LUMIÈRE Nº 4 – PROMENADE OF OSTRICHES, PARIS BOTANICAL GARDENS

Joviniano Borges da Cunha Mestre em Comunicação e Educação Universidade Anhembi Morumbi Janeiro de 2010

Resumo: Um antigo filme, realizado em 1895 por Louis Lumière, nos mostra, numa das alamedas do Jardim Zoológico de Paris, um cortejo de crianças em charretes puxadas por uma série de animais, sendo observados por homens e mulheres que passeiam com seus chapéus e sombrinhas. Em meio a essa massa de pessoas, um homem olha atentamente para o cinegrafista, talvez tentando entender o que acontece. Quem é esse homem que nos olha? Este artigo pretende mostrar como este filme soube retratar a época e o contexto histórico e social, no momento em que o cinema estava apenas nascendo. Palavras-chave: 1.Primeiro cinema 2. Lumière 3. Modernidade

“Esquecemo-nos de que algum dia tivemos que aprender a linguagem dessas histórias narradas em imagens. Precisamos, antes de tudo, tentar resgatar o tipo de experiência que os primeiros filmes representavam em sua própria época.”1

1. A cidade e o homem. 1.1. A cidade. Nas últimas décadas do século XIX e na primeira do século XX, na Europa, as conseqüências causadas pelo surgimento de uma economia industrial produziram, no homem, uma confiança positivista no progresso técnico e nas descobertas da ciência, materializadas, sobretudo, com o advento da eletricidade. Entre os desdobramentos de tal advento podemos citar os processos de mecanização e a produção em série
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COSTA, Flávia Cesarino, O Primeiro cinema: espetáculo, narração , domesticação, 2005, p. 34.

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lhes faltava. Se a modernidade que recobriu este novo mundo. dos bondes no século XIX. contribuindo. Este operário fez parte do êxodo rural que trouxe para as cidades industrializadas massas de camponeses que foram buscar nas fábricas o trabalho que. Mas este êxodo não se limitou apenas àqueles que se tornaram operários. podiam ser refletidas nas aceleradas linhas de montagem ou mesmo nos meios de transporte que. pois. a agrária. Suas causas principais são os meios públicos de transporte. sobretudo. para o surgimento de uma burguesia urbana e industrial. foram construídas por proprietários que também viviam no campo e viam nas cidades oportunidades de ganhos mais imediatos. ao promover a divisão do trabalho. Antes do desenvolvimento dos ônibus. inserindo nas periferias a massa de proletários. o convívio aproximado com o outro. com quem passou a dividir o espaço. podia ser espelhada nos valores positivos da crescente velocidade e dos avanços tecnológicos. no campo. conhecimento das noções de distância e. podia ser percebida no conseqüente caos instaurado nos grandes centros urbanos. muitas vezes. por um lado. estes. novos. o desenho dos espaços urbanos passou a sofrer constantes alterações num ritmo incessante. as fábricas. bem como as fábricas que os empregavam. por outro. as pessoas não conheciam a situação de terem de se olhar reciprocamente 2 .implantados nas indústrias. dos trens. Com isso. alienaram o operário da totalidade dos processos dessas mesmas produções. “As relações recíprocas dos seres humanos nas cidades se distinguem por notória preponderância da atividade visual sobre a auditiva. assim. ao lado daquela já existente. radicais alterações em seus comportamentos em relação à suas ocupações nas áreas públicas. um estranho. os quais. iriam requerer dos habituais transeuntes. Expressas sempre sob o espírito da velocidade. em constante estado de sobressalto por causa das mudanças e novidades das mais diversas ordens que não paravam de surgir. essas mudanças.

produtos dessa vivência em um ambiente ameaçador. Paradoxalmente. O homem. senão de vida. o modo como as diversões passarão a ser vistas e entendidas. sem dirigir a palavra umas às outras. em certa medida. com a sua série aleatória SIMMEL. simultaneamente e aliados às tecnologias. mas também na busca dos entretenimentos comerciais. 1912. 36 2 3 . acompanhavam aqueles progressos.por minutos. que. A ambígua condição de vida deste homem moderno. como acidentes. 1994. O homem. na malha viária. temeroso e fascinado.”2 Esta modernidade. ou mesmo por horas a fio. 26 e 27 apud BENJAMIM. e por sua vez. no trânsito. Obras escolhidas III: Charles Baudelaire um lírico no auge do capitalismo. mostrando os perigos aos quais ele estará sujeito. se intensifique a tensão existente entre o indivíduo e a cidade. presentes nas indústrias. ao gerar com intensidade inúmeros estímulos dirigidos ao homem. 1.2. determinará. o fascínio não se dava somente em função dessas ameaças que pareciam encher os olhos dos cidadãos. que também surgiu como um grande divertimento popular nos anos de 1880 tornou-se a síntese da nova tendência por atrações curtas. Essa busca por emoções fortes. “O vaudeville. além da violência das máquinas. ao mesmo tempo em que era o criador desta condição moderna. sejam nas fábricas ou nas caóticas ruas. p. o obrigaram a rever suas posturas corporais. fará com que. havia dela se tornado refém. na arquitetura. nele. cujos encantamentos estavam associados a emoções programadas. Walter. Georg. fortes e saturadas de emoção. então. fez nele gerar uma hipersensibilidade ao novo: diante das ameaças perceptíveis no ambiente urbano. p. pelo fato de ele se mostrar.

como a fotografia. Este cinema também era uma das atrações dos espetáculos de vaudeville. in: CHARNEY. o cinema de atrações? Em primeiro lugar. hiperestímulo e o início do sensacionalismo popular. Vanessa R. as causas e conseqüências dos novos modos de percepção do mundo. 3 4 . o cinema soube explorar e transmitir as idéias de velocidade e simultaneidade.. Esta ação. caracterizados. Particularmente. dispondo a romper o SINGER. lutadoras e coisas do gênero. comédias-pastelão. segundo Tom Gunning. precisamente. inventado no final deste mesmo século. no período de transição entre os séculos XIX e XX. danças. (org. Em contraste com o aspecto voyeurista do cinema narrativo analisado por Cristian Metz.de atos prodigiosos. Dos comediantes que interpelam a câmera à gestualidade afetada e reverente dos prestidigitadores nos filmes de mágica. engrandeceram a lista de aparelhos de reprodução de imagens visuais.) que representa esta relação diferente que o cinema de atrações constrói com seu espectador: as freqüentes olhadas que os atores dão na direção da câmera. sendo que. Também as invenções associadas à captação da imagem.112. este é um cinema exibicionista. foram os processos de urbanização. estabelecendo contato com a audiência.”3 Embora embasadas no advento da eletricidade. os avanços nos transportes e nas comunicações e a expansão da classe média. cachorros adestrados.) sua habilidade de mostrar alguma coisa. respeitando os períodos de suas invenções.) O cinema e a invenção da vida moderna.. é um cinema que se baseia na (. músicas. Modernidade.. logo passaram a ser produzidos em escala industrial. aqui é executada enfaticamente. que mais tarde é considerada como um entrave à ilusão realista do cinema. decorrentes da industrialização. Leo e SCHWARTZ. como cinema de atrações. p. este é um cinema que mostra sua própria visibilidade. numa abundância de imagens que não poderiam surtir no público outra sensação senão a de choque visual. que fora inventada na década de vinte do século XIX e o cinema. Há um aspecto do primeiro cinema (. 2001. Bem.. “O que é.

mais de 50 nações montaram seus pavilhões entre estandes e mostras diversas. os metrôs.mundo ficcional auto-suficiente e tentar chamar a atenção do espectador. Além dessas conquistas. inventores e designers mostravam seus produtos. em Londres. A grande Exposição Internacional de 1851. realizada no Palácio de Cristal. domesticação. e. da luz elétrica. Cerca de uma década depois. atraindo por mais de seis meses. ainda em Paris. 57 apud COSTA. se não continentais. Numa área de 221 hectares. espécie de microcosmo do mundo civilizado. sob o espírito da velocidade. Flávia Cesarino. p. a Torre Eiffel. as ferrovias e os transatlânticos que. 2005. narração . das câmeras fotográficas e dos primeiros filmes. das lojas de departamentos. O Primeiro cinema: espetáculo. Descobertas. 4 Gunnig. se multiplicou em outras do mesmo gênero em várias cidades importantes da Europa. p. Paris as celebrava em sua Exposição Internacional enquanto inaugurava o grande monumento de estrutura metálica. do telefone. Em 1889. progrediam com enorme rapidez. O início do século XX foi marcado pela consolidação de uma série de conquistas realizadas no século anterior. da máquina de escrever e de costura. como os automóveis. todos eles associados às novas tecnologias que despontavam. aproximadamente 50 milhões de visitantes.52. invenções e melhorias foram sucessivamente realizadas nos campos da medicina. Entre os séculos XIX e XX. dos selos postais. 5 . contribuíram para tornar o homem mais ágil no trânsito pelos espaços urbanos. podemos ainda citar o aparecimento do telégrafo. as indústrias. devido aos investimentos nas produções e seus reflexos no comércio. dos primeiros arranha-céus. Ton. do gramofone. a Exposição Universal de 1900 saudou o novo século iluminando a cidade por meio da energia elétrica. onde as indústrias. da saúde pública e da ciência. 1986.”4 2.

Louis Lumière pensou em ampliar as dimensões da tela de projeção para corresponder aos ideais daquela grande exposição e. quase todos eles baseados na exibição de pinturas em movimento aliadas a sistemas de iluminação.Os primeiros filmes exibidos nessa exposição não eram entendidos ainda como atrações autônomas e sequer eram também entendidos como alguma forma de expressão artística. por exemplo. Flávia Cesarino. 26. As demonstrações feitas pelos irmãos Lumière. ao lado de inúmeras outras que se espalhavam pelos pavilhões. narração . foi construído num prédio para uma platéia de cerca de mil e quinhentas pessoas e simulava uma viagem de navio pelo mar Mediterrâneo. ambos 5 COSTA. Na Exposição Universal de 1900. O mareorama. sem que houvesse a intenção de anunciar a importância daquela nova mídia como algo economicamente promissor. como pesquisadores continuavam a explorar as possibilidades de melhorar as potencialidades e qualidades técnicas de seu invento. Com isso. Ao seu lado. Eram os dioramas. p. ainda que nem todas fossem exatamente novidades. músicos e bailarinos atuavam diante de uma tela com 15 metros de altura e cerca de mil metros de extensão que aos poucos era desenrolada. Ao mesmo tempo. o espaço onde o público se acomodava era como um navio que se submetia às simulações dos movimentos marítimos5. 6 . à própria grandeza do cinema como forma de espetáculo. mostrando numa pintura contínua os lugares evocados na viagem. a despeito da curiosidade do público em conhecer aquela novidade. domesticação. esterioramas. 2005. que já eram conhecidas após a célebre primeira exibição ocorrida quatro anos antes na mesma Paris. Assim. mareoramas e panoramas. cuja grandiosidade pretendia representar o testamento de um século. outras atrações. os irmãos Lumière apresentaram o cinema por eles desenvolvido numa tela que correspondia ao gigantismo do invento. atores. seduziam os olhares do público por utilizar as mais diversas técnicas de projeção de imagens. era apenas uma forma de apresentar a invenção de um produto. O Primeiro cinema: espetáculo. cujas invenções alterariam para sempre o modo de vida da humanidade. auxiliados por efeitos luminosos. porque não. Ainda que os irmãos Lumière não vislumbrassem o futuro comercial do cinema. em certa medida semelhantes se as entendermos como formas de espetáculo. Para essa platéia. entre as cidades de Marselha e Constantinopla. ao lado de outros responsáveis pelos inventos e empreendimentos cinematográficos da Europa.

o que se assistiam eram. A luminosidade da projeção é aumentada pela tela molhada e o espetáculo pode ser visto dos dois lados. Este processo.”6 Além do cinematógrafo. como paisagens externas com cenas urbanas e desfiles de autoridades e multidões. FRÉMAUX. é guardada numa cuba cheia d’água construída abaixo do piso. 2009. O cinema. p. tendo sido patenteado em 1903. mais tarde. 2000. “O primeiro projeto era estender uma tela enorme na Torre Eiffel. a invenção do século. o que terminou por minimizar a participação daqueles que apresentaram objetos semelhantes. diferente de outros processos que exigiam a sobreposição de mais de uma fotografia. geralmente. foi denominado Autocromo. o tempo da cor. Louis Lumière associou num suporte único os filtros coloridos que permitiram tanto a seleção das cores na captura da cena quanto sua síntese no momento da revelação. onde eram exibidos também os filmes dos irmãos Lumière acompanhados por música e declamações ao vivo. cenas de caráter documental. Objetiva. Em seis meses. com capacidade para mil espectadores. chamado tricromo. Entretanto. O Cinematógrafo gigante é instalado no salão de festas da Exposição. os irmãos Lumiére também apresentaram o processo de fotografias em cores que haviam inventado. com 21m de largura e 18m de altura. mas as dificuldades técnicas levaram a desistir-se desse cinema ao ar livre. Thierry. Visando a captura de imagens em cores numa só etapa. 19. 43 e 44.7 Ainda dentro da Exposição. A tela. Rio de Janeiro: Ed. no “Pavilhão das Viagens Animadas”. cada uma delas com um filtro diferente. neste mesmo 6 7 TOULET. pessoas tomando banho de rio ou o mar batendo nas rochas. visível do Champ-de-Mars e do Trocadéro. Emmanuelle. içada todas as noites com guinchos e regada permanentemente com jatos d´água. a antiga Galeria das Máquinas herdada da Exposição de 1889. Autocromos Lumière. as 326 sessões gratuitas proporcionaram à nova atração um impacto sem precedentes. p.foram ali consagrados e reconhecidos oficialmente como os inventores do cinema. 7 .

3. Ao mesmo tempo em que essas experiências de Marey e Muybridge ocorriam. p. entre outros. aquela forma de espetáculo plena de atrações curtas. inventor. a primeira exibição de um 8 MANNONI.. o norte-americano Thomas Alva Edison (1847-1931). feiras. também elaborava pesquisas na área do registro fotográfico de imagens em movimento. data em que os irmãos Lumière realizaram. Eram estes os filmes mostrados em museus de curiosidades. em 28 de dezembro de 1895. Antes da apresentação do invento dos irmãos Lumière. 8 . teatros populares e. zootropo e o praxinoscópio. fortes e saturadas de emoção. o invento de Edison. em aparelhos como o taumatropo.. animais e humanos. “estou experimentando um instrumento que faz para o olho o que o fonógrafo faz para o ouvido (. Laurent. 2003. possibilitando o registro de movimentos decompostos. como era o próprio cinema. circunstância diversa daquela que ocorreria um ano depois. 318. A grande arte da luz e da Sombra. diversas experiências já haviam sido feitas ao longo do século XIX sobre a decomposição do movimento. permitia que apenas um espectador por vez pudesse assistir aos filmes. Chamo este aparelho de Kinetoscope” termo de origem grega que significa movimento (kinétos) + eu olho (skopeô)8. nos vaudevilles. por suas características. Comercializado a partir de 1894. todos eles fundamentados no fenômeno da persistência retiniana. contorcionismo. gags e até mesmo a encenação de tiras cômicas extraídas dos jornais da época. Em suas palavras.período. O primeiro cinema. como aqueles feitos pelo fisiologista Étienne-Jules Marey (1830-1904) na França e pelo fotógrafo Eadward J. pretendendo criar um aparelho o qual ele caracterizou como uma espécie de fonógrafo óptico. já circulava pela França outros tipos de filmes que mostravam números de magia. com desenhos. circos. A invenção da fotografia em 1826 permitiu que tal fenômeno fosse a ela articulado. denominado por ele como quinetoscópio. da lâmpada elétrica e do fonógrafo. entretanto. em Paris. Muybridge (1830-1904) nos Estados Unidos. também.).

2005. O Primeiro cinema: espetáculo. e um segundo período (1908 a 1915) de crescente narratividade. O desenvolvimento deste primeiro cinema está associado. são denominados por Flávia Cesarino Costa como primeiro cinema. seja esta a marca do nascimento do cinema. pelos norte-americanos. p. narração . aqui.”9 Este cinema denominado pela autora não deve ser entendido apenas como um momento anterior. que vamos trabalhar aqui. formas de representação e comportamento do público. Ao contrário. entre 1894 e 1908. foi o fato de ele ter inventado o cinema em termos de técnica. industriais e estéticos.filme projetado sobre uma tela e assistido simultaneamente por diversos espectadores. cuja grandeza e importância foi depois reafirmada na Exposição Universal de 1900 e. domesticação. as datas a ele relativas são apenas baseadas na análise da produção realizada no período e na constância de suas características quanto à composição. o inventor do cinema. 34. mas com características distintas. às conquistas que se darão mais tarde nos campos técnicos. a um processo de transformação e evolução 9 COSTA. pretendermos explorar essa questão. “Designaremos como primeiro cinema os filmes e práticas a eles correlatas surgidos no período que os historiadores costumam localizar. em que se destacam um primeiro período não narrativo (1894 a 1908). A proximidade dessas datas é um fator polêmico que envolve duas invenções semelhantes. de fato. Esses primeiros filmes realizados nos anos de passagem do século XIX para o XX. Longe de. Flávia Cesarino. ou inferior. de certa maneira. Sabemos que early cinema muitas vezes se refere às duas primeiras décadas do cinema. as quais começam a se modificar por volta de 1908. sobretudo. e que exibiam cenas urbanas cotidianas. Traduzimos como primeiro cinema a expressão inglesa early cinema. para determinar quem foi. podemos considerar que o crédito dado aos irmãos Lumière foi à projeção em tela e sua exibição para uma platéia. 9 . aproximadamente. o crédito dado a Edison. o que faz com que.

e se encaixavam nas programações locais (. Em sua grande maioria. Devido ao seu pouco peso. “Os irmãos Lumière ofereciam um esquema de marketing muito interessante para os vaudevilles. 11. não era ainda visto como uma atividade promissora. O Primeiro cinema: espetáculo. narração . como o circo e suas relativas atrações. podia ser transportada facilmente e assim filmar assuntos mais interessantes que os de estúdio. O Primeiro cinema: espetáculo. e baseado no princípio do riso e do prazer. que levavam os filmes para lugares mais afastados dos grandes centros urbanos. encontrados nas paisagens urbanas e rurais (. p. portanto. tornando o evento em si mesmo um acontecimento.). que eram seu alvo predileto no mercado. Eles forneciam os projetores. domesticação. passando também de uma atividade artesanal para uma estrutura industrial de produção e consumo. ao universo da chamada cultura oficial11 e. 34. até 1906 o cinema estará ligado ao espetáculo de variedades. eram feitos em uma única tomada sem explorar uma eventual estrutura narrativa.12 10 11 Idem. Era. E havia ainda os exibidores viajantes.. narração . este primeiro cinema reunia em suas películas várias modalidades de espetáculo. cujo objetivo era maravilhar. Apresentação de Arlindo Machado in COSTA. 2005. um cinema de atrações e. 10 . o suprimento de filmes e os operadores das máquinas. 12 COSTA.). o qual era a principal maneira de exibição para estes filmes. p. Além disso. o termo atrações. Flávia Cesarino. p. domesticação.. encantar o espectador. devido ao fato de ele ser encarado como um entretenimento voltado para as classes sociais mais baixas da população. A máquina dos Lumière era ao mesmo tempo câmera e projetor.10 Como entretenimento. O cinema não pertencia. 2005...técnica dos aparelhos. por isso. 2005. não utilizava luz elétrica e era acionada por manivela. Com isso. sobretudo. Flávia Cesarino. equivale ao tipo de experiência visual que se tinha nas feiras e nos parques de diversões. 43. todas elas derivadas das formas populares de cultura. além da qualidade das películas. os operadores dos Lumière atuavam também como cinegrafistas e multiplicavam as imagens do mundo para fazê-las figurarem nos seus catálogos”.

p. ao se apresentarem BENJAMIM. como se estivesse remando num sentido contrário a uma sociedade capitalista onde o tempo é dinheiro. 4. num espetáculo urbano que a multidão. 14 MASSAGLI. com prazer voyerístico. como cenas da vida burguesa nas cidades. sente-se sozinho em meio a esta multidão. ou no litoral. caracterizando. vadio e que. o aspecto convergente desses modos de observar e retratar a natureza. eram algo mais próximo das linguagens da pintura e da fotografia. por não possuírem ainda uma linguagem própria. 34. Homem da multidão e o flâneur no conto “o homem da multidão”. não era outra coisa senão o que os artistas realistas e impressionistas faziam. pois. Podemos entender tal reconhecimento da multidão como uma espécie de espelhamento. Aparece como uma figura que tem o tempo todo à sua disposição e que pode desperdiçá-lo. identificado nas obras dos irmãos Lumière realizadas até o final da primeira década do século XX. em seus textos. e do homem moderno.14 Foi esta multidão que aprendeu a se reconhecer nos filmes que compuseram o chamado primeiro cinema. O flanêur é aquilo que Benjamin denominou um “botânico do asfalto”13. 13 11 . 1.Os primeiros filmes saídos das Indústrias Lumière nada mais eram do que fotografias animadas ou cartuns saídos das tiras dos jornais diários. observa as pessoas em seus afazeres cotidianos. no campo. Podemos então afirmar que as cenas filmadas por eles. O que o cinema dos irmãos Lumière mostrava. composta por uma mistura de classes em trânsito pelas ruas. Ele é um anônimo. aqui. p. soube traduzir as características mais evidentes da vida social parisiense do século XIX. ocioso. Às vezes. Obras escolhidas III: Charles Baudelaire um lírico no auge do capitalismo. além daquilo que as fotografias também já mostravam. promovia. 1994. afirmando ainda que Baudelaire. 2008. apesar de identificar-se com a sociedade na qual vive. Esta expressão faz referência ao homem que anda pela cidade sem rumo. se os filmes. em seus ensaios sobre a obra do poeta francês Charles Baudelaire (1821-1867) nos chama a atenção para a figura do flanêur. Walter. O homem da cidade Walter Benjamin (1892-1940). como o fascínio pela multiplicidade e pelo efêmero. Sérgio Roberto.

1. pois. nessa mesma alameda. a exemplo da observação feita por Walter Benjamin. Quem são aqueles que nos olham? A troca de olhares que ocorria entre as platéias desses filmes e as pessoas que nele apareciam. dentro da qual uma menina. em 1885.como espetáculos. 4. era o próprio espetáculo. observa a paisagem em seu entorno. isso ocorria porque a vida. passeiam ao lado. mulheres de vestidos longos e escuros. E é exatamente isso que podemos observar no filme realizado por Louis Lumière. com um vestido armado e cheio de babados. Quando o filme começa. ao indagarmos. com chapéus na cabeça. Com pouco menos de um minuto de duração. aos poucos. o filme nos mostra uma larga alameda do Jardim Zoológico de Paris. por onde desfila um pequeno cortejo composto por charretes conduzidas por animais. 4. em um dia de verão. a pergunta pode ser dirigida tanto para aquele que filma quanto para aquele que é filmado. perto de 12 . Ao mesmo tempo. Por isso. os quais são igualmente conduzidos por funcionários locais uniformizados. procuravam mostrar aspectos banais da vida cotidiana. ou o cinegrafista. vemos uma avestruz puxando uma dessas charretes. também. quem são aqueles que nos olham?. como uma troca de olhares entre a câmera. aqui se desdobra aquela idéia de espelhamento. além de um chapéu com um grande laço de fita. invadia seus cotidianos. também classificado como Lumière n. Paris Botanical Gardens. Promenade of ostriches. pode ser entendida. e os transeuntes que não escondiam seus ares de surpresa diante daquela estranha máquina que.

olham em nossa direção e. vestindo uma casaca escura e chapéu coco.homens de paletó. traz em seu interior meninos e meninas. Com certa curiosidade olha para todos nós. casaca escura e palheta. alguns deles trazem ainda em suas mãos uma bengala ou um guarda chuva. nos olhando curioso. disfarça. Os dois. aparece um senhor distinto. Vêm em nossa direção. depois de observar o cortejo. o nosso flanêur se aproxima da câmera. quando surge. nosso flanêur não consegue tirar os olhos do cinegrafista. e olha para o lado. fora de campo. ou de todos nós. agora puxada por dois pequenos burros. outro homem. que parece se encontrar em nossa direção. casaca escura e cartola na cabeça. É aqui que este nosso personagem parece desviar o olhar do cortejo para observar outra pessoa. como se cumprimentasse alguém que não vemos. Enquanto isso. desaparecem pelo canto direito da tela por onde. ao fundo e apressadamente. encerrando o cortejo. É neste momento que o filme termina. seguidas por três elefantes com várias crianças em cima. Ao mesmo tempo em que um rapaz de jaqueta tira a palheta. intrigado. Talvez ele seja o próprio cinegrafista. Leva em sua mão esquerda. e em primeiro plano. palheta. caminham para o canto esquerdo. outra charrete. conduzindo uma garota pelo braço. 13 . Passa pelo nosso flanêur e desaparece pelo canto direito da tela. Perto. ladeado por duas mulheres de vestidos longos e com sombrinhas pretas. e também desaparecem. Logo em seguida. também de bigodes. uma típica bengala de dandi. casaco. que não é outro senão um daqueles que nos olham. caminha um senhor de bigodes. ele vê de perto a passagem de um menino e uma menina montados sobre dois cavalos. em seguida. Encostado a uma árvore. do fundo vemos surgir outro homem correndo. E quando ele começa a caminhar em nossa direção. enquanto duas meninas passam montadas sobre um camelo. que chamaremos aqui de nosso flanêur. Quando o último elefante desaparece pelo lado esquerdo da tela. Nosso flanêur parece tentar entender o que está acontecendo. Parece comentar algo com alguém que está fora de campo. vemos surgir pelo outro lado da alameda um senhor com grandes bigodes. e. calças claras e chapéu.

são imagens tão cotidianas como eram aquelas realizadas pelos artistas realistas e impressionistas. Promenade of ostriches. domesticação. incrustadas na finitude de uma duração que se extinguiu. mudaram. “estes filmes nos dão. morreram. narração . e também pelos fotógrafos que documentaram a vida urbana antes. Paris Botanical Gardens. O Primeiro cinema: espetáculo. quando em 1908 se dá o ocaso do primeiro cinema. e mesmo depois. Por isso. ao mesmo tempo. mais do que isso. até então. 2005. por um breve período. que era a manutenção de um único enquadramento durante as filmagens. os assuntos filmados é que deveriam se mover. por ser primeiro. 14 . aqui. mantiveram uma convergência com o cinema. é apenas o exemplo de um cinema que. Flávia Cesarino. em meio às trocas de tantos olhares. há muito deixou de ser realizado e. mas de grande importância. Todas as coisas que vemos ali já desapareceram. todas elas advindas da Revolução Industrial. Em certa medida. mas também a um fator aparentemente mínimo. os quais estavam relacionados às mudanças sociais. ser creditada apenas aos valores ideológicos. A afinidade entre esses temas e essas imagens não deve. porque as câmeras. uma sensação estranha de morte.O que este Lumière n. 4 nos mostra. eram fixas e ainda não se moviam. p. a qual termina por distanciar o cinema daquelas pinturas e daquelas fotografias que. 33.”15 BIBLIOGRAFIA 15 COSTA. uma linguagem cinematográfica começa a surgir. do surgimento do cinema.

Walter. FRÉMAUX. 15 . São Paulo: SENAC/ UNESP.) O cinema e a invenção da vida moderna. 2008) [55-56] – ISSN 1678-2054. SCHWARTZ.//WWW. Vanessa R.. narração . Emmanuelle. Modernidade. TOULET. Laurent. O cinema. The movies begin . 2001.(Org. MASSAGLI. 2000.2010. O espectador cinematográfico antes do aparato do cinema: o gosto do público pela realidade na Paris fin-de-século. FILMOGRAFIA Kino vídeo. Corp. Curitiba: Museu Oscar Niemeyer.) O cinema e a invenção da vida moderna. 1994. 2009. 2003. Leo e SCHWARTZ. Sérgio Roberto. a invenção do século. Thierry.uel. 2005.(Org. Rio de Janeiro: Ed. Obras escolhidas III: Charles Baudelaire um lírico no auge do capitalismo. Bem. COSTA. SINGER. o tempo da cor. Flávia Cesarino. hiperestímulo e o início do sensacionalismo popular. Autocromos Lumière.A treasury of early cinema – 1894 – 1913 .> Acesso em:29 ago. São Paulo: Cosacnaify. Leo e SCHWARTZ. MANNONI. In: CHARNEY. In: CHARNEY. domesticação. A grande arte da luz e da Sombra. Vanessa R.BENJAMIM.br/pos/letras/terraroxa. Disponível em<HTTP. São Paulo: Brasiliense. in: Terra roxa e outras terras – Revista se Estudos Literários Volume 12 (jun.. 2002. São Paulo: Cosacnaify.Kino Intl. Rio de Janeiro: Azougue Editorial. Objetiva. EUA.. 2001. Vanessa R. Homem da multidão e o flâneur no conto “o homem da multidão” de Edgard Allan Poe. O Primeiro cinema: espetáculo.

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