Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

Luciana Moherdaui

Interfaces nômades1
Uma proposta para orientar o fluxo noticioso na Web

DOUTORADO EM COMUNICAÇÃO

SÃO PAULO
Maio, 2012

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Esta tese foi elaborada com o apoio do UOL (www.uol.com.br), através do Programa UOL Bolsa Pesquisa, processo número 20080102180000.

Luciana Moherdaui

Interfaces nômades
Uma proposta para orientar o fluxo noticioso na Web

DOUTORADO EM COMUNICAÇÃO

Tese apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo como exigência parcial para obtenção do título de Doutor em Comunicação e Semiótica na linha de Pesquisa Processos de Criação nas Mídias. Orientação: Rogério da Costa

SÃO PAULO
2012

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Folha de aprovação

Banca examinadora
Rogério da Costa - Orientador Giselle Beiguelman (FAU/USP) Pollyana Ferrari (PUC/SP) Lúcia Leão (PUC/SP) Cícero Inácio da Silva (UFJF/MG)

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Agradecimentos

Este trabalho ficaria sem fôlego não fossem as orientações de Giselle Beiguelman e Rogério da Costa. Giselle por ter deixado esta jornalista e pesquisadora voar, indefinidamente, e Rogério por aparar as arestas e torná-lo realidade nas cerca de 300 páginas que se seguem.

Também foram absolutamente fundamentais os apoios recebidos pela Coordenação do Programa de Comunicação e Semiótica (COS) da PUC/SP, (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), cuja Bolsa de Estudo permitiu a realização de um projeto pessoal e profissional, o Doutorado, e pelo Programa UOL Bolsa Pesquisa por contribuir com minha formação acadêmica.

Tenho especial apreço pelo coletivo inteligente que colaborou amplamente em minha pesquisa mesmo sem, às vezes, ter-se dado conta, por meio de redes sociais ou conversas informais. Às vezes, em comentários sobre Jornalismo ou pela leitura de posts. Um deles, especialmente feito por Leão Serva, ex-chefe no iG e hoje meu amigo. Trata-se de uma piada contada nas redações toda a vez que surge uma reforma gráfica: “com fio ou sem fio?”

Explico: grosso modo, os projetos gráficos baseiam-se em uma máxima que surgiu após a grande mudança instituída no Jornal do Brasil por Jânio de Freitas, no final dos anos 1950: as reformas de jornal alternam-se por tirar e colocar fios. Em junho de 1959, o jornalista, atual colunista da Folha de S.Paulo, decidiu arrancar os fios das páginas e aumentar o tamanho das fotos no JB. Dizia que os leitores não liam fios. Também integravam o time Odylo Costa Filho, Ferreira Gullar, Alberto Dines e Reynaldo Jardim.

A todos a minha gratidão, essa palavra-tudo, como diria Carlos Drummond de Andrade (1902-1987).

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“Nenhum conhecimento precede a experiência, todos começam por ela”
Immanuel Kant

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Resumo
Esta pesquisa analisa a interface jornalística na Web, embora a conclusão possa ser estendida a outros protocolos e aplicativos. O objetivo principal é repensar a exibição da notícia que circula no fluxo. A migração da cultura de página estática para a cultura de dados (BERNERS-LEE: 2009) modificou o padrão de comunicação que vigorou no século 20. Foram incorporados à transmissão, publicação e recepção os seguintes termos: anotar, comentar, responder, agregar, cortar, compartilhar, download, upload, input e output (MANOVICH: 2008, p. 226). Esta tese parte do pressuposto de que os projetos de Jornalismo para a Internet são constituídos sob a lógica do jornal impresso, com hierarquia e diagramação em colunas (NELSON: 2001) quando a dinâmica atual indica a implosão da página, a perda do processo de padronização editorial. Nesse sentido, a discussão será fundamentada a partir de noções de revezamento, agenciamento (DELEUZE; GUATTARI, 2007, p. 180), mapa (DELEUZE; GUATTARI: 2006, p. 21-23) e teorias do Jornalismo.

Palavras-chave: jornalismo, Internet, interface, agenciamento, tag

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Abstract

This research analyzes the news on the Web interface, although the finding can be extended to other protocols and applications (apps). The main objective is to rethink the view of news circulating in the right flow. The migration of static page culture to the culture data (BERNERS-LEE, 2009) changed the pattern of communication prevailed in the 20th century. The following terms were incorporated into the transmission, publication and reception: annotate, comment, reply, add, cut, share, download, upload, input and output. (MANOVICH, 2008, p. 226). This thesis assumes that journalism projects for the Internet are made under the logic of the printing press, with hierarchy and in columns (NELSON, 2001) when the current dynamics of the implosion of the page indicates, the loss of the standardization editorial process. In this reality, the discussion will be based from notions of relay assemblage (DELEUZE; GUATTARI, 2007, p. 180), map (DELEUZE; GUATTARI, 2006, p. 21-23) and theories of Journalism.

Keywords: digital journalism, interface, agency, tag

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Sumário

Índice de figuras Índice de tabelas

PG 10 PG 17

Introdução

PG 18

Capítulo 1. Internet das Coisas A rede mundial de computadores Economia: a primeira bolha Tudo agora é ciberespaço Computação ubíqua A Web não morreu Jornalismo de Internet Bem além do papel Design gráfico faz a diferença Metáfora como ponto de partida A interface é a mensagem Corpo informacional Agenciamentos que reconfiguram a interface

PG 29 PG 30 PG 35 PG 39 PG 43 PG 50 PG 53 PG 59 PG 63 PG 68 PG 71 PG 74 PG 77

Capítulo 2. Estética Power Point Ponto de vista jornalístico Nem toda informação é notícia A realidade pela lente do Jornalismo Design de superfície, redundância e imperativo Nos gadjets, um pouco além da repetição Tudo é igual para todos Como a interface mudou o Jornalismo O jornal foi parar dentro do Facebook Desconstruindo conceitos

PG 84 PG 85 PG 88 PG 90 PG 93 PG 103 PG 106 PG 110 PG 115 PG 117 8

As quatro fases do Jornalismo de Internet Para analisar a interface, Foucault O que caracteriza o Jornalismo de Internet?

PG 119 PG 129 PG 132

Capítulo 3. Interfaces nômades Rupturas e remediações A Web de Ted Nelson Por uma crítica da metáfora Uma nova linguagem visual híbrida A primeira interface de conversação Tag para desenhar Arquitetura da informação ainda dá conta? Interface como superfície A inteligência distribuída deslocou a fonte A influência da arte digital Links tomam o lugar das prateleiras Notícia em rede Twitter põe em xeque a manchete No Facebook, jornal mantém a tradição O jornal como rede social A implosão da página estática

PG 147 PG 148 PG 153 PG 156 PG 161 PG 165 PG 170 PG 176 PG 177 PG 180 PG 185 PG 189 PG 195 PG 199 PG 205 PG 207 PG 214

Conclusão Bibliografia Anexos Formulário de observação e ficha técnica Relatório final do Programa Bolsa UOL de Pesquisa Interfaces pesquisadas 2012 2009 2008

PG 223 PG 239 PG 251 PG 251 PG 254 PG 258 PG 258 PG 273 PG 288

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Índice de figuras
Figura 1. Mosaic, primeiro browser gráfico Figura 2. Netscape Navigator Figura 3. Receita por usuário na Internet Figura 4. Projeção da Internet das Coisas em 2020: 50 bilhões Figuras 5, 6. Internet das Coisas não se resume a tablets ou smartphones Figuras 7, 8. Após 2011, domicílios irão gerar mais tráfego na Internet Figura 9. Projeto Sixth Sense (MIT): usando a palma da mão para discar um número Figura 10. Projeto Sixth Sense (MIT) 2 : passagem aérea atualiza status do voo Figura 11. Projeto Sixth Sense (MIT) 3: projetor, câmera e marcadores de cor utilizados para acessar dados Figura 12. Projeto Sixth Sense (MIT) 4: jornal impresso exibe vídeo de noticiário ao vivo Figura 13. Projeto Morph, da Nokia Figura 14. Pesquisa da Wired sobre uso de aplicativos Figura 15. Comparação entre uso de aplicativos e consumo de Web Figura 16. Número de interfaces criadas na Web a cada 60 segundos Figuras 17, 18. Interfaces da CNN em 11 de setembro de 2001 Figura 19. Cobertura da posse de Barack Obama no Facebook via CNN Figura 20. Interface da primeira página do Sunday Tribune Figura 21. Primeira página do The New York Times impresso, 1860 Figura 22. Primeira página do The New York Times, impresso 1980 Figuras 23, 24, 25. Versões impressas das capas do caderno de Esporte da Folha de S.Paulo durante a Copa 2006 PG 35 PG 35 PG 38 PG 45 PG 46 PG 46

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Figuras 26, 27, 28. Interfaces da Folha de S.Paulo na Web durante a Copa 2006 Figura 29. Cena de Johnny Mnemonic (1995), de Robert Longo Figura 30. Cena de eXistenZ (1999) , de David Cronenberg Figura 31. Cena de Videodrome (1982), de David Cronenberg Figura 32. Infográfico da ComScore sobre o aumento do acesso às redes sociais no mundo Figura 33. Infográfico do Ibope sobre acesso às redes sociais no Brasil Figura 34. Infográfico do Nielsen sobre tempo pelos americanos na Internet Figura 35. Diagramação da Folha Online entre layout Web e impresso Figura 36. BBC, 2008: abusa da repetição ao oferecer customização Figura 37. Terra, 2009: palavras repetidas na edição Figura 38. Folha Online, 2008: redundância e uso de setas no espaço tridimensional que é a Web Figura 39. Folha.com, 2011. Ainda com uso de setas, mas sem Redundâncias Figura 40. Estadão.com, 2008, palavras repetidas na edição Figura 41. Estadão.com, 2011, eliminação da redundância Figura 42. Globo Online, 2008, palavras repetidas na edição Figura 43. Globo Online, 2011, com pouca redundância Figuras 44, 45. Interfaces da CNN para iPad Figuras 46, 47. Interfaces da ABC News para iPad Figuras 48, 49. Interfaces das redes ABC News e CNN para iPhone Figuras 50, 51. Interfaces da Wired para iPad Figuras 52, 53. Interfaces da Wired para iPhone Figura 54. Estrutura de arquitetura da informação na Web

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Figura 55. Reconhecimento facial do Facebook Figura 56. Primeiro blog da Web, de Tim Berners-Lee Figura 57. Localização do post de Sohaib Athar via Google Maps Figura 58. Esquema tradicional da coleta de notícias e do seu processamento Figura 59. Post com anúncio da morte de Bin Laden por Keith Urbahn, antigo chefe de gabinete de George W. Bush Figura 60. Enquete no Facebook para saber quem noticiou primeiro a morte de Amy Figura 61. Interface do The New York Times com a notícia da morte de Amy Whinehouse Figura 62. Interface do Daily Mail com a notícia da morte de Amy Whinehouse Figura 63. Interface do Washington Post Reader no Facebook Figura 64. Interface do The Guardian APP no Facebook Figura 65. Interfaces impressa e de Web do The Bugle Beacon Figuras 66, 67. Interfaces impressa e de Web da Folha de S.Paulo Figura 68. A apresentação da Folha Digital, exemplo de metáfora, 2009 Figura 69. Interface da Folha.com, 2011 Figura 70. Interface de O Globo na Web, 2011 Figura 71. Interface do Google Flip, 2011 Figura 72. Interface do MSNBC , 1997 Figura 73. Interface do Último Segundo, 2011 Figura 74. Interface do Huffington Post, 2011 Figura 75. Mapa coletivo feito com aplicativo do Google mostra avanço da gripe aviária Figura 76. Twitter do jornal USA Today com informações sobre a gripe aviária

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Figura 77. Mapa do Google sobre avanço da gripe aviária por região Figura 78. Interface do Le Monde, 1996 Figura 79. Interface da BBC, 1997 Figuras 80, 81. Interfaces da edição número 17 da NEO (1997), a primeira revista em CD-ROM no Brasil Figuras 82, 83. . Interfaces da revista NEO, edição número, 16 Figuras 84, 85, 86, 87. Interfaces da revista NEO, edição número, 16 Figura 88. Cobertura do Estadão sobre a morte de Michael Jackson, 2007 Figura 89. Cobertura do The New York Times sobre a morte de Michael Jackson Figura 90. Cobertura do Último Segundo sobre a morte de Michael Jackson Figuras 91, 92. Versões brasileira e inglesa de destaque em vídeo da BBC sobre a Líbia, 2011. Figura 93. Interface da CNN sobre a Líbia, 2011 Figuras 94, 95. Movie Map, primeiro sistema hipermídia, desenvolvido pelo Massachussets Institute of Tecnology Figura 96. Zite, aplicativo para customizar conteúdo para iPad Figura 97. PointCast, primeira tecnologia push, de 1996 Figura 98. Interface do El Pais, 1996 Figura 99. Diagrama do Xanadu, sistema de hipertexto de Ted Nelson Figura 100. Apple 1, lançado em 1976 pela empresa de Steve Jobs Figura 101. Macintosh, lançado em 1984 pela Apple Figura 102. Logomarca do Napster, criado por Shaw Fanning e Sean Parker Figura 103. Sketchpad, primeira interface de conversação, 1962

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Figura 104. Caneta ótica, de Ivan Sutherland, 1965 Figura 105. Sistema Augment/NLS, processador baseado em texto e mouse Figura 106. A arquitetura Augment/NLS, de Doug Engelbart Figura 107. Grail, sistema de reconhecimento por gesto, de Tom Ellis Figura 108. Dynabook, computador pessoal para desenvolvido para crianças por Alan Kay Figura 109. Nuvem de tags dos tópicos mais comentados da The Economist Figura 110. Base de dados sobre os 66 anos da bomba de Hiroshima feita por meio da plataforma do Google Earth

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Figura 111. Tackable, aplicativo para telefones celulares para uma rede social fotográfica desenvolvida em parceria com San José Mercury News PG 172 Figura 112. Interface de busca em tempo real no Twitter via Google Figura 113. Ushahidi, plataforma de criação de mapa open source utilizada pela BBC para mostrar os problemas causados pela greve do metrô em Londres Figura 114. Revisit, aplicativo para visualização em tempo real de posts sobre temas específicos Figura 115. TimeSpace, mashup noticioso do The Washington Post, com texto, áudio, vídeo e fotos produzidos ao redor do mundo Figura 116. How Twitter tracked the News of the World scandal, termômetro do The Guardian sobre como o microblog reagiu às denúncias de grampos contra celebridades no Reino Unido Figura 117. Cascade, projeto do NY Times Lab para avaliar o comportamento dos leitores em relação ao conteúdo do jornal Figura 118. Esboço arquitetura de informação para interfaces Figura 119. Twitter da Mônica Bérgamo com notícia sobre a saída de Fátima Bernardes da bancada do Jornal Nacional (Rede Globo) Figura 120. Desaparecimento das categorias, proposta por Clay Shirky: hierarquia PG 173

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Figura 121. Desaparecimento das categorias, proposta por Clay Shirky: hierarquia com links Figura 122. Desaparecimento das categorias, proposta por Clay Shirky: hierarquia com muitos links Figura 123. Desaparecimento das categorias, proposta por Clay Shirky: apenas links Figura 124. Your Life, Our Movie, de Fernando Velázquez Figura 125. 10 x 10, de Jonathan Harris Figura 126. The Origin of Species, de Ben Fry Figura 127. We Feel Fine, de Jonathan Harris e Sep Kamvar Figura 128. Proposta de uso de hashtag no Twitter, de Chris Messina Figura 129. Cartaz do Revolution Tools Figura 130. Cartaz do protesto thinkflickrthink Figura 131. Blog do Twitter indica hashtags e perfis a serem seguidos para obter com últimas notícias sobre o terremoto do Japão Figura 132. Interface de emergência do Google sobre o terremoto do Japão Figura 133. Mapa colaborativo com informações sobre o terremoto do Japão Figura 134. Twitter Stories, interface não hierárquica para criação e narrativas por meio de hashtags Figura 135. Interface textual Social APP do The Guardian no Facebook Figura 136. Interface Social Reader no Facebook Figura 137. Interface do HuffoPost Social News Figura 138. TimesPeople, rede social de recomendação para textos do The New York Times

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Figura 139. Mashup com aplicativo do Google Maps sobre a ocupação do Morro do Alemão, no Rio de Janeiro, atualizado pelo Twitter do jornal O Globo e dos cidadãos PG 215

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Figura 140. Interface da Globo News ao vivo com a cobertura da ocupação do Morro do Alemão Figura 141. Interface do UOL News com a cobertura completa da ocupação do Morro do Alemão Figura 142. Interface do Google Search sobre a ocupação do Morro do Alemão Figura 143. Interface de busca em tempo real do Twitter via Google Maps com notícias sobre o morro do Alemão Figura 144. Reprodução do Google Earth com vídeos e informações sobre o Alemão Figura 145. Cena de A era da estupidez, de Franny Armstrong Figura 146. Interface do Twitter exibida no YouTube com posts sobre os protestos no Egito

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Índice de tabelas
Tabela 1. Nomenclaturas Tabela 2. Computador e interface ontem e hoje Tabela 3. Novo paradigma da comunicação Tabela 4. Critérios de Noticiabilidade Tabelas 5. Comparação entre jornalismo impresso e de Internet Tabela 6. Comparação entre jornalismo impresso e de Internet Tabela 7. Comparação entre jornalismo impresso e de Internet Tabela 8. Jornalismo ontem e hoje PG 61 PG 72 PG 83 PG 90 PG 152 PG 155 PG 156 PG 180

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Introdução
Quando o projeto2 desta tese foi elaborado, em meados de 2008, pensava-se a World Wide Web, o protocolo multimídia da Internet, como uma página estática, com a lógica do projeto gráfico de jornais, calcada em hierarquia3, diagramação e colunas (NELSON: 2001), e o browser um emulador do paginador.

Inclusive o título (Os critérios de composição no Jornalismo Digital – Em busca de um modelo ideal de páginas noticiosas) remetia a uma clara tentativa de reordenar a miscelânea configurada pela edição das interfaces naquele período – marcado, sobretudo, por excesso de redundância e imperativo.

O uso de redes sociais ainda não era tão representativo como hoje. A curva de crescimento, principalmente do Facebook, começou a aumentar significativamente em 2009, segundo a ComScore. Dados da empresa que mede audiência na Internet mostra que 1,2 bilhão de pessoas acessam redes sociais em todo o mundo.

Outra característica marcante da produção jornalística na Internet são os portais e os chamados sites noticiosos. Steve Outing, um dos mais importantes estudiosos do tema, definiu portal como um agregador de diversas fontes de conteúdo, centralizados em vários destaques na “página inicial” (OUTING: 1999 apud FERRARI: 2002).

Quem melhor mostrou a forma pela qual as interfaces foram sendo apropriadas desde o surgimento do protocolo de Berners-Lee foi Elliot Zaret, então editor da MSNBC, em 2000, no artigo The Theory of Portal Evolution:

No começo, tínhamos a Web. Muita informação, vários cliques e isso parecia bom. Mas muito rapidamente começou a aparecer muita informação e ferramentas de busca foram necessárias para encontrar o conteúdo espalhado como em teias de aranha. E depois das ferramentas de busca
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Para ler a íntegra do projeto, ver: http://bit.ly/wwbeOs. Acesso jan. 2012. O dicionário Houaiss define hierarquia como: “organização fundada sobre uma ordem de prioridade entre os elementos de um conjunto ou sobre relações de subordinação entre os membros de um grupo”.

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vieram os diretórios e depois deles os portais, os cliques para e-commerce” (apud FERRARI: 2002, p. 17).

Essa lógica de portais começa a ser questionada por esta jornalista quando há a percepção do estrondoso interesse no consumo de notícias por meio de redes sociais. Levantamento da Nielsen Wire já apontava, em 2010, baixa nos índices: entre 2009 e 2010, a empresa registrou queda de 19% no tempo que os americanos gastavam acessando portais – de 5,5% para 4,4%. Já o interesse por redes sociais havia aumentado 43% no mesmo período – 15,8% para 22,7%4.

No Brasil, embora o Ibope tenha mostrado em 2010 que 60% dos internautas disseram que as redes sociais são suficientes para se manterem informados5, afirmou um ano depois que “portais são absolutamente relevantes e são a referência para o adulto.”

O portal como espaço estriado, metrificado, com fronteiras delimitadas, já fora criticado amplamente por André Lemos, professor e pesquisador da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Para Lemos, os portais são currais porque "configuramse como estrutura de informação (conteúdo) que tratam as pessoas como bois digitais forçados a passar por suas cercas para serem aprisionados em seus calabouços interativos" (2000).

Também contribuiu para a mudança de perspectiva desta tese o anúncio do engenheiro britânico Tim Berners-Lee no TED (sigla em inglês para Technology, Entertainment, Design) de 2009, um dos mais importantes eventos de tecnologia do mundo: a migração da cultura de página para a cultura de dados.

Se antes a proposta era analisar a composição, o design de interfaces jornalísticas dos jornais (em sites e portais) de maior audiência no Brasil6 e no

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WHAT AMERICANS do online: Social media and games dominate activity. Nielsen Wire, EUA, 2 ago 2010. Disponível em: http://bit.ly/yuF8Sp. Acesso jan. 2012. 5 Ver nota 75. 6 De acordo com dados do Instituto Ibope: Globo Notícias (G1), UOL Notícias Folha (Folha.com), Terra Notícias, Estadão.com.br, Google News, iG News (Último Segundo), R7 Notícias, BBC, The New York Times, Band.com.br, CNN, MSNBC, El País, The Guardian e Huffington Post.

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mundo, com base na Teoria do Jornalismo, mais especificamente o newsmaking, e tendo como cerne a narrativa, a afirmação do pai do WWW levou a uma abordagem completamente diferente. É óbvio que o newsmaking foi fundamental na primeira fase da pesquisa e também para a sua conclusão.

Igual importância tem a narrativa. Porém, essas interfaces, objeto desta pesquisa, passaram a ser observadas sob os pontos de vista do design informacional, da auto-organização do browser e das dinâmicas das relações que se estabelecem nas redes sociais, principalmente Twitter e Facebook.

Não fazia mais sentido aplicarem-se à pesquisa critérios para composição da página, cujo modelo partia da organização das primeiras páginas dos jornais impressos. Nem tampouco usar as nomenclaturas orientadas pela reprodução de metáforas analógicas, como site ou homepage, por exemplo, cujo público-alvo é o sujeito cartesiano.

Também não mais cabia propor um modelo de página com base no ideal kantiano, conforme designava o projeto original, algo que a razão pura exige, mas que não é dado no campo da experiência.

Conceito próximo ao de o matemático alemão Richard Dedekind (1831-1916), que o definiu como um sistema algébrico que atendia a determinadas condições. Mediante a sistematização, Dedekind preferia enfatizar propriedades

fundamentais dos objetos matemáticos, em oposição às suas representações particulares.

É verdade que quando transpostos à Web, os valores-notícia de composição (WOLF: 2002) não fazem jus aos projetos gráficos que mudaram o Jornalismo impresso nos anos 1960 e 1970. Alguns não alcançam sequer a metáfora de suas versões tradicionais.

Porém numa observação mais aprofundada feita, principalmente, a partir de dois pontos indica que é possível rever o design informacional na Internet: arte 20

digital e rede social (Social News e jornal como rede social). Ou seja, as interfaces, antes estáticas, tornaram-se nômades7e implodiram o processo comunicacional baseado na hierarquia. Esse raciocínio deu origem ao título desta tese.

Implodir a página significa perder a padronização editorial. Essa é atualmente a grande questão para os jornais, já que o conceito de edição está em xeque. A informação principal não está mais na manchete, mas no buzz gerado na rede. As pessoas não seguem mais editorias, buscam notícias por tags, hashtags8 ou em perfis de jornalistas, cidadãos, instituições ou empresas de comunicação, entre outros, nas redes sociais.

As tags são também constituidoras de interfaces. Há um sem número de exemplos na arte digital e nas redes sociais que demonstram essa possibilidade. Outro detalhe importante é que nem tags nem hashtags podem ser editadas já uma vez publicadas. Não há como o Jornalismo poder controlá-las.

É curioso anotar que se fala da não linearidade do texto jornalístico na Web desde os primeiros trabalhos publicados, na década de 1990 (sejam eles escritos para academia ou para o mercado).

Ao longo dos anos, importantes pesquisadores pregaram essa característica como uma das definidoras do WWW (assim como hipertextualidade,

multimidialidade, interatividade, teleação e memória, entre outras) e propuseram formatos outros (FERRARI: 2007; SALAVERRÍA: 2005, PAUL: 2005, MCADAMS: 2005, MEADOWS: 2003; MIELNICZUK: 2003; MURRAY: 2003, MANOVICH: 2001; DEUZE: 2001; LÉVY: 1999; LANDOW: 1995).

Ao que se refere à narrativa, a proposta de Pollyana Ferrari, em sua tese doutoral para a Escola de Comunicação e Arte da Universidade de São Paulo (USP),
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Um nômade não tem pontos, trajetos, nem terra, embora evidentemente ele os tenha. Eles se reterritorializam na própria desterritorialização. A terra deixa de ser terra e tende a se tornar simples solo ou suporte (DELEUZE; GUATTARI: 2007, p. 53). 8 Tags e hashtags são etiquetas, palavras-chave utilizadas na rede para marcar conteúdo. As hasgtags carregam o sinal sustenido # e são características do Twitter.

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defende a não hierarquização da narrativa: “Na Web não há hierarquia absoluta. Cada leitor é um agente de seleção, de bifurcação, ou de transversalidade, em camadas rizomáticas” (2007, p. 186-187).

Ted Nelson fizera afirmação semelhante no começo dos anos 2000 e antes do WWW, com seu Xanadu, na década de 1960. Giselle Beiguelman corrobora essa ideia em O livro depois do livro (2003).

Embora haja diversas propostas para narrativas textuais e constituições de interfaces como o Xanadu, de Nelson, o design de interface ficou relegado ao formato jornal.

Isso é percebido nos excelentes projetos para a Internet assinados por empresas mundo afora, como García Media9, capitaneada por Mario García, passando pela Case i Associats10, de Francisco Amaral, e Institute for the Future of the Book11, comandado por Bob Stein, responsável pelo redesenho de Wired e The New Yorker (Web e tablet). O design assemelha-se, nas palavras do pesquisador russo Lev Manovich, a um PowerPoint com mídias distribuídas (2008, p. 45).

De modo algum tal informação é exagero. Em 2011, os principais profissionais dessa área participaram do LIDE2011 (Linguagem, Informação e Design Editorial)12, entre eles, Chiquinho Amaral, que definiu o desenho do iPad para O Estado de S.Paulo como “editado e diagramado”.

A estética da base de dados inexistiu naquele debate nem tampouco a importância da não diagramação e da não hierarquização empurradas pelas redes sociais. De modo geral, conclui-se que a Web se assemelhará ao papel; os projetos são pautados pela hierarquia, e o iPad é uma banca de revistas, ainda que sua interface seja horizontal e vertical.
Para saber mais sobre a García Media, ver: http://bit.ly/wkkKs5. Acesso jan. 2012. Para saber mais sobre a Case i Associats, ver: http://bit.ly/zHGRK1. Acesso jan. 2012. 11 Para saber mais sobre o Institute for the Future of the Book, ver: http://bit.ly/AogqNY. Acesso jan. 2012. 12 Para saber mais sobre o LIDE2011, ver: http://bit.ly/xJoeKA. Acesso jan. 2012.
9 10

22

Mas as conclusões do LIDE2011 não chegam perto da reformulação conceitual impulsionada pela dinâmica das redes. Talvez por uma questão mercadológica, como afirmaram os designers Gabriel Gianordoli e Jorge Oliveira: “A Apple descobriu que revista se compra na banca. Na banca da Apple Store!”. Para os profissionais, “caiu o conceito de página,” conforme Berners-Lee havia previsto no TED ao anunciar a cultura de dados.

E as redes são um reflexo dessa mudança: operam por agenciamentos coletivos de enunciação, orquestrados por produser/prosumer e um coletivo inteligente que transformam a interface em um “mapa aberto, conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível, suscetível de receber modificações

constantemente” (DELEUZE; GUATTARI: 2006, p. 22).

Na rede, o design é fruto de revezamento: uma tensão constante entre informação e contrainformação (DELEUZE: 2011), poder e contrapoder (FOUCAULT: 1999; CASTELLS: 2009)13.

Embora, a configuração seja a de um espaço liso por excelência, sem fronteiras delimitadas, nômades, há sempre a tentativa de estriá-lo (DELEUZE: GUATTARI: 2007, p. 80), como ocorreu recentemente com os protestos contra as leis antipirataria (SOPA) e de propriedade intelectual (PIPA) nos Estados Unidos.

Se aprovadas fossem, essas leis permitiriam bloquear interfaces que supostamente violassem direitos autorais de empresas americanas, penalizando também companhias com sede nos Estados Unidos que liberarem acesso a esses conteúdos.

Porém, uma crítica feita pelo governo Barack Obama14 e movimentos nas redes sociais capitaneados por Google, Wordpress, Wikipedia, Craiglist (classificados),
Michel Foucault define contrapoder como ações de resistência contra aparelhos de captura (1999, p. 30). Já para o Manuel Castells, trata-se da capacidade de um ator social resistir ou enfrentar relações de poder institucionalizadas (2009, p. 47-49). 14 CASA BRANCA critica lei antipirataria. Link Estadão. 16 jan. 2012. Disponível em: http://bit.ly/y09rCh. Acesso jan. 2012.
13

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Ubuweb (base de dados de poesia sonora, escrita e visual), Flickr, Gizmodo, The Huffington Post e Wired, entre outros15, e cidadãos mundo afora fez com que o Congresso adiasse indefinidamente a votação dos projetos16.

São os percursos pelos quais o Jornalismo passou – desde a publicação daquela que é considerada a primeira tese produzida pelo alemão Tobias Peucer, em 1690, quando foram sistematizados critérios de noticiabilidade e práticas da profissão, à apropriação das redes sociais por esse campo da Comunicação – que interessam a esta tese abordar.

O objetivo é contribuir para os estudos sobre design informacional na Internet, especificamente ao que se refere à interface da notícia que circula no fluxo cujo tempo é atemporal (CASTELLS: 2002, p. 553-560).

Por essa razão, o primeiro capítulo apresenta uma revisão histórica do Jornalismo produzido na Internet desde os anos 1970, quando o The New York Times realizou suas primeiras experiências em rede com o InfoBank, serviço de informação com artigos do jornal. Em 1969, a BBC já havia realizado testes com videotexto.

A expansão da Internet das Coisas bem como o fim da ideia de ciberespaço como um divisor entre real e virtual dão evidências consistentes da reconfiguração da interface jornalística. A notícia pode ser acessada desde dispositivos portáteis a uma parede envolvida por tinta digital17, sem formatos previamente definidos. Também é passado em revista o design gráfico de jornais para um entendimento melhor sobre a forma pela qual se dá a atual exibição de notícias na rede.

Para saber quem mais protestou contra o SOPA, ver: http://bit.ly/y1XTzU. Acesso jan. 2012. SOPA é retirada da pauta do Congresso dos EUA. Link Estadão. 20 jan. 2012. Disponível em: http://bit.ly/yDYpwT. Acesso jan. 2012. 17 A tecnologia da tinta digital consiste de duas camadas de esferas microscópicas – metade pretas, metade brancas – que mudam de posição ao receberem estímulos elétricos. Como a tecnologia dispensa a iluminação backlight e só é necessário aplicar energia para alterar a imagem, e não para exibi-la, este sistema consome muito menos bateria do que uma tela de cristal líquido tradicional. Para saber mais sobre tinta digital, ver: http://bit.ly/z4qwk9 e http://bit.ly/x0r4uf. Acesso jan. 2012.
15 16

24

Definir Jornalismo e sistematizar conceitos que correspondem à sua prática, como newsmaking (produção de notícias), gatekeeper (seleção de notícias) e agenda-setting (agenda de pautas), são fundamentais no segundo capítulo para compreender como a cultura de dados modificou o padrão de comunicação que vigorou no século 20, baseado em transmissão, publicação e recepção.

A esse padrão foram incluídos os seguintes termos: anotar, comentar, responder, agregar, cortar, compartilhar, remix, download, upload, input, output e crowdsorcing. (MANOVICH: 2008, p. 226).

Essa reconfiguração paradigmática ocorreu em termos no Jornalismo praticado na Internet. A constituição da interface observada no final dos anos 2000 revelada por duas pesquisas (uma feita em 2008 e a outra em 2010) aplicadas aos jornais que compõem o corpus desta tese indica, além da vertente estruturalista, problemas já apontados aqui: redundância, imperativo, além da não aplicação de valor-notícia de composição, que norteia na mídia impressa o design das páginas.

Esse raciocínio se estende ao longo dos capítulos 2 e 3. Em 2012, nova análise mantém a mesma estrutura.

Outras duas questões pertinentes a este trabalho sobre o Jornalismo de Internet foram:

1) a desconstrução de algumas características tomadas como exclusivas, como multimidialidade e interatividade, por exemplo; 2) a não aplicação das quatro fases estabelecidas – metáfora, Internet + metáfora; Internet + open source e JDBD (Jornalismo Digital em Base de Dados) – por uma simples razão: na rede, o browser é um paginador e, sendo assim, uma página em branco, diagramada em colunas e hierarquizada.

Portanto, não é possível observá-lo do ponto de vista da evolução (FOUCAULT: 2007, p. 28). O mais correto é uma análise cujo método se divide em: remediação 25

representação de uma mídia em outra (BOLTER; GRUSIN: 2000) e media visualization - mistura de formatos e formas (MANOVICH: 2010).

É no terceiro capítulo que começa a tomar forma a interface da notícia que circula no fluxo principalmente por causa dos elementos de ruptura, como filtragem colaborativa (baseada na transferência do gosto) e recomendação (JOHNSON: 2001, p. 143-145).

Mais a nova linguagem visual híbrida, proposta por Lev Manovich, que leva em conta o uso de tags, não para atomizar informação, mas com o objetivo de aprofundá-la (2010); da crítica da criação baseada na metáfora, da falta de vocabulário crítico específico; da importância da arte digital como parâmetro de interface não hierarquizada; da relação com a fonte, que se deslocou especialmente com o Wikileaks.

Também não se pode deixar de mencionar como nomadismo, agenciamento coletivo de enunciação e revezamento são a chave para o Jornalismo operar nas redes sociais sem abandonar as teorias que o sustenta.

A seguir, o escopo do projeto mostra de que maneira esta tese foi constituída entre 2008 e 2012:

Objeto: interface jornalística

Corpus: Globo Notícias (G1), UOL Notícias Folha (Folha.com), Terra Notícias, Estadão.com.br, Google News, iG News (Último Segundo), R7 Notícias, BBC, The New York Times, Band.com.br, CNN, MSNBC, El País, The Guardian e Huffington Post.

Objetivos e Hipóteses

Objetivo principal: repensar a interface da notícia que circula na Web

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Objetivos secundários

1. Investigar como o avanço da tecnologia possibilita novos formatos e examinar que modelos têm sido gerados a partir dessas inovações.
2. Verificar se a ativação desses potenciais (geração de novos formatos)

depende das formas sociais das apropriações dessas tecnologias e de fatores como modelo de negócio ou resistência administrativa ou profissional/corporativa à mudança, entre outros. 3. Averiguar os parâmetros editoriais sobre arquitetura na Web. Se os jornais seguem um padrão de identidade visual. Se existe algo que os diferencie.

Hipótese central: A interface teve que se deslocar porque a produção noticiosa está se modificando?

Hipóteses secundárias

1. O Jornalismo de Internet atual não consegue converter em seus interesses a notícia que circula nas redes sociais. 2. A interface se auto-organiza por revezamento e agenciamento. 3. A Social News alterou significativamente a forma pela qual a notícia é produzida e disseminada. 4. A Web não é o único protocolo a permitir uma estética do banco de dados. Metodologia O método de pesquisa está sistematizado em:

Pesquisa bibliográfica para ampliar o quadro referencial teóricometodológico

Sistematizar a historicidade dos modelos de interfaces jornalísticas desenvolvidas desde que surgiram as primeiras até os atuais formatos em uso na Internet e apresentar tendências. 27

Estudo da composição das interfaces do corpus da pesquisa por meio de questionário de avaliação que levou em conta os seguintes conceitos: alteridade (HALL: 2001); interface (JOHNSON: 2001); arquitetura da informação (ROSENFELD; MORVILLE: 1998); interatividade (MEADOWS: 2003); usabilidade (NIELSEN: 2000); teleação (MANOVICH: 2001); remediação (BOLTER; GRUSIN: 2000); semelhança e similitude (FOUCAULT: 2002; 2007); endoestética (GIANETTI: 2006); cultura cíbrida (BEIGUELMAN: 2004) e narrativas (MOHERDAUI: 2007). Tais conceitos serão definidos na p. 99.

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Capítulo 1

“Falar em cibercultura é negar a realidade”
Lev Manovich

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Capítulo 1: Internet das Coisas

A rede mundial de computadores

A Internet, a rede mundial de computadores, foi criada pelo governo dos Estados Unidos em 1969 para uso militar, como proteção contra um possível ataque russo durante a Guerra Fria. Chamada inicialmente Arpanet, começou a funcionar em quatro computadores na Universidade da Califórnia (UCLA, sigla em inglês)18.

O nome Arpanet tem origem na Agência de Projetos de Pesquisa Avançada do Departamento de Defesa dos EUA (DARPA, sigla em inglês). Depois, a rede interligou outros centros de pesquisas e universidades. Ao se expandir para outros países, ganhou o nome de Internet e foi apropriada em todo o mundo por indivíduos e grupos:
(...) O resultado foi uma arquitetura de rede que, como queriam seus inventores, não pode ser controlada a partir de nenhum centro e é composta por milhares de redes de computadores autônomos com inúmeras maneiras de conexão, contornando barreiras eletrônicas. (...) Essa rede foi apropriada por indivíduos e grupos no mundo inteiro e com todos os tipos de objetivos, bem diferentes das preocupações de uma extinta Guerra Fria (CASTELLS: 2002, p. 44).

Dois anos depois, empresas jornalísticas começaram a utilizar a Internet para distribuir informação. A inglesa BBC e o The New York Times foram os primeiros a fazer parte dela. Ainda em 1969, a BBC iniciou testes com um novo formato de mídia para transmitir texto e gráficos por computador: o videotexto. O Times criou o InfoBank, serviço de informação com artigos do jornal por meio de um sistema chamado Biennial Reporting System (BRS)19.

A década de 1970 foi marcada por grandes inovações tecnológicas, como o desenvolvimento do primeiro sistema de rede sem fio baseado em rádio, o
18 19

NEW MEDIA Timeline (1969) - Poynter. Disponível e m http://bit.ly/k39HLd. Acesso jul. 2011. Para saber mais sobre o BRS, ver: http://bit.ly/kRc4kg. Acesso. Ago. 2011.

30

Alohanet. A IBM anunciou o computador System/370 com suporte para memória e a Intel um processador mais veloz, 0 4004. Também chegaram ao mercado os computadores pessoais: Altair, criado por Ed Roberts, parceiro de Bill Gates, e Apple, de Steve Jobs e Steve Wozniak.

Não foi diferente com o Jornalismo. O primeiro registro de uso de computador para envio de texto ocorreu na redação da Associated Press, na Carolina do Sul, em novembro de 1970. Na mesma década, os jornais trocaram a produção mecânica pela computadorizada. Jornalistas passaram a criar banco de dados, e os jornais a vendê-los.

A imprensa começava a decretar o fim do uso da máquina de escrever. O The Wall Street Journal iniciou a transmissão de edições via satélite e o videotexto chegou às agências de notícias. São também do mesmo período os correios eletrônicos e os disquetes, hoje substituídos por computação na nuvem20, entre outros dispositivos de armazenamento de dados.

Nos anos 1980, vieram os laptops para facilitar o trabalho dos profissionais de imprensa, que podiam enviar suas matérias de qualquer lugar, e serviços de linha discada para conexão à Internet, como o Bulletin Board System (BBS). Entre as novidades estão: computador pessoal de IBM, Apple (Machintosh), Compaq, modens, sistemas operacionais MS-DOS e Windows, Sistema de Domínio da Internet (DNS, sigla em inglês), impressoras a laser.

Nos jornais, foram lançadas operações de teletexto e audiotexto.

Dez anos depois, o engenheiro britânico Tim Berners-Lee anunciou a World Wide Web. O protocolo de Berners-Lee tornou realidade as associações entre textos, cuja menção foi feita pela primeira vez pelo também engenheiro, mas de origem americana, Vanevar Bush21, em, 194522:

20 21

Para saber mais sobre computação na nuvem, ver: http://bit.ly/pZPiNm. Acesso mar. 2012. Para saber mais sobre Vanevar Bush, ver: http://bit.ly/pTYQk2. Acesso mar. 2012. 22 BUSH, V. As we may think. In: http://bit.ly/nbUKuv. Acesso mar. 2012.

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O homem não pode esperar plenamente para duplicar esse processo mental artificialmente, mas ele certamente deve ser capaz de aprender com ele. Em pequenas coisas que ele pode até melhorar, para ter em seu registro uma relativa permanência. A primeira ideia, no entanto, é retirar da analogia as preocupações selecionadas. Seleção por associação, em vez de indexação, pode inclusive ser mecanizada. Não se pode esperar, portanto, para igualar a velocidade e flexibilidade com que a mente segue uma trilha associativa, mas deve ser possível ter a mente decisiva no que diz respeito à permanência e clareza dos itens advindos do armazenamento. Considere um dispositivo futuro para uso individual, que é uma espécie de arquivo privado mecanizado e biblioteca. Ele precisa de um nome, e uma moeda ao acaso, memex vai nomeá-lo. A memex é um dispositivo no qual uma loja individual vende seus livros, registros e comunicações e que é mecanizado a fim de poder ser consultado com flexibilidade e extrema velocidade (BUSH: 1945).

Anos mais tarde, Theodor Holm Nelson ou Ted Nelson, como é conhecido o filósofo e sociólogo americano23, cunhou o termo que denomina tais associações: hipertexto24. É dele também hipermídia, uma espécie de extensão do hipertexto, porém com documentos que contêm gráficos, vídeos, áudios, textos e links que se entrelaçam na Web25.

Aliás, uma das principais características da Web - e, talvez, a que mais bem a defina - é o link. David Weinberger escreveu em The Hyperlinked Metaphysics of the Web que a Web só existe por causa dos hiperlinks (2000).

O hipertexto é também uma forma de recuperar informação. Essa noção está presente nos estudos de Roland Barthes. Ele a chamou Lexia, unidades de leitura ou blocos de significação (1970, p. 20).

Em Arqueologia do Saber, Michel Foucault afirma que a ideia de referência de uma obra à outra está diretamente relacionada à de hipertexto: “além do título, das primeiras linhas e do ponto final, além de sua configuração interna e da forma

Para saber mais sobre Ted Nelson, ver: http://ted.hyperland.com. Acesso mar. 2012. Hipertexto é um texto exibido no computador ou em outro dispositivo com referências (hiperlinks) a outro texto. Disponível em: http://en.wikipedia.org/wiki/Hypertext. Acesso mar. 2012. 25 O termo hipermedia é uma extensão do hipertexto que contém gráficos, áudio, vídeo, texto e hiperlinks. Disponível em: http://en.wikipedia.org/wiki/Hypermedia. Acesso mar. 2012.
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que lhe dá autonomia, ele está preso em um sistema de remissões a outros livros, outros textos, outras frases: nós em uma rede” (2007. p.26).

O conceito de intertextualidade remete também à linkagem. Foi cunhado por Julia Kristeva e muito utilizado por Jacques Derrida: “todo texto se constrói como um mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de outro texto” (KRISTEVA: 1969, p. 146).

Embora discípulo de Vanevar Bush, Ted Nelson ponderou sobre a necessidade de categorizar as informações para que possam mais tarde ser recuperadas. Para Nelson, não há nada de mal em categorizar. “O problema é que esses sistemas têm vida curta. Em poucos anos, tornam-se estúpidos” (LANDOW: 1995, p. 27).

Entretanto, é possível categorizar e fazer associações sem que a estrutura determine: por meio de input inteligente de dados e tags, aliados à programação. Essa ação conjunta muda a perspectiva não só da narrativa em base de dados, mas do design de interface. A tag é um termo ou palavra-chave associado a uma informação para relacionar conteúdo26. O uso de tags será detalhado mais adiante.

Nelson é hoje um dos críticos mais contundentes da Web, mais especificamente do modo pelo qual são constituídas interfaces, navegação e links. É do teórico americano a famosa frase: “uma interface deve ser tão simples que um iniciante, numa emergência, não leve mais de dez segundos para entendê-la" (tradução em inglês de “a user interface should be so simple that a beginner in an emergency can understand it within ten seconds”).

Para Nelson, o projeto do WWW é “limitado, os links são unidirecionais, levam a um só lugar. Todos do mesmo jeito. O browser simula o papel, é diagramado em colunas e é hierarquizado”. A Web, afirma o sociólogo, “é coisa do passado, quadrada demais”.

26Para

saber mais sobre tags, ver http://bit.ly/qWlfh7. Acesso dez.2011.

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(...) Não podemos esquecer que Internet e Web são coisas diferentes (...). E acho todos os navegadores ruins, ultrapassados e limitados. Passei a década de 90 estudando o que era possível fazer para criar um sistema que substituísse a Web e aproveitasse todas as possibilidades da Internet. Então, criei esse sistema novo, o Xanadu Spaces, que substitui a Web (NELSON: 2007).

O sociólogo americano propôs, antes de o protocolo surgir, o Xanadu27, primeiro software a ter links conectados a outros documentos. O Projeto Xanadu começou na década de 1960.

Trata-se de um sistema de hipertexto, com uma interface inteligente de linkagem que respeita os direitos autorais e permite uma navegação não sequencial, por associação, como é cérebro humano. O Xanadu ainda não foi finalizado, mas a forma pela qual foi concebido e os conceitos criados contribuíram para o que a Web é atualmente.

É verdade que os browsers têm limitações. Quem não se lembra dos primeiros? E de suas interfaces? Mosaic, primeiro browser gráfico, lançado pelo Centro Nacional de Aplicações de Super Computação (NCSA), em Champaign, Illinois, Netscape Navigator, da Netscape, e Explorer, da Microsoft. Vieram outros depois, como Google Chrome, Mozilla e Safari.

E é verdade que eles também simulam o papel. Simulavam no inicio da Web e continuam a simular, mas agora com um detalhe: são incrementados com novidades tecnológicas. Mas a estrutura permanece a mesma.

27

A íntegra do projeto Xanadu está disponível em: http://bit.ly/snGeBH. Acesso dez. 2011.

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Figura 1. Mosaic, o primeiro browser gráfico

Figura 2. Netscape Navigator28

Economia: a primeira bolha

Entretanto, não se trata apenas de uma questão técnica ou conceitual. Há também que se considerarem fatores econômicos e culturais. Empresas operam em uma lógica capitalista e os primeiros anos da Web foram marcados pela primeira bolha da Internet, um processo de especulação em torno de empresas que constituíram ou migraram seus negócios para a rede, especialmente comércio eletrônico, de 1995 a 2000, com altos investimentos em projetos às chamadas start-ups29.

28 29

As imagens dos browsers Mosaic e Nestcape são reproduções da Wikipedia. Para saber mais sobre startups, ver http://bit.ly/ocDvQp.

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O resultado foi uma vertiginosa queda na Nasdaq, bolsa de valores na qual aquelas empresas negociavam suas ações: em 10 de março de 2000, a bolsa registrou baixa de 4% e não parou mais de cair. As perdas alcançaram 75%.

O lucro demorou a chegar a esses setores, e não são muitas as companhias com balanços positivos de suas operações, à exceção de grandes players como a Google, criada em 1998 e cuja busca o levou a lucros exorbitantes30. São também exemplos bem-sucedidos a rede social Facebook e Groupon, serviço de venda coletiva, entre outros.

Há quem acredite que os serviços de venda coletiva são um dos pontos centrais da segunda bolha da Internet porque criam problemas para seus parceiros. De um lado, porque a maioria vende audiências fictícias. Depois, porque as promoções pouco agregam às empresas (NASSIF: 2011).

Por exemplo, uma pizzaria vendia pizzas a R$ 15,00. Entrava em uma promoção e o site de compras oferecia a R$ 3,00. A pizzaria lotava, mas de um público que, passada a promoção, dificilmente voltaria lá. Não era seu público alvo. Esse risco está restrito à economia americana. No Brasil, projetos dessa natureza estão sendo avaliados com uma dose a mais de realismo (IBIDEM).

Embora a Internet seja a primeira mídia pública a ter uma economia pósGutenberg (SHIRKY: 2010, p. 53), modelo de negócio nesse setor continua sendo um ponto nevrálgico até hoje, sobretudo após o Jornalismo ter incorporado as redes sociais em sua produção diária, cuja lógica de funcionamento opera na contramão de portais e sites constituídos para aglomerar conteúdo.

As redes sociais, ao contrário, pulverizam o conteúdo e reconfiguram o fazer jornalístico, principalmente em relação aos critérios de noticiabilidade, cuja teoria será detalhada mais adiante. Trata-se de uma relação tensionada entre espaço liso (nômade, sem fronteiras delimitadas) e estriado (aparelho do Estado, institucional,
30 Para conhecer a história da Google, acesse: http://bit.ly/FaeZn ou http://bit.ly/mM1l0F. Acesso jul. 2011.

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metrificado e distribuído), conceitos abordados pelos filósofos franceses Gilles Deleuze e Félix Guattari no quinto volume de Mil Platôs (2007).

Para Deleuze e Guattari, os nômades são como máquinas de guerra, ou seja, uma máquina de movimentação permanente no território, e os aparelhos de captura dependem da noção de sujeitos universais. Tudo vale para todos, a regra é absoluta, não funciona com desvio. Observados sob essa ótica, os portais seriam aparelhos de captura, que operam em espaços estriados, e redes sociais como o Twitter (www.twitter.com) e Facebook (www.facebook.com) seriam as máquinas de guerra, nômades do espaço liso em constante tensão com aparelhos de captura.

De novo, o que está em jogo é um modelo que dê conta dessa nova dinâmica. Um caminho, talvez, seja a economia baseada em aplicativos já que desde 2007 vários jornais ligados à mídia tradicional fecharam ou deixaram de produzir versão impressa. E muitos estão na Internet lutando por paywall e assinaturas.

Em artigo para o Nieman Journalism Lab, Nicholas Carr, autor do best-seller The Big Switch: Rewiring the World, from Edison to Google, afirmou que os aplicativos serão o grande commodity em 201231:

Aplicativos prometem ser a maior força de reformulação da mídia em geral e meios de comunicação, em particular durante 2012. A influência será exercida diretamente – por meio de uma proliferação de aplicativos mídia especializada, bem como indiretamente - por meio de mudanças nas atitudes dos consumidores, expectativas e hábitos de compra. Há todos os tipos de implicações para os jornais, mas talvez o mais importante é que a explosão app torna muito mais fácil de cobrar por notícias online e outros conteúdos. Isso é verdade não apenas quando o conteúdo é entregue por meio de aplicativos formais, mas também quando é entregue por meio de sites tradicionais, que podem, eles próprios, ser vistos pelos clientes como uma forma de app. No

ARE NEWSPAPERS civic institutions or algorithms? Big Think, EUA, 16 jan. 2012. Disponível em: http://bit.ly/ydfh8x. Acesso jan. 2012.
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velho mundo da Web aberta, pagar por conteúdo on-line parecia estranho, na melhor das hipóteses, já na pior, repugnante. No novo mundo do app, pagar por conteúdo online, de repente parece normal. O que é uma loja de aplicativos, a não ser uma série de paywalls?

A economia baseada em aplicativos pode apresentar bons resultados principalmente por duas razões: a primeira delas é a segmentação, que permite monitorar os usuários e, com isso, pensar em estratégias de marketings específicas para eles, o que é valiosíssimo para os anunciantes.

A outra é o fato de que, embora as pessoas queiram consumir conteúdo grátis na Internet, estão dispostas a pagar entre US$ 0,99 e US$ 3,99 por aplicativos na Apple Story, por exemplo. Em julho de 2011, a empresa anunciou 15 bilhões de downloads em seu e-commerce. E pagou US$ 2,5 bilhões a desenvolvedores32.

Figura 3. Infográfico receita por usuário - Reprodução KissMetrics

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EM TRÊS ANOS, loja de aplicativos da Apple atinge 15 bilhões de downloads. G1, São Paulo, 7 julh. 2011. Disponível em: http://glo.bo/yuCTpu. Acesso jan. 2012.

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Tudo agora é ciberespaço

Mas há outra questão de igual importância: o ambiente criado pela Internet. Há, de fato, um novo ambiente? Trata-se de um mundo virtual? Ciberespaço? Seria uma espécie de Second Life, como defendeu Ted Nelson, em 2007 à revista Época?: “Second Life é um exemplo de inovação dos programas de interação entre homens e máquinas. A interface em 3D é o futuro da Internet. Vai provocar uma revolução tão grande quanto a Web”33. Na maioria das vezes, utilizada para definir o irreal, a palavra virtual tem origem no latim medieval virtualis, derivado de virtus, força, potência. Na filosofia escolástica, o virtual é o que existe em potência e não em ato. Jean Baudrillard o definiu como o desaparecimento do real (LÉVY: 1998, p. 24,25). Paul Virilio o chamou implosão espaço-tempo.

Pierre Lévy o assume como um modo de ser fecundo e poderoso, que põe em jogo processos de criação, abre futuros, perfura poços de sentido sob a platitude da presença física imediata.

O filósofo francês é contrário à oposição entre real e virtual. Para Lévy, o virtual não se opõe o real, mas ao atual: virtualidade e atualidade são apenas duas maneiras de ser diferentes. Virtual é o inapreensível enquanto real é o tangível. O virtual não é imaginário, ele produz efeitos. O virtual é a atualização do real (IBIDEM, p. 12, 15, 21).

Gilles Deleuze fez uma distinção entre possível e virtual em Différence et Répétition (1968): o possível já está todo constituído, mas permanece no limbo. O possível se realizará sem que nada mude em sua determinação nem em sua natureza. É um real fantasmático, latente. O possível é exatamente como o real: só lhe falta a existência. Para Michel Serres, o virtual é a não presença.

33 A SEGUNDA vida da Internet. REVISTA ÉPOCA, São Paulo, mar. 2007. Disponível em: http://glo.bo/jXbVu3. Acesso jun. 2011.

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“A imaginação, a memória, o conhecimento, a religião, são vetores da virtualização que nos fizeram abandonar a presença muito antes da informatização e das redes digitais”, escreveu Pierre Lévy em O que é o virtual? (1998). Para explicar a não presença, Lévy cita como exemplos o texto e o hipertexto:

(...) O senso comum faz do virtual, inapreensível, o complementar do real, tangível. Essa abordagem contém uma indicação que não se deve negligenciar: o virtual, com muita frequência, não está presente. (...) Estará o texto aqui, no papel, ocupando uma porção definida do espaço físico, ou em alguma organização abstrata que se atualiza numa pluralidade de línguas, de versões, de edições, de tipografias? Ora, um texto em particular passa a apresentar-se como a atualização de um hipertexto de suporte informático. Este último ocupa virtualmente todos os pontos da rede ao qual está conectada a memória digital onde se inscreve seu código? Ele se estende até cada instalação de onde poderia ser copiado em alguns segundos? (LÉVY, 1998, p. 19,20). Claro que é possível atribuir um endereço a um arquivo digital. Mas nessa era de informações on-line, esse endereço seria de qualquer modo transitório e de pouca importância. Desterritorializado, presente por inteiro em cada uma de suas versões, de suas cópias e de suas projeções, desprovido de inércia, habitante obíquo do ciberespaço, o hipertexto contribui para aqui e acolá acontecimentos de atualização textual, de navegação e de leitura. Somente esses acontecimentos são verdadeiramente situados. Embora necessite de suportes físicos pesados para subsistir e atualizar-se, o imponderável hipertexto não possui um lugar (IBIDEM).

Essa ideia de não lugar, de não presença, também está presente na definição de ciberespaço. Aliás, muitas vezes utilizado como sinônimo de mundo virtual ou mundo digital. Foi o escritor Willian Gibson quem cunhou o termo em 1982 e o publicou dois anos mais tarde em seu famoso livro Neuromancer:

O ciberespaço. Uma alucinação consensual vivida diariamente por bilhões de operadores autorizados, em todas as nações, por crianças aprendendo altos conceitos matemáticos... Uma representação gráfica de dados abstraídos dos bancos de todos os computadores do sistema humano. Uma complexidade impensável. Linhas de luz abrangendo o não espaço; nebulosas e constelações infindáveis de dados. Como marés de luzes de cidade (GIBSON: 2003, p. 67-68).

40

Pierre Lévy utiliza a definição de Gibson em Cibercultura (1999) e a amplia: “O ciberespaço de Gibson torna a geografia móvel da informação normalmente invisível. O termo foi imediatamente retomado pelos usuários e criadores de redes digitais.” E vai além:

Eu defino ciberespaço como o espaço de comunicação aberto pela interconexão mundial de computadores e das memórias de computadores. Essa definição inclui o conjunto de sistemas de comunicação eletrônicos (aí incluídos os conjuntos de redes hertzianas e telefônicas clássicas), na medida em que transmitem informações provenientes de fontes digitais ou destinadas à digitalização (LÉVY: 1999, p. 92).

Em 2007, em entrevista ao jornal americano The Washington Post34, Gibson anunciou o fim do ciberespaço. Para o escritor, agora o ciberespaço é aqui.
Quando escrevi Neuromancer, quase 25 anos atrás, o ciberespaço estava lá, e nós estávamos aqui. Em 2007, o que não nos importamos mais em chamar de ciberespaço está aqui, e aqueles momentos sem conectividade, cada vez mais raros, estão lá. E aí está a diferença. Não houve um amanhecer tingido de vermelho em que nos levantamos, olhamos pela janela e dissemos: ‘Oh meu Deus, tudo é ciberespaço agora. (WASHINGTON POST: 2007).

O argumento de Gibson é bastante coerente. No Brasil, no início dos anos 2000, para acessar a Internet era preciso um computador, um modem e um cabo de rede. Hoje, basta um dispositivo35 móvel (celular, tablet ou smartphones, entre outros) com conexão sem fio. No primeiro trimestre de 2011, 24,4 milhões de brasileiros utilizaram banda larga móvel36. Em todo o mundo, o número de pessoas com acesso à rede tem aumentado consideravelmente.

Em 2000, eram 250 milhões. No final de 2010, ultrapassou dois bilhões de pessoas. Também registrou crescimento expressivo a conexão móvel. Em todo o mundo, 940 milhões acessaram a Internet via banda larga móvel contra 550

GARREAU, J, 2007. O dicionário Houaiss define dispositivo como: em máquinas, peça ou mecanismo com uma função especial ou aparelho construído com determinado fim; engenho. 36 USO de banda larga no Brasil cresceu 138%. Último Segundo, São Paulo, 12 mai. 2011. Disponível em http://bit.ly/jrmKWt. Acesso jan. 2012.
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milhões via banda larga fixa, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU) referentes a janeiro de 201137.

Graças à computação ubíqua (ou ubicomp, abreviação em inglês de ubiquitous computing), a Internet implodiu a divisão real e virtual, transformandose em Internet of Things38 (Internet das Coisas) e jogou por terra todos esses conceitos. O termo computação ubíqua foi cunhado por Mark Weiser em 1988 quando estava à frente do Departamento de Tecnologia do Centro de Pesquisa da Xerox, em Palo Alto (Parc, sigla em inglês).

Para Weiser, o futuro da tecnologia da informação é ser um utilitário, algo como o gás e a eletricidade (KRANENBURG: 2008, p. 7). E essa realidade já faz parte do cotidiano:
Computação ubíqua (muitas vezes referida como ubicomp) descreve um conjunto de processos onde a tecnologia da informação tem sido completamente integrada em objetos e atividades do cotidiano: a tal ponto que o usuário muitas vezes nem percebe ao fazê-lo. Ubicomp não é apenas uma parte de nossas cidades do futuro. Seus dispositivos e serviços já estão aqui. Pensar no uso de cartões pré-pagos inteligentes para o uso de transportes públicos ou as etiquetas exibidas em nossos carros para ajudar a regular os preços de congestionamento, ou a maneira pela qual as corporações encaminham e transportam mercadorias em todo o mundo. Estes sistemas irão expandir geometricamente na próxima década, construindo os blocos para as nossas cidades do futuro (IBIDEM).

O escritor Americano Clay Shirky, um dos mais importantes pesquisadores sobre cultura digital da atualidade e autor de Cultura da Participação (2010), arrancou o termo de seu dicionário: “A ideia com a qual eu cresci, de ir a um lugar separado do mundo real, é algo que os meus alunos não conseguem

NÚMERO de internautas ultrapassa 2 bilhões, afirma ONU. Interactive Advertising Bureau, São Paulo, 27 jan. 2011. Disponível em: http://bit.ly/uQbs0E. Acesso jan. 2012. 38 O termo Internet of things foi cunhado por Kevin Ashton em 1999. Para saber mais sobre Ashton, ver: http://bit.ly/AdUhlj. Acesso jan. 2012.
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entender. A Internet traz a todos os lugares alguns dos enigmas da vida na cidade grande” (2009)39.

O russo Lev Manovich também o fez. Em entrevista a O Estado de S.Paulo em 2009 afirmou o seguinte:

Nos anos 90, só se falava de virtual, ciberespaço e cibercultura. Éramos fascinados pelas possibilidades que os espaços digitais ofereciam. O virtual, que existe à parte do real, dominou a década. Agora, a Web é uma realidade para milhões, e a dose diária de ciberespaço é tão grande na vida de uma pessoa que o termo não faz mais muito sentido. O mundo alternativo tão falado na ficção cyberpunk, nos anos 80, foi perdido. O virtual agora é doméstico. Controlado por grandes marcas, tornou-se inofensivo. Nossas vidas online e offline são hoje a mesma coisa. Para os acadêmicos que ainda usam o termo cibercultura para falar da atualidade, eu recomendo que acordem e olhem para o que existe em volta deles.40

A ideia de algo sem fronteiras, permanentemente conectado, sedimentouse, sobretudo com a popularização da banda larga e dos dispositivos móveis celulares, com funções que não se restringem somente a discar e a tirar fotos, e tablets, cuja principal característica é a mobilidade. Esvazia-se a lógica da janela (transparente) e espelho (reflexo) proposta por David J. Bolter e Diane Gromala em Windows and Mirror (2003).

Para Bolter e Gromala (p. 26, 27), o equilíbrio entre ser transparente e reflexivo é a referência que marca a diferença entre ciberespaço e mundo real: "(...) Nenhuma interface pode ser ou deve ser perfeitamente transparente, porque a interface vai quebrar em algum momento, e o usuário terá que diagnosticar o problema”. A relação janela e espelho será aprofundada mais adiante.

Computação ubíqua

THIS MUCH I know. The Guardian, Londres, 15 feb. 2009. Disponível em: http://bit.ly/aBPwN. Acesso jan. 2012. 40 “FALAR em cibercultura é negar a realidade”. O Estado de S.Paulo, São Paulo, 21 ago. 2009. Disponível em: http://bit.ly/peFS57. Acesso jan. 2012.
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43

Hoje, o sujeito carrega a interface e acessa a informação que está no espaço de fluxos, principal base da sociedade em rede, fundamentada em conhecimento, com processos descentralizados e empresas reorganizadas pela economia informacional41. O espaço de fluxos é a organização material das práticas sociais de tempo compartilhado que funcionam por meio de fluxos (CASTELLS: 2002, p. 501).

Por fluxos, o sociólogo Manuel Castells entende as sequências intencionais, repetitivas e programáveis de intercâmbio e interação entre posições fisicamente desarticuladas mantidas por atores sociais nas estruturas econômica, política e simbólica da sociedade42.

O espaço de fluxos pode ser descrito pela combinação de três camadas de suportes materiais que, juntas, o constituem (IBIDEM, p. 502-505): a) circuito de impulsos eletrônicos (microeletrônica, telecomunicações, processamento computacional, sistemas de transmissão e transporte em alta velocidade – também com base em tecnologias da informação. Esse é o suporte material de práticas simultâneas, estrategicamente cruciais na sociedade em rede); b) nós e centros de comunicação (localização de funções estrategicamente importantes que constroem uma série de atividades e organizações locais em torno de uma função chave na rede). A localização no nó conecta a localidade com toda a rede. Os nós e os centros de comunicação seguem uma hierarquia organizacional de acordo com seu peso relativo na rede. Mas essa hierarquia pode mudar conforme seu peso relativo na mesma rede; c) organização espacial das elites gerenciais dominantes - e não da classe -, que exercem funções direcionais em torno dos quais todo esse processo é

A economia global/informacional é organizada em torno de centros de controle e comando capazes de coordenar, inovar e gerenciar as atividades interligadas das redes de empresas. (CASTELLS: 2002, p. 469). 42 Práticas sociais dominantes são aquelas que estão embutidas nas estruturas sociais dominantes. Estruturas dominantes são procedimentos de organizações e instituições cuja lógica interna desempenha papel estratégico na formulação das práticas sociais e da consciência social para a sociedade em geral (IBIDEM, p. 501).
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44

articulado. A elite dominante informacional segue de mãos dadas com sua capacidade de desorganizar grupos de sociedade, cujos interesses são representados dentro da estrutura dos interesses dominantes.

Embora ainda não seja realidade, a Internet das Coisas em pouco tempo estará em todo o canto, disponível a toque, voz ou gesto. E quando alcançar essa escala de conectividade, Giselle Beiguelman, diretora de redação da revista sElecT43 e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP), aposta na mudança de nomenclatura para rede mundial de computadores, pessoas, geladeiras e tudo o mais que nos cerca:
Enquanto a Internet das Coisas não se impõe, a rápida evolução das aplicações, que envolvem nanotecnologia, sensores e sistemas de redes sem fio confirma a sua probabilidade. O uso cada vez mais comum de etiquetas inteligentes baseadas em códigos de barra com grande capacidade de armazenamento de informações, como o QR-Code, é um indicador preciso desse processo de coisificação das redes (2011).

Pesquisa realizada pela empresa de tecnologia Cisco aponta que, desde 2008, há mais coisas conectadas a Internet do que pessoas no planeta. A estimativa indica que em 2020 mais de 50 bilhões de coisas estejam plugadas44:

Figura 4. Projeção da Internet das Coisas em 2020: 50 bilhões
O FIM do virtual. sElecT, São Paulo, 25 ago. 2011. Disponível em: http://bit.ly/unMrTs. Acesso jan. 2012. 44 INTERNET DAS coisas: para 2020, mais de 50 bilhões de coisas conectadas à Internet, superando o número de pessoas conectadas. Tecnoarte News, São Paulo, 18 jul. 2011. Disponível em: http://bit.ly/pdju3e. Acesso jan. 2012.
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Figuras 5 e 6. Internet das Coisas não se resume a tablets ou smartphones

Figuras 7 e 8. Após 2011, domicílios irão gerar mais tráfego na Internet

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Um dos exemplos mais intrigantes dessa realidade é o Sixth Sense45, do laboratório de Pattie Maes, pesquisadora do Media Labs, do MIT, e liderado pelo designer indiano Pranav Mistry, que o desenvolveu durante oito meses a um custo de US$ 350. Maes e Mistry apresentaram o projeto no TED 2009 (sigla em inglês para Technology, Entertainment, Design)46.

No Sixth Sense, o sujeito é uma interface conectada. Ele interage com qualquer informação por meio de gestos. “A proposta é transformar todo o mundo em computador”, diz o indiano:

O protótipo integra projetor de bolso, espelho e câmera, que, em formato de um colar acoplado ao tórax, são ligados a um minilaptop. A câmera captura os gestos da mão, envia esses dados para o laptop e um software baseado em algoritmos de visão computacional rastreia e interpreta os movimentos das mãos de acordo com os marcadores coloridos que o usuário deve usar nos dedos (INFO EXAME: 2009). Com isso, além dos proveitos acima, é possível utilizar o Sixth Sense para coletar informações sobre objetos em tempo real. Por exemplo, o sistema pode ser instruído com um gesto para rastrear a capa de um livro e projetar dados das resenhas da Amazon.com sobre ele (IBIDEM).

Figura 9. Usando a palma da mão para discar um número
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Para saber mais sobre o Sixth Sense, ver: http://bit.ly/sTQbs0. Acesso jan. 2012. http://bit.ly/uNNYcx. Acesso jan. 2012.

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Figura 10. Passagem aérea atualiza status do voo

Figura 11. Projetor, câmera e marcadores coloridos utilizados para acessar dados

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Figura 12. Jornal impresso mostra vídeo de noticiário ao vivo

Pesquisas em computação e design recentes, como essa de Mistry, mostram que as informações estarão integradas aos objetos cotidianos e não mais reduzidas a dispositivos específicos como computadores de mesa e celulares (BEIGUELMAN: 2011), como o Morph, da Nokia47, dispositivo de comunicação baseado em nanotecnologia, sensitivo, funciona por meio de toque, autolimpante, tem superfície superhidrofóbica e captura informações sobre o meio ambiente.

E o mais interessante: a estrutura de nanoescala eletrônica permite o alongamento, que o transforma em vários formatos: um pequeno tablet, uma pulseira ou um celular48.

Figura 13. Conceito Morph - Reprodução Nokia

47 48

http://bit.ly/sokmXz. Acesso jan. 2012. http://bit.ly/u0Wp2v. Acesso jan. 2012.

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A Web não morreu

É sobre essa interface remodelada pela conexão ubíqua e pela Internet das Coisas que a autora desta tese se debruça. Trata-se de compreender de que forma a interface reconfigura os conceitos que orientam o Jornalismo, mais

especificamente o newsmaking. E a busca desse entendimento começa pela World Wide Web. Porque foi a Web que deu expressão ao Jornalismo praticado na Internet, cujo histórico será detalhado adiante.

A WWW possui ao mesmo tempo características que a assemelham a um paginador de papel e a permitem implodir a página impressa. Ao contrário do que escreveu o editor-chefe da revista Wired, Chris Anderson, a Web não está morta e o design de interface dos dispositivos móveis, principalmente os tablets, corrobora esse pressuposto, ainda que os aplicativos estejam na ordem do dia.

Em agosto de 2010, Anderson afirmou que as pessoas estão substituindo browsers por aplicativos. Ou seja, o protocolo WWW deixa de ser o principal ponto de navegação pela rede. Para ele, “a Internet é a verdadeira revolução tão importante como a eletricidade”49.

Você acorda e verifica o seu e-mail no iPad de cabeceira - que é um app. Durante café da manhã você navega no Facebook, Twitter, e The New York Times - mais três apps. No caminho ao escritório, você ouve um podcast no seu smartphone. Outro app. No trabalho, você rola através de feeds RSS em um leitor e tem conversas Skype e mensagens instantâneas. Mais aplicações. No final do dia, você chega em casa, faz o jantar enquanto ouve a Pandora, joga alguns jogos no Xbox Live, e assiste a um filme no serviço de streaming Netflix. Você passou o dia na Internet - mas não na Web. E você não está sozinho (ANDERSON: 2010).

A conclusão do jornalista baseou-se em estudo encomendado para a Wired segundo o qual o tráfego de dados da Internet provém de vídeos e troca de conteúdos P2P (compartilhamento de arquivos).

THE WEB is Dead. Long Live the Internet. Wired, EUA, 17 ago. 2010. Disponível em: http://bit.ly/bknmCP. Acesso jan. 2012.
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Outra pesquisa recente feita nos Estados Unidos comprova que os americanos passam mais tempo conectados a aplicativos que ao WWW. Segundo a Flurry Analytics, entre junho de 2010 e junho de 2011, as pessoas passaram 74 minutos na Web contra 81 minutos nos aplicativos. No período, o uso da Web cresceu 16%, ante 91% dos programas50.

Essa não foi a primeira vez que a revista americana anuncia alternativas à Web. Em 1997, artigo intitulado “Push!” sugeria que tecnologias como PointCast e Microsoft’s Active Desktop dariam adeus ao protocolo de Berners-Lee51: “Kiss your browser goodbye: The radical future of media beyond the Web”52.

Ted Nelson, o pai do hipertexto, disse algo semelhante em 2007 no programa Roda Viva, da TV Cultura, mas não matou o WWW: “A Web não vai desaparecer, mas outras coisas surgirão, assim como e-mail, chat, VoIP (voz sobre IP) e Skype. São todas formas diferentes de comunicação, e haverá mais.

Figura 14. Pesquisa da Wired sobre uso de aplicativos

PEOPLE ARE spending more time in mobile apps than on the web. Business Insider, EUA, 20 jun. 2011. Disponível em: http://bit.ly/ruv6qj. Acesso jan. 2012. 51 Para saber mais sobre Tim Berners-Lee, ver. http://bit.ly/2PqQpx. Acesso jan. 2012. 52 KISS YOUR browser goodbye: The radical future of media beyond the Web. Wired, EUA, mar. 1997. Disponível em: http://bit.ly/fLCtD. Acesso jan. 2012.
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Figura 15. Comparação entre uso de aplicativos e Web (Flurry)

A julgar pelos números, a Web continuará a ser utilizada ainda por muito tempo. Dados do Go-Gulf.com indicam que diariamente (em média) um bilhão de novas interfaces são adicionadas ao protocolo. Um infográfico Go-Gulf publicado na próxima página dá a dimensão do que ocorre na Web a cada 60 segundos53.

Na realidade, se analisada do ponto de vista dos espaços liso e estriado de Deleuze e Guattari, a interface gráfica da Internet foi constituída para ser um espaço liso por excelência, nômade, sem fronteiras delimitadas, embora não seja essa a prática atual.

Entretanto, ao operar em qualquer dispositivo, o WWW tem enorme potencial para implodir a interface tal como é configurada atualmente pelas empresas de comunicação e se auto-organizar a partir de tags, algoritmos e programação.

60 SECONDS - Things that happen on internet every sixty seconds. Go-Gulf.com. Jun. 2011. Disponível em: http://bit.ly/iRQItd. Acesso jan. 2012.
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Figura 16. Número de interfaces criadas na Web a cada 60 segundos

Jornalismo de Internet

A Web mudou a forma pela qual o Jornalismo vinha sendo praticado até o começo dos anos 1990. É verdade que desde a criação da Internet pelos Estados Unidos, em 1969, já havia iniciativas isoladas como as da rede inglesa BBC e o jornal The New York Times, que deram inicio às primeiras experiências de transmissão de informação pela rede (ver p. 30).

Mas o potencial do Jornalismo da rede mundial de computadores foi, de fato, percebido quando o mundo conectou-se à rede, em 1995, para acompanhar o atentado a um prédio do governo de Oklahoma City. O responsável pela morte de 168 pessoas, o terrorista Timothy McVeigh, foi executado em 2001 em Terre Haute, Indiana54.

Na época, foram incluídos na rede comunicados da Casa Branca, fotos dos estragos, lista de vítimas e reportagens atualizadas sobre a tragédia. O serviço Newsday, do Prodigy publicou um mapa com a localização do atentado, uma
54

MOHERDAUI, 2007.

53

matéria da agência Associated Press e uma descrição gráfica dos tipos de bombas usadas em ataques terroristas55. No Brasil, a Guerra de Kosovo incluiu o país na cobertura da rede. Na época, foi considerada a Guerra da Internet:

A Guerra do Golfo, no início da década, marcou o apogeu da cultura televisiva. O mesmo tinha ocorrido com a Segunda Guerra Mundial em relação ao rádio. Nos ataques a Bagdá, pela primeira vez na história, todos os lances fundamentais do conflito apareciam em tempo real na tela da TV. Podia-se acompanhar cada lance da batalha, como a queda de mísseis, numa espécie de mórbido videogame global. Parecia ser o desenho mais estranho e requintado da guerra neste milênio. Era um engano. O atual confronto no Kosovo experimentava o uso de uma efetiva e moderníssima arma: a Internet. Com o avanço das tecnologias da informação: habitantes de todos os recantos da Terra, de Paris a Luanda, de Tóquio a Ciudad del Leste, puderam participar efetivamente do conflito. À parte dos bombardeios e do deslocamento de tropas, desenvolveu-se uma guerra paralela, democratizada, calcada na difusão caótica de informação e opinião. Qualquer pessoa podia mover seu peão nesse tabuleiro, seja contando sua experiência nas regiões do conflito, seja emitindo suas opiniões ou multiplicando informações. Tratava-se de uma Terceira Guerra Mundial, da qual muitos podiam participar sem se levantar da cadeira do escritório. Cada um esperando se tornar o Davi da história. Dezenas de sites foram criados especialmente para tratar dos assuntos da guerra. Ambos os lados se desdobram para convencer a plateia mundial de suas razões. A ideia era seduzir e arregimentar. Pede-se sempre uma ação positiva de apoio (ou dinheiro) a este ou aquele lado. A jovem iugoslava Lana, por exemplo, escreveu um pungente apelo contra a guerra. Afirma que os sérvios estão sendo atacados injustamente e prejudicados pela ‘guerra das mídias’. Num e-mail que roda o planeta há dias, Lana escreve: ‘talvez estejamos defendendo você. É por isso que o mundo não pode deixar a verdade enterrada em crateras de mísseis Tomahawks’. Note-se que mensagem é um apelo ao mundo (FALCETA JR: 1999 apud MOHERDAUI: 2007, p. 33-34).

Houve outras coberturas de enorme importância, como a divulgação, em 1998, na Web, pelo colunista de fofocas Matt Drugde56 do caso envolvendo o expresidente dos Estados Unidos Bill Clinton e a estagiária Monica Lewinsky. Na época, o relatório Kenneth Starr, com detalhes do caso, derrubou milhares de servidores em todo o mundo. A americana CNN disponibilizou na rede a íntegra

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IBIDEM. Para saber mais sobre Matt Drudge, ver: http://bit.ly/1Jxp9V. Acesso jan. 2012.

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das gravações em áudio (37 fitas com 22 horas) de uma conversa entre Monica e sua amiga Linda Tripp na qual contava sua história com Clinton57.

A outra foi o atentado às torres gêmeas, em 2001. Conhecida como a Terçafeira Negra - matou milhares de pessoas e paralisou o país. O ataque terrorista também congestionou a Internet. Interfaces noticiosas chegaram a ficar fora do ar por mais de duas horas.

Somente nos EUA, 30 milhões de pessoas tentaram se conectar a rede para enviar mensagens por e-mail ou programas de comunicação instantânea. Para os padrões daquele ano, esse número representava um terço a mais do que o tráfego normal.

No dia anterior ao ataque, a média de tempo de conexão ficou em 5,5 segundos. No dia 11 de setembro, saltou para 12,9 segundos58. Isso fez com que a Web voltasse à interface de seus primeiros anos: tela com fundo branco e links. CNN, MSNBC e USA Today alteraram seus designs para facilitar a busca por informações. A CNN, por exemplo, excluiu fotos, vídeos e áudio para reduzir o peso da interface de 255 KB (kilobyte) para 20 KB (kilobyte)59.

Figuras 17 e 18. Interfaces da CNN em 11 de setembro de 2001

MOHERDAUI, 2007, p. 64-65. IBIDEM. 59 IBIDEM.
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De eventos isolados, a cobertura em tempo diferido60 passou a integrar o cotidiano das redações de Internet. Acompanhar um evento e transmiti-lo a bilhares de pessoas reforçou um dos traços do Jornalismo já praticado em rádio e tevê, mas que se amplificou na rede, com atualização contínua - desde jogos de futebol a eventos de repercussão internacional.

É o que Richard Grusin e David J. Bolter chamaram de hypermediacy. Ao contrário da tevê, cujo objetivo é fazer o telespectador vivenciar os fatos ao vivo, a Internet, especialmente com a contribuição das redes sociais, o faz participar dos fatos:

A hipermediação na década de 1990 foi marcada pela proliferação de mediação ou pela fragmentação e multiplicidade - o design gráfico da revista Wired, a área de trabalho, janela ou tela de TV, ou o estilo audiovisual de vídeos da MTV e comerciais de TV. No boom de TI da década de 1990, a proliferação de novas formas de mídia e tecnologias e um espaço de tela cada vez mais hipermediada foram entusiasticamente comemorados junto com os IPOs, fundos de capital de risco, e ações do Vale do Silício (GRUSIN: 2010, p. 2).

Aliás, a Terça Negra mudou a forma pela qual governo e mídia se relacionavam com os americanos. Se antes de 11 de setembro de 2001, predominava a remediação (representação de uma mídia em outra) baseada em immediacy (imediação), cuja tevê era o ponto central, e hypermediacy (hipermediação), com a Internet à frente da divulgação de informação, agora a premediation é o modo de comunicação utilizado para antecipar o que acontecerá no futuro.

Os EUA aplicaram essa lógica ao anunciar a invasão ao Iraque, em março de 200361.

60

O tempo no Jornalismo está dividido em cinco momentos: a) tempo do acontecimento do fato; b) tempo da produção, incluindo análise e reação em relação ao fato ocorrido; c) tempo da distribuição; d) tempo da circulação; e) tempo da leitura. (MOHERDAUI: 2005, p. 78). 61 U.S. LAUNCHES cruise missiles at Saddam. In: CNN. Mar. 2003. Disponível em: http://bit.ly/kXlxCF. Acesso jan. 2012.

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A premediação tomou uma forma fundamentalmente americana nos anos imediatamente após 9/11, quando os Estados Unidos procuraram tentar certificar-se de que o público americano nunca havia experimentado um evento catastrófico de grande escala que não tivesse já sido premediado. Em certo sentido, o evento de 9/11 pode ser visto como um marco do fim do desejo tecnocultural pelo imediatismo alimentado pelo dot.com e a histeria da realidade virtual dos anos noventa e substituíram-no por um desejo de uma nação (ou talvez um mundo) em que o imediatismo da catástrofe, o imediatismo do desastre, não pode acontecer novamente - porque seria sempre já premediado (IBIDEM, p. 12).

Ainda que os atentados às torres gêmeas e ao Pentágono tenham alterado significativamente a cultura da mediação, o fato é que immediacy e hypermediacy ainda fazem parte do formato e das práticas jornalísticas na Internet.

Os chamados portais e sites jornalísticos operaram nessa dinâmica da metade dos anos 1990 até o final dos anos 2000, quando as redes sociais passaram a ser uma alternativa na busca de informações atualizadas constantemente. Mais especificamente, desde a morte de Michael Jackson, em 2009.

A notícia foi publicada pelo TMZ, que cobre celebridades na Internet (Web e aplicativo), mas ganhou as redes sociais porque a imprensa passou a questionar a credibilidade do TMZ
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e também por causa da repercussão entre os fãs. A não

confirmação da morte do ídolo por poucas horas derrubou Google e Twitter63. Antes, o jornal Los Angeles Times64 informou que o cantor havia sido internado às pressas.

Outro importante evento foi a posse do presidente Barack Obama, também em 2009. Realizado a partir de uma parceria entre a rede de tevê americana CNN e

http://bit.ly/5Rma2. Acesso jan. 2012. NOTÍCIA DA morte de Michael Jackson derruba Google e Twitter. G1, São Paulo, 26 jun. 2009. Disponível em: http://glo.bo/BWWur Acesso jan. 2012. 64 http://lat.ms/b6Vqf1. Acesso jan. 2012.
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o Facebook, de Mark Zuckerberg, milhares de pessoas puderam acompanhar e comentar ao mesmo tempo tudo o que acontecia em Washington65.

Depois, outras ações consolidaram definitivamente as redes sociais como uma das principais fontes de notícias, senão a principal. Porém, somente em 2011, o terremoto no Japão, os movimentos no Oriente Médio contra ditaduras e a morte de Osama Bin Laden66 reforçaram a mudança de paradigma no Jornalismo mundial.

Entretanto, há que se considerarem diferenças tecnológicas entre o papel e a Internet. Ainda que a tecnologia não determine a produção jornalística na rede, mas a possibilite, há limitações como as registradas na cobertura do atentado aos EUA. Enquanto um grande número de acessos derrubava servidores mundo afora, os jornais de papel não tiveram seus processos produtivos alterados. Circularam no dia seguinte, alguns até em edição extra.

Não há hipótese de um congestionamento em servidores derrubar a edição de um telejornal, de um programa de rádio ou a publicação de um jornal ou uma revista. Não se tem notícia de um jornal enviado à gráfica chegar ao leitor sem foto para não sobrecarregar a página. Ou de um telejornal ir ao ar sem vídeo ou áudio porque a conexão fora interrompida.

A POSSE de Obama e a experiência de compartilhamento nas redes sociais: o caso CNN.com Live + Facebook. Intermezzo, São Paulo, 21 jan. 2009. Disponível em: http://bit.ly/kXH06o. Acesso jan. 2012. 66 http://bit.ly/kdsAty. Acesso jul. 2011.
65

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Figura 19. Cobertura da posse de Barack Obama no Facebook via CNN

Porém, a grande mudança é a possibilidade de ir além da reprodução de metáforas analógicas convencionais, de a Web implodir a interface impressa. Este tema discutido no próximo tópico.

Bem além do papel

Por causa da Web, pesquisadores elaboraram tipologias para definir conceitos, nomenclaturas, história e características do Jornalismo praticado na Internet (SALAVERRÍA: 2005; MIELNICZUK: 2003; SAAD: 2003; BARBOSA: 2002; MACHADO: 2000; DEUZE: 2001; PAVLICK: 2001; WOLK: 2001; SILVA JÚNIOR: 2000; PALACIOS: 1999; ARMAÑANZAS: 1996).

Há vários estudos para propor narrativas específicas (FERRARI: 2007; NOCI; SALAVERRÍA: 2003; PAUL: 2005; MCADAMS: 2005; MURRAY: 2003, LANDOW: 1995), gêneros (SEIXAS: 2009; BOGOST et al: 2010), design (CAIRO: 2007; HARROWER: 2002; BRINGHURST: 2004; GARCÍA: 1997; NIELSEN: 2000; DE PABLOS, 1999), sistemas de publicação (SCHWINGEL: 2008; GILMOR: 2004) e analisar as funções do usuário e aferição de acesso (BOCZKOWSKI: 2004, MOHERDAUI: 2005), entre outros.

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Das diversas nomenclaturas para denominar o Jornalismo de Internet, as mais utilizadas são: Webjornalismo, definido por Luciana Mielniczuk (1998) como a produção de conteúdo exclusivamente para a Web, e Jornalismo Digital, de Elias Machado (2007), pois engloba o WWW e outros dispositivos de conteúdo como, por exemplo, celulares e tablets.

Também é denominado Jornalismo Multimídia, pois implica a possibilidade da manipulação conjunta de dados digitalizados de diferentes naturezas: texto, som e imagem. Javier Días Noci (2001), da Universidade do País Basco, defende Jornalismo Eletrônico Multimídia Interativo, embora considere que são produtos informativos jornalísticos dedicados à informação atual elaborada e publicados conforme regras estabelecidas da profissão e geralmente por empresas de comunicação que apostam na Internet como principal negócio67.

Outros pesquisadores como Helder Bastos preferem Jornalismo Eletrônico, cujo campo se estende às nominações Jornalismo Digital e Jornalismo On-Line. Trata-se de uma fórmula: JE = JO + JD. A justificativa, segundo Bastos, é a de que integrada às práticas do Jornalismo Assistido Por Computador (CAR, sigla em inglês) está a pesquisa de Internet, classificada por ele como Jornalismo On-Line.

A proposta do autor refere-se a pesquisas realizadas em redes nas quais a informação circula em tempo diferido e cujo objetivo é a apuração jornalística (busca de conteúdos, recolhimento de informações e contato com fontes). Essas possibilidades de disponibilização de informações na rede são denominadas Jornalismo On-Line, já desenvolver e disponibilizar produtos é Jornalismo Digital68.

André Lemos, da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom/UFBA), o definiu como ciberjornalismo por ser o “lugar onde estamos quando entramos em um ambiente virtual e como o conjunto de redes de computadores interligadas ou não, em todo o planeta (BBS, videotextos,

67 68

MOHERDAUI, 2007, p. 119, 120, 121. IBIDEM.

60

Internet)69. É o que Mielniczuk chama de jornalismo praticado no ciberespaço (ver quadro abaixo).

Tabela 1. Nomenclaturas
Nomenclatura
Jornalismo eletrônico Jornalismo Digital ou Multimídia Ciberjornalismo Jornalismo On-Line

Definição
Feito com equipamentos e recursos eletrônicos Emprega tecnologia digital (dados viram bits) Envolve tecnologias que utilizam o ciberespaço Desenvolvido com tecnologias de transmissão de dados

Webjornalismo Jornalismo de Internet

Diz respeito a uma parte específica da rede: a Web Jornalismo produzido para a Internet das Coisas

Até pouco tempo atrás, fazia sentido nomear as práticas jornalísticas na rede segundo a lógica dos autores citados acima, como Luciana Mielniczuk, Helder Bastos, Días Noci e Elias Machado.

Esta pesquisadora utilizou o termo Jornalismo Digital, proposto por Machado até meados de 2010 em artigos, no livro Guia de Estilo Web – Produção e Edição de Notícias On-Line (2007), na dissertação de Mestrado (2005), defendida na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom/UFBA), e no projeto desta tese. Para o autor, a designação on-line restringe a produção na rede e não contempla todas as especificidades da rede.

A definição de Machado é coerente do ponto de vista da compreensão do todo, da própria concepção de Digital70. Pois, por meio dos sistemas de publicação disponíveis no mercado, é possível empacotar informações para serem distribuídas em diversas plataformas.

São elas: SMS (mensagem de texto curta), podcast (formato de arquivo padronizado mundialmente para distribuição automática de áudio, vídeo e texto), MMS (serviço de mensagem multimídia), Moblog (blog atualizado pelo celular), RSS (um formato de entrega de conteúdo pela Internet), Newsletters (boletins
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IBIDEM. Para saber mais sobre digital, ver: http://bit.ly/qEU0TK. Acesso jan. 2012.

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informativos), Newsalerts (alertas de notícias), programas de comunicação instantâneos, como Skype, e redes sociais, como Facebook e Twitter, e tablets.

Porém, com a computação ubíqua e a Internet das Coisas, essa nomenclatura deixa de fazer sentido. Se o ciberespaço é agora aqui e os dispositivos estão permanentemente conectados, o mais adequado é repensar a própria definição de Jornalismo atrelada aos suportes71 que o compõem.

Que Jornalismo é esse produzido para a Internet das Coisas em um ambiente de computação ubíqua? Como é a sua interface? De que maneira a interface reconfigura o Jornalismo? Por enquanto, a denominação mais coerente é Jornalismo de Internet. O termo será utilizado ao longo desta tese.

José Marques de Melo, um dos mais importantes pesquisadores no Brasil definiu o Jornalismo como um processo social que se articula a partir da relação (periódica/oportuna) entre organizações formais (editoras/emissoras) e

coletividades (públicos/receptores), por meio de canais de difusão que asseguram o trânsito de informações por causa de interesses e expectativas (2003, p. 17). Opera por meio de estratégias de noticiabilidade.

Não apenas àquelas que se referem à definição do que é notícia, mas também às que moldam a interface da notícia. (WOLF: 2002, p. 195-196). Na rede, Jornalismo e interface vão além dessas concepções. O fazer jornalístico será detalhado mais adiante. Notadamente sobre a interface e para entender como ela é constituída, é preciso porém voltar um pouco no tempo.

Design gráfico faz a diferença

No dicionário Houaiss, suporte é definido como: base física (de qualquer material, como papel, plástico, madeira, tecido, filme, fita magnética etc.) na qual se registram informações impressas, manuscritas, fotografadas, gravadas etc. Ou num computador, material (disco, fita magnética etc.) destinado a receber a informação.
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Na década de 1970, empresas jornalísticas dos Estados Unidos passaram a ter um maior interesse em design gráfico. Interesse que tomou conta das redações de jornais americanas – da pequena à grande imprensa -, e se manifestou de diferentes maneiras, sobretudo pela revisão dos conceitos sobre como apresentar informação ao leitor e pelo início da discussão sobre o tema.

Daquele ano em diante, o design gráfico começou a ocupar um espaço significativo nos projetos editoriais, marcado pela criação de dois seminários no American Press Institute, em Reston, Virgínia, que contou com um grupo de jornalistas gráficos, liderados por Roger Fidler, da Knight-Rider Newspapers, Robert Lockwood, do Allentown Morning Call, e Richard Curtis, do Baltimore News American, para criar, em 1979, a Society Newspapers Design (SDN)72.

Esse grupo publicava o Journal of Newspaper Design. Fidler também editou o livro Newspaper Design Notebook, um guia para jornalistas e designers com estudos de casos sobre redesenhos de jornais. Um dos nomes mais expressivos da SND é Edmund Arnold73 (1913-2007).

Considerado o pai do design moderno de jornais, Arnold revolucionou o conceito de projeto gráfico nos anos 1960, e as mudanças por ele implementadas à época se tornaram padrão no mundo todo. Com mais de 40 anos de carreira, passou por importantes redações, como Chicago Tribune, Christian Science Monitor, Newsday, New Orleans Times-Picayune, Boston Globe, Toronto Star, Kansas City Sta, National Observer, publicado pela Dow Jones's e fechado em 1977.

Responsável pela reformulação de mais de 250 diários, o tipógrafo introduziu o espaço entre elementos relacionados nas páginas e ganhou notoriedade entre os publishers pela qualidade de seu traço, valorizando texto, com

Para saber mais sobre a SND, acessar o endereço. http://bit.ly/16ig1K. Acesso jan. 2012. Para saber mais sobre Edmund Arnold, ver BERNSTEIN, A. Edmund Arnold, 93; Designed Newspapers. The Washington Post, EUA, 9 fev. 2007. Disponível em http://wapo.st/pOLEOc. Acesso jan. 2012.
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o aumento dos tipos, e imagens, com a reorganização do layout, pois defendia que as fotos tinham de contar história e não serem publicadas como adereços.

Também foi Arnold o responsável pela modulação dos textos, em vez de publicar matérias em colunas extensas, e pela redução da diagramação de oito para seis colunas.

Outro profissional expressivo na área é Peter Palazzo (1926-2005), da Palazzo and Associates, responsável pelo redesenho do Sunday New York Herald Tribune, que circulou nos Estados Unidos até 1966. A organização das capas com espaços em branco, uso de grandes fotos e arte e a divisão do conteúdo em editorias causaram grande impacto no mercado.

O trabalho de Palazzo foi considerado como vanguarda no início da década de 1960. Sua importância foi tamanha que ajudou a criar a disciplina de design de jornais nas universidades.

Os novos padrões influenciaram jornais como o The New York Times, caracterizado pelo constante uso da cor cinza e pela primeira página carregada de massa textual74. No início dos anos 1970, o Times mudou o conceito gráfico, diminuiu a diagramação para seis colunas e redesenhou a capa e as páginas internas, o que lhe conferiu o crédito de jornal mais moderno daquela década.

Na esteira do Times, também ganharam novos contornos Newsday, Louisville Courier-Journal, Today, The Christian Science Monitor e Minneapolis Tribune. De olho no comportamento dos leitores, os jornais – mesmo os pequenos – passaram a ter cadernos semanais sobre variedades, esportes, moda e lazer, conforme explica o designer Mario Garcia em seu Contemporary Newspaper Design – A structural approach:

74 Para conhecer mais páginas do The New York Times impresso, consultar TimesMachine, disponível em: http://nyti.ms/dgjQ3. Acesso jan. 2012.

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Como os leitores adquirem novidades e estilos de vida mais diversificados, os jornais são forçados a buscar meios para atender a este público cujos interesses especiais caminham da moda para o lazer, esportes e comida. Mesmo os mais modestos jornais incorporaram seções semanais como parte de sua pauta normal (1981, p. 3).

Figura 20. Sunday Tribune, 196075, redesenhado por Peter Palazzo

Orientado pelas novas tendências, o Chicago Tribune reorganizou suas editorias e incorporou cadernos especiais não apenas nos finais de semana, mas diariamente. O Dallas Morning News criou Fashion!Dallas, que circulava as quartasfeiras com cor na capa, ênfase em fotografia e arte, combinando anúncios e conteúdo editorial de modo atraente e efetivo, sob o lema: “The design is the key to the success of Fashion Dallas!”.

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Reprodução do livro Contemporary newspaper design – a structural approach (GARCIA:

1981, p. 2).

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O objetivo do jornal era apresentar grande variedade de informação, fotos e arte, dispostos graficamente em cada página. Todas essas mudanças

implementadas valorizaram um novo profissional, sobretudo nas grandes redações: o designer gráfico. Mario Garcia destaca a importância dos anos 1970 para a grande imprensa americana:

A década de 1970 deu um impulso para melhorar o projeto gráfico de jornal - mas que normalmente era mais significativo para grandes jornais ou jornais com designers treinados como parte de suas equipes. Isso é suscetível a fim de alterar o futuro, para diários e semanários mais modestos começarem a descobrir os efeitos benéficos do projeto em suas publicações (IBIDEM, p. 3).

Entretanto, rever conceitos e alterar totalmente a noção de organização de um jornal não é tarefa das mais fáceis. É preciso não dissociar o projeto gráfico do projeto editorial, nas palavras de Mario Garcia76 (loc. cit.), cuja marca aparece atualmente nos redesenhos dos principais jornais do mundo: "Essas seções especiais exigem os maiores talentos e habilidades em termos de tipografia e de design, bem como de conteúdo".

Muitos jornais passaram a adotar estratégias de design gráfico para criar uma identidade visual em suas páginas. Dos tradicionais, o Baltimore News American saiu com uma inovadora mistura de tipos, arte e fotos, e o Boston Herald American modernizou a primeira página. O Washington Star optou por uma mudança drástica em suas páginas, especialmente nas internas, ao adotar um design baseado efetivamente em revistas.

Se os anos 1970 foram marcados pelo alto grau de influência dos elementos de design nas redações, os anos 1980 forneceram razões para essa solidificação, até os dias atuais. Entretanto é preciso ponderar que tais mudanças aconteceram após o surgimento dos primeiros diários, em 165077.
Os projetos do designer Mario Garcia estão em: http://bit.ly/yUU88. Acesso em jan. 2012. primeiro jornal diário publicado foi Einkommende Zeitug, em 1650 na Alemanha. O Daily Courant se manteve até 1735. Os primeiros diários franceses surgiram em 1777 para surgirem em Paris. A impressão nasceu em 1438 e ganhou difusão na segunda metade do século XV. A imprensa periódica só nasceu mais de um século e meio após a invenção da tipografia, tendo sido um verdadeiro florescimento de escritos de informação dos mais diversos. Desde o século XVI, pelo
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A primeira página do The New York Times, de 1864, era diagramada com textos distribuídos em seis colunas e a manchete ocupando o lado esquerdo superior da página, escrita em uma linha e em uma coluna. Não havia imagens, arte ou gráficos e a impressão era feita em preto e branco. Já capa do Times, de 1980, aparece diagramada em seis colunas, com três fotos coloridas em destaque e manchete com tipos grandes de centralizada ocupando quatro colunas.

Figura 21. NY Times, 1860

Figura 22. NY Times, 198078

Ainda que tenha levado muito tempo para incorporar o design ao Jornalismo, ou para que o design surgisse para o Jornalismo, guardadas as restrições econômicas, tecnológicas e culturais, não se pode negar que resultou em uma mudança completa de paradigmas e de práticas nas redações, sobretudo porque os novos formatos adotados se tornaram padrão mundial.

Nesse sentido, não é sem razão que o estudo da interface dos jornais de Internet tem, obrigatoriamente, que revisitar os métodos de criação e de produção
menos, as notícias já tinham se tornado verdadeira mercadoria. In: TERROU, A. História da Imprensa; tradução de Edison Darci Heldt. São Paulo: Martins Fontes, 1990. 78 GARCIA: 1981, p. 4-5.

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utilizados largamente por profissionais como Edmundo Arnold e Peter Palazzo, pois algumas das lições passam pelo entendimento do meio, da sua relação com o leitor e da sua abrangência.

Metáfora é o ponto de partida

Tal análise é importante, pois mostra que no caso da Web, as empresas jornalísticas deram um passo atrás: a nova plataforma de publicação, projetada para repensar os modelos analógicos em vigor, simula o papel, nas palavras de Ted Nelson (2001), com diagramação em colunas, predomínio de texto e pouco uso de recursos multimídia e do potencial de criação da interface gráfica da Internet79.

O que foi considerado design gráfico de vanguarda no jornalismo impresso há mais de 40 anos hoje é praticamente transposto para a rede, apesar de a Internet ser uma nova forma social que produz uma nova prática social e, por isso, possibilita ações especificas (ECHEVERRÍA, 1999; CASTELS, 1999). Isso acontece porque os designers levaram a experiência da mídia impressa para a rede:

(...) Muitos deles foram treinados como designers gráficos para impressão, e eles compraram as habilidades e suposições de design gráfico para a Web. Eles sabiam como usar conjuntamente palavras e imagens para se comunicar no espaço bidimensional da página impressa. Eles entenderam que um site poderia funcionar como um jornal ou uma revista em função das comunicações de forma visual. Alguns designers se tornaram Web Designers, porque eles foram atraídos pelo potencial desta nova forma de comunicar (BOLTER e GROMALA, 2003. p.6).

Outra questão importante que se coloca é a de que designer nem arquiteto da informação podem ter uma visão estruturalista da interface; forma e conteúdo não podem ser separados (veja nas próximas páginas comparação entre versões impressa e de Web da Folha de S.Paulo).

79Para

saber mais sobre interfaces noticiosas na Web, acessar Contra a clicagem burra, disponível em: http://bit.ly/mP6xcC Acesso em jan. 2012.

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Jay David Bolter e Diane Gromala (op. cit., p.3-6) afirmam que o erro de Jakob Nielsen e Donald Norman, da Nielsen Norman Group

(http://www.nngroup.com) é assumir que a única meta é tornar a interface transparente, quando na realidade o ideal é estabelecer um ritmo apropriado entre ser transparente e reflexivo. Eles julgam incorreto achar que o melhor design é claro, simples e natural.

Pense na tela do computador como uma janela que se abre para um mundo visual que parece estar por trás ou além dela. Este é o mundo de informações que o computador nos oferece. Textos, gráficos, imagens digitalizadas e som. Concentrando-se no texto ou nas imagens, o usuário esquece a interface (menus, ícones, cursor), e a interface se torna transparente. Especialistas de HCI (human-computer interface) e alguns designers falam como se esse fosse o único objetivo do design de interface: montar uma janela transparente para um mundo de informação (Op. cit., p. 26).

Aliás, para Bolter e Gromala, Tim Berners-Lee e Mark Andreessen são estruturalistas e assim também o são suas criações Web e Mosaic

(respectivamente).

Figuras 23, 24, 25. Reprodução das capas da versão impressa do Caderno de Esportes da Folha da Copa de 2006

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Figuras 26, 27, 28. Reprodução das interfaces do caderno de Esportes da Folha na Internet da Copa de 2006

Porém, num contexto de Internet das Coisas, a ideia de ser reflexivo e transparente precisa ser reavaliada. Do modo como é definida, restringe-se apenas à tela do computador. Talvez esse pensamento reflita a cultura da página estática ao contrário da Internet das Coisas, que pressupõe uma interface que, no limite, é vestível (ver p. 47).

Na década de 1940, o computador era visto como uma enorme máquina de calcular, projetada por Alan Turing, para resolver problemas de engenharia e ciência. Mesmo quando Ted Nelson cunhou o termo hipertexto ainda era percebido como máquina. Apenas em 1968, o computador passa a ser denominado como mídia/meio. A definição aparece pela primeira vez no artigo The Computer as a Communication Device, de J.C.R. Licklider (1915-1990) e Robert W. Taylor80:

Podemos dizer com toda a convicção que uma forma particular de organização do computador digital, com seus programas e seus dados, constitui o meio dinâmico, moldável que pode revolucionar a arte de modelagem e que, ao fazê-lo, pode melhorar a eficácia da comunicação entre as pessoas tanto como, talvez, para revolucioná-la também. (1968, p. 27).

Em seu artigo, Licklider e Taylor (op. cit., p. 21) defendiam que a comunicação não podia se restringir apenas ao envio e recebimento de informações, sobretudo em um momento em que a tecnologia avançava e permitia
80LICKLIDER;

TAYLOR. 1968.

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ao leitor interagir com a informação, não de modo passivo, como acontecia, ao ler livros comprados em livraria, por exemplo, mas como participantes ativos num processo continuado. Naquela época, os pesquisadores já pensavam a comunicação como um dispositivo todos-todos (LÉVY, 1999, p. 63).

Com o advento da Web, o computador começou a representar e reconfigurar formatos culturais existentes (BOLTER e GROMALA, op. cit., p. 12) por meio da tecnologia, como jornais, revistas, filmes e tevê. Nesse sentido, para Jay David Bolter e Diane Gromala, o projeto gráfico passaria pelas seguintes noções: a) o computador tornou-se um novo meio; b) o design, como artefato, muda para o design como experiência; e c) o design para Internet não pode ser invisível.

A interface é a mensagem

Porém se é verdade que projetos com o Six Sense, do Media Lab, do MIT, serão realidade e farão parte do cotidiano do cidadão comum, a interface transforma-se em um meio.

Nesse sentido, a interface passa a ser a mensagem porque é ela que “configura e controla a proporção e a forma das ações e associações humanas”. (McLuhan: 1964, p. 23). De que maneira se dá essa compreensão? Escreveu Marshall McLuhan em Os meios de comunicação como extensão dos homens:
A luz elétrica é informação pura. É algo assim como um meio sem mensagem, a menos que seja usada para explicar algum anúncio verbal ou algum nome. Este fato, característico de todos os veículos, significa que o conteúdo de qualquer meio ou veículo é sempre outro meio, ou veículo. O conteúdo da escrita é a fala assim como a palavra escrita é o conteúdo da imprensa, e a palavra impressa é o conteúdo do telégrafo (MCLUHAN: 1964 p. 22). A mensagem de qualquer meio ou tecnologia é a mudança de escala, cadência ou padrão que esse meio ou tecnologia introduz nas coisas humanas. A estrada de ferro não introduziu movimento, transporte, roda ou caminhos na sociedade humana, mas acelerou e ampliou a escala das funções humanas, criando tipos de cidades, de trabalho e de lazer totalmente novos. O avião, de outro lado, tende a dissolver a forma “ferroviária” da cidade, da

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política e das associações, independentemente da finalidade para o qual é utilizado (IBIDEM, p. 22-23).

Se aplicado à Internet, o conceito mcluhaniano cabe perfeitamente à interface. Ou seja, a interface é o conteúdo do computador assim como a linguagem visual híbrida – remix de softwares e formatos - (MANOVICH: 2008, p. 102) é o conteúdo da interface. Ao implodir a página impressa, a interface instituiu uma nova linguagem.

Se pensada do ponto de vista da Internet das Coisas, fica mais claro o entendimento. Escreveu McLuhan: “O efeito de um meio se torna mais intenso justamente porque o seu conteúdo é outro meio. Nenhum meio existe sem depender do outro” (1964, p. 33-42). Isso faz rever as noções de Bolter e Gromala citadas no parágrafo anterior, destacadas no quadro na página a seguir:
Tabela 2. Computador e interface, ontem e hoje
Ontem Computador tornou-se um novo meio Design como artefato muda para design como experiência Design para Internet não pode ser invisível. Hoje Interface tornou-se um novo meio Design como artefato muda para design como experiência Design para a Internet é vestível

Partindo do pressuposto de que a interface é a mensagem e que o usuário não apenas opera, mas interage com ela, a lógica do design gráfico na Internet é a de que o projeto tem que ser elaborado para ser experimentado e não simplesmente utilizado. Pois a condição da informação na rede é a ação (BOLTER e GROMALA, op. cit., p. 24, MANOVICH, 2001, p. 227). Isso exige que a interface seja dinâmica e não uma série de telas estáticas como pode ser observado atualmente.

Há alguns caminhos para se entender esse raciocínio: a neurociência, na visão de Miguel Nicolelis, e a arte digital, proposta por Bolter e Gromala. A contribuição da arte digital ao Jornalismo será explicada no último capítulo. A neurociência pode explicar de que forma o chamado wetware humano, uma abstração que incorpora o sistema nervoso central e a mente; reconfigura não só a relação homem-máquina, mas também o padrão do Jornalismo em vigor. 72

Para Nicolelis, não demorará muito para que as pessoas deixem de usar monitores, teclados e mouse. Ele acredita que o computador convencional deixará de existir. “Vamos submergir em sistemas virtuais e nos comunicaremos diretamente com eles. No longo prazo, o corpo deixará de ser o fator limitante da nossa ação no mundo” (2011).

Não estão longe de se tornarem realidade os cenários apresentados pelo neurocirurgião em seu novo livro “Muito além do nosso eu” (2011). Pioneiro no estudo de interações entre cérebro e máquina, Nicolelis realiza pesquisas com macacos em seu laboratório na Universidade Duke, o Duke´s Center For Neuroengineering. Eles aprenderam a utilizar um paradigma neurofisiológico revolucionário chamado interfaces cérebro-máquina (ICM).

Com várias ICMs, a equipe de Nicolelis em Duke foi capaz de demonstrar que os macacos podem aprender a controlar, voluntariamente, os movimentos de artefatos artificiais, como braços e pernas robóticos, localizados próximo ou longe deles, usando apenas a atividade elétrica de seus cérebros de primatas (p.22-23).

Trata-se de uma nova abordagem experimental para ler simultaneamente os sinais elétricos produzidos por centenas de neurônios que pertencem a um circuito neuronal. Os experimentos realizados no laboratório do neurocientista permitiram traduzir pensamentos motores em comandos digitais que puderam ser aplicados para gerar movimentos em máquinas que foram criadas sem nenhum intuito de reproduzir a intenção dos pensamentos de um primata.

Era para liberar o cérebro das restrições impostas pelo corpo e, nesse processo, permitir ao sistema nervoso desses animais controlarem diretamente o funcionamento de quaisquer ferramentas, como forma de interação e exploração do mundo ao seu redor apenas por meio do pensamento (IBIDEM: p. 23). A pesquisa de Nicolelis foi destaque na revista Nature em outubro de 2011.81

MONKEY BRAINS 'feel' virtual object. Nature, EUA. 5 out. 2011. Disponível em: http://bit.ly/qd40ye. Acesso jan. 2012.
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Se a interação entre máquinas e cérebro considera aparelhos (mesmo que distantes) como parte do homem, é possível pensar o ser humano como máquina social, pois depende de elementos exteriores para existir como tal. Implica uma complementaridade não apenas com o homem que a fabrica; ela própria está em relação de alteridade com outras máquinas, sociais, atuais ou virtuais (GUATTARI: 2008, p. 49-50).

Corpo informacional

Nesse sentido, essa máquina transforma-se em um corpo informacional na medida em que opera em relação à outra máquina, conectada em rede, agrupando dados biológicos, sociológicos e econômicos, cujo algoritmo que a comanda coloca em perspectiva uma nova estética orientada pelo wetware ou input humano.

O input humano ou o wetware já são realidade há muito tempo em clássicos da ficção cientifica como Johnny Mnemonic (1995),82 Strange Days (1995)83, eXistenZ (1999)84, Minority Report (2002)85 e Avatar (2009)86, entre outros. Porém, como algo longe do alcance de todos.

No caso de Avatar, Nicolelis explicou, em entrevista a Globo News, que seis anos antes de James Cameron fazer o filme sua pesquisa já havia mencionado a possibilidade de a atividade elétrica do cérebro controlar corpos virtuais e computacionais, entre outros:
Além da medicina, acredito que em algumas décadas as interfaces cérebros-máquina têm o potencial de ser usadas para aumentar o alcance do ser humano. Por exemplo, em vez de mandar uma pessoa à usina de Fukishima (Japão), você mandaria um robô ou um avatar, controlado a distância por um operador (GLOBO NEWS: 2011). Até imaginar ambientes muito diferentes, ambientes microscópicos, onde você tem que ter uma ferramenta que
Para saber mais sobre Johnny Mnemonic, ver: http://imdb.to/ao8Ogy. Acesso jan. 2012. Para saber mais sobre Strange Days, ver: http://imdb.to/NqWQI. Acesso jan. 2012. 84 Para saber mais sobre eXistenZ, ver: http://imdb.to/kLu2T. Acesso jan. 2012. 85 Para saber mais sobre Minority Report, ver: http://imdb.to/6lUzW. Acesso jan. 2012. 86 Para saber mais sobre Avatar, ver: http://imdb.to/2F9Wbq. Acesso jan. 2012.
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poderia ser controlada por um operador, pelo pensamento de um operador, para realizar funções. Essa hipótese já está sendo aventada. Inclusive, as grandes empresas de computação como Google, Microsoft e Intel já têm divisão de interface cérebromáquina buscando criar uma nova interface com os nossos computadores (IBIDEM).

Dois exemplos bastante ricos, lançados quase 15 anos antes da estreia de Avatar, ilustram a questão:

Johnny Mnemonic (1995), do diretor Robert Longo. Ele criou um mensageiro cibernético, vivido pelo ator Keanu Reeves, que transporta em seu cérebro um arquivo de 320 gigabytes com a cura para uma doença que assola o ano 2021, a Síndrome do Enfraquecimento Neurológico (SEN). Na realidade o cérebro de Johnny é uma espécie de disco rígido de computador, implantado por meio de um chip.

Figura 29. Cena de Johnny Mnemonic

eXistenZ (1999), do canadense David Cronenberg. No filme, a designer de games Allegra Geller, interpretada por Jennifer Jason Leigh, cria o console GamePode, que se conecta ao jogador por meio de um orifício acoplado a sua coluna vertebral e o transporta para um imaginário de confusões, cujo limite que o separa da realidade aparece inteiramente borrado, indefinido, e o espectador fica sem saber se trata-se de um filme dentro do game ou vice-versa. 75

Cronenberg já havia explorado o tema em Videodrome (1982)87, mas delimitava o imaginário da realidade para fundi-los no corpo do videomaker James Woods (Max Renn).88

Figura 30. Cena de eXistenZ

Figura 31. Cena de Videodrome

Esses filmes colocam em questão a conversão do corpo em um deslocamento do indivíduo biológico para um novo projeto de corpo (GIANNETTI, 2006, p. 101). Para o artista australiano Stelios Arcadiou (ou Stelarc, como é conhecido), a microtecnologia utilizada e implantada no corpo permitirá romper com as fronteiras biológicas:
A pele era, como superfície, o início do mundo e, simultaneamente, o limite do indivíduo. (...) Expandida e penetrada por máquinas, a pele já não é mais a superfície plana e sensível de um lugar ou de uma parede intermediária. O indivíduo se encontra, agora, fora da pele; porém, isso não significa nem uma separação nem uma ruptura, mas uma compreensão da compreensão da consciência. A pele já não representa clausura (STELARC, 1997 apud GIANNETTI, 2006, p. 101).

Fora do ambiente de ficção cientifica, a noção de input humano passou a fazer parte do nosso cotidiano, sobretudo após a concretização, em abril de 2003, do Projeto Genoma Humano (PGH), o mapeamento completo dos genes da espécie humana. Por um lado, há mais dados disponíveis à pesquisa e, eventualmente, podem ser remodelados.
Para saber mais sobre Videodrome, ver: http://imdb.to/qznSI7. Acesso jan. 2012. CRONENBERG vai aos limites da realidade e do delírio em "Spider". Folha de S.Paulo, São Paulo, 6 mar. 2007. Disponível em: http://bit.ly/sxNaLm. Acesso jan. 2012.
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Por outro lado, existe a ameaça da sociedade de controle (VESNA: 2007, p. 8), também já retratada em filmes de ficção. Isso leva à compreensão de que ser humano é ser informação (IBIDEM, p. 21-27): "(...) agora, a informação sobre quase todas as pessoas no mundo desenvolvido é informatizado em centenas de bancos de dados - coletados, analisados e divulgados por governos e corporações."

Agenciamentos que reconfiguram a interface

Antes, os sistemas estavam restritos ao deslocamento do homem no espaço. Com a cultura de dados (BERNERS-LEE: 2009), essa vigilância passa a ser realizada a distâncias microscópicas de identidade pessoal. Não apenas o nome ou os dados do cartão de crédito, mas o tipo sanguíneo, as propensões biológicas a determinadas doenças, sobretudo quando aumentar o acesso a mapas genéticos, responsáveis por determinar riscos de saúde ou de morte.

E com a interface não é diferente. Na realidade, os sistemas de controle já operam, ainda que de modo invisível, na rede. Google e Facebook são exemplos disso.

Do ponto de vista do cidadão comum, um dos aspectos positivos é o acesso aberto a uma gigantesca base de dados, conectada em rede e que permite agenciamentos (DELEUZE; GUATTARI: 2008, p. 29), típicos de espaços lisos.

O entendimento de agenciamento na obra de Gilles Deleuze e Félix Guattari está relacionado à produção de subjetividade, ao desejo como construção junto ao socius. Em Micropolítica: Cartografias do Desejo, Guattari e Suely Rolnik o

definiram para além de estrutura, forma, processo e montagem: “Um agenciamento comporta componentes heterogêneos, tanto de ordem biológica, quanto social, maquínica, gnosiológica, imaginária”. (2005, p. 381).

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O agenciamento remete ao coletivo, não está restrito ao campo social ou a grupos sociais, mas a uma multiplicidade heterogênea89. Ele se dá por meio da experiência nômade, em constante deslocamento, dentro de circuitos em fluxo que operam em circuitos estriados. O agenciamento comporta dois segmentos – conteúdo e expressão:
(...) Segundo um primeiro eixo, horizontal, um agenciamento comporta dois segmentos: um de conteúdo, o outro de expressão. Por um lado, ele é agenciamento maquínico de corpos, de ações e de paixões, mistura de corpos reagindo uns sobre os outros; por outro lado, agenciamento coletivo de enunciação, de atos e de enunciados, transformações incorpóreas sendo atribuídas aos corpos. Mas, segundo um eixo vertical orientado, o agenciamento tem, de uma parte, lados territoriais ou reterritorializados que o arrebatam (DELEUZE, GUATTARI: 2008).

É por causa do agenciamento coletivo de enunciação que, no âmbito da Internet das Coisas, a interface é reconfigurada. O agenciamento coletivo produz subjetividade a partir da enunciação, que produz enunciados em um contexto sempre coletivo e heterogêneo. Essa subjetividade interfere

constantemente na interface:

Os agenciamentos não cessam de variar, de serem eles mesmos submetidos a transformações. Em primeiro lugar, é necessário fazer intervir as circunstâncias: (...) um enunciado não é nada fora das circunstâncias que o tornam o que é. Alguém pode gritar “decreto a mobilização geral!”. Esta será uma ação de infantilidade ou de demência, e não um ato de enunciação, se não existir uma variável efetuada que dê o direito de enunciar. O mesmo é verdade em relação a “Eu te amo!”, que não possui sentido nem sujeito, nem destinatário, fora das circunstâncias que não se contentam em torná-lo crível, mas fazem dele um verdadeiro agenciamento, um marcador de poder, mesmo no caso de um amor infeliz - é a vontade da potência que se obedece (DELEUZE; GUATTARI: 2008, p, 29).

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Para Deleuze e Guattari (2004), as multiplicidades não entram em nenhuma totalidade nem remetem a um sujeito. As subjetivações, as totalizações, as unificações, são, ao contrário, processos que produzem e aparecem nas multiplicidades. Os princípios característicos das multiplicidades concernem a seus elementos, que são singuralidades; a suas relações, que são devires; a seus acontecimentos, que são hecceidades (quer dizer, individuações sem sujeito); a seus espaçostempos, que são espaços e tempos livres; a seu modelo de composição, que constitui platôs (zonas de intensidade contínua); aos vetores que a atravessam, e que constituem territórios e graus de desterritorialização.

78

A subjetividade é produzida por agenciamentos de enunciação. Os processos de subjetivação ou de semiotização não são centrados em agentes individuais nem em agentes grupais. Esses processos são duplamente descentrados. Implicam o funcionamento de máquinas de expressão que podem ser tanto de natureza extrapessoal, extraindividual (sistemas maquínicos, econômicos, sociais, tecnológicos, icônicos, ecológicos, de mídia, ou seja, sistemas que não são mais imediatamente antropológicos), quanto de natureza infra-humana, infrapsiquíca, infrapessoal (sistemas de percepção, de sensibilidade, de afeto, de desejo, de representação, de imagem, de valor, modos de memorização e de produção de ideias, sistemas de inibição e de automatismos, sistemas corporais, orgânicos, biológicos, fisiológicos e assim por diante). (GUATTARI: 2005, p. 39).

Nesse sentido, o agenciamento coletivo de enunciação contribui não apenas para remodelar a interface, mas para modificar os termos que explicavam os modelos de comunicação em vigor no século 20 - transmissão, publicação e recepção - para incorporar, anotar, comentar, responder, agregar, cortar, compartilhar, recomendar, download, upload (MANOVICH: 2008, p. 226), além do crowdsourcing.

Os sistemas abertos e as redes sociais foram determinantes para essa mudança de paradigma. Essa é uma das causas pelas quais cada vez mais pessoas buscam informação nessas plataformas. Pelas inúmeras possibilidades de não somente participar, mas alterar o conteúdo.

São os chamados prosumers90 (produtores e consumidores de informação) ou produsers91 (usuários de ambientes colaborativos que se comprometem com conteúdo intercambiável tanto como consumidores quanto como produtores. Fazem o que agora se chama de produsage – produção e uso).

O termo prosumer foi cunhado por Alvin Tofler nos anos 1980. In: Wikipedia. Disponível em: http://bit.ly/7h52om. Acesso jan. 2012. 91 Os produsers ocupam a mesma posição de produtor e usuário engajados no ato da produsage, Entre outras palavras, Bruns e Jacobs (2007), apontam que produsers definem os “usuários de ambientes colaborativos que se comprometem com conteúdos intercambiáveis tanto como consumidores quanto como consumidores quanto como produtores: eles fazem o que agora se chama de produsage”.
90

79

Levantamentos feitos por institutos brasileiros e estrangeiros apontam uma alta considerável no acesso às redes sociais (apesar de usarem metodologias diferentes cujos dados não são comparáveis). Em dezembro de 2011, a ComScore mostrou que 1,2 bilhão de pessoas em todo o mundo acessam Facebook, YouTube, LinkedIn, Twitter e Tumblr.

A cada cinco minutos de navegação, um é gasto em redes sociais. A curva de crescimento começa a ser verificada em 2007. Esse número representa 82% do total de usuários de Internet em todo o mundo calculados na época do levantamento (1,46 bilhão). Hoje, mais de 2 bilhões estão conectados92.

Figura 32. Aumento do acesso às redes sociais no mundo

No

Brasil,

pesquisa

do

Ibope

entrevistou

8.651

pessoas

(com

representatividade de 25 milhões) no final de 2010 e revelou que cerca de 60% usam as redes sociais há três anos ou mais. O mesmo percentual afirmou que as redes sociais têm informação necessária para se atualizarem. Outros 45%

92

http://bit.ly/y3E9Ij. Acesso jan. 2012.

80

afirmaram que as redes sociais substituem informações dos portais de notícias93. O país tem 77, 8 milhões de internautas94.

Figura 33. Infográfico do Ibope sobre acesso às redes sociais no Brasil

Da mesma forma que o Ibope, a ComScore aponta as redes sociais como fonte de informação, especialmente o Twitter:
Em 2011, o Twitter foi usado como um meio central de comunicação durante os eventos de importância mundial e nacional, variando de levantes políticos no Oriente Médio a desastres, como o terremoto e tsunami no Japão. Entre os momentos mais tuitados em 2011, de acordo com o Twitter, foram os acontecimentos políticos, como a morte de Osama Bin Laden, momentos comemorativos como o Ano Novo e notícias sobre demissão de Steve Jobs da Apple e seu consequente substituto. O anúncio da gravidez da cantora Beyoncé no Video Music Awards bateu recordes no Twitter com usuários gerando 8,868 tweets por segundo em torno do evento (2011).

Chama a atenção outro dado de 2010, mas pouco difundido: vem caindo o interesse por portais nos Estados Unidos. Entre 2009 e 2010, o Nielsen Wire
A pesquisa foi apresentada no MediaOn, evento que discute jornalismo na Internet. Para assistir a íntegra, ver: http://bit.ly/yPEC6b; http://bit.ly/zaXsKr; http://bit.ly/yobOCq. O download em pdf está disponível em: http://slidesha.re/x26sIn. Acesso jan. 2012. 94 TOTAL DE pessoas com acesso à internet atinge 77,8 milhões. Ibope, São Paulo, 9 set. 2011. Disponível em: http://bit.ly/wUCOoG. Acesso jan. 2012.
93

81

registrou queda de 19% no tempo que os americanos gastavam acessando portais – de 5,5% para 4,4%. Já o interesse por redes sociais aumentou 43% no mesmo período – 15,8% para 22,7%95.

No Brasil, embora o Ibope tenha mostrado em 2010 que as pessoas incorporaram as redes sociais em seu cotidiano96, um ano depois afirmou que “portais são absolutamente relevantes e são a referência para o adulto”97. A ComScore mostra que 97% dos brasileiros estão conectados a redes sociais.

Figura 34. Tempo gasto pelos americanos na Internet

95

WHAT AMERICANS do online: Social media and games dominate activity. Nielsen Wire. 2 ago 2010. Disponível em: http://bit.ly/yuF8Sp. Acesso jan. 2012. 96 Ver nota 75. 97 Levantamento do Ibope exibido no Digital Age em 30 set. 2011. Disponível em: http://youtu.be/Oj6y99b3oN8. Acesso jan. 2012.

82

Tabela 3. Novo paradigma de comunicação
Produção, recepção, distribuição Incorporar, anotar, comentar, responder, agregar, cortar, compartilhar, recomendar, download, upload e crowdsourcing Prosumer/produser Redes sociais

Produtor Portais/sites

Se há, de fato, um novo modelo comunicacional (conforme quadro acima) e o principal articulador desse processo é o prosumer (ou produser). Esse produtor que também é consumidor de informação reorienta conceitos que balizaram o Jornalismo.

Isso faz necessário repensar as Teorias da Comunicação em torno dessas novas perspectivas e entender de que maneira a interface é constituída, quais são as suas implicações éticas e como se dá a validação do conteúdo, temas aprofundados no próximo capítulo.

83

Capítulo 2

“Não, não, eu não

estou onde você me espreita, mas aqui de onde o observo rindo”

Michel Foucault

84

2.

Cultura Power Point

Ponto de vista jornalístico98
Para compreender de que forma a interface reconfigura os conceitos que orientam o Jornalismo, é preciso revê-lo historicamente. Mais especificamente, em relação a newsmaking (produção de notícias), gatekeeper (seleção de notícias) e agenda-setting. O newsmaking compõe os critérios que irão definir o que é notícia e orientar a hierarquia e a diagramação na página de um jornal ou nas chamadas de rádio e tevê.

O gatekeeper selecionará quais serão noticiadas pela imprensa. O agendasetting lista o que é considerado interesse do público. O Jornalismo é, por definição, “a profissão principal ou suplementar das pessoas que reúnem, detectam, avaliam e difundem as notícias, ou que comentam os fatos do momento. O jornalista é quem está envolvido nesse processo (KUNCZIK: 1998, p. 16).

Juarez Bahia, um dos mais importantes pesquisadores da área de comunicação, definiu notícia como “o modo pelo qual o Jornalismo registra e leva os fatos ao conhecimento do público. Noticia é sinônimo de acontecimento, matéria, dado, verdade, mentira, certeza, dúvida, jornalismo, informação, comunicação” (1990, p. 35).

É de Bahia a famosa afirmação: “Toda notícia é uma informação, mas nem toda informação é uma notícia”. Outro estudioso de igual importância, Nilson Lage, afirma que notícia é contar uma história: “um modo corrente de transmissão da experiência – isto é, a articulação simbólica que transporta a consciência do fato a quem não o presenciou” (LAGE: 2001, p 49).

A reflexão sobre o Jornalismo é tradicional nos Estados Unidos desde o século XIX, embora tenha se intensificado principalmente após o célebre livro
98Parte

deste tópico foi escrita a partir do artigo MOHERDAUI, L. As lentes de Barbie Zelizer. Revista Contratempo, Rio de Janeiro, n 14,, 2006, p. 185.199.

85

Public Opinion, de Walter Lippmann, publicado em 1922. Entre 1928 e 1930, o sociólogo alemão Otto Groth lançou em quatro volumes a obra Die Zeitung (O Jornal), resultado de um estudo iniciado em 1910 sobre a compreensão do Jornalismo e suas implicações com a sociedade.

A teoria de Groth baseia-se em atualidade, universalidade, periodicidade e difusão.

Autores como Jorge Pedro Sousa afirmam que a tese de doutorado do alemão Tobias Peucer, defendida na Universidade de Leipzig, na Alemanha em 1690, seja a pioneira em Teoria do Jornalismo. Atualmente, o Jornalismo faz parte da Teoria da Comunicação. Peucer apontou caminhos para a pesquisa e reflexão que outros autores só começaram a seguir anos mais tarde. As discussões do autor são temas centrais da teoria contemporânea99.

Para Sousa, os estudos do pesquisador alemão sugerem que a construção da notícia não é uma invenção anglo-saxônica: “em princípio, toda a notícia deve aterse àquelas circunstâncias já conhecidas que se costuma ter sempre em conta em uma ação tais como a pessoa, o objeto, a causa, o modo, o local e o tempo” (PEUCER apud SOUSA: 2004, p. 10).

Em 1948, o pesquisador americano Harold Lasswell transformou essas ações na fórmula para o texto jornalístico. Chamado lead, o primeiro parágrafo responde às seguintes questões: o quê, a quem, quando, onde, como, por que e para quê (LAGE: 2001, p. 26-27).

Notam-se as preocupações de Peucer com algumas das questões em torno das quais se tenta construir atualmente uma Teoria do Jornalismo: os conceitos de notícia e de jornais; as relações entre Jornalismo e história, a contribuição da retórica e da evolução histórica para a estrutura das notícias, os critérios de noticiabilidade e os constrangimentos à produção de informação.

99

SOUSA, 2004, p. 1-5.

86

No inicio do século XIX, o Jornalismo passou a ser o quarto poder e se confundiu com democracia. Para o escritor e político francês Alexis de Tocqueville, a soberania dos povos e a liberdade de imprensa são inseparáveis. A teoria democrática aponta que o Jornalismo deve atuar vigiando os poderes políticos e protegendo os cidadãos, oferecendo informações à sociedade para que os cidadãos possam usar e cobrar serviços públicos.

Em 1947, surgiu o conceito de gatekeeper, por Kurt Lewin, a partir de um estudo sobre as dinâmicas que agem no interior dos grupos sociais, em especial no que se refere aos programas ligados à modificação dos hábitos alimentares (1947, p. 145).

Identificando os canais pelos quais flui a sequência de comportamentos relativos a um determinado tema, Lewin notou que existem neles zonas que podem funcionar como cancela, como porteiro: o conjunto das forças antes e depois da zona filtro é diferente de tal forma que a passagem, ou o bloqueio, da unidade através de todo o canal, depende, em grande medida, do que acontece na zona de filtro.

Isso ocorre não apenas com os canais de alimentação, mas também com a sequência da informação, dada pelos canais de comunicação de um grupo. As zonas de filtros são controladas por sistemas objetivos de regras ou por gatekeepers. Neste último caso, há um indivíduo ou grupo que tem o poder de decidir se deixa passar a informação ou se a bloqueia.

Na década de 70, Donald Shaw e Maxwell McCombs, formulam outra teoria que marca o campo da produção jornalística: o agenda-setting, segundo a qual os meios de comunicação apresentam ao público uma lista daquilo sobre o que é necessário ter uma opinião e discutir.

O pressuposto fundamental do agenda-setting é que a compreensão que as pessoas têm de grande parte da realidade social lhes é fornecida pela imprensa 87

(MC COMBS; SHAW: 1972). É o que Michael Schudson (2003) chamou de efeitos de informação.

Este período é assinalado também com trabalhos de Gaye Tuchman (1978), Herbert Gans (1979) e Philip Schlesinger (1978), entre outros. São estudos que orientam a decisão sobre o que é notícia, as rotinas de classificação e de cobertura dos acontecimentos, sustentação da objetividade, procedimentos ideológicos não expressos pelos jornalistas, o chamado newsmaking.

Nem toda informação é notícia

O newsmaking (valores/notícia) é um componente da noticiabilidade. Ele constitui a resposta à pergunta: quais os acontecimentos que são considerados suficientemente interessantes, significativos e relevantes para ser transformados em notícias?

Nessa seleção, os critérios de relevância funcionam em conjunto, em pacotes, são as diferentes relações e combinações que se estabelecem entre diferentes valores/notícia que recomendam a escolha de um fato. Os critérios de noticiabilidade compõem o newsmaking.

Um segundo aspecto geral é que os valores/notícia são critérios de relevância espalhados ao longo de todo o processo, isto é, não estão presentes apenas na notícia, mas também na composição da página. Fornecem diretrizes para apresentação do material, sugerindo o que deve ser prioritário na preparação das notícias. O newsmaking orienta o trabalho em uma redação e deriva de pressupostos implícitos ou de considerações relativas (WOLF: 2002, p. 195-196):

às características substantivas das notícias; ao seu conteúdo (quando

um acontecimento se transforma em notícia); • disponibilidade do material e aos critérios relativos ao produto

informativo (conjunto dos processos de produção e realização); 88

• • informativo).

ao público (imagem que os jornalistas têm acerca dos destinatários); à concorrência (relações entre os mass media existentes no mercado

Dezenas de autores sistematizaram critérios de noticiabilidade (STIELER: 1695 apud KUNCIZIK: 1998) BOND: 1959; LIPMAN: 1922; WOLF: 2002; CHAPARRO: 1994; ERBOLATO: 1991; LAGE: 2001; TRAQUINA: 2001; GROTH apud FIDALGO: 2004) porque não há espaço suficiente nos veículos de comunicação para publicar todos os acontecimentos considerados notícia.

Depois de Peucer, em 1965, Kaspar Stieler também estabeleceu valores para as notícias. Para ele, os jornalistas têm de ser capazes de distinguir entre o que é importante do que é trivial (KUNCZIK: 1998, p. 242).

Aliás, a organização de uma redação, sobretudo em relação ao perfil profissional, e a orientação editorial são indicações dos critérios de noticiabilidade que nela vigoram (WOLF, op. cit. P. 200). Para Michael Schudson, a criação das notícias é sempre uma interação entre repórter, diretor, editor, constrangimentos da organização, necessidade de manter os laços com as fontes, desejos da audiência e poderosas convenções culturais dos jornalistas (apud CORREIA: 1997).

Embora tenham sido listados pela primeira vez em 1965 por Johan Galtung e Marie Holmboe Ruge, os fundamentos para responder a pergunta: “how do ‘events’ become news’”? (1965, p. 65), Tobias Peucer já os selecionara em 1690. Os critérios de noticiabilidade de Peucer, Galtung e Ruge não são diferentes dos propostos pelos teóricos citados anteriormente. Na realidade, são complementares.

De modo geral, resumem-se a: atualidade, importância, proximidade, proeminência negativismo e audiência.

89

Tabela 4. Critérios de noticiabilidade

Peucer, 1690

Galtung e Ruge, 1965

Casos acontecidos recentemente

Frequência, amplitude, clareza, relevância

Fatos históricos mais importantes

Conformidade

Temas de interesse público

Imprevisão, continuidade

O que é insólito (não é habitual)

Referência a pessoas e nações de elite

O que é negativo, como catástrofes

Composição

O que se passa com celebridades

Personificação

Interesses e desejos da audiência

Negativismo

Outro aspecto a ser considerado no Jornalismo é a estreita relação com as fontes. Estudo de Stanley Cohen e Jock Young intitulado The Manufacture of News (1973) discute a relação jornalista versus fonte de informação e dá atenção aos contrastes entre os códigos de conduta e as práticas de cobertura de guerras, crimes, questões e grupos sociais e destaca a existência de objetivos estratégicos que não se relacionavam diretamente com os códigos de objetividade e imparcialidade.

A realidade pela lente do Jornalismo

A socióloga americana Gaye Tuchman também tratou dos constrangimentos organizacionais no trabalho jornalístico em Making News – A study in the construction of reality. Para Tuchman, há uma enorme diferença entre cobrir um evento e receber informação. Quanto mais fontes exclusivas um jornal reunir, melhor será o conteúdo apresentado ao leitor e maior será sua receita (1978, p. 19; 21). Na opinião da socióloga, a notícia é uma instituição social e enviesada conforme decisão editorial (IBIDEM, p. 4, 23): 90

1)

Notícia é um método institucional para tornar informações disponíveis ao

consumidor, que compra o jornal porque tem interesse no conteúdo;

2)

Notícia é uma aliada das instituições legitimadas: um secretário de Estado

pode fazer circular uma informação na mídia;

3)

Notícia é localizada, apurada e disseminada por jornalistas que trabalham

em empresas. Portanto é um produto resultado das práticas estabelecidas pela organização a qual pertence e essas práticas incluem associação com instituições cujas informações são rotineiramente divulgadas na imprensa.

Muito tempo se passou antes de se chegar às quatro características dos jornais modernos: 1) publicidade; 2) atualidade (ou seja, informação que se relaciona com o presente e o influencia); 3) universalidade (sem excluir nenhum tema) e 4) periodicidade (distribuição regular). Já no século XVI os assuntos maravilhosos e assustadores atraíam o maior interesse dos editores100.

Os primeiros jornais a aparecerem com regularidade na Alemanha datam do ano de 1609: Aviso, em Wolfenbüttel, e Relation, em Estrasburgo. Pouco depois, chegaram ao mercado jornais na Holanda (1618), França (1620), Inglaterra (1620) e Itália (1636). O primeiro jornal publicado diariamente foi o Einkommende Zeitung, de Leipzig (1650). Estima-se que as tiragens século XVII eram de cem a duzentos exemplares, ainda que o Frankfurter Journal já tivesse uma circulação de 1,5 mil exemplares em 1680101.

No Brasil, o estudo teórico do Jornalismo é recente. Apesar de Barbosa Lima Sobrinho e Luiz Beltrão terem sido os pioneiros, seguidos de José Marques de Melo, Nilson Lage e Cremilda Medina, a primeira defesa sistemática de uma Teoria do Jornalismo só ocorreu na década de 1980, com os estudos de Adelmo Genro Filho (1951/1988). Genro Filho é autor de O Segredo da Pirâmide.

100 101

KUNCZIK, 1998, p. 23. IBIDEM.

91

Ele discutiu o Jornalismo a partir de aspectos de três grandes correntes: o "funcionalismo norte-americano", a "Escola de Frankfurt" e uma espécie de concepção sobre o Jornalismo que se autoproclama marxista, que será chamada de "reducionismo ideológico".

De lá para cá, a história do Jornalismo guarda forte relação com a difusão de novas tecnologias de transmissão, comunicação e informação. O conceito (MURAD, 2001, p. 55) encontra-se relacionado ao suporte técnico e ao meio que permite a difusão das notícias. Daí derivam Jornalismo Impresso, Radiojornalismo, Telejornalismo e Jornalismo de Internet102.

Em relação à Internet, o pesquisador holandês Mark Deuze (2004) propõe dividir o conceito de Jornalismo em três partes:

1) Jornalismo como ideologia. Ou seja, jornalistas oferecem um serviço público, são neutros, objetivos, imparciais e credíveis, têm autonomia editorial, liberdade e independência, senso de imediatismo, ética e legitimidade;

2) Jornalismo e tecnologia: multimídia;

3) Jornalismo e sociedade: multiculturalismo - contato entre as diferenças formas de culturas nacionais e locais - que entende a cultura não está restrita à etnia, à nação ou à nacionalidade, mas como um lugar de direitos coletivos para a determinação própria de grupos.

No artigo What is journalism, Deuze critica o fato de a literatura geralmente discutir o papel do Jornalismo Cívico ou a relação dos jornalistas e empresas de comunicação e afirma que faltam textos que abordem Teoria do Jornalismo, Multimídia e Multiculturalismo. Para o autor, a multimídia e o multiculturalismo desafiam a

102

IBID, p. 16

92

percepção do Jornalismo e de suas práticas: "A sociedade multicultural muda o foco e os valores da noticia", conclui103.

No Brasil, tão recente quanto o estudo teórico do Jornalismo é o número de proposições para incluir a Internet no escopo da pesquisa. Autores como Monica Weinberg e Camila Pereira (1999), Elias Machado (2004), Márcia Bennetti Machado (2004) e Felipe Pena (2005) defendem que a Internet faça parte desse escopo104.

Para Pena, é a interação entre a diversidade que possibilita a unidade. Ele sugere a sistematização a partir de três vertentes principais: a) conceitos e histórias; b) modelos e teorias de análise; e c) tendências e alternativas105. Em seu livro Teoria do Jornalismo (2005), Pena sintetiza o objeto da teoria em duas questões consideradas básicas: 1) Por que as notícias são como são? 2) Quais são os efeitos que essas notícias geram?

No primeiro caso, o autor discute a produção jornalística, aborda conceitos como atualidade, periodicidade, objetividade, já estudados anteriormente por Tobias Peucer e Otto Groth. Para responder a segunda questão, o autor analisa Teorias da Comunicação e do Jornalismo.

Ele traz ao debate a Teoria do Espelho (as notícias são como são porque a realidade assim as determina); a Teoria do Newsmaking (o Jornalismo é uma construção social de uma suposta realidade) e a Teoria do Gatekeeper (jornalista filtra a informação), entre outras.

Design de superfície, redundância e imperativo

Mesmo com uma perspectiva de Internet, os autores citados anteriormente abordam o Jornalismo do ponto de vista do estruturalismo, em todo o processo
DEUZE, 2004. In: Journalism Studies, vol. 5, n.2. p. 134-152. Disponível em: http://bit.ly/r5LMMK. Acesso jan. 2012. 104 PENA, 2005, p.10. 105 IBIDEM.
103

93

produtivo, desde a pré-pauta aos valores notícia de composição. E independente do suporte (papel, rádio ou tevê) e dos dispositivos (fixos ou móveis).

É por essa razão que não causa surpresa o resultado da análise das interfaces jornalísticas que compõem o corpus desta pesquisa - Globo Notícias (G1), UOL Notícias Folha (Folha.com), Terra Notícias, Estadão.com.br, Google News, iG News (Último Segundo), R7 Notícias, BBC, The New York Times, Band.com.br, CNN, MSNBC, El País, The Guardian e Huffington Post106 -: o design reproduz metáforas analógicas.

Figura 35. Diagramação da Folha Online entre layout Web (esq.) e impresso (dir.)

Na primeira fase da pesquisa, realizada em 2008, ficou comprovado que, do ponto de vista gráfico, em alguns casos, a interface não chegava nem a emular sua versão impressa. Não havia critério no uso de elementos de composição, como links ou multimídia. Design de superfície, redundância e imperativo predominavam, o que Giselle Beiguelman chamou de "clicagens burras” 107 (2004) e virou título do blog desta jornalista, ferramenta de metodologia para analisar interfaces108.

Ranking do Ibope Mídia referente a 2010. MONACHESI, 2004. 108 Para saber mais sobre o Contra a clicagem burra, ver: http://bit.ly/vJmExk. Acesso jan. 2012.
106 107

94

Figura 36. BBC, 2008, abusa da repetição ao oferecer customização

Figura 37. Terra, 2009, palavras repetidas na edição

Outros estudos sobre cada interface, realizados entre 2009 e 2011, constataram o ponto de partida desta tese: atualmente, os projetos editoriais e gráficos dos jornais de Internet são constituídos sob a lógica do papel, ainda que observadas melhoras consideráveis. Nova análise, realizada em 2012, aponta o mesmo (ver p. 258). 95

Figura 38. Folha Online, 2008, redundância e uso de setas no espaço tridimensional que é a Web

Figura 39. Folha.com, 2011. Ainda com uso de setas, mas sem redundâncias

96

Figura 40. Estadão.com, 2008, palavras repetidas na edição

Figura 41. Estadão.com, 2011, eliminação da redundância

97

Figura 42. Globo Online, 2008, palavras repetidas na edição

Figura 43. Globo Online, 2011, com pouca redundância

98

Além da Teoria do Jornalismo, o questionário de avaliação dos jornais levou em conta os seguintes conceitos, detalhados abaixo: alteridade (HALL: 2001); interface (JOHNSON: 2001); arquitetura da informação (ROSENFELD; MORVILLE: 1998); interatividade (MEADOWS: 2003); usabilidade (NIELSEN: 2000); teleação

(MANOVICH: 2001); remediação (BOLTER; GRUSIN: 2000); semelhança e similitude (FOUCAULT: 2002; 2007); endoestética (GIANETTI: 2006); cultura cíbrida (BEIGUELMAN: 2004) e narrativas (MOHERDAUI: 2007).

A sistematização dos dados será analisada a partir da página 132.

• Alteridade - Para Stuart Hall, não há identidades fixas, estáveis, unificadas nas sociedades modernas. Ele argumenta que as identidades são construídas dentro do discurso e não fora dele, por isso, é preciso compreendê-las como tendo sido produzidas em lugares históricos e institucionais específicos, no interior de formações e práticas discursivas também específicas, por estratégias e iniciativas mais específicas ainda. Hall defende que é uma fantasia a identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente: “quando sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar — ao menos temporariamente.”

• Interface - O escritor Steven Johnson assim a define: “em seu sentido mais simples, a palavra interface se refere a softwares que dão forma à interação entre usuário e computador”. Para Johnson, ela atua como uma espécie de tradutor, mediando entre as duas partes, tornando uma sensível para a outra. “Em outras palavras, a relação governada pela interface é uma relação de semântica, caracterizada pelo significado e expressão, não por força física.”

• Arquitetura da informação – O conceito foi criado em 1962 por Richard Wurman, mas com a crescente utilização das tecnologias em rede ele tem 99

sido modificado, sobretudo após a atualização feita por Louis Rosenfeld e Peter Morville no livro que se tornou um clássico do design de WWW: Information Architecture for the World Wide Web (1998). Para os autores, arquitetura da informação é o princípio para orientar o desenvolvimento de uma interface (p. 13).

• Interatividade - Mark Stephen Meadows identifica três pares opostos como princípios básicos na interação: 1) Ingresso/Saída, 2) Dentro/Fora e 3) Aberto/Fechado. O primeiro destes princípios define que todo ingresso ou saída de informação no sistema deve gerar mais informação. É a habilidade do ciclo de interação para acrescentar informação ao sistema que define a qualidade desta interação. O segundo princípio,

Dentro/Fora, estabelece que deva existir um diálogo entre os mundos interno e externo. A interação dentro da cabeça articula o mundo da imaginação do “teleator” enquanto que a interação de fora da cabeça está baseada no que o “teleator” percebe no nível empírico ou experiencial. O terceiro princípio, Aberto/Fechado, postula que um sistema quanto mais usado melhor ele funciona. Sistemas abertos são mais complicados, menos previsíveis e mais interessantes do que sistemas fechados. Além destes três princípios da interação, Meadows (identifica quatro passos pelos quais passam o processo interativo: 1) Observação; 2) Exploração; 3) Modificação e 4) Mudança Recíproca. Os princípios são guias para o desenvolvimento da interação, enquanto que os passos são meios para avaliar o resultado deste desenvolvimento. No primeiro passo, o usuário avalia a narrativa como espaço navegável; no segundo desenvolve alguma ação; no terceiro muda o sistema e, no quarto, o sistema tenta mudar o usuário. Tomando estes princípios e passos como orientadores da interação, o autor define narrativa interativa como:

Uma narrativa interativa é uma representação baseada no tempo e ação do personagem onde um leitor pode afetar, escolher ou alterar o enredo. O primeiro, segundo ou terceiro personagem pode realmente ser o leitor. Opinião e perspectiva são inerentes. A imagem não é necessária, mas é bem-vinda (2003, p. 62).

100

• Usabilidade – A má arquitetura da informação levará sempre à má usabilidade. A maioria das interfaces tem estrutura hierárquica com níveis cada vez mais detalhados de informações. Outras têm uma ordenação tabular na qual são classificadas com relação a um número de atributos ou parâmetros. As duas regras mais importantes são: ter uma estrutura e fazer com que ela reflita a visão dos usuários da interface e suas informações ou serviços. Pode parecer óbvio, mas muitas delas evoluíram sem ter qualquer estrutura planejada e acabaram num caos total.

• Teleação - Lev Manovich afirma que o usuário de uma narrativa está atravessando uma base de dados, seguindo links entre seus registros as estabelecidos pelo criador da base de dados. “Uma narrativa interativa pode ser entendida como a soma de múltiplas trajetórias através de uma base de dados”

• Remediação - David Bolter e Richard Grusin definem como remediação a representação de um meio no outro e argumentam que ela é uma característica específica da nova mídia digital. Os autores argumentam que a lógica da remediação descrita no livro é similar ao que Derrida considerou ‘mimesis’. E citam “mimesis aqui não é a representação de uma coisa por outra, a relação de semelhança ou identificação entre dois seres, a reprodução de um produto da natureza por um produto da arte. Não é a relação de dois produtos, mas de duas produções. E de duas liberdades. (...) A verdadeira ‘mimesis’ é entre duas matérias em produção e não entre duas coisas produzidas”. O conceito de meio, para os autores, está relacionado à lógica da remediação: o meio é aquilo de remedia. Para eles, na nossa cultura, um meio nunca pode operar de forma isolada. Precisa estar envolvido em relações de respeito e rivalidade com outros meios.

• Semelhança e similitude - Movido por uma hipótese de trabalho - ou seja, a de uma possível (re)afirmação (de ordem puramente sígnica e não ilustrativa) do texto pela imagem e vice-versa - Foucault empenhou-se em 101

elaborar uma teoria geral da representação pictórica (constituída em torno das questões da semelhança e da similitude), centrada na dualidade entre ícone e símbolo, no entre-deux (entre os dois) típico das formulações discursivo-pictóricas magrittianas. O que interessa nesta tese é a noção de nomeações como forma de impor denominações.

Endoestética - Cláudia Giannetti conceitua Endoestética a partir da Endofísica, em seu livro Estética Digital – Sintopia da arte, a ciência e a tecnologia (2006). Para a autora, a Endofísica (e também a Endoestética,) está sempre discutindo a relação entre o endo (dentro) e o exo (fora). O sujeito é, ao mesmo tempo, um observador da realidade (um observador parcial na medida em que incorpora elementos de sua subjetividade na observação), e alguém que está nela, mais ainda, alguém que influência ativamente nela, modificando-a constantemente. A Endoestética trata dos mundos artificiais baseados na interface, nos quais podemos participar (endo) e observar (exo) ao mesmo tempo. Com essa dupla atuação do interator num universo simulado se podem explorar as propriedades de nosso mundo. Uma nova tecnologia que, ao contrário de todas as outras conhecidas, não só muda algo no mundo, mas o próprio mundo se revela como uma possibilidade cognitiva.

Cultura cíbrida - Giselle Beilguelman aposta na possibilidade de uma cultura cíbrida, pautada pela interpenetração de redes on-line e off-line, que incorpore e recicle os mecanismos de leitura já instituídos, apontando para novas formas de significar, ver e memorizar. São as zonas de fricção entre as culturas impressas e digitais o que interessa, as operações combinatórias capazes de engendrar outra constelação epistemológica e outro universo de leitura correspondentes às transformações que se processam hoje nas formas de produção e transmissão dos textos, dos sons e das imagens.

102

• Narrativas - A partir da seguinte divisão das narrativas nas interfaces jornalísticas da Web: texto multilinear [acesso hipertextual à informação], b) reportagem multiforme [compreende novos formatos narrativos] e c) pacote multimídia [reúne todos os elementos multimídia em um template em formato Flash]. Esses formatos podem ser estáticos ou de atualização contínua. Essa sistematização foi feita a partir de Marcos Palacios, Mindy McAdams e Janet Murray (MOHERDAUI: 2007, p. 150).

Nos gadjets, um pouco além da repetição

Embora restrita à interface noticiosa na Web, objeto deste trabalho, o resultado da análise, ao ser ampliada a dispositivos como iPad e iPhone, remete à simulação, mesmo com uso maciço de aplicativos109. No caso do iPhone, de modo geral, a informação é distribuída em lista. Sem dúvida, há desenhos belíssimos como CNN, ABC e Wired para iPad, cujo propósito é fugir da estrutura ao menos nas interfaces principais. A CNN mantém a manchete ao contrário da ABC, conforme imagens exibidas na página seguinte.

Figuras 44 e 45. Interfaces da CNN para iPad

WIRED on iPad: Just like a Paper Tiger… Information Architects, EUA, 28 mai. 2010. Disponível em: http://bit.ly/pIzshc. Acesso jan. 2012.
109

103

Figuras 46 e 47. Interfaces da ABC News para iPad

Figuras 48 e 49. Interfaces das redes ABC News e CNN para iPhone

104

Figuras 50 e 51. Interfaces da Wired para iPad

Figuras 52 e 53. Interfaces da Wired para iPhone

105

Tudo é igual para todos

Do ponto de vista conceitual, os projetos de interface para jornais de Internet são constituídos a partir de uma identidade plenamente unificada (HALL: 2001). Ou seja, tudo vale para todos. O sistema opera na lógica da reprodutibilidade, da metáfora, praticamente uma clonagem.

Os padrões têm de ser reproduzidos porque senão o sujeito não entende. Um exemplo é o uso de ícones na Web: casinhas significam homepage, desenhos de impressoras e papeis explicam ações como imprimir ou ler texto e assim por diante.

Trata-se da noção da homogeneidade em contraposição à alteridade, marca da experiência em rede, do nômade que circula na Internet, um espaço liso por excelência, mas em constante estriamento. “Não se pode falar sobre identidade sem falar em alteridade, porque é pela diferença que se constrói a identidade. O conceito de identidade implica estar em relação ‘a’ porque não há ‘nós’ sem o outro. Ambos são pares indissociáveis” (FRANÇA: 2002).

Figura 54. Estrutura de arquitetura da informação na Web (MORVILLE; ROSENFELD, 1998)

Para o filósfo russo Mikhail Bakhtin, a alteridade define o ser humano. É no diálogo das diferenças que a pessoa se descobre como sujeito (identidade) e descobre o outro em relação a: gênero, raça e cultura, entre outros. 106

O discurso do sujeito vem do outro, é pronunciado em resposta ao outro. Está impregnado pelas múltiplas vozes que tecem o discurso individual, interpentrando-se de maneira a fazer-se ouvir. Essa multplicidade de vozes da vida social, cultural e ideologica que se entrechocam é caracterizada por Bakhtin por polifonia (1981, p. 32).

A homogeneização é própria de espaços territorializados, assim como a ideia de domínio, das URLs (sigla em inglês de Uniform Resource Locator). As interfaces estão ligadas por links proprietários. Senão não ocorreriam tensões com Facebook e Google, acusados frequentemente de práticas que violam leis de privacidade.

A priori, qualquer pessoa pode fazer parte do Facebook, Twitter ou realizar buscas no Google. Porém, um contrato delimita ações. Quem não cumpri-las será defenestrado. São espaços propriamente estriados, mas que permitem ações típicas de espaços lisos, como os movimentos contra práticas de vigilância.

Um endereço com o protocolo http://www leva o internauta a uma URL registrada (corporativa, pública ou pessoal). Isso transforma a rede em um local de poder, com regras e, portanto, propício a conflitos - desde invasões de hackers até estratégias de protestos (TISSELI: 2009). Na realidade, um espaço de positividade do poder, no qual há poder e contrapoder, não existe a noção de poder absoluto (FOUCAULT: 1999, p. 30):

Ora, o estudo desta microfísica supõe que o poder nela exercido não seja concebido como uma propriedade, mas como uma estratégia, que seus efeitos de dominação não sejam atribuídos a uma “apropriação”, mas a disposições, a manobras, a táticas, a técnicas, a funcionamentos; que se desvende nele antes uma rede de relações sempre tensas, sempre em atividade, que um privilégio que se pudesse deter; que lhe seja dado como modelo antes da batalha perpétua que o contrato que faz uma cessão ou a conquista que se apodera de um domínio. Temos em suma que admitir que esse poder se exerce mais que se possui, que não é o “privilégio” adquirido ou conservado da classe dominante, mas o efeito de conjunto de suas posições estratégicas — efeito manifestado e às vezes reconduzido pela posição dos que são dominados. Esse poder, por outro lado, não se aplica pura e simplesmente como uma obrigação ou uma proibição, aos que “não têm”; ele os investe, passa por eles e através deles; apoia-se neles, do mesmo modo que eles, em sua luta contra esse poder, apoiam-se por sua vez nos pontos em que ele os alcança.

107

O Facebook protagonizou um dos mais recentes episódios envolvendo práticas de vigilância. Para ajudar a coibir pedofilia na Internet incluiu um recurso que permite o reconhecimento facial em fotografias publicadas em sua rede. Quando encontra a combinação, convida a marcar ou identificar as pessoas na foto. Pressionado pela sociedade por violar a privacidade, voltou atrás e facilitou o procedimento para desativar esse recurso. Aliás, mobilização (ou ativismo) é uma das questões-chave da interface atualmente. Conforme já discutido anteriormente, a interface é a mensagem (ver p. 71) e o usuário não apenas opera, mas interage com ela. Muitas vezes, coletivamente. No caso do Jornalismo de Internet, o design começou com a emulação do papel. Algumas modificações foram realizadas no sentido de dar uma forma a essa nova prática. O resultado foi uma mistura de padrões existentes e links, com multimídia e texto.

Figura 55. Reconhecimento facial do Facebook

Acontece, porém, que a interface noticiosa pode ser totalmente diferente das atuais. A tecnologia é um dos fatores que possibilitaram essa mudança. O outro, notadamente, é conceitual.

108

Em 2009, o engenheiro Tim Berners-Lee, criador do protocolo WWW, anunciou no TED (sigla em inglês para Technology, Entertainment, Design) a migração da cultura de página para a cultura de dados110. Em 2008, o pesquisador russo Lev Manovich apontou a importância do software na cultura de dados111.

Também a mudança da linguagem HTML (linguagem utilizada para incluir hipertextos na web) para o XML (Extensible Markup Language) e os sistemas open source contribuíram para a criação de interfaces baseadas em dados, programação e algoritmos (as interfaces dinâmicas serão aprofundadas no último capítulo).

Os blogs foram os precursores da produção colaborativa e merecem uma atenção especial. Sua importância é tamanha devido ao fato da popularização de seus sistemas de publicação, denominados em inglês Content Management System (CMS), representarem o pontapé inicial dessa prática.

Inicialmente definidos como diários ou páginas pessoais permitiam a publicação de conteúdo em qualquer lugar e a qualquer hora, sem intermediários. Foi a primeira ferramenta que não exigia domínio técnico para ser utilizada. Considera-se que BernersLee foi o estreante do gênero na Web, com o “What´s news in 92”, criado para divulgar projetos relacionados ao WWW. O termo Weblog (que mais tarde virou blog) foi cunhado em 1997 por Jorn Barger, que mantém até hoje seu projeto original.112

TIM BERNERS-LEE on the next Web. TED – Ideas worth spreading, EUA, fev. 2009. Disponível em: http://bit.ly/qqaSFQ. Acesso jan. 2012. 111 MANOVICH, 2008. Disponível em: http://bit.ly/nHS2gB. Acesso jan. 2012. 112 MOHERDAUI: 2007, p. 179-180.
110

109

Figura 56. Primeiro blog da Web, de Tim Berners-Lee

Como a interface mudou o Jornalismo

Essas mudanças levantam uma série de perguntas importantíssimas, respondidas nesta tese ao longo dos capítulos, pois a produção coletiva alterou conceitos fundamentais da Teoria do Jornalismo, como newsmaking, gatekeeper e agenda-setting:

1. A notícia coletiva reorganizou a interface?

2. O que a produção e disseminação generalizada de informações na rede acarretaram para a cômoda posição dos jornalistas e sua maneira de se comunicar?

3. A interface pode retirar a condição crítica ou induzir a avaliações sobre os fatos? Se uma notícia for deturpada? O que a interface pode fazer por isso?

De fato, a resposta à primeira pergunta desencadeia as respostas seguintes (2 e 3). A principal mudança que sistemas abertos (ainda que estriados) como Twitter e Facebook causaram ao fazer jornalístico e ao próprio Jornalismo passa por processos produtivos, seleção e escolha do material que será destaque em jornal, revista, rádio e tevê, sejam eles convencionais ou de Internet. 110

Se nesses meios, o profissional decide o que é notícia e qual o destaque será dado a ela em seu veículo, nas redes sociais surge um novo fator determinante: produser/prosumer.

Quem é o produser/prosumer? É o cidadão que está em rede, também detém informação e está apto a transformá-la em notícia. Ele reconfigura a lógica dos critérios de noticiabilidade, muda a agenda da imprensa e inclui fatos ao noticiário que circula na Internet. Ele não só produz como valida e recomenda uma informação. É dessa maneira se dá a legitimação na rede. E isso se reflete na interface, na maneira como ela se constitui.

Basta lembrar que a morte de Osaba Bin Laden foi noticiada pelo Twitter por um paquistanês de 33 anos: Sohaib Athar (@reallyvirtual)113. E ele nem sabia exatamente do que se tratava: “Helicóptero sobrevoando Abbottabadem (é um evento raro)". Só mais tarde, descobriu que se tratava de Bin Laden.

A mensagem foi parar na rede social antes de o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fazer o anúncio oficial. Ou seja, o assunto mais importante do mundo em 2011 estava nas mãos de Athar. Não foi dado em primeira mão por um jornal, tevê, rádio ou interface de Internet. E nenhum jornalista com prestigio junto à Casa Branca foi informado com antecedência.

Depois de Athar, Keith Urbahn, antigo chefe de gabinete de George W. Bush, furou114 Obama também no Twitter: “Uma pessoa respeitável me disse que mataram Osama bin Laden".115

MORTE de Bin Laden saiu primeiro no Twitter. estadão.com.br, São Paulo, 2 mai. 2011. Disponível em: http://bit.ly/phN9Bt. Acesso jul. 2011. 114 Jargão jornalístico para informação antecipada. 115 TWITTER NOTICIOU morte de Bin Laden antes de Obama. Infoexame, São Paulo, 2 mai. 2011. Disponível em: http://bit.ly/rezYTV. Acesso jul. 2011.
113

111

Figura 57. Localização do post de Sohaib Athar via Google Maps

Figura 58. Esquema tradicional da coleta de notícias e do seu processamento116

Figura 59. Post com anúncio da morte de Bin Laden por Keith Urbahn, antigo chefe de gabinete de George W. Bush
116

KUNCZIK: 1988, p. 235.

112

Outro exemplo que ilustra bastante a mudança do controle da informação das mãos do jornalista para o cidadão foi o anúncio da morte da cantora britânica Amy Winehouse. Nesse caso, uma tevê saiu na frente: SkyNews TV117 .

Assim que a emissora noticiou, foi parar no Twitter, Facebook e ganhou toda Internet, além de rádios e tevês. Sendo repetida e comentada à exaustão, Amy não demorou a chegar aos Trending Topics, a lista de assuntos mais comentados do Twitter. O alvoroço nas redes sociais aumentou a audiência de interfaces voltadas à cobertura de celebridades118.

Figura 60. Enquete no Facebook para saber quem noticiou primeiro a morte de Amy

Em jornais como The New York Times, The Guardian e Daily Mail, não ganhou as manchetes. No Brasil, foi a quarta chamada no Jornal Nacional, de maior audiência no País119. Ficou atrás dos gols da Copa América. Naquele dia, 23 de julho de 2011, toda a imprensa chamou a atenção para o atentado na Noruega, ocorrido um dia antes.

117

Cobertura completa da morte de Amy Winehouse feita pela emissora de televisão Sky News: http://bit.ly/oFDMIT. Acesso jan. 2012. 118 MORTE de Amy Winehouse domina Twitter. Exame, São Paulo, 23 jul. 2011. Disponível em: http://bit.ly/pgFpbN. Acesso jan. 2012. 119 JORNAL NACIONAL, 23 jul. 2011. Disponível em: http://glo.bo/nSZPRh. Acesso jul. 2011.

113

Figura 61. New York Times, julho de 2011

Figura 62. Daily Mail, julho de 2011

Após a confirmação da morte, NY Times e Daily Mail não deram manchete para a cantora britânica. Pelo critério de noticiabilidade, a Noruega mereceu maior espaço por conta de importância, geografia e atualidade, entre outros. Nas redes sociais, os produsers/prosumers acompanhavam e replicavam tudo o que chegava do bairro de Camden Town, em Londres, onde viveu Amy.

Se a atual interface noticiosa for analisada a partir do conceito de Steven Johnson, percebe-se claramente que não se configura como um software que dá forma à interação entre usuário e computador nem tampouco media as duas partes. Na realidade, a interação em empresas jornalísticas na Internet é quase nula e a interface se resume a uma página em branco (ou a várias páginas em branco). É uma superfície norteada por pressupostos da arquitetura da informação cunhados por Louis Rosenfeld e Peter Morville (1998)120.

Ao que se refere à usabilidade, dentro do escopo tradicional, com página em branco, diagramação em colunas e hierarquia, há dois problemas a serem considerados: qualidade da busca e excesso de chamadas nas interfaces principais. Ao tentar remediar projetos já existentes em outros suportes, incorrem num equivoco de edição. Quem lê
120

Ver páginas 106 e 177 desta tese.

114

mais de 100 chamadas, modificadas ao longo de 24 horas, conforme surgem novos assuntos? A esses exageros somam-se as nomeações como forma de impor denominações (ver p. 101-102).

O jornal foi parar dentro do Facebook

Essa cultura está tão enraizada nas práticas jornalísticas que é reproduzida também nas redes sociais. Em setembro, Mark Zuckerberg, fundador e CEO do Facebook, anunciou uma série de mudanças significativas com o objetivo de manter os mais de 845 milhões cidadãos mais tempo conectados a sua rede.

A ideia é criar uma camada social paralela na Internet. Uma dessas medidas diz respeito especificamente ao Jornalismo. Zuckerberg fez acordos com jornais como The Guardian, The Washington Post e The Wall Street Journal para oferecer informação via aplicativos dentro do Facebook121.

O Post, por exemplo, replicou a estética analógica ao seu Social Reader122, com mais de 50 chamadas:

Figura 63. Interface do The Washington Post Social Reader no Facebook

DO JORNAL ao Facebook: Washington Post, Guardian e outros veículos lançam novo aplicativo de notícias. Knight Center, EUA, 26 set. 2011. Disponível em: http://bit.ly/nx2RqB. Acesso jan. 2012. 122 Para saber mais sobre o The Washington Post Social Reader, ver: http://bit.ly/pkPjIT. Acesso jan. 2012
121

115

Com menos destaques, o Guardian123 também emula a estrutura do papel, com diagramação em colunas.:

Figura 64. Interface do Guardian app no Facebook

Além das narrativas divididas em texto multilinear (acesso hipertextual à informação), reportagem multiforme (compreende novos formatos narrativos) e pacote multimídia (reúne elementos multimídia em uma interface em Flash), o Jornalismo de Internet passa ao largo de teleação, endoestética e cultura cíbrida.

Entre os grandes players do mercado, o Google é hoje a empresa que mais investe em teleação, ainda que não dê conta de toda a rede. Nas empresas noticiosas, os serviços de buscas não foram projetados para teleação. É raro um deles oferecer resultados eficientes.

Teleação, endoestética e cultura cíbrida integram boa parte dos trabalhos de arte digital. Aliás, ela pode ser um dos parâmetros para repensar a interface jornalística. É verdade que a Internet das Coisas irá reconfigurar completamente a interface. Entretanto, a essência da arte digital, a interação entre cidadão e criação, é a chave desse entendimento. Sem o cidadão, a arte digital ficaria incompleta, pois ela o convida a criar significados. Sua interface é definida por essa relação.

123

Para saber mais sobre o Guardian app, ver: http://on.fb.me/n77Y1M. Acesso jan. 2012.

116

O Jornalismo pode aplicar essa lógica. Mas antes é preciso descontruir conceitos solidificados ao longo dos séculos e começar a apostar diretrizes que o coloquem no conceito de mapa de Gilles Deleuze e Félix Guattari:
O mapa é aberto, é conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível, suscetível de receber modificações constantemente. Ele pode ser rasgado, revertido, adaptar-se a montagens de qualquer natureza, ser preparado por um indivíduo, um grupo, uma formação social (DELEUZE; GUATTARI: 2004, p. 22).

Nesse sentido, a interface da notícia na Web assume a forma de um mapa. Mapa esse constituído por territórios existenciais, relacionados à maneira de ser, ao corpo, ao meio ambiente, às etnias, às nações. Esses territórios têm uma organização, um significado dado a eles.

Porém à medida que passam a ser explorados, eles se desterritorializam, fogem da organização e abrem-se a outros significados. No entanto, com a produção colaborativa, se reterritorializam, se auto-organizam, que por sua vez levará a novas desterritorializações e assim sucessivamente (IBIDEM, p. 38).

E essa desconstrução não se limita somente ao newsmaking, mas também a definições estabelecidas ao Jornalismo de Internet, principalmente em relação às características e terminologias atribuídas a essa nova prática social.

Desconstruindo conceitos

Não é novidade que o Jornalismo opera na Internet a partir do newsmaking, desde a pré-pauta à composição da interface, frequentemente denominada página. Por causa disso, as características que o definem na rede foram elaboradas a partir dessas diretrizes. Foi mencionado no capítulo anterior que esta jornalista, até pouco tempo atrás, também aplicava essas definições (ver p. 61).

A influência da arte digital é uma das razões pelas quais houve a mudança de mentalidade (BOLTER; GROMALA: 2003; VESNA: 2007; BEIGUELMAN: 2003, 2005, 117

2011; GIANETTI: 2006; PAUL: 2008; MANOVICH: 2001, 2008, 2010). As outras (também conceituais) referem-se aos trabalhos de Michael Foucault (2002, 2007), Gilles Deleuze e Félix Guattari (2004, 2007, 2008) e pela revisão bibliográfica de obras que tratam exclusivamente de design de jornais (GARCIA: 1981, 1997; BRINGHURST: 2004). HARROWER: 2002;

A leitura do primeiro capítulo desta tese leva a uma conclusão clara: a Internet das Coisas mudou o paradigma da comunicação e consequentemente alterou significativamente a forma por que é exibida a informação que circula no fluxo (ver quadros nas p. 61, 72, 83). Portanto não faz mais sentido adotar exclusivamente os conceitos que balizam as teorias do Jornalismo e da Comunicação. É preciso ir além.

E o ponto de partida é deixar um pouco de lado verdades absolutas que fazem incorrer no equívoco de transformar projetos gráficos e editoriais em uma série de Power Points124 (MANOVICH: 2008, p. 45) ou em uma superfície com mídias distribuídas que, na realidade, não passam de simulação da cultura da página impressa.

Em alguns casos, explicados anteriormente e detalhados ao longo deste tópico, interfaces jornalísticas não levaram em conta nem o newsmaking na visualização de seus conteúdos (links, multimídia e textos).

A imagem da página seguinte ilustra bem a forma pela qual é pensada a interface para o jornal na rede.

124

Para saber mais sobre o programa da Microsoft para criar apresentações, ver: http://bit.ly/nBhIlY. Acesso jan. 2012.

118

Figura 65. Interfaces impressa e de Internet do The Bugle Beacon125

As quatro fases do Jornalismo de Internet

Um dos primeiros pesquisadores a caracterizar e a discutir o Jornalismo de Internet foi o holandês Mark Deuze. Para ele, personalização, interatividade, hipertextualidade e multimidialidade são definidoras dessa prática, porém nem todas

125

HARROWER: 2002 p. 228-229.

119

são exclusivas (2001). No Brasil, Marcos Palacios apontou a memória como o principal aspecto na rede (1999).

Também foi Deuze quem incluiu o Jornalismo de Internet em fases de evolução. Em 2001, o artigo Online Journalism: Modelling the first generation of the News media on the World Wide Web demarcou a primeira geração, entre 1993-2001. Na esteira dele, vieram outras sistematizações assinadas por John Pavlik (2000, 2001), Luciana Mielniczuk (2003), Pablo Boczkowski (2004) e Elias Machado (2004), entre outros:

Primeira fase – Modelo presente nos jornais de Internet, nos quais a formatação e a organização seguem diretamente o modelo da versão impressa. Trata-se de um uso mais hermético e fiel à ideia da metáfora (MOHERDAUI: 2007, p. 122):

Num primeiro momento, os produtos oferecidos eram reproduções de partes dos grandes jornais impressos, que passavam a ocupar o espaço da Internet. O que era chamado então de jornal na Web não passava de transposição de uma ou duas das principais matérias de algumas editorias. Esse material era atualizado a cada 24 horas, de acordo com o fechamento das edições do impresso. Em alguns casos, como o de O Estado de S.Paulo, era disponibilizado também o conteúdo de alguns cadernos semanais. Os produtos dessa fase, em sua maioria, são simplesmente cópias do conteúdo de jornais existentes no papel. A rotina de produção de notícias é totalmente atrelada ao modelo estabelecido nos jornais impressos. No que diz respeito ao formato de apresentação das narrativas jornalísticas, não há nenhuma evidência de preocupação em inovar. (MIELNICZUK: 2003, p. 32-33).

Apesar de observadas uma série de mudanças na exibição de notícias na rede desde que Luciana Mielniczuk defendeu sua tese doutoral em 2003, na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom/UFBA), as empresas de comunicação ainda oferecem, em áreas separadas, suas versões impressas constituídas com base na reprodução do papel, como é o caso da Folha de S.Paulo.

O jornal paulista replica dois modelos, um é o fac-símile da página com links para as matérias de capa e outro é na própria Web. Um dos argumentos é o de facilitar acesso para quem está fora País ou dos principais centros de distribuição do jornal. A única diferença é que há pouco tempo, a versão impressa era destacada na área nobre da 120

interface na Web, no canto superior esquerdo. Agora, fica abaixo das notícias do dia, do lado direito. No iPad não é diferente ainda que o dispositivo permita leituras vertical e horizontal.

Figuras 66 e 67. Folha: Fac-símile das versões impressa e Web126

Figura 68. A apresentação da Folha Digital é outro exemplo de metáfora, 2009.

Segunda fase – Quando mesmo submetido à metáfora do impresso são desenvolvidos novos tipos de produtos. Jornalistas criam conteúdos originais para a rede, com hiperlinks, redes sociais, ferramentas de busca sofisticadas, conteúdo
Folha de S.Paulo: fac-símile da versão impressa http://bit.ly/qLwqXv e versão para a Web: http://bit.ly/pkXJl4. Acesso jan. 2012.
126

121

multimídia e customização de conteúdo. Há uma maior agregação de recursos possibilitados pelas tecnologias da rede. Nesse estágio, permanece o caráter transpositivo (MOHERDAUI, op. cit., 124).
Com o aperfeiçoamento e desenvolvimento da estrutura técnica da Internet no País, e seguindo uma tendência mundial, nos final dos anos 90, mesmo atrelado ao modelo do jornal impresso começam a ocorrer experiências no produto jornalístico na tentativa de explorar as características oferecidas pela rede. Essa fase em que o jornal impresso funciona como uma referência para a elaboração das interfaces dos produtos é chamada fase da metáfora. Ao mesmo tempo em que se ancoram no modelo do jornal impresso, as publicações para a Web começam a explorar as potencialidades do novo ambiente, tais como links com chamadas para notícias de fatos que acontecem no período entre as edições; o e-mail passa a ser utilizado como uma possibilidade de comunicação entre jornalista e leitor ou entre os leitores, através de fóruns de debates e a elaboração das notícias passa a explorar os recursos oferecidos pelo hipertexto. A tendência ainda é a existência de produtos vinculados não só ao modelo do jornal impresso enquanto produto, mas também às empresas jornalísticas cuja credibilidade e rentabilidade estavam associadas ao jornalismo impresso específicas. (MIELNICZUK, op. cit., p.34)

Folha.com127 e Globo Online são também bons exemplos de segunda fase. As imagens anteriores mostram a Folha descolada da interface principal, cujos acessos são independentes do conteúdo que vai para a Web. De modo geral, os destaques das versões impressas ficam abaixo da interface, do lado direito. Mas não são apenas as empresas de comunicação que operam a partir da emulação.

Em 2009, o Google criou o Google Flip. Estruturado por meio de canais como Entretenimento, Política, Saúde e Esportes, entre outros, o Flip exibe fac-símiles das interfaces noticiosas de grandes jornais como BBC, The New York Times e de revistas como Slate e Business Week.

O novo formato foi pensado para diminuir a tensão entre donos de jornais digitais, ligados a grandes conglomerados de mídia, e a empresa de busca. A empresa se

comprometeu a dividir a receita de anúncios com os publishers, incomodados com a

127

Para conhecer a Folha Digital, ver: http://bit.ly/tP5Trj. Acesso jan. 2012.

122

maneira agressiva de o Google organizar notícias sem pedir autorização e ainda tendo lucro com o tráfego gerado na rede.

Figura 69. Interface da Folha.com

Figura 70. Interface de O Globo128

Figura 71. Interface do Google Fast Flip129

128

Folha: http://bit.ly/vf7FMI e Globo: http://glo.bo/vfRhdb. Acesso jan. 2012.

123

Terceira fase - Quando são lançadas iniciativas tanto empresariais quanto editoriais adaptadas à Internet. Caracteriza-se pela produção de conteúdos noticiosos originais, com recursos multimidia, convergência entre suportes diferentes (multimodalidade), disseminação de um mesmo produto em várias plataformas e/ou serviços informativos e a produção de conteúdo pelo usuário. Há também o reconhecimento do ambiente como um novo meio de comunicação.

O aspecto mais importante da terceira geração é considerado por John Pavlick como as experimentações de novas formas de storytelling. Ele cita a possibilidade de narrativas imersivas que permitem ao leitor navegar através da informação multimídia. Storytelling é a palavra utilizada por autores americanos para se referirem à narrativa do fato jornalístico (MOHERDAUI, op. cit., p. 125-126). Faz parte da terceira geração a produção de conteúdo pelo usuário (BOCZKOWSKI: 2004) pelo produser ou prosumer.
O cenário se modifica a partir da crescente popularização do uso da Internet e também do surgimento de iniciativas tanto empresariais quanto editoriais destinadas exclusivamente para esse suporte. São sites jornalísticos que extrapolam a ideia de uma versão do papel para a Web. Um dos primeiros e, talvez, um dos principais exemplos dessa situação seja o www.msnbc.com, resultado da fusão em 1996 entre Microsoft e NBC, uma empresa de informática e outra de televisão. Na terceira etapa, é possível observar produtos jornalísticos com sons e animações, que enriquecem a narrativa; oferecem interatividade, como chats com a participação de personalidades públicas, enquetes, fóruns de discussões; disponibilizam opções para personalização; usam hipertexto não apenas para organização das informações da edição, mas também começam a empregá-lo nas notícias. (MIELNICZUK,op. cit., p.36).

Dois jornais ilustram bastante a ideia de terceira fase: o Último Segundo (iG) Huffington Post (AOL). O Último Segundo (US) surgiu no começo dos anos 2000 com a proposta de ser um jornal produzido exclusivamente para a Internet.

Passados mais de dez anos de sua fundação, o US permanece com o mesmo propósito, sem ter uma versão impressa. O HuffPo foi criado em 2005 pela jornalista americana Arianna Huffington para ser um blog de notícias e fofocas sobre a elite política em

129

A Google anunciou o fim do Fast Flip em setembro de 2011: http://on.mash.to/ujuxkR. Acesso jan. 2012.

124

Washington, depois de perder as eleições para governo da Califórnia. Em 2011, foi vendido para a American Online (AOL)130.

Figura 72. Interface do MSNBC, 1997 (Internet Archive)

Figura 73. Interface do Último Segundo, 2011

130VENDIDO

por US$ 315 milhões, Huffington Post lucra com blogueiros anônimos e famosos. BBC, São Paulo, 7 fev. 2011. Disponível em: http://bbc.in/p1VF8t. Acesso jan. 2012.

125

Figura 74. Interface do The Huffington Post, 2011131

Quarta fase – Para o professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Elias Machado, essa etapa compreende o Jornalismo baseado em bancos de dados inteligentes, que aparece aos usuários como uma interface tipificada no espaço navegável que permite explorar, compor, recuperar e interagir com as narrativas.

Machado (2004) toma como pressuposto os conceitos do pesquisador russo Lev Manovich segundo o qual os bancos de dados são identificados como uma coleção de itens que permite uma variedade de operações: ver, navegar, buscar, intercambiar informações e compor formas diferenciadas de narrativas (MOHERDAUI, op. cit., p. 127):

A característica do ciberespaço como um espaço navegável, que permite movimentos através da arquitetura da informação, possibilita que a composição possa ser pensada como um tipo de enredo que determina os eventos de uma narrativa interativa, dispostos em torno de um espaço audiovisual. Ao indicar uma ordem, mesmo que incorpore uma variedade de alternativas de composição resultantes dos processos de interação, a arquitetura da informação, como um roteiro, parte do pressuposto que deve existir um começo, um fluxo interativo e um fim para cada narrativa. Em qualquer que seja o caso, como tratamos de espaços interativos, o que pode variar são as possibilidades diferenciadas de começo, de fluxos interativos e de finais previstos na arquitetura da informação como uma estrutura que condiciona a composição da narrativa. (MACHADO, 2004, p.11).
131

Último Segundo: http://bit.ly/vnyDLi e Huffington Post: http://huff.to/tNPfr1. Acesso jan. 2012.

126

O americano The New York Times132 e o britânico The Guardian133 são os jornais que mais apostam em narrativas baseadas em dados, embora nem todas permitam ao produser/prosumer incluir informação e modificar o conteúdo. Fora do âmbito da grande imprensa há uma série de iniciativas orquestradas por esses atores que permitem a colaboração coletiva, como ocorreu na cobertura da gripe suína em 2009134.

Porém, há que se destacar os exemplos interessantes, como a estratégia do USA Today135 de criar uma conta no Twitter (@usatodayhealth), para que as pessoas pudessem acompanhar as últimas notícias sobre a gripe. O jornal americano criou um mapa dinâmico, com atualização constante, com textos e links apontando para redes sociais, interfaces de compartilhamento e de validação de conteúdo, além de uma lista de serviços com endereços de hospitais e prontos-socorros.

A exemplo do USA Today, The New York Times, El Mundo136, El País137 e The Washington Post138 apostaram em mapas dinâmicos. Além dos produsers/prosumers, o Google também utilizou de sua tecnologia para manter os cidadãos informados139.

Figura 75. Mapa coletivo feito com aplicativo do Google mostra avanço da gripe aviária
http://nyti.ms/sZOsfC. Acesso jan. 2012. http://bit.ly/vKH0gj. Acesso jan. 2012. 134 Ver exemplos em: http://bit.ly/n7jt3g. Acesso jan. 2012. 135 http://usat.ly/thmqEc. Acesso jan. 2012. 136 http://mun.do/uhITjh. Acesso jan. 2012. 137 http://bit.ly/u1vloF. Acesso jan. 2012. 138 http://wapo.st/uVeYlx. Acesso jan. 2012. 139 Exemplos de mapas dinâmicos e atualizados sobre a gripe suína, ver: http://bit.ly/q113x8. Acesso jan. 2012.
132 133

127

Figura 76. Twitter do jornal USA Today com informações sobre a gripe aviária

Figura 77. Mapa do Google sobre avanço da gripe aviária por região

Outra iniciativa é o Hack Day140, do jornal The Guardian, criado para que não somente jornalistas, mas leitores ajudem a criar peças colaborativas baseadas em dados, aplicativos, mashups e tags. Na segunda edição do evento, realizada em 2009, foram apresentados 30 projetos em 24 horas.

Entre eles, destacam-se: base de dados visual sobre a crise econômica e gripe suína, gadgets de seções do jornal em RSS, filtros a partir do Yahoo Pipes141 para agregar conteúdo espalhado em redes como Digg142 e Reddit143 e uma série de ferramentas de alerta e de validação no Twitter ou para criar rankings de retweets.

Para saber mais sobre o Guardian Hack Day, ver: http://bit.ly/qKi619. Acesso jan. 2012. Para saber mais sobre o Yahoo Pipes, ver: http://bit.ly/s6xcnZ. Acesso jan. 2012. 142 http://bit.ly/twjp2B. Acesso jan. 2012.
140 141

128

Para analisar a interface, Foucault

Observados somente do ponto de vista da narrativa, os exemplos citados acima podem justificar o olhar sobre o Jornalismo praticado na Internet a partir da sua evolução. Porém deixam de fazer sentido se incluídos na perspectiva da interface. O que muda é a forma pela qual as duas vertentes são pesquisadas.

No caso da interface, a construção se dá a partir da lógica estruturalista orientada pela Teoria do Jornalismo, ou seja, o newsmaking comanda todo o processo, ainda que em alguns casos, como já foi afirmado anteriormente, de modo inadequado.

Consequentemente o resultado é um conteúdo arranjado a partir dos pilares que balizam o design gráfico nos jornais impressos. Em uma página em branco, diagramada em colunas (que vão de 3 até 12), o equilíbrio (BRINGHURST, op. cit., p. 71) se dá entre quatro principais elementos básicos que devem ser levados em conta nesse quebracabeça.

São eles: manchetes (fonte, tamanho e espaço ocupado), texto (tamanho e importância), fotos e legendas devem impactar o conteúdo apresentado, conforme explica o jornalista e designer Tim Harrower em The Newspaper Designer´s Hanbook (2002, p.22):
Páginas de jornal são como quebra-cabeças. Quebra-cabeças podem que se encaixar em um número de maneiras diferentes. Apesar de as páginas poderem parecer complicadas num primeiro momento, você encontrará apenas quatro elementos básicos: quatro tipos de peças de quebracabeças que são essenciais. E porque estes quatro elementos se acostumam sempre, eles ocupam 90% de todo espaço editorial. Uma vez que você dominar esses quatro blocos básicos de construção, você já os domina design da página.

Transposta para a Internet, a estrutura se mantém: em uma superfície em branco, há manchetes, fotos, hipertexto e multimídia destacadas pelos critérios de importância e atualização. Não há definição de números de chamadas, como acontece na mídia tradicional.
143

http://bit.ly/sMJ8sE. Acesso jan. 2012.

129

As interfaces exibem milhares de informações conectadas umas às outras, e as alterações são feitas na medida em que um novo fato surge ou pela temporalidade do texto. Talvez isso seja explicado pela falta de uma complexificação sobre critérios de seleção dos elementos que as compõem (ver anexo, p. 258-288).

Se pensarmos as interfaces jornalísticas desde os primórdios do design gráfico, não há como aplicar a seus estudos uma classificação por fases, pois são replicadas para Web convenções estabelecidas na mídia tradicional (NELSON, 2001). Na realidade, as práticas sociais na rede restringem a produção à superfície da tela, transformando o browser em um paginador (BEIGUELMAN, 2003, p. 37, 67).

Outra razão para justificar o apagamento das fases é o princípio da remediação, segundo o qual uma mídia representa a outra (BOLTER e GRUSIN, 2000), uma vez que é preciso tratar o Jornalismo de Internet no jogo de sua instância e “deixar de observá-lo por um tempo a partir da noção de evolução”, conforme afirma Foucault em Arqueologia do Saber:

(...) É preciso mostrar que as formas prévias de continuidades não se justificam por si mesmas, que são sempre o efeito de uma construção cujas regras devem ser conhecidas e cujas justificativas devem ser controladas. É preciso apontar as condições de legitimidade desse tipo de categorização. Seria bem possível, por exemplo, que as noções de “influência” ou de “evolução” originassem uma crítica que as colocasse – por um tempo mais ou menos longo – fora de uso. (2007, p.28).

O argumento de Foucault é justificável nesse caso porque reafirma não somente ponto de partida, mas norteia esta tese como um todo por não se dedicar exclusivamente ao debate sobre a estrutura, mas sim no campo em que se manifestam, se cruzam, se embricam e se especificam as questões do ser humano (2007, p. 18), estendidas aqui à interface e às relações homem-máquina.

Defender o apagamento das fases ao estudo da interface não significa apontar que todo o mundo se enganou, mas definir uma posição singular de exterioridade de suas vizinhanças. Mais do que reduzir os outros ao silêncio, fingindo que seu propósito é vão

130

– é tentar definir esse espaço em branco de onde falo, e que toma forma, lentamente, em um discurso tão incerto ainda (IBIDEM, p 19).

Não é sem razão que os conceitos de arqueologia e genealogia de Michel Foucault dão sentido a essa questão. A arqueologia foi nos anos 1970 o método de pesquisa do filósofo francês, tendo sido substituída depois pela genealogia. Para Foucault, uma arqueologia referia-se às ciências humanas:

(...) Mais do que uma descrição paradigmática geral, trata-se de um corte horizontal de mecanismos que articulam diferentes acontecimentos discursivos – os saberes locais – ao poder. Essa articulação, claro, é inteiramente histórica: possui data de nascimento – e o grande desafio consiste em encarar igualmente a possibilidade de seu desaparecimento, como na orla do mar um ponto de areia (REVEL: 2005, p. 16-17).

Ao passar a utilizar o conceito de genealogia, o filósofo insistiu sobre a necessidade de dirigir a leitura horizontal de discursividades para uma análise vertical – orientada para o presente – das determinações históricas do nosso próprio regime de discurso. E qualificou o seu projeto de arqueologia das ciências humanas mais como uma genealogia nietzschiana do que como uma obra estruturalista.

Em um texto sobre o escritor alemão Friedrich Nietzsche, afirmou que a genealogia é uma pesquisa histórica que se opõe ao desdobramento meta-histórico das significações ideais e das indefinidas teologias, que se opõe à unicidade da narrativa histórica e à busca da origem e que procura, ao contrário, a singularidade dos acontecimentos.

Portanto, a genealogia trabalha a partir da diversidade e da dispersão, do acaso, dos começos e dos acidentes: não pretende voltar ao tempo para restabelecer a continuidade da história, mas procura restituir os acontecimentos na sua singularidade (REVEL, op. cit. p. 17-52-53).

Também corroboram a necessidade de uma abordagem que não leve em conta a ideia de evolução as noções do pesquisador russo Lev Manovich (2008; 2010) sobre nova deep remixability (mistura de formatos e softwares) ou media visualization (criação 131

de novas representações visuais a partir de objetos de mídia ou parte deles). Deep remixability e media visualization serão aprofundadas mais adiante.

O próprio Tim Berners-Lee recusa as nomenclaturas que definem a evolução da Web. Em 2006, em uma entrevista a IBM, o engenheiro britânico criticou o uso do termo Web 2.0 Criado por Tim O´Reilly em 2005, o termo se refere a conexão entre pessoas enquanto que Web 1.0 significa conexão entre computadores144.

Para Berners-Lee essas nominações não passam de estratégia de marketing, pois o WWW foi criado com o propósito de conectar pessoas, ser um sistema aberto145. Em novembro de 2011, O’Reilly afirmou que o conceito Web 2.0 é obsoleto: “Essa expressão foi própria de outro momento que se tentava promover a ideia de Web, e creio que foi bem-sucedida e criado entusiasmo, mas lamentavelmente envelheceu”.146

É com esse raciocínio que nesta tese as fases não serão aplicadas ao estudo do design de interfaces noticiosas. Não é possível utilizá-las para definir o seu atual estágio porque o ponto de partida é o mesmo: diagramação em colunas, página em branco e hierarquia, e as fases não dão conta desse ponto de vista (ver p. 67-71). O argumento ganha mais força se analisada a tipologia na Web, como mostra a pesquisa feita com os jornais e que será detalhada adiante.

O que caracteriza o Jornalismo de Internet?

Antes, porém, é preciso desconstruir outro aspecto importantíssimo: o que caracteriza efetivamente a produção jornalística na Internet? Quais são os pontos de partida para incrementar a narrativa? É sabido que texto e links marcaram o inicio das interfaces de notícia na rede. Quem não se lembra do jornal francês Le Monde de 1996? E da BBC em 1997? As interfaces seguiam os padrões de conexões estabelecidos à época: banda estreita, a maioria das pessoas conectava-se por meio de linhas telefônicas.
WHAT IS web 2.0? O'Reilly, EUA, 30 set. 2005. Disponível em: http://oreil.ly/umHTu6. Acesso jan. 2012. 145DEVELOPERWORKS interviews: Tim Berners-Lee. IBM developerWorks, EUA, 28 jul. 2006. Disponível em: http://ibm.co/pUWtcn. Acesso jan. 2012. 146 "CONCEITO de web 2.0 é obsoleto", assegura Tim O'Reilly, Terra, Sâo Paulo, 23 nov. 2011. Disponível em: http://bit.ly/AbVijW. Acesso jan. 2012.
144

132

Com o passar dos anos, os projetos passaram a ser desenhados tendo em conta o aumento do uso da banda larga e acesso a redes sem fio a um baixo custo, a popularização de computadores e dispositivos móveis, um maior interesse dos internautas por notícias e interfaces constituídas a partir do rastreamento de padrões de uso e relações de consumo (JOHNSON: 2003, p. 89) e customização por dispositivos (computador de mesa, notebook, tablet e telefones celulares).

Por causa disso, os jornais têm investido cada vez mais em conteúdo multimídia, seguindo à risca a cartilha de características elencadas abaixo (interatividade, hipertextualidade, personalização, multimidialidade/convergência, memória e

instantaneidade/atualização contínua (PALACIOS, 2003, p. 14-36) e imersão (MOHERDAUI: 2005, p. 135-137) por diversos pesquisadores mundo afora, especialmente para Web e agora tablets.

Porém, aplicadas à estrutura do papel, assemelham-se ao que Manovich chamou de estética Power Point (ver p. 118):

Figura 78. Interface do Le Monde, 1996 (Internet Archive)

133

Figura 79. Interface da BBC, 1997 (BBC)

• Interatividade – Jô Bardoel e Mark Deuze (2001) afirmam que a interatividade não é um termo ou conceito que surge com a Web. A interação já ocorria no rádio ou na tevê, por exemplo. Mas a Web amplifica essa ação. O leitor deixa de apenas receber a informação e se torna mais ativo. Além de interagir, ele pode produzir e distribuir informação. Para os autores, a notícia na Internet (Web e aplicativos) possui a capacidade de fazer com que o usuário sinta-se diretamente parte do processo jornalístico. Isto pode acontecer de diversas maneiras: pela troca de emails entre leitores e jornalistas, pela disponibilização da opinião dos leitores, como é feito em interfaces que abrigam fóruns de discussões, por meio de chats com jornalistas, etc. Arlindo Machado (1997) ressalta que a interatividade ocorre também no âmbito da própria notícia, ou seja, a navegação pelo hipertexto também pode ser classificada como uma situação interativa. Na opinião de Lev Manovich (2001), a nova mídia é essencialmente interativa, e o usuário pode interagir com a mídia ou com um objeto. O autor associa interatividade ao princípio do hipertexto. Para Meadows, interatividade pressupõe

necessariamente ação e reação (ver p. 100).

• Hipertextualidade - Possibilita a interconexão de textos por meio de links. João Canavilhas (1999) e Bardoel e Deuze (2001) chamam a atenção para a possibilidade de, a partir do texto noticioso, apontar-se links para várias pirâmides invertidas da notícia, bem como para outros textos complementares (fotos, sons, vídeos, e animações), outras interfaces relacionadas ao assunto, material de arquivo dos jornais, textos jornalísticos ou não que possam gerar 134

polémica em torno do assunto noticiado e publicidade. Deuze (2001) divide os links em internos e externos e pondera para a ética ao inserir link externo em uma publicação. • Personalização - Também denominada individualização, a personalização ou customização consiste na opção oferecida ao usuário para configurar ou receber os produtos jornalísticos de acordo com os seus interesses individuais. Há interfaces noticiosas que permitem a pré-seleção dos assuntos por meio de newsletter, newsalert, o RSS, SMS e MMS, entre outros. Outros serviços de personalização são o Blogging, no qual o internauta monta uma pasta com links de todos os blogs que deseja colecionar. O de.li.cio.us é uma espécie de bookmark no qual são armazenados links interessantes.

• Multimidialidade/Convergência - Multimidialidade refere-se à convergência dos formatos das mídias tradicionais (imagem, texto e som) na narração do fato jornalístico. A convergência torna-se possível em função do processo de digitalização da informação e sua posterior circulação e/ou disponibilização em múltiplas plataformas e suportes, numa situação de agregação e

complementaridade. São os chamados pacotes multimídia de Mindy McAdams (2005), que trazem em uma pequena tela material jornalístico como, por exemplo, slide show com áudio, infográficos animados, galeria de imagens, fotos randômicas, vídeos e textos, entre outros. Mark Deuze (2001) define a multimidialidade como a combinação de informação oferecida em diferentes formatos por uma ou mais empresas de comunicação.

• Memória – Marcos Palacios (1999) argumenta que a acumulação de informações é mais viável técnica e economicamente na Web do que em outras mídias. No WWW, a memória torna-se coletiva, por meio do processo de hiperligação entre os diversos nós que a compõe. Desta maneira, o volume de informação anteriormente produzida e diretamente disponível ao usuário e ao produtor da notícia cresce exponencialmente no Jornalismo de Internet, o que produz efeitos quanto à produção e recepção da informação jornalística. O usuário pode 135

acompanhar a informação passo a passo e gravá-la, pode repetir a apresentação imediatamente ou pode assisti-la na quando quiser.

• Instantaneidade/Atualização Contínua – Rádio, tevê e impresso têm processos de produção do noticiário diferenciados do ritmo do Jornalismo praticado na Web. No jornal, por exemplo, o leitor tem de esperar até o dia seguinte para saber as novidades. No rádio e na tevê, é preciso seguir as grades de programação. Na Internet não há essa delimitação de temporalidade. A notícia é distribuída em Web e aplicativos após ter sido devidamente apurada. Em alguns casos, publicase uma linha apenas, e ao longo do dia o conteúdo é atualizado ou complementado, mesmo procedimento adotado em agências noticiosas. Javier Díaz Noci (2006) afirma que a informação atualizada é cada vez mais importante na Internet, tanto que os destaques das interfaces noticiosas aparecem junto com as últimas noticias.

• Imersão – Janet Murray (2003) diz que a experiência de ser transportado para um lugar primorosamente simulado é prazerosa em si mesma, independentemente do conteúdo da fantasia. A autora se refere a essa experiência como imersão. Imersão é um termo metafórico derivado da experiência física de estar submerso na água. A sensação de estar envolvido por uma realidade completamete estranha [essa ação é pungente em games como os MUDs, por exemplo, nos quais jogadores assumem papeis de personagens147] está relacionada à psicologia. O próprio programa de computador serve como um narrador da história, publicando diálogos dos jogadores em seus monitores e apresentando entradas, saídas, descrições e alguns acontecimentos

(MOHERDAUI: 2005, p. 135-137).

É verdade que como afirmam Mark Deuze (2001) e Marcos Palacios (2003), a Internet potencializa as caracteristicas do Jornalismo: a tevê, por exemplo, é multimídia, oferece texto, áudio, foto e vídeo. O CD-ROM também é multimídia, é hipertextual.

147

Para saber mais sobre MUDs, ver: http://bit.ly/zY6T6J. Acesso mar. 2012.

136

Pode ser imersivo, mas não oferece ainda atualização contínua nem tampouco interatividade ou memória. A não ser que faça uso da transmídia, narrativa que se desenrola através de vários suportes midiáticos, com cada novo texto contribuindo de maneira distinta e valiosa para o todo. (JENKINS: 2008, p. 135).

Foi com o CD-ROM que o termo multimídia se popularizou no início da década de 1990, sobretudo com desenhos de interfaces para arte digital ou visitação de exposições via CD-ROM, denominado à época new media. Depois, ganhou a Web. (MANOVICH: 2008, p. 82-83). Aliás, naquela época a definição new media virou slogan de entrega de conteúdo por Internet, tevê digital ou CD-ROM e DVD. Muito mais voltada à tecnologia em si e ao dispositivo que ao conteúdo (HARRIES: 2002).

Manovich, ao contrário, a caracterizou como convergência de formas culturais contemporâneas (interfaces, hipertexto e base de dados) e modelos anteriores, como o cinema, baseadas no computador (2001, p. 25). O exemplo da revista NEO, a primeira do gênero no Brasil, é esclarecedor, conforme imagens exibidas nas próximas páginas.

Figuras 80 e 81. Interface da edição número 17 da NEO (1997), a primeira revista em CD-ROM no Brasil. Nesta edição, a exposição de fotos do ex-guerrilheiro argentino Che Guevara assinadas por Alberto Corda é o destaque da matéria de capa. Naquele ano, a revista reunia elementos considerados característicos do Jornalismo praticado na Internet, como hipertextualidade, multimidialidade e imersão. Com uma diferença: primor no desenho da interface. Frequentemente, os textos eram acompanhados de trilha sonora, recurso pouco comum na Web - principalmente hoje em dia.

137

Figuras 82 e 83. Interfaces da revista NEO, edição número, 16. Detalhe para o anúncio multimídia da Volkswagen: ao pular a página, a porta da Kombi se fecha. Outra diferença importantíssima. O tamanho do anúncio e a forma pela qual é exibido, sem incomodar a leitura como ocorre nas interfaces do WWW. Em geral, eles pingam na tela durante a navegação. Outro ponto a destacar é a matérua sobre um disco novo da Rita Lee. O texto acompanha videoclipe e áudio do álbum.

Figuras 84, 85, 86 e 87. Interfaces da revista NEO, edição número, 16.

Em relação à interatividade na mídia tradicional (rádio, jornal, revista, tevê), o rádio tem ampla capacidade de interação, ainda que opere com controle por causa de sua 138

lógica orientada no modelo de comunicação um-todos (LÉVY: 1999, p. 164). Porém, é o meio no qual há uma maior interação entre ouvinte e jornalista. Isso se dá principalmente por telefone.

Com o advento da Internet, surgiram outras ferramentas como e-mail e redes sociais (ainda que sejam dispositivos todos-todos), incorporadas às mídias, mas a frequência com a qual ocorre a relação um-um (LÉVY, loc.cit) é maior no rádio148. Steven Johnson conta que o rádio começou como um meio distribuído, muitos-muitos, bottom-up149, de modo muito parecido coma Web em seus primórdios, mas logo se consolidou no modelo de radiodifusão, dominado por redes nacionais como a RCA e a NBC (2001: p. 108).

As interfaces noticiosas operam com uma lógica de interatividade definida por Lev Manovich como fechada (base de dados restrita). Para o pesquisador russo, toda comunicação intermediada por computador é interativa, que pode ser fechada ou aberta (software ou interface responde diretamente às ações dos usuários).

Manovich usou essa classificação para exemplificar os games e a comunicação do jogador com uma base de dados. Trata-se de interação homem-máquina - e não homemhomem - na qual o jogador realiza uma ação e o banco de dados reage a ela (2008).

Interatividade, de fato, pressupõe ação e reação (LÉVY: 1999; DEUZE: 2001; MEADOWS: 2003). De nada adianta chamar interatividade botões de impressão, aumento ou diminuição de fonte, envio de e-mail ou compartilhamento de conteúdo em redes sociais.

Na realidade, são ferramentas que pressupõem algum tipo de ação, mas não necessariamente uma reação.
148

Para Giselle Beiguelman (MONACHESI: 2004), a

A noção de Pierre Lévy de dispositivo comunicacional um-todos, um-um e todos-todos (1999, p. 64) é aplicada à interatividade. Para Lévy, um-todos se refere a: imprensa, televisão e rádio como forma de distribuição de informação. Assim como um-um é aplicado a telefone e correio e todos-todos a conferências, sistemas para ensino ou trabalho cooperativo e processos comunicacionais em rede. 149 Bottom-up designa qualquer sistema material cujo comportamento relativamente regular é o resultado de interações aleatórias de seus elementos. A estratégia bottom-up preocupa-se com a singularidade da base material dos processos mentais. Explica os processos cognitivos (que se apresentam como sequenciados e centralizados) como resultante de interações paralelas e descentralizadas de uma unidade biológica básica bem definida, como os neurônios (JOHNSON: 2001, p. 108).

139

interatividade virou uma espécie de commodity no qual prevalece uma lógica de clicagem burra em que o que vale é o ponto de chegada em detrimento ao processo - um mal necessário para chegar a um fim pré-determinado.

Visto da perspectiva da narrativa baseada em dados (aberta) de Manovich, o hipertexto também é um elemento interativo. Para o pesquisador russo, o internauta atravessa uma base de dados, segue links estabelecidos pelo designer dessa interface. Portanto, o autor entende que a narrativa interativa é a soma de múltiplas trajetórias através de uma base de dados (2001, p. 227).

Ou seja, leitor se torna o personagem da narrativa ao interferir nela (MACHADO: 2007). Isso reconfigura o conceito tradicional de narrativa, ancorado em uma sequência de ações e de experiências feitas por um certo número de personagens, representados em situações que mudam ou a cuja mudança reagem, e cujo leitor apenas acompanha o enredo (RICOEUR: 1994, p. 214).

Embora o link seja considerado um fator condicionante do WWW de Berners-Lee não só para David Weinberger (ver p. 32), mas para Deuze também, a técnica foi utilizada anteriormente em projetos de CD-ROM, ainda que com algumas limitações do suporte, mas com linkagens para Web. Na realidade, como afirma o pesquisador holandês, o link é o ponto de partida (2001).

Aliás, antes de o protocolo ser inventado surgiram dezenas de sistemas hipertextuais, porém não tão populares150. Mas na rede, ocupa (como a multimídia) boa parte da narrativa, embora utilizados muitas vezes sem critérios de importância (tanto para notícia quanto para interface). É comum não haver estratégias para links com artigos relacionados nem definição de lugar de inserção, se no meio do texto ou ao final.

Já que a intenção é manter a mesma lógica das mídias tradicionais, talvez fosse o caso de aplicar a noção de Herbert Gans (1979 apud WOLF: 2002, p. 197), válida até mesmo

150

Ver http://bit.ly/qrUCRN.

140

para a Web: “Os critérios de relevância devem ser flexíveis, relacionáveis e comparáveis; inclusivos ou exclusivos, facilmente racionalizados e orientados para a eficiência”.

Figura 88. Interface do estadão.com.br com a cobertura da morte de Michael Jackson, em 2007. O excesso do Estadão é o número de faixas musicais disponíveis.

Figura 89. Interface do New York Times com a cobertura da morte de Michael Jackson: uma série de links colocados no texto que atrapalham a leitura. Link leva a cada artista ouvido pela reportagem.

141

Figura 90. Interface do Último Segundo, com a cobertura da morte de Michael Jackson. No jornal do iG (Internet Group), percebe-se claramente um critério na escolha de cada link

O principal crítico do uso que se faz do hipertexto é o próprio pai do termo: Ted Nelson (ver p. 33-34). Para Steven Johnson, autor de Cultura da interface (2001), os equívocos têm origem no Vale do Silício: “a maioria das empresas voltadas especificamente para a Web ignorou deliberadamente o hipertexto, preferindo concentrar-se nos adereços mais televisivos dos vídeos granulosos e animações rodopiantes” (2001, p. 82).

Jacob Nielsen resumiu o problema do link como texto âncora para um hipertexto da seguinte maneira: “clique aqui”. Para o especialista em usabilidade, essa regra tem duas justificativas. Em primeiro lugar, apenas os visitantes que usam mouse realmente clicam, enquanto que pessoas com alguma espécie de deficiência ou que manipulam interfaces por meio de toque não clicam.

Em segundo, as palavras “clique” e “aqui” dificilmente contêm informações e, portanto, não devem ser usadas como elementos de design que atraem a atenção do usuário. Ele defende que só devem ser transformadas em hipertexto as informações mais importantes (2000, p. 55). 142

A rede inglesa BBC, que lançou no começo 2010 um sofisticadíssimo guia com diretrizes para design151, usa até hoje click to play na versão brasileira. Arrancou da versão inglesa no projeto que estreou em julho do mesmo ano. Trocou a redundância e o imperativo pelo botão152 (veja comparação abaixo). Aliás, o “clique aqui” foi por muito tempo (e em alguns casos ainda é) sinônimo de interatividade. Em gadgets, como iPod, o termo é toque para assistir (tradução do inglês: tap to play).

Figuras 91 e 92. Versões brasileira e inglesa de destaque em vídeo da BBC sobre a Líbia, 2011.

Mas não é só a BBC que opera nessa lógica. A americana CNN também:

Figura 93. Interface da CNN sobre a Líbia, 2011: chamada de vídeo “click to play”153
A NEW global visual language for the BBC's digital services. BBC Internet Blog, Londres, 16 fev. 2010. Disponível em: http://bbc.in/o2x7Yv. Acesso mar. 2012. 152 BBC News website redesign: Frequently asked question. BBC News, Londres, 16 jul. 2010. Disponível em: http://bbc.in/qMoIEW. Acesso mar. 2012. 153CNN.COM Gets a Radical Redesign. ReadWriteWeab, EUA, 22 out. 2009. Disponível em: http://rww.to/p5x7Rj. Acesso jan. 2012.
151

143

O conceito dessas interfaces pouco difere do Movie Map, de 1978, considerado o primeiro sistema hipermídia, desenvolvido por Andrew Lippman e seus colegas do MIT (Massachussets Institute of Technology) que hoje integram o Media Lab do instituto.

O Movie Map consistia em uma aplicação de turismo que permitia ao usuário simular uma viagem por Aspen, no Colorado (EUA). Ele foi implementado por meio de um conjunto de videodiscos com fotografias da cidade. Em uma alusão ao Google Street View, os filmes foram captados por câmeras montadas em carros que circulavam pelas ruas de Aspen.

Figuras 94 e 95. Interfaces do Movie Map, do MIT

Quanto à personalização, é algo que tem se sofisticado desde que o WWW tornou-se popular. São as chamadas mídia push, que empurram informação sob medida diretamente ao usuário.

O primeiro sistema a aplicar essa tecnologia foi o PointCast. Surgiu em 1996 com a proposta de oferecer customização de serviços no desktop. Agregava em uma tela informações de várias fontes. Seu conceito era baseado no Daily Me, idealizado por Nicholas Negroponte, do MIT (Massachusetts Institute of Technology). A Microsoft chegou a propor uma parceria, mas o PointCast se tornou tão popular que comprometeu seu funcionamento e deixou de operar154.

154

DO POINTCAST à Zite. Último Segundo, São Paulo, 11 mar. 2011. Disponível em: http://bit.ly/uU8ieC. Acesso jan. 2012.

144

Mas a mídia push não parou com o PointCast. Há um sem número de sistemas de personalização, os mais comuns deles atualmente são Newsletter e RSS. Em 2011, foi lançada a revista Zite para iPad, organizada com base no que seus contatos têm compartilhado no Twitter ou no Google Reader.

O grande problema desses agentes inteligentes ocorre quando estão atreladas verbas do departamento de marketing das empresas e, por isso, a entrega geralmente se transforma em um empurrão, na opinião de Steven Johnson:

O que precisamos realmente é de melhores maneiras de puxar. É em torno disso que o projeto competente de interface sempre girou. É a única maneira de manter as solicitações indesejadas fora de nossos desktops. Os empurradores imaginam um futuro em que cada anúncio passageiro é decisivo para as nossas necessidades, em que cada boletim sabe o nosso nome. Mas e se quisermos um mundo sem boletins? (2001, p. 139-140).

Figura 96. Interface do Zite para iPad155

155

http://bit.ly/t1Of3A. Acesso jan. 2012.

145

Figura 97. Interface do PointCast 156

Obviamente, há casos bem-sucedidos e que representam uma ruptura em relação a formatos existentes como o Firefly, desenvolvido pela equipe de Pattie Maes, do Media Lab, do MIT157, conforme será detalhado no próximo capítulo.

156 157

Para saber mais sobre o PointCast, ver: http://bit.ly/nWPiYz. Acesso jan. 2012. PATTIE. Wired, EUA, dez. 1997. Disponível em: http://bit.ly/sYQqTk. Acesso jan. 2012.

146

Capítulo 3

“A Internet está em fluxo constante”

Geert Lovink

147

3. Interfaces nômades

Rupturas e remediações
O Firefly começou como um simples programa de recomendação de música que apresentava títulos de discos e pedia ao usuário que os classificasse em uma escala de um a sete. O truque estava em classificar o maior número de discos possível: o usuário avaliava dez discos e o Firefly oferecia outros dez.

Quando o ciclo de opções se tornava insuficiente, era possível instruir o software para recomendar outra música. Um botão estimulava a ação: “Vai, agente”! Ao clicar nele, o agente trazia de volta uma lista de discos ainda não classificada, mas que ele entendia que seria apreciada (JOHNSON: 2001, p. 142).

O que isso significa? Que o computador havia elaborado um modelo mental dos interesses do usuário e fizera projeções a partir disso. Por trás dessa dinâmica está a chamada filtragem colaborativa. Nesse caso, com a premissa do senso comum. Firefly se apoiava na transferibilidade do gosto: supunha que as pessoas com interesses em comum iriam partilhar também outros interesses.

Porém, o que tornava o sistema poderoso era o mecanismo de feedback incorporado ao agente. Esse processo coletivo, de baixo para cima (bottom-up), gera um imenso número de padrões potenciais a considerar, e o feedback do espectador ajuda o agente a decidir que padrões potenciais vale a pena conservar (IBIDEM, p. 143-145).

Exemplos como esse do Firefly mostram a capacidade de a rede construir gigantescos bancos de dados baseados em filtragem colaborativa, o que também interfere diretamente em memoria e atualização contínua.

É verdade, como afirma Palacios (2003, p. 22-23), que algumas características apresentadas anteriormente são encontradas em outros suportes jornalísticos e, em alguns casos, são potencializadas na Web, como é o caso da imersão, por exemplo. Não 148

são apenas as obras de arte que provocam imersão, mas projetos gráficos de jornais ou narrativas de tevê ou cinema também o fazem. Prova disso são os diversos filmes em 3D lançados recentemente, e Avatar (2009) é uma espécie de divisor de águas desse formato.

É correto o raciocínio de Palacios ao demarcar as rupturas ocorridas no Jornalismo de Internet, como a dissolução dos limites de espaço e tempo para publicar notícias (op. cit. p. 24-25). Entretanto, como já afirmado anteriormente, a atualização continua opera na lógica do tempo diferido (ver p. 56). Outra ruptura de igual importância é a memória, que pode ser recuperada pelo produser ou prosumer para produzir (ou recriar) informação.

De novo o exemplo do Firefly é esclarecedor porque utilizava uma base de dados constituída a partir da atualização contínua. Nesse caso, a filtragem colaborativa baseada em feedback configura-se uma ruptura e não uma potencialização. Não há na mídia tradicional forma de personalização que dê conta dessa dinâmica. Trata-se de algo completamente novo.

O problema da recuperação da informação são as tecnologias de browsers adotadas na elaboração de interfaces de dados de dez, quinze anos atrás. Quando são modificadas ou estão defasadas, a memória se perde.

Quem não se frustrou ao acessar um arquivo do WaybackMachine e se deparou com o seguinte aviso: seu browser não lê essa interface? A explicação é simples: ou o servidor mudou e o conteúdo não foi migrado ou foi corrompido e desapareceu. A solução seria atualizar a linguagem de programação158.

Se na Web é algo complexo, no CD-ROM a dificuldade aumenta ainda mais. As telas das edições 16 e 17 da revista NEO, de 1997, capturadas para ilustrar as páginas 119 e 120 desta tese foram abertas em um computador com sistema operacional Windows 97

158

Para saber mais sobre browser, ver: http://bit.ly/n6xEaN. Acesso jan. 2012.

149

(Microsoft), embora a configuração exigida refira-se a Windows 95 ou 3.1 ou 3.11 para computadores. O software não roda em versões atuais.

Mesmo que haja a constatação de que a Web possibilita reconfigurar o atual processo comunicacional, as empresas de comunicação ainda operam em uma lógica estruturalista, baseadas na remediação, conforme revela pesquisa com os seguintes jornais: Globo Notícias (G1), UOL Notícias Folha (Folha.com), Terra Notícias, Estadão.com.br, Google News, iG News (Último Segundo), R7 Notícias, BBC, The New York Times, Band.com.br, CNN, MSNBC, El País, The Guardian e Huffington Post.

Figura 98. Interface do El País, 1996159

De modo geral, a composição tem sido norteada ao longo dos últimos anos levando em conta principalmente:

a) aumento do uso da banda larga no mundo; b) baixo custo de acesso a Internet; c) crescimento do interesse dos usuários por notícias em redes sociais; d) inovações tecnológicas que possibilitam desenvolver conteúdo jornalístico na rede; e) tendências de design observadas a partir de análise de perfil de consumo do usuário e do tipo de configuração de seu computador.

159

http://bit.ly/pYl9ia. Acesso jan. 2012.

150

A análise aponta para a categorização feita acima. Há uma série de elementos padronizados que formam o conjunto das interfaces:

Exibição de estatísticas (matérias mais lidas, mais comentadas, mais

enviadas por e-mail, ou nuvens de assuntos relacionados); • Ferramentas que pressupõem interatividade e de serviços (SMS, RSS,

newsletter, podcast, personalização, comentários, enquetes, correções e fale conosco, entre outros), formatos de conteúdos (blogs, reportagem multiforme, texto multilinear, pacotes multimídia, redes sociais, tags e open source); • fotos); • • • • • Área de registro e login; Versões clássicas de jornais, rádios ou tevê; Sistema de busca avançado (por data, texto e multimídia); Resolução de tela (a maioria apresenta configuração 1024 ou maior); Conceito do acesso ao conteúdo se dá por mouse na tela do computador Multimídia (áudio, vídeo, slide show, infográfico animado, fotos e galeria de

(em gadgets como iPad e iPhone, o acesso é feito por toque); • • • Menus são predominantemente horizontais; Serviços pagos e gratuitos (conteúdo e aplicativos); Anúncios de mídia rica e estáticos (como os links patrocinados). Em busca

de uma identidade visual e para fidelizar o usuário, algumas interafces jornalísticas têm elementos diferenciados, como os widgets do estadão.com.br ou as versões em outras línguas e a acessibilidade para deficientes, da BBC160.

Em relação à tipologia, se comparadas as versões impressa e de Web, percebe-se que a lógica é a mesma já apontada anteriormente o jornal é um quebra-cabeça que contém manchete, texto, fotos e legendas, como pode ser observado nas tabelas das páginas seguintes.

Para saber mais sobre as ferramentas de composição, consultar http://bit.ly/9tGlir. Acesso em jul. 2011.
160

151

Tabela 5. Quadro comparativo entre jornalismo impresso e de Internet

Impresso

Internet

elementos básicos do design

manchete texto foto legenda

manchete hipertexto multimídia redes sociais

Impresso

Internet

manchete

estática, definida por tipologia, formato, tamanho e espaço, pode ser centralizada e alinhada (esquerda ou direita)

manchete

estática, definida por tipologia, formato, tamanho e espaço, pode ser centralizada e alinhada (esquerda ou direita)

Impresso

Internet

texto

pirâmide invertida, hierarquia diagramação em colunas, remissão a Internet

hipertexto

Pirâmide invertida com links; simula o papel, hierarquia diagramação em coluna; remissão a outras mídias

152

Impresso

Internet

foto

estáticas, complementam texto; têm 3 cortes: horizontal, vertical e quadrada; são destacadas na capa ou nas internas; são abertas/fechadas

multimídia

dinâmicas, multimídia forma manchetes, submanchetes; em alguns casos, há fotos fechadas; no geral, são horizontais, quadradas e retangulares

legenda

usadas para descrever a imagem, fato e personagens; são publicadas de três formas: abaixo da imagem, na lateral e entre duas fotos

chamada

uso de chamadas para destacar multimídia; são publicadas geralmente abaixo das imagens

A Web de Ted Nelson

Nessa perspectiva, quem melhor analisou a mídia na Internet foi, sem dúvida alguma, Ted Nelson. Crítico fervoroso da Web, o fato é que o sociólogo americano trouxe, quando anunciou seu Xanadu, propostas extremamente possíveis ainda que vistas como visionárias.

Em entrevista ao programa Roda Viva, programa da TV Cultura, em 2007161, afirmou que “os parágrafos ficam suspensos no ar, e as conexões podem ficar suspensas no ar,

161

http://bit.ly/ABJojM. Acesso jan. 2012.

153

sem necessariamente terem um formato retangular". O XML (Extensible Markup Language) torna isso perfeitamente possível (ver p. 109).

Figura 99. Diagrama do Xanadu (1965), projeto de hipertexto de Ted Nelson

Para Nelson, a interface da Web segue tradições, e a hierarquia é parte disso. Embora o argumento seja o de que a constituição se deu de modo convencional por ter sido considerada “correta, natural e única forma", na opinião dele, são modelos de “aprisionamento que constrangem e distorcem nosso trabalho e nosso pensamento” (NELSON: 2001).

Outra questão igualmente importante é a analogia do design de interface que parte da premissa de que a reprodução de metáforas visuais dá conta do entendimento que o usuário tem do mundo que o cerca (JOHNSON: p. 18).

Esse raciocínio se encaixa perfeitamente nos atuais projetos de Jornalismo de Internet analisados para esta pesquisa, a começar pela interface. No impresso, há os formatos tabloide e standards. Na Web, horizontal ou vertical.

154

Até meados dos anos 2000, as interfaces eram construídas em 800 x 600 pixels, padrão vertical, com menus nas laterais esquerdas. Depois, 1024 x 768 pixels em diante, horizontal. A diagramação também segue a lógica tradicional, entre três e sete colunas, com a diferença do uso do link na rede.
Tabela 6. Quadro comparativo entre jornalismo impresso e de internet
Impresso Internet

interface/ formato

tabloide standard, edição com templates diferenciados

horizontal ou vertical, com scroll; interfaces têm formatos semelhantes ao standard; edição em um ou dois templates

Também se aplica o mesmo à manchete: nas duas versões, indica conteúdo a ser lido, prioriza grandes notícias, é âncora da matéria e ajuda o designer a organizar a interface para o leitor acessá-la. À exceção de alguns jornais, regra geral, usa-se o manual de redação da mídia clássica para o newsmaking.

Procedimento idêntico é verificado nos cabeçalhos. A inglesa BBC e o brasileiro Último Segundo162, por exemplo, têm guias específicos para o Jornalismo de Internet. A BBC, inclusive, criou diretrizes especialmente para projetos gráficos na rede163. Porém, sob a lógica da metáfora.

162 163

http://bit.ly/r8k2h0. http://bbc.in/o2x7Yv.

155

Tabela 7. Quadro comparativo entre jornalismo impresso e de internet
Impresso Internet

tipologias

com serifa nos textos; nos selos ou destaques, são usadas letras sem serifa, com tipos variados, em itálico ou negrito; textos justificados

sem serifa (facilita a leitura), uso de um ou dois tipos, em itálico ou negrito; textos não justificados

Por uma crítica da metáfora

Mesmo reticente, Jakob Nielsen afirma que a metáfora é útil por duas razões: oferece estrutura unificadora ao design e facilita o aprendizado ao permitir que as pessoas usem na Internet o conhecimento que já têm sobre seus sistemas de referência (2000, p. 180).

O especialista em usabilidade critica, portanto, os ícones de compras, representados por carrinhos: “o conhecimento do sistema de referência indicaria que a forma de comprar cinco cópias de algo é repetir a ação de colocar um único item no carrinho cinco vezes” (IBIDEM).

Para Steven Johnson, essas metáforas são o idioma da interface gráfica contemporânea e é esse idioma que atesta o extraordinário sucesso das GUI (graphical user interface) desenvolvidas pela Xerox no Palo Alto Research Center e popularizadas depois pelo Macintosh, da Apple.

O Mac, anunciado em 1984 por Steve Jobs, morto em outubro de 2011, vítima de um câncer raro no pâncreas, foi o primeiro computador pessoal com interface amigável (mouse, janela e ícones), mais tarde copiado pela Microsoft, de Bill Gates, no Windows. Explica Johnson:

156

Talvez toda a inovação high tech seja acompanhada de flashbacks imaginários desse tipo, mas nosso próprio momento histórico acrescentou um desvio inusitado a essa longa tradição. As metáforas low tech, orgânicas, pertenciam em tempos passados aos que estavam em descompasso com a curva de potência da máquina, os ludistas e os antediluvianos, os poetas e os romancistas, os que recorriam a analogias mais antigas por estarem perturbados demais pelo choque do novo. Na sociedade de hoje, a missão de traduzir foi transferida para os técnicos. Na era da interface gráfica, com suas metáforas visuais de lixeiras e pastas em desktops, flashbacks imaginativos tornaram-se proezas de programação, engendradas por bruxos high tech que programam em linguagem assembly164 (2001, p. 19).

Jobs fundou a Apple em abril de 1976, aos 21 anos, na garagem de casa, em Los Altos (EUA), com amigos, incluindo o engenheiro Steve Wozniak e Mike Markkula, ex-gerente da Intel. Para comprar as primeiras peças que montariam o Apple I, Jobs investiu US$ 1.500 da venda de uma Kombi, e Wozniak entrou com US$ 250 que faturou com uma calculadora HP 65.

O primeiro produto a estourar no mercado foi o Apple II, em 1977, que difundiu a ideia de computadores domésticos e os tornou milionários: o valor da empresa foi a US$ 1,8 bilhão. A primeira impressora laser foi popularizada pela Apple165.

Depois, veio a aposta na mobilidade: o executivo modificou a indústria da música ao lançar, em 2001, o iPod, gadget que permite às pessoas ouvir música em qualquer lugar do mundo. E o mais importante: pagando por isso. Com o iTunes, Jobs criou um modelo de negócio para conteúdos que antes estavam grátis na rede. Por meio da plataforma, é possível comprar discos, filmes, revistas e jornais, entre outros.

Em 2007, anunciou o iPhone, cuja interface reconfigurou as funções do telefone e o modo pelo qual as pessoas fazem uso dele. Três anos depois, surgiu o iPad, que impôs de

ou linguagem de montagem é uma notação legível para o código de máquina que uma arquitetura de computador específica usa. A linguagem de máquina, que é um mero padrão de bits, torna-se legível pela substituição dos valores em bruto por símbolos chamados mnemônicos. Uma mnemônica é um auxiliar da memória. Wikipédia, a enciclopédia livre. Disponível em: http://bit.ly/vWcBqp. Acesso jan. 2012. 165 GLOBO, 2011, p. 28-29.
164Assembly

157

vez a cultura dos aplicativos (pagos) e da mobilidade. Sem mouse, com acesso apenas por toque166.

Figura 100. Apple I, lançado em 1976 pela empresa de Steve Jobs167

Figura 101. Anúncio do Macintosh, em 1984: Introducing Macintosh. For the rest of us.

Antes de a Apple criar um plano para consumo pago de conteúdo para seus produtos, o que valia na rede era o consumo sem custo. Quem não se lembra do alvoroço causado pelo Napster, criado por Shaw Fanning (sócio de Mark Zuckerberg no Facebook) e Sean

STEVE JOBS era um gênio. O Globo. 11 out. 2011. Disponível em: http://glo.bo/rBnecc. Acesso jan. 2012. 167 Para saber mais sobre o Apple I, ver: http://bit.ly/qLrH. Acesso jan. 2011.
166

158

Parker? A plataforma assentou a cultura do compartilhamento hoje difundida amplamente por serviços como o Torrentz168, por exemplo, que permite download grátis de música, filmes e livros, entre outros.

Criado em 1999, o Napster oferecia áudio no formato MP3, até então inexistente no mercado. Os arquivos eram trocados por meio de uma rede P2P, na qual internautas conectados apareciam como servidores de arquivos. Após muitos processos, o Napster saiu do ar pela primeira vez em 2001. Voltou a funcionar em 2003, com sistema de tarifas. Em 2011, foi vendido a Rhapsody (empresa de serviços de streaming vinculada ao Best Buy)169.

O programa se difundiu por três razões muito simples (SHIRKY: 2010, 115):

(1) O dado digital é perfeita e infinitamente copiável a custo marginal zero; (2) as pessoas vão compartilhar se o compartilhamento for simples o bastante, e nessas condições nós normalmente não somos mesquinhos; e (3) Shawn Fanning criou um sistema para conectar as ações (1) e (2) com os incentivos certos. Isso foi o que virou a indústria fonográfica de cabeça para baixo. Tanto que o modelo original do Naspter foi destruído quando os processos judiciais da indústria aumentaram o custo de conectar o (1) e o (2) para um número significativo de pessoas.

Figura 102. Logomarca do Napster, criado por Shaw Fanning e Sean Parker
Torrent Search Engine http://bit.ly/snmIQ4. Acesso. Jan. 2012. encerra de vez suas atividades. INFO Online, São Paulo, 2 dez. 2011. Disponível em: http://bit.ly/sdh3iN. Acesso jan. 2012.
168 169NAPSTER

159

iPhone, iPod e iPad talvez sejam os primeiros dispositivos a não reproduzir completamente metáforas visuais como o Macintosh. A operação se dá a partir de aplicativos escolhidos pelo usuário. No iPhone, por exemplo, não há o ícone que representa uma lixeira ou pasta de arquivo. Para apagar um aplicativo, basta pressionálo e clicar no xis que aparece ao lado dele. Já o iPad tem ícones que emulam uma estante de livros (iBook) e uma banca de jornal. A mais recente versão do sistema operacional do iPhone também traz a banca.

Giselle Beiguelman critica a necessidade da reprodutibilidade:
O pressuposto é o mesmo do reducionismo. Não pode mudar porque se mudar as pessoas não entendem. Essa ideia pressupõe um sujeito universal domesticado, em permanente controle do seu imaginário. Assim, o mercado se garante pela reprodutibilidade. Como se garante? Precisa de um ícone que represente uma casa para entender que o que se chama homepage é um lugar? O teclado tem de ser Qwerty e o monitor tem de parecer uma tevê senão as pessoas não entenderão que se trata de um computador? (2009).

Essa questão leva a, pelo menos, dois equívocos: o primeiro deles, já abordado no segundo capítulo (ver p. 94), é a redundância, o excesso de repetição nas interfaces principais. Michel Foucault explica o problema das semelhanças ou dos signos de conveniência: “teve influência na construção do saber oriental e desempenhou papel fundamental até o século 16 quando a representação se dava como repetição” (2007, p. 23-24).

O segundo são as terminologias, incoerentes com a dinâmica da rede. Essa lógica se explica pelo fato de o projeto gráfico (e editorial) ser pensado pela continuidade do tempo e pelas tradições de similaridade que constituíram as práticas simbólicas da modernidade, elaboradas no século 19 (IBIDEM). Observar as interfaces atuais é como voltar aos séculos 16 e 19.

Ocorre, porém, que o computador se tornou uma máquina social que opera em relação a outras máquinas, com ferramentas que têm transformado seus pressupostos básicos: datilografar e fazer cálculos. Isso modifica completamente a interface. Que 160

precisa ser repensada do ponto de vista de um mapa cognitivo, o que requer uma nova linguagem visual e um novo vocabulário crítico. É urgente sistematizar critérios para julgar a interface (JOHNSON: 2001, p. 20-21).

O argumento de Giselle Beiguelman é esclarecedor:

Talvez a metáfora do site para designar a situação de não localidade que estrutura o ciberespaço, esteja na raiz desse fenômeno de equívocos terminológicos que não são inconvenientes por serem errôneos, mas por mascararem a situação inédita de uma espacialidade independente da localização em um espaço tridimensional (2003. p. 11-12). Nem mesmo pode-se dizer que esse conjunto de metáforas opere com tamanho sucesso por aproximar distintos backgrounds e repertórios simbólicos, cumprindo a função de um ritual pedagógico de “transição” entre formações culturais distintas. A percepção desse tipo de situação não significa reconhecer que a Internet nada mais faz que incorporar um repertório cultural já existente (IBIDEM, p. 13).

O que está em jogo é compreender de que modo a interfere no processo comunicacional (ver p. 110) e, então, repensá-la a partir da notícia que circula no fluxo cujo tempo agora é simultâneo e atemporal (CASTELLS: 2002, p. 553-560). De que interface fala-se?

Certamente, não mais àquela constituída a partir da remediação, a reprodução de uma mídia em outra. O conteúdo da interface é a media visualization, termo cunhado pelo pesquisador russo Lev Manovich, uma mistura de softwares e formatos sem reduzilos somente a dados. Uma nova linguagem visual híbrida

É nesse contexto que se dão as rupturas, não mais restritas somente às características do Jornalismo de Internet, como destacadas neste capítulo, mas ampliadas às teorias da comunicação como um todo. E a Web, de Tim Berners-Lee, possibilita essa mudança.

161

Em The language of new media (2001), o pesquisador russo Lev Manovich afirmou que a nova mídia não pode ser entendida em uma lógica de transposição de uma forma cultural existente, ou no sentido da metáfora (MCADAMS, 1995; BOLTER; GROMALA, 2003), remetendo-o a modelos anteriores.

Pelo contrário, deve operar no sentido de migração ou de deslocamento, como forma de ampliação dos atuais modelos narrativos. Manovich a definiu como “a convergência de formas culturais contemporâneas (interfaces, hipertexto e base de dados) e modelos anteriores, como cinema, baseadas no computador” (2001, p. 25-48), cujas características são:

1) Representação numérica (todos os objetos da nova mídia são construídos em códigos digitais); 2) Modularidade (a nova mídia possui uma estrutura modular, ou seja, pode ser composta em módulos; 3) Automação (a representação numérica da mídia e sua estruturação modular permitem automatizar muitas operações envolvidas na criação, manipulação e acesso das mídias); 4) Variabilidade (os objetos da nova mídia não são algo fixo de uma vez para sempre, mas algo que pode existir em diferentes e potencialmente em infinitas versões; a ordem dos elementos é essencialmente variável); 5) Transcodificação (traduzir uma forma cultural em outro formato).

Sete anos mais tarde, em Software takes command (2008), o autor propõe uma nova linguagem visual híbrida. Se antes, a nova mídia era resultado de formas culturais contemporâneas baseadas no computador, agora é definida por: a) mudança contínua nas formas (variáveis); b) uso do espaço em 3D como plataforma comum para o design de mídia; e c) integração sistemática de técnicas de mídia não compatíveis.

É o que Manovich chama de deep remixabilility: o remix não envolve apenas conteúdos de diferentes mídias, mas também técnicas fundamentais, métodos de trabalho e modos de representação e expressão. 162

O pesquisador russo apoia-se na experiência com programas usados durante sua trajetória profissional para pensar a Cultura do Software - Word, PowerPoint, Photoshop, Illustrator, Final Cut, After Effects, Flash, Firefox e Internet Explorer, entre outros -, definida por ele como (p. 13):

Um subconjunto de aplicativos de software que permite: publicação, criação, movimento, acesso, compartilhar e remixar imagens, seqüências de imagens em movimento, desenhos 3D, textos, mapas, elementos interativos, bem como várias combinações desses elementos, tais como Web sites, desenhos 2D, gráficos, jogos de vídeo,comerciais e artísticas instalações interativas, etc (enquanto originalmente este software aplicativo foi projetado para rodar no desktop. Hoje algumas das criações de mídia e ferramentas de edição também estão disponíveis como webware, isto é, aplicações que são acessadas via Web como o Google Docs).

Para chegar a essa conclusão, Manovich faz uma revisão histórica do software, cuja expansão se deu principalmente na década de 1990 e nos anos 2000 e hoje deixou de ser considerada uma tecnologia invisível para se tornar o novo padrão intelectual da atualidade e estende também a noção de remediação (BOLTER; GRUSIN: 2000) ao computador.

Ele atribui ao esforço da equipe de Alan Kay, na década de 70, no centro de pesquisa da Xerox no Palo Alto (EUA), a existência de ferramentas, interface e serviços disponíveis nos computadores (MANOVICH, op. cit., p. 34-37).

Embora o cientista americano não tenha sido o único a desenvolver aplicativos de mídia como, por exemplo, programas de desenho e animação (escritos nos anos 1960), ele contribuiu para estabelecer um novo paradigma do computador como mídia (media computing). Mas com um detalhe: a interface criada por Kay transformou o computador em uma máquina que imita a mídia tradicional, com ferramentas de criação e edição semelhantes (IBIDEM, p. 37). Ou seja, o computador vira uma máquina de remediação.

Para Manovich, a única diferença entre a remediação das mídias e do computador consiste em saber como e o que eles remediam. Intrigado, o pesquisador russo pergunta: “Por que essas pessoas dedicaram suas carreiras a criar uma máquina de remediação? 163

Não havia nada de novo nas formulações teóricas de Alan Turing e Von Neumann 170 sobre o computador imitar as mídias tradicionais?”:
(...) Eu quero entender algumas das transformações dramáticas do que é a mídia, o que ela pode fazer, e como nós a usamos - as transformações que estão claramente ligadas à mudança de tecnologias anteriores de mídia para software. Algumas dessas transformações já ocorreram na década de 1990, mas não foram muito discutidas no momento (por exemplo, o surgimento de uma nova linguagem de imagens em movimento e design visual em geral). Outros nem sequer foram nomeados ainda. Ainda outros, tais como remix e mash-up cultura estão sendo encaminhados o tempo todo, e ainda assim a análise de como eles se tornaram possíveis pela evolução de software de mídia até agora não foi tentada (IBIDEM, p. 38).

A justificativa estaria no fato de Kay ter como propósito transformar o computador em uma mídia dinâmica pessoal (tradução de personal dynamics media) na qual é possível aprender, descobrir e criar. Foi o que seu grupo da Xerox fez: simulou a maioria dos meios dentro do computador e também acrescentou novos aplicativos a ele.

Kay e seus colegas desenvolveram uma nova linguagem de programação que permitiu criar novos meios de comunicação a partir de ferramentas já existentes. A essas ferramentas criou-se uma interface unificada com símbolos e ícones para que o usuário pudesse realizar várias funções (IBIDEM, p. 40). A mídia dinâmica pessoal do cientista americano é um novo tipo de meio de comunicação com capacidade de arquivar informação, de simular velhas mídias e de proporcionar conversação bilateral. Embora o computador tenha aparência visual das mídias já existentes, essa mídia funciona de maneira diferente.

Se considerar a fotografia digital superficialmente, ela remediará a fotografia analógica. Mas se for entendido o seu funcionamento e o que pode ser feito a partir e com essa imagem digital, percebe-se que não há remediação e que há diferenças. Por exemplo, a imagem digital é representada por pixels, explica Manovich (2008):

Por exemplo, considere a fotografia digital que muitas vezes imita a aparência na fotografia tradicional. Para Bolter e Grusin, este é o
170

http://bit.ly/qqb7dI.

164

exemplo de como mídias digitais corrigem seus antecessores. Mas em vez de só prestar atenção à sua aparência, vamos pensar em como fotografias digitais podem funcionar. Se uma fotografia digital é transformada em um objeto físico no mundo - uma ilustração em uma revista, um cartaz na parede, uma impressão em uma t-shirt - funciona da mesma forma como o seu antecessor. Mas se deixarmos a mesma fotografia dentro de seu ambiente nativo do computador - que pode ser um laptop, um sistema de armazenamento de rede, ou em qualquer computador habilitado em dispositivo de mídia, como um telefone celular que permite ao usuário editar esta fotografia e movê-la para outros dispositivos e Internet - que pode funcionar de maneira que, na minha opinião, a torne radicalmente diferente do seu equivalente tradicional. Para usar um termo diferente, podemos dizer que uma fotografia digital oferece aos seus usuários muitos recursos que o seu antecessor não digital não pode oferecer. Por exemplo, uma fotografia digital pode ser rapidamente modificada de várias maneiras e igual e rapidamente combinada com outras imagens; instantaneamente movido ao redor do mundo e compartilhados com outras pessoas e inserido em um documento de texto, ou um projeto arquitetônico. Além disso, podemos automaticamente (ou seja, executando os algoritmos apropriados) melhorar o contraste, aumentar a nitidez, e até mesmo em algumas situações, remover borrões (41).

(...) Novos DNAs de uma fotografia digital são devidos ao seu lugar particular de nascimento, ou seja, dentro de uma câmera digital. Muitos outros são o resultado do atual paradigma da computação em rede em geral (42).

A primeira interface de conversação

Embora o trabalho de Alan Kay seja importantíssimo no estudo da interface, há que se destacar o Sketchpad, anunciado em 1962 por Ivan Sutherland, considerado a primeira interface de conversação por Susan Brennan, pesquisadora da obra de Sutherland.

O Sketchpad foi o primeiro sistema de manipulação direta de imagens em uma tela. O uso se dava por meio de uma caneta ótica. Também foi o pioneiro ao utilizar programação aplicada a objetos, que Kay ajudou a desenvolver171. Sutherland detalhou

171

A TALK by Alan Kay. New Media Reader, EUA, 27 mai. 1986. Disponível em: http://bit.ly/nOf0vX. Acesso jan. 2012.

165

o Sketchpad em sua tese de doutorado, apresentada em 1963 no Massachusetts Institute of Technology (MIT)172.

A caneta foi substituída pelo mouse, inventado em 1965 por Douglas Engelbart, engenheiro responsável pela criação do primeiro sistema de aumento da cognição humana, o Augment/NLS. Tratava-se de um processador de texto baseado em hipertexto com uma imensa capacidade de armazenar e classificar informação. Engelbart foi fortemente influenciado por Vanevar Bush e é considerado o pai da interface contemporânea por Steven Johnson:

(...) O programa de Sutherland – chamado Sketchpad – foi o percussor de aplicações gráficas como MacPaint e Photoshop. Estes são, sem dúvida, descendentes notáveis, mas o problema que o Sketchpad procurava resolver era o de como fazer o computador desenhar coisas na tela, como levar a máquina além de uma simples exibição de caracteres. Não encarava o problema mais relevante da tradução de toda a informação digital numa linguagem visual. Essa foi a grande sacada de Engelbart, e estivera empenhado nela havia quase duas décadas (2001: 16) A busca começara com um pequeno e provocativo ensaio intitulado As we may think com que Engelbart topou quando esperava para ser embarcado de volta aos Estados Unidos no fim da II Guerra Mundial. Escrito por um cientista militar de alta patente chamado Vanevar Bush, o ensaio descrevia um processador de informações teórico, chamado Memex, que permitia ao usuário abrir caminho por grandes coleções de dados, quase como um navegador da Web de nossos dias. A imagem obsedou Engelbart durante décadas, à medida que ele fazia carreira irregular na incipiente indústria da computação. A legendária demonstração que fez em São Francisco foi do primeiro produto em condições de funcionamento que sequer se aproximava da funcionalidade do invento especulativo de Bush, o Memex. Doug Engelbart teve uma carreira notavelmente eclética e visionária, mas por essa única demonstração já merece sua reputação de pai da interface contemporânea. (IBIDEM: 17).

172

SKETCHPAD: A man-machine graphical communication system. Techical Report (Cambridge University), set. 2003. Disponível em: http://bit.ly/pmyKcH. Acesso jan. 2012.

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Figura 103. Sketchpad, primeira interface de conversação

Figura 104. Caneta ótica, de Ivan Sutherland

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Figura 105. Sistema Augment/NLS, processador baseado em texto e mouse

Figura 106. A arquitetura Augment/NLS, de Doug Engelbart173

Em 1969, o cientista Thomas Ellis projetou o Grail (GRAphic Input Language). Programado por Gabriel Groner e seus colegas da Rand Corporation, foi precursor no reconhecimento por gesto. Em 1970, Kay anuncia o Dynabook, computador pessoal para crianças. O dispositivo assemelha-se a um tablet. Skatchpad e Grail deram o pontapé inicial à interface gráfica do usuário (GUI, sigla em inglês).

Apesar de os trabalhos de Douglas Engelbart, Vannevar Bush, J.C. Lindlicker e Douglas Engelbart serem orientados ao aumento do trabalho intelectual e o científico, em particular, Manovich escolheu Alan Kay para pensar a nova mídia pela abordagem da
HISTORY in pictures. Doug Engelbart Institute. Disponível em: http://bit.ly/ou1B0p. Acesso jan. 2012.
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pesquisa do cientista segundo a qual o computador é um meio de expressão que permite desenhar, pintar, criar animações e compor música.

Figura 107. Grail, sistema de reconhecimento por gesto, de Tom Ellis

Figura 108. Dynabook, computador pessoal desenvolvido para crianças, de Alan Kay

O pesquisador russo procura entender o que é a mídia depois do software, ou seja, o que aconteceu a técnicas, linguagens e conceitos de mídia do século 20 como resultado da computadorização. Em resumo: o que aconteceu à mídia depois que ela se tornou software-ized (softwarizada) (2008: 39-40). A identidade do computador como mídia demorou 40 anos para surgir, se se levar em conta que o MIT começou a trabalhar

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no primeiro protótipo interativo em 1949, e o lançamento do Photoshop aconteceu em 1989.

Embora exista a perspectiva de interfaces pensadas a partir da deep remixability, as empresas de comunicação trabalham em uma lógica de absoluta remediação. A estética da base de dados resume-se, grosso modo, a um elemento de composição, uma ilustração (ou a um gênero174 do Jornalismo) como, por exemplo, o infográfico. Não há a percepção de que há algo completamente diferente. Um infográfico é apenas parte da narrativa.

Há igual discussão em curso sobre o newsgames. Considerado gênero, o newsgames usa a lógica do jogo para informar (BOGOST et al: 2010, p. 175-181. O termo foi criado em 2003 pelo designer Gonzalo Frasca, desenvolvedor do September 12th, onsiderado um dos primeiros jogos envolvendo o noticiário, que simula o combate ao terrorismo175.

Tag para desenhar

Figura 109. Nuvem de tags dos tópicos mais comentados da The Economist176.
Gêneros são formas que o jornalista busca para se expressar. Seu traço definido está, portanto, no estilo, no manejo da língua: são formas jornalístico-literárias porque seu objetivo é o relato da informação e não necessariamente o prazer estético (GARGUREVICH: 1982 apud MELO: 2003, p. 43). 175 O QUE são os newsgames? Último Segundo, São Paulo, 10 mar. 2008. Disponível em: http://bit.ly/qLUQdV. Acesso jan. 2012. 176 http://econ.st/vJ6ql6. Acesso jan. 2012.
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Já o híbrido, resultado da mistura de formatos e softwares, tem de ser a narrativa principal. Tão importante - ou mais - quanto uma manchete ou uma chamada com foto. Subverte sua origem primeira: ser um acessório.

Aliás, Manovich defende esse híbrido como a nova linguagem visual. Nessa definição não entram newsgames nem infográficos. O autor fez a distinção entre um simples infográfico e uma visualização de tags criada a partir de uma base de dados sem reduzi-la simplesmente a dados superficiais ao cunhar o termo media visualization (2010).

Sabe-se que a tag é vista como algo que atomiza a informação, mas o pesquisador russo vai além:
Considere uma técnica chamada de nuvem de tags177. A técnica foi popularizada pelo Flickr em 2005 e hoje pode ser encontrada em inúmeros sites e blogs. Uma tag cloud mostra as palavras mais comuns em um texto no tamanho da letra correspondente à sua frequência no mesmo texto. Tag cloud exemplifica um método amplo que pode ser chamado de visualização de mídia.

A brasileira Fernanda Viégas, uma das desenvolvedoras do Many Eyes178, plataforma aberta da IBM para criação de base de dados, compara a visualização a escrever e afirma ser um novo meio de comunicação. Em 2010, Fernanda entrou para a lista de mulheres mais influentes do mundo da tecnologia da respeitada revista FastCompany179. Dois anos antes de Manovich e Fernanda, o designer Eric Rodenbeck afirmou que a visualização da informação é uma mídia180. Desse modo, Software takes command (2008) responde a pergunta feita pelo pesquisador em 2001, em Language of the new media: “como a mudança para narrativas baseadas em computador (teleação) redefine a natureza das narrativas precedentes e

Para saber mais sobre tag cloud, ver: http://bit.ly/rvUdEo. Acesso jan. 2012. Para saber mais sobre o Many Eyes, ver: http://bit.ly/uNVPK6. Acesso jan. 2012. 179 CONHEÇA Fernanda Viégas, brasileira que é a "senhora planilha". Terra, São Paulo, 5 mai. 2010. Disponível em: http://bit.ly/qClHTo. Acesso jan. 2012. 180 INFORMATION visualization is a medium. O´Reilly, São Paulo, 4 mar. 2008. Disponível em: http://oreil.ly/rnr1oB. Acesso jan. 2012.
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171

que novas possibilidades emergem desse marco tecnológico e cultural”? Os exemplos da próxima página ilustram a interface da nova linguagem visual híbrida:

Figura 110. Base de dados colaborativa sobre os 66 anos da Bomba de Hiroshima feita na plataforma do Google Earth. O resultado é um arquivo em 3D com depoimentos de sobreviventes e informações coletadas de fontes oficiais181

Figura 111. Tackable, aplicativo para telefones celulares desenvolvido em parceria com o jornal The San Jose Mercury News para uma rede social fotográfica em torno dos profissionais a empresa e dos cidadãos. A ideia é que os editores do jornal possam recolher material georeferenciado para ilustrar o noticiário182.

Para saber mais sobre o Hiroshima Archive, ver: http://bit.ly/tXJV74. Acesso jan. 2012. Para saber mais sobre o Crowdsourced photojournalism app, ver: http://bit.ly/vWNGGz. Acesso jan. 2012.
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Figura 112. Interface em tempo real de posts do Twitter via Google183

Figura 113. Ushahidi, plataforma de criação de mapa open source, utilizada pela BBC de Londres para mostrar os problemas causados pela greve do metrô, que afetou milhares de pessoas em setembro de 2010. Os cidadãos podiam enviar para a rede inglesa mensagens em texto, vídeo, áudio e tweets, com a hashtag #TubeStrike. O resultado é m mapa colaborativo e detalhado, atualizado quase que em tempo real. O Ushahidi ganhou fama nas eleições do Quênia, em 2007184.

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A pesquisa por real time não está mais disponível no Google. Para saber mais sobre o Ushahidi, ver: http://bit.ly/vZjRwq. Acesso jan. 2012.

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Figura 114. Revisit é uma visualização dinâmica de tweets sobre um tema específico. A plataforma customizar visualização de posts e enfatizar conversas estabelecidas por retweets (replicar mensagens) ou replies (respostas)185.

Figura 115. TimeSpace, do The Washington Post – Trata-se de um mashup noticioso, um mapa no qual é possível acessar textos, fotos, vídeos e comentários sobre notícias ao redor do mundo além de fazer busca customizada de conteúdo186.

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Para saber mais sobre o Revisit, ver: http://bit.ly/taGqzk. Acesso jan. 2012. Para saber mais sobre o TimeSpace, ver: http://wapo.st/rA0N53. Acesso jan. 2012.

174

Figura 116. Termômetro do Guardian sobre como o Twitter reagiu ao anúncio do fechamento do News of the World, de Rupert Murdoch187. Profissionais que trabalhavam para o jornal de Murdoch foram acusados de grampear quatro mil pessoas, entre elas celebridades, para obter informações exclusivas188. Durante quatro dias, o Guardian analisou meio milhão de posts com a hashtag #notw para captura a reação das pessoas ao escândalo.

Figura 117. Cascade – Aplicativo open source desenvolvido pelo The New York Times Labs para analisar o impacto de seus conteúdos nas redes sociais. A ferramenta constroi uma visualização de dados a partir de comportamento e de como a informação se propaga em redes como Twitter, por exemplo189.

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HOW TWITTER tracked the News of the World scandal. The Guardian, Londres, 13 jul. 2011. Disponível: http://bit.ly/s2Q4qd. Acesso jan. 2012. 188 MURDOCH DIZ: "Lamentamos pelo escândalo do grampo”. Reuters, São Paulo, 16 jul. 2011. Disponível em: http://bit.ly/rL4URQ. Acesso jan. 2012. 189 Para saber mais o Project Cascade, ver: http://bit.ly/vbLf2x. Acesso jan. 2012.

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Arquitetura da informação ainda dá conta?

Para compreender de que forma chegou-se à nova linguagem visual híbrida da qual fala Manovich é preciso, porém, revisitar dois principais conceitos que balizam o Jornalismo de Internet e estão na ordem do dia: arquitetura da informação e interface.

Se na mídia tradicional, a exigência é a de alguém com boa formação cultural, conhecimento geral e domínios das línguas portuguesa e estrangeira; na rede essa perspectiva é outra: o profissional é visto também como um arquiteto da informação, pois está inserido na concepção dos princípios sistemáticos, estruturais e organizacionais para fazer algo funcionar – a estrutura elaborada de um artefato, ideia ou política que se evidencia por ser nítida (WURMAN, 1996, p. 16).

No mesmo grupo, está o designer informacional, responsável por planejar um ambiente visual que organiza o material a ser apresentado na tela do computador (GARCIA, 1997, p. 5). É verdade que o jornalista responsável pelo fechamento da primeira página do jornal impresso trabalha com noções semelhantes, já que organiza um mosaico informativo também na Internet.

No caso da arquitetura da informação, no Brasil o conceito foi adotado nos anos 2000 pela primeira vez por Beth Saad, da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Xosé García López, Manuel Gago Mariño, José Pereira Fariña (2003) e Elias Machado (2004) propuseram um alargamento do conceito, sobretudo após a atualização de Louis Rosenfeld e Peter Morville (1998) para a web.

Para eles, arquitetura da informação seria entendida da seguinte forma: 1) sistema de orientação na busca (1962); 2) orientação na busca e recuperação de informação (1990); e 3) roteiro para criação de narrativas multimídias (2000).

Já o designer da informação, deve ter habilidades em: 1) Gerenciamento; 2) Arte visual; 3) Linguagem; 4) Tecnologia e 5) Jornalismo, conforme defende Mario Garcia (op. cit., p. 22-29). Garcia destaca que, no caso do Jornalismo, o conhecimento da área contribui para a melhor apresentação do conteúdo em uma interface na Internet e 176

enumera cinco competências: hierarquia, brevidade, acuracia, relatividade (localizar conteúdos já destacados e indicar arquivo e busca) e consistência (oferecer background).

Figura 118. Esboço de arquitetura da informação (MORVILLE; ROSENFELD, 1998)

Ainda que com uma proposta para ir além das noções de Richard Wurman e Peter Morville, a arquitetura da informação remete à estrutura, à organização. E é por essa razão que os projetos de jornalismo para a Internet não abandonaram a influência das mídias clássicas e, mesmo identificadas como um PowerPoint com multimídia, continuam reproduzindo metáforas analógicas.

Interface como superfície

Outra questão que se coloca nessa discussão é o conceito de interface, frequentemente confundido com o de superfície nos jornais de Internet. De modo geral, a interface é compreendida como algo que conecta o homem à máquina (LEMOS: 2004). O The Internet Dictionary diz que interface ou (user interface) é a parte de um programa

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que interage entre usuário e uma aplicação. Ou GUI (Graphical User Interface), que oferece uma navegação amigável, baseada em imagens.

Para Alison J. Head (1999) significa o modo de comunicação com o usuário por meio do design, formado por ícones, menus, mouse, teclado e outros dispositivos interativos. Steven Johnson afirma que “mais do que ferramentas, estamos diante de aplicações que se assemelham mais a um ambiente, a um espaço” (2001, p. 17-20).

Para o jornalista e escritor americano, o termo se refere a softwares que dão forma à interação entre usuário e computador. A interface atua como uma espécie de tradutor, mediando entre as duas partes, tornando uma sensível para a outra. Essa mediação se torna necessária porque a lógica do pensamento humano se dá por meio de palavras, conceitos, imagens, sons e associações, sendo difícil compreender a linguagem de sinais e símbolos numéricos usados pelo computador (2001, p. 17).

O pai do Macintosh (Apple), Jef Raskin, defende que a interface é qualquer modo como um usuário executa tarefas em um dispositivo, e que faz com que ele responda (2002, p. 2). Já André Lemos trabalha com a ideia de manipulação direta (direct manipulation), ou seja, a interface atua como um mediador cognitivo, e essa mediação é criada por meio de uma ação global com múltiplos agentes em uma manipulação direta da informação (1997).

Lev Manovich denominou interfaces culturais a relação homem-computadorinterface, pois os computadores apresentam e permitem a interação de dados digitais que formatam modalidades culturais. A nomenclatura proposta pelo pesquisador russo tem origem na análise das formas culturais existentes - palavra impressa e cinema, por exemplo. Que o autor também classifica como interfaces culturais.

Esse entendimento passa necessariamente pela redefinição da relação entre homem e máquina, amplamente discutida por autores como Gilbert Simondon (1958), Anthony Giddens (1991), Félix Guatarri e Gilles Deleuze (1976), e que põe fim a abordagens romântica (a estética ciborgue não deve ser uma herança na qual o corpo é a parte desprezível e ele deve ser a máquina) e cartesiana (a parte mental é superior e o 178

corpo é a parte maquínica, que obedece a comandos pré-programados) para dar lugar à ideia de que a máquina é entendida como um fenômeno heterogêneo, em que há uma subjetividade particular ou várias, mas não existe uma máquina em si.

Com isso, a ideia segundo a qual técnica e ambiente não são distintos, mas imbricados, possibilita a criação de interfaces dinâmicas no âmbito da Internet das Coisas, pois a técnica é condição para uma intervenção humana adequada, e o ambiente é o meio associado que assegura o desempenho técnico. A máquina, no entendimento de Simondon (1958, p. 60), representa a materialização do pensamento humano, que forja conexões mentais e depois as inscreve no objeto.

Isso posto, percebe-se, portanto, de que maneira as empresas de comunicação operam na rede. Além da aposta em multimídia e links para redes sociais, grosso modo, os projetos gráficos baseiam-se em uma máxima que surgiu após a grande mudança instituída no Jornal do Brasil por Jânio de Freitas, no final dos anos 1950: as reformas de jornal alternam-se por tirar e colocar fios.

Em junho de 1959, o jornalista, hoje colunista da Folha de S.Paulo, decidiu arrancar os fios das páginas e aumentar o tamanho das fotos no JB. Dizia que os leitores não liam fios. Também integravam o time Odylo Costa Filho, Ferreira Gullar, Alberto Dines e Reynaldo Jardim190.

Não é novidade que qualquer projeto passa pelo planejamento editorial e pela definição de público (AMARAL, 2004). Um caminho talvez seja repensar a interface e perfilar o público habituado cada vez mais a Internet das Coisas. Entre todas as definições apontadas até agora, talvez, seja mais coerente pensar na proposta por Steven Johnson:

“A interface atua como uma espécie de tradutor, mediando entre as duas partes, tornando uma sensível para a outra”. Isso não exclui o entendimento de a interface ser a mensagem.
JB CRIOU nova concepção gráfica e editorial no jornalismo brasileiro. Último Segundo, São Paulo, 30 ago. 2010. Disponível em: http://bit.ly/o02rkq. Acesso jan. 2012.
190

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Tabela 8. Jornalismo ontem e hoje
Ontem Jornalismo Digital Mundo virtual/ciberespaço Computador como meio Fases Jornalismo de Internet Internet das Coisas Interface como meio Remediação/Media visualization Hoje

A inteligência distribuída deslocou a fonte Mas o que tem impedido interface de se impor completamente como mensagem aos conglomerados de mídia? Aos que sustentam que o que vale é o repórter e a fonte191, esquecem-se de que o Wikileaks jogou por terra essa regra quando mostrou ao mundo todo que a fonte se deslocou.

Criada em 2006, a base de dados de Julian Assange provocou um terremoto diplomático mundo afora ao reforçar a liberdade da informação quando foi ao ar um vídeo192 que mostrava soldados americanos em Bagdá matando civis, entre os quais dois jornalistas da Reuters.

Assange tem acordos com jornais como Guardian, New York Times e Der Spiegel por acreditar que a mídia impacta de maneira estrondosa seus vazamentos. Os dados brutos do Wikileaks são talhados por um time composto por matemáticos e jornalistas para transformar informações em notícia como a que originou a divulgação de 90 mil telegramas sobre as operações militares dos EUA, entre 2004 e 2009, no Afeganistão.

A publicação levou o australiano à prisão. Oficialmente, não por esta razão, mas acusado de crimes sexuais193.

'JORNALISMO não é arte, é trabalho coletivo'. O Globo, Rio de Janeiro, 11 out. 2011. Disponível em: http://glo.bo/qfizEs. Acesso jan. 2012. 192 WIKILEAKS media insurgency. The New Yorker, EUA, 31 mai. 2010. Disponível em: http://nyr.kr/sBEROI. Acesso jan. 2012. 193 ASSANGE, o fundador do WikiLeaks, é preso em Londres. Veja, São Paulo, 7 dez. 2010. Disponível em: http://bit.ly/uWxM0c. Acesso jan. 2012.
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E mais: a rede opera por meio de uma inteligência distribuída ou coletiva194 que não se restringe mais necessariamente a repórter e fonte. Uma das razões, sem dúvida alguma, é o uso maciço de Twitter e Facebook.

Se antes, para obter alguma visibilidade, a participação do cidadão na produção de conteúdo estava restrita à aprovação do mainstream da mídia, nas redes sociais essa lógica rompe os paradigmas em vigor. Jornalistas e não jornalistas estão no mesmo patamar. Com a diferença de que os não jornalistas disputam agora o campo pela validação de informação pelos seus pares.

A máxima segundo a qual os donos dos meios sempre se empenham em dar ao público o que o público deseja porque percebem que a sua força está no meio e não na mensagem ou na linha do jornal (MCLUHAN: 1964, p. 245) perdeu um pouco do sentido depois do crowdwsourcing (produção colaborativa)195, ainda que Assange compartilhe do pensamento macluhaniano sobre o meio ser mais forte que a mensagem.

A cobertura da imprensa sobre a invasão da reitoria da Universidade de São Paulo (USP) reflete bem isso. Obviamente, sabe-se que há manifestações orquestradas em redes sociais que operam a partir de lideranças e ideologias como, por exemplo, àquelas relacionadas à política (CASTELLS: 2009).

De modo geral, jornais, emissoras de rádio e tevê, Internet e opinião pública abordaram o caso com repúdio veemente aos alunos, chamados de "delinquentes mimados", "playboys" e "bebês da USP". Tomaram como verdade absoluta as versões da polícia. De fato, foi difícil para a imprensa perfilar os rebeles, pois trataram mal os jornalistas, com silêncio, empurrões e pedradas (SINGER: 2011).

Mas havia outro um lado: estudantes da universidade não envolvidos no conflito cujos relatos (ainda que produzidos para jornais acadêmicos) foram parar nas redes
É uma inteligência distribuída por toda a parte, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que resulta em uma mobilização efetiva das competências. A base e o objetivo da inteligência coletiva são o conhecimento mútuo das pessoas e não o culto de comunidades fetichisadas ou hipostasiadas (LÉVY, 1999, p. 28). 195 Para saber mais sobre Crowdsourcing, ver: http://bit.ly/vR7yxJ. Acesso jan. 2012.
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sociais e reverteram de alguma maneira a noção segundo a qual se tratava de mocinhos (polícia) versus bandidos (invasores da reitoria). Testemunho de Job Henrique, estudante da Escola de Comunicação e Artes (ECA), publicado no Facebook, mostra outro ângulo da situação196:

O que eu, Bruno e mais uma repórter, a Glenda, vimos do lado de fora, foi cena de cinema. Foi incrível, inacreditável, assustador, sombrio, amedrontador. Uma operação de guerra, com viaturas blindadas chegando a todo instante. Policiais desciam de suas viaturas com escopetas (carregadas com munição não letal, como me confirmou um deles) a tiracolo, sem nenhuma identificação no colete antibalas. Em apenas 10 minutos, um contingente militar havia se instalado ao redor da reitoria. Tentamos avançar e encontrar com a Shay, mas um policial foi bem claro: ‘Xispa daqui’. Não adiantava afirmar que éramos imprensa, pois a cara de estudante denunciava em nós um inimigo em potencial.

Esse outro lado resultou em um editorial publicado pela Folha de S.Paulo com críticas à cobertura feita por seus profissionais197. Demonstra que o jornal (marca) não é mais importante do que a notícia que publica. Assim, muda a perspectiva mcluhaniana. Importante também é a mensagem publicada por meio do crowdsourcing.

Isso não significa excluir os veículos de comunicação, mas integrá-los a essa nova dinâmica. Eles são parte do processo, mas não determinam completamente a credibilidade da informação e nem a sua angulação.

Prova disso foi o movimento encampado pela mídia brasileira e estrangeira, como The Washington Post, Reuters, Bloomberg, Folha de S.Paulo, O Globo e TV Record, contra publicação de notícias exclusivas em redes sociais, especialmente o Twitter. Por quê? Para que jornalistas, ainda que carreguem em suas assinaturas a marca da empresa na qual trabalham, não prejudiquem o negócio jornal.

HENRIQUE, J. O que eu assisti na desocupação da reitoria. Facebook, São Paulo, 9 nov. 2011. Disponível em: http://on.fb.me/uhSSGx. Acesso jan. 2012. 197 SINGER, S. A imprensa burguesa no campus. Folha de S.Paulo, 13 nov. 2011. Disponível em: http://bit.ly/rB6L56. Acesso jan. 2012.
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O comunicado da Folha foi redigido com esse propósito. Distribuído em setembro de 2009 pela editora-executiva, Eleonora de Lucena, trazia as seguintes

recomendações198:
Os profissionais que mantêm blogs ou são participantes de redes sociais e/ou do Twitter devem lembrar que: a) representam a Folha nessas plataformas, portanto devem sempre seguir os princípios do projeto editorial, evitando assumir campanhas e posicionamentos partidários; b) não devem colocar na rede os conteúdos de colunas e reportagens exclusivas. Esses são reservados apenas para os leitores da Folha e assinantes do UOL. Eventualmente blogs podem fazer rápida menção para texto publicado no jornal, com remissão para a versão eletrônica da Folha.

Porém, apesar de os veículos de comunicação tentarem estriar o espaço nas redes sociais, o agenciamento coletivo de enunciação se impõe, ainda que o ponto de partida seja o do produser/prosumer e, aos poucos, leve a um coletivo (também formado por jornalistas) cujo resultado, mesmo com prejuízo financeiro, seja o de vazar a informação antes guardada para vender jornal.

Há vários exemplos que ilustram essa disputa de campo. A notícia do afastamento de ministros do governo Dilma Rousseff foi publicada no Twitter. Jornalistas que cobrem o setor chegaram a disputar quem foi o primeiro a dar o furo. Também foi informada em primeira mão no microblog a saída da apresentadora Fátima Bernardes da bancada do Jornal Nacional (TV Globo). Há outras situações já citadas nesta tese, a partir da página 111.

198 FOLHA cria regras para seus jornalistas no Twitter. TOLEDOL, blog sobre RAC, São Paulo, 9 set. 2009. Disponível em: http://bit.ly/sF7pFA. Acesso dez. 2011.

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Figura 119. Twitter da jornalista da Folha, Mônica Bergamo, com noticiário exclusivo, em dezembro de 2011.

Outro exemplo de produção colaborativa de jornalistas se deu em abril de 2011 com o massacre na Escola Municipal Tasso de Silveira, no Rio de Janeiro. Wellington Menezes de Oliveira invadiu a escola e abriu fogo contra os alunos. Doze crianças morreram e o atirador cometeu suicídio199.

Profissionais de O Globo, Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo, entre outros, completaram informações sobre o caso pelo Twitter, sobretudo em relação à localização de parentes do atirador. Quem acompanhava, obtinha notícias atualizadas sem precisar acessar a URL do jornal. Isso representa um novo paradigma na interface da notícia que circula em rede.

TRAGÉDIA em escola no Rio de Janeiro. Veja, São Paulo, 7 abr. 2010. Disponível em: http://bit.ly/tKHHQl. Acesso jan. 2012.
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A influência da arte digital

É verdade que a Internet provocou rupturas no Jornalismo, como a quebra da temporalidade, a recuperação da informação e uma nova linguagem visual. Mas a maior delas, a mais importante e a que reconfigura completamente esse campo da comunicação é o fato de a interface implodir a página, seja na Web ou em aplicativos (no caso, abertos).

Isso significa perder o processo de padronização editorial, particularmente calcado pela hierarquia. De que maneira isso começou? Nomadismo, agenciamento e revezamento de Gilles Deleuze e Félix Guattari dão fundamento a essa mudança.

Porém, não é possível abordar a ruptura das estruturas que balizam o design do Jornalismo sem antes refletir sobre o processo criativo da arte digital. De certo modo, a interface da arte digital tem repertório suficiente para orientar o fluxo noticioso na Internet. Há dezenas de exemplos que transpostos ao Jornalismo não o descaracterizam.

Pelo contrário. Rompem paradigmas calcados na hierarquia, presos ao formato200 e reforçam a urgência em repensá-lo no âmbito da sociedade em rede ou pósfordismo, cuja essência é o agenciamento coletivo de enunciação em uma cultura predominantemente baseada em dados em detrimento ao pensamento conduzido pela linha de montagem, da cultura padronizada. Marshall McLuhan fez uma analogia interessante sobre Henry Ford e Gutenberg, embora restrito, à época, a tevê:

Foi a TV que vibrou o maior golpe no carro americano. O carro e a linha de montagem se haviam tornado a última expressão da tecnologia de Gutenberg; ou seja, da tecnologia de processos uniformes e repetitivos aplicados a todos os aspectos do trabalho e da vida. A TV pôs em questão todos os pressupostos mecânicos sobre a uniformidade e a padronização, bem como sobre todos os valores do consumidor (1964: 250).

O que faz um programa ser de determinada forma, usar determinados enquadramentos de imagens, planos, cenário, recursos narrativos e de edição, presença ou não de um apresentador ou repórter, ser ao vivo ou gravado, seu assunto, tema e duração, é justamente a definição do seu formato. Nota-se que também as rádios jornalísticas funcionam com base na definição de uma programação diária, baseada no encadeamento de formatos radiofônicos. (RAMOS, 2009, p.1).
200

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(...) aonde um automóvel pode ir, os demais também podem, e onde quer que o automóvel vá, a versão-automóvel da civilização o acompanha com toda certeza. Ora, este é o sentimento orientado pela TV, não apenas anti-carro e anti-padronização, mas também antiGutenberg – e, portanto, antiamericano. Claro que sei que John Keats201 não quis significar isto. Ele nunca pensou sobre os meios ou sobre a maneira pela qual Gutenberg criou Henry Ford, a linha de montagem e a cultura padronizada. Tudo o que sabia é que era popular atacar o uniforme, o padronizado e as formas quentes202 de comunicação em geral (IBIDEM: 251).

Os computadores passaram a ser utilizados na arte no início dos anos 1960. Os primeiros trabalhos foram assinados por Michael A Noll, um pesquisador da Bell Laboratories203, de New Jersey. Entre eles estão Guassian Quadratic (1963), exibido em 1965 como parte da Computer-Generated Picture´s, realizada na Howard Wise Gallery, de Nova York.

Bela Julesz e os alemães George Nees e Frieder Nake também tiveram suas obras incluídas naquela exposição. Embora as peças se assemelhassem a desenhos abstratos que replicavam formas estéticas de expressão muito familiares às da mídia tradicional, capturavam uma estética essencial do novo meio que delineava funções matemáticas básicas para orientar a arte digital (PAUL: 2008, p. 15). Na mesma direção estão os trabalhos de John Whitney, Charles Csuri e Vera Molnar. Produzidos na década de 1960, permanecem influentes hoje para as pesquisas sobre transformações de imagens geradas por computador por meio de funções matemáticas.

Whitney (1917-1996), considerado o pai da computação gráfica, usou antigos computadores militares para criar seu curta-metragem Catalog (1961), um catálogo de

201 202

The Insolent Chariots (As Carruagens Insolentes) apud McLuhan, 1964, p. 251. Há um principio básico pelo qual pode se distinguir um meio quente, como o rádio, de um meio frio, como o telefone, ou um meio quente, como o cinema, de um meio frio, como a televisão. Um meio quente é aquele que prolonga um único de nossos sentidos e em alta definição. Alta definição se refere a um estado de alta saturação de dados. O telefone é um meio frio, ou de baixa definição, porque ao ouvido é fornecida uma magra quantidade de informação. A fala é um meio frio, de baixa definição, porque muito pouco é fornecido e muita coisa deve ser preenchida pelo ouvinte. De outro lado, os meios quentes não deixam muita coisa a ser preenchida ou completada pela audiência. Um meio quente, como o rádio, e um meio frio, como o telefone, têm efeitos bem diferentes sobre seus usuários (IBIDEM: 38). 203 Para saber mais sobre a Bell Labs, ver: http://bit.ly/rKPbW3. Acesso jan. 2012.

186

efeitos sobre o qual se debruçou anos a fio. Mais dois filmes produzidos após esse curta Permutations (1967) e Arabesque (1975) –, assegurou-lhe a reputação de pioneiro em filmagem computadorizada.

O cineasta também colaborou com seu irmão, o pintor James (1922-1982), em diversos filmes experimentais. Csuri, cujo filme Hummingbird (1967) é um marco da animação feita por computador, fez suas primeiras imagens digitais em 1964, em um IBM, modelo 7094.

A saída do IBM 7094 consistia de cartões perfurados de 4 x 7 polegadas, que continham informações para acionar uma plotter de cilindro, especificar quando apanhar, mover e soltar a caneta, sinalizar a chegada do fim da linha, e assim por diante (IBIDEM, p. 15-16).

Foi na transição da era industrial para a era eletrônica que aumentou o interesse dos artistas por intersecções entre arte e tecnologia. Em 1966, Billy Kluver fundou o Experiments in Art and Technology (EAT), cujo propósito era desenvolver uma colaboração efetiva entre engenharia e arte. Em mais de uma década, Kluver fez

parcerias com Andy Warhol, Robert Rauschenberg, Jean Tinguely, John Cage e no pavilhão da Pepsi-Cola, na World Expo 70, em Osaka (Japão).

O EAT foi a primeira instancia de colaboração complexa entre artistas, engenheiros, programadores, pesquisadores e cientistas que se tornaria mais tarde a característica da arte digital. Notadamente, o instituto também recebeu apoio criativo da Bell Labs que se tornou uma estufa de experimentação artística (IBIDEM).

Os antecessores das atuais instalações digitais também exibiram suas obras na década de 1960. Em 1968, a mostra Cybernetic Serendipity, no Institute of Contemporary Arts de Londres, apresentou trabalhos focados na estética orientada por máquinas e transformação, explorando variadas possibilidades de interação e sistemas abertos, como um “pós-objeto”.

187

No artigo Systems Aesthetics and Real Time Systems, o crítico americano Jack Burnham trata dos sistemas de abordagem da arte: um dos pontos de vista é o sistema com foco na criação do estável, em curso nas relações entre sistemas orgânicos e não orgânicos.

De modo diferente, este argumento da arte como sistema ainda mantém posição de grande vulto nos atuais discursos sobre arte digital. Nos anos 1970, Burnham foi curador de uma exposição chamada Software no Jewish Museum de Nova York na qual incluiu um protótipo do Xanadu, sistema hipertextual de Ted Nelson (IBIDEM, p. 16-17).

Na mesma época, usando novas tecnologias como vídeo e satélites, artistas começaram a experimentar performances ao vivo, antecipando as interações que tomaram conta da Internet por meio de streaming e transmissão direta de imagens e sons.

Esses projetos consideravam desde aplicação de satélites para estender a disseminação em massa da transmissão televisiva ao potencial estético da teleconferência em vídeo e à exploração do tempo real que desmoronou as fronteiras geográficas (IBIDEM, p. 18).

Nas décadas de 1970 e 1980, pintores, escultores, arquitetos, fotógrafos e videoartistas e artistas performáticos começaram a aumentar consideravelmente experiências com técnicas de imagem baseadas no computador. Neste período, a arte digital evoluiu em muitas vertentes, desde obras orientadas por aspectos dinâmicos e interativos a conceitos de movimento de fluxos. Essas tecnologias e a mídia interativa desafiaram as tradicionais noções de obra de arte, audiência e artista (IBIDEM, p. 21).

A arte digital é frequentemente transformada em um processo de estrutura aberta baseado no fluxo de informação e no engajamento do participante. O público se torna parte do trabalho ao remodelar componentes textuais e visuais de um projeto. Em vez de ser o único criador da obra, o artista vira um mediador ou facilitador da interação que resulta em contribuição. Essa interação é o que Claudia Giannetti chama de Endoestética (ver p. 102). 188

A arte digital pôs fim aos limites entre as disciplinas de arte, ciência, tecnologia e design, incluindo pesquisa e desenvolvimento. Desde história, passando pela produção e manifestação, a arte digital desafia a categorização (IBIDEM, p. 21-22).

Agora, é o Jornalismo de Internet que coloca à prova a ordenação. No artigo Ontology is Overrated: Categories, Links, and Tags, o escritor americano Clay Shirky afirma que a Web provoca uma ruptura radical nessas estratégias existentes em vez de ser apenas uma extensão delas:

O que eu acho que está chegando diferentemente são maneiras muito mais orgânicas de organização da informação que os nossos esquemas de categorização atuais permitem, com base em duas unidades - a ligação, o que pode apontar para qualquer coisa, e a marca, que é uma forma de colocação dos rótulos de ligações. A estratégia de etiquetar - de forma de livre rotulagem, sem levar em conta restrições categóricas parece ser uma receita para o desastre, mas como a internet tem nos mostrado, é possível extrair uma quantidade surpreendente de valor de grandes conjuntos de dados desorganizados (2005)204.

Links tomam o lugar das prateleiras Shirky dá exemplos de interfaces que operam desde a lógica do que ele denominou sistemas de arquivos e hierarquia, com links, como o Yahoo!, até a não hierarquia. Na opinião dele, foi incorporada à Internet o formato biblioteca para armazenar conteúdo: "Ambos bibliotecários e cientistas da computação acataram a mesma idéia que é: ‘Você sabe, não faria mal adicionar algumas ligações secundárias aqui '- links simbólicos, aliases, atalhos, o que você quiser chamá-los’”.

204 SHIRK, C. Ontology is overrated -- Categories, links, and tags. Disponível em: http://bit.ly/tP1YnM. Acesso jan. 2012.

189

Figura 120. Hierarquia - Há um nível superior, com subdiretórios. Subdiretórios contêm arquivo ou outros subdiretórios e assim por diante. Bibliotecários e cientistas da informação defendem a ideia segundo a qual não fará mal algum em acrescentar a esse formato links secundários.

Figura 121. Hierarquia com links - A maioria dos sistemas criados para subdividir o mundo funciona assim, como a Biblioteca do Congresso dos EUA. Há, por exemplo, em seu catálogo, um livro sobre os Balcãs. Ora, esse é um livro sobre arte, mas também de história. Portanto, a palavra-chave que o localiza tem de abranger o seu significado total. Ou seja, é preciso uma tag (ou mais de uma) que facilite a busca. Uma das coisas que Tim Berners-Lee ensinou, no início dos anos 1900, é que é possível não apenas alguns links, mas centenas, milhares deles.

190

Figura 122. Hierarquia com muitos links – Esse é o lugar onde o Yahoo! abandonou o barco. A regra da ferramenta de busca é que uma URL só pode aparecer em três lugares. A justificativa, segundo Shirky é a de que o Yahoo! não queria receber spam, pois estavam desenvolvendo um diretório comercial. Ledo engano: os donos do negócio deixaram de investir na lógica da Web: quanto mais links expostos, menos hierarquia. Não há mais prateleira ou arquivos. Os links por si só são suficientes.

Figura 123. Apenas links (Não há sistema de arquivos) – Uma das razões pelas quais o Google foi bem-sucedido é o entendimento de que não há arquivos, não há prateleiras e não é preciso prever o que o internauta quer. A ideia é oferecer o melhor resultado da busca baseado em uma dinâmica em links.

No caso da arte digital, há uma série de trabalhos que dão a dimensão da obra composta pela lógica matemática e pela não categorização, ainda que, em alguns casos, as palavras-chave (tags) sejam pré-determinadas. São repertórios que corroboram a 191

necessidade de uma crítica da interface que dê conta das nuances particulares da Internet e da experiência em rede. E vão de encontro à proposta de Shirky apresentada anteriormente.

Foi assim com as redes sociais e, mais especificamente, com as tags que, ao serem incorporadas, inauguraram uma nova maneira de ler, de produzir notícia e reformataram a interface. O processo se dá por meio do algoritmo205, responsável pela busca de informação para compor uma obra.

Há um sem números de projetos que ilustram essa lógica, como 10 by 10 (www.tenbyten.org), youTag (www.youtag.org), Locative Painting Your Life Our Movie

(www.yourlifeourmovie.org),

(www.locativepainting.com.br),

Sensitive Rose (www.sensitiverose.com), ThoughtMesh (http://thoughtmesh.net), The Origin of Species (http://benfry.com/traces), We Feel Fine (http://www.wefeelfine.org) e Geoplay (http://www.geoplay.info/pt)

Também integram composições cujas variáveis vão desde palavra-chave mais acessada à palavra-chave mais postada: Filosofia da Caixa Prata

(http://bogotissimo.com/silverbox/br), Zexe.net (www.zexe.net), Open Street Map (www.openstreetmap.org) e as plataformas do Google – Earth, Maps, Street View (http://www.google.com/intl/pt-BR/options) – entre outros.

Na realidade, trata-se de programações que permitem várias combinações no espaço estriado da Internet, que são recombinadas e compartilhadas a cada agenciamento. É nesse sentido que se dá o movimento nomádico: um revezamento contínuo de territorialização e desterritorialização, ou seja, ocupa momentaneamente, se desloca e volta a ocupar, como os Flash mobs, organizados para realizar ações que respondam a agenciamentos coletivos de enunciação.

205

É uma sequência finita de instruções bem definidas e não ambíguas, cada uma das quais pode ser executada mecanicamente num período de tempo finito e com uma quantidade de esforço finita. In: Wikipedia. Disponível em: http://bit.ly/sFCuYf. Acesso jan. 2012.

192

É micropolítica, não tem como objetivo elaborar estruturas capazes de se reproduzirem permanentemente (BEIGUELMAN: 2009).

Figura 124. Your Life, Our Movie, de Fernando Velázquez, Bruno Favaretto e Francisco Lapetina, cria um filme a partir de palavras-chave da base de dados do Flickr206.

Figura 125. 10 x 10, de Jonathan Harris – A cada hora, o 10 x 10 exibe 100 fotos relacionadas a 100 tags mais populares de fontes como ABC, BBC, The Guardian, MSNBC e Reuters207.

206 207

Para saber mais sobre o Your Life Our Movie, ver: http://bit.ly/u3AI0D. Acesso jan. 2012. Para saber mais sobre o 10x10 , ver: http://bit.ly/u0LfcJ. Acesso jan. 2012.

193

Figura 126. The Origin of Species, de Ben Fry, mostra atualizações feitas nas seis edições de A Origem das Espécies, de Charles Darwin, cuja primeira edição foi publicada em 1859208. Na primeira, o livro era composto por aproximadamente 150 mil palavras. Já a sexta contemplava 190 mil. A ideia é mostrar as mudanças produzidas no texto ao longo dos anos209.

Figura 127. We Feel Fine, de Jonathan Harris e Sep Kamvar, mostra atualização contínua do comportamento das pessoas na Internet. O sistema varre a Web em busca de frases que comecem por “I feel” (“Eu sinto”, em português). Cada sentimento é associado a sexo, idade, lugar, previsão do tempo de onde o post foi escrito e data210.

208 209

Para saber mais sobre a vida e a obra de Charles Darwin, ver: http://bit.ly/tZJp2Y. Acesso jan. 2012. Para saber mais sobre The origin of species, ver: http://bit.ly/uyrK9F. Acesso jan. 2012. 210 Para saber mais sobre We Feel Fine, ver: http://bit.ly/sXbCJG. Acesso jan. 2012.

194

A notícia em rede

Essa narrativa que reconfigura a interface é também percebida claramente no Twitter, cujo projeto original era o de ser uma rádio (www.odeo.com) e hoje é uma espécie de SMS muldimidiático (Short Message Service), cujo acesso se dá basicamente por meio de hashtags, links e textos restritos a 140 caracteres.

Hashtags são palavras ou frases precedidas do sinal # (sustenido). Elas foram utilizadas no microblog pela primeira vez em 23 de agosto de 2007 por Chris Messina211, um desenvolvedor do Google, para organizar grupos ou categorizar informação212.

Figura 128. Proposta de uso de hashtag no Twitter, de Chris Messina

No início da década de 1990, o programador Jack Dorsey, pensando na tecnologia usada para localizar taxistas, se perguntou por que não utilizá-la para encontrar pessoas. Assim nascia a ideia do Twitter, criado em 2006 após Dorsey convencer Evan Willians, desenvolvedor do Blogger (da Google), e Biz Stone, diretor de criação, a ajudá-los nessa empreitada (MOHERDAUI: 2009). “O Twitter foi criado como uma manifestação social”, conta seu co-criador, Evan Henshaw-Plath213. Já as tags começaram a ser apropriadas como marcadores de conteúdo em 2003214. O bookmark de.li.ci.ous215 foi o primeiro a permitir inclusão de palavras-chave

211 212

Para saber mais sobre Chris Messina, ver: http://bit.ly/vNIakC. Acesso jan. 2012. GROUPS FOR Twitter; or A proposal for Twitter Tag Channels. Factory Joe, EUA. 25 ago. 2010. http://bit.ly/tFE9xn. Acesso jan. 2012. 213 “TWITTER nació de un fracasso”, dice co-creador. El Universal, Uruguai, 7 dez. 2011. Disponível em: http://bit.ly/vvBIcv. Acesso jan. 2012. 214 Para saber mais sobre tag e metadados, ver http://bit.ly/uUFfce. Acesso jan. 2012. 215 Delicious: http://bit.ly/ugpaU1. Acesso jan. 2012.

195

em links. Depois, a rede de compartilhamento de fotos Flickr216 também adotou o recurso (ver p. 171). O sucesso do de.li.ci.ous e do Flickr popularizou o uso em YouTube, Last FM e Technorati217.

A importância dessas etiquetas é tamanha que The New York Times contratou um editor de tags que passou a ter a mesma autoridade que o secretário de redação, responsável pela abertura e pelo fechamento da primeira página218.

Um dos exemplos mais pungentes do uso social do microblog foi a chamada Primavera Árabe. Jovens do norte da África e do Oriente Médio organizaram protestos pelo fim da ditadura ou contra o fundamentalismo religioso em: Tunísia, Egito, Barein, Líbia, Iêmen, Marrocos219.

Não só o Twitter foi utilizado para implicar as pessoas, Facebook, blogs e celulares (SMS, inclusive) também se revelaram importantes. A repercussão do uso de redes sociais foi tamanha que iniciou uma discussão na própria rede sobre a função dessas plataformas. A grande questão era responder quem fez a revolução: pessoas ou ferramentas?

O Techcrunch, especializado em cobertura sobre tecnologia, publicou um artigo sob o título: People, Not Things, Are The Tools Of Revolution220, assinado pelo jornalista e fotógrafo Devin Coldewey. Para ele, pessoas (e não coisas) são as ferramentas da revolução.

A resposta veio de André Lemos, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em um trocadilho: Things (and People) Are The Tools Of Revolution! (Coisas - e pessoas - são as ferramentas da revolução)221. Para rebater Coldewey, Lemos emprestou do filósofo e

Flickr: http://bit.ly/voeli7. Acesso jan. 2012. YouTube: http://bit.ly/uHAVFH; Last FM: http://bit.ly/rr5xYy; Technorati: http://bit.ly/tprVJq. Acesso jan. 2012. 218 EDITOR 2.0. BuzzMachine, EUA, 22 out. 2007. Disponível em: http://bit.ly/uOVEdC. Acesso jan. 2012. 219HYPER-NETWORKED protests, revolts, and riots: a timeline. Wired, EUA, 16 dez. 2011. http://bit.ly/xgRBqe. Disponível em: Acesso jan. 2012. 220 PEOPLE, not things, are the tools of revolution. TechCrunch, EUA, 11 fev. 2011. Disponível em: http://tcrn.ch/tDTPWk.Acesso jan. 2012. 221THINGS (and people) are the tools of revolution! Carnet de Notes, Salvador, 25 fev. 2011. Disponível em: http://bit.ly/vMZtQo. Acesso jan 2012.
216 217

196

antropólogo francês Bruno Latour a Teoria Ator-Rede (tradução do inglês Actor-Network Theory), segundo a qual:

• Não há essência ou imanência • Toda agência depende da associação em causa • Agentes não humanos não são entidades passivas Escreve Lemos:
Para evitar pensar os agentes apenas como humanos, a ANT [ActorNetwork Theory] prefere o termo “actante” que, vindo da semiótica greimasiana, remete a tudo aquilo que gera ação. Portanto, não há essência, e actantes humanos e não humanos assumem determinados papéis a depender das associações que se constituem em determinada ação. Se não há ação, não há nada e eles não são “actantes” (2011). (...) Blogs, Facebook, Twitter e celulares agiram como mediadores e foram tradutores de ações de/para outros actantes que ganharam várias dimensões (as ruas, as emissões televisivas, os artigos, etc.) e fizeram com que as ditaduras da Tunísia e do Egito caíssem. Eles podem não ter função mediadora no futuro, já que não há essência ou potência velada, só associações que se fazem ou não no tempo. Como diz Latour: “essência é existência e existência é a ação”. No fundo, a discussão sobre se as mídias sociais e telefones celulares fizeram a revolução se perde na polarização entre sujeitos (que têm uma essência – ser o mediador e senhor da agência) e os objetos (que têm uma essência – serem apenas intermediários, “ferramentas”, “instrumentos”, “meios”) (IBIDEM).

Clay Shirky tem a mesma opinião que Lemos: “novas ferramentas não causaram esses comportamentos, mas o permitiram. Uma mídia flexível, barata e inclusiva nos oferece agora oportunidades de fazer todo tipo de coisas que não fazíamos antes” (2010, p. 61).

Figura 129. Revolution Tools (Reprodução Carnet de Notes)

197

Em menor proporção, obviamente, Eugênio Tisseli já destacara esse tipo de ação no Flickr, em junho de 2007, quando a interface da rede de compartilhamentos foi utilizada para um protesto de usuários, de modo não coordenado, para responder à mudança em sua política de filtros na Alemanha. O protesto foi marcado pela criação e disseminação de uma tag anticensura: #thinkflickrthink222.

Figura 130. Cartaz do protesto thinkflickrthink

Dois anos depois, pulularam manifestações realizadas por meio de hashtags: a morte do cantor Michael Jackson, em 25 de junho (#michaeljackson), a reeleição do presidente do Irã Mahmoud Ahmadinejad, em 12 de junho (#iranelection).

No Brasil, são destaques ações sobre a nova crise no Senado quando José Sarney assume a Presidência da Casa, em 1° de fevereiro, por causa de denúncias de atos secretos, empreguismo e verbas indenizatórias (#forasarney), e o fim da

obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo, aprovado pelo Supremo Tribunal Federal em 17 de junho (#diploma).

REBELIÃO na Internet. Trópico - Ideias de norte e sul, São Paulo, 28 fev. 2009. Disponível em: http://bit.ly/vROEab. Acesso jan. 2012.
222

198

A campanha eleitoral de 2010 à Presidência da República no Brasil teve ampla participação popular na Internet. Fatos negativos publicados pela imprensa nacional ganharam eco na rede como, por exemplo, o famoso caso da bolinha de papel cujo personagem principal foi o ex-governador de São Paulo, José Serra.

Ao fazer uma caminhada no Rio de Janeiro durante a campanha política, em 20 de outubro de 2010, Serra foi atingido por dois objetos, uma bola de papel e uma fita crepe. O caso de agressão repercutiu em toda a imprensa e o ex-governador teve de cancelar compromissos na capital carioca.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva o comparou ao goleiro chileno Rojas, que fingiu ter sido atingido por um foguete no Maracanã, durante as eliminatórias para a Copa do Mundo de 1990223. Contra a acusação do candidato derrotado à Presidência da República, a militância do Partido dos Trabalhadores (PT) organizou-se em rede e levou aos Trending Topics do Twitter as hashtags: #BolaDePapelFacts, #SerraRojas e #DilmaFactsByFolha.

No mesmo ano, após as eleições presidenciais, a ocupação do Complexo do Alemão no Rio de Janeiro pela polícia resultou em outras coberturas coletivas via redes sociais, especialmente no microblog., Rene Silva, 17, morador do Alemão não imaginaria que seu tuíte ‘tem um tiroteio no alemão’ teria tanta repercussão e aumentaria o número de seguidores de sua conta @vozdacomunidade de 180 para 40 mil224.

Twitter põe em xeque a manchete

Ainda que se questionem as condições de uma palavra-chave ir ao topo dos Trending Topics do Twitter [se programado225 ou fruto de um agenciamento], o fato é

LULA COMPARA Serra ao goleiro Rojas e diz que agressão é 'mentira descarada'. Folha de S.Paulo, São Paulo, 21 out. 2010. Disponível em: http://bit.ly/uyCnUL. Acesso jan. 2012. 224 APÓS RELATAR invasão, tuiteiro do Morro do Alemão usa rede para ajudar a comunidade. Folha de S.Paulo, São Paulo, 20 jan. 2011. Disponível em: http://bit.ly/tqxiaq. Acesso jan. 2012. 225 CEO do Twitter admite que empresa censura os Trending Topics. IDG Now!, São Paulo, 01 ago. 2011. Disponível em: http://bit.ly/AbBXAt. Acesso jan. 2012.
223

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que há uma minoria226 que faz a diferença no microblog e em outras redes. E o mais importante é notar que a hashtag virou uma nova prática social. E se as tags são mesmo a chave para a constituição temporária e cambiante de projetos artísticos na rede e engajar pessoas em torno de algo, é possível aplicar o mesmo raciocínio à composição de notícias. Essa discussão não é nova. Começou a se difundir com a publicação do artigo The semantic web na revista Scientific American, em maio de 2001. Naquele ano, Tim Berners-Lee, James Hendler e Ora Lassila escreveram que a Web semântica mudaria a estrutura de significação de conteúdos que circulam na rede. Essa idéia teria como eixo os links:

(...) A propriedade essencial da World Wide Web é a sua universalidade. O poder de um link de hipertexto é que ‘qualquer coisa pode ligar-se a qualquer coisa’. Até à data, a Web se desenvolveu mais rapidamente como um meio de documentos para as pessoas, em vez de dados e informações que podem ser processados automaticamente.

Entretanto, a proposta original implicava a unificação da linguagem de compartilhamento, o que não aconteceu, de fato. Por diversas razões, e a mais evidente delas é a diversidade cultural. Para as máquinas compreenderem a semântica dos documentos e arquivos, é preciso que haja padrões de classificação fundamentados.

A Web semântica é descentralizada, a priori, e a questão que se coloca é como mapear o acesso a essas coleções de informações dispersas e estruturá-las de modo inteligível? A resposta passa pela criação de grupos com entendimento em comum, o folksonomy227. Talvez isso leve a uma linguagem lógica que permitirá a linkagem de

Para os filósofos Gilles Deleuze e Félix Guattari, uma minoria pode ser numerosa ou mesmo infinita; do mesmo modo uma maioria. O que as distingue é que a relação interior ao número constitui o caso de uma maioria em conjunto finito ou infinito, mas sempre numerável, enquanto que a minoria se define como conjunto não numerável, qualquer que seja o número de seus elementos. O que caracteriza o inumerável não é nem o conjunto nem os elementos, é antes a conexão, o “e” que se produz entre os elementos. A potência da minoria não se mede por sua capacidade de entrar e de se impor no sistema majoritário, mas de fazer valer uma força de conjuntos não numeráveis, por pequenos que sejam, contra a força dos conjuntos numeráveis, mesmo que infinitos (2007, p. 173-175). 227 Folksonomies representam uma estrutura que emerge organicamente. E Surgem quando um grande número de pessoas está interessado em uma informação em particular e é encorajado a marcá-las com tags. In: The semantic web revisited. mai./jun. 2006, p. 5. Disponível em: http://bit.ly/txQe2C. Acesso jan. 2012.
226

200

dados dentro de uma web universal, conforme propôs Tim Bertners-Lee (et al) no artigo The Web Semantic Revisited:

A Web semântica que desejamos fazer é uma substancial reutilização de ontologias e base de dados existentes. São informações linkadas no ciberespaço no qual o banco de dados é enriquecido e ampliado constantemente. O que leva os usuários a reutilizar conteúdo encontrado por acaso e descobrir informação relacionada a ele, que tem sido a marca registrada das campanhas de viral na rede (2006, p.5).

Trata-se da noção de collaborative tagging, segundo a qual usuários podem incluir metadados (dados sobre dados)228 sob a forma de palavras-chave para compartilhar conteúdo (GOLDER et al: 2005, p. 1). Essa atividade tem crescido de maneira espantosa, sobretudo em redes sociais, que operam a partir dessa lógica. Assim, a informação publicada é categorizada para facilitar a busca não só pelo usuário que a marcou, mas também a qualquer pessoa com interesses em comum.

Sob o ponto de vista da organização, é interessante notar que, apesar de a Internet se configurar como uma miscelânea, nas palavras de David Weinberg, essa bagunça pode ser usada para fazer sentido no mundo229:

Tags do Flickr podem ser agrupadas com outras características e combinadas com termos de pesquisa, e as fotos mais interessantes podem ser automaticamente mostradas, graças a todo o confuso e descoordenado significado não intencional que os usuários da Internet infundem em suas páginas.

E no meio dessa bagunça, em alguma medida, a informação é aprofundada, como defende Manovich (ver p. 171).

Não é novidade que um dado bruto nada significa, um dado organizado é informação e uma informação contextualizada resulta em conhecimento. É nesse sentido que o pesquisador russo defende o uso das tags. Porém, a grande questão que se e coloca é como conectar milhares de dados sem reduzir a informação jornalística e exibí-los em uma nova linguagem visual híbrida? As tags dão conta disso? No Twitter, sim.
228 229

Para saber mais sobre metadados, ver http://bit.ly/swTbfN. Acesso jan. 2012. EVERYTHING is Miscellaneous - how the Web destroys categories, disciplines and hierarchies. Boing Boing, EUA, 2 mai. 2007. Disponível em: http://bit.ly/uhphZG. Acesso jan. 2012.

201

O microblog estimula tanto o collaborative tagging que agora todo evento de grande porte ou acontecimentos como tragédias têm roteiros feitos a partir de hashtags e perfis de jornalistas ou jornais e cidadãos em geral. Foi assim na cobertura do terremoto que atingiu o Japão em março de 2011. Informações sobre órgãos de saúde e ajuda à população e perfis de cidadãos e jornalistas que acompanharam a tragédia foram publicados em inglês e em japonês no microblog230.

Figura 131. Hashtags e perfis a serem seguidos em japonês para orientar as pessoas231

O Google também montou uma interface (ainda que hierarquizada) e disponibilizou um mapa colaborativo para ser atualizado via open source. Trata-se de interfaces de emergências, cuja produção de subjetividade tem origem nos agenciamentos coletivos de enunciação.

230SIGUE

LA cobertura del terremoto y tsunami en Japón desde Twitter. Clases de Periodismo, América Latina, 11 mar. 2011. Disponível em: http://bit.ly/sQMkNJ. Acesso mar. 2012. 231 Interface de emergência 2 http://bit.ly/sdyFCI. Acesso jan. 2012.

202

Figura 132. Interface de emergência do Google com informações sobre o terremoto no Japão232

RESOURCES related to the 2011 Japan crisis. Google. 12 mai. 2011. http://bit.ly/vftaUX. Acesso jan. 2012.
232

203

Figura 133. Mapa colaborativo do Google Earth com informações multimídia sobre o terremoto no Japão233

A lógica das hashtags não se restringe apenas às interfaces de emergência. Em novembro de 2011, estreou o Twitter Stories, plataforma colaborativa para narrativas baseadas em relatos humanos234. Entrou em vigor uma nova prática social: postar conteúdo seguido de @twitterstories ou de #twitterstories:

Leia sobre um único tweet que ajudou a salvar uma livraria de sair do negócio; um atleta que levou uma centena de seus seguidores para um jantar à base de caranguejo e, pescadores japoneses que usam o Twitter para vender suas capturas antes de voltar para a praia. Cada história nos lembra a humanidade por trás dos tweets, que fazem o mundo bem menor. Conte sua história: Ajude-nos a descobrir mais histórias. Conte-nos como você ou outra pessoa têm usado o Twitter de uma maneira interessante. Envie a sua, mencionando @twitterstories ou usando a hashtag #twitterstories. Inclua um link para uma foto ou vídeo que ajuda a ilustrá-la para o mundo. Cada mês, vamos escolher uma seleção de perfis para compartilhar.

233 234

Interface de emergência 3 http://bit.ly/sZCBYJ. Acesso jan. 2012. Para saber mais sobre Twitter Stories, ver: http://bit.ly/tdBkQH. Acesso jan. 2012.

204

Figura 134. Interface do Twitter Stories, sem hierarquia, porém organizada em colunas235

No Facebook, jornal mantém a tradição

Há outras duas novas práticas sociais colocadas em teste por empresas jornalísticas em uma tentativa de repensar a interface e continuar a manter o leitor ou a audiência, já que se trata de mídias clássicas como jornal, tevê, rádio e revistas.

Isso não significa que o Facebook não está de olho nos mais de 955 milhões de membros cadastrados236 ou o Twitter, com seus 140 milhões de usuários237. Aliás, é interessante anotar que nenhuma das duas redes foi criada com intuito de ser apropriada pelo Jornalismo.

A de Mark Zuckerberg teve origem em Harvard, em 2004, para que alunos pudessem votar nas garotas mais bonitas de uma das mais prestigiadas universidades do mundo. Mais tarde, foi ampliada a outras escolas de nível superior e depois ganhou a Internet.

Para saber mais sobre @twitterstories, ver: http://bit.ly/vsFHGy. Acesso jan. 2012. Para saber mais sobre o Facebook, ver: http://on.fb.me/wxffB2. Acesso jan. 2012. 237 Os números são oficiais do blog do Twitter. Para saber mais, ver: http://bit.ly/AD1WCI. Acesso jan. 2012.
235 236

205

Já o microblog intitula-se hoje “uma rede de informação em tempo real”238. Entre as novas práticas sociais, a primeira, citada anteriormente, é a parceria entre Facebook e jornais com o objetivo de integrá-los à rede via aplicativos. Há duas questões a serem abordadas: uma de caráter de design informacional e a outra relacionada á privacidade.

Quanto ao design, os aplicativos estão organizados hierarquicamente. Ou seja, o jornal muda para o Facebook, mas mantém sua tradição dentro do aplicativo. Porém, a hierarquia e a diagramação desaparecem na linha do tempo do membro da rede social. Sobre privacidade, toda a vez que um link de uma notícia é clicado, automaticamente entra na lista pública um aviso de que aquele texto foi lido. A mensagem para marcar como “não lido” aparece apenas no final do texto.

Pela interface apresentada, nota-se que há um objetivo claro de compartilhar indiscrinadamente e provocar uma conversa em torno do conteúdo. É possível saber quais amigos leram, por reportagens do inglês The Guardian ou do americano The Washington Post.

Ainda que pese o problema da extrema vigilância, talvez o interessante neste caso seja a forma pela qual é exibida na linha do tempo a atividade de leitura do internauta, conforme mostram as imagens a seguir. Essa é uma das tentativas de implicar pessoas em torno de algo.

Figura 135. Social app do Guardian no Facebook

238

Para saber mais sobre o Twitter, ver: http://bit.ly/zScLkO. Acesso mar. 2012.

206

Figura 136. Interface do Social Reader no Facebook

O jornal como rede social

A segunda prática social é o movimento inverso percebido em jornais como Huffington Post e The New York Times. Em vez de aplicativos na rede de Mark Zuckerberg, a interface dos jornais se transforma em uma rede social. HuffoPost Social News tem como acesso principal o Facebook, embora permita login com o Twitter239. Já o TimesPeople, do NY Times, utiliza o microblog para engajar seus leitores240.

Nos dois, o Social News aparece como destaque na interface, o que tem mais peso ainda é o formato hierarquia e diagramação em colunas.

Dentre os exemplos citados, o Twitter é o que melhor explica a implosão da página estática a partir da narrativa baseada em dados. O microblog resolve também o problema da redundância tão recorrente em interfaces de grandes conglomerados de mídia e já apontado ao longo desta tese. Não há mais página diagramada e a hierarquia não determina a importância da notícia. A manchete é substituída pelo buzz, pela repercussão de um post, pela sua validação, não limitado à quantidade de caractere.

239 240

HuffPost Social News: http://huff.to/tmIfgP. Acesso jan. 2012. TimesPeople - The New York Times: http://nyti.ms/uXijQh. Acesso jan. 2012

207

Na rede, as pessoas não seguem editorias, mas tags ou hashtags e perfis. O Jornalismo não consegue controlar o uso de tags e hashtags nem o conteúdo relacionado a elas, mesmo quando é o autor.

Aliás, as hashtags são [ao mesmo tempo] termômetro e narrativa. Sem diagramação e colunas, a interface da notícia é remodelada. De modo geral, configura-se em uma espécie de lista. Ainda que esse formato não seja representativo de um design de excelência, como refletem projetos gráficos da revista Wired ou do The Guardian, dá lugar à reflexão sobre Infoestética, proposta por Lev Manovich em seu novo trabalho, intitulado Info-Aesthetics- Information and Form241, ainda sem data para ser publicado.

Figura 137. Interface do HuffPost Social News

Para saber mais sobre Info-Aesthetics- Information and Form, ver: http://bit.ly/zW2xUT. Acesso jan. 2012.
241

208

Figura 138. Interface do TimesPeople

Para Manovich, Infoestética refere-se às práticas culturais que podem ser mais bem compreendidas como resposta às novas prioridades da sociedade informacional: dar sentido à informação, trabalhar com ela e produzir conhecimento a partir dela. O objetivo do trabalho, iniciado nos anos 2000, é detectar formas estéticas e culturais emergentes específicas contemporâneas mesmo que não resultem no belo242:

Nosso trabalho é descobrir o que é o novo belo na era da informação. Não penso que já o sabemos. Esse novo belo que virá talvez nada tenha a ver com a forma do iMac, ou com as músicas parecidas com máquinas do Kraftwerk ou as formas de bolhas da arquitetura contemporânea. Se não tivermos sorte, será algo que até mesmo as nossas máquinas acharão feias. No ponto em que estamos simplesmente não sabemos ainda.

E ainda que Google, YouTube, MySpace tenham design próprio, o pesquisador russo acredita que essas empresas não se preocupam com uma nova estética:243

É claro que o Google vem com uma estrita economia de textos que exibem informação pura, retirando todos os gráficos (falo do sistema original de busca que procura por websites, em oposição a imagens e vídeos). Mas você já podia achar essa estética nos guias telefônicos do século XX, num sistema de informação de trens e em outros designs de informação existentes.

242A

ERA da infoestética. Trópico – Ideias de norte e sul, São Paulo, 12 nov. 2007. Disponível em: http://bit.ly/zXHWsr. Acesso jan. 2012. 243 IBIDEM.

209

Similarmente, muitas páginas do Myspace têm sua própria estética e backgrounds coloridos, ícones piscando e imagens “fofinhas” - mas isso não é diferente do jeito que os adolescentes e estudantes decoram os seus quartos na América.

A dinâmica das redes sociais coloca em xeque o conceito de edição e leva a repensar a forma pela qual a notícia é produzida e exibida. Isso responde, em parte, a pergunta feita em 2009 pelo crítico de mídia e ativista Geert Lovink no evento Estamos preparados para o público 2.0, realizado em São Paulo: “O que é notícia para as redes sociais?”244. Nesse contexto, a pirâmide invertida só faz sentido quando é ponto de partida para reconstruir a informação e colocá-la em rede.

O produser/prosumer recebe uma informação, a valida, modifica o lide e a redistribui. Isso não significa romper com a linearidade, mas perceber outra abordagem: a linearidade se dá a partir de estratégias de revezamento: eles publicam na nuvem, remixam e republicam o que dá lugar a um novo texto. Mas essa prática social só encontra sentido se for realizada em uma rede social organizada, como propõe Lovink245:
Queremos que as redes sociais sejam administradas por poucas pessoas? Não. Então, deveria haver um potencial maior de reagrupar. Há muitos não envolvimentos em redes. O que acontece quando você dá poder às pessoas? Há muito ruído, mas as redes da ‘moda’ serão substituídas por redes organizadas, menos vagas mais amistosas e muito mais focadas no que elas querem atingir.

A pergunta de Lovink leva a outras, respondidas logo adiante. O que é rede social? Por que um jornal de Internet não tem a mesma produção de subjetividade que uma rede social? Por que as redes sociais abrem espaço a relações de poder e contrapoder (ver p. 107)? Por que a contrainformação246 circula mais facilmente nas redes sociais? No livro Communication Power (2009), o sociólogo catalão Manuel Castells faz uma interessante definição de rede:

244TWITTER

para quê? Trópico – Ideias de norte e sul, São Paulo, 10 mai. 2009. Disponível em: http://bit.ly/xM9Zk8. Acesso jan. 2012. 245 A ERA da infoestética. Trópico – Ideias de norte e sul, São Paulo, 12 nov. 2007. Disponível em: http://bit.ly/zXHWsr. Acesso jan. 2012. 246 Para o filósofo Gilles Deleuze, informação é o conjunto de palavras de ordem, que regem uma sociedade. A contrainformação opera (e só é eficaz) quando é ou se converte em ato de resistência. In: Gilles Deleuze, arte e resistência. 4 jul. 2011. Disponível em: http://bit.ly/zM1eO8. Acesso jan. 2012.

210

Uma rede é um conjunto de nós interligados. Os nós podem ser de diferente relevância para a rede, e os nós de modo particularmente importantes são chamados centros em algumas versões da teoria de rede. Stull, qualquer componente de uma rede (incluindo os centros) são um nó, e sua função e significado dependem dos programas da rede e de sua interação com os outros nós da rede. Os nós aumentam a sua importância para a rede por meio da absorção de informações mais relevantes, e processamento de forma mais eficiente. A importância relativa de um nó não decorre de suas características específicas, mas de sua capacidade de contribuir para a eficácia da rede na realização dos seus objetivos, conforme definido pelos valores e interesses programados para essas redes. No entanto, todos os nós de uma rede são necessários para o seu desempenho, embora elas permitam alguma redundância como uma salvaguarda para o seu correcto funcionamento. Quando os nós se tornam desnecessários para o cumprimento dos objetivos da rede, elas tendem a se reconfigurar, excluindo alguns modos e acrescentando outros novos. Nós só existem e funcionam como componentes de redes. A rede é a unidade, e não o nó (p. 20-21).

Redes sociais não são criações do século 21. Constituem o padrão fundamental da vida, de todos os modos de vida, afirma Castells (IBIDEM, p 21) e não é uma discussão nova (COSTA: 2005, p. 236) Porém, a atual interconexão generalizada entre as pessoas tem chamado a atenção de muitos teóricos sobre o modo pelo qual os coletivos se comportam quando se constituem redes de altas densidade na Internet.

Estamos em rede, interconectados, com um número cada vez maior de pontos e com uma frequência que só faz crescer. A partir disso, torna-se claro o desejo de compreender melhor a atividade desses coletivos, a forma como comportamentos e ideias se propagam, o modo como as notícias fluem de um ponto a outro do planeta, etc. (IBIDEM). A grande questão que se coloca é como criar sinergia entre as pessoas?

Redes sociais não são comunidades. Comunidades remetem à solidariedade, vizinhança e parentesco. Hoje, esses aspectos são alguns entre os muitos possíveis nas redes sociais. Há novas formas de associação, as pessoas estão imersas numa complexidade chamada rede social, com muitas dimensões e que mobiliza um fluxo de recursos entre inúmeros indivíduos distribuídos segundo padrões variáveis. (IBIDEM, p. 239).

211

Embora na sociedade informacional o homem seja hiperindividualista e o narcisismo seja elevado a ultima potência, principalmente, na Internet247, há uma enorme disposição em compartilhar, basta haver uma motivação que o coloque em relação com outras pessoas.

Aliás, afirma Clay Shirky: “a motivação para compartilhar é o fator determinante; a tecnologia é apenas o facilitador” (2010, p. 75). Para Shirky, há uma malha de retroalimentação de motivações pessoais e sociais na Internet que inclui desde a Wikipedia a movimentos políticos.

Na verdade, a sinergia entre as pessoas se dá por meio dos laços fracos. Em 1973, o sociólogo Mark Granovetter publicou um artigo intitulado The Strength of Weak Ties no qual afirma que as pessoas tentam procurar emprego mais por intermédio de conhecidos do que de amigos ou de familiares. Amigos e familiares representam o que ele chamou de laços fortes. Já os conhecidos fazem parte dos laços fracos.

Para Granovetter, deve-se procurar emprego por meio dos laços fracos, pois esses laços fracos são fortes com indivíduos de outro grupo que você ainda não tem acesso. O importante é atingir os laços fracos, porque esses vão replicar a mensagem para mundos mais distantes.

Rogério da Costa, da PUC/SP, afirma que a tese de Granovetter caiu como uma luva nas redes sociais:

Rede social é formar laços fracos. Você tem seus laços fortes, como sempre teve, mas rede social na Web, seja Twitter, Orkut, MySpace, Facebook, etc. é para fomentar esses laços fracos, que, ao contrário do que podemos pensar, são muito importantes. É justamente aquele cartão de uma pessoa que você ouviu em um congresso, e você envia um e-mail para ela, que daqui a pouco te convida para integrar uma rede social na qual você publica um artigo, que, seguindo nesse caminho vai muito mais longe. Essa é a estratégia das pessoas que compreenderam que as redes sociais são um modo de construir um outro tipo de relação

247

SOMOS hipermodernos. Facom/UFBA – Ciberspesquisa, Salvador, 17 jul. 2005. Disponível em: http://bit.ly/pTLjRR. Acesso jan. 2012.

212

de propagação de interesses e captação de coisas interessantes por meio justamente desses laços fracos (2009).

Um dos exemplos mais significativos desse raciocínio foi a Primavera Árabe. Milhares de pessoas que foram às ruas pedir o fim das ditaduras e das atrocidades no Oriente Médio e na África não possuíam obrigatoriamente grau de parentesco ou de vizinhança. Mas foram solidárias à causa (ver p. 196-197).

Essa é a diferença marcante entre jornais e redes sociais e explica por que não funciona criar um Social News em uma empresa de comunicação, como fizeram Huffington Post e The New York Times (ver p. 207). Não é da lógica do jornal operar no conceito de rede.

A rede é baseada em um revezamento constante dos espaços liso e estriado. O jornal é estriado por excelência e não permite produzir espaços lisos como Facebook e Twitter. Castells demonstra as razões por que tais ações são impossíveis, sobretudo por questões políticas: “remove-se o controle sobre a distribuição da mensagem. O que contrasta com o poder da mídia de reformatar a mensagem a ser difundida” (2009, p. 418):

(...) Se as redes de mídia se envolverem em uma cruzada política em torno de uma opção política, seu destino depende do sucesso desta opção. Elas perdem sua relativa neutralidade, o que diminui a credibilidade, fator-chave para se chegar a um público amplo. Se jogam e perdem, suas conexões políticas podem ser danificadas, e elas podem pagar por isso em termos de vantagens reguladoras. Se seus funcionários são nomeados por critérios políticos, o seu profissionalismo vai sofrer. E, finalmente, se desvanecem suas estrelas políticas, seus resultados financeiros vão se deteriorar, e soar a campainha para seus proprietários e seus financiadores. É verdade que há um número de casos em que a cruzada ideológica (Fox News, ou o espanhol El Mundo) também contribui para um bom negócio, por um período substancial de tempo, e num contexto político específico. Mas, em termos gerais, a imprensa partidária é uma proposição nefasta no mundo dos negócios.

213

Esse é um dos argumentos pelos quais se pode afirmar que o jornal é um jardim murado 248 ou, nas palavras de André Lemos, da UFBA, faz parte de um portal-curral, segundo o qual "configuram-se como estrutura de informação (conteúdo) que tratam as pessoas como bois digitais forçados a passar por suas cercas para serem aprisionados em seus calabouços interativos" (2000).

Já as redes sociais permitem interferências, ainda que sejam pré-programadas. O modelo portal ainda está em vigor por questões culturais e econômicas, ainda que pesem os modelos de negócios estabelecidos pelas redes sociais e Google, por exemplo. E são nas redes sociais que contrapoder e contrainformação operam de maneira mais significativa.

A implosão da página estática

Entretanto, não se pode negar que jornais como NY Times e Guardian e a rede de televisão BBC têm investido esforços em repensar a interface sem se limitarem ao formato definido para o Jornalismo de Internet – hierarquia e diagramação em coluna. O NY Times aposta em engajamento, como o TimesPeople, o Guardian na estética da base de dados, com o Datablog249, e a BBC na Web semântica250.

Porém, o resultado desses trabalhos é tratado como acessório, como algo que complementa o texto ou melhora o desempenho da busca, no caso da emissora inglesa (ver p. 171) e não como uma linguagem própria da dinâmica da Web que subverta o padrão em vigor.

De que maneira isso pode efetivamente ser compreendido?

Se observada fora do espaço estriado da grande imprensa, a cobertura do Morro do Alemão é reveladora. Enquanto jornais como Globo News e UOL Notícias destacavam os últimos acontecimentos no formato tradicional – manchete, foto e chamada -, um
248

249DATA

Para saber mais sobre jardim murado ou walled garden, ver: http://bit.ly/zGgUdk. Acesso jan. 2012. JOURNALISM and data visualization from the Datablog. The Guardian, Londres, 26 mar. 2012. http://bit.ly/t4TIq1. Acesso jan. 2012. 250 Para conhecer o projeto da BBC de Web semântica, ver: http://bbc.in/zXGGer. Acesso jan. 2012.

214

mapa georeferenciado e aberto do Google permitia cobertura colaborativa - por meio do Twitter e também oferecia informações do jornal O Globo251.

O autor do projeto é uma empresa de planejamento e monitoramento de redes sociais chamada Moscatelli. Não se trata aqui de fazer propaganda, mas de mostrar possibilidades outras de uso de aplicativos sem hierarquia para o Jornalismo.

Figura 139. Interface do Google Maps para cobertura da invasão do Morro do Alemão com informações de cidadãos e do jornal O Globo via Twitter

Figura 140. Interface da Globo News com a cobertura da ocupação do Alemão: hierarquia e diagramação
251

Twitter - Violência Rio de Janeiro http://bit.ly/tWTvTc. Acesso jan. 2012.

215

Figura 141. Interface do UOL News com a cobertura do Alemão: hierarquia e diagramação

216

Não seria exagero propor uma abordagem assim, além da primeira, na página 189:

Figura 142. Interface do Google Search sobre a ocupação do Alemão

Ou assim:

Figura 143. Interface de busca dinâmica do Twitter sobre o Alemão via Google Search

217

Ou ainda por meio do Google Earth, criando um mash-up de dados:

Figura 144. Reprodução do Google Earth com vídeos e informações sobre o Alemão

E essa narrativa poderia ser recontada ou reconstruída mais tarde assim:

Figura 145. Cena de A era da estupidez, de Franny Armstrong. No filme, o ator Pete Postlethwaite, morto em 2011, assume o papel de um produser/prosumer ao contar e ao mesmo tempo recriar um documentário sobre a destruição da terra por causa da estupidez do homem. Ele opera uma interface simples, com uma lista de links que levam a uma imensa base de dados composta por áudio, texto, foto e vídeo252.

252

Para saber mais sobre A era da estupidez, ver: http://imdb.to/yMb87l. Acesso jan. 2012.

218

O argumento de Giselle Beiguelman fecha a questão sobre a implosão da página:

Nesse sentido, o que se impõe confrontar hoje é o desaparecimento dos critérios que permitiam ordenar, classificar e distinguir não só os distintos formatos discursivos dos textos, em função de sua materialidade (carta, jornal, documento de arquivo ou livro), mas as próprias especificidades entre as mídias sonoras, visuais e textuais que têm agora seus limites objetivos implodidos pela interface (2003, p. 13).

Um print-screen da tela de vídeo no YouTube com os posts publicados no Twitter sobre os protestos no Egito demonstram claramente que a dinâmica de rede reconfigurou completamente a interface jornalística253:

Figura 146. Interface do Twitter exibida no YouTube com posts sobre os protestos no Egito

A esta altura, o leitor deve estar se perguntando por que criar novo repertório para a interface jornalística na Internet uma vez que o Jornalismo tem sua base calcada na hierarquia? Fala-se tanto em não linearidade, mas também se fala tanto que as pessoas apenas passam os olhos pelos textos, leem somente os primeiros parágrafos de uma notícia.

O vídeo, intitulado The egyptian revolution on twitter, está disponível em: http://bit.ly/wgYx5w. Acesso jan. 2012.
253

219

Então, a ideia é a de uma interface nômade, desterritorializada, sem pontos ou trajetos embora evidentemente os tenha (DELEUZE; GUATTARI: 2007, p. 53), porém presa a um formato clássico de texto? Isso é possível?

Sim, a partir da noção de revezamento (IBIDEM, p. 180). Porque do mesmo modo que a rede é um espaço liso por excelência, que possibilita ações nomádicas, permite realizar percursos no espaço estriado, metrificado, pertencente ao newsmaking (TUCHMAN: 1978).

É nesse espaço tensionado que se reconfigura a estética da composição: por um lado, a Internet foi desenvolvida para ser uma espécie de rizoma, cuja linha segue um plano que não tem mais dimensões do que aquilo que o percorre. Por outro, há a relação de aparato de captura, caracterizado por ocupação metrificada.

Isso indica que o espaço liso não deixa de ser constantemente convertido em espaço estriado, e o espaço estriado é constantemente revertido a um espaço liso. Há misturas e passagens de um para outro, graças a movimentos completamente diferentes (DELEUZE; GUATTARI, 2007, p. 180).

É por essa razão que hoje é possível ter uma interface nômade cujo conteúdo remete ainda a uma estrutura textual orientada pela Teoria do Jornalismo. Ora, um nômade não tem pontos, trajetos, nem terra, embora evidentemente ele os tenha, explicam Deleuze e Guattari:
(...) Se o nômade pode ser chamado de desterritorializado por excelência, é justamente porque a reterritorialização não se faz depois, como no migrante, nem em outra coisa, como no sedentário, Para o nômade, ao contrário, é a desterritorialização que constitui sua relação com a terra, por isso ele se reterritorializa na própria desterritorialização. A terra deixa de ser terra e tende a se tornar simples solo ou suporte (2007, p. 53). (...) O nômade aparece ali na terra sempre que se forma um espaço liso que corroi e tende a crescer em todas as direções. O nômade habita esses lugares, permanece nesses lugares, ele próprio os faz crescer, no sentido em que se constata que o nômade cria o deserto tanto quanto é criado por ele. Ele é o vetor da desterritorialização (IBIDEM).

220

É verdade que ao longo desta tese foram mostrados exemplos para o que Manovich chamou de deep remixability254 (ver p. 172-175; 193-194) . Para o pesquisador russo, a deep remixability é definidora de novas propriedades no ambiente digital: interface e ferramentas, correspondentes a dois componentes fundamentais de qualquer software moderno: estrutura de dados e algoritmos.

Cada ferramenta disponibilizada por uma aplicação de mídia é essencialmente um algoritmo que processa ou cria formatos particulares de dados (MANOVICH: 2008, p. 102). Porém, quando se trata apenas conteúdos baseados em escrita (predominante na Internet), o melhor caminho é ainda o do pensamento balizado pelo revezamento.

O esforço em torno de um novo modelo da estética da base de dados parte do pressuposto de que também é preciso abandonar as reproduções analógicas recorrentes nos softwares, já abordadas anteriormente (ver p. 162).

A interface do Adobe Acrobat Reader é um exemplo dessa falta de vocabulário específico para a nova mídia (LOVINK: 2009; MANOVICH: 2008; BEIGUELMAN: 2003). Combina metáforas de uma variedade de tradições e tecnologias de um jeito que não parecem ter lógica. Em uma única interface há elementos:

1) de áudio (botões de play e de gravar) do século 20 2) de edição de imagem (botões de zoom) 3) com associação direta à tradição impressa ainda que nunca tenham sido usados no papel (ícones de tesoura e cola) 4) presentes em livros (janelas de anotações) 5) padrão de GUI [Graphical User Interface] como busca, filtro e múltiplas janelas

Essa repetição contínua do ambiente analógico recai em questionamentos, como faz Lev Manovich: "(...) Não é claro para mim porque me pedem para percorrer as páginas clicando na seta para a frente e para trás - uma convenção de interface que é

254

O remix envolve não apenas conteúdos de diferentes mídias, mas também técnicas fundamentais, métodos de trabalho e modos de representação e de expressão. In: MANOVICH, L. Software takes command, 2008, p. 121-128.

221

normalmente usada para mover meios de comunicação de imagem.” (2008: p, 98-99). Mas esse é assunto para uma outra pesquisa.

222

Conclusão
Ainda que seja difícil compreender a perda do processo de padronização editorial no Jornalismo por causa da dinâmica das redes sociais, o fato é que se trata de algo irreversível. Isso significa uma completa reestruturação nas bases que orientam esse campo da Comunicação.

Redes sociais constituem interfaces nômades, territorializadas e desterritorializadas. Esse raciocínio é fortalecido não somente por teoria e práticas sociais, mas por pesquisas realizadas por institutos como Nielsen, Ibope e ComScore, que mostram aumento expressivo no acesso a Facebook e Twitter.

Nas redes sociais, fora dos formatos portal e site, as notícias deixam de ser apenas uma interação entre repórter, diretor, editor, constrangimentos da organização, necessidade de manter laços com as fontes, desejos de audiência e poderosas convenções culturais dos jornalistas, como definiu Michael Schudson.

Atualmente,

estão

envolvidos

também

novos

atores

e

agentes

sociais,

dessemelhantes, integrantes de sistemas bottom-up – e não top-down como operam as chamadas mídias clássicas –, pois adquirem seus conhecimentos a partir de baixo e os fazem replicar-se. É o que o escritor Steven Johnson chamou de comportamento emergente:

Em uma linguagem mais técnica, são complexos sistemas adaptativos que mostram comportamento emergente. Neles, os agentes que residem em uma escala começam a produzir comportamento que reside em uma escala acima deles: formigas criam colônias; cidadãos criam comunidades; um software simples de reconhecimento de padrões aprende a recomendar novos livros. O movimento das regras de nível baixo para a sofisticação do nível mais alto é o que chamamos de emergência (2003, p. 14).

Embora essa lógica leve à implosão da página estática e revele outra perspectiva de interface, o Jornalismo das grandes corporações ainda lida com a Internet do mesmo modo que em suas versões tradicionais. É o que revela a análise feita com os 223

quinze jornais de maior audiência no Brasil e no exterior, mapeados segundo dados do Ibope e detalhados no último capítulo.

Porém uma observação sistemática de repertórios como os da arte digital, de mashups, formadores do media visualization, do pesquisador Lev Manovich, e das narrativas baseadas em tags e hashtags ajudam a repensar a exibição da notícia e comprovam a hipótese principal desta tese: responder se a interface teve de se deslocar porque a produção está se modificando. Sim, deslocou-se. Não há volta. E também corrobora as hipóteses secundárias:

O Jornalismo de Internet atual não consegue converter em seus interesses a notícia que circula nas redes sociais: apesar de ter se apropriado delas, especialmente o Twitter, o Jornalismo não controla a informação que circula no fluxo como o faz em suas versões de papel, Web e aplicativos. Nem as publicadas por fontes.

E o Wikileaks fecha questão sobre isso. Ainda que seu fundador Julian Asssange tenha feito acordos com Guardian, New York Times e Der Spiegel, foi o Wikileaks quem passou a comandar parte do jogo. Por uma razão muito simples de compreender e ao mesmo tempo bastante complexa: nas redes, a produção (inclusive a das fontes) é resultado de um movimento que provém do excedente cognitivo, definido pelo escritor Clay Shirky como “fruto do tempo livre de cidadãos escolarizados do mundo, como um coletivo”:

Algo que torna a era atual notável é que podemos agora tratar o tempo livre como um bem social geral que pode ser aplicado a grandes projetos criados coletivamente, em vez de um conjunto de minutos individuais a serem aproveitados por uma pessoa de cada vez (2010 p. 14-15).

Esse entendimento também poderia se referir à inteligência coletiva de Pierre Lévy (1999) ou à emergência bottom-up de Steven Johnson (2003). Se esses agentes fossem introduzidos ao sistema de produção de notícias, seria possível remodelar a forma pela qual se pensa o Jornalismo na teoria e na prática - do processo editorial ao gráfico. Caso isso ocorresse, a interface não ficaria descolada do ambiente colaborativo, o que levaria essa prática para um novo patamar.

224

A ocupação do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, pela polícia em 2010 é esclarecedora nesse sentido. À cobertura da imprensa, somaram-se às coberturas coletivas, especialmente aquelas realizadas pelo Twitter.

Um dos produsers/prosumers, Rene Silva, 17, morador do Alemão não imaginaria que seu tuíte ‘tem um tiroteio no alemão’ teria tanta repercussão e aumentaria o número de seguidores de sua conta @vozdacomunidade de 180 para 40 mil255. Essa ação fez Silva sair das redes, na posição de observador dos fatos, a personagem em jornais e programas de televisão, como foi mencionado no capítulo 3.

Outra situação igualmente interessante foi o excedente cognitivo reunido para narrar a situação no morro do Alemão a partir de um mapa georeferenciado e aberto do Google Por meio de acesso via Twitter, qualquer pessoa podia enviar informações sobre o que estava acontecendo ali. O mapa também oferecia notícias de O Globo na Internet. O conteúdo era dividido por cor para diferenciar a abordagem coletiva da imprensa tradicional.

Isso mostra que esse excedente cognitivo não está associado à lógica do newsmaking. É sabido que o newsmaking é um componente da noticiabilidade, conforme explicado no capítulo 2. São os critérios de noticiabilidade que indicam o que será publicado pela imprensa. Também são esses os critérios aplicados à diagramação da primeira página de um jornal de papel. Eles fornecem diretrizes para apresentação do material, sugerindo o que deve ser prioritário.

É dessa maneira que são estabelecidas as quantidades de chamadas que uma capa terá. Não é sem razão que perdurou por mais de 110 anos o slogan do The New York Times: All the News That's Fit to Print (Todas as notícias que podem ser impressas). Mais tarde, nos anos 2000, o jornal americano o ampliou para a Web: All the News That's Fit to Click - or Blog, Stream, Archive, Digitize, E-Mail, Personalize, etc.

APÓS RELATAR invasão, tuiteiro do Morro do Alemão usa rede para ajudar a comunidade. Folha de S.Paulo. 20 jan. 2011. Disponível em: http://bit.ly/tqxiaq. Acesso jan. 2012.
255

225

O lema do Times está totalmente atrelado ao newsmaking. Aliás, a organização de uma redação, sobretudo em relação ao perfil profissional, e a orientação editorial têm origem nesse conceito (WOLF: 2002).

Curioso anotar que, transposta para a Internet (Web e aplicativos, entre outros), a ideia segundo a qual a organização se dá por critérios de noticiabilidade e valor-notícia de composição levou a extremos – da absoluta economia ao total exagero –, mencionados nos capítulos 2 e 3.

Ficou comprovado que, em alguns casos, independentemente do suporte (papel, tevê, rádio) e dos dispositivos (fixos ou móveis), a interface não chegava nem a emular a versão clássica. Não foi percebido critério no uso de elementos de composição, como links ou multimídia. Design de superfície, redundância e imperativo predominavam, o que Giselle Beiguelman chamou de “clicagens burras” (2004).

Por outro lado, havia (e ainda há) jornais com mais de 100 chamadas em sua interface principal, como o New York Times. Alguém lê tudo isso? Ou seja, um exaustivo uso do valor-notícia de composição no qual prevalece a noção de que quase tudo é importante. Isso passa ao largo da tentativa de reorganizar o que David Weinberg chamou de “miscelância” na Internet.

Tanto é verdade que uma corrente de pesquisa atropelou o gatekeeper pela defesa sistemática do termo “curadoria da informação” para que a escolha continue sendo feita de cima para baixo. Porque, de modo geral, é isso que sugere o termo, que tem origem na arte, na metade do século 19. A discussão sobre curadoria da informação apareceu em novembro de 2008 em um texto do professor Jeff Jarvis, diretor do Tow-Knight Center for Entrepreneurial Journalism, ligado à universidade de Jornalismo de Nova York.

Jarvis redefiniu curadoria como “a necessidade de o editor organizar, corrigir e criticar o excesso de informação que circula na rede256”. É correto dizer que o gatekeeper trabalha com a ideia da seleção, o profissional é uma espécie de porteiro, de guardião, e
CURATION and journalists as curator. mindymcadams.com, EUA, 3 dez. 2008. Disponível em: http://bit.ly/9bTY. Acesso mar. 2012.
256

226

decide o que fará com uma informação. Porém, organizar, corrigir e criticar faz parte da prática jornalística total. Não há a necessidade de um curador, seja para o Jornalismo ou para as redes sociais. Porque o filtro na rede se dá a partir de validação e recomendação de conteúdo na própria rede.

Aliás, a sobrecarga de informação e a necessidade de filtro não surgiram com a Internet. Na realidade, são anteriores a ela. Começaram em 1453 com a invenção da imprensa de Gutenberg. “Por causa da Internet, temos a impressão de que o excesso é maior”, explica o escritor Clay Shirky.

Para ele, a grande questão não é o aumento exponencial de informação disponível, mas a falta de meios eficientes para organizar a busca do que se deseja (2011). Só o Google não resolve. Nem os mecanismos de pesquisa dos jornais que, muitas vezes, se revelam inconsistentes. Ignoram duas importantes rupturas: memória coletiva e filtragem colaborativa.

A interface se auto-organiza por revezamento e agenciamento: a interface circula em um fluxo atemporal. A produção de conteúdo é baseada principalmente em agenciamentos coletivos de enunciação, burburinhos, zumbidos, que têm na figura do produser/prosumer seu maior colaborador, além do crowdsourcing. Vem de todos os lados, transborda, rompe os limites. É óbvio que no espaço liso das redes, o Jornalismo opera por tentativas de estriá-lo, de criar limitações e impor procedimentos típicos da sua prática social.

Conforme abordado no capítulo 1, o entendimento de agenciamento na obra de Gilles Deleuze e Félix Guattari está relacionado à produção de subjetividade, ao desejo como construção junto ao socius. Em Micropolítica: Cartografias do Desejo, Guattari e Raquel Rolnik o definiram para além de estrutura, forma, processo e montagem: “Um agenciamento comporta componentes heterogêneos, tanto de ordem biológica, quanto social, maquínica, gnosiológica, imaginária”. (2005, p. 381).

É por causa do agenciamento que a interface é reconfigurada. Esse burburinho produz subjetividade a partir da enunciação, que produz enunciados em um contexto 227

sempre coletivo e heterogêneo. Subjetividade essa que interfere constantemente na interface. Não se pode esquecer o fator tecnológico. Vale lembrar que são resultado de agenciamentos o excedente cognitivo, a inteligência coletiva e a emergência bottom-up.

Também é verdade que as próprias redes sociais se revezam entre ser máquinas de guerra e aparelhos de captura. De novo, é esclarecedor o exemplo do movimento contra as leis antipirataria (SOPA, sigla em inglês) e de proteção à propriedade intelectual (PIPA, sigla em inglês), já abordado na Introdução (ver p. 23-24), mas agora tendo o Google como protagonista.

O Google, mesmo preocupado com negócios, é o mesmo que estimula mobilizações na rede. E é exatamente isso que diferencia as redes das interfaces jornalísticas: a possibilidade de produzir espaços lisos que as empresas de comunicação não permitem.

É por essa razão que não faz sentido que jornais como Huffington Post ou The New York Times criem redes sociais dentro de suas plataformas ainda que linkadas a outras redes sociais. O Social News é resultado do excedente cognitivo e é isso que mexe com estruturas já solidificadas, esmiuçadas a seguir.

A Social News alterou significativamente a forma pela qual a notícia é produzida e disseminada: já que o Jornalismo não controla o fluxo informacional, o conceito de edição entra em xeque. Com isso, não há mais necessidade de diagramação e a hierarquia, principalmente a manchete, não determina mais a importância da notícia.

Por essa razão também não faz sentido pensar em gatekeeper (ou curador) para a Internet, explicado no tópico anterior. O termo que melhor se adequa nesse caso é produsage (produção e uso). Editorias são substituídas por tags ou hashtags. As tags são termômetro e inauguram não só uma nova forma de ler, mas de exibir conteúdo. No Twitter, por exemplo, o produser/prosumer segue palavras-chave e não editorias ou manchetes. Isso se tornou uma prática social.

228

O microblog estimula tanto o collaborative tagging que agora todo evento de grande porte ou acontecimentos como tragédias têm roteiros feitos a partir de hashtags e perfis de jornalistas ou jornais e cidadãos em geral. Foi assim na cobertura do terremoto que atingiu o Japão em março de 2011. Informações sobre órgãos de saúde e ajuda à população e perfis de cidadãos e jornalistas que acompanharam a tragédia foram publicados em inglês e em japonês nessa rede.

É verdade que a interface auto-organizada em rede implica rediscutir questões de ética e credibilidade. Porém a própria dinâmica das relações que ali se estabelecem resolve isso de várias maneiras. Por exemplo, quando há vontade de indução de valia sobre fatos, principalmente políticos ou de fatos envolvendo tragédias ou conflitos.

A greve da polícia militar na Bahia no início de 2012 é esclarecedora nesse sentido. Ganharam espaço nas redes sociais boatos sobre violência e criminalidade, o que aumentou a tensão, principalmente em Salvador, sede da mobilização. Mas a própria rede se encarregou de desmenti-los.

A contrainformação deu outro ângulo não só à cobertura da imprensa e despolitizou a divulgação de notícias também nas redes. No dia 3 de fevereiro, considerado o mais violento, alguém espalhou que um shopping da capital baiana havia fechado as portas. Mas um depoimento no Facebook, acessado via celular, refutou a informação. O comércio funcionava normalmente.

Outro caso importante foi a denúncia de estupro na 12ª edição no Big Brother Brasil, da Rede Globo. A emissora carioca, em uma tentativa de impedir o vazamento de um vídeo de sete minutos no qual o modelo Daniel Gustavo Rodrigues aparece supostamente abusando da estudante de administração Monique Amin, não conseguiu controlar a circulação nas redes sociais. As imagens se espalharam feito rastilho de pólvora, o que levou à expulsão do participante do reality show e a abertura de uma investigação policial257.

257

EDIÇÃO DO BBB12 ignora possível caso de estupro. Veja, São Paulo, 16 jan. 2012. Disponível em: http://bit.ly/zm6MR4. Acesso fev. 2012.

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A World Wide Web não é o único protocolo a permitir uma estética do banco de dados: não se pode negar que há avanços consideráveis na produção e na exibição de informações jornalísticas no protocolo de Tim Berners-Lee, sobretudo no que se refere à tecnologia. Obviamente, em uma rede com alta velocidade de conexão, aumenta-se a capacidade de download de conteúdo e, consequentemente, a maior oferta de hipermídia. Porém, a base de criação é a mesma. É por isso que a interface funciona por meio de tradições.

Um exemplo disso é o browser258, do inglês browse, cuja própria denominação está relacionada à lógica do nomadismo, segundo a qual o sujeito navega pela possibilidade de linkagem de algo que pode ser permutado sem limites determinados e é transformado em um paginador. Browse remete a flanar e não a navegar. O flâneur, segundo a definição de Charles Baudelaire, é aquele que passeia pela cidade a fim de experimentá-la259. É assim que a rede opera. É assim que o design tem de ser pensado.

O texto também é reflexo dessa estrutura ancorada às Teorias do Jornalismo aplicadas às mídias clássicas e à necessidade de reprodutibilidade das grandes corporações de comunicação. O que explica, de certo modo, a exibição em manchete, linha fina, resumo e foto, a exemplo de uma página de jornal impresso. Trata-se de um fac-símile com mídia distribuída.

E isso não aparece somente na Web. Nos aplicativos também. Principalmente os fechados, pagos. Embora frutos de um design belíssimo, como o da revista Wired (iPad ou iPhone), seguem convenções. Mas não precisavam ser assim. Poderiam ser concebidos não para serem jardins murados, como os portais-currais denominados por André Lemos, mas para permitirem a produção de espaços lisos.

A interface, seja ela de Web ou de Internet das Coisas, tem de ser percebida como um mapa cognitivo, que requer uma nova linguagem visual e um novo vocabulário crítico, mesmo que resulte em uma estética de experimentação ainda que não considerada bela.

258 Segundo o dicionário Houaiss, browse significa: folhas, ração e outros alimentos colhidos a esmo (por animais)', p.ext. 'busca rápida com os olhos'. 259 Para saber mais sobre flâneur, ver: http://bit.ly/wGoVYt. Acesso fev. 2012.

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É urgente sistematizar critérios para julgá-la, como afirmou o escritor Steven Johnson (2001, p. 20-21). E os trabalhos de arte digital são um ponto de partida importantíssimo para isso, já que desafiam a categorização.

São obras compostas pela matemática, baseadas em algoritmo, sem hierarquia ou categorização mesmo que em alguns casos, as tags sejam pré-programadas. Por isso, a interface jornalística deveria ser pensada não só a partir de um coletivo inteligente, mas do input de dados e tags, pois ela opera por revezamento entre informação e contrainformação; poder e contrapoder.

É resultado de alteridades. Não há uma estética definitiva. As redes colocam em xeque a estética PowerPoint de Manovich e os formatos portal e site não cabem nessa nova abordagem.

É como afirmou o escritor Clay Shirky: “Uma das razões pelas quais o Google foi bemsucedido é o entendimento de que não há arquivos, não há prateleiras”. Com a empresa de Lary Page e Sergey Brin foi assim. Como seria com a interface da notícia?

Se um projeto como o Sixth Sense, do Massachusets Institute of Tecnology (MIT), como demonstrado no capítulo 1, fosse reelaborado para o Jornalismo, qual seria a abordagem, uma vez que trabalha com sensores que projetam diferentes interfaces, não só diferentes como vestíveis? E não há apenas a Web ou aplicativos. Há algo que os transborda. O sujeito se transforma em uma interface conectada. Ele carrega a interface.

Sabe-se que um dos impedimentos é cultural. O outro é econômico. Embora os agenciamentos coletivos imponham interfaces nômades, o que está em jogo é saber como o Jornalismo pode ganhar dinheiro com essa nova abordagem. Essa é talvez uma das razões para que o raciocínio das empresas de comunicação não tenha mudado ao longo de quase 20 anos de existência da World Wide Web, como será abordado a no próximo tópico.

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A economia informacional

Apesar de sua função social e de ser definido por Michael Kunczik como “a profissão principal ou suplementar das pessoas que reúnem, detectam, avaliam e difundem as notícias, ou que comentam os fatos do momento” (1998, p. 16), o Jornalismo é um negócio. Vende notícias. Esse componente está visivelmente presente no newsmaking. A informação jornalística está inserida na sociedade desde o século 17, quando começam a surgir publicações periódicas (MEDINA: 1978p. 15):

(...) Os próprios avanços tecnológicos fazem parte das necessidades da industrialização, ou que reforça a informação, no caso, jornalística, como decorrência normal do sistema econômico que está na base. Há então a considerar a informação como um produto, mais um, desse sistema (IBIDEM, p 16). (...) O Jornalismo nos meios gráficos e eletrônicos, o cinema e a televisão nos programas de lazer, todos os recursos técnicos de reprodução e divulgação de massa. E não é mais possível discorrer sobre a mensagem jornalística como um dado isolado dessa realidade (IBIDEM).

A crítica à industrialização da notícia começa no mesmo século, após a burguesia, em ascensão na época, criticar o que ficou conhecido por “mentes privilegiadas” que detinham acesso a informações. Ou seja, “uma teoria autoritária da imprensa, típica dos séculos 16 e 17, que se fundamentava na posição sintomática do sistema socioeconômico da Europa, sobretudo Inglaterra e França” (IBIDEM, p. 17-18).

Tobias Peucer, quando escreveu sua tese sobre o Jornalismo em 1690, já havia detectado critérios de noticiabilidade que apontavam esse viés.

O que se viu nesse período foi o fim do Jornalismo romântico baseado no “mercado livre de ideias”, que esbarrou na complexidade tecnológica desencadeada pela revolução industrial e, por consequência, na complexidade informativa. O que levou a um ataque fervoroso à grande engrenagem da qual faz parte o Jornalismo como um todo, dividido entre a economia e o compromisso com o público.

Há um sem número de exemplos que ilustram essa lógica. Um dos mais atacados por observadores da mídia foi o caso da estudante Eloá Cristina Pimentel, morta pelo ex232

namorado Lindemberg Fernandes Alves em 2008, após ficar em cativeiro na própria casa, em São Bernardo do Campo, por mais de 100 horas.

A cobertura virou um reality show centrada no seguinte raciocínio: quanto maior a audiência, mais consumidores atingidos por anunciantes, mais dinheiro entra em caixa.260 O caso Eloá se transformou no que José Arbex Jr. denominou “shownarlismo”, Jornalismo do espetáculo, que trata a notícia como entretenimento e já era praticado nos Estados Unidos desde o século 19261.

A cobertura chamada ao vivo por meios televisivos e radiofônicos também foi incorporada à Internet desde o início das produções jornalísticas. Os anúncios também, forjando o intervalo entre as programações. Foi assim no atentado a Oklahoma, em 1995, tratado no primeiro capítulo.

A importância do Jornalismo de Internet foi, de fato, percebida, quando as pessoas se conectaram à rede para acompanhar notícias sobre o ataque orquestrado pelo terrorista Timothy McVeigh, morto em 2001. No Brasil, essa percepção se deu anos mais tarde, com a Guerra de Kosovo (1999).

Depois vieram as coberturas sobre o escândalo envolvendo o ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton e a estagiária Monica Lewinsky (1998), o atentado às torres gêmeas, que ficou conhecido como a Terça Negra (2001).

De eventos isolados, a cobertura baseada em tempo diferido e atualização contínua passou a integrar o cotidiano das redações de Internet. Sempre em uma perspectiva econômica, guardadas as diferenças de abordagens entre Internet e mídias clássicas, como jornal impresso, rádio e tevê.

A MÍDIA e o sequestro em Santo André. Observatório da Imprensa, São Paulo, out. 2008. Disponível em: http://bit.ly/x5xb42. Acesso mar. 2012. 261 SHOWRNALISMO. Observatório da Imprensa, São Paulo, 29 out. 2001. Disponível em: http://bit.ly/5tvfJB. Acesso mar. 2012
260

233

Wikileaks também quer dinheiro No caso do jornal impresso há um detalhe importante a ser colocado em discussão: a emulação do Wikileaks como forma de demarcar claramente a notícia como um produto à venda e como um serviço à sociedade sob o rótulo da transparência, conforme mostra a teoria nas leituras de Cremilda Medina e Gaye Tuchman, entre outros. O projeto FolhaLeaks é um bom exemplo desse raciocínio. Criado pela Folha S.Paulo em setembro de 2011, permite que leitores enviem documentos, fotos e sugestões ao jornal. A reportagem faz triagem e checagem das informações para avaliar uma posterior publicação, com a garantia de o colaborador ter garantido seu anonimato. Tais informações passam por um filtro determinado pelo newsmaking do jornal. É raro um texto oriundo do FolhaLeaks não ter chamada na primeira página. Isso o torna vendável262. Afinal, de modo geral, empresas de comunicação obtêm receita a partir de venda em banca, assinaturas e anúncios. Já o Wikileaks, de Julian Assange, cuja lógica é a do contrapoder, da contrainformação, também está interessado em lucro. Seu dinheiro tem origem em doações cuja lista é desconhecida do público. Quando faz acordos como os que fez com Ian Taylor, correspondente europeu do Guardian, e Nick Davies, repórter investigativo do mesmo jornal britânico (LEIGH; HARDING: 2011, p. 99), a estratégia de Assange também assume procedimentos do newsmaking. Ninguém passa informações, principalmente as reveladas pelo Wikileaks, sem algum interesse. Especialmente as fontes. Mesmo as que fazem parte do excedente cognitivo. E Assange passou a ser o intermediário dessas fontes, não mais restritas somente a políticos com intenção de emplacar intrigas ou criar fatos positivos, como já mencionado no capítulo 2, mas descoladas de jornais e jornalistas, como o caso de Braddley Manning. O soldado raso enviou ao Wikileaks um vídeo confidencial mostrando

262

Para saber mais sobre o FolhaLeaks, ver: http://bit.ly/rbF6ge. Acesso mar. 2012.

234

o massacre de civis por tropas americanas em Bagdá, Iraque, e 260 mil páginas de telegramas diplomáticos confidenciais contendo avaliações da inteligência (IBIDEM, p. 100). Um mês depois da divulgação desses documentos, os cofres da organização receberam US$ 1,1 milhão em forma de doação263. Isso significa que se os jornais emplacam as denúncias, ganham os dois. Um vende, o outro angaria investimentos. A represália veio na contenção econômica. No final de 2011, bancos e financeiras bloquearam doações feitas por meio de cartões de crédito e serviços de pagamento eletrônico. Juntas, as bandeiras Visa e MasterCard, além do PayPal, intermediavam 90% das doações. Outros 5% vinham de Western Union e The Bank of America. “Eram milhares de doações, com valor médio de US$ 25. Poucas excediam US$ 100 e não havia doadores corporativos”, disse o islandês Kristinn Hrafnsson, porta-voz do Wikileaks, em entrevista à ISTOÉ Dinheiro264. Agora, Assange corre para descontar o prejuízo. Um aviso em sua interface indica que as doações são importantes para “lutar contra essa (bloqueio) e outras formas de censura, para projetos do Wikileaks, manter equipe, servidores e infraestrutura de proteção. Somos completamente apoiados pelo público265.” O cenário atual em nada lembra a primeira bolha da Internet, marcada por um processo de especulação em torno de empresas que constituíram ou migraram seus negócios para a rede, especialmente o comércio eletrônico, de 1995 a 2000, com altos investimentos às chamadas start-ups. Especuladores as hipervalorizaram para depois as abandonarem, provocando desvalorização generalizada, quebradeira e fusões (SERVA: 2002, p. 98).

O dinheiro acabou. E agora? ISTOÉ Dinheiro, São Paulo, 28 out. 2011. Disponível em: http://bit.ly/sPUUqN. Acesso mar. 2012. 264 IBIDEM. 265 Para saber mais sobre como funcionam as doações ao Wikileaks, ver: http://bit.ly/u65dYo. Acesso mar. 2012.
263

235

Hoje players como Facebook, Google e Twitter encontraram soluções para faturar com a Internet (por meio de aplicativos) e principalmente com a Web sem emular o que já existia. A razão para isso está no fato de perceberem que a base da Web e da Internet são as pessoas. É gente conversando com gente, é relacionamento. Isso se tornou o grande negócio, como os movimentos pelo software livre, que desenvolveram novos mercados, descentralizados, auto-organizados, confrontando as forças do mercado tradicional (RHEINGOLD: 2002, p. 54). O surgimento do Orkut é reflexo disso. Foi criado quatro anos após a bolha, em 2004, embora não seja considerada uma rede social da qual faz parte o excedente cognitivo266. Foi com esse raciocínio que, nos anos 1920, Bill Paley se tornou por mais de 50 anos a figura mais importante da radiodifusão moderna ao apostar em novos formatos para a CBS. Como se perceberá a seguir, a compreensão da Internet e da rádio se toca pelas bordas. A lição Bill Paley, da CBS Não é novidade que nem todo publisher tem o brilhantismo de Paley. Ele transformou a rede CBS (rádio e TV) em um sucesso de audiência não apenas por causa do modelo de negócio que introduziu na empresa – merchandising -, mas ao seguir sua intuição. Não emulou a NBC, na época, líder de mercado. Apostou em entretenimento e programação (HALBERSTAM: 1975, p. 22-25). Quando virou dono da CBS, aos 27 anos, não entendia nada de radiodifusão. Era um jovem em um setor mais jovem ainda. Trabalhara antes na empresa de tabaco pertencente à sua família. Embora um sucesso absoluto, Paley não queria repetir a mesma trajetória. Depois da Grande Depressão, o pai, Sam Paley, vendeu a companhia por US$ 30 milhões e investiu US$ 400 mil na CBS (IBIDEM). O ano era 1928 e a CBS estava sem dinheiro, contava apenas com seis afiliadas e estava alojada num pequeno andar da Paramount Tower (IBIDEM).

266

Para saber mais sobre o Orkut, ver: http://bit.ly/H8naq. Acesso mar. 2012.

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E o exemplo da CBS é o que melhor se encaixa para discutir a economia na sociedade informacional. O raciocínio à época pode ser perfeitamente aplicado à Internet e à Web (IBIDEM, p. 23): “Radio had no past. The present was very shaky and did most responsible people did not seem to think there was very much future”. (Rádio não tinha passado. O presente era muito instável e as pessoas com alguma responsabilidade pareciam pensar que não havia muito futuro). À exceção de Facebook, cujo lucro é oriundo de conteúdo sem custo postado pelos milhares de membros, Google, com suas receitas baseadas em links patrocinados267, e Twitter, ainda novato no quesito modelo de negócios, tendo anunciado seus tweets patrocinados em 2009, a Apple criou a economia baseada em aplicativos, em uma clara tentativa de produzir espaços estriados. Em julho de 2011, a empresa anunciou 15 bilhões de downloads na sua Apple Story. Os desenvolvedores receberam US$ 2,5 bilhões. São modelos diferentes: um atua nos espaços lisos tensionados e o outro somente nos espaços estriados. Mark Zuckerberg também viu uma forma de ganhar dinheiro com APPs e anunciou dezenas de parcerias nesse sentido. The Guardian e Washington Post estão entre suas apostas numa estratégia clara de aumentar o tráfego para suas interfaces fora da rede. Não só no Facebook, mas no Twitter também. Estratégia essa que se revelou um fracasso, de acordo com o State of The News Media de 2012268.

O estudo mostra que apenas 9% da audiência dos jornais de Internet têm origem nas redes sociais. Espertamente o relatório induz à crença de que “a mídia social se tornou uma nova vitrine, mas não substitui tradicionais trajetos virtuais para chegar a uma informação”.

Na realidade, o que falta é uma estratégia que leve em conta o que Howard Rheingold mostrou em seu Smart Mobs: The Next Social Revolution, em 2002: que os
Quando você fizer uma busca no Google, observe que do lado direito e, às vezes, na parte superior, aparece um resultado diferente do tradicional. Ele é pago. Para aparecer ali, as empresas participam de um leilão online, no qual pagam um valor por cada palavra. O sistema do Google, com base neste valor e na quantidade de cliques, define qual resultado aparece em primeiro lugar. Esta é a principal fonte de receita do Google. Yahoo! e Microsoft também exploram este serviço globalmente (ISTOÉ Dinheiro: 2009). 268 Para ler a íntegra da pesquisa, ver: http://bit.ly/wfcFQI. Acesso mar. 2012.
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negócios têm de ser pensados a partir dos relacionamentos que se estabelecem e não por meio de uma ação emuladora.

Para se ter uma ideia do quanto as redes sociais ganharam importância, somente no Brasil o Facebook publicou o maior número de anúncios: 10, 9 bilhões de inserções, de acordo com dados da ComScore. A rede ultrapassou o Orkut, da Google, no País: 36,1 milhões contra 34,4 milhões.

A grande questão que se coloca é saber se é possível uma empresa de comunicação ter um modelo de negócio baseado em redes sociais, em agenciamentos. Hoje, os jornais simulam o crowdsourcing. Não fazem parte dele.

Como seria sua interface, uma vez descoberto esse modelo? Manteria a tradição ou romperia como fez corajosamente Bill Paley ao assumir a CBS? Até agora, a história mostra que na Web as reformas se alternam entre colocar e tirar fios. Mesmo aqueles que ganham dinheiro com o protocolo de Berners-Lee ou com aplicativos.

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250

Anexos Formulário de observação e ficha técnica
O formulário de observação abaixo foi elaborado a partir dos trabalhos de Luciana Moherdaui (2008; 2005), Javier Díaz Noci et al (2007); Javiera Díaz Noci (2004); Lluís Codina (apud DÍAZ NOCI; SALAVERRÍA: 2003); Ainara Larrondo e Ana Serrano (2007); Richard van der Wurff e Lauf, Edmund (2005).
Orientações

X – para apenas uma alternativa

Numeral – mais de uma alternativa, sendo que o número 1 tem peso maior

data: __/ __/ __ jornal: _______________________________

Design característica ( ) remediation ( ) híbrido

1) projeto gráfico simula o papel? ( ) sim ( ) não há informações sobre o projeto? ( ) sim ( ) não

2) período de mudança do design ________________________________

3) browser ( ) horizontal ( ) vertical menu ( ) horizontal ( ) vertical

4) cabeçalho simula papel? ( ) sim ( ) não total de chamadas na capa: ______________

5) diagramação em colunas? ( ) sim ( ) não

6) divisão em canais (editorias)?

( ) sim ( ) não

7) arquitetura da informação? ( ) hierarquia ( ) não linear

251

8) exibe estatísticas? ( ) sim ( ) não

9) resolução de tela? ( ) 1024 ( ) 800 ( ) outros

10) download ? ( ) rápido ( ) lento

11) visibilidade em mais de um navegador? ( ) sim ( ) não

12) tipo de acesso? ( ) mouse ( ) multi-touch ( ) voip

13) braço de outras mídias? ( ) sim ( ) não

14) distribuição? ( ) on-line ( ) off-line e on-line

15) sistemas (s) predominante (s)? ( ) textual ( ) visual ( ) áudio ( ) vídeo

a) entre mídias da mesma empresa? ( ) sim ( ) não b) entre mídias de empresas diferentes? ( ) sim ( ) não

Communication Cloud

16) exibe tags? ( ) sim ( ) não • • há informações sobre uso de tags? ( ) sim ( ) não leitor pode inserir tags? ( ) sim ( ) não

17) busca? ( ) sim ( ) não - em caso de sim, simples ( ) avançada ( )

Conteúdo • há informações sobre publicação de conteúdo? ( ) sim ( ) não

18) atualização contínua? ( ) sim ( ) não

252

19) formatos ( ) reportagem multiforme ( ) texto multilinear ( ) pacotes multimídia

20) possui quais elementos?
( ) galeria de imagens ( ) fotos ( ) podcasts ( ) últimas notícias ( ) áudio ( ) 3D ( ) votar/avaliar ( ) personalizar/customizar ( ) aumentar/diminuir fonte ( ) hot site ( ) webmail ( ) painel do leitor

( ) vídeos/ videocast ( ) slide show ( ) comentários ( ) enquete ( ) impressão ( ) bate-papo ( ) registro ( ) copyright ( ) outros

( ) recomendar notícias ( ) favoritos ( ) modifica layout ( ) contato (redação) ( ) código de ética ( ) acessibilidade ( ) fórum ( ) expediente ( ) privacidade ( ) fale conosco

links? em caso de sim, ( ) relacionados ( ) internos ( ) externos

aplicativos? ( ) sim ( ) não em caso de sim, quais? ( ) widget ( ) mashup ( ) google ( ) outros

marcadores? ( ) sim ( ) não em caso de sim, o que é permitido compartilhar ( ) texto ( ) vídeo ( ) áudio ( ) foto

redes sociais? ( ) sim ( ) não

em caso de sim, são integradas ao jornal ( ) sim ( ) não • • • blogs? ( ) sim ( ) não holografia? ( ) sim ( ) não infográfico? ( ) sim ( ) não em caso de sim, ( ) estático ( ) animado ( ) dinâmico [base de dados] • há informações sobre uso dos elementos de composição? ( ) sim ( ) não

21) distribuição? ( ) digital ( ) analógica em caso de digital, multiplataforma? ( ) sim ( ) não 22) profundidade? ( ) sim ( ) não

253

em caso de sim, ( ) doc ( ) HTML ( ) pdf ( ) excel ( ) ppt

Open Source 23) produção ( ) própria + agência ( ) própria + agência + colaborador

24) público participa? ( ) sim ( ) não em caso de sim, como? ( ) texto ( ) vídeo ( ) áudio ( ) imagem ( ) comentário

leitor modifica base de dados? ( ) sim ( ) não em caso de sim, qual formato ( ) infográfico ( ) arquivo

sistema aceita conteúdo de outros dispositivos? ( ) sim ( ) não em caso de sim,

( ) computador – tevê ( ) celular – rádio digital ( ) outros

edição ( ) com o conteúdo produzido por jornalistas ( ) em uma área separada no portal

destaque na capa? ( ) sim ( ) não

254

Relatório final do Programa Bolsa UOL de Pesquisa
Número do Processo: 20080102180000 Data: 20/03/2009

Título do projeto Pesquisador Nome do aluno Nível da bolsa

Os elementos de composição da página no jornalismo digital Gisele Beiguelman Luciana Moherdaui Iniciação Científica Mestrado X Doutorado

Este relatório, a ser preenchido pelo pesquisador proponente, deverá conter a avaliação das atividades desempenhadas pelo aluno, conforme os itens abaixo relacionados:

1. Atividades acadêmicas (notas obtidas, exames de qualificação, monitorias, projeto de tese e dissertação, etc.) 2008 • • • • Análise sobre o estado da arte do jornalismo digital e construção do referencial teórico da pesquisa. Revisão do projeto e da bibliografia. Definição da metodologia adotada e justificativa para escolha do método. Mapeamento as estruturas noticiosas dos 20 sites noticiosos abordados na tese e elaboração da tabela comparativa dos elementos de composição (ABC News, BBC News, CBS News, CNN, Corriere Dela Sera, El Mundo, El Pais, estadao.com.br, Folha Online, G1, Guardian Unlimited, La Repubblica, Le Figaro, Le Monde, MSNBC, Terra Notícias, The New York Times, USA Today, Washington Post e Último Segundo). Apresentação dos artigos O estado da questão da composição das páginas e Em busca de elementos de composição para 6º SBPJO e 2º ABCiber, respectivamente. Esboço dos capítulos da tese. Cumprimento das disciplinas Processos de criação e produção do conhecimento em redes fixas e móveis (nota 9); Seminário de Pesquisa I (nota 10); Mídias e Impactos Sócio-culturais – Inteligências Coletivas e redes sociais (nota); Regimes de Sentidos nas Mídias – Interações corpo a corpo e as emoções midiatizadas (nota). Criação do Contra a clicagem burra (www.contraclicagemburra.com) para sistematizar as categorias de composição de página.

• •

• 2009 • • •

Aplicação de questionário aos jornais pesquisados no projeto, apuração, análise de dados e redação do resultado. Inclusão de plataformas de redes sociais como metodologia de pesquisa. Preparação de perguntas para entrevistar editores dos jornais digitais que fazem parte da pesquisa.

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Participação como aluna ouvinte da disciplina Processos de criação e produção do conhecimento em hipermídia e em redes fixas e móveis: pressupostos críticos e criativos no Design de Interfaces, ministrada por Giselle Beiguelman. Oficialização da Rede Jornalismo e Tecnologias Digitais, projeto de pesquisa aplicada à experimentação e criação de inovações tecnológicas em captação, produção, empacotamento, transmissão e distribuição de conteúdos jornalísticos nas convergentes plataformas: http://bit.ly/zRM4sE Colaboração na revisão de artigos da edição de 2009 da Galáxia, Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica www.pucsp.br/pos/cos/galaxia. A Galáxia tem conceito A na Qualis/Capes. Membro do Conselho da nova revista acadêmica da PUC/SP intitulada Nexi. A publicação, exclusivamente, online, será voltada a estudantes de mestrado e doutorado.

2. Publicações submetidas e aceitas (inserir referência completa): MOHERDAUI, L. Em busca de um modelo de composição para os jornais digitais. In: Revista Contemporânea. UFBA Bahia, Salvador, jan. 2009. Disponível em: http://bit.ly/Aen4Av. Acesso mar. 2012. MOHERDAUI, L. O estado da questão da composição das páginas. In: Anais do 6º - A construção do campo do jornalismo no Brasil. CD-ROM. Metodista, São Bernardo do Campo, SP, 2009.

3. Avaliação geral do andamento do trabalho do aluno: Aspectos Satisfatório Satisfatório sem restrição com restrição Cumprimento dos X objetivos Contextualização X Metodologia X utilizada Resultados X esperados Aplicabilidade X Cronograma X Bibliografia X utilizada 4. Parecer Final:

Insatisfatório

Foi atingido o objetivo proposto no projeto: identificar os elementos de composição da página noticiosa que estão sendo utilizados ou desenvolvidos de forma específica para o jornalismo digital. Esse mapeamento norteará a segunda fase do projeto, que se resume a:

256

A) entrevistar editores-chefes dos 20 jornais do Brasil e do exterior com mais acesso na internet, segundo dados recentes do Ibope: Márcia Menezes (G1), Ana Lucia Busch (Folha Online), Antonio Prada (Terra Notícias), Mariana Castro (Último Segundo), Marco Chiaretti (estadao.com.br), Kenneth Estenson (CNN), Charles Tillinghast (MSNBC), Matt Rehm (The New York Times), Randy Stearns (ABC News), Dan Farber (CBS News), Jeff Webber (USA Today), Elizabeth Spayd (Washington Post), Laurent Greilsamer (Le Monde), Bertrand Gié (Le Fígaro), Ezio Mauro (La Repubblica), Paolo Mieli (Corriere della Sera), Javier Moreno (El Pais), Fernando Baeta (El Mundo), Steve Herrmann (BBC News) e Alan Rusbridger (Guardian Unlimited). B) Elaboração dos capítulos da tese, estruturada da seguinte maneira: Introdução (abertura inclui clicagens burras, interface e browser) 1. Do papel para a web (1.1. Composição das páginas; 1.2. Elementos do design informacional; 1.3. Ponto de vista jornalístico) 2. O browser como paginador (2.1. Critérios de construção; 2.2. Desconstruindo conceitos; 2.3. Categorias de análise) 3. Em busca de um modelo (3.1. Rupturas e remediações; 3.2. Superfície e interface; 3.3. Das simbioses - tecnologia, jornalismo e design) 4. Estudo de caso (4.1. Análise geral; 4.2. Quadro comparativo; 4.3. O denominador comum) 5. Uma nova proposta (5.1. Definição; 5.2. Características; 5.3. Valor-notícia de composição) 6. Conclusões 7. Anexos (7.1. Questionário de entrevistas; 7.2. Formulário de observação; 7.3. Tabulação de dados; 7.3.1. Entrevistas; 7.3.2. Sites noticiosos).

257

Interfaces pesquisadas269 2012
www.g1.com.br

269Ranking

do Ibope atualizado em julho de 2010. O ranking anterior, de 2008, que consta na primeira versão do projeto de pesquisa, contém a mesma estrutura, com exceção do uso maciço de redes sociais e botões de compartilhamento e reputação. Versões daquele ano dos jornais estão disponíveis para consulta em www.archive.org.

258

www.folha.com

259

www.terra.com.br

260

www.estadao.com.br

261

www.googlenews.com

262

www.ultimosegundo.com.br

263

www.r7.com.br

264

www.bbc.co.uk/portuguese

265

www.nytimes.com

266

www.band.com.br

267

www.cnn.com

268

www.msnbc.com

269

www.elpais.com

270

www.guardian.co.uk

271

www.huffingtonpost.com

272

2009
www.g1.com.br

273

www.folha.com

274

www.terra.com.br

275

www.estadao.com.br

276

www.googlenews.com

277

www.ultimosegundo.com.br

278

www.r7.com.br

279

www.bbc.co.uk/portuguese

280

www.nytimes.com

281

www.eband.com.br

282

www.cnn.com

283

www.msnbc.com

284

www.elpais.com

285

www.guardian.co.uk

286

www.huffingtonpost.com

287

2008270
www.abc.com

270

Ranking de 2008, que consta na primeira versão do projeto de pesquisa.

288

www.bbc.co.uk

289

www.cnn.com

290

www.cbsnews.com

291

www.corriere.it

292

www.elmundo.es

293

www.elpais.es

294

www.folha.uol.com.br

295

www.g1.com.br

296

www.guardian.co.uk

297

www.repubblica.it

298

www.lefigaro.fr

299

www.lemonde.fr

300

www.msnbc.com

301

www.terra.com.br

302

www.nytimes.com

303

www.washingtonpost.com

304

www.ultimosegundo.com.br

305

www.usatoday.com

306

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