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Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

Luciana Moherdaui

Interfaces nômades 1

Uma proposta para orientar o fluxo noticioso na Web

DOUTORADO EM COMUNICAÇÃO

SÃO PAULO

Maio, 2012

1 Esta tese foi elaborada com o apoio do UOL (www.uol.com.br), através do Programa UOL Bolsa Pesquisa, processo número 20080102180000.

Luciana Moherdaui

Interfaces nômades

Uma proposta para orientar o fluxo noticioso na Web

DOUTORADO EM COMUNICAÇÃO

Tese apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo como exigência parcial para obtenção do título de Doutor em Comunicação e Semiótica na linha de Pesquisa Processos de Criação nas Mídias. Orientação: Rogério da Costa

SÃO PAULO

2012

Folha de aprovação

Banca examinadora

Rogério da Costa - Orientador

Giselle Beiguelman (FAU/USP)

Pollyana Ferrari (PUC/SP)

Lúcia Leão (PUC/SP)

Cícero Inácio da Silva (UFJF/MG)

Agradecimentos

Este trabalho ficaria sem fôlego não fossem as orientações de Giselle Beiguelman e Rogério da Costa. Giselle por ter deixado esta jornalista e pesquisadora voar, indefinidamente, e Rogério por aparar as arestas e torná-lo realidade nas cerca de 300 páginas que se seguem.

Também foram absolutamente fundamentais os apoios recebidos pela Coordenação do Programa de Comunicação e Semiótica (COS) da PUC/SP, (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), cuja Bolsa de Estudo permitiu a realização de um projeto pessoal e profissional, o Doutorado, e pelo Programa UOL Bolsa Pesquisa por contribuir com minha formação acadêmica.

Tenho especial apreço pelo coletivo inteligente que colaborou amplamente em minha pesquisa mesmo sem, às vezes, ter-se dado conta, por meio de redes sociais ou conversas informais. Às vezes, em comentários sobre Jornalismo ou pela leitura de posts. Um deles, especialmente feito por Leão Serva, ex-chefe no iG e hoje meu amigo. Trata-se de uma piada contada nas redações toda a vez que surge uma reforma gráfica: “com fio ou sem fio?”

Explico: grosso modo, os projetos gráficos baseiam-se em uma máxima que surgiu após a grande mudança instituída no Jornal do Brasil por Jânio de Freitas, no final dos anos 1950: as reformas de jornal alternam-se por tirar e colocar fios. Em junho de 1959, o jornalista, atual colunista da Folha de S.Paulo, decidiu arrancar os fios das páginas e aumentar o tamanho das fotos no JB. Dizia que os leitores não liam fios. Também integravam o time Odylo Costa Filho, Ferreira Gullar, Alberto Dines e Reynaldo Jardim.

A todos a minha gratidão, essa palavra-tudo, como diria Carlos Drummond de Andrade (1902-1987).

“Nenhum conhecimento precede a experiência, todos começam por ela”

Immanuel Kant

Resumo

Esta pesquisa analisa a interface jornalística na Web, embora a conclusão possa ser estendida a outros protocolos e aplicativos. O objetivo principal é repensar a exibição da notícia que circula no fluxo. A migração da cultura de página estática para a cultura de dados (BERNERS-LEE: 2009) modificou o padrão de comunicação que vigorou no século 20. Foram incorporados à transmissão, publicação e recepção os seguintes termos: anotar, comentar, responder, agregar, cortar, compartilhar, download, upload, input e output (MANOVICH: 2008, p. 226). Esta tese parte do pressuposto de que os projetos de Jornalismo para a Internet são constituídos sob a lógica do jornal impresso, com hierarquia e diagramação em colunas (NELSON: 2001) quando a dinâmica atual indica a implosão da página, a perda do processo de padronização editorial. Nesse sentido, a discussão será fundamentada a partir de noções de revezamento, agenciamento (DELEUZE; GUATTARI, 2007, p. 180), mapa (DELEUZE; GUATTARI: 2006, p. 21-23) e teorias do Jornalismo.

Palavras-chave: jornalismo, Internet, interface, agenciamento, tag

Abstract

This research analyzes the news on the Web interface, although the finding can be extended to other protocols and applications (apps). The main objective is to rethink the view of news circulating in the right flow. The migration of static page culture to the culture data (BERNERS-LEE, 2009) changed the pattern of communication prevailed in the 20th century. The following terms were incorporated into the transmission, publication and reception: annotate, comment, reply, add, cut, share, download, upload, input and output. (MANOVICH, 2008, p. 226). This thesis assumes that journalism projects for the Internet are made under the logic of the printing press, with hierarchy and in columns (NELSON, 2001) when the current dynamics of the implosion of the page indicates, the loss of the standardization editorial process. In this reality, the discussion will be based from notions of relay assemblage (DELEUZE; GUATTARI, 2007, p. 180), map (DELEUZE; GUATTARI, 2006, p. 21-23) and theories of Journalism.

Keywords: digital journalism, interface, agency, tag

Sumário

Índice de figuras

 

PG 10

Índice de tabelas

PG 17

Introdução

PG 18

Capítulo 1. Internet das Coisas

PG 29

A rede mundial de computadores

PG 30

Economia: a primeira bolha

PG 35

Tudo agora é ciberespaço

PG 39

Computação ubíqua

PG 43

 

A

Web não morreu

PG 50

Jornalismo de Internet

PG 53

Bem além do papel

PG 59

Design gráfico faz a diferença

PG 63

Metáfora como ponto de partida

PG 68

A interface é a mensagem

PG 71

Corpo informacional

PG 74

Agenciamentos que reconfiguram a interface

PG 77

Capítulo 2. Estética Power Point

PG 84

Ponto de vista jornalístico

PG 85

Nem toda informação é notícia

PG 88

 

A

realidade pela lente do Jornalismo

PG 90

Design de superfície, redundância e imperativo

PG 93

Nos gadjets, um pouco além da repetição

PG 103

Tudo é igual para todos

PG 106

Como a interface mudou o Jornalismo

PG 110

 

O

jornal foi parar dentro do Facebook

PG 115

Desconstruindo conceitos

PG 117

As quatro fases do Jornalismo de Internet

PG 119

Para analisar a interface, Foucault

PG 129

O

que caracteriza o Jornalismo de Internet?

PG 132

Capítulo 3. Interfaces nômades

PG 147

Rupturas e remediações

PG 148

A

Web de Ted Nelson

PG 153

Por uma crítica da metáfora

PG 156

Uma nova linguagem visual híbrida

PG 161

A

primeira interface de conversação

PG 165

Tag para desenhar

PG 170

Arquitetura da informação ainda dá conta?

PG 176

Interface como superfície

PG 177

A inteligência distribuída deslocou a fonte

PG 180

A influência da arte digital

PG 185

Links tomam o lugar das prateleiras

PG 189

Notícia em rede

PG 195

Twitter põe em xeque a manchete

PG 199

No Facebook, jornal mantém a tradição

PG 205

O jornal como rede social

PG 207

A implosão da página estática

PG 214

Conclusão

PG 223

Bibliografia

PG 239

Anexos

PG 251

Formulário de observação e ficha técnica

PG 251

Relatório final do Programa Bolsa UOL de Pesquisa

PG 254

Interfaces pesquisadas

PG 258

 

2012

PG 258

2009

PG 273

2008

PG 288

Índice de figuras

Figura 1. Mosaic, primeiro browser gráfico

PG 35

Figura 2. Netscape Navigator

PG 35

Figura 3. Receita por usuário na Internet

PG 38

Figura 4. Projeção da Internet das Coisas em 2020: 50 bilhões

PG 45

Figuras 5, 6. Internet das Coisas não se resume a tablets ou smartphones

PG 46

Figuras 7, 8. Após 2011, domicílios irão gerar mais tráfego na Internet

PG 46

Figura 9. Projeto Sixth Sense (MIT): usando a palma da mão para discar um número

PG 47

Figura 10. Projeto Sixth Sense (MIT) 2 : passagem aérea atualiza status do voo

PG 48

Figura 11. Projeto Sixth Sense (MIT) 3: projetor, câmera e marcadores de cor utilizados para acessar dados

PG 48

Figura 12. Projeto Sixth Sense (MIT) 4: jornal impresso exibe vídeo de noticiário ao vivo

PG 49

Figura 13.

Projeto Morph, da Nokia

PG 49

Figura 14.

Pesquisa da Wired sobre uso de aplicativos

PG 51

Figura 15. Comparação entre uso de aplicativos e consumo de Web

PG 52

Figura 16. Número de interfaces criadas na Web a cada 60 segundos

PG 53

Figuras 17, 18. Interfaces da CNN em 11 de setembro de 2001

PG 55

Figura 19. Cobertura da posse de Barack Obama no Facebook via CNN

PG 59

Figura 20. Interface da primeira página do Sunday Tribune

PG 65

Figura 21. Primeira página do The New York Times impresso, 1860

PG 67

Figura 22. Primeira página do The New York Times, impresso 1980

PG 67

Figuras 23, 24, 25. Versões impressas das capas do caderno de Esporte da Folha de S.Paulo durante a Copa 2006

PG 69

Figuras 26, 27, 28. Interfaces da Folha de S.Paulo na Web durante a Copa 2006

PG 70

Figura 29. Cena de Johnny Mnemonic (1995), de Robert Longo

PG 75

Figura 30. Cena de eXistenZ (1999) , de David Cronenberg

PG 76

Figura 31. Cena de Videodrome (1982), de David Cronenberg

PG 76

Figura 32. Infográfico da ComScore sobre o aumento do acesso às redes sociais no mundo

PG 80

Figura 33. Infográfico do Ibope sobre acesso às redes sociais no Brasil

PG 81

Figura 34. Infográfico do Nielsen sobre tempo pelos americanos na Internet

PG 82

Figura 35. Diagramação da Folha Online entre layout Web e impresso

PG 94

Figura 36. BBC, 2008: abusa da repetição ao oferecer customização

PG 95

Figura 37. Terra, 2009: palavras repetidas na edição

PG 95

Figura 38. Folha Online, 2008: redundância e uso de setas no espaço tridimensional que é a Web

PG 96

Figura 39. Folha.com, 2011. Ainda com uso de setas, mas sem Redundâncias

PG 96

Figura 40. Estadão.com, 2008, palavras repetidas na edição

PG 97

Figura 41. Estadão.com, 2011, eliminação da redundância

PG 97

Figura 42. Globo Online, 2008, palavras repetidas na edição

PG 98

Figura 43. Globo Online, 2011, com pouca redundância

PG 98

Figuras 44, 45. Interfaces da CNN para iPad

PG 103

Figuras 46, 47. Interfaces da ABC News para iPad

PG 104

Figuras 48, 49. Interfaces das redes ABC News e CNN para iPhone

PG 104

Figuras 50, 51. Interfaces da Wired para iPad

PG 105

Figuras 52, 53. Interfaces da Wired para iPhone

PG 105

Figura 54. Estrutura de arquitetura da informação na Web

PG 106

Figura 55. Reconhecimento facial do Facebook

PG 108

Figura 56. Primeiro blog da Web, de Tim Berners-Lee

PG 110

Figura 57. Localização do post de Sohaib Athar via Google Maps

PG 112

Figura 58. Esquema tradicional da coleta de notícias e do seu processamento

PG 112

Figura 59. Post com anúncio da morte de Bin Laden por Keith Urbahn, antigo chefe de gabinete de George W. Bush

PG 112

Figura 60. Enquete no Facebook para saber quem noticiou primeiro a morte de Amy

PG 113

Figura 61. Interface do The New York Times com a notícia da morte de Amy Whinehouse

PG 114

Figura 62. Interface do Daily Mail com a notícia da morte de Amy Whinehouse

PG 114

Figura 63. Interface do Washington Post Reader no Facebook

PG 115

Figura 64. Interface do The Guardian APP no Facebook

PG 116

Figura 65. Interfaces impressa e de Web do The Bugle Beacon

PG 119

Figuras 66, 67. Interfaces impressa e de Web da Folha de S.Paulo

PG 121

Figura 68. A apresentação da Folha Digital, exemplo de metáfora, 2009

PG 121

Figura 69. Interface da Folha.com, 2011

PG 123

Figura 70. Interface de O Globo na Web, 2011

PG 123

Figura 71. Interface do Google Flip, 2011

PG 123

Figura 72. Interface do MSNBC , 1997

PG 125

Figura 73. Interface do Último Segundo, 2011

PG 125

Figura 74. Interface do Huffington Post, 2011

PG 126

Figura 75. Mapa coletivo feito com aplicativo do Google mostra avanço da gripe aviária

PG 127

Figura 76. Twitter do jornal USA Today com informações sobre a gripe aviária

PG 128

Figura 77. Mapa do Google sobre avanço da gripe aviária por região

PG 128

Figura 78. Interface do Le Monde, 1996

PG 133

Figura 79. Interface da BBC, 1997

PG 134

Figuras 80, 81. Interfaces da edição número 17 da NEO (1997),

a

primeira revista em CD-ROM no Brasil

PG 137

Figuras 82, edição número, 16

Interfaces da revista NEO,

PG 138

Figuras 84, 85, 86, 87. Interfaces da revista NEO, edição número, 16

PG 138

Figura 88. Cobertura do Estadão sobre a morte de Michael Jackson,

2007

 

PG 141

Figura 89. Cobertura do The New York Times sobre a morte de Michael Jackson

PG 141

Figura 90. Cobertura do Último Segundo sobre a morte de Michael Jackson

PG 142

Figuras 91, 92. Versões brasileira e inglesa de destaque em vídeo da BBC sobre a Líbia, 2011.

PG 143

Figura 93. Interface da CNN sobre a Líbia, 2011

PG 143

Figuras 94, 95. Movie Map, primeiro sistema hipermídia, desenvolvido pelo Massachussets Institute of Tecnology

PG 144

Figura 96. Zite, aplicativo para customizar conteúdo para iPad

PG 145

Figura

97.

PointCast, primeira tecnologia push, de 1996

PG 146

Figura 98. Interface do El Pais, 1996

PG 150

Figura 99. Diagrama do Xanadu, sistema de hipertexto de Ted Nelson

PG 154

Figura 100. Apple 1, lançado em 1976 pela empresa de Steve Jobs

PG 158

Figura 101. Macintosh, lançado em 1984 pela Apple

PG 158

Figura 102. Logomarca do Napster, criado por Shaw Fanning

e

Sean Parker

PG 159

Figura 103. Sketchpad, primeira interface de conversação, 1962

PG 167

Figura

104. Caneta ótica, de Ivan Sutherland, 1965

PG 167

Figura 105. Sistema Augment/NLS, processador baseado em texto e mouse

PG 168

Figura 106. A arquitetura Augment/NLS, de Doug Engelbart

PG 168

Figura 107. Grail, sistema de reconhecimento por gesto, de Tom Ellis

PG 169

Figura 108. Dynabook, computador pessoal para desenvolvido para crianças por Alan Kay

PG 169

Figura 109.

Nuvem de tags dos tópicos mais comentados da

The Economist

PG 170

Figura 110. Base de dados sobre os 66 anos da bomba de Hiroshima feita por meio da plataforma do Google Earth

PG 172

Figura 111. Tackable, aplicativo para telefones celulares para uma rede social fotográfica desenvolvida em parceria com San José Mercury News

PG 172

Figura 112. Interface de busca em tempo real no Twitter via Google

PG 173

Figura 113. Ushahidi, plataforma de criação de mapa open source utilizada pela BBC para mostrar os problemas causados pela greve do metrô em Londres

PG 173

Figura 114. Revisit, aplicativo para visualização em tempo real de posts sobre temas específicos

PG 174

Figura 115. TimeSpace, mashup noticioso do The Washington Post, com texto, áudio, vídeo e fotos produzidos ao redor do mundo

PG 174

Figura 116. How Twitter tracked the News of the World scandal, termômetro do The Guardian sobre como o microblog reagiu às denúncias de grampos contra celebridades no Reino Unido

PG 175

Figura 117. Cascade, projeto do NY Times Lab para avaliar o comportamento dos leitores em relação ao conteúdo do jornal

PG 175

Figura 118. Esboço arquitetura de informação para interfaces

PG 177

Figura 119. Twitter da Mônica Bérgamo com notícia sobre a saída de Fátima Bernardes da bancada do Jornal Nacional (Rede Globo)

PG 184

Figura 120. Desaparecimento das categorias, proposta por Clay Shirky: hierarquia

PG 190

Figura 121. Desaparecimento das categorias, proposta por Clay Shirky: hierarquia com links

PG 190

Figura 122. Desaparecimento das categorias, proposta por Clay Shirky: hierarquia com muitos links

PG 191

Figura 123. Desaparecimento das categorias, proposta por Clay Shirky: apenas links

PG 191

Figura 124. Your Life, Our Movie, de Fernando Velázquez

PG 193

Figura 125. 10 x 10, de Jonathan Harris

PG 193

Figura 126. The Origin of Species, de Ben Fry

PG 194

Figura 127. We Feel Fine, de Jonathan Harris e Sep Kamvar

PG 194

Figura 128. Proposta de uso de hashtag no Twitter, de Chris Messina

PG 195

Figura

129. Cartaz do

Revolution Tools

PG 197

Figura 130. Cartaz do protesto thinkflickrthink

PG 198

Figura 131. Blog do Twitter indica hashtags e perfis a serem seguidos para obter com últimas notícias sobre o terremoto do Japão

PG 202

Figura 132. Interface de emergência do Google sobre o terremoto do Japão

PG 203

Figura 133. Mapa colaborativo com informações sobre o terremoto do Japão

PG 204

Figura 134. Twitter Stories, interface não hierárquica para criação e narrativas por meio de hashtags

PG 205

Figura 135. Interface textual Social APP do The Guardian no Facebook

PG 206

Figura 136. Interface Social Reader no Facebook

PG 207

Figura 137. Interface do HuffoPost Social News

PG 208

Figura 138. TimesPeople, rede social de recomendação para textos do The New York Times

PG 209

Figura 139. Mashup com aplicativo do Google Maps sobre a ocupação do Morro do Alemão, no Rio de Janeiro, atualizado pelo Twitter do jornal O Globo e dos cidadãos

PG 215

Figura 140. Interface da Globo News ao vivo com a cobertura da ocupação do Morro do Alemão

PG 215

Figura 141. Interface do UOL News com a cobertura completa da ocupação do Morro do Alemão

PG 216

Figura 142. Interface do Google Search sobre a ocupação do Morro do Alemão

PG 217

Figura 143. Interface de busca em tempo real do Twitter via Google Maps com notícias sobre o morro do Alemão

PG 217

Figura 144. Reprodução do Google Earth com vídeos e informações sobre o Alemão

PG 218

Figura 145. Cena de A era da estupidez, de Franny Armstrong

PG 218

Figura 146. Interface do Twitter exibida no YouTube com posts sobre os protestos no Egito

PG 219

Índice de tabelas

Tabela 1. Nomenclaturas

PG 61

Tabela 2. Computador e interface ontem e hoje

PG 72

Tabela 3. Novo paradigma da comunicação

PG 83

Tabela 4. Critérios de Noticiabilidade

PG 90

Tabelas 5. Comparação entre jornalismo impresso e de Internet

PG 152

Tabela 6. Comparação entre jornalismo impresso e de Internet

PG 155

Tabela 7. Comparação entre jornalismo impresso e de Internet

PG 156

Tabela 8. Jornalismo ontem e hoje

PG 180

Introdução

Quando o projeto 2 desta tese foi elaborado, em meados de 2008, pensava-se a World Wide Web, o protocolo multimídia da Internet, como uma página estática, com a lógica do projeto gráfico de jornais, calcada em hierarquia 3 , diagramação e colunas (NELSON: 2001), e o browser um emulador do paginador.

Inclusive o título (Os critérios de composição no Jornalismo Digital – Em busca de um modelo ideal de páginas noticiosas) remetia a uma clara tentativa de reordenar a miscelânea configurada pela edição das interfaces naquele período – marcado, sobretudo, por excesso de redundância e imperativo.

O uso de redes sociais ainda não era tão representativo como hoje. A curva de crescimento, principalmente do Facebook, começou a aumentar significativamente em 2009, segundo a ComScore. Dados da empresa que mede audiência na Internet mostra que 1,2 bilhão de pessoas acessam redes sociais em todo o mundo.

Outra característica marcante da produção jornalística na Internet são os portais e os chamados sites noticiosos. Steve Outing, um dos mais importantes estudiosos do tema, definiu portal como um agregador de diversas fontes de conteúdo, centralizados em vários destaques na “página inicial” (OUTING: 1999 apud FERRARI: 2002).

Quem melhor mostrou a forma pela qual as interfaces foram sendo apropriadas desde o surgimento do protocolo de Berners-Lee foi Elliot Zaret, então editor da MSNBC, em 2000, no artigo The Theory of Portal Evolution:

No começo, tínhamos a Web. Muita informação, vários cliques e isso parecia bom. Mas muito rapidamente começou a aparecer muita informação e ferramentas de busca foram necessárias para encontrar o conteúdo espalhado como em teias de aranha. E depois das ferramentas de busca

2 Para ler a íntegra do projeto, ver: http://bit.ly/wwbeOs. Acesso jan. 2012. 3 O dicionário Houaiss define hierarquia como: “organização fundada sobre uma ordem de prioridade entre os elementos de um conjunto ou sobre relações de subordinação entre os membros de um grupo”.

vieram os diretórios e depois deles os portais, os cliques para e-commerce” (apud FERRARI: 2002, p. 17).

Essa lógica de portais começa a ser questionada por esta jornalista quando há a percepção do estrondoso interesse no consumo de notícias por meio de redes sociais. Levantamento da Nielsen Wire já apontava, em 2010, baixa nos índices:

entre 2009 e 2010, a empresa registrou queda de 19% no tempo que os americanos gastavam acessando portais – de 5,5% para 4,4%. Já o interesse por redes sociais havia aumentado 43% no mesmo período – 15,8% para 22,7% 4 .

No Brasil, embora o Ibope tenha mostrado em 2010 que 60% dos internautas disseram que as redes sociais são suficientes para se manterem informados 5 , afirmou um ano depois que “portais são absolutamente relevantes e são a referência para o adulto.”

O portal como espaço estriado, metrificado, com fronteiras delimitadas, já fora criticado amplamente por André Lemos, professor e pesquisador da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Para Lemos, os portais são currais porque "configuram- se como estrutura de informação (conteúdo) que tratam as pessoas como bois digitais forçados a passar por suas cercas para serem aprisionados em seus calabouços interativos" (2000).

Também contribuiu para a mudança de perspectiva desta tese o anúncio do engenheiro britânico Tim Berners-Lee no TED (sigla em inglês para Technology, Entertainment, Design) de 2009, um dos mais importantes eventos de tecnologia do mundo: a migração da cultura de página para a cultura de dados.

Se antes a proposta era analisar a composição, o design de interfaces jornalísticas dos jornais (em sites e portais) de maior audiência no Brasil 6 e no

4 WHAT AMERICANS do online: Social media and games dominate activity. Nielsen Wire, EUA, 2 ago 2010. Disponível em: http://bit.ly/yuF8Sp. Acesso jan. 2012. 5 Ver nota 75.

6 De acordo com dados do Instituto Ibope: Globo Notícias (G1), UOL Notícias Folha (Folha.com), Terra Notícias, Estadão.com.br, Google News, iG News (Último Segundo), R7 Notícias, BBC, The New York Times, Band.com.br, CNN, MSNBC, El País, The Guardian e Huffington Post.

mundo, com base na Teoria do Jornalismo, mais especificamente o newsmaking, e

tendo como cerne a narrativa, a afirmação do pai do WWW levou a uma abordagem

completamente diferente. É óbvio que o newsmaking foi fundamental na primeira

fase da pesquisa e também para a sua conclusão.

Igual importância tem a narrativa. Porém, essas interfaces, objeto desta

pesquisa, passaram a ser observadas sob os pontos de vista do design

informacional, da auto-organização do browser e das dinâmicas das relações que se

estabelecem nas redes sociais, principalmente Twitter e Facebook.

Não fazia mais sentido aplicarem-se à pesquisa critérios para composição da

página, cujo modelo partia da organização das primeiras páginas dos jornais

impressos. Nem tampouco usar as nomenclaturas orientadas pela reprodução de

metáforas analógicas, como site ou homepage, por exemplo, cujo público-alvo é o

sujeito cartesiano.

Também não mais cabia propor um modelo de página com base no ideal

kantiano, conforme designava o projeto original, algo que a razão pura exige, mas

que não é dado no campo da experiência.

Conceito próximo ao de o matemático alemão Richard Dedekind (1831-1916),

que o definiu como um sistema algébrico que atendia a determinadas condições.

Mediante a sistematização, Dedekind preferia enfatizar propriedades

fundamentais dos objetos matemáticos, em oposição às suas representações

particulares.

É verdade que quando transpostos à Web, os valores-notícia de composição

(WOLF: 2002) não fazem jus aos projetos gráficos que mudaram o Jornalismo

impresso nos anos 1960 e 1970. Alguns não alcançam sequer a metáfora de suas

versões tradicionais.

Porém numa observação mais aprofundada feita, principalmente, a partir de

dois pontos indica que é possível rever o design informacional na Internet: arte

digital e rede social (Social News e jornal como rede social). Ou seja, as interfaces, antes estáticas, tornaram-se nômades 7 e implodiram o processo comunicacional baseado na hierarquia. Esse raciocínio deu origem ao título desta tese.

Implodir a página significa perder a padronização editorial. Essa é atualmente a grande questão para os jornais, já que o conceito de edição está em xeque. A informação principal não está mais na manchete, mas no buzz gerado na rede. As pessoas não seguem mais editorias, buscam notícias por tags, hashtags 8 ou em perfis de jornalistas, cidadãos, instituições ou empresas de comunicação, entre outros, nas redes sociais.

As tags são também constituidoras de interfaces. Há um sem número de exemplos na arte digital e nas redes sociais que demonstram essa possibilidade. Outro detalhe importante é que nem tags nem hashtags podem ser editadas já uma vez publicadas. Não há como o Jornalismo poder controlá-las.

É curioso anotar que se fala da não linearidade do texto jornalístico na Web desde os primeiros trabalhos publicados, na década de 1990 (sejam eles escritos para academia ou para o mercado).

Ao longo dos anos, importantes pesquisadores pregaram essa característica como uma das definidoras do WWW (assim como hipertextualidade, multimidialidade, interatividade, teleação e memória, entre outras) e propuseram formatos outros (FERRARI: 2007; SALAVERRÍA: 2005, PAUL: 2005, MCADAMS:

2005, MEADOWS: 2003; MIELNICZUK: 2003; MURRAY: 2003, MANOVICH: 2001; DEUZE: 2001; LÉVY: 1999; LANDOW: 1995).

Ao que se refere à narrativa, a proposta de Pollyana Ferrari, em sua tese doutoral para a Escola de Comunicação e Arte da Universidade de São Paulo (USP),

7 Um nômade não tem pontos, trajetos, nem terra, embora evidentemente ele os tenha. Eles se reterritorializam na própria desterritorialização. A terra deixa de ser terra e tende a se tornar simples solo ou suporte (DELEUZE; GUATTARI: 2007, p. 53).

8 Tags e hashtags são etiquetas, palavras-chave utilizadas na rede para marcar conteúdo. As hasgtags carregam o sinal sustenido # e são características do Twitter.

defende a não hierarquização da narrativa: “Na Web não há hierarquia absoluta. Cada leitor é um agente de seleção, de bifurcação, ou de transversalidade, em camadas rizomáticas” (2007, p. 186-187).

Ted Nelson fizera afirmação semelhante no começo dos anos 2000 e antes do WWW, com seu Xanadu, na década de 1960. Giselle Beiguelman corrobora essa ideia em O livro depois do livro (2003).

Embora haja diversas propostas para narrativas textuais e constituições de interfaces como o Xanadu, de Nelson, o design de interface ficou relegado ao formato jornal.

Isso é percebido nos excelentes projetos para a Internet assinados por empresas mundo afora, como García Media 9 , capitaneada por Mario García, passando pela Case i Associats 10 , de Francisco Amaral, e Institute for the Future of the Book 11 , comandado por Bob Stein, responsável pelo redesenho de Wired e The New Yorker (Web e tablet). O design assemelha-se, nas palavras do pesquisador russo Lev Manovich, a um PowerPoint com mídias distribuídas (2008, p. 45).

De modo algum tal informação é exagero. Em 2011, os principais profissionais dessa área participaram do LIDE2011 (Linguagem, Informação e Design Editorial) 12 , entre eles, Chiquinho Amaral, que definiu o desenho do iPad para O Estado de S.Paulo como “editado e diagramado”.

A estética da base de dados inexistiu naquele debate nem tampouco a importância da não diagramação e da não hierarquização empurradas pelas redes sociais. De modo geral, conclui-se que a Web se assemelhará ao papel; os projetos são pautados pela hierarquia, e o iPad é uma banca de revistas, ainda que sua interface seja horizontal e vertical.

9 Para saber mais sobre a García Media, ver: http://bit.ly/wkkKs5. Acesso jan. 2012.

10 Para saber mais sobre a Case i Associats, ver: http://bit.ly/zHGRK1. Acesso jan. 2012.

11 Para saber mais sobre o Institute for the Future of the Book, ver: http://bit.ly/AogqNY. Acesso jan. 2012.

12 Para saber mais sobre o LIDE2011, ver: http://bit.ly/xJoeKA. Acesso jan. 2012.

Mas as conclusões do LIDE2011 não chegam perto da reformulação conceitual impulsionada pela dinâmica das redes. Talvez por uma questão mercadológica, como afirmaram os designers Gabriel Gianordoli e Jorge Oliveira: “A Apple descobriu que revista se compra na banca. Na banca da Apple Store!”. Para os profissionais, “caiu o conceito de página,” conforme Berners-Lee havia previsto no TED ao anunciar a cultura de dados.

E as redes são um reflexo dessa mudança: operam por agenciamentos coletivos de enunciação, orquestrados por produser/prosumer e um coletivo inteligente que transformam a interface em um “mapa aberto, conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível, suscetível de receber modificações constantemente” (DELEUZE; GUATTARI: 2006, p. 22).

Na rede, o design é fruto de revezamento: uma tensão constante entre informação e contrainformação (DELEUZE: 2011), poder e contrapoder (FOUCAULT: 1999; CASTELLS: 2009) 13 .

Embora, a configuração seja a de um espaço liso por excelência, sem fronteiras delimitadas, nômades, há sempre a tentativa de estriá-lo (DELEUZE: GUATTARI:

2007, p. 80), como ocorreu recentemente com os protestos contra as leis antipirataria (SOPA) e de propriedade intelectual (PIPA) nos Estados Unidos.

Se aprovadas fossem, essas leis permitiriam bloquear interfaces que supostamente violassem direitos autorais de empresas americanas, penalizando também companhias com sede nos Estados Unidos que liberarem acesso a esses conteúdos.

Porém, uma crítica feita pelo governo Barack Obama 14 e movimentos nas redes sociais capitaneados por Google, Wordpress, Wikipedia, Craiglist (classificados),

13 Michel Foucault define contrapoder como ações de resistência contra aparelhos de captura (1999, p. 30). Já para o Manuel Castells, trata-se da capacidade de um ator social resistir ou enfrentar relações de poder institucionalizadas (2009, p. 47-49). 14 CASA BRANCA critica lei antipirataria. Link Estadão. 16 jan. 2012. Disponível em:

http://bit.ly/y09rCh. Acesso jan. 2012.

Ubuweb (base de dados de poesia sonora, escrita e visual), Flickr, Gizmodo, The Huffington Post e Wired, entre outros 15 , e cidadãos mundo afora fez com que o Congresso adiasse indefinidamente a votação dos projetos 16 .

São os percursos pelos quais o Jornalismo passou – desde a publicação daquela que é considerada a primeira tese produzida pelo alemão Tobias Peucer, em 1690, quando foram sistematizados critérios de noticiabilidade e práticas da profissão, à apropriação das redes sociais por esse campo da Comunicação – que interessam a esta tese abordar.

O objetivo é contribuir para os estudos sobre design informacional na Internet, especificamente ao que se refere à interface da notícia que circula no fluxo cujo tempo é atemporal (CASTELLS: 2002, p. 553-560).

Por essa razão, o primeiro capítulo apresenta uma revisão histórica do Jornalismo produzido na Internet desde os anos 1970, quando o The New York Times realizou suas primeiras experiências em rede com o InfoBank, serviço de informação com artigos do jornal. Em 1969, a BBC já havia realizado testes com videotexto.

A expansão da Internet das Coisas bem como o fim da ideia de ciberespaço como um divisor entre real e virtual dão evidências consistentes da reconfiguração da interface jornalística. A notícia pode ser acessada desde dispositivos portáteis a uma parede envolvida por tinta digital 17 , sem formatos previamente definidos. Também é passado em revista o design gráfico de jornais para um entendimento melhor sobre a forma pela qual se dá a atual exibição de notícias na rede.

15 Para saber quem mais protestou contra o SOPA, ver: http://bit.ly/y1XTzU. Acesso jan. 2012.

16 SOPA é retirada da pauta do Congresso dos EUA. Link Estadão. 20 jan. 2012. Disponível em:

http://bit.ly/yDYpwT. Acesso jan. 2012.

17 A tecnologia da tinta digital consiste de duas camadas de esferas microscópicas – metade pretas,

metade brancas – que mudam de posição ao receberem estímulos elétricos. Como a tecnologia dispensa a iluminação backlight e só é necessário aplicar energia para alterar a imagem, e não para exibi-la, este sistema consome muito menos bateria do que uma tela de cristal líquido tradicional. Para saber mais sobre tinta digital, ver: http://bit.ly/z4qwk9 e http://bit.ly/x0r4uf. Acesso jan.

2012.

Definir Jornalismo e sistematizar conceitos que correspondem à sua prática, como newsmaking (produção de notícias), gatekeeper (seleção de notícias) e agenda-setting (agenda de pautas), são fundamentais no segundo capítulo para compreender como a cultura de dados modificou o padrão de comunicação que vigorou no século 20, baseado em transmissão, publicação e recepção.

A esse padrão foram incluídos os seguintes termos: anotar, comentar, responder, agregar, cortar, compartilhar, remix, download, upload, input, output e crowdsorcing. (MANOVICH: 2008, p. 226).

Essa reconfiguração paradigmática ocorreu em termos no Jornalismo praticado na Internet. A constituição da interface observada no final dos anos 2000 revelada por duas pesquisas (uma feita em 2008 e a outra em 2010) aplicadas aos jornais que compõem o corpus desta tese indica, além da vertente estruturalista, problemas já apontados aqui: redundância, imperativo, além da não aplicação de valor-notícia de composição, que norteia na mídia impressa o design das páginas.

Esse raciocínio se estende ao longo dos capítulos 2 e 3. Em 2012, nova análise mantém a mesma estrutura.

Outras

duas

Internet foram:

questões

pertinentes

a

este

trabalho

sobre

o

Jornalismo

de

1) a desconstrução de algumas características tomadas como exclusivas, como multimidialidade e interatividade, por exemplo; 2) a não aplicação das quatro fases estabelecidas – metáfora, Internet + metáfora; Internet + open source e JDBD (Jornalismo Digital em Base de Dados) – por uma simples razão: na rede, o browser é um paginador e, sendo assim, uma página em branco, diagramada em colunas e hierarquizada.

Portanto, não é possível observá-lo do ponto de vista da evolução (FOUCAULT:

2007, p. 28). O mais correto é uma análise cujo método se divide em: remediação -

representação de uma mídia em outra (BOLTER; GRUSIN: 2000) e media visualization - mistura de formatos e formas (MANOVICH: 2010).

É no terceiro capítulo que começa a tomar forma a interface da notícia que

circula no fluxo principalmente por causa dos elementos de ruptura, como filtragem colaborativa (baseada na transferência do gosto) e recomendação (JOHNSON: 2001, p. 143-145).

Mais a nova linguagem visual híbrida, proposta por Lev Manovich, que leva em conta o uso de tags, não para atomizar informação, mas com o objetivo de aprofundá-la (2010); da crítica da criação baseada na metáfora, da falta de vocabulário crítico específico; da importância da arte digital como parâmetro de interface não hierarquizada; da relação com a fonte, que se deslocou especialmente com o Wikileaks.

Também não se pode deixar de mencionar como nomadismo, agenciamento coletivo de enunciação e revezamento são a chave para o Jornalismo operar nas redes sociais sem abandonar as teorias que o sustenta.

A seguir, o escopo do projeto mostra de que maneira esta tese foi constituída

entre 2008 e 2012:

Objeto: interface jornalística

Corpus: Globo Notícias (G1), UOL Notícias Folha (Folha.com), Terra Notícias, Estadão.com.br, Google News, iG News (Último Segundo), R7 Notícias, BBC, The New York Times, Band.com.br, CNN, MSNBC, El País, The Guardian e Huffington Post.

Objetivos e Hipóteses

Objetivo principal: repensar a interface da notícia que circula na Web

Objetivos secundários

1. Investigar como o avanço da tecnologia possibilita novos formatos e

examinar que modelos têm sido gerados a partir dessas inovações. 2. Verificar se a ativação desses potenciais (geração de novos formatos)

depende das formas sociais das apropriações dessas tecnologias e de fatores como modelo de negócio ou resistência administrativa ou profissional/corporativa à mudança, entre outros.

3. Averiguar os parâmetros editoriais sobre arquitetura na Web. Se os jornais seguem um padrão de identidade visual. Se existe algo que os diferencie.

Hipótese central: A interface teve que se deslocar porque a produção noticiosa está se modificando?

Hipóteses secundárias

1. O Jornalismo de Internet atual não consegue converter em seus interesses a notícia que circula nas redes sociais.

2. A interface se auto-organiza por revezamento e agenciamento.

3. A Social News alterou significativamente a forma pela qual a notícia é produzida e disseminada.

4. A Web não é o único protocolo a permitir uma estética do banco de dados.

Metodologia

O método de pesquisa está sistematizado em:

Pesquisa bibliográfica para ampliar o quadro referencial teórico- metodológico

Sistematizar a historicidade dos modelos de interfaces jornalísticas desenvolvidas desde que surgiram as primeiras até os atuais formatos em uso na Internet e apresentar tendências.

Estudo da composição das interfaces do corpus da pesquisa por meio de questionário de avaliação que levou em conta os seguintes conceitos: alteridade (HALL: 2001); interface (JOHNSON: 2001); arquitetura da informação (ROSENFELD; MORVILLE: 1998); interatividade (MEADOWS: 2003); usabilidade (NIELSEN: 2000); teleação (MANOVICH: 2001); remediação (BOLTER; GRUSIN: 2000); semelhança e similitude (FOUCAULT: 2002; 2007); endoestética (GIANETTI: 2006); cultura cíbrida (BEIGUELMAN: 2004) e narrativas (MOHERDAUI: 2007). Tais conceitos serão definidos na p.

99.

Capítulo 1

“Falar em cibercultura é negar a realidade”

Lev Manovich

Capítulo 1: Internet das Coisas

A rede mundial de computadores

A Internet, a rede mundial de computadores, foi criada pelo governo dos

Estados Unidos em 1969 para uso militar, como proteção contra um possível ataque russo durante a Guerra Fria. Chamada inicialmente Arpanet, começou a funcionar em quatro computadores na Universidade da Califórnia (UCLA, sigla em inglês) 18 .

O nome Arpanet tem origem na Agência de Projetos de Pesquisa Avançada

do Departamento de Defesa dos EUA (DARPA, sigla em inglês). Depois, a rede interligou outros centros de pesquisas e universidades. Ao se expandir para outros países, ganhou o nome de Internet e foi apropriada em todo o mundo por indivíduos e grupos:

) (

seus inventores, não pode ser controlada a partir de nenhum centro e é composta por milhares de redes de computadores

autônomos com inúmeras maneiras de conexão, contornando

barreiras eletrônicas. (

Essa rede foi apropriada por indivíduos

O resultado foi uma arquitetura de rede que, como queriam

)

e grupos no mundo inteiro e com todos os tipos de objetivos, bem

diferentes das preocupações de uma extinta Guerra Fria (CASTELLS: 2002, p. 44).

Dois anos depois, empresas jornalísticas começaram a utilizar a Internet para distribuir informação. A inglesa BBC e o The New York Times foram os primeiros a fazer parte dela. Ainda em 1969, a BBC iniciou testes com um novo formato de mídia para transmitir texto e gráficos por computador: o videotexto. O Times criou o InfoBank, serviço de informação com artigos do jornal por meio de um sistema chamado Biennial Reporting System (BRS) 19 .

A década de 1970 foi marcada por grandes inovações tecnológicas, como o

desenvolvimento do primeiro sistema de rede sem fio baseado em rádio, o

18 NEW MEDIA Timeline (1969) - Poynter. Disponível e m http://bit.ly/k39HLd. Acesso jul. 2011. 19 Para saber mais sobre o BRS, ver: http://bit.ly/kRc4kg. Acesso. Ago. 2011.

Alohanet. A IBM anunciou o computador System/370 com suporte para memória e a Intel um processador mais veloz, 0 4004. Também chegaram ao mercado os computadores pessoais: Altair, criado por Ed Roberts, parceiro de Bill Gates, e Apple, de Steve Jobs e Steve Wozniak.

Não foi diferente com o Jornalismo. O primeiro registro de uso de computador para envio de texto ocorreu na redação da Associated Press, na Carolina do Sul, em novembro de 1970. Na mesma década, os jornais trocaram a produção mecânica pela computadorizada. Jornalistas passaram a criar banco de dados, e os jornais a vendê-los.

A imprensa começava a decretar o fim do uso da máquina de escrever. O The Wall Street Journal iniciou a transmissão de edições via satélite e o videotexto chegou às agências de notícias. São também do mesmo período os correios eletrônicos e os disquetes, hoje substituídos por computação na nuvem 20 , entre outros dispositivos de armazenamento de dados.

Nos anos 1980, vieram os laptops para facilitar o trabalho dos profissionais de imprensa, que podiam enviar suas matérias de qualquer lugar, e serviços de linha discada para conexão à Internet, como o Bulletin Board System (BBS). Entre as novidades estão: computador pessoal de IBM, Apple (Machintosh), Compaq, modens, sistemas operacionais MS-DOS e Windows, Sistema de Domínio da Internet (DNS, sigla em inglês), impressoras a laser.

Nos jornais, foram lançadas operações de teletexto e audiotexto.

Dez anos depois, o engenheiro britânico Tim Berners-Lee anunciou a World Wide Web. O protocolo de Berners-Lee tornou realidade as associações entre textos, cuja menção foi feita pela primeira vez pelo também engenheiro, mas de origem americana, Vanevar Bush 21 , em, 1945 22 :

20 Para saber mais sobre computação na nuvem, ver: http://bit.ly/pZPiNm. Acesso mar. 2012.

21 Para saber mais sobre Vanevar Bush, ver: http://bit.ly/pTYQk2. Acesso mar. 2012.

22 BUSH, V. As we may think. In: http://bit.ly/nbUKuv. Acesso mar. 2012.

O homem não pode esperar plenamente para duplicar esse processo mental artificialmente, mas ele certamente deve ser capaz de aprender com ele. Em pequenas coisas que ele pode até melhorar, para ter em seu registro uma relativa permanência. A primeira ideia, no entanto, é retirar da analogia as preocupações selecionadas. Seleção por associação, em vez de indexação, pode inclusive ser mecanizada. Não se pode esperar, portanto, para igualar a velocidade e flexibilidade com que a mente segue uma trilha associativa, mas deve ser possível ter a mente decisiva no que diz respeito à permanência e clareza dos itens advindos do armazenamento. Considere um dispositivo futuro para uso individual, que é uma espécie de arquivo privado mecanizado e biblioteca. Ele precisa de um nome, e uma moeda ao acaso, memex vai nomeá-lo. A memex é um dispositivo no qual uma loja individual vende seus livros, registros e comunicações e que é mecanizado a fim de poder ser consultado com flexibilidade e extrema velocidade (BUSH: 1945).

Anos mais tarde, Theodor Holm Nelson ou Ted Nelson, como é conhecido o filósofo e sociólogo americano 23 , cunhou o termo que denomina tais associações:

hipertexto 24 . É dele também hipermídia, uma espécie de extensão do hipertexto, porém com documentos que contêm gráficos, vídeos, áudios, textos e links que se entrelaçam na Web 25 .

Aliás, uma das principais características da Web - e, talvez, a que mais bem a defina - é o link. David Weinberger escreveu em The Hyperlinked Metaphysics of the Web que a Web só existe por causa dos hiperlinks (2000).

O hipertexto é também uma forma de recuperar informação. Essa noção está presente nos estudos de Roland Barthes. Ele a chamou Lexia, unidades de leitura ou blocos de significação (1970, p. 20).

Em Arqueologia do Saber, Michel Foucault afirma que a ideia de referência de uma obra à outra está diretamente relacionada à de hipertexto: “além do título, das primeiras linhas e do ponto final, além de sua configuração interna e da forma

23 Para saber mais sobre Ted Nelson, ver: http://ted.hyperland.com. Acesso mar. 2012.

24 Hipertexto é um texto exibido no computador ou em outro dispositivo com referências (hiperlinks) a outro texto. Disponível em: http://en.wikipedia.org/wiki/Hypertext. Acesso mar.

2012.

25 O termo hipermedia é uma extensão do hipertexto que contém gráficos, áudio, vídeo, texto e

hiperlinks. Disponível em: http://en.wikipedia.org/wiki/Hypermedia. Acesso mar. 2012.

que lhe dá autonomia, ele está preso em um sistema de remissões a outros livros, outros textos, outras frases: nós em uma rede” (2007. p.26).

O conceito de intertextualidade remete também à linkagem. Foi cunhado por Julia Kristeva e muito utilizado por Jacques Derrida: “todo texto se constrói como um mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de outro texto” (KRISTEVA: 1969, p. 146).

Embora discípulo de Vanevar Bush, Ted Nelson ponderou sobre a necessidade de categorizar as informações para que possam mais tarde ser recuperadas. Para Nelson, não há nada de mal em categorizar. “O problema é que esses sistemas têm vida curta. Em poucos anos, tornam-se estúpidos” (LANDOW:

1995, p. 27).

Entretanto, é possível categorizar e fazer associações sem que a estrutura determine: por meio de input inteligente de dados e tags, aliados à programação. Essa ação conjunta muda a perspectiva não só da narrativa em base de dados, mas do design de interface. A tag é um termo ou palavra-chave associado a uma informação para relacionar conteúdo 26 . O uso de tags será detalhado mais adiante.

Nelson é hoje um dos críticos mais contundentes da Web, mais especificamente do modo pelo qual são constituídas interfaces, navegação e links. É do teórico americano a famosa frase: “uma interface deve ser tão simples que um iniciante, numa emergência, não leve mais de dez segundos para entendê-la" (tradução em inglês de “a user interface should be so simple that a beginner in an emergency can understand it within ten seconds”).

Para Nelson, o projeto do WWW é “limitado, os links são unidirecionais, levam a um só lugar. Todos do mesmo jeito. O browser simula o papel, é diagramado em colunas e é hierarquizado”. A Web, afirma o sociólogo, “é coisa do passado, quadrada demais”.

26 Para saber mais sobre tags, ver http://bit.ly/qWlfh7. Acesso dez.2011.

(

)

Não podemos esquecer que Internet e Web são coisas

E acho todos os navegadores ruins, ultrapassados e

limitados. Passei a década de 90 estudando o que era possível fazer para criar um sistema que substituísse a Web e aproveitasse todas as possibilidades da Internet. Então, criei esse sistema novo,

o Xanadu Spaces, que substitui a Web (NELSON: 2007).

diferentes (

).

O sociólogo americano propôs, antes de o protocolo surgir, o Xanadu 27 , primeiro software a ter links conectados a outros documentos. O Projeto Xanadu começou na década de 1960.

Trata-se de um sistema de hipertexto, com uma interface inteligente de linkagem que respeita os direitos autorais e permite uma navegação não sequencial, por associação, como é cérebro humano. O Xanadu ainda não foi finalizado, mas a forma pela qual foi concebido e os conceitos criados contribuíram para o que a Web é atualmente.

É verdade que os browsers têm limitações. Quem não se lembra dos primeiros? E de suas interfaces? Mosaic, primeiro browser gráfico, lançado pelo Centro Nacional de Aplicações de Super Computação (NCSA), em Champaign, Illinois, Netscape Navigator, da Netscape, e Explorer, da Microsoft. Vieram outros depois, como Google Chrome, Mozilla e Safari.

E é verdade que eles também simulam o papel. Simulavam no inicio da Web e continuam a simular, mas agora com um detalhe: são incrementados com novidades tecnológicas. Mas a estrutura permanece a mesma.

27 A íntegra do projeto Xanadu está disponível em: http://bit.ly/snGeBH. Acesso dez. 2011.

Figura 1. Mosaic, o primeiro browser gráfico Economia: a primeira bolha Figura 2 . Netscape

Figura 1. Mosaic, o primeiro browser gráfico

Figura 1. Mosaic, o primeiro browser gráfico Economia: a primeira bolha Figura 2 . Netscape Navigator

Economia: a primeira bolha

Figura 2. Netscape Navigator 28

Entretanto, não se trata apenas de uma questão técnica ou conceitual. Há também que se considerarem fatores econômicos e culturais. Empresas operam em uma lógica capitalista e os primeiros anos da Web foram marcados pela primeira bolha da Internet, um processo de especulação em torno de empresas que constituíram ou migraram seus negócios para a rede, especialmente comércio eletrônico, de 1995 a 2000, com altos investimentos em projetos às chamadas start-ups 29 .

28 As imagens dos browsers Mosaic e Nestcape são reproduções da Wikipedia.

29 Para saber mais sobre startups, ver http://bit.ly/ocDvQp.

O resultado foi uma vertiginosa queda na Nasdaq, bolsa de valores na qual

aquelas empresas negociavam suas ações: em 10 de março de 2000, a bolsa registrou baixa de 4% e não parou mais de cair. As perdas alcançaram 75%.

O lucro demorou a chegar a esses setores, e não são muitas as companhias

com balanços positivos de suas operações, à exceção de grandes players como a Google, criada em 1998 e cuja busca o levou a lucros exorbitantes 30 . São também exemplos bem-sucedidos a rede social Facebook e Groupon, serviço de venda coletiva, entre outros.

Há quem acredite que os serviços de venda coletiva são um dos pontos centrais da segunda bolha da Internet porque criam problemas para seus parceiros. De um lado, porque a maioria vende audiências fictícias. Depois, porque as promoções pouco agregam às empresas (NASSIF: 2011).

Por exemplo, uma pizzaria vendia pizzas a R$ 15,00. Entrava em uma promoção e o site de compras oferecia a R$ 3,00. A pizzaria lotava, mas de um público que, passada a promoção, dificilmente voltaria lá. Não era seu público alvo. Esse risco está restrito à economia americana. No Brasil, projetos dessa natureza estão sendo avaliados com uma dose a mais de realismo (IBIDEM).

Embora a Internet seja a primeira mídia pública a ter uma economia pós- Gutenberg (SHIRKY: 2010, p. 53), modelo de negócio nesse setor continua sendo um ponto nevrálgico até hoje, sobretudo após o Jornalismo ter incorporado as redes sociais em sua produção diária, cuja lógica de funcionamento opera na contramão de portais e sites constituídos para aglomerar conteúdo.

As redes sociais, ao contrário, pulverizam o conteúdo e reconfiguram o fazer jornalístico, principalmente em relação aos critérios de noticiabilidade, cuja teoria será detalhada mais adiante. Trata-se de uma relação tensionada entre espaço liso (nômade, sem fronteiras delimitadas) e estriado (aparelho do Estado, institucional,

30 Para conhecer a história da Google, acesse: http://bit.ly/FaeZn ou http://bit.ly/mM1l0F. Acesso jul. 2011.

metrificado e distribuído), conceitos abordados pelos filósofos franceses Gilles Deleuze e Félix Guattari no quinto volume de Mil Platôs (2007).

Para Deleuze e Guattari, os nômades são como máquinas de guerra, ou seja, uma máquina de movimentação permanente no território, e os aparelhos de captura dependem da noção de sujeitos universais. Tudo vale para todos, a regra é absoluta, não funciona com desvio.

Observados sob essa ótica, os portais seriam aparelhos de captura, que operam em espaços estriados, e redes sociais como o Twitter (www.twitter.com) e Facebook (www.facebook.com) seriam as máquinas de guerra, nômades do espaço liso em constante tensão com aparelhos de captura.

De novo, o que está em jogo é um modelo que dê conta dessa nova dinâmica. Um caminho, talvez, seja a economia baseada em aplicativos já que desde 2007 vários jornais ligados à mídia tradicional fecharam ou deixaram de produzir versão impressa. E muitos estão na Internet lutando por paywall e assinaturas.

Em artigo para o Nieman Journalism Lab, Nicholas Carr, autor do best-seller The Big Switch: Rewiring the World, from Edison to Google, afirmou que os aplicativos serão o grande commodity em 2012 31 :

Aplicativos prometem ser a maior força de reformulação da mídia em geral e meios de comunicação, em particular durante 2012. A influência será exercida diretamente – por meio de uma proliferação de aplicativos mídia especializada, bem como indiretamente - por meio de mudanças nas atitudes dos consumidores, expectativas e hábitos de compra. Há todos os tipos de implicações para os jornais, mas talvez o mais importante é que a explosão app torna muito mais fácil de cobrar por notícias online e outros conteúdos. Isso é verdade não apenas quando o conteúdo é entregue por meio de aplicativos formais, mas também quando é entregue por meio de sites tradicionais, que podem, eles próprios, ser vistos pelos clientes como uma forma de app. No

31 ARE NEWSPAPERS civic institutions or algorithms? Big Think, EUA, 16 jan. 2012. Disponível em:

http://bit.ly/ydfh8x. Acesso jan. 2012.

velho mundo da Web aberta, pagar por conteúdo on-line parecia estranho, na melhor das hipóteses, já na pior, repugnante. No novo mundo do app, pagar por conteúdo online, de repente parece normal. O que é uma loja de aplicativos, a não ser uma série de paywalls?

A economia baseada em aplicativos pode apresentar bons resultados principalmente por duas razões: a primeira delas é a segmentação, que permite monitorar os usuários e, com isso, pensar em estratégias de marketings específicas para eles, o que é valiosíssimo para os anunciantes.

A outra é o fato de que, embora as pessoas queiram consumir conteúdo grátis na Internet, estão dispostas a pagar entre US$ 0,99 e US$ 3,99 por aplicativos na Apple Story, por exemplo. Em julho de 2011, a empresa anunciou 15 bilhões de downloads em seu e-commerce. E pagou US$ 2,5 bilhões a desenvolvedores 32 .

. E pagou US$ 2,5 bilhões a desenvolvedores 3 2 . Figura 3 . Infográfico receita

Figura 3. Infográfico receita por usuário - Reprodução KissMetrics

32 EM TRÊS ANOS, loja de aplicativos da Apple atinge 15 bilhões de downloads. G1, São Paulo, 7 julh. 2011. Disponível em: http://glo.bo/yuCTpu. Acesso jan. 2012.

Tudo agora é ciberespaço

Mas há outra questão de igual importância: o ambiente criado pela Internet. Há, de fato, um novo ambiente? Trata-se de um mundo virtual? Ciberespaço? Seria uma espécie de Second Life, como defendeu Ted Nelson, em 2007 à revista Época?:

Second Life é um exemplo de inovação dos programas de interação entre homens e máquinas. A interface em 3D é o futuro da Internet. Vai provocar uma revolução tão grande quanto a Web33 .

Na maioria das vezes, utilizada para definir o irreal, a palavra virtual tem origem no latim medieval virtualis, derivado de virtus, força, potência. Na filosofia escolástica, o virtual é o que existe em potência e não em ato. Jean Baudrillard o definiu como o desaparecimento do real (LÉVY: 1998, p. 24,25). Paul Virilio o chamou implosão espaço-tempo.

Pierre Lévy o assume como um modo de ser fecundo e poderoso, que põe em jogo processos de criação, abre futuros, perfura poços de sentido sob a platitude da presença física imediata.

O filósofo francês é contrário à oposição entre real e virtual. Para Lévy, o virtual não se opõe o real, mas ao atual: virtualidade e atualidade são apenas duas maneiras de ser diferentes. Virtual é o inapreensível enquanto real é o tangível. O virtual não é imaginário, ele produz efeitos. O virtual é a atualização do real (IBIDEM, p. 12, 15, 21).

Gilles Deleuze fez uma distinção entre possível e virtual em Différence et Répétition (1968): o possível já está todo constituído, mas permanece no limbo. O possível se realizará sem que nada mude em sua determinação nem em sua natureza. É um real fantasmático, latente. O possível é exatamente como o real: só lhe falta a existência. Para Michel Serres, o virtual é a não presença.

33 A SEGUNDA vida da Internet. REVISTA ÉPOCA, São Paulo, mar. 2007. Disponível em:

http://glo.bo/jXbVu3. Acesso jun. 2011.

“A imaginação, a memória, o conhecimento, a religião, são vetores da virtualização que nos fizeram abandonar a presença muito antes da informatização e das redes digitais”, escreveu Pierre Lévy em O que é o virtual? (1998). Para explicar a não presença, Lévy cita como exemplos o texto e o hipertexto:

) (

do real, tangível. Essa abordagem contém uma indicação que não se deve negligenciar: o virtual, com muita frequência, não está

presente. (

definida do espaço físico, ou em alguma organização abstrata que se atualiza numa pluralidade de línguas, de versões, de edições, de tipografias? Ora, um texto em particular passa a apresentar-se como a atualização de um hipertexto de suporte informático. Este último ocupa virtualmente todos os pontos da rede ao qual está conectada a memória digital onde se inscreve seu código? Ele se estende até cada instalação de onde poderia ser copiado em alguns segundos? (LÉVY, 1998, p. 19,20).

Estará o texto aqui, no papel, ocupando uma porção

O senso comum faz do virtual, inapreensível, o complementar

)

Claro que é possível atribuir um endereço a um arquivo digital. Mas nessa era de informações on-line, esse endereço seria de qualquer modo transitório e de pouca importância. Desterritorializado, presente por inteiro em cada uma de suas versões, de suas cópias e de suas projeções, desprovido de inércia, habitante obíquo do ciberespaço, o hipertexto contribui para aqui

e acolá acontecimentos de atualização textual, de navegação e de

leitura. Somente esses acontecimentos são verdadeiramente situados. Embora necessite de suportes físicos pesados para subsistir e atualizar-se, o imponderável hipertexto não possui um lugar (IBIDEM).

Essa ideia de não lugar, de não presença, também está presente na definição de ciberespaço. Aliás, muitas vezes utilizado como sinônimo de mundo virtual ou mundo digital. Foi o escritor Willian Gibson quem cunhou o termo em 1982 e o publicou dois anos mais tarde em seu famoso livro Neuromancer:

O ciberespaço. Uma alucinação consensual vivida diariamente por

bilhões de operadores autorizados, em todas as nações, por

Uma

representação gráfica de dados abstraídos dos bancos de todos os computadores do sistema humano. Uma complexidade impensável. Linhas de luz abrangendo o não espaço; nebulosas e constelações infindáveis de dados. Como marés de luzes de cidade (GIBSON: 2003, p. 67-68).

crianças aprendendo altos conceitos matemáticos

Pierre Lévy utiliza a definição de Gibson em Cibercultura (1999) e a amplia:

“O ciberespaço de Gibson torna a geografia móvel da informação normalmente invisível. O termo foi imediatamente retomado pelos usuários e criadores de redes digitais.” E vai além:

Eu defino ciberespaço como o espaço de comunicação aberto pela interconexão mundial de computadores e das memórias de computadores. Essa definição inclui o conjunto de sistemas de comunicação eletrônicos (aí incluídos os conjuntos de redes hertzianas e telefônicas clássicas), na medida em que transmitem informações provenientes de fontes digitais ou destinadas à digitalização (LÉVY: 1999, p. 92).

Em 2007, em entrevista ao jornal americano The Washington Post 34 , Gibson anunciou o fim do ciberespaço. Para o escritor, agora o ciberespaço é aqui.

Quando escrevi Neuromancer, quase 25 anos atrás, o ciberespaço estava lá, e nós estávamos aqui. Em 2007, o que não nos importamos mais em chamar de ciberespaço está aqui, e aqueles momentos sem conectividade, cada vez mais raros, estão lá. E aí está a diferença. Não houve um amanhecer tingido de vermelho em que nos levantamos, olhamos pela janela e dissemos: ‘Oh meu Deus, tudo é ciberespaço agora. (WASHINGTON POST: 2007).

O argumento de Gibson é bastante coerente. No Brasil, no início dos anos 2000, para acessar a Internet era preciso um computador, um modem e um cabo de rede. Hoje, basta um dispositivo 35 móvel (celular, tablet ou smartphones, entre outros) com conexão sem fio. No primeiro trimestre de 2011, 24,4 milhões de brasileiros utilizaram banda larga móvel 36 . Em todo o mundo, o número de pessoas com acesso à rede tem aumentado consideravelmente.

Em 2000, eram 250 milhões. No final de 2010, ultrapassou dois bilhões de pessoas. Também registrou crescimento expressivo a conexão móvel. Em todo o mundo, 940 milhões acessaram a Internet via banda larga móvel contra 550

34 GARREAU, J, 2007. 35 O dicionário Houaiss define dispositivo como: em máquinas, peça ou mecanismo com uma função especial ou aparelho construído com determinado fim; engenho. 36 USO de banda larga no Brasil cresceu 138%. Último Segundo, São Paulo, 12 mai. 2011. Disponível em http://bit.ly/jrmKWt. Acesso jan. 2012.

milhões via banda larga fixa, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU) referentes a janeiro de 2011 37 .

Graças à computação ubíqua (ou ubicomp, abreviação em inglês de ubiquitous computing), a Internet implodiu a divisão real e virtual, transformando- se em Internet of Things 38 (Internet das Coisas) e jogou por terra todos esses conceitos. O termo computação ubíqua foi cunhado por Mark Weiser em 1988 quando estava à frente do Departamento de Tecnologia do Centro de Pesquisa da Xerox, em Palo Alto (Parc, sigla em inglês).

Para Weiser, o futuro da tecnologia da informação é ser um utilitário, algo como o gás e a eletricidade (KRANENBURG: 2008, p. 7). E essa realidade já faz parte do cotidiano:

Computação ubíqua (muitas vezes referida como ubicomp) descreve um conjunto de processos onde a tecnologia da informação tem sido completamente integrada em objetos e atividades do cotidiano: a tal ponto que o usuário muitas vezes nem percebe ao fazê-lo. Ubicomp não é apenas uma parte de nossas cidades do futuro. Seus dispositivos e serviços já estão aqui. Pensar no uso de cartões pré-pagos inteligentes para o uso de transportes públicos ou as etiquetas exibidas em nossos carros para ajudar a regular os preços de congestionamento, ou a maneira pela qual as corporações encaminham e transportam mercadorias em todo o mundo. Estes sistemas irão expandir geometricamente na próxima década, construindo os blocos para as nossas cidades do futuro (IBIDEM).

O escritor Americano Clay Shirky, um dos mais importantes pesquisadores sobre cultura digital da atualidade e autor de Cultura da Participação (2010), arrancou o termo de seu dicionário: “A ideia com a qual eu cresci, de ir a um lugar separado do mundo real, é algo que os meus alunos não conseguem

37 NÚMERO de internautas ultrapassa 2 bilhões, afirma ONU. Interactive Advertising Bureau, São Paulo, 27 jan. 2011. Disponível em: http://bit.ly/uQbs0E. Acesso jan. 2012. 38 O termo Internet of things foi cunhado por Kevin Ashton em 1999. Para saber mais sobre Ashton, ver:

http://bit.ly/AdUhlj. Acesso jan. 2012.

entender. A

cidade grande” (2009) 39 .

Internet traz a

todos

os

lugares alguns

dos

enigmas da

vida

na

O russo Lev Manovich também o fez. Em entrevista a O Estado de S.Paulo em

2009 afirmou o seguinte:

Nos anos 90, só se falava de virtual, ciberespaço e cibercultura. Éramos fascinados pelas possibilidades que os espaços digitais ofereciam. O virtual, que existe à parte do real, dominou a década. Agora, a Web é uma realidade para milhões, e a dose diária de ciberespaço é tão grande na vida de uma pessoa que o termo não faz mais muito sentido. O mundo alternativo tão falado na ficção cyberpunk, nos anos 80, foi perdido. O virtual agora é doméstico. Controlado por grandes marcas, tornou-se inofensivo. Nossas vidas online e offline são hoje a mesma coisa. Para os acadêmicos que ainda usam o termo cibercultura para falar da atualidade, eu recomendo que acordem e olhem para o que existe em volta deles. 40

A ideia de algo sem fronteiras, permanentemente conectado, sedimentou-

se, sobretudo com a popularização da banda larga e dos dispositivos móveis - celulares, com funções que não se restringem somente a discar e a tirar fotos, e tablets, cuja principal característica é a mobilidade. Esvazia-se a lógica da janela (transparente) e espelho (reflexo) proposta por David J. Bolter e Diane Gromala em Windows and Mirror (2003).

Para Bolter e Gromala (p. 26, 27), o equilíbrio entre ser transparente e reflexivo é a referência que marca a diferença entre ciberespaço e mundo real: "( ) Nenhuma interface pode ser ou deve ser perfeitamente transparente, porque a interface vai quebrar em algum momento, e o usuário terá que diagnosticar o problema”. A relação janela e espelho será aprofundada mais adiante.

Computação ubíqua

39 THIS MUCH I know. The Guardian, Londres, 15 feb. 2009. Disponível em: http://bit.ly/aBPwN. Acesso jan. 2012.

40 “FALAR em cibercultura é negar a realidade”. O Estado de S.Paulo, São Paulo, 21 ago. 2009. Disponível em: http://bit.ly/peFS57. Acesso jan. 2012.

Hoje, o sujeito carrega a interface e acessa a informação que está no espaço de fluxos, principal base da sociedade em rede, fundamentada em conhecimento, com processos descentralizados e empresas reorganizadas pela economia informacional 41 . O espaço de fluxos é a organização material das práticas sociais de tempo compartilhado que funcionam por meio de fluxos (CASTELLS: 2002, p. 501).

Por fluxos, o sociólogo Manuel Castells entende as sequências intencionais, repetitivas e programáveis de intercâmbio e interação entre posições fisicamente desarticuladas mantidas por atores sociais nas estruturas econômica, política e simbólica da sociedade 42 .

O espaço de fluxos pode ser descrito pela combinação de três camadas de suportes materiais que, juntas, o constituem (IBIDEM, p. 502-505):

a) circuito de impulsos eletrônicos (microeletrônica, telecomunicações,

processamento computacional, sistemas de transmissão e transporte em alta velocidade – também com base em tecnologias da informação. Esse é o suporte material de práticas simultâneas, estrategicamente cruciais na sociedade em rede);

b) nós e centros de comunicação (localização de funções estrategicamente importantes que constroem uma série de atividades e organizações locais em torno de uma função chave na rede). A localização no nó conecta a localidade com toda a rede. Os nós e os centros de comunicação seguem uma hierarquia organizacional de acordo com seu peso relativo na rede. Mas essa hierarquia pode mudar conforme seu peso relativo na mesma rede;

c) organização espacial das elites gerenciais dominantes - e não da

classe -, que exercem funções direcionais em torno dos quais todo esse processo é

41 A economia global/informacional é organizada em torno de centros de controle e comando capazes de coordenar, inovar e gerenciar as atividades interligadas das redes de empresas. (CASTELLS: 2002, p. 469). 42 Práticas sociais dominantes são aquelas que estão embutidas nas estruturas sociais dominantes. Estruturas dominantes são procedimentos de organizações e instituições cuja lógica interna desempenha papel estratégico na formulação das práticas sociais e da consciência social para a sociedade em geral (IBIDEM, p. 501).

articulado. A elite dominante informacional segue de mãos dadas com sua capacidade de desorganizar grupos de sociedade, cujos interesses são representados dentro da estrutura dos interesses dominantes.

Embora ainda não seja realidade, a Internet das Coisas em pouco tempo estará em todo o canto, disponível a toque, voz ou gesto. E quando alcançar essa escala de conectividade, Giselle Beiguelman, diretora de redação da revista sElecT 43 e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP), aposta na mudança de nomenclatura para rede mundial de computadores, pessoas, geladeiras e tudo o mais que nos cerca:

Enquanto a Internet das Coisas não se impõe, a rápida evolução das aplicações, que envolvem nanotecnologia, sensores e sistemas de redes sem fio confirma a sua probabilidade. O uso cada vez mais comum de etiquetas inteligentes baseadas em códigos de barra com grande capacidade de armazenamento de informações, como o QR-Code, é um indicador preciso desse processo de coisificação das redes (2011).

Pesquisa realizada pela empresa de tecnologia Cisco aponta que, desde 2008, há mais coisas conectadas a Internet do que pessoas no planeta. A estimativa indica que em 2020 mais de 50 bilhões de coisas estejam plugadas 44 :

mais de 50 bilhões de coisas estejam plugadas 4 4 : Figura 4 . Projeção da

Figura 4. Projeção da Internet das Coisas em 2020: 50 bilhões

43 O FIM do virtual. sElecT, São Paulo, 25 ago. 2011. Disponível em: http://bit.ly/unMrTs. Acesso jan. 2012. 44 INTERNET DAS coisas: para 2020, mais de 50 bilhões de coisas conectadas à Internet, superando o número de pessoas conectadas. Tecnoarte News, São Paulo, 18 jul. 2011. Disponível em:

http://bit.ly/pdju3e. Acesso jan. 2012.

Figuras 5 e 6. Internet das Coisas não se resume a tablets ou smartphones Figuras
Figuras 5 e 6. Internet das Coisas não se resume a tablets ou smartphones Figuras

Figuras 5 e 6. Internet das Coisas não se resume a tablets ou smartphones

das Coisas não se resume a tablets ou smartphones Figuras 7 e 8. Após 2011, domicílios
das Coisas não se resume a tablets ou smartphones Figuras 7 e 8. Após 2011, domicílios

Figuras 7 e 8. Após 2011, domicílios irão gerar mais tráfego na Internet

Um dos exemplos mais intrigantes dessa realidade é o Sixth Sense 45 , do laboratório de Pattie Maes, pesquisadora do Media Labs, do MIT, e liderado pelo designer indiano Pranav Mistry, que o desenvolveu durante oito meses a um custo de US$ 350. Maes e Mistry apresentaram o projeto no TED 2009 (sigla em inglês para Technology, Entertainment, Design) 46 .

No Sixth Sense, o sujeito é uma interface conectada. Ele interage com qualquer informação por meio de gestos. “A proposta é transformar todo o mundo em computador”, diz o indiano:

O protótipo integra projetor de bolso, espelho e câmera, que, em formato de um colar acoplado ao tórax, são ligados a um minilaptop. A câmera captura os gestos da mão, envia esses dados para o laptop e um software baseado em algoritmos de visão computacional rastreia e interpreta os movimentos das mãos de acordo com os marcadores coloridos que o usuário deve usar nos dedos (INFO EXAME: 2009).

Com isso, além dos proveitos acima, é possível utilizar o Sixth Sense para coletar informações sobre objetos em tempo real. Por exemplo, o sistema pode ser instruído com um gesto para rastrear a capa de um livro e projetar dados das resenhas da Amazon.com sobre ele (IBIDEM).

dados das resenhas da Amazon.com sobre ele (IBIDEM). Figura 9. Usando a palma da mão para

Figura 9. Usando a palma da mão para discar um número

45 Para saber mais sobre o Sixth Sense, ver: http://bit.ly/sTQbs0. Acesso jan. 2012.

46 http://bit.ly/uNNYcx. Acesso jan. 2012.

Figura 10. Passagem aérea atualiza status do voo Figura 11 . Projetor, câmera e marcadores

Figura 10. Passagem aérea atualiza status do voo

Figura 10. Passagem aérea atualiza status do voo Figura 11 . Projetor, câmera e marcadores coloridos

Figura 11. Projetor, câmera e marcadores coloridos utilizados para acessar dados

Figura 12 . Jornal impresso mostra vídeo de noticiário ao vivo Pesquisas em computação e

Figura 12. Jornal impresso mostra vídeo de noticiário ao vivo

Pesquisas em computação e design recentes, como essa de Mistry, mostram que as informações estarão integradas aos objetos cotidianos e não mais reduzidas a dispositivos específicos como computadores de mesa e celulares (BEIGUELMAN:

2011), como o Morph, da Nokia 47 , dispositivo de comunicação baseado em nanotecnologia, sensitivo, funciona por meio de toque, autolimpante, tem superfície superhidrofóbica e captura informações sobre o meio ambiente.

E o mais interessante: a estrutura de nanoescala eletrônica permite o alongamento, que o transforma em vários formatos: um pequeno tablet, uma pulseira ou um celular 48 .

um pequeno tablet , uma pulseira ou um celular 4 8 . Figura 13. Conceito Morph
um pequeno tablet , uma pulseira ou um celular 4 8 . Figura 13. Conceito Morph

Figura 13. Conceito Morph - Reprodução Nokia

47 http://bit.ly/sokmXz. Acesso jan. 2012. 48 http://bit.ly/u0Wp2v. Acesso jan. 2012.

A Web não morreu

É sobre essa interface remodelada pela conexão ubíqua e pela Internet das

Coisas que a autora desta tese se debruça. Trata-se de compreender de que forma a interface reconfigura os conceitos que orientam o Jornalismo, mais especificamente o newsmaking. E a busca desse entendimento começa pela World Wide Web. Porque foi a Web que deu expressão ao Jornalismo praticado na Internet, cujo histórico será detalhado adiante.

A WWW possui ao mesmo tempo características que a assemelham a um

paginador de papel e a permitem implodir a página impressa. Ao contrário do que escreveu o editor-chefe da revista Wired, Chris Anderson, a Web não está morta e o design de interface dos dispositivos móveis, principalmente os tablets, corrobora esse pressuposto, ainda que os aplicativos estejam na ordem do dia.

Em agosto de 2010, Anderson afirmou que as pessoas estão substituindo browsers por aplicativos. Ou seja, o protocolo WWW deixa de ser o principal ponto de navegação pela rede. Para ele, “a Internet é a verdadeira revolução tão importante como a eletricidade” 49 .

Você acorda e verifica o seu e-mail no iPad de cabeceira - que é um app. Durante café da manhã você navega no Facebook, Twitter, e The New York Times - mais três apps. No caminho ao escritório, você ouve um podcast no seu smartphone. Outro app. No trabalho, você rola através de feeds RSS em um leitor e tem conversas Skype e mensagens instantâneas. Mais aplicações. No final do dia, você chega em casa, faz o jantar enquanto ouve a Pandora, joga alguns jogos no Xbox Live, e assiste a um filme no serviço de streaming Netflix. Você passou o dia na Internet - mas não na Web. E você não está sozinho (ANDERSON: 2010).

A conclusão do jornalista baseou-se em estudo encomendado para a Wired

segundo o qual o tráfego de dados da Internet provém de vídeos e troca de conteúdos P2P (compartilhamento de arquivos).

49 THE WEB is Dead. Long Live the Internet. Wired, EUA, 17 ago. 2010. Disponível em:

http://bit.ly/bknmCP. Acesso jan. 2012.

Outra pesquisa recente feita nos Estados Unidos comprova que os americanos passam mais tempo conectados a aplicativos que ao WWW. Segundo a Flurry Analytics, entre junho de 2010 e junho de 2011, as pessoas passaram 74 minutos na Web contra 81 minutos nos aplicativos. No período, o uso da Web cresceu 16%, ante 91% dos programas 50 .

Essa não foi a primeira vez que a revista americana anuncia alternativas à Web. Em 1997, artigo intitulado “Push!” sugeria que tecnologias como PointCast e Microsoft’s Active Desktop dariam adeus ao protocolo de Berners-Lee 51 : “Kiss your browser goodbye: The radical future of media beyond the Web52 .

Ted Nelson, o pai do hipertexto, disse algo semelhante em 2007 no programa Roda Viva, da TV Cultura, mas não matou o WWW: “A Web não vai desaparecer, mas outras coisas surgirão, assim como e-mail, chat, VoIP (voz sobre IP) e Skype. São todas formas diferentes de comunicação, e haverá mais.

todas formas diferentes de comunicação, e haverá mais. Figura 14. Pesquisa da Wired sobre uso de

Figura 14. Pesquisa da Wired sobre uso de aplicativos

50 PEOPLE ARE spending more time in mobile apps than on the web. Business Insider, EUA, 20 jun.

2011. Disponível em: http://bit.ly/ruv6qj. Acesso jan. 2012.

51 Para saber mais sobre Tim Berners-Lee, ver. http://bit.ly/2PqQpx. Acesso jan. 2012.

52 KISS YOUR browser goodbye: The radical future of media beyond the Web. Wired, EUA, mar.

1997. Disponível em: http://bit.ly/fLCtD. Acesso jan. 2012.

Figura 15. Comparação entre uso de aplicativos e Web ( Flurry) A julgar pelos números,

Figura 15. Comparação entre uso de aplicativos e Web (Flurry)

A julgar pelos números, a Web continuará a ser utilizada ainda por muito tempo. Dados do Go-Gulf.com indicam que diariamente (em média) um bilhão de novas interfaces são adicionadas ao protocolo. Um infográfico Go-Gulf publicado na próxima página dá a dimensão do que ocorre na Web a cada 60 segundos 53 .

Na realidade, se analisada do ponto de vista dos espaços liso e estriado de Deleuze e Guattari, a interface gráfica da Internet foi constituída para ser um espaço liso por excelência, nômade, sem fronteiras delimitadas, embora não seja essa a prática atual.

enorme

potencial para implodir a interface tal como é configurada atualmente pelas

empresas de comunicação e se auto-organizar a partir de tags, algoritmos e programação.

Entretanto,

ao

operar

em

qualquer

dispositivo,

o

WWW

tem

53 60 SECONDS - Things that happen on internet every sixty seconds. Go-Gulf.com. Jun. 2011. Disponível em: http://bit.ly/iRQItd. Acesso jan. 2012.

Figura 16. Número de interfaces criadas na Web a cada 60 segundos Jornalismo de Internet

Figura 16. Número de interfaces criadas na Web a cada 60 segundos

Jornalismo de Internet

A Web mudou a forma pela qual o Jornalismo vinha sendo praticado até o começo dos anos 1990. É verdade que desde a criação da Internet pelos Estados Unidos, em 1969, já havia iniciativas isoladas como as da rede inglesa BBC e o jornal The New York Times, que deram inicio às primeiras experiências de transmissão de informação pela rede (ver p. 30).

Mas o potencial do Jornalismo da rede mundial de computadores foi, de fato, percebido quando o mundo conectou-se à rede, em 1995, para acompanhar o atentado a um prédio do governo de Oklahoma City. O responsável pela morte de 168 pessoas, o terrorista Timothy McVeigh, foi executado em 2001 em Terre Haute, Indiana 54 .

Na época, foram incluídos na rede comunicados da Casa Branca, fotos dos estragos, lista de vítimas e reportagens atualizadas sobre a tragédia. O serviço Newsday, do Prodigy publicou um mapa com a localização do atentado, uma

54 MOHERDAUI, 2007.

matéria da agência Associated Press e uma descrição gráfica dos tipos de bombas usadas em ataques terroristas 55 . No Brasil, a Guerra de Kosovo incluiu o país na cobertura da rede. Na época, foi considerada a Guerra da Internet:

A Guerra do Golfo, no início da década, marcou o apogeu da

cultura televisiva. O mesmo tinha ocorrido com a Segunda Guerra Mundial em relação ao rádio. Nos ataques a Bagdá, pela primeira vez na história, todos os lances fundamentais do conflito apareciam em tempo real na tela da TV. Podia-se acompanhar cada lance da batalha, como a queda de mísseis, numa espécie de mórbido videogame global. Parecia ser o desenho mais estranho e

requintado da guerra neste milênio. Era um engano. O atual confronto no Kosovo experimentava o uso de uma efetiva e moderníssima arma: a Internet. Com o avanço das tecnologias da informação: habitantes de todos os recantos da Terra, de Paris a Luanda, de Tóquio a Ciudad del Leste, puderam participar efetivamente do conflito. À parte dos bombardeios e do deslocamento de tropas, desenvolveu-se uma guerra paralela, democratizada, calcada na difusão caótica de informação e opinião. Qualquer pessoa podia mover seu peão nesse tabuleiro, seja contando sua experiência nas regiões do conflito, seja emitindo suas opiniões ou multiplicando informações. Tratava-se de uma Terceira Guerra Mundial, da qual muitos podiam participar sem se levantar da cadeira do escritório. Cada um esperando se tornar o Davi da história. Dezenas de sites foram criados especialmente para tratar dos assuntos da guerra. Ambos

os lados se desdobram para convencer a plateia mundial de suas

razões. A ideia era seduzir e arregimentar. Pede-se sempre uma ação positiva de apoio (ou dinheiro) a este ou aquele lado. A jovem iugoslava Lana, por exemplo, escreveu um pungente apelo contra a guerra. Afirma que os sérvios estão sendo atacados injustamente e prejudicados pela ‘guerra das mídias’. Num e-mail que roda o planeta há dias, Lana escreve: ‘talvez estejamos defendendo você. É por isso que o mundo não pode deixar a verdade enterrada em crateras de mísseis Tomahawks’. Note-se que mensagem é um apelo ao mundo (FALCETA JR: 1999 apud MOHERDAUI: 2007, p. 33-34).

Houve outras coberturas de enorme importância, como a divulgação, em 1998, na Web, pelo colunista de fofocas Matt Drugde 56 do caso envolvendo o ex- presidente dos Estados Unidos Bill Clinton e a estagiária Monica Lewinsky. Na época, o relatório Kenneth Starr, com detalhes do caso, derrubou milhares de servidores em todo o mundo. A americana CNN disponibilizou na rede a íntegra

55 IBIDEM.

56 Para saber mais sobre Matt Drudge, ver: http://bit.ly/1Jxp9V. Acesso jan. 2012.

das gravações em áudio (37 fitas com 22 horas) de uma conversa entre Monica e sua amiga Linda Tripp na qual contava sua história com Clinton 57 .

A outra foi o atentado às torres gêmeas, em 2001. Conhecida como a Terça- feira Negra - matou milhares de pessoas e paralisou o país. O ataque terrorista também congestionou a Internet. Interfaces noticiosas chegaram a ficar fora do ar por mais de duas horas.

Somente nos EUA, 30 milhões de pessoas tentaram se conectar a rede para enviar mensagens por e-mail ou programas de comunicação instantânea. Para os padrões daquele ano, esse número representava um terço a mais do que o tráfego normal.

No dia anterior ao ataque, a média de tempo de conexão ficou em 5,5 segundos. No dia 11 de setembro, saltou para 12,9 segundos 58 . Isso fez com que a Web voltasse à interface de seus primeiros anos: tela com fundo branco e links. CNN, MSNBC e USA Today alteraram seus designs para facilitar a busca por informações. A CNN, por exemplo, excluiu fotos, vídeos e áudio para reduzir o peso da interface de 255 KB (kilobyte) para 20 KB (kilobyte) 59 .

de 255 KB ( kilobyte ) para 20 KB ( kilobyte ) 5 9 . Figuras
de 255 KB ( kilobyte ) para 20 KB ( kilobyte ) 5 9 . Figuras

Figuras 17 e 18. Interfaces da CNN em 11 de setembro de 2001

57 MOHERDAUI, 2007, p. 64-65.

58 IBIDEM.

59 IBIDEM.

De eventos isolados, a cobertura em tempo diferido 60 passou a integrar o cotidiano das redações de Internet. Acompanhar um evento e transmiti-lo a bilhares de pessoas reforçou um dos traços do Jornalismo já praticado em rádio e tevê, mas que se amplificou na rede, com atualização contínua - desde jogos de futebol a eventos de repercussão internacional.

É o que Richard Grusin e David J. Bolter chamaram de hypermediacy. Ao contrário da tevê, cujo objetivo é fazer o telespectador vivenciar os fatos ao vivo, a Internet, especialmente com a contribuição das redes sociais, o faz participar dos fatos:

A hipermediação na década de 1990 foi marcada pela proliferação de mediação ou pela fragmentação e multiplicidade - o design gráfico da revista Wired, a área de trabalho, janela ou tela de TV, ou o estilo audiovisual de vídeos da MTV e comerciais de TV. No boom de TI da década de 1990, a proliferação de novas formas de mídia e tecnologias e um espaço de tela cada vez mais hipermediada foram entusiasticamente comemorados junto com os IPOs, fundos de capital de risco, e ações do Vale do Silício (GRUSIN: 2010, p. 2).

Aliás, a Terça Negra mudou a forma pela qual governo e mídia se relacionavam com os americanos. Se antes de 11 de setembro de 2001, predominava a remediação (representação de uma mídia em outra) baseada em immediacy (imediação), cuja tevê era o ponto central, e hypermediacy (hipermediação), com a Internet à frente da divulgação de informação, agora a premediation é o modo de comunicação utilizado para antecipar o que acontecerá no futuro.

Os EUA aplicaram essa lógica ao anunciar a invasão ao Iraque, em março de 2003 61 .

60 O tempo no Jornalismo está dividido em cinco momentos: a) tempo do acontecimento do fato; b) tempo da produção, incluindo análise e reação em relação ao fato ocorrido; c) tempo da distribuição; d) tempo da circulação; e) tempo da leitura. (MOHERDAUI: 2005, p. 78). 61 U.S. LAUNCHES cruise missiles at Saddam. In: CNN. Mar. 2003. Disponível em:

http://bit.ly/kXlxCF. Acesso jan. 2012.

A premediação tomou uma forma fundamentalmente americana nos anos imediatamente após 9/11, quando os Estados Unidos procuraram tentar certificar-se de que o público americano nunca havia experimentado um evento catastrófico de grande escala que não tivesse já sido premediado. Em certo sentido, o evento de 9/11 pode ser visto como um marco do fim do desejo tecnocultural pelo imediatismo alimentado pelo dot.com e a histeria da realidade virtual dos anos noventa e substituíram-no por um desejo de uma nação (ou talvez um mundo) em que o imediatismo da catástrofe, o imediatismo do desastre, não pode acontecer novamente - porque seria sempre já premediado (IBIDEM, p. 12).

Ainda que os atentados às torres gêmeas e ao Pentágono tenham alterado significativamente a cultura da mediação, o fato é que immediacy e hypermediacy ainda fazem parte do formato e das práticas jornalísticas na Internet.

Os chamados portais e sites jornalísticos operaram nessa dinâmica da metade dos anos 1990 até o final dos anos 2000, quando as redes sociais passaram a ser uma alternativa na busca de informações atualizadas constantemente. Mais especificamente, desde a morte de Michael Jackson, em 2009.

A notícia foi publicada pelo TMZ, que cobre celebridades na Internet (Web e aplicativo), mas ganhou as redes sociais porque a imprensa passou a questionar a credibilidade do TMZ 62 e também por causa da repercussão entre os fãs. A não confirmação da morte do ídolo por poucas horas derrubou Google e Twitter 63 . Antes, o jornal Los Angeles Times 64 informou que o cantor havia sido internado às pressas.

Outro importante evento foi a posse do presidente Barack Obama, também em 2009. Realizado a partir de uma parceria entre a rede de tevê americana CNN e

62 http://bit.ly/5Rma2. Acesso jan. 2012.

63 NOTÍCIA DA morte de Michael Jackson derruba Google e Twitter. G1, São Paulo, 26 jun. 2009. Disponível em: http://glo.bo/BWWur Acesso jan. 2012.

64 http://lat.ms/b6Vqf1. Acesso jan. 2012.

o Facebook, de Mark Zuckerberg, milhares de pessoas puderam acompanhar e comentar ao mesmo tempo tudo o que acontecia em Washington 65 .

Depois, outras ações consolidaram definitivamente as redes sociais como uma das principais fontes de notícias, senão a principal. Porém, somente em 2011, o terremoto no Japão, os movimentos no Oriente Médio contra ditaduras e a morte de Osama Bin Laden 66 reforçaram a mudança de paradigma no Jornalismo mundial.

Entretanto, há que se considerarem diferenças tecnológicas entre o papel e a Internet. Ainda que a tecnologia não determine a produção jornalística na rede, mas a possibilite, há limitações como as registradas na cobertura do atentado aos EUA. Enquanto um grande número de acessos derrubava servidores mundo afora, os jornais de papel não tiveram seus processos produtivos alterados. Circularam no dia seguinte, alguns até em edição extra.

Não há hipótese de um congestionamento em servidores derrubar a edição de um telejornal, de um programa de rádio ou a publicação de um jornal ou uma revista. Não se tem notícia de um jornal enviado à gráfica chegar ao leitor sem foto para não sobrecarregar a página. Ou de um telejornal ir ao ar sem vídeo ou áudio porque a conexão fora interrompida.

65 A POSSE de Obama e a experiência de compartilhamento nas redes sociais: o caso CNN.com Live + Facebook. Intermezzo, São Paulo, 21 jan. 2009. Disponível em: http://bit.ly/kXH06o. Acesso jan. 2012. 66 http://bit.ly/kdsAty. Acesso jul. 2011.

Figura 19. Cobertura da posse de Barack Obama no Facebook via CNN Porém, a grande

Figura 19. Cobertura da posse de Barack Obama no Facebook via CNN

Porém, a grande mudança é a possibilidade de ir além da reprodução de metáforas analógicas convencionais, de a Web implodir a interface impressa. Este tema discutido no próximo tópico.

Bem além do papel

Por causa da Web, pesquisadores elaboraram tipologias para definir conceitos, nomenclaturas, história e características do Jornalismo praticado na Internet (SALAVERRÍA: 2005; MIELNICZUK: 2003; SAAD: 2003; BARBOSA: 2002; MACHADO: 2000; DEUZE: 2001; PAVLICK: 2001; WOLK: 2001; SILVA JÚNIOR:

2000; PALACIOS: 1999; ARMAÑANZAS: 1996).

Há vários estudos para propor narrativas específicas (FERRARI: 2007; NOCI; SALAVERRÍA: 2003; PAUL: 2005; MCADAMS: 2005; MURRAY: 2003, LANDOW: 1995), gêneros (SEIXAS: 2009; BOGOST et al: 2010), design (CAIRO:

2007; HARROWER: 2002; BRINGHURST: 2004; GARCÍA: 1997; NIELSEN: 2000; DE PABLOS, 1999), sistemas de publicação (SCHWINGEL: 2008; GILMOR: 2004) e analisar as funções do usuário e aferição de acesso (BOCZKOWSKI: 2004, MOHERDAUI: 2005), entre outros.

Das diversas nomenclaturas para denominar o Jornalismo de Internet, as mais utilizadas são: Webjornalismo, definido por Luciana Mielniczuk (1998) como a produção de conteúdo exclusivamente para a Web, e Jornalismo Digital, de Elias Machado (2007), pois engloba o WWW e outros dispositivos de conteúdo como, por exemplo, celulares e tablets.

Também é denominado Jornalismo Multimídia, pois implica a possibilidade da manipulação conjunta de dados digitalizados de diferentes naturezas: texto, som e imagem. Javier Días Noci (2001), da Universidade do País Basco, defende Jornalismo Eletrônico Multimídia Interativo, embora considere que são produtos informativos jornalísticos dedicados à informação atual elaborada e publicados conforme regras estabelecidas da profissão e geralmente por empresas de comunicação que apostam na Internet como principal negócio 67 .

Outros pesquisadores como Helder Bastos preferem Jornalismo Eletrônico, cujo campo se estende às nominações Jornalismo Digital e Jornalismo On-Line. Trata-se de uma fórmula: JE = JO + JD. A justificativa, segundo Bastos, é a de que integrada às práticas do Jornalismo Assistido Por Computador (CAR, sigla em inglês) está a pesquisa de Internet, classificada por ele como Jornalismo On-Line.

A proposta do autor refere-se a pesquisas realizadas em redes nas quais a informação circula em tempo diferido e cujo objetivo é a apuração jornalística (busca de conteúdos, recolhimento de informações e contato com fontes). Essas possibilidades de disponibilização de informações na rede são denominadas Jornalismo On-Line, já desenvolver e disponibilizar produtos é Jornalismo Digital 68 .

André Lemos, da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom/UFBA), o definiu como ciberjornalismo por ser o “lugar onde estamos quando entramos em um ambiente virtual e como o conjunto de redes de computadores interligadas ou não, em todo o planeta (BBS, videotextos,

67 MOHERDAUI, 2007, p. 119, 120, 121.

68 IBIDEM.

Internet) 69 . É o que Mielniczuk chama de jornalismo praticado no ciberespaço (ver quadro abaixo).

Tabela 1. Nomenclaturas

Nomenclatura

Definição

Jornalismo eletrônico

Feito com equipamentos e recursos eletrônicos

Jornalismo Digital ou Multimídia

Emprega tecnologia digital (dados viram bits)

Ciberjornalismo

Envolve tecnologias que utilizam o ciberespaço

 

Jornalismo On-Line

Desenvolvido

com

tecnologias

de

transmissão

de

dados

Webjornalismo

Diz respeito a uma parte específica da rede: a Web

 

Jornalismo de Internet

Jornalismo produzido para a Internet das Coisas

Até pouco tempo atrás, fazia sentido nomear as práticas jornalísticas na rede segundo a lógica dos autores citados acima, como Luciana Mielniczuk, Helder Bastos, Días Noci e Elias Machado.

Esta pesquisadora utilizou o termo Jornalismo Digital, proposto por Machado até meados de 2010 em artigos, no livro Guia de Estilo Web – Produção e Edição de Notícias On-Line (2007), na dissertação de Mestrado (2005), defendida na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom/UFBA), e no projeto desta tese. Para o autor, a designação on-line restringe a produção na rede e não contempla todas as especificidades da rede.

A definição de Machado é coerente do ponto de vista da compreensão do todo, da própria concepção de Digital 70 . Pois, por meio dos sistemas de publicação disponíveis no mercado, é possível empacotar informações para serem distribuídas em diversas plataformas.

São elas: SMS (mensagem de texto curta), podcast (formato de arquivo padronizado mundialmente para distribuição automática de áudio, vídeo e texto), MMS (serviço de mensagem multimídia), Moblog (blog atualizado pelo celular), RSS (um formato de entrega de conteúdo pela Internet), Newsletters (boletins

69 IBIDEM.

70 Para saber mais sobre digital, ver: http://bit.ly/qEU0TK. Acesso jan. 2012.

informativos), Newsalerts (alertas de notícias), programas de comunicação instantâneos, como Skype, e redes sociais, como Facebook e Twitter, e tablets.

Porém, com a computação ubíqua e a Internet das Coisas, essa nomenclatura deixa de fazer sentido. Se o ciberespaço é agora aqui e os dispositivos estão permanentemente conectados, o mais adequado é repensar a própria definição de Jornalismo atrelada aos suportes 71 que o compõem.

Que Jornalismo é esse produzido para a Internet das Coisas em um ambiente de computação ubíqua? Como é a sua interface? De que maneira a interface reconfigura o Jornalismo? Por enquanto, a denominação mais coerente é Jornalismo de Internet. O termo será utilizado ao longo desta tese.

José Marques de Melo, um dos mais importantes pesquisadores no Brasil definiu o Jornalismo como um processo social que se articula a partir da relação (periódica/oportuna) entre organizações formais (editoras/emissoras) e coletividades (públicos/receptores), por meio de canais de difusão que asseguram o trânsito de informações por causa de interesses e expectativas (2003, p. 17). Opera por meio de estratégias de noticiabilidade.

Não apenas àquelas que se referem à definição do que é notícia, mas também às que moldam a interface da notícia. (WOLF: 2002, p. 195-196). Na rede, Jornalismo e interface vão além dessas concepções. O fazer jornalístico será detalhado mais adiante. Notadamente sobre a interface e para entender como ela é constituída, é preciso porém voltar um pouco no tempo.

Design gráfico faz a diferença

71 No dicionário Houaiss, suporte é definido como: base física (de qualquer material, como papel, plástico, madeira, tecido, filme, fita magnética etc.) na qual se registram informações impressas, manuscritas, fotografadas, gravadas etc. Ou num computador, material (disco, fita magnética etc.) destinado a receber a informação.

Na década de 1970, empresas jornalísticas dos Estados Unidos passaram a ter um maior interesse em design gráfico. Interesse que tomou conta das redações de jornais americanas – da pequena à grande imprensa -, e se manifestou de diferentes maneiras, sobretudo pela revisão dos conceitos sobre como apresentar informação ao leitor e pelo início da discussão sobre o tema.

Daquele ano em diante, o design gráfico começou a ocupar um espaço significativo nos projetos editoriais, marcado pela criação de dois seminários no American Press Institute, em Reston, Virgínia, que contou com um grupo de jornalistas gráficos, liderados por Roger Fidler, da Knight-Rider Newspapers, Robert Lockwood, do Allentown Morning Call, e Richard Curtis, do Baltimore News American, para criar, em 1979, a Society Newspapers Design (SDN) 72 .

Esse grupo publicava o Journal of Newspaper Design. Fidler também editou o livro Newspaper Design Notebook, um guia para jornalistas e designers com estudos de casos sobre redesenhos de jornais. Um dos nomes mais expressivos da SND é Edmund Arnold 73 (1913-2007).

Considerado o pai do design moderno de jornais, Arnold revolucionou o conceito de projeto gráfico nos anos 1960, e as mudanças por ele implementadas à época se tornaram padrão no mundo todo. Com mais de 40 anos de carreira, passou por importantes redações, como Chicago Tribune, Christian Science Monitor, Newsday, New Orleans Times-Picayune, Boston Globe, Toronto Star, Kansas City Sta, National Observer, publicado pela Dow Jones's e fechado em 1977.

Responsável pela reformulação de mais de 250 diários, o tipógrafo introduziu o espaço entre elementos relacionados nas páginas e ganhou notoriedade entre os publishers pela qualidade de seu traço, valorizando texto, com

72 Para saber mais sobre a SND, acessar o endereço. http://bit.ly/16ig1K. Acesso jan. 2012. 73 Para saber mais sobre Edmund Arnold, ver BERNSTEIN, A. Edmund Arnold, 93; Designed Newspapers. The Washington Post, EUA, 9 fev. 2007. Disponível em http://wapo.st/pOLEOc. Acesso jan. 2012.

o aumento dos tipos, e imagens, com a reorganização do layout, pois defendia que as fotos tinham de contar história e não serem publicadas como adereços.

Também foi Arnold o responsável pela modulação dos textos, em vez de publicar matérias em colunas extensas, e pela redução da diagramação de oito para seis colunas.

Outro profissional expressivo na área é Peter Palazzo (1926-2005), da Palazzo and Associates, responsável pelo redesenho do Sunday New York Herald Tribune, que circulou nos Estados Unidos até 1966. A organização das capas com espaços em branco, uso de grandes fotos e arte e a divisão do conteúdo em editorias causaram grande impacto no mercado.

O trabalho de Palazzo foi considerado como vanguarda no início da década de 1960. Sua importância foi tamanha que ajudou a criar a disciplina de design de jornais nas universidades.

Os novos padrões influenciaram jornais como o The New York Times, caracterizado pelo constante uso da cor cinza e pela primeira página carregada de massa textual 74 . No início dos anos 1970, o Times mudou o conceito gráfico, diminuiu a diagramação para seis colunas e redesenhou a capa e as páginas internas, o que lhe conferiu o crédito de jornal mais moderno daquela década.

Na esteira do Times, também ganharam novos contornos Newsday, Louisville Courier-Journal, Today, The Christian Science Monitor e Minneapolis Tribune. De

olho no comportamento dos leitores, os jornais – mesmo os pequenos – passaram a ter cadernos semanais sobre variedades, esportes, moda e lazer, conforme explica

o designer Mario Garcia em seu Contemporary Newspaper Design – A structural approach:

74 Para conhecer mais páginas do The New York Times impresso, consultar TimesMachine, disponível em: http://nyti.ms/dgjQ3. Acesso jan. 2012.

Como os leitores adquirem novidades e estilos de vida mais diversificados, os jornais são forçados a buscar meios para atender a este público cujos interesses especiais caminham da moda para o lazer, esportes e comida. Mesmo os mais modestos jornais incorporaram seções semanais como parte de sua pauta normal (1981, p. 3).

semanais como parte de sua pauta normal (1981, p. 3). Figura 20. Sunday Tribune , 1960

Figura 20. Sunday Tribune, 1960 75 , redesenhado por Peter Palazzo

Orientado pelas novas tendências, o Chicago Tribune reorganizou suas editorias e incorporou cadernos especiais não apenas nos finais de semana, mas diariamente. O Dallas Morning News criou Fashion!Dallas, que circulava as quartas- feiras com cor na capa, ênfase em fotografia e arte, combinando anúncios e conteúdo editorial de modo atraente e efetivo, sob o lema: “The design is the key to the success of Fashion Dallas!”.

75 Reprodução do livro Contemporary newspaper design – a structural approach (GARCIA:

1981, p. 2).

O objetivo do jornal era apresentar grande variedade de informação, fotos e arte, dispostos graficamente em cada página. Todas essas mudanças implementadas valorizaram um novo profissional, sobretudo nas grandes redações: o designer gráfico. Mario Garcia destaca a importância dos anos 1970 para a grande imprensa americana:

A década de 1970 deu um impulso para melhorar o projeto gráfico de jornal - mas que normalmente era mais significativo para grandes jornais ou jornais com designers treinados como parte de suas equipes. Isso é suscetível a fim de alterar o futuro, para diários e semanários mais modestos começarem a descobrir os efeitos benéficos do projeto em suas publicações (IBIDEM, p. 3).

Entretanto, rever conceitos e alterar totalmente a noção de organização de um jornal não é tarefa das mais fáceis. É preciso não dissociar o projeto gráfico do projeto editorial, nas palavras de Mario Garcia 76 (loc. cit.), cuja marca aparece atualmente nos redesenhos dos principais jornais do mundo: "Essas seções especiais exigem os maiores talentos e habilidades em termos de tipografia e de design, bem como de conteúdo".

Muitos jornais passaram a adotar estratégias de design gráfico para criar uma identidade visual em suas páginas. Dos tradicionais, o Baltimore News American saiu com uma inovadora mistura de tipos, arte e fotos, e o Boston Herald American modernizou a primeira página. O Washington Star optou por uma mudança drástica em suas páginas, especialmente nas internas, ao adotar um design baseado efetivamente em revistas.

Se os anos 1970 foram marcados pelo alto grau de influência dos elementos de design nas redações, os anos 1980 forneceram razões para essa solidificação, até os dias atuais. Entretanto é preciso ponderar que tais mudanças aconteceram após o surgimento dos primeiros diários, em 1650 77 .

76 Os projetos do designer Mario Garcia estão em: http://bit.ly/yUU88. Acesso em jan. 2012. 77 O primeiro jornal diário publicado foi Einkommende Zeitug, em 1650 na Alemanha. O Daily Courant se manteve até 1735. Os primeiros diários franceses surgiram em 1777 para surgirem em Paris. A impressão nasceu em 1438 e ganhou difusão na segunda metade do século XV. A imprensa periódica só nasceu mais de um século e meio após a invenção da tipografia, tendo sido um verdadeiro florescimento de escritos de informação dos mais diversos. Desde o século XVI, pelo

A primeira página do The New York Times, de 1864, era diagramada com textos distribuídos em seis colunas e a manchete ocupando o lado esquerdo superior da página, escrita em uma linha e em uma coluna. Não havia imagens, arte ou gráficos e a impressão era feita em preto e branco. Já capa do Times, de 1980, aparece diagramada em seis colunas, com três fotos coloridas em destaque e manchete com tipos grandes de centralizada ocupando quatro colunas.

com tipos grandes de centralizada ocupando quatro colunas. Figura 21. NY Times, 1860 Figura 22. NY

Figura 21. NY Times, 1860

ocupando quatro colunas. Figura 21. NY Times, 1860 Figura 22. NY Times , 1980 78 Ainda

Figura 22. NY Times, 1980 78

Ainda que tenha levado muito tempo para incorporar o design ao Jornalismo, ou para que o design surgisse para o Jornalismo, guardadas as restrições econômicas, tecnológicas e culturais, não se pode negar que resultou em uma mudança completa de paradigmas e de práticas nas redações, sobretudo porque os novos formatos adotados se tornaram padrão mundial.

Nesse sentido, não é sem razão que o estudo da interface dos jornais de Internet tem, obrigatoriamente, que revisitar os métodos de criação e de produção

utilizados largamente por profissionais como Edmundo Arnold e Peter Palazzo, pois algumas das lições passam pelo entendimento do meio, da sua relação com o leitor e da sua abrangência.

Metáfora é o ponto de partida

Tal análise é importante, pois mostra que no caso da Web, as empresas jornalísticas deram um passo atrás: a nova plataforma de publicação, projetada para repensar os modelos analógicos em vigor, simula o papel, nas palavras de Ted Nelson (2001), com diagramação em colunas, predomínio de texto e pouco uso de recursos multimídia e do potencial de criação da interface gráfica da Internet 79 .

O que foi considerado design gráfico de vanguarda no jornalismo impresso há mais de 40 anos hoje é praticamente transposto para a rede, apesar de a Internet ser uma nova forma social que produz uma nova prática social e, por isso, possibilita ações especificas (ECHEVERRÍA, 1999; CASTELS, 1999). Isso acontece porque os designers levaram a experiência da mídia impressa para a rede:

Muitos deles foram treinados como designers gráficos para

impressão, e eles compraram as habilidades e suposições de design gráfico para a Web. Eles sabiam como usar conjuntamente palavras e imagens para se comunicar no espaço bidimensional da página impressa. Eles entenderam que um site poderia funcionar como um jornal ou uma revista em função das comunicações de forma visual. Alguns designers se tornaram Web Designers, porque eles foram atraídos pelo potencial desta nova forma de comunicar (BOLTER e GROMALA, 2003. p.6).

) (

Outra questão importante que se coloca é a de que designer nem arquiteto da informação podem ter uma visão estruturalista da interface; forma e conteúdo não podem ser separados (veja nas próximas páginas comparação entre versões impressa e de Web da Folha de S.Paulo).

79 Para saber mais sobre interfaces noticiosas na Web, acessar Contra a clicagem burra, disponível em: http://bit.ly/mP6xcC Acesso em jan. 2012.

Jay David Bolter e Diane Gromala (op. cit., p.3-6) afirmam que o erro de Jakob Nielsen e Donald Norman, da Nielsen Norman Group (http://www.nngroup.com) é assumir que a única meta é tornar a interface transparente, quando na realidade o ideal é estabelecer um ritmo apropriado entre ser transparente e reflexivo. Eles julgam incorreto achar que o melhor design é claro, simples e natural.

Pense na tela do computador como uma janela que se abre para um mundo visual que parece estar por trás ou além dela. Este é o mundo de informações que o computador nos oferece. Textos, gráficos, imagens digitalizadas e som. Concentrando-se no texto ou nas imagens, o usuário esquece a interface (menus, ícones, cursor), e a interface se torna transparente. Especialistas de HCI (human-computer interface) e alguns designers falam como se esse fosse o único objetivo do design de interface: montar uma janela transparente para um mundo de informação (Op. cit., p. 26).

Aliás, para Bolter e Gromala, Tim Berners-Lee e Mark Andreessen são estruturalistas e assim também o são suas criações Web e Mosaic (respectivamente).

o são suas criações Web e Mosaic (respectivamente). Figuras 23, 24, 25. Reprodução das capas da
o são suas criações Web e Mosaic (respectivamente). Figuras 23, 24, 25. Reprodução das capas da
o são suas criações Web e Mosaic (respectivamente). Figuras 23, 24, 25. Reprodução das capas da

Figuras 23, 24, 25. Reprodução das capas da versão impressa do Caderno de Esportes da Folha da Copa de 2006

Figuras 26, 27, 28. Reprodução das interfaces do caderno de Esportes da Folha na Internet
Figuras 26, 27, 28. Reprodução das interfaces do caderno de Esportes da Folha na Internet
Figuras 26, 27, 28. Reprodução das interfaces do caderno de Esportes da Folha na Internet

Figuras 26, 27, 28. Reprodução das interfaces do caderno de Esportes da Folha na Internet da Copa de 2006

Porém, num contexto de Internet das Coisas, a ideia de ser reflexivo e transparente precisa ser reavaliada. Do modo como é definida, restringe-se apenas à tela do computador. Talvez esse pensamento reflita a cultura da página estática ao contrário da Internet das Coisas, que pressupõe uma interface que, no limite, é vestível (ver p. 47).

Na década de 1940, o computador era visto como uma enorme máquina de calcular, projetada por Alan Turing, para resolver problemas de engenharia e ciência. Mesmo quando Ted Nelson cunhou o termo hipertexto ainda era percebido como máquina. Apenas em 1968, o computador passa a ser denominado como mídia/meio. A definição aparece pela primeira vez no artigo The Computer as a Communication Device, de J.C.R. Licklider (1915-1990) e Robert W. Taylor 80 :

Podemos dizer com toda a convicção que uma forma particular de organização do computador digital, com seus programas e seus dados, constitui o meio dinâmico, moldável que pode revolucionar a arte de modelagem e que, ao fazê-lo, pode melhorar a eficácia da comunicação entre as pessoas tanto como, talvez, para revolucioná-la também. (1968, p. 27).

Em seu artigo, Licklider e Taylor (op. cit., p. 21) defendiam que a comunicação não podia se restringir apenas ao envio e recebimento de informações, sobretudo em um momento em que a tecnologia avançava e permitia

80 LICKLIDER; TAYLOR. 1968.

ao leitor interagir com a informação, não de modo passivo, como acontecia, ao ler livros comprados em livraria, por exemplo, mas como participantes ativos num processo continuado. Naquela época, os pesquisadores já pensavam a comunicação como um dispositivo todos-todos (LÉVY, 1999, p. 63).

Com o advento da Web, o computador começou a representar e reconfigurar formatos culturais existentes (BOLTER e GROMALA, op. cit., p. 12) por meio da tecnologia, como jornais, revistas, filmes e tevê. Nesse sentido, para Jay David Bolter e Diane Gromala, o projeto gráfico passaria pelas seguintes noções: a) o computador tornou-se um novo meio; b) o design, como artefato, muda para o design como experiência; e c) o design para Internet não pode ser invisível.

A interface é a mensagem

Porém se é verdade que projetos com o Six Sense, do Media Lab, do MIT, serão realidade e farão parte do cotidiano do cidadão comum, a interface transforma-se em um meio.

Nesse sentido, a interface passa a ser a mensagem porque é ela que “configura e controla a proporção e a forma das ações e associações humanas”. (McLuhan: 1964, p. 23). De que maneira se dá essa compreensão? Escreveu Marshall McLuhan em Os meios de comunicação como extensão dos homens:

A luz elétrica é informação pura. É algo assim como um meio sem mensagem, a menos que seja usada para explicar algum anúncio verbal ou algum nome. Este fato, característico de todos os veículos, significa que o conteúdo de qualquer meio ou veículo é sempre outro meio, ou veículo. O conteúdo da escrita é a fala assim como a palavra escrita é o conteúdo da imprensa, e a palavra impressa é o conteúdo do telégrafo (MCLUHAN: 1964 p.

22).

A mensagem de qualquer meio ou tecnologia é a mudança de escala, cadência ou padrão que esse meio ou tecnologia introduz nas coisas humanas. A estrada de ferro não introduziu movimento, transporte, roda ou caminhos na sociedade humana, mas acelerou e ampliou a escala das funções humanas, criando tipos de cidades, de trabalho e de lazer totalmente novos. O avião, de outro lado, tende a dissolver a forma “ferroviária” da cidade, da

política e das associações, independentemente da finalidade para o qual é utilizado (IBIDEM, p. 22-23).

Se aplicado à Internet, o conceito mcluhaniano cabe perfeitamente à interface. Ou seja, a interface é o conteúdo do computador assim como a linguagem visual híbrida – remix de softwares e formatos - (MANOVICH: 2008, p. 102) é o conteúdo da interface. Ao implodir a página impressa, a interface instituiu uma nova linguagem.

Se pensada do ponto de vista da Internet das Coisas, fica mais claro o entendimento. Escreveu McLuhan: “O efeito de um meio se torna mais intenso justamente porque o seu conteúdo é outro meio. Nenhum meio existe sem depender do outro” (1964, p. 33-42). Isso faz rever as noções de Bolter e Gromala citadas no parágrafo anterior, destacadas no quadro na página a seguir:

Tabela 2. Computador e interface, ontem e hoje

Ontem

Hoje

Computador tornou-se um novo meio

Interface tornou-se um novo meio

Design

experiência

como artefato

muda

para

design como

Design

experiência

como

artefato

muda

para

design

como

Design para Internet não pode ser invisível.

Design para a Internet é vestível

Partindo do pressuposto de que a interface é a mensagem e que o usuário não apenas opera, mas interage com ela, a lógica do design gráfico na Internet é a de que o projeto tem que ser elaborado para ser experimentado e não simplesmente utilizado. Pois a condição da informação na rede é a ação (BOLTER e GROMALA, op. cit., p. 24, MANOVICH, 2001, p. 227). Isso exige que a interface seja dinâmica e não uma série de telas estáticas como pode ser observado atualmente.

Há alguns caminhos para se entender esse raciocínio: a neurociência, na visão de Miguel Nicolelis, e a arte digital, proposta por Bolter e Gromala. A contribuição da arte digital ao Jornalismo será explicada no último capítulo. A neurociência pode explicar de que forma o chamado wetware humano, uma abstração que incorpora o sistema nervoso central e a mente; reconfigura não só a relação homem-máquina, mas também o padrão do Jornalismo em vigor.

Para Nicolelis, não demorará muito para que as pessoas deixem de usar monitores, teclados e mouse. Ele acredita que o computador convencional deixará de existir. “Vamos submergir em sistemas virtuais e nos comunicaremos diretamente com eles. No longo prazo, o corpo deixará de ser o fator limitante da nossa ação no mundo” (2011).

Não estão longe de se tornarem realidade os cenários apresentados pelo neurocirurgião em seu novo livro “Muito além do nosso eu” (2011). Pioneiro no estudo de interações entre cérebro e máquina, Nicolelis realiza pesquisas com macacos em seu laboratório na Universidade Duke, o Duke´s Center For Neuroengineering. Eles aprenderam a utilizar um paradigma neurofisiológico revolucionário chamado interfaces cérebro-máquina (ICM).

Com várias ICMs, a equipe de Nicolelis em Duke foi capaz de demonstrar que os macacos podem aprender a controlar, voluntariamente, os movimentos de artefatos artificiais, como braços e pernas robóticos, localizados próximo ou longe deles, usando apenas a atividade elétrica de seus cérebros de primatas (p.22-23).

Trata-se de uma nova abordagem experimental para ler simultaneamente os sinais elétricos produzidos por centenas de neurônios que pertencem a um circuito neuronal. Os experimentos realizados no laboratório do neurocientista permitiram traduzir pensamentos motores em comandos digitais que puderam ser aplicados para gerar movimentos em máquinas que foram criadas sem nenhum intuito de reproduzir a intenção dos pensamentos de um primata.

Era para liberar o cérebro das restrições impostas pelo corpo e, nesse processo, permitir ao sistema nervoso desses animais controlarem diretamente o funcionamento de quaisquer ferramentas, como forma de interação e exploração do mundo ao seu redor apenas por meio do pensamento (IBIDEM: p. 23). A pesquisa de Nicolelis foi destaque na revista Nature em outubro de 2011. 81

81 MONKEY BRAINS 'feel' virtual object. Nature, EUA. 5 out. 2011. Disponível em:

http://bit.ly/qd40ye. Acesso jan. 2012.

Se a interação entre máquinas e cérebro considera aparelhos (mesmo que distantes) como parte do homem, é possível pensar o ser humano como máquina social, pois depende de elementos exteriores para existir como tal. Implica uma complementaridade não apenas com o homem que a fabrica; ela própria está em relação de alteridade com outras máquinas, sociais, atuais ou virtuais (GUATTARI:

2008, p. 49-50).

Corpo informacional

Nesse sentido, essa máquina transforma-se em um corpo informacional na medida em que opera em relação à outra máquina, conectada em rede, agrupando dados biológicos, sociológicos e econômicos, cujo algoritmo que a comanda coloca em perspectiva uma nova estética orientada pelo wetware ou input humano.

O input humano ou o wetware já são realidade há muito tempo em clássicos da ficção cientifica como Johnny Mnemonic (1995), 82 Strange Days (1995) 83 , eXistenZ (1999) 84 , Minority Report (2002) 85 e Avatar (2009) 86 , entre outros. Porém, como algo longe do alcance de todos.

No caso de