Uma agulha da realidade Narhima Abbas

Algumas histórias tem um final feliz, outras têm um final triste, mas essas são apenas histórias, não fazem questão de serem reais, com pessoas reais. Essa não é uma história com um final, pois a vida continua. Belle nasceu em meio à felicidade e dúvida ao mesmo tempo. E mesmo sendo possível fruto de uma traição, nada restou ao seu pai além de suspeitar e seguir com a vida, sempre com a suspeita, mas nunca negando amor àquela filha que sempre lhe dera orgulho. A menina viveu em um conto de fadas, sempre protegida do mundo de fora e assim ela cresceu. Tendo somente a companhia dos livros e de seus pais, cresceu sem saber aquilo que somente a vida pode nos ensinar, e assim ela construiu seu mundo mágico. Nele todos eram bons e tudo no mundo era formado dessa mesma bondade. Seus pais, mesmo que cientes desse sacrifício, não tinham a mesma ciencia das consequências. Cresceu e começou a revelar as qualidades que os livros acabaram por dar com o tempo. A beleza veio naturalmente, mas o caráter, o coração caridoso e sua inteligência vieram com seus “amigos” de infância. Mesmo com a superproteção dos pais e supervisão com tudo o que ela aprendia, lia, escrevia e até pensava ocorreu um grande divisor de água quando foi para o ensino médio. Em seu primeiro dia de aula em uma das escolas de mais alto nível da região conheceu seus primeiros amigos: Sarah, Philip e Peter. Não é necessário destacar a vida de cada um deles, saiba somente que os três eram pessoas boas; daquele tipo que só aparecem uma ou duas vezes na vida de uma pessoa igualmente bondosa. Porém, como a vida real não possui um terreno constante, sem pedras e sem brasas, essa não poderia ser diferente, apenas para agradar quem a lê. Belle fez amigos e começou suas primeiras experiências com o mundo exterior. Nunca havia saído de casa por causa de seus pais e agora que

experimentara a liberdade, ao invés de viver um dia de casa vez, queria viver vários em apenas um... E foi assim que tudo começou. Belle ia para casa caminhando, mas sua mãe sempre ligava a cada cinco minutos para saber se tudo estava bem, mal sabia a mãe de Belle que isso só pioraria as coisas. Belle começou a sentir alguém a seguindo a partir de certo ponto do caminho, porém se recusou a olhar para trás por puro medo. Sua mãe ligou naquele mesmo instante e agora ela sentia os passos ficarem cada vez mais perto de si. O ar entrava de forma árdua em seus pulmões, estava frio e cada inspirar ardia juntamente com a corrida que ela acabava de iniciar. Cruzou alguns quarteirões e resolveu se esconder em um beco. Atravessou as sombras úmidas daquele lugar e colocou as mãos sobre a boca tentando esconder o choro pelo medo. Notou que não estava sozinha e arriscou olhar quem era, ou melhor, quem eram suas companhias. Belle, com sua inocência, pensou que eram enfermeiros ou médicos por estarem usando seringas. O mais alto dentre os três olhou na direção da rua e visualizou os dois homens que estavam seguindo Belle. - Pode sair, eles já foram embora. – disse o menino mais alto que, ao sair das sombras, se revelou um menino de olhos claros e cabelos cor de mel. Parece um anjo – pensou Belle consigo mesma ao tirar as mãos sobre a boca. – Sou Timothy. – terminou ele estendendo o braço com rasgos e furos de seringas. Belle nunca tinha visto aquilo e imaginou ser algo normal, mas que apenas não conhecesse, como tantas outras coisas. Timothy se retraiu ao ver que Belle admirava suas cicatrizes como se fossem pequenas joaninhas para uma criança. - Meu nome é Belle. – disse ela voltando para a realidade depois de se deixar hipnotizar pelas marcas. - Nome coerente para uma moça tão bela. – disse ele rindo com os olhos meio fechados. Parecia sonolento, mas isso não importava. Belle já havia caído naquele mundo e mal sabia o quão distante ficaria da realidade. Mais

distante do que quando era pequena. Com toda certeza os livros não haviam preparado ela para aquele momento por completo, não para as cicatrizes, não para um beco, não para as decepções que estavam por se suceder. A grande garota com olhos de menina olhou para as seringas e foi então que a pergunta foi feita. - Você quer experimentar? – perguntou uma menina com os olhos entreabertos de cansaço. - O que é isso? – perguntou Belle com os olhos brilhantes. - É um passaporte para onde você quiser. – disse o outro garoto que estava deitado no chão. - Quer experimentar? – disse Timothy com a voz doce que soava como veludo para os ouvidos de Belle. Nesse momento um carro parou ali a poucos metros. Sua mãe estava desesperada a sua procura. Belle foi arrastada para casa e esse foi a primeira vez que ela não abaixou a cabeça para as exigências de sua mãe. A partir daquele dia Belle começou a sair escondida de casa durante a noite, mas nunca chegou a usar nada que estava dentro daquelas seringas vermelhas. Seus pais fizeram o possível para eliminar tudo àquilo que poderia causar algo de ruim a sua filha, toda a impureza do mundo que não fosse de acordo com a inocência dela. Certo dia Sarah, Philip e Peter conversaram com Belle e tentaram lhe explicar que aquilo era errado, mas ela não era mais a mesma. Nem sempre o mal vem travestido de bruxa ou de monstro como nos contos de fadas, às vezes ele virá travestido de amigo, todo maquiado por carinho e atenção, sempre oferecendo aquilo que irá tomar em dobro mais tarde. Belle já estava viciada do liquido mágico que continha naquelas seringas e que a deixava sonolenta. Cada dia que se passava ela ficava mais sonolento com as doses que eram gradativamente aumentadas. Ela não diferenciava

mais o que era sonho do que era realidade e sempre reclamava de dores de cabeça por causa da luz do dia. Ela se tornou uma pessoa detestável e extremamente insuportável de se conviver até para seus pais. Assim um mar de espinheiros se formou a sua volta. Ele impedia que todo o carinho e proteção que seus pais lhe deram entrassem. Seus amigos já não tinham esperanças e seus pais perdiam noites em claro pela filha. A única pessoa que ainda possuía algum contato com Belle era Timothy que fazia questão de ensina-la como conseguir mais dinheiro para as seringas e o liquido dourado que a fazia sonhar. - Apenas uma picada e tudo se apagará. – dizia Timothy antes de acertar a fina pele da garota com olhos de menina que mal podiam ser vistos agora, pois estavam sempre escondidos atrás de suas pálpebras, sempre caídas e arroxeadas. Foram muitos os médicos entre outros heróis que tentaram salvar Belle daquele mundo. Uma tarde Philip foi até a casa de Belle e encontrou com um médico dando algumas recomendações para os pais da menina. Antes que pudesse pensar, Philip ouviu algo que tornaria fácil aquilo que ele estava lá para fazer. - Sinto muito, mas ela não tem mais motivos para viver. Para ela a vida se baseia apenas nos sonhos e não na realidade. Temo que a única solução fosse dar algum motivo para ela ter novamente vontade de viver. – disse o médico tirando os óculos e demonstrando sua preocupação. - Aquele garoto que a magoou desiludiu completamente todas as expectativas que ainda restavam para ela. Ainda não consigo acreditar pelo que ela passou. – disse o pai com os olhos vermelhos. Philip pensou por alguns segundo e subiu as escadas até o quarto de Belle que estava dormindo. Suas bochechas estavam pálidas e lágrimas escorriam pelas laterais de seus olhos. Philip se apaixonara por ela desde a primeira vez que a viu, apenas não sabia como falar com ela. Não sabia qual seria a reação dela nem o que ela pensaria dele, assim fez-se o silêncio, até que Philip tomou coragem para dizer tudo aquilo que queria.

Partia-lhe o coração vê-la naquele estado, sentou-se na beirada da cama conteve o impulso de ir de encontro aos lábios de Belle. - Belle, se soubesse o quanto dói ver sua pele fria, sem cor, sem vida alguma. Não poder vê-la sorrir e iluminar o mundo com sua inocência. – disse Philip abaixando o rosto e derramando algumas lágrimas no lençol. Belle demonstrou estar levemente acordada ao procurar, de forma sonolenta, a mão de Philip em meio ao colchão. Naquele momento Philip pode notar que ela acordara daquele mundo de sonhos e agora começara a respirar no mundo real. As cicatrizes nos braços de Belle eram escuras e arroxeadas. Aquelas eram tatuagens de medo e mentiras. Ele então de inclinou e deu um beijo em Belle que apenas cedeu aos seus encantos e abriu seus olhos para poder ver os olhos dele. A partir daquele momento os espinhos haviam sido retirados e nenhum sonho poderia superar aquela linda realidade. Ambos seguiram com suas vidas, porém agora juntos contra o mundo, sempre crendo que não existem finais felizes e que temos que lutar pela felicidade de cada dia.

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