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O DIAGNÓSTICO E O VER EM HIPOCRATES E TUCÍDIDES

Paula Maria de Oliveira.

O presente artigo, faz parte de um estudo que objetiva analisar o conceito de cura em Atenas, no período que vai de 430 a 415 aC, tendo como suporte a Guerra do Peloponeso de Tucídides, onde o autor tece informações sobre a peste de Atenas, complementando com referências ao corpus hipocraticum.

Observamos que no período da guerra do Peloponeso em 431 aC, a população ateniense foi alvo de dificuldades que afetaram o corpo social definido, por nós, como macrocosmo. As desarticulações motivadas pela guerra e por outras dificuldades físicas do corpo, conceituado como microcosmo, foram promovidas pela epidemia que ocorreu logo no início da guerra. Tanto o macrocosmo quanto o microcosmo estão inseridos num conjunto de fatores, costumes e crenças formados pela Sociedade. Este conjunto de fatores nos possibilita construir a história social da medicina, porque entendemos que o conceito de cura, e a especificidade do pensamento mítico e do pensamento racional só podem ser explicados quando inseridos no contexto da Atenas do séc V Ac .Logo, a história social da medicina será pensada a partir dos conceitos de cura entre os atenienses no V séc, buscando suas adversidades e em que grupos sociais tais conceitos foram produzidos, difundidos e rejeitados.

Partimos do princípio de que determinadas formas de saber só podem ser analisadas e compreendidas, quando inseridas na sociedade que a produziu. Essa constatação define o nosso objeto de pesquisa que é analisar o conceito de diagnóstico para os médicos hipocráticos, relacionando-o com a história de Tucídides. Entendemos que a particularidade do método utilizado por eles, tanto de cura quanto da análise histórica, só pode ser entendido se inserido no contexto social que é o da Atenas do V séc. Para efetivar esta análise, selecionamos as informações de Tucídides e Hipócrates, ambos contemporâneos do período Clássico ateniense. O que nos chama atenção é que ambos privilegiam o ver em detrimento do ouvir (ao contrário do período homérico).

Para com Bruno Snell (Snell, 1997, 23), a palavra ver no V séc, define-se como νιερωεΟ, termo derivado de “theorós, que significa espectador. Este termo, de acordo

com o autor, no período Clássico, passa a significar contemplar, ver com admiração, o

que nos leva a crer que o o homem usa o ver no sentido de ser um agente no kosmos.

Tal ação do homem, atuando, definindo os fenômenos do universo, pode ser observada

no método dos médicos, “iátros”, através do prognóstico, visando analisar os

sintomas da doença para depois estabelecer o processo de cura.

Peter Jones (Jones, 1997, 305) observa que a prática da medicina grega, estava

centrada no prognóstico, isto é, na cuidadosa observação dos rumos que uma doença

tomava. O médico observava os sintomas de uma determinada doença objetivando

chegar a um diagnóstico, a qual derivava do verbo ωκσωνγιγ, que significa dar a

conhecer, reconhecer e julgar. Tal verbo, segundo Pedro Laín Entralgo (Entralgo,

1970,226), era usado pelo estratego para reconhecer a peculiaridade de um

determinado terreno e, assim, efetuar o plano de ataque com sucesso. Segundo

Marilena Chauni (Chauni, 1995,117) o método de análise médica se assemelhava ao

do estrategós, visto que ambos possuíam uma inteligência prática designada por

métis, a qual dependia de conhecimentos técnicos especiais e da habilidade. A métis

será portanto apropriada pelo médico, o qual fazia o reconhecimento dos sintomas da

doença, pelo estrategós, na análise do terreno, e pelo historiador na definição da

peculiaridade de uma determinada guerra A métis, como o uso da técnica racional,

constituía-se, para o grego do V séc, em olhar e ver a especificidade do objeto

analisado; era através do olhar e do ver, que se destacava um saber técnico de outro.

Podemos observar o ato de ver relacionado com o método do diagnóstico presente no

relato de Tucídides:

‘Deve-se olhar os fatos como estabelecidos com precisão suficiente, á base de informações mais nítidas, embora considerando que ocorreram em épocas mais remotas . Assim, apesar dos homens estarem sempre inclinados numa determinada guerra, a julgá-la maior, e depois que ela terminar voltarem a admirar os acontecimentos anteriores, ficará provado para quem julga por falsos reais, que a presente guerra terá sido a mais importante que qualquer outro acontecimento no passado”(Tucídides, I, 21)

Há uma semelhança no relato de Tucídides e no trecho do prognóstico de

Hipócrates, o qual destacamos abaixo

‘”Nas doenças agudas, o físico, deve conduzir um inquérito. Primeiro, ele deve

examinar a face do paciente, e depois, comparar com a face de uma pessoa

saudável”.(prognóstico II ,1-4)

O método do técnico baseia-se a saber: no testemunho direto e no ato de ver e

analisar, os fatos tal como eles se apresentam. Objetiva-se, portanto, reconhecer a

particularidade de cada guerra, assim como o médico devia analisar os sintomas, para

reconhecer a physis, natureza, que era individual em cada paciente. O médico iátros tinha conhecimento que apesar da doença ser a mesma, ela apareceria com sintomas

e intensidades diferentes de um indivíduo para outro.

Para os diferentes physikoís do V séc, um relato verdadeiro tinha que vir acompanhado de fatos concretos, o que se observa, através do testemunho de Tucídides, ao descrever a peste e seus sintomas, pois seu objetivo é o de fazer o reconhecimento da mesma, caso ela voltasse a aparecer. Tucídides dá ao seu relato um atributo de verdade pelo fato de saber porque viu sendo testemunha ocular do fato, afirmado por ele mesmo na citação abaixo:

‘”Adquiri o mal e vi os outros sofrendo dele’”(TUCÍDIDES, II,48, 18-19)

O termo ver utilizado por Tucídides na frase é νωδι que significa eu sei, vendo.

Antes de relatar a peste e seus sintomas, o historiador faz questão de dizer que adquiriu, presenciando os sintomas e seus resultados. Observa-se, portanto, que a

veracidade do relato se atesta a partir do testemunho direto. Segundo Charles Segal1[1], para historiadores como Heródoto e Tucídides, o boato (akoé) pode enganar

e exige ser verificado através da observação e, preferencialmente, do testemunho direto.

Para Carlos Ginsburg (Ginsburg, 1989, 280),o mais eficiente historiador é aquele que através de uma vívida representação dos caracteres, faz com que a sua narrativa se pareça com uma pintura. Para ele, é essencial, nesse contexto, a enargeia que significa narrar com clareza, através de uma descrição animada.

A αιεγρανε, de acordo com Ginsburg, tinha por objetivo fazer do leitor uma espécie

de espectador e produzir, vivamente, naqueles que se interessavam pela sua narrativa, os mesmos sentimentos de assombro que foram sentidos por quem esteve presente. Segundo ele, na Grécia Clássica, a enargeia era um meio de realizar a autópsia, no sentido de verdadeira fonte, de uma visão direta.

Fazendo um paralelo do relato de Tucídides com o seu contexto político social, e comparando com o relato de Homero, temos que Homero, através do discurso oral

1[1] Charles Segal in, O Homem Grego, 1994, 182.

1[2] A palavra discrasia , vem do grego dis sem e crasis mescla. Significando portanto que os humores , do corpo, definidos como quente frio úmido e seco, vão estar em desequilíbrio numa doença, não havendo portanto harmonia entre eles para ocorrer a mescla.

1[3] endemia vem de →νε→εωεμηδνεque está →ςομεδcidade, que significa residir num país, sedentário, Doença que pertence a um lugar .

canta, um passado glorioso de deuses e heróis. Tucídides, que vive num contexto onde a sociedade não é mais basicamente oral e nem totalmente letrada, tem por objetivo relatar os fatos como eles realmente aconteceram. Seu compromisso com a verdade que define-se pela seleção dos testemunhos, pois como evidencia Erick Havelock (Havelock, 1996, 45), há no V séc a transição de um de um processo iniciado pelos pré-socráticos, os quais, tentavam romper com a tradição oral, porém seu público ainda tinha que memorizar suas sentenças. Portanto há um paradoxo: na Atenas Clássica, nem todos sabiam ler e escrever, porém numa forma de governo democrática, como a de Atenas, que visava uma relação mais universal, produziu, por necessidade, o uso da escrita, como afirma Charles Segal. Segundo o autor, a escrita favorece uma mentalidade mais ligada ao abstrato, o conceptual, e o universal do que ao concreto ao particular como era na sociedade oral. Tais fatos podem ser observados através da fixação das leis em todos os lugares, para que as pessoas mesmo não sabendo ler, soubessem de sua existência, através do testemunho direto que era a presença concreta da epigrafia.

Pedro Laín Entralgo (Entralgo,.1970, 364) afirma que os médicos pertenciam a uma parte restrita da sociedade e que constituíam a parte da elite intelectual e social da sociedade grega de seu tempo. Eram, portanto, homens que estavam envolvidos nas mais diferentes especulações, e tinham conhecimento do ato de ler e escrever, baseando-se na evidência de fatos concretos, e não em testemunhos da tradição mítica para formular seus postulados.

Partimos do princípio de que uma sociedade não é homogênea e que os saberes produzidos, num determinado meio social, circulam e são apreendidos de maneiras diferentes pelos vários segmentos que integram uma mesma sociedade, podemos ao analisar o termo Epidemia no seu sentido racional e mítico, entender que, quando duas formas de pensamento distintos transitam numa mesma sociedade ela, há atritos, e dele resulta a formação de um pensamento complementar.

A relação homem/ universo vai definir segundo os médicos hipocráticos, a existência de dois tipos de doenças: uma endêmica, facilmente conhecida, causada por hábitos alimentares inadequados, e que causam portanto uma discrasia2[2] das funções do corpo, e outra epidêmica, cujas manifestações aparecem com as mudanças de clima ou de outros lugares. Expressa-se tais conceitos a respeito da natureza das doenças, no seguinte quadro.

DOENÇAS

CURA

PROGNÓSTICO

EFEITO

ENDÊMIC

São causadas, pela

facilmente efetuado

doença no corpo

A3[3]

prevalência de um humor

pela observância do

físico

sobre outro, ou seja

aspecto do enfermo

quando há o domínio de

uma das funções do corpo

definidos como: quente,

frio, húmido e seco

EPIDEMIC

São dificilmente

Difícil de ser

doença no corpo

A4[4]

reconhecidas, pois devido a

efetuado, devido a não

social, devido ao

virem de outra cidade ou

observância de quadros

desequíibrio ser no

com a mudança de

semelhantes., (não são

ar e não no

estação, seu diagnóstico é

as dietas a sua causa.)

indivíduo.

mais dificil de estabelecer

O quadro, evidencia, portanto, que as doenças epidêmicas são produzidas em

outros lugares, ou são adquiridas com a mudança de uma estação, tal como

encontramos no relato de hipocrates abaixo.

“”Quando se instaura uma epidemia, é evidente que as dietas não são sua causa, mas o que respiramos, este sim , é a causa , é obvio que este paira contendo alguma secreção insalubre”(Da natureza do homem 9, 37)

O relato acima evidência que a epidemia traz uma desarmonia do macrocosmo, tal

como se segue com a doença no corpo. Detienne (Detienne, 1988, 12), define

epidemias como sacrifícios oferecidos às potências divinas, e tais oferendas faziam

com que os deuses se aproximassem dos homens, fazendo-se presentes no santuário e

nas festas religiosas. Nessas ocasiões, os deuses transitavam pela terra e se houvesse

algum ato de asebeia, impiedade, instalava-se a hybris , que podia promover a

difusão de uma doença. Segundo Detienne5[5], só os deuses migrantes6[6], ou seja,

4[4] epidemia vem de →ιπε→εωεμηδιπεdireção, para caminhar →ςομεδcidade, significa doença que desloca de um lugar para o outro

4[5]Detienne, 1988, 13

6[6] Migração segundo o dicionário Aurélio(Aurélio, 1985, 316), corresponde a passagem de um país para outro, periódica ou irregularmente.

deuses que tinham suas epifanias7[7],é que eram capazes de disseminar as

epidemias8[8]. Evidenciamos as epifanias nas divindades como o Deus Apolo (de

epifanias regulares) e Dioniso, deus do êxtase e do entusiasmo que epifanias tinha

irregulares. Apolo, ao contrário de Dioniso, simboliza a boa ordem, é um deus com

ação controlada, que espalha doenças quando é cometida uma asebeia, quanto ao seu

culto, tal como observamos na citação da Ilíada:

‘”Que Deus provocou a desavença entre eles? O filho de Latona e de Zeus, que fora ofendido pelo rei. Assim , ele mandou sobre o acampamento a peste cruel” (Iliada,t 8-9)

Temos que tal peste foi enviada por Apolo, por ocasião do rapto de Criseis esta, era

filha de um sacerdote e que fazia parte de um botim de guerra que coube a

Agamênnon.

Já Dionisio, segundo Detienne, é o mais epidêmico dos deuses, e simboliza a

libertação e a supressão das proibições, o estar na natureza, sem ordem, sem lei. Para

Jean Chevalier (Chevalier, 1998 ,340), Dionisio visa a introduzir os homens no mundo

dos deuses, transformando-os em seres divinos. O autor acrescenta que este deu,

simboliza a dissolução da personalidade, a submersão da consciência ao inconsciente.

Dionisio, através da epidemia traz, junto aos mortais, a desordem e, sendo ele o deus

do vinho, faria com que caísse a máscara de cada indivíduo fazendo com que este se

apresente em seu estado natural, mais selvagem, próximo ao estado da natureza.

Podemos afirmar a existência de dois tipos de epidemias, tanto no plano racional

quanto no plano mítico. Segundo Mário Vegetti9[9], a epidemia, contaminação, ocorre

sempre quando se infringem juramentos feitos em nome dos deuses ou quando não se

respeita as regras do ritos. Esse tipo de epidemia mítica, da qual faz parte Apolo, é

regular, e pode ser apaziguada se forem seguidos corretamente os preceitos

ritualísticos. Em relação a epidemia do tipo racional, nota-se que os iátrois gregos

pensavam que ela apareceria com a mudança das estações e, portanto, com uma certa

freqüência, tal como no caso da mítica. Devido à freqüência com que a epidemia

aparece com a mudança das estações, os sintomas da doença são conhecidos e,

portanto, não se espalha pelo corpo social visto que ao aparecer, os médicos já vão

saber como trata-lá. Atestamos no relato de Hipócrates, a importância dada ao clima

para evitar os resultados da epidemia no corpo social.

7[7] do grego epophaneia, aparecimento de um divindade, em figura real

9[9] Vegetti, in O Homem Grego,1994, 235

“Deve-se adequar o que foi observado , tendo em vista a natureza, a idade e a aparência do homem , a estação do ano e o tipo de doença (Da natureza do homem, 9 , l

27-30).

Há, portanto, uma similitude no mecanismo desse primeiro tipo de epidemia mítica

e racional, visto que ambas podem ser evitadas se observados os procedimentos

ritualísticos no caso da mítica, e na observação do quadro do diagnóstico no caso da

epidemia racional.

O outro tipo de Epidemia, representada por Dioniso, cuja epifania é irregular,

dificultando os preceitos a serem observados para evitar sua chegada e a desordem

trazida por ela. Tal epidemia divina pode ser relacionada ao outro tipo de epidemia

racional, a qual vem de outro lugar ou por meio de estrangeiros. Encontramos esta no

relato de Tucídides, conhecida como a peste de Atenas, cujas manifestações nem os

médicos conheciam, como mostra a citação:

“’Nem os médicos eram capazes de enfrentar a doença, já que de inicio tinham de tratá-la sem lhe conhecer a natureza e que a mortalidade entre eles era maior, pôr estarem mais expostos a ela, nem qualquer outro recurso humano era de menor valia. As preces feitas nos santuários, ou os apelos aos oráculos e atitudes semelhantes, foram inúteis, e afinal a população desistiu delas, vencida pelo flagelo.” ( Tucídides II, 47, 9-14 )

A peste de Atenas se caracteriza por ser uma epidemia racional cujos resultados

são avassaladores, devido ao desconhecimento de seu quadro diagnóstico, pois ela é

adquirida de outros lugares ou por pessoas estrangeiras, tal como evidenciamos no

relato de Tucídides abaixo:

“Dizem que a doença começou na Etiópia, além do Egito e depois desceu para o Egito e para a Lídia alastrando-se pelos outros territórios do Rei. Subitamente ela caiu sobre a cidade de Atenas’(Tucídides livro II, 48. 1-3)

Comparando agora as duas epidemias temos os seguintes quadros.

 

Epidemia racional

Epidemia divina

epidemia

Vem com as

São vindas de deuses

rítmica

mudanças de estações,

migrantes, a sua epifania é

se houver um

conhecida e, sendo o ritual não

diagnostico, é

transgredido, não há miasmas.

facilmente controlada

epidemia

Vem trazida pela

Vem trazida de outros lugares,

arritmica

presença de outros

e devido a este fato, provoca numa

povos, de outros

sociedade cosmopolita como a

lugares, são perigosas,

ateniense, um choque cultural,

pois seu prognóstico é

ficando á margem a fim de não

desconhecido

corromper o culto cívico

Nota-se através dessa exposição, e do quadro, que o método empregado pelo médico hipocrático do V séc vai se utilizar da concepção divina para formular seu postulado sobre o mecanismo de expansão de um doença. Essa articulação entre os tipos de epidemias míticas e racionais são encontradas no relato de Tucídides, quando relata os resultados da peste:

“Os templos nos quais se haviam alojado estavam repletos de cadáveres daqueles que morriam dentro deles, pois a desgraça que os atingia era tão avassaladora que as pessoas, não sabendo o que as esperava, tornavam-se indiferentes a todas as leis, quer sagradas, quer profanas” ( Tucidides, II, T 52 ,7,10).

Tucídides concebe, portanto, que uma doença epidêmica não diagnosticada pode

afetar o corpo político, o corpo do indivíduo e o culto dos deuses da sociedade, como

mostra Richard Sennet (Sennet, 1994,75) ao afirmar que a enfermidade atingiu

primeiro, e mais fatalmente, a estrutura social da cidade, destruindo aqueles cultos

que celebravam a santidade da morte. Tucídides ao descrever os resultados da

epidemia, no sentido hipocrático da palavra, notifica que esta, devido ao seu

desconhecimento, destrói a coesão da pólis, acabando primeiro com a crença nos

deuses da cidade, e abrindo caminho portanto para outras práticas religiosas

afastadas do ritual poliade. Tendo desarticulado a coesão religiosa, a epidemia

corrompe instituições políticas, trazendo para a cidade a anarquia, tal como relata

Tucídides na citação:

De um modo geral a peste introduziu na cidade pela primeira vez a anarquia total. Ousava-se com maior naturalidade e abertamente aquilo que antes só se fazia ocultamente (Tucidides, II, 53 ,1-3).

A análise da trajetória da epidemia, nos permite estabelecer o seguinte

funcionamento:

DOENÇA NO INDIVÍDUO DOENÇA NA COMUNIDADE FALTA DE CURA

DESCRENÇA NAS PRÁTICAS MÉDICAS DESCRENÇA NAS PRÁTICAS RELIGIOSAS

DESORDEM.

Pela exposição acima, evidenciamos que a doença na Atenas do V séc Ac, vai ser

apreendida de maneira diferente pelos diversos segmentos sociais havendo num

primeiro momento uma separação entre a cura racional e mítica. Num momento de

desordem em que nenhum dos meios de cura dá resposta aos problemas, temos uma

apropriação por parte dos iatrois do V séc, dos mecanismos usados pela religião, a

qual estava estruturada na mentalidade da sociedade. Esta apropriação visava

formular as bases de seus ensinamentos junto à população simples de Atenas.

Concluímos que, esse momento de uma crise social promovido pela peste em

Atenas, fará com que percebamos que os desejos individuais tendem a sobrepor-se às

leis que mantêm a comunidade coesa. Parte da população ateniense buscava

alternativas utilizando-se de práticas mágicas e encantamentos para superar a

doença, e outra parte, tais como os intelectuais médicos, buscam uma relação entre o

saber mítico e racional. Tal evidência pode ser observada através do mais racional dos

homens, Péricles, o qual no V séc, vai estabelecer uma relação complementar entre as

duas formas de pensamento. Podemos observar esta relação de complementaridade,

através do relato de Plutarco a respeito da vida de Perícles:

“Conta que Péricles, visitado por um amigo, durante a doença, mostrou-lhe um amuleto que uma das mulheres lhe haviam pendurado ao pescoço; dava a entender que ele devia estar bastante doente para se prestar a semelhantes fraquezas. “(Plutarco, Vidas paralelas, 58)

Esse episódio deixa transparecer que por mais integrados que estivessem ao

pensamento racional os membros da elite de uma sociedade, num momento de crise

social, tem como resultado seria a aproximação de crenças e práticas de magia.

Entendemos que tal aproximação das crenças míticas com o pensamento racional

para enfrentarem juntas o desconhecido definido pela morte.

BIBLIOGRAFIA

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