coordenadoras do acampamento dos sem terra. Em 2008 o MST ocupou a fazenda Maria Bonita. Ocupação da fazenda Maria Bonita. em Marabá. Marabá. estudante de sociologia. crimes ambientais e títulos da terra sob suspeita. vislumbra-se hoje. no dia 25 de julho de 2008. Onde antes se encontrava uma frondosa floresta de castanha e mogno. Eldorado do Carajás/PA. local do massacre de Eldorado em 1996. “Aqui na porteira encheu de carro da empresa Atalaia Serviços Miolo pororoca. campi de Marabá/UFPA. o movimento afrontou as cercas das fazendas Peruano e Baguá. O movimento ocupou ou incentivou a ocupação de inúmeras fazendas da família Mutran. pasto e gado. Em todas as fazendas foram registradas ocorrências de trabalho escravo. do município polo da região. 14:55 . antes de chegar à fazenda Maria Bonita. o MST tem orientado suas ações contra as representações do poder tradicional do lugar e modelo de desenvolvimento local. ao lembrar da madrugada da ocupação da Maria Bonita recorda que a ação da empresa de segurança da fazenda e dos vizinhos foi rápida.pmd 91 24/7/2012. Assim. cerca. Eidê Oliveira. Cerca de 100 km separam Eldorado do Carajás. Foto: Thiago Cruz.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 91 Ocupações: a fazenda Maria Bonita Nessa peleja pela terra em Carajás. localizada às margens da PA-150. no município de Eldorado do Carajás e das fazendas Cabaceiras e Mutamba.

Miolo pororoca. Oliveira lembra que o clima ficou tão tenso que o gerente da fazenda deixou a arma cair. que há seis anos milita no MST.92 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá de Segurança com licença da Polícia Federal para operar no estado do Tocantins. Enquanto a equipe jurídica da Santa Bárbara exige a saída imediata dos ocupantes. onde também pescam no rio Vermelho. Ela estima em pelo menos cem. nem todos resistem. O processo até se alcançar a desapropriação demora. Mas. Os homens estavam encapuzados”. A reunião foi entre a assessoria jurídica do Grupo Santa Bárbara e a representação dos movimentos sociais locais. a representação do MST enfatizou a permanência na área até a conclusão do levantamento sobre a cadeia dominial da fazenda. Desde o dia 01 de agosto de 2008 uma liminar de reintegração de posse foi expedida pela justiça de Marabá. Entrar no acampamento foi fácil. Pergunto como fazem para identificar possíveis infiltrados. uma jovem de pouco mais de 40 anos. reflete a avó militante. “Acampamento é uma escola sobre a luta pela terra. informa Oliveira. Durante a prosa com a militante fomos interrompidos em vários momentos com a chegada de representantes de família para a inscrição no cadastro. O acampamento está organizado em 23 núcleos de base. cada núcleo com em média dez famílias. ela informa que alguns já são conhecidos. A gente vive muitas privações”. O dia é ensolarado e o local parece bem calmo. entre eles o saboroso pintado. Para a militante isso é um bom sinal. Os homens estão caçando numa mata vizinha. E sempre que chegam não são bem-vindos. Já a audiência no dia 7 de agosto no INCRA de Marabá terminou em impasse. 14:55 . Eidê explica que desde o dia 12 de agosto de 2008 as carretas com o gado da fazenda não param de sair. Eidê conta que no rio Vermelho é possível encontrar muitos peixes.pmd 92 24/7/2012. O local serve ainda para a retirada de palhas e madeira para a construção dos barracos. mãe de cinco filhos e avó de quatro netos. mediada pelo ouvidor nacional Gercindo Filho.

14:55 . a Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (FETRAF). Os dirigentes do MST informam que os jornalistas têm viajado às áreas ocupadas do grupo em aviões fretados pela empresa. A ação dos seguranças disparando escopetas e revólveres foi transmitida em cadeia nacional. no dia 25 de julho de 2008. Questiona-se então: com que isenção os jornalistas podem avaliar Miolo pororoca. entre eles. O staff jurídico e de imprensa da Agropecuária Santa Bárbara. com reconhecida competência. campi de Marabá/UFPA A fazenda Castanhal Espírito Santo 280 camponeses ligados ao MST ocuparam a fazenda Espírito Santo. Os trabalhadores rurais ligados ao movimento foram antecedidos por outros grupos que também atuam na região. Xinguara na década de 1980 foi locus de chacinas como Surubim (17 mortos) e Dos Irmãos (6 mortos). Foto: Thiago Cruz. estudante de sociologia. Eldorado do Carajás/PA.pmd 93 24/7/2012. no dia 28 de fevereiro de 2009. o município foi palco de ação de uma “empresa de segurança” da fazenda Espírito Santo. que feriu a bala de vários calibres oito militantes do MST no dia 18 de abril de 2009. localizada no município de Xinguara. Argumentos replicados nos mais diferentes meios de comunicação. Nos dias atuais.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 93 Ocupação da fazenda Maria Bonita. hegemoniza os seus argumentos na mídia no sentido de criminalizar as ações do movimento. Ambas as chacinas não possuem processo para apurar os responsáveis.

A reportagem realizada por Roberto Paiva explica que 40% da Miolo pororoca. Carlos Xavier. A reportagem foi veiculada no jornal da TV Globo. os jornalistas não informam que o registro da propriedade foi suspenso em janeiro de 2009 pela Vara Agrária de Redenção.pmd 94 24/7/2012. de 25 de março de 2009. Ele conta que não retornou no mesmo dia do conflito a Marabá de avião em razão de a aeronave ter partido lotada. a representante mor da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) no mês de março de 2009. Edinaldo de Souza.94 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá os fatos? No caso da Espírito Santo noticiou-se que os mesmos foram mantidos em cárcere privado pelos militantes. No caso da fazenda Espírito Santo. Mas. Um linchamento político e ideológico. 14:55 . deste modo pode ser analisada a cobertura da maioria da imprensa local e nacional sobre a presença do MST em áreas controladas pelo grupo Santa Bárbara Xinguara do banqueiro Daniel Dantas. um segurança ferido e um sem-terra baleado. em matéria assinada pelo jornalista Max Costa. Um jantar orçado em quatro mil reais é um dos questionamentos. repórter do jornal Opinião de Marabá também desmente a notícia de cárcere privado e que os mesmos teriam sido usados como escudo humano. Ou mesmo da prática de trabalho escravo na área. No dia 22 de abril do mesmo ano. A notícia foi veiculada no dia de 27 de abril de 2009 no blog do jornalista e publicitário Hiroshi Bógea. a agenda negativa dos pecuaristas não teve amplificação da mídia.04). notícia desmentida pelo depoimento na delegacia do repórter Vitor Haôr. o pedido foi reendossado na Procuradoria Geral da República. da TV Liberal de Marabá. a Federação de Agricultura e Pecuária do Pará (FAEPA) foi flagrada no mesmo período por má aplicação de verbas públicas na campanha de combate da febre aftosa no estado pelo presidente da entidade. A representação regional da entidade. por volta de 14h 30min. segundo notícia do site do MST publicada em 27 de abril de 2009. A disputa recente pela terra no Pará já registrou pedidos de intervenção federal pela senadora Kátia Abreu (DEM/TO). e que a propriedade pública foi comercializada pelo pecuarista Benedito Mutran ao grupo Santa Bárbara de forma ilegal. transportando o cinegrafista Felipe Almeida. Bom Dia Brasil. radicado em Marabá. Ele retornaria a Marabá dia seguinte (19. juntamente com o restante dos repórteres e a advogada Brenda Santis.

Entre as notas flagradas pela auditoria consta uma compra de 150 projéteis para armas de calibre 38. oriundos da Agência de Defesa Agropecuária do Estado Pará (ADEPARÁ) para o combate da febre aftosa.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 95 carne consumida no estado não passa por fiscalização sanitária. Miolo pororoca. 14:55 . estudante de sociologia. que nunca prestou contas. não ocorre a mesma atenção sobre os “deslizes” dos empreendedores da pecuária. Enquanto as ações de ocupação dos sem terra ganham ares de satanização da maioria da cobertura da mídia. o senhor Carlos Xavier. Se as ocupações ocupam generoso espaço dos meios de comunicação local. as chacinas de camponeses(as) e as libertações de trabalhadores(as) das fazendas e carvoarias de condições análogas à escravidão são naturalizadas. Foto: Thiago Cruz. no dia 25 de julho de 2008. Ocupação da fazenda Maria Bonita.441 milhão foram repassados desde 2007 através de três convênios para o presidente do Fundo. R$1. Os recursos. Eldorado do Carajás/PA. campi de Marabá/UFPA. Cura-se aftosa na bala ou seriam para os “seguranças” das fazendas? Tem-se ainda uma nota fiscal no valor de R$ 21 mil para aluguel de carros.pmd 95 24/7/2012. as execuções de dirigentes sindicais.

Lista dos fazendeiros condenados e as respectivas penas Fonte: Justiça Federal do Pará. Ainda que os meios para a construção da mesma sejam em sua maioria questionáveis. A complexa realidade fundiária sempre é secundada. o fato histórico da condenação.96 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá Também não gozou da devida atenção nas coberturas jornalísticas locais. em detrimento do horizonte positivista em defesa da propriedade privada.pmd 96 24/7/2012. Carlos Henrique Borlido Haddad e divulgada em 4 de março de 2009. de 27 fazendeiros por manterem pessoas escravizadas. numa única tacada. Marabá (2009) A parcialidade é a principal estampa da cobertura sobre os fatos que envolvem a disputa pela terra no Pará. 14:55 . numa sentença expedida pelo juiz federal de Marabá. Miolo pororoca.

em maio de 2009.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 97 A fazenda Cedro 240 famílias ligadas ao MST ocuparam a fazenda Cedro no dia primeiro de março de 2009. CPT. A área é objeto de imbróglio jurídico que envolve o estado. no Palácio da Justiça. Ana Júlia denuncia que o antigo defensor levou a tiracolo o Miolo pororoca. 23 anos depois da realização do ato simbólico.00 do fazendeiro Acrino Breda. que somaram 83 mortes no ano de 1985 na região. Um sujeito alinhado na defesa dos direitos humanos de camponeses e de presos políticos. Josimo que coordenou a CPT de Imperatriz. Maranhão. participou do Tribunal para denunciar o atentado que sofrera. o Tribunal da Terra. o assassinado do sindicalista Benedito Bandeira. em tempos idos. um reconhecido militante do PT paulista. a família Mutran e o grupo Santa Bárbara. OAB e ocorreu entre os dias 18 e 19 de abril de 1986. morto em 10 de maio de 1986. Ana Júlia Carepa. As chacinas Surubim e Ubá constavam no rol de casos. Com a fazenda Cedro. Em entrevista ao repórter Leandro Fortes. Luiz Eduardo Greenhalgh aporta no Pará do outro lado da cerca. com o objetivo de levantar denúncias contra multinacionais. foi surpreendida pela visita do advogado Luiz Eduardo Greenhalgh. A “faca” na jugular da governadora Ana Júlia No começo de 2008.pmd 97 24/7/2012. que nunca chegou a ser preso pelo caso. A propriedade é festejada no mundo do agronegócio por seu caráter de excelência na produção de gado zebu. Em 1986 o advogado esteve em Belém em ato simbólico que denunciava a violência contra camponeses. Registraram-se ainda. governadora do Pará (PT). O ato simbólico teve entre os organizadores sindicatos de trabalhadores rurais. Um mês depois foi executado com tiros dados pelas costas. 14:55 . onde a comunidade revoltada com a execução destruiu a delegacia e matou os três pistoleiros.000. na condição de lobista do banqueiro Daniel Dantas. no município de Tomé Açu. Estado e o latifúndio. da revista Carta Capital. no município de Marabá. edição de nº 544. que receberam CR$ 5. Ao longo dos anos o castanhal deixou de existir e em seu lugar surgiu o pasto. atualmente são três as fazendas ocupadas pelo MST que envolvem o nome da Pecuária Santa Bárbara. O Pe.

evasão de divisas. o trágico Massacre de Eldorado dos Carajás. Conforme a coordenação do MST no Pará há feridos com gravidade. Era uma quinta feira de sol quando 12 pessoas foram feridas à bala por jagunços da fazenda Cedro. Nenhuma morte foi anunciada. Ana Júlia avalia hoje que desde 2008 há uma agenda de pressão pró-Dantas em diferentes flancos e no sentido de desqualificar o governo estadual na mídia e no Congresso.98 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá gerente máximo da Agropecuária Santa Bárbara. 14:55 . sudeste do Pará. seguido de discurso/ anúncio na Câmara Federal do correligionário Abelardo Lupion (DEM/PR). ex-cunhado.No dia 04 de dezembro de 2009. como muitos outros. integrante da “bancada ruralista”. pedindo informações sobre as reintegrações de posse no estado. de chacina de camponeses sem terras paraenses. Na análise da governadora. A criança de dois anos de idade foi atingida por um tiro na cabeça. Miolo pororoca. indiciado pela Polícia Federal junto com Daniel Dantas.pmd 98 24/7/2012. ainda hoje impune. por gestão fraudulenta. O objetivo da visita era o pedido de revisão de uma notificação de crime ambiental expedida pela Secretaria de Meio Ambiente contra a fazenda Espírito Santo. o presidente do STF esteve em Marabá para ativar o primeiro mutirão fundiário do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). lavagem de dinheiro e empréstimo vedado. os crimes impunes. quando o médico Almir Gabriel governou o estado e Fernando Henrique o país. Em seguida a governadora recebeu o telefonema do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF). a morosidade da justiça? Antes do fim – O enredo ganhou mais um capítulo no dia 21 de junho de 2012. localizada no município de Marabá. Gilmar Mendes baixa em Marabá . formação de quadrilha. Outro passo é a presença da senadora Kátia Abreu (DEM/TO) e chefe da CNA com pedido de intervenção federal no estado. além da desqualificação do governo na tensa disputa pela terra em solo paraense. Conforme a entrevista. Uma criança e uma mulher estão entre os feridos. O principio é a conciliação dos ânimos. a frente ruralista deseja a qualquer custo a reedição de episódios como o protagonizado na administração do PSDB. Interroga-se: e os títulos grilados de terras. Carlos Rondenburg. que visa reduzir em 10% as tensões no campo. Gilmar Mendes.

indígenas e quilombolas e demais modos de vida considerados tradicionais na Amazônia. mineradoras.Agrobiodiversidade na Amazônia: movimentos sociais apontam práticas agroecológicas como forma de desenvolvimento13 A disputa pela terra e recursos nela existentes coloca no centro a disputa pelo projeto de desenvolvimento em que estão em oposição grandes corporações do setor do agronegócio.forumcarajas. Em ato contínuo. os Movimentos Sociais. desocupariam três fazendas (Espírito Santo. com apoio do INCRA. através do qual. base de lançamento de foguetes de Alcântara. e no outro extremo. que administra as fazendas do banqueiro. Castanhais. Porto Rico) e outras três (Cedro. mesmo assim o Tribunal de Justiça do Estado cassou a decisão da juíza e autorizou o despejo de todas as famílias. A juíza da Vara Agrária de Marabá negou o pedido de liminar de despejo feito pelo grupo em 2010. de desmatamento ilegal. 14:55 . 4 . construtoras de barragens. camponeses. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Marabá e o MST do Pará argumentam ao todo são em número de seis as fazendas do Grupo de Dantas ocupadas pelos movimentos sociais no período. concordou com a proposta.org. No setor de sementes os 13 Trabalho publicado na página da rede www. o Grupo Santa Bárbara tem se negado a assinar o acordo. uso intensivo de venenos na área e violência cotidiana contra trabalhadores. Itacaiunas e Fortaleza) seriam desapropriadas para o assentamento das famílias. O Grupo Santa Bárbara. os trabalhadores sem terra desocuparam as três fazendas. As mesmas organizações que defendem a reforma agrária na região informam que através de mediação da Ouvidoria Agrária Nacional. empresas de cosméticos e farmácia.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 99 A violência ocorreu pela manhã quando trabalhadores rurais sem terra ligados ao MST no sudeste do Pará realizavam um ato político que denunciava a grilagem de terra pública.br em novembro de 2009 Miolo pororoca. mas. foi proposto um acordo judicial perante a Vara Agrária de Marabá.pmd 99 24/7/2012.

na ilha de São Luís.pmd 100 24/7/2012. reflete que a manutenção da agrobiodiversidade representa a garantia da vida. áreas de colonização consideradas antigas e as áreas de colonização mais recentes na Amazônia. A consolidação de ações em rede a partir de frentes que alternem mobilização política de pressão nos níveis locais e nacionais e a potencialização das iniciativas locais de agroecologia e fortalecimento da troca de experiências foram algumas sugestões de enfrentamento com a conjuntura que favorece as grandes corporações. A diferença de força e do poder político e econômico entre as partes envolvidas foi um dos pontos de reflexão do Seminário Agrobiodiversidade da Amazônia. indígenas e assessores partilharam práticas baseadas nos princípios da agroecologia e que ainda carecem de maior visibilidade como possibilidades concretas de desenvolvimento que contemple o saber e os modos de produção das populações da terra firme. Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA). geléias e compotas foram expostos. comidas típicas. Grandes projetos em questão Nice Tavares. Dupont e Syngenta. licores. ocorrido nos dias 17 e 18 de novembro de 2008. como no caso do José Maria. 14:55 . Maranhão. uma negra quebradeira de coco babaçu do Maranhão e integrante do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB). camponeses. Quilombolas. do Miolo pororoca. Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) foram os organizadores do evento. o Tambor de Crioula do Mestre Felipe fez as honras da casa. Na semana que reflete sobre a Consciência Negra. estuário. entre outros itens. A ensolarada cidade recebeu cerca de 130 pessoas de todo o canto da Amazônia e de outras regiões do país para refletir sobre a questão e expor produtos numa feira dedicada à riqueza de variedades da natureza e do artesanato. ilha. que controlam próximo de 40% do mercado mundial. cerrado. num estado de grande contingência afro.100 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá mastodontes são a Monsanto. Cachaças. A interpretação da Tavares comunga da fala dos depoimentos de militantes de outras regiões. várzea. A militante arremata que o desenvolvimento baseado nas grandes empresas só traz destruição ao povo que vive no campo. mel.

Marly e Santinha são índias Makuxi da área da Raposa Serra do Sol. o mais voraz opositor da demarcação continua da reserva. A ação contra a União que visa o esquartejamento da reserva Raposa Serra do Sol foi movida pelos senadores Augusto Afonso Botelho Neto (PT/RR) e Francisco Mazarildo de Melo Cavalcanti (PTB/RR). corrupção do poder público. ressalvam com revolta as índias. As Makuxi pontuam que a monocultura do arroz destrói os mananciais e os buritizais. As indígenas relatam que os grandes produtores de arroz expulsam os homens da região e cometem todos os tipos de violência contra crianças e mulheres. prostituição e violência urbana. 14:55 . Coelho Neto. destruição ambiental. grilagens de terra. As mulheres são estupradas. com o endosso do governador do estado. Além do povo Makuxi a reserva registra os povos Ingarikó. Codó e Chapada do Alto Itapecuru). Miolo pororoca. Taurepang e Wapixana. Ottomar Pinto (PSDB). Uma artimanha corrente para a composição de latifúndios tem sido a compra de lotes em projetos de assentamento da reforma agrária.pmd 101 24/7/2012. Paulo César Quartiero. uma planta exótica. Patamona. José Maria informa ainda o elevado índice de poluição dos recursos hídricos por conta do uso intensivo da monocultura da soja. Além do arroz registra-se a introdução da leguminosa Acácia Manja. No contexto de expansão de grandes grupos sobre áreas de populações consideradas tradicionais é comum a lógica da violência em diferentes níveis: expulsão da família camponesa. O militante indica que o Grupo João Santos é um dos protagonistas. palmeira comum na região. em Roraima.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 101 Baixo Parnaíba. onde proliferam monoculturas de soja e cana. Caxias. condições análogas a trabalho escravo. mesorregião leste maranhense (Chapadinha. As simpáticas índias informam que o processo da presença dos sulistas na região teve início lá na década 1960 e foi se aprofundando com o passar dos anos. Elas festejam o fracasso eleitoral do prefeito de Pacaraima.

Experiências em agroecologia ASSEMA é uma organização dirigida por trabalhadores rurais e quebradeiras de coco babaçu que tem atuação no Médio Mearim. na região do Mearim. árvores madeireiras da região e a palmeira do babaçu. todos situados na referida região. caju. educação e tecnologias baratas. Seu trabalho envolve famílias de 17 áreas de assentamento dos municípios de São Luiz Gonzaga do Maranhão. A oeste do Maranhão a ONG. incentiva uma prática em agroecologia que já alcançou o mercado internacional e tem na linha de frente mulheres camponesas. a Associação Paraense de Apoio às Comunidades Carentes (APACC) anima uma rede de agricultores/as em agroecologia em três municípios locais. que tem como caráter ser dirigida por trabalhadores/as rurais tem consolidado uma prática em agroecologia que contempla inúmeras dimensões. Lago dos Rodrigues. No município de Lima Campos. geração. Lima Campos. jaca e mamão com leguminosas. Ainda no Maranhão. região central do Estado do Maranhão.pmd 102 24/7/2012. Esperantinópolis e Peritoró. Trata-se do Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural (CENTRU). que tem entre seus integrantes o histórico militante da luta camponesa Manoel Conceição Santos. Silenciosamente homens e mulheres do campo fazem uma pequena revolução. como gênero. Comércio solidário e produção agroecológica norteiam a atuação da organização. região marcada pela proeminência de palmeiras de babaçu. 14:55 . com uma população entre 10 e 20 mil habitantes.102 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá Dinâmicas agroecológicas O seminário alternou dois momentos distintos. Miolo pororoca. onde a vida se condiciona às oscilações das marés. onde predomina uma dinâmica de estuário. O primeiro dedicado à reflexão e o segundo à apresentação de experiências locais. situado no Meio Norte do Brasil. 11 famílias da Associação dos Agricultores da Gleba Riachuelo participam da experiência consorciando o plantio de banana. Já na região do Baixo Tocantins. abacaxi. a Associação de Assentamentos no Estado do Maranhão (ASSEMA). Lago do Junco.

teremos 9. 14:55 . Miolo pororoca. No Maranhão tem uma ação diversificada em agroecologia em múltiplas linhas que passa pela formação de núcleos de base familiar. Montes Altos (Coopemi). cedro. A estrutura do Cetral conta com alojamento e auditório. mucuna preta e sabiá. João Lisboa (Coopajol). A modelagem da experiência CENTRU encontra-se no Projeto de Desenvolvimento Sustentável e Solidário (PDSS) – O Cerrado é vida! Uma espécie de orientador das ações da organização. jaca. criação de pequenos animais. copaíba.675 pessoas envolvidas. conforme os dados do projeto. Uma das pernas fundamentais é a CCAMA (Central de Cooperativas Agroextrativistas do Maranhão). Imperatriz (Coopai). acerola. entre elas. a ASSEMA assessora uma escola familiar agrícola que atende atualmente 42 jovens entre 12 e 18 anos de oito comunidades. caju. fábricas de beneficiamento de castanha de caju. existe farta produção de feijão guandu. trinta e nove espécies de frutíferas. fomento a organização de cooperativas. O Centro de Estudos do Trabalhador Rural (Cetral) recebe visitas de trabalhadores rurais de outros estados do país e do exterior. além de professores e pesquisadores. cupuaçu.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 103 Em Lago do Junco. No caso das leguminosas usadas para adubação verde. Balsas (COOPAEB). Nos 10 hectares são cultivados horta. A CCAMA é o resultado de mais de dez anos de atuação do Centru junto aos trabalhadores/as rurais no oeste e sul do Maranhão. os jovens aprendem técnicas de produção diversificada. murici. a média de pessoas por família.935 famílias. Lá. coco. É nele que funciona a Escola Técnica de Agroecologia e onde há mais de uma década se desenvolve um sistema agroflorestal em dez hectares. Se multiplicarmos por cinco. abacaxi. ipê. que reúne sete cooperativas nos municípios de Amarante (Cooprama). São Raimundo das Mangabeiras (Coopevida). centro de difusão de tecnologias e escola técnica de agroecologia voltada para filhos/as de agricultores/as. O CENTRU tem na década de 1970 a sua semente e se estruturou em 1980 no Maranhão e Pernambuco. goiaba. paricá e nim. mogno. hortas medicinais e alimentícias. Entre as madeiras podem ser encontradas.pmd 103 24/7/2012. Loreto (Coopral). banana. inharé. no sistema integrado que inclui o plantio de roças. São 1.

O livro registra ainda os desdobramentos positivos e limites da experiência. em citações de trabalhos científicos de pesquisas universitárias. A avaliação sobre a intervenção da APACC nos mais diversos níveis do diálogo da instituição é. Essa avaliação positiva pode ser encontrada nos relatórios de observadores externos. A produção contextualiza os elementos econômicos. Ao longo desse tempo a APACC fomentou um pouco mais de 1. 14:55 . sindicatos de trabalhadores rurais. associações e cooperativas de produtores rurais.500 pessoas nos município de Cametá. Sobre isso se reflete que antes da intervenção da APACC o produtor mantinha uma ou duas linhas de produção. Casa Familiar Rural. políticos e sociais do Baixo Tocantins e sinaliza para a metodologia de trabalho que alterna o diálogo e produção de experimentos na área de produção e saúde preventiva de forma integrada.000 experimentos baseados na agroecologia. que envolveu cerca de 2. nos relatos dos trabalhadores e trabalhadoras rurais em participação de vários encontros dentro e fora do Pará. o trabalhador/a rural. entre eles.pmd 104 24/7/2012. universidades.experiências em agroecologia. que efetivou uma Rede de Multiplicadores em Agroecologia. positiva e entusiasmada. colônias de pescadores e inúmeras instituições dos governos municipais. estadual e federal. O reconhecido e inovador trabalho da APACC tem como pontos positivos a diversificação da produção camponesa do Baixo Tocantins. em regra geral. Um pouco da vasta experiência encontra-se registrada em artigos na Revista Agriculturas . em aproximadamente 130 comunidades. nacionais e internacionais. Em novembro a APACC lança o livro que recupera um pouco da História da experiência. na esfera nos financiadores e principalmente em depoimentos do sujeito social que é o principal parceiro da APACC. Oeiras do Pará e Limoeiro do Ajuru.104 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá Associação APACC Faz oito anos que a APACC atua na região do Baixo Tocantins desenvolvendo atividades voltadas para a transição do modelo de agricultura tradicional para o modelo baseado na agroecologia. e após a troca de conhecimento com a equipe multidisciplinar da ONG a unidade Miolo pororoca. A caminhada incentivou canais de diálogo com uma diversidade de sujeitos sociais regionais.

militantes do PC do B e dirigentes do Sindicato de Trabalhadores Rurais (STR) no município de Rio Maria ocorrem nesse período. E se constitui como uma seiva que irriga a manutenção da violência.pmd 105 24/7/2012. As inúmeras chacinas e execuções de dirigentes sindicais rurais e seus apoiadores despontam neste instante. É a UDR que se credita a mobilização de fazendeiros na região do Bico do Papagaio. A morosidade se constitui como uma nódoa na ação da justiça local quando se trata de processos sobre as execuções de dirigentes sindicais pró reforma agrária. Os assassinatos de membros da família Canuto e do sindicalista Expedito Ribeiro. Por conta da morosidade da justiça local em apurar os inúmeros casos de assassinatos no campo paraense o estado brasileiro tem sido denunciado em cortes internacionais. norte do Tocantins. impulsionaram a radicalização na defesa da propriedade privada através da União Democrática Ruralista (UDR). edição de nº246. no sudeste paraense. a exemplo da Organização dos Estados Americanos (OEA). Há casos que ultrapassam a casa de uma década e outros que somam mais de vinte anos. O manejo do açaí é uma das práticas com maior repercussão no aumento da produção. os pecuaristas em oposição à possibilidade da efetivação de um plano nacional de reforma agrária. tendo o município de Redenção.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 105 produtiva mantém entre quatro a seis linhas de produção. no ano de 2003. em que a década de 1980 do século XX é considerada a mais pujante. 5 . oeste do Maranhão e sudeste do Pará no enfrentamento contra as ações de ocupações de terras pelos camponeses.tudo uma ilusão?14 A história da luta pela terra no sudeste paraense é impregnada de sangue camponês. Trabalho publicado parcialmente na Revista Cadernos do Terceiro Mundo. enquanto as representações políticas camponesas se reorganizavam. como berço principal. Isso possibilita segurança alimentar e renda durante todo o ano.O Julgamento do caso João Canuto. Na distensão da ditadura. 14:55 . ao mesmo tempo em que se fortificaram no Congresso Nacional. 14 Miolo pororoca.

O caso de João Canuto de Oliveira levou 17 anos e cinco meses até ir a julgamento. perto de 600 trabalhadores rurais acampados desde o primeiro dia do julgamento festejaram a sentença. Ao cair da tarde. Ainda assim.106 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá A demora na justiça tem impulsionado várias frentes de mobilização dentro e fora do país com vistas a levar a julgamento os mandantes dos crimes contra dirigentes camponeses/as. dona Geraldina. Orlando presidia a Câmara Municipal de Rio Maria. Pará.pmd 106 24/7/2012. dos cinco fazendeiros acusados de mandantes do assassinato do presidente do STR de Rio Maria. 65 anos na época. filha de João. é historiadora e coordena o Comitê Rio Maria.35h da tarde do dia 23 de maio de 2003. Jurandir Pereira da Silva e Gaspar Roberto Fernandes. por conta das brechas da Lei. em frente ao cemitério da cidade. O irmão de Luzia é sobrevivente de um sequestro cinco anos após a execução do pai. O julgamento dos acusados da morte de João Canuto entra para a história por dois motivos: primeiro pelo fato de ser a sétima vez em que acusados de envolvimento de morte de animadores da reforma agrária sentam no banco dos réus. O desejo de dona Geraldina era vê-los saírem algemados direto para a cadeia. João Canuto de Oliveira. após dois dias de julgamento. 18 tiros disparados por dois pistoleiros não identificados mataram Canuto no dia 18 de dezembro de 1985. Adilson Carvalho Laranjeira e Vantuir Gonçalves de Paula foram condenados a 19 anos e 10 meses de prisão no Tribunal do Júri de Belém. fez o pronunciamento da pena de dois. e o segundo. Roberto Moura. por serem primários e “gozarem de bons antecedentes”. Miolo pororoca. onde dois irmãos José e Paulo foram mortos. e o irmão Orlando. às 15. juiz da 1ª Vara Penal (o mesmo do caso Eldorado do Carajás). A organização anima a luta por justiça a favor dos militantes da reforma agrária assassinados no Pará. Quando do julgamento. numa mobilização do Comitê Rio Maria. que possibilitou aos dois fazendeiros condenados gozarem do direito de recorrem em liberdade. às 18. Luzia Canuto.30h. Os outros três fazendeiros acusados de mando da morte do sindicalista e que estão foragidos são: Ovídio Gomes Oliveira. 14:55 . Luzia comemorou a sentença dos fazendeiros ao lado da mãe.

a de informante. Uma com vinte e cinco pessoas. Rezende assina dois livros essenciais para quem se interessa por essa latitude da Amazônia A Justiça do Lobo. tiveram de ser retomados em Conceição do Araguaia. 200 quilômetros de Rio Maria. do Ovídio.pmd 107 24/7/2012. O cabeça era Laranjeira. o canto da terra (página 177). Adilson Laranjeira era prefeito de Rio Maria. Aqui vale uma ressalva no que diz respeito ao chefe de delegacia no interior do Pará naqueles dias distantes.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 107 As Testemunhas Dois meses antes de ser morto. Dirceu. pistoleiro. Os chefes de delegacia eram alcunhados de “bate pau”. No tribunal. na casa do Valter Valente. que por conta do fato. Orlando Mendonça e seus irmãos Marcondes e Jordão Mendonça. Martins declarou em seu depoimento que Canuto lhe havia confessado que Vantuir tinha interesse na morte dele. Padre Ricardo Rezende Figueira atuou na região entre 1977 a 1989 como membro da Comissão Pastoral da Terra (CPT). homem de confiança do prefeito. João Canuto de Oliveira ficou escondido dos pistoleiros na casa do defensor público José Roberto da Costa Martins. Quando os dois pistoleiros chegaram para acertar Canuto. 14:55 . o Canto da Terra (Vozes. o prefeito de Conceição do Araguaia. o médico Eurico.” Rezende recorda em seu depoimento que se comentava na cidade que os fazendeiros e políticos se reuniram algumas vezes para planejar a morte de Canuto e dos deputados estaduais Paulo Fonteles e João Batista (assassinados em 1987 e 1988) e do ex-deputado federal Ademir Andrade. posseiros e padres do Araguaia (Vozes. Rezende registra uma conversa com o lavrador João Martins. Por conta de seu vínculo de amizade com João Canuto o depoimento ganhou outra conotação. que atuou a partir de 1983 em Conceição do Araguaia. Na época da morte de Canuto. Os mesmos não eram obrigados a terem graduação em Direito. No livro Rio Maria. 1986) e Rio Maria.1993). Danilo e Juscelino. Jurandir e o fazendeiro Elviro Arantes. Martins denuncia que vários depoimentos relativos ao caso do sindicalista sumiram da delegacia de Rio Maria. hoje vereador em Belém pelo PSB. vinham da fazenda Canaã. onde narra uma fala do mesmo: “Se falava que houve reunião para matar João Canuto. encarregado da contratação dos pistoleiros ao lado do fazendeiro Zanela. Entre os participantes da reunião estavam Laranjeira. não raro. Miolo pororoca.

Impressões do Julgamento O ministro Nilmário Miranda. Miolo pororoca. Apesar de verem com bons olhos a condenação dos fazendeiros. Vieira sentenciou que além de Vantuir de Paula. a condenação é emblemática. Annie Marie Delmares. Vieira informa que chegou a ver o fazendeiro Adilson Laranjeira deixando a casa onde ocorreu a reunião. conhecido como Valtinho. João Paulo Cunha presenciaram o final do julgamento. comerciante de sementes em Rio Maria foi o depoimento decisivo para condenar os fazendeiros Adilson Laranjeira e Vantuir de Paula. 17 anos e cinco meses. “Ouvi quando todos eles falaram que tinham que eliminar o João Canuto senão as invasões iam continuar”. o observador da Anistia Internacional. para Delmares. Para João Paulo. 14:55 . Para o promotor Edson Cardoso o depoimento do comerciante fornecia evidências de sobra para o tribunal do júri condenar os fazendeiros a 30 anos de reclusão em regime fechado. Apesar da demora no andamento do processo. para que o julgamento seja perfeito é necessário que a sentença seja cumprida. passo fundamental para o fim da impunidade no país. o irmão de um dos réus.108 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá A Testemunha chave Olinto Domingos Vieira. e o presidente da Câmara dos Deputados. representantes da Anistia Internacional e da Federação Internacional de Direitos Humanos prometem vigilância com relação ao caso e com outras ocorrências de assassinatos de militantes da luta pela reforma agrária no Brasil. pena máxima por homicídio culposo qualificado. o uruguaio Edgar Carvalho. avaliou como positivo o desfecho da luta do movimento popular brasileiro. Só que não foi bem assim o desfecho. O comerciante confessou em júri que esteve em uma reunião de fazendeiros que decidiu pela execução de Canuto. França e integrante da Federação Internacional de Direitos Humanos discordou do bom senso dos colegas estrangeiros. finalizou Vieira. A reunião foi três dias antes da morte do sindicalista e serviu para se fazer a coleta do dinheiro que iria pagar os pistoleiros. Todos foram unânimes. secretário nacional dos Direitos Humanos.pmd 108 24/7/2012. estavam presentes os fazendeiros Renê Simões. advogada do Tribunal de Hauts de Siene. o dono da casa de prenome Danilo.

intermediário (01). extremamente óbvia e grave. que emperra a reforma agrária e gera a impunidade”.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 109 “Uma ilusão” disparou frei Henri des Roziers. Frei Henri comparou o desfecho do Caso Canuto com o julgamento do Eldorado de Carajás. a revista Em Questão (Belém. que considera: “A violência no sul e sudeste do Pará é emblemática. coordenador da CPT de Xinguara. onde o major José Maria Oliveira e o coronel Mário Pantoja. competentes e corajosos. que também foram condenados em junho em 2002 respondem em liberdade até hoje. pessoalmente. 541 casos só no sul e sudeste do Estado desde 1980. principalmente o do Pará. cidade vizinha a Rio Maria. 14:55 . O estado do Pará ostenta o recorde de crimes contra lideranças populares executadas na luta pela reforma agrária. nº07. É fundamental que exista uma fiscalização do Judiciário. e somente sete casos entre mandantes (03). fica evidente que há algo de grave na província do Pará. É o Estado mais conflitivo na disputa pela terra por causa do governo e da justiça. advogado francês assistente da acusação. Uma das razões para isso é a falta de um sistema de fiscalização legítimo.pmd 109 24/7/2012. mais que omissão. Justiça “A omissão do Poder Judiciário é. D.” a observação é do Frei Henri des Roziers. sou testemunha da existência de poucos juízes absolutamente autênticos. É a partir de tal quadro que o movimento popular cimenta o discurso que é a certeza de impunidade que motiva a pistolagem contra lideranças sindicais e do MST. Tem muita omissão. Tomás Balduíno. foram a júri e nenhuma pessoa se encontra presa. de maneira geral. Quando se examina o diagnóstico organizado pela CPT do Pará de 541 mortes ocorridas no sul e sudeste do Estado desde 1980. a partir da sociedade organizada. de promotores de justiça honestos. O Judiciário do Brasil. e da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Xinguara. dos ricos e das pessoas que têm poder econômico. apresenta muitos problemas. Miolo pororoca. O funcionamento do Judiciário quase sempre foi a favor dos fazendeiros. e pistoleiros (03). social e político. 2ª quinzena de 2003). Isso motivou a presença do presidente nacional da CPT no julgamento do caso Canuto. Eu.

Ubiratan Ubirajara. O fazendeiro cumpre pena domiciliar em sua mansão em Goiânia. sete júris foram realizados envolvendo sindicalistas de Rio Maria.110 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá Caso do fazendeiro Jerônimo Alves de Amorim. condenado a 25 anos de prisão. intermediário da morte de Expedito Ribeiro. tentativa de assassinato contra Carlos Cabral. assassino de Expedito Ribeiro. da ação em rede do movimento”. onde 19 trabalhadores rurais sem terra foram mortos pela PM do Pará. avaliou Jax Pinto. José e Paulo. Outro exemplo que não pode deixar de ser lembrado é o caso do Massacre de Eldorado do Carajás. arremata Pinto. assassino dos filhos de João Canuto. As cartas recentes de Rio Maria A vitória do Caso Canuto foi parcial. foragido da penitenciária de Belém dois anos após ser condenado. Na questão de Eldorado somente dois oficiais dos 154 policiais envolvidos foram condenados pelo último júri de 2001. Miolo pororoca.pmd 110 24/7/2012. alegando motivo de saúde. que foi julgado e condenado no dia seis de junho de 2000 a 19 anos e meio de prisão como mandante da morte do também sindicalista Expedito Ribeiro de Souza. incluindo o caso do fazendeiro Jerônimo Alves. foragido do quartel da PM mesmo antes de ir ao tribunal do júri. Francisco de Assis atende pela alcunha de “Grilo”. José Serafim Sales. “Acreditamos que há um avanço no que diz respeito aos casos de levar a julgamento os envolvidos na morte de lideranças empenhadas na luta pela reforma agrária no Brasil. Há ainda o caso do exsargento da PM Edson Matos. Por essas e outras demandas relacionadas com a luta pela terra que em 1999 a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA). Ainda conforme documento da CPT. Goiás. condenou o estado brasileiro pela lentidão em apurar o caso de João Canuto. 14:55 . foragido desde 1999 da penitenciária de Marabá. É resultado da pressão do movimento no Brasil e internacional. foi condenado a 50 anos de prisão. em 17 de abril de 1996. condenado a dois anos de reclusão. excoordenador da CPT do Pará. 21 anos de prisão. e esperam em liberdade julgamento de recurso. conhecido como “Barreirito”. Isso resulta da luta. Paulo César. Hoje a reforma agrária é pauta nacional.

reside a avaliação que o juiz Moura poderia ter decretado a prisão imediata por ser um crime considerado hediondo. 14:55 . e entre os grandes proprietários e índios. como forma de pressionar as autoridades sobre a omissão de mortes na luta pela terra. Além da convocação para a manutenção da pressão das entidades nacionais e internacionais para a prisão dos condenados.. Eles vão tentar calar de uma maneira ou de outra a voz daqueles que lutaram e lutam pela Justiça na região e para que este julgamento e condenação se realizassem”.. São Félix do Xingu. Sem falar na construção da polêmica hidrelétrica de Belo Monte”. Assina a nota. “Lá tudo é grande. O processo de recurso pode durar até cinco anos entre as instâncias estaduais e nacionais. bandas dos municípios de Altamira. A situação da região nos preocupa bastante. Nos recentes documentos do Comitê Rio Maria distribuídos pela internet. madeira de grande valor comercial no mercado mundial. como o dos acusados pelo Massacre de Miolo pororoca.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 111 Alerta Durante a conversa Pinto foi enfático em salientar a sua preocupação em relação ao que considera a última fronteira da Amazônia. é óbvio que os condenados e seus parceiros poderosos e violentos não ficarão passivos. Itaituba e Novo Progresso.pmd 111 24/7/2012. entre os rios Xingu e Iriri. o documento do Comitê Rio Maria salienta que: “. A região fica na Amazônia Oriental. Apreensão é a palavra chave que traduz o sentimento dos envolvidos na condenação dos fazendeiros que encomendaram a morte de João Canuto. CPT e o STR. Trata-se da Terra do Meio. a família Canuto. Tribunal Simbólico “O Tribunal Internacional de Crimes de Latifúndio no Pará” foi realizado de 27 a 30 de outubro de 2003. Comitê Rio Maria. Há um casamento cruel entre a destruição ambiental e a violência. Foi lançado no último dia do julgamento dos fazendeiros que encomendaram a morte de Canuto. Foi um tribunal popular que julgou alguns processos de visibilidade nacional. Lá a dinâmica pela disputa da terra é entre o grande e o pequeno. a derradeira reserva de Mogno. e pode ficar mais grave. até o pequeno proprietário de terra. finaliza Pinto.

Tomás Balduíno. coordenador da CPT nacional estiveram no lançamento do Tribunal. veio a óbito no dia 15 de outubro de 2009. norte do Tocantins. É energia para 15 Trabalho publicado no site www. Letícia Sabatela. viúva de João. Uma região imortalizada na história. Marcos Winter. pela Guerrilha do Araguaia. morto em Rondon do Pará. sul do Pará e oeste do Maranhão. 14:55 . o novo cenário?15 A passagem do ano de 2003 para 2004 na região do Bico do Papagaio. e a violência e morte de dirigentes sindicais rurais. 6 . ex-governador do Estado do Tocantins.riosvivos. O inusitado é que o primeiro apito tenha soado da boca de Siqueira Campos (PSDB).112 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá Eldorado do Carajás e pelas mortes de “Fusquinha” e “Doutor” (integrantes do MST mortos em Parauapebas).org. Eles integram um comitê que apóia a luta pela reforma agrária no Brasil.pmd 112 24/7/2012. Naquele mesmo momento outra chacina no Xingu era noticiada. Mais estranho ainda é que oito hidrelétricas estão planejadas para o Tocantins. prefeito de Belém à época e D. Carla Marins e Leonardo Vieira foram alguns dos artistas que estiveram presentes no julgamento.Carajás. Um animador do desenvolvimentismo. denunciado por uma revista de circulação nacional como o dono de todas as iniciativas financeiras exitosas no estado. foi marcada pelo alarde apaixonante de defesa do meio ambiente por conta dos possíveis impactos ambientais e inundações que a hidrelétrica de Marabá venha a causar caso saia dos croquis dos engenheiros. 2000). o Estado da livre iniciativa. O derradeiro depoimento de dona Geraldina foi dado a jovens realizadores. sendo que a hidrelétrica de Lajeado já está produzindo. cujo slogan de sua administração ganhava caráter na frase: Tocantins. que produzem um documentário sobre as viúvas e mães de trabalhadores rurais da região. e “Dezinho” (integrante da Federação dos Trabalhadores na Agricultura – Fetagri.br me janeiro de 2004 Miolo pororoca. 25 municípios dão vida ao Bico do Papagaio. Dira Paes. Edmilson Rodrigues. com uma população estimada em 150 mil pessoas. Dona Geraldina Canuto.

Pedra de Amolar. 14:55 . 4. violação de leis e direitos. Algo similar com o que vem sendo reeditado em toda a região do Bico do Papagaio. há cardumes descendo o Araguaia em direção ao Tocantins.364 pessoas da área urbana e 12. Ao mesmo tempo. sul do Pará. onde os rios Tocantins e Araguaia se encontram poderá sumir. A cidade tem alma violenta e violentada. extrativistas e pescadores. o marco geográfico da divisa entre os três estados deverá ter a mesma sina. é a principal do sudeste do Pará. pelo Fórum Carajás (2003-. e os lagos e igarapés nas proximidades de Itupiranga e Marabá. segundo planejamento do Programa Grande Carajás). O que a caracteriza como uma área com restrição à implantação de hidrelétrica.pmd 113 24/7/2012. A hidrelétrica de Marabá está desenhada. onde se verifica entre abril e setembro a migração de espécies de peixes que deixam o reservatório de Tucuruí. vão trazer o progresso aos rincões do Brasil. ausência de debate. Com um custo estimado de U$2 bilhões de dólares. como outras 15 da bacia do Araguaia Tocantins. E goza da boa fama de se resolver tudo na ponta da peixeira ou da bala. Um resíduo do processo de colonização marcado por grandes projetos.160 megawatts. rede de organizações populares da área de abrangência da Ferrovia de Carajás). O que soa mais grave é que segundo estudos da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) a hidrelétrica de Marabá está inserida na zona de transição do rio Araguaia. desde a década de 80 (na década de 80 eram previstas 27. aldeia Mãe Maria e Suruí Aiwekar no Pará. A hidrelétrica afetará ainda as comunidades indígenas Gavião. Miolo pororoca. Pará. com capacidade de produção de 2. e um prazo de construção médio de oito anos. Deste. A propaganda nos sertões do Brasil é que tais projetos vão promover o desenvolvimento.100 da zona rural. indígenas. geração de emprego.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 113 exportação. Total de 16. Segundo dados da “Cartilha Águas sem barragens”. entre camponeses. a hidrelétrica deverá ser uma das maiores do país. 11 municípios serão atingidos. Tocantins e Maranhão serão deslocadas de seus locais de origem. A cidade de Marabá tem cerca de 200 mil habitantes. editada em 2003. O Parque Estadual do Encontro das Águas.465 pessoas dos estados do Pará. Tem no comércio sua base econômica.

bauxita em Paragominas. mas. No mapa dos grandes projetos as hidrelétricas são apenas um dos pontos. . com o cobre em Canaã do Carajás. portos. novos projetos de exploração da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD). uma vez mais se palmilha o mesmo erro de outrora.o maior em potencial hidrelétrico do país. São Luís. é como se surgisse um novo Projeto Carajás. Segundo matérias publicadas nos jornais do Tocantins. não há nada de novo na paisagem. concomitantemente a hidrelétrica de Tucuruí passou por uma duplicação de sua capacidade produtiva com a implantação de 10 novas turbinas. A empresa é a mesma que vem fazendo estudos nas hidrelétricas do Vale do Araguaia Tocantins. Consta ainda a abertura de estradas. como a de Estreito. não mais sob a égide da doutrina de segurança nacional. Marcada pela presença de vários sítios arqueológicos. oeste do Maranhão. sem falar nos cumulativos. e outros. Para efeito de comprovação basta uma visita aos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH). Pelo que podemos notar ao longo da experiência dos anos do projeto Carajás. numa área de 1. O que se nota é uma nova reconfiguração espacial a partir desses novos grandes projetos. Os impactos sociais e ambientais imediatos são de difícil mensuração. É válida a mobilização que ocorre no Tocantins.300 quilômetros quadrados. Esperantina e Araguatins. monocultura da soja via Projeto Sampaio no próprio Tocantins. os municípios do Estado serão os mais atingidos com a formação do lago de 10 bilhões de metros cúbicos de água. Maranhão. implantação de empresa de produção de placas de aço em São Luís. A lógica permanece a mesma desde o descobrimento do país: o saque das riquezas. Pelo montante dos empreendimentos que emergem. empresa paulista é a responsável pela realização dos estudos de viabilidade técnica e dos impactos ambientais e sociais. não se discutir o modelo de desenvolvimento estabelecido para a região. construção da Ferrovia Norte-sul. cidades do Estado do Tocantins. construção de linhas de energia para as empresas de Alumina e Alumina em Barcarena no Pará (Alunorte/ Albrás).pmd 114 24/7/2012. e a Alumar. Miolo pororoca. Agora no contexto de uma economia globalizada. e a socialização das catástrofes sociais e ambientais. um pôr de sol extraordinário e nativos sem pressa.114 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá A Cnec Engenharia S/A. A região é bela. correm o risco de submergirem com a formação do lago. 14:55 . nova siderúrgica em Marabá.

parte dos quais financiados por bancos de fomento como BNDES e BID . 14:55 .800 famílias atingidas e nem uma foi indenizada. Colinaçu. em um lago que possibilita a entrada de estranhos por via fluvial. Produção de livros. O lago banha nove municípios. apenas alguns grandes proprietários. campanhas contra a construção de barragens que têm como interessadas as empresas de alumínio (Alcoa.4 milhões de métros cúbicos) da América Latina (área 1. outras tantas receberam compensações pífias.Serra da Mesa (GO) Encheram o reservatório Serra da Mesa em 1997. através da realização de vários seminários. criando o maior lago. 35 mil hectares de terra submergiram nos municípios de Minaçu. A hidrelétrica gera 471 MW. o maior insumo na produção do minério.784 km2). concordou em “discutir ações compensatórias”. Segundo a Miolo pororoca. mais localizados na região do canteiro.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 115 O que se registra de novo no front é uma mobilização dos setores populares da região do Bico do Papagaio. que ocorre há uns quatro anos. • Empresa interessada: Tractebel. Minacú e Campinaçú.Cana Brava (GO) 350 famílias não foram indenizadas. Votorantim. Um dos reflexos da usina de Cana Brava na área dos Awa-canoeiros foi a transformação de um rio de corredeiras. O que desponta na janela é a reedição de uma história tantas vezes lida. além de atingir áreas dos índios Awa-canoeiros. CVRD) que objetivam a autonomia de energia. Campinorte. a Tractebel. impossível de navegar. Cavalcante. entre eles: Uruaçu.pmd 115 24/7/2012. Depois de longos debates com o Ministério Público Federal. mas a instituição encarregada de defender os direitos dos índios ainda não deu prosseguimento ao acordo. em termos de volume de água (54. 2 . Cavalcante e Colinas do Sul. cartilhas e artigos também fazem parte do rosário das ações dos populares. Segundo o MAB são mais de 1. O empreendimento custou US$ 420 milhões. Billliton. Alguns dados sobre as hidrelétricas do Vale Araguaia Tocantins 1 . a empresa responsável pelo empreendimento. todos em Goiás.

inclusive uma porcentagem dos “royalties”. e Filadélfia/TO atingindo diretamente 1. Com relação aos povos Apinagés isso vai se dar em suas áreas mais férteis.116 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá FURNAS e pelo IEA. Billiton.pmd 116 24/7/2012. Houve uma litigação litígio com enfoque na existência de um grupo de 6 Índios Avá-Canoeiro em terras que foram inundadas (8% da reserva). na época eram 1. que deve ser inundada. A previsão é de que a hidrelétrica produza 1. Hoje existem mais de 100 casos na justiça reivindicando revisão das indenizações. 3 . tudo que aconteceu e o que não aconteceu foi individualmente. o caso de Serra da Mesa é bem dramático. 4 . Votorantim e Vale do Rio Doce. • Últimas informações: nas audiências sobre a hidrelétrica de Estreito foi relatado que existe mais de vinte ações na justiça contra Serra Quebrada. além de alterar o modo de vida dos oleiros e pescadores da região. Segundo a CPT-Goiás. Babaçulândia/TO. Também deve afetar áreas dos povos indígenas Krikati e Apinajé. • Empresas interessadas: Furnas.Serra Quebrada (MA/TO) Deve inundar os municípios de Itaguatins/TO e Governador Edson Lobão/MA e desalojará 14 mil pessoas. Eletronorte. Eletrobrás. Isso provocou uma série de ações da Funai e um “programa” da Furnas em favor dos indígenas.328MW. com impactos mais profundos nas cidades de Carolina/MA. A licitação está prevista para o 1º semestre de 2002. Faltam 95. pois não se fez nenhuma tentativa de negociação coletiva. • Empresas interessadas: Alcoa. A avaliação é de que a água que abastece várias cidades ao longo do rio Tocantins sofrerá danos com a hidrelétrica. e as outras 20 estão nas áreas de remanso.Estreito (MA/TO) Situa-se entre os municípios de Aguiarnópolis/TO e Estreito/ MA. Banco Bradesco e Camargo Côrrea. sendo 1. A potência de Serra da Mesa é 1275MW.295 atendidas. Votorantim. destas 75 estão com o dinheiro depositado em juízo. 14:55 . A licitação está prevista para o 1º Miolo pororoca.150 pessoas e indiretamente a reserva indígena krahô. o que dificultou e muito a luta tardia daquele povo. além do Monumento Natural das Árvores Fossilizadas.390 famílias.

que apresentou 37 recomendações. Brejinho de Nazaré e Ipueiras.087MW. Camargo Correa. • Empresas que adquiriram a concessão: EDP Grupo Rede. • Empresa interessada: EDP . O consórcio Enerpeixe. . A licitação aconteceu no 1º semestre de 2001. 5 . • Empresas interessadas: Alcoa.Lajeado (TO) Inundou os municípios de Miracema. A hidrelétrica de Estreito deve produzir 1. Tractabel e Vale do Rio Doce.Tupirantins (TO) Deve atingir os municípios de Tupirantins e Itapirantins. 14:55 . a reformulação do programa de reassentamento para as famílias atingidas e a apresentação de estudos complementares sobre a vila de Espírito Santo. 60% da construção já foi realizada na metade de 2009. 7 .Peixe Angical (TO) Começou a operar em 2006 com capacidade de produzir 452 megawatts. CEB e CMS Energy. a atualização da listagem de flora. 8 . desalojando três mil famílias. fauna e ictiofauna. com a perspectiva de produzir 850 megawatts de energia. • Últimas informações: o Ministério Público Federal de Imperatriz entrou com uma ação questionando os processos de licitação e licenciamento do empreendimento. O processo de licenciamento foi questionado pelo IBAMA.pmd 117 24/7/2012. A hidrelétrica entrou em funcionamento no 2º semestre de 2001. Lajeado. Esta hidrelétrica deve produzir 820 megawatts de energia. • Empresas interessadas: EDP e Grupo Rede. 6 . Porto Nacional. Essas recomendações diziam respeito às compensações que serão oferecidas para os donos de mineração. A licitação está prevista para o 1º semestre de 2002.São Salvador (TO) Foi inaugurada em 2009 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Miolo pororoca. Palmas. A hidrelétrica fica entre os municípios de Peixe e São Salvador. O empreendimento tem o financiamento do BNDES. além de áreas indígenas. Billiton.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 117 semestre de 2002. próxima à cidade de Paranã.

A interferência se dará sobre 10% da terra indígena e também afetará a área indígena Sororó. afetando cerca de 12. numa das últimas áreas em bom estado de conservação do cerrado As empresas que se mostraram interessadas são a EDP e o grupo rede. 14:55 . A situação desse empreendimento é que a empresa foi notificada acatou a notificação. A situação de Couto Magalhães é que a empresa foi notificada. • Empresa interessada: Tractebel.118 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá Silva (PT). A hidrelétrica de Couto Magalhães obteve o maior ágio no leilão de novembro de 2001.364 pessoas da área urbana. assim como o projeto da hidrelétrica de Itumirim(GO).100 pessoas da área rural e 4. e atingir os municípios de Santa Rita do Araguaia e Alto do Araguaia.Marabá (PA) Localizar-se-á no Rio Tocantins. Seu EIA-Rima (Estudo de Impacto Ambiental) apresentou cinco espécies de mamíferos ameaçados. em Goiás. próximo a confluência com o rio Araguaia.160 MW num investimento de quase US$2bi. mas os técnicos do Ibama verificaram cerca de dez espécies de mamíferos e uma de arara azul protegidas por lei federal. A capacidade instalada deve ser de 2. que foi embargada recentemente pelo Ibama.Couto Magalhães (GO/MT) Deve inundar áreas do Parque das Emas. Situada entre os municípios de São Salvador do Tocantins e Paranã. Está previsto que sejam gerados 150 Miolo pororoca. 9 . Inundará terras de onze municípios. Os impactos também se darão em áreas de extração de castanha-do-pará e babaçu e do parque estadual do Encontro das Águas. O licenciamento ambiental foi contestado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). toda a justificativa para a negação da licença ambiental para Santa Isabel cai por terra.pmd 118 24/7/2012. A hidrelétrica gera 243 megawatts. O impacto deste aproveitamento sobre a terra indígena Mãe Maria (Grupo Gavião) foi considerado crítico. mas até hoje não recebeu o licenciamento prévio por parte do Ibama. 10 . • Últimas informações: caso Marabá seja aprovada. que considerou insatisfatórias as informações apresentadas no processo e que aspectos relevantes à análise do processo não foram contemplados ou sequer abordados. do povo Suruí Aiwekar.

O projeto prevê a geração de 1200MW. 11 . Riachinho e Xambioá do estado do Tocantins. e a principal empresa mineradora do país. 14:55 . e colecionando Miolo pororoca.297 km2. sendo que tem seu eixo localizado logo após a montante de Santa Isabel.000 pessoas na área Rural e 18% das terras da Comunidade Indígena Karajá de Xambioá.pmd 119 24/7/2012. A CVRD A Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) é sem dúvida o principal ator econômico da região sudeste do Pará. 12 . da Rede Internacional de Rios. Essa é uma área de transição entre formações florestais e vegetação de cerrado. • Últimas notícias: as empresas desistiram da construção de Santa Isabel. numa área equivalente a 2. 7. Privatizada desde 1997. A sua capacidade instalada deve ser de 960MW. desabrigando 974 pessoas na área rural e 1404 pessoas de área urbana. numa área de transição entre a área integrada. • Empresa interessada: Consórcio Enercouto (EDP e Grupo Rede). e a área de integração incipiente.Araguanã (TO/PA) É um desdobramento da hidrelétrica de Santa Isabel. haveria efeitos difíceis de prever sobre os pantanais da ilha do Bananal. Araguanã. próximo à Santa Isabel do Araguaia. deve inundar áreas pertencentes aos municípios de Palestina do Pará. O seu licenciamento ambiental foi negado pelo Ibama. Piçarra e São Geraldo do Araguaia. atingindo 10. no estado do Pará. Billiton. ao sul. ao norte.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 119 megawatts de energia.4% da reserva ecológica da serra das Andorinhas e parte da APA de São Geraldo do Araguaia. Também afetará áreas dos povos indígenas Surui e Karajá. Camargo Correa e Vale do Rio Doce. Votorantim. • Empresas interessadas: Alcoa. tanto em relação à construção de hidrelétricas como da construção da hidrovia Araguaia-Tocantins.Santa Isabel (TO/PA) Situada no baixo curso do Rio Araguaia. dentro da perspectiva de deixar o rio Araguaia ileso. e dos municípios de Ananás. Segundo Glenn Switkes. Inundará o território de 18 municípios.

o que se convencionou chamar de nova ordem mundial. no Maranhão. Barcarena. Segundo Pinto. a empresa navega sob o comando da Bradespar (do Bradesco) e do grupo de fundos de pensão liderados pela Previ (do Banco do Brasil). que como rios. Pará. Avançar num debate sobre a CVRD não é a proposta deste trabalho. devem desaguar na Área de Livre Comércio das Américas (ALCA). O desenho de vários eixos de integração para o continente latinoamericano parece não soar algo aleatório. responsável por 20% do comércio exterior da balança comercial. 70% dos produtos da Vale são extraídos do solo do Pará. uma série de recentes investimentos. a conclusão da maior pelotizadora de ferro do país. CVRD: a sigla do enclave na Amazônia. E avalio que a CVRD é a encarnação dessa lógica do capital em escala internacional. A fonte de informação é a recente publicação da editora Cejup. O atual estágio de desenvolvimento econômico evidencia na região mais que nunca. Faz parte das políticas de integração encaminhadas a partir da Casa Branca. e sem uma definição diferente no atual governo configuram o que chamo de nova expansão do capital na região do Vale do Araguaia . a CVRD investiu 5. de 6 milhões de toneladas. posto a relevância da CVRD para a compreensão da região.2 bilhões de dólares em 2002. A ideia é tentar nominar alguns projetos. Com 22 mil funcionários. assinado pelo sociólogo e jornalista Lúcio Flávio Pinto.2 milhões de toneladas. 14:55 . que combinados com várias obras de infraestrutura agendadas no Plano Plurianual (PPA) do governo anterior. no entanto julgo a necessidade de aclarar alguns elementos recentes da história da empresa.Tocantins. Algo similar se reflete na América Central com o Plano Panamá Puebla (PPP).4 milhões para 4. Em abril concluiu investimento de mais de um bilhão de dólares em quatro grandes negócios: a compra de metade do capital que sua sócia japonesa Mitsui possuía na mineradora Caemi.3 bilhões de dólares na incorporação de 13 companhias. a CVRD é a empresa que mais exporta no Brasil. a empresa faturou U$ 5. em São Luís. Com um valor estimado hoje em U$ 13 bilhões de dólares.120 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá sucessivos recordes de faturamento. e a aquisição da Miolo pororoca. de 2. a inauguração da duplicação da usina de alumina da Alunorte. a sétima mineradora do mundo possui em seu planejamento.pmd 120 24/7/2012. Nas contas do jornalista Lúcio Flávio Pinto.

da Universidade de São Paulo/USP.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 121 Mineração Vera Cruz (antes TRZ). sociais. Outro projeto com semblante de grande porte é a siderurgia de placas de aço. Colômbia. de água potável na ilha. oeste do Maranhão. Uma associação de várias organizações sociais da cidade organizou um movimento contrário à instalação da fábrica. Suriname e Venezuela são os demais países onde incide a floresta. os impactos ambientais podem ser graves. cores. a Amazônia.Amazônia. Mato Grosso. Roraima e Tocantins). Pará e o Mundo das águas do Baixo Tocantins16 O Brasil é o país que concentra a maior parcela da principal floresta tropical do mundo. o Pará é o segundo estado em extensão territorial. As Amazônias do Brasil são várias. 14:55 . recuperação sobre a experiência em agroecologia da ONG Associação Paraense de Apoio às Comunidades Carentes (APACC) na região do Baixo Tocantins. Amapá. O artigo foi publicado na Revista Estudos Avançados. olhares. assegurando o abastecimento da Alunorte como a maior produtora do continente e das maiores de alumina do mundo. minerais e hídricos a torna alvo dos mais diferentes interesses em variadas dimensões: econômicas. Guiana Francesa.Baosteel. extrativistas. São pescadores. Nº69\2010. Amazonas. Rondônia. saberes. políticas e ambientais. em parceria com a siderúrgica chinesa. Guiana. Há áreas de colonização O presente artigo integra a publicação Na Trilha do Anilzinho: Resistência e Multiplicação de Conhecimentos Agroecológicos na Região do Baixo Tocantins-PA. para começar a lavrar a bauxita em Paragominas. A instalação ameaça ainda o abastecimento. 7 . trabalhadores rurais que correm o risco de perder terras que são usadas há mais de cem anos. cheiros e histórias. Bolívia. Equador. Peru. A floresta é um mundo de gentes. já precário. No movimento há várias representantes da zona rural da cidade.pmd 121 24/7/2012. A abundância de recursos florestais. Nesse vasto mundo. Pará. A empresa deseja implantar a fábrica no Porto da Ponta da Madeira. com uma população estimada em 20 milhões de pessoas. Por se tratar de uma ilha. Do território nacional cerca de 60% é constituído pela Amazônia Legal (Acre. em São Luís Maranhão. O direito à propriedade privada da terra tem se sobreposto à posse ancestral. 16 Miolo pororoca.

para geração de energia.pmd 122 24/7/2012. caso do Baixo Tocantins.122 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá mais recentes. A Amazônia é uma aventura? Um tanto dessa gente veio em busca de riqueza “mágica” nos garimpos. 14:55 . Quando se investiga a colonização recente marcada pela implantação de grandes projetos. e continuam a fazê-lo. chegando. Boto. Eles podem ser encontrados em terra firme. Energia para quem? Eis a pergunta que se encontra no ar. Nas regiões marcadas pela realidade do estuário. O contrário ocorre a sudoeste que tem se constituído em cenário de deslocamento da violência contra camponeses e seus pares. ferrovia. o do concreto. alimenta e é espaço de lazer. Já na Bragantina e no Baixo Tocantins o quadro é considerado bem definido. No sudeste do Pará a disputa pela terra ainda é aguda. Os planos do Governo Federal já realizaram isso no caudaloso rio Tocantins. casas. ao lado da destruição da floresta. Hoje engrossam a constelação das faces dessa terra. em algumas regiões. poluição dos rios e redução do pescado. e as de colonização mais antiga. Boiúna e sabe-se lá quantas outras. também agendam o mesmo rumo para o rio Xingu. o quadro social destoa da beleza do pôr do sol. Nativos e os que para cá vieram em busca de dias melhores: migrantes internos. roças e pastos. outro tanto atraída pelo sonho de emprego nos grandes projetos de mineração. como o sudeste. O rio é a vida e às vezes a morte dessa população. muitos escravizados em fazendas e carvoarias. constituem o quadro da realidade social e ambiental. a causar danos materiais. Miolo pororoca. O rio inunda a vida dessas gentes de realidades ímpares. Numa parte do ano ele invade ruas. além da fronteira em disputa. O pôr do sol é uma pintura. antes concentrada a sudeste do estado. várzea ou ilhas. caso de europeus e asiáticos. inseridas na mesorregião Nordeste. com ênfase nordestina e gente de terras mais distantes. O rio as distancia e aproxima. contemplação poética e quintal de lendas: Iara. No mundo de rios da Amazônia do Brasil pretende-se erguer outro mundo. Noutra época do ano recua e forma praias. o rio Tapajós. siderurgia e barragens. negros e mestiços. No caldeirão dos povos da Amazônia há índios. o rio Araguaia e o rio Madeira. alguns empregados em ocupações secundárias. Subempregados. a oscilação de seis em seis horas dos rios condiciona a vida da população. Assim. caso do sudoeste do estado. como a Bragantina e o Baixo Tocantins.

O Baixo Tocantins encontra-se numa zona de fronteira. política e campesinato O cotidiano no mundo das águas da micro região de Cametá. Cascos (canoas). galhofas diversas entre os (as) conhecidos (as). que às vezes ultrapassam 10h. . mais conhecida como Baixo Tocantins é organizado pelos rios Moju. E existe uma boa parcela no trecho (estrada) com as borocas (mochilas) nas costas em busca de um canto para viver. A terra e os recursos nela existentes na Amazônia animam um conjunto de interesses e disputas de infinitas redes econômicas. apenas o município de Oeiras do Pará não é banhado pelo Tocantins e sim pelo rio Pará. Cametá. sociais e políticas. Pará e o caudaloso Tocantins.constituem a principal forma de transporte e canal das relações comerciais entre os agricultores. As viagens. A microrregião localiza-se entre a Amazônia Central e Amazônia Oriental. Uma espécie de retorno às origens. solidariedade. p. Mocajuba. Em maior ou menor profundidade a região sofre os impactos da barragem de Tucuruí. são momentos de contemplação. Miolo pororoca. em escalas regionais.nome de embarcação adquirido por conta do ruído do motor . Dias melhores virão? Baixo Tocantins: economia. No estuário é a oscilação das marés que condiciona a vida da população local. Desse conjunto. nacionais e internacionais que conectam a Região Amazônica ao resto do planeta.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 123 Uma parte dessa gente da Amazônia do Pará encontrou um rumo na vida na agricultura familiar. com ênfase para a redução do pescado. Sete municípios compõem a região: Abaetetuba. 14:55 . pescadores e extrativistas com o meio urbano. Igarapé Miri. o que põe em cena a disputa pelo modelo de desenvolvimento. Alguns estão na direção das organizações de representação camponesas e outra parcela sentou o passo em projetos de assentamentos rurais ou ainda disputa um pedaço de terra. por onde passa a linha dividindo coincidentemente a microrregião do Baixo Tocantins e a de Tucuruí (COSTA. Limoeiro do Ajuru. fofoca. no nordeste do Pará. Baião e Oeiras do Pará. A microrregião integra a bacia do Tocantins. conto de causos.pmd 123 24/7/2012. 21). troca de informação. Muitos (as) foram mortos (as) na disputa pela terra. 2006. voadeiras e popopôs.

como o sudeste Miolo pororoca. p. o que prenuncia outros impactos sociais e ambientais para as populações locais. a Vale e a Alcoa. superada apenas pela bacia do rio Amazonas. ligadas a grandes corporações. A população rural ocupa duas dinâmicas distintas: terra firme e a região das ilhas. Na primeira predomina o cultivo da mandioca para a produção de farinha. se junta ao rio Guamá para formar a baía do Guajará e o conjunto fluvial da foz do gigante rio Amazonas. É ainda indicada como a de maior potencial para a geração de energia hidroelétrica. Sobre a população da região do Baixo Tocantins os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2000) apontam que corresponde a 353. ora coqueluche nacional e internacional. redução do pescado e poluição. deslocamento de populações indígenas. como parte desse complexo estuário amazônico. não indenização de famílias deslocadas pela obra. empresa responsável pela UH de Tucuruí. 2006. A Eletronorte. o qual despeja diariamente milhões de metros cúbicos de água doce no oceano Atlântico (COSTA.860 habitantes.pmd 124 24/7/2012. Por conta do açaí. chegam à região uma série de empresas de comercialização do Pará. Entre os impactos provocados pela barragem há registros de: inundação de vasta extensão de floresta. Recentemente a usina teve a sua capacidade duplicada para acompanhar o ritmo de aumento da produção nas indústrias de alumínio do Pará e Maranhão.124 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá considerada a segunda mais importante do país. se comunica com o rio Pará. nas ilhas há grande incidência de buritizais. entre outras espécies. 23). enquanto nas ilhas o açaí desponta como a principal produção. com enfoque em transporte e geração de energia. O rio Tocantins. A bacia do Tocantins-Araguaia constitui um dos eixos de planejamento do Governo Federal. Além da palmeira do açaí. erosão do leito e das margens do rio e elevado índice de malária. 14:55 . Sem falar do não atendimento das populações nativas com a energia gerada pela hidrelétrica. A obra de engenharia foi erguida durante o regime militar para alimentar as grandes corporações do setor de alumínio no Pará e no Maranhão com energia barata. e de regiões economicamente mais desenvolvidas. nos derradeiros anos tem se empenhado em implantar alguns projetos que reduzam os impactos resultantes da obra.

Um pouco da história do campesinato do Baixo Tocantins Em termos gerais. o principal produto dessa zona. com menor impacto. duas matrizes em demasia caras ao equilíbrio ambiental. socialistas e capitalistas. que antecipou a monocultura da pimenta-do-reino. permitiu a essas áreas relativa conservação (COSTA. As análises de Gilson Costa sobre a região atestam que a renda agrícola advinda da agricultura e do extrativismo. Nos dias atuais as atividades de agricultura e do extrativismo regem a economia local. 25). até meados da década de 1970. o que. quando se registra a redução do estoque de madeira. feudais. com prolongamento até a década de 1990. dentre outros fatores. que também sofreu desflorestamento no mesmo período. As investigações realizadas por Gilson Costa sobre o Baixo Tocantins apontam que o processo na região teve início na década de 1960. No momento as empresas tendem a estipular o preço do produto. A exploração do cacau e da seringa configurou a cena econômica por longos anos na região de Cametá. Quanto à região das ilhas. 2006. os estudos considerados clássicos sobre a categoria campesinato indicam que é a condição subordinada que o conforma nas diferentes sociedades escravocratas.pmd 125 24/7/2012. este foi bem menos intenso. As áreas de terra firme desflorestadas são ocupadas por agricultura tradicional de corte e queima. A cobertura vegetal do Baixo Tocantins é classificada por especialistas como floresta equatorial densa. p. Seguida da exploração madeireira. a partir da transferência do excedente de sua produção Miolo pororoca. até porque não havia grandes concentrações de espécies madeiráveis como na região de terra firme. onde basicamente cultivase mandioca. A presente corrida sobre o açaí tem motivado junto aos trabalhadores rurais a necessidade de fortalecer a organização dos produtores para que se consiga uma melhor capacidade de negociação. tendo como consequência a migração das madeireiras para outras regiões. responde por mais de 60% da economia dos municípios da região do Baixo Tocantins.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 125 do país e mesmo empresas européias e americanas. As pesquisas sobre a Amazônia indicam que a atividade madeireira tem sido o primeiro passo para o início do desflorestamento. 14:55 .

anos 1970. Já as pesquisas sobre o campesinato na Amazônia indicam que a precariedade é uma característica que integra a vida do (a) camponês (a) na região. quando o país ainda vivia num processo de ditadura militar. numa região denominada Anilzinho. por exemplo. há casos de famílias com mais de dez filhos. além de ausência/insuficiência de assistência técnica. o movimento agrupava representantes das elites locais e o povo pobre da região.126 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá para outras classes sociais. Entretanto. No Baixo Tocantins. estimada em cem mil habitantes. baixo uso de insumos. situada às margens de um rio de mesmo nome. grandes distâncias dos centros de comercialização. As famílias numerosas emergem como um fator de pressão sobre os recursos naturais e a terra. O caráter combativo é uma marca da sua trajetória. O movimento que aconteceu no município de Baião foi o primeiro no contexto da luta pela tomada do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) pelos trabalhadores alinhados politicamente com o “novo sindicalismo”. pouca capacidade na produção e comercialização de produtos. revolução ocorrida no século XIX e o Movimento de resistência conhecido como Anilzinho. Já o movimento do Anilzinho se constitui como um marco recente do campesinato do Baixo Tocantins. Constituiu um fato importante no processo de adesão da Igreja Católica local à luta pela terra que já iniciara em diversas regiões do Brasil e sobre a qual a Miolo pororoca. 14:55 .pmd 126 24/7/2012. Há dois momentos históricos marcantes na luta em busca da emancipação: o da Cabanagem. A repressão contra a revolta cabana chegou a assassinar cerca de 30% da população do Pará na época. Esse conflito ocorreu em 1979. tal condição não anula a sua revolta ante os agentes de sua condição. A Cabanagem (1835-1840) é um dos momentos mais significativos nessa trajetória de insurgência no período regencial do Brasil. O nome do movimento é uma referência às moradias humildes das comunidades ribeirinhas. A base de produção familiar e o controle relativo sobre os meios de produção são outras características em comum nas observações de diferentes pesquisadores. Embora a condição subalterna o conforme. Precariedade que passa pela baixa escolaridade. Avalia-se que pela primeira vez os oprimidos conseguiram chegar ao poder. o campesinato do Baixo Tocantins é considerado um dos mais antigos e importantes da Amazônia. o que facilita a ação de atravessadores. No que diz respeito à organização.

marcam os anos 1990. através do documento “Igreja e problemas da terra” (CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. A Igreja Católica é um dos mediadores mais presentes a partir da década de 1960. Nota-se na História do Baixo Tocantins um conjunto de inúmeras formas de mobilização que passa pelos gritos da terra. associações e cooperativas. Na caminhada camponesa amazônica foi relevante a presença da Igreja Católica a partir das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) na formação de STR.pmd 127 24/7/2012. Os acampamentos que tiveram a participação do bispo D. Assim também é percebida a eleição de representantes da categoria em diferentes níveis de poder: executivo e legislativo em escalas municipal e estadual. a criação de cantinas comunitárias e a assistência técnica. 14:55 . que transitam por partidos políticos. ONGs. 1980). A trajetória do campesinato amazônico na busca pela emancipação registra várias mediações. O campesinato do Baixo Tocantins realizou em momentos mais recentes inúmeras frentes de atuação. A conquista do Fundo Constitucional do Norte (FNO) especial é considerada um marco do momento recente da luta sindical dos (as) trabalhadores (as) rurais do Baixo Tocantins. entre outros. ocupações em órgãos públicos no município e em Belém. Na experiência de Cametá são conhecidas as comunidades cristãs que fomentaram experiências com o cultivo da pimenta-do-reino. Em certa medida um passo significativo na relação de poder contra Miolo pororoca. acampamentos de camponeses no município de Cametá. Nesse contexto de lutas realizam-se mobilizações no município de Cametá e no vizinho município de Tucuruí na luta pela energia elétrica.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 127 Igreja Católica manifestou-se publicamente. social e político. José Elias só foram desfeitos após acordo e recebimento de fax do Ministro das Minas e Energia da época atendendo a reivindicação dos acampados no fim da década de 1990. segmentos da Igreja Católica.cidade pólo da região-. e avança até a década de 1990. Na década de 1990 registrou-se uma vasta mobilização camponesa em todo o país em busca do reconhecimento econômico. . Nos registros de pesquisa de Valdomiro de Sousa encontram-se o Movimento em Defesa da Região Tocantina (Modert) e o Movimento Nacional dos Atingidos por Barragens (Monab) e ainda o Movimento Nacional dos Trabalhadores da Pesca (Monape).

que sugerem a dinâmica da diversificação de culturas e Sistemas Agroflorestais (SAF). tem-se. e de espécies frutíferas estranhas à região.pmd 128 24/7/2012. Técnicos que atuam na assistência rural regional revelam que o modelo dos projetos foi equivocado. No campo da assistência técnica a região registra a presença da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) e a Comissão Executiva da Lavoura Cacaueira (Ceplac) e de forma considerada não sistemática existem ações de algumas prefeituras. enquanto os setores do agronegócio ligados à produção dos insumos agropecuários conseguiram lucrar bastante com a venda de maquinário e adubo químico. o uso intensivo de adubos químicos. Gilson Costa sublinha que os camponeses foram duramente atingidos. 14:55 . como o murici. que soma aproximadamente oito anos. A outra fase diz respeito às linhas de financiamento do governo que tiveram como resultado o endividamento das famílias camponesas. Os registros históricos sobre as ações da Prelazia de Cametá com o incentivo da pimenta-do-reino sinalizam como limites além da dinâmica de monocultura. da Associação Paraense de Apoio às Comunidades Carentes (APACC) na construção de um processo de transição do modo de produção camponesa. Entre os fatores indicados encontram-se a ausência de habilidade do trabalhador/a rural com as entrelinhas da dinâmica bancária. Se o momento inaugural foi marcado pelo foguetório. Além do FNO a luta sindical alcançou outras políticas públicas para a região como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). marcado pelo incentivo de monoculturas da pimenta-do-reino. O golpe de misericórdia na monocultura de pimenta-do-reino foi a redução do preço no mercado externo.128 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá as forças tradicionais. Entre os desdobramentos da jornada. Sucedeu um profundo endividamento. o que resultou num clima de insegurança e desconfiança entre os/as trabalhadores/as rurais sobre qualquer intervenção externa. o seguinte não teve tanta celebração. Uma ação na contramão do que preconizam os estudos sobre a Amazônia. tendo como centro a agroecologia. Eis uma modesta reconstrução sobre a vasta história da região em que vai se desenvolvendo a experiência no contexto recente. a construção da rede de camponeses (as) multiplicadores (as) no horizonte da agroecologia Miolo pororoca.

em aproximadamente 130 comunidades. políticos e sociais do Baixo Tocantins e sinaliza para a metodologia de trabalho que alterna o diálogo e produção de experimentos na área de produção e saúde preventiva de forma integrada. Um pouco da vasta experiência encontra-se registrada em artigos na Revista Agriculturas .experiências em agroecologia. quando da realização do Fórum Social Mundial em Belém. estadual e federal. entre eles. 14:55 . A caminhada incentivou canais de diálogo com uma diversidade de sujeitos sociais regionais.000 experimentos baseados na agroecologia. Oeiras do Pará e Limoeiro do Ajuru. A produção contextualiza os elementos econômicos. associações e cooperativas de produtores rurais. Ao longo desse tempo a APACC fomentou um pouco mais de 1. A publicação recupera um pouco da História da experiência.pmd 129 24/7/2012. A avaliação positiva pode ser encontrada nos relatórios de observadores externos. colônias de pescadores e inúmeras instituições dos governos municipais. que envolveu cerca de 2. o trabalhador/a rural. em citações de trabalhos científicos de pesquisas universitárias. nos relatos dos trabalhadores e trabalhadoras rurais em participação de vários encontros dentro e fora do Pará. O livro registra ainda os desdobramentos positivos e limites da experiência. na esfera nos financiadores e principalmente nos depoimentos do sujeito social que é o principal parceiro da APACC. Em janeiro deste ano.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 129 e saúde preventiva. universidades. Pará a APACC lançou o livro Na Trilha do Anilzinho: Resistência e multiplicação de Conhecimentos Agroecológicos na Região do Baixo Tocantins-PA. Casa Familiar Rural.500 pessoas nos municípios de Cametá. O reconhecido e inovador trabalho da APACC tem como pontos positivos a diversificação da produção camponesa do Baixo Tocantins. A inovação se reflete que antes da intervenção da APACC o produtor Miolo pororoca. Avaliação em regra geral é positiva e entusiasmada sobre a intervenção da APACC nos mais diversos níveis do diálogo da instituição. seguindo uma orientação cuja base reside no diálogo e na troca das diferentes formas de conhecimento. nacionais e internacionais. sindicatos de trabalhadores rurais. para o cultivo de práticas inovadoras de produção camponesa. que efetivou uma Rede de Multiplicadores em Agroecologia.

Rio de Janeiro/ RJ. São Paulo: Brasiliense. Aprimorando o manejo tradicional de açaizais nativos.nº3Rio de Janeiro/ RJ. F. CAPORAL. Rio de Janeiro. Da extensão rural convencional à extensão rural para o desenvolvimento sustentável: enfrentar desafios para romper a inércia. Porto Alegre/RS. C. 1994. 1992 MACIEL. In MONTEIRO D. F.htm#_Toc13019702>. 14:55 . & M. Referências Associação Paraense de Apoio às Comunidades Carentes (APACC). & outros. 15 a 17 Miolo pororoca.org/brasil/ material/costabeber. RAMOS L. NAEA/UFPA. Replicação dos conhecimentos da pedagogia da alternância para o desenvolvimento das comunidades no município de Cametá/Pa. Agroecologia e Extensão Rural: Por uma nova Extensão Rural: fugindo da obsolescência. Terra. F. Belém. COSTABEBER. CAPORAL.130 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá mantinha uma ou duas linhas de produção. C.agroeco.experiências em agroecologia. E. S. APACC. F. Desafios na Amazônia: uma nova Assistência Técnica e Extensão Rural. MONTEIRO. Resgate e valorização da sabedoria popular sobre o uso de ervas medicinais no Baixo Tocantins (PA). Belém. 2007 COSTA. Paz e .pmd 130 24/7/2012. outubro de 2006.experiências em agroecologia. CARMO. FIPAM/NAEA/UFPA. p. In Revista Agriculturas. 2006 D´INCAO. G. v3. com após a troca de conhecimento com a equipe multidisciplinar da ONG a unidade produtiva mantém entre quanto a seis linhas de produção.R. 20 a 23 POMPEU. Relatório de Avaliação Externa. nº4. O que é comunicação rural. & TOPALL. Isso possibilita segurança alimentar e renda durante todo o ano. dezembro de 2007. 1985.. ed. p. Disponível em <http://www. M.J. FREIRE. Belém. P Extensão ou comunicação. 2003. 10ª ed. v4. Tecendo saberes: agricultura familiar com princípios agroecológicos na Amazônia paraense. O manejo do açaí é uma das praticas com maior repercussão no aumento da produção. J. 2007.R. Acesso em 25/07/2008. BORDENAVE. UFPA. 2ª. 2006. O. Desenvolvimento rural sustentável com no paradigma da agroecologia. In Revista Agriculturas. S.

Paragominas. p. concentração de terra e renda estão entre os elementos que resultaram do processo de internalização do capital no sul e sudeste do Pará. Publicado originalmente no site da Rede Fórum Carajás e no blog Furo em julho de 2010. Campesinato na Amazônia: da subordinação à luta pelo poder. P. desmatamento. DIAS. & MACIEL. O modelo coloca no primeiro plano a disputa pelo território e as riquezas naturais existentes. as populações que lá habitam os conhecem bem. SOUSA. como a produção de energia e transporte. Ourilândia do Norte. In PETERSEN.pmd 131 24/7/2012. V. O aprofundamento do extrativismo mineral dialoga com outros projetos. 17 Miolo pororoca. São Félix do Xingu. no Amapá. Eles configuram eixos de desenvolvimento que norteiam a ação do planejamento do governo federal.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 131 SOUSA. A. Construção do conhecimento agroecológico. R. Articulação Nacional de Agroecologia. R. E tem sido o extrativismo mineral que inseriu o Pará entre os estados que mais contribui para a formação do superávit primário do país. O estado foi consagrado como o principal indutor da economia que tem ainda hoje como matriz o extrativismo. No século passado. 14:55 . NAEA/UFPA. 2007. o regime de exceção (1964-1985) é considerado um marco histórico da integração da Amazônia ao resto do país. prostituição. R. SILVA. No entanto. O ciclo da mineração na Amazônia iniciado na década de 1950 na Serra do Navio. Canaã dos Carajás. Xinguara e Juruti são alguns deles. Tais passivos quase sempre são ocultos da pauta dos grandes meios de comunicação e nos discursos políticos. Multiplicadores dos conhecimentos agrecológicos: a experiência de extensão rural na região Tocantina (Pará). Belém.88 a 102 8 . 2002. e que se aprofundou com a descoberta do ferro e outros minérios na região de Carajás.Carajás – interesses da Vale pressionam territórios de camponeses e indígenas17 Elevada taxa de violência contra camponeses. F. trabalho escravo e infantil. agora ganha outras nuances com a exploração em outros municípios do Pará.

O município registra ainda o fenômeno da proliferação da construção de inúmeras vilas de kitnet para atender a demanda de operários e migrantes. duplicação de parte da Transamazônica que corta a cidade. Dessas duas dezenas de cidades. entre outras: Camargo Correa. É ela que pressiona áreas de projetos de assentamento da reforma agrária e áreas indígenas.21 municípios do Pará estão entre os cem que mais desmatam na Amazônia. além das relações políticas em diferentes níveis de poder. por conta do poder econômico. Somente no primeiro semestre de 2010 cerca de 300 pessoas foram assassinadas de forma violenta no sul e sudeste do Pará. Os estudos foram realizados através do Projeto Prodes – Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite/2007. loteamentos. Carajás . na forma de placas e bobinas. 14:55 . e tem induzido a remodelação das cidades.5Mt/ano de aço plano. Registram-se inúmeras ocupações. social e econômica.tensões na disputa pelo território . Entre as construtoras de hidrelétricas temse. A região também lidera o ranking de trabalho escravo em fazendas e carvoarias. Alcoa e Tractebel Suez. Uma outra questão. reside em índices recordes de ações contra a Vale no município de Parauapebas. e o surgimento de outros atores políticos e econômicos. É a mineradora. ampliação do polo industrial com a construção da indústria Aços Laminados do Pará (ALPA). a exemplo do que ocorre em Marabá. ampliação de vias consideradas estratégicas. pescadores. esta de ordem trabalhista. 19 estão no sudeste do Pará. Boa parte desses municípios que ocupa linha de frente em desmatamento também lidera o ranking de violência. Miolo pororoca. como camponeses. MMX estão entre as empresas mineradoras. que tem estruturado e reestruturado o território na região de Carajás. Alcoa. como a duplicação da ponte sobre o rio Tocantins. quilombolas e indígenas. controle de tecnologia de ponta. O município considerado polo da região passa por alterações em sua geografia física.pmd 132 24/7/2012. que além da mina de Carajás abriga o pólo siderúrgico. Vale. extrativistas. A empresa que será movida a carvão mineral deverá produzir 2. Sem falar da própria Vale e Alcoa.132 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá Estão em oposição grandes corporações do capital nacional e internacional que gozam do financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e as populações locais consideradas tradicionais.

POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 133 A mineração da Vale encontra-se em expansão. tal ampliação tem implicado incremento da infraestrutura de transporte multimodal para escoar a produção. com 330 vagões e uma extensão de 3. onde as mineradoras Vale e Alcoa são associadas da Camargo Corrêa e da Tractebel Suez. que às vésperas de cada eleição. a construção de um porto em Marabá e a ampliação do Porto do Itaqui em São Luís. assim como os problemas. Vale de mineração na região de Canaã dos Carajás/PA\Foto: Rogério Almeida Os territórios já efetivados são pressionados a cada novo projeto de mineração e construção de obras de infraestrutura. coloca a emancipação em pauta. Frações de poder do Baixo Amazonas e Carajás pleiteavam Miolo pororoca. Os números sempre são estratosféricos. Ourilândia do Norte . 14:55 . A ferrovia de Carajás terá a duplicação de 600 km do total de 800. E a construção de inúmeras Hidrelétricas na bacia do AraguaiaTocantins. Maranhão. Na ferrovia de Carajás circula o maior trem do mundo.O conflito norteia a realidade da região de Carajás.500 metros com capacidade para carregar 40 mil toneladas de minério. O que implica em novas tensões. No fim de 2011.pmd 133 24/7/2012. na fronteira do Maranhão com o Tocantins. a exemplo da hidrelétrica de Estreito. a população decidiu pela manutenção do território. Tem-se ainda a efetivação da hidrovia do Araguaia-Tocantins.

A Canico do Brasil Mineração Ltda. A Vale adquiriu o direito da exploração de níquel no município em 2005. Somente num módulo de exploração. Por conta dessa situação. Campos Altos e Santa Rita. uma subsidiária da canadense INCO foi a primeira empresa que controlou as minas. Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (CEPASP) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT). Os dados indicam que pelo menos 80 lotes foram negociados. Curionópolis e Marabá. Ao menos para a empresa. O Miolo pororoca. A situação de conflito entre a empresa mineradora e os assentados da reforma agrária resultou na fragilização da cadeia de produção de leite. que corta a reserva indígena do povo Xikrin. Situações de conflito marcam as realidades locais. o empreendimento é considerado de excelente viabilidade econômica. Além do município de Ourilândia do Norte o níquel incide em São Félix do Xingu e Parauapebas. na passagem de 2007 para 2008. Em 2006 a Vale adquiriu a INCO. 14:55 . ponderam especialistas em cadernos de economia dos principais jornais do país. onde se explora níquel.134 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá a criação dos estados do Tapajós e Carajás. a estimativa é de 57 mil toneladas do minério por ano e investimento de 1. Um ano antes de somar a primeira década de privatização. No mesmo documento há a informação que pelo menos duas nascentes de água foram soterradas para a implantação do projeto. Em seguida foi a Mineradora Onça Puma. O documento denuncia que 20 mil pés de cacau financiados pelo Banco da Amazônia (BASA) para fins de reflorestamento foram destruídos. Ourilândia do Norte. a empresa derruba as casas.1 bilhão de dólares. o INCRA nacional criou uma comissão para avaliar a situação. A extração do minério tem poluído o rio Cateté. No caso de Ourilândia. plantações e outras benfeitorias. Documentos sistematizados pelo Centro de Educação. descrevem situações de tensão entre as empresas mineradoras e as populações camponesas nas cidades de Canaã dos Carajás. os lotes envolvidos na compra ilegal pela Vale são provenientes dos projetos de assentamento Tucumã. O destino da produção é a Ásia. Em seguida. lotes de famílias assentadas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) são adquiridos de forma ilegal desde 2003.pmd 134 24/7/2012. Os dados atestam que no município de Ourilândia do Norte. com sede em Marabá.

cemitérios e outras infraestruturas. 14:55 . A metade do recurso será administrada por um fundo coletivo. tal profecia soa mais coerente para os interesses da megacorporação. Canaã dos Carajás . no caso do Pará. escolas. Conforme a assessoria da CPT. A mineradora deve investir pelo menos 16 milhões. No caso de Ourilândia do Norte. Canaã dos Carajás. Desde 2007 a CPT tem acompanhado a questão.o município integra a área de atuação da Vale. E a outra metade distribuída entre as famílias. Se na bíblia a terra. um acordo entre as partes envolvidas vai garantir o reassentamento de 20 famílias afetadas. posto a resistência da Vale para sentar à mesa quando do início da mobilização dos trabalhadores rurais.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 135 Ministério Público Federal indicou que o INCRA não tem competência para deferir ou indeferir a desafetação de áreas de interesse da Vale. as tensões sobre os territórios de interesse da mineração ou para as obras de infraestrutura estão configurando as principais demandas da instituição. Conforme o acerto. Foto: Rogério Almeida Miolo pororoca. a Vale fica obrigada a construir casas. estradas vicinais. Para a assessoria jurídica trata-se de uma grande vitória. onde correria leite e mel em abundância. seria a prometida para o povo de Deus.pmd 135 24/7/2012.

Ele já soma seis anos.7 milhões de toneladas de minério de cobre. há uma estimativa que a Vale tenha adquirido pelo menos 124 lotes em áreas de interesse para a exploração de minério ou para a construção de infraestrutura. uma questão considerada grave é a do abastecimento de água. o distrito foi emancipado da cidade de Parauapebas. No entanto. avaliam.pmd 136 24/7/2012. Calcula-se que a mina tenha 244. que abriga a mina de ferro de Carajás. Por ano. a Vale informa que efetivou o saneamento e o abastecimento de água da cidade. 1997. Diagonal sobre camponeses assentados para a aquisição de lotes. O Ministério Público Federal (MPF) já foi acionado. a Vale extrai dois milhões de toneladas. os depoimentos de pessoas indicam o contrário. É de praxe quando da efetivação desse tipo de projeto a especulação do mercado de terras no campo e na cidade. O CEPASP e a CPT assessoram as representações camponesas no processo de organização de dados e debates sobre a mineração na região. quando da implantação do projeto Grande Carajás. A inquietação de militantes populares recai sobre o dia seguinte após o encerramento da extração mineral. Miolo pororoca. Além das situações citadas acima. Faz cinco anos que a empresa explora cobre no município. Em suas propagandas e artigos sobre responsabilidade social. O cobre é extraído da mina do Sossego. Dirigentes de associações informam que além da má qualidade da água. No ano da privatização da Vale. A lógica do saque das riquezas naturais continua a mesma desde os tempos coloniais. aumento do preço da terra e da locação e venda de imóvel e elevação dos preços de diárias em hotéis. não democratização da informação são algumas das questões levantadas por algumas das associações ligadas ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) no município de Canaã dos Carajás.00.2 bilhão de reais. A Vale investiu 1. há problemas de abastecimento. que chega às vezes a taxas de R$ 400. problema de abastecimento de água. 14:55 . Devastação do meio ambiente por conta de transbordamento de tanques de rejeitos do processo de extração do minério. no sudeste do Pará. A estimativa de exploração do projeto é de duas décadas. Com relação à compra de lotes de pessoas assentadas. violência. assédio da Vale e da empresa terceirizada. E tem ainda a tarifa do serviço cobrado pela prefeitura.136 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá A cidade nasceu como projeto de assentamento agrícola na década de 1980.

Sossego. as queimadas ainda fazem parte da realidade local. Foto: Rogério Almeida Elevação da taxa de migração. Tais empreendimentos são considerados como enclaves. costumam ser os piores. O nome da mina de cobre soa como uma ironia. em contrapartida. Mas. Nos municípios onde tais projetos são instalados é comum a elevação do Produto Interno Bruto (PIB) e da renda per capita. o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e demais. prostituição e uso de drogas são passivos sociais que resultam da implantação de grandes projetos na região. A “terra prometida” fica cravada no vale com vários platôs a serem explorados pela empresa. presidente do STR de Canaã (boné claro – ao fundo) e Raimundo Gomes. Apesar de inúmeros alertas nos mais diferentes níveis. bem pavimentada.STR de Canaã. modelo de projeto de desenvolvimento e papel do Estado constam como elementos de Miolo pororoca. disputa pelo controle do território.pmd 137 24/7/2012. Ela passa a batizar empreendimentos na cidade. transferem riquezas para outros locais. No percurso atravessamos algumas fazendas e ocupações. As relações de solidariedade e companheirismo entre as pessoas que moram no local também são afetadas. Uma delicada situação fundiária. alcoolismo. sociólogo do Cepasp (boné escuro – 1º plano) discutem sobre as áreas de tensão na mineração da Vale . 14:55 . A estrada para se alcançar Canaã é sinuosa. A extração do minério e a pecuária conformam a economia local. posse e uso das riquezas locais.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 137 José de Ribamar.

Batista Afonso. Agora as organizações deverão apresentar uma proposta de reassentamento das famílias. a maioria é de baixa renda. Mas há o elemento religioso bem significativo. A localização do projeto de assentamento é considerada ótima para o escoamento da produção. 80 famílias de médias e pequenas propriedades estão envolvidas na disputa pelo território de interesse da Vale. reflete que a terra foi conquistada com muita luta. que conecta o local ao global por conta do extrativismo mineral. Os projetos de assentamentos rurais representam hoje. Estado e fazendeiros. E que não é justo a renúncia nem mesmo de um palmo de chão. a CPT conseguiu reverter a desapropriação de 41 famílias do projeto de assentamento Belo Vale. Coopserviços. A garantia de reassentamento das famílias com as mesmas condições e infraestrutura tem orientado a reivindicação das organizações populares. política e social encontrada pela mineradora. leite e artesanato. Já ocorreu uma primeira no dia 09 de julho. O STR em associação com a CPT e o Cepasp realizam a mediação entre os interesses das famílias e a mineradora. Conforme dados sistematizados pela prestadora de assistência técnica rural. hortaliças. 14:55 . Peleja que durou mais de duas décadas.pmd 138 24/7/2012. O advogado explica ainda. cerca de 52% do território do sul e sudeste do Pará e aglutinam perto de 80 mil famílias em um número de projetos de assentamento que beira a casa dos 500. A produção envolve frutas. Há casos que em projetos de assentamento chegam a ter mais de três templos evangélicos. pequenos animais. e que é marcada por grandes enfrentamentos com pistoleiros. o assentamento chega a faturar por ano. gado. Afonso sublinha que a maioria é pobre. E que a pauta principal reside na efetivação das mesmas condições de reprodução econômica. No caso de Canaã a tensão recai sobre a Vila de Mozartinópolis.138 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá pano de fundo sobre a região. Miolo pororoca. Conforme informações do agente pastoral. que outro ponto de tensão entre a Vale e os camponeses recai no município de Marabá por conta da ALPA. advogado da CPT. Desse total. localmente tratada de Rachaplaca. A vila não tem uma representação política que aglutine os interesses das famílias afetadas. próximo à Transamazônica. um milhão e duzentos mil reais numa produção volumosa e diversificada. mel.

Bosque Rodrigues Alves.a cidade 1 . o Jardim Botânico da Amazônia: 120 anos e História Miolo pororoca.pmd 139 24/7/2012.Coletivo Rádio cipó: a inquietação cultural na quebrada da Amazônia 2 . 14:55 .POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 139 03ª Parte Belém .

A polícia é a presença mais constante do Estado nas baixadas. sob um calor escaldante. Inóspita para a maioria dos filhos seus. abriga uma série de grupos de carimbó. verticais ou não. A cidade se avoluma descoberta de saneamento básico. água. índia. da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SPDDH). no bairro da Pedreira. cresce de costas para o rio. numa dessas. assim como as gangues e a venda de balas e picolés e a mendicância nos coletivos. 18 Miolo pororoca. Não há emprego para todos.Coletivo Rádio Cipó. Nela os canais proliferam.140 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá 1 . Os espigões proliferam por toda parte. branca e mestiça. É a mais barulhenta da nação. A cidade é para todos? Os condomínios. À noite a fumaça dos churrasquinhos nubla alguns pontos da cidade. renomado pela sua boemia. abrigo de inúmeras manifestações populares germinou o Coletivo Rádio Cipó. sufocada em engarrafamentos. 14:55 . despontam como signos da tragédia social que conforma o país. Em várias vicinais o corpo é comercializado. à Rua Álvaro Adolfo. A informalidade integra a paisagem. Ela é negra. como o mercado informal. Trabalho publicado originalmente na edição comemorativa de 30 anos do Jornal Resistência. em outubro de 2008 e posteriormente no site Overmundo. desprovida de transporte coletivo digno.A inquietação cultural nas quebradas da Amazônia18 Há cidades na Amazônia. Tudo parece banal. Uma delas. Belém.pmd 140 24/7/2012. nome de batismo da capital paraense. água de côco e o que for possível comercializar. A cidade que é quase uma ilha coleciona favelas. soma mais de um milhão e meio de habitantes. Há vendedores de inúmeros produtos: picolé. A rua que é considerada celeiro de artistas. igarapés e rios em Santa Maria do Grão do Pará. O cimento sufoca furos. O balaio de animação cultural agrupa gente jovem e outros não tão jovens assim. Ao contrário da perspectiva exuberante dos que percebem a região.

observava o show.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 141 Lá Ruy Montalvão e Carlinhos Vas encontraram D. A gente tocava além da música do grupo a do pessoal local. Vlad Cunha. O Coletivo se autodefine como um núcleo de produção de mídia sonora aliado à tecnologia de áudio digital caseira na produção de pesquisas sonoras experimentais com o objetivo de divulgar essa produção para o Brasil e no exterior. pesquisador na área de música e coordenador do site Overmundo. MC Jamant (vocal). Bernardo e Márcio Maués. Fizemos a experiência de uma rádio popular de poste. cada membro da banda tomou um rumo. nos chamou e pediu para que um senhor. O irmão do Herbert Vianna. após uma temporada em São Paulo. venceu vários festivais de carimbó no estado. Se é necessário sorte na vida e estar num lugar certo e na hora certa. Dão seiva ao grupo MC RatoBoy (vocal). Hermano Vianna. vocalista da banda Paralamas do Sucesso. Tó Teixeira. doutor em antropologia. A experiência Miolo pororoca. recorda Montalvão. se encontrava no espetáculo. Mestre Bereco é outro carimbozeiro do grupo. quando o mesmo militava na banda autoral Manga Beso. Carlinhos Vas. “Fervilhava o festival “Rock das 6h” na cidade e a banda iria se apresentar pela primeira vez num palco com estrutura. Primeiros passos O vocalista Ruy Montalvão. ao lado de outros músicos como Carlinhos Vas. mestre Laurentino. Renato Chalu (guitarra). O intento do pesquisador era garimpar artistas locais para integrar a iniciativa Música do Brasil.pmd 141 24/7/2012. explica que a gênese de tudo se encontra no fim da década de 1990. Após a experiência. “RatoBoy”. “Foi aí que fui morar com o Vas na Álvaro Adolfo. Foi a janela para o mestre ser conhecido em território nacional. voltando a se encontrar tempos depois motivados pela aprovação de um projeto com incentivo de lei municipal. Ná Figueredo. conhecido animador cultural em Belém. seu Laurentino foi laureado por ela. Apelou que o coroa fazia um som bacana na gaita harmônica. Jarede das Arabias (baixo e guitarra) e Luís Bolla (percussões). 82 anos de praia. Onete. que ainda tem o mais veterano roqueiro do Brasil. Mestre Laurentino e Dona Onete. e convidou Laurentino para o projeto. abrisse o show da banda. mestre Laurentino. O grupo topou e seu Laurentino caiu na graça de todos”. A professora aposentada é compositora e cantora. 14:55 .

coletivoradiocipo. lembra Montalvão.org. Miolo pororoca. como através de videoclipes. Soa hip hop desprovido de chatice e repetição. Formigando na calçada do Brasil. Assim o grupo já foi aclamado em São Paulo. As músicas da Rádio Cipó impregnadas da influência do rock. A via foi a divulgação através da rede mundial de computadores tanto das faixas do primeiro CD. 14:55 . Tais festivais soam como uma afirmação que se pode produzir sem a mediação de grandes corporações do mercado fonográfico. lançado este ano pelo selo Ná Records. CD e livro. www. Outra possibilidade de visibilidade do trabalho do grupo é a participação em festivais considerados alternativos que pipocam em todo o país. dubby e ragga muffy estão postadas no site da gravadora Trama e mantém o próprio site. Pernambuco e Brasília. O projeto mais ambicioso do Coletivo é a produção do registro da obra do mestre Laurentino em várias mídias: DVD. Rio de Janeiro Goiás.142 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá durou até o chefe de uma gangue solicitar o fim da rádio. A cada dia mais esquálido. A sonoridade que nasceu na quebrada amazônica com ensaios realizados nas ruas do próprio bairro já ganhou o país.pmd 142 24/7/2012. pois estava prejudicando os interesses da emissora dele”. Coletivo Rádio Cipó\Divulgação O som do Coletivo mescla a musicalidade regional com batidas eletrônicas.

Capa do primeiro CD Portugal. Aos quatro anos foi adotado pelo juiz de direito Francisco das Costa Palmeira. Lembra de fatos históricos e políticos antigos.pmd 143 24/7/2012. menor que um grão de mostarda. A música foi gravada pela banda pernambucana Mundo Livre S/A. Num trecho a canção dispara: Essa lourinha americana (lourinha americana)/Está querendo me escolachar/Foi dizendo que eu sou neguinho (bem neguinho)/E que na América eu não posso entrar. no CD Por pouco. apesar da popularidade. Miolo pororoca. Não tem mais irmãos vivos e depois de adotado não manteve mais contato com os pais biológicos. considera-se pequeno. fala com orgulho o serelepe senhor de 82 anos. O autor do hit Lourinha Americana.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 143 Mestre Laurentino – o neto de escravos que virou pop depois dos 70 anos Encontramos João Laurentino da Silva. Alemanha e até do próprio Estados Unidos”. O aposentado que recebe um salário mínimo por mês reflete que o mundo se encontra cheio de bandalheira e que não gosta de lari-lari. arquipélago do Marajó. Como uma eleição do tempo do interventor Magalhães Barata. Trabalhou como técnico de manutenção de aviões na extinta empresa Real Aerovias. França. também passou pela roça e pela exploração da madeira. que tira um sarro do pedantismo estadunidense. terra de nascimento do escritor Dalcídio Jurandir. Já recebi comentários da Itália. mais conhecido no mundo pop como mestre Laurentino. quando era comum se emprenhar urnas. 14:55 . no município de Ponta de Pedras. Laurentino tem memória prodigiosa. Estudou até a quinta série. O neto de escravos veio ao mundo no dia primeiro de janeiro de 1926. numa manhã ensolarada de setembro na Praça da República. “A música é sucesso internacional. que existiu entre 1946 a 1961. Humilde.

Narra aventuras do tempo da PRC-5. Além da companheira Elza o compositor que guarda as canções que faz na cachola. Miolo pororoca. 14:55 . acreana descendente de europeus e a dona Leonice dos Santos.pmd 144 24/7/2012. região metropolitana de Belém. somando com outros relacionamentos Laurentino contabiliza o total de 16 rebentos. Mestre Laurentino. Segundo o mestre. tem como xodós dona Maria Josefina. atual Rádio Clube. Passou por incontáveis programas de auditórios nas emissoras de rádio e TV´s locais. ele ainda confere o placar em noites chuvosas. Foto: Rosa Rocha Por cinco mil réis comprou a primeira gaita aos 18 anos. Desde menino manifestou interesse por música.144 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá O mestre em detalhes O mestre mora na ilha do Outeiro. Mas. com Elza Freire da Silva. com quem teve 10 filhos. O hoje celebrizado mestre já foi homenageado pela câmara municipal de Ponta de Pedras e em Belém.

as mãos sempre estão repletas deles-. Foto: Rosa Rocha Miolo pororoca. “Não esquece de colocar isso” exige o artista que no CD. o mestre coleciona cães. Diz ele que chega a percorrer até 14 km quando visita o município de São Caetano de Odivelas. são mais de 14.” exclama. Em certo momento da conversa ele interrompe e aponta a brincadeira de um par de passarinhos. afirma.pmd 145 24/7/2012.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 145 Recentemente recebeu um incentivo da governadora Ana Júlia para a construção de uma escolinha e aquisição de instrumentos para a sua banda de rock. Caiu em cima da caixa de som e quebrou os óculos. . Tirando o som com a batida das mãos ele cantarola várias canções do primeiro CD solo. Na manhã que comungamos nota-se a preocupação e amor do mestre pela natureza. relógios e anéis. afirma o roqueiro mais antigo do Brasil. onde tem uma terrinha. Além da coleção de chapéus. “Coisa linda. Adora andar e contar causos. Mestre Laurentino só toma vinho e há oito anos abandonou o cigarro. 14:55 . versa sobre a disputa eleitoral estadunidense. que deve ser lançado ainda este ano. “Tomo conta”. Entre as aventuras das múltiplas viagens ele conta que no festival de Goiânia os “malucos” o apanharam do palco e o jogaram para o alto. Numa delas filosofa: “No galho de nossas fantasias cada um tem a sua aranha”. em fase de produção. Mestre Laurentino. Sem modéstia afirma que aonde chega esbandalha tudo.

baías. furos. Dos 505.64%). a principal manifestação religiosa do estado. baía do Marajó. Tanto em sua parte continental quanta na insular. rios igarapés. Baía do Guajará. Belém.823 km2. formada por 43 ilhas. rio Guamá. Rio de Janeiro. 108. Miolo pororoca.5 milhão de pessoas se reúnem para celebrar a Virgem no Círio de Nazaré.Bosque Rodrigues Alves. Francisco Caldeira Castelo Branco comandava a expedição dos colonizadores. 2003.pmd 146 24/7/2012. A hidrografia é rica. A cidade foi erguida por portugueses na foz do rio Amazonas em 12 de janeiro de 1616. baía de Santo Antônio. 332. igarapé do Tucunduba são alguns dos recursos que compõem a península. Fachada do Bosque. O Jardim Botânico Da Amazônia.146 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá 2 . numa temperatura média de 30º C. 120 Anos De História19 A fé e o rio conduzem Santa Maria de Belém do Grão-Pará. Foto: Rogério Almeida Belém é quase uma ilha. na terra dos índios Tupinambás. o nome oficial da capital do Pará. Sob um clima quente úmido. Aqui todo mês de outubro uma população estimada em 1. rio Murubira. n.037 km2 é região insular (65. 19 Trabalho publicado originalmente na Revista Ecologia e Desenvolvimento. conta a história oficial. é o comércio que faz cidade se mover economicamente. baía do Sol. rio Mari-Mari. 14:55 .

Em Belém o ciclo da borracha.pmd 147 24/7/2012. o que ficou conhecido como Belle-Époque. Mapinguari figuram como alguns dos mitos amazônicos.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 147 Aqui. Abel Graça. No Brasil vivia-se o ocaso da Monarquia e o surgimento da República. A memória histórica do Bosque É no ápice do extrativismo da borracha que surge o Bosque Rodrigues Alves. ergue na Amazônia teatros. em 1870. uma espécie de vice-governador. o Jardim Botânico da Amazônia. Praça Batista Campos. A Europa era o espelho do modelo de urbanismo. Foto: Rogério Almeida Miolo pororoca. A Europa respirava a Revolução Industrial. parques e palácios de fina estampa. A primeira defende que o logradouro nasce oficialmente. Vitória Régia. Boiúna. segunda metade do século XIX. Duas datas se confundem para definir a criação do Bosque Rodrigues Alves. Matinta Pereira. lendas e histórias pulsam na mesma intensidade: Curupira. onde 30 mil pessoas morreram soa como orgulho. O capital gerado pela exploração da borracha colaborava para tornar Belém a “Paris dos Trópicos”. Teatro da Paz. Palacete Bolonha. hoje monumentos históricos despontavam na floresta como signos da elite local. 14:55 . Nasce no bojo do processo de modernização da urbanização da cidade. A Revolução Cabanagem erguida e coordenada por populares entre 1835/1840. Boto. segundo documento do Departamento de Extensão Cultural do Bosque. Mercado de Ferro do Ver-o-Peso. Praça da República. através de decreto do 4º vicepresidente da província do Grão-Pará.

O nome é uma homenagem ao correligionário de Lemos. espécie de prefeito da cidade (1879/1881). A valorização dos elementos da natureza como o ar. 14:55 . um geógrafo da Amazônia. Eduardo Hass. através de uma resolução do Conselho Municipal. de Paris. O Bosque é como um pulmão no meio da urbe. Bosque Municipal do Marco da Légua. O intendente teve papel definitivo para definição da urbanística de Belém. numa sessão de 25 de agosto de 1883.pmd 148 24/7/2012. Monumentos como grutas. diretor do Bosque e o arquiteto José Castro Figueiredo foram os responsáveis pela empreitada. 150 mil metros quadrados. A iniciativa teria partido do senhor José Coelho Gama Abreu. o então Presidente da República do Brasil. definição espacial de hoje foram realizadas por Lemos. O Bosque por dentro Um pedaço da Amazônia nativa de terra firme no centro nervoso da cidade de Belém. tomam um quarteirão inteiro do bairro do Marco. A mesma dura três anos. a mais aceita. A história do Bosque Rodrigues Alves é marcada por várias reformas. Passear pelo Bosque é fazer uma viagem pela história de Belém. confere ao senhor João Diogo Clemente Malcher. O portão principal do Bosque fica em frente à Avenida Almirante Barroso. A mais importante é creditada ao senhor Antônio Lemos. então presidente da Câmara Municipal. Os 15 hectares do Rodrigues Alves. intendente da província entre 1897/1912. intendente de Belém. que liga alguns bairros da periferia ao centro. Erguido em frente à ferrovia Belém-Bragança. a luz e a água serviam como ideário de qualidade de vida. que ligava a capital ao interior. o Barão de Marajó. A memória do Bosque narra que a inspiração teria sido o “Bois de Boulogne”. Francisco de Paula Rodrigues Alves. o Bosque Rodrigues Alves ganha seu nome definitivo em 17 de dezembro de 1906. pode-se verificar a presença de vários monumentos históricos do Miolo pororoca. progresso e higiene. uma referência ao limite da cidade. Em 1900 Lemos decide pela realização de uma grande reforma do Bosque. cascatas.148 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá A segunda data. viveiros. é o primeiro nome do Bosque. uma das principais da cidade. a criação do espaço de lazer dos ricos que surgiam com o lucro da exportação do látex. Além do fragmento da floresta nativa. riachos. O tráfego de carros é intenso.

000 são consideradas como jovens.pmd 149 24/7/2012. Interior do Bosque. coordenador de flora do Bosque. 194 gêneros e 309 espécies que foram catalogadas pela equipe técnica de flora do Bosque em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Para efeito de catalogação foram consideradas as árvores a partir de 10 cm de diâmetro. considerando que estamos falando da principal metrópole da Amazônia. Flávio Contente. e o Laboratório de Botânica. Do conjunto levantado cerca de 2. com coordenação da doutora Noemir Viana. num censo realizado entre setembro 1998 e junho de 1999. explica que tais dados são de grande importância. O Censo concluiu que existem 333 árvores por hectare.987 árvores de 50 famílias. que despontava como uma ameaça aos visitantes do Jardim Botânico. através da doutora Regina Célia. Na flora encontramos 4. e a Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA). O trabalho contribuiu ainda para se conhecer a saúde da flora e se planejar uma intervenção visando administrar o tombamento das árvores. através do Laboratório de Sementes Florestais.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 149 áureo período da borracha. 14:55 . Para tanto se fazia necessário conhecer a diversidade da floresta e classificá-la. engenheiro florestal. Foto: Rogério Almeida O tombamento de árvores no logradouro era um problema a ser superado. O censo verificou que 94% da flora do Bosque é composta de Miolo pororoca.

Entre os 6% da flora considerada exótica são encontrados bambus. o que permite a localização de cada árvore. mangueira. o que significa dizer que há várias árvores consideradas novas. em sua semente. Todos os Interior do Bosque. quando alcança a idade adulta. palmeira imperial. Atualmente a patente pertence a multinacional de cosméticos Chanel. usada pelas indústrias de cosméticos como fixador de perfumes. Entre as árvores do Bosque Rodrigues Alves existe a cumaru.pmd 150 24/7/2012. típica da Amazônia. que exige condições especiais para a sua reprodução consta na flora no Bosque. Outra informação destacada no censo é a presença de 16 árvores de maçaranduba. Miolo pororoca. espécie em vias de extinção. A cumarina também é usada na medicina para o controle da arritmia cardíaca.150 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá árvores nativas da Amazônia. espécie). palmeira rabo de peixe e tamarindo. Acapu americana. 14:55 . A cumaru produz. Foto: Rogério Almeida dados levantados estão informatizados no programa Autocad. Tamatá é a árvore mais importante do Bosque em índices de fitosociologia (classificação por família. Outro aspecto que o censo levantou é que a floresta está num estágio de regeneração. Além de muito resistente só começa a produzir por volta de 300 anos de vida. cada árvore ganhou uma placa de identidade. O fragmento de floresta está dividido em quatro quadrantes e em 112 canteiros. depois da medição da altura e diâmetro. Após o censo da flora. a substância cumarina. gênero.

Os bichos do Bosque Foto: Rogério Almeida O censo para identificar os bichos do bosque ainda está em andamento. Do que já foi realizado da fauna livre chegou-se ao diagnóstico que 65% é composta de mamíferos. Pacas. Entre os mamíferos são encontradas cutias. macaco de cheiro. através do Departamento de Zoologia. O veterinário explica que pelo menos 500 espécies de árvores dependem da ação do morcego para a sua reprodução. O trabalho foi realizado em parceria com a Universidade Estadual de São Paulo (UNESP). Paricá. a seringueira. veterinário do Bosque. o morcego tem papel fundamental para a manutenção da floresta. usada em várias áreas da medicina alternativa. três estagiários e dois tratadores de animais completam a equipe que cuida da fauna. A árvore que possibilitou a geração de riqueza do Pará. destaca Moura. 14:55 . são outros animais encontrados. tatu. vistas facilmente quando se faz a trilha ecológica para os visitantes.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 151 Outra árvore relevante no acervo é a andiroba. preguiça real. campus de Botucatu. está catalogada na flora do Rodrigues Alves. É o que explica Jairo Moura. 12% de répteis e 02% de anfíbios. uma bióloga. Além de Moura.pmd 151 24/7/2012. 21% de aves. morcegos. Miolo pororoca. Entre esses animais. Das 150 espécies de morcegos existentes do Brasil. 11 foram catalogadas no Rodrigues Alves. marupá e açaí são outras espécies verificadas.

de origem belga. estadual e nacional. trabalho que tomou de seis a sete meses. Miolo pororoca. perenas. araras. construído entre os anos de 1892/1900 para servir de residência para os ricos empresários do látex. o Rodrigues Alves mantém um acervo de animais da Amazônia em cativeiro. “Quando fazemos as trilhas com os estudantes. Entre eles uma quantidade de quelônios (tracajá. A construção do prédio foi idealizada para o clima da região. onde expele pelo menos seis mil sementes por noite”. papagaios. jabuti). tartaruga. A sua origem é a Societe Anonyme des Foges d´Aiseau. papagaio são algumas aves que fazem uso da floresta. significativo na história de Belém. explica o veterinário. 14:55 . Além de uma infinidade de insetos. O segundo encontra-se no campus do Guamá da Universidade Federal do Pará (UFPA). Atualmente o prédio abriga o Setor de Extensão Cultural do Bosque. Apesar de o carro chefe ser a floresta. são as aves mantidas pelo Bosque. periquito. Jacarés e o mamífero peixe boi podem ser vistos no lago do Bosque. Bélgica. fala com entusiasmo Moura. Monumentos do Bosque Chalé de ferro . Que mantém ainda macaco prego. foi remontado no Bosque em 1985. O chalé é tombado pelos patrimônios histórico municipal. a Coordenação de Articulação Educacional e Comunicação Social. e os peixes tambaqui. Algo que facilitasse a circulação do vento e fosse resistente às intempéries do clima amazônico. e a ararajuba. O chalé pertencia à Sociedade Beneficente Portuguesa. O prédio integra o acervo da arquitetura do ferro. É um dos três existentes em Belém. Entre os répteis podemos encontrar a jibóia e o camaleão. conhecido como peixe elétrico.152 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá O morcego é considerado o formador de florestas.pmd 152 24/7/2012. da cidade de Aiseau. trabalhamos a desmistificação que é dada comumente a esse animal.é uma estrutura pré-fabricada de ferro com 378 m2 . O morcego defeca de 12 em 12 minutos. o terceiro desmontado e com paradeiro ignorado. O sistema de construção foi patenteado em 1885 por Josef Danly. Sabiá. pirarucu e o poraquê. uma exposição permanente da coleção didático-científico de fauna e flora. muçuã. conhecida como a cidade das mangueiras. espécie ameaçada de extinção.

teve apoio da Petrobrás.pmd 153 24/7/2012. Miolo pororoca. Foto: Rogério Almeida Chalé de Ferro. A reforma foi pensada para melhor atender os visitantes. Ainda como parte integrante da arquitetura de ferro no Rodrigues Alves existe coretos e viveiros para aves. reparos na cobertura e na estrutura de madeira. durou três meses. além de tratamento anticorrosivo na estrutura de ferro. 14:55 . É um dos seis projetos apoiados pela empresa. Foto: Rogério Almeida A última reforma do chalé custou R$ 50 mil.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 153 Chalé de Ferro. O prédio recebeu nova pintura.

etnografia e arqueologia. percorreu em 1874 os rios Tapajós. No monumento constam os bustos de Augusto Montenegro e Antônio Lemos. Monumento aos Intendentes. O grande objetivo residia em garantir na reforma constitucional do Estado a reeleição do governador Augusto Montenegro. Jamundá. O projeto do monumento é de autoria do senhor Maurice Blaise. Jatapu. 14:55 . geografia.dois medalhões de bronze foram inaugurados em 1939 no Bosque Rodrigues Alves. Inaugurado em 1906 numa homenagem ao congresso de intendentes de todo Pará e caciques do Partido Republicano realizado em 1903. Tem trabalhos nos ramos de botânica. trabalho sobre a pororoca no rio Capim.154 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá O Monumento aos Intendentes – revela a não nova preocupação dos políticos com o culto à própria imagem. Urubu. A matriz inspiradora seria a Fonte de Médicis do parque do Palácio de Luxemburgo de Paris. Em 85 volumes registrou informações sobre indígenas. fruto de concurso internacional onde competiram artistas sul-americanos e europeus. materiais sobre a pedra polida. Ualumã.pmd 154 24/7/2012. O monumento fica bem no meio do Bosque. Como estudioso da Amazônia. um dos mais importantes naturalistas do Brasil. Trombetas e Capim. Miolo pororoca. um professor da Escola Normal do Pará. Um dedicado ao naturalista João Barbosa Rodrigues. O outro naturalista e botânico homenageado é Gerg Hubner. Foto: Rogério Almeida Homenagem aos naturalistas .

feições de macaco. durante a 11ª reunião da Comissão Nacional de Jardins Botânicos. A lenda narra que a entidade só anda pela mata durante o dia. com base na resolução 266 do Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA). que se estende até a barriga na direção do umbigo. O certificado foi entregue em cerimônia pela passagem dos 119 anos do Rodrigues Alves pelo presidente da Rede Brasileira de Jardins Botânicos. apesar do uso do artigo masculino. O Curupira é a Mãe do Mato. há pessoas que acham que o Mapinguari é um índio que alcançou uma idade avançada e virou um monstro. estão localizadas na primeira clareira do Bosque. As entidades mitológicas fazem parte do imaginário da Amazônia. Sérgio Bruni. E que só apareceria em dias santos e feriados. só que com um único olho cravado no meio da testa e dono de uma grande boca. Agora o logradouro passa a integrar a Botanic Gardens Conservation Internacional (BGCI). Um ser de grande porte. Haja Curupira para tanta devastação. Assim é a descrição do Mapinguari. Ainda como parte da lenda. Miolo pororoca. 14:55 . O Jardim Botânico da Amazônia O Bosque Rodrigues Alves ganhou o status de Jardim Botânico da Amazônia em 2002.pmd 155 24/7/2012. Pernambuco. traços de índio. Conta a lenda que o Curupira protege a floresta dos seus inimigos deixando-os sem rumo. É descrito como um ser de estatura pequena. rede mundial com 1. À entidade é conferido o dom da invisibilidade.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 155 Os mitos amazônicos estátuas do Curupira e do Mapinguari. e que possui os pés virados para trás. Alguns nativos narram que o Mapinguari tem os pés no formato de uma mão de pilão. em Recife. protetores da floresta.846 jardins em 148 países.

capacitação de pessoal. depois de sua inauguração e a reforma realizada pelo intendente Antônio Lemos. atinge um tamanho de 34 centímetros. Com a elevação do Bosque à categoria de Jardim Botânico. ressalta Contente. Com o novo status.500. Agora o Rodrigues Alves passa a ser uma área protegida. A construção de uma biblioteca no Chalé de Ferro. através de projeto-lei. onde 80% dos filhotes conseguem sobreviver. onde o acervo da flora cientificamente já reconhecido e identificado através do censo terá como finalidade o estudo. Entre as atividades a serem desenvolvidas como diretrizes dos jardins botânicos constam o desenvolvimento de pesquisa. Miolo pororoca. o Bosque espera facilidade para a captação de recursos em nível nacional e internacional para desenvolvimento de projetos. A ararajuba é muito conhecida no exterior. Na lista dos animais em vias de extinção. são projetos agendados pela coordenação do Rodrigues Alves Bosque. A Sociedade Brasileira de Ornitologia defende no Congresso Nacional.pmd 156 24/7/2012. passamos a integrar uma rede nacional de jardins botânicos e outra internacional. Tal fato descortina uma terceira fase na história do Bosque. trabalho em educação ambiental e pesquisas estão em desenvolvimento. Devemos entender que o horizonte do Bosque agora segue uma diretriz estabelecida pela Rede Brasileira de Jardins Botânicos. Conservação da biodiversidade. explica Flávio Contente. uma média de dois a oito ovos. distrito de Belém.um casal de ararajubas no mercado negro pode custar até US$20 mil. Tem a coloração amarela e as pontas das asas verdes. Alguns projetos desenvolvidos pelo Bosque SOS Ararajuba . A reprodução da ave é anual. Na Amazônia estima-se que existam cerca de 2. a pesquisa e a documentação da flora do país. a ararajuba pertence à família dos Psitacídeos. a organização de biblioteca e o desenvolvimento de programa de educação ambiental. uma coleção especial de plantas e o apoio dos parques ecológicos de Belém e Mosqueiro. a manutenção da biodiversidade.156 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá A elevação do Bosque Rodrigues Alves à categoria de Jardim Botânico é o fato mais importante da memória recente do logradouro. que a ave se torne símbolo do Brasil. o intercâmbio científico. chegou a valer até dois escravos no século XVI. 14:55 .

pode Miolo pororoca. Após um curso sobre educação ambiental. localizado próximo de Marabá. O projeto reúne como parceiros as 40 famílias do PA. as famílias estão recebendo animais de pequeno porte para a manutenção da taxa de proteína animal. Assim se supera o horizonte do Bosque ser percebido apenas como espaço de lazer. Por conta das limitações de sobrevivência no PA. 14:55 . Os visitantes com a ajuda de um técnico do Bosque passam a conhecer as árvores. que também possui o status de Jardim Botânico. os animais.200 mil pessoas passam pelo Rodrigues Alves por ano. Ibama. Para as crianças existe um pequeno parque. E o visitante que desejar descansar. O projeto iniciado em julho do ano passado está orçado em 70 mil reais.pmd 157 24/7/2012. e evitar a caça. os monumentos. Petrobrás. Quem desejar passar o dia inteiro na área não terá problemas com a alimentação.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 157 No projeto de assentamento (PA) José Pinheiro. Na trilha da Amazônia . na Transamazônica. A trilha ecológica é um subprograma inserido na pauta do Projeto de Educação Ambiental do Bosque. 12 escolas por semana visitam a área. Terra Firme e Ver-o-Peso. O programa possibilita que os visitantes conheçam a história do Bosque e os recursos de flora e fauna que ele abriga. Batalhão de Policiamento Ambiental e o Museu Emílio Goeldi. 30% da proteína animal consumida pelas famílias é proveniente da caça. O trabalho terá como mote a educação ambiental. Um restaurante com comidas típicas do Pará funciona todos os dias. A maioria desse público é oriunda de escolas. A ciência e a história são passadas de forma lúdica. É lá que a equipe de fauna do Rodrigues Alves deu o pontapé inicial do Projeto SOS Ararajuba. desempenhando a função de canal de disseminação das informações levantadas pelo censo. criado há dois anos pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). a importância histórica do Rodrigues Alves. verifica-se uma boa incidência da ararajuba. Para socorrer a sede tem ainda quiosques que comercializam sorvetes de frutas da região e água. sudeste do Pará. O próximo passo do projeto é um trabalho nas feiras livres de Belém em parceria com a Secretaria Municipal de Economia (SECON). pra evitar o tráfico de animais silvestres nas feiras da 25 de Setembro.

que consiste no uso das mãos para a canalização da energia vital do universo.A Fundação Mokiti Okada é quem anima o projeto de ginástica para a terceira idade em conjunto com a Fundação Papa João XXIII (FUNPAPA). O projeto visa a utilização do Rodrigues Alves com ambição de melhorar a qualidade de vida física e psicológica da comunidade. o Jardim Botânico da Amazônia se mantenha sempre limpo e os projetos saiam do papel. A administração – 70 pessoas. Duciomar Costa (PTB) garantisse quadro técnico para o zelo da fauna e flora do Bosque. É lá a maior densidade de plantas. É nesse canto que a fauna livre pode viver e se reproduzir distante da presença humana. como é tratado pelos pares mais próximos. nos mais diferentes campos. A Fundação Okada desenvolve as atividades com base na terapia Johrei incentivada desde 1931 por Mokiti Okada. que integra a administração indireta da Prefeitura de Belém. Em 2012 o Ministério Público Federal (MPF) exigiu que o prefeito de Belém. a realização de reforma em alguns espaços do Bosque. assentado no início do século passado. A administração é considerada um desastre. distribuição de mudas de árvores nativas da Amazônia e sessões de vídeo. É nesse canto que as jibóias vivem. lotadas no Departamento de Gestão de Áreas Especiais da Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Belém (SEMMA). Na semana dos 120 anos do Rodrigues Alves ocorrerá sessão solene na Câmara Municipal de Belém. apresentações artísticas. governa a cidade pela segunda vez. Dos 15 hectares de área. apresentação dos projetos. “Dudu”. trabalham para que o Bosque Rodrigues Alves. a festa – Além de uma campanha publicitária para a publicização do aniversário.158 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá sossegar as nádegas num dos bancos de estilo neoclássico com a gravação de uma esfinge em cada lado. 14:55 . Miolo pororoca. A Guarda Municipal de Belém (GBEL) garante a segurança. consta na agenda. 120 anos. seis constam como área reservada. Exercícios leves de ginástica e reeducação dos movimentos denominada Lian Gong são aplicados a um público estimado em 100 pessoas desde 2001. Terapias na selva .pmd 158 24/7/2012.

grandes projetos e as comunidades tradicionais – Entrevista com Irene Pinheiro Miolo pororoca.Maranhão: as vísceras do sertão.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 159 04ª Parte .Extrativismo mineral em Juruti: passivos sociais e ambientais e a peleja dos nativos contra o grande projeto.Entrevista com Antonio Gomes (Criolo).ativista pastoral do oeste do MA 5 .Entrevista com Batista Afonso.pmd 159 24/7/2012.Baixo Amazonas.Entrevista com Gerdeonor Pereira camponês do oeste do PA 4 . 14:55 .CPT/Marabá 3 .Entrevistas 1 .Amazônia e as novas frentes de expansão mineral e do agronegócio no sul e sudeste do Pará .A Amazônia sob a análise de Lúcio Flávio Pinto 2 .

o que ninguém mais tem coragem de publicar sobre os principais conflitos da região amazônica. Têm 10 livros publicados. Quando foi baixado o AI-5. omissão ou conivência. onde trabalhei no Correio da Manhã. ao longo de 38 anos de profissão. Em pleno regime democrático. percorreu. com 16 anos. vive há quase duas décadas sob a pressão de vários processos judiciais.Como foi o início de sua carreira? Comecei no jornalismo em 1966. Resolvi ir para São Paulo porque não havia mais condição de trabalho em Belém. dois da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas Profissionais). “Acho interessante que durante o regime militar. diversas redações como do Estadão.A Amazônia sob a análise de Lúcio Flávio Pinto20 Nosso entrevistado é um homem gentil e de aspecto grave. sinto-me mais perseguido do que na ditadura. por desconhecimento. eu era editor de A Província do Pará. insensibilidade. depois de ter sido seu secretário de redação por um período. O motivo? Escrever em seu Jornal Pessoal. e o maior prêmio jornalístico da Itália (o prêmio Colombe d’Oro per la Pace).pmd 160 24/7/2012. Veja e Isto É.160 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá 1 . ficou claro porque o jornalista e sociólogo Lucio Flavio Pinto. Nesse momento. daquele tipo de repórter investigativo que não se faz mais. Desde 1992. a exploração ilegal de madeira e a conivência do Judiciário com esses delitos. corre o risco de ser condenado e ir para a cadeia. como dos extintos jornais Opinião e Movimento. 20 Miolo pororoca. em A Província do Pará. Guilherme Carvalho e Nanani Albino. já foram 15 processos. é o principal parceiro do grileiro na Amazônia”. 54 anos. formato tablóide. Durante três horas de conversa. Voltei então para Belém. e publicações alternativas. fui jornalista por 19 anos e só fui processado uma vez. Aí fui pro Rio de Janeiro. 14:55 . Trabalho publicado nas páginas da revista paulistana Caros Amigos em julho de 2004 e posteriormente no livro o Jornalismo na linha de tiro autoria do entrevistado no ano de 2006. com tiragem de 2 mil exemplares. Ganhador de quatro prêmios Esso. todos sobre a Amazônia. “Antes o grileiro tinha o seu parceiro no 38.” *Entrevistadores: Rogério Almeida. além de mais um na justiça eleitoral. como a grilagem de terra. Rogério Almeida . Hoje os grileiros descobriram que o Judiciário. onde fiquei até janeiro de 1969.

Nanani Albino – Antes de entrar no Jornal Pessoal. Qual é o seu movimento familiar? Minha família é totalmente migratória. Trabalhei no Opinião. Foi o primeiro locutor esportivo em Santarém. que foi o embrião do Jornal Pessoal. do Estadão. e participei da edição especial da revista Realidade sobre a Amazônia. toda ela sobre a Amazônia. Nanani Albino – Sempre em Belém ou interior? Santarém. Nanani Albino – O que fazia o seu pai? Meu pai era precoce. Meu avô por parte de pai veio da seca do Nordeste para o Acre. para o jornal O Estado de S. Fiquei aqui até o fim de 1972. Nesse período era muito inconstante. daí voltei para São Paulo. um tablóide semanal de 18 páginas. Trabalhei também na Rádio Eldorado do grupo Mesquita. Eu nasci em Santarém e minha mãe também. Todas eram publicações alternativas.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 161 Trabalhei no Diário de S. Aí. de 1971 a 1988. carregava semente de algodão. onde fui correspondente do Estadão e da Veja. A Amazônia é rica em história de intensa migração. onde fiquei 17 anos. Depois viemos para cá. Meu avô voltou para a Amazônia e meu pai dava aula de inglês e era fotógrafo. em 1987. Trabalhei na Isto É e no Jornal da República. Naquela época a edição foi de 450 mil exemplares. em 1975. que fazia parte dos Diários Associados. comecei a fazer o Jornal Pessoal. Voltei para cá no fim 1974. Por parte de mãe português e acreano e cearense e acreano por parte de pai. Eles se juntaram lá. o maior jornal alternativo daquela época. Paulo. Depois voltei para Belém. Uma edição antológica.pmd 161 24/7/2012. Gostaria de saber a história de sua família.quando fiquei como correspondente. Foram 12 números do Informe Amazônico. Antes havia feito o Informe Amazônico. 14:55 . Paulo e no Diário da Noite. Em seguida. Trabalhei ainda no Movimento e no EX. Miolo pororoca. trabalhei no O Liberal (jornal de maior circulação do Norte do país) e na TV Liberal. Começou a trabalhar no Nordeste com meu avô que era comerciante com oito anos. Meu avô por parte de mãe é português. gostaria de voltar um pouco na sua trajetória. Guilherme Carvalho – Quando foi esse regresso? Eu ia e voltava sempre. depois para o Pará. Antes. para mim. Uma edição de 400 páginas. que ganhou o Prêmio Esso de Reportagem de 1971. havia feito o Bandeira 3. Voltei mesmo em fim de 1971.

Rogério Almeida . meu pai começou a enriquecer como empresário e comerciante. o que lhe rendeu o apelido de “papagaio do prefeito”. pelo MDB (atual PMDB). Em 1954. Pude ter um bom estudo. no município de Capanema. Chegou a ter três fábricas. por Vargas. na época sede do governo. com a quinta maior votação do Estado. Meu maior patrimônio era uma conta corrente em aberto na Livraria Martins. Seis homens e uma mulher. o MDB. era ele quem fazia os discursos.pmd 162 24/7/2012. em Santarém. Ele fez carreira como deputado pelo PTB. e a Tecefátima. Nessa época éramos de classe média alta. Rogério Almeida . já que era de classe média? A nossa vida foi um pouco incerta. Guilherme Carvalho – Como foi o episódio que ocorreu com teu pai durante a ditadura? Naquele tempo. Como era muito audacioso. Depois foi presidente da Congregação Mariana e secretário do prefeito da cidade. fibra que havia sido trazida pelos japoneses para o Baixo Amazonas com sementes da Ásia. a Tecejuta. no Palácio do Catete. O presidente liberou a importação das máquinas para a industrialização da juta. Num dado momento. Dos 83.O embrião da SUDAM? Não era o embrião da SUDAM. duas delas de fibras. Depois que meu avô perdeu tudo com a seca meu pai ficou pobre e eu estudava em escola pública. no regime militar. o Pará só tinha 83 municípios. 14:55 . Rio no Janeiro. daí integrou a comissão de planejamento da SPVEA (Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia). Bem. Podia tirar o que quisesse. Miolo pororoca. substituída pela SUDAM. depois foi prefeito de Santarém. Ela deveria continuar. e a de cerâmica Marajó. Guilherme Carvalho . Fundou o jornal Baixo Amazonas. ele foi deputado estadual pelo PTB.Quantos irmãos? Somos sete. Como o prefeito era muito inibido. escreveu para Getúlio Vargas e conseguiu uma audiência com o presidente. As máquinas vieram da Inglaterra e meu pai começou a montar a fábrica. mas desapareceu em 1966. meu pai trabalhou na SPVEA.Então o senhor não teve problemas para estudar.162 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá com 14 anos. A família o acompanhou para Belém quando assumiu o cargo. A SPVEA foi criada em 1953. Iniciou a primeira campanha para a industrialização da juta.

14:55 . E Santarém foi declarada área de Segurança Nacional. voltei para Belém. Talvez seja o único político cassado duas vezes. Rogério Almeida – Como foi a sua saída para o Sudeste. Alacid enviou uma tropa com 150 homens da PM com ordem de não permitir a posse. No dia da execução do mandado de segurança. Por problema de família. às cinco horas da tarde para a prefeitura. Afastado. A imprensa estava acomodada. Primeiro o mandato e depois os direitos políticos. Então. A gente já começava a ver o início da decadência do jornal que havia sido o mais importante da República. Parte de minha família morava lá e mesmo sem contato nenhum consegui trabalhar no Correio da Manhã. Ele concedeu mandado de segurança para a reintegração do meu pai no cargo. a PM começou a atirar.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 163 de oposição. Fiquei indo e vindo um certo período. a Câmara resolveu pela sua cassação. desde o início ele ficou atravessado. Fui primeiro para o Rio de Janeiro. o segundo mais importante município do Estado. Na última fase de D. que veio a ser desembargador depois. Ele conseguiu fugir e depois teve o mandato cassado. o brigadeiro Haroldo Veloso. Morreram três pessoas. Isso aconteceu em 1968. Ele disse que ia liderar a passeata para papai reassumir a prefeitura. que se deslocou para lá com tropas. que tinha sido líder da revoltas de Jacareacanga e Aragarças contra Juscelino kubistchek e era da ala radical da Aeronáutica embora fosse da Arena. Ele já havia sido “garfado” duas vezes no “mapismo” (a fraude que era praticada quando se fechava a apuração dos votos). Meu pai tinha conseguido uma vitória grande sobre a Arena. o juiz era Christo Alves. com uma margem de 65% dos votos. Niomar. A arena tinha o controle político e ele tentou uma composição com o governador Alacid Nunes com o pretexto de irregularidades nas contas dele. Ele entrou na Justiça no município de Óbidos. só elegeu dois em Santa Isabel. Papai teve apoio do deputado mais votado da região. Até que fiquei em Belém por mais tempo e participei Miolo pororoca. Quando a passeata saiu. um pequeno município e Santarém.pmd 163 24/7/2012. avião da Aeronáutica. Tinha apenas três representantes do total de nove. Papai teve que fugir e recebeu a cobertura do brigadeiro Paulo Vítor. não pôde mais eleger seu prefeito. meu pai foi afastado pela Câmara Municipal. onde era minoria. Foi convite de algum meio de comunicação de lá ou uma iniciativa sua? Vi que aqui não dava mais.

introduzimos suplementos. o Eduardo Celestino Ribeiro. Fui entrevistar o presidente da Associação dos Empresários da Amazônia. Avalio que há uma diferença entre conservadorismo e reacionarismo. No meio da entrevista. Aí veio o AI. a Fiesp. Meu marco teórico na época era Karl Manheimm. determinada por via telefônica. Dizia para mim mesmo: se ele conseguir fazer isso. que os donos de jornais iriam aceitar a censura. Nanani Albino . que durante um certo período foi um dos mais importantes de São Paulo. A primeira página dessa época era só de telegramas nacionais e internacionais. Vi que não tinha como ficar mais em Belém. ele começou a falar da Amazônia que bandeirantes como ele estavam criando. na antiga sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. na qual nasci e havia vivido a maior parte da minha vida. 14:55 . Vi que não tinha chance.164 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá de uma série de transformações em A Província do Pará. Chegamos a criar ainda um suplemento de vanguarda aos domingos. sair do Brasil.5. Decidi voltar para a Amazônia. Minha tese era mostrar que às vezes o pensamento conservador pode ser mais modernizador do que o pensamento de esquerda e analisava os intelectuais das décadas de 20 e 30 no Brasil. Rogério Almeida .Do Pará. dono da Cetenco Engenharia. Aquelas tendências modernizadoras dos anos 20 e 30 se tornaram conservadoras. fim de noite. Era o auge da pecuária de corte. com Oliveiros Ferreira. autor da célebre frase sobre “jogar fora os escrúpulos da consciência” para poder assinar o AI-5. Fizemos chamadas de primeira página. sociologia cultural e sociologia política. No dia 2 de janeiro de 1969. como aceitaram mais tarde.pmd 164 24/7/2012.Era a contradição de sua tese? Não é contradição. Nesse período o que me interessava era o cosmopolitismo. É a frase mais infeliz de Passarinho. Meu sonho era passar um tempo fora. que era no Viaduto Maria Paula. Li a íntegra na redação. quem assinou foi o Jarbas Passarinho? Passarinho era o ministro do Pará. a minha Amazônia. bandeirante típico. É aplicação histórica. fui para São Paulo e ainda peguei a decadência dos Diários Associados. Na medida em que ele falava (já havia escrito dois livros sobre isso). entrava em pânico. Estava fazendo mestrado de política na USP. desaparece. Eu dizia que às vezes a reação contra a mudança exerce um papel muito importante de Miolo pororoca.

A descoberta do Brasil não passa de movimentos espasmódicos e cheios de exotismo. Paulo nesse período. que conheciam o Brasil melhor dos que os de esquerda. principalmente entre 1971 e 1979. A penetração para o sertão. conheciam muito o Brasil. O Brasil não conhece o Brasil. Um ambiente mais democrático. E esquecendo essa vertente.pmd 165 24/7/2012. quando o Miolo pororoca. Quem quiser escrever a história da Amazônia tem que obrigatoriamente consultar o jornal O Estado de S. Em alguns momentos ele precisou de determinadas coisas que forneci. a corrida para o Oeste. Júlio Mesquita Neto. Naquela época fiz a “heresia” de entrar na sala do doutor Júlio que ninguém entrava. A história da Amazônia desse período está no Estadão. Isso fez surgir uma literatura fantástica. Lourival Fontes. Do ponto de vista do pensamento. incluindo Gilberto Freyre. Nanani Albino – O que desconhecem? O brasileiro continua a viver como caranguejo. para usar a imagem quinhentista. arranhando o litoral. O Estadão tinha a mácula do Estado Novo.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 165 oxigenação das idéias. 14:55 . Várias coincidências fizeram aproximar-me do dono do jornal. Os pensadores conservadores. É o descobridor querendo que a paisagem original seja de acordo com a visão do colonizador. não havia um só paraense na redação. Isso me levou a desistir da grande imprensa. Isso é bom para gerar controvérsia. Em nenhum outro lugar a história da Amazônia é mais visível. Foi isso que ocorreu com os intelectuais de 20 e 30 chamados de direita: Oliveira Vianna. Rogério Almeida – E os conservadores de hoje. como Paulo Prado. Não tinha muito respeito pela sacralidade do “aquário” (ambiente da direção do jornal) do chefe. Caio Prado Júnior. Houve um momento importantíssimo para mim. nem de qualquer outra parte da Amazônia. mais destrói do que conscientiza. O pensamento dos nobres da oligarquia era mágico. Azevedo Amaral. Todos estão atentos a Nelson Werneck Sodré. muito rica. Isso ocorreu com o fim do feudalismo na Europa. Sérgio Buarque de Holanda. É sempre o pensamento do litoral voltado para fora do Brasil. a imagem vale até hoje. inclusive escrever editorial. Isso foi um trabalho paulatino de convencimento da direção Nanani Albino – Isso se deve a quê? Por que você estava lá? Quando fui para o Estadão. conhecem? Acho que não conhecem mais. Eles escapavam da realidade para o mundo da imaginação.

eles aceitam a Amazônia como o lugar onde ocorrem os fatos insólitos. Miolo pororoca. Havia pessoas que trabalhavam no jornal fazia muito tempo. o resto era só a história da guerrilha. Eles não conseguem fazer uma cobertura sistemática. Manchete. se decidiu que o Estadão ia ser o grande jornal da Amazônia. Permitir que a Amazônia verdadeira emergisse na grande imprensa. e logo acordamos que São Paulo não mexeria em nosso texto. que arrancava dentes da população carente e outras coisas. ajudei a fazer a mudança de toda a rede de correspondentes do jornal no país. Os oito parágrafos iniciais eram dedicados a essa história da ACISO.166 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá governo entrou no Estadão e o administrou. que viria a ser a ACISO . Fizemos uma grande reunião com todos os correspondentes da região. da Veja.Ação Cívico Social do Exército. Rogério Almeida – Como foi a decisão da direção? A gente apresentou o projeto e foi aprovado. Na época nós tínhamos a sucursal do Estadão. a primeira sucursal verdadeiramente regional do jornal. Depois disso. Rogério Almeida – Quem veio cobrir a Guerrilha? Nós tínhamos feito o levantamento e faltava apenas a senha. e entraram numa rotina que era pobre para o jornalismo. A marca do liberalismo do Estadão dessa época era não aceitar censura. o Estadão melhorou tecnicamente nesse período. A propósito. que naquela época não tinha muita importância. Sob a liderança do Raul Martins Bastos. O plano. originais e inéditos. além de o repórter enviado era tido como de confiança do governo. A nossa idéia era depurar a visão exótica da Amazônia. aprovado pessoalmente pelo doutor Júlio. Rogério Almeida – Ainda é exótico o olhar da grande imprensa sobre a Amazônia? Hoje a cobertura da grande imprensa é muito pior do que na época do regime militar. a única que furou a muralha da censura no período. do Departamento de Sucursais e Correspondentes. Todos os grandes jornais tinham correspondentes. Nanani Albino – Quem são “eles”? Toda a grande imprensa. 14:55 .pmd 166 24/7/2012. A rede de informação do Estadão era bem fraca. era para eu vir para cá e montar a sucursal.

Meu compromisso era com a Amazônia. para usar um neologismo.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 167 Rogério Almeida – Não é contraditório quando a Amazônia é pauta em todo canto do mundo? É um interesse estandartizado. Vi que o Estadão não voltaria mais a ser o que era. Essa é a regra para a Amazônia. Escrever o que a grande imprensa não escrevia. Existe uma regra que se você sobrevive há 15 anos na empresa. O que ele escreveu sobre grilagem de terras não justificava de jeito nenhum qualquer ato hostil. Eu já tinha iniciado o Jornal Pessoal. repórter da Veja. sabia que não tinha volta.pmd 167 24/7/2012. Quando saí. Ele falou que havia dado dois dias seguidos de Amazônia e que precisava dar uma matéria de Fortaleza. em setembro de 1987. embora o caso nunca tenha sido bem elucidado. você é indemitível. Uma história cheia de contradição. Quando pedi demissão. fiquei 17 anos no Estadão. Dois terços da matéria que saiu em Veja era sobre o seqüestro dele. depois de 22 anos na grande imprensa. No melhor dia a matéria não saiu. Liguei para o editor de São Paulo e perguntei o que estava acontecendo. Era muito menos do que qualquer um aqui da terra já havia escrito várias vezes. eu vim com um compromisso dele. Começou exatamente por causa da morte de Paulo Fontelles. Ele apareceu um dia dizendo que foi seqüestrado. É o que se quer que seja a Amazônia. que foi deputado estadual pelo PMDB Miolo pororoca. Para acompanhar a Amazônia bem. 14:55 . Eles não querem isso. Ele foi retirado de Belém logo em seguida como se fosse uma operação de guerra. Ele saiu como o Indiana Jones. provavelmente pelos grileiros de terras. como havia feito no passado. é preciso uma boa estrutura. Nanani Albino – O que havia mudado? Tinha mudado o seguinte. Exemplo disso é Klester Cavalcanti. Ele se sentia desconfortável. Pedi demissão porque não acreditava mais que o Estadão pudesse fazer uma cobertura decente da Amazônia. Rogério Almeida – Você ainda estava no Liberal? Eu ainda estava em O Liberal. vou citar um exemplo: eu estava fazendo uma cobertura sobre um assunto. gente bem paga e qualificada. Guilherme Carvalho – Nesse caso o seu Jornal Pessoal surge para se contrapor a isso? Como disse. de volta à metrópole cosmopolita depois de aventuras na jungle feroz e primitiva. o doutor Júlio me ligou.

que ficou pouco tempo na Eletrobrás. Seria reeleito fácil se saísse deputado estadual.168 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá e advogado que defendia os posseiros no sul do Pará. 14:55 . Aí ele assumiu o vínculo com o PC do B. Ele não conseguiu se eleger deputado federal. Foi no dia 10 de junho de 1987. Em Belém. Lula o demitiu para colocar o Silas Randeau.Por pressão do PMDB? Da ala conservadora do PMDB e porque o Pinguelli queria executar o programa do PT para energia. no ano de seu lançamento. Como fez com o Christovam Buarque. Eu disse que a gente tinha que impedir que o crime ficasse impune. nós estávamos no debate. Rogério Almeida – Pinguelli é a maior autoridade de energia no Brasil? Não é a maior. Uma regra não escrita do crime de encomenda dizia que quem estava em Belém estava a salvo. Bem. como viria a ocorrer. Foram três tiros de mestre dados na cabeça dele. Morreu na hora. não. que veio a ganhar o prêmio da FENAJ. Agora. Três dias depois. O caso do Paulo foi o primeiro crime político na região metropolitana de Belém. apresentava um programa de entrevistas na TV Liberal e tinha minha própria coluna assinada no jornal. um colega que cobria polícia informou que ele havia sido morto. O que o PT fez com ele foi uma coisa indecente. mas digo que é uma grande autoridade é respeitado por todas as pessoas. Vi o corpo dele quando ainda estava no carro. no sertão. Paulo e eu. Ainda com o cigarro na mão. os pistoleiros respeitavam. sem a menor possibilidade de reação. era a lei da selva. Rogério Almeida . Ele estava no banco do carona. quando estava fazendo uma cobertura na Sudam. Escrevia nessa época a coluna Repórter 70. em pleno exercício de seu mandato de deputado estadual. Decidiu demiti-lo sem que ele nem fosse consultado. voltando ao episódio Paulo Fontelles. porque ele não tem voto. a mais influente do jornal O Liberal. Passei três meses investigando. do qual fez parte Luiz Pinguelli. Parecia um desabafo dele. o dono da empresa Miolo pororoca.pmd 168 24/7/2012. depois conversamos longamente. Escrevi uma grande matéria. foi morto o advogado João Batista. Só assim seria possível frear uma escalada. Mas o PT já tinha mudado e não queria mais o programa de energia. Na época do assassinato do Paulo. Era a sede dos poderes institucionais. Três dias antes a gente havia participado de um debate no Instituto Lauro Sodré. No ano seguinte.

só que tinha um problema: denunciava as pessoas mais ricas do Pará. 14:55 . Depois aprende a filtrar as ameaças dos trotes. que são sérias. foi uma denúncia de um rombo de 30 milhões de dólares no Banco da Amazônia (BASA). que não podia imprimir por causa disso. que se dizia o maior armador fluvial do mundo e o Jair Bernadino de Souza. A primeira você fica em desespero. Ela disse que não podia publicar a matéria porque citava dois dos maiores anunciantes do jornal. para intimidar as gráficas. Local por causa dos compromissos. com pouca circulação. No segundo número. Passei para a segunda gráfica. Com o Joaquim Fonseca. são as fraquezas da alma. superintendente da empresa. Sugeri que ia fazer um jornal. ela falou que imprimiria o meu jornal de graça. que nenhum jornal publicava. Rogério Almeida . determinadas matérias nunca seriam publicadas na imprensa local e nacional. provavelmente não sai em nenhum lugar.pmd 169 24/7/2012. há ameaças anônimas. Tem gente que é vítima de brincadeiras de humor negro e se diz perseguida. Envolvia uma pessoa que era amiga do dono dessa segunda gráfica. a maior revendedora de automóveis. Augusto Barreira Pereira. que era o advogado de O Liberal. publiquei uma denúncia de uso de cocaína bem antes da escalada da droga.O compositor? O compositor se beneficiou. que depois viria a entrar com cinco ações ns Justiça contra mim.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 169 tinha acabado de morrer. contanto que não citasse isso. da Belauto. Se não sair no Pessoal. Ela falou que a matéria era impressionante. É preciso tratar com seriedade o assunto. das 11 pelas quais o Jornal Pessoal já passou. nacional pelo desinteresse. O Liberal não publicava porque um dos envolvidos era o procurador dele. Em seguida. sobre a penetração da cocaína na alta sociedade. que realmente se amedrontavam. o Romulo Maiorana. mesmo saindo pouco. O que avaliei é que se o Jornal Pessoal não saísse. Depois. Houve um momento em que os Miolo pororoca. pelo presidente interino do banco. entraram com uma ação na justiça para que citasse onde era a impressão do Jornal Pessoal. Entreguei a matéria para a Rosângela Maiorana Kzan. irmão do Milton Trindade. O Jornal Pessoal se mantém nessa trincheira. e A Província do Pará não publicava porque outro dos envolvidos era o famoso Billy Blanco. Aí O Liberal disse que não imprimiria o jornal. Nanani Albino – Você sofre ameaças? Além de situações constrangedoras de perda de amizades.

me chamou na sede do IDESP (Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social do Pará. dizem que protejo o Jader. o Jader Barbalho era o governador do Estado. o Jader reagiu. Falei que não. eu estava fazendo a primeira denúncia de corrupção do Jader. que seria o órgão-chave da administração dele. Foi o momento mais crítico.pmd 170 24/7/2012. literalmente. que “cortaria o saco” de quem pretendesse me fazer mal. que era o Cláudio Augusto de Sá Leal. Foi feito um para o diretor de redação de O Liberal. Guilherme Carvalho – Os caras estavam mesmo interessados em assassinar você? O Jader apurou minha denúncia e desfez qualquer esquema que pudesse ser montado contra mim afirmando. informei-o e lhe disse que se fosse investigar saberia de onde estava vindo. Falei que não queria nada.Por que dizem isso? Eu e o Jader estudamos na mesma época no Colégio Paes de Carvalho. Ele perguntou o que eu queria ser no governo dele. Nessa época eu escrevia muito sobre terras. Dizia a voz: “Doutor. prepare a manchete de amanhã: Assassinado Lúcio Flávio Pinto”. numa reunião com seu esquema de segurança. órgão extinto no governo Almir Gabriel.170 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá telefonemas anônimos não vinham para mim. Depois do impacto. disse que a carta seria usada pelos seus inimigos para tentar prejudicá-lo. que já morreu. 14:55 . liguei para ele. Retruquei que lia eu que estava sendo ameaçado de ser destruído. Da turma. Na época. Miolo pororoca. ele sugeriu que eu fosse o coordenador do Conselho Superior de Desenvolvimento. Descobri de onde vinham as ameaças. ligou dizendo que era verdade e que ele havia desmontado o esquema. contando que as ameaças de morte estavam vindo dele. mas se reuniu uma vez. A denúncia estava muito bem documentada. Nanani Albino. que seria o secretário da Fazenda. Foi por isso a reação. do PSDB). O resto todo subiu. Ele pediu 24 horas para desmontar o esquema. No dia seguinte. ele sugeriu a presidência do Iterpa (Instituto de Terras do Pará). Comuniquei-lhe que estava com uma carta para ser enviada para o dono do Estado de S. Por ironia. Estavam ele e o Roberto Ferreira. Quando o Jader estava formando o primeiro secretariado dele. fui o único que não subiu com o Jader. Paulo. Isso foi em 1985. que seguiria jornalista e crítico dele. Eles não tinham como rebater.

O chefe do inquérito era o então major Antonio Carlos (depois coronel da PM e secretário de Segurança Pública). Foi inventado inclusive por um advogado que morreu recentemente. O governador da época era o Aloysio Chaves. além de mais um na justiça eleitoral. o Carlos Medeiros. Teodorico Rodrigues. Em pleno regime democrático.pmd 171 24/7/2012. E caso o advogado não se apresentasse no prazo de uma semana. A história da maior grilagem da humanidade usa como autor um certo Carlos Medeiros. quando a Rosângela Maiorana Kzan entrou com a primeira ação. Eu e o Paulo fomos indiciados na Lei de Segurança Nacional por incitarmos a sociedade contra as autoridades. Ele me chama de lado e informa que todos os jornalistas que foram lá haviam admitido que as fotos tinham sido montadas. que editava em O Liberal. O caso foi por causa do suplemento Encarte. das cinco que moveu contra mim. Desmentiram tudo o que haviam feito. cassasse a licença do Miolo pororoca. Vejamos uma coisa absurda. O Paulo foi um célebre repórter. Eles vão aos cartórios com os juízes e desembargadores em nome de uma pessoa que não existe. fui jornalista por 19 anos e só fui processado uma vez. Eles eram levados para o “interrogatório” de barco para a ilha de Cotijuba.O que se passa? A Justiça está sendo usada como instrumento de quadrilhas. Denunciei o processo de tortura que uns presos sofreram após uma fuga. Ele era muito popular e tinha tido uma votação estrondosa. Na lancha Marta da Conceição houve a fuga e jogaram na baía o tenente responsável pela tortura. sintome mais perseguido do que na ditadura.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 171 Guilherme Carvalho -Você responde a quantos processos e qual a natureza deles? Acho interessante que durante o regime militar (1964-1985). 14:55 . já foram 15 processos. Todo mundo sabe que o Carlos Medeiros não existe. Já escrevi várias vezes no Jornal Pessoal que a OAB – Ordem dos Advogados do Brasil exigisse do advogado a apresentação em carne e osso do cliente. Depois o crime foi desqualificado na justiça militar e o processo arquivado na justiça comum. Fizemos as fotos da tortura. tinha sido eleito deputado estadual pela oposição. Rogério Almeida . E que o interesse da polícia era pegar o repórter policial Paulo Ronaldo. Desde 1992. publicamos. que mandou investigar as denúncias. A polícia era louca para pegá-lo. Foi forjado por uma quadrilha de advogados e corretores de terras.

pmd 172 24/7/2012. A Justiça hoje. Os dois desembargadores. No processo. Guilherme Carvalho . A primeira sentença que me condenou foi manuscrita. 14:55 .A Justiça paraense nesse caso. Edmilson Rodrigues (PT/PA). que também é dono de uma ação. E tem a figura intolerante do prefeito de Belém. se tornou um poder terrível.Desse rosário de processos. A ação é porque ele dava dinheiro para um escroque. Rogério Almeida. Mostrei que o PT que vinha para estabelecer a moralidade. Rogério Almeida. a Maiorana e o pessoal da grilagem de terras. por ser o poder menos fiscalizado. a possibilidade de provar que tudo que estou dizendo é verdade. Tinha 54 páginas. como vai ser a execução da sentença? Vão mandar um censor do Tribunal? Vou ter que submeter o Jornal Pessoal a um censor do Tribunal? É um absurdo. um crápula do jornalismo para defender a prefeitura e garantir uma coluna com pseudônimo. São três os atores que o processam. Disse que a ofensa era agravada pelo fato de eu ter colocado aspas na declaração dela. está ser vindo como instrumento para que a ação dessas quadrilhas de grilagens de terras proliferem? Veja o caso da desembargadora Maria do Céu Duarte.Qual era o jornal? Jornal Popular Rogério Almeida – Ainda existe? Quando o prefeito deixou de pagar o jornal. estava usando o dinheiro público para chantagem. Fiz a seguinte pergunta no Tribunal: caso ela ganhe. Ou seja. ele ofendia todas as pessoas inimputavelmente. Usando essa gazua. ou o Judiciário de um modo geral. lá no Xingu. Rogério Almeida – Para tentar ser didático. denotando intenção de ofenda. Foi dada por uma juíza Miolo pororoca. Cinco são da dona do Liberal. Chegou ao cúmulo dela entrar com ação cível para me proibir de falar o nome dela para sempre. E as pessoas não deixam. deixaram de falar bem dele. a Rosângela Maiorana Kzan. que era o “Décio Malho”. Ela se sentiu ofendida por um artigo meu no qual reproduzia trecho de uma decisão dela. uso a figura jurídica da exceção da verdade.172 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá advogado. A ação prospera até hoje. nove são sobre grilagem de terras? Nove são de grilagem de terras e extração de madeira na Terra do Meio.

Depois o funcionário foi demitido por justa causa. Ninguém quis exercer o direito de reposta no meu jornal ou em outro espaço. numa das audiências. Há uma regra da lavratura de sentença que diz que se o juiz começar a manuscrever a sentença. Estavam criando empresa satélite para um e para outro. O dono resolveu anunciar no jornal O Liberal. quando o pai dele já havia autorizado. pagando nos classificados. Rogério Almeida. A pedido meu. Mostrei que havia uma dissensão entre os irmãos. Não tive espaço nem no jornal oponente. por crime de imprensa. Rogério Almeida – Qual foi a acusação? Foi na ação da Rosângela Maiorana.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 173 que jamais havia dado uma sentença parecida. inclusive um servidor público. Pedi perícia. Nanani Albino –Você tem alguma condenação? O primeiro caso foi esse da Rosângela Maiorana. Nem anúncio pago com o meu nome sai no Liberal. sem que um soubesse da iniciativa do outro. Tentei esclarecer o caso. Você visualizando notava que não era a mesma letra. Que eles estavam usando o mesmo funcionário para criar duas empresas para fazer no Amapá a mesma coisa para um e outro. a juíza interrogou Rosângela Maiorana se era verdade que o meu nome Miolo pororoca. No O Liberal sou proibido de sair. A desembargadora que autorizou a perícia foi alvo de uma campanha contra ela no jornal O Liberal. o Diário do Pará (propriedade do deputado federal Jader Barbalho). tem que fazer do principio ao fim. como é o desembargador.Tem um problema também com os órgãos de imprensa aqui no Pará? Tem. Pedi perícia grafotécnica e grafológica. No primeiro pedi a perícia. A juíza não fez isso.pmd 173 24/7/2012. Afirmava que não havia sido a juíza quem havia escrito aquela sentença. 14:55 . que fui fazer uma palestra num cursinho. rubricar cada página e assinar no final. em negócios pessoais paralelos ao da empresa. Acho importante dizer que em nenhuma das 15 ações qualquer dos autores usou o direito de resposta. O segundo foi o do desembargador João Alberto Paiva. Por que eles não prestam contas? Publico qualquer tipo de carta. A coisa é tão séria. Era mais de um modelo de letra. Rogério Almeida – O que a motivou a processar você? Mostrei a briga entre os irmãos Maiorana. Acabou não sendo feita a perícia. O próprio Jader interferiu para a não publicação da explicação.

uns 150 mil quilômetros quadrados. Ele decidiu. mas que não mostrava a origem da titulação. Assim. R. Ela respondeu que não. federais e estaduais. Qualquer pessoa que quisesse comprar essas terras iria saber que a terra estava sob litígio. a da condenação do processo movido pelo desembargador Paiva? Em 1996. A liminar é dada quando o direito é evidente (sem maior indagação) e há iminência de dano irreparável. No “chute”. na comarca de Altamira. tinha a seguinte informação: “título hábil”. que as terras são “inquestionavelmente de propriedade particular”. qualquer comprador seria de má fé. o Instituto de Terras do Pará (Iterpa) propôs. O que havia de ativo na Incenxil? Registros de posse. Todos os órgãos públicos. Evidentemente que era uma cadeia dominial incompleta. de 1923.174 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá era proibido de sair no jornal. com uma cadeia dominial longa. se o Iterpa entrou com o pedido de anulação e cancelamento dos registros imobiliários que havia no cartório de Altamira da Incenxil? O desembargador deixou de ouvir o Ministério Público. em liminar. que foi comprada pela Rondon Agropecuária. uma ação de anulação e cancelamento dos registros imobiliários que havia ali em nome da Incenxil (Indústria. Almeida. São duas vezes e meia a área da Bélgica. sem examinar o mérito da questão. A empresa recorreu em Belém. 14:55 . A Incenxil era uma empresa de Altamira. A propriedade privada só se caracteriza quando o domínio da terra sai do patrimônio público para o particular. O agravo foi para o desembargador João Alberto Paiva. Quanto ódio.pmd 174 24/7/2012. sai. Que no dia em que eu morrer. do grupo C. O que é isso? Autorizar que na margem do registro constasse. O Iterpa pediu para o juiz Torquato Alencar uma tutela antecipada. O primeiro registro. Sem direito a indenização. mas sem informar qual era o título. São 5 milhões de hectares. Para que isso? Para alertar terceiros de boa fé. Como. meu Deus! Rogério Almeida – Como é a história mais recente de sua batalha processual. Comércio. Cadeia dominial são os registros sucessivos que o imóvel tem no cartório. Miolo pororoca. Exportação e Navegação do Xingu). Rogério Almeida – Altamira ainda é o maior município em extensão territorial do mundo? Ainda é o maior município. O juiz deu a tutela antecipada. com autorização do juiz: “Esta terra está sub-judice com ação de cancelamento proposta pelo ITERPA”.

.Por que a Lei de Imprensa. Avalio que não haja alguém que conheça a Lei de Imprensa melhor do que eu. o Ministério Público se manifestou contrariamente. Uns alegando dor de cabeça. Todos. que não era advogado militante. Avalio que o juiz deveria ter tido cautela na questão. São doze anos. Não conseguiu. ela deve ser inconstitucional e tem que ter uma outra lei para revogá-la. amizade. você tem tido dificuldade de conseguir advogado aqui? Quando a Rosângela Maiorana Kzan. ficam os grandes líderes dos direitos humanos dizendo que a lei é entulho do regime autoritário. sob diferentes pretextos. Por quê? Porque os democratas de ontem são os autoritários de hoje. entrou com a primeira das cinco sucessivas ações. A questão é sintomática. topou fazer a defesa. Nanani Albino – Você fez alguma crítica sobre o desembargador ou somente sobre a decisão dele? A minha crítica é sobre o ato. Sempre é a Lei de Imprensa. Edmilson Rodrigues. me convencer da questão. prefeito do PT. Usei de todos os institutos do Direito Penal.Lúcio. sem escritório. A C. a Federação. Em geral.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 175 dizem que a terra é pública. ainda não foi derrubada? A lei é inconstitucional. não aceitaram a minha causa. Não produzo com base em dossiê. A Constituição revogou tacitamente a lei. não fui vencido. O acordo era que eu freqüentasse o Fórum e ajudasse na elaboração das peças. Nanani Albino . Nunca fui processado por falta de provas. tinha o jornalista Oliveira Bastos como seu assessor especial. Ao longo desses 40 anos. usou a Lei de Imprensa contra mim. No terreno do debate. R. criada em pleno regime militar. Aí comecei a estudar Direito e freqüentar o Fórum. procurei oito advogados. 14:55 . Depois ele saiu da empresa. E ninguém toma uma atitude positiva. Um amigo. Almeida. verificar. Como a Lei de Imprensa é especial. Lula não vive dizendo que a imprensa é denuncista? Não interessa ao poder.pmd 175 24/7/2012. em setembro de 1992. de esquerda. de direita ou de Miolo pororoca. Só escrevo depois de ler. Mandou-me duas cartas violentíssimas. Só escrevo quando domino o assunto. antes entrar com as ações. Aí fica o sindicato. nunca entrei num assunto se não tenho prova. A tentativa era me desmoralizar. Só que alguém tem que entrar com Ação de Declaração de Inconstitucionalidade (ADIN). Quatro meses depois da decisão. Guilherme Carvalho ..

. já deveria ser considerado crime. como feito no Peru. quando entra no campo cultural. Cheguei a ter 1. se defenderia o cidadão. teria que virar empresa. A partir desse dia. nunca aceitei publicidade. Isso hoje é o que menos importa. governo e esses grupos econômicos que estão controlando mais terras. a recusa da publicação da carta. Nanani Albino – Como ele sobrevive? Há horas em que ele se paga. Mais que o Jornal Liberal. Quando optei pelo Jornal Pessoal. já que não exerceram o direito de resposta. Por exemplo: cada empresa que alcançasse determinada tiragem.Voltando naquela relação dos meios de comunicação. Se você mandou e em 48 horas. em dinheiro.176 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá esquerda. deveria permitir que 10% fossem comprados pelo cidadão. é totalitário por atavismo. Não o Estado. Numa época ele só era vendido através de assinaturas. Nanani Albino . Guilherme Carvalho. Nanani Albino – Qual é a tiragem? 2 mil exemplares. Por esse lado.E a distribuição? Só em banca.200 assinantes. Poder Judiciário e os grupos econômicos. 14:55 . Mas para manter as assinaturas. grilando? Acho que a imprensa deva ser democrática. que tinha 800. Acho também que com a criação de alguns mecanismos seria possível estabelecer uma relação democrática dos meios de comunicação. Miolo pororoca.pmd 176 24/7/2012. O Estado. ou determinado capital. multa violenta na empresa. Guilherme Carvalho . Bastaria entrar na Justiça provando o recebimento da carta e que não foi publicada.. o jornal não publicou. já seria crime. Nesses moldes. Se você manda uma carta e o jornal não a publica. nenhum dos desembargadores poderia me processar. Há horas em que não se paga.Qual avaliação que você faz da relação entre os meios de comunicação. E a empresa não poderia absorver as ações totais. Não acredito no modelo de conselho. abolir a Lei de Imprensa. Outro ponto seria que ninguém poderia entrar na Justiça sem antes esgotar a via administrativa. Com isso se resguardaria o direito do cidadão de se defender daquilo que foi escrito contra ele na imprensa. deveria ficar obrigada a abrir o seu capital. É o cidadão que deve ter o controle.

para pôr a minha foto no jornal. Guilherme Carvalho – A Justiça no Pará não decide por quê? Porque não quer. No próximo número do Jornal Pessoal farei um comentário sobre uma resolução baixada pela corregedora geral de Justiça do interior. Enquanto tiver a pendência judicial. Investigar significa ir atrás do fio da meada e questionar sempre. Morto não manda release. Agora mesmo estão com recurso de plotagem. Quando li a decisão do Tribunal. A justiça pode tomar uma decisão. passei o fim de semana questionando onde havia errado. Agora eles fazem questão de manter a questão sub-judice.Você ainda é réu primário? Sou. R. No caso da Jarí. É um poder triturador –lento. Não posso deixar o inimigo se alimentar de falhas. Porque a questão está suspensa. cancela-se e o particular que vá para a justiça. Sim. Tem de usar. A justiça é terrível. Mesmo que eu saísse no primeiro minuto. Tentaram armar uma trama quando fui condenado pela primeira vez. Falta vontade ao judiciário. Não tem assessor de imprensa. Almeida criou uma pendência judicial. Ela baixou uma resolução em que ela cancela. Não posso errar. de que adianta ter tudo isso sem vontade política? Nanani Albino . Eles queriam me colocar na cadeia e fotografar. que desviam da apreciação do mérito e se restringem a uma preliminar formal. Sobretudo das pequenas. mas inelutável. A forma antiga era falsificação de título. O problema é Miolo pororoca. É uma forma mais sofisticada de grilagem do que as formas anteriores. Há esse exemplo da doutora Carmencin Cavalcante. Se há dúvida de registro de uma terra imensa. A escola de repórter de polícia continua sendo a grande escola. ela domina a terra. Por isso há o ditado: quem tem juízo. corromper o cartório. GPS. Nanani Albino– Como você consegue com tanta pressão ser um repórter investigativo? O que significa ser um repórter investigativo? As pessoas pensam que repórter investigativo é aquele presenteado por dossiê. 14:55 . Exerceu o poder de arbítrio. Ela usou seu poder de arbítrio numa questão.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 177 A C. Se você não tem dossiê. vai atrás dos fatos. O poder arbitrário do Estado deve ser em defesa do interesse público. não vai a juízo. ela cancelou a unificação de terras em 940 mil hectares. Carmencin Cavalcante.pmd 177 24/7/2012.

E às vezes não. como metáfora. Um outro episódio foi com o pistoleiro que executou o deputado João Batista. Ele não tomou. Azar deles. O capitão. O arquivo está na Cultura. Fosse na cabeça do irmão. Ele tomou a arma de minha mão na hora. o que te inquieta? Quais os fatos que deveriam estar na pauta e não estão? Sempre lembro. Até porque Miolo pororoca. na hora certa. Então pedi: “beba essa água”. econômico. O jornalista é aquele que faz a pergunta certa. O PSDB não me considera aliado. os procuradores passaram a ter carreira política. Estavam os dois irmãos debaixo da macieira. que estava ao lado. E quanto ao governo do Estado. Acho isso uma promiscuidade. Nanani Albino – Você falou que a melhor escola para investigar os fatos é estar diante dos fatos e perguntar. Era um profissional. teria gerado no máximo um palavrão. Marília Crespo.178 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá que consigo desagradar todo mundo. A TV filmando. Ideológico. O PFL. Acho que não se deveria mandar lista tríplice para o governador. o presidente da Eletronorte afirmava que a água do lago era boa. ele dava entrevista. Todos acabam dependendo do poder executivo. em Tucuruí.pmd 178 24/7/2012. O Ministério Público faz o que o Executivo quer? Infelizmente. Ele afirmava que nunca tinha pegado numa arma. Felizmente a maçã caiu na cabeça de Newton. No que tange à Amazônia. os governos de Almir Gabriel e Simão Jatene (atual governador do Pará/ PSDB). A promoção deveria se restringir aos integrantes da carreira. Nem gente da OAB. idem. O governador não deveria nomear ninguém. Seja qual for. Só entrava uma equipe de TV de cada vez. Ninguém estava esperando. Quando ele passou a se tornar muito forte. Liquidou-se. de nome Péricles. autorizou. O PT não me considera um aliado. institucional. Uma vez. Guilherme Carvalho – Você falou do governo Edmilson e falou do Jader. Manoel Santino saíram do MP diretamente para a política. E azar o meu. Em cima do lance. O jornalista é aquele que incomoda o poder. saiu correndo para exibir o filme. que filmou tudo. o exemplo de Isaac Newton. Peguei o revólver e disse para o Péricles: “pega”. Numa pequena sala da Assembléia Legislativa. O colegiado do Ministério Público deveria escolher seus novos integrantes. Pedi para o soldado tirar as balas do revólver e passá-lo para mim. 14:55 . Jornalismo é isso. A equipe da TV Cultura. Não tem porque representante do Ministério Público ser desembargador.

ninguém vá escrever. Dezenas de matérias. no Maranhão. Acompanhei a história da Caraíba. bauxita (matéria prima para a produção do alumínio). dos estudos do Estado-Maior das Forças Armadas para abastecer de cobre o Brasil. Escreve uma matéria que. a 40 Km de Belém). ambas no Pará. talvez. Não teria viabilidade econômica. Outros. ou Rosário do Oeste. Porque há uma incompatibilidade entre a Caraíba Metais e a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD). Outra coisa foi Sossego. Vamos exportar concentrado e importar cobre metálico. você faz a pergunta certa. O principal são as boas fontes.6 bilhão de dólares. durante 20 anos. É a primeira das cinco minas da região de Carajás. em cima do fato. estava lá quando começou a pesquisa no Salobo 3 Alfa. Nanani Albino – Você avalia que as pessoas que estão no planejamento das políticas públicas para a Amazônia estão fazendo as perguntas certas? Alguns são honestos e competentes possuem a resposta. Não se sabia onde ia ficar. Bezerra retruca o por que da pergunta. Com os calos de 20 anos tentando estudar a questão. Em 1977. 14:55 . Em Marabá.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 179 as sociedades que mais se desenvolvem são aquelas que dão tempo para as pessoas ficarem no ócio.Você poderia explicar o que é Sossego? É a primeira mina de cobre a entrar em produção. fosse lá onde ficasse instalada. na Escola Mendonça Virgolino. instalada no município de Barcarena. Expliquei que se não fosse assim a mina não sairia. O cobre é o segundo item na balança de importações minerais. em Carajás e comecei a estudar cobre. 140 mil toneladas de concentrado ao ano. ao menos naquele momento. não. no Sudeste do Pará. houve um debate sobre o projeto de cobre do Salobo. Se em Marabá ou Parauapebas. então prefeito de Marabá. Concluí que ocorreria um paradoxo. que vai tornar o Brasil autossuficiente. Miolo pororoca. sabiam que estavam cometendo um crime contra o Brasil. Interroguei se ele havia perguntado se a quantidade de minério daria para produzir. As pessoas que fizeram os contratos de minério de ferro. refletindo.pmd 179 24/7/2012. do Geisel. em 1995. informa no meio do debate que o pessoal da Salobo Metais tinha visitado a cidade no dia anterior. Rogério Almeida . Vamos ser auto-suficientes e vamos continuar importando cobre. Valor do projeto: 1. os contratos da Albrás (maior empresa de alumínio do Brasil. Não existe verdade sem ócio. Aí o Haroldo Bezerra.

Perdemos três vezes o orçamento do Estado.pmd 180 24/7/2012. Fui apurar e escrevi matérias sobre o assunto no Jornal Pessoal. sugeri que ele convocasse o Eliezer. afirmava se tratar do banco com o melhor desempenho no Brasil. Rogério Almeida – A empresa no caso era a Camargo Corrêa? A Camargo Corrêa teve um lucro líquido de 500 milhões de dólares na construção da hidrelétrica de Tucuruí. de que se tratava de águas passadas. que proporcionou a maior aplicação de capital de risco estrangeiro na história do Brasil representava três vezes o orçamento do Estado do Pará. Todas as pessoas que assinaram contratos dos grandes projetos na Amazônia deveriam estar respondendo a processos. Em contato com o ex-deputado federal do PT. E a revista Exame. O Banco do Estado Pará (Banpará) foi eleito o banco do ano em 1983. A base do meu diálogo são os fatos. Fui estudar o balanço da Albrás de 1987 e conclui que só a variação cambial entre a moeda japonesa e o dólar relativos à moeda nacional. quando eu havia escrito que o banco era uma porcaria e que todas as suas operações estavam erradas. O subsídio custou dois bilhões de dólares. No regime militar. disse que. Não foi aprovado o pedido.Companhia Vale do Rio Doce). Eliezer Batista (ex-executivo da CVRD . toco no assunto. Consultei o cidadão que fazia o orçamento no Rio de Janeiro e ele confirmou a conta. nós não teríamos precisado subsidiar o alumínio. Escrevi matéria em O Liberal. descobri que balanço de empresa é uma fonte preciosa de informação. Então. Rogério Almeida. As pessoas não se indignam.Tribunal de Contas da União. pedimos informações no TCU . Principalmente pelo que não está dito.Dois bilhões em subsídio? De subsídio no alumínio e de corrupção na construção de Tucuruí. que concebeu todo o Grande Carajás. Fico estupefato com a questão. Geraldo Pastana. Miolo pororoca. depois de dois anos tivemos a reposta deles. Imaginava um escândalo nacional e nada houve. 14:55 .180 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá Rogério Almeida – Todos esses projetos se deram no regime militar? Todos. Sempre que posso. E a CVRD é uma empresa do alumínio. caso não tivesse havido corrupção na construção de Tucuruí. consultar gente que sabia. uma publicação aparentemente de conceito. um dos homens mais importantes da história contemporânea. Passei a estudar balanço.

Ciência e tecnologia. Estamos numa situação colonial.pmd 181 24/7/2012. Ele não vai só produzir ciência. Guerra da ciência não é ficar fazendo o seu trabalhozinho acadêmico. Se a gente não colocar a formação antes da transformação está liquidada a Amazônia. Aí só vai restar o Acre. Os orientadores também devem ir ao campo. Nanani Albino . Nanani Albino – O que é isso? Em vez de colonos. Vamos pegar o cara e colocar no campo. Uma árvore por hectare. Não tem mais nada lá.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 181 Nanani Albino. se ele estuda arroz. Vamos pegar a meninada da USP . cientistas. É como se estivesse em Israel.Agora é a hora? Tem que começar já senão nunca vai começar. uma estrutura mínima. Nanani Albino – E os colonos não científicos? Ele vai aprender e ensinar.Por que a opinião pública parece não se aliar a você? Há um descompasso entre a agenda da opinião pública e a agenda da história. não seríamos coloniais. Diziam que a gente ia aprender com a experiência do Araguaia. A nossa guerra é a guerra da ciência. vai plantar arroz. É fazer a difusão da ciência no campo. Deveríamos ter aqui não colono de soja e não colono de arroz. Estamos fazendo pior no Xingu. Rogério Almeida – Existe saída para essa condição colonial? Tem. e não no campus. Vai ensinar como é que faz. Você coloca o doutor em genética na Miolo pororoca. Caso a gente soubesse o que está acontecendo de verdade. Nanani Albino – E as universidades federais locais? Todo mundo iria para o campo. Nanani Albino – Você fala em mudança substancial em investimento em pesquisa ? Devemos conceber investimento em pesquisa não como retaguarda. UFRJ e outras com uma boa bolsa e vamos para o campo aprender. eram 10 árvores por hectare. Sei que serão necessários muitos milhões no começo. Quando comecei a visitar o Araguaia. mas como vanguarda. o modelo de colonização que defendo é a ocupação através da ciência e tecnologia. 14:55 . com bolsa de pesquisa. fazendo. Araguaia era a maior reserva de mogno do mundo. com condições de trabalho bons salários. a densidade de mogno era o dobro do que existe no Xingu.

existe a tradição do debate? Aqui o debate costuma ser improdutivo. vocês vão me vencer no debate. Num determinado debate. Mandei um bilhete informando que não era cianureto e sim cianeto. assistemático e acientífico. não adianta ser doutor.pmd 182 24/7/2012. Escrevi um artigo dizendo que ele tinha certa razão. Guilherme Carvalho – Qual a perspectiva da Amazônia diante de mais um Plano Plurianual aprovado? Quando Lula foi eleito. entrei inadvertidamente numa sala onde estava sendo dada uma aula sobre Marx. por isso apadrinhou intelectuais marxistas. vence o debate. cujo chefe era o ministro João Paulo dos Reis Veloso. Não queria passar como o tecnocrata dos ditadores. Cheguei na hora em que ela falava de uma importante denúncia que a Amazônia iria ser inundada por “cianureto”. Todos sabem do rigor que tenho com os dados. O que grita mais alto.182 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá Transamazônica para fazer melhoramento no campo com uso do conhecimento tradicional e empírico. Acho que nunca se fez tanto plano. Alguns tão bem feitos que não poderiam nem ser executados. começavam a fazer perguntas sobre a minha formação e eu dizia malandramente que era jornalista. elogiou a tecnocracia do regime militar. Considero que o pessoal tem que ir a campo. Caso eu vença. Que os garimpos iriam usar cianeto. andando pelo IPEA. as pessoas aplaudem. Aí eu dizia: sou sociólogo e tinha o carimbo da academia. do Planejamento. Era um constrangimento. fui ao Instituto de Pesquisa de Econômica Aplicada (IPEA). O doutor tem que deixar de canto essa postura arrogante. Uma vez. 14:55 . em Brasília. os doutores. Caso esteja errado. Aquilo era uma heresia privatizada. Jornalista não tem valor científico. o IPEA publicou um livro crítico sobre a colonização dirigida na Amazônia. corrijo. Em 1972. A pessoa que conversava iria palestrar pela tarde. Se vocês são os cientistas. Nanani Albino – Como você avalia a ciência produzida na Amazônia? Quando comecei a fazer palestras. Nessa época. que sempre se preocupava com a história. soube da proibição por decreto pelo presidente José Sarney do uso do alumínio nos garimpos. Nanani Albino – No Brasil. Critica o INCRA. Depois dizia: “vamos para o debate!” O critério da verdade é o debate. os incentivos fiscais que motivaram a formação Miolo pororoca. Disse que seria pior.

Somos destruidores como eles também foram e são. Onde Marx escreveu O Capital? No Museu Britânico. A Amazônia só tem futuro no mundo. O Marx nunca Miolo pororoca. Vamos destruir a floresta. Na Amazônia. Nanani Albino – E o resultado? É o modelo colonial.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 183 dos latifúndios com metodologia marxista. É um futuro colonial. Agora a bíblia sobre a Amazônia é um livro sobre o II Plano de Desenvolvimento da Amazônia – PDA (1975/1979). 14:55 .pmd 183 24/7/2012. Rogério Almeida – Estamos condenados ao colonialismo? Se tirassem as verbas estrangeiras seriam o. Ninguém no mundo sério tem dúvida de que a gente vai acabar com a Amazônia. A Amazônia não é prioridade nem para o Brasil. é a primeira vez que a gente tem a possibilidade de uma civilização florestal. É isso que interessa. você vai dizer que esse era um déspota esclarecido. A história da humanidade é a história da destruição da floresta. ela vai aumentar o ritmo do desenvolvimento brasileiro. Há documentos que são produzidos em alemão. Esse documento diz o que da Amazônia? Diz que o papel da Amazônia é fornecer insumos para o Brasil moderno e matérias-primas para o mundo. pois o Brasil não tem poupança suficiente para isso. dois ou meio por cento do orçamento em ciência e tecnologia.ooo qualquer coisa. Caso for analisar a história pela fonte secundária. se a gente não usar a consciência e os meios. e que nunca foram traduzidos. Temos a consciência e os meios. Tudo dito claramente sem filigranas ou cosméticos. O projeto MADAM (Programa Manejo e Dinâmica nas Áreas de Manguezais). Nanani Albino – Qual é o investimento em pesquisa vindo do exterior? Dois terços dos investimentos da pesquisa são em moeda estrangeira. Como mudar isso? Tornar o povo participante. Rogério Almeida – Qual é orçamento para a ciência na Amazônia? Zero. é interesse alemão. vamos seguir a tradição do homo agrícola. É o único lugar que tem floresta expressiva hoje. Com isso. e também manter a roda do processo produtivo do mundo. por exemplo. O que o mundo desenvolvido quer da Amazônia? Preservar uma parte da Amazônia e estudá-la antes que acabe.

Como a gente não tinha isso. para a horticultura. Há de um hectare. Está em vigor o Estatuto da Terra.pmd 184 24/7/2012. Rogério Almeida – O módulo rural hoje é de 25 hectares? Há vários tipos de módulos. onde há cadastros fundiários desde o século XVIII. Rogério Almeida. e o SIVAM – Serviço de Vigilância da Amazônia? São 20 anos de verba de ciência e tecnologia na Amazônia que estão sendo distorcido pela visão geopolítica. ninguém pode ser dono de mais de 72 mil hectares. Foi baixado pelos militares em novembro de 1964. Rogério Almeida – A gente estava falando em ciência. Hoje nós temos o SIVAM pronto. a nossa amarração foi através de acidentes naturais. ele era o editor da Nova Gazeta Renana. Desde Arthur Cezar Ferreira Reis.184 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá entrou numa fábrica. Em quais dados primários se baseia O Capital? Nos relatórios dos fiscais de fábrica da Inglaterra. No início da República expedimos 40 mil títulos de posse. 14:55 . São amarrações por posições astronômicas. Rogério Almeida . e vende produtos baratos. A luta dele contra o censor. Quanto mais a gente se desenvolve. Aquele que quanto mais trabalha.Essa questão da regulação fundiária. Vamos pegar os Estados Unidos. que é a matriz desse pensamento. Rogério Almeida – Mesmo distante do campo? Mesmo não indo para o campo. Ele escreveu sobre o monopólio da lenha e a liberdade de imprensa. A nossa relação com o mundo tem que ser diferente. que é o silvicultural. Aquele que compra produtos caros no barracão. Isso só existe no Pará Miolo pororoca. Pela letra da lei. mais se escraviza. Isso significa maior segurança para a Amazônia? O prisma da geopolítica é o que mais distorce a visão da Amazônia. Só que a gente não conhecia o interior. gostaria que a gente retomasse. o Estatuto é melhor que a Constituição. Quando ele ia para o campo. Até o momento que ele se tornou profeta tinha muito bom humor. ao maior. que é de 120 hectares. É uma questão séria na Amazônia. O censor esperando ele na redação e ele dormindo.Então não era um bom jornalista Era ótimo jornalista. O Estatuto diz o seguinte: ninguém pode ser dono de mais de 600 vezes o modulo rural. Uma relação de troca desfavorável. Continua aquela visão de Euclides da Cunha do seringueiro. mais a gente fica subdesenvolvido.

É o modelo da África do Sul. Eles mostraram o absurdo que foi o preço de avaliação de arremate da CVRD. O modelador da privatização. 14:55 .A privatização foi um crime de lesa pátria? A melhor análise que saiu foi da Euromoney. que é o Bradesco. 19º em Índice de Desenvolvimento Juvenil (IDJ). Com base nisso. Caso o senhor Cecílio Rego Almeida aparecesse com um título desses nos Estados Unidos. Caso o modelo de enclave prospere. Ocorre que tem de produzir cada vez mais. 9º em população. quantidade crescente de minério de ferro. sindicato de jornalistas em relação a isso? Bem. 16º em Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). foram 16 páginas. que corresponde a 4. As ações propostas na Justiça não foram decididas até hoje. fui do sindicato do tempo em que o Lula tentava implantar Miolo pororoca. A CVRD tem uma verba de investimento maior que a do Estado.356 hectares. É um modelo baseado em matéria-prima. poderia ser preso. Hoje está em 55 milhões de toneladas. Uma das regras da privatização era que comprador não poderia ser acionista da CVRD. Desses 40 mil títulos. O Pará é o 2º Estado em território. O limite máximo era uma légua quadrada. Nanani Albino – Há 12 anos você vem sendo processado. O resto deu origem a essas grilagens. Qual a postura das entidades de classe. a CVRD vai ser três vezes maior que o Pará.pmd 185 24/7/2012. hoje são 15 dólares. federação. apenas 3 mil buscaram a regularização depois. Rogério Almeida – Vamos falar um pouco sobre a CVRD -Companhia Vale do Rio do Doce. Nós somos a África do Sul da Amazônia. A Vale é maior que o Pará? É maior. Era uma carta do poder público autorizando a ocupação do interior por quem estivesse disposto a ocupar. Por quê? O primeiro trem saiu de Carajás com a tonelada de minério a 26 dólares. Que privatização é essa? Foi um dos maiores escândalos do Brasil. O faturamento da CVRD é maior que a receita do Estado.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 185 e na Bahia. É fraude. uma revista de negócios da Europa. Rogério Almeida . O absurdo é tanto que hoje os japoneses estão na CVRD. é o principal controlador fora dos fundos federais. Vinte milhões de toneladas era o ponto de viabilidade da mina de Carajás. ninguém poderia aparecer com título de posse com 5 milhões de hectares.

então. O Salles. Ele morreu na BR 316. a 90Km/h. no fim da década de 70. hoje superintendente aqui no Pará. que pedi o meu desligamento do sindicato. preciso. FENAJ e sindicato aderiram. No primeiro processo. mas que tinha de ser solidário pelo espírito de corpo. Falei que tinha ido para conversar em off com o delegado José Salles. O episódio mais triste que ocorreu nesses quase 40 anos de profissão foi quando denunciei a infiltração do narcotráfico na Amazônia. em 1991. com o compromisso de que todos publicassem o que ia ser dito ali. estabelecida através da confiança mútua. O Jornal Pessoal muitas vezes não cobre nem sequer os custos. o Jornal Pessoal foi o único que publicou os fatos. Que agora é que ia começar o bom. ano em que ocorreu o assassinato de uma figura da sociedade. dizendo que ele tinha se suicidado. Retruquei que não existe off coletivo.pmd 186 24/7/2012. Esse é o suicídio mais inverossímil da história da humanidade. Concordei em que todos participassem. Que se tratava de uma conversa particular. da esquerda e ele era destro. A iniciativa não foi deles. que era lavador do dinheiro do narcotráfico internacional. saiu uma única matéria nos três jornais da cidade. dirigindo o carro a 90Km/h. A gente foi o primeiro sindicato a ter salário profissional e delegacia sindical. Foi um único tiro. 14:55 . Todos foram embora. Durante meses. o presidente do sindicato escreveu uma nota de solidariedade tão sórdida. de cima para baixo. interrogou: são esses seus colegas? Nanani Albino – Você tem 38 anos de jornalismo. O colega declarou. Toda a imprensa foi para a sede da PF para a coletiva. Era a história de Bruno Matos. A solidariedade era pior do que se tivesse feito um ataque a mim. Nesse recente episódio (do desembargador João Paiva) a nota de solidariedade foi comandada pelas ONG´s: Instituto Sócio Ambiental (ISA).186 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá as delegacias sindicais no ABC. Você hoje consegue viver da profissão? Miolo pororoca. Depois perdemos no Superior Tribunal do Trabalho. A gente fez isso primeiro. delegado. que iria ficar. a PF apreendeu uma tonelada de cocaína no Marajó e no rio??? Amazonas. Os colegas interrogaram sobre o meu silêncio. Após o Jornal Pessoal encadear os fatos. Quatro meses depois. recebeu um tiro na distância mínima de três metros. Amigos da Terra. Um tiro a três metros de distância. Ele dizia que a Rosangela Maiorana tinha razão. Fui e não fiz qualquer pergunta. Greenpeace.

Passei seis meses pesquisando e estudando nos Estados Unidos. presidente da CVRD. quem quiser entrar.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 187 Dou palestras. Foi um dos melhores períodos da minha vida. da Universidade da Flórida. escrevo livros. para antes parar no Pará. nesse episódio (da condenação). Ele ficou furioso. um dos homens mais poderosos do Brasil. disse ele. “Use essa carta. não. 14:55 . num vôo leu um clipping do Jornal Pessoal. Fomos adversários. Queria que me dissesse que ele não era banqueiro. O melhor que fiz foi bancado por uma bolsa de pesquisa americana. que me permitiu falar mal de um do símbolos americanos. O Hélio Gueiros (ex-governador do Pará e ex-prefeito de Belém. Rogério Almeida – São quantos livros? Dez livros e participação em muitas obras coletivas. se quiser”. tem que me convencer. que faz filantropia e que destina todo o dinheiro das suas participações em conselhos a obras de caridade. Rogério Almeida – A produção dos livros obedece à mesma lógica do Jornal Pessoal. Esse foi o livro que mais me gratificou. Agora. escrevendo um livro contra um símbolo do capitalismo americano. Nunca me processou. não tive essa retaguarda. Recebi uma boa bolsa de seis meses. mandou uma carta para mim que começava assim: “Lúcio Flávio. escrevo artigos para fora. Nanani Albino– Que preço você paga? No Jornal Pessoal. sim.pmd 187 24/7/2012. Mesmo quando ele era o homem mais poderoso do Pará. Miolo pororoca. Estava furioso com o Jornal Pessoal. não. Guilherme Carvalho – A mosca na sopa? O Roger Aguinelli. A CVRD mantém o Jornal Pessoal no seu clipping. Ele fez o que nenhum colega meu fez. o Daniel Ludwig. candidato nesse pleito de 2004 à prefeitura de Belém). porque tu não vais chupar o cu da puta que te pariu?” Publiquei a carta. Ele não imaginava que publicaria e nunca mais quis falar sobre isso. Antes. Contatou o chefe de comunicação. recebi uma carta do Jarbas Passarinho em solidariedade. O Jornal Pessoal é a pedra no sapato. bancados por ti mesmo? Agora. Do Jornal Pessoal. que estava indo para o Maranhão. Quanto aos outros. do projeto Jari. Não interessa se é poderoso.

edição do dia 19 de julho. o auditório os aplaudiu. Interessa que eu não pedi. John Humme também ganhou. Toda vez que ia para as grades.188 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá Guilherme Carvalho – Você é um homem cético ou esperançoso? Se fosse cético. Ele escreveu um artigo no L’Unità. Vou capitular? Não sei? Nanani Albino . otimismo na vontade. que passou 19 anos preso. Tenho clareza que a máquina está me triturando. Não interessa o que vai acontecer. Nanani Albino –Você acha que vai pagar atrás das grades por expor fatos que mais ninguém publica? Cipriano Barata foi muito mais jornalista do que eu. no ano seguinte. o deputado federal da Irlanda do Norte. em 1997. No ano que recebi. É um dos principais enviados especiais da imprensa italiana. Tenho esperança. mandou uma carta para o embaixador brasileiro. tem um grande jornalista chama Maurizio Chierice. Foi ele quem me indicou para o maior prêmio de jornalismo da Itália. os embaixadores da Inglaterra e da Irlanda. na primeira página. Agora. Vou continuar a luta até o último dia. já teria entregado as armas. Além do artigo. consultado pelo embaixador. 14:55 . que. Por isso o embaixador não foi. Fiquei contente em saber que eu não era confiável para o poder. poeta e escritor albanês. Fui o primeiro não europeu que recebeu esse prêmio. O meu algoz. o Itamar Franco. foi Prêmio Nobel da Paz. Ele pediu para não calar a voz da Amazônia. É um exemplo. a minha consciência diz que estou numa luta perdida. havia dito que eu não era “confiável”. Recebeu também um jornalista. Fatos Lubonja. disse que iria me mandar para a prisão. pela primeira vez na Europa. Iria imitar o Cipriano Barata. Como diz o Gramsci. Retruquei que o risco era que eu iria ter tempo para escrever um Jornal Pessoal por dia. Cobre todos os conflitos internacionais. que já foi minha amiga. Escrevia na guarita da fortaleza maranhense. Ao registrarem o fato. a Rosângela Maiorana.Você falou que a salvação da Amazônia está no mundo. sobre o meu caso. escrevia um jornal.pmd 188 24/7/2012. Miolo pororoca. O governo brasileiro mandou um funcionário da embaixada numa ocasião em que estavam lado a lado. Você acha que a salvação para Lúcio Flávio Pinto está fora da Amazônia? Na Itália. pessimismo na inteligência. Depois vim a saber que o Itamaraty.

a nossa universidade foi criada em 1950. Tem que acabar com esse negócio de ALCA. Aí tem lógica fazer hidrelétrica no Madeira. Guri é atualmente Miolo pororoca. Onde a gente possa se unir para nos tornarmos mais fortes? Se você inverter o rio?? Cassiquiare. Quando criaram a Lei 601. A rigor. Qualquer que seja o conteúdo do Plano Colômbia. metade das universidades da Europa estava na península ibérica. Com uma inversão de águas. Ele esqueceu que existe uma história hispânica anterior aos Estados Unidos. Ele era uma pessoa brilhante. era a da ocupação. a Universidade do Brasil. Ninguém fala desse período. Liquidaram com um projeto do Brasil. Nós levamos quatro séculos para fazer a nossa universidade. o princípio da posse. quem tem dinheiro. que foi o da Espanha. Quando a biblioteca de Washington sofreu um incêndio. que fez a grandeza dos Estados Unidos. não tinha Lei de Terras no Brasil. mas infelizmente travou a nossa história por 50 anos. não tem lógica. Temos que contrapor a ela uma integração econômica continental. Você vai acabar com o esquema de comércio no mundo inteiro. ele é trágico.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 189 Rogério Almeida – Como você avalia a presença dos Estados Unidos na Amazônia? Os Estados Unidos não conseguem entender a América do Sul. Enquanto isso não vem. Fomos maiores que os Estados Unidos até D. E só pode ter papel. Perdemos o rumo da história nesse período. Nós estamos trazendo 200 megawatts por dia do sistema Guri da Venezuela para Boa Vista usar 72 megawatts. vai entrar pelo Caribe e vai sair na Bacia do Prata. A diplomacia americana se baseia na falta de conhecimento. Hoje o cidadão médio americano bem informado não tem dúvida de que Bush deve ser colocado para fora.pmd 189 24/7/2012. não escrita. Pedro II. Clinton esteve para lançar o Plano Colômbia em Nova Granada. vai abrir o caminho pelo centro da América do Sul. a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro era muito mais rica e importante. de 1850. a ocupação física foi substituída pelo papel. Ele não conseguia perceber que estava diante da sede de um poder imperial que foi maior do que os Estados Unidos. Um equívoco para o continente e para os Estados Unidos. você já começa a revolução. a lei. Estamos jogando fora 128 megawatts. por algo mais amplo na América do Sul. que estava na cabeça do patriarca José Bonifácio. No século XVI. São incapazes. Mercosul. Podem vir a fazer um novo Vietnã na América do Sul se insistirem em mais presença física americana. Entre 1822 e 1850. 14:55 .

190 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá a maior hidrelétrica do mundo. Sempre defendemos que o caminho natural é o rio. que gera. Tem que saber fazer. Não podemos integrar para sermos esmagados. Guilherme Carvalho – Lúcio. fala América Latina? América Latina. fazendo SIVAM. Miolo pororoca. Sempre brigamos contra as rodovias. sou contra. Rogério Almeida – Quando você fala a gente. A Venezuela pode quebrar essa estrutura burocrática. o núcleo das regiões conforme as suas aptidões. A estrutura do domínio do Estado é poderosa no sistema de gestão do desenvolvimento venezuelano. Dos 103 comitês de bacia. Passa ao largo. Terminou a fase da esquerda dizer. Só vamos aprovar hidrovias se tiver comitê de bacia. diagnostico certo. 14:55 . A hidrovia é para desenvolver o interior. mas não sei fazer. Só vamos pensar lá fora depois que a gente fizer uma hidrovia do Caribe à Bacia do Prata. Não é fazendo retórica contra plano Colômbia. Guilherme Carvalho – Isso é um problema. de um lado. e de outro lado esse fidelismo do Chávez. Mercosul. ALADE.pmd 190 24/7/2012. nenhum é da Amazônia. As hidrovias não são pensadas nesse modelo. transformado em lei e aprovado pela Assembléia Legislativa e referendado pelo Congresso Nacional. Temos que mudar a matriz de energia e o modal de transporte do continente. Devemos optar por ciência e projetos que agregam valor. Estou aprendendo de novo. Temos que resolver as coisas passo a passo. Por que agora achamos que todas as hidrovias vão destruir? Podemos fazer hidrovias perfeitamente válidas. A própria lei dá os antídotos para esse problema. Isso é perfumaria. Não podemos aprovar um projeto de hidrovia sem um plano de desenvolvimento. São pensadas para soja. construir uma hidrovia desse jeito não significa destruir boa parte do pantanal? Não vai passar no Pantanal. Rogério Almeida – Você ainda está dando aula? Faz sete anos que não dou aula. Carajás não tem carvão. americanofilismo. Rogério Almeida— Esse modelo de integração econômica para o continente que você fala é via ALCA? Não. Vamos trabalhar as nossas potencialidades. Não podemos é fazer como foram feitas as rodovias e as ferrovias. Acaba com isso de ALCA. vamos trazer o carvão da Colômbia.

14:55 . Capítulo escrito com grande violência na década de 1980. Se na 21 Trabalho publicado no site da rede www. 2 . fez com que a região experimentasse profundas transformações. com o registro estimado em quase 600 casos de mortes contra camponeses. na Universidade Federal do Pará (UFPA). Canaã de Carajás. com quase cem por cento de impunidade. imensas obras de infraestrutura do Governo Federal ativam a migração e inchaço das cidades polo e pequenas cidades onde os projetos de mineração iniciam. como no caso de Ourilândia do Norte. contada a partir do Massacre de Eldorado do Carajás.org. a “compra” massiva de várias fazendas pela Agropecuária Santa Bárbara. Afonso é advogado e integra o colegiado nacional da CPT.forumcarajas. implantação de grandes frigoríficos.br em agosto de 2008.pmd 191 24/7/2012.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 191 Sobre os entrevistadores: Todos cursaram o mestrado em planejamento no Núcleo de Altos Amazônicos (NAEA). o sudeste do Pará. Ao mesmo tempo o polo de gusa se amplia em Marabá. avanço da exploração mineral tendo como sujeito a Vale.Amazônia a as novas frentes de Expansão Mineral e do Agronegócio no Sul e Sudeste do Pará21 Batista Afonso é um militante dos direitos humanos numa explosiva região da Amazônia. Modificações indicadas a partir do reconhecimento de inúmeras áreas ocupadas como projetos de assentamento. Miolo pororoca. suspeito de um mundo de crimes no sistema financeiro. No entanto. a efetivação de projetos de assentamento não fez com que a atividade pecuária sofresse algum refluxo. Floresta do Araguaia e São Félix do Xingu. A última década. Rogério é jornalista. onde é o coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) no município de Marabá. como o do grupo Bertin. A disputa pela terra na região sudeste do Pará imortalizou a mesma como a mais sangrenta do país. Tucumã. instituição ligada à Igreja Católica alinhada na defesa da reforma agrária. “empreendimento” rural do banqueiro Daniel Dantas. Guilherme é historiador e técnico da FASE Pará. cidade polo da região. Nanani é jornalista.

A mineração impacta hoje não apenas Parauapebas. A história de mortes. É sobre o complexo contexto vivenciado hoje no sudeste do Pará que Batista Afonso reflete nesta entrevista concedida a Rogério Almeida. hegemonia do poder da grana deixam isso evidente. corrupção pública. hoje. que na verdade não é nova.192 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá década de 1980 o fazendeiro aplacava a diferença sobre o domínio da terra contra o camponês com um 38. Fórum Carajás (FC) – Qual o contexto atual no sul e no sudeste do Pará? Batista Afonso (BA) – A reflexão que os movimentos da região fazem hoje é que a região está vivendo uma nova investida do capital. com a exploração de níquel através do projeto Sossego e o Miolo pororoca. a tensão antes residia na ação do latifúndio contra os camponeses e assessores. a produção de carvão baseada na mão-de-obra escrava e a monocultura de eucalipto. com um radical avanço do interesse do capital sobre a terra e os recursos nela existentes.pmd 192 24/7/2012. mas também Canaã dos Carajás. em reportagens que indicam que fora de tal diapasão não há saída. vivencia-se. como matéria publicada na revista Exame sobre os louros do projeto da multinacional do setor de alumínio. existe desde 1960. apropriação irregular de terra. notas de primeira página em edições dominicais. colaborador da rede Fórum Carajás. Isso impulsiona outras atividades. destruição da natureza. Os dias de hoje registram outro momento de tensão no sul e sudeste do Pará e em outras áreas da Amazônia. um processo de criminalização a partir de condenações de dirigentes e advogados por conta das ações de ocupações. advoga sua perspectiva de desenvolvimento da região em editoriais de grandes jornais. A questão do minério estava concentrada no município de Parauapebas. 14:55 . quando se descobriu a reserva de minério de Carajás. como a produção de gusa. que explora bauxita no pequeno município de Juruti. Recentemente o capital da atividade minerária avançou sobre outros municípios. O capital se alastra sobre as terras amazônicas. Mas. A exemplo do que ocorreu no caso do Batista Afonso e em seguida com mais três dirigentes do MST e dos garimpeiros. A cortina de tal teatro de destruição já foi erguida em anos distantes. A produção de gusa alavanca a exploração irregular de madeira. Alcoa. Foi isso que tornou a região conhecida mundialmente. triplicando ou quadruplicando os investimentos.

calculada numa margem acima de 8% ao ano. Em municípios como Marabá. A MOP decide implantar um gigantesco projeto de mineração onde vivem oitocentas famílias assentadas somente no raio de abrangência do projeto. Mas. Pelo código de mineração o projeto só pode ser implantado depois a resolução do problema dos que moram na área. A situação é de pobreza.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 193 Salobo. A atividade da mineração anima a tensão tanto no campo como na cidade. São Feliz do Xingu através da mineração da Onça Puma do grupo Vale e vários outros projetos. A MOP saiu comprando lotes da Miolo pororoca. Há ainda a ampliação do polo de gusa de Marabá e o anúncio da aciaria da Vale para a produção de liga de ferro. Não há emprego para toda essa população que migra. Há inúmeros projetos de assentamento em áreas de interesse do setor da mineração. A lei é clara. A situação é marcada pela precariedade. 14:55 . como a poluição dos rios e do ar. FC – Como é o caso da Mineração Onça Puma (MOP) no município de Ourilândia do Norte? BA – O caso é uma expressão do poder que possui a Vale e outras empresas de mineração que se implantam aqui na região. para a mina funcionar necessita resolver o problema das pessoas que vivem na área. como em Floresta do Araguaia. salve em engano. os assentados. A investida do capital a partir da mineração acarreta uma série de situações de conflitos contra os posseiros. a empresa tem a licença de pesquisa e o alvará de exploração do minério. sem apoio das prefeituras locais. As questões ambientais dos grandes projetos de minerais são graves e não são fiscalizadas. Tucumã. Os municípios próximos a Marabá sofrerão grandes impactos com essa nova frente. As empresas são indiferentes às comunidades que residem aqui. Há outras mineradoras internacionais em Xinguara e Rio Maria. Tais projetos de mineração tendem a atrair uma forte migração para a região. Tem os casos ainda de Ourilândia do Norte. abrir o buraco que quiser e expulsar as pessoas. A empresa não pode passar por cima das pessoas. que acaba por engrossar as populações marginais nas periferias. Parauapebas.pmd 193 24/7/2012. posseiros. O poder econômico se impõe sobre qualquer outro direito da população local. contra os trabalhadores que residem nessa área de interesse das mineradoras. Marabá registra hoje inúmeras ocupações urbanas. Ourilândia e vários outros há uma projeção de crescimento populacional. proprietários etc. Água Azul do Norte.

como a soja e a cana.pmd 194 24/7/2012. O MPF decidiu protocolar ação civil pública na justiça federal de Marabá para requerer que a MOP cessasse os abusos e pagasse aquilo que fosse de direito dos trabalhadores que tiveram de sair da área. A nossa expectativa é que o MPF ingresse como membro da ação. Os nossos vizinhos Maranhão e Tocantins estão repletos de soja e eucalipto. Assim como o gado cruzou a fronteira tempos atrás. nos municípios de São Pedro da Água Branca. O MPF tem dois caminhos. o dito agronegócio mais moderno. Há ainda a valorização das commodities no mercado internacional. 14:55 . como já noticiou a imprensa. A soja e a cana hoje gozam de bastante incentivo do governo por conta dos biocombustíves. Tudo foi transformado em capim. ingressar na ação com novas denúncias e documentos ou não ingressar e ficar como fiscal da lei.194 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá reforma agrária ignorando que não podia fazer negócio com os assentados e destruir o patrimônio público ali encontrado. isso necessita ser investigado pela justiça. as monoculturas estão fazendo isso hoje. Açailândia e Imperatriz. O cultivo já ultrapassou a fronteira. Mas. O correto seria a Procuradoria do INCRA ter procurado o MPF para combinar uma ação única. Assim teremos uma ação com mais peso. FC – O movimento já possui uma avaliação sobre os reais interesses do grupo do senhor Daniel Dantas na região? BA – A gente ainda não tem uma clareza. A gente necessita entrar com outras ações. Aqui não há mais floresta. A gente acredita que esse setor deseje controlar áreas já devastadas pela pecuária. Hoje as regiões sul e sudeste do Pará já possuem uma imensa área plantada. Isso trará mais legitimidade e melhores condições na defesa dos interesses dos trabalhadores. há indícios fortes de lavagem de dinheiro. O sul e o sudeste possuem grande interesse dessa frente. antes do MPF a Procuradoria do INCRA de Brasília interpôs a ação. Mas. Só que. Não avaliamos de forma positiva a ação da Procuradoria. Outra questão são os interesses do agronegócio a partir das monoculturas. Miolo pororoca. A monocultura de eucalipto já ocupa boa parte das terras do oeste do Maranhão. FC – Em que pé se encontra a questão hoje? BA – Sobre os abusos da empresa a gente ingressou no Ministério Público Federal (MPF).

POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá

| 195

FC – O movimento já conhece a quantidade de áreas controladas pelo grupo Santa Bárbara? BA – O que a gente conhece é o que a imprensa divulgou, em torno de 500 mil hectares de terras. Considerando o curto espaço de tempo para a aquisição das áreas, a gente sugere que há algo de errado. Há muito dinheiro envolvido. Fazendo um paralelo com o caso da fazenda Cabaceiras, a família Mutran pediu de 30 a 40 milhões para a desapropriação. As áreas comercializadas pelos Mutran não são inferiores a esses valores. Tem ainda o gado. Devem ter comprado porteira fechada. Isso tudo consolida a suspeita de lavagem de dinheiro. FC – E sobre a questão da legalidade da comercialização da terra, não era apenas uma concessão do Estado para o extrativismo da castanha? BA – Isso o Governo Federal e o estado do Pará devem investigar melhor. Não somente as áreas do grupo Santa Bárbara, mas também de outros casos, como do Grupo Rio Vermelho e Mutran. A nossa questão fundiária é bem delicada. As terras eram do Estado e depois foram aforadas e de uma hora outra para outra se tornaram título definitivos. Isso precisa ser investigado. Há uma margem de terras públicas incorporadas por esses grupos junto à faixa considerada legal. Uma triagem do Governo Federal e do estado vai encontrar várias irregularidades. FC – Isso é o caso da fazenda Peruano dos Mutran ocupada pelo MST? BA – Quando a Peruano foi ocupada a imprensa alardeou que a fazenda era exemplo de produtividade. Isso foi um estardalhaço geral. A imprensa defendia a propriedade como modelo, a mais produtiva do sudeste do Pará. Ao final da investigação realizada, conclui-se que mais da metade era irregular e foi devastada completamente para a implantação da pecuária e a reserva florestal acabada. A parte que é considerada legal não há reserva de floresta legal. A fazenda tinha anda registro de trabalho escravo em 2003. O conceito da propriedade produtiva é meramente ideológico. É uma forma de encobrir um festival de irregularidades. As áreas submetidas aos critérios previstos na Constituição Federal não resistem à primeira investigação para se concluir que de produtivo não tem nada.

Miolo pororoca.pmd

195

24/7/2012, 14:55

196 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá
FC – Qual a avaliação do movimento com relação à fazenda Maria Bonita? Será desapropriada? BA – A expectativa é que o Instituto de Terras do Pará (ITERPA) e o INCRA realizem a triagem sobre a área. Não resta dúvida que a triagem vai encontrar ali terra pública incorporada ilegalmente. Aquela área ali está numa localização estratégica, situada na beira da PA-150. É uma área propícia para a reforma agrária. FC – E quanto aos atos da Justiça com relação às ações dos movimentos que defendem a reforma agrária na região? BA – No caso da justiça estadual ela sempre manteve (juízes e promotores), relação estreita com o latifúndio local. Sem falar nas policias militar e civil. Aqui sempre foi comum a expedição de liminares de reintegração de posse, como se diz aqui na região, nas coxas. Não havia cuidado de averiguar se há posse de boa fé ou não ou crimes de grilagens. A partir da pressão dos movimentos sociais as varas agrárias foram efetivadas e o Tribunal de Justiça criou uma comissão de combate à grilagem de terras. A maioria das varas agrárias têm o cuidado de averiguar a legitimidade dos títulos de terras. Mas, infelizmente não temos juízes atuando sempre na vara agrária, pois há casos de licenças e férias. Aí ocorre o caso dos cargos serem ocupados por juízes comuns, que não conhecem a questão. Quando isso ocorre muitos juízes repetem a mesma linha de atuação que existia antes das varas agrárias. FC – Foi o que ocorreu no caso da fazenda Maria Bonita? BA – Isso. A orientação aqui na região é que antes da decisão da reintegração de posse deve haver uma audiência prévia e o debate entre o INCRA e o ITERPA. Só que a juíza expediu a liminar sem cumprir essa etapa, ferindo diretrizes da vara agrária e acordos do Tribunal de Justiça e a Ouvidoria Agrária audiência a um mês atrás. Outro aspecto é a atuação da Justiça Federal. Aí entram os interesses dos grandes grupos de mineração, em particular a Vale. Quando se intensifica a luta dos movimentos sociais por conta da expansão da mineração, isso tem se transformado em processo e a decisão tem sido dura contra os movimentos sociais. FC – E quanto à sua condenação de dois anos e meio de detenção? BA – A minha condenação é um caso claro. A pena estabelecida de um a três anos o código diz que só pode se aproximar do máximo

Miolo pororoca.pmd

196

24/7/2012, 14:55

POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá

| 197

quando o acusado possuir péssimos antecedentes, responder a outros processos, possuir antecedentes que o desabonem na sociedade. Não é o meu caso. Não respondo a outro processo, tenho ocupação definida, residência fixa etc. Mesmo assim o juiz Carlos Haddad arbitrou ao máximo a pena. Além disso, em condenações estipuladas até quatro anos, cabe a pena alternativa, benefício que foi negado. Em tese a avaliação é que a intenção da justiça é impor um retrocesso ao movimento social da região. FC – E a condenação dos militantes do MST e dos garimpos, segue a mesma linha? BA – Ocorreu a condenação de três militantes do MST e dos garimpeiros pela obstrução da ferrovia de Carajás. Cada um foi condenado a pagar multa de cinco milhões de reais. No nosso ponto de vista é uma questão absurda ética e moralmente, sem falar no aspecto jurídico. As multas estabelecidas eram multas individuais para todos os ocupantes que desobedeceram à ordem da justiça. Os advogados da Vale calcularam que cerca de 700 pessoas ocuparam a ferrovia. Baseado nos valores calculados pelos advogados da Vale o juiz decidiu imputar a multa somente aos três dirigentes. A avaliação que a gente faz é que o sentido desse tipo de ato é criminalizar os movimentos sociais. FC – Quantas são as ocupações que aguardam a desapropriação de terras para reforma agrária na região? BA – Hoje no sul e no sudeste a gente estima em cem ocupações com uma população aproximada de 12 mil famílias. FC – Para finalizar, qual a perspectiva para região ante o cenário de expansão da produção mineral e do agronegócio? BA – A avaliação é que as tensões irão continuar. Mas, com uma ligeira mudança. A expansão dessas frentes muda a relação com o camponês. O latifúndio antes resolvia os seus interesses com o 38. As frentes de mineração e do agronegócio não agem assim. Eles não sujam a mão desse jeito. Eles agem no sentido de criminalizar e difamar as ações do movimento social. Além da impunidade. O processo ocorre através da mobilização de vários advogados das grandes corporações que movem várias ações contra os dirigentes. A justiça que nós temos ainda mantém uma visão preconceituosa contra os movimentos sociais e considera que o poder econômico deve prevalecer. Hoje temos uma dezena de dirigentes sendo

Miolo pororoca.pmd

197

24/7/2012, 14:55

198 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá
processados. Precisamos acompanhar isso com muito cuidado sob a pena desses dirigentes serem condenados e terem suas vidas inviabilizadas. Outro lado é a campanha realizada pelas grandes corporações nas empresas de comunicação através de reportagens parciais, enquanto os crimes por eles cometidos são omitidos. FC – Qual a saída? BA – Somar forças. A união entre indígenas, lavradores, quilombolas e trabalhadores em geral. 3 - Extrativismo Mineral em Juruti: passivos sociais e ambientais e a peleja dos nativos contra o Grande Projeto22 Juruti, município cravado a oeste do Pará, com mais de cem anos de existência, dono de densa floresta repleta de castanheiras, escapou do anonimato por conta de situação de conflito que envolve a mineradora estadunidense Alcoa, uma das maiores do mundo no setor de alumínio, num extremo; e populações consideradas tradicionais no outro. Desde a década de 1980 a região experimenta o ciclo do extrativismo mineral. A Mineração Rio do Norte (MRN), empresa do grupo Vale, explora bauxita no município de Oriximiná. Ela protagonizou um dos maiores acidentes ambientais da Amazônia, ao depositar por mais de 10 anos, rejeitos do processo de mineração no lago do Batata. A situação de disputa pelo território e os recursos nele existentes impregnam a aquarela de tensão na Amazônia. Nuances que dialogam com processos gerados em grandes centros de desenvolvimento que demandam matérias primas, como no caso da China, bem como os processos de integração regional como a Iniciativa de Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA) e o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), da alçada do Governo Federal.

22

Trabalho publicado originalmente do blog Furo e na página da rede www.forumcarajas.org.br em fevereiro de 2009.

Miolo pororoca.pmd

198

24/7/2012, 14:55

que vai contar um pouco do que ocorre no coração da Amazônia desde 2000. Um dos sujeitos econômicos e sociais que agitam a disputa pela terra e as riquezas lá existentes é a Vale. É domingo. No bairro do Jurunas. No caso do projeto de extração da bauxita. Furo – O que motivou a manifestação de ribeirinhos afetados pelas obras da mineradora Alcoa? Gerdeonor Pereira (GP) – A primeira motivação foi aproveitar a oportunidade de chamar a atenção do mundo para os problemas sociais e ambientais que estamos sofrendo por conta da mineração da Alcoa. as 60 comunidades. 21 pedidos de direito de prospecção e lavra. Isso sem falar na monocultura da soja e um porto de escoamento do grão da também estadunidense Cargil. A peleja envolve ainda comunidades indígenas e tradicionais.pmd 199 24/7/2012. que protocolou junto ao Departamento Nacional de Produção e Mineração (DNPM).POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 199 No horizonte. camponês do Projeto de Assentamento Extrativista Juruti Velho. o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) emerge como ponta de lança. No caso da Alcoa em Juruti. A gente queria aproveitar isso e chamar a Miolo pororoca. uma mina de cerca de 700 milhões de toneladas de minério de excelente qualidade. quando ocorria em Belém. cerca de nove mil pessoas. Estamos na parte do bairro próxima à Cidade Velha. 15 de fevereiro de 2009. explica um dos coordenadores do movimento. grileiros de terras e madeireiros. celeiro de manifestações carnavalescas. Em fevereiro de 2009 o Instituto de Terras do Pará (ITERPA) mediou um debate sobre mais de um milhão de hectares de terras públicas na região. 14:55 . Na casa de religiosas encontramos o dirigente Gerdeonor Pereira. O mundo estava de olho em nós. Chove em Belém. a vizinhança se agita. o banco entra com 500 milhões de reais do total de um bilhão a ser aplicado. o Fórum Social Mundial. pai de quatro filhos. onde as trupes de momo costumam se concentrar. decidiram pela ocupação de pontos estratégicos no dia 28 de janeiro de 2009. Era a época do Fórum Social Mundial (FSM). Ajudam a agitar a pororoca de tensões uma agenda de construção de cerca de 10 hidrelétricas e hidrovias. foi uma forma de chamar a atenção do mundo e da sociedade sobre as irregularidades cometidas pela Alcoa no território dos camponeses. A medida.

o que os camponeses fizeram? GP – Nesse meio tempo continuamos a nossa jornada de luta em Santarém. em Belém e em Brasília com a empresa. São 3. Consideramos os Miolo pororoca. Furo – Quais os principais danos que a Alcoa provoca na região? GP – No caso dos ambientais temos o desmatamento de 800 hectares de floresta. Furo – Vocês moram no Projeto de Assentamento Extrativista (PAE) de Juruti Velho? GP – Isso. A Secretaria de Meio Ambiente (SEMA) que deveria fiscalizar demora para ir até Juruti. Somos mais de nove mil pessoas. A empresa não levou a sério. Em nosso PAE são 40 hectares.500 pessoas no dia 28 de janeiro. Furo – Quantas são as reivindicações e quais as principais? GP – Temos 15 pontos em nossa pauta. Furo – Como foi a ação de mobilização? GP – Colocamos 1. Furo – Nesse intervalo de tempo. 14:55 . Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e o Ministério Público (MP). O nosso PAE foi criado em 2005. Bloqueamos a área da ferrovia.200 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá atenção da sociedade brasileira. A empresa queria que a titulação do INCRA fosse individual. O nosso pleito é a titulação coletiva. A Alcoa no Estudo de Impacto Ambiental (EIA-RIMA) desconsidera que a gente existe. Ficamos nove dias acampados. Perdemos a conta dos igarapés que foram soterrados e as cabeceiras de rios contaminadas.pmd 200 24/7/2012. Assim fica mais fácil de manipular. O segundo momento foi pressionar a empresa a assinar um termo de compromisso que tentamos negociar desde 2005. Temos mais de século de história. Centenas de castanheiras foram derrubadas e enterradas. A gente não se encontra no EIA. porto e a rodovia e ficamos na porta da base da empresa. Ela saiu da mesa de negociação após conseguir a licença prévia (LP).500 famílias de 60 comunidades. A polícia chegou e jogou gás de pimenta e bombas de gás lacrimogêneo na gente. Furo – Qual era a inquietação? GP – O reconhecimento da comunidade como população tradicional. A empresa não reconhece a gente como população tradicional e nem a nossa Associação de Comunidades Ribeirinhas do Distrito de Juruti Velho (ACORJUV).

Esperamos que o Ortega compareça. conforme negociação com o INCRA.pmd 201 24/7/2012. Desejamos ainda uma agenda de compromisso que contemple as 60 comunidades que moram no distrito de Juruti Velho. A Alcoa também assinou o documento sobre a participação no lucro da lavra. o Instituto de Terras do Pará (ITERPA). São 35 PCA. que deve sair até o dia 15 de abril. Até agora a gente não conhece nenhum. No dia 02 de março o Walmir Ortega. o secretário mandou apenas técnicos. Furo – O que há de compromisso firmado? GP – Os danos e prejuízos a Alcoa se comprometeu em pagar. Franklin Feder e os outros diretores. Furo – E quanto às empresas que estão dentro do PAE? GP – Queremos que elas se retirem do assentamento. Ela vai ocupar 50 mil hectares. como a Via Campesina. Pagamento pela ocupação do terreno. vai debater com a gente os 35 PCA. Movimentos sociais.5 % de participação da lavra da bauxita e pagamento da retirada da água de nosso lago. secretário de estado. Isso depende da titulação da terra. 14:55 . Tem pessoas e organizações do município e gente de fora da região. responsável pelos Planos de Controle Ambiental (PCA). Furo – Qual o tamanho do PAE Juruti Velho? GP – 109 mil hectares. A floresta que existe vai ser derrubada. Furo – Nessa semana de negociação quem estava à mesa com vocês? GP – A empresa. A Alcoa vai ficar em nossa terra uns 70 anos. A CNEC Engenharia. Enquanto a gente trabalha para unir as prestadoras de serviço da Alcoa fazem o caminho oposto. Estamos numa frente de atuação chamada Juruti em Ação. os Ministérios Públicos Federal e Estadual e o André Farias. que é o secretário de meio ambiente. Hoje temos duas. o INCRA. Na semana que foi de negociação (09 a 13 de fevereiro).POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 201 principais a indenização pelos danos e prejuízos já sofridos. Miolo pororoca. Temos um documento assinado pelo representante da empresa na América Latina. Pelejamos pelo reconhecimento de nossas terras há 28 anos. Furo – Qual era a pauta com os MP? GP – Queríamos saber das audiências realizadas nas comunidades e informação sobre a ação movida contra a Alcoa. Queremos ainda 1. A Alcoa vai usar cinco mil litros de água por hora do lago Juruti Velho.

14:55 . A empresa prometeu a construção de desvios e passarelas e não fez nada. prefeitura e a nossa associação para a construção de uma micro-central de energia. Furo – A empresa não costuma cumprir o que assina? GP – Nos Projetos de Assentamento (PA) Socó I e Socó II a Alcoa assinou acordos e não cumpriu. É nesses PA que passa a ferrovia. A prefeitura é que abastece. educação. A alegação dos Miolo pororoca. Na empresa é delicado confiar.pmd 202 24/7/2012. Ele mandou uma equipe técnica. O secretário de estado André Farias assinou documento garantido que antes do ano acabar a gente tem energia elétrica. Precisamos rever os PCA. Onde moramos não há energia elétrica. É na base do gerador que funciona com diesel. Furo – Qual é a agenda com a Secretaria de Meio Ambiente? GP – Primeiro que o secretário não foi falar com a gente. Necessitamos de um marco legal sobre a retirada da água do nosso lago. Há coisas em nossa agenda que o técnico não pode decidir. Começou somente depois que furamos o bloqueio da região. A Alcoa fez uma agenda de compromisso com a comunidade dos PA e não cumpriu. Não fez escola e nem as estradas. Temos energia somente de 18 da tarde às 23 horas. Mas. Furo – Já existe algum projeto de energia? GP – Temos um projeto firmado no valor de seis milhões entre INCRA. Com a Alcoa avançamos com relação ao pagamento dos danos e prejuízos causados. Furo – Como vocês avaliam o processo de luta? GP – Avançamos com algumas coisas. Furo – Quais são as reinvidicações para o Governo do Estado? GP – Questões com o meio ambiente e investimentos na saúde. Isso foi documentado e filmado. Somente o secretário. Furo – Como você avalia a empresa nesse processo? GP – Na verdade ela não queria pagar nada. moradia e eletricidade. A imprensa aqui não tava falando nada. Como a titulação da terra. Nós não aceitamos.202 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá Furo – E com o órgão fundiário do Estado? GP – Com o ITERPA a nossa agenda tem questões com duas glebas Curumucuri e Mumuru. com a empresa a gente fica com o pé atrás. O INCRA tem até o dia 15 de abril para resolver o assunto.

A gente compreende que seria necessário o EIA-RIMA para o porto. E ficamos de discutir tudo no dia 02 de março com o secretário Ortega. Furo – Além da Alcoa. Essas informações eles omitem. Isso deixa a gente mais Miolo pororoca. É muito grande e tem muita informação técnica. Furo – Como é ler o EIA-RIMA? GP – É complicado. 14:55 . esse dinheiro não vai cobrir a destruição de 50 mil hectares de floresta nativa. Os técnicos da SEMA quando vão para o campo ficam nas estruturas da Alcoa. Furo – Como é a fiscalização? GP – Temos um problema sério. Mas. outro para a rodovia e outro para a ferrovia. A licença de operação está condicionada ao pagamento das indenizações. A licença prévia.pmd 203 24/7/2012.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 203 advogados da empresa é que a mineração é um processo devastador e que não tem que indenizar os moradores. a gente entendeu quando eles disseram que a gente não existe e nem a floresta. Eles ficaram de entregar os documentos até o dia 22 de fevereiro. A gente entende que quem invadiu foi a Alcoa. E que não vai haver alteração em nossos rios e igarapés. Os advogados da Alcoa indicaram o meu nome. Maranhão e Juruti já estão sendo afetadas. Mesmo que ela pague os nossos prejuízos. As águas dos igarapés Fifi. Como vou fiscalizar um projeto e fico dentro da estrutura da empresa? Não conhecemos os PCA. quais foram as acusações? GP – A empresa denunciou que a gente tava fazendo formação de quadrilha e invasão da propriedade privada. O processo para a lavra exige três etapas. Estamos exigindo o que o código de mineração nos garante. Furo – Quem vai avaliar os danos e prejuízos da Alcoa? GP – Uma empresa que o INCRA vai indicar. Ano passado denunciamos a retirada ilegal de seis balsas de madeira. tem mais gente pressionando sobre os recursos naturais? GP – Os madeireiros. A empresa pisou na lei brasileira. Furo – E no boletim de ocorrência feito pela Alcoa contra a ação de vocês. Furo – O que falta para a empresa iniciar a lavra? GP – A licença de operação. o nome da irmã Brunildes e da nossa advogada Regiane e do companheiro Antonio Marcos. licença de instalação e a de operação.

como funciona? GP – E difícil de falar dos danos provocados pela empresa. pai de quatro filhos e nunca tive uma passagem na polícia.pmd 204 24/7/2012. é militante da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Balsas.Maranhão . Respectivamente os municípios estão no oeste e sul do estado. Antonio Gomes de Moraes. o estado que exporta mais de 40% de toda mão-de-obra escrava liberta em todo o país. No sul do estado. germinam um universo marcado pela degradação ambiental. o rastro de passivos serpenteia na paisagem marcada pelo bioma cerrado. 14:55 . informam os dados do Instituto Brasileiro dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). onde se localizam várias nascentes de rios. onde incide o bioma cerrado. trabalho escravo e prostituição de crianças. O primeiro município abriga um polo de produção de ferrogusa. sul do Maranhão e integra a frente de defesa do bioma cerrado na região.org.forumcarajas. 23 Trabalho publicado originalmente em dezembro de 2008 no site da rede www. conhecido como “Criolo”. Ele pinça um pouco do vasto mundo do sertão do Maranhão. grandes corporações como Bunge e Cargil hegemonizam o cultivo da monocultura da soja. Ambos os empreendimentos gozaram de generosos incentivos fiscais do governo para a instalação.br Miolo pororoca. Furo – E a imprensa local.as vísceras do Sertão23 O Maranhão é o principal estado exportador de mão-de-obra escrava. região de pré-Amazônia. Depois eles retiraram a queixa. 4 . A mesma região registra vários casos de trabalho escravo e imensas fazendas controladas por produtores oriundos do Sul do país em parceria com a família Sarney. No mundo erguido pelos projetos. intensivos no uso dos recursos naturais. Fez parte da negociação. Açailândia e Balsas estão entre os municípios que mais desmatam no estado.204 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá indignado. já o segundo um polo de produção de soja. Sou agricultor familiar.

Para se ter uma ideia somente a fazenda Agroserra. de propriedade da família Sarney. Depois vieram os paulistas e por último a turma do Mato Grosso. Creio em que em 2005 cerca de 1.pmd 205 24/7/2012. Parnaíba. Fortaleza dos Nogueiras. A propriedade é da família Ticianeli. São Raimundo das Mangabeiras. Isso se deu graças aos incentivos do governo. e as carvoarias configuram como os grandes desestabilizadores do mundo rural da região. que outras fazendas possuem esse gigantismo? AG – Carolina do Norte. o total abrange cerca de 28 cidades. Sambaíba e Pastos Bons).POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 205 Furo – Qual a área de atuação da diocese? Antonio Gomes (AG) – Temos aqui na diocese de Balsas 18 municípios (Balsas. São três irmãos. para onde se alastra a fronteira agrícola da soja. Nova Iorque. Soubemos que a família Sarney possui ações no grupo. Loreto. Feira Nova. Tasso Fragoso. Nova Colina. Riachão. O Miolo pororoca. Benedito Leite. Mirador. São Félix de Balsas. Furo – Quais as empresas que estão aqui na região de Balsas? AG – As maiores aqui são a Bunge e a Cargil. Sucupira do Norte. limitando com os estados do Tocantins e Piauí. Alto Parnaíba. mas tem mais. A história começou aqui no fim de 1970. na fronteira dos municípios de São Raimundo das Mangabeiras outra parte em Fortaleza dos Nogueiras. Furo – Como fica o rio Balsas e a vegetação local? AG – Outro dia fizemos umas imagens áreas. Nova Holanda. Tasso Fragoso e Alto Parnaíba são os municípios com maior incidência.700 trabalhadores foram flagrados em condições degradantes de trabalho na produção da cana. de origem paranaense. São Domingos do Azeitão. Fortaleza dos Nogueiras. No momento são as que lembro. Mas. Furo – Onde se concentra a monocultura de soja? AG – Balsas. baseados na monocultura da soja. cana. Furo – Como se configura o cenário aqui na região sul do Maranhão? AG – Os grandes projetos aqui na região. com a presença dos sulistas para o cultivo da soja. Furo – Além da Agroserra. O rio Balsas se encontra totalmente degradado e a sua mata ciliar em destroços. controla 230 mil hectares. 14:55 .

Em 2004 foram libertados 28 trabalhadores em São Raimundo das Mangabeiras na produção de carvão vegetal. Miolo pororoca.206 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá desmatamento aqui é o mais perverso possível. O caso ocorreu na comunidade conhecida como Brejão. E na questão social registram-se a expropriação camponesa. Em Loreto também tivemos registros de dois óbitos de crianças. Furo – E como fica a madeira? AG – A madeira é utilizada para a produção de carvão vegetal que alimenta as empresas de gusa.pmd 206 24/7/2012. Furo – Qual o balanço que o senhor faz da soja na região? AG – Venderam que Balsas ia ser o melhor lugar do mundo. 14:55 . O Maranhão é hoje o principal exportador de mão-de-obra escrava. Para se ter uma ideia da tragédia do trabalho no estado. Balsas é um bom lugar para poucas pessoas. Em outubro foram soltos no município de Balsas em fazenda de soja mulheres e crianças. no caso aqui. somente para os que possuem dinheiro. Furo . em 2005 foram libertados mais 20 em Tasso Fragoso. em fazenda de soja. aqui em Balsas. Furo – A produção de carvão é indicada como fonte de trabalho escravo. a terra e a água poluída pelo veneno lançado pelos aviões. Furo – Na questão além da destruição da mata ciliar e do cerrado. do ex-ministro da agricultura. Para a gente fica o deserto. Muito se deve às monoculturas que expulsam as famílias camponesas. o Maranhão responde com 40% de toda mão de obra escrava libertada em todo o país. No fim da semana as duas crianças vieram a óbito no mesmo dia. aqui também é assim? AG – Aqui temos trabalho escravo nas fazendas de grão e cana e nas carvoarias. Roberto Rodrigues. Isso se configura como um desastre social. um projeto chamado Serra Vermelha.Já ocorreu algum caso de óbito de animais ou pessoas por contaminação? AG – Tivemos o caso do lugar do Vão da Salina. A prática é do correntão. que outro passivo a monocultura da soja provoca? AG – Temos a poluição. o registro de óbito de animais. A monocultura de soja é tratada através de aviões. Em uma semana todas as famílias da comunidade tiveram o mesmo problema de saúde: vômito e diarreia. que consiste em amarrar uma grande corrente em dois tratores para a derrubada da mata nativa. o cerrado.

pmd 207 24/7/2012. Furo – Como tem sido a ação dos movimentos sociais da região com relação a esses passivos sociais e ambientais? AG – Nos anos de 1980 era mais atuante. no município de São Raimundo das Mangabeiras.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 207 Furo – O que dizia o laudo médico? AG – Os médicos se recusaram a informar a causa mortis. Ainda pressionamos o INCRA para a efetivação dos projetos de assentamento. São mais de 200 famílias que estão na terra. Isso de 2002 para cá. São os casos da fazenda Taboão. A gente se empenha em tentar formar a militância. como se desenvolve? AG – Primeiro que esses acordos coletivos de trabalho em sua maioria tem sido mero faz-de-conta para mascarar o trabalho escravo. Aqui a instituição é muito lenta. Furo – O senhor faz ideia da quantidade de veneno usado? AG – Em um hectare de soja são colocados 509 quilos de produtos químicos durante todo o cultivo. Às vezes os STR funcionam mais como um desagregador dos Miolo pororoca. Hoje os sindicatos estão bitolados em encaminhar aposentadorias rurais. 14:55 . Furo – Tem havido ocupações na região? AG – Nos anos de 2000 tem-se registro de algumas ocupações que esperam pela efetivação de projetos de assentamentos rurais. Furo – Queria voltar ao assunto sobre trabalho escravo. Furo – Como é a ação da CPT na região? AG – A nossa equipe é muito pequena para a dimensão física e dos problemas da região. quando Fernando Henrique assume o governo. ambas no município de Riachão. como funciona aqui na região? AG – Em assembleia dos movimentos sociais aqui foi pedido o afastamento de quatro funcionários que estavam em conluio com fazendeiros. a gente avalia que engessou o movimento. Já nos anos de 1990. E quanto aos acordos coletivos em que os sindicatos de trabalhadores rurais (STR) integram o grupo que trata do assunto. Furo – Falando em INCRA. fazenda Sucupira e na fazenda Ponteira. Sabese ainda da morte de animais no mesmo perímetro. É a burocratização do movimento e a perda do espírito de luta.

Furo – Quando a monocultura da cana chegou? AG – A Agroserra que trouxe. A empresa do outro lado detona as cabeceiras do rio Itapecuru. 14:55 . que nunca ocorreu.208 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá trabalhadores. Foto: Rogério Almeida Publicado originalmente no site da Rede Fórum Carajás em maio de 2009 Miolo pororoca. É a morte do rio Neri.Baixo Amazonas. Em dois casos houve manifestações dos trabalhadores contra a empresa. uma ilha cercada de soja e agora cana por todos os lados. Mais de 500 famílias estão sendo retiradas da reserva. 5 . dirigente popular do Baixo Amazonas.pmd 208 24/7/2012. Voltemos ao caso da Agroserra. o governo se manifestou pela garantia do reassentamento das famílias. Quando da criação do parque na década de 1980. grandes projetos e as comunidades tradicionais24 Irene Pinheiro. onde 16 mil são irrigados. têm 21 mil hectares cultivados. A fazenda produz soja e cana. O lugar fica ali na Reserva Estadual do Mirador.

Em oposição a processos de implantação de grandes projetos na região os segmentos contrários realizam seminários. a bauxita. região banhada pelo principal rio da Amazônia. A militante esteve em Belém. CBA. Foi lá que conversamos sobre a comunidade de Irene. fóruns e distribuem. com controle acionário do grupo Vale em associação com a BHP Billiton. Alcoa Word Alumínio. separada. incidem situações entre comunidades tradicionais e as grandes corporações de mineração. A atividade protagonizou o desastre ambiental do Lago do Batata. A extração é responsável pela derrubada de cerca de 300 hectares de floresta por ano. O empreendimento conta com o financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Soma 48 anos. O desastre do Lago do Batata é considerado um dos mais graves acidentes ambientais da Amazônia. faz mais de três décadas. relatórios e denúncias sobre as expropriações que sofrem as comunidades consideradas tradicionais. Miolo pororoca.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 209 Há algum rincão na Amazônia em que não haja situação de tensão pelo controle do território e dos recursos lá existentes? A oeste do Pará. Irene Pinheiro integra o movimento quilombola de Oriximiná. Pará. 14:55 . de monocultivos e projetos de geração de energia. o Amazonas. com o depósito dos rejeitos do processo da extração mineral por uma década (1979 a 1989). graduada em ciências sociais. Tocantins e Amapá. Na mesma região a Cargil é responsável pelo monocultivo da soja e a Alcoa ergue uma planta industrial para a extração de bauxita no município de Juruti. na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). por meio da internet manifestos. que reuniu organizações sociais do Maranhão. Alcoa Alumínio. É mãe de três filhos a caçula com 15 anos. Lá a empresa Mineração Rio do Norte (MRN). as pelejas e as lutas sociais travadas na região. Irene anima o movimento de mulheres da região do Baixo Amazonas. fala ao Fórum Carajás sobre as dinâmicas econômicas. Alcan. a segunda com 21 e o terceiro com 23.pmd 209 24/7/2012. entre os dias 13 a 15 de maio para participar do encontro da coordenação do Fórum da Amazônia Oriental (FAOR). as folias. É uma quilombola da comunidade Irepecuru Cuminá. sociais e políticas da região. Nork Hidro do Brasil e a Abalco extrai a matéria prima para a produção de alumínio.

Isso com música e dança rolando. explora o mesmo minério em Oriximiná tem mais de trinta anos. A agricultura familiar com a produção de macaxeira e lavoura branca serve como forma de subsistência. São mais de 300 famílias. Temos a cooperativa que ajuda na organização. A rotina acaba empurrando a ação da delegada para outros rumos. Tem os casais.Como é a produção nas comunidades? IP. FC.Tem ainda muita castanha do Brasil. FC. FC. Lembra a festa de São Benedito. É uma dança. Isso se reflete nas estruturas de poder nos diferentes níveis da administração pública e na justiça. não conseguimos inserir a mesma e seus derivados na merenda escolar. Estes são alguns dos grandes projetos na região. Vai explorar bauxita do lado direito do rio Amazonas. mas ela não tem atuado como delegada da mulher. Mas.210 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá Fórum Carajás (FC) – A qual comunidade você pertence? Irene Pinheiro (IP).Há outras manifestações? IP. Miolo pororoca. Há problemas culturais com o machismo. cidade pólo.Erepecuru Cuminá. Um diz um verso para o outro e o rival tem de responder.Já existem delegacias especiais na região? IP-Existe em Oriximiná. Tem-se ainda vários projetos de hidrelétricas para o rio Tapajós. a mazurca e a desfeiteira… FC -O que é a desfeiteira? IP.E com relação às questões ambientais. resultado de um seminário sobre políticas públicas. Realizamos sempre em janeiro. 14:55 .Como anda a agenda da luta da mulher na região? IP– Temos em nossa agenda a criação de conselhos da condição feminina e das delegacias das mulheres. Em nossa cena cultural mantemos a folia chamada de aiué. FC. É a base. FC. Óbidos e Alenquer. Algumas famílias produzem peixes e quelônios. sem falar na soja da empresa Cargil em Santarém. no rio Curuá. Foi a família do meu pai que ajudou a multiplicar. Isso limita a nossa ação. quais as principais demandas? IP – Temos demandas com a empresa chamada Rio Tinto (angloaustraliana) no município de Monte Alegre.pmd 210 24/7/2012. A Alcoa (estadunidense) encontra-se no município de Juriti na exploração de bauxita e a Mineração Rio do Norte (MRN).Temos ainda o lundu.Funciona como se fosse um desafio. Há uma delegada.

sindicatos. Mais não é como era antes. FC. É uma forma de conservar alimentos e agregar valor.Faz umas coisas pontuais na cidade. Muito pouco.Temos o assoreamento dos rios. paróquias.Quais os impactos sociais e ambientais que você nota por conta desses grandes projetos? IP. Há casos na zona rural da empresa implanta uma criação de alevinos…é isso…É tudo pouco. como a briga pela titulação das nossas terras ancestrais. etc. através de 32 Miolo pororoca. a redução do pescado e a derrubada de floresta. onde os rejeitos da extração foram depositados por 10 anos.POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá | 211 FC.Recuperou um pouco. Tem o histórico acidente do Lago do Batata. As mulheres quilombolas predominam na cena do movimento de mulheres. Hoje estão desenvolvendo no setor de produção atividades com defumados (galinha. 14:55 . Temos ações em todos os municípios da região. FC.Como anda o lago hoje? IP. FC.As comunidades quilombolas através da EMATER buscam uma política de assistência técnica especifica. FC. um carro para a secretaria da prefeitura.Os grupos parecem mais organizados.pmd 211 24/7/2012.É a Associação das Organizações das Mulheres Trabalhadoras do Baixo Amazonas. Não temos energia. Nunca mais vai ser. Estamos construindo isso. Ainda temos essa agenda pela titulação. pastorais sociais. Tem um experimento de defumados na comunidade de Santa Rita.Você pode explicar melhor? IP.A Vale faz associação com as comunidades? IP. Isso ocorre conforme as empresas avançam sobre os platôs.E a agenda quilombola com o governo do Pará? IP. ela atua em 13 municípios da região. FC. em particular na derrubada das castanheiras. legalização das associações quilombolas e por política de geração de renda. O trabalhão é feito através da Associação das Associações das Comunidades Quilombolas. As mulheres possuem mais ações. O que a empresa faz muito na cidade é doar um computador aqui outro ali. porco e peixe) e com derivados da castanha.Hoje não temos uma agenda bem definida como era antes.Há uma agenda hoje do movimento quilombola da região do Baixo Amazonas? IP. A empresa tem uma tal de agenda 21 lá.Existe uma representação que congregue esse povo todo? IP. FC. Temos ações pontuais.

questão de gênero. Através da política estamos buscando ações afirmativas na geração de renda.pmd 212 24/7/2012. O indicativo é que ela se realize em setembro no município de Santarém. 14:55 . A associação integra o colegiado do Território da Cidadania. Temos uma assembléia anual e é nesse espaço que avaliamos as nossas ações e realizamos o nosso planejamento. Em nossa agenda há a realização da primeira feira da produção feminina do oeste do Pará. Miolo pororoca. violência contra a mulher e o empoderamento da mulher em todo o Baixo Amazonas. O nosso movimento do município de Oriximiná a ênfase é a família quilombola.Temos a preocupação de emprego e renda. Já realizamos três reuniões e estamos consolidando as parcerias.Quais as linhas de atuação do movimento de mulheres? IP.212 | POROROCA PEQUENA: Marolinhas sobre a(s) Amazônia (s) de cá organizações associadas. FC.

Interesses relacionados