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Capítulo 7

CABO VERDE
NAS EXPOSIÇÕES COLONIAIS PORTUGUESAS

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Luís Rendall na Expo’34 no Porto
ijagós, balantas, mucancalas, landins e tantos outros coabitaram durante o Verão de 1934, no Porto, na “aldeia indígena” construída nos jardins do Palácio de Cristal, que acolheu a Exposição Colonial Portuguesa realizada naquele ano, numa espécie de ensaio para a mega-exposição do Mundo Português, de 1940. Cabo Verde também lá estava, representado por um grupo liderado por Luís Rendall, que incluía músicos e dançarinas da Boavista. Embora sem o apelo dos batuques e vestuário exótico com que outras representações coloniais fascinaram centenas de milhares de portugueses, o grupo cabo-verdiano foi uma das sensações da Expo. Uma recolha do que a imprensa portuguesa publicou de Maio a Outubro daquele ano dá conta desse êxito, que teve direito a fotografias nas primeiras páginas de jornais como O Comércio do Porto e Diário de Lisboa. Este último, sob o título “Chegaram hoje a Lisboa os indígenas caboverdeanos que vêm tomar parte na Exposição Colonial”, informa, a 23 de Junho, que chegou a bordo do navio Guiné o grupo de nove mulheres e 10 homens, que “vestem à europeia” e “falam português correctamente, mostrando um prazer vivo no convívio com os brancos”. “Quasi todos são artistas: as raparigas, bailarinas exímias que devem causar sensação com a sua característica morna e ainda em maxixes e sambas e dansas europeias; os homens, hábeis tocadores de cavaquinho, de violão, violoncelo e violino”, prossegue o DL. Após uma referência às formas esculturais que fazem a fama da formosura das mulheres cabo-verdianas, o texto destaca, entre os homens do grupo, a figura de Luiz Fernandes Rendall, “faroleiro em São Vicente de Cabo Verde, que nos fala com entusiasmo de Portugal: ‘Todos nós, nativos de Cabo Verde, temos um conhecimento se não perfeito, pelo menos elementar do nosso país. Sabemos o que Portugal tem feito pelas suas colónias...’”. Não falta o anedótico na descrição de uma volta do grupo pela Baixa Pombalina, antes de seguir para o Porto, quando uma das crioulas, “olhando os prédios da rua da Prata, não poude mesmo conter um comentário de espanto: – Como são altas as cubatas de Lisboa!...” Nessa mesma data é divulgada a notícia de que o escritor praiense Fausto Duarte (1903-1953), que estudara em Berlim e fora agrimensor na Guiné, tinha vencido, na categoria de ficção, o Concurso de Literatura Colonial, com Auá,
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uma “novela negra”, ficando em segundo lugar o tenente Henrique Galvão, director técnico da exposição do Porto, com Terras do Feitiço (contos). Cerca de dois meses mais tarde o mesmo jornal afirma, a 5 de Setembro, ter conhecimento de ter sido dirigido ao chefe do Governo um telegrama solicitando a apreensão de Auá. Duarte – que, entre outros conferencistas a falar sobre Cabo Verde, apresentou na exposição o tema “Da Literatura Colonial e da Morna de Cabo Verde” – foi ainda alvo de uma declaração, proferida por um dos participantes do Congresso de Antropologia Colonial, que decorreu na mesma altura, segundo a qual “os mestiços são seres inferiores, incapazes de produzir boas obras literárias”. É n’O Eco de Cabo Verde de 31 de Outubro que Fausto Duarte responde ao autor da frase, Luiz Chaves, na altura “conservador de um dos museus de Lisboa”, a quem recomenda, a concluir o seu artigo, que abra as janelas para arejar, “porque a naftalina tem uma certa influência na miopia”. É neste Verão de 1934 que o dirigível Zepelim é autorizado a sobrevoar Cabo Verde, assim como o hidroavião francês com correio para a América do Sul, que passa a aterrar na ilha de Santiago. A imprensa metropolitana da altura dá conta, ainda, de um projecto de colonização de Angola por cinco milhões de judeus, da morte no Brasil do cangaceiro Lampião, “conhecido como o mais terrível de todo o mundo”, mas nada diz sobre a “marcha da fome” do Capitão Ambrósio1 em São Vicente, ocorrida no dia 7 de Junho. Contudo, dois dias antes da revolta, o DL publicava um artigo de Nascimento Moura, major de artilharia, em que este afirma, sobre a situação de descalabro económico do arquipélago: “Temos um soberbo estudo da geologia de Cabo Verde e não sabemos captar as águas para as regas, que evitariam a morte e a agonia do povo cabo-verdiano, sobretudo de Barlavento, pela perda da navegação que tocava em São Vicente, facto este de que os seus habitantes não serão culpados. (...) É esta força imperial que urge criar (...) O contrário disto é a aventura, originária da rebeldia do mau estar nas colonias.” No início de Julho, O Comércio do Porto anuncia para Setembro o Dia de Cabo Verde na Exposição Colonial, que assinalará o “primeiro aniversário da assistência financeira estabelecida pelo actual ministro das colónias a Cabo Verde, para o seu apetrechamento económico”. ***
A chamada “Revolta do Capitão Ambrósio”, em S. Vicente, foi um levantamento popular com saques a armazéns e uma série de desordens que ocorreu em 1934 durante uma das graves secas/fomes no arquipélago. Ambrósio não era capitão, mas tomou essa designação porque de certa forma liderou os revoltosos, ou pelo menos ficou essa imagem. O facto foi retomado literariamente mais de uma vez, mas a obra mais conhecida é o poema Capitão Ambrósio, de Gabriel Mariano. 166
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oi a 24 de Junho de 1934 que o grupo cabo-verdiano de músicos e dançarinas da Boavista, sob a liderança de Luís Rendall, chegou ao Porto para participar da I Exposição Colonial, depois de desembarcarem na véspera em Lisboa. O Ultramar, quinzenário oficial da Expo’34, afirma na sua edição de 1 de Julho que nessa data já se encontravam no Palácio das Colónias os naturais de Cabo Verde. “Os músicos, exímios tocadores de violino, viola, violão e cavaquinho são: Pedro Oliveira Lima, António Pereira Fernandes, Luís Rendall, João Baptista da Silva Brito, Mário Mendonça, João Lopes e João Évora.”

O jornal enumera também as dançarinas e cantadeiras – Maria da Purificação Pinheiro, Maria Rodrigues Pereira, Vitória Santos Brito, Luísa Benvinda Santos e Maria Basília Ramos –, bem como os artesãos que irão mostrar as suas habilidades no evento: Manuel Gomes Leal, Ananias Gomes Pereira e João Pereira Varela, sirgueiros; João Mata, fabricante de artefactos de tartaruga; Francisco Veiga Semedo e Joana Mendes Moreno, tecelões; e Domingos Mendes Tavares, fabricante de chapéus. “Dos 19 naturais que constituem a representação de Cabo Verde, 17 sabem ler e escrever. As cantadeiras e dançarinas são naturais da Boavista, sendo da Prata (sic) e de Santiago, respectivamente, os músicos e os artífices”, diz o jornal. Considerando que como órgão oficial da exposição, este jornal teria acesso à lista da delegação cabo-verdiana, constituindo portanto uma fonte de informação credível quanto aos nomes dos participantes; mas, por outro lado, os dados do parágrafo anterior não convencem, pois parece estranho que Rendall formasse o grupo sem músicos da Boavista, quando lá residia na altura. Outros dados do Ultramar pecam por imprecisão e podem ter contribuído para a reprodução, ao longo dos anos, de informações incorrectas. Antes da chegada do grupo, uma notícia informa que entre os seus integrantes há “um cantador de mornas e sambas com disco gravado” – dado que não voltou a ser referido nem nesta nem em outras publicações, que cobriram o evento com minúcia, dando muitas vezes destaque ao grupo de Cabo Verde. Na mesma página, informa-se que o “quinteto” esperado no Porto foi formado em São Vicente pelo maestro Beleza e que o maestro “Remael” (Rendall, supõe-se) seria o responsável pela direcção dos bailados. Pode-se crer que B.Léza tenha estado na organização do grupo, mas, como se viu pela lista de nomes, não esteve no Porto.

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A Expo’34 foi inaugurada a 16 de Junho, pelo que a delegação cabo-verdiana não participou da abertura, tendo chegado uma semana depois. Mas já no dia 27 de Junho o DL, ao falar do pavilhão de Cabo Verde, “onde se vende ao público café daquela província ultramarina, com a respectiva aguardente de cana”, informa que todos os dias aí se exibe a orquestra típica, das 17h às 19h e das 22h às 24h. Em Julho, temos notícias de várias actuações da orquestra típica de Cabo Verde, a começar por num “chá dansante” a favor das missões religiosas ultramarinas, realizado no salão de festas do Palácio das Colónias, onde se reuniram “as melhores famílias do Porto”, segundo o DL. Várias actividades realizam-se no Cinema Balanta, no recinto da Expo. Um artigo assinado por Norberto Araújo, a 12 de Julho, no DL, descreve um sarau com danças e músicas das colónias, e o autor diz que se familiariza aos poucos “á monotonia dos batuques, á languidez de certos passos folclóricos, ás toadilhas líricas de Cabo Verde...” As mornas, “arrastadas e tristes, cantam-me ainda nos ouvidos, mas quasi como uma canção do Alentejo ou uma modinha brasileira...” A 17 desse mês é inaugurado o Teatro Gil Vicente, com a estreia da revista Viagem Maravilhosa, da Companhia Teatral Amélia Rey Colaço, com actores portugueses, uma vedeta brasileira e “alguns números de indígenas”. O Comércio do Porto descreve o espectáculo como uma “fantasia colonial”, enquanto o DL informa tratar-se de uma peça em 16 quadros, em que se incluem danças landins, balantas e bijagós e o grupo de músicos cabo-verdianos, “numa das suas mornas características”. Entretanto, lemos no DL, a representação colonial de Cabo Verde – que não se restringe ao grupo de artistas e artesãos, incluindo empresas e instituições locais – recebe uma proposta para a deslocação a Portugal “do famoso grupo daquela colónia que pratica diversos desportes, como o cricket, o rugby e o futebol.” Contudo, não se especifica a que clube se refere a notícia. O mesmo diário, a 26 de Agosto, informa que acaba de ser fundada em Londres “uma companhia destinada à importação de citrinas do nosso arquipélago”, acrescentando que no mês seguinte um director da empresa dirigir-se-á a Cabo Verde, “onde permanecerá durante a safra da laranja”. ***

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Além de palestras sobre aspectos económicos e culturais, o ponto alto foi “A Tarde de Cabo Verde”, descrita como “belo sarau de arte, espiritualismo, intelectualidade e regionalismo que foi a faceta mais luminosa da notável comemoração do Dia de Cabo Verde” e que “merece bem, pelo superior aspecto que tomou, pelo ambiente em que decorreu e pela numerosa e distinta assistência, a nota destacante duma referência especial”. O diário portuense, que a 14 de Setembro publica na primeira página várias fotos da tarde cabo-verdiana, sublinha que o seu êxito ultrapassou as expectativas mais optimistas, com o grande e lindo salão de festas do majestoso Palácio das Colónias a transbordar dos VIP da altura e de elegância e solenidade. Após a conferência de Fausto Duarte sobre a morna, a que já nos referimos, estudantes cabo-verdianos e metropolitanos declamaram poemas de Pedro Cardoso e Januário Leite e interpretaram temas de Eugénio Tavares e José Bernardo Alfama. “Luís Rendall e João de Brito, da Orquestra Típica da Exposição, fizeram-se ouvir, distintamente, num número de viola e violão. Vitória Santos Brito – a galante e simpática crioula da representação etnográfica caboverdeana na exposição – cantou, a solo, com sentimento, a Miss Floriana, a linda morna de Xavier Antunes (Beleza)” [sic], descreve O Comércio do Porto. “A Orquestra Típica de Cabo Verde, com a colaboração valiosa do académico Francisco da Silveira, que é um exímio violinista, executou com brilho as composições populares Independente e Manchê”, prossegue. Silveira (identificado como metropolitano que viveu longos anos em Cabo Verde) fez uma palestra sobre a evolução da música crioula, que o jornal reproduz, em que se revela bom conhecedor dos compositores da época, citando B.Léza e Henrique Lopes Tavares e anteriores. Na sua intervenção, Silveira lamenta que Cabo Verde não tenha ainda um músico de envergadura que não só recolhesse o seu disperso folclore mas que também promovesse a sua publicação, “para que a morna pudesse, como o fox, o maxixe, o tango e ultimamente a rumba, sair de Cabo Verde com todas as garantias de êxito”. “Depois – afirma – uma boa orquestra típica, bem organizada, com instrumentos típicos e de orquestra, faria, á semelhança das argentinas, brasileiras, americanas e cubanas, o resto.” Nessa altura, recorde-se, a portuguesa de nascimento Carmen Miranda já era a mulher mais famosa do Brasil, enquanto Carlos Gardel, no seu último ano de vida, era o sucesso do momento na Europa e nos Estados Unidos.
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Dia de Cabo Verde na Exposição Colonial Portuguesa de 1934, 13 de Setembro, mereceu muitas linhas elogiosas n’O Comércio do Porto, a publicação que mais detalhadamente descreveu as actividades desse evento.

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Passados alguns dias sobre o Dia de Cabo Verde, ocasião também para uma homenagem a Roberto Duarte Silva, tem lugar um “baile nacional”, com direito a serviço de canja. E a 22 de Setembro, pelo diário portuense, temos notícia do “papel importante e brilhante” do grupo liderado por Luís Rendall num documentário que está na altura a ser realizado sobre a exposição colonial. Chegamos por fim ao apoteótico encerramento da Expo’34, visitada ao longo dos seus três meses e meio por cerca de um milhão de portugueses e estrangeiros. No último dia, a multidão acotovela-se no alto da encosta com o Douro aos pés, abarrotando os espaços de lazer, os pavilhões temáticos, deslumbrando-se pela última vez nas “aldeias indígenas” com a beleza exótica de homens e mulheres africanos de maneira que beira o escândalo, como ao longo da exposição a imprensa por várias vezes apontou. Tal era a curiosidade por parte de “homens boçais, que se intrometem com as pretas, como até – o que é mais espantoso – de mulheres que rodeiam os pretos com uma atenção excessiva e deprimente para a raça branca”, como notara já em Junho o DL, que a direcção da Expo afixou à entrada um pedido para que os visitantes não praticassem “actos que os diminuam aos olhos dos indígenas ou que lhes mereçam reparos, para que o gentio leve para as suas terras uma impressão que dignifique a soberania portuguesa”. No dia seguinte ao encerramento, tem lugar o cortejo. Actores fantasiados de reis, navegadores e bandeirantes encenam a saga marítima e colonial portuguesa, na secção histórica, a que se segue a secção política, com colonos e os carros alegóricos das colónias. O primeiro desta secção é o de Cabo Verde. Os seus representantes não terão provavelmente embevecido o público como os atléticos landins e as esculturais bijagós, com os seus trajes coloridos e seus traços peculiares. Lembram, antes – como mostra uma fotografia no álbum comemorativo da Expo’34, publicado a seguir –, o estereótipo do malandro brasileiro que Walt Disney imortalizou na banda desenhada e no cinema através da figura de um papagaio. A caminhar ao lado do carro alegórico que representa uma embarcação ladeada de palmeiras, lá estão os cabo-verdianos, a desfilar por cerca de seis quilómetros pelas ruas do Porto apinhadas, vestindo calças brancas, camisola às riscas e chapéu de palha, tal qual o Zé Carioca, que seria criado pelo artista norte-americano em 1943. Mas antes disso, Portugal terá a ainda mais grandiosa Exposição do Mundo Português, em 1940, para a qual a do Porto foi uma espécie de ensaio. A participação artística de Cabo Verde nesse evento será através de um grupo musical liderado por B.Léza. Contudo, o destaque que este terá na imprensa não se compara com o que teve o grupo de 1934, como veremos a seguir.
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B.Léza na Exposição do Mundo Português
m 1940, B.Léza desloca-se a Portugal para participar na Exposição do Mundo Português, liderando um grupo musical de cinco elementos que incluiria Tchuff, Hilário, Adolfo Silva e mais um músico, que pode ter sido Djute (Justino da Cruz Évora, que virá a ser o pai da célebre Cesária...), Jack Baliza ou Lela Preciosa – o que já se escreveu sobre a formação é controverso, com diferentes nomes apontados. Ficamos sem saber com precisão a que instrumentos corresponde cada músico, mas podemos supor que B.Léza e Adolfo Silva (que mais tarde irá adoptar o nome artístico Eddy Moreno) ficassem com os violões, já que sempre estiveram associados a este instrumentos; Tchuff (Pedro Alcântara), recordado até hoje como o dono de uma bela voz que se destacava nas serenatas, seria naturalmente o cantor. “O grupo foi alojado numa casa que era a réplica exacta de uma casa rural de Cabo Verde, com a sua típica cobertura de colmo e seus dois oitões triangulares”, escreve Baltasar Lopes da Silva num artigo sobre B.Léza no VP, a 21 de Outubro de 1981. Contudo, é possível que a participação no evento não tenha sido pacífica, pois outra versão – do filho de B.Léza, Veladomiro da Cruz – diz que o compositor terá reagido vivamente à pretensão dos organizadores de alojar o grupo em palhotas, à semelhança do que haviam feito com os representantes das outras colónias, já que se tratava de criar um ambiente exótico no recinto do chamado Jardim Colonial da exposição. O DL, ao noticiar, a 9 de Junho, a ruidosa chegada dos “indígenas” da Guiné – que fizeram um batuque já durante a atracação do navio no cais do Jardim do Tabaco – informa que estes “foram conduzidos ao Jardim Colonial onde se instalaram nas cabanas que lhes estão reservadas”. Não é claro se um eventual conflito à chegada prejudica o grupo cabo-verdiano, mas é curioso o que revela a pesquisa nos três principais jornais portugueses que ao longo de seis meses cobriram o evento (República, Diário de Lisboa e O Século): todos dão grande destaque aos espectáculos de “batuque africano” (com “indígenas” da Guiné, Moçambique e Angola) e muito pouco se encontra sobre o grupo cabo-verdiano. Uma única linha no fim da notícia d’O Século, de 26 de Maio, que dá conta da chegada dos colonos metropolitanos convidados a visitar a exposição – em que se destaca o actor radicado na Praia Casimiro Tristão – informa que, no
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navio Angola, “chegaram também cinco músicos bronzeados, de Cabo Verde, destinados à secção colonial da Exposição do Mundo Português”. Os seus nomes jamais serão referidos nas poucas futuras alusões ao grupo. A 16 de Junho, numa longa reportagem sobre a secção colonial, em que descreve “aqui e ali as aldeias indígenas”, na altura habitada “por 138 naturais, entre os quais os reis do Congo”, o DL refere um jantar do capitão Henrique Galvão, responsável da organização, com os colaboradores artísticos da secção colonial. “Foram servidos manjares indígenas, tendo o grupo de Cabo Verde executado com os seus instrumentos musicas balantas e mandingas” (sic). Terá havido uma espécie de jam-session mindelo-guineense ou seria pura ignorância de um redactor que não distinguia as especificidades musicais das duas colónias? O que interessa para o caso é que estas foram das raras referências daqueles três periódicos ao grupo de músicos cabo-verdianos durante todo o período da exposição.2 As outras alusões aparecem n’O Século, ao longo do mês de Julho, e referem-se ao início dos serões de mornas na Cervejaria Indiana instalada no recinto, mas sempre de forma secundária à atracção principal que constituíram os batuques das várias etnias representadas. Nunca se indica os nomes dos músicos, os instrumentos tocados ou as músicas apresentadas. Sabendo-se que um grupo semelhante liderado por Luís Rendall tinha sido, seis anos antes, uma das maiores atracções da Exposição Colonial do Porto, como demonstra a imprensa da época, com o grupo de músicos e dançarinos a ter direito a entrevistas e fotografias em primeira página, como explicar que estes talentosos músicos passassem tão despercebidos? Seja como for, começa aqui a temporada de B.Léza em Portugal, que marcará a sua vida e a sua obra para sempre.

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Pesquisadas as publicações Diário de Lisboa (01.05.1940 a 06.12.1940); O Século (04.04.1940 a 06.12.1940); O Século Ilustrado (Abril/1940 a Dezembro/1940); República (01.05.1940 a 06.12.1940). 172

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Capítulo 7

Exposição Colonial do Porto: carro alegórico da representação de Cabo Verde no grupo “Expansão da Raça”, que incluía as outras colónias, no cortejo realizado a 11 de Agosto de 1934 pelas ruas do Porto.
ORIGEM DA IMAGEM: DESCONHECIDA

Grupo liderado por Luís Rendall (ao fundo), nos jardins do Palácio de Cristal, onde se realizou a Exposição Colonial do Porto, em 1934.

ORIGEM DA IMAGEM: DESCONHECIDA

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