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O MONOPÓLIO DA FALTA DE INFORMAÇÃO NA CONSTRUÇÃO CIVIL COSTA, Fernando Luis de Oliveira Arquiteto

O MONOPÓLIO DA FALTA DE INFORMAÇÃO NA CONSTRUÇÃO CIVIL

COSTA, Fernando Luis de Oliveira

Arquiteto Urbanista UNICID/INBEC/Green Building Council arquitetura2050@gmail.com

T5 Sustentabilidade da construção com terra Palavras-chave: São Paulo, social, preconceito, desinformação, solo-cimento.

Resumo

O conceito de arquitetura ecológica e sustentável ainda é, fora dos grandes centros urbanos

paulistas, algo bastante equivocado e que sofre com o preconceito dos compradores de imóveis e

com o assédio moral por parte de empreiteiros já estabelecidos. Pretende-se mostrar com este trabalho que os pequenos empreiteiros, que já atuam há muitos anos no mercado da construção de pequenas e médias residências, comportam-se como "coronéis", detendo o monopólio das

empreitadas e marginalizando outros profissionais que utilizem técnicas menos ligadas à industrialização, porém mais sustentáveis, como a construção com uso de tijolos de solo-cimento, fabricado pelo próprio construtor, com a utilização de uma prensa, seja manual ou hidráulica. Através

do estudo do contexto histórico e social da região conhecida como Nordeste Paulista; da observação

“in loco” de obras de construção nessa região e através de entrevistas com os construtores,

proprietários, lojistas e moradores, buscamos entender as relações e os enfrentamentos que caracterizam esse “coronelismo” na construção civil.

1. INTRODUÇÃO

O objetivo deste trabalho é chamar a atenção dos leitores para uma realidade recorrente na

construção civil, no Estado de São Paulo.

São Paulo é o estado mais desenvolvido do Brasil, muitas vezes considerado o mais importante, sob diversos aspectos. É a partir deste estado que se originam novas tecnologias, novos produtos e diversas soluções técnicas, não só para a área da construção civil, mas para diversas outras áreas do conhecimento.

O povo paulista é, muitas vezes, considerado aquele que tem acesso à informação e aos

processos de educação, com facilidades que outros estados brasileiros não dispõem.

No entanto, existem barreiras culturais e históricas que não facilitam o seu desenvolvimento. No que diz respeito à construção civil, essas barreiras acabaram por criar uma cultura que valorizou a industrialização, a mecanização, a rapidez e o lucro, mas que, por outro lado, acabou se esquivando das questões ambientais, culturais e sociais.

Hoje em dia, com a retomada dos debates em torno do tema “sustentabilidade”, mais uma vez, o Estado de São Paulo tem demonstrado dinamismo e liderança, fomentando o aparecimento de soluções sustentáveis e valorizando os produtos e as técnicas tidas como “verdes”.

No entanto, a concentração de todo este fomento, técnicas, produtos, conhecimentos e informação, acorre de forma centralizada na capital do estado e nas regiões circunvizinhas, que formam a Grande São Paulo.

Afastando-se deste gigantesco centro urbano, o acesso à informação já não se dá da mesma maneira. Nas regiões interioranas, longe da capital, ocorre o predomínio das heranças culturais e dos conceitos e preconceitos que sobrevivem há anos, no meio da sociedade e que são fortalecidos pela falta de informação.

No que diz respeito à sustentabilidade dentro da construção civil, este fato torna-se um fator limitante quando associado à cultura patriarcal, protecionista e conservadora que ainda

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sobrevive em algumas regiões do estado, como resíduo das estruturas familiares, sociais e econômicas da época conhecida como Ciclo do Café, na qual o Estado de São Paulo teve fundamental importância e destaque.

Neste trabalho, faremos uma observação do contexto social e histórico da região nordeste do estado, dando ênfase às técnicas construtivas com terra crua, de modo que perceberemos a origem dos preconceitos existentes em relação a este tipo de construção.

Também falaremos sobre uma experiência pessoal, ocorrida na mesma região, a qual motivou a pesquisa por trás deste artigo.

Em busca de pessoas que pudessem ter vivido experiências semelhantes, ou que pudessem confirmar a hipótese levantada acima, encontramos outros construtores e/ou moradores de habitações executadas com o tijolo de solo-cimento (que é a versão contemporânea dos blocos de terra crua) e cujas histórias nos deram base para estruturar este trabalho. A transcrição de uma das entrevistas realizadas com essas pessoas será, também, relatada aqui.

Por fim, analisaremos as informações para considerarmos sugestões sobre a questão apresentada.

2. BREVE VISÃO HISTÓRICA

No Brasil, as construções em terra crua existem e são encontradas de norte a sul do país, através das diferentes técnicas construtivas, como a taipa de pilão 1 , o pau-a-pique 2 , o adobe 3 e os tijolos de solo-cimento 4 .

Alguns exemplares da construção com taipa são originários do período colonial brasileiro, uma vez que esta técnica foi trazida pelos colonizadores portugueses e aqui se combinou com outras técnicas construtivas já utilizadas pelos índios.

O pau-a-pique, ou taipa de mão, é fruto dessa combinação de soluções construtivas. Após um período de impacto entre os costumes europeus e a cultura do índio brasileiro, o processo de mestiçagem começou a se tornar visível em diversos setores da vida da população da época, sendo reconhecido a partir de meados do século XVI (Saia, 1978).

Segundo Luís Saia, essa mistura da cultura europeia com a indígena se deu, sobretudo, na região onde se situa, hoje, o Estado de São Paulo e representou um contraste com o que acontecia nas outras regiões da colônia, como o Nordeste, por exemplo, onde o escravo indígena foi logo substituído pelo africano.

Pelo interior do Estado de São Paulo, muitas construções feitas com o pau-a-pique resistem até os dias de hoje, tendo sobrevivido ao ciclo econômico do café, o qual deu grande impulso à vida das pequenas e médias cidades deste estado.

No século XIX, o plantio do café foi adentrando paulatinamente o interior paulista, saindo da cidade de São Paulo em direção à Jundiaí e Campinas, seguindo em direção ao nordeste do estado, onde, por volta do ano de 1870, surgiram as maiores e mais produtivas fazendas de café do mundo, numa região muito fértil devido à presença de terras roxas, próximo à cidade de Ribeirão Preto (figura 1).

É nessa época que ocorre a chegada de diversos grupos de imigrantes europeus, chamados para trabalhar nos cafezais devido à necessidade de mão de obra e também pelo aquecimento da economia e o fim da escravatura.

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E C ONSTRUÇÃO COM T ERRA NO B RASIL TerraBrasil 2012 Figura 1. O Estado de

Figura 1. O Estado de São Paulo, com destaques para as regiões de Ribeirão Preto, Campinas, Jundiaí e São Paulo.

Com a presença desses imigrantes, que trouxeram novas influências de suas culturas para as diversas áreas da vida e da sociedade paulista, as construções em terra crua no Estado de São Paulo passaram a contar com mais uma diferenciação: o uso dos tijolos de adobe, que eram mais utilizados na Europa e em outras regiões brasileiras como o Nordeste, Goiás e Minas Gerais.

Ao longo de todos esses períodos, as construções paulistas em terra crua foram frequentemente associadas a situações marginalizadas, como no caso do pau-a-pique, que estava ligado à ideia da mestiçagem. Também eram sinônimos de pobreza ou de estrutura rudimentar, já que eram utilizadas com mais frequência pelas classes menos abastadas da população, as quais deixavam suas habitações sem revestimentos e o material de sua confecção ficava à mostra. As paredes acabavam apresentando muitas trincas e rachaduras, o que propiciava o aparecimento de insetos, como o barbeiro, que é o responsável pela proliferação do mal de Chagas.

Com a Industrialização Brasileira, especialmente no período entre 1850 e 1930, os tijolos queimados em fornos passaram a ser largamente produzidos e utilizados em todo o país, conferindo aspectos bem mais higiênicos às construções. Também elevaram o status das técnicas construtivas, de vernáculas para modernas.

No entanto, as habitações feitas de terra seja por meio da taipa, do pau-a-pique ou do adobe ainda persistiam no meio das classes menos favorecidas, distanciando-se cada vez mais daquelas construídas para abrigar a aristocracia imigrantista, capitalista e latifundiária, que utilizava o tijolo cerâmico, ou cozido. Essa estrutura agropecuária arcaica e patriarcal, muito presente longe dos centros urbanos da época, convivia com uma complexa estrutura de poder, conhecida como “coronelismo”, a qual centralizava o poder público na figura de apenas alguns cidadãos: os coronéis.

O coronelismo e suas variantes, como o mandonismo e o apadrinhamento, de modo geral, faziam parte das estratégias políticas e eleitorais, encontradas ao longo de todo o território brasileiro, sobretudo nos interiores dos estados. Todavia, essa ação de forças também podia ser encontrada em outras instâncias, desde o âmbito familiar patriarcal até as relações entre fazendeiros e empregados, ou mesmo entre comerciantes mais ricos e outros mais pobres.

Ao final do século XX estimava-se que cerca de um terço da população mundial habitava em construções feitas em terra crua (Dethier, 1982) e, já no início deste século, as revisões

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deste número têm apontado para valores acima de 50% da população mundial, apesar de toda a industrialização e até informatização na área de construção civil.

Além das habitações, esse patrimônio arquitetônico mundial também conta com diversos monumentos: 10% da Lista do Patrimônio Cultural da Humanidade são constituídos por monumentos de arquitetura de terra, segundo o site Wikipédia.

Mesmo assim, as construções em terra crua sofrem forte rejeição por parte da população brasileira em geral, sendo que parte desta é baseada em conceitos e parte em preconceitos, ou seja, uma parte dessa rejeição é baseada em conceitos fundamentados; e outra parte é baseada em ideias infundadas, fruto do desconhecimento das pessoas a respeito destas técnicas construtivas.(Silva, C., 2000, p.72).

3. EXPERIÊNCIA PESSOAL

Minha experiência em construções com terra crua ocorreu com a utilização do tijolo de solo- cimento 4 , que é uma técnica contemporânea também com origem na taipa 1 , porém, com uma forma aperfeiçoada e adaptada às necessidades da vida moderna. Na verdade, o tijolo de solo-cimento assemelha-se mais ao bloco de adobe 3 , sendo que as dimensões são menores e também o processo de manufatura dos blocos é diferente: os tijolos de solo- cimento são colocados em uma prensa (figura 2) e tomam o formato de tijolo mediante pressão, que pode ser feita através de um sistema manual ou hidráulico, enquanto que, para os blocos de adobe, utiliza-se uma fôrma de madeira (figura 3); mas os conceitos são os mesmos de toda a construção com terra crua.

são os mesmos de toda a construção com terra crua. Figura 2. Tijolo de solo-cimento sendo

Figura 2. Tijolo de solo-cimento sendo desenformado, após prensagem manual. (do autor, 2010)

Para não ficar preso às exigências de mercados imobiliários e, também, para poder exercer uma arquitetura mais livre, voltada para questões ambientais e sociais, saí da cidade de São Paulo rumo ao interior do estado e adquiri, no ano de 2010, uma propriedade na cidade de Casa Branca, distante cerca de 230 km da capital.

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E C ONSTRUÇÃO COM T ERRA NO B RASIL TerraBrasil 2012 Figura 3. Blocos de adobe

Figura 3. Blocos de adobe sendo desenformados. (Picorelli, 2011).

Casa Branca situa-se na mesorregião 5 de Campinas e na microrregião 6 de São João da Boa Vista, uma área que já teve sua economia baseada nas lavouras de café e que, hoje em dia, possui indústrias e agricultura diversificadas.

A intenção era desenvolver uma série de projetos de arquitetura utilizando os tijolos de solo- cimento, em uma área nova da cidade um loteamento recém-aberto, que poderia dar origem a um bairro diferenciado, pela presença das habitações feitas com essa técnica.

Para minha surpresa, tão logo iniciamos a construção, começamos a receber visitas de transeuntes e vizinhos. Muitos queriam saber do que se tratava: que tipo de obra seria aquela e que tipo de tijolo era aquele que usávamos.

No entanto, antes mesmo que a construção da primeira casa atingisse um metro de altura, em um dia pela manhã, logo no início dos trabalhos, fomos surpreendidos com uma total destruição. Alguém havia entrado na obra e empurrado os tijolos, fazendo com que as paredes ruíssem. Também quebraram diversos deles com algum tipo de ferramenta.

Tomamos a iniciativa de recomeçar tudo outra vez. Porém, algumas semanas depois, novamente a mesma situação.

Começamos a desconfiar de algumas pessoas, também trabalhadores de construção civil, que diariamente passavam pela nossa obra e nos faziam diversas perguntas. Eles tinham a curiosidade de ver como o tijolo era assentado e como a casa podia ter estabilidade sem estruturas em concreto armado, do jeito que eles estavam acostumados a fazer.

Um deles, inclusive, chegou a nos tratar de forma bastante agressiva em uma conversa que tivemos nos indagando o motivo pelo qual nós, profissionais da cidade de São Paulo, estávamos tão longe de casa e fazendo aquele tipo de construção que eles não conheciam.

Foi, então, que eu comecei a perceber que, de fato, eu estava trabalhando com algo muito diferente, por mais que eu achasse que na minha cidade o tijolo de solo-cimento já fosse algo bem conhecido. Não era apenas diferente, mas era, também, sinônimo de mudanças, algo que poderia tirar aquelas pessoas de suas zonas de conforto ou que viesse a invadir o território já dominado por eles. Era, portanto, algo que merecia a sua rejeição.

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E C ONSTRUÇÃO COM T ERRA NO B RASIL TerraBrasil 2012 Figura 4. Início das obras:

Figura 4. Início das obras: primeiras fiadas assentadas com tijolos de solo-cimento, em Casa Branca, SP. (do autor, 2010)

de solo-cimento, em Casa Branca, SP. (do autor, 2010) Figura 5. Obras já adiantadas: paredes rebocadas

Figura 5. Obras já adiantadas: paredes rebocadas melhor aceitação por parte dos moradores vizinhos. (do autor, 2011)

4. NA PERIFERIA DE SÃO PAULO

Na região metropolitana de São Paulo, afastando-se das áreas mais centrais, nos bairros periféricos, é possível encontrar pessoas que edificaram suas casas utilizando-se dos tijolos de solo-cimento e cujas experiências têm algo de semelhante àquela vivida por mim, no interior do estado: também foi notória a surpresa dos moradores vizinhos diante da construção de uma edificação com esse material.

No entanto, uma diferença chama bastante a minha atenção: as pessoas demonstram desconfiança, mas não se mostram preconceituosas em relação ao material ou ao proprietário da habitação. Também não há qualquer tipo de enfrentamento ou inimizade por parte dos demais construtores da região, mesmo considerando-se que todo o bairro estava e ainda está em total desenvolvimento, com diversas construções aparecendo a cada dia.

O senhor Reinaldo Brito, 39 anos, representante comercial autônomo, morador do bairro de Parada de Taipas, na região noroeste de São Paulo, relatou em entrevista que fizemos que adquiriu informação adequada sobre o tijolo de solo-cimento, não apenas pela questão econômica, mas também pela percepção que possuía dos benefícios ambientais das

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construções com terra crua e, obviamente, conseguia perceber que seus vizinhos não compartilhavam das mesmas ideias ou conhecimentos.

Segundo ele, a falta de conhecimento e a dificuldade de acesso às informações representam um grande empecilho para que a mudança de pensamento possa ocorrer.

Conversamos com ele sobre a construção de sua residência (figura 6) e relatamos essa conversa a seguir.

4.1 Entrevista

Foi o senhor mesmo que fez os tijolos? O senhor possui a prensa?

 

Reinaldo:

Não. Os tijolos foram feitos pela máquina da construtora, a prensa manual.

Nós contratamos a construtora, eles entraram com tijolos, material, mão de

obra e tudo

eu só paguei. Demorou 18 dias para fazer minha casa!

 

Isso já faz quanto tempo?

 

Reinaldo:

A casa já tem, agora, uns 7 (sete) anos.

 

E

o seu bairro

já era

habitado da maneira como ele é hoje? Já

havia

vizinhos?

 

Reinaldo:

Já havia bastante gente, sim. As casas aqui de frente prá minha casa, todas já existiam!

E como foi a reação dos vizinhos?

 

Reinaldo: As pessoas faziam até apostas: eles apostavam que a casa iria cair. Quando começamos a construir, vinham pessoas de outros bairros para ver a construção se desenvolvendo. Nos finais de semana que os pedreiros não vinham, eu chegava aqui e tinha famílias entrando e olhando a casa, o tipo de tijolo, etc. Eles tinham certa curiosidade, porque ninguém tinha visto isso antes.

Na sua rua era só você que tinha uma casa com esse tijolo, não era?

Reinaldo:

Na rua, não! No bairro! Entre os três, quatro bairros aqui vizinhos a minha era a única. Eu fui pioneiro.

Você já contratou tudo direto com a construtora?

Reinaldo: Eu fui lá na construtora, fiz o treinamento, conheci como era o sistema e já peguei os contatos de alguns construtores. O que me cobrou mais barato foi o que eu empreitei para fazer minha obra.

Na tua rua o pessoal constrói bastante, não é? Eu tenho visto que ainda está se construindo bastante

Reinaldo:

Sim, aqui está a todo vapor!

E a maioria constrói com o método tradicional?

Reinaldo: Não, a maioria, não! Todos aqui utilizam o método convencional! Ninguém se

As pessoas precisavam ter um pouco mais de

conhecimento e acessibilidade ao sistema. Eu creio que, se tivesse alguma

interessa por fazer diferente

outra opção

com certeza, a mentalidade deles mudaria.

que as pessoas procurassem os treinamentos, ou palestras

Considerando que os moradores em volta constroem com o método convencional, você se lembra de ter sofrido algum tipo de preconceito, por parte dos outros construtores ou moradores, na época da construção da tua casa?

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Reinaldo: Não, muito pelo contrário! O pessoal ficou maravilhado quando viu tudo acontecendo, entendeu? É claro que existe uma cultura de que a construção tem que ter muito cimento, tem que ter muita pedra, prá poder segurar, porque senão cai. Então, por essa cultura, as pessoas até fizeram apostas de que a minha casa ia cair. Mas aí, eles entenderam como é o sistema e viram as amarrações com ferro, de metro em metro e perceberam que é tão segura, ou até mais segura, do que uma casa convencional.

Você acha que a tua casa ficou mais barata do que uma casa construída pelos métodos convencionais?

Reinaldo:

Com certeza! Minha casa tem aproximadamente 172m 2 e eu gastei

somente com a construtora, sem o acabamento R$ 28.000,00. Depois, com

as portas e janelas, mais os acabamentos

pisos, forros, etc

eu gastei um

pouco mais. No total, eu creio que eu tenha gasto R$ 45.000,00.

E hoje ela vale em torno de R$ 300.000,00!

Você tem consciência dos benefícios do tijolo de solo-cimento em relação ao meio ambiente?

Reinaldo:

Sim, com certeza! Eu sei que eu estou contribuindo para evitar o aquecimento global, porque o tijolo de solo-cimento não sofre queima!

Perfeito!

Bem, senhor Reinaldo, muito obrigado pelo seu depoimento!

 
Reinaldo, muito obrigado pelo seu depoimento!   Figura 6. Residência construída com tijolos de
Reinaldo, muito obrigado pelo seu depoimento!   Figura 6. Residência construída com tijolos de

Figura 6. Residência construída com tijolos de solo-cimento, em bairro afastado do centro de São Paulo. (do autor, 2011).

O depoimento do senhor Reinaldo reforça a hipótese de que a falta de informação sobre o que é um empreendimento com visão global, sustentável e ecológica ainda é algo muito marcante no Estado de São Paulo considerado um dos estados brasileiros mais desenvolvidos.

Ao mesmo tempo, também nos permite perceber que a proximidade com a cidade grande minimiza o impacto dessa falta de conhecimento sobre o trabalho com tijolos de solo- cimento, mesmo que ele ainda exista. Já pelo interior do estado, essa situação se torna mais complexa, quanto mais distante da capital estivermos, talvez por estar associada às questões históricas e culturais, conforme já mencionado no início deste trabalho.

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5. MAIS PARÂMETROS DE COMPARAÇÃO

Em busca de outros parâmetros de comparação para a minha experiência pessoal na construção com terra crua, encontrei a história do senhor José Roberto Bezerra Silva, de 45 anos, paraibano e morador da cidade de Aguiar, distante cerca de 430 km da capital da Paraíba, João Pessoa.

Ele nos relatou o seguinte:

Trabalho com tijolo de solo-cimento desde 1997 e confesso que tenho me espantado com a redução de custo que essa tecnologia permite, aliado a qualidade de empreendimento. Não tenho dúvida de que essa técnica dominará, nos próximos anos, 90% das construções de casas convencionais. São Paulo tem sido o propulsor de desenvolvimento no Brasil, tido como o estado mais desenvolvido, mas, infelizmente, com um pensamento desses, que graças a Deus não é o pensamento do povo da Paraíba”.

Assim como no Estado de São Paulo, o estado da Paraíba também recebeu imigrantes de diversas nacionalidades, que começaram a chegar a partir da independência do Brasil, em 1822. Muitos deles também se direcionaram para as lavouras que, diferentemente de São Paulo, encontraram no algodão o seu “ouro-branco”.

Depois da segunda metade do século XIX, enquanto São Paulo vivia o seu desenvolvimento impulsionado pelas plantações de café, a economia paraibana desenvolvia-se em função das plantações de algodão e dos canaviais.

Outra diferença marcante é a presença de imigrantes holandeses e ingleses que já habitavam a Paraíba mesmo antes do século XIX além dos alemães, que chegaram no começo do século XX. Estes três grupos de imigrantes diferenciam-se da realidade paulista, já que os espanhóis foram os que mais se concentraram por aqui, depois dos portugueses e italianos. O censo de 1920, por exemplo, revelou que 78% dos [imigrantes] espanhóis residiam neste estado” (Seyferth, G., 2010), sendo que a grande maioria deles fixou-se, a princípio, no campo, para trabalhar nas fazendas de café, onde ganharam posições como pequenos e médios proprietários” (Seyferth, G., 2010).

Talvez a grande diferença, entre Paraíba e São Paulo, que justifica a comparação feita pelo senhor José Roberto no tocante à aceitação das técnicas construtivas com terra crua, ainda não seja nenhuma das apresentadas acima, mas sim, uma combinação destas com o fato de que este tipo de construção tem sido explorado há mais tempo no Nordeste brasileiro, onde ele se ajusta melhor ao clima quente e seco. Justamente por isso, podemos encontrar muitos trabalhos acadêmicos e experiências reais acontecendo por lá, assim como a oferta de cursos e treinamentos sobre o assunto.

Prova disso é a criação do Instituto do Bambu, na cidade de Maceió, Alagoas, dedicado à pesquisa do bambu, como matéria prima para a técnica do pau-a-pique. A ideia de sua criação está ligada à continuidade das pesquisas sobre este tema, além da difusão por meio de treinamentos e materiais informativos.

No Sudeste, por outro lado, existem empresas que comercializam blocos de terra crua, mais precisamente, os tijolos de solo-cimento. Na metrópole de São Paulo, por exemplo, os construtores ou futuros proprietários de habitações não produzem eles mesmos esses tijolos, mas os compram de alguns fabricantes. Essas empresas conferiram a esta tecnologia, originalmente considerada manual ou artesanal, o status de “semi- industrializada” (figura 7), já que os tijolos são fabricados em uma escala maior, usando-se prensas hidráulicas. São essas mesmas empresas que oferecem cursos e treinamentos, como aquele a que se referiu o senhor Reinaldo em sua entrevista e que, já sabemos, não são devidamente divulgados ou têm uma participação significativa da população envolvida com a construção civil.

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E C ONSTRUÇÃO COM T ERRA NO B RASIL TerraBrasil 2012 Figura 7. A arquitetura da

Figura 7. A arquitetura da terra, no Brasil (do autor, 2011).

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Já sabemos que o Estado de São Paulo tem características peculiares que o diferencia dos demais estados da federação brasileira. Em sua maioria, essas características são formidáveis e lhe conferem dinamismo e crescimento.

Porém, percebe-se que esse dinamismo está concentrado na capital e nas cidades próximas, onde a oferta de serviços e informação é bastante intensa. Ao nos afastarmos desses grandes centros urbanos observamos a escassez dessa oferta e, consequentemente, um aumento da rigidez em torno dos costumes e tradições.

No caso da construção civil, esse apego às técnicas construtivas tradicionais reforçado por estruturas comerciais e profissionais muito protecionistas acaba criando uma barreira para o construtor que deseja experimentar o uso da terra crua, na busca de uma arquitetura mais adequada ao clima e a biodiversidade.

Em outras palavras, podemos dizer que é necessário instruir o trabalhador da construção para que se vença o preconceito em relação às técnicas e materiais menos ligados à industrialização. Só com o aumento da oferta de cursos e treinamentos sejam eles de origem pública ou privada e com maior divulgação do assunto nos meios de comunicação (fomentando interesse) é que, também, a aceitação dessas técnicas deverá aumentar em decorrência da diminuição do preconceito, da flexibilidade das relações comerciais entre fornecedores e construtores e do interesse das pessoas em adquirirem imóveis planejados de forma sustentável e com baixo impacto ambiental.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Pisani, M.

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Picorelli, L. (2011). Construção de terra: Parte2 Adobe. Lecy C. Picorelli: Bioarquitetura e Bioconstrução, Junho. 2011. Disponível em: < http://lecycpicorelli-

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Rêgo, A. (2008). Família e coronelismo no Brasil: uma história de poder. São Paulo: A Girafa Editora. 384 p.

Saia, L. (1978). Morada Paulista. Coleção Debates. 2ª Edição. São Paulo: Perspectiva. 318

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TerraBrasil 2012

Seyferth, G. (2010). Histórico da Imigração

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NOTAS

(1) Taipa de pilão: a técnica da taipa de pilão consiste em levantar paredes de barro, comprimindo-o com golpes de pilão entre placas de madeira. É uma técnica de origem árabe muito utilizada ainda hoje em países com clima seco.

(2) Pau-a-pique: a técnica da taipa de mão, também conhecida como pau-a-pique, consiste em armar uma estrutura de ripas de madeira ou bambu formando uma tela e, em seguida, preencher os vãos desta tela com uma massa de barro, bastante argilosa e “liguenta”.

(3) Adobe: antecessor do tijolo cozido. A técnica consiste em confeccionar tijolos de barro com formas retangulares e, após um tempo de secagem natural em descanso, sobrepô-los com uma liga de argamassa de mesmo material, formando as paredes.

(4) Tijolos de solo-cimento: Para a confecção de tijolos de solo-cimento, faz-se a massa na proporção de 1:10, ou seja, 1 saco de cimento para 10 sacos de barro. Os tijolos são compactados em uma prensa, que pode ser manual ou hidráulica. Os tijolos devem ficar abrigados em local fechado, durante uma semana, quando são regados com pouca água, durante o processo de cura.

(5) Mesorregião: é uma subdivisão dos estados brasileiros que congrega diversos municípios de uma área geográfica com similaridades econômicas e sociais. Foi criada pelo IBGE e é utilizada para fins estatísticos e não constitui, portanto, uma entidade política ou administrativa.(Wikipedia) (figura 8).

(6) Microrregião é, de acordo com a Constituição brasileira de 1988, um agrupamento de municípios limítrofes. Sua finalidade é integrar a organização, o planejamento e a execução de funções públicas de interesse comum, definidas por lei complementar estadual.

de interesse comum, definidas por lei complementar estadual. Figura 8. O Estado de São Paulo dividido

Figura 8. O Estado de São Paulo dividido em Mesorregiões (Wikipedia).

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AUTOR

Fernando Luis de Oliveira Costa, arquiteto urbanista paulistano, formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Autor de projetos residenciais em solo- cimento e de edifícios comerciais que visam à máxima eficiência energética, em São Paulo.