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MILTON RIBEIRO DA SILVA FILHO

Na rua, na praça, na boate

uma etnografia da sociabilidade LGBT no circuito GLS de Belém-PA

Belém-PA

2012

MILTON RIBEIRO DA SILVA FILHO

Na rua, na praça, na boate

uma etnografia da sociabilidade LGBT no circuito GLS de Belém-PA

Dissertação apresentada como requisito para a obtenção do título de Mestre em Ciências Sociais, área de concentração em Antropologia, sob orientação da Profa. Dra. Carmem Izabel Rodrigues

Belém-PA

2012

Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP) (Biblioteca de Pós-Graduação do IFCH/UFPA, Belém-PA)

Silva Filho, Milton Ribeiro da Na rua, na praça, na boate: uma etnografia da sociabilidade LGBT no circuito GLS de Belém-PA / Milton Ribeiro da Silva Filho; orientadora, Carmem Izabel Rodrigues. - 2012.

Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal do Pará, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, Belém, 2012.

1. Homossexuais - Belém (PA).

2. Homossexuais

Orientação sexual. 4. Preconceitos. I. Título.

- Socialização - Belém (PA). 3.

CDD - 22. ed. 306.766098115

Para a minha família, Maria (mãe), Carol (irmã) e Cleber (irmão), Laura e Lorenna (sobrinhas).

Para tod@s @s interlocutoras/es deste trabalho, sem vocês seria difícil.

Para toda e qualquer pessoa dissidente.

TROCANDO EM MIÚDOS (AGRADECIMENTOS)

À minha orientadora, Carmem Izabel Rodrigues, com quem pude compartilhar conhecimento, principalmente antropológico, momentos de descontração e de seriedade ao longo pesquisa. As conversas, a paciência e a imensa generosidade contribuíram para que os dois anos não fossem difíceis. E por sempre acreditar que este trabalho seria possível.

À banca examinadora da dissertação, Isadora Lins França e Mônica Prates

Conrado, pelas considerações, críticas, avaliações e diálogos sempre oportunos. E à professora Diana Antonaz e ao professor Samuel Veissière que contribuíram muitíssimo, com comentários sempre pertinentes, na banca de qualificação do projeto de dissertação.

Ao querido amigo e companheiro de desventuras e campo, Ramon Reis, aconteceu quase tudo conosco nestes dois últimos anos. Foram vários os momentos bons, as risadas, os aborrecimentos, os filmes, as músicas, mas no final prevaleceu a amizade. Nem consigo mensurar a admiração e o respeito que sinto por você. Sucesso amigo!

Às amigas de graduação Barbara Silva, Dalila Antero, Daniele Igreja, Juliana Barroso, Sandra Palheta e Thaize Figueiredo pelos vários incentivos, risadas, fofocas, abraços, beijos, alegrias e tudo mais que amig@s podem fazer quando se encontram. Estaremos sempre junt@s.

À (antiga) coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, Denise Cardoso, que sempre esteve disposta a ajudar os discentes com palavras de incentivo e apoio institucional.

À coordenadora de área, Diana Antonaz, que acompanhou praticamente

toda a construção deste trabalho. Sou imensamente grato pela disponibilidade e generosidade incondicionais.

@s professor@s Carmem Izabel, Denise Cardoso, Diana Antonaz, Ernani Chaves, Maurício Costa e Mônica Conrado por terem compartilhado momentos de trocas em suas disciplinas, seja de conhecimentos, seja de afetos e incentivos.

@s amig@s da turma de mestrado, Abraão Moraes, Alexandre Silva, Ana Paula Vilhena, Ana Luiza Ferreira, Audrei Alencar, Breno Sales, Carlos Eduardo Chaves, Clélio Palheta, Daniele Igreja, Lena Claudia (e Sophia), Luciana Wilm, Ramon Reis, Rodrigo Cabral e Selma Brito, que sem dúvida, foi a melhor turma de Mestrado do PPGCS! As conversas, as risadas, as vozes, os almoços-terapia, as aulas isso tudo ficará gravado na memória, como um dos melhores momentos da minha vida.

Ao Grupo Orquídeas, Ramon Reis, Elane Pantoja, Denise Souza, Priscila Lima, José Luiz Franco, Osmar Reis, Diogo Monteiro, Paula Ramos, Robson Oliveira, Wagner Pinheiro, Vinny Monteiro e Alan Nina, e para os ex-membros Samuel Souza, Franci Quaresma, Lyah Correa e Ton Lobo, obrigado pela possibilidade de crescermos junt@s, por sempre terem uma palavra amiga, pelas risadas e por poder exercitar o bajubá.

@s professor@s coordenador@s do Pet/GT/CS, Samuel Sá, Denise Cardoso e Wilma Leitão, pelas muitas conversas ao longo desses anos, apoio sempre incondicional e generosidade. E @s petian@s de todas as gerações, Bruna Nepomuceno, Cassiano Simão, Edinelson Sena, Gaby Santos, João Fernando Lima, Kelly Gaia, Kirla Anderson, Luiz Eduardo Nascimento, Francisco Neto, Nilzi Cunha, Sammy Sales, Simone Silva e Willame Santos, pelos almoços no RU, risadas e muitos incentivos.

Às professoras Denise Cardoso e Mônica Conrado, pela oportunidade de fazer estágio-docente em Cultura Brasileira. À Edna Alencar que possibilitou meu acesso à Antropologia Política. E à Telma Amaral que em Tópicos Temáticos em Antropologia me fez revisitar várias leituras. Obrigado pela imensa generosidade de todas vocês.

À Sandra Mina pela amizade e pela transformação do resumo em abstract. À Rafael Alves pela amizade e palavras de conforto nos momentos de crise. À Emerson Fonseca e Raquel Alegre que mesmo distantes ainda habitam a casa da minha amizade.

@s amig@s que conquistei e que compartilham momentos da minha vida, nas tapiocarias e nos cinemas, Deylane Baia, Francisco Neto e Amadeu Lima.

@s pesquisador@s do Grupo NOSMULHERES, Mônica Conrado, Denise Cardoso, Lilian Sales, Alan Ribeiro, Julia Souza, Ramon Reis, Elane Pantoja e Sanmarie Rigaud, pela oportunidade de crescer junt@s, pelas músicas compartilhadas, pelos cinemas de graça, pelas alegrias e gargalhadas nesse quase dois anos.

@s pesquisador@s e estudantes do GEMP, principalmente à Carmem Izabel e Wilma Leitão, por mais essa troca, de experiências e de conhecimento.

@s amig@s paulistan@s responsáveis por apresentar à “Selva de Pedra”, Márcio Zamboni e Nrish Vallabah. E por me acolherem tão generosamente no apartamento 202, bloco F do CRUSP, Irana Magalhães e Diego Santos. Saudades das conversas entrando pela madrugada. Mas sem esquecer os queridíssimos, Bruno Puccineli, Mayã Martins, Gustavo Saggese e Thales Shu, com quem compartilhei momentos de loucura na Pauliceia Desvairada.

@s professor@s, Laura Moutinho, Heloísa Buarque de Almeida e Julio Simões, que me acolheram gentilmente em suas disciplinas na USP.

À Rosângela e ao Paulo, secretários do PPGCS, que resolviam todos e

quaisquer problemas. Sem o apoio de vocês essa trajetória seria complicada.

À minha família, principalmente, minha mãe Maria que está sempre

comigo, me incentivando, me abençoando, me presenteando, me acalentando com palavras e carinho incondicionais. Serei eternamente grato. Aos meus irmãos Carol e Cleber, pela amizade e carinho, e as minhas sobrinhas Laura e Lorenna, pelas quais sou apaixonado e que alegram os meus dias. E aos meus ti@s e prim@s que sempre me apoiaram e incentivaram, principalmente, Helio, Rosa, Mayara, Heitor, Helton, Helder e Maynara.

Ao CNPq, pela bolsa de mestrado.

) (

[Gallagher & Wilson] É, no fundo, a conclusão à qual você chega quando diz que devemos tentar torna-

nos gays e não nos contentar em reafirmar nossa identidade de gays. [Foucault] Sim, é isto. Nós não devemos descobrir que somos homossexuais. [Gallagher & Wilson] Nem descobrir o que isto queria dizer? [Foucault] Exatamente, nós devemos, antes, criar um modo de vida gay. Um tornar-se gay. [Gallagher & Wilson] E é algo sem limites? [Foucault] Sim, claramente.

) (

Michel Foucault em entrevista concedida à B. Gallagher e A. Wilson com o título “Sex, Power and the politics of identity” in The Advocate, nº 400, Aug. 7th, 1984.

SUMÁRIO

Resumo

9

Abstract

10

Imagens, Quadros e Foto

 

11

Introdução: Na rua, na praça, na boate

e na noite

12

Capítulo 1: Uma trajetória dissidente de pesquisa em Belém

16

1. Observações sobre tema e da construção da questão desta pesquisa

17

2. Sobre o quadro referencial e teórico

19

 

2.

1. Sociabilidade, circuito, e projeto

20

2.

2. Gênero e sexualidade

23

2.

3. Coming out, Teoria Queer, Homofobia

29

3. Do trabalho de campo e recorte empírico

33

4. Das dificuldades e estratégias em campo

38

Capítulo 2: Sexualidades dissidentes sob o signo da noite

41

1. Santa Maria de Belém do Grão-Pará: um breve histórico

42

2. Trajetória de pesquisa: da boate à academia

51

3. De bares, boates, saunas e cinema: Belém e o circuito GLS

54

4. Descrição dos bares e boates

 

61

 

4.

1. Malícia Hot

61

4.

2. Lux Dance Pub

65

4.

3. R4 Point

70

4.

4. Vênus

72

4.

5. Rainbow Club

74

4.

6. Hache Club

76

4.

7. Bar Veneza

78

4.

8. Bar Refúgio dos Anjos

80

5. (Ab)usos do “meio”: experiências online e off-line

82

Capítulo 3: Histórias de vida e processos outing

85

1. Digressões sobre as entrevistas e as/os interlocutoras/es

86

2. @s interlocutores/as: breve resumo das histórias de vida

93

 

2.

1. L. C.

93

2.

2. P. H.

97

2.

3. A.

101

2.

4. D.

105

2.

5. P.

109

2.

6. R.

112

2.

7. DE.

116

Reflexões finais

124

Referências

129

Apêndice

136

RESUMO

Na rua, na praça, na boate uma etnografia da sociabilidade LGBT no circuito GLS de Belém-PA

Esta dissertação é resultado da etnografia urbana realizada na cidade de Belém, Pará, onde propus tensionar os aspectos relacionados às questões de gênero e sexualidade no interior do circuito GLS. A partir da pesquisa de campo na mancha de sociabilidade e lazer, da observação direta e participante nos bares e boates e das entrevistas, com ênfase nas histórias de vida das/dos interlocutores/as, destaco os aspectos relacionados às formas de sociabilidade, modos e estilos de vida, “modos de viver”, (ab)usos do “meio”, relações com o “armário” e produção de subjetividades. Entendendo que o “armário” age com dispositivo na produção desses sujeitos dissidentes, seja na família, entre amigos e nos espaços destinados aos momentos de lazer. Tendo em vista essas questões, percebi que na luta por visibilidade, pessoas marcadas pelo estigma das sexualidades e gêneros não-(hetero)normativos tendem a manifestar-se através do grito/escândalo ou da reclusão total manter-se no armário, na reserva/invisibilidade , que servem como estratégias diferenciadas de proteção e defesa às manifestações de preconceito, discriminação e homo-lesbo-transfobia. No entanto, existem inúmeras maneiras de se construir e vivenciar gêneros e sexualidades dissidentes, seja na vida off-line partindo das redes de amizade, das vivências nos bares e boates, praças ou em qualquer lugar que possibilite a “pegação” –, seja online, através da internet.

Palavras-chave: Sociabilidade LGBT, Circuito GLS, Coming out em Belém.

ABSTRACT

In the street, in the park, in the nightclub ethnography of LGBT sociability in gay-friendly circuit of Belem-PA

This thesis is resulted from an urban ethnography carried out in the city of Belem, Pará, where I considered tensioning the aspects related to the questions of gender and sexuality in the inner side of the gay-friendly circuit. Departing from the field research in the spot of sociability and leisure, the participative and direct observation in bars and nightclubs and the interviews, with emphasis on stories of the lives of the interlocutors, I highlighted the aspects related to the forms of sociability, ways and styles of live, " ways of living" , (ab)uses of " the environment" , relations with "closet" and production of subjectivities. Understanding that "closet" plays a role as a device in the production of these dissident citizens, either in the family, between friends and in the spaces destined to the leisure moments. In view of these questions, I perceived that in the fight for visibility, people marked with stigma of sexuality and non (hetero) normative genders tend to manifest through shouting /scandals or the total reclusion - to maintain themselves in the closet, in the reserve/invisibility -, that serve as differentiated strategies of protection and self-defense to the manifestations of preconception, discrimination and homo-lesbo-transphobia. However, there are innumerable ways of building and living deeply dissident sexualities and genders, either in the off-line life- leaving the nets of friendships, the experiences in bars and nightclubs, parks or any place that makes possible " catching" -, either online, through the Internet.

Keyworks: LGBT sociability, Gay-friendly circuit, Coming out in Belém.

FOTO, IMAGENS E QUADROS

Foto

67

Imagem 1

42

Imagem 2

45

Imagem 3

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Imagem 4

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Imagem 12

80

Quadro 1

58

Quadro 2

60

Quadro 3

61

Quadro 4

61

INTRODUÇÃO

Na rua, na praça, na boate

e na noite

(

considerada um espaço heterossexual por excelência (NUNAN e JABLONSKI, p. 4).

frequentemente

)

a

rua

não

é

um

lugar

assexuado,

mas

é

Quando iniciei a pesquisa de campo que resultou nesta dissertação, ainda em 2010, não pensei que reformularia por tantas vezes os destinos deste trabalho, mas já tinha uma convicção: este ficaria com a marca de um tempo que será impossível reconstruir. Nem quando eu estiver com vários anos de trabalho de campo e contando com uma excelente memória será possível recordar de todas as pessoas com quem conversei, todas as conversas tidas ou todos os caminhos percorridos. Eu não tinha como interesse, fazer uma etnografia do circuito GLS de Belém, mas apenas tê-lo como espaço onde eu poderia fazer amigos/amigas e arranjar interlocutores para a pesquisa anterior, mas este surgiu como uma possibilidade que abracei. Porém, percebi que, assim como eu consegui ler e dialogar com as poucas fontes sobre homossexualidade em Belém, podia escrever esse trabalho que também poderá servir para remontar um passado, principalmente um passado ligado à vivência das homossexualidades. Assim, optei por não omitir os nomes dos lugares, apenas fazendo isso com as pessoas entrevistadas, por entender que esse dado não geraria nenhum tipo de ônus para os donos ou frequentadores. Também marquei nos mapas suas localizações, por entender que no futuro alguém poderá ter uma curiosidade capaz de ir atrás dessas casas/edificações. Ou apenas dos lugares onde elas estão localizadas hoje, haja vista a grande rapidez com que se abrem e fecham lugares comerciais nesta cidade. Passados os sufocos para explicar, quase como um mantra, o porquê de estar desenvolvendo pesquisa em bares e boates, que originou esta dissertação em todos os lugares em que eu estava e era indagado, seja na UFPA, em casa ou até mesmo nos bares e boates , agora é hora de marcá-la no tempo e no lugar de destino. O tempo: o ano de 2012. O lugar: o Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFPA.

12

Pois para cada pergunta sobre o trabalho que desenvolvia, via em retribuição um sorriso malicioso esboçado no rosto das pessoas, como se a pesquisa fosse um pretexto para eu “cair na noite” todos os finais de semana. Não sendo possível que eles mensurassem a dimensão dos conflitos pelos quais eu passava naquele momento, como no fato de consumir ou não bebida alcoólica durante o campo ou na delimitação frágil de quando eu estava fazendo pesquisa e quando eu estava me divertindo. Olhando o resultado disso tudo, vejo que fiz os dois, pois ao mesmo tempo em que era observador era participante e vice-versa. Entretanto, quando visualizei o encontro etnográfico puro e simples nos moldes descritos por Roberto Cardoso de Oliveira (1998) , a partir da relação assimétrica estabelecida entre antropólogo e “nativo”, me vi em processo de constante reflexão. Pois sendo eu, também, nativo nesta relação, podia e tinha como dever estabelecer uma relação de igualdade entre minhas/meus interlocutoras/es e mim. Até porque esta relação é permeada de códigos a serem decifrados e um “nativo” como eu estaria mais apto a horizontalizar a relação, mas sempre lembrando que esta relação não se dará harmonicamente, porque a figura da autoridade, mesmo que o pesquisador seja nativo, far- se-á presente, como nos lembra James Clifford (1998). Como parte desta reflexão, Eduardo Viveiros de Castro (2002, p. 113-114) diz que o “antropólogo é alguém que discorre sobre o discurso de um ‘nativo’” e considera como importante que

o discurso do antropólogo (o ‘observador’) estabeleça uma certa relação com o

discurso do nativo (o ‘observado’). Essa relação é uma relação de sentido (

relação de conhecimento. Mas o conhecimento antropológico é imediatamente uma relação social, pois é o efeito das relações que constituem reciprocamente o sujeito que conhece e o sujeito que ele conhece, e a causa de uma transformação (toda relação é uma transformação) na constituição relacional de ambos.

uma

) (

)

No caso desta pesquisa, a transformação que está causando nos interlocutores é um pouco difícil de mensurar. No entanto, as possibilidades de reflexão que se tem descortinado fazem com que eu pense nas minhas condições: de pesquisador negro e de pesquisador gay. Sendo que a primeira condição é a que me tem feito refletir mais

13

detidamente nos últimos anos, enquanto que a segunda, mesmo com alguns percalços, se mostra mais resolvida, pelo menos atualmente 1 . Assim sendo, minha presença em campo era ininteligível, em determinados momentos, para a maioria das pessoas, a partir de minhas observações: primeiro, por eu ser negro e estar em ambientes de sociabilidade onde há uma predominância de indivíduos brancos; e segundo, por me apresentar[em] como estudante de mestrado, ou seja, em um nível “superior” à maioria dos frequentadores, que possuem apenas o ensino fundamental ou médio, graduandos e/ou graduados. Por fim, os aspectos que nos “igualam” seriam apenas a minha prática homoerótica e o modo de vestir, mas até isso renderia uma série de considerações. Refletindo a partir de Foucault, evidencio que

Nós devemos ainda dar um passo adiante, penso eu. Eu acredito

que um dos fatores de estabilização será a criação de novas formas de vida, de relações, de amizades nas sociedades, a arte, a cultura de novas formas que se instaurassem por meio de nossas escolhas sexuais, éticas e políticas. Devemos não somente nos defender, mas também nos afirmar, e nos afirmar não somente enquanto identidades, mas enquanto força criativa. (FOUCAULT, 2010, p. 2)

) (

Sobre os capítulos

No primeiro capítulo, procuro demonstrar o percurso da pesquisa desde o momento da escolha do tema até a escrita desta dissertação. Para isso, estabeleço quais foram os marcos referenciais e teóricos que ajudaram na construção do problema de pesquisa, especialmente os trabalhos sócio-antropológicos sobre gênero e sexualidade no Brasil. Por fim, esboço um breve resumo sobre o recorte empírico e as dificuldades e estratégias em campo. No segundo capítulo, apresento a cidade de Belém, numa breve reconstrução histórica para apresentar a atual mancha de lazer e sociabilidade, com ênfase no circuito GLS. Os diálogos com outros trabalhos serviram de base para que eu pensasse na mediação

1 Chamo atenção para isso, a partir da consideração de Patricia Collins (1990, p. 222) sobre a rejeição de abordagens aditivas da opressão quando afirma que os marcadores sociais da diferença (classe, gênero, sexualidade e raça) são parte de sistemas distintos de opressão e como parte de uma estrutura global de dominação. E em como a aproximação com a teoria feminista negra habilita as pessoas a resistir à dominação (p. 227). Ver também Anthias (1998) sobre a articulação entre gênero, raça e outros eixos de diferenciação.

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entre mercado e “gueto homossexual” no Brasil para, então, articular como isto está posto em Belém. Com isso, apresento o circuito e faço uma descrição dos espaços pesquisados. Finalmente, evidencio os (ab)usos do “meio” a partir das vivências online e off-line. No terceiro capítulo, apresento o quadro de interlocutoras/es com o objetivo de fornecer um panorama do processo outing. Porém, em primeiro lugar, far-se-á necessária uma reflexão sobre a técnica de história de vida. Num segundo momento, apresento, a partir de um resumo global, os/as interlocutores/as desta pesquisa. E, finalmente, o processo outing será objeto de análise.

15

CAPÍTULO 1

Uma pesquisa dissidente em Belém

Esta dissertação, baseada na etnografia urbana desenvolvida na cidade de Belém, nos anos de 2010 e 2011, insere-se nos atuais estudos de/sobre gênero e sexualidade. O objetivo deste trabalho é a sociabilidade estabelecida entre lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT) no interior do circuito 2 GLS (de gays, lésbicas e simpatizantes) da capital paraense. Com questões relativas às construções identitárias, os processos outing e os “modos de viver” os gêneros e sexualidades dissidentes face ao preconceito e discriminação sofridas foram entrevistad@s sete interlocutor@s. O recorte empírico inclui mulheres e homens LGBTs com idades entre 22 e 30 anos e residentes da Região Metropolitana de Belém. O texto que aqui apresento só foi possível a partir da experiência de campo, dentro de uma perspectiva etnográfica, no campo da Antropologia Urbana e nos atuais debates sobre Gênero e Sexualidade, nos espaços de sociabilidade LGBT, com inserção principalmente nos bares e boates do circuito GLS da capital paraense. As entrevistas somam um total de sete, distribuídas da seguinte maneira: uma mulher transexual, uma mulher lésbica, um homem bissexual e quatro homens gays; com o intuito de abranger a maior diversidade sócio-cultural possível. Estas entrevistas tiveram como foco principal a análise das histórias de vida, com referência às trajetórias afetivo-sexuais e os trajetos desenvolvidos no interior do circuito na cidade. Neste capítulo, reconstituo o processo de definição do objeto e o desenho metodológico desta pesquisa, assim como procuro evidenciar as abordagens teóricas pelas quais me orientei e refleti sobre o processo da pesquisa de campo. Durante o trabalho de campo e no processo de construção dessa etnografia as dificuldades e as estratégias adotadas foram imprescindíveis para pensar a posição deste pesquisador.

2 Circuito tomado “a partir da intervenção investigativa do pesquisador e não como uma realidade detentora de um significado ‘lógico’ preexistente à observação. A experiência dos atores no circuito só se torna inteligível ao tomarmos como parâmetro a intervenção do pesquisador e sua relação com a vivência em campo” (COSTA, 2009, p. 19).

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1. Observações sobre a escolha do tema

Uma das propostas deste trabalho é tensionar os aspectos relacionados às questões de gênero e sexualidade de Belém do Pará, a partir de uma etnografia sobre a sociabilidade de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT 3 ) nos bares e boates no interior do circuito GLS 4 da capital paraense. Com isso, pretendo oferecer a oportunidade de que lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais da capital sejam (re)conhecid@s 5 a partir de suas práticas dissidentes, que se analisem e sejam difundidas as diversas manifestações no modo de ser ou mais precisamente nos “modos de viver” as homossexualidades, as bissexualidades, as heterossexualidades e as diversidades ligadas às identidades de gênero, ou seja, para que se conheçam os modos e estilos de vida experimentados pelos sujeitos interlocutores desta pesquisa (Foucault, 2001a). Os espaços de sociabilidades escolhidos para esta pesquisa fazem parte do que considero como sendo o circuito GLS de Belém, tendo em vista a existência de bares, boates, saunas e cinema concentrados nos bairros centrais da cidade (exemplo do Reduto e Nazaré, mas que acabam por se estender em direção aos bairros mais afastados do centro como São Brás, Guamá, Cremação e Marambaia). Esses espaços são destinados à frequência do público LGBT e serviu como ponto de referência para a seleção de interlocutores/as desta pesquisa, com a possibilidade de identificar os gostos e estilos de vida determinada parcela da população LGBT, assim como tentar compreender como eles/elas constroem seus trajetos a partir das possibilidades que se apresentam.

3 Na plenária final da I Conferência Nacional LGBT, realizada em junho de 2008, em Brasília-DF, votou-se pela mudança na ordem das iniciais da sigla pela qual o movimento era conhecido GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais) com o propósito de contemplar a questão de gênero, partindo do entendimento de que as lésbicas sofrem uma dupla invisibilidade, por conta de seu gênero e da orientação sexual.

4 De Gay, Lésbica e Simpatizante e refere-se basicamente ao mercado direcionado a esse público e difere da sigla LGBT (de Lésbica, Gay, Bissexual, Travesti e Transexual) que é característica da comunidade e/ou população e que tem conotação política maior.

5 A utilização do símbolo @” como desinência de gênero, em oposição ao binarismo (que privilegia o masculino) presente na norma culta da língua brasileira, tem como proposta dar visibilidade as categorias de gênero invisibilizadas (de mulheres, travestis, transexuais) histórica e socialmente, pois na tentativa de dar “vez” e “voz” @s sujeit@s preferiu-se por esta configuração; pretendida no texto todo.

17

A partir do diálogo com as/os interlocutor@s, além da perspectiva do trânsito destas pessoas pelo circuito GLS de Belém, formando assim os seus próprios trajetos, anseio por analisar o coming out 6 desses jovens, entendendo que o “armário” age como um dispositivo na produção de sujeitos LGBTs, mesmo entre aqueles/aquelas que se mantêm no “armário”. Após os momentos descritos anteriormente, a etnografia do circuito e a análise das trajetórias e (re)construções das histórias de vida destes objetivando uma reflexão a partir das interseções entre as relações de gênero e sexualidade. Portanto, será de extrema necessidade a compreensão das estruturas discursivas que permitem essa “saída do armário”, pois a “ética do grito e dos bas fonds7 , em contraposição à “ética da reserva e da invisibilidade” 8 , possibilita que esses sujeitos sejam inseridos dentro da heteronormatividade, mas sempre com a possibilidade do escape às convenções estabelecidas para e entre os gêneros. Sobre a heteronormatividade, Richard Miskolci e Larissa Pelúcio (2008, p. 16)

dizem que

Hoje, o conceito de heteronormatividade sintetiza o conjunto de normas prescritas, mesmo que não explicitadas, que marcam toda a ordem social e não apenas no que concerne à escolha de parceiro amoroso; alude, também, ao conjunto de instituições, estruturais de compreensão e orientação prática que se apóiam na

É toda esta ordem social que mostra como no par

heterossexualidade (

heterossexualidade/homossexualidade não há simetria, pois engloba díades como norma/desvio, regra/exceção, centro/margem. A heterossexualidade só pode existir fixando o periférico e, a partir dele, se definindo como central. Assim, os espaços das bordas não poderiam ser linhas de fuga, mas apenas limites fixados

pela norma, desqualificando os que ali são alocados.

)

E tentando driblar essas díades, algumas pessoas com sexualidades e/ou gêneros dissidentes agem, como as travestis pesquisadas por Larissa Pelúcio (2007) a partir da etnografia das manchas travestis em São Paulo, através do grito ou escândalo que servem como estratégia de defesa, pois el@s pretendem “estender o espaço de sua própria abjeção àqueles que comumente as recusam, humilham e oprimem 9 ”.

6 Expressão anglo-saxônica sinônima da brasileira “sair do armário”.

7 cf. Paiva (2007, p. 24).

8 Idem, Ibidem.

9 Implica, em seu desdobramento, no que ela vai chamar de “reterritorialização da vergonha” que “tem um sentido transgressivo, uma vez que a travesti usa o poder de ‘contaminação’ para implicar o ‘bom cidadão’ supostamente ‘de bem’, ‘limpo’, ‘másculo’” (p. 175).

18

Na contramão do exposto acima, as pessoas submetidas à “ética da reserva e da invisibilidade”, que continua limitando e silenciando a livre orientação e expressão das sexualidades e gêneros dissidentes, numa relação de opressão também conferida às mulheres , padecerão com os crimes de lesbofobia/transfobia/homofobia 10 e exemplificarão a não aceitação das pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais pela sociedade heterocentrada. Pois, de acordo com Miskolci e Pelúcio

O negócio do desejo, em terras brasileiras, torna até mesmo os homo-orientados pessoas quase sempre homofóbicas diferindo-se apenas pelo grau dessa recusa que não se dirige exatamente à homossexualidade, mas antes à sua visibilidade. Em suma, a homofobia como dispositivo regulador das relações eróticas tem como alvo qualquer manifestação que ameace a impressão de que a heterossexualidade é universal, natural e única (2008, p. 13-14).

Em vista da breve exposição, esta dissertação tem como proposta não somente descrever, a partir de uma etnografia, o circuito de lazer GLS da cidade Belém, os trajetos, trajetórias e histórias de vida de cada interlocutor/a desta pesquisa. Além de entender como as performances de gênero e orientações de sexualidade podem ser fundamentais no estabelecimento de formas de sociabilidades.

2. Sobre o quadro referencial e teórico

Para que essa etnografia resultasse num diálogo entre as categorias antropológicas e “nativas” fez-se necessário fundamentar, a partir de uma escolha teórico- metodológica, os conceitos/noções e autores balizadores deste trabalho, uma vez que a intenção seja problematizar e desconstruir conceitos estabilizantes, que permitam outros olhares acerca das práticas de sociabilidade homoeróticas, isto é, um rompimento com as abordagens normativas sobre o ethos LGBT em Belém. Para isso, dividirei as perspectivas teórico-conceituais em sessões, a saber:

10 Neologismos que significam “aversão à lesbianidade, transexualidade e travestilidade, e homossexualidade”, pois não é somente contra @s indivídu@s homossexuais que @s “homofóbic@s” se manifestam, mas a tudo que comporta essas orientações sexuais e performances de gênero: os trejeitos, a fala, o comportamento, etc.

19

2.1. Sociabilidade, circuito e projeto

Na discussão sobre sociabilidade LGBT em Belém utilizo a perspectiva de Georg Simmel (1983) que compreende a sociabilidade como forma de sociação, cujo fim é a própria relação, ou seja, os laços estabelecidos entre os indivíduos têm uma razão em si mesmos, visto que em suas manifestações, a sociabilidade não teria propósitos objetivos, conteúdo ou resultados exteriores. De acordo com ele,

a sociedade propriamente dita é o estar com o outro, para um outro, contra

um outro que, através dos veículos, dos impulsos ou dos propósitos, forma e desenvolve os conteúdos e os interesses individuais. As formas nas quais resulta esse processo ganham vida própria. São liberadas de todos os laços com os

) (

conteúdos; existem por si mesmas e pelo fascínio que difundem pela própria liberação desses laços (p. 168).

Seu alvo é o sucesso do momento sociável. Então, Simmel formula o seguinte princípio para a sociabilidade: “cada indivíduo deve oferecer o máximo de valores sociais (de alegria, de realce, de vivacidade, etc.) compatível com o máximo de valores que o próprio indivíduo recebe” (1983, p. 172). Assim, a partir de Simmel (1983), considero que estamos num processo de redefinição das formas de sociabilidade, que se tornaram fluídas, abertas e movediças, diferentes das formas tradicionais que eram mais estáveis. Sendo que hoje as pessoas vivenciam diversas experiências, podendo pertencer a uma ou mais coletividades, simultaneamente ou não. Onde a vida na metrópole possibilita um afastamento dos indivíduos/pessoas, como acentua Simmel (1979), exemplificado na atitude blasé, especificando que não podemos interagir emocionalmente com todas as pessoas, caracterizando o que denomino como “ética da reserva e da invisibilidade”, utilizo a noção simmeliana de “reserva psicológica” para caracterizar o ethos relacional homossexual, que Paiva (2007) resume como uma

recusa de evidência plena, mediante uma rarefação dos regimes de visibilidade

do relacionamento e pelo uso de estratégias de restrição de expressividade, que garantem uma “margem” de reserva/distância psicológica, que protegem os

] [

20

relacionamentos de uma visibilidade ostensiva e que impõem um regime de enunciabilidade bastante favorável (PAIVA, 2007, p. 24 nota de rodapé 1).

No entanto, há o aparecimento, na cena urbana, com suas “fronteiras internas

bem marcadas”, de indivíduos que brinquem com o perigo, que utilizem a ética do grito ou

do bas fonds e que assumam “papéis que podem ser alvos de violenta discriminação em

certos domínios, mas que encontram situações e lugares onde possam ser desempenhados

com relativa segurança”, conforme Gilberto Velho e Luiz Antônio Machado (1977, p. 80).

Na etnografia sobre um network homossexual e homossocial carioca, Carmem Dora Guimarães (2004) diz assim:

Outra possibilidade oferecida pela metrópole é a oferta de espaços sociais

legítimos e exclusivos (lugares públicos, como faixas de praia, bares, saunas,

boates) para uma clientela de identidade sociossexual estigmatizada ( não há maiores sanções ou proibições (p. 65).

nos quais

)

Ou seja, viver uma “sexualidade deteriorada” na cidade é possível porque

existem lugares de segurança, lugares onde essas sexualidades possam ser vividas e

visibilizadas sem constrangimentos. E ainda mais, é possível porque existem pessoas que

compartilham das mesmas experiências, com relação à sexualidade

Esses “espaços de segurança” compõem o circuito GLS da cidade, onde englobo

tanto os espaços dos bares, boates e afins. Atualmente, o centro do circuito é o bairro do

Reduto, por que exibe

) (

equipamentos, e espaços que não mantêm entre si uma relação de contigüidade espacial, sendo reconhecido em seu conjunto pelos usuários habituais (MAGNANI, 2002, p. 23).

uma prática ou a oferta de determinado serviço por meio de estabelecimentos,

Acreditando, ainda, na distensão do conceito de circuito, destaco a etnografia do

circuito bregueiro de Belém produzida por Antônio Maurício Costa (2009), onde este

visualiza, além do aspecto material do circuito (com as casas de festa e a apresentação das

aparelhagens), quando da oferta de um “serviço fundamentalmente voltado para o lazer”, o

21

(

)

universo de sociabilidade que é a festa em si, marcada por códigos (saber

dançar, reconhecer as músicas, estar familiarizado com determinada cada de festa, fazer parte de um fã-clube de aparelhagem, etc.), encontros e comunicação (p. 18).

E como parte dos deslocamentos dentro do circuito, considero ser importante observar os trajetos constituídos pelos interlocutores desta pesquisa, tendo em vista a escolha que estes sujeitos fazem durante o processo outing de espaços de sociabilidade que possibilitem visibilidade e relativa proteção de suas orientações de gênero e sexual. Sendo assim, a categoria analítica será vista sob a perspectiva dos “fluxos recorrentes no espaço mais abrangente da cidade e no interior das manchas 11 urbanas” (MAGNANI, 2002, p. 23). Um passo importante na visualização das escolhas desses trajetos no interior do circuito GLS, será dado a partir das (re)construções dos projetos pessoais, que cada um dos interlocutores construiu para si, de acordo com o campo de possibilidades que se apresenta ao longo de suas trajetórias (VELHO, 1989, 2003, 2008), com base na perspectiva metodológica de (re)construção de história de vida (BOURDIEU, 1986; DEBERT, 2004 [1986]; PISCITELLI, 1993). A sexualidade e a identidade de gênero no processo outing precisam ser “negociadas” e/ou “agenciadas”, seja na casa ou na rua 12 , no âmbito do público e do privado, levando em consideração os espaços de interseção entre as duas categorias e os dois conceitos 13 . Refiro-me a esse aspecto por ter percebido em campo a referência que se faz ao termo êmico “meio 14 ”, ou seja, pertencer ao “meio” é usufruir do circuito GLS constituído em Belém. Podendo inferir que as três categorias/conceitos, casa/privado, rua/público e meio, possuem fronteiras fluídas e movediças, pois são espaços discursivos,

11 Não pretendo aqui me exceder na explicação sobre as categorias de análise proposta pelo Magnani (2002), mas para fins de explicação a mancha é “sempre aglutinada em torno de um ou mais estabelecimentos, apresenta uma implantação mais estável tanto na paisagem como no imaginário. As atividades que oferece e as práticas que propicia são o resultado de uma multiplicidade de relações entre equipamentos, edificações e vias de acesso, o que garante uma maior continuidade, transformando-a, assim, em ponto de referência físico, visível e público para um número mais amplo de usuários” (p. 23). Assim sendo, o trajeto ligaria manchas, por meio dos deslocamentos, nos contextos das cidades. 12 Categorias damattianas amplamente referendadas na constituição dos espaços antagonicamente construídos: público e privado; mas que, também, já foram amplamente discutidos: o que possibilitou visões acerca da casa como um espaço público também, exemplo disso é a sala, espaço considerado como o mais público dos espaços restantes da casa.

13 Magnani (1998 e 2002) chamou de “pedaço”.

14 Entre os LGBTs é comum a referência ao “meio”, muito mais do que ao “pedaço”; nas décadas de 1970 e 1980 o termo “gueto” assumiu descritivamente os lugares de sociabilidade GLS.

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onde os “dispositivos de sexualidade” acharão espaços viáveis para agir na configuração de uma sociedade disciplinada e regulada (FOUCAULT, 1997). Na análise que faz de um bairro de Belém, o Jurunas, Carmem Rodrigues (2008b, p. 273) entende que a partir da sociabilidade festiva e do “grande mercado de trocas de bens materiais e simbólicos, um espaço de circulação de pessoas, saberes, dádivas e dívidas, enfim, um espaço de circulação de capital social e simbólico” os sujeitos ribeirinhos (re)criam possibilidades de sobrevivência e estabelecimento na cidade, assim como da “apropriação de um espaço próprio, um lugar de sentido e fonte de identidade” onde articulam um “conjunto de práticas que fazem parte de uma agência cabocla para conquistar a cidade” (RODRIGUES, 2008a, p. 107). Consigo, tendo a visão acima como referência, perceber que os sujeitos do circuito GLS utilizam de diferentes agências para a diluição/ruptura do “meio” utilizando a fronteira como espaço de transgressão, de confusão que possibilite a criação, a criatividade 15 , tornando o indivíduo limítrofe em simpatizante para assim torná-lo suspeito, como aponta João Silvério Trevisan (2000). Esse caráter lúdico e artístico da sociabilidade pode ser encontrado no circuito GLS de Belém.

2.2. Gênero e sexualidade

Ao propor uma desconstrução da categoria gênero, Joan Scott (1990) afirma que o gênero deve ser visto como categoria analítica e que, quando aplicada a qualquer objeto, resulta em uma forma particular de abordagem. Entretanto, existem formas múltiplas de compreensão desta categoria, mas faz-se urgente considerarmos, como horizonte metodológico, as análises que implodam as construções hegemônicas, permitindo identificar o sujeito parcialmente, sem categorias estáveis e fechadas que não possibilitem a transgressão das construções sócio-culturais. Assim, o antropólogo português Miguel Vale de Almeida (2000), ao investigar as questões de masculinidade em Portugal, diz que existem modos distintos de produção da identidade masculina e suas relações entre os gêneros. Ele afirma que a partir da

15 Um exemplo desta criatividade está no uso e abusos do bajubá: gíria urbana utilizada pel@s LGBTs no intuito de driblar @s “de fora”, serve como código linguístico capaz de congregar @s “de dentro”, ou seja, tod@ e qualquer indivíduo dissidente. Sobre o assunto ver Silva Filho (2010).

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classificação a hegemonia masculinista se evidenciará, sendo instrumentalizada a partir do processo ideológico que legitima a dominação do masculino sobre o feminino. Judith Butler (2003) nos ajuda a compreender o que apontamos aqui como heteronormatividade ao denunciar a ficção da binaridade do sexo, macho e fêmea, que aponta para um determinismo biológico (pênis-macho-homem/vagina-fêmea-mulher) e o mito da completude dos sexos. Esse mito da completude natural dos sexos masculino e feminino estruturaria como lugares legítimos em nossa sociedade apenas os de homem heterossexual (viril, forte e ativo) e o de mulher heterossexual (delicada, frágil e passiva), numa relação de completude unicamente possível entre dois sujeitos de sexos diferentes. Sendo assim, a proposta conceitual de performatividade de gênero será útil, visto que propõe a fluidez dos jogos de poder que inscrevem, prescrevem e regulam lugares e pretendem a não fixidez de construções identitárias, assim como dos dispositivos de produção de sujeitos LGBT, de acordo com Judith Butler (2003). Assim, as sexualidades (hetero, homo e bi) e as identidades de gênero (mulher, homem, transexual, travesti, etc.) assumem características diversas, haja vista que nem sempre estão em consonância com o estabelecido, ou seja, homens e mulheres (heterossexuais ou não) nem sempre são regulados pelos padrões ou prescrições culturais de gênero (SCOTT, 1990). Fabíola Rohden (2003) analisa as perspectivas médicas que engendraram uma diferenciação entre os sexos, construídas não só com base nas premissas biológicas, mas como resultado da percepção social sobre as mulheres, principalmente; quando se tratou de uma diferenciação crucial, a reprodução foi destacada como a principal característica; no século XIX, os textos aparecem marcando o caráter natural como o responsável pela diferença entre homens e mulheres. Assim, Rohden (2003) define algumas circunstâncias que fizeram com que o modelo de sexo único, atributo dos gregos, fosse renegociado a partir do Renascimento, surgindo daí dois sexos distintos; para dar vazão à argumentação, diz que os novos contextos sociais e culturais foram determinantes para que a nova visão se estabelecesse, sendo que a ciência (e em particular, a medicina) respaldaria esse viés ideológico renascentista, mas sem perder de vista o direcionamento moral e valorativo. Porém, outra perspectiva, entre os séculos XVIII e XX, fazia-se presente: a ideia de que nos corpos de cada indivíduos estariam,

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dicotomicamente, presentes traços masculinos (representado pela razão e inteligência) e femininos (representado pela paixão e emoção). Assim, várias teorias estariam sendo desenvolvidas a fim de pensar o corpo humano, mas já no século XIX as fronteiras deixam de ser tão permeáveis. Portanto, considerações acerca do caráter constitutivo dos gêneros começariam a ganhar fôlego, haja vista que faziam parte tanto de uma demanda política quanto de uma necessidade de resolver tensões internas às ciências médicas. Ao concluir, explicita que o debate feito, àquela época, e que permanece latente na atualidade, sobre o par de opostos cultura e natureza, caminhavam como possibilidade, na ideia iluminista de considerar as relações entre homens e mulheres como algo universal e que, portanto, maquiariam as variações historicamente construídas. Na tentativa de entender a urgência dos estudos sobre sexualidade, Marques Filho e Camargo (2008) dizem que foi “no final do século XIX, *que as+ questões relativas à sexualidade passa[ram] a ocupar espaço significativo na discussão sobre a constituição do sujeito moderno”, especialmente

as questões referentes ao corpo, ao desejo, ao gênero e à identidade e,

sobretudo, a relação entre gênero e sociedade, de modo a abordar os diversos aspectos, tanto positivos quanto negativos, dessa relação extremamente conflituosa e tensa, na qual verificamos um reflexo de preconceitos enraizados em nossa cultura (MARQUES FILHO e CAMARGO, 2008, p. 79).

[ ]

E mesmo que, no século XX, a provocação estabelecida pelos “movimentos de contestação, de liberação sexual, do surgimento de grupos de direitos humanos” tenha conduzido ao fortalecimento desses estudos e, por conseguinte, a uma “maior visibilidade dos estudos sobre gênero e sexualidade, ampliando, dessa forma, o campo de atuação e de subversão da norma heterossexual vigente” (Idem, Ibidem), os homossexuais enfrentam, ainda, uma certa invisibilidade por parte da sociedade heterossexista, que os desloca para a margem, tornando-os vítimas de uma “forma particular de dominação simbólica”, conforme nos demonstra Bourdieu (2007). Guacira Louro (2001, p. 544) assim diz:

O discurso político e teórico que produz a representação ‘positiva’ da homossexualidade também exerce, é claro, um efeito regulador e disciplinador. Ao afirmar uma posição-de-sujeito, supõe, necessariamente, o estabelecimento de

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seus contornos, seus limites, suas possibilidades e restrições. Nesse discurso, é a escolha do objeto amoroso que define a identidade sexual e, sendo assim, a identidade gay ou lésbica assenta-se na preferência em manter relações sexuais com alguém do mesmo sexo.

Como parte deste conflito, que se desloca da periferia para o centro entendendo aqui a periferia como a parte mais ampla na expressão da sexualidade (ou a parte normativa desta, ou seja, a “heterossexualidade compulsória”) e o centro como a subjetividade sexual (expressada, também, pela orientação sexual) as representações sociais de senso comum acabam por serem expressas através do binarismo:

natureza/normalidade em oposição a uma anti-natureza/anormalidade, ou seja, haveria indivíduos “normais” e “anormais” dentro da norma social vigente, de acordo com as reflexões de Foucault (2001b). Entretanto, as “sexualidades desviantes” – que fogem à regra desse tipo de configuração – acabam ressignificando e subvertendo lógicas “inteligíveis” de se pensar a sexualidade humana, não “armazenando” no processo de subjetivação traços de “normalidade” – desligando identidade de gênero de orientação sexual e, estas, da conduta sexual e do objeto de desejo, como diria Butler (2003). Historicamente, é preciso reconhecer que a perspectiva da valorização da diversidade sexual tem sua origem particularmente na década de 1960, mais precisamente a partir da consolidação do movimento feminista que promoveu um exame crítico e tomada de posição diante das dissimetrias sociais baseadas na diferenciação sexual e dos movimentos gay e lésbico que, ao lutar por sua visibilidade, exigiram novas reflexões sobre a sexualidade que passou a ser compreendida também como campo público (ou mais precisamente de políticas públicas) e como campo do direito. Nas Histórias da Sexualidade 1, 2 e 3, o autor expõe o problema da homossexualidade, (re)direcionando o foco, de acordo com os problemas teóricos surgidos entre uma obra e outra, para a construção do sujeito homossexual. Em “A Vontade de Saber” ele aborda, no final do livro, o conceito que o tornará famoso postumamente, o conceito de biopoder; marca das instituições e dos saberes que incidem sobre os corpos e desejos e que fica como característica principal da sociedade de controle, de indivíduos e populações, que é a sociedade moderna (século XX). Mas antes, ele tenta engendrar um pensamento que o encaminhe para essa conclusão, como quando fala sobre o que ele

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chama de sciencia sexualis, que seria a responsável por criar o homossexual como “espécie”, como sujeito a ser estudado, “dissecado”, analisado (sua passagem mais famosa e mais citada, transcrita acima), em oposição ao que se pensa, Foucault deixa claro que na modernidade, na sociedade capitalista, os sujeitos são incitados a falar de sexo, da sua sexualidade, sendo esta uma prática que reporta aos séculos anteriores e que será tema dos outros dois livros. Em “O Uso dos Prazeres” ele retorna ao problema da homossexualidade na antiguidade grega clássica, e apesar de ser cauteloso quando falar de uma possível “bissexualidade” ou “homossexualidade” entre os gregos, sempre usando esses conceitos entre aspas, afirma que a forma moderna da homossexualidade está longe de ser a vivida entre os clássicos, pois esta seria regida por uma ética e um tipo particular de moral, de conduta e, até mesmo, um tipo particular de dietética. Em “O Cuidado de Si” ele demonstra como a noção sobre o corpo passou por uma revolução, investigando de que maneira as reflexões morais sobre o sexo, por conta da moral cristã, incidiram sobre o sujeito em relação ao prazer causando alterações e como isto ganha assento na privação do sexo, quando se restringe seu uso à procriação e ao casamento.

Levando em consideração a importância do pensamento de Michel Foucault para a construção dos estudos sobre sexualidade no Brasil, Sergio Carrara e Julio Simões (2007), com a intenção de descrever a maneira como as “categorias ou identidades sócio-sexuais” são tratadas pela academia, desde os anos 1970, referenciam no trabalho de Don Kulick (2008), como este se posicionou, na sua pesquisa com travestis em Salvador, as relações estabelecidas entre estas e seus namorados, vistas por ele como assimétricas e que levava em consideração os valores em que as travestis e seus namorados foram socializados e aponta que “quando se trata do universo das relações homossexuais ou homoeróticas, o Brasil em particular e a América Latina em geral têm sido sistematicamente descritos nesse tipo de literatura como não pertencentes ao mundo ocidental” (p. 67-68). Esses autores também apontam para o marco que foi/é o texto de Peter Fry (1982) e os sistemas taxonômicos descritos, no qual ele considerava as variações de classe, assim: o primeiro modelo colocaria em pólos opostos as representações de gênero, onde o masculino teria como característica principal a atividade e o feminino estaria ligado à

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passividade, porém neste modelo as bichas representariam o híbrido composto pelo masculino e o feminino; o segundo modelo é ligado à perspectiva médica e psicológica e colocaria o “homem que come” na condição de gay, mas onde a oposição se dá a partir da referência à anormalidade da conduta homossexual em relação à conduta heterossexual encarada como normal; e o terceiro modelo é uma variação do segundo e continua mantendo a disjunção entre orientação sexual e de gênero e, ainda, contesta o estigma atribuído à homossexualidade. Desta forma, surge o que Fry denominou de modelo hierárquico (explícito no primeiro sistema) em contraposição ao modelo igualitário (explícito nos outros dois modelos). Na esteira, confrontam o trabalho de Edward MacRae (1990) que fez uma etnografia do Grupo Somos/SP, o primeiro grupo do então nascituro movimento homossexual brasileiro, e apontam para o problema de “se constituir ou não em torno de uma identidade homossexual” (p. 73), pois

Havia naquele momento uma grande inquietação quanto à possibilidade de essencialização (ou “reificação”, para usar uma expressão mais comum à época) da oposição hetero/homossexualidade e da conseqüente instituição de novas formas de rotulação, estigmatização e marginalização (p. 73).

Carrara e Simões (2007) ainda citam que as discussões brasileiras sobre sexualidade já seguiam uma articulação com outros marcadores, isso nos anos 1970, e que hoje fazem parte dos debates pós-estruturalistas, além de pontuar que as “inquietações contemporâneas em relação a processos de naturalização das diferenças e a fechamentos identitários” (p. 75). E além da contribuição de Foucault eles acham importantes as contribuições trazidas, como: a de entender o contexto local articulado ao contexto global, na perspectiva de Richard Parker (2002); as evidências de que no início do século XX as identidades extrapolavam o binário ativo/passivo na cena urbana brasileira, de acordo com James Green (2000); e apontam que Jeffrey Weeks, historiador social britânico, ressaltou o papel dos discursos científicos na produção da “condição homossexual”. Dentro desta perspectiva, Jeffrey Weeks (2000), a construção do sexo em disciplinas como a sexologia, psicologia, biologia, antropologia, etc. aponta para o fato de

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que estas, no século XIX, estavam interessadas em determinar o caráter “instintivo” do sexo. E, para ele, a sexualidade aparece como uma construção social, uma invenção histórica e que, portanto, seriam assentadas nas possibilidades do corpo, sendo que os sentidos e o peso atribuídos ao corpo são partes da composição social. No que tange à sexualidade, o autor afirma que sua linguagem é masculina, que o modelo dominante é o masculino: onde os homens aparecem como agentes sexuais ativos e as mulheres, haja vista sua construção corporal altamente sexualizada, eram apenas reativas. Considera o “sexo” como a diferenciação anatômica entre “macho” e “fêmea”, construídas sócio-historicamente. E o “gênero” como a diferenciação social entre “homem” e “mulher” e “sexualidade” como as crenças, comportamentos, relações e identidades construídas e modeladas histórica e socialmente a partir dos usos dos corpos e seus prazeres. Ele afirma a regulação dos corpos femininos, ao mesmo tempo em que se expandia a prostituição; contudo, há uma preocupação exagerada em designar o papel apropriado para homens e mulheres no seio familiar, especialmente para elas. Ele, afirma, ainda, que a homossexualidade existia, antes do século XIX, porém o indivíduo homossexual não, e que somente a partir do século XIX é que viria a ser constituída uma categoria homossexual distinta das anteriores e uma identidade baseada nesta distinção; categoria construída agora a partir das ciências médicas, ou seja, como indivíduo doente.

2.3. Coming out, Teoria Queer, Homofobia

Para Stuart Hall (2006), as velhas identidades (identidades fixas) estão em declínio, fazendo surgir outras formas de identificação, pautadas na fragmentação do indivíduo moderno, sendo que essa crise de identidade é um processo amplo de mudanças, que está deslocando as estruturas e processos centrais da sociedade moderna. E dentro deste processo de ressignificação da política identitária encontramos na Teoria Queer 16 , um desdobramento. Pois a teoria queer tem o intuito de “complicar a questão da identidade sexual e, indiretamente, também a questão da identidade cultural e social. Através da ‘estranheza’,

16 Teoria que surge nos países anglo-saxônicos, “como uma espécie de unificação dos estudos gays e lésbicos”, porém o termo significa, também, “de forma não necessariamente relacionada às suas conotações sexuais, ‘estranho’, ‘esquisito’, ‘incomum’, ‘fora do normal’, ‘excêntrico’ (cf. SILVA, 1999, p. 105).

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quer-se perturbar a tranqüilidade da ‘normalidade’”, de acordo com Tomaz Silva (1999, p. 105). Para isso, o indivíduo queer não “aspira o centro, nem o quer como referência”, mas utiliza de sua fragmentação identitária para jogar o jogo do desconforto, da ambigüidade, pois ele é “um corpo estranho, que incomoda, perturba, provoca e fascina”, assim coloca Guacira Louro (2004, p. 8). O olhar queer de Butler (2003) sobre a experiência de sujeitos que desafiam as convenções sociais de gênero nos faz compreender como esses arranjos são possíveis e por meio do seu olhar entendemos como o senso comum constrói uma ideia de sujeito “inteligível”, quando são associadas três categorias para servirem como forma de identificação sócio-cultural: sexo biológico, performance de gênero e orientação sexual. Ela critica a lógica do sujeito cognoscível, que tem por base a estrutura binária, principalmente, no que diz respeito aos três pilares aqui expostos, que não possibilitaria outras vivências e/ou experiências, como no caso das drag-queens, travestis e transexuais, que são os exemplos de rompimento com as estruturas (hetero)normatizantes. No que diz respeito à sexualidade, Butler contribui de forma singular para pensarmos como a heterossexualidade, que se firma como padrão social a ser seguido, é uma criação histórica e culturalmente engendrada assim como a homossexualidade, sendo esta muito mais antiga que a outra. Aproprio-me destas considerações para pensar sobre a constituição d@s sujeit@s interlocutor@s desta pesquisa, pois essa forma de “fazer-se” ganhou importância acentuada na sociedade moderna e ao tornar-se referência na identificação dos sujeitos, de acordo com Foucault (1997), tenho que considerá-la como perturbadora da norma vigente, muito mais do que o ato sexual em si mesmo, pois dela surge um “modo de vida homossexual”, que não está enquadrado em lei e nem mesmo pertence à natureza e que pode criar outras formas de relacionamento, ou seja, estabelecer um novo paradigma afetivo (FOUCAULT, 1981). Eve Sedgwick (2007) afirma que o problema do armário ou “regime do segredo aberto” é um problema associado não somente à homossexualidade, expondo que outros marcadores sociais, também, podem criar “armários”, pois este está ligado às estruturas de poder-saber vigentes na sociedade ocidental moderna, que de certa forma estariam atadas a determinados valores, principalmente morais e religiosos, que acabariam por borrar a fronteira entre o público e o privado.

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E quaisquer divergências em relação a essas combinações impostas como “naturalmente determinadas” colocam os sujeitos que a expressam em lugar de desvantagem social. Fry e MacRae (1983) afirmam que a homossexualidade é uma construção cultural, onde cada sociedade “arruma” de maneira satisfatória os seus desviantes, algumas, como a sociedade ocidental, não tão satisfatoriamente assim, haja vista o forte preconceito e discriminação sofrida pelas pessoas homossexuais, apontando que as convenções de gênero associadas à homossexualidade, que apontam a bicha como a representação da “identidade deteriorada”, pois ela estaria ligada ao feminino e que, por isso, seria alvo de discriminação. Nessa direção, Oscar Guasch (2007) define homofobia como “um dispositivo de controle social que marca os limites de gênero prescritos, e que estigmatiza a quem não os alcança e também os que os quebram”. Assim, a homofobia atinge também aos homens e mulheres de orientação heterossexual, ao estabelecer padrões rígidos de comportamentos, gostos, pensamentos e até sentimentos legítimos para cada uma das duas categorias afirmadas como as únicas possíveis: homem ou mulher. Warren Blumenfeld (1992) compreende a homofobia como mecanismo que “prende” as pessoas às normas de gênero. Segundo este autor, “a homofobia encadeia todas as pessoas nas rígidas normas de gênero, inibindo a criatividade e a auto- expressividade”. Então, a homofobia aparece como uma das facetas do sexismo, que aponta para a (di)visão do mundo entre o pólo masculino e feminino, fundamental para o estabelecimento das desigualdades que se constitui como base para violência e discriminações, baseadas no gênero, constituindo assento na ordem masculinista. Por conta da “causação 17 ”, da apresentação e da intensificação da afirmação das identidades LGBTs, promovidas através da expansão das Paradas do Orgulho LGBT pelas cidades brasileiras e da presença cada vez maior de pessoas à Festa da Chiquita em Belém, assim como a frequência cada vez mais “tolerada e permitida” em boates, bares, saunas, cinemas, clubes e festas e do fortalecimento dos contatos e redes sociais (online ou off-line), há uma intensa manifestação em sentido inverso, também, com o famigerado “bu 18 ”, operado por indivíduos contrários às manifestações homoeróticas.

17 Ressiginificação do termo “fechação”, agora expandido ao nicho “hetero”, e que tem ampla repercussão em cidades do sul do Brasil, como São Paulo.

18 Expressão nativa entendida pel@s homossexuais como uma expressão depreciativa de sua condição, num

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No meio deste jogo do armário o processo criativo fica por conta do estabelecimento de uma linguagem cômica, jocosa e debochada capaz de envolver performances e ritualizações e que age como “um código lingüístico capaz de proteger” os que dele se apropriam, permitindo que haja uma identificação entre os falantes, mesmo que “várias pessoas do meio” o utilizem e não se identifiquem como LGBTs, porém, podemos observar o caráter transgressor do uso de uma linguagem marginal, como é o caso do bajubá 19 (SOUZA, 1997, p. 231). Com isso, as formas como as sexualidades são vivenciadas no espaço urbano belenense, as maneiras das pessoas se sociabilizarem nos “espaços de pegação” GLS e as formas como as pessoas com gênero e sexualidades dissidentes se percebem/veem e vivem, em contraposição às teorias científicas que tentam esquadrinhar/taxonomizar a diversidade que é o processo de subjetivação, serão o foco desta pesquisa. Assim, na luta por visibilidade, pessoas marcadas pelo estigma das sexualidades e gêneros dissidentes tendem a manifestar-se através do grito/escândalo ou da reclusão total (manter-se no armário, na reserva), que servem como estratégias diferenciadas de proteção e defesa às manifestações de preconceito e discriminação, porém existem inúmeras maneiras de se construir e vivenciar esses gêneros e as sexualidades seja na vida off-line, nos bares e boates, banheiros públicos, praças ou em qualquer lugar que possibilite a “pegação”, seja online, através da internet. Então, a partir das discussões teóricas, podemos questionar se existe um “modo de viver” específico presente nos espaços de sociabilidade destinados ao público LGBT que ajudam na formação de uma identidade diversa da hegemonicamente heterocentrada? E de que forma esses aspectos proporcionam o estabelecimento de outros ethos LGBT? Na tentativa de responder às questões acima estabeleci como objetivo geral:

observar como na cidade de Belém os sujeitos de interlocução desta pesquisa e mais especificamente os que participam do circuito GLS configuram as intensas práticas coletivas que se efetuam a partir de conjuntos de trocas, de arranjos, onde os símbolos e seus significados serão considerados, e cuja disposição pode vir a ser percebida ou (re)arranjada com a finalidade de manter uma sociabilidade entre pessoas LGBT.

Os diferentes processos de subjetivação, a priori, deverão pautar as relações interpessoais nesses ambientes provocadores de performances, sentidos, gostos, hábitos e gestos diversificados. E como específicos: a) estabelecer como a sociabilidade entre LGBTs na cidade de Belém ajudam na “saída do armário”, tendo como principal foco as redes estabelecidas no circuito GLS, uma vez que as mesmas diferenciam-se dos discursos militantes e criam outras formas de ser/estar e vivenciar o homoerotismo 20 ; b) analisar os determinantes do processo de (re)construção das trajetórias e projetos de vida dos sujeitos de interlocução selecionados para esta pesquisa e os diferentes sentidos que estes processos assumem, atentando para a referência que o sujeito faz de si mesmo na construção de sua história de vida; e c) compreender quais tipos de experiências são vivenciadas pelos indivíduos que estão no processo outing, as dificuldades e responsabilidades advindas deste coming out, as esferas em que esse gênero e/ou sexualidade dissidente podem ser vivenciados, ainda com a presença de discriminação e preconceito e o uso de estratégias criativas, evidenciando o uso do bajubá, como um momento de transgressão/ruptura com a heteronormatividade, com base nos relatos dos/das interlocutores/as.

3. Do trabalho de campo e recorte empírico

Após um levantamento da literatura produzida sobre as sexualidades no contexto paraense, particularmente a produção acadêmica da Universidade Federal do Pará, que vem sendo efetuada há mais de três anos, percebi que Belém assume determinada centralidade por abrigar a maior universidade pública da região Norte. Para isso, venho mapeando as produções acadêmicas (artigos, TCCs, monografias, dissertações e teses) que

20 Utilizo esta categoria como sinônima de homossexualidade, mesmo sabendo que ambas se configuraram epistemologicamente em contextos e épocas diferentes. Mas cabe aqui uma reflexão de Jurandir Freire Costa (1992), pois este autor propõe uma substituição dos termos homossexual e homossexualidade por homoerotismo. Ele propõe este termo como uma forma de resistência à ciência e à cultura que engendram nos sujeitos que desejam alguém do mesmo sexo uma carga negativa, que designa os sujeitos por parte de sua existência, de sua privacidade. Chegando até mesmo a afirmar que: “Continuar discutindo ‘homossexualidade’, partindo da premissa de que todos somos ‘por natureza heterossexuais, bissexuais e homossexuais’, significa tornar-se cúmplice de um jogo de linguagem que mostrou-se violento, discriminador, preconceituoso e intolerante, pois levou-nos a crer que pessoas humanas como nós são ‘moralmente inferiores’ só pelo fato de sentirem atração por outras do mesmo sexo biológico” (COSTA, 1994, p 121).

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tenham as homossexualidades femininas ou masculinas, o movimento LGBT paraense, as identidades travestis e/ou transexuais e as bissexualidades como tema de pesquisa. Essa revisão evidencia a escassez de pesquisas acerca do tema fora do eixo Sul- Sudeste e expõe um campo rico e complexo em que pouc@s pesquisador@s se debruçaram. De maneira a contribuir com o campo de pesquisa e estudos sobre/de gênero e sexualidade na Amazônia, esta dissertação visa abordar aspectos singulares do circuito GLS de Belém, em particular os bares e boates.

E na garantia dos direitos sexuais da população LGBT no Pará, urge que a

produção de informações possam subsidiar a formulação, implementação, monitoramento e avaliação de políticas públicas segmentadas aos LGBTs, levando em consideração a diversidade sexual existente e que se faz presente nos espaços de sociabilidade pública, como as Paradas do Orgulho e a Festa da Chiquita, e nos espaços de sociabilidade mediados pelo mercado, como bares, boates, saunas e cinemas, ainda pouco investigados na Amazônia e no Brasil; ainda que pouco compreendidos e abordados no âmbito acadêmico como espaços de resistência, de reivindicação política. Pois, desde o final da década de 1960 a sociedade vem sendo marcada pela expansão dos movimentos sociais, como exemplo temos o movimento feminista e de

mulheres, o movimento negro, o movimento ecológico, o movimento LGBT, etc. As lutas, que ganham força a partir desse momento histórico, constroem-se aos poucos; em um primeiro instante, surgem movimentos que pretendem banir as desigualdades entre mulheres e homens.

O desconforto com a população LGBT torna-se fato, através da discriminação e

do preconceito, manifestados de diversas formas, mais comumente pela agressão física, moral ou psicológica. Visto que a uma parcela da população são negados direitos, reconhecimento, e em contrapartida, restringem-se os pensamentos da sociedade, valorizando seus ideais binários de gênero e a lógica heteronormatizadora do comportamento erótico-sexual.

A importância de pesquisar o tema na cidade de Belém está no hiato que se

formou desde a pesquisa realizada por Peter Fry (1982), nos idos de 1974, quando veio pesquisar a participação expressiva de homossexuais nos cultos afro-religiosos em Belém 21 ,

21 Essa pesquisa deu origem a dois artigos do livro Para Inglês Ver (1982): “Homossexualidade masculina e

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até o trabalho de conclusão de curso de Telma Gonçalves (1989) defendido no curso de Ciências Sociais, na área de Antropologia, da UFPA. Com essa etnografia, Fry (1982) construiu um marco nos estudos sobre a homossexualidade masculina no Brasil, no qual foi seguido depois por vários autores, dentre eles: James Green (2000), que fez um resgate do homoerotismo na sociedade brasileira; João Silvério Trevisan (2000), que historicizou as facetas do homoerotismo desde o Brasil colonial até a contemporaneidade; Don Kulick (2008), que fez uma análise da situação de mulheres travestis em Salvador; Carmem Dora Guimarães (2004), que contextualizou as redes homossociais de jovens homossexuais na cidade do Rio de Janeiro; Maria Luiza Heilborn (2004) que discutiu a noção de igualdade em parcerias homossexuais. Isso sem esquecer os estudos pioneiros de José Fábio Silva (1959), que lançou mão do arcabouço da Escola Sociológica de Chicago, principalmente da noção de “região moral”, para escrever o primeiro artigo sobre a temática nas Ciências Sociais brasileira. Além dos supracitados, não encontramos referências a trabalhos que analisem antropologicamente as relações intrínsecas às sexualidades oriundos, principalmente, da Universidade Federal do Pará, visto que esta é a referência na produção acadêmico-científica no norte do país. Em outras plataformas de pesquisa, como a Plataforma Lattes do CNPq e o Scielo, assim como outras fontes de pesquisa on-line, como Google Acadêmico, as referências também não foram muitas, e para ser mais exato, quando o foram era quase inexistente a produção nortista a respeito da temática. Considerando esses aspectos vislumbramos a riqueza e fartura das relações sociais estabelecidas na cidade de Belém, com suas boates, bares, saunas, cinema e outros lugares de “freqüência” LGBT, como a Praça da República, por exemplo, nos quais se pretende enfocar um cenário de formas específicas de expressão das relações contidas tanto na esfera pública quanto na esfera privada. As produções amazônicas sobre relações de gênero e sexualidades são partes de uma interpretação dos/das autores/autoras, levadas a cabo pelos entusiasmos dos pesquisadores com o tema e não devido à referência de produções acadêmicas que tornem os pesquisadores da Amazônia referências nos debates nacionais.

Portanto, se alguns de seus aspectos já foram submetidos a análises em outros campos de conhecimento (psicologia, direito e educação), os estudos antropológicos sobre sexualidades na Amazônia são escassos, e quando estes aparecem é nas interseções de pesquisas maiores. Esta proposta de trabalho objetiva um olha crítico sobre o discurso dominante nos estudos sobre sexualidades e relações de gênero, que veem a Amazônia paraense de forma idílica e idealizada, como berço do tradicionalismo e do atraso, que de alguma forma o trabalho de Fry (1982) ajudou a reforçar. Valendo-me de um caráter etnográfico para esse intento, procuro (re)(des)construir categorias analíticas através da pesquisa de campo e do diálogo com a literatura pertinente, para que o resultado deste trabalho possa servir a uma análise comparativa das vivências homossexuais em outras cidades brasileiras. Para exemplificar que esse quadro ainda não é satisfatório, quando comparado à produção de núcleos referências nos temas relativos às (homo)sexualidades, e que faz com que a produção de pesquisas sobre essa temática na Amazônia ganhe, algumas vezes, um ar de excepcionalidade, desenvolvi os quadros 22 presentes no apêndice desta dissertação como forma de documentar a pesquisa que venho realizando, há pelo menos três anos. É interessante frisar que de todos os trabalhos catalogados no apêndice 23 nenhum se propôs a analisar o circuito GLS belemense, mesmo que em algumas pesquisas o recrutamento dos interlocutores tenha sido feito nesses espaços de sociabilidade; assim como, somente em três casos o tema do coming out foi objeto de estudo, a partir de perspectivas diferentes: Telma Amaral Gonçalves (Quadro 1), Maria das Graças dos Santos Brito (Quadro 1) e o meu trabalho de conclusão de curso (Quadro 2); e, finalmente, exceto os trabalhos de Izabela Jatene de Souza, Rubens da Silva Ferreira (ambos no Quadro 6) e Alan Michel Santiago Nina (Quadro 3), nenhum ainda se propôs a dialogar com o circuito GLS da cidade, seja ele de sociabilidade ou prostituição, tendo em vista a dinâmica das relações de gênero e marcadores sociais da diferença na construção de cidadania.

22 É óbvio que existem mais produções, porém a dificuldade de acesso nas Faculdades e a desatualização da plataforma de busca da Biblioteca Central dificultam o meu trabalho, mas soube de mais dois trabalhos desenvolvidos sobre a temática: um na Faculdade de História e outro na Faculdade de Turismo.

23 Dos trabalhos catalogados nos quadros são poucos os que eu não possua cópia e alguns dos mais atuais, mesmo não possuindo cópia, participei como ouvinte da defesa e até daqueles que não vi a defesa e nem possuo cópia consegui em algum momento desta pesquisa lê-los, seja na Biblioteca Central, no Laboratório da Faculdade de Ciências Sociais ou através de contatos com @s autor@s e/ou com amig@s destes.

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No Estado do Pará, a partir das tensões provocadas pelo Movimento LGBT 24 , foram implementadas algumas ações no combate à homofobia e na promoção de dignidade à diversidade sexual, tanto no âmbito de projetos e programas governamentais, como: a criação da Coordenadoria de Proteção à Livre Orientação Sexual, na Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do Estado do Pará, tendo como primeiro coordenador Yvon Cardoso e, em 2011, tendo assumido Samuel Sardinha, ambos membros da militância LGBT do Estado; as Sessões Especiais nas Casas Legislativas, como a Sessão Especial em homenagem ao Dia de Combate à Homofobia (17 de maio), instituído por lei no estado, anualmente celebrado na Assembléia Legislativa paraense; a Sessão Especial em homenagem ao Dia do Orgulho Gay, instituído por lei no município de Belém, e que acontece na Câmara dos Vereadores de Belém, na qual eu participei, em 2008, como membro do Grupo Orquídeas. Na área da educação, o governo petista ganhou notoriedade por atender a demanda das travestis e dos/das transexuais com relação à sua cidadania, tendo sido editada a Portaria nº 016/2008 da Secretaria de Educação que estabeleceu a obrigatoriedade do registro do nome social de travestis e transexuais no ato da matrícula em todas as unidades escolares da rede pública estadual, ação em que foi pioneira no país. Com o mesmo objetivo seguiu-se a edição do Decreto Estadual 1.675/2009, determinando aos órgãos da Administração Direta e Indireta do Estado do Pará o respeito ao nome público de transexuais e travestis; além da regulamentação das visitas íntimas nos estabelecimentos prisionais para as pessoas detentas que mantenham relação homoafetiva, via Portaria nº 1.242/2009 da Superintendência do Sistema Penitenciário (SUSIPE). Estes marcos regulatórios no Estado do Pará devem ser embasados com mais pesquisas acadêmicas direcionadas à comunidade LGBT e que manifestem os anseios desta, partindo de uma perspectiva não-essencialista e de combate a quaisquer forma de opressão e subalternização. A partir do exposto, compreendo que a importância deste trabalho visa, além da etnografia sobre a sociabilidade LGBT no interior do circuito GLS em Belém e da possibilidade de comparação com outras realidade brasileiras, a visibilidade de sujeitos sociais construídos historicamente à margem da sociedade belemense e que, tanto

24 O Movimento LGBT paraense conta, na capital, com: Grupo Homossexual do Pará (GHP), Grupo Apollo, Grupo COR, Grupo de Resistência de Travestis da Transamazônica (GRETTA), o Movimento Homossexual de Belém, dentre outros. O Grupo Orquídeas, do qual faço parte, não é filiado ao Movimento, pois não é uma ONG.

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influenciam na dinâmica da cidade, a partir da criação de territorialidades, espacialidades e sociabilidades fluídas, quanto ainda são alvos de violências simbólicas e físicas por se construírem à luz da heteronormatividade.

4. Das dificuldades e estratégias em campo

A construção e delimitação do objeto da pesquisa que originou essa dissertação

e a análise subsequente fundamentaram-se em pressupostos de pesquisa qualitativa desenvolvidas à luz da antropologia social clássica, onde a proposta investigativa baseou-se na pesquisa de campo etnográfica e em entrevistas e conversas informais, com a construção da história de vida como perspectiva metodológica de compreensão do problema deste trabalho.

O intento deste trabalho é possibilitar que as entrevistas desenvolvidas através

das histórias de vida dos sujeitos de interlocução, com temáticas que privilegiem os inúmeros aspectos do processo outing relacionados aos trajetos que mantém nos espaços de sociabilidade LGBT em Belém, componentes do circuito GLS, sejam evidenciadas nos relatos etnográficos. Na seleção das/dos interlocutoras/es, após um contato prévio, contei com a indicação de amigos/as e conhecidos/as que se fazem presentes no circuito GLS em Belém, para que de alguma forma eu conseguisse estabelecer as intersecções das redes de amizade presentes nos espaços de sociabilidade, objetivando visualizar os códigos sociais e valores de mundo (re)(des)construídos nas diferentes narrativas ou nos diferentes momentos da mesma narrativa e os espaços e formas de sociabilidade ligados aos “modos de viver”, estilos de vida, projetos e trajetórias de vida. Do resultado desses depoimentos, de entrevistas com perguntas abertas e fechadas e de conversas informais, proponho um questionamento dos modelos de coming out vivenciados pelos interlocutores, com base na análise das histórias de vidas, onde o texto será “apresentado no feitio de um diálogo com as fontes levantadas em campo, de modo a oferecer, também, uma visão crítica acerca das próprias percepções e conclusões construídas”. 25

25 Cf. Costa, 2009, p.19.

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Assim, reiniciei a pesquisa 26 , ainda em 2010, quando do início das aulas no curso de mestrado. Porém, não havia estabelecido um cronograma que orientasse minha entrada em campo, mas privilegiei os bares e boates por fazerem parte da rotina de lazer que mantenho com amig@s durante os finais de semana. É importante ressaltar que o retorno ao campo e a continuação da pesquisa de mestrado aconteceu com a presença de outro pesquisador, Ramon Reis, que desenvolveu investigação tendo em vista a comparação entre os tipos de relacionamentos homossexuais em duas boates do circuito GLS de Belém. Com isso, pude compartilhar, ainda em campo, de impressões, “piscadelas” e curiosidades etnográficas pela quais fomos assolados constantemente. Estabeleci uma abordagem diferenciada na seleção dos sujeitos de interlocução, pois antes de abordá-los e assim convidá-los a fazerem parte desta pesquisa, queria ser reconhecido no circuito, fazer parte dos “de dentro”. Portanto, fiz-me presente em períodos alternados a todos os finais de semana nas boates do Reduto, principalmente. Depois de algum tempo, percebi o quanto era difícil contatar os interlocutores, que não acreditavam ser possível desenvolver uma pesquisa nas/sobre boates, que era o modo como a maioria compreendia a minha pesquisa, então, apelei para a minha rede de amizades. Após alguns contatos ou foram-me indicando amigos ou se disponibilizando para participar da pesquisa.

A frequência em todos os espaços se mostrou impossível desde o começo, uma

vez que alguns espaços, como saunas e o cinema, configuram-se de forma diferente dos bares e boates, mantendo outros códigos, sendo aqueles espaços voltados prioritariamente

para estabelecimento de relações sexuais, de acordo com as conversas mantidas. Não que nas boates não aconteçam tais relações, pois uma característica das boates GLS em Belém é possuir o famigerado dark room 27 , lugar escuro que propicia contatos sexuais anônimos. Então, os locais em que fiz campo foram os bares e boates do Reduto, São Brás, Marambaia, Guamá, Cremação, Campina e Nova Marambaia.

A ida a campo se dava a partir do deslocamento da minha e casa até as boates e

bares, de ônibus, onde conseguia durante o trajeto, identificar algumas pessoas que se direcionam aos lugares do circuito, algumas vezes chegando a encontrá-las nas boates ou

26 Digo reiniciei, pois já havia selecionado, no circuito GLS de Belém, @s interlocutor@s da pesquisa que desenvolvi para o TCC. 27 A antropóloga colombiana María Elvira Díaz-Benítez (2007) escreveu um artigo no qual descreve os percalços de se fazer uma etnogafia no dark room e como teve que utilizar os outros sentidos para captar os movimentos dentro deste ambiente.

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bares. Chegando ao local, geralmente, aguardava 30 minutos antes de entrar, com a intenção de ouvir sobre quais assuntos se conversava e de tentar tornar-me “visível”. Esse momento de chegada era imprescindível, pois determinava o tipo de abordagem que seria feito, com vista à seleção dos interlocutores ou de possíveis conversas que servissem de pistas, pois dependendo da rede de amizades, que se formava antes de entrar, já se conseguia perceber se seria mais fácil ou mais complicada a abordagem e/ou as conversas dentro da boate. Uma tática bastante utilizada era pedir a um amigo que conhecia alguém fora da minha rede de amizades que nos apresentasse. Nesse primeiro momento eu não me apresentava como pesquisador, a não ser que meu amigo já tivesse feito, e assim poderia discorrer sobre vários assuntos sem que parecesse que eu estivesse interrogando-o. As técnicas empregadas para o desenvolvimento desta pesquisa, objetivando o não constrangimento das pessoas que quiserem participar voluntariamente, foram: a) conversas informais que marcaram a inclusão ou exclusão dos interlocutores na pesquisa; b) sete entrevistas temáticas com (re)construção da história de vida dos interlocutores até o processo outing e a frequentação nos espaços de sociabilidade direcionados a LGBTs, com pessoas de diferentes faixas etárias e diferentes grupos étnico-raciais, abordados em diferentes estabecimentos do circuito GLS de Belém; e c) Descrição etnográfica do circuito GLS de Belém, em caderno de campo, nos moldes da antropologia social clássica. E o instrumento foi um roteiro composto de questões abertas e fechadas.

***

No capítulo que segue exponho um pouco da história da cidade de Belém para, em seguida, trazer um pouco do panorama atual da mancha de lazer e sociabilidade na capital, especialmente da ligada ao GLS, descrevendo etnograficamente os atuais redutos e mostrando um pouco do (ab)usos encontrados durante a pesquisa.

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CAPÍTULO 2

Sexualidades dissidentes sob o signo da noite

Neste capítulo objetivo inserir o leitor numa breve história da cidade de Belém, que possibilite construir um panorama do atual circuito de lazer GLS em Belém, ou seja, com a ajuda da etnografia possibilitar uma visualização dos espaços de lazer e sociabilidade e dos (ab)usos que fazem do “meio GLS”. Entendendo, para além de uma categoria êmica, o “meio” como categoria explicativa que possibilite o entendimento das trajetórias que esses sujeitos desenvolvem nas manchas de lazer da cidade de Belém. Portanto, uma breve apresentação da cidade em termos populacionais, faz-se necessária, pois os dados do último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em 2010, acerca do total da população do Estado do Pará, afirmou que somos

7.588.078

de habitantes. A grande parte desse número reside em áreas urbanas, ou seja,

5.197.118

de habitantes em relação aos 2.390.960 que habitam as áreas rurais e encontram-

se divididos, a partir do sexo, em 3.825.245 homens e 3.762.833 mulheres (IBGE, 2010).

E a cidade de Belém, capital do Estado, corresponde a uma área de 1.059 km 2

(Imagem 2) e congrega a maior população, em relação aos demais municípios, somando um total de 1.392.031 de habitantes; divididos, a partir do sexo, em 658.188 homens e 733.843 mulheres. Sendo que a população urbana possui um total de 1.380.836 de habitantes,

enquanto 11.195 habitantes residem na área rural da capital paraense (IBGE, 2010). De posse desses dados é possível observar que a população urbana é maior na capital paraense, se compararmos com a presença de pessoas na área rural, e a proporção é,

nesta relação, uma das maiores do Estado. Com isso, podemos inferir que a população urbana da capital paraense está mais próxima dos bens e serviços disponíveis na metrópole, porém há de se reiterar que nem todos têm acesso aos mesmos, em razão da situação de empobrecimento a que as pessoas estão submetidas.

A partir de Heitor Frugoli Jr (2001) podemos dizer que a cidade de Belém adquire

características de centro, dentro da Região Amazônica e quando comparada às capitais mais ao sul do país adquire característica de centralidade periférica o que possibilita

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acesso aos bens e serviços disponíveis na área urbana da cidade, respeitando, é claro, as situações de classe vivenciada por cada indivíduo.

1. Santa Maria de Belém do Grão-Pará: um breve histórico

1. Santa Maria de Belém do Grão-Pará: um breve histórico Imagem 1 : Mapa do Estado

Imagem 1: Mapa do Estado do Pará. Fonte: Google Imagens, 2011.

A cidade de Santa Maria de Belém do Grão-Pará foi fundada, em 12 de janeiro de 1616, por Francisco Caldeira Castelo Branco, que erigiu a edificação-marco do desenvolvimento urbano da cidade, o Forte do Presépio Forte do Castelo 28 anteriormente, às margens da Baía do Guajará. A escolha para construção deu-se pela localização privilegiada do terreno, pois este se encontra na foz do Amazonas, “ao sul do estuário amazônico e protegido do oceano, este forte contribui para a expansão lusa no norte do Brasil 29 ”, ponto estratégico de combate aos ingleses e holandeses 30 , e que “desempenhou um importante papel na ocupação da região 31 ”. Assim,

28 Rodrigues (2008, p. 94) afirma que o Forte do Presépio sofreu inúmeras intempéries sendo “reconstruído e substituído na primeira metade do século XVIII pelo Forte de Castelo do Senhor de Santo Cristo”. 29 Cf. Almeida, 2008, p. 53.

42

[

]

o fato de ter como limite a imensa baía de Guajará, formada pelo rio Pará, a

como “Pirí de Jussara” e o igarapé (riacho) que

ligava esse alagado à baía do Guajará fazia com que o forte ficasse ilhado a maior parte do ano, o que, se por um lado foi um fator extremamente positivo no início

da ocupação, pois dificultava o acesso por terra, por outro, tornava-se um empecilho à expansão da área urbana, que aos poucos começava a se conformar através das aglomerações de colonos, que surgiram em torno do forte (SOUZA, 1997, p. 14).

vasta área do alagado conhecida (

)

A autora da citação acima, a antropóloga Izabela Jatene de Souza (1997), reflete sobre a construção de Belém tendo em vista o processo de urbanização pelo qual a cidade passou desde sua criação, levando em consideração o contexto geopolítico que ocasionou a fundação da capital paraense e que serviu como discurso, no século XVII, para que ocorressem os fluxos migratórios para a Amazônia. Passando, também, pela consolidação e decadência da economia gomífera, no século XIX, que transformou Belém em “metrópole da Amazônia” (p. 21). Desde essa época, século XVII, Belém já comportava no espaço da vila uma multiplicidade de pessoas, com hábitos e costumes bem diferentes, mas foi pela presença indígena que a cidade se cristalizou no consciente regional e nacional.

Desde o início, índios e caboclos, mestiços e negros constituíram a maior parcela de mão-de-obra economicamente ativa da Amazônia, nas várias atividades agrícolas e extrativas da região. As diversas misturas etno-raciais, levando a mestiçagens progressivas, produziram a feição mestiça da população, na capital e na província. Por aí passaria a dificuldade dos viajantes em classificar a população amazônica e paraense, cujas nuanças não correspondiam a categorias etno-raciais bem definidas: mamelucos, tapuias, cafuzos, mulatos, mestiços; índios cafuzos, mulatos atapuiados (RODRIGUES, 2008, p. 96).

Assim, passamos para a história como uma cidade que é constituída essencialmente de gentis indígenas, mas as pesquisas historiográficas vêm apontar uma

30 “Nos dois eixos de extensão do sítio inicial (no sentido do Guajará e no sentido do rio Guamá), a expansão se fez tanto por meio de lutas contra os índios que resistiam à ocupação da terra e das águas na ilha grande de Joannes (hoje ilha do Marajó), no Guajará, porta de entrada dos navegadores invasores, assim como nas margens do rio Guamá, onde se localizavam, à época, grupos tupinambás, como também por meio de acordos de paz, trocas e negociações com diversos grupos indígenas que se misturaram, desde então, à população do núcleo que se constituía, como trabalhadores escravizados ou cooptados, ocupando, desde o início, parte do espaço da cidade, especialmente os arrabaldes, que já habitavam antes da chegada dos portugueses.” (RODRIGUES, 2008, p. 94-95). 31 Cf. Souza, 1997, p. 14.

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nova organização social para aquela época da qual somos descendentes. O historiador Rafael Chambouleyron (2008), a partir de pesquisa sobre a Belém seiscentista, mostra de que forma a cidade era organizada socialmente:

O primeiro era composto pelos moradores portugueses e seus descendentes, que se dividiam entre os cidadãos, os “peões” (trabalhadores) e aqueles que eram infames pela raça ou por crimes. O segundo compunha-se dos índios (cristãos e não-cristãos) e dos escravos africanos. O terceiro, de sujeitos resultado da mistura de todos os grupos. E, finalmente, o quarto era composto por estrangeiros, que, apesar de viverem sujeitos a leis especiais, confundiam-se com o que este autor [o historiador, político e jornalista maranhense João Francisco Lisboa] chama de “brancos nacionais” (o primeiro grupo) (CHAMBOULEYRON, 2008, p. 13).

Não pretendo, com essa breve apresentação, fazer uma historiografia da cidade, pois, como antropólogo, possuo alguns limites com relação ao conhecimento micro-histórico da construção e desenvolvimento da cidade de Belém. Mas, a partir de outr@s antropólog@s e historiador@s, consigo apresentar, mesmo que brevemente, o processo pelo qual a cidade passou desde o século XVII até o presente momento, com alguns saltos temporais, obviamente. Assim, ainda na época (século XVII) da expansão da cidade e do consequente desenvolvimento urbano, a cidade contava com três freguesias: Sé, Campina e Trindade. A primeira era conhecida à época como Cidade, onde hoje é o bairro da Cidade Velha. A segunda, na área imediatamente contígua, onde hoje se encontra o, quase extinto, bairro da Campina. E a terceira nas imediações do que conhecemos hoje como o bairro do Comércio. Na virada do século XIX para o XX, a cidade agregava mais uma freguesia, a de Nazaré onde

a referência hoje em dia é a Basílica de Nazaré. Assim a cidade crescia em todas as direções. A antropóloga Carmem Izabel Rodrigues (2008, p. 98), no texto em que descreve

a formação do bairro do Jurunas, seu objeto de análise, diz que

No início dos oitocentos, um evento importante marcou a expansão da cidade em direção aos bairros hoje denominados Batista Campos, Jurunas, Condor, Cremação e Guamá: o aterramento do igarapé do Piry, um braço do rio Guamá que desaguava na baía do Guajará; a partir de então surgiram novas ruas e avenidas, ligando o centro da cidade aos arrabaldes paralelos ao Guamá. Com o aterramento, a estrada das Mongubeiras (hoje Almirante Tamandaré) ligou o largo do Bagé, no Arsenal de Marinha, ao largo da Pólvora e à estrada de Nazaré, que dava acesso ao único caminho terrestre de saída da cidade.

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Essa expansão da cidade, para o norte, evidencia o crescimento urbanístico de Belém, com inúmeras construções sendo erguidas, ruas e bairros sendo criados, estradas sendo alargadas e um processo de saneamento sendo implementado; isso tudo isso ligado à economia do ciclo da borracha, do século XIX. E, emergem nesse momento, dois importantes pontos atuais de sociabilidade: a Doca, no bairro do Reduto, e a Praça da República.

a Doca, no bairro do Reduto, e a Praça da República. Imagem 2 : Mapa da

Imagem 2: Mapa da Região Metropolitana de Belém. Fonte: Google Mapas, 2011.

De acordo com a historiadora Rosana de Fátima Padilha de Sousa (2009), que teve o Reduto como objeto de estudo, a partir da memória de construção do bairro como eminentemente operário, diz que

O Reduto, como passou a ser conhecido o bairro onde ficava a referida doca, é uma região contígua ao Centro de Belém, limitada ao norte pelo bairro da Campina, ao sul pelo bairro do Umarizal, a leste pelo bairro de Nazaré e a oeste pela baía do Guajará (p. 30).

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O bairro do Reduto é formado por três avenidas: Avenida Visconde de Souza Franco, Avenida Assis de Vasconcelos e Avenida Marechal Hermes; quatro travessas: Quintino Bocaiúva, Rui Barbosa, Benjamim Constant e Piedade; sete ruas: Gaspar Viana, 28 de Setembro, Manoel Barata, Ó de Almeida, Aristides Lobo, Tiradentes e Henrique Gurjão e uma praça: a Praça General Magalhães (p. 31).

Através do sistema de escoamento dos canais de águas pluviais, havia uma ligação entre o antigo Largo da Pólvora atual Praça da República e a Doca do Reduto 32 hoje Avenida Visconde de Souza Franco e após a terraplanagem dessa área, em meados do século XIX, e contando com uma “aprazível localização e seu dinamismo comercial” a cidade ganhou um novo “cartão-postal” (SOUSA, 2009, p. 32-33).

um novo “cartão - postal” (SOUSA, 2009, p. 32 -33). Imagem 3 : Doca. Fonte :

Imagem 3: Doca. Fonte: Google Maps in Sousa, 2009, p. 31.

32 “A conversão de igarapé do Reduto se iniciou em 1851, mas somente atingiu uma forma mais regular e duradoura em 1859 quando passou a ser chamada de Doca do Imperador, posteriormente, Doca do Reduto.” (SOUSA, 2009, p. 32). “A Doca do Reduto recebia as águas pluviais que vinham do antigo Largo da Pólvora (atual Praça da República) por meio de esgotos laterais construídos a partir do calçamento da Estrada do Paul d’Água. A partir dessa obra e do calçamento de várias ruas do Reduto realizados no final do século XIX o problema de saneamento das terras baixas predominantes na área foi sensivelmente reduzido, porém somente na segunda metade do século XX é que o problema das enchentes no bairro foi parcialmente solucionado, como trataremos mais adiante” (SOUSA, 2009, p. 33).

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Com todas essas modificações ocorrendo na cidade, em finais do século XIX e início do XX, o bairro do Reduto passou a ocupar uma característica interessante, pois sua “localização junto aos terminais de transporte fluvio-marítimo favoreceu o surgimento de unidades fabris na área central ou em áreas próximas a esta, como era o caso do Reduto” (SOUSA, 2009, p. 67). Com isso, prédios para servirem de fábricas foram construídos e casas para abrigar a mão-de-obra operária também foram erguidas.

Algumas ruas do Reduto ficaram marcadas até hoje pela presença de imponentes prédios que abrigaram grandes indústrias, como são os casos da Rua 28 de setembro, da Gaspar Viana e da Municipalidade. Esta última, no inicio do século XX tornou-se foco de interesse do então Intendente Antonio Lemos que se referiu em seu relatório como sendo uma “avenida de grande futuro” e que ela estaria “para a commodidade das classes industriaes e operárias” assim como a Avenida Independência estava “para o recreio e a salubridade das classes chamadas

Era a visão “economicista” da administração urbana voltada para os

interesses capitalistas que se afirmavam cada vez mais naqueles tempos de fausto econômico. Ter um setor destinado à atividade industrial implicava na realização de obras de saneamento e urbanização que vinham ao encontro das aspirações cosmopolitas da elite da época. Essas ruas e suas fábricas fizeram do Reduto um bairro de periferia fabril, característica que vai manter até a segunda metade do século XX e que lhe rendeu uma nova classificação: “bairro operário” (SOUSA, 2009, p. 69).

liberaes” (

).

A partir deste ponto é que pretendo desenvolver algumas das minhas hipóteses, pois com o processo de estigmatização que ligava o Reduto a uma origem operária, este foi, a partir da década de 1940, período final da pesquisa de Sousa (2009), perdendo terreno no

mercado imobiliário, porque não tinha para onde se expandir, sendo deixado de lado em detrimento do bairro vizinho, o Umarizal. Mas esse é um tema que merece mais investigação, histórica e antropológica. Portanto, acredito que muitas das construções residenciais e industriais foram abandonadas, o que pode se observado fazendo-se uma rápida visita pelo bairro e verificando-se o nível de deterioração de algumas edificações, e num momento posterior foram compradas por empresários que almejavam desenvolver neste bairro um circuito de lazer. Na pesquisa desenvolvida pela antropóloga Telma Amaral Gonçalves (1989) com homossexuais na cidade de Belém na década de 1980, a autora não explicita nenhum lugar dos lugares de interação e sociabilidade entre os LGBTs; a não ser pelo Bar do Parque, na Praça da República, que surge com “uma frequência bem expressiva de homossexuais de

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ambos os sexos sendo que, particularmente à noite, quando o movimento aumenta no local, pode-se observar, além disso, um número razoável de prostitutas e, também, de travestis que fazem da prostituição o seu meio de vida.” (p. 7-8). Souza (1997), que desenvolveu uma pesquisa sobre as “tribos urbanas” da capital paraense, no contexto chamado por ela de “pós-moderno” – essa pesquisa inclui, ainda, uma observação sobre a dinâmica das drag-queens , evidenciou no trabalho alguns lugares do circuito de sociabilidade juvenil em Belém, na década de 1990. Assim, aparecem, na etnografia, as boates Athenas e Zeppelin Club, conhecidos clubes mix 33 da capital naquela década; assim como a Praça da República, lugar onde ela fez quase todo o campo. Então, ela ajuda a reconstituir o panorama deste circuito, a saber:

Atualmente, além dos espaços que anteriormente eram comuns às drags, após 1995, se configurou na cidade uma espécie de território circunscrito, que não se restringia apenas a boates gays. Casas noturnas como o Bar La Nuit (Rua Doutor Moraes, 581), o 407 Night Club (Av. Gentil Bittencourt, 407), o Bar Lual (Trav. Rui Barbosa), a Boate Eqquos (Rua 28 de Setembro) são locais que já existiam como guetos homossexuais e, além de shows de drags queens, neles apresentavam-se também transformistas e travestis. Nesse contexto, até o referido momento podia-se dizer que as drags ficavam muito restritas aos guetos homossexuais, frequentados por “iguais” ou “informados”. Outros bares e boates foram inaugurados e abriram suas portas para apresentações de drag queens, como o atualmente extinto Bar Go Fish (Trav. Rui Barbosa entre Av. Brás de Aguiar e Av. Nazaré), a boate Doctor Dance (Rua Boaventura da Silva entre Trav. Quintino Bocaiúva e Av. Visconde de Souza Franco), a Boate Mix (Trav. Almirante Wandenkolk entre Rua Antônio Barreto e Rua Diogo Móia). (SOUZA, 1997, p. 153)

De acordo com o exposto até agora, fica evidente que o bairro do Reduto e arredores, assim como a Praça da República (na imagem abaixo), configura[ra][m], pelo menos nos últimos 20 anos, uma grande mancha de lazer e sociabilidade juvenil.

33 Eram clubes que não faziam diferença de público, podendo congregar homens e mulheres, homossexuais e heterossexuais, assim como as travestis e transexuais, ou seja, congregavam também as sexualidades e gêneros dissidentes. Todas as boates descritas acima não existem mais.

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Imagem 4: Praça da República Fonte: Google Earth, 2011. A Praça da República é um

Imagem 4: Praça da República Fonte: Google Earth, 2011.

A Praça da República é um logradouro composto por três áreas distintas, localizado no bairro do Centro. Encontra-se limitada pela Av. Presidente Vargas, Av. Assis de Vasconcelos, Travessa Oswaldo Cruz, Av. Nazaré e Rua Gama Abreu. Sua implantação acompanhou a evolução da cidade de Belém. Por volta do século XVII, aparecia como uma grande clareira aberta na mata, distanciada do núcleo urbano, limitada por um cemitério destinado aos escravos e à população de baixa renda. Com o desenvolvimento da cidade, já no século XVIII, ocorreu a transferência de um depósito de pólvora para essa área, o qual ocupava o Largo da Pólvora, que serviu de denominação para a antiga clareira. No século XIX três fatos marcantes podem ser citados na história deste logradouro. Primeiramente, a mudança do depósito bélico para outra localidade distante do núcleo urbano, que a esta época já se estendia até o Largo, o que propiciou a mudança de sua denominação para “Praça Pedro II”. Nesse momento, Vitorino de Souza Cabral realizou diversos melhoramentos na área, como o arruamento e ajardinamento do conjunto. Além, disso, vale citar novamente a construção do

Teatro da Paz, inaugurado em 15 de fevereiro de 1878. (

República, a praça passou a denominar-se “Praça da República”, como é conhecida

atualmente. (SOUZA, 1997, p. 43-45)

com a proclamação da

)

Após esse breve histórico, é possível afirmar que esta praça 34 possui coretos, anfiteatro, um pequeno teatro experimental e um amplo gramado que servem de ponto de

34 Ainda, de acordo com Souza (1997, p. 45): “Deve-se aos intendentes Arthur Índio do Brasil, Barão do Marajó, Dr. Silva Rosado e Antônio José de Lemos, as principais reformas e melhoramentos introduzidos no logradouro, como o calçamento das ruas que o delimitam, a instalação de diversos equipamentos decorativos, o assentamento de monumentos e coretos, e principalmente a conformação de seu aspecto paisagístico, havendo a delimitação de passeios e jardins internos, fazendo com que a Praça ganhasse, em fins do século XIX e início do século XX, os contornos e perfis que hoje a caracterizam”. E continua: “Dentre os monumentos

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encontros e sociabilidade entre jovens e adultos; abriga ainda, o Bar do Parque, reduto da boemia da capital paraense nas décadas de 1970 e 1980, e o Teatro da Paz, construção que data de 1878, símbolo do período da borracha. Durante muitos anos esta praça recebeu a Parada Militar de 7 de Setembro que acontece agora na Aldeia Cabana e por ela ainda passam a Trasladação e a Procissão do Círio de N. S. de Nazaré 35 , a Parada do Orgulho LGBT, sem falar da Festa da Chiquita. Comumente, é o ponto de chegada, nas manhãs de domingo dos meses de junho e outubro, do cortejo festivo comandado pelo grupo cultural “Arraial do Pavulagem”. Então, por tudo isso, a praça continua sendo um ponto de encontro e localização na cidade de Belém. Acerca dessa grande mancha, posso afirmar que corresponde ao que Néstor Canclini (2008) chamou de “multifocalidade, policentricidade e polissemiacaracterística das grandes cidades, que divide as mesmas em várias áreas, centros e sentidos. Portanto, a praça e o Reduto carregam esses sentidos variados, principalmente para quem usufrui desses espaços e nele inscreve seus próprios fluxos, criando fronteiras simbólicas e se mesclando ao hibridismo possibilitado pelas grandes cidades (HANNERZ, 1997). O trecho abaixo é capaz de mostrar como essa praça no centro da cidade, pode ser considerada como um lugar de sociabilidade e de significados:

[P. H.] Em 2006, eu comecei a frequentar a Praça da República. Fui levado lá por

um amigo. Eu nunca tinha ouvido que as pessoas iam lá pra paquerar e tal, entendeu?! Foi que ele me contou, mas não tinha visto nada e tal. Aí, eu fiquei com

ele, a primeira vez e tal. Aí, tem uma parte, lá no anfiteatro, sabe, da praça. Aí, as pessoas ficavam assim [se ajeita na cadeira e posiciona-se como se estivesse flertando+. E eu perguntei: “o que será isso?”. Ficava um olhando pro outro. Aí, foi que eu percebi que as pessoas se conheciam de lá e ficavam. Tu conheces o “soda Hebe”? Tu já ouviu falar? [Mílton] Não.

Tem o anfiteatro, subindo, na praça, no canto

[P. H.] Eu tive um ataque de risos

tem o anfiteatro. Do teu lado esquerdo ou direito, dependendo da posição que tu está, tem um banco, assim, em meia-lua, aí, tem uma passarela no meio e do outro lado também tem. Pois é, um deles é chamado o “sofá da Hebe” <risos>. [Mílton] <risos> Sofá da Hebe?!

presentes na praça, vale ressaltar o da República, cuja pedra fundamental foi assentada em 15 de novembro de 1890, no governo de Justo Leite Chermont, que desejou comemorar um ano de proclamação da república com a instalação do referido monumento, feito pelo escultor genovês Michele Sansebastiano.” 35 A procissão do Círio acontece no segundo domingo de outubro, pela manhã, e faz o sentido inverso à Trasladação. Enquanto que esta “leva” a imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré até a Catedral Metropolitana de Belém (Igreja da Sé), no sentido Nazaré-Cidade Velha, a primeira faz o contrário, retornando com a imagem para a Basílica de Nazaré, sentido Cidade Velha-Nazaré. A Trasladação acontece nas noites do sábado que antecede ao Círio e o próprio Círio acontece aos domingos pela manhã, sempre no segundo domingo do mês de outubro.

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[P.H.] Quando eu fiquei sabendo disso eu tive uma crise de risos. [Mílton] O lugar de sentar? [P.H.] Eu fiquei me perguntando: “Quem foi o viado que teve essa ideia genial?”. Porque não é possível uma coisa dessa. Aí, tá. Com o tempo eu percebi que todos os lugares tinha apelido. Um coreto é chamado a “casa da Barbie”. Uma passarela meio grande, que dava acesso pra esse “sofá da Hebe” é chamado “passarela do Big Brother”. Um castelinho que tem lá, esse tu deve saber, né?! [Mílton] Na parte mais alta? [P.H.] É um castelinho que fica no canto da Presidente Vargas. [Mílton] Na parte mais alta da praça? [P. H.] Isso, exatamente. É chamado de “Casa dos artistas”. (Trecho da entrevista com P. H., 27 anos, 24/01/2012).

A Praça da República, que ocupa uma posição central na dinâmica cultural- político-festiva da cidade, pois é ladeada pela principal rua do centro econômico da cidade, a Avenida Presidente Vargas, ganhou uma nova dimensão com o trecho acima, pois quem a conhecia somente como um lugar de passagem pelo centro econômico da capital pôde perceber a partir da entrevista com P. H. que ela está para além desse único referencial. Compreendendo assim, que este recanto de descanso para alguns, de passagem para outros pode tornar-se um ponto de encontro e flerte entre sujeitos dissidentes.

2. Trajetória de pesquisa: da boate à academia

Nesta seção proponho descrever as minhas experiências de campo no circuito GLS de Belém a partir da memória da primeira vez em que estive numa boate, observando que a memória é sempre algo construído e que, de acordo com Michael Pollak (1989, p. 3), é “o que é comum a um grupo e o que o diferencia dos outros, fundamenta e reforça os sentimentos de pertencimento e as fronteiras sócio-culturais”. Portanto, a primeira vez que estive numa boate foi no terceiro domingo de julho de 2007, eu tinha nessa época 23 anos, e entrava “tarde” no circuito das boates gays, pois a partir de conversas com amigos/amigas e interlocutores descobri que essa entrada se dava muito mais cedo, por volta dos 16 anos. E como Pollak (1989) chama atenção, eu estava começando a me sentir parte da comunidade LGBT e a partir desse momento começava a acessar a memória coletiva de grupo de pertencimento. Para exemplificar esse acesso a uma memória, o que mais me recordo nesta primeira ida não é das pessoas com quem conversei ou que conheci, é óbvio que fui com

51

amig@s de quem gosto e conversei com pessoas com as quais mantenho contato, mas o símbolo daquela experiência encontra-se explicitado no símbolo máximo da comunidade LGBT: a bandeira do arco-íris 36 . A antropóloga Isadora Lins França (2007a, p. 299) chama atenção para o compartilhamento simbólico mantido entre militância e mercado, justamente no que diz respeito ao uso da bandeira:

Além das mudanças estruturais em relação ao mercado GLS, há também uma transformação considerável na forma como ele se constitui e se apresenta: os espaços de consumo e sociabilidade passam a incorporar, em certa medida, elementos do discurso ativista do orgulho e da visibilidade, explicitando o seu direcionamento a um público de orientação sexual determinada e compartilhando alguns símbolos com o movimento GLBT, como é o caso da bandeira do arco-íris, que passa a ser comum em lugares GLS e em muitas atividades do movimento.

Em vista do exposto acima, observei que a maioria dos lugares ostentava uma bandeira ou as cores do arco-íris para identificar o lugar como espaço GLS 37 . Após esse primeiro contato, passei a frequentar as boates GLS com maior intensidade, até porque já havia perdido o medo de ser “descoberto”, pois nessa primeira ocasião estive na companhia de uma prima. Naquela época, em 2007, as boates e bares que mais “bombavam 38 ” eram: a Lux Club e o Fetiche, no bairro do Reduto; o bar da Ângela, no Guamá; o bar Veneza, na Cremação; a Vênus, na Marambaia; e a Rainbow, na Rod. Augusto Montenegro. Este último foi o lugar do meu rito de passagem. Dos bares e boates descritos acima, com exceção do Fetiche, que depois de um tempo mudou de nome passando a chamar-se “Paparazzo” – e que durante o período de campo estivera aberto, mas logo depois encerrou as atividades , todos os outros continuam

36 Na verdade existe uma diferença entre a bandeira do arco-íris, que muit@s insistem em relacionar ao movimento LGBT, e a bandeira da diversidade (essa uma variação do arco-íris). Enquanto a primeira possui 7 cores (vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e roxo), a segunda possui 6 cores (vermelho, laranja, amarelo, verde, azul e roxo). No entanto, o arco-íris permanece como símbolo do Movimento LGBT no Brasil e no Mundo, tendo sido criado para a Parada Gay da Liberdade de São Francisco, em 1978 (cf. Manual de Comunicação LGBT, 2009).

37 França (2007b, p. 238) diz: “Com a popularização da sigla GLS, a distinção entre um estabelecimento gay e “GLS”, se é que um dia foi tão efetiva quanto gostariam os autores da sigla, perdeu-se bastante, e hoje é muito comum a utilização das duas denominações como sinônimos. Mesmo espaços nitidamente segmentados, como saunas gays, podem ser definidas como GLS, indicando que o termo passou a ter significados não previstos originalmente e mesmo em oposição aos quais haviam surgido”. 38 Termo usual no meio GLS que designa um lugar com muita gente e que, provavelmente, possibilite encontros afetivo-sexuais.

52

abertos. No período compreendido entre 2007 e 2010, ainda abriram-se outros: o Malícia (que já foi Pub, Gold e agora é Hot), o Amnésia Pub (que depois transformou-se no bar lésbico Moulin Rouge), a Sputinik (que hoje dá lugar a R4 Point), a Hache; além de outras que encerraram atividades sem que eu conhecesse. Tendo em vista a dificuldade em determinar o que é bar e o que é boate, recorro às definições “perigosas 39 ” expostas por Carlos Henning (2008), na etnografia dos bares e boates em Florianópolis, para assim classificar os lugares de sociabilidade homoerótica em Belém, pois onde aparece o artigo “a” antes dos lugares objetivo que se leia como “boate” e quando aparece o artigo “o” tenciono que se leia “bar”:

Bar: quando não há pista de dança e a interação não permanece centrada na dança. : quando não há pista de dança e a interação não permanece centrada na dança. Haveria uma tendência das pessoas permanecerem mais sentadas, no consumo de bebidas e conversas entre os presentes. As pessoas viriam mais para conversar, beber e encontrar outras pessoas do que propriamente para dançar. Geralmente os bares têm espaço físico mais reduzido que as boates.

Boate: quando há pista de dança a interação social está centrada nas relações que se : quando há pista de dança a interação social está centrada nas relações que se estabelecem na pista (danças, conversas, exposição, flertes, etc.). As pessoas também viriam para conversar, beber, encontrar alguém, mas a presença e importância da pista de dança e o dançar em si - seria muito relevante (HENNING, 2008, p. 46).

Então, hoje, contabilizo na cidade de Belém 6 boates (Malícia, Lux, Hache, Rainbow, Vênus e R4 Point), 2 bares (Bar da Ângela e Veneza), 4 saunas (Calypso, Paradise, Reduto e Thermas 21) e 1 cinema (Cine Ópera), sendo que ainda existem outros pontos de sociabilidade homoerótica, como: o Sex Shop “Comprinhas Quentes” com cabines individuais de projeção e locação de vídeos pornôs, localizado no Telégrafo; os banheiros dos shopping centers e das grandes lojas de departamentos, localizadas nos mais diferentes bairros da cidade; a Doca; e a não menos observável Praça da República, tradicional ponto de sociabilidade homoerótica, prostituição e michetagem, localizada no centro da cidade, como descrito acima.

3. De bares, boates, saunas e cinema: Belém e o circuito GLS

39 Digo perigosas porque Henning (2008) afirma que existia um descompasso nas considerações dos proprietários sobre os lugares, se eram bares ou boates, em contrapartida dos frequentadores dos mesmos.

53

Como dito acima, a cidade de Belém comporta inúmeros lugares de sociabilidade LGBT onde os indivíduos podem compartilhar os códigos do gueto, como o bajubá 40 , por exemplo, além de participar do fervo 41 . Entretanto, é mister fazerem-se as ressalvas quando ao estabelecimento de gueto gay no Brasil, pois diferente do que aconteceu nos EUA, aqui não se estabeleceu o que os últimos escritos e entrevistas de Foucault (2009 e 2010) evocam, quando este percebe a importância da amizade para a configuração de uma comunidade exclusivamente formada com base na sexualidade. Numa entrevista dada a uma publicação francesa, Foucault (2009), impressionado com a organização social dos gays na Califórnia, nos Estados Unidos, afirma que este é

Um modo de vida [que] pode ser partilhado por indivíduos de idade, estatuto e atividade sociais diferentes. Pode dar lugar a relações intensas que não se pareçam com nenhuma daquelas que são institucionalizadas e me parece que um modo de vida pode dar lugar a uma cultura e a uma ética. Acredito que ser gay não seja se identificar aos traços psicológicos e às máscaras visíveis do homossexual, mas buscar definir e desenvolver um modo de vida. (FOUCAULT, 2009, p. 2-3)

Richard Miskolci (2009), no texto onde faz uma relação entre a vida de Michel Foucault e Oscar Wilde, a partir da estética da existência 42 , afirma que

Os bairros gays norte-americanos não haviam resultado de um projeto nem tiveram em sua origem a inspiração em modelos pré-existentes ou intelectualizados. Estes espaços de resistência cultural surgiram de práticas fundadas na experiência conjunta do amor por pessoas do mesmo sexo. Eles abriram seu lugar nas cidades em um processo social e político de adensamento em torno da vizinhança, constituição de novas sociabilidades e estilos de vida. O contato e a vivência deste experimento norte-americano levou Foucault a refletir sobre a homossexualidade como uma forma criativa de aceder a um estilo de vida que seria uma reação à psicologização de si mesmo (MISKOLCI, 2009, p. 12).

40 Ver Silva Filho (2010).

41 Categoria êmica que se refere à festa, festejo, mas ao se esgarçar o termo podemos ligá-lo, também, à bagaceira.

42 “A estética da existência consistiria na elaboração de uma relação não-normativa consigo mesmo, a formação de si mesmo como decisão ético-estética. É uma atitude política fundada na resistência às formas impostas de subjetividade, o que Foucault prefigurou na forma como a vida comunitária gay reabilitara a amizade de forma a não a dissociar do sexo. Desde a Antiguidade, a amizade tendia a ser compreendida como uma relação que excluía a sexualidade, mas foi no Cristianismo que sua ‘ambiguidade’ foi resolvida por Santo Agostinho, o qual substituiu a philia pela ágape, ou seja, a amizade pelo amor ao próximo fundado na cáritas cristã. A política da amizade proposta por Foucault não reverte apenas esta ‘dessexualização’. Sua proposta de uma ascese e uma forma de vida gay fundadas na amizade tem como objetivo a constitução de uma comunidade em bases não-identitárias” (MISKOLCI, 2009, p. 15).

54

Enquanto nos EUA desenvolveram-se gays ghettos”, nos moldes da escola sociológica de Chicago, tendo Robert Park (1987) como o grande expoente, no Brasil isso mostrou impossível, uma vez que não foram desenvolvidos os quatros principais critérios para a configuração do gueto, em seu sentido stricto: concentração institucional, concentração por “área de cultura”, isolamento social e concentração residencial (PERLONGHER, 1987, p. 53; FRANÇA, 2006, p. 32). Portanto, nem as grandes metrópoles brasileiras, como São Paulo, desenvolveram os ditos guetos gays 43 , no entanto, construíram-se grandes manchas de sociabilidade e lazer mediadas pelo mercado 44 , de prostuição de michês 45 e travestis 46 , de sociabilidade entre mulheres 47 e de clubes de sexo masculinos 48 na capital paulistana. No Rio de Janeiro, Guimarães (2004) esboça o pequeno circuito estabelecido entre os entendidos pela orla de Copacabana. E, em Santa Catarina, Henning (2008) recompõe parte da mancha de lazer GLS na ilha de Florianópolis. Esses espaços, no contexto da segmentação de mercado 49 , começam a se consolidar nos anos 1990, no Brasil, mas especialmente em São Paulo, pois de acordo com França (2007b)

Desde meados da década de 1990, o que se conhecia como o “gueto” homossexual começa a se transformar num mercado mais sólido, expandindo-se de uma base territorial mais ou menos definida para uma pluralidade de iniciativas, que não deixam de comportar um circuito de casas noturnas, mas que também envolve, hoje, o estabelecimento de uma mídia segmentada, festivais de cinema, agências de turismo, livrarias, canais de TV a cabo, inúmeros sites, lojas de roupas, entre outros. Tal expansão vem acompanhada da proliferação de diversas categorias pautadas por estilos de vida como as barbies 50 , ursos 51 e coroas 52 e de uma crescente

43 Embora Julio Simões e Isadora França (2005, p. 309-310) considerem como “gueto homossexual”: “espaços urbanos públicos ou comerciais parques, praça, calçadas, quarteirões, estacionamentos, bares, restaurantes, casas noturnas, saunas –, onde as pessoas que compartilham uma vivência homossexual podem se encontrar”.

44 Ver Simões e França (2005) e França (2006, 2007a, 2007b, 2010).

45 Ver Perlongher (1987 e 2005).

46 Pelúcio (2007).

47 Facchini (2008).

48 Braz (2010).

49 França (2006).

50 “Homens de aparência viril, que exibem um corpo musculoso e trabalhado fisicamente” (nota 6, p. 233).

51 “Homens que se identificam com códigos de masculinidade e valorizam atributos como a gordura e os pêlos, em contraposição às barbies” (nota 7, p. 233).

52 “Homens mais velhos, que também se identificam como maduros e frequentam espaços destinados a esse público, assim como sites de encontros e festas em que são valorizados no mercado afetivo-sexual” (nota 8, p.

55

segmentação de espaços de consumo destinados a cada uma delas. A segmentação de espaços destinados ao público homossexual acontece simultaneamente a um processo de multiplicação de identidades no interior do movimento GLBT: além das grandes categorias de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais assumidas pelo movimento homossexual, emergem também subgrupos, incentivados pela proliferação de fóruns e listas de discussão na internet e pertencentes principalmente ao segmento dos gays (grupos de advogados gays, judeus gays, adolescentes gays, surdos gays, etc.) (p. 232).

É nesse contexto que surge a categoria GLS. Se a ideia norte-americana de friendly

refere-se a espaços frequentados predominantemente por heterossexuais, nos quais homossexuais são bem vindos, a ideia brasileira de GLS segue o caminho inverso: o S da sigla indica “simpatizante”, tendo como ponto de partida espaços frequentados majoritariamente por homossexuais e revelando uma intenção de expandir as fronteiras do “gueto”, quando propõe abarcar também consumidores que não se identificam como homossexuais, mas que de alguma forma participam desse universo (p. 235).

E Belém seguiu os padrões estabelecidos nas outras capitais brasileiras, onde não existem bairros exclusivamente gays, sendo estes integrados à manchas maiores de lazer e sociabilidade, e o mercado não se segmentou a tal ponto, sendo comum encontrarmos no mesmo ambiente: ursos, barbies, coroas, pintosas, travestis, andróginos, lésbicas e “sem rótulos”. E o circuito GLS está presente dentro da mancha de sociabilidade que existe, principalmente, nos bairros do Reduto e Umarizal atualmente. Assim, com exceção das boates Vênus e Rainbow e do bar da Ângela os dois primeiros localizados na saída de Belém, nos bairros da Marambaia e Nova Marambaia e o último no bairro do Guamá as boates tendem a ser manter nos arredores de outros circuitos festivos possibilitando um contato de várias pessoas e segmentos (sexuais, sociais, econômicos). Por exemplo, a boate Lux está, atualmente, próxima a uma das esquinas mais movimentas nos finais de semana, as da Av. Senador Lemos com a Almirante Wandenkolk; sendo que das quatros esquinas, três são ocupadas por estabelecimentos de lazer. França (2007b), ao falar do mercado segmentado paulistano e do salto no número de estabelecimentos direcionados à LGBTs, expõe um receio, haja vista

A identificação dos espaços de consumo ligados ao público homossexual como GLS

sem dúvida impulsionou a expansão desse mercado e possibilitou sua visibilidade para além do “gueto”. Esse processo caminhou junto com a incorporação gradativa da categoria GLS ao cenário de lazer noturno da cidade e GLS passou a ser indicador não mais de uma atitude “moderna”, perdendo os ares de contestação e novidade que a ela se agregaram logo que surgiu e passando a denominar qualquer

casa noturna ou iniciativa do mercado dirigida a homossexuais. É importante notar que esse novo mercado GLS também absorveu os antigos espaços de sociabilidade homossexual de forma diferenciada. O seu desenvolvimento é atravessado por relações de poder que empurram “mais gordos”, “mais velhos”, pobres, negros, travestis, michês e “efeminados/masculinizadas” para os espaços marcados por um menor prestígio social e menos integração a circuitos globais. Seu caráter excludente surge com força quando olhamos para as pessoas nas pontas mais marginalizadas socialmente, às quais não é permitido exercer sequer o papel de consumidoras (p. 237).

Durante o campo, pude perceber que os usos e as utilidades que se dão aos espaços de sociabilidade dependem da maneira como cada indivíduo constrói sua subjetividade, constrói uma identidade que o levará a frequentar determinado lugar. Por exemplo, um bar voltado para uma clientela lésbica pode ser um lugar a ser evitado por gays. O contrário também é verdadeiro. Ouvi algumas menções a isso, como o fato de alguns gays declararem não gostar do bar Veneza, por exemplo, por ser freqüentado quase que exclusivamente por mulheres lésbicas e por tocar determinado tipo de música, mais lenta que as batidas eletrônicas, em geral MPB. Ou na evitação de algumas lésbicas às boates, por ter um número elevado de homens e um som que impediria uma conversa mais prolongada.

É

nesse momento que a sociabilidade aparece como

 

(

)

um dos conceitos que permitem aprofundar a compreensão do modo como se

organiza a sociedade através de uma associação básica (

)

um tipo ideal entendido

como o “social puro”, forma lúdica arquetípica de toda a socialização humana, sem quaisquer propósitos, interesses ou objetivos que a interação em si mesma, vivida em espécies de jogos, nos quais uma das regras implícitas seria atuar como se

todos fossem iguais (FRÚGOLI JUNIOR, 2007, p. 9).

 

E

a sociabilidade entre LGBTs no interior do circuito GLS de Belém adquire em

alguns momentos um ar de déja vu por existirem poucos espaços disponíveis para o lazer sem coerções, conforme demonstrei em capítulo anterior. Durante o campo que realizei em todas as boates e bares reconhecidamente GLS, era comum o sentimento de que as pessoas iam sempre para os mesmos lugares. E muitas vezes fui reconhecido pelos/as frequentadores/as e alguns funcionários/as, por fazer-me presente em quase todos os finais de semana 53 .

53 A expressão mais comum nesse tipo de situação é: “Tu já tens a carteirinha daqui, né?”.

57

Entre os anos de 2010 e 2011, desenvolvi o campo sem qualquer tipo de relação

com os proprietários e gerentes dos lugares pesquisados, sendo que era possível usufruir

dos lugares tanto quanto qualquer cliente, apenas mantendo contatos dentro dos bares e

boates com poucos funcionários, com a finalidade de entender algumas práticas e hábitos de

consumo. Outra forma de obter pistas e poder entender o que acontecia nestes ambientes

era por meio das conversas 54 , seja com amigos/as, conhecidos/as de amigos/as e

interlocutoras/es. Quase sempre, a partir dessas redes, conseguia-se saber os lugares mais

frequentados, os lugares que estavam “bombando 55 ”, os lugares “uó 56 ”, quai os lugares que

as “bichas finas 57 ” freqüentavam e para onde iam as “pererecas 58 ”, além de saber quem

eram as cantoras/es que estavam em evidência nas pistas de dança. E, de acordo com os

quadros abaixo, exponho os lugares onde pessoas homo-orientadas costumam se encontrar

e se (re)conhecer, a começar pelas boates:

BOATE MALÍCIA HOT LUX DANCE PUB R4 POINT RAINBOW CLUB BOATE VÊNUS DIAS DE FUNCIONAMENTO

BOATE

MALÍCIA HOT

LUX DANCE PUB

R4 POINT

RAINBOW CLUB

BOATE VÊNUS

DIAS

DE

FUNCIONAMENTO

SEXTA E SÁBADO

SEXTA E SÁBADO

QUINTA, SEXTA E SÁBADO

DOMINGO

QUARTA, SEXTA,

PÚBLICO

PREDOMINANTE

GAYS E LÉSBICAS

GAYS, TRAVESTIS, TRANSEXUAIS, DRAG QUEENS E LÉSBICAS

GAYS, TRAVESTIS, TRANSEXUAIS, DRAG QUEENS E LÉSBICAS

GAYS, TRAVESTIS, TRANSEXUAIS, DRAG QUEENS E LÉSBICAS

GAYS E LÉSBICAS

DRAG QUEENS E LÉSBICAS GAYS, TRAVESTIS, TRANSEXUAIS, DRAG QUEENS E LÉSBICAS GAYS E LÉSBICAS SHOW NÃO

SHOW

NÃO

SIM

SIM

SIM

NÃO

54 Frúgoli Junior (2007) assim descreve esse procedimento metodológico: “Uma distinção significativa na obra de Simmel, entre forma e conteúdo, clarifica-se noutra modalidade básica de sociabilidade, a conversação (principalmente a despida de fins práticos), cujo conteúdo não é o propósito (embora a conversa não deva ser desinteressante), mas o meio pelo qual o vínculo social se mantém enquanto forma (independente, portanto, das mudanças fáceis e rápidas de assunto). Assim, através das trocas de palavras, os participantes zelam pela relação em curso, por meio de regras de amabilidade e etiqueta voltadas à circunscrição de qualquer exacerbação das individualidades(p. 10).

55 Categoria êmica para explicar os lugares mais divertidos, animados, agitados, com maior possibilidade de arranjar um encontro amoroso e/ou sexual, os que tocam as músicas mais recentes e que estão fazendo sucesso, etc.

56 Termo êmico, do bajubá, sinônimo de “algo ruim”, “mau”, “podre”, etc.

57 Termo êmico, do bajubá, que qualifica um homossexual de acordo com atributos positivos, sejam eles de raça, classe, performance de gênero, atividade sexual, escolaridade, etc.

58 Termo êmico, do bajubá, que desqualifica um homossexual, de acordo com atributos negativos, sejam eles de raça, classe, performance de gênero, atividade sexual, escolaridade, etc.

58

 

SÁBADO E

   

DOMINGO

HACHE CLUB

SEXTA E SÁBADO

GAYS E LÉSBICAS

NÃO

Quadro 1: Boates. Fonte: Pesquisa de Campo, 2010 e 2011.

A frequência de pessoas hetero-orientadas é visível em quase todo o circuito

GLS, sendo que a grande maioria é composta por mulheres, as fag hags 59 , acompanhando

seus amigos gays, num fenômeno curioso que poderia ser tema de pesquisa, pois muitas

dessas mulheres acabam “ficando” com gays e lésbicas, após algumas doses extras de

bebidas alcoólicas, como presenciei algumas vezes.

A presença ou não de show, geralmente de drag queens, algumas vezes de go go

boys e pouquíssimas vezes de go go girls, define a lotação da casa. Por exemplo, em dia de

finais de concursos, no estilo concurso de miss ou de beleza, boates como a Lux, Rainbow e

R4 Point e Vênus costumam cobrar mais caro e a lotação chega à beira do insuportável,

tamanha a quantidade de pessoas que vão torcer para @s candidat@s. Sendo que, a boate

Lux é a referência na prática desses concursos (herdeira da antiga Go!), mantendo no seu

calendário anual alguns bastantes disputados, como: o Beleza Negra, o Top Blond, o Miss

Pará Gay.

Em contraposição, os bares, como não possuem pista de dança, são geralmente

compostos por amplos salões com mesas e cadeiras, no entanto, dos dois bares do quadro

abaixo, somente o Veneza mantém shows ao vivo de cantores paraenses, variando no estilo

conforme o dia da semana, tocando de pagode a axé, passando por MPB e sertanejo.

Enquanto, que no Bar da Ângela o som é operado por uma DJ, que dificilmente toca drag

music 60 , dando preferência para ritmos locais como tecnobrega e tecnomelody, mas

mesclando com axé, samba, pagode e sertanejo.

Um dado interessante de pesquisa é que a frequência de mulheres lésbicas nas

boates é pequena se comparada ao número delas nos bares. Nestes lugares, estão quase

sempre acompanhadas de suas parceiras e quase nunca são vistas sozinhas. As conversas

informais que tive com algumas mulheres lésbicas apontam uma rejeição à batida

59 “Mulheres (que geralmente não se consideravam lésbicas) com laços fortes de amizade com homens gays”. Henning (2008, p. 79) dedica algumas páginas a microgenealogia desta categoria e a relação destas no circuito de Florianópolis. 60 Música eletrônica dançante, que possibilite o chamado “bate-cabelo”, ou seja, uma performance de dança que envolve movimentos corporais enérgicos e frenéticos.

59

eletrônica, tendência nas casas noturnas, preferindo um som com “mais letra”, ou seja, a

preferência por bares é explicada pelo fato delas preferirem escutar MPB, samba ou rock

nacional cantado por cantoras, de preferência ao vivo.

BAR

DIAS

DE

FUNCIONAMENTO

PÚBLICO

PREDOMINANTE

MÚSICA AO VIVO

TERÇA, QUARTA, QUINTA, SEXTA, SÁBADO E DOMINGOO

VENEZA

LÉSBICAS E GAYS

SIM

REFÚGIO DOS ANJOS

BAR EXTERNO:

TODOS OS DIAS BAR INTERNO:

SÁBADO E

DOMINGO

LÉSBICAS E GAYS

NÃO

Quadro 2: Bares. Fonte: Pesquisa de Campo, 2010 e 2011.

Durante a pesquisa, não frequentei as saunas, portanto elas não se encontram

na descrição dos lugares que faço na sessão seguinte. Porém, cheguei a visitar uma sex shop

anexo a uma delas, no qual conheci, além do salão com os mais variados brinquedinhos

eróticos, a videolocadora com filmes pornôs de todos os gêneros. Esta videolocadora

mantém ainda pequenas cabines que podem ser alugadas para encontros sexuais fortuitos.

Nas entrevistas, pude entender um pouco da dinâmica do lugar, assim como das

conversas que tive com amigos que as frequentam, e uma característica marcante nas

saunas de Belém, principalmente as que fazem parte do circuito GLS, é a inexistência de

mulheres (lésbicas, transexuais ou travestis) nos espaços de convivência interno, exceto pela

presença das funcionárias, que mesmo assim, são direcionadas apenas para a recepção.

Então, a presença masculina, como todas as suas variações, é percebida a partir da

circulação do contingente de homens gays e homens que fazem sexo com homens 61 entre as

cabines, chuveiros, salas de vapor e bar. Dessa forma, as saunas abaixo compõem também

este circuito de sociabilidade:

61 “Homens que fazem sexo com homens” ou HSH é um termo utilizado pelo Ministério da Saúde, dentro da política de prevenção às Infecções Sexualmente Transmissíveis e ao HIV-AIDS (ISTs/HIV-AIDS), para caracterizar homens que não se consideram gays mas que mantêm práticas homoeróticas.

60

SAUNA POSSÊIDON PARADISE REDUTO THERMAS 21 DIAS DE FUNCIONAMENTO TODOS OS DIAS TODOS OS DIAS

SAUNA

POSSÊIDON

PARADISE

REDUTO

THERMAS 21

DIAS

DE

FUNCIONAMENTO

TODOS OS DIAS

TODOS OS DIAS

TODOS OS DIAS

TODOS OS DIAS

PÚBLICO

PREDOMINANTE

GAYS E HSH

GAYS E HSH

GAYS E HSH

GAYS E HSH

Quadro 3: Saunas. Fonte: Pesquisa de Campo, 2010 e 2011.

Com uma configuração distinta as saunas, temos em Belém um único “cinema de

pegação” em que os contatos homocorporais são permitidos, pois é também o único cinema

com exibição de filmes pornôs HT 62 da cidade (quadro abaixo). É localizado na Av. Nazaré,

em frente ao Centro Arquitetônico de Nazaré. O CAN, como é mais conhecido, é uma praça

em frente à Basílica de Nazaré, de onde parte o Círio de Nazaré. Há alguns anos era

avizinhado de outras duas salas de cinema, mas ambas acabaram fechando.

CINEMA

DIAS

DE

FUNCIONAMENTO

PÚBLICO

PREDOMINANTE

ÓPERA

TODOS OS DIAS

GAYS, HSH e TRAVESTIS

Quadro 4: Cinema. Fonte: Pesquisa de Campo, 2010 e 2011.

O público deste lugar é composto basicamente por gays, HSH e travestis.

Durante as minhas conversas, quase sempre escutava uma menção ao Ópera, como lugar

propício ao contato sexual, pois a demanda erótico-sexual é facilitada pelo clima à meia-luz

do cinema, sendo referendado como um lugar propício à transa ocasional, pois já foi mais

famoso e vistoso na paisagem da cidade, mas que agora é retratado como um lugar de

decadência.

4. Descrição dos bares e boates

4.1. Malícia Hot

62 De heterossexual e refere-se à classificação da indústria de entretenimento adulta, na qual os filmes são classificados de várias maneiras, mas que para esse momento não é importante explicitar.

61

a) mapa e localização

a) mapa e localização Imagem 5 : Boates Lux e Malícia. Fonte : Google Mapas, 2011.

Imagem 5: Boates Lux e Malícia. Fonte: Google Mapas, 2011.

A boate Malícia Hot fica localizada na Rua Rui Barbosa, entre as Ruas Senador Manoel Barata e 28 de Setembro. A maneira mais comum de se chegar nela, para quem não possui carro próprio, é descer do ônibus na Avenida Visconde de Souza Franco, a Doca, em frente à sede do SESC, que fica na esquina Manoel Barata, e descer duas ruas até a Rui Barbosa. Eventualmente, durante o campo, fazia esse trajeto, a não ser quando ia de táxi com amigos.

b) funcionamento

Na sexta e sábado, a partir das 22h até amanhecer. Excepcionalmente, pode ocorrer um evento na quarta-feira. Mas, geralmente, são as noites de sexta e sábado os dias de maior fluxo, sendo as noites de sábado o horário em que a boate está mais cheia, onde é quase impossível trafegar sem esbarrar em alguém. Durante o período de campo foi mais frequente a minha presença nas noites de sábado. O preço da entrada varia de r$ 20, a r$

40,.

62

c) descrição do ambiente

A fachada da boate mudou desde o início da pesquisa, em 2010, quando ainda era possível diferenciar o antigo bar Stand By, contíguo à boate, da fachada do Malícia que tinha o nome de Malícia Pub, depois mudou para Malícia Gold e agora se chama Malícia Hot mas que mantinha uma separação interna estrutural. Após uma reforma, o bar de dois pavimentos, onde funcionavam bilhares foi anexado à boate e formou-se uma única fachada. A fachada não diferencia muito das fachadas das outras casas do bairro, a não ser pela intensa circulação de pessoas, nos finais de semana, por um discreto número de seguranças à porta, e uma bilheteria aberta para rua. E também pela placa anunciando que ali é uma boate. Ao entrar é possível ver, do lado esquerdo, um bar com dois ou três atendentes, que fazem o preenchimento da comanda, que não inclui o preço da entrada, dependendo do dia e da atração. Nesta comanda serão anotados os gastos no interior da boate, seja com bebida e/ou lanches. Do lado direito é possível avistar, por outro ângulo, a bilheteria, que se reserva agora a fazer o papel inverso: o de cobrar a comanda e liberar o passe para saída da boate. Essa primeira parte é separada dos ambientes internos por uma porta de vidro e alguns degraus, sendo a porta manuseada por um segurança. Após a passagem da porta de vidro, é possível visualizar o primeiro ambiente da casa, com um bar à esquerda e uma pequena pista de dança, separada por alguns degraus e paredes abertas, dando um clima de uma casa em construção parecido com a arquitetura d’A Lôca, em São Paulo 63 , porém as paredes são pintadas e não deixadas no reboco como na boate paulistana. Esse primeiro ambiente possui três pequenas pistas, sendo uma do lado direito, acessada por dois degraus abaixo, e uma em frente, que possui a escada que leva aos ambientes superiores e um pequeno palco que serve de sofá para os mais cansados ou para os casais. O segundo ambiente do piso térreo é acessado à direita do primeiro, ultrapassando-se apenas uma porta. Lá a música, invariavelmente, é outra. Após a entrada, é possível ver que o ambiente mudou, não por conta apenas da música, mas porque é um ambiente mais escuro que o primeiro. À direita da entrada fica uma pista de dança e à

63 Entre os meses de agosto e setembro de 2011 fui à São Paulo e conheci um pouco do circuito GLS da cidade. Conheci as boates A Lôca e Blue Space, assim como o shopping Frei Caneca, o bar d’A Lôca e alguns outros pontos da região da Paulista.

63

esquerda um bar e um corredor. Este corredor também liga os dois ambientes, por meio de outro corredor, e dá acesso a uma pequena sala em frente a um dos banheiros da casa. Um outro banheiro é localizado atrás da pista que contém a escada e o corredor que dá acesso a ele também da acesso a um jardim de inverno, que dá acesso ao dark room. No pavimento superior, assim que se saia das escadas, é possível visualizar o lounge da boate. Uma televisão passa videoclipes durante as horas de funcionamento da boate. Neste lounge existe um grande sofá e alguns puffs onde é possível descansar e/ou namorar tranquilamente, pois é um ambiente, geralmente com poucas pessoas e tem um ar mais intimista propiciado pela iluminação. À esquerda do lounge existe um bar que vende bebidas e lanches. E mais à esquerda do bar, a área aberta do bar. Neste local é possível fumar, o que é proibido no resto da boate, e conversar mais à vontade, além de poder se alimentar. Durante o campo, esse lugar servia para repassar as anotações do diário e/ou conversar com os amigos sobre as impressões da noite.

d) público e hábitos de consumo

O público no Malícia é definido como o das “bichas-finas 64 ”, onde é possível ver uma quantidade grande de pessoas com nível universitário em formação ou concluído. Durante o campo, em todas as vezes que estive na boate, reconheci pessoas ou grupos de pessoas que encontrava na universidade durante a semana. Assim, como há uma grande preocupação com a aparência, evidenciadas nos usos que fazem das marcas e grifes consideradas “finas”, como Calvin Klein, Colcci, Fórum e outras. A percepção desses produtos se faz pela visualização dos logotipos presentes nas cuecas à mostra ou estampados nas camisetas e calças ou pelo uso de perfumes considerados caros. Onde o uniforme para os meninos é calça jeans, camiseta/camisa e sapato e para as meninas vestido ou jeans e camisa, todos em consonância com as últimas coleções das passarelas de moda. Com relação ao consumo de bebidas é mais frequente neste espaço o uso do ice 65 em detrimento à cerveja, não que esta última seja descartada, até porque a casa proporciona

64 Categoria êmica encontrada pelo pesquisador e amigo de campo Ramon Reis (2010), que desenvolvia uma pesquisa comparando os tipos de contatos homoeróticos masculinos, com perspectiva ou não de namoro, interação erótico-sexual e amizade, que se desenvolviam nas boates Lux e Malícia. 65 Bebida alcoólica composta de uma fração pequena de vodka ou cachaça misturada a suco artificial e gasificado.

64

uma variedade de drinques, mas porque, como foi dito numa conversa, é “símbolo da riqueza”.

A música apresentada nos ambientes é sempre eletrônica, sendo compostas por sucessos atuais e remixes de música antigas, como é o caso da música Wannabe, sucesso na década de 1990, da banda Spice Girls. É comum, conforme conversa com produtor e DJ de boates GLS de Belém, os DJs residentes e convidados acessarem sites especializados em música eletrônica, como o Ômega Hitz, para estarem atualizados sobre as músicas mais tocadas nas boates do eixo sul-sudeste. Durante a pesquisa, utilizei principalmente o Twitter para me manter conectado a algumas redes de DJs do sul-sudeste, como Katylene e Las Bibas From Vizcaya, a fim de identificar depois em campo os hits da temporada. Esse foi o caso do sucesso “Eu sou rica 66 ”, que rendia gritos exagerados dos ouvintes nas pistas das boates que frequentei durante o campo. Nesta boate era pouco frequente o trânsito de travestis, transexuais e andróginos 67 no interior e arredores da casa. Até o trânsito de mulheres era pouco, tendo crescido nos últimos meses, mas sempre acompanhadas de grupo misto de amigos.

4.2. Lux Dance Pub

a) mapa e localização

66 Essa era uma frase da personagem Norma, vivida pela atriz global Carolina Ferraz, na novela “Beleza pura”. A personagem era rica e mau caráter e proferiu a frase num momento em que estava sendo acusada de vários crimes e que poderia vir a ser presa. A frase inteira é: “Sabe por que eu não vou acabar presa? Porque eu sou rica, eu sou rica!”. 67 É o modo como alguns garotos estão sendo chamados. Eles se vestem com roupas femininas e as misturam com peças masculinas, mas não se reconhecem como travestis. Talvez desconheçam a categoria cross-dresser. Durante o campo, era muito frequente encontrá-los nas muretas da Doca, conversando com amig@s. Depois desse aquecimento, era costumeiro encontrá-los na Lux.

65

Imagem 6 : Boates Lux e Malícia. Fonte : Google Mapas, 2011. Quando comecei a

Imagem 6: Boates Lux e Malícia. Fonte: Google Mapas, 2011.

Quando comecei a fazer a pesquisa, a Lux ficava na Rua Rui Barbosa, quase de esquina com a Rua Municipalidade. Em 16 de janeiro de 2011, encerrou suas atividades neste local e mudou-se para o atual endereço: Avenida Senador Lemos, próximo a Avenida Almirante Wandenkolk. Nessa localização a boate se encontra num dos cruzamentos mais movimentados nos finais de semana, pois em três das quatro esquinas, estão localizados bares, boates e restaurantes movimentados, como, por exemplo o bar Trânsito, o restaurante Roxy e a boate Woodhouse. A mudança para esse ponto deu uma nova dinâmica para os frequentadores, pois no antigo lugar era comum a presença de menores de idade, praticamente, a noite toda em frente à casa, pois o lugar era “mais escondido”, estando num local menos movimentado. Agora, com a nova localização, é pouco frequente a permanência dos mesmos em frente à boate, por ter um fluxo maior de carros, ônibus e pessoas, o que pode ocasionar uma “descoberta” deste freqüentador, que só tem duas opções: ou entram com identidades falsas , para manterem seguras suas identidades, ou passam rápido, não mais permanecendo nas imediações da casa.

b) funcionamento

66

Durante o campo, a casa funcionava às sextas e sábados e, excepcionalmente, às

quartas, das 21h até o amanhecer. As sextas-feiras são os dias mais movimentados, pois, no início da pesquisa, havia nesse dia uma temática particular, que barateava os custos da entrada e fazia promoção de bebidas, ela ficou conhecida como “Sexta Bagaço”. Nesses dias

o preço da entrada eram r$ 5,. E os dois ambientes da boate eram tomados por músicas

menos consideradas por alguns DJs residentes, mas que faziam sucesso com o público, como

o tecnobrega, forró, pagode e outros gêneros musicais considerados de péssima qualidade. Então, quando a boate mudou de lugar a festa temática às sextas-feiras acabou, porém mantiveram os preços baixos e promoções de bebidas.

c) descrição do ambiente

A antiga boate possuía uma fachada na cor preta, com uma placa no alto onde se podia visualizar o nome da boate em letras pretas sobre a bandeira da diversidade sexual, símbolo do movimento LGBT, conforme foto abaixo. A nova boate possui uma fachada semelhante, mas contém uma pérgula que, eventualmente, protege os frequentadores das chuvas.

que, eventualmente, protege os frequentadores das chuvas. Foto 1 : Fachada da Boate Lux. Fonte :

Foto 1: Fachada da Boate Lux. Fonte: Pesquisa de Campo, 2011.

67

A antiga boate possuía 3 ambientes de pistas, um dark room, além dos banheiros

e do bar. A entrada que dava para a rua possuía uma bilheteria à direita e a entrada, que era

um curto corredor, à esquerda. Assim que se entrava, era possível visualizar, à frente e a esquerda, o bar que tomava um terço do espaço da parede esquerda, ligando internamente as duas pistas , e à direita a bilheteria e o banheiro unissex. Este primeiro

ambiente era um lounge, com vários puffs, onde era possível sentar e conversar. Mas a música, já nesse ambiente, era alta. No final e à direita deste ambiente estava a entrada para a pista de dança, onde havia a outra metade do bar, um palco grande, onde aconteciam as apresentações, com um camarim atrás, os banheiros, um mezanino e o dark room. O mezanino, localizado no fundo da pista de dança, também era o local do DJ, e possuía puffs, onde as pessoas poderiam descansar e namorar olhando a pista. Contava ainda com uma pequena sala, onde existiam sofás e as pessoas poderiam namorar às escondidas. Ocasionalmente, esse espaço era reservado para convidados VIPs, quando ocorria uma programação menos usual, como no caso das apresentações de DJs do eixo sul-sudeste e/ou internacionais ou concursos de beleza, como, por exemplo, o Beleza Negra e Miss Pará Gay. Embaixo deste estava o dark room. O palco e camarim eram localizados à esquerda da entrada, assim como o acesso ao banheiro. Do lado direito da pista de dança, nos altos estavam localizadas duas pequenas plataformas, que eram acessadas por escadas presas à parede, nos quais os frequentadores podiam subir e dançar. Ou serviam de “palco” para os go go boys da boate. A boate nova é menor que a primeira e possui apenas uma pista de dança, bar, banheiros e dark room. À entrada da boate é possível visualizar a bilheteria à esquerda da única porta de acesso ao interior da casa. Na entrada, eventualmente, há uma hostess recepcionando os frequentadores. Quase sempre é uma travesti, mas já houve momentos em que era um dos funcionários da boate. A partir da porta o acesso se dá por um pequeno degrau para baixo. Logo em seguida, uma equipe de seguranças faz a revista. O acesso para

a pista pode dar-se pelo lado direito ou esquerdo, não sendo possível visualizá-la antes de

passar pelas cortinas. Esse espaço, na parte de cima, é ocupado pelo DJ. Assim que se entra

é possível ver, do lado esquerdo, um palco que ocupa quase que totalmente a parede. No entanto, diferente do antigo palco, este é mais baixo e pode servir como sofá, nos

68

momentos em que não há show. Não havia móveis, durante o período de campo, na pista de dança, sendo possível acessar apenas o balcão do bar para descansar, quando a casa estava cheia. E o balcão está localizado aos fundos da pista de dança, sendo necessário atravessá-la toda para poder comprar bebidas. Neste local, ao fundo da boate, estão o dark room e os banheiros, sendo acessados pela entrada à direita e passando por uma pia e espelhos, que servem de lavabo. O dark room é minúsculo, apenas um quadrado, e é ponto de encontro de quem sai do banheiro, porque passa por ele também. O banheiro possui duas partes e é unissex: uma com mictório e outra com vasos, onde é possível observar movimentos “estranhos” 68 durante a noite.

d) público e hábitos de consumo

A boate ficou conhecida como “bagaceira 69 ” pelos freqüentadores, pois possuía uma festa que assim era denominada, a “Sexta Bagaço”. E a fama pegou. Era frequente, durante o campo, quando pessoas conhecidas não sabiam que eu fazia campo na boate, referirem-se a ela como lugar de gente desqualificada, por comportar pessoas, estilos e corpos mais dissidentes entre os dissidentes. Era comum, por exemplo, ver pessoas de bermuda e chinelos, coisa impensável no Malícia, por exemplo. Eu mesmo uma vez fui de chinelos e bermuda e não fui alvo de quaisquer olhares ou recriminações, mesmo havendo um cartaz que proibia a entrada de pessoas nestes trajes. É comum o trânsito de travestis e transexuais, assim como dos andróginos. Talvez seja o ambiente em que, durante a pesquisa, eu tenha presenciado o maior tráfego dess@s sujeit@s. Então, como os preços variam entre r$ 5, e r$ 10, sendo possível ainda entrar de graça, com a aquisição do flyer distribuído ao amanhecer para os que ainda se encontram no interior da boate pode ser a noite mais barata do circuito GLS 70 , comparável ao bar da Ângela, no Guamá, que cobra uma entrada de r$ 5, e onde o preço da cerveja é em conta também 71 .

68 Como o consumo de drogas, por exemplo.

69 Categoria êmica que está ligada a qualquer coisa ou lugar de baixa qualidade ou mal freqüentado. É comum a referência a essa boate por comportar os sujeitos mais marginais entre os dissidentes: mais femininos, mais feios, mais gordos, mais magros, mais masculinas, mais pobres, menos escolarizados, etc. Para mais ver Reis

(2011).

70 Existe uma promoção de quatro cervejas em lata por r$ 10, o que barateia em muito o consumo de bebidas alcoólicas no interior da boate.

71 Em geral, uma cerveja em garrafa de 600ml custa r$ 3,.

69

O modo de se vestir não varia muito em comparação com os outros lugares, sendo mais frequente o uso de roupas de departamento, do tipo C&A, Riachuelo e Express. Mas o modo de usá-las não se diferencia em nada dos outros lugares. Durante o campo, a modas era, para os meninos, camisetas com gola em “v”, então, era comum vê-los usando camisetas deste tipo. Mesmo com os baixos recursos de alguns era possível visualizar uma semelhança com os gostos dos frequentadores do Malícia, por exemplo. As músicas eram as mesmas das outras boates, com ênfase na eletrônica, mas como a boate anterior possuía dois ambientes, era comum tocarem gêneros completamente diferentes nos dois espaços. Mas com a passagem dela para o novo espaço, a ênfase voltou a ser os sucessos eletrônicos do momento, como Ke$ha, Ketty Perry, Rihanna e outr@s.

4.3. R4 Point

a) mapa e localização

Rihanna e outr@s. 4.3. R4 Point a) mapa e localização Imagem 7 : Boate R4 Point.

Imagem 7: Boate R4 Point. Fonte: Google Mapas, 2011.

Esta boate fica localizada na Avenida Conselheiro Furtado, no bairro de São Bráz, quase na esquina com a Travessa Castelo Branco. Possuía outro nome, Sputinik, e ficou

70

famosa nos noticiários locais por abrigar um contingente enorme de menores de idade, que ocasionou uma batida policial e do conselho tutelar, e na apreensão de vários menores consumindo bebidas alcoólicas e drogas. Fechou e depois de alguns meses reabriu com nome novo, R4 Point. Passou a não ser mais alvo da polícia, por fazer uma fiscalização mais rigorosa dos documentos na entrada.

b) funcionamento

Com a nova denominação passou a funcionar principalmente nas noites das quintas-feiras, mas abrindo as sextas e aos sábados. Funciona das 22h até o amanhecer. E o preço da entrada varia conforme o dia de r$ 5, a r$ 20, , sendo mais comum cobrarem o preço mais caro às quintas, por ser a única que abria nestes dias.

c) descrição do ambiente

A boate resume-se a um pequeno espaço, composto por bilheteria, uma pista de dança com um pequeno palco, um pequeno bar, banheiros e a cabine do DJ. A interação maior se dava mesmo na pista de dança, onde era possível observar, a partir da entrada, ainda da bilheteria, a movimentação d@s freqüentador@s. Não possuía móveis na pista de dança. E as interações afetivas e eróticas se davam com as pessoas encostadas às paredes. Ao entrar, era possível observar o pequeno palco à esquerda, assim como o pequeno bar e os banheiros ao fundo, à direita, sendo possível observar quase que a totalidade do ambiente já à porta da boate. O ambiente era pintando em preto e possuía uma luminosidade que permitia enxergar a tod@s. Fui pouca vezes a esta boate e nas conversas com as pessoas era comum escutar que o lugar não proporcionava uma maior intimidade, por ser muito pequeno.

d) público e hábitos de consumo

As pessoas vestiam-se como as da Lux. Geralmente, com roupas que revelavam um baixo poder aquisitivo. Invariavelmente, eram pessoas que também frequentavam a Lux, o que tornava seus públicos muito semelhantes com relação aos gostos e estilos. São, em sua maioria, moradores de áreas periféricas, assim como os da Lux, que se diferem quase que totalmente dos que frequentam o Malícia ou a Hache. Por se encontrar numa área de

71

trânsito intenso de linhas de ônibus, que ligam o centro da cidade à áreas mais periféricas, era comum encontrar as mesmas pessoas que via na Lux, na sexta ou no sábado. Dificilmente, encontrava alguém da universidade. A cerveja, assim como na Lux, tem um lugar privilegiado, por conta do preço barato. Ali, também, era mais comum ver pessoas fumando. E as vestimentas comportavam um estilo parecido ao encontrado na Lux. E a música eletrônica abria espaço para ritmos como o tecnobrega, pagode, forró, axé e outros gêneros.

4.4. Vênus

a) mapa e localização

axé e outros gêneros. 4.4. Vênus a) mapa e localização Imagem 8 : Boate Vênus. Fonte

Imagem 8: Boate Vênus. Fonte: Google Mapas, 2011.

A Vênus está localizada na Avenida Pedro Álvares Cabral, no bairro da Marambaia. A forma mais comum de se chegar para quem se deslocava de ônibus do Guamá até lá, como eu é ir até a Almirante Barroso, descer próximo ao Cidade Folia e percorrer a pé o resto do caminho por uma das passagens que ligam a Pedro Álvares Cabral e a Almirante Barroso.

72

b) funcionamento

Quando comecei a frequentar a boate, em 2007, seu funcionamento era apenas nas noites de quarta. Depois, no período do campo, a partir de 2010, ela já abria às quartas, sextas, sábados e domingos. Cobra uma entrada que varia de r$ 5, a r$ 20, de acordo com a atração e/ou show.

c) descrição do ambiente

A fachada da boate não a distingue das outras casas da rua, exceto pela grande movimentação de pessoas às noites de funcionamento, sendo visíveis os seguranças e hostess da casa, e uma luminosidade diferente que surge de dentro. Já na entrada a luz é baixa, sendo possível ver a bilheteria à esquerda. A entrada se dá pela direita, através de uma porta de vidro, para um ambiente refrigerado. Quando comecei a frequentar, ainda em 2007, o ambiente era muito diferente, sendo que a estrutura era de uma casa adaptada para funcionar uma boate. Agora, depois da entrada é possível ver um pequeno palco à esquerda e uma pequena pista de dança. Essa parte é separada da área do bar por outra porta de vidro. E o bar é localizado na parte de trás da boate de frente para o que seria o quintal da casa, que fora adaptado como um lounge e com um pequeno quiosque, que também serve de bar, mas para preparação de drinques. Nesta área aberta ficam algumas mesas e cadeiras, que permitem um descanso para @s frequentador@s. Existem dois banheiros na boate: um localizado ao lado do bar e outro nos fundos do quintal. Não existe dark room.

d) público e hábitos de consumo

O público majoritariamente é composto por homens. Mas foi perceptível, durante o campo, um crescente aumento de mulheres, quase sempre acompanhadas por suas parceiras ou por grupos mistos de amig@s. Assim como na Lux e na R4, é possível observar a presença de pessoas com menor poder aquisitivo, que transparecia tanto no que diz respeito a pouca preocupação com as vestimentas, quanto no fluxo intenso de pessoas que freqüentavam o local por conta da cerveja, vendida em lata, e que chegava a custar r$ 1, 50 a unidade. Esse fator, dentre outros, como o fato de estar localizada próximo ao Entroncamento, proporciona a frequência de pessoas mais pobres, que residem nas áreas

73

mais distantes do centro da cidade. Dificilmente, encontrava alguém da universidade e muitas vezes esse lugar era desconhecido pela rede da qual faço parte e que está ligada à universidade. Além do consumo de cerveja, era muito comum o uso de cigarro, principalmente na área aberta, destinada a essa prática. Com relação à música, é um ambiente tão eclético quanto a Lux e R4, tocando vários tipos de gênero musical, dando ênfase no tecnobrega e pagode. Os sucessos da música eletrônica tendem a chegar mais atrasados, pois a preferência é por músicas em que se pode dançar a dois.

4. 5. Rainbow Club

a) mapa e localização

dançar a dois. 4. 5. Rainbow Club a) mapa e localização Imagem 9 : Boate Rainbow.

Imagem 9: Boate Rainbow. Fonte: Google Mapas, 2011.

A Rainbow está localizada na Rua Carlos Santos, no bairro da Nova Marambaia. O acesso mais comum durante a pesquisa de campo, entre 2010 e 2011, era por meio de ônibus até a Rodovia Augusto Montenegro. Existe uma parada de ônibus próximo à entrada da rua e a boate fica a uns 20 metros da rodovia, do lado direito da rua.

74

b) funcionamento

Apenas aos domingos. E excepcionalmente para festas particulares. A entrada varia entre r$ 10, e r$ 20, dependendo da atração. Conheci ainda em 2007, mas era localizada no terreno à frente de onde se encontra agora. E sempre funcionou somente aos domingos.

c) descrição do ambiente

É o maior espaço GLS de Belém. Agora a fachada é um muro comprido e alto que comporta apenas uma entrada, um amplo portão preto. Na entrada, existe um segurança controlando a entrada e a saída d@s frequentador@s. Após o portão há uma bilheteria. A entrada se faz pela direita, através de uma roleta. A área é de um clube e possui à esquerda, logo na entrada, uma quadra e uma piscina e na frente um balanço. Dobrando-se a esquerda são visíveis os fundos da casa, onde ficam localizados: a pista de dança, ao centro; o palco, à esquerda; e o dark room, à direita. A ampla área que vai da quadra e da piscina até a pista de dança é aberta. E nessa área estão distribuídas mesas e cadeiras. Os banheiros estão localizados do lado esquerdo, ao lado de um dos bares e de uma pequena lanchonete. Do lado direito, mais um bar e uma churrasqueira. Nestas áreas dos bares, tanto à direita quanto à esquerda, existem telhados que protegem as mesas e cadeiras em caso de chuva. A pista de dança é ampla e faz parte do térreo de um prédio de dois pavimentos. A parte de cima deste pavimento não funciona.

d) público e hábitos de consumo

O público que frequenta a Rainbow se assemelha em muitos pontos aos frequentadores da Lux, da Vênus e da R4. Por ser um espaço localizado fora da área central da cidade acaba não proporcionando a participação de pessoas que moram em bairros da periferia de Belém, como eu, por concorrer em dia (domingo) com o bar da Ângela, que fica no Guamá. Acaba agregando pessoas que moram em Marituba, Ananindeua, Icoaraci e bairros mais afastados do centro, por estar na rodovia que liga o centro de Belém a alguns distritos e bairros mais afastados do circuito do Reduto/Umarizal. E o complicador maior, pelo menos para mim, durante campo, era o transporte, uma vez que a casa só funciona aos

75

domingos à noite e o acesso torna-se mais difícil. Durante a pesquisa, encontrava pessoas da universidade e do movimento, invariavelmente, e outras que eu avistava nos espaços GLS do centro, o que pode indicar uma heterogeneidade do lugar.

4. 6. Hache Club

a) mapa e localização

do lugar. 4. 6. Hache Club a) mapa e localização Imagem 10 : Hache Club. Fonte

Imagem 10: Hache Club. Fonte: Google Mapas, 2011.

A boate fica localizada na Boulevard Castilhos França, no bairro da Campina. Está próxima a dois pontos turísticos da cidade: Ver-o-Peso e Estação das Docas. Numa área pouco movimentada a noite, mas com fluxo intenso de pessoas durante o dia. De fácil acesso, tanto por ônibus quanto por carro.

b) funcionamento

Quando do início da pesquisa, no início de 2010, a boate não existia, tendo surgido uns meses mais tarde. Funcionava somente nas sextas e nos sábados. Agora funciona às quartas também. O valor do ingresso está em torno de r$ 20, a r$ 40,.

76

c)

descrição do ambiente

É um espaço retangular, decorado com muita sofisticação, num estilo pub. Mas

possui uma pista de dança e um pequeno palco, além do bar, banheiros e um espaço em lounge. A iluminação é baixa, sendo bastante iluminados os espaços próximos às paredes ou onde existem objetos de decoração. Possui alguns espelhos dispostos em lugares

estratégicos, por exemplo, próximo à entrada, de onde é possível observar o movimento mesmo antes de adentrar por completo o espaço. O bar fica à esquerda de quem entra, assim como o palco e pista de dança. O pequeno lounge, fica à direita. E os banheiros seguem no corredor, também à direita.

d) público e hábitos de consumo

É considerado, atualmente, o que o Malícia foi no “passado”, ou seja, a boate

mais luxuosa e cara do circuito GLS. Pois com preços que variam de r$ 20, a r$ 40, acabam selecionando mais o público. E ainda os preços da consumação com bebidas e aperitivos fazem aumentar ainda mais os gastos lá dentro. Em uma noite “normal” não se gasta menos que r$ 50,. Em noites mais badaladas, como na apresentação de um DJ reconhecido no circuito de música eletrônica nacional e internacionalmente, os gastos podem chegar a r$ 100, facilmente. Então, é apontado como um lugar “fino”, um lugar de/da “elite”. Sendo muito comum encontrar pessoas com nível universitário, e que são facilmente encontrados nos corredores da universidade, ou profissionais liberais, dentre outros. Os estilos e gostos das pessos que vão à Hache assemelham-se com os gostos e estilos d@s frequentador@s do Malícia, onde os usos de marcas famosas, nacional e internacionalmente, são a moda. Calvin Klein, por exemplo, é uma constante nas cuecas a mostra dos rapazes que circulam por lá. O consumo de cerveja é menor, em comparação com boates no padrão da Lux, pois além de ser um demarcador social que estigmatiza quem bebe, “está na moda” beber destilados, principalmente, uísque, como ouvi numa fila, durante o campo. O uso do cigarro é pouco

usual no interior da boate.

4. 7. Bar Veneza

a) mapa e localização

77

Imagem 11 : Bar Veneza. Fonte : Google Mapas, 2011. O Veneza está localizado na

Imagem 11: Bar Veneza. Fonte: Google Mapas, 2011.

O Veneza está localizado na esquina da Rua dos Mundurucus com a Travessa 3 de Maio, no bairro da Cremação. Está num ponto movimentado do bairro, que possui inúmeros bares e botecos. Só neste cruzamento existem três bares, um em cada esquina. Em frente ao bar, existe um ponto de ônibus e o tráfego de veículos é intenso, sendo possível ver quem está no bar de dentro dos automóveis.

b) funcionamento

Com exceção das segundas-feiras funciona diariamente. Nos dias de semana funciona de 18h a 0h, as sextas e domingos até as 2h, nos sábados até as 3h. Durante o campo, utilizava o bar como esquenta 72 , por começar mais cedo e ser uma possibilidade de conhecer pessoas antes de ir pra boate.

c) descrição do ambiente

O bar possui dois ambientes, um interno e outro externo e ambos são conectados por portas e janelas de vidro. As mesas e cadeiras tomam as calçadas da 3 de

72 Termo que significa uma pré-balada ou pré-night, de acordo com Almeida e Tracy (2007).

78

Maio e da Mundurucus, na parte externa. Na parte interna, existe um salão tomado por mesas e cadeiras, um pequeno palco, um bar, um balcão-caixa no qual são feitos os pagamentos. A localização se dá assim: a partir da entrada, o palco fica de frente para a porta; o bar e o balcão à esquerda; assim como o corredor que leva aos banheiros, também à esquerda. O espaço interno é separado do externo por grandes janelas de vidro, porém o som alcança a área externa. Os shows são feitos no palco e, geralmente, contam com a presença de uma banda tocando ao vivo. As músicas eletrônicas não têm vez neste lugar, sendo o espaço dominado por gêneros como mpb, mpp 73 e samba. Em geral, quando há shows mais animados, as mesas e cadeiras do ambiente interno são dobradas e afastadas para os lados, e o que antes era um bar ganha ares de pista de dança, mas em vez de música eletrônica o que se houve é samba. Nos intervalos entre as apresentações ao vivo são exibidos na parede, através de um projetor, shows de vários cantores/cantores de mpb.

d) público e hábitos de consumo

O estilo mais visto entre @s frequentador@s do bar, aproxima-@s d@s que frequentam o Malícia e a Hache. Sendo possível estabelecer uma conexão entre os freqüentador@s dos três lugares. Durante o campo, era frequente encontrar alguém que estava no Veneza e depois encontrar a mesma pessoa no Malícia, mostrando que o bar serve como ponto de encontro e/ou esquenta antes do local principal, a boate. Os homens quase sempre estavam vestindo jeans e camiseta e as mulheres variando entre jeans e camiseta, vestidos e outras roupas, sempre com uma aparência que conotava uma preocupação com o visual. Nos dias de maior movimento, onde o fluxo na parte interna do bar se torna quase impossível, a área próxima ao bar fica abarrotada de gente, o que ocasionalmente torna possível um contato corporal com outras pessoas, e transforma-se num lugar privilegiado para quem quer encontrar alguém. Era frequente encontrar pessoas ou grupos de pessoas que eu encontrava ordinariamente na universidade, sendo mais um marcador que revela uma diferença dos gostos associados ao consumo pelas pessoas frequentadoras desse lugar.

4. 8. Bar Refúgio dos Anjos

a) mapa e localização

73 Música Popular Paraense.

79

Imagem 12 : Bar Refúgio dos Anjos (ou Bar da Ângela). Fonte : Google Mapas,

Imagem 12: Bar Refúgio dos Anjos (ou Bar da Ângela). Fonte: Google Mapas, 2011.

O bar Refúgio dos Anjos, ou bar da Ângela, como é mais conhecido, está localizado na Rua Barão de Igarapé-Miri, no bairro do Guamá. O ponto de localização para quem quer chegar até lá é a única praça do bairro, a Praça Dalcídio Jurandir, localizada na mesma rua e vizinha ao bar. Existem algumas linhas de ônibus que passam pela rua em que fica o bar, não sendo difícil chegar e localizar o estabelecimento, também por conta de ficar na área referente à feira do bairro, próxima à Avenida José Bonifácio.

b) funcionamento

É o espaço GLS mais antigo e em atividade da cidade de Belém, contando com mais de 15 anos de funcionamento. É composto por duas estruturas: o bar externo, que funciona todos os dias, mas há dias em que aparece fechado, excepcionalmente, dependendo da vontade da dona; e o bar interno, que funciona somente aos sábados e domingos, das 19h às 1h. E o preço cobrado para entrar no bar interno é r$ 5,.

c) descrição do ambiente

80

O bar externo é um quadrado, com mesas dispostas pelo salão e um balcão aos

fundos. Não se diferencia em nada de outros bares da periferia de Belém. O bar interno é acessado através de um portão vermelho do lado esquerdo do bar externo. Assim que se passa pelo portão, existe um corredor no qual ficam uma ou duas pessoas cobrando a entrada, pois não existe bilheteria. Com alguns passos é possível acessar o primeiro ambiente da casa: um lounge à direita, que é a adaptação dos fundos do bar externo. Essa área é composta por dois grandes espelhos, um do lado esquerdo e outro na parede às costas de quem entra, uma televisão, que exibe videoclipes, alguns puffs, onde é possível sentar, conversar e namorar mais intimamente, dois balcões, um do lado direito que vende lanches e um do lado esquerdo que vende somente drinques. No meio deles há um pequeno banheiro, com mictórios e vasos. No corredor que dá acesso a esse ao lounge à direita, é possível ver alguns puffs disponíveis e na parede do lado direito, quase no final do corredor chegando à área aberta, existe um espelho enorme. Saindo do corredor chega-se à área aberta do bar. À direita existe um bar e o caixa, nos fundos à esquerda outro bar e nos fundos à direita um pequeno prédio de dois pavimentos: na parte de baixo funcionam quatro banheiros e na parte de cima a cabine da DJ, acessada por uma escada fixada na parede. A área aberta é ladeada por partes, à frente e à esquerda de quem entra, cobertas

por um pequeno telhado, onde é possível se guardar em dias de chuvas fracas. A maioria das interações ocorre na parte descoberta, que é a própria pista de dança. Em dias de grande movimento passar de uma extremidade a outra, em qualquer sentido, torna-se uma tarefa inglória.

d) público e hábitos de consumo

É o local em que as pessoas vão mais despojadas, sendo comum o uso de

bermudas e chinelos entre os frequentadores, não existindo uma preocupação maior com a aparência, do tipo que encontrei nos espaços GLS do centro. O público mais usual é composto por pessoas do próprio bairro e, como eu sou morador dele, era comum encontrar algum conhecido por lá. Mas também era comum encontrar pessoas e/ou grupos de pessoas que encontrava diariamente na universidade ou outros lugares do circuito, pois no domingo é comum as boates do centro não abrirem e os bares serem a única opção.

81

O consumo de cerveja é destacadamente o maior neste bar, em comparação com outros lugares. Poucas vezes vi alguém beber algo diferente. O uso do cigarro também é uma constante, pelo fato de ser uma área aberta, apesar das placas indicando a proibição de fumar no lugar, chegando ao cômico caso de estampar em letras luminosas verdes e vermelhas os seguintes dizeres: “No fumar” 74 . A ênfase dada pela DJ está em tocar os ritmos locais, como tecnobrega, tecnomelody e demais variantes da música brega. Mas o pagode, o samba, o axé, o funk e a mpb também aparecem no repertório da casa. E uma música não pode faltar no seu

repertório: a música “Acabou”, de Ricardo Chaves; pois é com essa música que a DJ anuncia

o término da festa na madrugada de segunda.

5. (Ab)usos do “meio”: experiências online e off-line

Nesta seção evidencio algumas das primeiras experiências das/dos interlocutoras/es no circuito GLS, mostrando que fronteiras simbólicas erigidas anteriormente no quadro referencial de suas trajetórias foram rompidas e novas identificações foram constituídas com o “meio”, no intuito de considerar a proposta de França (2007b, p. 252), que enxerga “a dimensão de agência dos sujeitos dada pelo próprio processo de subjetivação” e da “existência como potencialidade, mesmo que mais ou menos delimitada por determinadas relações sociais e pelos constrangimentos daí advindos”. Isto é,

identifico que os sujeitos escolhem a partir das possibilidades (im)postas formas de ser/estar

e compartilhar experiências com iguais. Como na experiência descrita por P.:

muito interessante porque é algo

marcante pra mim até hoje. Que foi exatamente nesse momento que eu te falei,

com 15 pra 16 anos. Foi onde a maioria das coisas aconteceu. Eu brinco as vezes

os meus 16 anos! E foi,

inclusive, com ele. A gente saiu. Há muito tempo a gente queria sair e ir pra um lugar GLS. Querendo sair, se sentir mais a vontade, paquerar, ficar com as pessoas e também pra se sentir bem, né?! Num ambiente que a gente sabia que as outras pessoas eram iguais a nós. E a gente já tinha saído pra boates hetero, mas a gente queria ir pra uma boate GLS. E a gente ficou sabendo no jornal, uma propagando, algo assim. E aí, a gente marcou. Eu e ele. A gente marcou de sair: “a gente vai, não sei o quê”. Uma semana antes estávamos ansiosos. Foi muito engraçado. Aí, a gente escolheu a melhor roupa e tal. Foi muito engraçado. E aí, eu lembro que a

com esse meu amigo: “ah, tudo aconteceu com os 16”

A primeira experiência que eu me lembro

74 Numa combinação de inglês e português que me causaram um acesso de riso na primeira vez que vi.

82

gente foi

Comércio, dentro do Comércio, assim. Numa daquelas casas antigas. E a gente

chegou e tinha uma fila enorme pra entrar na boate. A gente fez assim: “meu

deus”. Não

filona, né?! A maioria homens, uma filona e uma drag no meio da rua com um megafone. A gente ficou: “ai, não acredito!”. E a gente começou a rir. Ela mexia

com todo mundo. Parava os carros, ficava passando. A gente acho aquilo maravilhoso. “Égua, que isso, sabe?!”. “Caramba”. Tudo que a gente queria. Aí, a

gente foi, entrou. E aí, eu lembro também

Quando a gente conversava antes sobre o que viu lá. Quando a gente tava na entrada da boate, tinha a bandeira do arco-íris. Na entrada da boate tinha a bandeira do arco-íris. E a gente: “Oh!” É muito que hoje a gente lembrando as vezes dá vontade de rir. Mas naquele momento foi muito importante. “Olha a ”

bandeira, não sei o quê

<risos>. Aí, dentro era meio escuro, na entrada. Aí, tinha

Sei

era, nem existe mais, a Cats. Que era uma boate que tinha ali no

E a primeira cena assim. A gente chegou, saiu do táxi e tinha uma

Nossa, a gente ficou

De coisa

de amigo

Foi muito

mesmo.

Coisinhas pequenas mesmo,

sabe?!

Assim

uma pista de dança. E tinha uma luz de fibra ótica. E a gente olhou também, era bonito pra caramba. Tinha o bar. Enfim, a gente entrou e foi olhando. Tinha dois

quem tava,

quem não tava. Tudo era diferente. Qualquer coisa era uma descoberta. Logo que a

gente chegou essa drag, teve o momento do show dela. Aí, ela subiu no balcão de bebida do bar e começou a dançar lá em cima. Era a Shaula Vegas <risos>. Ela começou a dançar lá em cima. El a fez um número, né?! Eu não lembro qual era a música, não lembro. Eu lembro que depois na boate a gente dançou “Trying my on”, não lembro direito. Mas era uma música que a gente adorava. E aí, nossa,

quando tocou essa música foi o ápice, assim: “Ai, meu deus, eu não acredito que eu

tô aqui

“É maravilhoso”. Aí, eu falava pra ele: “que bom que tu tá aqui comigo”.

andares a boate. Aí, a gente foi olhando pra todo mundo, andando

”.

Só sei que ele ficou com um garoto lá. Aí, a gente saiu de manhã só. Os dois felizes da vida. Foi ótimo (P., 23 anos, 31/01/2012).

No entanto, o “meio” não está restrito apenas aos espaços físicos, podendo ser acessado também no mundo virtual, por meio de salas de bate-papo, sites, blogs, listas de discussões, circuitos de canais a cabo, ou seja, a experiência mostra-se fragmentada, divida e intercambiada entre espaços online e off-line.

[P.H.] Outro ponto importante: site de relacionamentos, sala de bate-papo na internet. Era uma coisa que eu tinha muito medo. Eu particularmente nunca cheia

marcar. Eu sempre achei super estranho marcar com alguém. Eu não julgo, mas pra mim, particularmente, eu não gosto, comigo. Mas eu conheci um rapaz, entendeu,

uma vez, alto

conversei e tudo. Fiquei de leva lá na Doca e tudo. Aí, foi que a gente ficou lá. [Mílton] Vocês se conheceram antes no bate-papo? [P. H.] A gente se conheceu no bate-papo. Foi que a gente mar marcou de ir na Doca. Aí, eu apresentei pro pessoal e tal. E realmente ele era muito bonito: alto, brancão, sabe?! E tinha aquela questão do “fura-olho”, sabe?!. Todo mundo tava de olho e queria. E a priori a gente ia lá pra se conhecer, pra ficar colega. A gente conversou muito antes d’eu, digamos assim, socializar ele com todo mundo. Só que acabou que eu fiquei com ele. A gente entrou em contato depois pelo MSN. E a gente continuou o contado. Só que essa parte eu nunca gostei muito. (Trecho da entrevista com P. H., 27 anos, 24/01/2012)

Eu gosto de gente nova, 18, 19 anos. Aí, foi que eu marquei,

83

Então, eu lembro, ah, que eu conheci o T. numa sala de bate-papo. Eu entrei com o nick, na época, de “Menino mimado” e o T. tava com outro nick e gente tava no mesmo lugar. Nós dois estávamos acessando no Laboratório de Informática, nessa

época que ele era estagiário. Aí, ele viu que eu estava acessando

que o T. viu que eu tava de frente, assim, pra ele, aí ele fechou meu computador. Aí, quando ele me chamou, foi muito engraçado. Aí, a partir daí ficou uma amizade

muito bacana. Mas a gente não falava nada de sexual, não. Estávamos só conversando mesmo. E ele perguntou onde eu tava. Aí, eu falei que tava na UFPA.

Ele

começou a reforma aquilo que eu já tinha descoberto: as salas de bate-papo, na internet, como forma de obter prazer. E com o T., ele meio que me reforçou, a eu procurar mais. Aí, eu comecei a procura mesmo. Aí, eu tinha contatos pela internet, marcava as relações por lá, né?! E foi, foi, assim: quando eu digo que foi importante é porque, a ideia é que eu comecei a perceber como as pessoas exigem características uma das outras (L. C., 30 anos, 23/01/2012).

Aí, ele ficou assim, ele olhou

Aí, eu lembro

mas, enfim. Então, é, é

deixa eu prossegui

Esses dois trechos mostram como existe uma intercambialidade entre os mundos online e off-line, uma vez que nas duas entrevistas os contatos saíram do virtual para o real. Portanto, as atuais pesquisas sobre sociabilidade e lazer não podem negligenciar as relações desenvolvidas online, pois essas são constitutivas de novas formas de estar junto, de se fazer presente e se manter contato. E até mesmo de ajudar na construção de si, como a entrevista abaixo deixa claro:

) (

que eu descobri, que chamava “Fórum de hormônios”. Tem três: a primeira era “Hormônios para transexuais”; aí, entrei numa outra chamada “Fórum de hormônios e mundo trans” e a outra é “Hormônios para transgêneros”. A “Fórum de hormônios e mundo trans” foi a, a comunidade, assim, que eu via umas indicando medicação pra outras. Mas elas sempre dizendo que deveriam procurar um médico, não sei o quê. Então, elas sempre compartilhavam as experiências delas com determinados hormônios pra outras. Então, nessa, eu comecei a tomar

eu criei meu Orkut em 2005, quando foi em 2007, eu entrei numa comunidade

determinados hormônios que eu vi que algumas falavam que não fazia efeito. Aí, começou esse processo mesmo, de mudança física, né?! Não radical, né, claro?! Com a utilização de hormônios a minha pele ficou acho que mais fina, não sei. Aí, meus seios cresceram pouco, né?! E foi quando meu lado cerebral, que é trans

não sei

só que a

minha identidade, eu me via como uma mulher, como eu me vejo, né?! E, nisso, eu me via como uma travesti. Mas, sei lá, eu acho que a diferença entre uma travesti e uma trans é tão ínfima, é uma coisa que nem dá pra diferenciar, sei lá. Aí, eu digo não, antes de falar travesti, pra todo mundo eu falo que sou trans, né?! A minha

orientação, o afeto que eu tinha com as pessoas do mesmo sexo, né?! E

enfim. Mas foi o suficiente pra eu começar a me identificar que a

identidade é feminina, eu me vejo como uma menina, praticamente, como uma

garota e

pronto, parece uma

social, né?! Eu já acabei tendo esse conhecimento que meu gênero é feminino e

orientação sexual, eu diria, que é hetero

Hoje eu me vejo meio que assim: eu parto do pressuposto

só que gostando de pessoas do mesmo sexo do que eu. Então, aí,

(L. C., 30 anos, 23/01/2012).

84

A (re)construção do corpo, gênero e sexualidade de L. C. foi mediada por sua vivência online, onde aprendeu os significados de ser uma mulher transexual, os símbolos e códigos de conduta que modulam esses sujeitos. O estabelecimento virtual de uma comunidade em que se compartilhem experiências lembra um pouco os primeiros “grupos de identificação” propostos pelo pioneiro SOMOS, no qual os novos membros tinham um espaço para compartilhar experiências de coming out, vivências no gueto e os medos da violência 75 .

***

No capítulo seguinte será feita uma breve discussão acerca da técnica de pesquisa envolvendo histórias de vida, passando por um perfil global das/dos entrevistadas/os e os diálogos com o “armário”.

75 Para saber em detalhes como esse grupo era organizado, ver MacRae (1990).

85

CAPÍTULO 3

Histórias de vida e processos outing

Neste capítulo apresento o quadro de interlocutoras/es com o objetivo de

fornecer um panorama do processo outing. Porém, em primeiro lugar, far-se-á necessária

uma reflexão sobre a técnica de história de vida. Num segundo momento, apresento, a

partir de um resumo global, os/as interlocutores/as desta pesquisa. E, finalmente, o

processo outing será objeto de análise.

1. Digressões sobre as entrevistas e as/os interlocutoras/es

No início da pesquisa de campo almejava considerar apenas como objeto de

estudo o circuito GLS de Belém, porém iria descartar um lado importante da proposta

antropológica, que é fazer “interpretação das interpretações” de sujeitos que (ab)usam dos

equipamentos que compõem esta mancha dentro da cidade, os bares e boates GLS, pois

uma das preocupações do fazer antropológico é justamente as representações sociais.

Assim, as entrevistas demonstram como cada indivíduo se desloca, perfazendo um trajeto,

dentro do “meio”, a partir de uma condição pessoal, que está relacionada seja à orientação

sexual e de gênero.

Para que fosse possível enxergar os projetos que estão sendo construídos

pelos/pelas interlocutores/as a técnica das entrevistas com base nas histórias de vida foi

crucial, haja vista poder direcionar, de acordo com as temáticas a conversa para que se

pudesse extrair o máximo de dados. As temáticas versaram, basicamente, sobre o perfil

sócio-econômico, a criação e vida em família, auto-definição segundo orientação sexual, vida

afetivo-sexual, sociabilidade com ênfase no coming out , comportamento nos espaços

públicos, relação com o circuito GLS e os processos de preconceito e discriminação,

enfatizando as situações de homofobia; isso com base no breve roteiro elaborado e presente

no apêndice deste trabalho.

Então, quando resolvi trabalhar com histórias de vida visualizava poder

compreender como as pessoas orientam seus gêneros e sexualidades ao longo de suas

86

trajetórias. A intenção era, também, compreender como sujeitos dissidentes estabelecem formas de agências quando estão “negociando o armário” em casa, no trabalho, na escola. Driblar perguntas como “você é gay?” ou “você é lésbica?” ou “o que você é?” sempre foram obstáculos a serem ultrapassados, de forma confortável ou não, por lésbicas e gays ou quaisquer pessoas que mantêm uma vida em segredo e não foi/é diferente com as/os entrevistadas/os deste trabalho. Portanto, perguntava-me se era possível carregar uma única definição de si para toda a vida e se era possível também utilizar essa dissidência para causar confusão em quem pergunta. Com essas questões em suspenso fiz entrevistas em que propunha um diálogo com as/os interlocutoras/es. Digo diálogo porque em alguns momentos, principalmente quando as perguntas não estavam claras para elas/eles, eu citava um momento de minha própria trajetória para ver se elas/eles compreendiam onde eu queria chegar. Por exemplo, quando eu perguntava qual a sensação que elas/eles haviam sentido ao estarem pela primeira vez numa boate, bar ou quaisquer estabelecimentos GLS ou do que se lembrava desse primeiro momento e que algumas vezes não era entendido, eu recorria às lembranças buscando através das sensações das/dos entrevistadas/os, perguntando-lhes se lembravam da música que tocava, ou do cheiro do ambiente, ou das cores, ou dos toques das pessoas, ou da bebida que haviam tomado. Neste momento tentava explorar quaisquer dos sentidos das/dos interlocutoras/es por entender que cada um guarda na memória aspectos muitos singulares e com isso pude extrair algumas recordações. Sobre esta técnica Guita Debert (2004 [1986]) afirma que

a razão alegada para utilização deste instrumental reside no fato de possibilitar

o estabelecimento de uma conversação ou um dialogar entre informante e analista. Quando os autores, neste caso, fazem uma oposição entre falar e conversar ou enfatizam o argumento que a história de vida possibilita um dialogar com os sujeitos estudados, chamam a atenção para os dois aspectos. Em primeiro lugar, para a violência implícita no procedimento que envolve a imposição, aos informantes, de categorias que não lhe dizem respeito, vindas de uma teoria

) (

exterior a eles ou ao conjunto de valores do próprio pesquisador. Em segundo lugar, para a importância de darmos condições aos informantes de nos levar a ver outras dimensões e a pensar de maneira mais criativa a problemática que, através

Não se espera nesse segundo caso, que a

deles, nos propomos a analisar (

história de vida nos forneça um quadro real e verdadeiro de um passado próximo ou distante. O que se espera é que, a partir dela, da experiência concreta de uma

vivência específica, possamos reformular nossos pressupostos e nossas hipóteses sobre um determinado assunto. No primeiro campo, pelo contrário, a ideia é

)

87

preencher um vazio. Espera-se, através de uma série de mecanismos número ideal de informantes, escolha de informantes que tomaram posições distintas frente a um determinado acontecimento, contraposição de informações obtidas a documentos oficiais, etc. exercer um controle maior as variáveis que podem interferir num relato. Nesse primeiro campo, com maior ou menor ênfase, está sempre presente a ideia de que o objetivo é encontrar um quadro, o mais completo e verdadeiro possível, de um determinado período ou acontecimento histórico (p. 142).

Ainda sobre a técnica, Adriana Piscitelli (1993) diz que é

um lugar de privilégio à experiência vivida, em sentido longitudinal, e em possibilitar a integração de percepções individuais e pautas universais de relações humanas, através de articulações temporais. Neste sentido, o trabalho sobre as experiências dos sujeitos é fundamental para a compreensão dos atores a partir de seus próprios pontos de vista e para a compreensão de processos sociais mais amplos que os indivíduos (p. 153-154).

Piscitelli (1993) diz que o método possibilita compreender as redes de relações sociais nas quais os/as interlocutores/as estão inseridos, além de um acesso a “zonas sombreadas”, ou seja, é possível encontrar sentidos nos eventos, “coisas que sucedem”, e nas experiências, “coisas que sucedem com pessoas” (p. 154-155). E afirma que “as trajetórias individuais se desenvolvem e são recriadas em universo codificado pelo gênero” (p. 165) 76 .

Mas Pierre Bourdieu (1986) afirma que a técnica possui algumas armadilhas, pois os indivíduos tendem a relatar suas histórias de maneira encadeada, com um início, meio e fim, onde obedece a uma ordem cronológica; assim, os acontecimentos e as coisas passam a ter uma origem e sentido na história de cada indivíduo, pois são justificados através da narrativa. Então, os relatos possivelmente mostram os acontecimentos e eventos de maneira ordenada, arrumada, existindo grandes chances dos mesmos terem ocorridos de maneira distinta. Bourdieu evidencia que os indivíduos “romanceiam” seus relatos, sua vivência.

Em alguns momentos, durante as entrevistas, observei a necessidade que os interlocutores/as sentiam em verbalizar os eventos “da forma que tinha acontecido”, tentando organizar os acontecimentos cronologicamente. Porém, em outros momentos, o

é necessário pensar no gênero de tal maneira que este seja constituído pelas categorizações baseadas

no imaginário sexual. Talvez, à maneira de Strathern, como as formas através das quais a distinção entre características femininas e masculinas constituem idéias concretas acerca das relações sociais.” (PISCITELLI, 1993, p. 165).

76 “(

)

88

resgate de eventos passados para explicar os eventos atuais pareciam querer justificar as tomadas de decisão. Com relação às entrevistas 77 , duas aconteceram em novembro de 2011 e as outras no mês de janeiro de 2012. Os lugares das entrevistas variaram: quatro foram realizadas na UFPA, duas na minha casa e uma na casa da amiga de um interlocutor, realizada na companhia do atual namorado. O tempo de duração das entrevistas também variou, indo de menos de uma hora a quase duas horas e meia de gravação. Com exceção de dois dos entrevistados, eu mantenho relação de amizade com os/as outros/as cinco entrevistados/as; dos dois entrevistados “desconhecidos”, um foi apresentado por um amigo em comum e o outro eu conheci na web 78 . Antes das entrevistas, eu estabeleci contatos via MSN 79 com todas/os, tentando saber sobre a rotina e/ou os últimos acontecimentos. Era comum também quererem saber da minha vida e, ainda mais, sobre os motivos que me levaram a fazer uma pesquisa sobre sociabilidade LGBT nos espaços GLS, ao que eu explicava algumas das minhas hipóteses e a conversa tendia a progredir. A internet foi um meio eficaz de manter contato com eles/elas, seja tentando saber mais sobre suas vidas, seja também porque ela é considerada parte do “meio GLS” também. Principalmente, quando se faz uso dela para satisfazer os seus desejos homoeróticos, como demonstra Miskolci (2010)

A web estendeu o código-território da homossexualidade para mais pessoas nas metrópoles e nos recantos do interior do país. Nestes locais, a maioria jamais quis (ou pôde) se expor de forma a frequentar algum local claramente gay ou lésbico. Estes indivíduos, os quais, pelas razões as mais diversas (geográficas, econômica, puro e simples preconceito), consideram-se “fora do meio”, encontrou na web uma forma de conhecer parceiros e até fazer amizades sem o ônus da exposição de seus interesses eróticos no espaço público (p. 7).

77 A intenção inicial era abarcar os vários segmentos da “sopa de letrinhas”, ou seja, os/as LGBTs. Porém o medo da entrevista (gravada) fazia com que algumas pessoas desistissem. A ausência de outras “letras” deveu- se não a falta dessas pessoas no interior do circuito ou de contato, mas por não mostrarem interesse em participar da pesquisa.

78 Quando estava fazendo campo entrei na sala de bate-papo da UOL com a intenção de encontrar alguém disposto a ser entrevistado para a pesquisa, mas obtive pouco sucesso, sendo que somente dois aceitaram e eu os adicionei no MSN. Depois, em janeiro de 2012, quando resolvi marcar a entrevista, somente um concedeu, o outro me excluiu da sua lista de contatos.

79 Programa da empresa Windons destinado à conversação instantânea online.

89

Para as/os entrevistadas/os, a rede também apareceu como forma de manter contato com a “subcultura homossexual” 80 , a partir do uso de redes sociais online voltadas para essa população, como o Gaykut, Leskut, blogs e sites, que os mantêm conectados com as antigas e novas demandas da comunidade, sejam elas referentes ao lazer ou a política. Além do MSN, mantive contato com quase todas/os através do perfil que mantenho no Facebook 81 , assim podia acompanhar um pouco as atividades diárias ou semanais, através do computador, tendo adicionado dois deles após as entrevistas. Esta ferramenta serviu também para que eu visualizasse os gostos e estilos de vida mantidos por elas/eles atualmente. Desta forma, nas entrevistas já tinha um breve histórico, concedido através das conversas pelo MSN ou Facebook, e que poderia manter um diálogo horizontal, tentando evitar que do “encontro etnográfico” surgissem interpretações etnocêntricas da minha parte. Daí o adiamento das entrevistas para que pudesse entender ao mínimo a realidade de quem ia entrevistar. A antropóloga Alba Zaluar (2004), assim define o encontro assimétrico entre antropólogo/pesquisador e o nativo/pesquisado

Pois se é encontro de subjetividades, a pesquisa antropológica, nesta linha teórica, não coloca um e outro sujeitos na mesma posição, ou seja, as duas subjetividades não tem o mesmo estatuto. Um, o ‘nativo’, o observado, uma estranha subjetividade sem sujeito, deixa-se pensar pela lógica simbólica de seus mitos e de sua linguagem. É o espírito humano, por assim dizer, que pensa por ele. Sem história, sem reflexão, sem crítica, sem criação, um homem consensual, conformista e tradicional, um prisioneiro da rigidez da língua, o ‘nativo’ não tem nada a ver com a nossa teoria do sujeito. Um homem nu, porque despido de toda a variedade da história, apenas repete um único mito: o do logos, que desconhece, mas que o comanda de dentro, desde seu inconsciente. O outro, observador absoluto que decifrou o enigma dos códigos, um ser histórico, crítico, que acumula conhecimentos e que os discute, analise e supera. Desde um lugar onde lhe está garantida a objetividade, este observador é um sujeito que domina o logos e pode usá-lo em sua estratégia de obter novos conhecimentos e decifrar mistérios. Estranhamente, porém, só o faz encontrando pares de opostos por toda parte e cumprindo ele mesmo a profecia que proferiu sobre o pensamento humano (p.

109).

80 Nunan e Jablonski (2002, p. 2) dizem que “a subcultura homossexual pode ser entendida como uma forma de resistência na qual contradições e objeções à ideologia dominante são simbolicamente representadas através

de um determinado estilo de vida ou uso de objetos materiais. Cria-se um espaço para a livre expressão sexual mesmo em face de discriminação e violência.” 81 Rede social online. Surgida nos EUA, a história de seu surgimento foi contada no filme “A rede social”, de

2010.

90

Desde o início da pesquisa, ainda em 2010, questionava-me sobre o tipo de entrevista e de entrevistados que necessitava. Se elas/eles serviriam apenas para corroborar(em) os dados de campo, recortando suas falas, ou se preferiria manter um diálogo com elas/eles em busca não de respostas ou explicações para determinados fenômenos, mas de reflexões que elucidassem seus próprios caminhos e os meus, pessoais e relacionados à pesquisa 82 . Assim, durante as entrevistas comportei-me como um amigo, com quem elas/eles pudessem desabafar, contando suas angústias, mágoas e surpresas. Eu também desabafei, mas na medida em que o meu desabafo pudesse fazê-los entender o sentido da minha pergunta 83 . Mas nem todos agiram da mesma forma. Muito menos quando viram que o gravador estava ligado. Pessoas com quem eu já havia travado longas discussões ou compartilhado experiências, simplesmente travaram. Mas tiveram as/os que se soltaram. Dessa forma, o tempo da conversa gravada variou. Mas mantive como hábito, antes das entrevistas, explicar o caráter acadêmico e ético da pesquisa que estava sendo realizada, dizendo-lhes que caso quisessem uma declaração ou termo de consentimento, que ficassem livres para pedir. E quase sempre começava explicando as minhas hipóteses e perguntava como estavam, para só então começar a entrevista de fato. E no final, perguntava se elas/eles queriam falar algo sobre a condução da entrevista para que, de forma mais informal e com o gravador já desligado, elas/eles pudessem expor mais sua intimidade. Essas táticas obtiveram sucesso em todas as sete entrevistas. E as curiosidades com relação às suas histórias de vida vinham através da seguinte indagação: “Quero só ver o que vais escrever sobre mim!”. No que eu respondia apenas com um sorriso tímido 84 . Tendo em vista refletir sobre o processo da produção textual em etnografia, o antropólogo Vagner Gonçalves da Silva (2006, p. 118) assim escreve:

nas conversas informais e nas entrevistas, o ‘nativo’ explica a sua linguagem, justifica ou tenta entender

as suas e as ações dos outros ‘nativos’ ou mesmo revela segredos mantidos velados a outros estranhos(ZALUAR, 2004, p. 123).

83 “Nesse jogo de representações, presente no diálogo etnográfico, as perguntas e respostas sempre podem ser refeitas quando os participantes vão colocando novas ‘cartas’ na mesa e desenhando novos rumos e estratégias para a conversação” (SILVA, 2006, p. 51-52).

84 Ruth Cardoso (2004, p. 101-102) assim diz: “E não se trata do subjetivismo descontrolado invadindo o campo da reflexão racional, mas sim da natureza intersubjetiva da relação entre o pesquisador e seu informante. Uma entrevista, enquanto está sendo realizada, é uma forma de comunicação entre duas pessoas que estão procurando entendimento. Ambos aprendem, se aborrecem, se divertem e o discurso é modulado por isso tudo”.

91

82

“(

)

O texto etnográfico em geral é uma redução brutal das inúmeras possibilidades de interpretação da experiência de campo e do difícil exercício de alteridade realizado entre o antropólogo e seus interlocutores. Primeiro, porque o texto etnográfico, como qualquer forma escrita de representação, já é em si mesmo uma adequação ou transformação da realidade que pretende inscrever, descrever, interpretar, compreender, explicar, etc. Segundo, porque, devido à própria natureza multifacetada e dinâmica da realidade social, não é possível conceber uma representação etnográfica que a reproduza integralmente, ainda que julguemos poder abordá-la em termos de instituições ou fatos totalizantes 85 , tal como prescrevia Marcel Mauss (1974).

Visto que as etnografias produzidas atualmente tendem a refletir sobre a condição do pesquisador em campo, a maneira como os dados são coletados e a forma como esses dados são reconstruídos no texto antropológico eram motivos de apreensão pra mim. Da mesma forma como a minha inserção em campo e a aceitação pela comunidade precisavam ser negociadas, evidenciada no fato de eu tentar me tornar alguém “com carteirinha” nas boates, as entrevistas não poderiam sofrer apenas um recorte e serem adequadas ao meu texto. Era preciso refletir sobre a “relação entre a realidade apresentada e as próprias condições de produção das representações e sua natureza” (SILVA, 2006, p. 119), uma vez que

No caso do texto etnográfico, essa crítica torna-se central, pois, sendo a escrita uma aquisição cultural, a etnografia, como um projeto de produção de conhecimentos sobre grupos sociais e suas culturas, possui também sua própria forma de conhecer. Ou seja, especular sobre os conhecimentos de qualquer comunidade, sem questionar o próprio modo como se apreende esse conhecimento, é realizar apenas uma parte dos objetivos da etnografia. A frequente eliminação, no texto etnográfico, dos ‘andaimes’ que permitem a sua construção, anula também as possibilidades de se olhar através da organização da narrativa as múltiplas veredas que lhe dão origem (SILVA, 2006, p. 119).

Observando os questionamentos e as imbricações da relação entre eu/pesquisador e o outro/pesquisado apontados acima, desenvolvi as entrevistas, a partir da disponibilidade de cada um e da minha própria, sem nenhum tipo de constrangimento que

85 Eunice Durham (2004, p. 21) entende que: “A análise antropológica consiste em construir sistemas a partir de uma realidade que aparece, de início, como fragmentada. A aparência fragmentada e destituída de significação decorre da exterioridade do observador e a construção de sistemas coerentes pela antropologia deve corresponder a uma integração real, constantemente realizada pelos membros da sociedade portadores da cultura, através de processos que são, o mais das vezes, inconscientes. Esse tipo de investigação pressupõe uma noção de totalidade integrada cuja reconstrução é o objetivo último do pesquisador”.

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impossibilitasse a continuação das mesmas 86 . Creio que os resultados foram satisfatórios e serão apresentados a seguir.

2. @s interlocutoras/es: um breve resumo das histórias de vida

2. 1. L. C.

L. C. é uma mulher transexual, 30 anos, parda, estudante de Psicologia. Mora na periferia de Belém, no bairro da Terra-Firme, tendo recentemente retornado à casa da mãe. Passou um período de quase quatro anos morando em um pensionato, no centro da cidade. Lá se descobriu como mulher transexual. Superou algumas fases difíceis como a falta de apoio da família, que foi a responsável pela sua saída de casa. Passou “ilesa” frente aos preconceitos demonstrados por amig@s e colegas de turma, ainda à época da escola. Mas depois que entrou na universidade descobriu os prazeres e as dores de ter uma performance de gênero dissonante de seu sexo biológico. Nesta passagem pela universidade, em processo de finalização, e por vários lugares de sociabilidade GLS contraiu o vírus do HIV/AIDS. Isso tudo com ajuda de amig@s que apresentaram, ainda na adolescência, os bares onde se podia viver essa ruptura com os laços familiares. Dois eventos importantes marcaram sua trajetória: primeiro, conhecer o “cinema de pegação” de Belém, o Cine Ópera; e segundo, os sites, as redes sociais e salas de bate-papo online. A entrevista ocorreu na Federal 87 , de manhã, numa sala em que estávamos somente ela e eu. Fomos interrompidos uma única vez, mas esse fato não foi responsável pela perda de coerência na narrativa que ela estava construindo para mim. Estava vestida de jeans e camiseta e possuía uma mochila, ao modo das mulheres de sua idade. E sempre referia-se a si mesma utilizando o artigo no feminino, correspondendo a isso o uso dos pronomes, adjetivos e quaisquer palavras que denotassem uma desinência de gênero. Exceto por uma vez, quando me contava um caso que acontecera ainda na infância: o fato

86 Silva (2006, p. 41) assim define os resultados das pesquisas: “(

entre outras coisas, dos constrangimentos da inserção do antropólogo no campo e do encontro com determinados tipos de informantes ou interlocutores”.

as elaborações antropológicas resultam,

)

87 Modo como a Universidade Federal do Pará, ou somente UFPA, também é conhecida, principalmente entre @s que (con)vivem nela.

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de não ter sofrido (ou sentido) preconceito com relação à sua orientação sexual no ambiente escolar, tendo passado “ileso pela família também”. A entrevista foi calma, apesar dos momentos de tensão, que se faziam visíveis enquanto ela me contava aspectos de sua vida que eu desconhecia, como nos casos de desavenças entre ela e a mãe, pois mesmo fazendo quase cinco anos que nos conhecemos, não sabia de muitos dos acontecimentos narrados. Rimos juntos em vários momentos, principalmente nos relacionados aos aprendizados sobre o flerte, ou nos relacionados às vivências “pré-transformação”, como no caso a seguir. Eu perguntava a ela como fora sua criação 88 , a relação com a família e com @s amig@s, no qual ela me contou um fato da época da escola, da qual saíram para passear de ônibus:

Então, a gente pegou um ônibus, sentamos atrás e começamos a cantar alto. Aí eu

Era na época que cantava aquela música da

Só lembro que a

gente estava sentada na mesma linha e eu era a última, aí depois tinha uma moça

chamada Z., hoje ela formada em Biblioteconomia, né, trabalha até aqui na Federal, trabalhando aqui. Aí, o E. lá do canto: “diz aí Z. o que vai fazer?”. Ela:

“Eu vou dar uma dedada na barata

dela

via que as pessoas ficavam olhando

“barata da vizinha” <risos> <tosse>. Aí, depois, aí, o E. 89 cantava

“vou comprar um dedo pra me defender!” ”

<risos> (L. C., 30 anos, 23/01/2012).

Neste momento da narrativa ela começa a expor os primeiros contatos com uma turma de amig@s que também compartilhava de experiências dissidentes, sendo que os dois