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estudos sobre budismo v.2

Guia Básico

dos Estudos sobre Budismo

Fonte Basic Buddhism Guide (BuddhaNet)

Tradução e edição Bruna T. Gibson

abril de 2004

www.umeoutro.net

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Guia básico

dos estudos sobre budismo

pontos principais e resumos dos conceitos básicos

Índice

Uma introdução em cinco minutos

4

Introdução ao budismo

9

Ensinamentos e caminhos para a prática

15

O

caminho óctuplo

18

Ética budista

22

Surgimento dependente

30

Sobre reencarnação

41

A

lei do karma

44

Conselhos sobre meditação

50

Relances sobre o budismo

53

Perguntas freqüentes sobre a cultura budista

62

01 uma introdução em cinco minutos O que é o Budismo? Budismo é uma religião

01

uma introdução em cinco minutos

O que é o Budismo?

Budismo é uma religião com cerca de 300 milhões de adeptos no mundo todo. O termo vem de “budhi”, “acordar”. Originou se cerca de 2.500 anos atrás, quando Siddhartha Gautama conhecido como o Buddha despertou (foi iluminado) aos 35 anos de idade.

O Budismo é uma religião?

Para muitos, o Budismo vai além de ser uma religião e é mais uma filosofia de vida. Esse termo é utilizado porque filosofia significa “amor pela sabedoria”, e o caminho budista pode ser resumido assim:

1. Viver uma vida de preceitos morais;

2. Estar consciente de pensamentos e ações; e

3. Desenvolver sabedoria e compreensão.

Como o Budismo pode me ajudar?

O Budismo oferece um propósito para a vida, ele explica as injustiças aparentes e a desigualdade ao redor do mundo, e apresenta um código de práticas ou filosofia de vida que leva à verdadeira felicidade.

Por que o Budismo está se tornando tão popular?

O Budismo está se tornando popular nos países ocidentais por várias razões. A primeira delas é que o Budismo tem respostas para muitos dos problemas das socie dades materialistas modernas. Também inclui (para os que se interessam) um profun do entendimento da mente humana (e terapias naturais), algo que vem despertando o interesse de importantes psicólogos em todo o mundo por ser um conhecimento mui to avançado e eficaz.

Quem foi o Buddha?

Siddharta Gautama nasceu no seio de uma família real em Lumbini, no território que hoje pertence ao Nepal, em 563 a.C. Aos 29 anos ele percebeu que riqueza e luxo não garantiam felicidade, e passou a explorar os diferentes ensinamentos religiosos e filosóficos da época, tentando achar a chave para a felicidade humana. Após seis anos de estudo e meditação ele finalmente achou o “caminho do meio” e atingiu a ilumina ção. Depois disso, o Buddha passou o resto de sua vida ensinando os princípios do Budismo Dhamma ou Dharma, que significa Verdade até sua morte, aos 80 anos.

O Buddha era um deus?

Não era e nem afirmava ser. Ele foi um homem que ensinou o caminho para a ilu minação a partir de sua própria experiência.

Os budistas adoram ídolos?

Os budistas às vezes prestam homenagens a estátuas do Buddha, mas não no sentido de adoração e nem para pedir favores. Uma estátua do Buddha com suas mãos gentilmente repousadas sobre seu colo e um sorriso de compaixão nos lembra a nos esforçarmos para desenvolver a paz e o amor dentro de nós. Curvar se à estátua é uma expressão de gratidão pelos ensinamentos.

Porque há tantos países budistas que são pobres?

Um dos ensinamentos budistas é que a riqueza não garante felicidade e que a feli cidade é, também, impermanente. O povo de todo e qualquer país sofre, tanto os ricos como os pobres, mas aqueles que entendem os ensinamentos budistas podem encon trar a felicidade verdadeira.

Existem diferentes tipos de Budismo?

muitos tipos de Budismo, porque a ênfase dada aos diferentes aspectos muda de país para país, de acordo com os costumes e a cultura. O que não varia é a essência do ensinamento a Dharma ou Verdade.

As outras religiões estão erradas?

O Budismo é um sistema de crenças que também é tolerante em relação a todas as outras crenças e religiões. O Budismo concorda com os ensinamentos morais das ou

tras religiões, mas vai além e provê um propósito a longo prazo para a nossa existência, através da sabedoria e verdadeiro entendimento. O Budismo verdadeiro é muito tole rante e não se preocupa com rótulos como “cristão”, “muçulmano”, “hindu” ou “bu dista”; essa é a razão de nunca ter havido guerras em nome do Budismo. E essa é a razão dos budistas não pregarem ou tentarem converter os outros ele só explica quando uma explicação é solicitada.

O Budismo é científico?

A Ciência é um conhecimento que pode ser introduzido a um sistema, e depende

da observação e teste dos fatos e das leis naturais em geral. O âmago do Budismo se enquadra nessa definição, porque as Quatro Nobres Verdades (ver abaixo) podem ser testadas e provadas por qualquer um. De fato, o próprio Buddha pediu aos seus segui

dores que testassem os ensinamentos ao invés de aceitar sua palavra como verdadeira. O Budismo depende mais do entendimento do que da fé.

O que o Buddha ensinou?

O Buddha ensinou muitas coisas, mas os conceitos básicos do Budismo podem ser

resumidos nas Quatro Nobres Verdades e no Caminho Óctuplo.

Qual é a Primeira Nobre Verdade?

A primeira verdade é que a vida é feita de sofrimento, isto é, a vida inclui dor, en

velhecimento, doença e morte. Nós também enfrentamos sofrimentos psicológicos, como solidão, frustração, medo, vergonha, decepção e raiva. Este é um fato que não pode ser negado. É mais realista do que pessimista, porque pessimismo consiste em esperar que as coisas acabem mal. Ao invés disso, o Budismo explica como o sofrimento pode ser evitado e como podemos ser verdadeiramente felizes.

Qual é a Segunda Nobre Verdade?

A segunda verdade diz que o sofrimento é causado pelo desejo e pela aversão. Nós

sofreremos se esperarmos que as outras pessoas alcancem nossas expectativas, se queremos que as outras pessoas gostem de nós, se nós não conseguimos algo que desejamos etc. Em outras palavras, conseguir o que se quer não garante a felicidade. Ao invés de lutar constantemente para conseguir o que queremos, deveríamos tentar modificar nossos desejos. O ato de desejar nos tira nosso contentamento e felicidade. Uma vida de vontades e desejos, especialmente o desejo de continuar a existir, cria

uma poderosa energia que causa o nascimento do indivíduo. Assim, o desejo leva ao sofrimento físico porque causa o renascimento.

Qual é a Terceira Nobre Verdade?

A terceira verdade é que o sofrimento pode ser superado e a felicidade alcançada; que a verdadeira felicidade e contentamento podem ser obtidos. Se desistirmos do desejo inútil e aprendermos a viver um dia de cada vez (não viver nem no passado, nem no futuro), então poderemos nos tornar felizes e livres. Desse modo, teremos mais tempo e energia para ajudar aos outros. Esse é o Nirvana.

Qual é a Quarta Nobre Verdade?

A quarta verdade diz que o Caminho Óctuplo é aquele que leva ao fim do sofrimento.

O que é o Caminho Óctuplo?

Em suma, o Caminho Óctuplo consiste em: ter moralidade (no que dizemos e fa zemos); se concentrar na mente e em ser consciente de nossos pensamentos e ações; e desenvolver sabedoria através do entendimento das Quatro Nobres Verdades e da compaixão pelos outros.

Quais são os Cinco Preceitos?

O âmago moral do Budismo são os preceitos, e os cinco mais importantes são: não tirar a vida de nenhum ser; não tomar nada que não nos foi dado; absterse de conduta sexual e sensualidade exagerada; não mentir; e evitar intoxicação, isto é, per der a consciência.

O que é Karma?

Karma é a lei que diz que toda causa tem um efeito, ou seja, nossas ações têm um resultado. Esta simples lei explica um sem número de coisas: a desigualdade no mun do, o fato de uns nascerem deficientes e outros bem dotados, o porquê de alguns vi verem uma vida curta. O Karma ressalta a importância de todos os indivíduos agirem com responsabilidade em suas ações passadas e presentes. Como podemos testar o efeito kármico de nossas ações? A resposta pode ser resumida em: 1) a intenção por trás da ação; 2) os efeitos da ação no indivíduo que a pratica; e 3) os efeitos nos outros.

O que é Sabedoria?

O Budismo ensina que o desenvolvimento da sabedoria deve ser concomitante ao da compaixão. Em um extremo, você pode ser um tolo de bom coração e, no outro, você pode adquirir conhecimento sem nenhuma emoção. O Budismo usa o caminho do meio para desenvolver ambos. A maior sabedoria é ver que, na realidade, todos os fenômenos são incompletos e impermanentes. A verdadeira sabedoria não é simples mente acreditar no que nos dizem, mas experimentar e entender a verdade e a reali dade. A sabedoria requer uma mente aberta, objetiva e sem preconceitos. O caminho budista requer coragem, paciência, flexibilidade e inteligência.

O que é Compaixão?

É um conceito que inclui compartilhar, estar preparado e oferecer compaixão, sim patia, preocupação e cuidados. No Budismo, nós podemos realmente entender os ou tros e a nós mesmos através da sabedoria.

Como me torno um budista?

Os ensinamentos budistas podem ser entendidos e testados por qualquer um. O Budismo ensina que as soluções para os nossos problemas estão dentro de nós mesmos, e não fora. O Buddha pediu a todos os seus seguidores que não acreditassem em sua palavra como verdadeira, e sim que testassem por si mesmos os conhecimentos. Desse modo, cada pessoa decide por si só e assume responsabilidade por suas ações e entendimento. Isso faz com que o Budismo seja mais um conhecimento que cada pessoa aprende e usa de seu próprio modo, do que um pacote pronto com crenças para serem aceitas em sua totalidade.

02 introdução ao budismo Este pequeno ensaio tem a intenção de oferecer uma breve introdução

02

introdução ao budismo

Este pequeno ensaio tem a intenção de oferecer uma breve introdução ao Budismo. Discutiremos aqui como os budistas percebem o mundo, os quatro principais ensina mentos do Buddha, a visão do Budismo acerca do ser, a relação entre esse ser e as rias formas como ele responde ao mundo, o caminho budista e o objetivo final.

Os três marcos da existência

O Budismo já foi descrito como uma religião muito pragmática. Ele não adentra especulações metafísicas acerca de causas primordiais; não existe teologia, adoração ou deidificação do Buddha. O Budismo tem uma visão muito direta no que diz respeito à condição humana; absolutamente nada é baseado em especulações. Tudo o que o Buddha ensinou foi fundamentado em suas próprias observações dos fenômenos e

suas naturezas. E tudo o que ele ensinou pode ser verificado por nossa própria observação.

Se olharmos nossa vida de forma muito simples e direta, veremos que ela é marca da por frustração e dor. Isso ocorre porque tentamos manter nossa relação com o mundo externo, solidificando nossas experiências de uma forma concreta. Por exem plo, podemos jantar com alguém que admiramos muito; tudo vai muito bem, e quando chegamos em casa mais tarde, começamos a fantasiar sobre tudo aquilo que podemos fazer com nosso novo amigo, lugares onde podemos ir etc. Estamos passando pelo processo de tentar concretizar o relacionamento. Talvez, na próxima vez em que vir mos nosso amigo, ele estará com uma dor de cabeça e será seco conosco; nós nos sentimos magoados, e tudo o que foi planejado cairá por terra. O problema é que o mun do externo está constantemente mudando, tudo é impermanente e é impossível ter uma relação permanente com qualquer coisa. Se examinarmos de perto e honestamente a noção de impermanência, veremos que ela se aplica a tudo, que tudo é marcado por ela. Nós podemos crer num princípio de consciência eterna, ou de um ser superior, mas se examinarmos nossa consciência de perto veremos que ela é feita de eventos e processos mentais temporários. Vemos que o nosso “ser superior” é, na melhor das hipóteses, especulativo e imaginário. Nós inventamos essa idéia para nos sentirmos seguros, para novamente concretizarmos nossas relações. Por causa disso nos sentimos desconfortáveis e ansiosos, até mesmo

nos melhores momentos. Apenas quando abandonamos completamente o apego é que nos sentimos aliviados de nossos mal estares. Estes três elementos dor, impermanência e inexistência do ego são conhecidos como os três marcos da existência.

As Quatro Nobres Verdades

O primeiro sermão pregado por Buddha após sua iluminação foi sobre as quatro

nobres verdades. A primeira nobre verdade diz que a vida é frustrante e dolorosa. De fato, se formos honestos, tempos que ela se torna miserável. Tudo pode estar bem

conosco num dado momento, mas, se olharmos ao redor, vemos pessoas nas condi ções mais ultrajantes crianças morrendo de fome, terrorismo, ódio, guerras, intole rância, torturas e nos sentimos mal sobre a situação do mundo. Nós mesmos iremos, um dia, envelhecer, ficar doentes e eventualmente morrer.

A segunda nobre verdade indica que o sofrimento tem uma causa. Nós sofremos

porque estamos constantemente lutando para sobreviver e tentando provar nossa existência. Podemos ser extremamente humildes, mas mesmo assim ainda tentamos nos definir somos definidos por nossa humildade. Quanto mais lutamos para tentar

estabelecer a nós mesmos e as nossas relações, mais dolorosa se torna nossa experiência.

A terceira nobre verdade afirma que a causa do sofrimento pode ser extinta. Nossa

luta pela sobrevivência, nosso esforço para provar a nos mesmos e as nossas relações é desnecessário. Todos nós podemos viver confortavelmente sem isso. Poderíamos ser pessoas simples e diretas. Podemos formar uma relação simples com o mundo, aban donando nossas expectativas acerca do que esse mundo deveria ser. Esta é a quarta nobre verdade: o caminho que leva ao fim da causa do sofrimento. O tema central desse caminho é a meditação, que nada mais é do que a prática da consciência (shamata ou vipashyana, em sânscrito). Nós praticamos a obtenção da consciência sobre todas as coisas com as quais nos torturamos. Tornamosnos consci entes ao abandonar nossas expectativas sobre como pensamos que as coisas deveriam ser e, a partir dessa consciência, começamos a desenvolver a idéia de como as coisas realmente são. Nós começamos a desenvolver o discernimento de que as coisas são realmente bastante simples, que podemos cuidar de nós mesmos e de nossas relações muito bem, assim que deixarmos de ser tão manipuladores e complexos.

Os Cinco Skandhas

A doutrina budista da inexistência do ego parece ser um pouco confusa para os o

cidentais. Acredito que isso se deve à confusão quanto ao significado de “ego”. O ego

no Budismo é bem diferente do ego freudiano. Ele é uma coletânea de eventos mentais classificados em cinco categorias, chamadas skandhas.

Se utilizarmos uma expressão ocidental, podemos dizer que “no começo” tudo estava indo muito bem. Em algum ponto, no entanto, houve uma perda de confiança no modo como as coisas aconteciam. Houve um tipo de pânico primordial que produziu confusão sobre o que estava acontecendo. Ao invés de se ter consciência dessa perda, houve uma identificação com o pânico e a confusão. O ego, assim, começou a se for mar. Esse é conhecido como o primeiro skandha, o skandha da forma. Após identificar se com a confusão, o ego começa a explorar seus sentimentos sobre a sua formação. Se gostamos da experiência, tentamos atraí Ia para nós. Se não gostamos, a repelimos, ou tentamos destruí la. Se nos sentimos neutros, apenas a ig noramos. O que sentimos pela experiência é chamado o skandha da forma; o que tentamos fazer a respeito dela é conhecido por skandha do impulso/percepção.

O próximo estágio é a tentativa de identificar ou rotular a experiência. Se pudermos categorizála, poderemos também manipulá la melhor. Este é o skandha do conceito.

O último passo no nascimento do ego é chamado de skandha da consciência. O ego

começa a misturar continuamente pensamentos e emoções, o que faz com que ele se sinta sólido e real. Essa mistura contínua é chamada de samsara literalmente “girar”. O que ele sente sobre sua situação (skandha do sentimento) determina qual dos seis reinos de existência ele criará para si mesmo.

Os Seis Reinos

Se o ego decide que gosta da situação, começa a misturar todas as formas que o levam a possuí Ia. Surge o desejo de consumir a situação e nós ficamos ansiosos por satisfazê lo. Quando isso acontece, um fantasma daquele desejo permanece conosco e nós continuamos a procurar por algo mais a consumir. Entramos, assim, no padrão habitual que nos torna orientados pelo consumo. Suponhamos que alguém comprou um programa de computador. Utiliza o por um tempo até que a novidade se desgaste e passa a procurar, então, pelo próximo programa que tem o brilho mágico de não ter sido ainda possuído. Mal utiliza esse último programa quando começa a procurar pelo próximo. Ter o programa e utilizá lo não parece tão importante quanto querê lo. Esse reino é conhecido como o reino do fantasma faminto, onde nos ocupamos apenas em desejar. Nunca alcançamos satisfação é como beber água salgada para saciar a sede. Outro reino é o animal, onde a mente é como aquela de um animal. Aqui encon tramos segurança ao ter certeza de que tudo é totalmente previsível. Não corremos riscos nem exploramos novas possibilidades. O pensar em novas possibilidades nos assusta, e olhamos com desprezo a qualquer um que sugira algo inovador. Esse reino é caracterizado pela ignorância.

O reino infernal é caracterizado pela agressão intensa. Construímos uma parede de

ódio entre nós mesmos e nossa experiência. Tudo nos irrita, e até mesmo a mais inócua e inocente declaração nos deixa loucos de raiva. O calor da nossa raiva é refletido

em nós de tal maneira que nos leva a um frenesi para tentar escapar de nossa própria tortura, o que nos faz lutar ainda mais e gerar cada vez mais raiva. Tudo chega a um nível tão agudo que não sabemos mais se estamos lutando com outra pessoa ou com

nós mesmos. Estamos tão ocupados lutando que não conseguimos achar outra alternativa.

Esses são os três reinos inferiores. Um dos três reinos superiores é chamado de reino do deus egoísta. Esse padrão de existência é caracterizado por uma intensa pa ranóia. Nós estamos sempre preocupados em “fazer”. Tudo é percebido a partir de um ponto de vista competitivo. Estamos sempre procurando marcar pontos, e tentando evitar que os outros marquem pontos em relação a nós. Se alguém alcança algo espe cial, nos tornamos determinados a superá los. Não confiamos em ninguém; “sabemos” que os outros estão tentando nos passar para trás. Se alguém tenta nos ajudar, tenta mos ver o que este alguém está tramando. Se alguém não tenta nos ajudar, este al guém não está sendo cooperativo, e procuramos nos vingar mais tarde. Em alguma ocasião podemos ouvir falar da espiritualidade. Podemos ouvir a respeito de técnicas de meditação oriundas de alguma religião oriental, que tornarão nos sas mentes pacíficas a nos absorverão em uma harmonia universal. Começamos a me ditar e a praticar certos rituais, e nos vemos absorvidos em um espaço infinito de esta dos de existência cheios de graça nos tornamos orgulhosos de nossos poderes quase divinos de absorção meditativa. Podemos até lutar no reino do espaço infinito com pensamentos que raramente surgem para nos incomodar. Ignoramos tudo que não confirme nossa divindade. Nós produzimos o reino divino, o mais alto dos seis reinos da existência. O problema é que nós o produzimos. Nós começamos a relaxar e não sentimos mais a necessidade de manter nosso estado de exaltação. Eventualmente surge um pequeno vestígio de dúvida. Nós realmente conseguimos? No início, conse guimos ultrapassar a dúvida, mas ela começa a ocorrer mais freqüentemente, e logo recomeçamos nossa luta para reconquistar a confiança suprema. Assim que começamos a lutar, caímos nos níveis inferiores e recomeçamos todo o processo; do reino divino, ao reino do deus egoísta, ao reino animal, ao reino do fantasma faminto, ao reino do inferno. Até que em algum ponto começamos a nos perguntar se não há al guma alternativa para modo como lidamos com o mundo. Esse é o reino humano. O reino humano é o único no qual é possível se libertar dos seis estágios da exis tência. Ele é caracterizado pela dúvida e inquirições e pelo anseio de algo melhor. Não estamos tão absorvidos pelas preocupações consumidoras que existem nos outros estados de existência. Começamos a nos perguntar se é possível nos relacionarmos com o mundo como simples e dignos seres humanos.

O Caminho Óctuplo

O caminho para a libertação desses terríveis estados do ser é ensinado pelo Bud dha, e tem oito pontos por isso é chamado de Caminho Óctuplo. O primeiro ponto é

chamado “visão correta” o modo correto de ver o mundo. Temos uma visão incorreta

quando impomos nossas expectativas sobre as coisas; expectativas de como espera mos que as coisas sejam, ou como tememos que elas possam vir a ser. A visão é corre ta quando vemos as coisas de forma simples, como elas são. É uma atitude aberta e complacente. Nela, abandonamos nosso medo e atingimos a felicidade pelo simples fato de olhar a vida de forma direta.

O segundo ponto do caminho é chamado “intenção correta”, e decorre da visão

correta. Se conseguimos abandonar nossas expectativas, esperanças e medos, não

precisamos mais ser manipuladores. Não precisamos usar da astúcia para controlar situações, tentando transformálas no que achamos que elas deveriam ser trabalha mos com o que é. Nossas intenções são puras.

O terceiro aspecto do caminho é o “discurso correto”. Quando nossas intenções

são puras, não nos sentimos mais envergonhados por nossas palavras. que não es

tamos tentando manipular as pessoas, não temos que hesitar antes de dizer algo ou evitar qualquer tipo de conversa por falta de autoconfiança. Dizemos o que precisa ser dito, de forma simples e genuína.

O quarto ponto do caminho, a “disciplina correta”, envolve um tipo de renúncia.

Precisamos renunciar à nossa tendência de complicar as coisas devemos praticar a simplicidade, ter uma relação direta com nossas refeições, empregos, casas e famílias. E devemos desistir de todas as complicações frívolas e desnecessárias a partir das quais muito comumente provocamos confusão em nossos relacionamentos. “Vivência correta” é o quinto passo do caminho. É nada mais do que natural e cor reto que devamos merecer nossa vida. Constantemente muitos de nós não gostamos de nossos empregos. Mal podemos esperar para chegar em casa e recuperar a enorme quantidade de tempo que nosso trabalho tirou de nós, e procuramos aproveitar a boa vida. Talvez até desejássemos ter um trabalho mais glamoroso, pois não sentimos que

nosso emprego em uma fábrica ou num escritório seja compatível com a imagem que queremos projetar. A verdade é que devíamos estar felizes com nosso trabalho, seja ele qual for devíamos ter uma relação simples com ele. Precisamos realizá lo corre tamente, atentando aos detalhes.

O sexto aspecto do caminho é o “esforço correto”. O esforço incorreto é a luta.

Constantemente encaramos nossa disciplina espiritual como se tivéssemos que con quistar nosso lado maligno e promover o benigno. Estamos presos a um combate com nós mesmos e tentamos arrasar a menor das tendências negativas. O esforço correto não envolve em absoluto qualquer tipo de luta. Quando vemos as coisas como elas são, podemos trabalhar com elas de forma gentil e sem qualquer tipo de agressão. “Consciência correta”, o sétimo passo, envolve precisão e clareza consiste em sermos conscientes dos mínimos detalhes de nossa experiência. Somos conscientes da forma que andamos, do modo como realizamos nosso trabalho, da nossa postura, nos sa atitude em relação aos amigos e família de cada detalhe.

“Concentração correta” ou “absorção correta” é o oitavo ponto do caminho. Ge ralmente somos absorvidos por nossas mentes vazias elas estão completamente cati vadas por todos os tipos de entretenimento e especulações. Absorção correta é quan do estamos completamente absorvidos no presente, nas coisas como elas são. Isso só pode acontecer se tivermos algum tipo de disciplina, como a meditação. Podemos até

dizer que, sem a meditação, não podemos trilhar o Caminho Óctuplo. A meditação acaba com esse vazio da mente, e oferece um espaço para a preocupação com nós mesmos.

O Objetivo

A maioria das pessoas ouviu falar do Nirvana, que chegou a ser associado à ver são ocidental de paraíso. Na verdade, Nirvana simplesmente quer dizer “cessação” a cessação da paixão, agressão e ignorância, da luta para provar nossa existência no mudo e para sobreviver. É não ter que sobreviver por completo; nos sobrevivemos, e a luta é apenas mais uma complicação que acrescentamos à nossa vida, devido à falta de confiança no modo como as coisas funcionam. Não precisamos mais manipular nada para nossa autosatisfação.

03 ensinamentos e caminhos para a prática As Quatro Nobres Verdades 1. A Nobre Verdade

03

ensinamentos e caminhos para a prática

As Quatro Nobres Verdades

1. A Nobre Verdade de Dukkha (sofrimento);

2. A Nobre Verdade da causa de Dukkha (desejo);

3. A Nobre Verdade do Nirvana (o fim de Dukkha, a iluminação);

4. A Nobre Verdade do caminho que leva ao Nirvana ou Iluminação.

Os Quatro Votos do Bodhisattva

1. Resgatar os seres vivos do sofrimento (ligado à Primeira Nobre Verdade);

2. Extinguir as infinitas aflições dos seres vivos (ligado à Segunda Nobre Verdade);

3. Aprender as imensuráveis portas para o Dharma (ligado à Quarta Nobre Verdade);

4. Adquirir consciência do caminho do Buddha (ligado à Terceira Nobre Verdade).

O Caminho Óctuplo

1. Visão correta, entendimento correto;

2. Atitude, pensamento e emoção corretos;

3. Discurso correto;

4. Ação correta;

5. Vivência correta;

6. Esforço, energia e vitalidade corretos;

7. Consciência correta;

8. Concentração correta.

Os Cinco Preceitos

1. Absterse de matar seres vivos;

2. Absterse de tomar aquilo que não foi dado;

3. Absterse da conduta sexual;

4. Absterse do discurso falso;

5. Absterse do consumo de substâncias que confundem a mente (álcool e drogas).

Os Cinco Preceitos em termos positivos

1. Agir com amor e bondade;

2. Ter coração aberto e ser generoso;

3. Praticar quietude, simplicidade e contentamento;

4. Falar com sinceridade, clareza e paz;

5. Viver conscientemente.

Os Dez Paramita

1. Generosidade;

2. Virtude, ética, moralidade;

3. Renúncia (ao desejo);

4. “Sabedoria” Panna ou Prajna (discernimento sobre a natureza da realidade);

5. Energia, vigor, vitalidade, diligência;

6. Paciência ou indulgência;

7. Sinceridade;

8. Resolução, determinação, intenção;

9. Bondade, amor, amizade;

10. Equanimidade.

Os Quatro Estados Sublimes

1. Metta (amizade, bondade, amor);

2. Karuna (compaixão);

3. Mudita (alegria, felicidade; apreço pelas boas qualidades das pessoas);

4. Upekkha (equanimidade, a mente pacífica).

Os Cinco Poderes ou Faculdades Espirituais

1. Fé, confiança;

2. Energia, esforço;

3. Consciência;

4. Samadhi;

5. Sabedoria;

Os Cinco Defeitos

1. Desejo dos sentidos;

2. Má vontade;

3. Preguiça e torpor;

4. Inquietude e preocupação;

5. Dúvidas acerca dos tóxicos e crítica interna sem piedade.

As Quatro Bases de Referência da Consciência

1. Consciência do corpo (respiração, posturas, partes);

2. Consciência dos sentimentos (agradável, desagradável e neutro);

3. Consciência dos estados de consciência;

4. Consciência de todos os fenômenos ou objetos de consciência.

Os Três Sinais da Existência ou Propriedades Universais

1. Anicca (impermanência);

2. Dukkha (insatisfação, indução ao estresse);

3. Anatta (insubstancialidade ou o nãoser).

04 o caminho óctuplo
04
o caminho óctuplo

por John Allan

O Caminho Óctuplo é a quarta das Quatro Nobres Verdades o primeiro ensina mento do Buddha. Todos os outros ensinamentos derivam desses preceitos.

As Quatro Nobres Verdades são:

1. A Nobre Verdade da realidade de Dukkha como parte da existência condicionada .

Dukkha é uma palavra com muitos significados. Seu significado literal é “aquilo que é difícil suportar”. Isso pode significar sofrimento, estresse, dor, angústia, aflição ou insa

tisfação. Todas as palavras em inglês 1 são ou muito fortes ou muito fracas em seu sig nificado para constituírem uma tradução bem sucedida no sentido universal. Dukkha pode ser bruta ou muito sutil. Varia desde sutis conflitos interiores ou existenciais até extrema dor física e mental.

2. A Nobre Verdade de que Dukkha tem um surgimento causal . A causa é definida

como avareza e apego ou aversão. Por um lado, é tentar controlar todas as coisas ape gandose a elas ou procurando defini Ias; por outro, é controlá Ias ao afastá Ias ou fugir delas. É o processo de identificação por meio do qual tentamos transformar as coisas internas e externas em uma posse pessoal ou em algo totalmente separado de Si. Isso está relacionado aos três sinais de existência impermanência (Anicca), estres se ou sofrimento (Dukkha) e o NãoSer (Anatta). Isso porque toda a existência con dicionada é impermanente e origem a Dukkha, o que significa que na existência condicionada não existe a imutabilidade e nem o Ser permanente. Não nada a que se apegar e, na realidade, não “alguém” que possa se apegar a alguma coisa. Nós tentamos nos apegar ou afastar dos processos que são sempre dinâmicos, que sempre

estão em constante mudança. Essas tentativas de controle nos limitam às pequenas definições daquilo que somos.

3. A Nobre Verdade da cessação de Dukkha, que é o Nirvana ou Nibbana . Além da

avareza e do controle e da existência condicional está o Nirvana. “A mente é como fogo infinito”. A realização do Nirvana é o supremo Bodhi ou Despertar. É acordar para

1 O autor faz referência ao idioma do texto original. (N. do T)

a verdadeira natureza da realidade. É acordar para a nossa verdadeira natureza. O Câ none Pali do Theravada, os ensinamentos base budistas, dizem pouco sobre o Nirvana, usando termos como Incondicionado e Sem morte, e os Nãonascidos. Os ensinamen tos do Mahayana falam mais sobre as qualidades do Nirvana e usam termos como Verdadeira Natureza, Mente Original, Luz Infinita e Vida Infinita. Além do espaço e tempo. O Nirvana desafia as definições. Nirvana significa literalmente “infinito”, como em “Mente como fogo infinito”. Esta bela imagem é a de um fogo que se alimenta de si mesmo. Imagine uma chama quei mando num graveto; ela parece pairar por sobre a coisa que queima, estar em posição superior. Ela parece ser independente do graveto, mas está apegada e presa a ele. Esse sentido do Nirvana, da chama não estar apegada a nada, é comumente interpretado erroneamente como se a chama houvesse se extinguido. Isso é completamente oposto ao significado do símbolo. Essa chama “queima” e luz, mas não mais necessita de material combustível. Não está extinta o que está extinto é o seu apego ao material de que se alimenta. No fundo, o Nirvana está além da concepção e entendimento inte lectual. Entendimento completo vem somente através da experiência direta de seu “estado”, que está além das limitações e definições do espaço e do tempo.

4. A Nobre Verdade do Caminho que leva à Iluminação . Esse é um paradoxo. É algo condicionado que diz se ajudar no incondicionamento. A Iluminação não é “feita” por nada: não é produto de nada, nem dos ensinamentos do Buddha. Iluminada, sua ver dadeira natureza já está sempre presente. Apenas não está desperta para essa reali dade. Ao agarrarnos à limitação e ao tentarmos controlar o fluxo incessante dos fe nômenos e processos, nossa verdadeira natureza é obscurecida.

O caminho é um processo que nos ajuda remover ou a mover nos para além das respostas condicionadas que obscurecem nossa verdadeira natureza. Nesse sentido, o Caminho é mais um desaprender do que um aprender outro paradoxo. Nós aprendemos para que possamos desaprender e descobrir. O Buddha chamou seu ensina mento de Balsa. Talvez seja preciso construir uma balsa para cruzar um rio turbulento. Quando construída, com muita determinação e com grande energia nós fazemos o cruzamento. Depois de efetuado esse cruzamento, não precisamos mais carregar a balsa conosco. Em outras palavras, não devemos nos prender a nada, incluindo os ensinamentos. No entanto, devemos usá los antes de abandoná los. De nada serve saber tudo sobre a balsa e não utilizá la. Os ensinamentos são ferramentas, e não dogmas. Os ensinamentos são Upaya, que significa “meios habilidosos” ou “método oportuno”. São dedos que apontam para a lua e não se deve confundir os dedos com a lua.

O Caminho

1. Samma 2 Ditthi Visão Completa ou Perfeita , também traduzida como visão ou

entendimento retos. É a visão da natureza da realidade e do caminho para a transfor mação.

2. Samma Sankappa Emoção ou Aspiração Perfeita , também traduzida como pen

samento ou atitude retos. É liberação da inteligência emocional em nossa vida e o agir

a partir do amor e da compaixão. Um coração informado e uma mente sensível são livres para praticar o desapego.

3. Samma Vaca Discurso Perfeito ou Completo . Também chamado discurso corre

to. É a comunicação clara, verdadeira, positiva e que não causa