Você está na página 1de 6
 

TRIBUNAL DE JUSTIÇA PODER JUDICIÁRIO São Paulo

 

Registro: 2011.0000292162

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos do Apelação nº 9236868-

59.2008.8.26.0000, da Comarca de São Paulo, em que são apelantes LEONARDO

HENRIQUE DE SOUSA SALGADO (JUSTIÇA GRATUITA), ALINE CRISTINA SOUSA

SALGADO

(JUSTIÇA

GRATUITA)

e

EVANILDE

SOUSA

SALGADO

(JUSTIÇA

GRATUITA) sendo apelado COMPANHIA DE SEGUROS DO ESTADO DE SÃO

PAULO COSESP.

ACORDAM, em 32ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça

de São Paulo, proferir a seguinte decisão: "Deram provimento ao recurso. V. U.", de

conformidade com o voto do Relator, que integra este acórdão.

O julgamento teve a participação dos Exmo. Desembargadores KIOITSI

CHICUTA (Presidente sem voto), LUIS FERNANDO NISHI E WALTER CESAR

EXNER.

São Paulo, 24 de novembro de 2011.

FRANCISCO OCCHIUTO JÚNIOR RELATOR Assinatura Eletrônica

2

2 TRIBUNAL DE JUSTIÇA PODER JUDICIÁRIO São Paulo SEÇÃO DE DIREITO PRIVADO - 32ª CÂMARA Apelação

TRIBUNAL DE JUSTIÇA PODER JUDICIÁRIO São Paulo

SEÇÃO DE DIREITO PRIVADO - 32ª CÂMARA Apelação 9236868-59.2008.8.26.0000

Voto nº - Apelação nº 9236868-59.2008.8.26.0000

3

3 TRIBUNAL DE JUSTIÇA PODER JUDICIÁRIO São Paulo SEÇÃO DE DIREITO PRIVADO - 32ª CÂMARA Apelação

TRIBUNAL DE JUSTIÇA PODER JUDICIÁRIO São Paulo

SEÇÃO DE DIREITO PRIVADO - 32ª CÂMARA Apelação 9236868-59.2008.8.26.0000

COMARCA

:

SÃO PAULO - 20ª VARA CÍVEL CENTRAL

APELANTES :

LEONARDO HENRIQUE DE SOUSA SALGADO, ALINE CRISTINA

SOUSA SALGADO e EVANILDE SOUSA SALGADO

APELADA

:

COSESP

COMPANHIA DE SEGUROS DO ESTADO DE SÃO

 

PAULO

VOTO Nº 9272

Seguro de vida em grupo e acidentes pessoais. Policial militar. Morte do segurado em horário de folga. Cláusula contratual limitativa, que prevê o pagamento de indenização na hipótese de acidente ocorrido durante o horário de trabalho e em razão do exercício da função de policial. Ação julgada improcedente. Apelação. Renovação dos argumentos iniciais. Segurado que fora baleado e morto em estabelecimento comercial, na tentativa de evitar a prática do crime de roubo. Atividade de policial que não se limita à escala de trabalho. Dever legal de proteger. Policial que deve agir para proteger a comunidade, independentemente de estar no horário de trabalho ou não. Precedentes jurisprudenciais. Indenização devida. Sentença reformada. Recurso provido.

Cuida-se de recurso de apelação (fls. 91/97) interposto por Leonardo

Henrique de Sousa Salgado e outras contra a r. sentença de fls. 85/89 que julgou

improcedente ação de cobrança movida em face de Cosesp Companhia de Seguros

do Estado de São Paulo, condenados os autores ao pagamento das custas e

despesas processuais e dos honorários advocatícios fixados em R$1.400,00,

ressalvado o disposto no art. 12 da Lei nº 1.060/50.

Alegam que é devida a indenização securitária, posto que, ainda que

o segurado, policial militar, estivesse fora do horário de trabalho, tentou evitar a ação

criminosa. Sustentam que o fato de não estar fardado não significa que o segurado,

marido e pai dos apelantes, deixara de ser policial militar. Afirmam que a morte do

segurado decorreu exclusivamente em virtude da função de ser policial, de modo que

deve ser paga a indenização securitária. Postulam a reforma da sentença.

Contrarrazões a fls. 99/107. Parecer da d. Procuradoria de Justiça, a

fls. 110/112, pelo provimento do recurso.

Voto nº - Apelação nº 9236868-59.2008.8.26.0000

4

4 TRIBUNAL DE JUSTIÇA PODER JUDICIÁRIO São Paulo SEÇÃO DE DIREITO PRIVADO - 32ª CÂMARA Apelação

TRIBUNAL DE JUSTIÇA PODER JUDICIÁRIO São Paulo

SEÇÃO DE DIREITO PRIVADO - 32ª CÂMARA Apelação 9236868-59.2008.8.26.0000

É o relatório do necessário.

Têm razão os apelantes.

A discussão versa sobre a recusa da seguradora em indenizar os

beneficiários do segurado Eduardo Roberto Salgado, que mantinha seguro de vida em

grupo com a ré, intermediado pela Secretaria da Segurança Pública do Estado de São

Paulo, pelo valor previsto na apólice.

Sustentam os apelantes que o segurado, policial militar, fora do

horário de trabalho, tentou evitar a prática de roubo em um estabelecimento

comercial, momento no qual fora desarmado e baleado. Diante do óbito do segurado,

a viúva e os filhos, ora apelantes, buscam o recebimento da indenização securitária.

A seguradora-ré, no entanto, nega o dever de indenizar, sob o

fundamento de que o âmbito de cobertura do seguro contratado abrange os acidentes

ocorridos com os segurados, “exclusivamente quando em exercício da função de

Policial e em horário de trabalho” (cfr. fl. 54).

Contudo, respeitado o entendimento do d. Magistrado a quo,

entendo que assiste razão aos apelantes.

Como bem anotado pela d. Promotora de Justiça, citada no parecer

da Procuradoria (fl. 111), “o policial militar é um profissional submetido a regime

especial de trabalho. Ao assumir a função, assume com ela o dever de proteger a

comunidade em tempo integral, independentemente de estar ou não em horário de

trabalho”.

Ora, do exame dos autos, apesar de o segurado, policial militar, não

se encontrar em horário de trabalho, seu falecimento ocorreu no momento em que

tentava evitar crime de roubo, ou seja, em cumprimento ao dever legal de estar à

disposição da sociedade e evitar o crime durante as 24 horas do dia.

Indubitável que a cláusula do contrato limita o pagamento da

indenização securitária aos acidentes ocorridos no exercício da função de Policial.

Contudo, tal cláusula deve ser analisada com ressalva, posto que o exercício da

função do policial militar, assim como os demais agentes de segurança pública, não

se limita ao período da sua escala de trabalho.

Voto nº - Apelação nº 9236868-59.2008.8.26.0000

5

5 TRIBUNAL DE JUSTIÇA PODER JUDICIÁRIO São Paulo SEÇÃO DE DIREITO PRIVADO - 32ª CÂMARA Apelação

TRIBUNAL DE JUSTIÇA PODER JUDICIÁRIO São Paulo

SEÇÃO DE DIREITO PRIVADO - 32ª CÂMARA Apelação 9236868-59.2008.8.26.0000

Dessa forma, tendo em vista que o sinistro ocorreu tão-somente em

decorrência da função de Policial Militar situação que fora apurada em Sindicância

(cfr. fl. 128) insofismável que indenização é devida, tal como pleiteada.

Nesse sentido, a jurisprudência desta corte:

“SEGURO DE VIDA E ACIDENTES PESSOAIS EMBARGOS À

EXECUÇÃO CONTRATO FIRMADO PELO ESTADO EM FAVOR DE POLICIAIS NO

EXERCÍCIO DA FUNÇÃO MILITAR QUE, FORA DE SERVIÇO, FALECE APÓS SER

ALVEJADO POR DISPARO DE ARMA DE FOGO EM ESTABELECIMENTO

COMERCIAL EXERCÍCIO DA FUNÇÃO QUE NÃO SE LIMITA AO HORÁRIO

DESIGNADO PARA O TRABALHO MORTE QUE DEVE SER ENQUADRADA COMO

OCORRIDA NO EXERCÍCIO DAS FUNÇÕES VIOLAÇÃO A LITERAL DISPOSIÇÃO

LEGAL NÃO OCORRÊNCIA SEGURO DEVIDO RECURSO PROVIDO PARA ESSE

FIM. I- O policial, civil ou militar, por exercer função de extrema relevância para

a sociedade, não pode ver o serviço por ele prestado limitado a certo tempo

diário, mormente pelo fato de ser ínsita à função a preocupação constante

desse servidor com a sua própria atividade, ao ficar constantemente exposto a

situações preocupantes - e com risco de morte - até quando estão em tempo de

folga ou férias. (

PAULO AYROSA, 31ª Câmara de Direito Privado, j. 20/09/2011);

“Seguro de vida e acidentes pessoais. Indenização. Morte de policial

militar, segurado, durante sua folga. Conclusão contida na sindicância instaurada pela

corporação no sentido de que o “de cujus”, embora de folga, atuou em razão do dever

legal ao tentar impedir roubo de caminhão. Sinistro ocorrido durante o exercício da

função, do qual deve se desincumbir o policial militar sempre que requisitado para a

manutenção da ordem pública, independentemente do encerramento de seu horário

de trabalho. Indenização devida. Seguro de vida e acidentes pessoais. Indenização.

Correção monetária. Termo inicial. Óbito. Reconhecimento. Recurso da ré improvido,

provido o interposto pelas autoras”. (Apelação nº 9160224-12.2007.8.26.0000, Rel.

Des. ROCHA DE SOUZA, desta. C. Câmara, j. 01/09/2011);

)”.

(grifei, Apelação nº 9121368-08.2009.8.26.0000, Rel. Des.

E,

“Seguro de vida e acidentes pessoais. Morte do segurado.

Beneficiários. Ação de cobrança da indenização. 1. Os beneficiários do policial militar

Voto nº - Apelação nº 9236868-59.2008.8.26.0000

6

6 TRIBUNAL DE JUSTIÇA PODER JUDICIÁRIO São Paulo SEÇÃO DE DIREITO PRIVADO - 32ª CÂMARA Apelação

TRIBUNAL DE JUSTIÇA PODER JUDICIÁRIO São Paulo

SEÇÃO DE DIREITO PRIVADO - 32ª CÂMARA Apelação 9236868-59.2008.8.26.0000

segurado que, no cumprimento de seu dever profissional, vem a ser fatalmente

alvejado por criminosos, têm direito à indenização prevista no contrato de seguro em

grupo, ainda que o segurado estivesse fora do horário regular de seu trabalho.

2.

encontra-se dissonante da boa-fé e da função social do contrato de seguro, que visa

cobrir os riscos a que expostos o policial no exercício de suas funções. 3. Negaram

provimento ao recurso”. (Apelação nº 9103636-19.2006.8.26.0000, Rel. Des.

VANDERCI ÁLVARES, 25ª Câmara de Direito Privado, j. 17/08/2011).

Assim, o provimento do recurso é de rigor para julgar procedente a

ação de cobrança, condenada a ré ao pagamento de indenização aos autores no valor

contratualmente previsto para morte, corrigido pela Tabela Prática do Tribunal de

Justiça desde o ajuizamento da ação, e com juros de mora de 1% a partir da citação.

Em razão da sucumbência, condeno a ré, ainda, no pagamento das custas e

despesas processuais e dos honorários advocatícios, que fixo em 10% sobre o valor

da condenação atualizado.

A cláusula limitativa suscitada pela seguradora

Ante todo o exposto, dou provimento ao recurso.

FRANCISCO OCCHIUTO JÚNIOR

Relator

Voto nº - Apelação nº 9236868-59.2008.8.26.0000