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A

MORTE
DA

LEI

Fernando Carlos M. Rodrigues


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- Introdução ................................................................................................................. 2
- I - Deus e a Lei ......................................................................................................... 8
- II - O Nascimento da Lei ....................................................................................... 9
- III - A Função da Lei .............................................................................................12
- IV - Mandamentos da Lei e Mandamentos do Senhor ................................... 14
- V - Rompimento Necessário ................................................................................ 23
- VI - Rejeição ao Pecado e Renovação da Consciência ................................... 26
- VII - Mas, e os Nossos Pecados? ...................................................................... 32
- VIII – A Mente Autojustificada ....................................................................... 38
- IX - O Relacionamento com os Legalistas ....................................................... 77
- X – Acerca do Mérito Humano ............................................................................ 86
- XI – O Evangelho de Paulo ................................................................................... 94
- XII – A Inutilidade da Lei ................................................................................... 99
- XIII – Lei e Graça: Absolutamente Excludentes Entre Si ........................ 102
- XIV – A Verdade Que Liberta .......................................................................... 104
- XV – Sempre Atuantes, Mesmo Diante das Dificuldades .......................... 106
- XVI – O Mundo ..................................................................................................... 108
- Considerações Finais ........................................................................................... 109

“Tudo que a Lei diz, aos que vivem na Lei o diz”


(Rm 3:19)
“Se sois guiados pelo Espírito não estais sob a Lei”
(Gl 5:18)
“Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus”
(Rm 8:14)
INTRODUÇÃO

- Por que a Nova Aliança é do Espírito e não da letra? (II Co 3:6)


- O que significa estar debaixo da Lei ou debaixo da Graça? (Rm 6:14)
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- Por que quem está sob a Lei não pode estar na Graça? (Gl 5:4)
- Por que a força do pecado é a Lei, e não a Graça? (I Co 15:56)
- A Graça incentiva o pecado? (Rm 5:20 – 6:2)
- A morte da Lei é uma licença para a libertinagem? (I Co 6:12)
- “E conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará” (Jo 8:32). Que
verdade? Libertará de quê? Para quê?
- “Por que há de ser julgada a minha liberdade pela consciência alheia?”
(I Co 10:29) O que o apóstolo Paulo quis ensinar aqui?
- “A fé que tens, tem-na para ti mesmo, perante Deus. Bem-aventurado
é aquele que não se condena naquilo que aprova” (Rm 14:22). O que
significa isso, na prática?
- “Se o coração não nos acusar, temos confiança diante de Deus” (I Jo
3:21). E aí?
- Se a salvação é pela Graça e a Graça é favor imerecido, o mérito
humano não tem valor algum nem deve ser buscado?
- O fato de que a salvação é pela fé e não tem a ver com a moral
significa que o cristão não precisa zelar por sua imagem?
- Se morremos para a Lei/legalismo (justificação diante de Deus pelos
nossos méritos através de parâmetros legitimadores da nossa
justiça), estamos desobrigados de uma vida na “legalidade”?
- Por que a letra mata e o Espírito vivifica? (II Co 3:6)
- O que é Justiça da Lei e o que é Justiça de Deus? (II Co 5:21; Fp 3:9)
- O que é justiça que procede de lei e justiça que procede de fé?
- O que é “aperfeiçoar-se na carne”? (Gl 3:3)
- O que é a “Lei do pecado e da morte”? (Rm 8:2)
- “Tudo que a Lei diz, aos que vivem na Lei o diz” (Rm 3:19). Você vive
na Lei ou na Graça de Cristo?
- O que é o ministério da morte e da condenação? (II Co 3:7-9)
- Por que, afinal, a Palavra da Cruz é escândalo e loucura? (I Co 1:23)
- No episódio da mulher adúltera (Jo 8:1-11), Jesus desmoralizou os
moralistas de plantão em vez de julgar e condenar a transgressora.
Por quê?
- “...temos posto a nossa esperança no Deus vivo, Salvador de todos os
homens, especialmente dos fiéis” (I Tm 4:10). O que significa isso?
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- Por que e como a lei domina o homem enquanto ele vive? (Rm 7:1)
- Por que o domínio do pecado é sobre quem está debaixo da Lei, e não
sobre quem está livre dela, na Graça de Cristo? (Rm 6:14)
- Por que a Lei desperta toda sorte de concupiscência? (Rm 7:8)
- O que é estar sujeito à Lei e o que é estar livre da Lei? (Rm 7:6)
- O que é o evangelho da “circuncisão” e o da “incircuncisão”? (Gl 2:7)
- Por que precisamos morrer para o estatuto da autojustificação (a Lei)
a fim de pertencermos àquele que ressuscitou dentre os mortos e
assim vivermos e frutificarmos para Deus? (Rm 7:4; Gl 2:19)
- Qual o comportamento de quem busca justificação na justiça da Lei?
- Qual a opinião de Cristo sobre esse comportamento?
- O que é um legalista?
- O que é autojustificação?
- Por que, no reino dos céus, publicanos e meretrizes precedem
religiosos moralistas e autojustificados? (Mt 21:31)
- Deus disse: “Achei a Davi, filho de Jessé, um homem segundo o meu
coração, que fará toda a minha vontade” (At 13:22). Jesus é chamado
de “O Filho de Davi”. Mesmo com tanto prestígio diante de Deus, por
que, na religião dita cristã, ninguém aconselha: “Seja como Davi”?
- O que havia de tão bom em Davi (adúltero, assassino frio, desbocado,
atrevido...) que fazia dele um homem segundo o coração de Deus?
- Como é, afinal, um homem segundo o coração de Deus?
- Por que Paulo tratou de vários pecados na igreja (muitos dos quais
constavam claramente no estatuto mosaico), mas não se referiu à Lei
como referencial de acusação e condenação por esses pecados?
- Por que Paulo jamais citou a Lei como parâmetro de conduta para os
discípulos nem ordenou a submissão a ela?
- Por que a Lei é fraca e inútil para o aperfeiçoamento? (Hb 7:18)
- Como é possível o homem interior renovar-se de dia em dia, ainda que
o homem exterior se corrompa? (II Co 4:16)
- Por que o poder de Cristo se aperfeiçoa na nossa fraqueza? (II Co
12:9)
- O que significa “negar-se a si mesmo”? (Mc 8:34)
- O que significa perder a vida a fim de salvá-la? (Mt 16:25)
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- Por que, para o apóstolo dos gentios, discussões e debates sobre a Lei
são inúteis e fúteis? (Tt 3:9)
- Para Paulo, o que é “desfazer o escândalo da cruz”? (Gl 5:11)
- Por que, para Pedro, impor a Lei aos discípulos é “tentar a Deus”? (At
15:10)
- O que significa: “A Lei não procede de fé”? (Gl 3:12)
- Se a Lei não procede de fé e “sem fé é impossível agradar a Deus”
(Hb 11:6), como pode alguém agradar a Deus com obras da Lei?
- “Se a justiça procede da Lei, Cristo morreu em vão” (Gl 2:21). O que
significa isso?
- Se a justificação pela Lei anula o sacrifício de Cristo (Gl 2:21), por
que muitos ainda insistem na sujeição ao estatuto mosaico?
- Se quem está sob a Lei está sob maldição (Gl 3:10), por que tantos
cristãos sujeitam-se a ela?
- Por que “Quem ama ao próximo tem cumprido a Lei”? (Rm 13:8)
- O que foi que eu destruí e que, se eu tornar a edificar, constituir-me-
ei transgressor? (Gl 2:18)
- O que significa “ser achado nele, não tendo justiça própria, que
procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que
procede de Deus, baseada na fé”? (Fp 3:9)
- Cristo foi constituído sacerdote, não conforme a lei de mandamento
carnal, mas segundo o poder de vida indissolúvel (Hb 7:16). Qual a
diferença? O que é essa “lei de mandamento carnal”?
- “...quando se muda o sacerdócio, necessariamente há também mudança
de lei” (Hb 7:12). O que significa isto?
- “Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo”
(Gl 6:2). O que significa isso? O que é a Lei de Cristo? (I Co 9:20-21)
- O que foi decidido no “Concílio de Jerusalém” sobre a imposição da
Lei aos discípulos (At 15:5-21)? A “religião cristã” segue a decisão
apostólica?
- Religião Cristã, Cristianismo e Evangelho são a mesma coisa?
- Se o fardo de Cristo é leve (Mt 11:30), por que o da religião cristã é
tão pesado?
- Qual a opinião do apóstolo Paulo sobre a tentativa de conciliar Lei e
Graça? (Gl 1:6-9; 5:11)
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- O que é servir em novidade de espírito e não na caducidade da letra?


(Rm 7:6)
- Se Cristo veio para que tivéssemos vida em abundância (Jo 10:10), por
que sujeitar-nos ao ministério da morte e condenação? (II Co 3:7-9)
- Por que quem adora a Deus em espírito e se gloria em Cristo não
confia na carne? (Fp 3:3) O que é confiar na carne?
- Por que as cartas paulinas se caracterizam pelas advertências contra
o legalismo (justificar-se e servir na caducidade da letra/Lei) e
contra os legalistas (os que se autojustificam e servem na caducidade
da letra/Lei), e não pela neurose contra a transgressão da Lei?
- “Pois isto: ‘Não adulterarás’, ‘Não matarás’, ‘Não furtarás’, ‘Não
cobiçarás’, e se há qualquer outro mandamento, tudo nesta palavra se
resume: ‘Amarás ao teu próximo como a ti mesmo’” (Rm 13:9). O que
significa isso?
- O cristianismo deu ouvidos às advertências de Paulo sobre o legalismo
ou “entronizou” os legalistas, “judaizou-se” e adotou de vez o “outro
evangelho” (mistura de Lei e Graça), abominado pelo apóstolo dos
gentios? (Gl 1:6-9)
- Por que muitos cristãos assemelham-se muito mais aos fariseus que
conspiraram para matar Jesus do que aos apóstolos e discípulos?
- Por que, em vez de serem conhecidos pelo amor ao próximo (Jo
13:34), pela mansidão e pela humildade (Mt 11:29), muitos cristãos
são conhecidos pela postura extremamente arrogante, julgadora,
rotuladora, isolacionista e desprezadora do próximo?
- Quem são e onde estão os que, naquele dia, dirão: “Senhor, em teu
nome não profetizamos? Não expulsamos demônios? Não fizemos
maravilhas?”, e que ouvirão: “Nunca vos conheci” (Mt 7:22-23)?
- Se “a misericórdia triunfa sobre o juízo” (Tg 2:13), por que tantos
cristãos confessos são conhecidos exatamente pela notória falta de
misericórdia e pelo duro juízo sobre o próximo?
- Por que a Lei suscita a ira (Rm 4:15)?
- Por que tantos cristãos odeiam tanto?
Entre tudo o que há no Novo Testamento sobre a Lei, chamam a
atenção as várias afirmações paulinas de que morremos para a Lei, bem
como ela morreu em nossas vidas. Só pode estabelecer um relacionamento
com Cristo aquele para quem o estatuto da autojustificação morreu.
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No cristianismo sempre houve o temor de se declarar que quem está na


Graça de Cristo não pode estar sujeito à Lei Mosaica, bem como um
verdadeiro pânico diante da afirmação paulina de que a Lei (e qualquer
referencial meritório de autojustificação para salvação) morreu para quem
está em Cristo. Há quem receosamente chame a Lei de “a outra verdade” ou
de “a não-Graça”. Paulo a chamou claramente de “a força do pecado”.
Para Paulo, a palavra “lei” designava a Lei Mosaica e também qualquer
outro referencial legitimador da justiça própria do homem (fora da
justificação gratuita em Cristo, tudo é autojustificação humana por mérito
próprio, tudo é justiça que “procede de lei” e, portanto, anula a Graça de
Cristo). Essa busca pela autojustificação procedente de lei domina o homem
enquanto ele vive, e para livrar-se de tal domínio, o homem natural precisa
confrontá-lo em um processo contínuo de renovação da sua mente
autojustificada, exercitando a rejeição de qualquer justiça própria para
salvação e aprendendo a confiar apenas na Justiça de Cristo, ou Justiça do
Calvário, ou ainda Justiça de Deus, que provém de fé, e não de lei.
Só há “vida na Graça” com a “morte da lei”. Fora disso, o que existe é a
busca de autojustificação. Na cruz do Calvário, Cristo aboliu na própria
carne toda forma de legitimação da justiça humana para salvação (a Lei
Mosaica e qualquer outro parâmetro), por isso quem é justificado pela Graça
vive pela fé na Justiça do Calvário, mantém profunda e verdadeira comunhão
com Cristo, e frutifica para Deus. Não ignoremos, portanto, as atitudes e
artimanhas de mentes ainda escravizadas ao jugo da Lei e que nela buscam
legitimação para sua justiça própria.
Discernir Graça e Lei é condição básica para a plena compreensão da
Palavra da Cruz. Tal conhecimento propicia o deslumbrar-se diante do amor
de Deus, manifestado no Evangelho de Jesus Cristo, bem como capacita a
identificar onde há o Espírito do Evangelho e onde há somente o engodo
meritório religioso, que apenas explora e manipula a intuição meritória do
homem natural e a sua sede de justiça própria.
Quem está debaixo da Lei não pode estar debaixo da Graça, e vice-
versa. Quem busca justificação pela Lei não será justificado pela Graça.
Entretanto, o que mais sabemos sobre a Lei, além disso? O que é a Lei? Por
que foi dada? Que bem ou mal ela pode trazer? Pode a Lei salvar? Não é
papel fundamental da igreja alertar as pessoas para que desistam de
qualquer tentativa de autojustificação e corram para Cristo?
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I - DEUS E A LEI

Existe, a respeito da Lei, uma idéia absolutamente equivocada, mas


profundamente enraizada no subconsciente dos cristãos. Para o cristianismo
em geral, Jesus Cristo é a encarnação de Deus, mas a Lei Mosaica também é
vista como uma personificação divina. Cristo é Deus em forma humana, e a
Lei seria Deus em linguagem humana; Deus em forma de mandamentos e
ordenanças, para que a nossa mente limitada possa compreender mais
facilmente, de forma prática, a complexa e desejável santidade divina. A Lei
- um conjunto de mandamentos absolutos, generalizados e imutáveis, com
nauseante cheiro de condenação - seria a personificação de um Deus
igualmente absolutista, generalizador, inflexível, e sedento de condenação.
A Lei seria, portanto, “Deus explicado”, “a bula de Deus”, ou ainda “o DNA
de Deus” e, conseqüentemente, o caminho mais óbvio para ele (mais óbvio e
confiável até do que o perdão em Cristo, que parece meio incerto e
duvidoso...).
É isso que acontece em todas as religiões, onde se busca a ilusória
perfeição humana, ou um “contato do humano com o divino”, e as regras
(leis) para se conseguir tal intento são a essência do próprio deus. Mas isso
nada tem a ver com o Evangelho de Jesus Cristo. Trazer esse raciocínio
para a vida cristã acarreta muitos problemas para quem quiser andar na
plenitude da Graça de Deus. Tal idéia precisa ser definitivamente arrancada
do nosso espírito, sob pena de não compreendermos a essência do Evangelho
de Cristo, pois, nele, DEUS NÃO É A LEI e A LEI NÃO É DEUS.
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II - O NASCIMENTO DA LEI

Não é necessário estar debaixo da Lei Mosaica (sujeito a ela, como os


judeus) para estar sujeito ao julgamento divino; ou seja, não é passivo de
julgamento somente quem está debaixo da Lei Mosaica (Rm 2:12-15). A lei
que primeiro acusa o homem, de forma implacável, é a sua própria
consciência, desde o jardim do Éden, quando ele quis ser conhecedor do bem
e do mal (Gn 3:5). Tal conhecimento o fez conscientemente responsável
pelas conseqüências de suas decisões, que, a partir daquele instante,
poderiam ser tomadas à revelia da vontade de Deus. A partir dali já se fazia
conhecer a “norma da lei” (Rm 2:15), que domina o homem enquanto ele vive
(Rm 7:1), e o padrão de julgamento gerado por essa consciência do bem e do
mal é o seu principal acusador, pois antes de transgredir a Lei Mosaica
(quem debaixo dela está), o homem transgride a lei da própria consciência
(Rm 2:1). Mas Deus já havia explicado, de forma bastante clara, concisa e
direta, aonde a lei da consciência levaria o homem (Mas da árvore do
conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela
comeres, certamente morrerás – Gn 2:17). Por isso, é exatamente a
consciência do homem que Deus quer restaurar e renovar, livrando-a da
escravidão ao pecado, para que ele volte a ter sintonia e comunhão com o
seu Criador (Ef 5:17). Tal tarefa não pode ser realizada pela Lei.
A nossa consciência é o alvo do aperfeiçoamento no amor de Deus (Rm
12:2). É uma consciência pura que o apóstolo Paulo aponta como alvo daquele
que nasceu na Graça (At 24:16). É ela que inspira cuidados em nosso
relacionamento com os irmãos “mais fracos” (I Co 10:23-31). É ela que nos
dá confiança diante de Deus (I Jo 3:21), e é uma bem-aventurança não ser
por ela reprovado (Rm 14:22). É ela também a nossa testemunha (Rm 9:1) e
com ela devemos servir ao nosso Deus (II Tm 1:3). Mas, para muitos líderes
do cristianismo de nossos dias, falar em buscar uma consciência pura e
regenerada, capaz de discernir a vontade de Deus em toda situação, soa
como heresia e desrespeito ao estatuto mosaico.
Mas, se a “norma da Lei” - que está gravada na consciência do homem
(Rm 2:15) – acusa-o de seus pecados, qual a razão da Lei Mosaica?
Ela foi “adicionada” por causa das transgressões (Gl 3:19), para que se
tivesse uma lei positiva e um parâmetro absoluto, de forma que o Messias a
obedecesse e a cumprisse cabalmente, para que a sua justiça não
dependesse apenas da “norma da Lei” que está na consciência humana desde
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o Éden. Afinal, pela consciência de quem, seria julgada a justiça do Messias


(I Co 10:29)?
A Lei Mosaica é uma sistematização completa e generalizada da
consciência de pecado que é inata ao homem, individualmente (Rm 3:20).
Alguém cuja consciência desconheça algum pecado, certamente o conhecerá
na Lei (Rm 7:7), que é o estatuto da perfeição humana (e não divina, como
muitos pensam). Quem a cumprisse cabalmente seria considerado perfeito
em nível humano, por isso ela foi dada como um alvo a ser alcançado pelo
Messias, que, como homem, teria de ser perfeito (cordeiro sem mácula),
para poder pagar pelos pecados de toda a humanidade (I Jo 2:2). Desse
modo, a Lei Mosaica - e tudo relativo a ela - é dirigida exclusivamente ao
povo de Moisés (Rm 9:4), do qual viria o Messias (mas nem eles a cumpriam –
Jo 7:19; Gl 6:13), e que não poderia ser um povo sem lei civil e sem o
direcionamento espiritual correto (a Lei Mosaica aponta para o Messias – Gl
3:24), sob o risco de o Filho de Deus nascer em uma família idólatra, por
exemplo. Por isso a Lei contém mandamentos morais e cerimoniais.
Contudo, a Lei nunca foi um meio de aperfeiçoamento espiritual para
ninguém (Hb 7:18-19), e a sua exigência de perfeição apenas empurra o
pecador para o Messias perdoador. Por isso a sua validade foi “até que
viesse o descendente, a quem se fez a promessa” (Gl 3:19). Para quem, e só
para quem está no descendente (Jesus Cristo), acabou a validade da Lei (a
da consciência e a sua sistematização – a mosaica), “porque o fim da Lei é
Cristo, para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10:4); “as coisas velhas já
passaram, eis que tudo se fez novo” (II Co 5:17), por isso já não importa se
estávamos debaixo da “norma da Lei” na consciência (gentios) ou debaixo da
Lei Mosaica (judeus); o que importa é sermos nova criatura naquele que da
lei nos libertou para a liberdade (Gl 5:1). Essa é a “regra” do Espírito, e
todos os que andarem em conformidade com ela terão paz e misericórdia (Gl
6:15-16).
Paulo reprova veementemente a nossa sujeição à Lei (Gl 2:14) e ainda
afirma que todo gentio que voluntariamente se submete a uma única
exigência da Lei Mosaica fica obrigado a guardá-la integralmente (Gl 5:3). A
religião cristã (que busca solidez institucional no estatuto mosaico),
sabendo disso e não confiando que a consciência do pecador forneça
acusações suficientes para condená-lo, sempre cuidou de “voluntariar” os
cristianizados para debaixo da Lei Mosaica, para que todos tenham um
acusador eficiente, de modo que, na realidade, é de debaixo da pesada mão
de Moisés que a grande maioria dos que hoje se convertem ao Evangelho
precisa ser resgatada, pois a Lei Mosaica é o referencial de justiça e
acusação que a religião cristã já plantou no coração dos seus adeptos,
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ignorando a consciência do pecador, que é justamente o que precisa ser (e


Deus quer que seja) renovado.
Paulo foi muito claro: separado está de Cristo todo aquele que procura
justificar-se na Lei; e, se esse alguém um dia pensou estar na Graça de
Cristo, dela decaiu (Gl 5:4). Tais palavras exigem uma séria e urgente
reflexão...
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III - A FUNÇÃO DA LEI

Mas se a Lei não é Deus, e Deus não é a Lei, qual o papel dela no plano
de salvação dos pecadores? Sabemos que Deus é o juiz, mas um juiz apenas
dá a sentença do réu, que é baseada nas acusações que contra ele pesam e
na defesa que lhe presta o seu advogado. Sabemos ainda que o Senhor
Jesus é o advogado de todo aquele que nele crê e que, obviamente, o tem
como seu advogado (I Jo 2:1), e que esses nem entram em juízo (Cristo é o
nosso advogado hoje, pois os seus não entrarão em julgamento - Jo 5:24); no
próprio Cristo de Deus já fomos julgados, condenados, sentenciados à morte
e tivemos a nossa pena executada. Quem será, então, o acusador?
Sempre que o Senhor Jesus falava da sua própria obrigação de, como
Messias, guardar infalivelmente toda a Lei, ele referia-se a ela como
“vontade do meu Pai” ou como “mandamentos do meu Pai” (Jo 15:10). Mas
sempre que ele falava da sujeição dos homens à Lei, na tentativa de
justificarem-se diante de Deus pela obediência a ela, ele a separava da
pessoa de Deus (“vossa Lei” - Jo 8:17) e a ligava à figura de Moisés (Jo
7:19), e fazia isso porque Deus não tem nada a ver com a justificação dos
homens pela Lei.
Foi fazendo justamente essa separação que o Senhor Jesus respondeu
de forma bastante clara à pergunta sobre quem será o acusador do homem:
“Não penseis que vos acusarei perante o Pai. Quem vos acusa é Moisés (a
Lei), em quem tendes firmado a vossa confiança” (Jo 5:45). Quem não crê
que a Lei aponta para Cristo, e busca justiça própria mediante a obediência
às suas ordenanças (da Lei), está dormindo com seu próprio algoz. A vontade
do Pai para o Filho (entre outras coisas) era que ele cumprisse cabalmente a
Lei. A vontade do Pai para os homens é que todos, morrendo para a Lei
(deixando de buscar justificação nela), creiam na justificação através do
Filho e, assim, tenham a vida eterna (Jo 6:40).
É função da Lei, portanto, acusar e criminalizar os pecados dos homens
– e só! Ela não ama, não tem misericórdia, não dá chance de arrependimento,
não perdoa, não aperfeiçoa nem salva ninguém. Há um só que faz tudo isso:
DEUS - e Deus não é a Lei, e a Lei não é Deus. Ela acusa - e só acusa - os
pecados do mundo inteiro, mas a interferência amorosa de Deus foi para
assumi-los todos (I Jo 2:2), e a sua vontade é “que todos os homens sejam
salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (I Tm 2:4). Para isso
ele “estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo, não imputando aos
homens as suas transgressões” (II Co 5:19).
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Deus não é o acusador de pecados; ele é o perdoador de pecados. Ele é


essencialmente absoluto, mas não é essencialmente absolutista (se fosse,
alma nenhuma subsistiria). Na pessoa de seu Filho, o Deus absoluto viveu e
cumpriu a exigência de justiça absoluta da Lei (o Deus absoluto apresentou
justiça absoluta a si mesmo em nosso favor) e gratuitamente disponibiliza o
benefício para todo o que crê (Rm 3:24). A estes o Senhor jamais imputará
pecados (Rm 4:8), pois a sentença da justiça da Lei é uma só: condenação e
morte eterna, mas a sentença da justiça de Deus (manifestada e executada
em Cristo - II Co 5:21) é misericórdia, perdão e vida eterna, de modo que o
povo de Deus deve ser notoriamente o “povo do perdão”, para quem pode e
deve se dirigir toda alma cansada e oprimida, pois ali achará descanso e
alívio de seus pesados fardos (Mt 11:28-30).
O amor de Deus por nós trouxe-nos o perdão gratuito e imerecido de
nossas transgressões e, da mesma forma, o nosso amor pelo próximo deve
também levar-lhe sempre o mesmo perdão imerecido e gratuito, pois Deus
nos perdoou para que sejamos nós também igualmente perdoadores. No
Evangelho de Cristo, a renovação da mente e a transformação do coração
acontecem através do amor e do perdão, e não pela obediência temerosa a
ordenanças.
Se você não almeja nem vê, por exemplo, uma grande vitória no fato de
conseguir perdoar alguém que lhe ofendeu gravemente, trazendo-lhe
angústia e muito sofrimento, e a partir daí sepultar a mágoa, passando a
viver em paz com quem lhe ofendeu, você ainda tem uma noção muito
pequena da transformação que Cristo quer efetuar em você. E se você não
vê nisso nem algo que deve ser buscado, e acha normal que não consiga, pois
não é natural e seria injusto com você, então preocupe-se com o que você
chamou de sua “conversão”, pois, embora o chame pelo mesmo nome, o
senhor a quem você pensa servir não é o Senhor Jesus Cristo.
Fala-se por aí que há várias formas de amar, e muita gente diz que ama
muita gente. Mas desconfie de um amor que se diz “capaz de fazer qualquer
coisa nessa vida”, mas é incapaz de perdoar, pois a essência do amor é o
perdão, e o perdão é para verdadeiros culpados, sem a menor justificativa
para os seus erros - assim como nós, diante de Deus. Quem diz que ama, mas
é incapaz de perdoar, incorre na mentira mais irônica, que é mentir para si
mesmo.
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IV - MANDAMENTOS DA LEI (PARA MORTE) E


MANDAMENTOS DO SENHOR (PARA VIDA)

“Se, portanto, a perfeição houvera sido mediante o


sacerdócio levítico (pois nele baseado, o povo recebeu a Lei), que
necessidade haveria ainda de que se levantasse outro sacerdote,
segundo a ordem de Melquisedeque, e que não fosse contado
segundo a ordem de Arão? Pois quando se muda o sacerdócio,
necessariamente há também mudança de lei” (Hb 7:11-12)
“Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão
em Cristo Jesus, porque a lei do Espírito da vida em Cristo Jesus
te livrou da lei do pecado e da morte” (Rm 8:1-2)
“Agora, pois, por que tentais a Deus pondo sobre a cerviz
dos discípulos um jugo que nem nossos pais puderam suportar,
nem nós?” (At 15:10)
“Procedi, para com os judeus, como judeu, a fim de ganhar os
judeus. Para os que vivem sob o regime da lei, como se eu mesmo
assim vivesse, para ganhar os que vivem debaixo da lei, embora
não esteja eu debaixo da lei. Aos sem lei, como se eu mesmo o
fosse, não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de
Cristo, para ganhar os que vivem fora do regime da lei” (I Co
9:20-21)
“Levai as cargas uns dos outros e assim cumprireis a lei de
Cristo” (Gl 6:2)
“O meu mandamento é este: que vos ameis uns aos outros,
assim como eu vos amei” (Jo 15:12)

A Lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom (Rm 7:12). Mas, como
meio de justificação diante de Deus, ela é, para o pecador (por não lhe
permitir um tropeço sequer – Tg 2:10), ministério de morte e condenação
(II Co 3:7-9), inútil para o seu aperfeiçoamento (Hb 7:18-19), de modo que o
mandamento que fora para vida, tornou-se (por causa do pecado) para
morte, porque a Lei é espiritual, mas o pecador é carnal, vendido à
escravidão do pecado (Rm 7:10-14).
A Lei vigorou até Cristo (obviamente para quem nele está), pois ele
aboliu na sua própria carne a Lei dos mandamentos em forma de ordenanças,
para, de judeus e gentios, criar um novo homem (Ef 2:15). Por causa do
pecado, os santos mandamentos da Lei são caminhos de morte, e está
15

debaixo de maldição todo aquele que, sendo das obras da Lei, não as cumpre
sem um tropeço sequer (Gl 3:10). Mas, em Cristo, tudo se fez novo (II Co
5:17), e quem está nele tem agora novos mandamentos. Não mais
mandamentos da Lei, em forma de ordenanças - que, por causa do pecado,
levam a condenação e morte eterna - mas mandamentos do Senhor (I Co
14:37), que são parâmetros de Deus para a vida de todo renascido na Graça
e no Espírito de Cristo, pois a questão da nossa condenação já foi resolvida
quando ele mesmo assumiu os nossos pecados e sofreu a sentença que seria
nossa.
Nos ensinos de Jesus e dos apóstolos estão os mandamentos para todo
renascido em Cristo, os quais têm os mesmos princípios espirituais dos
mandamentos da Lei (que é santa), mas não são penosos (I Jo 5:3), pois, não
tendo punições estabelecidas para infrações (como na Lei), são
absolutamente despidos de qualquer possibilidade ou intenção de julgamento
para condenação; são para vida e nos ensinam a viver e a andar no Espírito
(Gl 5:25), como um discípulo de Cristo deve andar, discernindo a vontade
divina e corajosamente tomando decisões em cada situação na vida real, e
não no mundo fantasioso e hipócrita da religiosidade legalista. Por isso os
mandamentos do Senhor serão de muito maior glória, pois são ministério do
Espírito e da Justiça (II Co 3:7-9), e têm no amor a sua causa e efeito,
porque amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a si mesmo excede
a todos os holocaustos e sacrifícios (Mc 12:33), e quem ama não pratica o
mal contra o próximo, de sorte que o cumprimento da lei é o amor (Rm
13:10).
Cristo anunciou um novo mandamento - base de muitos outros ensinados
por ele mesmo e, posteriormente, pelos apóstolos - que é também o
referencial identificador de seus discípulos (“Novo mandamento vos dou:
que vos ameis uns aos outros. Assim como eu vos amei, que também vos
ameis uns aos outros. Nisto conhecerão todos os que sois meus discípulos,
se tiverdes amor uns aos outros” - Jo 13:34-35). Convém lembrar que tais
palavras de Jesus não são um conselho ou uma advertência, mas um
mandamento para os seus discípulos. Quem está nele “é aperfeiçoado no
amor e deve andar como ele andou” (I Jo 2:5-6). Diferente da expectativa
religiosa mais comum, a maior característica do discípulo de Cristo –
determinada por ele mesmo – não é o “pecado zero”, mas, sim, o amor ao
próximo.
Sempre que leio aqueles que o Senhor Jesus chamou de principais
mandamentos, eu me pergunto: “O que é e para que serve uma fé,
supostamente em Cristo, mas que não gera humildade nem leva o indivíduo a
16

ações práticas, reais e relevantes que manifestem misericórdia e amor ao


próximo (Tg 2:18)? De quem é tal evangelho? De Jesus Cristo?”.
A diferença, não só de finalidade, mas também de linguagem e
instrumentalidade, entre os mandamentos da Lei e os mandamentos do
Senhor é facilmente identificável. Enquanto a Lei ameaça com a condenação
e aterroriza o pecador, perseguindo-o tal qual um pitbull que tenta morder-
lhe o calcanhar (em algum momento ele vai pegá-lo), os mandamentos do
Senhor afastam toda a condenação e o medo dela, e são um incentivo
constante à renovação da mente, para que obtenhamos “um coração puro,
uma boa consciência e uma fé sem hipocrisia” (I Tm 1:5).
Longe de tentar subjugar pela ameaça e pelo medo, o que se vê nos
mandamentos do Senhor (anunciados pelo próprio Jesus e também pelos
apóstolos) é o incentivo para que desenvolvamos em nós o que todo aquele
que está em Cristo já recebeu, ou seja, a própria mente de Cristo (I Co
2:16). Por isso é que os apóstolos - numa linguagem firme, mas amorosa –
rogam que: acatemos, consideremos, aceitemos, perdoemos, busquemos,
participemos, aconselhemos, admoestemos, cresçamos, renovemos,
recebamos, amparemos, consolemos, suportemos, dividamos, evitemos,
deixemos, rejeitemos, despojemo-nos, revistamo-nos, sigamos, anunciemos,
façamos, edifiquemos, persistamos, amemos, falemos, compartilhemos,
alegremo-nos, regozijemo-nos, oremos, intercedamos, louvemos,
glorifiquemos, caminhemos, creiamos, libertemos, confiemos e vivamos. O
objetivo de tudo isso é remover o véu legalista que nos mantém na cegueira
religiosa e farisaica e, em um processo gradual, que deve ser sempre
crescente (Cl 1:9-10; II Pe 3:18), ensinar-nos a enxergar com os olhos do
Espírito, sem o véu do legalismo autojustificador (II Co 3:12-18).
Tudo que Cristo ensinou fora do contexto da Lei Mosaica, bem como os
ensinamentos dos apóstolos (também fora do contexto exclusivamente
judaico), são mandamentos do Senhor Jesus, e não da Lei. E é a esses
mandamentos do Senhor Jesus - e não aos da Lei - que se referem
versículos como: “Ora, sabemos que o temos conhecido por isto: se
guardamos os seus mandamentos” (I Jo 2:3); “Se me amais, guardareis os
meus mandamentos” (Jo 14:15); “Aquele que tem os meus mandamentos e os
guarda, esse é o que me ama” (Jo 14:21); “Se guardardes os meus
mandamentos, permanecereis no meu amor” (Jo 15:10). Confundir a ordem
de “guardar os mandamentos do Senhor Jesus” com “guardar os
mandamentos da Lei” é suicídio espiritual; é confundir vida e morte. Assim
como, mesmo aquele que não crê em Cristo usufrui bênçãos se, em algum
ponto, andar conforme os mandamentos do Senhor (porque são para a vida),
aquele que afirma crer em Cristo, mas ao mesmo tempo tenta justificar-se
17

por andar segundo as obras da Lei, também de algum modo sentirá as duras
conseqüências de tentar trazer novamente sobre si a justiça da Lei, pedindo
e submetendo-se voluntariamente à sua disciplina (Ez 20:37).
Mas, em Cristo, tudo se fez novo, e não mudou apenas a linguagem dos
mandamentos. A metodologia, a forma e o objetivo do relacionamento são
diferentes. Tudo o que era relacionado ao regime da Lei - instrumentos,
práticas e costumes (e que sempre foram privativos dos israelitas – Rm 9:4)
- foi extinto na Nova Aliança. O voto já tinha sido alvo de ressalvas do
próprio Deus, que o desestimulava já na antiga aliança (“Quando a Deus
fizeres algum voto, não tardes em cumpri-lo, porque não se agrada de tolos.
Cumpre o voto que fazes. Melhor é que não votes do que votes e não
cumpras” - Ec 5:4-5), e foi expressamente proibido por Cristo na Nova
Aliança: “Também ouviste que foi dito aos antigos: Não jurarás falso, mas
cumprirás rigorosamente para com o Senhor os teus juramentos. Eu, porém,
vos digo: de modo algum jureis, nem pelo céu – por ser o trono de Deus –
nem pela terra – por ser o estrado dos teus pés; nem por Jerusalém – por
ser cidade do grande Rei; nem jures pela tua cabeça, porque não podes
tornar um cabelo branco ou preto. Seja, porém, a tua palavra: sim, sim; não,
não. O que disto passar vem do maligno” (Mt 5:33-37).
Esse mesmo mandamento do Senhor foi repetido por Tiago: “Acima de
tudo, porém, meus irmãos, não jureis nem pelo céu, nem pela terra, nem por
qualquer outro voto. Antes seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não” (Tg
5:12). Mas o voto sempre foi muito apreciado na religião cristã como um
instrumento eficiente de barganha com Deus (com o nome de “voto” no
cristianismo evangélico e de “promessa” no cristianismo do Vaticano). Da
mesma forma, a pedra de uma tonelada que balança sobre a cabeça de quem
faz um voto - e que está prestes a cair sobre aquele que não o cumpre -
sempre foi também considerada pela religião cristã como um instrumento
muito útil na sua luta, não para derrotar o senhorio do pecado através do
amor, da misericórdia e do perdão gratuito, mas para extingui-lo pela força
da Lei (I Co 15:56).
Apesar da clareza absoluta da proibição dos votos nos textos acima,
sempre ouvimos a tentativa de justificá-los pelo fato de que, já no Novo
Testamento, há relatos de alguns discípulos que fizeram voto. Ora, observa-
se, antes de tudo, que são judeus fazendo votos – pois era um costume do
regime da Lei (que é dos judeus). Nota-se também que tais votos aparecem
inseridos no contexto de demonstrar a tentativa que há, desde o início da
igreja, de que não só os judeus convertidos continuem sob o jugo da Lei (At
21:20-21), mas também os gentios convertidos se submetam à Lei Mosaica
(todo o NT - principalmente as cartas de Paulo – narra a luta contra a
18

permanência [dos judeus] e a sujeição [dos gentios] ao jugo da Lei, para que
possamos ser guiados pelo Espírito – Gl 5:8).
Paulo contemporizou em algumas situações com relação aos judeus (que,
como cidadãos, mesmo convertidos, tinham que observar os aspectos civis
da Lei Mosaica - At 23:1-5), como foi o caso da circuncisão do judeu
Timóteo pelo próprio Paulo (At 16:1-3), que jamais circuncidaria o gentio
Tito (Gl 2:3), pois quanto aos gentios convertidos, Paulo sempre exigiu a
separação total da Lei, proibiu a nossa sujeição a ela (Gl 5:2-4), e o seu
ministério caracterizou-se pela luta contra a influência mosaica e todas as
suas formas de legalismo na igreja gentílica (no início houve uma nítida
separação entre igreja judaica e gentílica – At 15:1-28; Gl 2:7) e a sua
conseqüência direta, o farisaísmo; de modo que, quem está justificado em
Cristo não pode sujeitar-se à Lei nem sentir-se nem declarar-se justificado
pela obediência a ela (Gl 5:4).
A vontade de Deus para judeus e gentios convertidos é que todos
abandonem o jugo da Lei (justiça própria). Mas para judeus convertidos,
mesmo não sendo mais julgados pela Lei (Tg 2:12), o referencial de conduta
continuou sendo o estatuto Mosaico, que era a sua lei civil. Em epístolas
dirigidas aos judeus, tal fato fica bastante claro (At 23:1-5; Tg 2:8-11, 4:11;
Epístola aos Hebreus).
Mas, em suas epístolas, o apóstolo dos gentios (e nós somos gentios
convertidos) deu instruções claras e detalhadas sobre o padrão de
comportamento a ser buscado pelos renascidos na Graça de Cristo, bem
como listou valores espirituais que deveriam guiar todos os discípulos,
tratou de condutas seriamente reprováveis para uma nova criatura em
Cristo, e fez tudo isso sem recorrer à Lei Mosaica. Antes, apontou-a como a
força do pecado (I Co 15:56), instrumento de domínio do pecado (Rm 6:14) e
mandou-nos manter distância de quem busca e quer impor aos outros a
justificação pela obediência à Lei (Tt 1:10-11). Era na doutrina dos apóstolos
que a igreja perseverava (At 2:42), e não na observância da Lei.
A absoluta rejeição de Paulo à Lei Mosaica como referencial de conduta
para os gentios era escândalo para os fariseus e não foi facilmente
compreendida nem pelos demais apóstolos (II Pe 3:14-16).
Voltando à questão do voto, nada impede que um renascido no Espírito
tome uma decisão radical e comprometa-se diante do Senhor (com a devida
seriedade) para redirecionar os rumos de uma determinada situação ou para
corrigir uma postura constante e inadequada para uma nova criatura em
Cristo (Rm 7:19). Entretanto, sua decisão deve ser um “sim” (ou um “não”, se
for o caso) diante de Deus, sem recorrer a barganhas (se me deres isso,
faço aquilo) nem fazer acordos (punições ou “prêmios”) nem tampouco
19

utilizar o nome de algo claramente proibido pelo Senhor Jesus (o voto – ou


“juramento”, que são a mesma palavra), na tentativa de deixar o cheiro
ameaçador da temível Lei, pois, para o renascido na Graça de Cristo, ela
está morta, e até o cheiro do que está morto é desagradável...
O jejum – equivocadamente também visto por muitos como uma forma
de, mediante sacrifício pessoal, comover o Senhor e obter respostas mais
rápidas – também desde a antiga aliança já havia recebido ressalvas e
advertências do próprio Deus quanto ao verdadeiro jejum que ele quer de
nós (Is 58:5-7). Diferente do voto, não há clara proibição para o jejum na
Nova Aliança (se não houver a intenção de barganha com Deus), mas a ironia
e o desprezo de Jesus – que chamou o jejum de “vestido velho” e “odre
velho” (Mt 9:14-17) – mostram a descartabilidade do jejum para quem está
em Cristo.
O culto formal - também exclusividade dos judeus (Rm 9:4) – que era a
adoração em um lugar determinado (o templo judaico), intermediado por um
sumo-sacerdote temporário, foi substituído pela adoração em espírito e em
verdade (Jo 4:23), em todo lugar, a toda hora, tendo por único sumo-
sacerdote (eterno) o também único mediador entre Deus e os homens:
Jesus Cristo (I Tm 2:5), de modo que, agora, em Cristo, somos todos
individualmente sacerdotes (I Pe 2:5).
No Novo Testamento, o termo “culto” refere-se sempre ao culto
judaico ou a algum culto pagão. A igreja reúne-se para comunhão e
edificação, e só... Não há referências neotestamentárias à igreja como um
lugar de culto. E isso simplesmente porque na Nova Aliança não há mais a
cerimônia exclusiva de adoração. Aquele que é nascido do Espírito cultua e
adora o Senhor Jesus com a sua vida, o dia todo, todos os dias, em todo
lugar.
No culto da velha aliança havia um seleto grupo de pessoas fazendo um
ritual pré-determinado e previsível para Deus (adoração formal). Na
comunhão da igreja deve haver um ajuntamento de vários tipos de gente em
busca do que Deus quer fazer por elas (edificação). Mas, o (bem-sucedido)
processo de institucionalização legalista e judaizante que tem sido imposto
sobre a igreja desde o final dos tempos apostólicos (tentando fazer dela
apenas uma sutil remodelagem do templo judaico, transformando o que é um
corpo vivo em apenas um lugar de culto e adoração) tem gerado um outro
evangelho, que é um híbrido de Lei e Graça, e que está mais para Judaísmo
Cristão do que para o Evangelho de Cristo, organizado em uma
sistematização institucional que prioriza rotinas religiosas - favorecendo o
culto à instituição (“Santa Madre Igreja”) - e que alimenta e autentica a
justiça própria dos fiéis, tornando-a atraente para mentes autojustificadas
20

que buscam legitimação na rígida “lei dos crentes”, mas inadequada para
corações que verdadeiramente se reconhecem pecadores.
Quando Jesus disse que estaria onde houvesse dois ou três reunidos
em seu nome (Mt 18:20), ele, evidentemente, não estava afirmando que não
estaria com um discípulo quando este estivesse sozinho. Ele falava de
comunhão (papel fundamental da igreja), e mostrou que, para que ela
aconteça, basta que haja duas pessoas reunidas em seu nome. Para Cristo,
esse pequeno ajuntamento já é a sua Igreja. Desse modo, ele deixou claro
que estaria e agiria fora de paredes institucionais e também alertou-nos
para o fato de que o centro de sua atenção são as pessoas (comunhão e
edificação), e não o lugar (Templo – exclusivo para culto e adoração).
O medo da Lei e o medo de discernir as situações espiritualmente são
os dois lados da mesma moeda. Por isso temos que separar o que é da Lei e o
que é da Graça, como obreiros aprovados, que manejam bem (“dividem bem”,
no original) a palavra da verdade (II Tm 2:15), para que não tenhamos zelo
sem entendimento (Rm 10:2), pois, se julgarmos tudo pela religiosidade e
não desenvolvermos a habilidade de identificar até o perfume da Graça de
Cristo, jamais perceberemos sequer a diferença entre uma rosa verdadeira
e uma outra, muito parecida (às vezes, até mais bela), mas de plástico.
Nossas vidas devem ser uma resposta ao amor de Deus por nós, pois,
em Cristo, tudo provém do amor e no amor é feito. As mais duras
exortações e até o afastamento da comunhão são ainda por amor, com amor
e visando à restauração (II Ts 3:14-15). Se não é por amor nem com amor,
não vem do Espírito de Deus, pois Deus é amor (I Jo 4:8) e, por isso, todos
os nossos atos devem ser feitos com amor (I Co 16:14).
Tudo o que Deus quer realizar no coração, na alma e na consciência do
pecador, todo o processo de transformação em uma nova criatura, nascida
do Espírito, tem o seu início, meio e fim no amor a Deus e se revela no amor
ao próximo. Uma suposta fé em Deus, que não se manifesta em atitudes
reais, motivadas pelo amor ao próximo, é uma fé morta (Tg 2:17-18).
Os princípios do Evangelho são alicerçados em dois mandamentos, dos
quais dependem toda a Lei e os profetas: “Amarás o Senhor teu Deus de
todo o teu coração... e o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22:36-40).
Entretanto, só pode amar a Deus quem se sente amado por ele primeiro (I
Jo 4:19), mas o cristianismo-religião sempre dificultou a percepção do amor
divino e quis vender caro o que Deus dá gratuitamente. O Evangelho diz:
“Descansa no amor de Deus por ti”; o cristianismo-religião te ensina a
negociar com Deus. O Cordeiro crucificado clama: “Eu e o Pai te amamos!”; o
cristianismo-religião sussurra: “Desconfie deles...”.
21

Ninguém consegue amar ao próximo sem considerar a superabundância


(Rm 5:20) e a multiformidade da Graça de Deus (I Pe 4:10). Para nós, a
Graça de Cristo tem apenas a medida exata dos nossos pecados; de modo
que pecados mais feios do que os nossos são inaceitáveis. Precisamos
entender, aceitar e crer que a Graça é suficientemente abundante para
alcançar aqueles que julgamos mais pecadores do que nós, e que ela pode
revelar-se a eles de uma forma diferente da que as nossas mentes
cauterizadas pela institucionalização julgariam mais conveniente e adequada.
Só faremos algo parecido com “amar ao próximo como a nós mesmos” quando
libertarmos nossa mente da autojustificação legalista e institucionalizada.

“A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, exceto o amor com


que vos ameis uns aos outros, pois quem ama ao próximo tem
cumprido a Lei. Pois isto: não adulterarás, não matarás, não
furtarás, não cobiçarás, e se há qualquer outro mandamento,
tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti
mesmo. O amor não pratica o mal contra o próximo, de sorte que
o cumprimento da Lei é o amor” (Rm 13:8-10)

Na Velha Aliança, o referencial de pecado é a transgressão da Lei, e o


seu cumprimento total (perfeição) é o padrão necessário (apenas hipotético)
para a salvação. No Evangelho de Cristo (Nova Aliança), o amor é o fator
determinante de tudo. O pecado – embora não tenha mais a condenação
como conseqüência, pois já não é mais uma transgressão da Lei - é qualquer
atitude (para com o próximo ou para consigo mesmo) que não seja amor,
inclusive omitir-se de exercer o amor (Tg 4:17), “pois quem ama ao próximo
tem cumprido a Lei” (Rm 13:8,10; Gl 6:2). A salvação se dá através da fé no
amor incondicional de Deus, que amou o mundo de tal maneira, que enviou
seu Filho unigênito para pagar pelas transgressões do mundo inteiro (I Jo
2:2) e cumprir a sentença que seria nossa. Todo aquele que crer e confiar
nesse ato de amor não perecerá e ainda terá a vida eterna (Jo 3:16).

“Tudo que não provém de fé é pecado” (Rm 14:23)


22

A graça, o amor e o perdão de Cristo são suficientes para o mundo


inteiro, e eficientes naqueles que crêem. E, uma vez perdoados e livres da
condenação, o mandamento do Senhor para nós – e que é o padrão para a
nova criatura, renascida no seu Espírito - é que tratemos o próximo como
gostaríamos de ser tratados (Lc 6:31) e que nos ajudemos mutuamente (Gl
6:2), amando-nos uns aos outros como ele nos amou (Jo 15:12).
Os mandamentos da Lei, Cristo já os guardou por nós. Ele agora quer
que guardemos os seus mandamentos (Jo 15:10), que são referenciais de
amor, de modo que um renascido no Espírito pode e deve ser repreendido e
exortado (com toda longanimidade - II Tm 4:2), não por desobediência à Lei
(para a qual ele está morto), mas por falta de amor.
Quem se confessa cristão precisa entender que não existe nos
mandamentos do Senhor a linearidade e a generalização (coletivização)
característica da Lei, pois eles não são um estatuto de condenação. O
Espírito conhece as fraquezas e os limites de cada um de nós e nos trata
individualmente. Diferente do que acontecia quando estávamos debaixo de
lei, agora que estamos em Cristo, podemos e devemos ser nós mesmos, para
que assim possamos ser aperfeiçoados, pois o processo precisa começar do
zero. Então, em vez de tentarmos policiar, monitorar, julgar e sentenciar a
vida dos irmãos - como se a igreja de Cristo fosse uma fábrica de biscoitos
absolutamente iguais - devemos ouvir o que o Espírito tem a nos dizer sobre
a nossa própria vida. As diferenças na igreja com relação à liberdade cristã
são claramente mencionadas pelos apóstolos e, desde que não procedam de
puro legalismo, o mandamento do Senhor é que sejam aceitas e que se
busque conviver com elas em paz (Rm 14:1-3) e sem forçar a barra (I Co
3:2). Tentar ressuscitar a Lei como parâmetro da nossa liberdade a fim de
se conseguir uma falsa homogeneidade na igreja é uma atitude
absolutamente inadmissível na caminhada com Cristo (Rm 14:4).
23

V - ROMPIMENTO NECESSÁRIO

“Porque eu, mediante a própria Lei, morri para a Lei, a fim de


viver para Deus. Estou crucificado com Cristo” (Gl 2:19).

“Ora, a mulher casada está ligada pela Lei ao marido,


enquanto ele vive. Mas, se o mesmo morrer, desobrigada ficará da
lei conjugal. De sorte que será considerada adúltera se, vivendo
ainda o marido, unir-se a outro homem. Assim, meus irmãos,
também vós morrestes relativamente à lei, por meio do corpo de
Cristo, para pertencerdes a outro; a saber, aquele que ressuscitou
dentre os mortos e, deste modo, frutifiquemos para Deus” (Rm
7:2-4).

Mas o que mais se pode dizer sobre a Lei? Que comportamentos e


atitudes ela mantém ou agrava em corações ainda sob seu domínio, mesmo
depois da conversão ao Evangelho? Se estamos na Graça de Cristo - e não
debaixo da Lei - devemos constantemente examinar se estamos servindo à
Lei (acusação e julgamento) ou ao Espírito de Deus (chamado ao
arrependimento, perdão gratuito e renovação da mente).
Nos ensinos do apóstolo Paulo, percebemos que ele considerava
indispensável o rompimento com o parâmetro de justiça própria (a Lei). E
para deixar bem claro o nível de rompimento que tinha em mente, ele usou a
figura mais definitiva que existe: a morte. Nada há de mais definitivo, mais
contundente, mais divisor, mais separador e mais significativo de sumir sem
deixar rastros nem possibilidade de contato. Em várias ocasiões o apóstolo
Paulo afirma que o rompimento com a lei deve ser tão definitivo quanto a
própria morte (morremos para ela, e ela para nós).
Na cruz de Cristo morreram também a Lei e o nosso “velho homem”,
que buscava autojustificação (Rm 6:6). E “agora, libertados da Lei, estamos
mortos para aquilo a que estávamos sujeitos, de modo que servimos em
novidade de espírito, e não na caducidade da letra” (Rm 7:6). A partir da
conversão, iniciamos um processo de renovação da nossa consciência (novo
nascimento, como nova criatura), para que possamos compreender com a
mente aquilo que já aconteceu no nosso espírito, de modo que ambos (mente
e espírito) andem, não de acordo com o espírito desse mundo, mas em
conformidade com a vontade de Deus (Rm 12:2). E essa renovação acontece
na velocidade e no ritmo do Espírito, e não no desespero típico de quem está
debaixo da Lei.
24

Com Cristo fomos crucificados, com ele ressuscitamos, de modo que


por ele e para ele vivemos, pois agora ele vive em nós (Gl 2:19-20). E o
apóstolo Paulo nos estimula constantemente à compreensão dessa nova vida,
que só pode ser discernida e vivida sem a justiça própria que provém da Lei,
exclusivamente pela ação do Espírito Santo de Deus em nossas vidas, que
nos revela e também nos ensina como andar no Espírito. E Paulo deixou bem
claro que isso ocorre à medida que formos rompendo os laços com a Lei, e de
uma forma tão definitiva quanto a morte.
Assim como nós morremos com Cristo, a Lei também se foi no Calvário.
Para os que estamos em Cristo, a Lei está definitivamente morta e
enterrada, mas nós nascemos de novo, agora no Espírito (Jo 3:3-8). A idéia
é, portanto, que tudo tem que ser zerado, esquecido e reiniciado em um novo
formato (II Co 5:17). Nada do que era velho pode adentrar o que é novo,
pois ninguém põe remendo de pano novo em roupa velha (Mt 9:16).
A morte da Lei significa o fim da criminalização dos nossos pecados e
também da nossa busca de relacionamento com Deus mediante a nossa
justiça. Que, aliás, nunca foi uma forma de relacionamento, mas, sim, de
não-relacionamento com Deus. Quem está debaixo da Lei - ou seja, buscando
justiça própria diante de Deus por obras da Lei, através do esquema de
obediência a mandamentos e ordenanças – não mantém relacionamento com
Deus. Ela, a Lei, simplesmente diz: “Cumpra-me e viva ou desobedeça-me e
morra!”. Entenda-se com a Lei quem sob a Lei está (Rm 3:19). Deus está fora
desse relacionamento. O desafiante está por sua própria conta e risco, pois
quem está debaixo da Lei está debaixo de maldição (Gl 3:10). Não se pode
ser justificado por Cristo e pela Lei ao mesmo tempo (Gl 5:4).
A Lei morreu para nós, e nós para ela. E isso significa que precisamos
desistir de qualquer forma de barganha com Deus e rejeitar todo e qualquer
espírito de altivez que tente incutir em nosso coração a idéia de
justificação por mérito próprio, bem como tudo que possa contribuir para
esse fim: a postura julgadora e sentenciadora do próximo (sempre
disfarçada de “boas intenções”), bem como os rituais pessoais e os
procedimentos litúrgicos que tenham sua origem na Lei, pois não se põe
vinho novo em odres velhos; eles não o suportam (Mt 9:17). Devemos ainda
abandonar as atitudes arrogantes, típicas de quem se sente mais “santo” do
que os demais e justificado pela obediência a ordenanças. Tudo que estiver
adequado ao regime (esquema) da Lei em nossas vidas deve ser abolido.
Precisamos exercitar nossas mentes a nem mais pensar conforme a
estrutura e a natureza da justificação pela Lei, pois ela é referencial de
condenação, e nós não somos comprometidos com a condenação de ninguém.
25

Somos, sim, comprometidos com o anúncio da reconciliação de Deus com o


mundo (II Co 5:19), e o nosso referencial é o amor de Deus.
A sentença da justiça da Lei é condenação e morte eterna. O “povo do
perdão” não pode se amoldar a tal instrumento, pois para ele já morremos
com Cristo. Mas a sentença da Justiça de Deus, em Jesus, é perdão e vida
eterna, e nela devemos investir todas as nossas forças, com nossa mente e
coração subjugados à Graça de Cristo, pois é nela que somos salvos. Vale a
pena repetir sempre: a Lei não é Deus, e Deus não é a Lei...
O apóstolo Paulo deu-nos ainda um outro motivo, bastante
esclarecedor, para não tentarmos ressuscitar a Lei. Antes de estarmos em
Cristo, cada pecado nosso era uma transgressão da Lei, e a nossa situação
como transgressores só piorava. Aquele que está em Cristo certamente
ainda comete pecados (I Jo 1:8-10). Entretanto, não somos mais
transgressores, pois não estamos mais debaixo da Lei. Ela não nos diz mais
respeito, e só transgride a Lei quem sob a Lei está, pois onde não há Lei não
há transgressão (Rm 4:15), e nós, em Cristo, morremos para a Lei, a fim de
vivermos para Deus. Tentar ressuscitar a Lei é querer reconectar os
pecados a ela; é tornar-se novamente transgressor e fazer de Cristo
ministro do pecado (Gl 2:17-19), pois, assim sendo, ele teria apenas dado
carta branca a transgressores. Por isso não havia outra opção, o estatuto da
justiça própria humana, que é ministério de morte e condenação (II Co 3:7-
9), tinha que morrer, e morreu...
Precisamos ainda entender que a Lei é um conjunto de mandamentos,
mas funciona (só funciona) como um todo, como uma peça única, de modo que
quem tropeça em um só mandamento é culpado de todos (Tg 2:10). A
conclusão óbvia, que devemos entender e aceitar sem medo, é que quem fica
livre de um mandamento também fica livre de todos. Se Cristo nos livrou da
Lei, ele não nos livrou apenas de um ou outro mandamento, mas de toda a
Lei. Se morremos para a Lei e ela morreu para nós, isso não se refere
apenas a alguns mandamentos, mas a toda a Lei.
26

VI - REJEIÇÃO AO PECADO E RENOVAÇÃO DA CONSCIÊNCIA

“Aparte-se da injustiça todo aquele que professa o nome do


Senhor” (II Tm 2:19)

O poder do pecado sobre o homem natural é tremendo, pois ele já


nasce seu escravo. Na cruz do Calvário, Cristo decretou a morte desse
homem natural e afastou totalmente as conseqüências dessa escravidão
para todo aquele que crê. Mas a caminhada com Cristo acontece numa
seqüência diferente da que compreenderíamos mais facilmente. De modo
que, no Calvário, Cristo primeiramente nos declarou santos, puros como ele é
puro (I Jo 3:3), perdoando antecipadamente as nossas iniqüidades e
cobrindo os nossos pecados, que jamais nos serão imputados (Rm 4:7-8).
Depois disso, então, é que vem o processo de “adequação” a essa nova
realidade. Ou seja: primeiro, Cristo perdoa e salva (“Está consumado!” – Jo
19:30); depois, renova e aperfeiçoa.
Na cruz do Calvário, quando assumiu a nossa condenação, Cristo
antecipou o perdão e consumou tudo, já declarando justos, perfeitos e livres
da escravidão do pecado todos os que viessem a crer na sua obra.
Entretanto, esse fato (real) não nos capacita a nos libertarmos sozinhos do
domínio do pecado.
Ao explicar a carnalidade e a escravidão de todo homem ao pecado (Rm
7:7-25), o apóstolo Paulo - assumindo uma figura representativa de todos
nós - deixou bem claro, de forma radical e chocante, que, embora absolvidos
por Cristo (v. 20), se dependesse unicamente de nós - mesmo já convertidos
- não venceríamos o pecado, e viveríamos derrotados (Quem me livrará do
corpo desta morte? – v. 24), pois o nosso “velho homem” – nossa natureza
adâmica - só será totalmente aniquilado no encontro com Cristo, quando o
nosso corpo corruptível e mortal se revestirá de incorruptibilidade e
imortalidade (I Co 15:53).
Ao dizer que, mesmo convertidos, ainda estamos sujeitos a cometer
pecados considerados muito graves, Paulo mostrou que a igreja deve ser
receptiva a todos os pecadores (o corpo de Cristo acolhe e cuida de quem
quer que se reconheça enfermo, mesmo que isso choque e cause repulsa a
olhos ainda carnais e farisaicos), e destruiu ainda, sem dó nem piedade,
qualquer possibilidade de nos vangloriarmos (em nós mesmos) nas vitórias
contra o pecado (para tristeza e decepção dos legalistas), induzindo-nos à
sujeição total e absoluta ao senhorio de Jesus Cristo, que é quem nos
capacita a caminhar mortificando a nossa velha natureza, pecadora, e a
27

vencer o domínio do pecado, pois, mesmo não estando mais sujeitos à


condenação (Romanos 8:1), se confiarmos em nossa religiosidade (justiça
própria), colheremos derrota após derrota.
Sem Cristo, somos, no máximo, flores sem perfume, uma linda
cachoeira sem água, um arco-íris em preto e branco, praia sem pôr-do-sol,
disco do nosso cantor favorito sem ter onde ouvi-lo. Sem Cristo, somos
inúteis e não vencemos o pecado nem damos fruto algum, pois, sem ele, nada
podemos fazer (Jo 15:5).
A nossa jornada recomeça a cada manhã, e não estamos mais trilhando,
sozinhos, um caminho que aponta para Cristo (a Lei – Gl 3:24). Ele é o
próprio caminho (Jo 14:6), e o seu senhorio deve estar “ativado” o tempo
todo em nossas vidas.
Deus rejeita o pecado sempre. Ele rejeitava os nossos pecados antes
da nossa conversão ao Senhor Jesus (quando eles ainda eram transgressões
da lei), e ainda os rejeita hoje. Mas o sacrifício de Cristo possibilitou a
aproximação entre Deus e nós, pecadores (II Co 5:19; Jo 14:23). Em Cristo,
Deus assumiu toda a acusação e a condenação da Lei pelos nossos pecados, e
pagou por todos eles. Contudo, sabemos que quem está em Cristo ainda
comete pecados (I Jo 1:8-10), mas, uma vez resolvida a questão com a Lei
(satisfeita, em Cristo, a sua justiça) e afastada de nós toda a condenação no
Calvário, os nossos pecados não são mais transgressões, e Deus agora pode
conduzir um processo de renovação em nossas vidas, cujo objetivo é a
transformação pacificadora da nossa consciência (Jo 14:27; Rm 5:1, 14:19;
Fp 4:7), para que compreendamos com a nossa mente aquilo que já aconteceu
no nosso espírito e, assim, caminhemos todos no Espírito de Cristo, livres da
condenação da Lei, sabendo discernir a vontade de Deus em toda e qualquer
situação (Rm 12:2), de modo que quando nos desviarmos para a direita, e
quando nos desviarmos para a esquerda, os nossos ouvidos ouvirão, atrás de
nós, uma palavra dizendo: “Este é o caminho, andai por ele” (Is 30:21). E
essa capacidade de discernimento é obtida, não pelo temor e observância da
Lei, mas através de muita leitura e meditação nos ensinos do Senhor Jesus
e dos apóstolos (I Tm 4:15).
Contudo, essa poderosa renovação da consciência não acontecerá de
forma relevante enquanto não pararmos de ler a Bíblia como se ela fosse um
código penal (procurando mandamentos que digam, ou supostamente sugiram,
o que não podemos fazer, a fim de saciarmos a nossa sede de justiça própria
e de juízo sobre o próximo), e não afastarmos do nosso coração o medo da
condenação, bem como da nossa mente as artimanhas desse medo, pois esse
espaço é preenchido pela paz de Deus e pela nossa gratidão a ele, posto que
tudo que se faz no Espírito se faz por amor, e não por medo.
28

Se é por medo, não é por amor e não é pelo Espírito, pois no amor não
existe medo. Antes, o perfeito amor lança fora o medo. Ora, o medo produz
tormento; logo, aquele que teme não é aperfeiçoado no amor (I Jo 4:18),
pois foi por amor que Deus abandonou toda a sua glória (Fp 2:7) e, como
homem, ofereceu a sua própria vida (absolutamente santa) para sofrer a
condenação da Lei que pesava sobre nós, livrando-nos da morte eterna e, ao
ressuscitar, fazer-nos co-participantes de sua natureza divina (II Pe 1:3-4).
É com muita gratidão a Deus por tão grande amor e com total confiança, que
devemos buscar e submeter-nos à transformação que gradativamente nos
levará não somente a viver no Espírito, mas também a andar nele.
Entretanto, esse processo de renovação (novo nascimento), proposto e
viabilizado na cruz do Calvário, não é muito bem compreendido nem aceito
por muitos que se dizem convertidos, mas que, ainda embriagados com o
vinho velho – a Lei (ninguém, tendo bebido o vinho velho, prefere o novo,
porque diz: o velho é excelente! - Lc 5:39) - vêem aqui o que é para eles uma
inaceitável relativização do pecado. Para os tais, a Graça é um tanto
confusa, frouxa e carente da exatidão e do absolutismo da Lei. Ora, ora...
Nada há de mais legalista do que tal postura, pois é a Lei que olha para o
homem e apenas diz se ele está sadio ou doente. Nela, todo e qualquer
pecado é para condenação eterna. Não há nenhum envolvimento nem
possibilidade de renovação ou aperfeiçoamento, mas apenas análise fria e
óbvio diagnóstico: condenação e morte eterna (Rm 6:23).
Os pecados de quem está debaixo da Graça de Cristo (renascidos no
Espírito – Jo 3:1-8) não são mais motivos para condenação (Rm 8:1), pois não
são mais transgressões da Lei. Eles são agora uma questão de desobediência
ao padrão no qual o nosso Pai (e não juiz) quer que andemos (I Jo 2:5-6). E
esse processo de adaptação a esse novo padrão - o ser nova criatura - não
pode acontecer sob o absolutismo condenatório da Lei, por isso ela está
morta para os que estão em Cristo Jesus.
Quem apregoa o rigor da Lei (infalibilidade) para os outros puxa para si
esse mesmo rigor (Mt 7:2), trazendo sobre a própria alma angústias, culpas
e sofrimentos que seriam absolutamente desnecessários.
Além disso, o medo da condenação apenas leva o pecador a esconder e
não tratar do seu pecado, e a não ser transparente e verdadeiro diante dos
homens, pois o ser humano simplesmente não suporta nem aceita a verdade
acerca de si mesmo (imagine com neurose de condenação!). Aquele que disse:
“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14:6) também disse: “Vim causar
divisão entre o homem e seu pai, entre a filha e sua mãe, e entre a nora e
sua sogra” (Mt 10:34-36). Portanto, a verdade pode causar divisão, sim;
mesmo entre as pessoas mais próximas (entre as não tão próximas, então...).
29

Muitas vezes, a divisão é o primeiro efeito da verdade, a sua primeira


conseqüência. Mas, ainda assim, a verdade é amor, pois aquele que se
quebranta e a aceita encontrará o descanso e a paz que ela proporciona aos
que nela vivem.
Contudo, não é verdadeiro diante de Deus quem não é primeiramente
diante dos homens. Deus quer tratar dos nossos pecados reais, com nós
mesmos, de verdade, e não com o cristão virtual que costumamos criar e
usar para exibir justiça própria no convívio com os irmãos. Deus quer a nossa
confiança absoluta nele, mas não quer que nos apresentemos e vivamos como
alguém que, na verdade, não somos. A cura da nossa alma começa aqui...
Deus prefere verdades horríveis a lindas mentiras, pois o campo de
ação dele em nossas vidas é sempre a verdade. Sinceridade, ainda que
chocante, deve ser sempre encorajada e bem recebida, pois Deus está
interessado justamente em quem se reconhece doente (Mt 9:12), e não em
quem finge ter saúde. Ele sempre quis sarar as feridas de quem se
reconhece enfermo.
As transgressões do homem impediam a comunhão com o seu santo e
perfeito Criador (até entre Deus e o seu próprio Filho - igualmente santo e
perfeito - houve separação no momento em que este recebeu sobre si todas
as transgressões da humanidade - Mc 15:34). Por isso, movido por seu
infinito amor, ele mesmo assumiu as transgressões humanas (II Co 5:19), a
conseqüente condenação e ainda sofreu a execução da pena que seria nossa.
A Lei e a sua justiça meritória – que mantêm o homem sob condenação -
são um caso encerrado para todos aqueles que recorrem à Justiça do
Calvário e nela depositam a sua confiança, nos quais o Pai e o Filho fazem
morada (Jo 14:23). Em Cristo, o amor de Deus reconquistou o que, por causa
das transgressões, estava dividido e separado por um abismo intransponível
para o homem.
Tal fato aconteceu historicamente há dois milênios, mas, por desígnio
divino, a Graça nos foi dada, em Cristo, antes dos tempos eternos (II Tm
1:9), antes que o homem fosse criado e ainda muito antes que houvesse lei.
Deus já criou o homem com o acesso aberto para restaurá-lo. Não cabe,
portanto, atribuir a ele uma inflexibilidade que é tão-somente da Lei (e a Lei
não é Deus), e ainda debochar do processo divino de resgate do pecador,
acusando o próprio Deus de, mediante a Graça, incentivar o pecado (ora, é a
Lei que, por causa do pecado, desperta toda sorte de concupiscência – Rm
7:8). Tal postura passa ao mundo uma imagem divina que, de forma alguma,
corresponde à realidade, pois apresenta características que são da Lei, e
não de Deus. E o mais trágico é que esse des-serviço ao Evangelho de Jesus
30

Cristo é “prestado” exatamente por muitos daqueles que receberam a


missão de pregar nada menos do que o amor de Deus pelos pecadores. Ora,
tais acusadores é que, julgando-se espirituais, são ainda escravos da lei e
permanecem afundados em seu farisaísmo carnal, pois, tal qual a lei que
ainda os domina (Rm 7:1), eles apenas mantêm o dedo apontado para aqueles
a quem eles julgam transgressores.
O homem não é pecador porque peca. Ele peca porque é pecador. E, ao
longo de sua vida, ele apenas acumula a sujeira do pecado em sua pele. Essa
sujeira (a transgressão da Lei) – e não o pecador – tem um forte mau cheiro,
insuportável para Deus, de modo que, mesmo amando o pecador
(transgressor da Lei), ele não pode limpá-lo. Entretanto, quando o pecador
crê em Cristo e nele renasce (morrendo para a Lei), essa mesma sujeira
perde o mau cheiro diante de Deus (deixa de ser transgressão da Lei), e ele,
então, começa o processo de limpeza, que acontece de modo diferente e em
tempos diferentes em cada um de nós. Os nascidos no Espírito têm agora,
diante de Deus, o agradável perfume de Cristo (II Co 2:15).
Deus rejeita e sempre rejeitará o pecado, mas precisamos entender e
aceitar que, embora as mentes ainda espiritualmente turvas e
autojustificadas imaginem o contrário, a força do pecado é a Lei (I Co
15:56). Por isso, nós, os que cremos, morremos para ela (Gl 2:19) e não
somos mais transgressores. Deus agora olha para nós através do seu filho
Jesus e, apesar dos nossos pecados (que não são mais transgressões da Lei),
ele pode cuidar de nós, segurar-nos pela mão e ensinar-nos a andar no
Espírito, com a sua vontade escrita, não em tábuas de pedra, mas em nossas
mentes e corações (Hb 8:10-11).
Cristo é a lente que permite que Deus nos enxergue sem ver os nossos
pecados como transgressões (pois quem está em Cristo morreu para a Lei) e,
dessa forma, deles não tenha mais lembrança (Hb 8:12). Para ele, somos – os
que cremos - tão puros quanto ele é puro (I Jo 3:3). E, como para quem está
em Cristo não há mais lei nem condenação (Rm 8:1) nem os nossos pecados
são mais transgressões, não há mais empecilhos para que Deus se achegue a
nós a fim de curar a nossa alma. Nossos pecados são como feridas
remanescentes da nossa velha natureza (que só será aniquilada no encontro
com Cristo), das quais Deus agora pode tratar. E nesse processo, ele usa
muitos auxiliares; entre eles, eu e você. E ele quer que cuidemos uns dos
outros, em amor (Gl 6:2).
Na carta de Paulo aos Gálatas (5:16-26), o apóstolo esboça uma lista de
obras da carne e uma de frutos do Espírito. Ele lembra ainda que as tais
obras da carne são caracteristicamente praticadas por aqueles que não
herdarão o Reino de Deus (v 21). E esse é o motivo apontado pelo apóstolo
31

para que os que – pela Graça, mediante a fé - herdaremos o Reino de Deus


não as pratiquemos, pois vivemos no Espírito e devemos praticar obras cujos
frutos estão na segunda lista, de modo que vivamos e também andemos no
Espírito (v. 25).
Como algumas dessas obras da carne ali citadas por Paulo são práticas
inegavelmente comuns na igreja (as que se pode esconder), a coerência
entre o que cremos (nosso espírito) e o que praticamos (nossa mente) é
precisamente o objetivo do processo diário de renovação da nossa
consciência, ao qual devemos estar submetidos e sempre atentos.
Mas uma das melhores conseqüências da obra no Calvário é que Deus
agora é otimista para conosco. Sim, é verdade... Enquanto muitos de nós
ficam olhando para a Lei, cheios de temor e pensando: “Será que vai dar?”,
Deus é extremamente otimista conosco, em tudo, e confia na nossa vitória,
porque, em Cristo, já somos vitoriosos (I Co 15:57 – I João 5:4). Deus é
otimista com relação a você e com relação a mim. E isso porque, diferente
de nós, ele confia totalmente no processo que criou para regeneração da sua
criação favorita. Ele confia a ponto de ter dado a própria vida para que o
processo de resgate dela fosse viabilizado.
32

VII - MAS, E OS NOSSOS PECADOS?

“Se dissermos que não pecamos, fazêmo-lo mentiroso e a sua


Palavra não está em nós” (1 Jo 1:10 - ARC)
“Qualquer que é nascido de Deus não comete pecado, porque
a sua semente permanece nele; e não pode pecar, porque é
nascido de Deus” (1 Jo 3:9 - ARC)
“Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão
em Cristo Jesus” (Rm 8:1)

Quem pratica o pecado procede do diabo (I Jo 3:8) e, em sua prática,


transgride a Lei, porque o pecado é a transgressão da Lei (I Jo 3:4), e a
prova do amor de Deus para conosco é que Cristo morreu por nós quando
ainda estávamos nessa condição de transgressores da Lei (Rm 5:8).
Ora, “tudo que a Lei diz, aos que vivem na Lei o diz” (Rm 3:19) e nós não
vivemos mais na Lei e, sim, na Graça de Cristo (Rm 6:14); e, se não estamos
debaixo da Lei, então, mesmo quando cometemos pecados (sim, ainda temos
pecados - I Jo 1:8-10) eles não são mais transgressões da Lei, pois não
podemos transgredir o que não mais existe para nós (Rm 4:15).
Em Cristo não existe pecado; portanto, do ponto de vista legal (relativo
à Lei), todo aquele que permanece nele não peca [não transgride a Lei], pois
todo aquele que peca [transgride a Lei] não o viu nem o conheceu (I Jo 3:5-6
- ARC), bem como todo aquele que é nascido de Deus não peca, pois o que
permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode pecar [pois não está
sob a possibilidade de transgredir a Lei], porque é nascido de Deus (I Jo
3:9 - ARC). Mas, “se torno a edificar aquilo que destruí (a Lei), a mim mesmo
me constituo transgressor” (Gl 1:18).
Somos nascidos de Deus, e um nascido de Deus não procede do diabo
nem transgride a Lei, pois a ela não está mais sujeito (em algumas edições
bíblicas, o tradutor substituiu a expressão “não peca” – conforme consta no
texto original - por “não vive pecando” para tentar solucionar um dilema que
era dele, tradutor, e não do autor da epístola).
A exigência “legal” de perfeição absoluta vale para quem estiver
buscando qualquer forma de autojustificação, seja pela Lei Mosaica ou por
sua própria consciência (para que “todo o mundo seja culpável perante Deus”
– Rm 3:19). Ora, a Lei criminaliza o pecado, por isso “onde não há lei,
também não há transgressão” (Rm 4:15), de modo que, sem lei, está morto o
pecado (Rm 7:8).
33

No caminho da autojustificação, uma única transgressão é suficiente


para a condenação (Tg 2:10; Rm 6:23). Ao abolir a Lei em sua própria carne
(Ef 2:15), Cristo cancelou o escrito de dívida gerado por ela - que era contra
nós e nos era prejudicial (Cl 2:13-14) – e, assim, descriminalizou os pecados
de todos os que estão debaixo de sua Graça (para os quais agora tudo é
“lícito” – nada é transgressão da Lei - embora nem tudo seja conveniente – I
Co 6:12), de modo que os pecados de quem está em Cristo são desvios do
padrão de Deus para seus filhos, mas não são transgressões da Lei nem
delitos sujeitos à condenação eterna. Ora, se a conseqüência de qualquer
transgressão da Lei é a morte (Rm 6:23), como podemos ter ainda algo a ver
com ela?
A fé em Cristo, obviamente, não anula a Lei (Rm 3:31). Ela foi abolida
apenas para os que nele crêem (Ef 2:14-15). Para esses, a Lei está morta,
mas continua vivíssima e à disposição de quem quiser estar submisso a ela e
nela buscar justiça própria (Gl 3:11; 4:21).
Seguramente, a fé liberta da Lei e de seu jugo todos os que recorrem à
justificação no escândalo da cruz (Jo 8:32, 36; Rm 6:14; 7:6; Gl 5:1). Esses
morreram para a Lei do pecado e da morte (Gl 2:19; Rm 8:2) e ela não mais
os subjuga.
Não se pode ter como referencial de vida o próprio ministério da morte
e da condenação (II Co 3:7-9). Em Cristo tudo é vida; ele é o nosso
referencial (Cl 3:11) e o seu mandamento é este: “que vos ameis uns aos
outros, como eu vos amei” (Jo 15:12), pois “o amor não pratica o mal contra o
próximo” (Rm 13:10).
Então, quanto aos nossos pecados, devemos reconhecê-los e rejeitá-los
sempre (porque não procedemos do diabo), mas jamais devemos preocupar-
nos com eles sob a perspectiva da condenação eterna. Na verdade,
estaremos ofendendo ao Senhor com tal preocupação, pois estaríamos
desprezando e anulando o seu sacrifício no Calvário (Gl 2:21), onde ele
afastou definitivamente a possibilidade de condenação de todo aquele que
nele crê (Rm 8:1). Pecamos, portanto, se consideramos a possibilidade de
sofrermos a condenação eterna por causa dos nossos pecados.
Reconhecermos a nossa própria pecaminosidade (Rm 7:15-25; I Tm
1:15) sem tentar ocultá-la sob uma máscara religiosa, e permitirmos que
esse reconhecimento nos leve a entregar-nos confiadamente à misericórdia
divina, ao seu amor incondicional e à sua irreversível aceitação de todo
aquele que nele crê e confia, é o que fará de nós (assim como fez de Davi)
um homem segundo o coração de Deus (I Cr 21:13; At 13:22).
34

“O Senhor resgata a alma dos seus servos, e dos que nele


confiam, nenhum será condenado” (Sl 34:22)

Precisamos entender que o Evangelho da Graça de Cristo não alimenta


nenhuma neurose com o pecado, pois tal neurose está associada ao medo da
condenação e, quanto à condenação eterna, onde abundou o pecado
superabundou a Graça (Rm 5:20). O problema com a transgressão da lei não
mais existe. Paulo, entretanto, jamais diria: “onde abundou a justiça própria
superabundou a Graça”, pois é ela, a justiça própria, que bloqueia a Graça e
separa o homem de Cristo (Gl 5:4), pois, se fosse pela justiça do homem, já
não seria pela Graça (Rm 11:6).
Nesse ponto, como sempre, ressurge a pergunta: “Vamos, então, pecar
ainda mais, para que a Graça seja mais abundante? A resposta de Paulo
continua a mesma: “Como, se nós morremos para o pecado?” (Rm 6:1-2)
Para quem está em Cristo, o pecado não é mais transgressão da Lei,
mas não deve reinar em nosso corpo mortal (Rm 6:12). E livrar-se do domínio
do pecado só é possível para os que estão na Graça de Cristo (Rm 6:14), e
não debaixo da Lei (que é a força do pecado – I Co 15:56).
Mas... E se o pecado ainda reinar em minha vida? E se eu, mesmo crendo
em Cristo, não quiser me libertar do domínio do pecado? E se eu insistir em
viver no pecado?
Ora, esgotadas todas as instruções de Paulo acerca de uma vida
saudável no Espírito do Evangelho, não na escravidão da Lei, mas na
liberdade do discernimento do Espírito, com a mente de Cristo, sobra a
realidade para os que insistirem na desobediência:

“Não vos enganeis: de Deus não se zomba, pois aquilo que o homem
semear, isso também ceifará” (Gl 6:7)

Deus tem preparado para nós um caminho de justiça, paz e alegria no


Espírito Santo. Rejeitar tal caminho e optar pelo da servidão ao pecado,
embora não anule a justificação pela fé daquele que crê (Rm 4:4-5), sujeita
o indivíduo às plenas conseqüências “horizontais” de suas escolhas erradas.
35

Ficarmos tranqüilos quanto à impossibilidade da nossa condenação - em


qualquer situação, mesmo se andarmos fora dos caminhos de Deus e
sujeitando-nos, portanto, à sua disciplina paterna - é perfume agradável ao
nosso Deus, pois isso é precisamente a essência do que a Bíblia chama de fé
em Jesus Cristo, e só podemos prová-la nos piores momentos de angústia e
incertezas, quando, sem ela, daríamos lugar ao desespero. Todos os demais
aspectos da fé provêm dessa confiança inabalável na suficiência da obra de
Cristo para a nossa salvação, e sem fé não se pode agradá-lo (Hb 11:6).
Tudo acabou no Calvário, mas só nós ressuscitamos com Cristo, agora
como novas criaturas, para as quais tudo se fez novo (II Co 5:17). Estamos
livres do estatuto das transgressões e da morte (Rm 8:2) e vivemos uma
nova vida, sem possibilidade de condenação, mas em constante processo de
renovação da mente no Espírito (Gl 5:18), que pode, este sim, nos dar (e
efetivamente nos dá) a vitória contra o domínio do pecado (Rm 6:14).
Na cruz do Calvário, Cristo já sofreu a “punição” pelos nossos pecados.
Agora somos filhos amados, precisamos de “correção”, e o Pai corrige a
quem ama (Hb 12:5-8). E como qualquer pai zeloso, à medida que vamos
crescendo em discernimento espiritual, Deus espera que nos corrijamos a
nós mesmos, para que ele não precise interferir (I Co 11:31-32). Quem não
prevê nem admite nenhuma queda pelo caminho é a Lei. Ela exige perfeição
linear e absoluta, para todos, sem um tropeço sequer (Tg 2:10).
Deus, entretanto, não é a Lei, e ele sabe que ainda cairemos, mas, de
modo algum, nos abandonará nem permitirá que pereçamos (Jo 10:28), por
isso ele assumiu a nossa condenação (ora, se fosse possível não cairmos,
viveríamos pela Lei, sem precisarmos da Graça de Cristo!). Deus se coloca ao
nosso lado para nos erguer e quer que aprendamos a caminhar com
equilíbrio.
Obviamente, devemos evitar as quedas, mas, uma vez caídos, o
levantar-se para caminhar corretamente glorifica a Deus e a Jesus, o seu
Filho. Ele é longânime e misericordioso, por isso muitas vezes nos parecerá
que ele não está vendo o nosso pecado. Mas ele está apenas dando um tempo
para que tomemos, nós mesmos, a atitude correta – o arrependimento -
como adultos no Espírito. Mas, saiba, se não nos arrependermos do pecado,
mais cedo ou mais tarde, ele interferirá, e fará isso, não segundo a frieza e
a generalização (coletivização) da Lei, mas individualmente, na medida certa
da nossa necessidade, pois ele sonda os nossos corações e sabe a dose exata
do “remédio” de que precisamos, havendo, certamente, disciplina dura para
os duros de coração e tardios em arrepender-se.
Deus não está, de forma alguma, obrigado a exercer a sua disciplina de
modo a satisfazer a mentes autojustificadas e corações carnais que nada
36

tenham a ver com o problema. O disciplinado seguramente sentirá a


correção de Deus, mas, para decepção dos sedentos de lei e de juízo (sobre
o próximo...), ele faz isso por amor, para restauração e não para condenação.
Quem se julga a si mesmo e arrepende-se do erro sem demora não
precisa de disciplina (I Co 11:31-32). Entretanto, em todo aprendizado há o
risco de falhas e, além disso, o caminho que não admite a possibilidade de
falhas por parte do pecador é o caminho da Lei...
Não devemos temer a condenação eterna por causa dos nossos
pecados, mas devemos rejeitá-los sempre, com firmeza, pois somos novas
criaturas, que não estão sem lei para com Deus, mas debaixo da Lei de
Cristo (I Co 9:21). Ora, se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito
(Gl 5:25), apartando-nos da injustiça (II Tm 2:19), fazendo tudo com amor
(I Co 16:14), sofrendo o dano (I Co 6:7) e levando as cargas uns dos outros
(Gl 6:2). Se pecarmos, temos um advogado competentíssimo junto ao Pai (I
Jo 2:1), mas sempre corrijamo-nos a nós mesmos (resolvendo também a
questão com as possíveis vítimas do nosso pecado), conscientes de que, se
morremos para a Lei e não estamos mais sujeitos à condenação, temos um
compromisso com a nossa coerência e credibilidade como renascidos em
Cristo (I Co 9:27 – para que serve liberdade sem credibilidade?), de modo
que sejamos (sem autopropaganda – Pv 27:2) verdadeiramente reconhecidos
como pessoas cuja maior característica é o amor ao próximo (Jo 13:34), e
que são testemunhas (evidências, exemplos, provas vivas) da transformação
que Deus pode e quer realizar em todo e qualquer pecador arrependido.
Quando falo de coerência e credibilidade, obviamente refiro-me à
ética do Evangelho, que demanda a busca de justiça, paz e alegria no
Espírito Santo (agradável a Deus e aprovada pelos homens – Rm 14:17-18), e
não à moralidade religiosa institucionalizada, exteriorizada e legalista dos
fariseus que perseguiram a Jesus e aos apóstolos (Mt 23:27).
Se alguém se diz renascido em Cristo, não tenha a sua plena liberdade
por cobertura da malícia (I Pe 2:16 - ARC) a fim de, premeditadamente,
tirar vantagens da sua condição de perdoado. Andemos tranqüilos e na paz
de Cristo, pois, para nós, a condenação não mais existe. No Calvário, já
fomos antecipadamente perdoados, mas a questão é: você quer usufruir o
perdão com ou sem a disciplina do Senhor (I Co 11:31-32)?
Em vez de julgar-nos e sentenciar-nos uns aos outros, acolhamo-nos e
aconselhemo-nos mutuamente com amor e longanimidade (II Tm 4:2), para
que estejamos em pé diante do Senhor (Rm 14:4). É levando as cargas uns
dos outros que cumprimos a lei de Cristo (Gl 6:2).
37

Deus não espera que façamos sempre as escolhas certas, mas ele quer
que tentemos acertar sempre. O nosso direito de falhar foi pago com o
precioso sangue do Cordeiro de Deus.
A vida cristã é um processo de aperfeiçoamento, onde devemos buscar
a sintonia entre a nossa mente e a nossa nova realidade espiritual, para que
vivamos como mortos para a justiça própria que há na Lei (Gl 2:19), e
andemos com fé em Cristo, guiados pelo Espírito, e orientados pelo
misericordioso amor de Deus.
E isso vale para o pior pecador, aquele mais sujo do qual já ouvimos
falar. Mas no ambiente religioso, onde o único reconhecido e valorizado é o
mais “santo”, mesmo quem entende a Graça intelectualmente leva algum
tempo (às vezes, muito tempo) para redirecionar a sua mente legalista e
autojustificada ao Espírito do Evangelho, vindo a pacificar a sua alma e a ter
prazer nessa nova realidade, dedicando-se inteiramente a ela.
Paulo deu-nos uma ótima dica de como entendermos melhor essa
questão: consideremos a nós mesmos o maior dos pecadores (I Tm 1:15) e,
assim, aceitaremos mais facilmente a misericórdia de Deus sobre todos os
outros.
38

VIII - A MENTE AUTOJUSTIFICADA

“E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos


pela renovação da vossa mente, para que experimentemos qual
seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12:2)

A expressão “a morte da Lei” costuma causar um certo mal-estar nas


pessoas, pois como é que se pode fazer menção à morte de algo que é santo,
justo e bom (Rm 7:12)? Mas a morte da Lei (o fim de sua validade como
referencial de julgamento sobre nós - decretado por Cristo na cruz do
Calvário e confirmado com a sua ressurreição - para viabilizar a nossa
salvação) e a necessidade da sua mortificação em nossa mente (processo de
abandono dos julgamentos pela sua justiça, para que possamos amar ao
próximo de maneira incondicional) é um ensino muito claro nas cartas
paulinas.
O ministério do apóstolo dos gentios teve como maior característica a
luta para que os judeus convertidos ao Evangelho abandonassem o jugo da
Lei, bem como os cristãos gentios a ela não se submetessem.
Ora, a Lei Mosaica foi dada exclusivamente para o povo de Moisés (Dt
5:2-3; Rm 9:4), mas a validade da sua justiça acaba no instante em que o
judeu (ou o gentio que a ela se submeteu – Gl 3:12; 5:3) a substitui pela
justiça do descendente (Gl 3:19), que é Cristo (Rm 10:4). Da mesma forma, o
gentio que nunca se colocou debaixo do jugo mosaico fica livre de qualquer
forma de justiça meritória (para justificação diante de Deus) quando,
crendo no sacrifício vicário (substitutivo) do Cordeiro, recorre à justiça do
Calvário.
Mas resta ainda o jugo da autojustificação, gerado pela justiça
meritória da lei, e que, segundo Paulo, domina o homem natural enquanto ele
vive (Rm 7:1). Observe que aqui o apóstolo não fala de validade da lei, mas do
domínio dela sobre o homem (controle que determina as ações), induzindo-o
incessantemente à autojustificação e direcionando para longe dos
propósitos de Deus e do Evangelho de Cristo os seus julgamentos e
sentimentos para com o próximo.
E sendo a Lei a força do pecado (I Co 15:56), ao libertar-nos dela (Rm
7:6), Cristo evidentemente liberta-nos do domínio do pecado (Rm 6:14).
Na sua própria carne Cristo aboliu a Lei (extinguiu, decretou o fim da
validade), de modo que nosso espírito está totalmente livre do fardo de sua
justiça meritória (Ef 2:15), mas ainda precisamos libertar a nossa mente do
39

seu jugo (domínio) legalista, substituindo-o pelo jugo de Cristo, para que em
nós seja vivificado o Espírito de Deus e, efetivamente, tornemo-nos novas
criaturas - que servem em novidade de espírito e não na caducidade da letra
(Rm 7:6) - para as quais as coisas velhas já passaram e se fizeram novas (II
Co 5:17).
Mas o que seria, exatamente, livrar-se do jugo da Lei, ou morrer para
ela (Gl 2:18-19; Rm 7:4)?
Todo o universo funciona mediante regras. Leis naturais de causa e
efeito regem tudo que existe. Há uma conseqüência equivalente e justa para
cada ato, e é esse o princípio natural (e correto – Gl 6:7) de justiça, que
está gravado no coração do homem natural, ou carnal. Quem anda conforme
as regras usufrui as boas conseqüências equivalentes; quem as desobedece,
ou as ignora, também sofre (merecidamente) as más conseqüências.
Essa lógica meritória e legalista é inata e profundamente intuitiva ao
homem natural, de modo que, em qualquer situação, a sua primeira percepção
e análise (julgamento) será automaticamente mediante a justiça meritória.
Daí a sua dificuldade em discernir as coisas espirituais, pois elas não se
encaixam nessa lógica meritória (I Co 2:14). Justiça, injustiça, santidade,
impiedade, sucesso, fracasso, sensatez, insensatez, coerência, incoerência,
miséria, prosperidade... Tudo isso é racionalizado e compreendido pelo
homem natural, segundo a lógica individualista, meritória e justa do
legalismo que lhe é natural.
Em nenhum momento a Bíblia afirma que a justiça meritória – que
provém de obediência à lei - não é justa. Mas, diante da impossibilidade
humana de apresentar justiça própria perfeita mediante obediência infalível
(Tg 2:10), Cristo satisfez toda a Justiça da Lei, a fim de justificar - pela
Graça, mediante a fé (Ef 2:8) - a todos os que crêem na sua obra, para que
agora vivamos pela Justiça do Calvário (Justiça de Deus), que é superior (Hb
8:6) e provém da fé (Fp 3:9).
A lógica legalista - que alimenta a busca da justificação pelo bom
desempenho diante de leis e regras - baseia-se no merecimento e tem como
objetivo o direito adquirido. Essa “dupla do barulho” está no centro de
problemas conjugais, familiares, de relacionamento no emprego, de atritos
entre vizinhos, de brigas entre crianças e até de guerras entre nações, pois
o ser humano já nasce julgando-se merecedor das melhores coisas da vida: o
melhor brinquedo, a mãe mais bonita, a(o) namorada(o) mais atraente, o
melhor emprego, a(o) esposa(o) mais digna(o), os filhos mais lindos e mais
inteligentes, o melhor carro, a melhor casa, a melhor aposentadoria, o
melhor cemitério e, finalmente... o céu. Ele só precisa de alguém que legalize
e autentique o seu direito a tudo isso.
40

Muitos sentem, entretanto, que não basta simplesmente apresentar


saldo positivo (boas obras x más obras) diante de Deus para ter garantida a
merecida obtenção de tudo isso. O direito adquirido precisa ser legitimado
de forma mais profunda e segura, e a religião é, ao mesmo tempo, o posto de
avaliação e o orgão autenticador desse direito.
A religião cristã tem - histórica e convenientemente - aceitado tais
tentativas de legitimação (autenticação) de direitos como conversão
(através da obediência à Lei Mosaica - ou a regras de conduta nela
inspiradas - e da privação da vida social extra-igreja), criando uma
comunidade que, obviamente, se caracteriza pela arrogância espiritual
(direito ao céu legitimado em si mesmo), e não pelo amor ao próximo, que só
nasce do pleno reconhecimento da total ausência de méritos próprios diante
de Deus.
Ora, o princípio meritório de justiça está presente em tudo, e a sua
utilização correta é sempre lícita e proveitosa para o homem (é o justo
princípio da lei). É a justa lei meritória que educa o homem e prepara-o para
a vida numa sociedade civilizada e mais justa. Foi assim, através da Lei
Mosaica, exclusiva do povo de Moisés, que Deus formou e preparou um povo
para receber o seu Filho. O cidadão Saulo de Tarso era irrepreensível
quanto à justiça da lei de seu país (Fp 3:6), e não consta que, após a
conversão, Paulo tenha baixado o nível. A vontade de Deus para nós é que
também sejamos cidadãos que andam conforme as leis de nosso país e que
criemos nossos filhos de modo a formar homens e mulheres que amam o
caminho da retidão (interessante é que muitos cristãos que dizem observar
a Lei Mosaica não têm o mesmo empenho, respeito e zelo para com as leis
civis do nosso país, e conscientemente desprezam e violam muitas delas).
A Graça de Cristo livra-nos da necessidade de autojustificação diante
de Deus, libertando-nos do “legalismo”, mas não garante isenção das
conseqüências terrenas dos nossos atos nem desobriga-nos de uma vida na
“legalidade civil”, pois qualquer sociedade que viva sem sujeição às suas leis
e regras e sem consciência de direitos e deveres caminha para o caos.
Com tudo isso, a obediência a regras e mandamentos - ainda que
estejam na santa, justa e boa Lei Mosaica - pode tornar-se algo destrutivo
para o espírito humano. Basta que ela exceda o seu papel de educar na
justiça (II Tm 3:16) e assuma a pretensão de exibir a justiça do homem,
tentando justificá-lo diante de Deus.
Apesar de não fazer idéia de onde está se metendo (Gl 3:10), é
igualmente intuitivo ao homem natural atribuir à lógica meritória a
capacidade de justificá-lo diante de Deus. Mas essa justificação por mérito
41

próprio exige perfeição absoluta (Tg 2:10), de modo que, pelo desempenho
na lógica meritória natural, ninguém será justificado (Gl 2:16).
Esse autoengano, além de levar à condenação, é profundamente danoso
à alma humana e cria dois seres distintos: um profundamente arrogante e
manipulador, e um outro, inseguro, medroso e manipulável. Ambos são cegos,
mas, via de regra, um será guia do outro. O primeiro se julgará justificado
por sua aparente obediência (apenas exterior - Mt 23:28) a estatutos legais
e morais, e se sentirá apto para liderar. O segundo – ainda inseguro de sua
justificação e manipulável como um boneco – colocará, espontaneamente e
em diversos níveis, a sua vida nas mãos do primeiro, que será o seu honorável
líder e guia. Em busca do direito ao céu, ambos cairão no barranco (Mt
15:14).
Em todo lugar há pessoas com o senso de observação mais aguçado, que
cedo identificam a convicção de merecimento do ser humano e a sua busca
por legitimação do “direito adquirido” e, de variadas formas e em diversas
áreas, manipulam essa realidade para satisfação de suas ambições pessoais.
Nas conquistas amorosas, por exemplo, a manipulação dá-se em um jogo
de interesses de ambas as partes. Aqui, basta sugerir que o alvo da
conquista já tem merecimento (ou direitos) só por seus atributos físicos
naturais. De um modo geral, ressaltar o merecimento tem sido o método
utilizado pelo homem (provavelmente desde Adão) para conquistar uma
mulher. E ela merece o quê? Ora, tudo de bom que ela consiga imaginar.
Inclusive o que nenhum ser humano normal conseguiria realizar para aquela
que é o alvo da conquista.
Mas o conquistador nem precisa trazer à realidade tudo a que a
“princesa”, por mérito natural, teria direito. Basta, sabiamente, manter o
clima de merecimento. E isso pode funcionar por alguns anos, até que a
“merecida” - decorrido um tempo considerável, que varia de conquistada
para conquistada - faça uma avaliação e veja que mimos, aos quais teria
“direito”, ela já recebeu, e qual a possibilidade de receber os que ainda lhe
faltam, no tempo que provavelmente ainda lhe resta. Caso essa avaliação lhe
seja desfavorável, o conquistador conhecerá e sofrerá as conseqüências de
seu engano, pois saberá o que é viver com uma “merecida insatisfeita,
frustrada e enfurecida” (Pv 21:19; 27:15-16).
Relacionamentos iniciados e mantidos sob tal distorção da realidade
são fadados ao fracasso (se não houver mudança), mesmo que, por vários
motivos, a encenação se prolongue até que a morte os separe. Entre outros
problemas que têm tornado difícil e rara a durabilidade dos casamentos
estão as expectativas irreais e a autoimagem distorcida que o amor
romântico pode gerar nos indivíduos. Viver com quem amamos
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apaixonadamente torna a vida muito mais leve e alegre, e o romantismo pode


e deve ser cultivado. Mas, para que esse sentimento não se torne algo
doentio e destrutivo, ele precisa estar bem ajustado à exata realidade do
ser humano. O amor romântico pode – e deve – voar para que seja belo e
valha a pena, mas com os pés firmes no chão, sem criar expectativas irreais
nem falsas imagens de si mesmo ou do parceiro.
No meio religioso, essa manipulação do direito adquirido acontece
quando algumas dessas pessoas (que identificam mais nitidamente a
tentativa humana de legitimar direitos) enxergam um pouco além dos
relacionamentos simples e, desejando criar um reino para si mesmos,
tornam-se líderes religiosos, supostamente capazes de trazer ao povo a
desejada e merecida prosperidade (os lobos com pele de cordeiro vêem que
a religião é o principal legitimador da justiça meritória). Por que manipular e
obter vantagens apenas da esposa, dos filhos e dos amigos, se é possível
manipular e explorar uma multidão inteira? Por que sugar o melhor de uns
poucos, se é possível sugar tudo e de tantos ao mesmo tempo? Ora, onde há
miséria (ou o medo dela) há sede de prosperidade. A farra dos lobos é aqui...
A artimanha - que ainda funciona perfeitamente - é a mesma que foi
utilizada pelo inimigo de Deus no jardim do Éden e também no confronto
com Cristo, no alto do monte; ou seja, estimular o merecimento, a mania de
grandeza (Gn 3:5) e a cobiça humana (Mt 4:8-9). O lobo com pele de
cordeiro tenta convencer o ouvinte (e não precisa de muito esforço) de que
ele adquirirá direitos e obterá justificação diante de Deus se obedecer a
certos mandamentos, convenientemente selecionados. Cumprir as tais
regras o tornará espiritualmente forte, o colocará no topo, fazendo-o
merecedor do favor de Deus, podendo exigir dele o sucesso nessa vida.
A idéia básica é: “Você merece tudo e eu sou o intermediário dessa
negociação”. O risco é claro, e o mais ingênuo dos fiéis (contribuintes) está
ciente disso. Mas a idéia do merecimento é tão fortemente alimentada e tão
compulsivamente induzida - e cai como uma luva na mente naturalmente
legalista do povo (mérito por obediência a regras) - que a visão do risco se
minimiza até o esquecimento. Afinal, duvidar é falta de fé...
O objetivo principal - redirecionar a fé (da justificação em Cristo para
a prosperidade), desviando o mérito da pessoa de Cristo (trazendo-o de
volta ao homem) - é disfarçado através da citação eventual de textos
bíblicos que até parecem contradizer o “espírito da coisa”. Até a “perigosa”
palavra Graça é ouvida de vez em quando. Mas é tudo na medida certa,
previamente estudado, só um pouquinho, de modo que pareça algo
verdadeiramente relacionado ao Evangelho de Cristo (para tentar dar
legitimidade ao engodo e calar os que advertem as suas vítimas), mas que, na
43

verdade, é apenas um golpe que alimenta e tira proveito de um povo sedento


da justiça própria e do mérito que provêm da obediência à Lei, e não da
Justiça do Calvário.
Por isso em tais ambientes religiosos predomina tudo que é relativo à
Lei Mosaica e seus rituais. As abordagens e os textos lidos são
predominantemente do Velho Testamento (os relacionados à Lei);
praticamente todas as referências são a Israel; o visual do recinto é sempre
semelhante ao templo judaico e as histórias mais ouvidas são as aventuras
hebraicas com recompensa final pela obediência ou o duro castigo pela
desobediência (Tt 1:14). As palavras de ordem são:
- “Você merece!”
- “Você tem direito!”
- “Você obedece (às nossas regras) e Deus fica obrigado a lhe
recompensar!”
- “Nada cai do céu de graça!”
- “Você contribui e Deus fica obrigado a lhe retribuir!”
- “Deus quer que você tenha sucesso!”
- “Deus quer que o seu povo seja rico!”
- “Deus vai trazer os teus inimigos para debaixo dos teus pés!”
- “Deus vai te dar a terra prometida (aqui na Terra, tal qual aos
judeus), onde mana leite e mel!”

“Pois muitos andam entre vós, dos quais repetidas vezes eu


vos dizia e agora vos digo até chorando, que são inimigos da cruz
de Cristo. O destino deles é a perdição, o deus deles é o ventre e
a glória deles está na sua infâmia, visto que só se preocupam com
as coisas terrenas” (Filipenses 3:18-19)
“Também movidos por avareza, farão comércio de vós, com
palavras fictícias. Para eles o juízo lavrado há longo tempo não
tarda e a sua destruição não dorme” (II Pedro 2:3)

A Lei, com sua lógica meritória e legalista, é profundamente intuitiva ao


homem natural. A Graça, com sua justificação exclusivamente pela fé
(independentemente de obras – Rm 4:6), não é intuitiva ao homem natural.
Ele precisa passar por um processo de mudança de parâmetro. Precisa
substituir o mérito próprio pelo mérito de Cristo.
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A intuição meritória é inata ao ser humano, de modo que, sem a


aceitação da loucura do Evangelho (o que gera uma intervenção sobrenatural
do Espírito Santo no indivíduo), tal intuição legalista dominará o homem por
toda a sua vida (Rm 7:1).
Quem, por acaso, estiver interessado em conhecer a mensagem do
Evangelho da Graça de Cristo deve ter o espírito preparado para o contato
com algo que não segue a lógica natural de causa e efeito, porque - quanto à
nossa condenação - Cristo assumiu os efeitos de nossas causalidades; o que
não significa que estamos livres das conseqüências terrenas dos nossos
pecados (Gl 6:7) nem mesmo, eventualmente, dos de terceiros.
Há que se ter a mente aberta para uma renovação que substitui a
justiça própria humana (procedente de lei) pela justiça de Deus, ou justiça
do Calvário (procedente de fé), que torna todos os homens iguais diante do
Criador, viabilizando a possibilidade de amarmos ao próximo, quem quer que
seja ele.
A justiça do homem (alegada para autojustificação) gera apenas o
religioso arrogante. A Justiça do Calvário (por anular o mérito humano) gera
uma nova criatura em Cristo, misericordiosa e que ama ao próximo.
Mas quem está interessado em amar ao próximo, e não em manipulá-lo
de alguma forma, seja ele quem for? Quem está interessado em uma vitória
sentida e celebrada mesmo no fracasso? Quem está interessado em uma
inexplicável paz que excede todo entendimento (Fp 4:7), pois se pode senti-
la mesmo em meio a grandes e inevitáveis tribulações (Jo 16:33)? Quem
está interessado em abrir mão de direitos? Quem está interessado em
sofrer o dano? Quem está interessado em oferecer a outra face ao que lhe
bate no rosto? Quem está interessado em bendizer os que o maldizem?
Quem está interessado em amar seus inimigos, em fazer o bem aos que o
odeiam e orar pelos que o caluniam? Quem dará também a túnica ao que lhe
toma a capa? Quem verá sensatez e justiça em ser benigno até mesmo com
ingratos e maus?
Esta é a misericórdia do Pai Celeste. Mas quem quer ser perfeitamente
misericordioso como ele (Mt 5:38-48; Lc 6:27-36)? Quem está disposto a
rejeitar a sua justiça própria a fim de salvar a sua vida (Mt 16:25)? Quem
entenderá uma lógica maluca onde o ganho vem da perda e onde o maior é
aquele que se faz o menor (Mt 23:11)? Quem desejará um poder que se
aperfeiçoa na fraqueza (II Co 12:9)? Quem se alegrará com essas coisas?
Quem se sujeitará a esse escândalo e desejará essa loucura (I Co 1:18, 23)?
Quem enxergará que foi isso que, em Cristo, Deus fez por nós? Quem
entenderá que há Justiça de Deus em tal atitude? Quem verá a glória de
Deus em tudo isso?
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Brennan Manning conclui o seu livro “Convite à Loucura” com as


seguintes palavras:

“Suponho que a maioria de nós esteja na mesma posição dos


gregos que se aproximaram de Felipe e disseram: ‘Queremos ver
Jesus’ (Jo 12:20-21). A única questão é: com que intensidade?”

Pessoas que têm como referência espiritual os mandamentos da Lei e


intuitivamente confiam na sua justiça meritória (Jo 5:45) vêem as palavras
de Jesus em Lucas 6:27-36 como sugestões divinas opcionais para quem, por
acaso, estiver interessado em uma vida espiritual poeticamente admirável,
mas fora da realidade, e não como mandamentos do Senhor para a sua
Igreja. Para os tais, mandamentos bons e proveitosos mesmo são os da Lei,
que supostamente geram direitos diante de Deus, inclusive o de julgar o
próximo...
A Graça e o amor de Deus descem gratuita e incondicionalmente do seu
trono até nós, mas é totalmente inútil e equivocada qualquer tentativa de
retribuição desse amor diretamente ao próprio Deus, através de gestos,
ritos e rotinas meramente religiosas, achando que assim estaremos quites
com ele.
Deus não está procurando nem exigindo provas do nosso amor
diretamente à pessoa dele, como costuma ensinar a religião cristã. Pedro
aprendeu essa lição do próprio Senhor Jesus em uma aula bem particular
(Jo 21:15-17).
Toda manifestação, exteriorização ou tentativa de retribuição do amor
de Deus, de sua misericórdia e do seu perdão deve ser direcionada ao
próximo. É essa a sua vontade; é esse o seu mandamento; é esse o critério
que define quem é verdadeiramente comprometido com o seu amor e faz
parte do Reino (Mt 25:31-46).
Mas é aqui também que, para muitos, a Graça começa a perder o
encanto e deixa de ser maravilhosamente atraente, pois ela implica uma
mudança assombrosa (aterrorizante para o homem natural) no seu conceito
de justiça. Na contramão da justiça da Lei, a Justiça do Calvário requer que,
de várias formas, abramos mão da justiça meritória quando esta nos
favorece e, ao mesmo tempo, exige que busquemos o favor dos injustiçados.
Antes de sair arrotando ameaças em nome da “Justiça de Deus”, convém
saber que ela tem a ver com “abrir mão dos próprios direitos em favor do
próximo” (mesmo quando esse “próximo” é nosso inimigo), e não com justiça
meritória (Mt 5:38-39).
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A tentativa de procurar estabelecer a sua própria justiça, não se


sujeitando à Justiça de Deus (que é a do Calvário – Rm 10:3-4), expõe o
homem à severidade de Deus (Rm 11:22), posto que estará rejeitando a sua
bondade (benignidade). Mas a intuição do homem autojustificado o avisa de
que a Justiça do Calvário vai esmagar a sua arrogância (Rm 3:27) e deixá-lo
na mesma condição que adúlteros, assassinos, estupradores, ladrões e
traficantes de droga, e ele acha isso extremamente injusto, uma loucura
absolutamente inaceitável diante do senso de justiça meritória do homem
natural, que, irritado com a misericórdia divina sobre os pecadores, pode
ter reações que vão desde a exclusão da convivência até a conspiração para
a desmoralização ou para a própria morte de quem alardeia tal “sandice” (Jo
5:18, 7:1; At 7:54).
Muitas religiões (inclusive – e talvez principalmente - o cristianismo)
têm incentivado a intolerância, perseguições e assassinatos ao longo de sua
história, julgando que, agindo dessa maneira - e em nome de Deus – estariam
prestando-lhe um grande favor, limpando o mundo e colaborando com o seu
suposto plano de santidade para os homens (Jo 16:2). Tais aberrações têm
acontecido porque, na verdade, o que se tem buscado é autojustificação. E,
se é a lei que suscita a ira divina (Rm 4:15) e seu justo juízo, a justiça
própria humana, que procede de lei (Fp 3:9), gera no homem o ódio religioso
(legitimado pela religião), por isso a religião cristã, em muitos momentos de
sua história, tem agido com espírito de Saulo (irado perseguidor religioso),
mas a ira do homem não produz a justiça de Deus (Tg 1:20).
O perdão de Deus para outros pecadores pode irritar o homem natural
(Mt 20:15) - até mesmo um profeta (Jn 4:1-3) - mas a anulação da sua
justiça própria é o que gera ódio naqueles que não se consideram pecadores.
Com sua Palavra, que é espada de dois gumes (Ap 1:16), Cristo, com um
lado, rasgou o escrito da dívida de pecadores confessos e arrependidos (Cl
2:14) e, com o outro, aniquilou a pretensa justiça dos que se julgam justos.
Por isso foram respeitáveis cidadãos de conceito moral elevadíssimo
(religiosos cheios de justiça própria) que furiosamente conspiraram para a
sua morte, e não pecadores confessos que não viam justiça alguma em si
mesmos.
O representante da justiça dos homens não viu em Cristo mal algum (Lc
23:4), mas os que se julgavam representantes da justiça religiosa da Lei
(com o ódio característico de quem se coloca nessa posição) o entregaram
para sofrer a tortura desumana e exigiram sua crucificação (Lc 23:21).
Os fariseus conspiradores entenderam muito bem que o Evangelho
anula a justiça do homem. Não era o perdão de Cristo aos pecadores o que
mais os incomodava, pois crer ou não crer no perdão dos seus pecados é
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problema do perdoado. Mas ter a sua justiça anulada tornaria os fariseus


iguais aos que eles julgavam pecadores, e isso era uma afronta inaceitável.
Por isso, mesmo depois de supostamente convertidos, alguns deles tentaram
manter um referencial de justiça própria, determinando que os gentios
convertidos tinham que ser circuncidados e observar a Lei Mosaica; idéia
essa prontamente rechaçada pelo apóstolo Pedro (At 15:5-11), que,
infelizmente, não conseguiu evitar o que ainda seria uma forte
característica do cristianismo: a busca de justiça própria mediante a
observância e legitimação da Lei Mosaica.
Ainda hoje são os religiosos autojustificados que fortemente rejeitam
a morte da Lei e mais se irritam contra quem prega a Graça de Cristo. Os
tais são clones espirituais dos fariseus, que idolatram a igreja-templo e
tentam transformar o Evangelho em religião legitimadora da justiça própria
humana (legalismo) e do mérito pelo compromisso religioso. Foi a um desses
religiosos que Cristo disse: “Importa-vos nascer de novo” (Jo 3:7).
Para mentes autojustificadas, qualquer forma de justificação que não
proceda da Lei vem da parte de Belzebu (Mt 10:25). Por isso ainda hoje é
um fato comum que, no meio religioso, todo aquele que (tal qual o apóstolo
dos gentios) anuncia a Graça de Cristo - sem a Lei - seja chamado de
herege, incentivador do pecado, servo de Satanás e coisas semelhantes.
Por anular a sua justiça própria, o religioso autojustificado chama a
Graça de Cristo de “doutrina de demônios”. Para tais religiosos, tanto os de
ontem como os de hoje, Jesus não é nem nunca foi maior do que o “sistema
religioso” (o “templo” - Mt 12:6). Na verdade, esse sistema é o seu Cristo e
o seu deus.
Jesus evidentemente sabia que na justiça própria do homem (ou na sua
alegação) está a fonte de toda discórdia e que a sua anulação despertaria a
fúria dos que nela se sustentam, por isso avisou que não traria paz à Terra,
mas espada; e que essa espada causaria divisão e inimizades, mesmo nos
relacionamentos mais íntimos do homem (Mt 10:34-36).
Após tantas gerações, a parábola dos trabalhadores na vinha (Mt 20:1-
16) segue verdadeira e atual. Somos todos trabalhadores que chegaram para
o serviço ao meio-dia e dão glórias por receber salário igual ao dos que
chegaram de manhã cedinho, mas acham um absurdo inaceitável que os
trabalhadores que chegaram no final do expediente recebam também o
mesmo salário.
Festejamos o perdão daquilo que nos deixa em desvantagem, mas não
aceitamos a anulação daquilo que nos faz mais justos do que o próximo. Em
nossa visão egoísta e presunçosa, a misericórdia de Deus tem que parar em
48

nós, na nossa medida, e não se estender para alcançar pessoas com justiça
inferior à nossa. A minha justiça é o meu parâmetro e a minha alegação para
tentar desqualificar e condenar o meu próximo.
Aceitar a anulação da minha justiça implica reconhecer a plena
igualdade entre mim e quem quer que seja o meu próximo e em qualquer
situação em que ele se encontre. E, sendo assim, inevitavelmente terei que
servi-lo (se sou um discípulo de Cristo), por isso a Graça de Cristo - quando
anunciada sem a justiça meritória da Lei - tira o sono de qualquer religioso...
O cristianismo identifica o bom cristão (católico ou protestante) pelo
seu perfil moral. Cristo disse que seus discípulos seriam identificados pelo
amor ao próximo (Jo 13:34-35). Ora, só podemos ver todo e qualquer ser
humano como alguém digno de amor se entendermos que Deus, rejeitando a
justiça própria do homem (Is 64:6), considerou a todos igualmente
desobedientes, a fim de derramar a sua misericórdia igualmente a todos
(Rm 11:32). Mas abrir mão de sua justiça própria (e rejeitá-la - Fp 3:7-9) é
algo extremamente difícil para o homem natural, principalmente para o
religioso, que vive em busca de legitimação para a sua moral e justiça. E essa
incompatibilidade entre o religioso moralista e o discípulo de Cristo é
abundantemente mostrada na Bíblia.
O simples fato de tentar mostrar ao homem, principalmente ao
religioso, que sua justiça própria não o torna merecedor do favor divino mais
do que qualquer outro ser humano já revela o quanto haveremos de sofrer
pelo nome de Jesus (At 9:16). Depois do encontro com Cristo, o furioso
Saulo, que tinha total confiança em sua justiça própria, agora iria dedicar o
resto de sua vida a anunciar que a nossa justiça não vale nada diante de
Deus (Is 64:6). Toda e qualquer justiça em nosso favor diante de Deus dá-
se através de Cristo (Ef 2:8-9; I Co 1:26-31; Gl 6:14) e, por isso, mesmo
aquele que crê e é justificado pela Justiça do Calvário não é superior a
ninguém e não tem motivos para gloriar-se em si mesmo (I Co 1:30-31).
Até entre muitos dos que se dizem reformados, renovados, batizados,
congregados, escolhidos, iluminados... enfim, mesmo entre os que se dizem
verdadeiramente convertidos à fé cristã, o perdão dos pecados é facilmente
digerido, mas uma simples referência à anulação da nossa justiça própria já
acirra-lhes a ferocidade do velho homem. Aconselha-se mudar de assunto,
caso não se queira trazer no corpo as marcas de Cristo (Gl 6:17).
Pessoas neurotizadas pela busca de justiça própria segundo a lógica
meritória da Lei costumam atribuir um grande valor para a sua abstinência
de práticas que muitas vezes são absolutamente inofensivas para a vida
espiritual, levando-as a vangloriar-se publicamente do seu afastamento do
49

pecado e a torcer pela condenação de quem vive sem tais privações, para
que não venham a ter sido em vão os seus sacrifícios.
Mas uma possível insegurança quanto aos méritos pela abstinência pode
também levar o religioso a entender que injustiças sofridas geram justiça
própria e mérito diante de Deus para o sofredor (mérito pelo sofrimento). A
neurose, então, manifesta-se em um processo crônico de autovitimização em
toda e qualquer circunstância. Numa espécie de masoquismo espiritual, o
indivíduo, de modo compulsivo, sempre busca, e chega mesmo a forçar
situações em que ele, supostamente inocente, apareça como vítima da
maldade dos outros. Assim, o caminho duplo para o céu seria a abstinência
ou o sofrimento (ou, mais comumente, os dois ao mesmo tempo).
Esses dois comportamentos são muito comuns e valorizados no meio
cristão, mas estão em extrema oposição à Graça de Cristo – a verdade que
livra da condenação e liberta da busca por mérito e direitos diante de Deus.
A Graça liberta sem incentivar a libertinagem (Rm 6:1-2) e anula a
nossa justiça própria (Fp 3:9), que nos leva a sentir-nos no direito de julgar
o próximo. Mas abrir mão de sua justiça é algo absolutamente inaceitável
para o homem natural, pois, sem a lógica meritória, amparada na lei natural
de causa e efeito, ele não consegue racionalizar coisa alguma. Imagine
quando se trata de algo tão não racionalizável pela tal lógica quanto o
Evangelho da Graça.
A característica básica e essencial de uma mente legalista é a
incansável tentativa de adquirir direitos (legitimidade para sua justiça
própria) diante de Deus. E nessa busca, o legalista apela para tudo. Ele
exalta suas pretensas virtudes e minimiza seus defeitos e pecados, ao
mesmo tempo em que - a fim chamar a atenção para si (a sua justiça tem que
estar sempre em evidência) - minimiza as virtudes e maximiza os defeitos e
pecados do próximo.
Na mente adoecida do legalista, tudo conta pontos para a salvação,
gerando créditos ou débitos: a aparência física, a roupa que ele veste, o que
ele come, o que não come, o que bebe, o que não bebe, o que fala, com quem
fala, com quem não fala, o que ouve, o que não ouve, onde anda, onde não
anda, o que lê, o que não lê, o que vê, o que não vê, o que pensa, o que não
pensa, como se diverte (se é que se diverte...) e, obviamente, a denominação
religiosa (modelo de lei) à qual ele se sujeita. Para o legalista, cada um
desses itens deve ser praticado a fim de gerar direitos diante de Deus.
Quem crê na justiça plenamente consumada no Calvário anda por fé, e
não por vista (II Co 5:7), mas o legalista anda estrita e estreitamente pelo
que ele vê.
50

O que fica evidente nesse comportamento é a falta de fé na obra de


Cristo, por isso ele foi tão duro com os fariseus. Para Deus, não há ofensa
mais grave do que tentar exibir justiça própria diante dele (Is 64:6; 65:5;
Lc 18:9-14). Se o que fazemos ou não fazemos interfere na nossa salvação, a
Graça já não é Graça (Rm 11:6) e Cristo morreu em vão (Gl 2:21).
A busca por justiça própria tem duas características básicas. Ela é
sempre “legitimada” pela Lei/religião e gera desprezo pelo próximo. Por isso,
aquele que confia na justiça do Calvário, e não na sua própria justiça (na sua
própria carne – Fp 3:3), mediante a própria Lei, morreu para a Lei, a fim de
viver para Deus, e está crucificado com Cristo (Gl 2:19).
Falar em perdão de pecados agrada a platéia; fazer sermões pouco
detalhados sobre a salvação pela Graça mediante a fé (e não pela obediência
à Lei) dá ares de doutor do Evangelho; mas falar em anulação da nossa
justiça própria causa uma dor aguda, algo semelhante ao corte da mais
afiada espada de dois gumes que, em seu caminho para o coração do homem,
vai dividindo alma e espírito, juntas e medulas (Hb 4:12). Ora, o reflexo do
homem natural é defender-se de tanta violência contra o seu ego.
A morte da Lei é a destruição do parâmetro de justiça humana (Gl
2:18) que criminaliza os pecados e condena por uma única transgressão (Gl
3:10). Crer em tal fato é o âmago da Palavra da Cruz. Quem a aceita atira-se
nos braços de Cristo; quem a rejeita, ou conspira para matá-lo ou – como
alguém já fez isso – falsifica o Evangelho para viabilizar a justiça do homem.
O ensino de Jesus e dos apóstolos fala claramente sobre perder a vida
para salvá-la (Mt 16:25); sobre negar-se a si mesmo (Mc 8:34); sobre a
rejeição total à justiça própria, que procede de lei, em favor da Justiça que
procede de Deus, baseada na fé em Cristo (Fp 3:7-9); enfim, sobre estar
verdadeiramente crucificado com Cristo (Gl 2:19). Mas, como se perde a
vida para salvá-la? Como se pode negar a si mesmo? Como se pode estar
crucificado com Cristo?
Ora, trata-se aqui do velho homem, supostamente “autojustificável”.
Ele deve ser negado, rejeitado e crucificado, para que o corpo do
“transgressor da lei” seja destruído e não sirvamos ao pecado como
escravos (Rm 6:6), pois quem busca autojustificação na Lei está sob domínio
do pecado (Rm 6:14; I Co 15:56).
A anulação da justiça própria é a inevitável dor de parto que precede o
nascimento da nova criatura em Cristo; é a maior e mais importante
confrontação entre o Evangelho e o homem natural. Sem essa confrontação,
sem essa dor, a tendência é que o perdão dos pecados, apresentado
isoladamente, seja bem aceito e as igrejas-templo lotem.
51

“Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue [rejeite


sua justiça própria], tome a sua cruz [aceite a Justiça do
Calvário] e siga-me [viva servindo ao próximo]” - Mc 8:34.

Para os pequeninos de alma isso soa como uma melodia doce e suave,
mas para pretensos sábios e entendidos é um enigma indecifrável (Lc 10:21).
E é só por causa dessa verdade que os loucos podem confundir os sábios; os
fracos podem envergonhar os fortes; e os humildes, os desprezados e os
que nada são no mundo podem reduzir a nada os que julgam ser alguma coisa
em si mesmos, a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus (I Co
1:26-29), pois o poder de Cristo se aperfeiçoa, não na nossa força ou
arrogância, mas na consciência da nossa limitação e fragilidade (II Co 12:9).
Ora, falar em amar ao próximo, perdoar ofensas, praticar boas obras,
fazer o bem sem olhar a quem... isso todas as religiões ensinam; por isso se
diz que toda religião é boa. Mas a queda e a anulação da justiça própria do
homem são exclusividades do Evangelho de Cristo. É isso que o diferencia
das religiões; inclusive, em muitos casos, da própria religião cristã. Sem a
anulação da justiça própria do homem, a Graça já não é Graça (Rm 11:6).
Para pessoas de espírito autojustificado, legalista e farisaico –
“cristãos” ou não – o Evangelho é uma péssima notícia, por isso precisa ser
distorcido e adaptado à Lei, para que sua justiça meritória o torne aceitável
pelos fiéis e manipulável pela liderança.
Para quem está sob a Lei, um único erro lhe terá sido fatal (Tg 2:10).
Para quem está na Graça de Cristo, nem um único “acerto” lhe é necessário
para a justificação; apenas a fé naquele que justifica o ímpio (Rm 4:4-5).
O “cristianismo judaizado e legalista” (que mistura Graça e Lei, e não é
nem Evangelho nem Judaísmo, mas a falsificação de ambos) anuncia o perdão
dos pecados em Cristo, mas não ensina a rejeição da justiça própria, pois é
nela, na justiça própria do religioso, que estão muito bem instalados os seus
instrumentos de controle sobre os fiéis (Gl 6:12-13). Contudo, onde não há
anulação da nossa justiça não há igualdade dos homens diante de Deus (Rm
11:32), não há amor ao próximo e, portanto, não há Evangelho de Cristo.
Para os que nele crêem, Cristo aboliu aquela que é o parâmetro de
justiça própria que divide os homens (a Lei - Ef 2:14-15), de modo que, além
de perdoar os nossos pecados, ele anulou a nossa justiça, deixando patente
52

que somos todos iguais perante Deus e que não temos absolutamente nada
para barganhar com ele.
Portanto, quem é de Deus e quer andar segundo a vontade do Senhor
deve tratar o próximo como gostaria de ser tratado (“porque esta é a Lei e
os profetas” - Mt 7:12); e isso não é uma sugestão divina, mas um
mandamento de Cristo para a sua igreja. O diferencial (contraintuitivo para
o homem natural) não é a nossa justiça; é crer ou não crer na Justiça de
Cristo em nosso favor (Jo 17:19).
O pecador que se confessa justificado por Cristo, e não por sua justiça
própria, deixa o juízo vertical (que é mediante a justiça do Calvário) sempre
a cargo de Deus, e ainda, no que depender dele, também sempre permite que
a misericórdia triunfe sobre os juízos horizontais (que são mediante a
“moral da Lei” - Tg 2:13).
Diferentemente da Lei, o Evangelho foi ensinado por Jesus e pelos
apóstolos em meio a conversas informais, à medida que os assuntos
apareciam em situações reais, geralmente em confrontações com
ordenanças mosaicas. Em várias ocasiões, os apóstolos chamaram o
Evangelho de mandamento do Senhor, mas raramente o ensino da Graça foi
chamado de “Lei”; vocábulo que, em toda a Bíblia, refere-se
caracteristicamente ao estatuto Mosaico.
E por que aconteceu isso? Ora, para que ficasse claro que a justiça do
Calvário não provém de lei, mas de fé (Fp 3:9), e também para que (o que,
infelizmente, acabou acontecendo) os cristãos não olhassem para os ensinos
do Senhor Jesus e dos apóstolos com olhos legalistas e ainda
autojustificadores, enxergando-os com lentes meritórias, estabelecendo
punições (penitências) para expiação da culpa e (desprezando o
discernimento do Espírito) exigissem, por exemplo, a infalibilidade legalista
em funções e situações cujos perfis são humanamente inatingíveis (sem
falhas) em sua completude, pois correspondem (como tudo no Evangelho) ao
que seria o perfil do próprio Cristo naquela função ou situação (Cristo como
presbítero [Tt 1:6-9; I Tm 3:2-7], como marido [Ef 5:25], como esposa [Ef
5:22], como homem idoso, como mulher idosa, como jovem, como servo [Tt
2:2-10], etc).
Achar que Paulo traçou um perfil inflexível (lei) para presbíteros,
maridos e esposas, cria um padrão inatingível, que ninguém alcança, mas que
todos fingem que alcançam (hipocrisia) e que - se fôssemos
verdadeiramente sinceros - desabilitaria muitos presbíteros para a função
(restaria algum?), bem como inviabilizaria o casamento, pois que homem ama
a sua esposa como Cristo amou a igreja? Ou que mulher é submissa ao seu
marido como ao Senhor?
53

Um líder religioso escravo de uma mente legalista viverá, ele mesmo,


uma vida irreal (se for sincero, só ele e Deus sabem das angústias que lhe
tiram o sono), mergulhado na fantasia de ser alguém que, na verdade, está
muito distante de quem ele realmente é. Mas o medo da realidade leva-o a
encarnar um impostor identificável apenas pelos de sua própria casa (o que
tem afastado muitos de seus filhos daquilo que eles são levados a entender
como sendo a “igreja”). Seus liderados, entretanto, o tem como modelo e o
seguem convictos de que estão vivendo conforme a vontade de Deus.
Há que se ter discernimento ao tratar de questões de aptidão para
funções na congregação e demais posturas para um discípulo de Jesus. Paulo
indicou-nos o referencial perfeito (Jesus Cristo), que é o nosso alvo em tudo
(Fp 3:13-14), mas suas instruções não são leis que exigem infalibilidade
absoluta. A verdade do Evangelho em nossa vida começa por não vivermos a
mentira de fingir ser alguém que, na verdade, não somos. Cristo nos declara
santos e justificados como somos, pois cremos na santificação dele em
nosso favor. E o caminho a ser trilhado agora (Jo 14:6) é o aperfeiçoamento
no amor (I Jo 2:5) e a santificação na verdade (Jo 17:19).
Ora, se a perfeição fosse indispensável, como poderia ser “o apóstolo
dos gentios” e ainda ousadamente declarar “Sede meus imitadores como eu
sou de Cristo” (I Co 11:1) alguém que corajosamente confessou: “não faço o
bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço” (Rm 7:19)? Estaria ele
fora de si quando disse: “Por isso não desanimamos; pelo contrário, mesmo
que o nosso homem exterior se corrompa, contudo, o nosso homem interior
se renova de dia em dia” (II Co 4:16)? Como poderia determinar perfis e
posturas para discípulos e para a liderança da igreja alguém que assumiu ser
o principal dos pecadores (I Tm 1:15)?
Estaria Paulo bancando o falso humilde ou apenas revelou, na descrição
de sua autoimagem, a consciência (reconhecimento) de sua natureza ainda
corruptível (I Co 15:53), que o desautorizava (e a todos nós) a julgar o
próximo e exigir perfeição de quem quer que seja?
Ora, Paulo apenas confirmou o que Cristo já havia declarado
anteriormente (Jo 8:32, 36). Se fomos justificados na cruz do Calvário,
estamos livres da neurose legalista, que nos leva à busca desenfreada por
méritos e direitos diante de Deus.
Se não há ninguém perfeito, a adequação aos perfis das funções na
congregação são obviamente uma questão de discernimento, e não de lei
absolutista.
Paulo, ex-fariseu, formado nas melhores instituições de ensino jurídico
de sua época, era profundo conhecedor da Lei e sabia que leis são
54

promulgadas para os mais diversos tipos de transgressores, e não para


justos (I Tm 1:9). Ora, se somos justificados (declarados justos) em Cristo,
somos filhos de Deus, guiados pelo Espírito (Rm 8:14), que é quem convence
o mundo do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16:7-8), e não pela Lei, que
apenas realça o pecado (Rm 7:5) e avulta a ofensa (Rm 5:20). E, se somos
guiados pelo Espírito, não estamos debaixo da lei (Gl 5:18), mas somos
transformados pela renovação da nossa mente (libertando-a da lógica
meritória legalista), compreendemos (Ef 5:17) e experimentamos a boa,
perfeita e agradável vontade de Deus (Rm 12:2), escrita pelo Espírito, não
em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, nos nossos corações
(II Co 3:3). É o amor de Cristo que nos constrange (II Co 5:14), e não a Lei.
O Espírito do Senhor, que habita em nós, renova a nossa mente e capacita-
nos a discernir como convém que caminhemos (I Co 6:12).
Entretanto, em seu ministério, Paulo constatou e combateu duramente
a sede que muitos dos convertidos ainda tinham de lei (principalmente
judeus), levando-os a temer e a levar mais a sério os mandamentos mosaicos
do que os ensinos dos apóstolos. Então, a fim de chamar a atenção dos tais
para a legitimidade dos seus ensinos (I Co 14:37), bem como para a maior
glória do ministério da Justiça de Deus (II Co 3:7-9), Paulo chamou o
Evangelho de lei de Cristo (I Co 9:21; Gl 6:2), lei do Espírito da vida (Rm
8:2), lei de Deus (que guerreia contra a lei meritória, que aprisiona ao
pecado - Rm 7:22-25), à qual o homem não pode estar naturalmente sujeito
(Rm 8:7) e, ainda, lei da fé (Rm 3:27), sempre em oposição à Lei Mosaica (lei
das obras [Rm 3:27], do pecado e da morte [Rm 8:2]). Tiago também chamou
o Evangelho de lei perfeita da liberdade (Tg 1:25 - ARC).
Quem só compreende a salvação pela força da Lei Mosaica (I Co 15:56)
- e não pelo amor e misericórdia divina - saiba que os ensinos de Jesus e dos
apóstolos não são apenas sugestões e conselhos, e que a “Lei de Deus, de
Cristo, do Espírito da Vida, da Fé e da Perfeita Liberdade” (ou seja, o
Evangelho de Cristo), em todos os seus mandamentos, exige que rejeitemos
a nossa justiça própria e, sujeitando-nos à justiça do Calvário, deixemos de
julgar o próximo e o vejamos como nosso semelhante, amando-o como a nós
mesmos, tendo em Cristo o exemplo de mansidão e humildade (Mt 11:29), e
sendo misericordiosos como misericordioso é o nosso Pai (Lc 6:36).

“Mas, agora, sem lei, se manifestou a Justiça de Deus,


testemunhada pela lei e pelos profetas” (Rm 3:21)
55

A igualdade entre os homens não é uma questão de caridade. É uma


questão de justiça... Justiça do Calvário.
Quem é manso, humilde e misericordioso para com o próximo ajunta
com Cristo. Quem confia na sua justiça própria (na sua própria carne – Fp
3:3) e despreza o próximo está espalhando o que Cristo quer ajuntar (Lc
11:23).
O Evangelho não tem por finalidade criar seguidores de estatutos
morais e religiosos. Não é esse o seu papel nem nunca foi esse o seu
objetivo. Visando a algo bem mais profundo, o Evangelho transforma
seguidores e não seguidores de estatutos morais e religiosos em novas
criaturas, as quais, mediante o reconhecimento da exclusividade dos méritos
de Cristo para sua salvação e a conseqüente consciência de igualdade com o
seu semelhante diante de Deus, seguem abrindo mão de sua justiça própria
em favor do próximo e, guiadas pelo Espírito (Gl 5:18), vão sendo
gradativamente transformadas, substituindo a arrogância espiritual, a
injustiça e a maldade pela humildade e sujeição à boa, perfeita e agradável
vontade de Deus (Rm 12:2), tornando-se, desse modo, pessoas
caracterizadas pelo amor incondicional ao próximo (Jo 13:34-35).
Embora as epístolas neotestamentárias apontem como virtudes da nova
criatura em Cristo o domínio próprio e, obviamente, uma integridade de
caráter acima do padrão mundano, a bandeira da igreja primitiva diante da
sociedade de seu tempo nunca foi a vigilância moral (se fosse, não haveria
parceiros melhores nessa causa do que os fariseus, notoriamente
reconhecidos por seu padrão moral admirável – Mt 5:20). Mesmo existindo
numa época de corrupção extrema, perversões e devassidão sexual explícita
até nos palácios governamentais, a igreja apostólica não se caracterizou por
protestos contra a decadência moral. Ela ganhava a simpatia de todo o povo
por sua alegria singela, testemunho de amor fraternal, desapego às riquezas
e pelo cuidado com os necessitados (At 2:44-47), pois quem ama o Reino de
Deus quer justiça, paz e alegria no Espírito Santo, e nisso agrada a Deus e é
aprovado pelos homens (Rm 14:17-18).
As questões “morais” que interessavam à igreja primitiva eram apenas
as de suas próprias ovelhas (I Co 5:12), e estas eram resolvidas na
intimidade da comunhão, sem chiliques moralistas/legalistas, mas com
longanimidade e tolerância. E mesmo nos casos mais graves, que exigiam
mais firmeza, a questão era tratada como advertência a um irmão, e não
como julgamento de um inimigo (II Ts 3:14-15).
56

Obviamente, como cidadãos que vivem em uma democracia, podemos e


devemos interferir nas questões morais de nosso país (e em muitas outras),
pois isto é aplainar o chão onde nossos filhos pisarão (e é responsabilidade
de todo cidadão, religioso ou não), mas tentar moralizar o mundo em nome
do Evangelho ou da igreja é desviá-los de sua função/missão.
A tentativa de confrontar e derrotar o pecado utilizando a Lei Mosaica
ou a moralidade como instrumentos para esse fim estará sempre fadada ao
fracasso, pois tanto a Lei quanto a “moral” são referenciais do esforço
humano, e o apóstolo Paulo deixou muito clara a impossibilidade do homem
vencer o pecado por conta própria (Rm 7:7-25).
A Lei (e a sua tentativa de razoabilidade aceitável pela maioria – a
moral) é um parâmetro inútil para a libertação do domínio do pecado (Rm
6:14), pois é exatamente nela que está a força do pecado (I Co 15:56). No
homem (que é “carnal e vendido à escravidão do pecado” – Rm 7:14), a Lei
apenas “desperta toda sorte de concupiscência” (Rm 7:8), ao mesmo tempo
em que alimenta a sua justiça própria (Fp 3:9), gerando aparência de
sabedoria, culto de si mesmo, falsa humildade e disciplina do corpo, “que não
são de valor algum, senão para a satisfação da carne” (Cl 2:23 - ARC).
Para o religioso moralizador, a espiritualidade (ou “santidade”) consiste
em combater o pecado com suas próprias forças, tendo como referencial a
moral da lei, ou a lei moral (embora ele use o nome de Jesus). O produto
final é um ser arrogante, com aparência de piedade, mas que nega a eficácia
dela na vida do pecador (II Tm 3:5 - ARC). Em sua autoavaliação, a sua
contabilidade espiritual (mandamentos obedecidos x desobedecidos) não
compromete a média aceitável (moral) e ainda o qualifica como detentor das
chaves do céu e do inferno. Afinal, sua “moral” lhe dá esse privilégio...
Para quem um dia apenas aderiu à moralidade legitimadora de alguma
denominação cristã (e chamou isso de “conversão”), a Graça de Cristo é uma
conversa estranha e perigosa, que pode incentivar o pecado (porque ela
anula o mérito moral religioso). Os tais têm pânico de andar sem as muletas
da autojustificação moral.
Como o referencial de conduta do cristianismo meritório é a
moralidade da Lei (e não o Evangelho de Cristo), é nele que encontramos -
com abundância e em diversos níveis - esse tipo de gente, para o qual a
compreensão do Evangelho é mais difícil, pois (em seu delírio
autojustificado) o seu perfil moral lhe dá mais segurança do que a loucura
da Graça. Se eles já aceitaram as “regras”, se já jogam no “time” e já têm
uma justiça diferenciada e superior à dos pecadores (aos quais eles não se
misturam), o que ainda lhes resta a fazer? De repente ouvem dizer que
devem abrir mão de tudo isso, de sua justiça própria – que foi conquistada
57

com tanto sacrifício... - considerando como perda o seu ganho mais precioso
(Fp 3:7-9), anulando méritos pessoais e igualando-se a todos diante de
Deus? Ora, tem alguém maluco nessa história. Provavelmente é o apóstolo
Paulo...
Ora, tais adesões ao padrão moral religioso mais adequado às
necessidades e capacidades pessoais de autojustificação dos “convertidos”
podem camuflar aqueles que o apóstolo Paulo chamou de falsos irmãos (Gl
2:4-5), que incitam à rebeldia (Gl 3:12) e precisam ser confrontados e ainda
render-se ao Evangelho, pois rejeitam a liberdade que há em Cristo
(ausência de parâmetro meritório) e tentam reduzir-nos à escravidão da Lei.
Não somos uma patrulha moralista que deve sair apontando os pecados
do mundo e julgando os homens. Foi-nos confiada a palavra da reconciliação,
para que anunciemos que “Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o
mundo, não imputando aos homens as suas transgressões” (II Co 5:19), pois
é a tolerância, a longanimidade e a bondade de Deus que conduzem o
pecador ao arrependimento (Rm 2:4).
Em vez de agir como aferidora da moral, a igreja de nossos dias deve
abraçar a causa da justiça que provém da fé (a Justiça de Deus), ou seja,
aquela que torna todos os homens iguais perante o seu Criador. Se é nessa
justiça que cremos, e por ela e para ela vivemos, então a bandeira da igreja
(dentro de sua missão evangelizadora) deve ser a luta contínua em favor dos
injustiçados (Mt 5:6; I Pe 2:24; I Jo 3:10), amparando aqueles que se
encontram em alarmante estado de desigualdade (pobres, desamparados,
desabrigados, enfermos, desprezados, famintos... – Tt 3:14), para que o
Reino e a vontade de Deus sejam assim na Terra como no céu (Mt 6:10). E
hoje há muito mais instrumentos para fazermos isso do que nos tempos
politicamente nada democráticos da igreja primitiva.
Em tempos livres e democráticos como os que vivemos hoje, a
representatividade comunitária é o maior poder de influência nos rumos da
nação através dos mecanismos políticos. As ações da Igreja são sustentadas
por Deus, através das contribuições dos fiéis (II Co 9:7), e ela não deve
recorrer a mecanismos políticos (que são legítimos, mas geralmente
exercidos de modo conflitante com os princípios cristãos) a fim de
barganhar benefícios para si mesma, como instituição (para que não se faça
refém de manipuladores – Mt 4:9), mas não pode ficar indiferente e deixar
de utilizar o seu potencial representativo para legitimamente pressionar os
legisladores e governantes da nação em questões diretamente relacionadas
aos princípios da Justiça do Calvário, ou seja, da igualdade dos homens
diante de Deus. Se não é possível acabar totalmente com as desigualdades
(e não é mesmo – Mt 26:11), podemos amenizar muitas situações absurdas e
58

salvar muitas vidas igualmente preciosas ao nosso Deus. Isso é justo, é


viável e a igreja pode e deve ser muito relevante nessa área.
A igreja não deve ignorar os padrões morais da sociedade em que ela
está inserida, mas ela existe para oferecer Graça àqueles que não a
enxergam em nenhum outro lugar. Ela existe para, em nome do Evangelho de
Cristo, correr riscos que geralmente são inaceitáveis para a sociedade, por
isso a bandeira da igreja é a Justiça do Calvário, e não a vigilância moral.
Mas pregar e viver o Evangelho da Graça, absolutamente desprovido da
nossa justiça própria (conforme a doutrina de Cristo e dos apóstolos), pode
ser um tanto inconveniente para o bom desempenho de “igrejas” que são
apenas instituições religiosas. Tal Evangelho pode acabar atraindo muitas
pessoas com pouquíssima capacidade de sustento da obra e também pessoas
que são companhias pouco recomendáveis.
Por uma questão de identificação pessoal, convivemos e caminhamos
tranqüila e harmoniosamente na “igreja” com legalistas, soberbos,
gananciosos, falsos mestres, avarentos, hipócritas, iracundos, impiedosos,
mentirosos, semeadores de contendas, ciumentos, invejosos, maus
pagadores, glutões... Mas quem quer expor sua esposa, seu marido e seus
filhos ao risco moral da companhia de adúlteros, alcoólatras, fumantes,
viciados, aidéticos, homossexuais e prostitutas (Mt 21:31-32)? Esses têm
que se purificar antes de entrar no “templo”. Quem os considerará – e os
declarará, tal qual aos primeiros - já limpos pela Palavra (Jo 15:10)?
Pregamos o Evangelho da esterilização moral na Lei Mosaica ou o da
justificação em Cristo?
Viver a justiça do Calvário é o fardo leve de Cristo, que só é buscado e
aceito com alegria por aqueles que reconhecem a impossibilidade de levar o
pesado fardo da justificação pela Lei. Mas a arrogância de quem tem a
mente dominada pela justiça meritória (Rm 7:1) o induz a achar que viver
sem a sua justiça própria é que é um fardo insuportavelmente pesado.
Mandamentos, ordenanças e costumes adestram o lobo, mas não o
transformam em ovelha; alteram os hábitos, mas não limpam o coração;
produzem o religioso - e talvez o bom cidadão (até um ateu) - mas não
mudam o seu interior (sepulcros caiados... – Mt 23:27); despertam o zelo,
mas não o entendimento (Rm 10:2).
Uma consciência livre (Jo 8:32,36), transformada pela renovação da
mente (Rm 12:2) e aperfeiçoada no amor (I Jo 2:5) aprende a discernir o
que convém e edifica (I Co 10:23) e gera uma nova criatura em Cristo.
59

Viver a Justiça do Calvário liberta do domínio do pecado (Rm 6:14) e


evidencia a justificação em Cristo. Viver buscando justificação na justiça
meritória da Lei - ainda que chamando isso de evangelho - evidencia o quê?
Abandonar o jugo da Lei e tomar o jugo de Cristo é precisamente a
decisão de mudar a nossa intuição natural e imediata, do mérito legalista e
julgador para o amor incondicional com que Deus nos amou, quando éramos
ainda transgressores (Rm 5:8). A Lei já morreu na cruz do Calvário, mas nós
a mortificamos em nossa carne à medida que vamos conseguindo êxito em,
espontaneamente, oferecer ao próximo a mesma misericórdia imerecida que
recebemos de Deus. O nosso amor ao próximo revela e qualifica a
intensidade do nosso amor a Deus. Esse é o critério do Evangelho (Mt
25:31-46). Andar no Espírito é termos a mesma longanimidade e bondade de
Deus (Cl 3:12-17), que levam o pecador ao arrependimento (Rm 2:4).
Vivendo dessa forma, passamos a ter o mesmo sentimento que houve
em Cristo Jesus (Fp 2:5) e efetivamente pensaremos com a sua mente (I Co
2:16). Os que assim caminham, buscando tal transformação, são obreiros
aprovados, que aprenderam a bem manejar a Palavra da Verdade (dividindo,
separando, com discernimento, Lei e Graça – II Tm 2:15).
Mas logo após o período apostólico, ganhou força o “outro evangelho”,
abominado por Paulo (Gl 1:6) e que seria uma terceira revelação, uma falsa
simbiose entre Lei e Graça, que anuncia o perdão em Cristo, mas condiciona
a sua validação à justiça meritória da Lei. Tal heresia jamais foi pregada por
Jesus nem pelos apóstolos, que, entendendo como uma tentação a Deus,
recusaram-se a colocar sobre os ombros dos discípulos um jugo que nem os
seus pais nem eles mesmos, como judeus, puderam suportar (At 15:10). Ora,
tal persuasão não vem daquele que nos chamou (Gl 5:8).

“Eu, porém, irmãos, se ainda prego a circuncisão, por que


continuo sendo perseguido? Logo, está desfeito o escândalo da
cruz” (Gl 5:11)

Você compreende o que Paulo está dizendo? Tem certeza?


O apóstolo dos gentios está afirmando categoricamente que não
conciliaria Lei e Graça, pois isso seria desfazer o escândalo da cruz. E
mais... que, se assim o fizesse (como tem feito a religião cristã, desde o seu
princípio), ele teria uma vida tranqüila (como a de muitos líderes cristãos),
60

sendo bem aceito pelos religiosos moralistas/legalistas (que perseguiram e


crucificaram a Jesus - Jo 15:20-21; 16:1-2), respeitado como um líder de
moral elevada e, portanto, capaz de, pela força da Lei Mosaica, moralizar a
igreja, a cidade, o país e o mundo.
Tudo tão fácil para Paulo... Bastaria pregar a Lei (ou tentar conciliá-la
com a Graça) e seria o fim de seu sofrimento. Cessariam as perseguições.
Mas ele preferiu continuar pregando a Graça sem a Lei (Rm 3:21). Preferiu o
risco de confiar no poder do Evangelho (Rm 1:16). Preferiu o risco de
confiar no amor e na riqueza da tolerância, da longanimidade e da bondade
de Deus (Rm 2:4; I Cr 21:13). Preferiu o risco de viver pela fé (Gl 3:11) na
loucura da Palavra da Cruz (I Co 1:18).
A situação é a mesma ainda hoje. Quem prega a Graça sem a Lei é
rejeitado e perseguido pelos religiosos. Principalmente por muitos dos que
se dizem cristãos, convertidos ao Evangelho. Mas, a que evangelho? Ora, ao
evangelho da autojustificação; o evangelho que desfaz o escândalo da cruz;
o evangelho da Graça e também da Lei; o “outro evangelho”... (Gl 1:6-9).
Se você prega e vive um evangelho que não choca, não irrita nem
escandaliza religiosos legalistas, moralistas e autojustificados (como
acontecia com Jesus - Mt 15:12-14), você pode até estar pregando uma
mensagem politicamente correta, útil para o bom andamento da sociedade e
justa segundo a lógica humana, mas seguramente não é o Evangelho da Graça
de Cristo.
A religião cristã, legalizada e institucionalizada, nunca entendeu (se
entendeu não aceitou) que a aliança com Cristo, firmada mediante a fé na
justiça do Calvário, anula toda a justiça meritória, que provém de lei. Ela
sempre viu esse fato com profunda desconfiança e, na dúvida, anuncia um
evangelho neotestamentário com largas e profundas raízes muito bem
fincadas na Aliança Mosaica, que foi firmada mediante a Lei.
Ora, o Filho de Davi era ministro da circuncisão (Rm 15:8), por isso
(diferentemente de Paulo, o apóstolo dos gentios) falou do Evangelho sob a
perspectiva da Lei Mosaica (“evangelho da circuncisão” – Gl 2:7) ao seu povo
segundo a carne (Rm 9:5), mas o seu sacerdócio não é uma continuação do
sacerdócio levítico nem foi ele chamado segundo a ordem de Arão (Hb 6:20;
7:11, 15-17). Entretanto, a religião cristã optou pelo sacerdócio levítico,
vendo nele o modelo ideal de solidez e eficiência administrativa para a sua
institucionalização e controle dos fiéis, de modo que, para a maioria dos
cristãos, a igreja é o templo (lugar santo para adoração e culto), onde estão
o santuário e o altar de Deus, onde os “levitas” (sacerdócio levítico)
conduzem o louvor e, para muitos, o presbítero (pastor, padre, papa...),
61

obviamente, é o sumo-sacerdote, a cobertura espiritual e o elo, tido como


perfeito, de ligação entre Deus e o povo.
Com maior ou menor intensidade, é esse o retrato do cristianismo
meritório e judaizado, embora ele declare ter no Evangelho da Graça de
Cristo o seu único parâmetro, os princípios de justiça que ele incute e
alimenta em seus adeptos são extraídos diretamente do contexto legalista
judaico (paraíso dos teologistas) e pavoneiam-lhes o espírito com a
arrogância da lógica meritória. Por isso, assim como na odisséia judaica, os
inimigos de muitos cristãos são carne e sangue, e não as forças espirituais
da maldade (Ef 6:12) que possam estar atuando sobre eles. Inimigos esses
que, aliás – em face da obediência do religioso – Deus, supostamente,
“aniquilará e banhará os pés do servo fiel com o sangue deles”.
No raciocínio do legalista, entre outras coisas, a obediência às regras
garante saúde, prosperidade, segurança, etc... Enfim, a felicidade de uma
vida tranqüila, sem grandes problemas, numa terra prometida, onde mana
leite e mel. Se eu obedeço, sou amado e mereço tudo. Se desobedeço, não
sou mais amado, não mereço nada, não ganho nada, posso perder tudo e
ainda sou castigado. Tudo meticulosamente pinçado em promessas terrenas
feitas a Israel (daí a expectativa judaica de um reino messiânico neste
mundo) e no legalismo embriagador (vinho velho) e entupido de preceitos e
regras que (assim como todos nós nos inclinamos a fazer) os judeus
escolheram como forma de relacionamento com Deus, rejeitando a Graça
abundantemente oferecida por ele, já na jornada pré-messiânica com Israel
(Is 28:7-13; 58:5-11), pois, assim como a minúscula lua pode eclipsar o
gigantesco sol, a nossa justiça própria (meritória e legalista) priva-nos de
contemplar a plenitude gloriosa da Graça de Cristo.
Foi também na justiça da Lei que a religião cristã foi buscar a badalada
e prestigiosa “função profética” (nada a ver com o dom de profecia
neotestamentário), que transporta espiritualmente o candidato a profeta
até o topo de uma colina imaginária onde ele arrogantemente declara: “Eu
vejo!” (Jo 9:39-41), e dali, assumindo a função de aferidor da medida, ele
permanentemente vigia o nível de pecaminosidade do mundo ao seu redor e
cospe ameaças mosaicas no rosto dos achados em falta (segundo a sua
avaliação). Tais falsos profetas recusam-se a levar a cruz de Cristo e ainda
se acham no direito de sair batendo nos outros com as tábuas da Lei.
É ainda no estatuto mosaico (seletivo de pecados e diferenciador de
penalidades, pois visava a organizar e moralizar a sociedade judaica) que os
autojustificados vão igualmente buscar explicação e justificativa para a sua
hierarquização de pecados e instinto punidor (às vezes com fúria e ódio) de
quem comete pecados considerados mais graves do que os seus próprios.
62

Diferente do que ensinou e demonstrou Jesus (Mt 7:12), pessoas de


espírito legalista e mente autojustificada não exercem empatia em seus
julgamentos sobre o próximo. Simplesmente jogam o peso de ordenanças
geralmente criadas pela própria religiosidade cega e impiedosamente exigem
plena e imediata adequação a elas, sem levar em consideração as limitações
e fraquezas individuais de cada ser humano.
Mas a motivação de Jesus são exatamente as mazelas e fraquezas
humanas (Lc 5:30-32; Mt 11:28-30). Onde a religiosidade fria e legalista vê
pecadores indignos e repulsivos, Jesus, profundamente comovido, vê ovelhas
sem pastor (Mc 6:34).
A óbvia conseqüência dessa forte influência do legalismo farisaico dos
tempos apostólicos sobre a religião cristã é um cristianismo distante do
Evangelho de Cristo, com alma e espírito farisaico, profundamente levítico e
judaizado em sua essência, exclusivista, isolacionista, desprezador de
outros apriscos, julgador e desinteressado de tudo que não pertence à sua
“casta especial”, caracterizada pela imensurável arrogância e flagrante
hipocrisia, e não pela misericórdia e amor ao próximo.
As cartas apostólicas são um constante apelo à renovação da mente, a
uma nova consciência, transformada e aperfeiçoada no amor, e que, pelo
reconhecimento da igualdade dos homens diante de Deus, revela-se no
serviço humilde ao próximo (Mt 25:31-46). Contudo, o que se constata em
grande parte do cristianismo legalista e meritório é apenas a imposição da
busca pela justiça que provém da Lei e a forte indução a uma neurótica rede
de controle e vigilância coletiva que, tentando moldar uma imagem unificada
dos fiéis, consegue apenas anular as individualidades, mas não transforma
nada, não renova nada nem aperfeiçoa ninguém no amor ao próximo. É sal
absolutamente insípido...
A anulação da justiça própria humana, conforme o Evangelho da Graça,
é escândalo e loucura para judeus e gentios (I Co 1:23), por isso a máquina
religiosa, meritória e legalista ocupa-se diariamente em desfazer o
escândalo e a loucura da cruz através da adequação do Evangelho à lógica
meritória da Lei, buscando uma sintonia ou conciliação entre o
comportamento arrogante e autojustificado dos fariseus - que alegavam
andar segundo as obras da Lei e haver alcançado um padrão moral alto o
bastante para justificá-los - e o comportamento dos discípulos de Jesus,
que, por fé, andavam como plenamente perdoados e justificados em Cristo,
buscando o aperfeiçoamento no amor.
Tal “sintonia” é absolutamente impossível e profundamente doentia,
frustrante e neurotizante para a alma humana, pois são comportamentos
excludentes entre si. Um é escândalo e loucura para o outro.
63

Ora, quem crê que foi plenamente justificado em Cristo julga-se a si


mesmo (I Co 11:31), se reconhece o principal dos pecadores (I Tm 1:15) e
não alardeia os pecados do próximo, antes escandaliza-se com os seus
próprios pecados e procura exercer para com os outros a mesma
misericórdia que espera receber de todos (Lc 6:31). Mas, tal qual os
fariseus que se opuseram ao Evangelho e conspiraram para matar Jesus,
indivíduos com a mente autojustificada costumam esconder seus próprios
pecados e alardear os pecados de quem não pertence ao seu clã especial (Lc
18:9-14).
Por isso, no cristianismo-religião, o sentimento misericordioso e
longânime que sempre houve em Jesus Cristo é apenas uma possibilidade
para quem o merecer (obviamente nós mesmos, nossos parentes e amigos
mais chegados – o nosso clã); uma mera opção diante da suposta dupla face
de Deus, e não a completa revelação do Pai em seu Filho, em quem habita
corporalmente toda a plenitude da Divindade (Cl 2:9).
Precisamos deixar de analisar e avaliar os sentimentos e ações de
Cristo tomando como referência a imagem pré-concebida, humanamente
racional e intuitivamente legalista que o homem natural tem de Deus.
Toda a Escritura deve ser compreendida à luz das ações e sentimentos
de Cristo, e não o contrário. Tudo que aparentemente não esteja em sintonia
com a vida de Jesus, com a forma como ele tratou os homens (os pecadores
confessos e os autojustificados) e como ele lidou com a rotina da vida
diária, não é o seu Evangelho e não traz em si a essência de Deus, que é
plenamente revelado no Filho.
Não há características do Pai fora da pessoa do Filho. Se, porventura,
algo nas Escrituras não se “encaixa” no testemunho de vida de Jesus, tal
fato foi mal compreendido por quem leu ou trata-se de uma circunstância
particular que não se refere à salvação, conforme o Evangelho da Graça de
Cristo. São coisas velhas que já passaram (II Co 5:17).
As palavras de Jesus registradas em Mateus 5:38-42 têm uma
profundidade muito maior do que costumeiramente se ouve em sermões
dominicais. Em nenhum outro lugar nos evangelhos nem nas cartas
apostólicas ficou tão clara a diferença entre o pacto da Lei e o pacto do
Calvário, bem como a impossibilidade de qualquer união entre os dois.
O “olho por olho, dente por dente” representa os direitos gerados pela
justiça meritória da Lei Mosaica. Mas – assumindo uma autoridade superior
à de Moisés (“Eu, porém, vos digo...”) – Cristo ordenou que se abrisse mão do
direito adquirido de retribuir a ofensa e deixou claro que quem quiser ter
parte no seu reino terá que substituir a justiça da Lei (e os justos direitos
64

que ela proporciona) pela loucura da misericórdia escandalosa, chocante,


gratuita, insensata e até injusta, segundo a lógica legalista e meritória. O
referencial dessa justiça é a cruz do Calvário (só assim ela pode ser
compreendida e aceita), e não a justiça própria do homem.
Essa é a proposta do Evangelho de Cristo, e a Bíblia mostra de forma
clara a reação do coração humano a ela. Aqueles que se reconheceram
pecadores sentiram o amor de Deus na Palavra da Vida e correram para os
braços abertos de Cristo. Os que se julgavam justos entenderam a proposta
de Cristo como desvantajosa e ofensiva para a sua justiça própria e,
recusando a oferta, irritaram-se com ele e pregaram os seus braços abertos
na cruz.
Ora, como poderia a Graça ser atraente para legalistas (os quais
buscam direitos diante de Deus)? Como poderia uma ideia, tão absurda para
a mente humana autojustificada, ser bem recebida e propagada por uma
religião (cristianismo) cujos líderes empenham-se exclusivamente em
incentivar a busca pelo direito ao céu?
A primeira providência dos tais líderes é determinar (ou dar a
entender) que só a vida de Jesus não é um modelo completo para o cristão.
A vida de Cristo, sua misericórdia desenfreada e descabida para com os
pecadores confessos e sua clara rejeição aos religiosos legalistas são,
segundo tais líderes, apenas parte (pequena) de um perfil mais completo.
Ainda segundo eles, é necessário que se olhe também para a “verdade” que
há no Velho Testamento (a Lei). Ora, segundo a lógica da verdade baseada
na justiça da Lei (Pv 17:15), os acusadores de Jesus estavam certos, e o
evangelho pregado por ele, errado (Rm 4:4-5).
Ora, Deus obviamente nunca salvou nem jamais salvará ninguém que
seja justo conforme a justiça da lei, pois, à exceção de Jesus, não há
homem que atenda plenamente aos seus requisitos (se houvesse, esse não
precisaria da Graça de Cristo). Deus sempre salvou e salvará ímpios e
injustos que, pela fé na Justiça Calvário, são declarados justos de Deus,
pois creram naquele justifica o ímpio (Rm 4:4-5).

“Os sãos não precisam de médico e, sim, os doentes. Não vim


chamar justos e, sim, pecadores ao arrependimento” (Lc 5:31-32)
65

Por não admitir o escândalo do Evangelho, o cristianismo meritório não


aceita a plenitude do plano de salvação em Cristo (obra do Calvário). Ora,
não existe Jesus – sua vida e seus ensinos - e uma outra verdade
complementar (a Lei) para dar um suposto equilíbrio necessário. Por isso é
que ouvimos distorções como “Deus é amor, mas também é justiça”, que, dita
por um legalista, significa: “Deus é Graça, mas também é Lei”.
Ora, Deus é amor, e a sua justiça é a do Calvário. E um Deus que é amor
(I Jo 4:8) e cuja justiça é a do Calvário (II Co 5:21) não se encaixa nos
propósitos e interesses de instituições religiosas que, tal qual as
instituições jurídicas seculares (às quais devemos estar submetidos),
empenham-se e impõem-se como guardiãs da moral e dos bons costumes, e
não como lugar de descanso e libertação para quem carrega os pesados
fardos da religiosidade legalista, que aprisiona e escraviza a uma
neurotizante busca pela autojustificação.
E o que o Evangelho da Graça de Cristo tem a ver com tudo isso? Ele é
a Boa Nova, a ótima notícia (At 13:41), o perdão para o pior dos pecadores, o
amor incondicional que, uma vez recebido com lucidez, discernimento e fé,
destrói o nosso espírito arrogante e julgador e gera uma torrente de amor
ao próximo, que transforma pela longanimidade e pela misericórdia (Rm 2:4),
e não pela obediência a ordenanças (Cl 2:20-23).
O cristianismo legalista e meritório precisa entender que, diferente do
que ocorre na Lei, a obediência infalível não é fator determinante e
condicional para se andar na Graça de Cristo. Aliás, Deus, em seu infinito
amor, derramou a sua Graça em nosso favor exatamente porque ele conhece
a nossa alma, sabe que somos desobedientes e falíveis, e que, se nos
tratasse conforme as exigências da Lei, estaríamos todos magnificamente
“ferrados”.
Seriam, então, a obediência e a retidão descartáveis para quem está
em Cristo? Seriam distorcer o sentido do pecado e incentivar o mal as
verdadeiras intenções de quem anuncia o perdão divino, gratuitamente
antecipado e consumado em Cristo? Era precisamente essa a acusação que
alguns faziam contra o apóstolo Paulo (Rm 3:8; II Co 10:2). Mas, será mesmo
esse o motivo de tanta rejeição à Graça?
É claro que não. A rejeição vem do fato de que ela anula a nossa justiça
própria e nos tira o direito de não perdoar (Cl 3:13), obrigando-nos, por
coerência, a amar até os nossos inimigos (com atitudes de amor, e não
necessariamente com sentimentos “romantizados” de amor). E essa
conseqüência só é compreendida, aceita e vivida com tranqüilidade por
aqueles que têm plena consciência de que foram perdoados unicamente pelo
amor gratuito de Deus, quando eram ainda seus inimigos (Rm 5:10).
66

Por amor à sua criação favorita, que o rejeitou, Deus, em Cristo, abriu
mão de sua glória (Jo 17:5), esvaziou-se a si mesmo (Fp 2:7), fez-se carne e
habitou entre nós (Jo 1:14) e, tendo absorvido os pecados da humanidade
inteira na cruz do Calvário (1 Jo 2:1-2), gratuitamente imputa justiça a
todos os que, independentemente de suas obras, crêem no seu sacrifício
(Rm 4:6-8).
De modo que, os que cremos em Cristo e afirmamos estar debaixo de
sua Graça, devemos igualmente esvaziar-nos de nossa justiça própria,
abrindo mão de nossos pretensos direitos, reconhecendo a inutilidade de
nossas boas obras para justificação (Fp 3:7-9) e exercendo o pleno amor ao
próximo, também independentemente das obras deles.
Se cremos no Evangelho de Cristo, sabemos que estamos debaixo da
misericórdia divina a todo instante e por ela vivemos cada segundo de
nossas vidas. E a evidência coerente (requerida por Jesus – Mt 25:31-46),
de que reconhecemos a nossa necessidade da misericórdia divina e de que
confiamos que já a recebemos e nela depositamos a nossa fé, é o fato de a
oferecermos ao próximo, na mesma forma gratuita e imerecida que a
recebemos.
A Graça iguala todos os pecadores diante de Deus e requer que nos
amemos uns aos outros como a nós mesmos. Para mentes autojustificadas,
tal fato é o que torna a Graça de Cristo uma loucura escandalosa e
inaceitável, pois, para o homem natural, andar em amor é muito mais difícil
do que andar conforme a moral vigente, seja religiosa ou não.
Dizer que a Graça incentiva o pecado é desculpa esfarrapada de quem
tem como deus o próprio ventre (Fp 3:18-19). A porção amarga da doce
Graça de Cristo (de difícil digestão para o homem carnal) é a revelação de
que Deus tem misericórdia daquelas pessoas que normalmente são julgadas
por nós como não merecedoras de misericórdia. Na lógica da natureza
carnal, que não discerne as coisas espirituais (I Co 2:14), o velho homem
entende que ter misericórdia do pecador é incentivar o seu pecado. E o que
realmente incomoda é: “Assim como eu vos amei, que também vos ameis uns
aos outros” (Jo 13:34), e ainda, ”Tende em vós o mesmo sentimento que
houve em Cristo Jesus” (Fp 2:5).
Ora, Deus quer que sejamos santos e irrepreensíveis diante dele em
amor (Ef 1:4 - ARC), e a correção divina é um ensino muito claro na sua
Palavra (Pv 3:12; Hb 12:5-6), mas vesti-la com os trajes da Lei Mosaica,
dando-lhe as feições da justiça legalista e meritória, é uma tentativa
hedionda de corrupção espiritual contra almas que foram justificadas e
redimidas pela fé na justiça do Calvário.
67

Mesclar Graça e Lei provoca neurose espiritual, desequilíbrios na alma


e insegurança quanto à salvação, induzindo à necessidade de negociação com
Deus. E, na prática, significa usar o amor de Deus como uma propaganda
enganosa, uma isca para atrair o ouvinte, a fim de prendê-lo ao velho jugo (a
justiça meritória) e daí em diante, exigir-lhe a perfeição (exterior) mosaica.
Assim pensava Paulo, o apóstolo dos gentios, que jamais adotou a
justiça meritória mosaica como parâmetro para a igreja, pois sabia que ela
leva à falsa circuncisão (Fp 3:2-3) e, considerando como perda os seus
direitos adquiridos pela justiça própria que a Lei proporciona, rejeitou-a
como procedente de lei (para que o velho Saulo fosse definitivamente morto
e enterrado - Mt 16:25), em favor da justiça que procede de Deus,
mediante a fé em Cristo (Fp 3:8-9), pois o justo de Deus (justificado em
Cristo) viverá pela fé (Rm 1:17; Gl 3:11; Hb 10:38) e andará conforme a visão
da promessa, independentemente da visibilidade do dia-a-dia.

“...se a justiça procede da Lei, Cristo morreu em vão” (Gálatas 2:21).

Para Paulo, misturar Graça e Lei significava desfazer o escândalo da


cruz (Gl 5:11). Se a opinião dele (e dos demais apóstolos) sobre a Lei fosse a
mesma do cristianismo legalista e meritório, suas epístolas seriam
recheadas de citações do estatuto mosaico, assim como são as pregações de
muitos que se dizem ministros do Evangelho. Quando os tais assim
procedem, fazem-no por conta própria, e não por seguir exemplo ou
orientação de Paulo ou de qualquer outro apóstolo.
O cristianismo-religião jamais combateu com a devida firmeza nem
sequer procurou mostrar aos seus fiéis a necessidade de rejeitar,
mortificar e reorientar (renovar), nos mínimos detalhes, as suas mentes
autojustificadas. Por isso, embora anunciando a Graça de Cristo (ainda que
diluída em barris de ordenanças meritórias), ele não consegue mudar, diante
dos não convertidos mais observadores, a sua imagem de fábrica de
arrogância espiritual, hipocrisia e falso moralismo julgador. E ainda chama
tal rejeição de “o glorioso fardo de Cristo, que temos que levar”.
No cristianismo legalista e meritório, “carregar a sua própria cruz” é
aceitar e conviver orgulhosamente com o repúdio da sociedade à sua
hipocrisia religiosa, por isso tal religiosidade produz “cristãos” que são
exatamente o oposto da nova criatura gerada pela renovação da consciência
no verdadeiro Evangelho da Graça de Cristo.
68

O compromisso do cristão é com a Justiça de Cristo (que é a do


Calvário e que é loucura, segundo a justiça meritória natural do homem). É,
portanto, compreensível que sejamos chamados de loucos, ingênuos,
exageradamente misericordiosos e perdoadores, e de coisas semelhantes a
essas. Mas a (má) fama de arrogantes, julgadores e moralistas hipócritas
revela a falta de sintonia entre a religião cristã e o Evangelho, e isso nada
tem a ver com “levar o fardo de Cristo”. Tal reputação coloca a religião
cristã, não ao lado de Jesus, mas de seus perseguidores, que também tinham
tais características, além da Lei Mosaica na ponta da língua, sempre afiada e
apontada em direção ao próximo.
Ora, se julgamos o próximo, isso não fará com que Deus vá julgá-lo e
puni-lo como achamos que ele deveria fazer. Deus tem o seu próprio
parâmetro de juízo e correção. Nosso julgamento acerca do próximo é,
portanto, totalmente inútil. Mas, quando o fazemos, estamos, na realidade,
estabelecendo uma regra de julgamento (lei) para nós mesmos. Estamos
dizendo a Deus: “Quando eu cometer esse tipo de erro, pode me castigar,
porque eu estou declarando, com a minha boca, que quem faz isso merece um
duro castigo”.
A postura julgadora é sempre muito perigosa para quem a adota. O
Senhor Jesus disse: “Não julgueis para que não sejais julgados, pois com a
medida com que tiveres medido vos medirão também a vós” (Mt 7:1-2), e
ainda: “Porque se perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso
Pai celeste vos perdoará. Se, porém, não perdoardes aos homens as suas
ofensas, tampouco o vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas” (Mt 6:14-15),
de modo que, “o juízo é sem misericórdia para com aquele que não usou de
misericórdia” (Tg 2:13).
É evidente que nem Cristo nem Tiago estão falando de salvação (que é
pela Graça, mediante a fé – Ef 2:8), mas do relacionamento com o próximo,
na vida diária. Quem quiser receber misericórdia de Deus no seu dia-a-dia,
deve ser misericordioso com o próximo.
Necessário se faz esclarecer que, ao dizer que não devemos julgar,
Cristo refere-se a não sentenciarmos ninguém à condenação eterna. Como
pode alguém que é salvo pela Graça, sem que lhe sejam imputadas as suas
transgressões (II Co 5:19), julgar e condenar quem quer que seja?
Mas isso não significa que devemos ser pessoas sem opinião acerca do
pecado, com medo de estar “julgando”. O princípio bíblico para nós é julgar
tudo e reter o que é bom (I Ts 5:21). Mas esse “julgar” tem a ver com
analisarmos situações e examinarmos a nós mesmos (II Co 13:5-6), sem
fazer disso um padrão de julgamento condenatório sobre indivíduos ao nosso
redor. Acerca de tal atitude, o apóstolo Paulo foi bem claro: “Portanto, és
69

indesculpável quando julgas, ó homem, quem quer que sejas, porque, no que
julgas a outro, a ti mesmo te condenas, pois praticas as próprias coisas que
condenas” (Rm 2:1), e ainda: “Quem és tu que julgas o servo alheio? Para o
seu próprio Senhor está de pé ou cai. Mas estará em pé, porque o Senhor é
poderoso para o suster” (Rm 14:4).
No episódio da mulher adúltera (Jo 8:3-11), Cristo não foi conivente
com o pecado em questão nem tinha prioritariamente a intenção de livrar a
mulher da legítima punição prevista (para os judeus) na lei judaica. Se ela
estivesse, naquele instante, sendo penalizada pelas autoridades
competentes, Cristo não teria interferido em seu destino, embora ainda a
tivesse perdoado (assim como perdoou, mas não interferiu no cumprimento
da sentença do ladrão, seu companheiro de crucificação, quando este
suplicou-lhe misericórdia em seus últimos instantes). A ideia de Jesus foi
desautorizar - mediante a contundente revelação da hipocrisia – aqueles
que, sendo igualmente pecadores, não deviam sentir-se superiores e, sem
nenhum direito para tanto, julgar e condenar a pecadora. E ainda, de quebra,
só para não perder o costume, derramou Graça irritantemente abundante e
perdão gratuito...
O cristianismo meritório fala sobre a Graça, mas usa a Lei para manter
os fiéis sob um contínuo bombardeio de culpa (Rm 5:20; 7:5) e constante
tormento produzido pelo medo (I Jo 4:18). O que deveria gerar uma
conscientização rumo à Graça de Deus (pois a Lei aponta para o Messias
perdoador – Gl 3:24) gera apenas uma busca desesperada por justiça
própria, que alimenta e mantém todo o esquema de manipulação religiosa.
Ora, a Lei é a força do pecado (I Co 15:56) e, assim sendo, obviamente
não pode libertar ninguém do domínio do pecado (Rm 6:14). Diferente do
Evangelho (Jo 8:32), o cristianismo meritório e legalista não tem a intenção
de libertar ninguém. Cercando-se de mandamentos mosaicos, que – ligados
umbilicalmente à condenação – são tidos como uma garantia adicional de
intimidação dos fiéis, a religião cristã visa apenas à transformação do
pecador, não em uma nova criatura misericordiosa e que ama ao próximo,
mas em um religioso de moral exterior elevada (Mt 23:27) e que, fazendo-
se espontaneamente prisioneiro de sua própria arrogância, rejeita qualquer
aproximação em igualdade com o próximo (Is 65:5).
Muitos líderes cristãos, portanto, não confiam e ainda rejeitam o que,
na verdade, nem chegam a praticar em suas comunidades (a negação da
nossa justiça própria diante de Deus e a consciência de que é a misericórdia
e a bondade divina que levam ao arrependimento e à transformação do
pecador em uma nova criatura – Rm 2:4) e por isso não podem experimentar
os verdadeiros benefícios do Evangelho como realidade em seu cotidiano.
70

A “loucura do Evangelho” que o cristianismo legalista anuncia ao mundo


é apenas a velha justiça meritória pela obediência a ordenanças
eclesiásticas e regras comportamentais. Nele, “loucura” é não buscar
justificação na Lei Mosaica, pois, segundo seus líderes, a salvação é preciosa
demais para ser gratuita, e o perdão requer, no mínimo, muita justiça
própria após a conversão.
Ora, a morte do Senhor Jesus foi tramada por religiosos moralistas
autojustificados, manipuladores de consciências e guias de cegos que
tateavam em busca de justiça própria, exatamente iguais a muitos líderes e
“fiéis” do que hoje se chama religião cristã.
Mas não há abominação maior do que, em nome do Evangelho de Cristo,
pregar uma salvação pela justiça própria humana. Essa é a pior forma de
usar o nome de Deus em vão.
Paulo afirmou que “a Palavra da Graça tem o poder de edificar” (At
20:32) e que “a força do pecado é a Lei” (I Co 15:56). Mas o cristianismo,
meritório e legalista, resolveu que a Graça sem a Lei gera a libertinagem
(Paulo estaria enganado...), por isso seus líderes tentam passar a idéia de
que a Graça é que é a força do pecado. Diferente do que afirmava o
apóstolo, no cristianismo legalista, a Graça não é a essência do Evangelho de
Cristo nem a fonte de seu poder transformador, mas apenas um pequeno
detalhe que, sem a segurança da Lei, não deve nem ser mencionado.
No cristianismo meritório, o Evangelho é sempre anunciado como duas
notícias contraditórias - uma boa e uma ruim. A notícia boa é que a salvação
é pela Graça, mediante a fé. A ruim – segundo esse falso evangelho - é que
ainda temos que observar a Lei e a ela submeter-nos. Ou seja: a notícia boa
é que estamos livres; a ruim é que continuamos presos.
A forma como o Cristianismo trata o ensino de Paulo acerca da morte
da Lei e da liberdade da Graça sugere a imagem do apóstolo dos gentios
como um andarilho bêbado e cambaleante falando bobagens absurdas em
praça pública, sendo amparado e conduzido por um amigo lúcido e sóbrio
(Moisés), que vai desmentindo os delírios do amigo embriagado e
esclarecendo ao povo a “verdadeira verdade” (a Lei), para que as loucuras do
confuso amigo não sejam escândalo para ninguém (I Co 1:23; Gl 5:11).

“Estás louco, Paulo. As muitas letras te fazem delirar” (At 26:24)


71

A questão final a ser considerada é se a tradição judaico-cristã (Lei +


Graça) e os interesses do cristianismo, como religião institucionalizada,
estão em conformidade com o ensino do apóstolo dos gentios. Se não há
sintonia entre eles, temos que ouvir a opinião de Paulo a esse respeito (Gl
1:6-9) e decidir de que lado nós estamos. Paulo tinha ou não tinha autoridade
para dizer o que disse?
Em todo o Novo Testamento, vemos que a oposição ao rompimento do
Evangelho com a Lei foi muito forte nos dias da igreja primitiva. E os
temores de Paulo se concretizaram (At 20:29), ou seja, os lobos vorazes
penetraram no rebanho, chamaram a mistura Graça e Lei de Cristianismo e,
na falta de coragem e hombridade para confessar que não crêem no
apóstolo dos gentios e rejeitá-lo abertamente, proferem suas acusações e
manifestam sua indignação contra qualquer um que, afastando-se do
cristianismo meritório, pregue e viva a Palavra da Cruz como um libertado da
Lei, que serve em novidade de espírito, e não na caducidade da letra,
conforme ensinou o apóstolo dos gentios (Rm 7:6).
Apesar da advertência de Jesus, na religião cristã a Graça é, quando
muito, um pequeno remendo de pano novo na roupa velha da justiça própria;
é uma ínfima gota de vinho novo misturado ao vinho velho, acondicionado em
odres igualmente envelhecidos e inadequados, para ser vendido por
arrogantes líderes e falsos mestres religiosos que, acostumados ao vinho
antigo, rejeitam o novo e ainda dizem: “O velho é excelente!” (Lc 5:36-39).
A Lei e o medo da condenação podem afastar o homem da prática de
determinados pecados por algum tempo, mas jamais limpará (diante de Deus
– I Jo 3:3) a sua natureza pecadora nem o afastará da justiça própria, cuja
anulação é indispensável para que ele compreenda, aceite e viva em
conformidade com o Evangelho da Graça de Cristo.
A religião organizada e legalista jamais aceitará o Evangelho da Graça.
Não o aceitou quando ela se chamava “Templo de Deus” nem o aceitará agora
que ela se autoentitula “Igreja de Cristo”. O verdadeiro povo de Deus era
um remanescente em meio à institucionalidade dos dias do Templo e
igualmente é hoje entre os vários impérios religiosos meramente humanos,
edificados e sustentados pela justiça meritória (Rm 11:3-5).
As declarações de Paulo acerca da morte da Lei e a necessidade de
também morrermos para ela são temas considerados “difíceis” e não são
nem nunca foram muito freqüentes (na verdade, raríssimos) nos púlpitos do
cristianismo católico ou evangélico.
Tocar nesses assuntos representa um alto risco para a estrutura do
cristianismo-religião, que tem o seu fundamento, suas juntas e engrenagens
72

muito bem lubrificadas pela justiça meritória que procede de lei, seja dos
mandamentos mosaicos ou - na inaplicabilidade ou inconveniência temporal
destes - das regras meritórias da própria religião.
A Reforma Protestante reascendeu a chama do Evangelho da Graça de
Cristo, muito enfraquecida – ou praticamente extinta - no legalismo extremo
e violento da maior igreja institucionalizada na época, a Igreja Romana. Ao
compreender a diferença entre justiça e justificação, justo e justificado,
Justiça da Lei e Justiça do Calvário (Justiça de Deus), Lutero reavivou a
pregação da Graça - injusta e imerecida, aos olhos da justiça da Lei - mesmo
dentro de instituições religiosas cujos líderes notadamente só confiam na
força da Lei e na sua justiça meritória.
Embora seja obviamente questionável o alegado maior
comprometimento com a pregação da Graça pelos protestantes (e seus
derivados), a Reforma ampliou a possibilidade de o encontro entre o pecador
e a Graça de Cristo dar-se na igreja-templo, já que, desde a indignação
luterana, a Bíblia tem sido um livro acessível, aberto e lido por muitos que se
reconhecem pecadores necessitados da misericórdia e do perdão divino, de
modo que a Água Viva tem escorrido mais facilmente por entre as rochas
eclesiásticas de grandes e pequenos impérios religiosos, reformados ou não
reformados.
Institucionalmente, porém, quase não houve mudanças. O modelo
seguido em praticamente todo o cristianismo (pré ou pós-Reforma)
continuou a ser a estrutura religiosa judaica - edificada sobre a Lei e que
veio a deturpar-se pela lógica legalista de suas autoridades - alimentada e
mantida por falsas barganhas com Deus, regras comportamentais, intrigas
denominacionais e pela vaidade espiritual e insaciável sede de poder de
muitos de seus líderes.
Contra a essência de tudo isso nunca houve sincero e relevante
protesto nem grande interesse numa reforma realmente significativa por
parte dos herdeiros de Lutero. O que acabou prevalecendo foi apenas uma
mudança de lado e a troca dos nomes de alguns “suportes técnicos e
administrativos”, para serem utilizados em estruturas menores.
Salta aos olhos o fato de que, entre os ditos protestantes de hoje, é
abundante a prática de muito do que Lutero condenou e combateu com todas
as suas forças.
Ora, a batalha de Lutero foi contra o legalismo institucionalizado,
praticado em nome de Cristo, e que gera um falso evangelho. Por isso a
grande rede de escritórios de legitimação do mérito e da autojustificação
humana em que se transformaram muitas igrejas que se entitulam
73

“protestantes” e seguidoras de Lutero, causaria enorme decepção e


provavelmente ânsia de vômito no grande reformador...
O Evangelho precisa ser lido de dentro para fora, e não de fora para
dentro, segundo conveniências institucionalistas, pois é a religião cristã que
precisa se amoldar à Graça de Cristo, e não o contrário. Mas o
institucionalismo e o corporativismo (mesmo contra a vontade de Lutero,
que também os combateu o quanto pôde) passaram imunes pela Reforma e,
até hoje, os seus defensores seguem arrogantemente fazendo-se de
desentendidos para qualquer advertência, em ambos os lados. Nisso, paletó
e batina caminham juntinhos.
A Reforma Protestante enfrentou o “sinédrio” católico, e quando tal
confronto ocorre, o rebelde não leva em consideração os interesses do
sinédrio, posto que está lutando contra eles. Mas a institucionalização
protestante (com suas muitas ramificações) rapidamente criou, não um, mas
vários sinédrios, cujos interesses tornaram-se igualmente sagrados e
inquestionáveis. Fica a lição para a Igreja: quem é rebelde hoje pode ser
sinédrio amanhã...
Ora, a Igreja não é o lugar onde nos reunimos. Não há na Bíblia
expressões (tão corriqueiras entre nós) como “ir à igreja hoje ou amanhã”,
“entrar na igreja” ou “sair da igreja”. A Igreja reúne-se para comunhão e
edificação mútua (sejam dois ou três ou uma multidão) em casas, praças,
hotéis, shopping centers ou, mais comumente, no lugar mais adequado,
legalmente institucionalizado como igreja, onde há mais possibilidades de,
organizadamente, (entre outras coisas) se disponibilizar para os discípulos
as várias formas de alimento sólido para seu crescimento na Palavra e
viabilizar a necessária comunhão de todos os que caminham na mesma fé.
Mas tratar a instituição igreja como Igreja de Cristo (fato que - para
fins de controle e poder - foi oficializado por Constantino, continuou no
cristianismo do Vaticano, atravessou a reforma protestante e adentrou o
cristianismo evangélico) cria vícios institucionais que fazem muito mal à
própria instituição, tornando-a um fator de dificuldade (e até de
impedimento) para a propagação do Evangelho da Graça, pois, num claro
retorno à Lei, induzem a conclusões que são essencialmente contrárias ao
ensino neotestamentário, entre elas a idéia da habitação de Deus em
templos feitos por mãos humanas (At 17:24), e não em nós mesmos, os
verdadeiros santuários de Deus, onde realmente habita o Seu Espírito (I Co
3:16).
Desse modo, a instituição é que passa a ser vista como alvo e
instrumento da ação de Deus no mundo, em vez das pessoas. O Reino de
Deus é arrancado de dentro dos nascidos do Espírito e transformado em
74

algo de aparência exterior, com muita visibilidade (Lc 17:20-21), que se pode
visitar, freqüentar ou dele tornar-se membro; caracterizado ainda pelo
isolamento do mundo (não do espírito mundano, mas das pessoas do mundo,
às quais fomos enviados), geralmente qualificável pelos benefícios materiais
obtidos pelos fiéis após a conversão ao reino, e mensurável pelo crescimento
estrutural e até pela freqüência das aparições de seus líderes na mídia.
Na Igreja de Cristo, o maior é o que é servo de todos (Mt 23:11), bem
como o primeiro é o último (Mc 9:35). Mas, no reino da religião
institucionalizada, quem quiser ser o maior tem que suar muito para mostrar
que realmente pode ser o maior; tem que deixar claro o seu poder de fogo, a
sua capacidade combativa e a sua habilidade em agilizar forças e valer-se de
qualquer mecanismo para, se necessário, trucidar adversários e
concorrentes. Tentam conquistar na base da força um poder que,
intrigantemente, se aperfeiçoa na nossa fraqueza e fragilidade (II Co 12:9).
Essas habilidades - se ainda acompanhadas de um eloqüente discurso
incisivamente moralista e inspirado na Lei Mosaica – são geralmente aceitas
e aprovadas pelos fiéis como legitimadoras da liderança.
O avanço do Reino de Deus deixa de ser o aperfeiçoamento de cada
nova criatura no reconhecimento e na confiança no amor incondicional de
Deus (gerando o amor ao próximo e sendo sal e luz para o mundo em trevas)
e passa a ser o crescimento da denominação, trazendo orgulho e satisfação
para a ambição carnal de líderes que dariam um braço pelo controle de uma
sólida rede de instituições (o seu tão sonhado reino particular).
Tais distorções do ensino neotestamentário, tornam muitas conversões
parecidas com meras adesões aos tais reinos, onde a mania de grandeza, a
inveja e a cobiça dos membros do clube (sempre tratadas como bênçãos)
estão em muito maior evidência do que a Palavra da Cruz.
A rejeição (intuitivamente natural) ao fato de que o Pai, o Filho e o
Espírito possam literalmente habitar em pecadores desprezíveis como nós
(Jo 14:23; I Co 3:16) - ao ponto de que tudo em que tocamos estamos
expondo também ao toque de Cristo (I Co 6:15-16) - parece requerer uma
moradia mais digna para a Família Divina.
Esse era precisamente o entendimento dos fariseus que, olhando para o
futuro, rejeitaram o reino desinstitucionalizado que chegava. Pelo mesmo
motivo, o cristianismo, olhando para as coisas velhas que passaram,
acompanhou o mesmo raciocínio moralista/legalista/meritório e, igualmente
rejeitando a absurda idéia do santuário humano corruptível (I Co 15:53),
criou a “Igreja-Templo”, que, dependendo da denominação, pode ser ou não
liderada por um Sumo-Pontífice oficialmente incorruptível.
75

A instituição igreja é a estrutura física e organizacional inevitável e


necessária, à medida que a Igreja cresce. Sua impactante
representatividade a tornou uma das instituições mais influentes da história
da humanidade, seja na rotina dos fiéis mais simples ou nas grandes
questões governamentais mundiais, o que faz dela uma arma poderosíssima,
e quando se trata de uma arma poderosa, as questões fundamentais são a
que causa ela serve e quem está com o dedo no gatilho. O cristão precisa
aprender a discernir se sua igreja local serve à causa do Evangelho ou à
simples ambição de poder e manipulação religiosa, política ou econômica de
líderes impostores, conscientes de seu erro ou não.
A Igreja está sujeita à direção do Espírito. Então, baseados no ensino
neotestamentário, só podemos afirmar como ela não pode ser (farisaica,
meritória e sujeita à Lei). Como ela deve ser e agir (forma e estilo)
dependerá da multiforme ação do Espírito (I Pe 4:10), que sopra onde quer
(Jo 3:8); de modo que o que se pode esperar da igreja local é que, mesmo
com suas muitas imperfeições, ela caminhe em sintonia com o Evangelho,
derramando misericórdia e Graça a todos os pecadores (principalmente
àqueles que não as encontrariam em nenhum outro lugar), anunciando o
perdão divino a toda criatura mediante o arrependimento dos pecados,
estimulando o companheirismo na caminhada (Gálatas 6:2) e impactando o
mundo com atitudes de amor ao próximo, que transforma e aperfeiçoa a
nova criatura no amor de Deus (I Jo 2:5).
Uma igreja que vive o Espírito da Graça e anuncia a verdadeira
mensagem do Evangelho de Cristo será atraente para o mesmo tipo de
pessoas que se sentiam atraídas por Jesus; e, ao mesmo tempo, uma
comunidade muito desagradável para o mesmo tipo de pessoas para as quais
a simples presença de Jesus era igualmente desagradável e irritante.
Ora, a quem Jesus atraía? Que tipo de gente o buscava? E que tipo de
gente se irritava com ele? A quem a sua mensagem incomodava? Para quem a
sua presença era irritante e constrangedora?
Se a igreja rejeita ou despreza o tipo de gente que buscava a Jesus e
atrai e privilegia os que o rejeitaram, ela está fora do rumo estabelecido
pelo Senhor da Igreja; está invertendo a sua mensagem e apresentando ao
mundo um Jesus falso...
Uma visão do mundo a partir da cruz de Cristo não o verá dividido
entre católicos, protestantes e seus derivados ou quaisquer outros rótulos
religiosos (os quais têm a ver com teologia e religião, mas não com a Palavra
da Vida nem com o coração dos “rotulados”). A cruz separa os que confiam
na sua própria justiça e os que confiam apenas na Justiça do Calvário (Fp
3:3). E não se pode confiar em ambos ao mesmo tempo, pois quem confia na
76

justiça mediante a Lei anula o sacrifício de Cristo (Gl 2:21). Mas quem
confia na Justiça do Calvário tem consciência de sua natureza pecadora e
recorre sempre à misericórdia divina (Lc 18:9-14). E a resposta ao amor
gratuitamente oferecido na cruz do Calvário se evidencia na atitude de cada
um para com o próximo: ou o desprezamos ou o servimos (Mt 25:31-46).
Nenhum rótulo religioso é capaz de fazer tal distinção. A postura
diante do próximo é que revela quem entendeu e creu na loucura da Cruz do
Calvário e busca viver a escandalosa misericórdia recebida do Cordeiro de
Deus, pois quem verdadeiramente crê que foi perdoado por tudo é rápido em
perdoar também, e não se sente no direito de julgar ninguém nem se
apresenta para tal.
Para quem se sente justificado por obras da Lei, a transformação pelo
amor e pela misericórdia - e não pela obediência à Lei - é uma historinha
infantil e fantasiosa. Mas, segundo Cristo, aquele que não crê nessa
historinha tal qual uma criança não entrará no Reino de Deus (Lc 18:17).
Nenhuma instituição igreja é totalmente livre do veneno legalista e
autojustificador, pois onde houver um ajuntamento da igreja, haverá sempre
batalhas entre o legalismo (autojustificação) natural do homem e a loucura
da justificação pela fé na justiça do Calvário (independentemente de obras
– Rm 4:6), pois nessa dualidade está a luta de todo renascido no Espírito do
Evangelho da Graça de Cristo (Gl 5:17).
Igreja relevante, contudo, é a que se engaja nessa luta e, com uma
autoimagem bem ajustada à realidade, rejeita os delírios institucionais que
têm envenenado o cristianismo desde o fim do período apostólico, pois o
problema com a instituição igreja não está na instituição em si (que, em
sintonia com o Evangelho, é sempre benéfica), mas na visão que os fiéis – e
principalmente os líderes - venham a ter dela e no rumo que lhe possam dar,
os quais, se equivocados, podem sombrear a visão da cruz de Cristo em
função dos muitos atrativos da institucionalidade (controle, poder e
riqueza).
As Santas Madres Igrejas ainda são cultuadas em todo o cristianismo,
mas a Palavra Viva – que tem vida própria - sempre esteve e permanece
atuante, com seu poder libertador do jugo da lei e da escravidão ao pecado,
dentro de instituições encasteladas e também fora delas...

“Tornei-me, porventura, vosso inimigo por vos dizer a verdade?”


(Gl 4:16)
77

IX - O RELACIONAMENTO COM OS LEGALISTAS

Povo que diz: “Fica onde estás, não te chegues a mim, porque
sou mais santo do que tu”. És no meu nariz como fumo de fogo,
que arde o dia todo (Is 65:5)

Por que Deus trata o farisaísmo (arrogância religiosa) de uma forma


diferente dos demais pecados? Por que Cristo não foi tolerante com os
fariseus do mesmo modo como foi com ladrões, prostitutas, adúlteros,
beberrões, publicanos, etc? Ora, porque, diferentes dos fariseus, esses
outros eram pecadores sinceramente confessos, que não se escondiam atrás
de uma reputação religiosa. Já os indivíduos de coração farisaico, por não se
reconhecerem pecadores, não crêem que Deus ama pecadores; não aceitam
que Deus seja tolerante e paciente com pecadores; escandalizam-se com o
fato de que Deus é benigno até para com os ingratos e maus (Lc 6:35) e não
toleram que pecadores confessos e sinceramente arrependidos sempre
recebam o perdão divino (I Jo 1:8-10) e graça em abundância (Rm 5:20). A
única exceção à paciência divina – claramente demonstrada nos evangelhos –
são justamente os fariseus, que, além de não se reconhecerem pecadores,
ainda se acham mais santos do que o resto da humanidade.
Mesmo sendo um grande absurdo (escândalo) para quem não
compreende a superabundância da sua Graça, Cristo não se escandalizou com
pecadores nem se afastou deles (porque ele mesmo já pagou pelos pecados
da humanidade inteira - 1 Jo 2:2). Todos somos pecadores e Deus ama e é
tolerante, paciente, misericordioso e tardio em irar-se com pecadores (Jn
4:1-2; 10-11). Mas Cristo se irritou profundamente com fariseus, na boca
dos quais, o eventual reconhecimento de que são pecadores é apenas uma
frase de efeito, um borbulhante arroto de falsa humildade em busca de
mais admiração da platéia religiosa.
A soberba espiritual (arrogância baseada na justiça própria) é, por
natureza, contrária à Graça de Cristo. Por isso ela é excluída em corações
verdadeiramente renascidos no Espírito (Onde está, pois, a jactância? Foi,
de todo, excluída. Por que lei? Das obras? Não, pelo contrário, pela lei da fé
- Rm 3:27), razão pela qual aquele que entende que não é justificado pelos
seus próprios méritos, mas pelos méritos de Cristo, sofre um inevitável
choque de humildade e de gratidão a Deus pelo seu amor incondicional e
gratuito. E o humilde é alguém que nunca se sente humilhado. Não há quem
possa humilhá-lo; não há quem possa fazê-lo sentir-se menor do que ele
mesmo já se vê (I Tm 1:15). Ele jamais vai sentir-se merecedor de mais
78

honra, diante de Deus, do que qualquer outro pecador, pois sabe que, sem a
obra do Calvário, estaríamos todos, lado a lado, no mesmo barco a caminho
da condenação, e nossas diferenças no quesito “justiça própria” - ou “mérito
humano” – em nada ajudariam (mérito diante de Deus é a fé no mérito de
Cristo – Rm 4:4-5).
A fé, se em conformidade com o Evangelho da Graça de Cristo, sempre
amadurece na direção da humildade e do sentimento de igualdade com o
próximo. E esse senso (reconhecimento) de igualdade dos homens diante de
Deus leva o renascido a buscar essa igualdade na realidade do seu dia-a-dia
(Mt 6:10). Então ele socorre ao enfermo, porque sabe que a vontade de Deus
é que o enfermo também tenha saúde; ele dá comida ao faminto, porque
sabe que Deus quer que o faminto também esteja alimentado; ele dá guarida
ao desabrigado, porque sabe que Deus quer que o desabrigado também
tenha um lar; ele aquece o que está com frio, porque sabe que Deus quer que
todos estejam aquecidos; ele veste aquele que está nu, porque sabe que
Deus não quer que ninguém esteja envergonhado; ele faz tudo o que estiver
ao seu alcance para suprir os necessitados, como se fossem suas as
necessidades deles (e cada um de nós pode fazer muito...). Ter com que
acudir ao necessitado é, segundo o apóstolo Paulo, uma das principais
finalidades do nosso trabalho (Ef 4:28).
Essas são atitudes reais que manifestam amor ao próximo. São obras
que revelam a nossa fé (Tg 2:18) em um Deus que ama a todos os pecadores
igualmente. São ações feitas na plena liberdade do Espírito, motivadas
exclusivamente pelo desejo de partilhar o amor incondicional que há na
Graça de Cristo, sem a finalidade de acumular e exibir justiça própria e
mérito diante de Deus.
No único momento em que se colocou claramente como juiz, o Senhor
Jesus Cristo revelou o critério que definirá quem são os benditos do Pai que
entrarão no seu reino (Mt 25:31-46). E o referencial do julgamento
(anunciado por Cristo e já realizado na cruz do Calvário – Jo 3:18) não foi
uma lista interminável de pecados “simples, graves e gravíssimos” nem um
padrão moral pré-estabelecido. O referencial foi o amor ao próximo. Crer no
perdão em Cristo é crer no amor de Deus por toda a humanidade, e a única
forma possível de evidenciarmos a nossa fé nesse amor, bem como de
retribuí-lo a Cristo, é manifestando-o através de atitudes de amor ao
próximo. Por isso Cristo disse que o amor seria o sinal identificador de seus
discípulos (Jo 13:34). Precisamos entender e crer que é no amor que somos
aperfeiçoados (e não na Lei – Hb 7:18-19), pois “o amor não pratica o mal
contra o próximo, de modo que o cumprimento da Lei é o amor” (Rm 13:10),
por isso “quem ama ao próximo tem cumprido a Lei” (Rm 13:8).
79

No texto do julgamento (Mt 25:31-46), a mensagem do juiz é muito


clara: amar ao próximo é amar ao próprio Cristo, o Senhor do Reino.
Desprezar o próximo é igualmente desprezar o próprio Cristo. A Igreja
precisa dar a devida importância a essas palavras do Senhor Jesus...
O legalismo (busca da justiça que procede de lei) e o farisaísmo
(exaltação dessa justiça) estão na contramão do Evangelho, e acerca deles o
apóstolo Paulo cita dois tipos de pessoas que podem ser obstáculos à nossa
liberdade em Cristo. Ao primeiro grupo ele chamou de “falsos irmãos”, e a
estes jamais se submeteu, “nem ainda por uma hora”, para que a verdade do
Evangelho fosse preservada (Gl 2:4-5). Diferente do conceito eclesiástico
atual, o apóstolo chamou de rebeldia a tentativa de corromper a liberdade
que temos em Cristo Jesus e, revelando claramente seu grau de intolerância
para com os que tentam persuadir-nos a um retorno ou a uma convivência
com a Lei, ele usou palavras que, em tempos “politicamente corretos”, talvez
muitos achem que nem deveriam ser citadas aqui... Mas, se a Bíblia as citou,
eu também vou citá-las: “Oxalá até se mutilassem os que vos incitam à
rebeldia” (Gl 5:12).
Para o segundo tipo de pessoas, a nossa liberdade é que pode trazer
problemas. A estes, Paulo chama de “irmãos de consciência fraca”, e diz que
devem ser alvos de misericórdia da parte de quem, por acaso, se considera
“de consciência forte”. Nesse caso, a instrução é fazer concessões (não que
se chegue ao ponto de se ter a liberdade julgada pela consciência alheia - I
Co 10:29), abrindo mão espontaneamente de nossa plena liberdade por amor
a eles, com tolerância e compreensão, para que vivamos em paz, e o que é
estrada limpa para uns não seja pedra de tropeço para o irmão “mais fraco”
(I Co 8:1-13).
Há, entretanto, que se ter um mínimo de capacidade para discernir
entre a empáfia, o mau-humor, o ar hipócrita, a presunção trovejante, o
espírito julgador e autojustificado de um legalista (inimigo da liberdade do
Evangelho) e a simplicidade verdadeira e sincera de um irmão de consciência
fraca, que tem uma limitação pessoal, reconhecida pelo apóstolo. Esses
últimos se satisfazem com “doses mínimas” da Graça de Deus, de modo que,
até um grande fariseu pode vir a se livrar totalmente das algemas da Lei,
mas talvez o irmão de consciência fraca nunca cresça espiritualmente, no
tocante à plena liberdade do Espírito.
Mas mesmo esses “irmãos de consciência fraca” raramente se sentem
incomodados com a liberdade do Espírito. Eles não têm ataques de falsa
moralidade nem julgam os outros. São os fariseus que sempre se
escandalizam com a liberdade do Evangelho (Mt 15:12). Escandalizavam-se
com a liberdade do próprio Cristo (a ponto de tramarem a sua morte), que,
80

para eles, “ofendia” a instituição legalista na qual eles transformaram o


Templo de Deus, e ainda hoje se escandalizam com a liberdade dos
renascidos em Cristo, também porque a liberdade dos tais “pega mal” para a
instituição religiosa e igualmente legalista na qual eles também
transformaram a Igreja de Cristo.
Para o bem da igreja, por amor a ela, e em favor de sua credibilidade
como agente do Evangelho de Cristo, precisamos urgentemente entender
que o comportamento dos fariseus é que era escândalo para Cristo, e que é
necessário tratar o farisaísmo na igreja (e a sua causa: a justiça própria do
legalismo) com a mesma dureza e determinação com que Cristo o tratou.
Mas, como sempre usamos a sujeição e a obediência à Lei Mosaica como
referencial de espiritualidade, discernir entre o fariseu e o irmão de
consciência fraca nunca foi uma de nossas melhores habilidades, e sempre
fomos tolerantes com várias formas de legalismo em nosso meio.
Entretanto, não aprendemos tal atitude com Cristo, que nunca teve muita
paciência nem tolerância com legalistas, aos quais ele nunca sequer falou
claramente sobre a Graça, e sempre usou o próprio rigor da Lei para
desmascarar-lhes a hipocrisia, fechar-lhes a boca e desanimá-los.
Apesar da dureza das respostas de Jesus aos legalistas e da postura
mais do que inflexível de Paulo sobre a possibilidade da nossa convivência
com a Lei, (claramente revelada em duríssimas confrontações relatadas com
fartura em suas epístolas), curiosamente, não costuma acontecer nada
parecido nas igrejas. A não ser por coisinhas simples e óbvias (que a igreja
julga serem as únicas formas de legalismo), nunca, jamais, em tempo algum
presenciei ou sequer ouvi falar que em alguma igreja tenha havido grande
confrontação com legalistas por eles serem legalistas. Colocá-los claramente
como rebeldes que atentam contra a liberdade dos que estão em Cristo
Jesus, então, nem pensar... O tipo de gente acerca do qual Cristo mais
advertiu para que dele nos distanciássemos (Lc 12:1) é mais facilmente
encontrado exatamente onde a igreja se reúne. E essas “figuras” costumam
ser consideradas como referenciais de sabedoria e espiritualidade, de modo
que, quando há alguma confrontação, eles são os “espirituais”, e os “livres”
em Cristo é que são afastados (convidados a se retirar) ou mesmo banidos
do esquema religioso. A hipocrisia e a arrogância espiritual parecem não
arder no nariz da religião cristã como ardem no nariz de Deus (Is 65:5).
Os fariseus de hoje (como os de ontem) têm uma profunda dependência
psicológica da instituição igreja (para muitos, a reencarnação do pomposo
Templo), pois, tal como acontecia no regime da Lei, é ainda entre os
religiosos que eles exercem a sua autoridade legisladora, alimentam-se de
81

prestígio e são honrados pelo conhecimento das Escrituras (Jo 5:44),


embora pouco ou nada saibam da Palavra da Cruz (Jo 3:10; I Co 1:18; Cl 1:5).
As Escrituras (registros escritos) são inspiradas por Deus e úteis para
o ensino, repreensão, correção e educação na justiça (II Tm 3:16), e esses
benefícios podem ser alcançados mediante esforçada dedicação à leitura
(como faziam os fariseus, mestres em Israel) até por um ateu inteligente e
dedicado, pois, para essas finalidades (que nada têm a ver com salvação),
não é necessário crer em nenhuma ação sobrenatural ou espiritual. Por isso
dentro da “igreja” há tantos doutores em teologia e comportamento
religioso (irrepreensíveis perante a moral religiosa) que não crêem,
rejeitam, zombam e até semeiam dúvidas sobre a Palavra da Cruz, que
precisa ser discernida nas Escrituras. E tal discernimento é fruto da
intervenção do Espírito Santo (At 16:14) em corações quebrantados que,
sem tentar apresentar qualquer justiça própria diante de Deus, rogam por
sua misericórdia e aceitam a sua Graça (Lc 18:9-14).
O conhecimento das Escrituras, isoladamente, produz apenas a
“autoridade teológica”, que sempre busca reconhecimento e glória entre os
religiosos. O discernimento da Palavra da Cruz, entretanto, gera o “servo”,
que busca tão somente ser útil ao Reino, ainda que em total anonimato.
É plenamente possível, portanto, aprender e tornar-se mestre nas
Escrituras e jamais chegar ao conhecimento da verdade (II Tm 3:7). Para
muitos dos que são apontados como “sábios e entendidos” das Escrituras, a
Palavra da Cruz permanece oculta (Lc 10:21).
Líderes religiosos que são apenas mestres nas Escrituras e ignoram ou
desprezam a Palavra da Cruz jamais terão qualquer relevância no serviço do
Reino, pois seu coração, sua motivação, sua sede e suas ambições estão em
atributos de Deus como a soberania, a autoridade, a honorabilidade e a
riqueza; amam o poder de Deus, e não o Deus do poder (“...fazem-se
culpados esses, cujo poder é o seu deus” - Hc 1:11); não sentem a menor
atração por características de Deus como a mansidão e a humildade (“Tomai
sobre vós o meu jugo [e não o da Lei], e aprendei de mim, porque sou manso
e humilde de coração, e achareis descanso para as vossas almas” - Mt 11:29).
Para os tais, Deus não passa de um vingador particular de plantão, pronto
para castigar os que ousam fazer-lhes a mínima oposição.

“Eu sei que, depois da minha partida, entre vós penetrarão lobos
vorazes, que não pouparão o rebanho” (At 20:29)
82

Ou a religião cristã não entendeu a opinião de Paulo sobre o legalismo


ou o inegável anti-farisaísmo do apóstolo não deve ser imitado.
Cristo foi a personificação da Graça e do perdão divino para os
pecadores confessos e arrependidos, aos quais sempre apontou o amor como
único caminho para a transformação em uma nova criatura, nascida do
Espírito. Sobre os fariseus (pecadores não-confessos), porém, Cristo
sempre desceu a mão pesada da Lei (pela qual eles tentavam se justificar).
Mas a religião cristã tem, ao longo dos tempos, agido de forma
exatamente oposta: com tolerância para os fariseus e lei para os pecadores
confessos. Tal atitude a tem tornado um campo extremamente atraente e
acessível para falsos líderes, hipócritas, que são vendilhões de uma fé
barganhadora e legalista que nada tem a ver com o Evangelho de Cristo.
Ora, quem tenta barganhar com Deus vira “produto” nas mãos de
profissionais do “comércio espiritual” (II Pedro 2:3), cuja ambição é o
poder, pois têm a alma corrompida, são inimigos da cruz de Cristo e têm
como deus o próprio ventre (Fp 3:19). São cegos guiando cegos (Mt 15:14).
Quem realmente ama a Igreja de Cristo deve zelar pela credibilidade
da instituição igreja (ainda mais aqueles que acham que Deus só age dentro
de suas paredes, e que ambas são a mesma coisa), conscientizando-a de que
ela deve manter-se distante da religiosidade legalista e meritória, pois
combater o legalismo e o farisaísmo dentro da instituição igreja não é
desrespeitá-la nem “apontar o dedo” para ela. É, antes de tudo, amor e zelo
pela sua coerência com o Evangelho da Graça, para que, aos olhos da
sociedade, ela não pareça mais com os fariseus do que com Cristo.
É um grande equívoco, mas muito comum, achar que Cristo estava
tomando as dores de instituições religiosas (que, em muitos casos, pouco ou
nada têm a ver com a Igreja de Jesus) quando ele disse ao perseguidor da
Igreja: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” (At 9:4). Cristo identificou-se
foi com um povo sem rótulo, considerado uma desprezível seita de
andarilhos, pejorativamente chamados de cristãos, e que eram tidos pelos
religiosos israelitas como inimigos perigosos, causadores de divisão e
agitadores (At 24:5), odiados justamente pelo fato de que esses cristãos
não mais se submetiam à religiosidade farisaica e corrompida, e anunciavam
que Deus - através de Cristo e, o que é pior, sem a Lei (que é a força do
pecado e alimenta o farisaísmo) - agora tratava diretamente com o pecador,
sem intermediários humanos. Esse “destronamento” irrita muitos líderes
religiosos até hoje...
Essa “seita”, ainda hoje desprezível para os fariseus, é a poderosa
Igreja de Jesus (At 24:14), que pode ser encontrada dentro e fora das
83

paredes da instituição igreja (onde estão muitos dos que dizem “Senhor!
Senhor!”, e que ouvirão: “Nunca vos conheci!” – Mt 7:22-23). É dessa “seita”
(Igreja de Cristo) que ele toma as dores ainda hoje, pois já pagou por todos
os pecados dela (por isso, em Cristo, ela é pura e irrepreensível), de modo
que quem mexe com ela mexe com o Senhor Jesus, e quem traz escândalo
sobre ela o faz sobre o próprio Senhor da Igreja. É sobre ela que não
prevalecerão as portas do inferno nem a corrupção espiritual nem a fé
barganhadora nem o legalismo - que tira a glória de Cristo - nem o
farisaísmo, tão repudiado pelo Senhor Jesus, que virá buscar a sua amada
Igreja e não instituições religiosas.
Uma instituição igreja em sintonia com o Evangelho da Graça de Cristo
não se coloca como mediadora entre Deus e o homem. Ela apenas dispõe-se
como lugar de comunhão e edificação para almas cansadas e oprimidas. E,
ainda diferente de instituições legalistas e farisaicas, ela não toma para si a
exclusividade da ação de Deus no mundo nem tenta empacotar e monopolizar
a Graça de Cristo (extra ecclesia nula sallus = fora da “igreja” não há
salvação).
A tentativa de “controle religioso” pela obediência a mandamentos
abriu as portas da religião cristã para a invasão de lobos devoradores,
disfarçados de ovelhas, inimigos da cruz de Cristo, que falsificam e
corrompem a liberdade do Evangelho, reedificando a Lei (que foi destruída
para os que estão em Cristo - Gl 2:17-19), a fim de, através da manipulação
legalista, se gloriarem no domínio e na manipulação da “santidade” (justiça
própria) de fiéis incautos (Gl 6:13).
Tais lobos - que têm aparência de piedade, mas negam a eficácia dela
(II Tm 3:5 ARC) - espertamente se aproveitam do fato de que o povo
sempre preferiu preceitos e regras ao descanso e refrigério oferecidos por
Deus (Is 28:7-13), e sempre sentiu-se melhor sob a tutela de um legislador
humano (coisa que a religião oferece) do que confiando na misericórdia
divina (I Sm 8:4-7).

“Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina.


Pelo contrário, cercar-se-ão de mestres, segundo as suas
próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos, e se
recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas” (II
Tm 4:3)
84

Esses lobos constroem para si um reino que precisa ser muito bem visto
para que possa ser crido. Contudo, o Reino de Deus não tem visível aparência
nem está aqui ou ali, mas dentro daqueles que dele fazem parte (Lc 17:20-
21), e precisa ser crido para que possa ser visto (Jo 11:40; II Co 5:7).
A Igreja de Jesus usufrui toda a plenitude da Graça, mas a Graça pode
parecer assustadoramente abundante para instituições religiosas legalistas
e meritórias, pois uma compreensão um pouco mais profunda e corajosa
sobre as conseqüências práticas de se viver na liberdade da Graça – que é
superabundante (Rm 5:20) e multiforme (I Pe 4:10) - leva a conclusões que
contrariam muitos interesses de tais instituições. Por isso muitas delas não
suportam nem ouvir falar na liberdade da Graça.
Quanto mais nos aprofundamos na Graça de Cristo, mais nos vemos
diante de uma decisão inevitável: ou rompemos de vez com toda forma de
legalismo ou retrocedemos e reforçamos as amarras legalistas, optando,
assim, pela falsa e ilusória sensação de “segurança” que elas proporcionam.
No início da década de 1980, ouvi Aníbal Pereira dos Reis dar um
testemunho de sua conversão ao Evangelho, segundo ele, ocorrida nos anos
70. Na ocasião, ele relatou um fato do qual jamais esqueci, mesmo sendo
ainda um adolescente naquela época. O ex-padre Aníbal contou que algum
tempo depois da sua conversão, ele teve uma audiência com o Papa, no
Vaticano. Diante do sumo-pontífice do catolicismo, ele abriu a carta de Paulo
aos Romanos e discorreu sobre a salvação unicamente pela Graça de Cristo.
Entre outras coisas, o sumo-pontífice ter-lhe-ia dito: “Você acha que eu não
sei disso? Você acha que eu não li isso já inúmeras vezes? Eu não consigo é
crer nisso! Não pode ser assim, não pode ser só isso!”. A intuição meritória
do sumo-pontífice católico o havia convencido de que a instituição que ele
liderava não funcionaria a contento só com a Graça de Cristo. E eu, na
ingenuidade da pouca vivência dos jovens (à época), apontei o dedo para a
igreja católica, acreditando que tal falta de confiança na Graça de Cristo
era exclusividade do cristianismo institucionalizado do Vaticano.
Alguns anos depois, um amigo, também renascido na Graça de Cristo,
falou-me de uma ocasião em que ele havia conversado com alguém bem
“antigo” na religião evangélica e, da mesma forma, discorrido sobre a Graça.
Diante de suas afirmações de que morremos para a Lei e seu jugo, e que só
precisamos crer que Cristo pagou pelos nossos pecados e cuidará, ele
mesmo, de nos transformar em uma nova criatura, nascida no seu Espírito, o
comentário do evangélico, bastante sinalizador, foi: “Mas, assim, fica tudo
só nas mãos do Espírito Santo...”.
Realmente, um grande problema para instituições religiosas meritórias.
85

Minha primeira reação foi de decepção, tanto com o sumo-pontífice


católico quanto com o evangélico. Hoje lembro dos dois com uma certa
admiração, pois expressaram o que muitos pensam - em todas as
denominações cristãs - mas falta-lhes coragem para assumir, preferindo
fazer sutilmente uma adaptação Graça-Lei (e a ela submeter os fiéis), para
supostamente garantir o bom andamento, a “segurança” e a estabilidade de
suas instituições.
Se devemos fazer vista grossa para o legalismo na nossa casa, temos
que deixar de apontar o dedo para o legalismo da casa dos outros (que é o
mesmo, só que com outros nomes). Mas, se o legalismo institucionalizado é
algo que deve ser “apontado”, desmascarado e combatido (para o bem da
Igreja), devemos começar na nossa própria casa (e temos bastante
material...).
Quem realmente ama e almeja uma igreja sadia e poderosa deve, sim,
empenhar-se diariamente em livrá-la do vírus maligno da religiosidade
legalista e barganhadora que, no entanto, crescerá até tornar-se a Grande
Babilônia, exercendo, através de uma Nova ORDEM Mundial, o maior
controle legalista de todos os tempos.
A liberdade que Cristo nos deu custou-lhe o próprio sangue, a própria
vida, e homem nenhum pode arrancá-la de nós. Para a liberdade foi que
Cristo nos libertou, por isso não ultrajemos o seu sangue submetendo-nos a
novo jugo de escravidão (Gl 5:1), pois quem deve nascer de novo é o velho
homem, e não o velho jugo da justiça própria.
86

X - ACERCA DO MÉRITO HUMANO

No Evangelho da Graça de Cristo, a nossa justiça é sempre rejeitada


quando apresentada como meio de justificação diante de Deus. E isto
acontece para que haja total igualdade entre os homens, pois apenas o
perdão dos pecados não nos tornaria iguais, já que a justiça própria de cada
indivíduo ainda nos diferenciaria. E não há quem ame ao próximo se nele não
enxergar algum vínculo de igualdade.
Ora, a tendência natural do homem é amar apenas os seus iguais, por
isso facilmente encontramos evidências do amor conjugal (e serão os dois
uma só carne...), do amor familiar (famílias iguais, mesma família), do amor
patriótico (nacionalidades iguais, mesmo país), amor religioso (religiões
iguais, mesmo credo) e até mesmo de algo fútil como a simpatia gratuita e
imediata que chamarei aqui de amor desportivo (times iguais, mesma
torcida). Por essas igualdades, muitas vezes matam-se os desiguais ou
morre-se nas mãos deles.
Desse modo, ao ordenar que amemos o próximo como a nós mesmos,
Deus não está exigindo algo incompreensível para nós. Só precisamos
entender que o Evangelho torna todos os seres humanos absolutamente
iguais diante de Deus (Rm 11:32), e que a nossa justiça própria (procedente
de lei – Fp 3:9 - e que apenas satisfaz a carnalidade do homem - Cl 2:20-23
ARC) é o véu que nos impede de ver essa verdade central do Evangelho.
Ora, sem a anulação da justiça própria do homem, tem-se a seguinte
situação:
- Ele ama gratuitamente sim, mas apenas aqueles que ele
entende serem seus iguais, ou seja, os que apresentam laços de
igualdade ou justiça própria semelhante à dele.
- Com relação aos que ele julga terem menos justiça própria
(desiguais, com justiça inferior à sua), ele até pode praticar atos
de benevolência e misericórdia para com os tais, mas é sem amor
verdadeiro (I Co 13:3), com a exclusiva finalidade de parecer
piedoso (ele geralmente faz isso em público e ainda alardeia o
fato) e acumular ainda mais justiça para si mesmo ao exibir
misericórdia para com quem – segundo o seu parâmetro de justiça
(ele mesmo) - não a merece.
- Na outra extremidade, estão os mais justos do que ele. A
estes ele “ama” por interesse, na esperança de receber a
simpatia deles, para que aonde quer que a justiça deles os leve,
eles o convidem para ir junto.
87

Algo parecido com essa forma de relacionamento - que não é


amor, mas bajulação - também se manifesta no relacionamento
com o próprio Deus. Muitas vezes, uma criança que sente a
aproximação do castigo pela desobediência começa a elogiar
compulsivamente a mãe - “a mamãe é tão linda...” - na tentativa de
que o ego inflado da querida mãezinha a constranja, levando-a a
esquecer a traquinagem e a refrear a sua mão castigadora.
Lembro-me claramente de um amigo de infância revelando-me
que essa era a sua tática e aconselhando-me a fazer o mesmo. A
idéia é que a bajulação não só pode livrar do castigo como
também favorecer a obtenção de alguns mimos no futuro. E essa
estratégia parece ter realmente funcionado em ambientes
familiares, pois ela está muito presente no meio religioso,
certamente na tentativa de que também funcione no
relacionamento com Deus. Muito do que se chama “música de
adoração”, por exemplo, soa mais como “música de adulação” para
abrandar a ira do juiz implacável sobre as traquinagens do
adulador e, quem sabe, ainda descolar uma bênção. Qualquer
semelhança com o que acontecia no relacionamento com antigos
deuses pagãos é pura sobrevivência do paganismo através dos
séculos, e não coincidência...

A justiça própria do homem foi anulada para que, perdoados os pecados


de toda a humanidade (I Jo 2:2; II Co 5:19), houvesse verdadeira igualdade,
possibilitando assim o amor que nos leva a valorizar o próximo (quem quer
que seja ele) na mesma medida em que devemos valorizar a nós mesmos.
A nossa justiça, se envolvida no nosso relacionamento pessoal com Deus
(que não existe sem envolver o relacionamento com o próximo – Mt 25:31-
46), acaba sempre resultando em algo duramente reprovado por Deus, pois
só podemos achegar-nos a ele quebrantados, humildes, sem alegar justiça
própria, mas plenamente confiantes na Justiça de Cristo em nosso favor.
Mas seria, então, a nossa justiça sempre reprovável e inútil? Não
devemos buscar sempre o que é justo e procurar andar em retidão de
caráter diante de Deus e dos homens?
Ora, precisamos entender que o que a Bíblia declara inútil e prejudicial
é a justiça que provém das boas obras (todo o bem que se faz e todo o mal
que se deixa de fazer) praticadas com a intenção de ser justificado diante
de Deus e, tendo o que barganhar com ele, requerer o direito à salvação e ao
favor divino (mérito “vertical”). O fruto de tal postura é sempre o desprezo
88

pelo próximo - que é tratado como um concorrente a uma mesma vaga no céu
- e nunca o amor por ele (Lc 18:9-14).
E essa busca por justiça própria necessita, obviamente, de um
referencial; um parâmetro que possa orientar o candidato à vaga no céu,
informando-o em que nível ele se encontra. As epístolas neotestamentárias
(principalmente as do apóstolo Paulo) deixam muito claro que a Lei é esse
parâmetro da justiça própria humana. Por isso Paulo insiste veementemente
em que a Lei morreu para quem é justificado por Cristo (Rm 7:2-4), e que
ela não serve mais nem como referencial de conduta, pois quem está em
Cristo não está sob a Lei e é guiado pelo Espírito (Gl 5:18).

“Agora, porém, libertados da Lei, estamos mortos para


aquilo a que estávamos sujeitos, de modo que servimos em
novidade de espírito, e não na caducidade da letra” (Rm 7:6)

Morremos para a Lei a fim de vivermos para Deus (Gl 2:19) e ela não é
mais o motivo para não fazermos o que desagrada a ele, pois não estamos
buscando justiça própria. A nossa convicção de que somos
incondicionalmente amados por Deus é o que nos leva a amar ao próximo,
tratando-o como gostaríamos de ser tratados (Mt 7:12).
Quanto à sua salvação, aquele que crê na justiça do Calvário considera a
sua justiça própria como perda, por causa de Cristo, a fim de ”ser achado
nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a
fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé” (Fp 3:7-9).
Aqueles que ainda têm a mente cauterizada pelo velho hábito de buscar
justiça própria diante de Deus e só vêem sentido na obediência por força de
mandamentos, saibam que os ensinos de Paulo – inclusive quando ele exige o
rompimento com a Lei - são mandamentos do Senhor (I Co 14:37), os quais,
diferentemente dos mandamentos da Lei, não trazem condenação (Rm 8:1)
nem tampouco justificam a ninguém diante de Deus, mas apontam o caminho
do que já é expectativa da obra do amor de Deus na vida de cada um de nós.
Quem trilha esse caminho (rejeitando a sua justiça própria e amando
ao próximo) está andando em conformidade com a vontade de Deus, pois é o
amor, e não a Lei, o referencial de conduta e de eventual exortação de todo
aquele que é nascido do Espírito.
89

Se vivemos a simplicidade poderosa do Evangelho, crendo na eficácia do


poder da misericórdia (II Tm 3:5 ARC), e não na força da Lei, fazemos com
que o Reino de Deus seja assim na Terra como no céu (Mt 6:10).
Quem se enxerga diante de Deus sem o véu da justiça própria (como
exige o Evangelho) não se apresenta para julgar o próximo e, vendo-o igual a
si mesmo, oferece a misericórdia que leva ao arrependimento (Rm 2:4).
Para fins de justificação diante de Deus, toda a nossa justiça é como
trapo de imundícia (Is 64:6). A Justiça do Calvário anula totalmente esse
mérito em todos nós, pois, além de inútil para a salvação (que exige justiça
perfeita), ele ainda desnivelaria a humanidade, gerando o que mais irritou ao
próprio Cristo: orgulho legalista, arrogância e hipocrisia. Por isso Deus “a
todos encerrou na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com
todos“ (Rm 11:32), a qual foi manifestada ao mundo quando, em Cristo, o
próprio Deus cumpriu a exigência de justiça perfeita, pagou a dívida que era
nossa e, a fim de anular a justiça própria dos homens como meio de
justificação, aboliu a Lei dos mandamentos (Ef 2:14-15), para que todo o que
nele crê seja justificado por fé, e não por justiça procedente de lei.
Somente Cristo viveu uma vida de justiça perfeita e santificou-se em
favor dos que nele crêem (Jo 17:19), de modo que é à justiça de Cristo (e
não à sua própria) que o ímpio precisa recorrer para justificação (Rm 4:4-5).
Ora, o Senhor nos guia pelas veredas da justiça, por amor do seu nome
(Sl 23:3), e o seu mandamento é que, primeiramente, acautelemo-nos do
farisaísmo e da hipocrisia (Lc 12:1 - ARC) e também que, apartando-nos da
injustiça (II Tm 2:19), despojemo-nos do velho homem e revistamo-nos do
novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da
verdade. Por isso deixemos a mentira, a ira, o roubo, as palavras torpes, a
amargura (Ef 4:25-32) e não usemos a nossa plena liberdade por cobertura
da malícia (I Pe 2:16 - ARC).
A justiça na qual devemos andar não gera motivos para que julguemos e
menosprezemos o próximo, pois não procede de lei e está sempre
relacionada à paz, à edificação mútua (Rm 14:19; 15:2) e - óbvia e
essencialmente - à fé na Justiça do Calvário (Gl 3:11). Honrar, em gratidão e
amor, ao Senhor que nos amou primeiro (I Jo 4:19) e não entristecer o Seu
Espírito (Ef 4:30) são nossa motivação para andarmos em justiça, sempre
fazendo o que é bom, justo e edificante. Absolutamente seguros, porém, de
que, se falharmos, ”mesmo que o nosso homem exterior se corrompa” (II Co
4:16), temos um ótimo advogado junto ao Pai (I Jo 2:1).
A anulação da nossa justiça para a salvação não altera o fato de que
devemos andar em justiça, respeitando e nos submetendo às leis que regem
90

a sociedade em que vivemos (Rm 13:1-5), assim como também não anula o
mérito humano nos relacionamentos horizontais.
O mandamento do Senhor é que sejamos diligentes e sempre façamos
tudo “de todo o coração, como para o Senhor, e não para homens” (Cl 3:23),
tendo domínio próprio, não sendo displicentes com os nossos talentos e
procurando ter bom testemunho diante dos homens em tudo, sendo ainda
abundantes em boas obras, para as quais fomos criados, tendo Deus, de
antemão, preparado-as para que andemos nelas (Ef 2:10), pois são
”excelentes e proveitosas aos homens” (Tt 3:8).
Quem faz tudo com zelo e seriedade, apresentando bons resultados em
tudo a que se propõe, tem mérito, não para a salvação, mas diante dos
homens (Rm 4:2), e é sempre justa a sua recompensa, pois o princípio da
justiça é o mérito, e assim funciona tudo na vida. A nova criatura em Cristo,
porém, sabe lidar de modo espiritualmente sadio com esse reconhecimento.
Mas, quanto ao mérito humano, percebe-se uma inversão de valores na
religiosidade cristã. Muitos cristãos buscam apresentar justiça própria
diante de Deus enquanto desprezam e até acham maléfico o mérito diante
dos homens, recusando-se até a aceitar qualquer reconhecimento pela sua
dedicação e bom uso de suas habilidades.
Ora, os talentos que Deus lhe deu são seus, e ele os concedeu para que
você os utilize com zelo e diligência e, evidentemente, usufrua as justas
recompensas de seu esforço. Na próxima vez em que o seu mérito for, de
alguma forma, publicamente reconhecido, lembre-se de que foi Deus quem o
capacitou e receba o reconhecimento com tranqüilidade, mas jamais
menospreze quem não se sai tão bem quanto você. É assim que se honra o
Deus dos dons e talentos.
É inútil fazermos algo bem feito e tentarmos ficar no anonimato, com
medo do reconhecimento. A palavra do Senhor é “... a quem honra, honra”
(Rm 13:7), por isso não deixemos de reconhecer, elogiar e aplaudir quem não
desperdiça seus talentos.
Seremos avaliados pelas nossas obras (não para salvação ou
condenação) no tribunal de galardões. O zelo com o fazer tudo bem feito é
mandamento do Senhor, pois é assim que deve agir um nascido do Espírito
de Deus. Uma postura de desleixo e negligência com nossos talentos e
responsabilidades de discípulo e servo, bem como com o nosso compromisso
de amor ao próximo, além de privar-nos do gozo de muitas bênçãos trazidas
pelo viver como uma nova criatura, mesmo não tendo a condenação como uma
possível conseqüência, inspira sérios e prudentes cuidados (I Co 3:14-15).
91

Não se organiza nem se administra nada sem levar em conta o mérito


das pessoas. A avaliação do mérito (por talento natural, dom, esforço
próprio ou mesmo por afinidade) está em todo lugar, em todas as
instituições, nas empresas, nas escolas e inclusive nos nossos
relacionamentos, em casa e na “igreja” (administrativamente). Não há quem
privilegie ou escolha alguém para uma determinada tarefa ou função, sem
levar em conta os seus méritos (a forma como usa suas habilidades). Isso,
logicamente, nada tem a ver com salvação e, mesmo sendo motivo de justa
honra para aquele que “fez por merecer”, ele não deve ter uma postura
farisaica e julgar-se superior aos outros. Antes, deve encorajá-los e
incentivá-los a agir da mesma forma.
Devemos, como sempre, buscar o discernimento correto também nessa
questão. O melhor caminho é, assim como em tudo, andar de acordo com o
ensino do Senhor, ou seja, fazer tudo por causa dele e para ele, sem
ensoberbecer-nos em nós mesmos. Caso contrário, ou nos tornaremos
carnalmente ambiciosos e sábios aos próprios olhos, buscando sempre
receber o louvor dos homens, ou desenvolveremos uma rejeição ao mérito
humano, vendo nele algo sempre negativo e mundano, passando a ter pouco
ou nenhum interesse pelo que não seja “mérito religioso”, criando diante da
sociedade uma imagem, não de simplicidade e humildade, mas de
simploriedade, e seremos vistos (com razão), quando muito, como pessoas
“virtuosas”, mas alienadas, irrelevantes e inúteis na resolução de problemas
e situações que muitos julgam não ser de natureza espiritual.
O apóstolo Pedro nos estimula e ensina como trilhar esse caminho sem
nos corrompermos espiritualmente:

“Por isso mesmo, vós, reunindo toda a vossa diligência,


associai com a vossa fé a virtude; com a virtude o conhecimento;
com o conhecimento o domínio próprio; com o domínio próprio a
perseverança; com a perseverança a piedade; com a piedade a
fraternidade; com a fraternidade o amor, porque essas coisas,
existindo em vós, e em vós aumentando, fazem com que não sejais
nem inativos, nem infrutíferos no pleno conhecimento de nosso
Senhor Jesus Cristo” (I Pe 1:5-8)
92

Pedro nos adverte quanto à possibilidade de, mesmo salvos, nos


tornarmos servos irrelevantes, e nos encoraja a buscar uma fé viva, atuante
e eficiente.
Não devemos fazer nada buscando a glória dos homens, mas também
não precisamos ter medo do reconhecimento e da justa recompensa pelo que
fazemos. As pessoas de coração soberbo é que anunciam aos quatro cantos
as suas próprias virtudes, em busca de elogios e privilégios entre os homens,
e a recompensa dos tais geralmente não passa disso (Mt 6:2). Mas quem faz
tudo por amor a Deus e ao próximo, faz com discrição, e o Pai, que vê o que
está em secreto, é quem lhe dá a recompensa (Mt 6:3-4). Façamos tudo
como para o Senhor, e ele nos ensinará a lidar de uma forma espiritualmente
sadia com os nossos méritos. Na Lei, o mérito (vertical e apenas hipotético)
será sempre ilusório e insuficiente para a justificação do pecador. Na
Graça, esse mesmo mérito (horizontal, real e recompensado) não tem nada a
ver com justificação nem com salvação, e é saudável, desejável e deve ser
buscado sem medo, se for sempre filtrado no Senhor Jesus (I Co 1:31).
Ora, somos salvos pela Graça, mediante a fé (Ef 2:8), mesmo que não
tenhamos nenhuma boa obra para apresentar. Esse é o escândalo e a loucura
da Graça, e é assim que o Evangelho deve ser pregado: o homem sem
nenhuma justiça própria é salvo por sua fé naquele que justifica o ímpio. A
justiça do homem, se existe, não conta para a salvação (por não ser
perfeita), de modo que aquele que tem alguma justiça torna-se igual ao que
não tem nenhuma (por isso deve amá-lo como a si mesmo) e ambos dependem
da fé na Justiça do Calvário.
Mas o fato de ser justificado gratuitamente pela Graça (Rm 3:23-24)
não significa que se deva ter uma vida cristã estagnada. Graça não é
estagnação. O esforço diligente e a disciplina pessoal são indispensáveis
para o pleno desenvolvimento da nossa salvação gratuita (Fp 2:12). Ou
alguém terá intimidade profunda com Deus sem que se disponha a orar,
mesmo quando não tiver muita disposição para tal? Quem vencerá as muitas
batalhas desta vida sem perseverança? Quem se aprofundará no
conhecimento da verdade sem o disciplinado hábito da leitura bíblica e
também da boa literatura espiritual? Quem será aperfeiçoado no amor de
Deus sem que se levante e caminhe em direção ao próximo, no intento de
servi-lo como o próprio Senhor Jesus serviu? Quem crescerá em
discernimento espiritual sem o constante hábito da meditação na Graça e no
amor de Deus? Quem terá uma vida cristã relevante e útil, edificando e
sendo edificado, sem manter alguma forma de comunhão regular com os que
são guiados pelo Espírito?
93

A figura utilizada pelo apóstolo Paulo no tocante à nossa cooperação


com o Evangelho é a de um esforçado atleta, que em tudo se domina (I Co
9:24-27). Ora, quem se considera parte do Reino deve se interessar
diligentemente pelas coisas do Reino.
Para concluir, cabe ainda advertir sobre o fato de que quem “se
acostuma” com o mérito horizontal geralmente esquece que a justiça
meritória da Lei não é mais um empecilho para a misericórdia divina (pois
Cristo já a satisfez plenamente) e não entende nem aceita quando Deus
favorece aquele que, sem mérito nenhum (sem justiça própria alguma),
apenas crê e confia inabalavelmente no mérito daquele que pode justificar -
e seguramente justifica - o ímpio (Rm 4:4-5).
94

XI - O EVANGELHO DE PAULO

“... no dia em que Deus, por meio de Cristo Jesus, julgar os


segredos dos homens, de conformidade com o meu evangelho” (Rm
2:16)

Para mim, está muito claro que Paulo pregava o mesmo Evangelho que
Jesus (pois há uma só Graça), mas também, de certo modo, um Evangelho
muito diferente.
A mensagem era a mesma: “abandonar a neurótica busca de justiça
própria, libertando-se do jugo escravizante e condenatório da
autojustificação, e correr para a justificação em Cristo, pela fé na Justiça
do Calvário”. Entretanto, há um “Evangelho da Circuncisão“ e um “Evangelho
da Incircuncisão”.
E onde está a diferença? Ora, nas pessoas às quais a mensagem -
"única" – de libertação e justificação em Cristo era direcionada. Nos tempos
apostólicos, Paulo e os demais apóstolos obviamente pregaram tanto para
judeus quanto para gentios, mas a Pedro (e aos demais apóstolos) foi
confiado o Evangelho da “circuncisão” (observem as introduções das
epístolas não-paulinas) e, a Paulo, o Evangelho da “incircuncisão” (Gl 2:7).
O referencial de condenação (contraponto do Evangelho) para os
judeus não convertidos era a Lei Mosaica, que a eles foi dada. Assim, os
judeus que se convertiam deixavam de buscar salvação pela obediência à Lei
(autojustificação), embora - como cidadãos - devessem continuar
observando-a e a ela submetendo-se em seus aspectos civis (At 23:1-5).
É da inatingível exigência de justiça perfeita da Lei Mosaica (At 15:10)
que a Graça de Cristo liberta os judeus e todo gentio que, espontaneamente
ou “arrastado” pelo cristianismo judaizado, a ela se submete (Gl 5:3-4).
O apóstolo dos gentios, entretanto, pregou o Evangelho da
incircuncisão, que tinha como contraponto (e deveria ter até hoje, se não
fosse o grande esforço da religião cristã) apenas as normas instaladas na
consciência humana desde a queda no jardim do Éden (Gn 3:5; Rm 2:11-16,
12:2), qualquer que fosse a religião – ou falta de religião - do homem.
Diferente dos apóstolos que escreveram aos “judeus convertidos” (os
quais estavam livres do jugo autojustificador da Lei Mosaica, mas não de
submeterem-se a ela como referencial de conduta social, por isso muitos
cristãos “da Graça” têm problemas para “engolir” a epístola de Tiago e
alguns detalhes das epístolas de João), o apóstolo dos gentios não usou a Lei
95

Mosaica como parâmetro de julgamento ou condenação - a não ser para os


que a ela se submetiam (Rm 3:19; Gl 4:21) - nem jamais apontou o estatuto
mosaico como referencial de conduta para gentios convertidos.
Por isso ele foi duro no caso do discípulo que estava transando com a
própria madrasta (I Co 5:1), mas não o “enquadrou” em Dt 22:30 (como
muitos líderes cristãos seguramente fariam). Ele viu a adoração de
esculturas em Atenas (At 17:16-34), mas não saiu berrando o Ex 20:4-6
(como protestantes e evangélicos sempre fazem). Ele reprovou seriamente
os irmãos de Corinto que saíram com prostitutas, mas não os ameaçou com
as duras penalidades mosaicas (I Co 6:15-16). Disse ainda que o discípulo de
Cristo deve deixar a mentira e falar a verdade, bem como aquele que
furtava não deve furtar mais (Ef 4:25-28). Em nenhum momento, porém,
apoiou-se em algum mandamento mosaico.
E onde fica Cristo nessa história? Ora, Cristo era o Messias dos judeus
(Jo 1:11) e também “ministro da circuncisão” (Rm 15:8), por isso, obviamente
pregou o “evangelho da circuncisão”, sempre sob a perspectiva e em função
da Lei Mosaica e, nesse aspecto, dirigiu-se exclusivamente ao seu povo
“segundo a carne” (Rm 9:5).
Por acaso, não é notório que Cristo sempre tentou evitar que houvesse
gentios entre os seus ouvintes? (nem preciso citar as muitas referências).
Não é notório que as primeiras instruções aos apóstolos foram para que eles
evitassem pregar aos gentios? (Mt 10:5-6). A quem foi o Messias enviado,
senão às ovelhas perdidas da casa de Israel? (Mt 15:24; Jo 1:11).
E por quê?
Ora, porque o que se pregava naquele momento era apenas o “Evangelho
da circuncisão”, que anunciava a chegada do Messias dos judeus, para os
judeus (Jo 1:11), como profetizado nas escrituras judaicas, e que libertaria
o seu povo, não do Império Romano, como muitos esperavam, mas do jugo da
justiça própria “autenticada” pela Lei.
Só depois o foco se voltaria para os gentios (Jo 10:16; Jo 16:12-13; Rm
1:16). Por isso, quando leio os evangelhos, mesmo nas palavras do próprio
Jesus (no aspecto “referencial de condenação”), submeto-as a uma
“peneira”. Quando Cristo fala da Lei Mosaica - para judeus (fariseus ou não)
– não percebo suas palavras como direcionadas a mim. Não sou nem nunca fui
judeu. Nunca estive debaixo da Lei Mosaica. Nunca aceitei essa imposição
da “religião cristã”.
Os ensinos de Cristo sobre a Lei visavam a regulamentar as relações
sociais do povo do Messias ou, na maioria das vezes, mostrar a dura
96

exigência de perfeição da Lei como caminho para a salvação (Mt 5:20; 19:16-
22), a fim de apontar a urgente necessidade da Graça de Deus.
Ora, como não somos o povo do Messias segundo a carne, a Lei nos é
útil apenas para advertir sobre a sua própria exigência de infalibilidade e
óbvia condenação dos que querem estar sob seu jugo (Gl 4:21). Assim,
tentamos libertar os escravizados que buscam salvação na obediência a
mandamentos meritórios (salvação por obras da Lei - Gl 3:11) e levar
discernimento aos neurotizados pela arrogância legalista gerada pela lógica
meritória religiosa, endoidecidos a ponto de sentirem-se justificados em
Moisés (obediência à Lei), embora muitos afirmem que é pela fé em Cristo.
Quanto à possibilidade de alterar a “salvação pela fé”, palavras sobre a
Lei Mosaica “me entram por um ouvido e saem pelo outro”. Não perco tempo
“gracificando” aspectos condenatórios nas aulas de “legislação mosaica” e
“cidadania judaica” dadas por Cristo como ministro da circuncisão (para
judeus), que assustam muita gente que se diz “da Graça” (Mateus 5:17-48,
por exemplo) e que, justamente por isso são, ao mesmo tempo, úteis para os
muitos “legisladores” de plantão. Dali, o que é Graça e luz para a minha
consciência, recebo. O que é condenação da Lei, não é para mim, pois, no
tocante a ela, já estou crucificado e morto (Gl 2:19). É isso que Cristo diria
para nós hoje (e diz, através do apóstolo dos gentios).
A única serventia da Lei (no plano de salvação) é apontar para a
justificação no Messias perdoador e justificador (Gl 3:24). Se passar disso,
ela só desperta a concupiscência no pecador (Rm 7:8), gerando a cobiça,
dando a falsa sensação de direito adquirido e, ao mesmo tempo, alimentando
o medo neurótico da condenação. Mas o problema da minha condenação já
foi resolvido na cruz do Calvário. E, se o cumprimento da Lei é o amor (Rm
13:10), é nele que preciso aperfeiçoar-me (para andar como Cristo andou - I
Jo 2:5-6), pois nem o medo nem a própria lei de mandamento carnal (Hb
7:15-16) aperfeiçoam coisa alguma (I Jo 4:18; Hb 7:18-19).
Não tenho nenhum interesse em dissecar a Lei Mosaica em busca de
possibilidades de condenação (o que a religião cristã – salvo raras e
preciosas exceções - vive fazendo). Eu, particularmente, concordo com Paulo
em que até os debates sobre a Lei são inúteis e fúteis (Tt 3:9).
Antes, porém, que alguém distorça o que aqui afirmo, quero deixar bem
claro que, para mim, Cristo é o referencial absoluto do Evangelho. Ele “É” a
encarnação do Evangelho e da própria/única Graça de Deus. Mas quanto à
aplicabilidade do Evangelho na vida dos discípulos - no tocante à Lei Mosaica
- Cristo fez uma aplicação voltada exclusivamente para judeus (ou isso não
está claro na Bíblia?), mas separou alguém, antes mesmo que este nascesse,
para pregar o Evangelho entre os não-judeus, sem aplicá-lo vinculando-o às
97

suas tradições e raízes judaicas (“não consultei carne e sangue” – Gl 1:15-


17), tornando-se o “apóstolo dos gentios” (Rm 11:13). Ou isso também não
está claro na Bíblia?
Por isso, mesmo no que o “Evangelho de Paulo” difere do “Evangelho de
Cristo” (não ter a Lei Mosaica como parâmetro de condenação nem
referencial de conduta) ele o faz em obediência ao próprio Cristo (I Co
14:37-38), que, através de Paulo, ministra aos gentios (o que ele não fez
enquanto esteve corporeamente sobre a Terra).
A questão é: Por que Deus julgou tão importante separar o Evangelho
em “da Circuncisão” e “da Incircuncisão”? Por que Cristo – definitivamente -
não quis que o Evangelho da Circuncisão fosse pregado aos gentios? Que
problemas poderiam surgir, caso isso acontecesse?
A resposta está na história e no perfil da religião cristã, que - agindo
fora da vontade de Deus - sempre misturou Evangelho da Circuncisão e da
Incircuncisão. Ela sempre esteve casada com Moisés (de “papel passado”,
como manda a lei), mas descaradamente alega ter com Cristo um
relacionamento que é reprovável para uma esposa com marido ainda vivo (Rm
7:2-4).
Cristo considerou o “Evangelho da Circuncisão” adequado apenas para
os judeus (que, naqueles dias, não suportariam o Evangelho da Incircuncisão
– Jo 16:12-13), e enviou Paulo para pregar o “Evangelho da Incircuncisão” aos
gentios. Mas a religião cristã, considerando-se mais sábia do que o próprio
Jesus, resolveu contrariá-lo abertamente.
A religião conhecida como Cristianismo não segue as orientações
paulinas acerca da Lei nem do quê nem de como deveria ser a Igreja. Os
seus primeiros idealizadores foram fariseus supostamente convertidos que
queriam que a igreja se submetesse ao estatuto mosaico (At 15:5) a fim de
perpetuar a manipulação religiosa meritória. Naquele momento os apóstolos
cortaram o ímpeto dos fariseus (At 15:7-21), mas o projeto foi retomado
após o período apostólico (At 20:24) e então nasceu a Religião Cristã.
Ora, a Lei, obviamente, não é má, mas espiritual, santa, justa e boa (Rm
7:7-14). Contudo, a sua lógica meritória (que, diante da imperfeição humana,
apenas desperta toda sorte de concupiscência [Rm 7:8], reduzindo-a a “lei
de mandamento carnal” [Hb 7:15-16], por isso ela ou leva o pecador a buscar
socorro em Cristo ou simplesmente o condena [II Co 3:7-9]) adentrou o que
deveria ser o “Evangelho da incircuncisão”, trazendo consigo seu templo
judaico - onde, assim como no “templo cristão”, era necessário purificar-se
“antes” de entrar -, seus sacerdotes legisladores, seus rituais, suas
nomenclaturas, seu culto formal e, para completar a tragédia, os seus
98

respeitáveis e honoráveis fariseus, criando assim “o evangelho da


autojustificação na Lei, mas proclamado em nome de Cristo” (o “outro
evangelho” - Gl 1:6-9), onde prevalece a cegueira religiosa, que escraviza
seus fiéis à letra que mata, pois não quer ensiná-los a discernir a vida no
Espírito que vivifica (II Co 3:6).
Sim, esse falso evangelho (mistura de Lei e Graça) deixa as pessoas
muito mais preocupadas em parecer santas do que em efetivamente
demonstrar amor ao próximo, pois “autentica” e alimenta a arrogância
religiosa e, obviamente, não aperfeiçoa no amor de Cristo (I Jo 2:5-6). Seu
intento é manter os fiéis sob o jugo da Lei, aprisionando-os a uma neurótica
e constante busca por justiça própria (da qual a “religião” é a legitimadora),
e não libertá-los para Cristo (Gl 5:1). Por isso há tanto interesse nas tábuas
do ministério da morte e da condenação (II Co 3:7-9), mas pouco ou nenhum
interesse na absurda Justiça do Calvário.
No “outro evangelho” (propagado em toda a cristandade), a loucura e o
escândalo da Graça de Cristo geram a desconfiança, e não a fé.
Paulo sabia que o Messias havia vindo para os seus e os seus não o
haviam recebido, mas também sabia que a todos quantos o receberam deu-
lhes o poder de serem feitos filhos de Deus (Jo 1:11-12). O Evangelho da
Circuncisão cumpriu o seu papel. Seus rudimentos – básicos, elementares e
diretamente associados à Lei pelo próprio Cristo - devem ser abandonados,
cedendo lugar ao aperfeiçoado Evangelho da Incircuncisão (Hb 6:1),
prevalecente no Reino de Deus (Lc 16:16). Tudo relativo à Lei Mosaica, às
suas obras mortas e à sua justiça meritória é coisa do passado e ficou para
trás (a não ser, obviamente, para os que queiram estar sujeitos a ela – Rm
3:31; Gl 4:21). Agora – libertados da Lei – é tempo de servir em novidade de
espírito, e não na caducidade da letra (Rm 7:6).
E Paulo não deu um simples “conselho” para que não seja pregado um
evangelho que misture Graça e Lei. Obedecendo à revelação (Gl 1:12) do
próprio Messias dos judeus - anunciado na Lei e pelos profetas, e que era
Ministro da Circuncisão – Paulo advertiu seriamente e com visível irritação:
“Mas ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que
vá além do que vos temos pregado, seja anátema” (Gl 1:8). Ora, o que Paulo
estava combatendo na igreja da Galácia?
Enfim, sou discípulo de Cristo, que é tudo e em todos – judeus e gentios
(Cl 3:11). Mas sou gentio, por isso, mesmo crendo em uma só Graça, quanto
ao papel da Lei Mosaica na vida cristã, prego o “Evangelho da Incircuncisão”.
Sim, nesse ponto, creio, prego e procuro viver o dito Evangelho de
Paulo.
99

XII - A INUTILIDADE DA LEI

“Portanto, por um lado, se revoga a anterior ordenança, por


causa de sua fraqueza e inutilidade (pois a Lei nunca aperfeiçoou
coisa alguma) e, por outro lado, se introduz esperança superior,
pela qual nos chegamos a Deus” (Hb 7:18-19)
“Todos os que são guiados pelo Espírito são filhos de Deus”
(Rm 8:14)
“Se sois guiados pelo Espírito, não estais sob a Lei” (Gl 5:18)

Pode a Lei evitar a idolatria? Quando Paulo chegou a Atenas,


“revoltava-se nele o seu espírito, vendo a cidade cheia de ídolos” (At 17:16),
mas ele não foi mostrar àquele povo idólatra o que a Lei Mosaica dizia sobre
a idolatria de esculturas (Êx 20:4-6). O apóstolo simplesmente apresentou-
lhes o Deus Verdadeiro, supostamente honrado pelos atenienses como “Deus
Desconhecido”, e falou-lhes a respeito do Cristo ressuscitado. Paulo era
agora ministro de uma nova aliança, não da letra, mas do Espírito; porque a
letra mata, mas o Espírito vivifica (II Co 3:6), e sabia que a Lei não tem
força contra o pecado, mas é a própria força do pecado (I Co 15:56), por
isso ela não evitou a idolatria (nem qualquer outro pecado) nem em Israel,
uma sociedade absolutamente teocrática, que vivia sob o medo das duras
penalidades da Lei Mosaica.
Pode a Lei refrear a promiscuidade? Ela diz: “Nenhum homem tomará
sua madrasta, e não profanará o leito de seu pai” (Dt 22:30). Mas qual foi a
reação de Paulo ao tratar desse exato pecado na igreja em Corinto? “Há
entre vós imoralidade, e imoralidade tal como nem mesmo entre os gentios.
Isto é, haver quem se atreva a possuir a mulher de seu próprio pai” (I Co
5:1). Por mais inaceitável que seja para o cristianismo legalista e meritório, o
motivo da indignação de Paulo foi porque o tal pecado era algo incomum até
entre os incrédulos, e não porque estivesse na Lei Mosaica.
Ainda na igreja em Corinto, ao repreender duramente alguns irmãos
que saíram com prostitutas, Paulo não os ameaçou com punições previstas na
Lei Mosaica nem sequer a mencionou como um referencial da vontade de
Deus. Mas lembrou-lhes de que nossos corpos são membros de Cristo e que
expor os nossos membros à prostituição é literalmente expor os membros
do próprio Cristo (I Co 6:15-16).
Nova Aliança, novo referencial... “Cristo é tudo e em todos” (Cl 3:11).
100

Teria o ex-fariseu (irrepreensível perante a justiça que há na Lei - Fp


3:6) se esquecido dela? Foi um pequeno lapso de memória? Ou a Lei
(parâmetro de justiça própria humana), anteriormente guardada com zelo
supremo, agora estava morta e enterrada para a nova criatura na qual
tornou-se o ex-fariseu?
Ora, todo o que é nascido no Espírito de Deus deve aprender a
discernir o que convém (I Co 6:12, 10:23), independentemente do que diga a
Lei, pois...

“... tudo que a Lei diz, aos que vivem na Lei o diz” (Rm 3:19)

“Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da Lei,
e, sim, da Graça” (Rm 6:14)

Para o ex-fariseu Paulo, as coisas velhas já haviam passado, tudo se


havia feito novo (II Co 5:17), e ele agora servia em novidade de espírito, e
não na caducidade da letra (Rm 7:6). Para ele, até os debates sobre coisas
da Lei eram absolutamente inúteis e fúteis (Tt 3:9), pois é o Espírito – e não
a Lei - que convence o mundo do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16:7-8).
O próprio Jesus, assim como Paulo, só usou a Lei contra aqueles que
nela confiavam para apresentarem-se como justos. Com os demais
pecadores, ele sempre enfatizou o arrependimento e confiou no poder
regenerador que há no seu amor incondicional e no seu perdão gratuito e
definitivo (veja-se, por exemplo, o caso da mulher adúltera, que, pela lei,
deveria ser punida com apedrejamento - Jo 8:3-11).
Quem enxerga a si mesmo conforme nos revela o Evangelho, sequer
entra em inúteis debates sobre coisas da Lei. O desejo ardente que nasce
em seu coração é o de entregar-se livremente à direção do Espírito, para
caminhar discernindo a Palavra e manifestando na vida do próximo toda a
sua gratidão pelo amor incondicional que recebeu de Deus.
O propósito deste livro, por exemplo, não é discutir sobre detalhes da
Lei Mosaica, mas tão somente mostrar a incompatibilidade entre Graça e
Lei; o que, aliás, é o tema central de todas as cartas do apóstolo dos
gentios, fato que permanece incompreendido por grande parte dos que se
dizem cristãos. E Paulo simplesmente anunciou a morte da Lei, sem tentar
dissecá-la nem fazer-lhe uma autópsia.
101

As palavras de Jesus aos fariseus (lei, para legalistas) são sempre bem
aceitas e muito repetidas em todo o meio cristão, mas as palavras dele aos
demais pecadores (Graça, para pecadores confessos) não geram o mesmo
interesse e sempre incomodam mentes e corações ainda sob domínio da Lei,
mesmo que se digam convertidos ao Evangelho da Graça.
A Lei foi abolida para os que estão em Cristo porque ela é o parâmetro
de justiça que separa os homens (Ef 2:14-15), e o discípulo de Cristo, a fim
de negar a si mesmo e tomar para si a justiça do Calvário (Lc 9:23-24),
considera a sua justiça própria como perda e refugo, a fim de ser achado
não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé
em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé (Fp 3:7-9).
A Lei morreu porque Cristo já cancelou, removeu inteiramente e
encravou na cruz o escrito da dívida que tínhamos para com Deus, referente
à nossa justiça própria, o qual constava de ordenanças, era contra nós e nos
era prejudicial, e assim despojou principados e potestades, publicamente os
expôs ao desprezo e triunfou deles na cruz (Cl 2:13-15). Agora precisamos
ser aperfeiçoados no amor (I Jo 2:5-6), e a Lei, que é fraca e inútil, não
serve para esse fim, pois nunca aperfeiçoou coisa alguma (Hb 7:18-19).
A Lei é inútil porque as coisas velhas já passaram e tudo se fez novo
(II Co 5:17) e, quando se muda tudo, inclusive o sacerdócio, há também
necessariamente mudança de lei (Hb 7:11-12). Quem está na Graça passou
da lei de mandamento carnal (Hb 7:16) para a Lei de Cristo (Gl 6:2).
A Lei é inútil porque é desnecessária como referencial de conduta para
aquele que é nova criatura em Cristo, pois ele é guiado pelo Espírito (Gl 5:18)
e sabe discernir o que convém (I Co 6:12).
A Lei morreu para que o pecado não mais tenha domínio sobre os que
estão debaixo da Graça (Rm 6:14). Portanto, estar debaixo da Graça e
continuar alimentando alguma forma de justiça própria diante de Deus para
obtenção de direitos pela obediência à Lei e seus derivados sujeita a nova
criatura a permanecer sob o domínio do pecado.
A Lei morreu porque ela é o caminho da autojustificação, e o nosso
caminho é o da justificação em Cristo (Jo 14:6). Nós, nascidos do Espírito
(Jo 3:8), morremos relativamente à Lei para pertencermos àquele que
ressuscitou dentre os mortos e, deste modo (mortos para a Lei/justiça
própria), frutifiquemos para Deus (Rm 7:2-4).
Talvez precisemos de algumas pregações onde apenas se anuncie,
repetidamente, por horas seguidas: “É pelo Espírito, e não pela Lei! É pelo
Espírito, e não pela Lei! É pelo Espírito, e não pela Lei...”.
102

XIII - LEI E GRAÇA: ABSOLUTAMENTE EXCLUDENTES ENTRE SI

“Se é pela Graça, já não é pelas obras; do contrário, a Graça


já não é Graça” (Rm 11:6)
“Dizei-me vós, os que quereis estar sob a Lei: acaso não ouvis
a Lei?” (Gl 4:21)

Lei e Graça não caminham juntas. Sabemos que, ou se está cativo da Lei
ou na liberdade da Graça. Não se pode estar na Graça de Cristo e ainda
depender do desempenho em obras da Lei para obter e manter a salvação.
Quanto à nossa condição espiritual (salvação), a transição da Lei para a
Graça se dá imediatamente, no momento da conversão, ao confessarmos a fé
na obra do Calvário e no senhorio de Jesus Cristo em nossas vidas, mas
precisamos conscientizar-nos de que há uma luta constante para nos
livrarmos do domínio da Lei (Rm 7:1), caso contrário ela poderá atrapalhar, e
muito, o nosso relacionamento com Deus e com o próximo, emperrando e
estagnando a nossa vida espiritual.
Muitos dos que se confessam convertidos à Graça de Cristo ainda
trazem consigo o ranço legalista e, vivendo apenas uma religiosidade
autocultuadora e absolutamente inútil ao Reino de Deus, afirmam viver na
plenitude da Graça e, achando que as muitas algemas que ainda trazem
consigo são aceitáveis e úteis na caminhada com Cristo, ainda as usam como
argumentação contra a liberdade que há no Espírito, pois algumas dessas
algemas têm um nome bonito, bíblico, inspirador, que sugere espiritualidade
e compromisso com Deus. Mas algemas são algemas, e onde está o Espírito
do Senhor, aí há liberdade (II Co 3:17). O novo nascimento implica um novo
crescimento, e só se pode crescer na Graça mortificando a Lei, de modo que
crianças e adultos na fé discutem e questionam coisas diferentes.
A Lei precisa ser mortificada a cada dia em nossas vidas, pois livrar-se
do seu domínio (trocar a justiça meritória da Lei pela justiça do Calvário) é
um processo gradual, que caminha em ritmo diferente em cada um de nós
(espera-se, entretanto, que todos progridam – Hb 5:12). Às vezes imagino
como seria interessante ouvir de cada renascido na Graça de Cristo um
testemunho sobre o que significou a morte da Lei na sua vida. Que mudanças
cada um já observou em si mesmo, no processo de abandono da Lei rumo à
liberdade da Graça no Espírito... O que ouviríamos?
Uns são mais livres, outros nem tanto. Os mais livres são aqueles que
corajosamente reconhecem que ainda têm áreas de sua vida sob domínio da
Lei (justiça meritória), mas estão em constante processo de libertação dela,
103

no qual precisam querer se libertar. Os mais presos à Lei (legalistas) são


exatamente aqueles que sequer reconhecem que ainda precisam se libertar
dela, pois, afogando-se em justiça própria, julgam-se o supra-sumo da
espiritualidade, bem acima da maioria dos irmãos.
O processo de mortificação da Lei caminha paralelamente ao
crescimento no Espírito, numa proporcionalidade inversa. Quanto mais se
tira das costas o peso da Lei, mais se aprende a andar no Espírito. Quanto
mais peso da Lei se põe nas costas, mais difícil será aprender a andar no
Espírito. Quanto mais mortificamos a Lei no nosso espírito, mais somos
vivificados no Espírito de Deus.
104

XIV - A VERDADE QUE LIBERTA

“E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8:32)

“Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (Jo 8:36)

O primeiro efeito da verdade do Evangelho em nossas vidas – antes de


qualquer outra coisa – é que ela nos liberta. Somos absolutamente livres,
pois para a liberdade foi que Cristo nos libertou (Gl 5:1). Sim, ele nos
chamou para sermos livres, e ninguém é mais livre do que alguém contra
quem não há mais nenhuma condenação (Rm 8:1).
E a verdade do Evangelho nos liberta de quê?
Primeiramente nos liberta da Lei (Rm 7:6), que criminalizava nossos
pecados (Rm 3:19, 4:15; I Co 6:12), mantendo-nos sob maldição (Gl 3:10) e na
iminência da condenação eterna, pois “o salário do pecado [transgressão da
Lei] é a morte” (Rm 6:23). Assim, ficamos absolutamente livres do medo (I
Jo 4:18).
Libertando-nos da Lei e do medo, a verdade do Evangelho nos liberta
também da neurótica e ilusória busca por justiça própria (legitimada pela
Lei) com o propósito de garantirmos uma vaga no céu e barganharmos
favores e a própria salvação com Deus.
Libertando-nos da Lei, do medo e da busca por justiça própria, a
verdade do Evangelho nos liberta da mente autojustificada, que alimenta o
legalismo e gera o hipócrita (Mt 23:27).
Libertando-nos da Lei, do medo, da busca por justiça própria e da
mente autojustificada, a verdade do Evangelho nos liberta ainda do domínio
do pecado (Rm 6:14).
E a verdade do Evangelho nos liberta para quê?
Cristo nos liberta para que sejamos livres nele. É em Cristo que somos
totalmente livres, pois é no seu Espírito que há liberdade (II Co 3:17). E,
estando livres no Espírito do Senhor, temos a mente do nosso libertador (I
Co 2:16), pois somos habitados por ele, pelo Pai e pelo Espírito (Jo 14:23; I
Co 3:16). Com eles aprendemos a discernir o que convém e edifica (I Co
10:23) e experimentamos a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Rm
12:2), pois nós mesmos não sabemos sequer usar a nossa plena liberdade
para sempre fazer o que seja um bem para nós.
105

Quem não está em Cristo está sob o jugo da Lei Mosaica ou da “norma
da lei” [critério meritório natural] na consciência (Rm 2:15) e, portanto, sob
maldição e já morto em seus delitos e pecados (transgressões da Lei – Ef
2:1).
Fora da Graça de Cristo, não há ninguém livre. Quem permanece nele
tem vida em abundância (Jo 10:10), e “aquele que diz que permanece nele,
esse deve também andar assim como ele andou” (I Jo 2:6).
Só teremos consciência da imensurável grandiosidade e perfeita glória
da Graça de Cristo se tivermos a exata noção da libertação que ela nos
proporciona, mediante uma profunda convicção daquilo de que ela nos livrou
e salvou de maneira definitiva (Rm 8:1). Sabendo o que significa estar
reconciliado com Deus, compreenderemos por que a sua Graça nos basta (II
Co 12:9) e é melhor do que a vida (Sl 63:3).
Mas, sem que morramos para a Lei (autojustificação), nada disso
acontecerá (Rm 7:4; Gl 2:19). Não seremos guiados pelo Espírito (Gl 5:18) e
não frutificaremos para Deus, pois não aprenderemos a discernir a vida com
os olhos e a mente de uma nova criatura em Cristo, que nasce e amadurece
com uma nova consciência, livre, transformada, pacificada e capaz de
compreender a vontade do Senhor (Ef 5:17).

“Uma suave revolução acontecerá pela humilde organização


dos cristãos loucos, que estão dispostos a subverter a ordem
estabelecida ao reorganizar suas vidas em torno da mente de
Cristo”.
(Brennan Manning, em “Convite à Loucura”).
106

XV - SEMPRE ATUANTES, MESMO DIANTE DAS DIFICULDADES

O fato de que “a força do pecado é a Lei” (I Co 15:56) não é


compreendido com facilidade nem na própria religião cristã. E isso acontece
porque, primeiramente, se associa a anulação da Lei a uma vida desregrada,
inconseqüente e sem parâmetros morais. Mas o fato é que a Lei é o
parâmetro e o alvo do esforço humano para atingir um padrão de justiça
própria que seja agradável a Deus e suficiente para justificar e manter a
salvação. Contudo, para Deus, o único padrão que justifica para a salvação é
a perfeição, e só Cristo o atingiu sem transgredir a Lei.
Como nenhum outro homem conseguiu nem conseguirá tal feito, a
justiça própria humana é inútil para a justificação, pois, no homem natural, a
Lei apenas desperta o interesse pelo pecado (Rm 7:7), que traz condenação.
A única saída, então, para obtermos a perfeição necessária para
justificação diante de Deus é aceitar a perfeição de Cristo, que nos é
oferecida gratuitamente, mediante a fé no fato de que estamos totalmente
justificados pelo mérito dele, e não pelos nossos esforços nesse sentido
(Rm 3:23-24). Ao crermos nisso, acabou a nossa inútil participação no
processo de justificação para salvação. Aliás, acabou o tal processo, nesse
sentido. Ele agora é voltado apenas para a nossa adequação a essa nova
realidade. E nessa nova fase, Cristo ainda nos diz: “Saia da direção, meu
filho. Você é fraquinho demais. Daqui pra frente é comigo, pois, sem mim,
você não sai nem do lugar” (Jo 15:5). Precisamos aprender a entregar o
comando da direção a Cristo.
Mas quem quiser anunciar a plena gratuidade da salvação e viver a
liberdade da Graça de Cristo certamente será acusado de defender ou
mesmo de incentivar o pecado, bem como de não ter uma “presença forte”,
farisaica, imponente, rígida e supostamente respeitável, como requerem os
altos e falsos padrões da religiosidade legalista, egocêntrica, vazia e
ineficaz.
Ora, se até o apóstolo Paulo sofreu tais acusações (Rm 3:8; II Co 10:2,
10:10), não podemos esperar algo diferente conosco. E se ao próprio Senhor
Jesus chamaram de Belzebu (amigo de pecadores, salvador de ladrões,
adúlteras e prostitutas), o que não dirão de um reles pecador que
igualmente prega o fim da Lei? (Mt 10:25; 12:24)
O Senhor Jesus avisou que a rejeição à sua Graça seria tremenda (Jo
15:20-21), e isto significa que devemos incansavelmente anunciar o perdão
de Deus e o poder transformador do seu amor (sem a Lei), mas não devemos
desfalecer quando não formos bem compreendidos nem aceitos, pois isso
107

deve-se ao fato de que a anulação da nossa justiça própria, também contida


na mensagem do Evangelho, deixa completamente despida diante de Deus
tanto a alma dos que se dizem “do bem” (justos) quanto a dos que são
apontados como sendo “do mal” (injustos), e isto implica igualdade e
compromisso de amar e perdoar assim como Cristo amou e perdoou,
tratando o próximo do mesmo modo que gostaríamos de ser tratados (Lc
6:31), sem julgamentos sentenciadores e condenatórios (Mt 7:1-2; Lc 37-38;
Rm 14:4), e sem ares de superioridade (Rm 3:27).
Isso não é nada atraente nem aceitável para o homem natural
(principalmente para o religioso cheio de justiça própria), que geralmente
opta por se esconder atrás da justiça da Lei, preferindo pagar o preço de
abrigar-se com o seu próprio algoz a ceder a um amor que o leve a humilhar-
se e a ver-se em igualdade de condições com todos os outros pecadores.
Dificuldades e desestímulos virão e, conforme o Senhor Jesus nos
avisou, não será sempre da parte de estranhos, mas, muitas vezes, das
pessoas mais próximas, de dentro da nossa própria casa (Mt 10:36; 13:57).
O segredo, contudo, é não olhar para o mar (Mt 14:28-33), conscientes de
que o nosso dever é anunciar a mensagem do Evangelho em sua simplicidade,
mas o efeito dela no coração do ouvinte é assunto primeiramente entre ele e
Deus. Nem sempre o impacto da mensagem acontecerá na forma e no tempo
que esperamos (talvez um outro colha o que plantamos). Não sabemos
quantos crerão no Evangelho, mas a nossa obrigação é anunciar (e viver) o
amor incondicional e o perdão gratuito de Deus. No mais, somos meros
coadjuvantes.
A mensagem do Evangelho é poderosa, mas muito simples, e qualquer
um pode e deve anunciá-la contando a sua própria experiência com
simplicidade (“Cristo pode fazer com você, pois ele já fez comigo, que sou
igual a você”), sem complicá-la a fim de “ter mais assunto” e parecer mais
sábio, pois a caminhada com Cristo não é uma corrida em busca do muito
conhecimento teológico (somos as suas testemunhas e não os seus
advogados – At 1:8). Aliás, como disse o apóstolo Paulo, na pregação do
Evangelho, repetir as mesmas coisas (como nesse texto) é segurança para
quem ouve ou lê (Fp 3:1).
Mesmo para as tarefas mais difíceis, Deus muitas vezes escolhe
pessoas humanamente menos qualificadas, pois ele é Soberano, Eterno e
Todo-Poderoso, mas gosta de simplicidade, e escolheu as coisas loucas do
mundo para confundir os sábios, e as coisas fracas do mundo para
envergonhar as fortes (I Co 1:27).
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XVI - O MUNDO

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira...” (Jo 3:16)


“Não ameis o mundo...” (I Jo 2:15)
“Seja o mundo, seja a vida, seja a morte... tudo é vosso” (I Co 3:22)

A Bíblia refere-se ao mundo de duas formas bem distintas, pois são


dois os mundos. O primeiro são as pessoas do mundo; o segundo, o espírito
do mundo (ou espírito mundano), com os seus valores e sua concupiscência.
Do primeiro, diz que Deus o amou de tal maneira que deu o seu filho
unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida
eterna (Jo 3:16). Do segundo, entre outras coisas, diz que não devemos amá-
lo, pois o Pai não está em quem ama esse mundo (I Jo 2:15-16).
Intercedendo por nós junto ao Pai, Cristo não pediu que ele nos tirasse
do primeiro, mas que nos protegesse do segundo, pois, assim como o próprio
Cristo, nós já somos de um outro mundo (Jo 17:15-16).
Cristo nos enviou ao primeiro (Jo 17:18) para nele anunciarmos o
Evangelho a toda criatura (Mc 16:15), mas alertou-nos para os perigos do
segundo (Mt 10:16).
O primeiro é o nosso campo de ação, e deve ser conquistado para
Cristo, por isso devemos amá-lo, assim como o próprio Deus o amou (Jo
3:16). O segundo jaz irremediavelmente no maligno (I Jo 5:19) e devemos
rejeitá-lo sempre.
No segundo, perdemos a nossa vida por causa do Evangelho, para achá-
la em Cristo, (Mt 10:39), a fim de testemunharmos como se vive plenamente
no primeiro (que é nosso – I Co 3:21-23), estando completamente mortos
para o segundo, de modo que o medo do segundo não pode nem deve ser um
obstáculo para que conquistemos o primeiro, pois precisamos invadi-lo
através do contato real com toda criatura (Mt 5:47).
Ademais, limitar o nosso campo de ação à instituição igreja não vai
evitar o contato com o segundo, já que ele costuma freqüentá-la.
O Evangelho de Cristo foi-nos confiado, não para que o guardemos em
um lugar seguro, mas para que o vivamos e o anunciemos a toda criatura,
apresentando-nos como testemunha/exemplo do seu poder transformador.
Se colhemos pouco no mundo é porque também pouco saímos para
plantar. Essa também é uma questão de discernimento, e não de Lei...
109

CONSIDERAÇÕES FINAIS

“Vede, ó desprezadores, maravilhai-vos e desvanecei, porque eu


realizo, em vossos dias, obra tal que não crereis se alguém vo-la
contar” (At 13:41)
”A tua Graça é melhor do que a vida” (Sl 63:3)

Para andar conforme a Lei ninguém precisa de fé (Rm 4:14; Gl 3:12).


Para seguir algo sistematizado, com regras coletivas claras e bem definidas,
com padrões de comportamento bem determinados e detalhados, e ainda
sob ameaça de punição para qualquer passo em falso, ninguém precisa de fé
no perdão de pecados (ora, que pecados?). Isso é apenas religião e lei; o que
tem a ver com perdão e regeneração? O andar no Espírito inclui as nossas
limitações e quedas. Quedas reais, e não hipotéticas ou fictícias. E a
certeza que devemos ter é que o Senhor nos levantará. Ainda que moremos
nas trevas, ele será a nossa luz e para a luz nos tirará, e veremos a sua
justiça (Mq 7:8-9).
Permanece sob o domínio legalista, com olhos carnais, todo aquele que
vê em um renascido na Graça de Deus um transgressor da Lei, e não um
santo de Deus - puro como Cristo é puro (I Jo 3:3) – mas ainda em processo
de renovação da mente e em constante aprendizado no caminhar com Cristo.
Não fomos encarregados de vigiar e alarmar a crescente
pecaminosidade do mundo (que é óbvia). Fomos, sim, convocados para
anunciar e viver como testemunhas do fim do domínio dessa pecaminosidade
sobre o homem, mediante o perdão e reconciliação com Deus (II Co 5:19).
Não estamos comprometidos com um projeto de condenação da
humanidade, e, sim, com o projeto divino de perdão e salvação de todos os
pecadores (I Tm 2:4), em um processo que acontece ao longo de uma
caminhada, liderado e direcionado exclusivamente pelo Espírito Santo de
Deus.
Não precisamos, portanto, da “ajuda” do que já está morto e enterrado
(a Lei) para sermos transformados pela renovação da nossa mente, pois onde
está a Lei, aí está a força do pecado (I Co 15:56) e a escravidão a ele, mas
onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade (II Co 3:17), sem a qual é
impossível que desenvolvamos a nossa percepção espiritual e, alicerçados em
amor, aprendamos a enxergar pelo Espírito, vindo a compreender qual seja a
largura e o comprimento e a altura e a profundidade do amor de Cristo, que
110

excede todo entendimento (Ef 3:15-19), para que não sejamos insensatos,
mas, em tudo, procuremos compreender qual a vontade do Senhor (Ef 5:17).
Todo aquele que crê na Palavra da Verdade do Evangelho é
transportado nos braços de Cristo, da assustadora escuridão do medo (da
Lei) para a maravilhosa luz do seu amor (I Jo 4:18), e agora – consciente
disso ou não – vive na gloriosa liberdade dos filhos de Deus (Rm 8:21),
“desde o dia em que ouvistes e entendestes a Graça de Deus na verdade” (Cl
1:5-6).
O principal sintoma da Graça de Cristo em nós é a sensação de leveza
em um espírito livre. Um renascido na Graça de Cristo é alguém
essencialmente “leve”, pois já não mais carrega nos ombros o peso de suas
transgressões e nem a culpa por elas. E essa sensação de leveza é
absolutamente inabalável, de modo que, certamente passaremos por duras
provações, por grandes e sofridas perdas, desilusões e angústias, mas,
inexplicavelmente, “nem morte nem vida, nem anjos nem principados, nem
coisas do presente nem do porvir, nem poderes, nem altura nem
profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de
Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8:38-39).
Um renascido na Graça de Deus cuja alma e espírito não transbordam
leveza e liberdade é algo, no mínimo, estranho e ainda inadequado ao
Evangelho do Senhor Jesus Cristo.
Os mandamentos da Lei são um fardo pesado demais, que ninguém pode
suportar (At 15:10); são condenação e morte eterna (II Co 3:7-9), e foram
dados para que todo mundo seja culpável perante Deus (Rm 3:19). Mas a
Graça, o perdão e os mandamentos do Senhor Jesus (Gl 6:2) são Boas Novas
(At 13:41), jugo suave e fardo leve (Mt 11:28-30), não trazem condenação
(Rm 8:1-2), são vida em abundância (Jo 10:10) e foram dados gratuitamente
para que...
Bem, escute do próprio Senhor Jesus:
“TENHO VOS DITO ESTAS COISAS PARA QUE O MEU GOZO
ESTEJA EM VÓS, E O VOSSO GOZO SEJA COMPLETO” (Jo 15:11).
A ele toda a honra e toda a glória, para todo o sempre. Amém!

Fernando Carlos M. Rodrigues


Fortaleza-CE, jul/2009
nandocmr@yahoo.com.br