WALDYR BEDÊ

VOLTA REDONDA NA ERA VARGAS 1941-1964 (História Social)

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Capa: Pedro Marins Bedê Revisão: Profa Ana Maria Bentes Brum Diagramação, fotolitos, impressão e acabamento: Nova Gráfica e Editora - Volta Redonda - RJ Tel.: (24) 3341-1254 nova.grafica@uol.com.br

As fotos deste livro pertencem ao acervo da Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura Municipal de Volta Redonda. Ficha catalográfica

Bedê, Waldyr Amaral B358v Volta Redonda na Era Vargas (1941- 1964)/Waldyr Amaral Bedê. - Volta Redonda: SMC/PMVR, 2004. 144 p.

1.Volta Redonda - história social; 2. Volta Redonda desenvolvimento industrial; 3. Cotidiano e mentalidades. I. Título CDD 306.098153

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Waldyr Bedê

Volta Redonda na Era Vargas

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4 Waldyr Bedê .

Volta Redonda na Era Vargas 5 .

6 Waldyr Bedê .

Volta Redonda na Era Vargas 7 .

8 Waldyr Bedê .

Volta Redonda na Era Vargas 9 . Canto III. Waldyr Bedê.ODE AOS CICLOPES.

10 Waldyr Bedê .

............................... 40 A SOCIEDADE URBANO-INDUSTRIAL DE VOLTA REDONDA..... 60 A Cidade Operária Planejada ...........................ÍNDICE - CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES ..................... 73 Breve notícia sobre o trabalho feminino na Usina de Aço ................................................ 103 Volta Redonda na Era Vargas 11 .... 81 As transformações sócio-culturais ............................... 17 O MODELO AGRÁRIO E A INDUSTRIALIZAÇÃO DE BASE ........ 23 A “Revolução” Oligárquica de 1930 e a Nova Ordem Nacional: o Estado Novo .... 80 Esportes.................................................................................................. 60 O Conforto ............... lazer e entretenimento ................................................................................... 33 A epopéia da construção da usina de aço de Volta Redonda ............um bairro típico da Cidade Operária ...................................... 91 A EMANCIPAÇÃO POLÍTICA DE VOLTA REDONDA .................. 55 A formação social: cotidiano e mentalidades ........... 25 Nasce Volta Redonda............................................................................................ 55 A nova sociedade urbana de Volta Redonda: um ensaio de colonialismo cultural ................................................................................................................................................... 66 As relações do cotidiano e o paternalismo da CSN ............................... 13 INTRODUÇÃO ................................. .................................................................. 95 A LUTA SINDICAL DOS METALÚRGICOS DE VOLTA REDONDA . 23 A crise econômica mundial de 1929 e a Velha República ..................

.......... 107 O Sindicato dos Metalúrgicos e o Plano de Educação Primária de Volta Redonda ....................... 139 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...........................................................................................Os primeiros momentos do Sindicato dos Metalúrgicos .............................................................................................................poema...... "o Breve" .................................... 116 João Alves dos Santos Lima Neto.......................... 137 ODE AOS CICLOPES ..................................................................................... 121 EPÍLOGO ........................................... 118 VOLTA REDONDA E O GOLPE MILITAR DE 1964 ................................... 103 A hegemonia da "Chapa Independência" (1957-1963) . 143 12 Waldyr Bedê .............................

Volta Redonda na Era Vargas 13 . na condição de professor de história e de sociólogo profissional . Nisso. que pensava realizar outros projetos como escriba. Foi quando vários amigos .deixar um registro. do que viu e viveu. para as gerações vindouras.sobretudo. a propósito dessa efeméride. A princípio. Outros amigos e alunos também argumentaram que.cobraram-lhe. ao Curso de Pós-graduação de Especialização em História Social da Faculdade de Filosofia. portanto.CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES Este livro originou-se de um despretensioso trabalho acadêmico apresentado pelo autor. chegou o momento das comemorações do Cinqüentenário do Município de Volta Redonda. em 2001. tornar-se uma testemunha viva da história da Cidade e das transformações sociais.justamente alguns dos homenageados nas primeiras páginas desta obra . tendo o autor chegado a Volta Redonda em 1944. políticas e culturais por que ela passou. literalmente. seria seu dever . sob o título: "O Desenvolvimento Industrial Brasileiro na Era Vargas e seus Desdobramentos Sociais em Volta Redonda". a produção de um livro sobre a História de Volta Redonda. a publicação deste livro não fazia parte dos planos imediatos do autor. Ciências e Letras de Volta Redonda. em que o autor foi convocado a dar entrevistas e prestar depoimentos à mídia e a muitos estudantes de diferentes níveis de ensino que o procuraram. econômicas. o que lhe permitiu.

não parei de ler história. Parabenizo a quem o faça. convive com fungos e leptospirose. ficha livros. Alfabetizado somente aos nove anos porque meu pai era um mestre eletricista nômade. para montar torres de linhas de transmissão de alta voltagem. o que é bem diferente de um historiador. Sempre tive muita vontade de . que pesquisa.. fazem fichas. leio muito. Dito isso. desses que anotam tudo. resumos e outras coisas do gênero. De lá para cá.experiência que este autor viveu. um rato de bibliotecas e de arquivos. me presenteou com o livro "História do Mundo Para Crianças". no meu tempo. escreve.É aqui que as coisas começam a se complicar. depois. nos últimos 35 anos. Confesso que nunca fui muito estudioso. de Goethe: "Não anda o povo afeito a mãos de mestre. até descobrir seu Eldorado (Volta Redonda) . como personagem menor. muitas vezes como testemunha privilegiada. Um ler que mete medo". outras. por várias vezes. quando uma prima. esquemas. faz anotações. tomei a seguinte resolução: como professor de História. organiza arquivos e. tal como no famoso filme "Casablanca".ler praticamente tudo o que me caía às mãos . relataria o que vi e vivi. e procuraria analisar tudo como sociólogo. Esse foi o 14 Waldyr Bedê . como um dos "suspeitos de costume". já adulta. e o fui. antes de tudo. Mas lê.dos velhos gibis de história em quadrinhos aos clássicos. Sou um contador de histórias. à maneira de quem presta um depoimento . segundo o meu entendimento das coisas. aos doze anos. Por isso mesmo. como o povo.. que vivia pulando de cidade em cidade. Minha praia . passo a escrever na forma da primeira pessoa. lê muito.é outra: a sala de aula. no prólogo do "Fausto".e paciência para .tomei-me de paixão pela História. do velho e sempre bom Monteiro Lobato. Eu apenas leio.onde me dou bem e me sinto inteiramente à vontade . compila. Sou um professor de história. escarafuncha. O historiador é.

a história de Volta Redonda anteriormente a 1941. obviamente. neste livro. minha abordagem específica sobre Volta Redonda abrange o período entre 1941 e 1964. de que me concederão a gentileza da reciprocidade. também. Waldyr Bedê Volta Redonda na Era Vargas 15 . principalmente porque. Volta Redonda. Volta Redonda somente passa a ter importância. Não abordei. para os destinos do Brasil. Ao melhor estilo de Voltaire. portanto. com muito mais propriedade. respeitarei. Assim. em seguida. a partir da construção da Usina de Aço. as vozes discordantes. na Era Vargas. Inverno de 2004. da forma como entendi que deveria vê-lo. Certo. Trata-se. Procurei situar a História de Volta Redonda. dentro do contexto da História do Brasil. Jardim Europa. porém. Primeiramente. porque outros já o fizeram. de uma visão pessoal. fui um de seus protagonistas. porque. penso eu.filme que eu vi. para mim.

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econômico. e para a de Volta Redonda. social e cultural do Brasil. mormente a partir de 1941. ou de base. a Era Vargas representa o momento mais expressivo do desenrolar desse processo. diplomático. herdeiro político de Vargas. em particular. A construção da usina de aço da Companhia Siderúrgica Nacional.INTRODUÇÃO Segundo os autores que tratam do desenvolvimento industrial brasileiro. por "ERA VARGAS" o período que vai de 1930 (início da Revolução Oligárquica liderada por Getúlio Vargas) a 1964 (ano da queda do presidente João Goulart. em geral.e sua inserção no cenário político. militar. Volta Redonda na Era Vargas 17 . estratégico. Uma questão básica consiste em se conhecer como se processaram essas mudanças e qual a sua verdadeira importância para a sociedade brasileira. constitui o marco histórico da passagem definitiva do País para a etapa da industrialização em larga escala. no Brasil. por força do Golpe Militar de 1º de abril de1964). ao implantar a indústria pesada. Uma presença tão expressiva. A Era Vargas1 marca o momento histórico da construção da usina siderúrgica de Volta Redonda . ao transformar um país de economia agrícola em outro. definitivamente industrial e urbano.matriz do processo de industrialização pesada do Brasil . em Volta Redonda. produz mudanças sócio-culturais profundas na sociedade brasileira. Um tal processo. aqui. quando se 1 Entenda-se.

no comportamento individual e coletivo e nos elementos componentes da cultura do povo brasileiro. ainda que em atividades distintas. É exatamente essa dimensão humana que avulta da história social de Volta Redonda: mesclamse. que deverão viver juntas. não somente por sediar a usina de aço da Companhia Siderúrgica Nacional. por isso mesmo. que na mitologia greco-romana são os operários das forjas de Vulcano. 18 Waldyr Bedê . . De diferentes origens. "Ciclopes". essas pessoas elegem um mesmo objetivo: fazer de Volta Redonda o seu Eldorado.. técnicos. em Volta Redonda. cartas etc. seus dramas e idiossincrasias. As vinte e uma páginas do relatório final da Comissão Executiva do PLANO SIDERÚRGICO NACIONAL. somando as mesmas esperanças. sofrendo as mesmas privações.iniciam a construção e a montagem da usina de aço. esse considerável acervo documental não retrata.aos imensos recursos humanos de que o Brasil necessitaria para executá-lo: não obstante. relatórios técnicos. milhares de pessoas.. que seu nome figura abundantemente nos documentos históricos relativos à época: noticiário falado e escrito. jornais cinematográficos. em sua real extensão. como também pela privilegiada circunstância de se localizar a meio caminho entre as duas maiores metrópoles brasileiras e. de onde poderia vir a verdadeira massa humana que apeou na velha estação da Central do Brasil. todos os demais aspectos . E com essa denominação. figuram no brasão do Município. dois dos centros culturais mais expressivos do Brasil: São Paulo e Rio de Janeiro.lá estão contemplados. livros. revistas. por exemplo. com suas histórias pessoais. atos oficiais. culturas e profissões. Volta Redonda sofre diretamente as mudanças sócio-culturais decorrentes do processo de industrialização.financeiros. o lado humano e a fácies sócio-cultural da jornada de construção da usina da Companhia Siderúrgica Nacional. serão referidos várias vezes neste texto. fazendo o mesmo trabalho. simbolizando os trabalhadores de Volta Redonda. assim como as mudanças e as transformações que se operam nas relações sociais. Mas os ciclopes2 2 Os ciclopes. num mesmo lugar. estratégicos . encaminhado ao presidente Vargas. O documento não fala. de agosto de 1941. ao longo das três décadas que se lhe seguiram. dividindo os mesmos anseios. correspondências diplomáticas. Contudo. não se referem .em uma única linha que seja.

uma prevaricação contra o patrimônio nacional. Nesse contexto. atualmente. seu comportamento se revela coerente com o padrão que. reivindica e se põe a lutar por seu espaço e por mais direitos. vivendo numa nova sociedade urbanoindustrial. no mínimo. na luta contra o totalitarismo do Eixo. portanto. algo saíra errado do caldeirão desses aprendizes de feiticeiro: embora se mantivesse. E esta obra foi escrita. de economia de mercado. Aqui. conduzida. pelo oportunismo de uma elite imatura e inepta. ocupando as posições que o Estado Novo lhes destina. pleiteia. ao realizar seu primeiro grande salto tecnológico. se aborda uma das passagens mais importantes da história do Brasil-República: aquela em que o Brasil se torna um país adulto. passam a se movimentar como peões num tabuleiro de xadrez. ainda. sob o fascínio da figura do velho Caudilho. Logram fazê-lo em parte. por exemplo. que ainda tenta sobreviver. demonstra possuir. porque pensa. Como se constataria mais tarde. sem se darem conta. calcada nas observações do próprio autor. durante tantos anos. as contradições resultantes do alinhamento da Ditadura Vargas com as democracias ocidentais. moderna. pelo menos até o término da Ditadura Militar (1984). Contudo. ele se deixa seduzir pelo canto de sereia do populismo político e do "peleguismo" sindical. Levaria muito tempo. em sua maior parte. para que esse novo homem brasileiro. esse novo homem nasce com um pequeno defeito de fabricação: ele pensa! E. o Estado Novo lhe inculcou. eis que o "homo volta-redondensis" encarnaria. ver-se-á presa de novas contradições: numa ordem econômica capitalista. o modelo pretendido pelo Estado Novo: nessa relação de criadorcriatura. que ele mantém com a Siderúrgica. Fazer greve na CSN.. por um bom tempo. em que ele busca refazer seus caminhos. ainda. testemunha pessoal da grande epopéia que foi o processo histórico da Volta Redonda na Era Vargas 19 . se lhe afigura uma traição ou.vêm e.. encontrasse o seu caminho e alcançasse o aceitável grau de consciência política que. atropelaram as projeções dos ideólogos do Estado Novo. nos termos de um Projeto Nacional que contempla a construção de um novo homem brasileiro. urbana. via de regra. industrial. para atuar no cenário de uma nova sociedade.

por ser o observador parte integrante dessa realidade (nota do autor).seria considerado normal à luz da Sociologia Crítica. Presume o autor. quando da construção de Brasília. que pudesse respaldar a análise dos episódios aqui reproduzidos e criticados. contudo. que essa inevitabilidade terá conferido mais peso específico aos fatos. a "Ferrovia da Morte". com os aspectos humanos e sócio-culturais inerentes à aglomeração. Ressalve-se.. quase que abrupta. neste trabalho. inevitavelmente. de caráter mais analítico do que descritivo. como efetivo. partícipe. à própria memória. circunstância que pode conferir mais peso. Até porque o envolvimento do observador com a realidade que observa .construção da Companhia Siderúrgica Nacional e da formação social que se verificou ao redor da usina de aço de Volta Redonda. a dificuldade de se encontrar uma bibliografia específica sobre a história de Volta Redonda. eis que a proximidade faz o observador sentir as interações humanas. contados. reuniu mais de 20. em termos estritamente urbanos3. num mesmo "locus" . 3 A construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.. que apenas recentemente é que essa bibliografia começou a ganhar alguma substância. Mesmo correndo o risco de reproduzir.a maioria ainda inédita. e inevitável. 20 Waldyr Bedê 4 . ainda.".fato inédito na História do Brasil. de milhares de pessoas. jamais foram "com tanto ardor. os quais. o autor não hesitou em analisar a natureza dos fatos que aqui relatou. à observação: a distância entre o observador e o objeto já não é mais "olímpica". de diferentes origens e culturas. Bias: uma suposta visão deformada da realidade. mas em períodos diferentes e em várias frentes de trabalho espalhadas pela selva amazônica (nota do autor). o fenômeno que a Sociologia de cunho positivista chama de "bias4". também. ainda. com a produção acadêmica de monografias. Destaque-se. dissertações e teses . por outro lado. repetindo um verso de Olavo Bilac.000 pessoas. outra vez. em toda a sua intensidade. relativa a esse período. como testemunha privilegiada que foi.o fenômeno social . já na segunda metade dos anos cinqüenta. para cujo relato o autor precisou recorrer. o que somente aconteceria. na República Velha.

em Volta Redonda.Os "Ciclopes" num comício do PCB.Volta Redonda na Era Vargas 1945 . 21 .

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o Brasil apresentava sucessivas marcas de superprodução de café .. "Stages of the Economic Growth".isto é: de base.um modelo de economia dependente e periférica ou "satellitic". de monocultivo de exportação . na expressão intraduzível de Rostow5. marca o término da chamada "República Velha" no Brasil e o começo do fim do seu modelo econômico agrário. 5 Rostow. Desde o fim da Grande Guerra (1914/1918). Walt p. O Brasil era refém de um modelo econômico imposto pelo imperialismo das grandes potências mundiais às nações subdesenvolvidas.como também pelo fato de não dominar tecnologias. como a siderurgia .O MODELO AGRÁRIO E O PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO DE BASE A crise econômica mundial e a Velha República A Revolução de 1930.mas os preços do nosso principal produto de exportação achavam-se em queda nas praças de Londres e Nova Iorque. liderada por Getúlio Vargas. quer por não possuir recursos próprios (poupança interna) suficientes para investir na indústria pesada . 23 Volta Redonda na Era Vargas .responsável por mais de 85% de nossa receita externa .

Sorocaba. Barra Mansa. Waldyr Bedê 24 . Caxias do Sul. cuja acumulação serviu para financiar esse começo de industrialização. S. Uberlândia. óleos vegetais e gorduras animais. Estávamos condenados a uma economia primária de exportação (agricultura. que traziam consigo algumas economias. Porto Alegre. a construção de ferrovias e de pequenas usinas termo e hidroelétricas. sob os auspícios do senador do Império Nicolau de Campos Vergueiro6. por estratos da aristocracia rural e por imigrantes e seus descendentes enriquecidos. calçados.206)11ed. pecuária e extrativismo). mas operários qualificados. Edusp. muitos imigrantes. composta. tecidos. Blumenau. "História do Brasil".. São Paulo. (205. a partir de 1847. as primeiras escolas profissionais voltadas para esses 6 Fausto. contribuíram para o desenvolvimento de uma incipiente industrialização urbana. necessariamente. em parte. conservas. suprimentos agrícolas e utensílios domésticos. cujos preços eram estabelecidos pelos importadores. torrefação e moagem de café). deram origem a alguns dos atuais impérios industriais privados. assim como a implantação das linhas de transmissão de energia elétrica e dos sistemas de comunicação por telégrafo e telefone. 2003. implicava a criação de grandes oficinas de manutenção. Com a imigração sistemática iniciada. bebidas. e outros. simples artesãos. propiciaram a formação de uma burguesia nacional mínima. como Bauru.métodos e processos industriais de porte. sobretudo em São Paulo e seus arredores. Uberaba. como: Rio de Janeiro. reparos e reformas de equipamentos.. que não eram agricultores em sua terra de origem. Boris. Paralelamente. ou em cidades do interior. Ponta Grossa. tais como: ferramentas. Junto a essas oficinas. Valença. Nessa etapa.Paulo. e numa razoável gama de artigos de metalurgia. a industrialização concentrava-se na produção de alimentos (panificação. refinação de açúcar. Juiz de Fora. Alguns desses imigrantes. Joinville. mobiliário. Essas pequenas indústrias. localizadas principalmente nas grandes capitais brasileiras. aparecem. Monlevade. massas.

cuja primeira fase duraria de 1930 a 1945. as falências e concordatas de bancos. que. flagra o Brasil no pico histórico de sua produção cafeeira. serralheiros etc. a partir de 1942 iriam integrar o projeto de industrialização sistemática do Brasil na Era Vargas. em processo de passagem. o surgimento das primeiras gerações de trabalhadores urbanos qualificados: mecânicos. em início de ascensão na sociedade brasileira. a Era Vargas. mas. A crise econômica mundial de 1929. com o endividamento em massa de fazendeiros. cujo presidente. Iniciava-se. com milhões de toneladas excedentes em estoque e sem qualquer possibilidade de colocá-las em um mercado fortemente retraído. fora derrotado nas eleições para a presidência da República. Dá-se. Volta Redonda na Era Vargas 25 . fundidores. atacadistas exportadores e de empresas urbanas. que marca o início da Grande Depressão dos anos trinta. então. em armas. ajustadores. contra o governo de Washington Luís. soldadores. industriais. levanta-se. com o apoio de Minas Gerais. carpinteiros. então. que é deposto pelos seus próprios chefes militares. em razão de sua acelerada descapitalização e em face da situação fortemente recessiva dos mercados interno e externo. sócio-culturais e políticas de uma burguesia "pré-industrial". eletricistas. torneiros. por algum tempo. Getúlio Vargas. Elas constituiriam as matrizes de instituições. o Estado do Rio Grande do Sul. O modelo econômico baseado no monocultivo de exportação do café já não mais atende às aspirações econômicas.setores produtivos. como o SENAI (Serviço Nacional de Amprendizagem Industrial). ainda. no Brasil. um quadro de desorganização da vida econômica nacional. A "Revolução" Oligárquica de 1930 e a Nova Ordem Nacional: O Estado Novo Em outubro de 1930. no final do século XIX. Disso resulta. do campo para as cidades. montadores. comerciais e de serviços.

tanto na concepção.que tomaria forma no final dos anos trinta -. na verdade. com o nome de Estado Novo. na Espanha e. do Juro e da Moeda".que resultavam da descrença nos ideais democráticos e da suposição de que os governos autoritários seriam o instrumento adequado para a restauração da ordem ou para a imposição de uma Nova Ordem. como ponto de partida 7 Keynes. "Teoria Geral do Emprego. Rio. 26 Waldyr Bedê . do crédito e dos juros. Mais que um projeto nacional . Danton. Vargas detém uma orientação de governo centrada na idéia da implantação da indústria de base (ou pesada). controle inspirado nas idéias de Keynes7. Em 10 de novembro de 1937. adota uma política de forte intervenção estatal na economia norte-americana.seu programa de governo para tirar os Estados Unidos da Depressão. estendeu-se por toda a primeira metade dos anos trinta e propiciou a proliferação. do câmbio.. Tratar-se-ia da versão "tupiniquim" do "New Deal 8" segundo a concepção de alguns autores da época. em todo o Mundo.A Grande Depressão. no Brasil. O "New Deal". através do severo controle da moeda. 1940. como agente indutor do processo de desenvolvimento econômico e social. Com efeito. defende a comparação. na Alemanha. como aconteceria na Itália. presidente dos Estados Unidos (1933/1945). que atingira a economia mundial em 1929. 1936. A década de trinta assinala uma forte interferência do Estado na vida econômica. em ambos os casos. Londres. de regimes políticos totalitários . como gestor da economia nacional: nos Estados Unidos. com a introdução de uma ordem política. quanto na execução.. John Maynard. no Brasil. pela retomada do pleno emprego. que tem como característica básica o fortalecimento do poder do Estado sobre a vida econômica norte-americana. mesmo em países democráticos. apologistas de uma política de aproximação do Brasil com os Estados Unidos. Vargas dá o golpe de Estado e implanta um regime ditatorial. é um projeto autoritário. Franklin Roosevelt. embora a semelhança entre um e outro projeto de governo se limitasse somente ao papel do Estado. com a criação do "New Deal" . como Inglaterra e Estados Unidos. in "A Experiência Roosevelt e a Revolução Brasileira". 8 Jobim.

bancários. em nítidos contornos. pelo menos. Essa idéia aparece. rodoviários. e dependeríamos . a idade do ferro marcará o período da sua opulência econômica. o montante das contribuições previdenciárias de empregados. os únicos problemas que Vargas irá enfrentar: não há. Esses institutos recolhiam. é o siderúrgico. o próprio banco estatal subscreve milhões de ações da nova empresa . em 1931: "Mas o problema máximo. Entrava-o a nossa míngua de transportes e a falta de aparelhamento indispensável à exploração da riqueza material que possuímos imobilizada. patrões e. de fato. meio milhão de toneladas de aço por ano. servidores públicos. Para o Brasil. no discurso de Vargas. empresários com capital suficiente para bancar a implantação de uma usina siderúrgica de grande porte (no caso. Volta Redonda na Era Vargas 27 . 1977. poucos meses após o começo do seu governo.. muito menos. básico da nossa economia. do governo federal. pode dizer-se. teoricamente (apenas teoricamente. obviamente. marítimos. Grande parte desses recursos entesourados no Banco do Brasil constitui o capital inicial da Companhia Siderúrgica Nacional. ferroviários. No amplo emprego desse metal. se expressa a equação do nosso progresso.. de "know how" específico para a produção de aço. compulsoriamente. ocorreu . sobre todos. Vargas cria novos institutos de aposentadoria e pensão para as diferentes categorias de trabalhadores urbanos: industriários. país algum jamais promove por mera gentileza.da transferência de tecnologia. não dispomos. mesmo se consorciados. Ao longo da década de trinta. que. Além disso. que fosse capaz de produzir. criada em 9 de abril de 1941. ao Banco do Brasil." ( SODRÉ.que marcaria o começo da indústria de base do Brasil. precioso. em sua primeira viagem a Belo Horizonte. na burguesia nacional. comerciários.) A deficiência dos transportes e a falta de aparelhamento não são. em chapas e perfis).).como. todavia.para o desenvolvimento econômico e social do Brasil.

1941-Vista aérea do local exato em que seria construída a Usina de Aço da CSN. 28 Waldyr Bedê .

e publicada durante toda a Segunda Guerra Mundial. 9 A revista "EM GUARDA" (op. pessoal e diuturnamente. nº 3 . até a construção da própria usina. na Alemanha e nos Estados Unidos. desde que assumira o poder. Volta Redonda na Era Vargas 29 . Em uma dessas visitas.ações que demandavam financiamento externo. em outubro de 1945. Bureau de Assuntos Interamericanos. fica patente que. um exemplo tão convincente. 22 e 23). em seus mínimos detalhes.Ano III. para que ele se concretize: no seu "Diário". mais tarde. instituindo no Brasil um novo padrão de vida e um novo futuro. O "Guia da Nacionalidade" . desde o treinamento e o aperfeiçoamento dos técnicos brasileiros na França. cujos canteiros de obras inspeciona por diversas vezes. como cuida.. digno de suas possibilidades". Vargas vaticina: "Volta Redonda será um marco da civilização brasileira. Na leitura do segundo volume do "Diário" de Getúlio Vargas (1995). e. como o major Macedo Soares e o economista Jesus Soares Pereira.Washington.cit. o empresário Guilher me Guinle. até a sua queda. o presidente Vargas registra inúmeros encontros com os técnicos encarregados da elaboração do Plano Siderúrgico Nacional. com o presidente da então recém-criada Companhia Siderúrgica Nacional. que afastará todas as dúvidas e apreensões acerca do seu futuro. editada pelo Bureau do Coordenador de Assuntos Interamericanos do Governo dos Estados Unidos. em 1930.Restava a parte mais difícil: a transferência de tecnologia e o aparelhamento da usina siderúrgica .como o cognominavam os áulicos palacianos .tudo quer saber e a tudo acompanha. deu grande destaque à obra da Usina da CSN e assim se expressou acerca do empenho do presidente Vargas em construir Volta Redonda: "Datam de mais de vinte anos os primeiros planos 9 "EM GUARDA". 1944. o caudilho gaúcho não apenas possui um projeto de desenvolvimento industrial para o Brasil.

auxiliar o pais seu aliado na guerra contra o Eixo. novas indústrias surgirão.para a utilização industrial do minério de ferro brasileiro. se fez de definitivo. os Estados Unidos estão contribuindo com assistência técnica e. conseqüentemente. financiado em parte pelo governo. o de maior vulto industrial levado a efeito no Brasil. para dar início à produção prevista para suprir imediatamente as necessidades nacionais. o grande projeto siderúrgico de Volta Redonda. com um crédito no valor de 45 milhões de dólares. para a aquisição de maquinismos e equipamento. "Foi assim que. aumentando a renda pública e particular e. até o Presidente Vargas haver encarado o importante problema com a disposição de dar-lhe a solução mais adequada e mais pronta possível. por intermédio do Banco de Exportação e Importação de Washington. Parte do capital. entretanto. foi coberta rapidamente. cujos depósitos são considerados os mais ricos do mundo. Como resultado dessa grandiosa iniciativa. "A fim de cooperar com o Brasil na defesa do Hemisfério Ocidental e. elevando o padrão geral de vida do país. sob um plano verdadeiramente nacional. ampliando e abrindo novos horizontes de produção e de consumo. em ações lançadas à subscrição pública. ao mesmo tempo. Pouco. Esse crédito será amortizado em dez anos. sob seus auspícios. "Volta Redonda está localizada num ponto central 30 Waldyr Bedê . "O grande centro metalúrgico de Volta Redonda está sendo construído pela Companhia Siderúrgica Nacional. entrou em execução e está agora em vias de conclusão.

o manganês e o calcário são extraídos perto de Belo Horizonte e transportados por via férrea para Volta Redonda. folhas de Flandres. trilhos e acessórios e vigas. Este porto é também usado para alguns dos embarques do carvão procedente de Laguna. O minério de ferro. barras e vergalhões. na costa do Estado do Rio. estruturas metálicas. Uma estrada de ferro de bitola estreita faz a ligação entre a usina e o porto de Angra dos Reis. e os centros consumidores de aço. "Grandes melhoramentos já estão sendo realizados nas vias de transportes brasileiras para atender ao tráfego de ida e volta para usina. inclusive billets. em Santa Catarina. para o porto de Laguna. Ali é então posto em navios cargueiros que o transportam para o Rio. de onde segue. Rio e São Paulo. novas estações e sistemas de sinais foram construídos.entre os depósitos de minério de ferro e as minas de carvão. perfis médios e pesados. para a usina. dentre os quais se Volta Redonda na Era Vargas 31 .ferro gusa. A Estrada de Ferro Central do Brasil está sendo eletrificada no trecho entre o Rio e Laguna. Docas e armazéns no Rio de Janeiro e em Laguna estão sendo aumentados e numerosos navios cargueiros acham-se em vias de acabamento nos estaleiros nacionais. e está se procedendo ao alargamento de vários túneis. o carvão é transportado num percurso de 70 quilômetros de estrada de ferro de bitola estreita. Novos vagões. "A usina foi projetada para produzir a quantidade e o tipo de material que o Brasil mais necessita . por via férrea. O coque será produzido numa bateria de 55 fornos em conjunção com a fábrica de subprodutos. Das minas de Teresa Cristina.

Em busca de recursos externos.que se tenha notícia . 10 "O III Reich e o Brasil".000 toneladas de produtos. Entretanto.000 toneladas de peças e de material para o consumo. com o conseqüente bloqueio do Atlântico Norte pela Armada britânica. após a visita do presidente Roosevelt ao Nordeste do Brasil e o nosso decorrente compromisso de cedermos espaço para a localização de bases militares aeronavais em Recife. alcatrão. conforme consta de documentos diplomáticos alemães apreendidos pelos Aliados. Mais tarde. A usina começará a funcionar com um alto forno. outros entrarão em funcionamento. toluol. inviabiliza. ao término do conflito10. a emergência dos interesses militares dos Estados Unidos precipita a condução do processo de negociação do financiamento a um desfecho favorável. na prática. benzol. Mas. para a construção da usina siderúrgica de Volta Redonda. para o qual o Terceiro Reich se dispunha a emprestar 300 milhões de marcos-ouro ao Brasil.um tratado específico. conseguimos um financiamento de 30 milhões de dólares e o contrato com a United States Steel Company para a compra e a instalação dos equipamentos da usina da Companhia Siderúrgica Nacional. entre o Brasil e os Estados Unidos. com o governo alemão. págs. A eclosão da Segunda Guerra Mundial. A capacidade da usina é de 750. mas essa capacidade não será atingida no começo da produção. xilol e nafta. Laudes. Não se celebrou . 68 e 69. de acordo com as exigências do consumo.000 toneladas de lingotes será transformado em 267. Um total de 368. anualmente. outros 55 fornos adicionais entrarão em operação. que deverá começar brevemente".destacam: sulfato de amoníaco. Waldyr Bedê 32 . o fornecimento alemão de uma usina siderúrgica. volume II. 1968. Quando for necessário.000 toneladas de lingotes e de 550. com o governo americano. Natal e Fernando de Noronha. a princípio. mais tarde. Vargas negocia. Rio.

à busca de alternativas agrícolas ao cultivo do café. quanto o seria qualquer diminuto vilarejo interiorano. da inércia de uma elite inepta. Mas possui eletricidade e água em abundância . Comandante Ernâni do Amaral Peixoto. a vida econômica da região sul-fluminense e. as áreas de antigos cafezais transformaram-se em pastos e foram vendidas ou arrendadas a pecuaristas mineiros. do restante do Estado do Rio de Janeiro. possivelmente. é escolhida como o lugar que vai abrigar a futura Usina de Aço da Companhia Siderúrgica Nacional. nem se poderia incluí-la no circuito das "cidades mortas" do Vale do Paraíba . Tudo acontecera em razão. por exemplo. em livro homônimo . ainda que em deploráveis condições. política e tecnológica do Brasil. pelo esgotamento do solo. havia uma resistência. Graças à poderosa influência política do então Interventor do Estado do Rio de Janeiro. visto que contraria consideráveis conveniências técnicas. Ademais. social. apenas. também. Ademais. que se perderam com o fenecimento da lavoura cafeeira. os quais a pecuária não lograra trazer de volta. e tão importante para a vida econômica.de que tratara Monteiro Lobato. um ponto insignificante no mapa do Estado do Rio de Janeiro. Até 1941.já que nem sequer uma simples cidade o fora Volta Redonda. Trata-se de uma escolha eminentemente política. mesmo nos áureos tempos da opulência do café . Volta Redonda na Era Vargas 33 .Nasce Volta Redonda Antes do advento da Siderúrgica de Volta Redonda. motivada. Desse modo. tresandava a profunda decadência. o 8º Distrito do Município de Barra Mansa. voltada para o passado e pressurosamente agarrada às reminiscências de um fausto e de uma opulência. Volta Redonda. como a desejável proximidade das fontes de matérias primas ou de um porto fluvial ou marítimo. Volta Redonda era. Como foi o caso de Bananal. sobretudo.vitais para a produção siderúrgica e é servida por uma estrada de ferro. em São Paulo. genro de Getúlio Vargas.

Fazenda Santa Cecília. em cujas terras foram construídas a Usina e a Cidade Operária.34 Waldyr Bedê 1941 . .

acampados nos laranjais da Fazenda Santa Cecília. A "Velha Província" . como um “locus” importante. Apenas sobrevivia graças aos favores políticos e à vizinhança do Poder Central. economicamente atrasada. como vila. Os Estados Unidos ingressavam na Segunda Guerra Mundial.Tratava-se tão-somente de um distrito (o 8º) do Município de Barra Mansa. o Brasil declara guerra às potências do Eixo (Alemanha. de forma relevante e significativa. tal como Quatis. Embora sua primitiva história. O alinhamento do Brasil com as nações aliadas transforma a construção da usina de Volta Redonda em objeto Volta Redonda na Era Vargas 35 . no último quartel do século XIX. e das sedes de algumas fazendas. Até mesmo a igreja do seu padroeiro. pejorativamente. datada de 1903. muito pouco restou de vestígios históricos da velha Santo Antônio de Volta Redonda. na Vila de Santo Antônio de Volta Redonda. àquela época. arquitetonicamente falando.como era chamado. o Estado do Rio de Janeiro . Falcão ou Amparo. Volta Redonda somente ingressa no mapa e na História. Itália e Japão). sediado no Rio de Janeiro. 8º Distrito do Município de Barra Mansa. Antes de 1941. território dos EEUU. a apenas meia hora de travessia de barco de Niterói. o Brasil. topógrafos e agrimensores. admiravelmente bem conservadas. ficou descaracterizada. remonte ao século XVIII. no Hawaii. no bairro Niterói. em virtude dos ataques de submarinos às embarcações brasileiras. de modo a inseri-la no mapa. na maioria dos casos em águas territoriais de um país que se anunciara neutro. Em agosto de 1942. Exceto pela chaminé do Engenho de Aguardente. No Natal de 1941. na era da indústria pesada. quando da sua reforma. mesmo no âmbito restrito da história fluminense. quando o governo do Estado Novo se decide por sua escolha como local para a construção da primeira grande usina siderúrgica do Brasil.tornara-se. na segunda metade do século XX. dezoito dias após o ataque japonês a Pearl Harbour. medíocre e decadente. onde se ergueria a maior usina de aço do hemisfério sul. não havia nada em Volta Redonda que pudesse apresentar alguma relevância ou significado. já haviam esquadrinhado o terreno às margens do rio Paraíba do Sul.

uma grande fundição e uma estação de captação e tratamento de água. com uma rapidez que surpreende seus mestres de obra. oficinas de manutenção e pátio de minérios. e aprendem como manipulá-las. alto-forno. Ainda em 1942.largamente empregada nas especificações de máquinas e equipamentos importados pela CSN. instalam-se várias empreiteiras para as obras de construção civil da planta da siderúrgica e da vila operária. fazendo". mais de vinte técnicos americanos desembarcam no Brasil e passam a prestar assistência direta ao processo de montagem da usina de aço. vão conhecendo novas ferramentas. O terreno escolhido à margem direita do rio Paraíba do Sul exige o aterro de uma área com aproximadamente 11 km2 para acolher os seis grandes setores de uma usina siderúrgica completa: coqueria. Dezenas de agentes de recrutamento deslocam-se para o interior dos Estados do Rio de Janeiro. aciaria.como se dizia à época. Em sua maioria. de que a unidade de uso mais comum é a polegada . Juntamente com os equipamentos siderúrgicos. muitas vezes no "fazer. que eram transportados de caminhão até a estação ferroviária mais próxima.de interesse militar estratégico. no formigueiro humano dos canteiros de obras. Nesse mesmo ano. em pleno esforço interno de guerra dos Estados Unidos e a despeito de todos os problemas de navegação num Atlântico infestado de submarinos alemães. da enxada e da picareta. a usina abrigaria. a Companhia Siderúrgica Nacional abre o recrutamento de mão-de-obra para a construção de sua usina de aço. além da pá. São Paulo e Minas Gerais para o alistamento de trabalhadores. o que viabiliza o fornecimento imediato. muitos deles são encaminhados ao trabalho braçal da construção civil. acostumados à enxada e ao trabalho "de sol a sol" . inclui o conhecimento do sistema inglês de medidas. Além disso. Seu aprendizado. de equipamentos à Companhia Siderúrgica Nacional. laminação. alguns dos quais somente retornaram aos Estados Unidos no início da década de cinqüenta. Analfabetos e sem qualquer qualificação profissional que os habilitasse para o serviço na indústria. onde embarcavam no trem para Volta Redonda. esses milhares de homens procediam das lavouras e da pecuária. pelos americanos. também. uma central termoelétrica. 36 Waldyr Bedê . No dia-a-dia do trabalho pesado.

37 .Volta Redonda na Era Vargas 1941.V. Redonda: primeiros movimentos de terraplanagem.

E. F.38 Waldyr Bedê 1941. . Central do Brasil vista do Viaduto da Usina da CSN.

A Usina em construção vista do futuro bairro Laranjal.Volta Redonda na Era Vargas 39 1943 . .

Pois essa estirpe de gigantes sem estirpe é que faz surgir uma imensa fábrica. que se habilitaram nas indústrias urbanas. São Paulo e de todos os santos. de "pés descalços.operários das forjas de Vulcano. nas companhias de energia elétrica e nas próprias escolas industriais que essas empresas mantinham com subsídios governamentais (parte da contribuição compulsória destinada ao SENAI poderia ser aplicada pelas próprias empresas. Muitos simplesmente não acreditavam no que viam. são profissionais qualificados. Segundo o relato do técnico mecânico Isidório Ribeiro. segundo a mitologia .uma alternativa legalmente admitida). carcomidos. outros trabalhavam com o entusiasmo e a convicção daqueles que sabem estar erguendo uma catedral: 40 Waldyr Bedê . na qualificação do seu pessoal . cumpriria um papel histórico na formação. nas ferrovias. "vindos de todos os cantos. que alguns milhares.". de Minas. no aperfeiçoamento e na especialização de mão-de-obra para a Usina da CSN. da subnutrição e das mãos calosas do cabo da enxada. mesmo quando tinham diante de si as vigas e colunas de concreto brotando das formas de madeira e que se transformavam em enormes edifícios. nada mais traziam consigo.. dos quase dez mil trabalhadores engajados na construção de Volta Redonda.Paralelamente à construção da usina de aço da CSN. construindo a maior usina siderúrgica da América Latina. junto com o sonho e "a esperança de um bom e novo lugar para se viver e trabalhar". Os Ciclopes. da ignorância. A epopéia da construção da usina de aço de Volta Redonda Para o autor. como jamais fora vista no Brasil. a maior do hemisfério Sul. além do analfabetismo. Ressalte-se. tresnoitados e abatidos". que usa a metodologia do SENAI. contudo. mais tarde denominada "Escola Técnica Pandiá Calógeras". a empresa implanta uma "escola profissional". destinada à formação de mão-de-obra qualificada. A "Escola Profissional". aqui deram corpo a um sonho.simbolizam os milhares de trabalhadores anônimos que. os Ciclopes . da miséria..

41 .Volta Redonda na Era Vargas 1946 .Trabalhadores fazem sua refeição na Ala de Carga da velha Aciaria SM.

promove uma mescla de usos.todos eles de simples elaboração se tornam a comida diária de paulistas. pela dança e no uso comum de objetos (por exemplo: a rede de dormir. então."Muitas vezes. alguns muito simples e de 'pouca leitura'. são chamados os pioneiros da construção da usina de Volta Redonda.maioria esmagadora entre os forasteiros chegados a Volta Redonda . a lingüiça de porco e a couve picada e refogada . propiciado pela convivência forçada de contingentes humanos de diferentes procedências. no lugar da cama. Nos primeiros anos de vida da nova cidade que se forma. transforma-a num cadinho. passa a ser utilizada pelos mineiros. gaúchos. a grande maioria da população volta-redondense obviamente constitui-se de forasteiros.foi rapidamente absorvida pelos demais segmentos forâneos: o angu de fubá. capixabas. costumes e traços culturais que essas pessoas traziam de seus lugares de origem. o tutu de feijão. Mas o intercâmbio cultural. em que se mesclam os traços culturais de diferentes regiões brasileiras. cearenses. tinham uma noção bem nítida da importância da obra que ajudavam a construir. como bons soldados. dos linguajares. usada tanto pelos gaúchos. inclusive. uma missão a cumprir. As trocas culturais processam-se principalmente nos campos da culinária. somente parávamos quando recebíamos ordem para cessar tudo". por absoluta falta de tempo para a pesca. a culinária da colônia mineira . só ocasionalmente o peixe de água doce entra na dieta dos "arigós" . nem nos dávamos conta de que escurecera e a noite já ia alta. Mas. baianos.como. das manifestações folclóricas reproduzidas. da cultura indígena. de quase todos os cantos do País para Volta Redonda. e associavam a relevância da usina de aço com o futuro de seus filhos. e." O afluxo de brasileiros. Nessa época. em razão das péssimas acomodações dos alojamentos de operários). o torresmo. 42 Waldyr Bedê . "Muitos companheiros. a piscosidade do rio Paraíba do Sul é alta e variegada. pernambucanos e mineiros. Acontece que tínhamos um trabalho a realizar. por exemplo. como pelos nordestinos.

no alto. Almoxarifado e Casa de Óleo. o elegante Bairro Laranjal.Volta Redonda na Era Vargas 1945: Gigantes de concreto: Edifícios das Oficinas de manutenção elétrica e mecânica. 43 . À direita.

carpintaria. Rapidamente. 11 Samba deAtaulfoAlves e Mário Lago. Muitos. quando menino . solda elétrica e a oxigênio. as privadas. verminose e anemia. rebatizada como Escola Técnica Pandiá Calógeras . é claro. eletricidade. serralheria. e ceifam muitas vidas. quando viam os prédios aflorando do desmonte das formas de concreto.. Nas poucas horas de folga. os operários. na área denominada "Laminação".consistia em lavar e arear os penicos da família no córrego Secades. Milhares delas vêm juntar-se aos seus pais.a exemplo de muitas crianças do alojamento da "Laminação" .como no verso da canção de Caetano Veloso . de uso coletivo. à noite.até hoje. mais tarde.. fundição. 1943 e 1944.o dos "Ciclopes" chegados a Volta Redonda. naqueles tempos de guerra. muitas vezes.numa alusão.. 4ed. não acreditavam.os "acampamentos" . Nesse quadro. 44 Waldyr Bedê . caldeiraria. como para os adultos.Os edifícios da Usina são erguidos em concreto armado. mesmo trabalhando no local. Edigar de. a CSN passa a construir alojamentos para as famílias. servidas em marmitas levadas ao local através de furgões popularmente conhecidos como "amélias" . Outros simplesmente se dirigem às escolas de alfabetização. E essas primeiras famílias pagam pesado tributo aos sonhos de seus chefes: os alojamentos são precários. F. vale lembrar que os penicos adquirem indispensável serventia. porque não havia vigas de aço disponíveis para a construção civil. As condições de higiene são precárias. portanto. os chuveiros (de água fria) e os tanques de lavar roupa são públicos. nos idos de 1942. "O Carnaval carioca através da música". Rio. Ali. É "um difícil começo" . Alves. em busca do tempo perdido. com mínimas condições de limpeza e higiene. fazem suas refeições no próprio canteiro de obras. uma referência nacional de excelência no ensino técnico industrial. 1980). sem instalações sanitárias e sem água corrente em cada módulo de habitação familial. Os pés descalços naquelas águas poluídas causam muitos casos de tifo. centenas de trabalhadores vão às oficinas da Escola Profissional da CSN. que banhava os fundos daquele núcleo residencial provisório. vitorioso do Carnaval de 1942 (apudALENCAR. Morando num desses barracos. Alojados em barracões de madeira . à heroína do samba "AI QUE SAUDADES DA AMÉLIA11". aprendem os fundamentos de diversos ofícios demandados pela indústria pesada: tornearia. uma das obrigações do autor. mecânica. tanto para os crianças. naqueles primeiros tempos de pioneirismo.

Volta Redonda na Era Vargas Escola Técnica Pandiá Calógeras 45 .

a outra.. (Moreira. as palavras do presidente da República reforçaram a identificação entre 'soldados' e 'operários'. Era uma experiência diferente. 2000) Indagado sobre se os operários tinham.e. no dia 1º de maio de 1942. da Aciaria e da Laminação. o eram... vinte e quatro horas por dia. cumprindo de 12 a 15 horas diárias de serviço. realmente. um "entusiasmo contagiante. relata. cheio de ardor cívico. para eles e para o Brasil. soldados engajados na produção. eu fiz uma jornada de quarenta e oito horas de trabalho. "Mas a participação dos operários da CSN no desfile contribuiria também para reforçar toda uma mística desenvolvida pelo DIP em torno da criação da usina".Um sonho feito de aço e ousadia”. trajando "macacões" de serviço.. envolvia os trabalhadores". “CSN . como se fossem . ainda. Rio. antecipando de certo modo o clima de esforço de guerra e de mobilização que envolveria a construção da usina . À medida que a usina adquiria contornos mais nítidos. quando a Usina começou..Em 1945. Naquela época. com a montagem da Coqueria. "Na ocasião. segundo Isidório Ribeiro. IARTE. do Alto-Forno. enquanto o outro fazia a parte dele. o técnico mecânico Isidório Ribeiro: "Tinham.. para desfilar perante o presidente Vargas. certamente. Eu fazia a parte de uma peça num torno mecânico e o outro companheiro. Um dormia. trabalhávamos. a usina de Volta Redonda encontra-se na fase final de montagem.000 trabalhadores ao Rio de Janeiro.. porque estávamos construindo alguma coisa de positivo. Esse entusiasmo leva uma "brigada" de 2. às vezes.” 46 Waldyr Bedê .." ".. em que os operários trabalham febrilmente. uma noção clara da importância da CSN. Havia no trabalho que fazíamos um amor muito grande pela CSN. e assim nos revezávamos. Regina da L.

Refeitório da Usina." .U. 47 .Volta Redonda na Era Vargas 1944 -Operários almoçando no "R.

. Central: barracões p/famílias dos perários.48 Waldyr Bedê 1942 .Acamp.

Volta Redonda na Era Vargas 49 1945.Vista aérea da Vila Santa Cecília. no meio e o prédio da Laminação. . o velho Escritório Central. no alto. embaixo.

. como o que estamos aqui realizando. aquilo nos dava uma força interior. Quase não havia crime de morte. faltava carne.. Veja que coisa interessante: apesar do mundaréu de gente trabalhando junto e da brutalidade do serviço a ser feito. para suportar mos os problemas. 50 Waldyr Bedê . Trabalhava-se muito e quase não havia tempo para o lazer. uma garra. uma resistência. Aqui ele está plantado. pão. a criminalidade era baixa.]" (MOREIRA.Vivíamos uma época de racionamento: às vezes.. não posso ocultar o meu entusiasmo patriótico e a minha confiança na capacidade dos brasileiros. "Esta cidade industrial será um marco da nossa civilização.]. açúcar. direto.. sem sairmos da Usina. é bem o marco definitivo da emancipação econômica do país.. Então.. aos nossos olhos deslumbrados pelas grandiosas perspectivas de um futuro próximo. o presidente Vargas. um monumento a atestar a capacidade da nossa gente [. desafiando ceticismos e desalentos [.54)." Em 7 de maio de 1943. num discurso laudatório à siderúrgica em construção: "Diante do empreendimento de tamanha magnitude."Quarenta e oito horas. assim se expressa. “O que representam as instalações da usina siderúrgica de Volta Redonda. em visita a Volta Redonda. em cimento e ferro.

Volta Redonda na Era Vargas 51 1942 -Operários de V. Redonda no desfile de 1º de Maio no Rio de Janeiro. .

52 Waldyr Bedê 1944 -Trabalhadores no Pacaembu. S. .Paulo. veja a faixa inferior na foto.

A Aciaria em fase final de montagem.Volta Redonda na Era Vargas 1945. 53 .

54 Waldyr Bedê .

automóveis de luxo.A SOCIEDADE URBANO-INDUSTRIAL DE VOLTA REDONDA A nova sociedade urbana de Volta Redonda: um ensaio de colonialismo cultural A partir de 1946. os Estados Unidos tornam-se nosso maior parceiro comercial. roupas de tecidos sintéticos. quando faltava apenas um ano para que aquela ferrovia revertesse gratuitamente ao patrimônio da União. no caso. inclusive a liberdade de idéias. cimento para a construção de 45 km de pistas duplas da Rodovia Presidente Dutra. por força do término do contrato de concessão. quase um bilhão de dólares (em valores da época) na importação de artigos de consumo supérfluos: uísque. o Partido Comunista é colocado na ilegalidade. então. Volta Redonda na Era Vargas 55 . calçados. fato que acarretaria diversos desdobramentos na vida interna do país: a despeito de a Constituição de 1946 assegurar. formalmente. a temporada de "caça às bruxas". artefatos de matéria plástica (uma grande novidade do pósguerra). a política externa do Brasil se alinha abertamente à orientação dos Estados Unidos. e pagamos a indenização pela desapropriação da Estrada de Ferro Leopoldina. em menos de dois anos. os comunistas e os simpatizantes do marxismo. direitos e garantias individuais ao cidadão. com o que se inaugura. com a eleição do general Dutra para presidente da República. com o qual esbanjamos.

segue-se que crianças brasileiras são batizadas. aos milhares. (Ribeiro. vão mais além do que um mero ou episódico modismo. "Tor na-se obrigatória a copiagem de filmes estrangeiros em laboratórios brasileiros. O hábito de fumar. alavanca de tal forma a indústria nacional de tabaco. "Cyll Farney". com nomes de astros e estrelas do cinema e de personagens que interpretaram. Rio. comentarista político do rádio. Até mesmo um jornalista. semiletrada.a "americanalhização" do Brasil. o "Stanislaw Ponte Preta". exibido com glamour pelos filmes americanos. do mimetismo em relação ao que se torna atraente. açambarcam tradicionais fábricas brasileiras de cigarros e impõem ao consumidor brasileiro marcas norte-americanas.. Pouco depois se reduz esta obrigação à metade para atender à pressão dos exibidores. essa é a mais suave e menos nociva conseqüência desse processo de colonialismo cultural.. Contudo. Volta Redonda não escapa desse abominável processo de colonialismo cultural . como era conhecido nos anos sessenta. Assim. 56 Waldyr Bedê . em cima de uma população inculta. Darcy. nossos artistas de rádio e cinema adotam nomes artísticos americanizados: "Bob Nelson". Exemplificando. "Mister Eco" etc. em termos de influência cultural. 1985) Os efeitos dessa invasão. que multinacionais do ramo. que introduzem no Brasil mais de quinhentos filmes por ano". assina seus artigos com o pseudônimo "Al Neto". "Dick Farney". que são exibidos em mais de três mil cinemas existentes em todo o Brasil. como a "British-American Tobacco Company". "Stella Egg".os filmes de Hollywood. por exemplo. Guanabara. “Aos Trancos e Barrancos”. chegam os artigos da indústria cultural .Juntamente com os bens de consumo que importávamos. elevados royalties. por cuja utilização pagamos. pela força desse poderoso veículo de comunicação de massa que é o cinema. até hoje. na feliz expressão atribuída ao humorista Sérgio Porto. "Blackout".

primeiro cinema de Volta Redonda. o famoso "Poeirinha". 57 .Volta Redonda na Era Vargas 1946 .Cine Santa Cecília.

a língua mais falada em Volta Redonda. deslanchado com a Companhia Siderúrgica Nacional. em face do fornecimento de matérias primas estratégicas aos Aliados e mercê de imensas privações e sacrifícios da população brasileira. manuais e de literatura técnica norte-americana para fazer a usina funcionar. ao longo daquele conflito. concorrem para que. Não obstante o quadro de dificuldades por que o país atravessa. revela um novo Brasil. com a inauguração do Alto-Forno nº 2. Ao ingressarmos na década de cinqüenta. Esse intercâmbio e o fato de que dependíamos de desenhos. o processo de industrialização sistemática do Brasil. planejada. Nesse mesmo ano de 1954. as preciosas reservas em divisas estrangeiras. para o que não dispomos de poupança interna suficiente. ainda nessa mesma década de cinqüenta. por mais de uma década. no Parque Anhangüera. para o treinamento de centenas de técnicos metalúrgicos brasileiros. durante todo o segundo governo de Vargas (1951/1954). o governo Dutra havia esbanjado. 58 Waldyr Bedê . em Volta Redonda. depois do Português. construída e organizada segundo padrões técnicos norte-americanos. que amealháramos durante a Segunda Guerra Mundial. à parte a circunstância da presença. desde o início da construção da usina. em 1954. O setor industrial se diversificara e já oferece um leque de bens de consumo a um mercado interno em expansão. passa a exigir investimentos cada vez mais amplos. e do permanente intercâmbio com a United States Steel Company. Afinal. esquemas. o Inglês se torne. configura o exemplo mais eloqüente da cooperação entre os Estados Unidos e o Brasil. a Exposição do IV Centenário da Cidade de São Paulo.A usina de aço. em um consumismo quase absurdo. de técnicos estadunidenses. a Companhia Siderúrgica Nacional dá prosseguimento às obras de expansão de sua usina de aço. o qual. viria a desfrutar da produção nacional de automóveis e de eletrodomésticos.

Volta Redonda na Era Vargas 1946 . DE VARGAS A GETÚLIO". no Memorial Getúlio Vargas. desenhos de Clécio Penedo e texto de Waldyr Bedê.Os novos "atores" no cenário brasileiro do pós-guerra: artistas de Hoolywood. 59 . artigos de consumo importados dos EEUU e a figura do presidente Dutra ("BRASIL. em Volta Redonda).

com milhares de casas em alvenaria.os chamados "arigós de usina". tudo colocado num "locus" adrede concebido e elaborado na prancheta do arquiteto Atílio Corrêa Lima . 71). A Cidade do Aço já nasce socialmente estratificada: o bairro Laranjal se destina à elite de funcionários da empresa: engenheiros e técnicos especializados. o arquiteto Corrêa Lima apresenta sua "Proposta para o estudo do Plano Regional de Urbanismo para Volta Redonda. para um mínimo de despesa e manutenção. diversos tipos de moradias. ao Major Hélio Macedo Soares. categorias e tipos de habitação. no Vale do Paraíba. para Volta Redonda. escolas.Urbanismo e Utopia em Volta Redonda". área de lazer noutro canto. que variam de acordo com o “status” funcional do empregado. definindo a Cidade Operária da CSN.A Formação Social: cotidiano e mentalidades A Cidade Operária Planejada A partir de 1943. ao redor da Usina de aço.um dos grandes planejadores de Vargas. cit. Ali consta. Segundo Lopes. 60 Waldyr Bedê . campos de esportes. para os trabalhadores em geral . publicado em 2003. tendo em vista o máximo de rendimento e conforto admissível para o caso. "setorializada": área comercial no centro. op. playgrounds. como um dos seus itens de destaque: ". em "A Aventura da Forma . a Vila Santa Cecília. onde será instalada a Usina Siderúrgica". vão invadindo e modificando a bucólica paisagem de laranjais e eucaliptos. para o estamento de chefes intermediários (a quem os operários. Monte Castelo. Jardim Paraíba. pequeno centro comercial. Sessenta e Conforto. água e esgoto" (Lopes. Seu trabalho é minuciosamente relatado e comentado pelo arquiteto Alberto Lopes. Secretário de Viação e Obras Públicas do Estado do Rio de Janeiro. áreas para localização de escolas. chamavam de "arigós de penacho”) e os bairros do Rústico. debochando.Projeto de uma cidade operária tipo. vários bairros. igreja num alto de colina. em 25 de dezembro de 1940.

a fazer imitação de comportamentos de artistas de cinema. os padrões de consumo possíveis. também. política e econômica dos Estados Unidos sobre os vencidos e. Essa estratificação se faz presente nos aspectos mais prosaicos do cotidiano da Cidade: não somente na qualidade da moradia ou na sofisticação do tipo de urbanização do bairro em que se mora. passamos a receber a transferência desses elementos da cultura norte-americana.Paulo. característico da hegemonia militar. que são o orgulho e um sinal de "status" dos seus proprietários. Naquele ano. como costuma ocorrer em um processo de transculturação12 . padrões e valores de uma dada cultura são absorvidos por outra -. 61 Volta Redonda na Era Vargas . Mestre Jou. até. a CSN importa da Inglaterra e revende aos seus empregados as famosas bicicletas "Phillips" e "Raleigh". também. no imediato pós-guerra. ao mesmo tempo em que. como conseqüência natural desse contato.. S. 12 Herskovits. no lazer e no entretenimento. bebidas. cigarros. como também nas relações sociais. Na segunda metade dos anos quarenta. de acordo com o "status" funcional do chefe de família. E. Por exemplo: uma briga dentro de um dos clubes de empregados poderia refletir-se negativamente sobre o futuro profissional dos contendores. 1963.o meio de transporte utilizado pela maioria dos seus habitantes. Enquanto isso. Volta Redonda.. definem-se. a absorver expressões idiomáticas e. sobre seus aliados satélites. na Cidade planejada pela CSN. já é a "Cidade das bicicletas" . Melville. veículos. a hierarquia funcional da empresa se reproduz na organização de uma sociedade local estratificada em "castas". objetos de uso pessoal.em que traços. "O Homem e suas Obras". É um fenômeno típico do pós-guerra.Em meados de 1948. que incluem moda. o rádio e o cinema estabelecem a ligação dessa incipiente sociedade urbano-industrial com as atrações do mundo moderno. em Volta Redonda.

Vila Santa Cecília . .uma rua transversal.62 Waldyr Bedê 1945 .

Ao fundo: Usina. 63 .Volta Redonda na Era Vargas 1942.O Rústico em construção.

protegido. traduzida em uma política social que incluía não apenas medidas de proteção à saúde física e mental do homem brasileiro. mas também de incentivo à sua capacidade produtiva. assim comenta Moreira (op. valendo-se do serviço social e da "Polícia Administrativa" da empresa. junto com a produção de aço de seus fornos. em sua famosa obra "1984": tanto provê.. a satisfação de necessidades básicas como habitação. hígido. saúde e educação. Volta Redonda cumpre um papel fundamental.. A respeito. da ficção criada por George Orwell.A CSN assume o papel do "Grande Irmão". todo o empreendimento tornou-se espelho da ideologia f or jada pelo Estado Novo de valorização do trabalho e de reabilitação do trabalhador nacional.cit. 64 Waldyr Bedê . trabalhador. menos que um cidadão.54): ". acabariam por tornarse pontos primordiais da política estadonovista de proteção ao trabalhador e ao próprio progresso material do país". alimentação. cordial. assim como o amparo à família. soldado da construção do futuro nacional. de um novo homem brasileiro. como vigia e controla a vida dos seus empregados. o ideal anelado pelos teóricos do Estado Novo. mas um súdito do regime. Nesse sentido. ordeiro. ao tentar realizar. amparado e policiado pelo Poder Público.

Volta Redonda na Era Vargas 1946 . 65 .A Polícia da CSN: os "Cabeças de Tomate".

o dessas casas!". O nome ficou. trazido pelos moradores da "Fazenda do Alemão13". hortaliças e legumes. o volume cultivado formava um pequeno excedente. sólidas e espaçosas. eram de péssima qualidade. Até meados dos anos cinqüenta. fabricados. E ali passaram a residir mais de quatro mil pessoas em. os fogões a lenha feitos de chapa em ágata. E. Este último detalhe desencadeou uma verdadeira "febre" de fogões. no sentido leste-oeste.O "Conforto". não havia feira-livre no Conforto. muitos moradores dos barracões provisórios exclamavam: "Mas que conforto. em sua quase totalidade. e criavam galinhas. que somente acontecia aos domingos. suprindo. em boa parte. fornos e fogareiros elétricos. na Vila Santa Cecília. Em compensação. na maioria das casas das trinta ruas transversais. dado o seu elevado custo. que nascem nas proximidades do Escritório Central da CSN. já que não havia desse eletrodoméstico disponível no mercado. nessa época. e dependesse do esterco de gado. confortáveis.. na direção de Barra Mansa. cujos quintais eram bem espaçosos. E à medida que as casas iam sendo erguidas. Ademais. nem energia elétrica. oitocentas residências. que entrava num intercâmbio entre vizinhos. O aluguel era simbólico e os inquilinos não pagavam água. Embora a terra (saibro) não fosse a mais apropriada. praticamente quase toda casa passou a possuir um forno-fogão elétrico improvisado. pelos próprios operários. no centro da Cidade Operária. Assim. a ausência da feira-livre. 13 Tratava-se da fazenda da família Haasis. distantes cerca de cem metros uma da outra. 66 Waldyr Bedê . O Conforto foi construído em frente aos barracões de alojamento das famílias da área da Laminação. passam pelo pioneiro Bairro Rústico e se estendem por aproximadamente dois quilômetros. com chapas que "desapropriavam" do estoque da CSN. aproximadamente. trocado por aves e ovos. as famílias cultivavam frutas. com que a CSN montara as casas.um bairro típico da Cidade Operária A área principal do Bairro do Conforto é formada por duas avenidas paralelas. com jardins e quintais. tampouco existia o gás de cozinha em botijão. para esse tipo de cultivo. na área comercial da Vila Santa Cecília.. distante 4 km a sudeste do Conforto (nota do autor).

no geral. aliás. formaram-se pequenas comunidades. onde. e as ruas 243. muitos deles ainda do cinema mudo. bairro por bairro. de resto. oferecendo assistência religiosa à população. inevitáveis nesse tipo de convivência. Nas vias transversais. formam-se vários pequenos eixos viários. É claro que isso não excluía eventuais problemas de relacionamento e seus conflitos. em sua maioria. em Volta Redonda. atualmente um depósito de uma distribuidora de bebidas. Nossa Senhora da Conceição) e deixam a Cidade Planejada rumo a áreas "livres": as ruas 207 e 209 dão origem ao Bairro São Lucas. As varandas. promoviam-se brincadeiras dançantes e. há um barracão. da professora Araci Guerra Evaristo. aos domingos. funcionou a Escola Tenente Melo Morais. único!) espaço cultural do bairro. No final do Conforto. Aos sábados. que partem da Rua 4 (atualmente. conhecida como "Dona Ceci". as ruas 223 e227 abrem caminho para o Eucaliptal. Essa escola era o grande (e. mobiliadas com mesas e cadeiras de vime. que desenvolvia um árduo trabalho missionário para a Igreja Católica. como na Quatro. funcionava um cinema. que era visitada por ele. com um único projetor de 16mm. a Minerlândia. 245 e 249 rompem os caminhos que irão formar o Morro de São Carlos (inicialmente. tanto na Rua Dois. o Jardim Ponte Alta e a Volta Redonda na Era Vargas 67 . o Bairro 249. missa matutina celebrada pelo padre jesuíta Humberto Dunkel. metal ou madeira.As casas não possuíam grades e seus jardins eram abertos e entremeados de pequenas alamedas. próprios da vida em comunidade. à noite. até meados dos anos cinqüenta. que exibia filmes antigos. entre essas ruas. prevaleciam a amizade e o envolvimento emocional. na direção sul. cujos integrantes estreitavam laços de uma crescente solidariedade vicinal. Av. No Conforto. Contudo. como os seriados de faroeste do Tom Mix. Uma vez por semana. podiam ser vistas por quem passasse pelas calçadas. Morro dos Atrevidos).

e de chapéu de feltro. já que não dispõem de quadras ou galpões para os seus ensaios carnavalescos. cuja área foi posteriormente ocupada pela CSN). em matéria de equipamentos públicos. se encontrarem abandonadas pelo governo municipal e completamente desaparelhadas. Dois deles foram realmente notáveis. 68 Waldyr Bedê . nos seus primeiros anos de vida. que se concretiza no leito da própria rua. sisudo. da Rua 208. sempre havia um líder para colocar ordem nas coisas.Mangueira. ninguém discutia a liderança de Djalma de Assis Mello. de 1968 a 1972. Obviamente. Djalma de Assis Mello foi suplente de vereador. a nordeste da Usina. No entanto. Nesses grotões. constituíram-se comunidades com identidade própria. a principal via do centro comercial da Vila Santa Cecília. embora com o mesmo objetivo: fazer uma escola de samba de bairro desfilar na Rua 14. "Escola de Samba Chico Viola". e suplente e vereador. a despeito de. em "mangas de camisa". que organizava a escola de samba do bairro. contando com a cooperação quase unânime da comunidade local. à ganância dos especuladores imobiliários e à ocupação desordenada do solo. "Seu" Djalma. formam um "espaço" imaginário de lazer. "Escola de Samba Princesa Isabel". com o passar do tempo. em 1960. no entanto. "Unidos de São Lucas". fluía: o carnaval e o futebol seriam os aspectos culturais que lhes permitiriam construir a identidade comunitária de cada grota. acompanhava o desfile de sua escola. do Acampamento Central (um bairro pioneiro. pelas diferenças de temperamento e de métodos de ação. composto de barracos de madeira. contido e discreto. na apresentação principal. em cada comunidade. jamais se fantasiava. e a "Escola de Samba Unidos do Acampamento". No Acampamento Central. sujeitos. A vida. do "Eucalipal" (corruptela popular de "eucaliptal"). como se costumava dizer. caminhando ao lado do grupo. Respeitado na comunidade.

.Volta Redonda na Era Vargas 69 Escola de Samba de Volta Redonda nos anos cinqüenta.

Então. As grotas próximas ao Bairro do Conforto produziram vários times de futebol. que ainda funciona no bairro. entre um e outro gole de pinga.C. "Avenida" e "Santa Cecília". conhecida como "Boca da Cobra" e a segunda. "Imbuhy". com o apoio da antiga FORNASA. de vida mais longa. Alguns "batiam o ponto" diariamente. Rua Fernando Tedesco). de cento e vinte lugares. Jacy de Jesus.”. de existência efêmera. carnavalesco. liderava a "Unidos de São Lucas". "Praianinha" e outras aguardentes menos bebidas. como "Boca da Onça" e do Eucaliptal. outros eram "biriteiros" de fim de semana. não se pode prescindir da deliciosa lembrança de alguns dos seus botequins e freqüentadores habituais. tornaramse alternativas de entretenimento. além do dominó. outros. devidamente fantasiado como "diretor de escola de samba".”. era mais solto. Alguns. discutiam política. que ficavam fora do bairro. na verdade. como o "enjoadíssimo" esquadrão do "Estrela de Ouro F.No Bairro São Lucas. que apenas espaireciam. que se serviam das próprias ruas como raias improvisadas. criado.a primeira. na Comunidade do pequeno Bairro Rústico.C. Ainda acerca da vida nas grotas das Ruas 208 e 249 . futebol e mulheres ou contavam "causos" de sua terra natal. "Paraty". inaugurado na Rua 208 (mais tarde. conhecido e acatado "Pai de Santo". Jacy.C. como o “Industrial E. "Taça de Cristal". bebedores convictos e consumidores fidelíssimos de "Colar de Pérolas". não havia muitas outras opções de lazer.". da dama e dos jogos de cartas. Afora os cinemas "Nove de Abril". no Conforto. enquanto comentavam algum fato acontecido na Usina. também. pais de família. comunicativo e gostava de desfilar. e que funcionou como uma agradável opção de divertimento. eram trabalhadores. responsável pelo despertar do gosto de muitos moradores do bairro pela "Sétima Arte". 70 Waldyr Bedê . uma indústria de tubos de aço. e o aguerrido “América F. da Rua 208. Em sua maioria. junto com o pequeníssimo Cine Marly. os jogos de malha.

na R. 71 .Volta Redonda na Era Vargas 1945 .O Conforto visto do Morro da Viúva. 249.

no Conforto. Sra. atual Av. . Roosevelt desfilando na Rua 4. Na.72 Waldyr Bedê 1967 . da Conceição.Pres.Alunos da E.E.

do bairro do Conforto. pejorativamente. As relações do cotidiano e o paternalismo da CSN A urgência e a determinação com que o Estado Novo. Aos poucos. se atirou ao grande projeto de construção da Usina Siderúrgica de Volta Redonda ficavam patentes na mobilização dos recursos materiais e humanos necessários ao empreendimento. diante daquele a quem chamava.a TV. tentou resistir à concorrência da televisão. em todo o Brasil. de terno e gravata. transformação nos hábitos. assim como na forma de administrá-los: uma mistura de postura autoritária com disciplina de caserna. mas acabou por fechar suas portas. mais tarde.Na segunda metade dos anos cinqüenta. graças ao serviço do "Reembolsável" do Clube de Funcionários da CSN. "arigó de usina". Assim como outros três mil cinemas de todo o Brasil. Essa postura é compreensível Volta Redonda na Era Vargas 73 . o Cine "Marly". Era o começo do fim de uma época. a exemplo do que afirmara McLuhan. a vivência comunitária cedeu lugar ao isolamento de cada qual em seu lar. que se intitulava "funcionário de escritório" e "se dava ares de importância". artífice ou aprendiz -. do burocrata. de "arigó de obra" e. a recepção da imagem de televisão em Volta Redonda começou a produzir uma lenta. que vendia receptores aos milhares. distinguia-se o operário da obra . costumes e comportamento da população . algumas das figuras-chave na execução do empreendimento estatal procediam da caserna e aplicavam seu modo peculiar de tratar as pessoas às relações do cotidiano com os empregados da empresa. em módicas prestações mensais. em que adultos e crianças se aboletam para render tributo ao novo totem recentemente entronizado nos lares . que se desdobrava.não importando se era mestre.como ocorreria. também. na hierarquia dos canteiros de obras e nas quase cem salas dos barracões do provisório Escritório Central da CSN. Mesmo entre esses. de cima a baixo. Ademais. a partir de 1941. que "a televisão produz sua própria cultura". As cadeiras nas calçadas ou nas varandas cedem lugar aos sofás e às poltronas estofadas da sala de estar. mas profunda.

Não obstante o rigor que a Nova Ordem pretendera impor à organização e ao funcionamento da CSN. 14 No jargão típico dessa cultura burocrática. 74 Waldyr Bedê . a forma dessas relações burocráticas traduzia o legado de uma postura rançosa daquela sociedade decadente que. embora em escala incomparavelmente menor com os operários da Usina. quando flagrados pela "Gestapo15" do Departamento de Pessoal. o então Distrito Federal. o Regulamento de Pessoal e outros procedimentos de que a CSN se valia. uma vigarista. 15 GESTAPO: abreviatura de "Geheime Staats Polizei" ("Polícia de Segurança do Estado" da Alemanha nazista) e nome adotado pelos empregados da CSN para designar. essas práticas. na operação de um equipamento. "Maria Candelária". distante 145 km de Volta Redonda. seria facilmente notada e reclamada pela equipe de produção. no Carnaval de 1952. na sua rotina administrativa. sucedia que.. provinham do DASP. para as relações funcionais da empresa. ocorriam com funcionários do Escritório Central. Houve. de fato.. colete e paletó) de lã inglesa. no tocante aos escritórios. constitui uma caricatura do tipo humano representativo dessa cultura burocrática. no Império e na República Velha. a ponto de os homens usarem ternos (calça. de cuja influência Volta Redonda não escapou ilesa. onde uma eventual ausência. pejorativamente. sobrevivera agarrada às benesses do poder oficial. pela Estrada de Ferro Central do Brasil. acompanhara. ainda que parcial. Ainda assim. também. o "vôo" era a ausência temporária do serventuário. É bem verdade que os chamados "vôos14" eram severamente punidos. os fiscais do Departamento de Pessoal. a funcionária classificada na letra "O". o antigo Departamento Administrativo do Serviço Público do governo federal. toda uma cultura típica de repartição pública do Rio de Janeiro. imortalizada pelo cantor "Blecaute". da repartição em que trabalhava. Em grande medida. das práticas do Serviço Público: até mesmo as "Normas de Correspondência e Arquivo". em plena canícula de um país tropical. uma transposição. tipicamente carioca.numa sociedade que atribui enorme valor ao vestuário como indicativo de “status” social.

Volta Redonda na Era Vargas 07/10/1954: Um dia de rotina no velho Escritório Central. 75 .

Em 1946. no interior da Usina. na arrogância contida. o mandonismo típico dos antigos senhores rurais. que justificaria todos os excessos e extrapolaria todos os limites. era uma possibilidade que nenhum chefe sensato descartaria. de viés autoritário. Daí um certo respeito pelo outro. Na "Operação" da Usina. a segunda geração de empregados era certamente mais informada. em tacape. no trato com subalternos. nos serviços de escritório. Essa atitude. repentinamente.Essa cultura incluía. Esse padrão de comportamento.e que ocorria. no dizer dos seus empregados. nas mãos de um "arigó" enfurecido. compreensível para os costumes da época. uma presunção. porque exercido em nome da novíssima "doutrina da segurança nacional". embora também fizesse parte das relações do cotidiano de trabalho. Contudo. ao serem guindadas a posições de chefia . não fosse a recidiva azeitada pelos "Anos de Chumbo" da Ditadura Militar. repleto de palavrões. essa atitude era mais atenuada. o que poderia ser observado. com que as pessoas se revelavam. Ademais. ocuparam todos os postos possíveis e fizeram recrudescer o mandonismo. perduraria quase que somente pelo tempo em que a primeira geração de empregados permanece na Companhia. tornava-se quase que uma regra geral e parecia reproduzir. em especial e com mais intensidade. não raro. Quando chegou a sua vez de entrar em cena. A despeito de tudo. "a Companhia é uma mãe". quando a Usina entrou em funcionamento. o Estado Novo se extinguira com a instalação da democracia formal estabelecida pela Constituição de 1946. descontraído e. os militares ocuparam a estatal. também. Mas o padrão governamental de relações trabalhistas da Ditadura Vargas prosseguia intacto na empresa 76 Waldyr Bedê . um certo "aplomb". pelo linguajar mais solto. mais crítica e menos atávica em relação à CSN. já então mais arrogante. no âmbito inteiramente novo do mundo urbano-industrial. inclusive.mesmo quando no exercício de funções de nível hierárquico inexpressivo . o risco de uma ferramenta transformar-se.

aquele padrão criado pelo Estado Novo. que incluía uma política de assistência social fortemente paternalista. mais tarde. o funcionário ainda poderia adquirir. na Fazenda Santa Cecília: desfrutar do serviço reembolsável para a aquisição de bicicletas e. passando pela instalação. sim. de postos de venda de gêneros alimentícios. Embora dispusesse de uma casa. lingüiças e leitoas. a preços para além de módicos. também. pela farmácia do Hospital da CSN. pela assistência médica pré-natal e materno-infantil. eram flores. a aquisição financiada de ações da CSN pelos seus serventuários. começava na distribuição gratuita de brinquedos aos filhos dos empregados. de aparelhos de televisão. e na de leite no Centro de Puericultura. mudar a cor da pintura externa da sua moradia. a CSN lhe assegurava uma reforma geral. Durante a Segunda Guerra Mundial. ou levar a família para um almoço domingueiro no restaurante do sofisticado Hotel Bela Vista. sem gastar muito e com direito a desconto em folha de pagamento.estatal. pão e açúcar. cujo aluguel era simbólico. com as cores de agrado do inquilino). pelo gerenciamento da distribuição de moradias. e terminando pela administração de conflitos conjugais. Agora. a preços reduzidos. nem trocar uma porta de entrada ou uma simples esquadria de janela. porém. Não obstante isso. Além de tudo. através do SESI (Serviço Social da Indústria). com o racionamento de gêneros essenciais dela decorrentes. aves. sempre com a intervenção mediadora e de aconselhamento de assistentes e visitadoras sociais. Nem tudo. familiares e vicinais. a CSN gerira a distribuição de carne. O "facilitário" da empresa compreendia. o empregado da CSN não poderia. pela assistência médicohospitalar-odontológica. ovos. na época do Natal. Volta Redonda na Era Vargas 77 . com pintura externa e interna (esta. sempre que a estatal decidisse promover o aumento do seu capital. por exemplo.

78 Waldyr Bedê Quatro bairros: Laranjal. acima à esquerda. Cecília. Vila Sta. abaixo. à esquerda e Bairro Sessenta. abaixo à direita. acima à direita. Monte Castelo. .

permutas.. IPTU). conseguiu sensibilizar a diretoria da empresa para a possibilidade de venda das casas aos seus empregados. procurou demonstrar que além da conveniência de manter uma elevada política social empresarial. transformando-se em mais um motivo de sofrimento e sacrifício para os trabalhadores e suas famílias. Monte Castelo. e publicado na revista norte-americana "Seleções". com a decisão da CSN de se desfazer de quase quatro mil imóveis residenciais. ainda. como também se isentaria das despesas de manutenção e do pagamento do antigo Imposto Predial (hoje. cit. a CSN teria consideráveis vantagens financeiras com a alienação daqueles imóveis. da Superintendência de Custos da CSN. de cunho marcadamente liberal e de total ruptura com o paternalismo estatal.Por muitos anos. op. iniciada em 1968. segundo informa. valendo-se de um relato de situação semelhante. ainda.. cit. se livraria. resolvendo-se somente a partir de março de 1973 (Lopes. 171). No final dos anos cinqüenta. as ruas dos bairros operários (Jardim Paraíba. Rústico e Conforto) permaneceram sem pavimentação. que batalhara por uma solução. Alberto Lopes (op. Sessenta. ocorrida numa vila operária de uma empresa norte-americana. O engenheiro Domingos. A questão da venda das casas arrastou-se por toda a década de sessenta. uma carta-sugestão do engenheiro José Domingos de Andrade de Azevedo. tarefas das mais desgastantes dentre os procedimentos paternalistas da empresa. da administração de ocupações. para sempre. Volta Redonda na Era Vargas 79 . Somente as ruas do elegante bairro do Laranjal e as da Vila Santa Cecília eram calçadas com paralelepípedos. não obstante o empenho do Sindicato dos Metalúrgicos. Essa atitude configurava uma nova orientação da empresa. despejos de inquilinos e filas intermináveis de candidatos à moradia. desde 1956. Além do mais. 117). cessões.

Ademais. era masculina. pela vulgaridade machista então reinante. elas já estavam ali para classificá-las. os machistas ficavam boquiabertos com a competência daquela quase uma centena de mulheres fazendo um trabalho tão rápido. na parte do edifício da Laminação destinada à expedição final das folhas de Flandres. no momento em que ela explicava o seu trabalho ao criador de Volta Redonda. não excluía. o que a transforma na mão de obra preferida para a classificação e seleção de folhas de flandres. Essa denominação. garantindo a qualidade das latas produzidas pela CSN. Em sua derradeira visita à Usina de Aço. contudo. o presidente Vargas foi fotografado ao lado de uma Classificadora de Folhas de Flandres. 80 Waldyr Bedê . o elevado respeito que seus colegas de trabalho tributavam a essas mulheres no trato cotidiano. Não obstante sua indispensável presença naquele universo compreensivelmente (para a época) machista. de "viralatas". o mais nobre e mais caro dos produtos siderúrgicos -. reconheciam que a mulher possui uma sensibilidade tátil muito mais apurada do que a masculina.eram chamadas. que nem sempre os olhos humanos acompanhavam.por sinal. Dificilmente algum empregado da Companhia dos anos cinqüenta imaginaria uma mulher trabalhando no interior da Usina que não fosse do setor de Classificação de Folhas de Flandres. elas também eram pioneiras: desde que a primeira chapa saíra do primitivo estanhamento por imersão.sua nomenclatura oficial na CSN . E isso somente porque. As "Classificadoras de Folhas de Flandres" . que hoje leva seu nome. A cena revela um interesse mais do que protocolar do Velho Caudilho pelo serviço que lhe era exibido. pejorativa e de mau gosto. Rendidos a essa constatação. a despeito do nome feminino. A Usina da CSN. as áreas de trabalho e de circulação da mulher eram restritas e situadas no extremo oeste da Usina. um termo a que reagiam com justificada indignação. em outras usinas que produziam esse artigo .Breve notícia sobre o trabalho feminino na Usina de Aço.

Esportes. responsabilizando-se pela construção da cidade que surgia ao redor da usina e que. Volta Redonda na Era Vargas 81 . Nessa época. E agora?" Amante dos esportes. assim se referiu à gestão do general Raulino: "Seu trabalho ultrapassou os simples limites da fábrica. foi instituída a "Girafa". como: futebol. recebeu grandes clubes do Brasil. Atlético Mineiro e Tupy de Juiz de Fora. como: Botafogo. O estádio que leva seu nome. A CSN começa a abastecer de trilhos o parque ferroviário nacional Inauguração do Hospital da CSN. Vasco da Gama. comemorativo do cinqüentenário da CSN. corridas a pé e de bicicletas. lazer e entretenimento A CSN cresceu sob a presidência do general Sylvio Raulino de Oliveira. que a administrou por nove anos. de abril de 1991. Em sua gestão. ainda sob sua gestão. São Paulo. de 1945 a 1954. Em sua administração. Promoveu a construção de moradias e toda a infraestrutura de serviços. Inauguração dos Altos-Fornos 1 e 2. passa de 12 mil para 40 mil habitantes. jornais do Rio e São Paulo estamparam publicidade como a de uma empresa imobiliária que anunciava: 'Você também não acreditava em Volta Redonda. com 140 leitos. Flamengo. Usina opera a plena carga. Raulino prestigiava todas as promoções de eventos esportivos. sendo a CSN pioneira na adoção desta medida no país. participação dos empregados nos lucros da empresa. pela sua instalação. Construção e inauguração do Recreio de Trabalhador e do Estádio Sylvio Raulino. O periódico "Nove de Abril". vôlei. o Brasil reduz drasticamente as importações de aço. basquete. Fluminense.

Raulino mostra a Vargas uma máquina na área da Laminação. 82 Waldyr Bedê .1954 .O gen.

1956 . num torneio de voleibol no Clube Umuarama. à direita.Gen Raulino. Volta Redonda na Era Vargas 83 .

a Superintendência de Serviços Sociais da CSN promovia a vinda de algum espetáculo teatral do Rio de Janeiro. entre elas: Osório Leme Monteiro. acolheu a mundialmente famosa equipe de basquete do "Harlem Globe Trotters". Especificamente no basquetebol. No decorrer dos anos cinqüenta e. fazendo com que o basquetebol de Volta Redonda alcançasse renome nacional. com ênfase ao futebol amador e ao basquetebol. em 1954. Paralelamente. também promovia a vinda de peças teatrais do Rio de Janeiro. Benevenuto dos Santos Neto e Gilson Carraro de Paula. fora os cinemas e as eventuais competições esportivas amadoras. nos anos cinqüenta e sessenta. Adolfo Celli e Paulo Autran. de forma altamente produtiva. a realização dos objetivos da empresa. É bem verdade que. que levou uma multidão ao ginásio poliesportivo do Recreio do Trabalhador.Grêmio Artístico e Cultural Edmundo de Macedo Soares e Silva -.um órgão normativo que mereceu considerável apoio da CSN e promoveu. foram promovidas pela Liga de Desportos de Volta Redonda . ainda. químico. o GACEMSS . de origem paulista. realizava recitais e concertos de música erudita para a sua seleta clientela. tendo funcionários da CSN como sócios. de vôlei e de basquete. por boa parte da década seguinte. no campo dos esportes. com os astros Tônia Carrero. com a Companhia Tonia-Celli-Autran. que se notabilizou como atleta. de natação. avulta o nome de Libiano Abiatti. técnico e dirigente dessa modalidade. na Cidade. já que. Muitas figuras categorizadas da hierarquia funcional da empresa destacaram-se na gestão da LDVR. e ainda produzia 84 Waldyr Bedê . Além disso.O Recreio do Trabalhador "Getúlio Vargas". vez por outra. não havia aonde ir. como foi o caso da peça "Um Deus Dormiu Lá em Casa". muitas competições atléticas. como "Natal na Praça". em busca de distração. um complexo esportivo magnífico para a época. em matéria de lazer e entretenimento. que aqui jogou contra uma seleção do Hawaii. com Paulo Goulart e Nicette Bruno. muitos moradores de Volta Redonda queixavam-se da falta de opções.

o GACEMSS apresentava as sessões do seu Cinema de Arte. essas alternativas. com equipamento de 16mm. Nas noites de sábado. não alcançavam a população. de mascates. exceto a bem montada Biblioteca da CSN. com expoentes como Maria Thereza Dutra Ponchio e Roberto Sanchez. Volta Redonda na Era Vargas 85 . Por muitos anos e graças à sua excelente localização. no centro da Cidade. cujo sucesso mais estrondoso foi "O Tempo e os Conways". desenvolvia-se um comércio livreiro informal. esses mercadores da cultura transitavam livremente. montou e dirigiu vários espetáculos teatrais de muito boa qualidade. sem dúvida. no Escritório Central. que traziam livros do Rio de Janeiro e de São Paulo. Benedito Amaral de Matos. Não obstante. Instituto de Educação Professor Manuel Marinho). foi. Contudo.Escola Técnica Pandiá Calógeras . o auditório do Grupo Escolar Trajano de Medeiros tornou-se um dos mais concorridos espaços culturais de que se dispunha. em viagens mensais. que produziu. Nos antigos barracões do velho Escritório Central da CSN. onde se vendia de tudo (de doces em conserva a roupas "prêt-à-porter"). o Instituto de Educação Professor Manuel Marinho o mantém em funcionamento. não havia bibliotecas públicas nem livrarias em Volta Redonda. entregando suas encomendas periódicas de livros aos assinantes da então famosa "Coleção Saraiva". prestando um relevante serviço à população. em Volta Redonda. Hoje. no auditório da EPTC . Um dos pioneiros e grandes responsáveis pelo desenvolvimento do teatro amador. Essa iniciativa garantia o acesso aos clássicos da Literatura a um bom número de empregados da empresa. sempre com excelentes filmes. No começo dos anos cinqüenta. restringindo-se a um público específico de associados.um bom teatro amador. Ambas as peças foram realizadas no auditório do extinto Grupo Escolar "Trajano de Medeiros" (atualmente. face às limitadas condições de espaço e de divulgação.

86 Antigo colégio Trajano de Medeiros. hoje colégio Manoel Marinho (19/10/1945) Waldyr Bedê .

Volta Redonda na Era Vargas 1944 .Biblioteca da CSN no antigo Escritório Central. 87 .

no Acampamento Central. química. Na área privada. mais tarde. o pioneiro Hotel Bela Vista. seu espaço. que atendia a um segmento dessa mesma categoria. perto do velho Escritório Central. e. que promovia programas de calouros.A CSN mantinha uma notável biblioteca. sob a direção do jornalista Nazer Feres Themes. mineralogia. também. depois cognominado o "Coroa Barra Limpa". destinado à elite de empregados da empresa e suas famílias. que possuía. num e noutro. energia. no salão do Aero Clube de Volta Redonda. Os bailes de cunho popular aconteciam no Salão do antigo Refeitório dos Engenheiros (o "R. de valorização da música popular brasileira. O artista mais popular. Antônio Marques. em assuntos de interesse específico da empresa: siderurgia. no Conforto e. durante o Carnaval. que o antigo Círculo Operário de Volta Redonda. por uma programação de bom gosto.E". a Rádio Siderúrgica caracterizouse. desde o seu início. 88 Waldyr Bedê . e com a valorização da educação e da cultura. sem prejuízo da música clássica. o Clube Náutico Recreativo Santa Cecília. pouco tempo depois. mecânica. nos esquetes e nas domingueiras dançantes. como era chamado). economia. cedia os seus salões para os bailes do Clube dos Funcionários da CSN. seguindo-se o Clube Umuarama. o GACEMSS começava a desenvolver uma biblioteca para uso dos seus associados. especializada. custos. todavia. nas peças de teatro. passam a proporcionar aos trabalhadores e suas famílias. Um aspecto cultural expressivo consistiu na inauguração e funcionamento da Rádio Siderúrgica Nacional. Nos anos cinqüenta. era um veterano servidor da CSN. arquitetura etc. atualmente arrendado à cadeia Luxor de hotéis. shows e muitas brincadeiras de auditório. engenharia. O entretenimento e o lazer tinham suas versões populares nos “shows”. Embora se tratasse de uma emissora a serviço exclusivo de uma empresa industrial.

Rádio Siderúrgica Nacional.Volta Redonda na Era Vargas Equipe de rádio-show da ZYP-26 . 89 .

.O antigo "R.".E. Refeitório dos Engenheiros.90 Waldyr Bedê 1942 .

afixavam-se avisos com esta advertência: "A mulher vestida de homem é abominável aos olhos de Deus"). A prostituição feminina em Volta Redonda desenvolveu-se com a primeira expansão da Usina. poeira e barulho). aliada a condições de insalubridade e de poluição (com óleos. eram poucas as mulheres que ousavam vestir uma calça comprida (por exemplo: nas portas dos templos católicos. independentemente de seus estamentos. fora da área urbana da CSN. ao mesmo tempo em que o volume de trabalho das assistentes e visitadoras sociais se multiplicava. naquela península do Extremo Oriente. de 1950 a 1952. as suas condições mentais e emocionais. No cotidiano. onde se destacavam os "points" dessa especialidade: o Hotel São Paulo e a boate da Neném. Essa rotina. em meados dos anos cinqüenta. Ainda assim. As dispensas médicas cresciam em números preocupantes. tratava-se de uma zona de baixo meretrício. no sistema de revesamento de turnos para jornadas de oito horas (0/8h. já existissem contraceptivos como a camisinha. com todos os riscos que daí resultavam. Para os homens. no extremo leste da Cidade. numa alusão à guerra travada. com relação a valores e sanções sociais. 8/ 16h e 16/24h) diárias de serviço. seu uso era pouco disseminado. gases. principalmente nas camadas sociais mais pobres. como o da virgindade das mulheres até o casamento. bem como a tabus culturais. marcada por constante violência e por uma freqüência da pior espécie. mantinha um caráter conservador. passou a atingir. antes do casamento. Nos anos cinqüenta. também. o que fazia da vida sexual feminina. Volta Redonda na Era Vargas 91 . em razão dos desajustamentos conjugais e familiares. Embora. no local conhecido como "Coréia". situadas em Barra Mansa. além de afetar a saúde física do trabalhor.As transformações sócio-culturais A sociedade de Volta Redonda. uma exceção. a rotina estressante do trabalho na Usina. começou a produzir seus estragos. a alternativa concentrava-se nas visitas periódicas às casas de tolerância.

Eles não estão apenas disputando fatias de uma numerosa clientela: ambos assinalam. novos valores. Não massacrada. em pouco tempo. a partir. já indicava. o elevado consumo de bebidas alcoólicas. ouvidos pelo autor. a presença de uma sociedade repleta de doentes. como a nossa. seria suficiente para constatar a impressionante quantidade de bares e botequins em funcionamento na Cidade. como se sabe. circunstância que. de necessidades artificialmente criadas . apresentava. desejos e ambições que a emulam e a tocam para frente. agregou àquelas necessidades o mais sedutor objeto de desejo da maioria das pessoas: o automóvel. O advento dos "Anos Dourados". ao longo dos anos. dos tempos de Juscelino Kubistchek. sempre plausível. ao final dos anos cinqüenta. vive de anseios.como se verifica no sistema capitalista. que se teria acumulado. Obviamente. mas carregam consigo a contrapartida das frustrações pela eventualidade. chegando mesmo a desagregar algumas delas. de objetivos e metas não alcançados. e até mensurado. Grosso modo. 92 Waldyr Bedê . de caráter urbano-industrial. transformou o comércio de distribuição de bebidas numa das mais prósperas atividades econômicas do Município. aspirações. O resultado disso tudo pode ser constatado. em cujos corredores se amontoam médicos de todas as especialidades. ao nosso "homo volta-redondensis". mas não necessariamente de doenças segundo a abalizada opinião de vários médicos da Cidade.Um simples passeio pelos bairros de Volta Redonda. Haveria uma carga de desajuste psicossocial. onde o leitor verificará a profusão de clínicas e de consultórios. ao centro da Cidade. típicos de uma sociedade de consumo. que dispensaria qualquer preocupação com pesquisa no cadastro de firmas da Prefeitura. e que afetou a vida de muitas famílias. a existência de uma sociedade enferma. uma sociedade de consumo. associado ao uso massivo de tranqüilizantes e de outras drogas. com toda a intensidade. hoje em dia. além de psicólogos e terapeutas. mas fortemente pressionada por um novo tipo de vida: essa nova sociedade. por um outro simples passeio.

Nem por isso. nem arrancaram tábuas das formas de concreto dos grandes edifícios construídos na Usina. seria menos vulnerável aos efeitos negativos das demandas e do jogo jogado por esse tipo de sociedade de consumo. Esse novo trabalhador receberia uma longa e bem cuidada formação profissional.Ao final dos anos cinqüenta. Volta Redonda na Era Vargas 93 . se tornaria mais crítico com respeito a sua vida profissional e com relação a essa nova sociedade urbano-industrial de que fazia parte. Embora sob forte influência paterna. Sua relação com a Companhia era menos emocional e mais prática. essa geração não alimentava um vínculo com a empresa semelhante àquele até então mantido pelos seus pais. mas não puseram os pés no barro. É claro que esses jovens ostentavam um grande orgulho em trabalhar na CSN. entrava em atividade a segunda geração de trabalhadores da Usina de Volta Redonda. Por conseguinte. seria mais letrado e disporia de muito mais informação do que a geração que o precedera.

94 Waldyr Bedê .

A insatisfação crescia ainda mais. sobretudo. tão ou mais importante do que a luta aberta travada no plenário da Assembléia Legislativa fluminense. culturais e comportamentais de outros personagens da história da Cidade: os homens e mulheres comuns que a construíram.A EMANCIPAÇÃO POLÍTICA DE VOLTA REDONDA A abordagem detalhada dos lances que movimentaram o processo de emancipação política de Volta Redonda não constitui objeto prioritário desta obra. com a pobreza das verbas que lhe eram destinadas para eventuais benfeitorias e obras públicas. Estavam motivados. Retiro. onde se faziam mínimos os investimentos de interesse público que o Município de Barra Mansa deveria realizar. Santa Rita e São João permaneciam abandonados. saneamento básico ou iluminação pública. então. Desde o início dos anos cinqüenta. as relações sociais. Os poucos bairros existentes. mantidos pelo Estado do Rio de Janeiro. Volta Redonda na Era Vargas 95 . pelo descaso a que vinha sendo relegado o antigo 8º Distrito. sem calçamento. autor da lei de autonomia municipal de Volta Redonda. As escolas resumiam-se nos excelentes Grupos Escolares "Barão de Mauá" e "Trajano de Medeiros" (hoje. quando se comparava o volume dos tributos arrecadados em Volta Redonda. cujo escopo abrange a formação social. Mas que fique. o cotidiano. como Niterói. Instituto de Educação "Professor Manuel Marinho"). em que pontifica a figura do então deputado Vasconcelos Torres. No processo da emancipação política de Volta Redonda. no transcurso do Qüinquagésimo Aniversário do Município. foi o trabalho realizado nos bastidores. alguns políticos locais já discutiam a idéia da emancipação de Volta Redonda. este breve registro da emancipação política de Volta Redonda. por força de sua pujança industrial.

96 Waldyr Bedê Colégio Barão de Mauá .

embora membro da Maçonaria. Celso Fortes de Castro. funcionário da CSN. médico e subdelegado de polícia do Distrito. funcionário da CSN. Nery Miglioli. Sinval Santos. Edmundo Rodrigues Campello e Carlos Soares Maia. o segundo Sylvio fora vencedor do 1º concurso nacional de filatelia para a escolha do selo comemorativo do Plano de Expansão da CSN para 1 milhão de toneladas de aço. jornalista. Miguel Fonseca Rêgo. O primeiro participava ativamente da vida política de Volta Redonda. O segundo. José Botelho de Athayde. Wilson de Paiva (depois vice-prefeito de Volta Redonda). membro ativo da Maçonaria e. Chefe da Coletoria Estadual em Volta Redonda. ambos desenhistas. Mario Ferreira Netto. Wladyr de Castro Ferraz. Jayme de Sousa Martins (notável educador). juiz de paz em Volta Redonda. é criado o Centro Cívico Pró-Emancipação Política de Volta Redonda. um dedicado filatelista e um dos fundadores do Clube Foto-filatélico-numismático de Volta Redonda). Alkindar Cândido da Costa. levava uma vida social muito discreta. Volta Redonda na Era Vargas 97 .fonte bibliográfica obrigatória para os pesquisadores da história da Cidade do Aço . político. comerciante. despachante oficial.Em 1952. jornalista. Genolfo Afonso. Adauto de Oliveira. funcionário da CSN. músico e compositor (autor da música do Hino Oficial de Volta Redonda). Sávio de Almeida Gama (primeiro prefeito de Volta Redonda). poeta e genealogista. José de Paiva Laffitte cujo nome quase sempre é omitido como um dos obreiros da Emancipação -. Jamil Wadih Ryskalla. Norival de Freitas. Heitor Leite Franco. cujos nomes a história deve honrar: Lucas Evangelista Teixeira Franco. João Paulo Pio de Abreu. O segundo Sylvio era. funcionário da CSN. em 1954. Sebastião Rufino Köeller. advogado e professor de história. com esse nome. Sylvio Fernandes de Oliveira. Aristoclides Ribeiro (conhecido como o "Ary da Farmácia"). mais tarde. com a participação entusiástica de vários cidadãos. também. Contudo. em "Volta Redonda: Ontem e Hoje" . César Candido de Lemos (segundo prefeito de Volta Redonda). poeta e autor da letra do Hino Oficial de Volta Redonda (havia dois funcionários na CSN. Orsina Prado de Castro (primeira mulher eleita à Câmara Municipal de Volta Redonda).inclui os nomes de: José Lino Solares Gomes. seu colega e sucessor nessa repartição pública. Eduardo Dutra de Morais.

.98 Waldyr Bedê 1954 . recebe os cumprimentos de Sylvestre Mesquita Rezende por sua vitória no concurso filatélico nacional dos Correios sobre a expansão da CSN.Sylvio Fernandes de Oliveira. à direita.

Eng. Coletor Estadual. Assessor do prefeito. 99 . Da esquerda p/direita: o médico Dr. Jayme de Souza Martins. 2ª fila: Álvaro Guedes. gerente do Cine Avenida. Wilson de Paiva. 3ª fila: Prof. mais tarde. Lúcio de Andrade. Os três últimos seriam eleitos vereadores. Agente do IAPI.Volta Redonda na Era Vargas 1957: Sessão da Câmara Municipal. Dermeval Pereira da Silva. da Fornasa e Paulo de Carvalho da White Martins. o Zico. José Marques Simões. e Guilherme Duque Koslovsky. presidente do PTB. Gutemberg Perrone. vice-prefeito. Arnaldo Corrêa. Miguel Fonseca Rêgo.

fumando um cigarro atrás do outro . a bem dizer. que produziram a Independência do Brasil. Gonçalves Ledo. então. trabalhou na Seção de Custo das Balanças da CSN.A Maçonaria . Todavia. Apelidado. José Bonifácio de Andrada. de "Barão". hirsuto. carinhosamente. objetivando divulgar a luta pela 16 O autor. Pedro I . mediante um labor infatigável./ que uma flor está nascendo:/ é o sorriso que vem vindo/ alegrar o meu Finados". ainda adolescente. 100 Waldyr Bedê 17 . entre 1953 e 1955. na história da campanha emancipacionista de Volta Redonda. Responsável pela Seção de Custo das Balanças (rodoviárias e ferroviárias) da CSN16. José de San Martin. verdadeira for miga. As confidências. aquele homem de baixa estatura. como: Thomas Jefferson. Bernardo O'Higgins. decisiva. na seda/ e no perfume. no corre-corre do seu trabalho burocrático. Athayde foi um poeta de fina sensibilidade. tudo que bendigo.vive. cujas extensão e profundidade dificilmente serão de todo divulgadas. foi José Botelho de Athayde. em que despontam figuras ilustres dessa fraternidade. que fizeram a roda da fortuna girar a favor do novo município a ser criado. entre uma e outra tarefa de um setor de serviços muito movimentado.sempre envolvida nas lutas libertárias em todo o Mundo. diretamente com José Botelho de Athayde. Benjamin Franklin. amigo/ por estas sombrias alamedas. pelos seus colegas./Repara. como mensageiro de escritório. compor um poema 17 ou simplesmente diagramar o tablóide que ele criara . no âmbito da Maçonaria. D. a fim de alinhavar um artigo. nas campanhas de independência das colônias européias das Américas. um de seus quadros mais atuantes. Simón Bolívar. seu grande papel e sua participação. que produzia beleza até mesmo com temas tristes.. à Groucho Marx. chamado "Astória". como é o caso do seu poema "Finados": "Caminhai.um destronca-peitos fortíssimo. por causa de suas meticulosas pesquisas genealógicas sobre as famílias fluminenses./ Aqui amortalhei. . devagar. em especial.. em 1822. A maioria dos nomes já citados neste capítulo compunha seu rol de "pedreiros livres". de cabelo liso gomalinado e bigode espesso.o "Revérbero Autonomista Volta-redondense" -. pareciam fazer reviver a efervescência dos debates e das conspirações maçônicas. Athayde tornou-se um batalhador incansável da causa da Emancipação. nestes paus cruzados. os conciliábulos e as negociações que envolviam as figuras volta-redondenses mais preeminentes. sempre encontrava uma nesga de tempo.

com corredores avarandados. aliás. pulgas e até cobras. comparecendo a sessões da Câmara Municipal de Barra Mansa. o desempenho parlamentar de Jamil Ryskalla. Mas foi com ele que José Botelho de Athayde contribuiu para construir a emancipação políticoadministrativa de Volta Redonda. mas barulhento jornal. que defendera a independência do Brasil. a exemplo do seu antecessor. Uma das funções deste historiador consistia em levar a matéria elaborada por Athayde para uma gráfica. baratas. O Dr. em 1821 e 1822 -. Volta Redonda na Era Vargas 101 . na defesa da emancipação do Distrito de Volta Redonda. quando estreou na vereança. teve vida efêmera. um tribuno dos mais brilhantes. cumpria-lhe a missão de distribuir o tablóide pelas dezenas de salas do primeiro grande Escritório Central da CSN . onde era impresso o pequeno.emancipação da Cidade do Aço. Ryskalla é o único dos Emancipadores que ainda está vivo e pôde participar das recentes comemorações do cinqüentenário do Município de Volta Redonda. este autor pôde testemunhar. escorpiões. Adolescente ainda.um Labirinto de Creta. Outra figura notável da campanha foi o advogado Jamil Wadih Ryskalla. e se viu no meio do furacão. Depois. que se licenciara "por motivo de saúde". cujos porões constituíam imenso repositório de ratos. Eleito suplente de vereador à Câmara Municipal de Barra Mansa. O "Revérbero Autonomista Volta-redondense . aranhas caranguejeiras.cujo nome fora inspirado a Athayde pelo valente jornal "Revérbero Constitucional Fluminense". Ryskalla assumiu o mandato em face do afastamento temporário de Bernardo Bemfeito. justo quando se fazia mais acesa a discussão da autonomia política de Volta Redonda. feito de intermináveis barracões de madeira. de Joaquim Gonçalves Ledo e Januário da Cunha Barbosa. em Barra Mansa.

elege-se prefeito da Cidade. Sávio Gama conta com a assessoria do contador Olívio José dos Santos. em 1966. Realiza uma administração admirável.Em 1955. inaugura-se o Município de Volta Redonda e Sávio Gama. e do professor Jayme de Souza Martins. e deixa ao seu sucessor uma prefeitura completamente organizada. 102 Waldyr Bedê . empresário e fazendeiro. no gabinete político. não obstante as enormes dificuldades com que se depara. na árdua tarefa de estruturar. no Departamento de Fazenda. no recéminaugurado Palácio "Dezessete de Julho". A competência demonstrada em sua primeira gestão iria assegurar-lhe um segundo mandato como prefeito de Volta Redonda. organizar e fazer funcionar os serviços municipais.

representando o Estado) e o que o autor chama de"homo volta-redondensis" (uma encarnação do novo homem brasileiro idealizado pelo Estado Novo). descartadas. Os primeiros momentos do Sindicato dos Metalúrgicos Cabe. A tutela do Estado sobre o sindicato produz a figura do "pelego" sindical . desde a época do Estado Novo. durante o Estado Novo. É fato por demais estudado que o sindicalismo brasileiro. o pretenso agente da conciliação entre o Capital e o Trabalho . fazer o resgate e a análise . Volta Redonda na Era Vargas 103 . antigo dirigente do sindicalismo brasileiro. calcada em "slogans" .os "cristais" .. segundo a definição de Campista18..necessária para a compreensão daquele momento histórico . torna-se um apêndice do Ministério do Trabalho e uma ponta de lança da realização da ideologia do regime.mais do que em idéias. neste ponto."um feltro entre cristais". . no período compreendido entre 1945(fundação do Sindicato dos Metalúrgicos) e 1964(ano do golpe militar e da intervenção do Sindicato pela Ditadura Militar). O pelego "clássico" seria o promotor.A LUTA SINDICAL DOS METALÚRGICOS EM VOLTA REDONDA. embora estas não estejam. de todo.da atuação das lideranças sindicais nas relações entre o empreendimento industrial (neste contexto.do tipo "pela paz social no Brasil". Ary.sob a égide do 18 Campista.

cujo líder. por não haver reivindicação de monta a demandar maior mobilização da categoria. o general Sylvio Raulino de Oliveira. Esse comportamento conciliador é tolerado pelos trabalhadores.com o apoio integral do Ministério do Trabalho.muitos dos quais vinculados ao Partido Trabalhista Brasileiro -. como o já citado "feltro entre cristais" ou um pelego de pano colocado entre a montaria e a sela. Walter Millen da Silva e Wôlmer de Andrade. pois consideram dever lealdade à CSN e proteção ao patrimônio da empresa. mesmo descartando-se. com o intuito de desestabilizar o governo de Vargas . a Oposição vence as eleições sindicais. Alan Cruz. empreendem a conquista de uma série de direitos trabalhistas que não vinham sendo cumpridos pela empresa . com uma chapa de composição ideologicamente esdrúxula. e por dois socialistas: José Bonifácio de Castro e Nestor Lima. mais tarde.não militam nas hostes da esquerda. Todavia. Alan Cruz. Todavia. Sua gestão. a Oposição. Em Volta Redonda. liderada por um ex-integralista. Seu sucessor. Todavia. na Fazenda Santa Cecília. os fundadores do Sindicato dos Metalúrgicos sob a liderança de José Vigilato Peixoto e José Calaça Gomes . em 1955. refletindo o descontentamento generalizado da categoria. com uma política conciliatória.artificialmente inflada pelos donos dos meios de produção.Estado. com o qual negocia as pendências trabalhistas. não consegue manter-se na liderança da classe.. interpondo-se entre a empresa e os trabalhadores que representa. durante algum tempo. Walter Millen da Silva. no segundo governo de Vargas. sendo derrotada nas eleições sindicais de 1957 por um grupo de militantes sindicais . para não machucar o lombo do animal. é de corte populista. Othon Reis Fernandes. prossegue na direção do Sindicato. com a qual mantêm uma relação de criador com a criatura. pela primeira vez. A carestia do custo de vida . os veteranos ainda estão trabalhando na Usina. José Cláudio Alves.. a inflação já corrói os salários e as vantagens anteriormente conquistadas. jamais cria qualquer embaraço à Siderúrgica. abandona a CSN e a militância. que o torna habitué da residência do então presidente da CSN. 104 Waldyr Bedê . cujo domínio sobre os sindicatos brasileiros estende-se para além do fim do Estado Novo (1945) e encontra o seu ocaso com a ascensão das esquerdas à liderança do movimento sindical.produz um descontentamento geral em todo o país. Em 1953. de caráter marcadamente conciliador. posteriormente aquinhoado com um cartório. no segundo governo de Vargas (1951/1954). Assim. à frente do Sindicato. que integram a então denominada "Chapa Independência". de José Cláudio Alves e impondo uma direção exclusivamente de esquerda ao Sindicato. os dirigentes que se lhes seguem.

Superintendente de Serviços Sociais da CSN. Da esquerda para a direita: Paulo Mendes. reunidos no velho Escritório Central da empresa.CSN e Sindicato em conversações. Wôlmer de Andrade e Walter Millen da Silva. José Pereira. 105 . e Ferdinando Garcia Pereira.Volta Redonda na Era Vargas 1954 . diretores do Sindicato dos Metalúrgicos. Diretor da CSN.

os desempregados voltam-se para a Volta Redonda "velha" . além de cinco dos seus mais novos e importantes estabelecimentos de ensino: o Colégio Macedo Soares. erguem uma nova cidade.Por uma ideologia que lhes foi imposta. ingressa na empresa.considera ilegal qualquer movimento de paralisação do trabalho no serviço público e nas empresas estatais. Com o Alto-Forno nº 2. já não mais a de criador com a criatura. no decurso dessa década.como era chamada a parte da Vila de Santo Antônio. administrado pelos padres Agostinianos Recoletos. o Colégio Nossa Senhora do Rosário.o Decreto-lei nº 9. de filhos dos veteranos ciclopes. inúmeros equipamentos sociais.070 . em pequenas oficinas ou abrem suas próprias firmas.que muitos entendem como uma aventura irresponsável à parte o fato irretorquível de que um dispositivo supostamente legal. sujeitando o infrator à demissão por justa causa.que norteará suas relações com a Siderúrgica. Na margem esquerda do rio Paraíba do Sul. administrado pela irmandade das "Escravas Concepcionistas do Sagrado Coração de Jesus". a CSN inicia uma nova fase de expansão de seu parque produtivo. do Círculo de Trabalhadores Cristãos... o magnífico Cine Nove de Abril. uma nova geração de trabalhadores. e por inaugurar. um complexo desportivo denominado "Recreio do Trabalhador Getúlio Vargas". o Instituto Batista 106 Waldyr Bedê . a uma greve . também. Sem poder ocupar as moradias da empresa.. conquistada em 17 de julho de 1954. a Cidade de Volta Redonda. como o Hospital da CSN (atualmente privatizado). o Palácio "17 de Julho" (sede da Prefeitura Municipal de Volta Redonda).diferente daquela de origem paterna . em anos de autoritarismo. o Estádio General Sylvio Raulino de Oliveira. ao lado do qual cresce. fora dos limites da Cidade Industrial. do tempo do Estado Novo . trazendo uma nova mentalidade . embalada pela autonomia administrativa. passam a trabalhar em empreiteiras que servem à Siderúrgica.. Logo que a CSN entra em funcionamento e seu quadro de empregados se estabiliza. Não muito tempo depois. em 1954. tornam-se avessos a uma liderança que possa conduzi-los. parte do contingente de trabalhadores dispensados da obra de construção da usina permanece em Volta Redonda. o Colégio Paulo Monteiro Mendes. por exemplo.

Americano, mantido pela Igreja Batista Central e a Escola Estadual Presidente Roosevelt. Os dois primeiros colégios citados foram construídos pela Companhia Siderúrgica Nacional, aparentemente para os filhos dos seus empregados, mas, na verdade, destinados às crianças da elite da empresa, cabendo à Escola Técnica Pandiá Calógeras - que logo se tornaria uma referência nacional em matéria de ensino técnico-industrial -, erguida e sustentada pela CSN, com verbas da contribuição social devida ao SENAI, a missão de absorver os filhos dos trabalhadores em geral, com vistas à reposição do contingente de reserva de mão-de-obra qualificada. Todavia, parece que ninguém informou aos jovens volta-redondenses essas intenções: em pouquíssimo tempo, crianças procedentes de escolas primárias da rede pública - que, àquela época, possuíam um ensino de muito bom nível - acabaram conquistando o seu próprio espaço nessas instituições privadas, apoiadas pelos pais, que não mediam esforços, visando a proporcionar um ensino médio de qualidade para seus filhos. Por outro lado, muitos jovens, originários das classes média e alta, procuram a Escola Técnica Pandiá Calógeras, em busca de uma formação que lhes abrisse o rumo para a área das tecnologias industriais. Em suma, eram os novos volta-redondenses, filhos e netos dos ciclopes, que agora abriam o seu próprio caminho, à revelia das projeções dos planejadores da CSN...

A hegemonia da "Chapa Independência" (1957-1963)
Nos chamados "Anos Dourados", do presidente Juscelino Kubistchek de Oliveira, no qüinqüênio do desenvolvimento, Volta Redonda transforma-se em vitrine de uma nova sociedade brasileira, urbano-industrial, que adquire novos e diversificados padrões de consumo e é exibida pelos governantes como exemplo de um Brasil novo. Além disso, a Companhia Siderúrgica Nacional transforma-se em matriz tecnológica e exporta os técnicos que irão contribuir para a construção da Companhia Siderúrgica Paulista e da Usiminas. A antevisão de Vargas, de que Volta Redonda seria "um marco da civilização brasileira (...), instituindo no Brasil um novo padrão de vida e um novo futuro, digno de suas possibilidades", começa, então, a se concretizar.
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1957 -Expansão da Usina.Técnicos juntos ao novo Alto-forno.

A posse do Sindicato dos Metalúrgicos, pela Chapa Independência, em 1957, coincide com a euforia dos Anos Dourados, de que o presidente Juscelino Kubistchek, o "JK", era o ícone mais expressivo. Egresso do Departamento de Pessoal da empresa, Othon Reis Fernandes, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, leva para a entidade uma considerável bagagem, em termos de experiência administrativa. O novo dirigente sindical reorganiza o órgão de classe, reestruturando seu setor assistencial, com farmácia, ambulatório médicoodontológico, cursos de datilografia e corte & costura; e mantém reuniões permanentes com o grupo de militantes da "Chapa Independência", que se transformam em delegados sindicais, para atuar nos diferentes setores da Usina da CSN e em outras empresas metalúrgicas. A princípio, as relações da CSN com a nova diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos são marcadas por uma grande tensão, que se desdobrará, ao longo dos anos seguintes, num jogo entre a diretoria da CSN, presidida pelo general Edmundo de Macedo Soares, e a diretoria do Sindicato, liderada por Othon Reis, em que se fazem presentes informação e contrainformação, através do rádio, de jornais, de panfletagem nos portões e até do boletim diário de serviço da CSN, visando, cada qual à sua maneira, ao controle da opinião dos trabalhadores. Essa disputa, que se originara de um incidente político19 envolvendo Macedo Soares e Othon Reis Fernandes, acarretaria uma permanente atitude de má vontade e de endurecimento da CSN nas suas relações com o Sindicato, e que somente terminaria com a mudança da direção da empresa, ao final do governo de Kubistchek. O diretor-secretário da CSN, o médico Paulo Monteiro Mendes, responsável pelo desenvolvimento e ações dos serviços sociais da empresa e seu principal negociador, nas discussões com o Sindicato, executava, nesse mister, as ordens procedentes da diretoria liderada pelo general Macedo Soares, desafeto de Othon, pelas circunstâncias já esclarecidas. Além disso, o poder e a influência do diretor-secretário da CSN eram consideráveis e se estendiam a vários setores: educação, cultura, esportes, lazer, saúde, habitação e assistência social.
19

Quando da visita do presidente Juscelino a Volta Redonda, em 1957, Othon Reis Fernandes pede a substituição de Macedo Soares na presidência da CSN, num discurso proferido em banquete de homenagem a JK (nota do autor).
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de maneira desproporcional. e. o Sindicato dos Metalúrgicos cobrou-lhe a promessa e recebeu o sinal verde para promover a indicação de uma lista tríplice de nomes de 20 Nessa época. uma questão que ocasionara enormes polêmicas em toda a cidade de Volta Redonda. como instrumento de ação diversionista junto aos operários. Chefe da Divisão de Expediente da Superintendência de Serviços Sociais da CSN. em 1960/61. Dentre essas conquistas. 110 Waldyr Bedê . que assegurava a igualdade de proporcionalidade na participação dos operários nos lucros da empresa. no Círculo. para aferição da carestia de vida e da inflação locais. eleito em assembléia da categoria para representar o Sindicato dos Metalúrgicos. em 1962. o médico Paulo Monteiro Mendes (nota do autor). Othon Reis Fernandes criou. em razão dos critérios até então adotados. publicamente. os candidatos à presidência da República .entre eles. toda vez que a inflação fosse igual ou superior a cinco por cento no trimestre. Circulo de Trabalhadores Cristãos). pelo oferecimento de empréstimos a juros mais baixos aos trabalhadores. o da Oposição. a cooptação. alguns empregados mais qualificados e a hierarquia da CSN. pela direção de serviços sociais da CSN. também. que nomeariam um diretor-operário para a diretoria da CSN. Jânio da Silva Quadros assumiram. a correção trimestral dos salários. um dos assessores de confiança do Diretor-Secretário da CSN. que valeram a reeleição de Othon Reis Fernandes e seus companheiros para o mandato seguinte. com o propósito de combater a agiotagem que grassava no interior da Usina da CSN. ainda. em 31 de janeiro de 1961. do Círculo Operário de Volta Redonda20 (posteriormente. 21 O autor participou dessa Comissão. as três mais notáveis foram: a criação (inédita) de uma Comissão Mista de Pesquisa de Custo de Vida CSNSindicato21. nos comícios realizados em Volta Redonda.A despeito de todas as dificuldades. a inclusão de cláusula. cujo titular era o dentista Ferdinando Garcia Pereira. o Circulo Operário de Volta Redonda era presidido por Valentim Marques de Castro. de 1959 a 1961. que incluíam. Na campanha presidencial de 1960. que privilegiavam. Alípio Jacintho Pereira. tendo como colega de diretoria. no acordo salarial. o Sindicato avançou em algumas conquistas junto à empresa. o Banco Popular de Volta Redonda. uma sociedade cooperativa. Imediatamente após a posse de Jânio Quadros.

com quase cinco vezes a votação do segundo colocado.o que contrariava outra promessa de campanha da totalidade dos candidatos à presidência da República: a de uma "participação nos lucros justa para todos". circunstância que. Tudo indicava que seria Othon o escolhido. Muito popular entre os trabalhadores e suas famílias. Othon reage energicamente e denuncia o fato. que era um conceituado médico-cirurgião do Hospital da CSN. Volta Redonda na Era Vargas 111 . José Joaquim de Figueiredo Filho. pessoa da confiança direta de Othon Reis Fernandes. com um desempenho sério. mais tarde. para que os candidatos se apresentassem e se inscrevessem para uma eleição. chamando para auxiliá-lo na Direção de Serviços Sociais da empresa o então diretorsecretário do órgão de classe. porém sóbrio. na assembléia geral ordinária dos acionistas da CSN. após um breve período de ampla liberdade de campanha eleitoral para todos os candidatos. nesse ínterim. em face da expressiva votação que recebera. A lista tríplice foi. o Dr. Othon convocou uma assembléia geral.operários. que premiava os altíssimos salários com gratificações que iam ao dobro ou mais. mas opta pelo segundo nome da lista tríplice .o do Dr. Othon obtém o primeiro lugar. então.3 a 1. enquanto que os salários menores recebiam uma participação de 1. Em seguida. de novo. Primeiramente. como fazia nas eleições sindicais. ajudaria na sua eleição para deputado federal.a participação dos empregados nos lucros estava sendo calculada. com a expectativa de que. enviada à presidência da República. da qual o presidente escolheria o futuro diretor-operário da CSN. sinalizou para a diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos que buscava o diálogo. em abril de 1961. o governo finalmente indicasse o diretor-operário na nova diretoria da empresa a ser eleita. O governo Jânio Quadros manda recalcular a “girafa”. no velho critério desproporcional. acontece um incidente que viria reverter todas as expectativas dos eleitores de Othon e até do mais cético dos seus oponentes: alguns funcionários do setor de Hollerit (antigo sistema de processamento de dados com cartões perfurados) da CSN fazem chegar ao Sindicato a denúncia de que a "girafa" . José Joaquim de Figueiredo Filho. o Sindicato instalou seções eleitorais com urnas em todos os setores da Usina. Contudo. Em todo caso. Figueiredo procurou harmonizar as aspirações dos trabalhadores com os interesses da CSN.5 da remuneração mensal . Dercide Monteiro Guimarães.

Em 1961. em Duisburg: um colegiado composto por dez representantes dos acionistas e dez dos trabalhadores. Na verdade. quase sempre. dirigente metalúrgico. abrindo espaço para que Samuel Antônio de Paula Reis. pelos empregados da CSN. Em pouco tempo. sua presença. Othon figurou na chapa apenas como candidato a representante do Sindicato junto a Federação. E. com amplos poderes na gestão das políticas de produção e de pessoal da empresa e de eleição. em que. de que o líder sindical.Em 7 de setembro de 1961. era voto vencido. para presidir o "Comitê dos 21" (nota do autor). as reivindicações de interesse coletivo dos metalúrgicos da empresa. fazia-se solitária e isolada nas reuniões da diretoria. além de se apresentar como totalmente esdrúxula. por comum acordo. conheceu o sistema alemão de co-gestão administrativa nas siderúrgicas. o autor. diretor-tesoureiro no mandato anterior. com voz e voto. Exceto pelo fato de que a classe dos metalúrgicos dispunha. não tinha ele como defender. já que era correligionário político do presidente da República recém-empossado. com a posse de João Goulart na presidência da República. finalmente. na época. dentro da direção da CSN. na usina da Siderúrgica Thyssen. Othon tomou posse em maio de 1962. com seus problemas individuais. de um porta-voz. agora. de ordem social ou trabalhista. condenado à limitada tarefa de atender a intermináveis filas de empregados da CSN. concorresse à presidência do órgão de classe dos metalúrgicos. do 21º membro. contudo. sozinho. de qualquer dos lados. seria extinta pelo Golpe Militar de 1º de abril de 1964. a Chapa Independência foi novamente eleita. a figura do diretor-operário22. 112 Waldyr Bedê 22 . Na expectativa de ser nomeado diretor da CSN. tornou-se um assistente social de luxo. A eleição para o cargo. reacendeu-se a esperança de Othon Reis Fernandes e de seus seguidores. assumisse o cargo de Diretor de Serviços Sociais. Em 1962. de fato. naquele contexto sócio-político-empresarial. para cumprir o biênio 1961/1963.

. lider dos Metalúrgicos. Othon Reis.Volta Redonda na Era Vargas 113 Ao centro.

cit.Nesse período. Geraldo. de novo. obteve significativas conquistas. Othon vencera Lima Neto.41). Sindicato dos Metalúrgicos de V. que se constituía numa grande aspiração dos trabalhadores da Cidade do Aço e de toda a Região Sulfluminense alcançada pela jurisdição daquela corte da Justiça Trabalhista. conquistando considerável prestígio junto à população e se fazendo presente em todos os grandes eventos que marcam a vida de Volta Redonda. em Barra Mansa. que. Redonda. o Sindicato dos Metalúrgicos se destaca na Cidade e na Região Sul-fluminense. qüinqüênio e promoção por tempo de serviço" (Monteiro. O fato é que. em 1961. em face da iminência de uma quarta vitória da Chapa Independência. da qual sai vencedora. após a renúncia de Jânio Quadros. op. liderada por João Alves dos Santos Lima Neto. a Oposição. Rio. dentro da Usina da CSN. Nas eleições sindicais de maio de 1963. instala-se em Volta Redonda uma Junta de Conciliação e Julgamento do Trabalho. como: "licença-prêmio. 23 Monteiro. João Alves dos Santos Lima Neto e seu grupo tomam posse em setembro de 1963. 1955. 41). a Chapa Independência. na direção de Samuel Reis. que se estende de 1957 a 1963. derrotando Othon Reis Fernandes. por reduzida margem de votos. tumultua o pleito. cit. Nessa mesma época. op. encabeçava. em agosto daquele ano"(Monteiro. quando se dá nova eleição. O Sindicato. e obtém sua anulação pelo Ministério do Trabalho. segundo Monteiro23. 114 Waldyr Bedê . “50 ANOS BRASILEIROS”. ainda como Diretor da CSN. Samuel Antônio de Paula Reis procurou estabelecer a "despartidarização”do Sindicato. graças à seriedade com que o órgão de classe se conduz na defesa dos seus associados e nas relações com autoridades e instituições do Município. mas perdera para este nas extensões de base da Metalúrgica Barbará e da Siderúrgica Saudade. O mandato de Samuel de Paula Reis é prorrogado por mais sessenta dias. "Isto não o impediu de participar ativamente da "Campanha da Legalidade" que. garantiu a posse de João Goulart na Presidência da República. muito embora alguns dos membros da diretoria se mantivessem vinculados ao Partido Trabalhista Brasileiro. alegando supostas irregularidades. a chapa de Oposição.

Goulart no comício de 1º de Maio.O Pres. na Praça Pandiá Calógeras. em Volta Redonda.Volta Redonda na Era Vargas 1962 . 115 .

propôs ao prefeito. SC. A respeito desse episódio. E então o convênio se fez. então diretor de serviços sociais da CSN. como expositor convidado. com o MEC. do CRUB .Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras. págs. e que retrata o acontecido: "Em 1963. na sessão plenária de 9 de março de 1988.) era mais do que o dobro do orçamento municipal (de Volta Redonda) para a educação. constatou que a contribuição (.. A idéia rolou por mais de um ano. realizada em Florianópolis. no Painel sobre o Ensino Básico..A CONSTITUIÇÃO E O PLANO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. ao presidente da CSN e à Inspetoria Estadual de Ensino. até que veio o golpe militar de 1964. havia o interesse da Cidade. "Othon Reis Fernandes. um falecido dirigente sindical metalúrgico. Brasília. 37 a 49. a Secretaria Estadual de Educação. que nada tinha a ver com a área da educação. a CSN (o maior contribuinte local do Salário Educação) e uma representação do Sindicato dos Metalúrgicos já a essa altura. ao presidente da Associação Comercial. a comunidade querendo resolver seu problema de escolas. a Prefeitura. 1988. a idéia da realização de um convênio para a utilização plena do Salário Educação em Volta Redonda.O Sindicato dos Metalúrgicos e o Plano de Educação Primária de Volta Redonda Um dos fatos pouco conhecidos da História de Volta Redonda é o da participação do Sindicato dos Metalúrgicos na criação do Plano de Educação Primária de Volta Redonda . em Volta Redonda. 116 Waldyr Bedê . porque. o autor deste livro fez um relato de improviso na 46ª Reunião Plenária do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras24. Mas a idéia era interessante. sob intervenção federal.o PLEP-VR. acima de ideologias e de interesses políticos. 24 ESTUDOS E DEBATES 15 .verificandoascontribuiçõesdoSalárioEducação da Companhia Siderúrgica Nacional.

Portanto. uma utopia. Tudo depende do fundamental. reforma do material e manutenção permanente das escolas. A qualidade do ensino. com todos os instrumentos pedagógicos necessários ao ensino de 1º grau... e que. ainda havia vagas. tomou conta. eletricista. E o fez com rara felicidade. pedreiro. carpinteiro." 25 "SWAT" . um momento mágico aconteceu em Volta Redonda. merenda farta. por suas figuras expressivas. "(. porque havia reserva de vagas nas escolas construídas nos pontos nevrálgicos de elevada demanda escolar. com projetores de eslaides. Volta Redonda na Era Vargas 117 . reparos diários (de emergência) por uma equipe que apelidávamos de "SWAT"25 . Pintura de dois em dois anos. Foi. não é.). O crescimento vegetativo da população escolar não chegou ao excedente.Sigla referente a uma tropa de choque da polícia civil norte-americana que aparecia em famoso seriado da TV.. em que a comunidade. não houve falta de vagas (nas escolas primárias) de Volta Redonda.). a ponto de os pais retirarem seus filhos das escolas particulares e os colocarem na rede pública. altíssima. comparecia às escolas como uma tropa de choque.) Nesses nove anos. aquele momento mágico. Foram construídas 303 salas de aula. enceradas semanalmente.. As escolas eram mantidas limpas. então. com vigias. quando chamada. à época (nota do autor). geladeiras (. Qualquer conserto era feito com relativa facilidade e grande rapidez. a municipalização do ensino.“Durante nove anos.. geriu os fundos públicos destinados à educação. "Dois anos depois de terminado o convênio (. ao contrário do que muitos supõem. com competência. que tinha bombeiro hidráulico. vidraceiro. A evasão era residual.. porque ela funcionava bem.

de onde procediam. à capacidade de trabalho e à rigidez de princípios do seu diretor-executivo. ambos em Volta Redonda. nem figurara. União Democrática Nacional . quando. professor universitário e antigo vereador à Câmara Municipal de Volta Redonda. enxuta. Hoje. Lima Neto assinava uma coluna num semanário local . Contudo. João Alves dos Santos Lima Neto. em que acionava uma autêntica 118 Waldyr Bedê . maldita aos olhos dos militares e aos da pseudo-elite de chefes e chefetes da CSN. também. e cujos integrantes eram remunerados pelas próprias instituições convenentes. simples. antes. estatal. Othon Reis Fernandes é nome de uma escola pública municipal e de um CIEP . pela extinta UDN. Contudo. obviamente.um partido de centro-direita. Qualquer ativista sindical dessa época. a instituição do PLEP-VR refletia. em Volta Redonda. a idéia de se vincular a criação do PLEP-VR à figura polêmica de Othon Reis Fernandes . sobre onde.um dos seus verdadeiros idealizadores .Centro Integrado de Educação Pública estadual. que reunia as preferências políticas da classe média brasileira. como. Luiz Gonzaga de Souza Clímaco. e. à tenacidade.por todos os títulos. centralizador e de tutela daquela época: não havia participação de qualquer instituição popular nas decisões de sua administração. na Oposição sindical. aos novos donos do Poder. cirurgião-dentista. porém. a cujas tendências políticas ele se opusera a vida inteira. o caráter autoritário. poderia lembrar-se de que João Alves dos Santos Lima Neto jamais militara ativamente entre os metalúrgicos. não agradava. "o Breve"."A Chibata" -. Em que pesem suas realizações em prol da universalização do atendimento com escola pública à infância de Volta Redonda.É justo ressaltar que grande parte do êxito do Plano de Educação Primária de Volta Redonda se deveu à organização de sua estrutura administrativa. por quem e por quanto construir tal ou qual escola.

um povo perplexo. cujo líder. de inspiração comunista. Os alimentos escasseiam e se sucedem as greves.apavorados ante a possibilidade da implantação de uma suposta "república sindicalista" no Brasil. como todo o resto do Brasil. pela falta de abastecimento de gêneros de primeira necessidade e pela estagnação da atividade econômica. a tributária. Voltando-se. Odair Benedito de Aquino e Silva e Nestor Lima. quebra-quebras e saques a armazéns. em sua CartaTestamento. contra a diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos. as chamadas "classes conservadoras" . passeatas. José Bonifácio de Castro. a militância sindical pressionando o governo de Goulart e o Congresso Nacional. a previdenciária. A ascensão de João Alves dos Santos Lima Neto ao cenário sindical de Volta Redonda. Esse é um momento de crise na vida de Volta Redonda. os sintomas da instabilidade do momento político nacional. Volta Redonda na Era Vargas 119 . tudo refletindo um impasse entre as forças políticas em confronto: de um lado. Lima Neto atraiu o interesse da Oposição sindical. para que aprovem as reformas de base. entre as quais: a eleitoral. achava-se desgastado por três derrotas consecutivas (em 1957. grupos econômicos nacionais aliados a interesses externos26 . atacando a tudo e a todos. onde jamais figurara antes. resultou de um lance de mero oportunismo. no meio disso tudo. sem perspectivas e atormentado pela carestia do custo de vida.entre elas. A posse de Lima Neto assinala a retomada do Sindicato dos Metalúrgicos pelas forças de esquerda.metralhadora giratória. por algum tempo.Comando Geral dos Trabalhadores. a educacional e a agrária. o braço sindical do PCB. que sofre. na Cidade do Aço. de 24 de agosto de 1954 (nota do autor). que alinham o órgão de classe ao CGT . 1959 e 1961) para a Chapa Independência. criado para mobilizar o povo brasileiro em defesa do presidente João Goulart e da realização das chamadas Reformas de Base. 26 O fato já havia sido denunciado pelo presidente Getúlio Vargas. sua breve liderança conformava-se na ação desenvolvida pelos verdadeiros militantes sindicais de esquerda: José Bonifácio de Castro. do outro. Na verdade.

120 Waldyr Bedê . antes pareciam estranhas e descabidas. o comando da guarnição local do Exército .os militantes punidos pela Ditadura Militar. dentre os quais. sequer. essas forças agiram rapidamente. supostamente para forçar a alta do preço.Batalhão de Infantaria Blindada -. o boato de que os donos de armazéns estariam escondendo o produto. vinculadas ou decorrentes do Golpe Militar. Lima Neto improvisou um comando de militantes "para busca e apreensão do açúcar sonegado ao povo". pareciam saber exatamente o que fazer. "esses açambarcadores (os donos de armazéns) deveriam ser dependurados nos postes das vias públicas". expedindo ordens e intimações de legalidade questionável. além de políticos ligados à UDN . partindo delas. ocupando espaços. efetuando prisões de ativistas e intervindo nos sindicatos. o que indignou boa parte da população.que abrange os sete meses entre a posse de Lima Neto e o Golpe Militar de 1964 -. Essa mobilização uniu. na calada da noite. contudo. setores ligados à alta direção da CSN. por exemplo. certas dissimulações e algumas atitudes que.. Entre discursos ameaçadores. Eram como os componentes de uma orquestra exaustivamente ensaiada: as pessoas envolvidas com os responsáveis pelas ações locais. já havia algum tempo. apanhando a militância de esquerda totalmente desprevenida. de acordo com um plano adrede preparado. Espalhou-se. com uma eficiência e uma rapidez somente concebíveis como resultantes de um planejamento. intervindo nos sindicatos. a crise do desabastecimento também atinge Volta Redonda. segundo os quais.o extinto 1º BIB . comerciantes e fazendeiros. na Cidade do Aço. para resistir a um provável golpe esquerdista. serviu apara acirrar ainda mais os ânimos. como se já estivessem esperando por ele e pelo momento de agir. agora se tornavam óbvias aos olhos de suas vítimas . era o gênero mais escasso. E quando as máscaras de algumas pessoas caíram.União Democrática Nacional. então.. em Volta Redonda. Jamais encontraram um grama.Nessa época . na mesma conspiração. levando alguns empresários locais. Quando o Golpe Militar de 1964 estourou. que incluía a aquisição e a estocagem de armas. O episódio. onde o açúcar. Em suma: algumas figuras da elite conspiravam. as chamadas classes conservadoras. a uma mobilização.

em face de uma sublevação militar. na seqüência conhecida como "Tenentismo". O Golpe de 64 . 1924. sob o comando de Deodoro da Fonseca. 1925 e 1926. a quem. Pedro I abdicou do trono.estabeleceu uma relação de boa convivência com as lideranças sindicais. jovem político gaúcho João Belchior Marques Goulart ao cargo de ministro do Trabalho do governo Vargas. finalmente. tentaram impedir a posse de Juscelino Kubistchek. Em 1891. até que. repetindo a mesma tentativa em 1961. Jango . os militares envolveram-se em levantes contra o governo. Nove anos mais tarde. então. Durante a República Velha. contra João Goulart.a que os militares da época chamaram "Revolução de 31 de Março" . os ministros militares depuseram Washington Luís e abriram caminho para a ascensão de Getúlio Vargas. em 1954. em 1930. Em 1945. em 1954.começou bem antes dessa data. derrubaram em 1964. As circunstâncias que levam ao golpe militar relacionam-se com a ascensão do. seu filho e sucessor. D. foi derrubado por outra quartelada. Volta Redonda na Era Vargas 121 . Pedro II. desta vez. em 1822. afastaram Vargas do cargo.como era conhecido . passando a apoiar suas reivindicações e a incentivar os trabalhadores a se sindicalizarem. o imperador D.VOLTA REDONDA E O GOLPE MILITAR DE 1964 A intervenção das Forças Armadas na vida política brasileira é uma constante histórica: iniciou-se com a Independência. em 1922. Em 1955. Ao assumir o Ministério do Trabalho. levaram-no ao suicídio.

Não obstante toda a reação contrária. fazem um pronunciamento contrário à investidura de Jango na presidência da República. 122 Waldyr Bedê 28 . envenenada por uma mídia hostil ao governo. o trabalho dos seus empregados. também. que passou a assombrar não apenas as chamadas elites. 27 MACARTISMO: Movimento anticomunista inspirado pelo senador norteamericano Joseph McCarthy. Afinal. ao mesmo tempo em que vários setores do empresariado o acusavam de pretender implantar uma "República Sindicalista" no Brasil. Isso foi mais do que o suficiente para provocar a ira das classes conservadoras e acirrar os ânimos. o então governador do Rio Grande do Sul. Leonel de Moura Brizola. Com a renúncia de Jânio.com o objetivo de fortalecerem os sindicatos de trabalhadores em suas luta com a classe patronal. num momento crítico da vida nacional. em viagem oficial à República Popular da China. açulada. em 25 de agosto de 1961. Daí em diante. essa suposta república sindicalista tornou-se um fantasma. Jango defendeu a revisão do Salário Mínimo. Jango elege-se vice-presidente da República28. os ministros militares. Em meio a esse processo. o voto para vice-presidente era separado do de presidente (nota do autor). que foi reajustado em nada menos que 100% (cem por cento). Cinco anos mais tarde. em 1954. como também consideráveis estratos de nossa incipiente classe média. João Goulart passou a arrostar todos os ódios dessas mesmas classes. aproveitando-se da ausência de João Goulart. na chapa de Juscelino Kubistchek. o governo e as empresas norte-americanas temiam a ascensão de uma liderança popular simpática aos comunistas. em que. mobiliza o que ele mais tarde denominaria de "forças populares". Por menos plausível que fosse. com expressiva votação. repete a dose. pela propaganda anticomunista do macartismo27. como substituto legal do presidente renunciante. Entre 26 de agosto e 6 de setembro de 1961. a despeito da inflação que "corroía os valores do trabalho" os empresários reagiram negativamente à alternativa de remunerar. em 3 de outubro de 1955. cunhado de Jango. Naquela época. presidente da Comissão de Atividades Antiamericanas do Senado dos EEUU. como vice-presidente de Jânio Quadros. no dobro do valor.

formam uma barreira parlamentar intransponível às proposições do Executivo.através da "Rede da Legalidade". 29 30 IBAD: Instituto Brasileiro de Ação Democrática.C. O governo de João Goulart revela-se inepto. onde as forças da Reação. de resistência aos generais golpistas e em favor da posse de João Goulart. enquanto as greves pipocam por todos os cantos do Brasil. desaparecem os investimentos externos e se sucede uma crise de abastecimento de gêneros de primeira necessidade. podando-se. A inflação ameaça disparar. Em 1963. porque se estabelece um impasse político no Congresso. e o fatídico encontro do presidente Goulart com os militares subalternos da Associação dos Subtenentes e Sargentos. identificado com os sindicatos e os diversos setores da Esquerda. que passava a ser uma figura decorativa. o movimento dos marinheiros. na Central do Brasil. em 15 de março de 44 a. Parte. em face do quadro de quase estagnação da vida nacional. visando às reformas de que o País necessitava. O impasse foi resolvido com uma emenda constitucional que instituía o sistema parlamentarista de governo. que estavam homiziados na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro. o presidente Goulart readquire seus poderes como chefe do Executivo e inicia um governo de caráter populista. azeitadas com recursos financeiros provenientes de uma suspeitíssima instituição de caráter político denominada IBAD29. os poderes do presidente. Volta Redonda na Era Vargas 123 . parte como resultante da ação desencadeada pelo oportunismo canhestro de uma Esquerda desorganizada e irresponsável. como reflexo da instabilidade social e econômica. assim. eis que o poder executivo seria exercido por um primeiro-ministro. o governo não deslancha. Contudo. A situação chega ao clímax em março de 1964. no Automóvel Clube do Brasil. os chamados "Idos de Março30": o Comício das Reformas de Base. A frase é uma alusão à conspiração de patrícios romanos para o assassinato de Júlio César.

Ao contrário. Othon Reis Fernandes coloca no ar a Rádio Siderúrgica Nacional e conclama os trabalhadores para uma vigília de apoio a Jango. Por isso mesmo. A CSN não parou no dia 1º de abril de 1964.de resto. antes daquela hora. como. começaram as prisões de dirigentes e militantes sindicais. O episódio inteiro foi. presidente do Sindicato. pela Academia Militar das Agulhas Negras . membro do auto-intitulado "Alto Comando Revolucionário". comentários jactanciosos do general Costa e Silva."para apurar as atividades subversivas" na região do sul do Estado e.. O primeiro foi tocado pelo Batalhão e o segundo. foi apanhado em sua residência por uma patrulha do Exército. comandada por um capitão. provavelmente ninguém a sintonizara. o que ensejou. "em nome do Comandante do 1ºBIB". seu Diretor Industrial 124 Waldyr Bedê .os dirigentes sindicais da Cidade do Aço tentam mobilizar os trabalhadores para uma greve geral de apoio ao presidente João Goulart: por volta das seis horas da manhã de 1º de abril de 1964. patético. "em defesa da democracia". Othon Reis Fernandes.uma "quartelada". ocupa a emissora e a retira do ar. Ainda antes das sete horas. também. in "O Ato e o Fato" . O Exército instaurou dois "Inquéritos Policiais Militares" .Desferido o Golpe militar . Os que a colocaram no ar falaram ao vento. afirma.os famigerados "IPMs" . foi preso no interior da Usina Presidente Vargas. diretor de Serviços Sociais da CSN. porque a Cidade inteira sabia que a Rádio Siderúrgica somente entrava no ar a partir das oito horas da manhã. sua usina de aço quebrou um recorde histórico de produção nesse dia. então. segundo Carlos Heitor Cony.a AMAN. na CSN. no mínimo. através da televisão. Lima Neto chega à emissora e vai ao ar convocando uma greve geral na CSN. uma guarnição do 1º Batalhão de Infantaria Blindada. a busca e a apreensão de "material subversivo" prosseguiram por todo o mês de abril. As prisões de suspeitos de subversão e. um instrumento judicial específico da vida militar . Antes do meio-dia. especificamente. Na Companhia Siderúrgica Nacional.. João Alves dos Santos Lima Neto.

dirigido por servidores categorizados. entre silenciosa e estarrecida.os militares . que assumem a intervenção. 32 Na tradição sindical. já não era mais aquela dos "cabeças de tomate". sob o comando do coronel José da Cunha Menezes e. a delação e a bajulação aos novos donos do poder . que batiam primeiro e depois faziam perguntas. porque não está investido de mandato eletivo que lhe dê autoridade representativa para. o interventor somente pratica atos administrativos referentes à gestão interna do sindicato. a temporada de "caça às bruxas". com homens rudes. criou-se um "serviço secreto" para a prática de espionagem. mais de um ano antes do Golpe Militar de 64. Muitos empregados sofreram diversos tipos de punição. Ao mesmo tempo em que a perseguição se desenrolava na Usina e no Escritório Central da CSN. de acordo com o art. Volta Redonda na Era Vargas 125 . criada e organizada em 1942 pelo capitão Edgard Magalhães da Silva. 500 da CLT (nota do autor). somente ocorria com a assistência do sindicato. sem justa causa. Aperfeiçoara-se. a CSN demitiu ou afastou do trabalho mais de cem servidores. enquanto a maioria da população.mandou instaurar inquérito administrativo para apurar "atividades subversivas ocorridas no âmbito da enpresa". com a "assistência31 do Sindicato". Outros foram sumariamente demitidos. Ao final do inquérito administrativo. A Policia Administrativa da CSN. seguia "falando de lado e olhando pro chão". sem justa causa.. Muitos dos que eram empregados estáveis foram constrangidos a uma demissão mediante acordo de indenização negociada. dos tempos do macartismo. sob acusação de atividades subversivas. através de infiltração em reuniões e 31 Ainda não havia o FGTS e a demissão de empregado estável. indicados pela própria CSN. apenas estava recomeçando. Em Volta Redonda. como na canção de Chico Buarque. por ordem do "Comando Revolucionário". que se achava sob intervenção32. homologar demissões (nota do autor).. sob as mãos do general Ene Garcês dos Reis. por exemplo.moldavam o comportamento de parte das pessoas. instalava-se na Cidade um autêntico Estado Policial: a denúncia anônima.

assembléias sindicais. Os esbirros do serviço secreto da Polícia Administrativa eram pessoas semiletradas, que beiravam a boçalidade, mas capazes de uma atuação suficientemente nefasta na delação e na produção de provas forjadas. Todos os empregados acusados de atividades subversivas, por esses agentes secretos de roça, ainda que denunciados à Justiça Militar pelo coronel presidente do Inquérito Policial Militar instaurado na Academia Militar de Agulhas Negras, foram excluídos da denúncia, por iniciativa do próprio promotor militar, que a considerou inepta, em face da incompetência das "provas" apresentadas e originariamente produzidas pelos agentes secretos de fancaria da CSN. Não obstante, o mal já estava feito e todos, demitidos ou afastados do emprego. Apenas um foi reintegrado ao serviço da empresa, o Mestre de Aciaria Odair Benedito de Aquino e Silva, diretor-secretário do Sindicato dos Metalúrgicos na brevíssima gestão de João Alves dos Santos Lima Neto. Muito doente, Odair de Aquino morreu, alguns anos mais tarde, não sem antes experimentar o gosto de retornar à velha Aciaria Siemens-Martin (àquela altura, desativada), nem que fosse para perambular por sua Ala de Carga, como um fantasma perdido... Seu regresso, ainda que aparentemente inglório, revelou-se como um símbolo de esperança para muitos injustiçados. Odair Benedito de Aquino Silva foi um operário exemplar, querido e respeitado como companheiro de trabalho, vitorioso na profissão de metalúrgico. Apenas, como tantos outros, não tolerava injustiças e lutou contra elas. Numerosos foram os casos de injustiça provocados pelas "investigações" dos agentes da "GESTAPO" da CSN. Piores, contudo, se revelaram aquelas injustiças resultantes da delação, da intriga ou da denúncia anônima, muitas vezes motivada por inveja no ambiente de trabalho. Aqui, os famosos Sacco & Vanzetti se transformam em Bicca & Fritsch. Luiz Bicca de Alencastro e Pedro Eloy Fritsch trabalhavam na Superintendência de Projetos e Obras da CSN. O primeiro, como técnico industrial e o segundo, como auxiliar de engenheiro. Eram empregados veteranos - o primeiro, com quinze anos e o segundo, com mais de vinte
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anos de serviços prestados à CSN, mais do que exemplares - e não exerciam qualquer militância sindical ou política. Bicca, magro, alto, claro, de olhos de um tom verde-cinza, com cinqüenta anos, aproximadamente, era a própria imagem do homem educadíssimo, de índole pacífica, humilde, tranqüilo e possuidor de um olhar de tocante doçura humana; amava a doutrina espírita, seu assunto predileto nas conversas que mantinha com os colegas, nos intervalos para o café; não se tem notícia de qualquer atrito, desavença ou desentendimento, da parte dele, com quem quer que fosse, dentro ou fora do ambiente de trabalho. Pedro Eloy Fritsch, magro, baixo, claro, cabelo ralo, olhar inteligente e penetrante, mostra mais agitação no falar e no andar. Sua paixão é a Maçonaria, a cuja grandeza se dedica, de corpo e alma. No trabalho, é conhecido pela franqueza com que emite suas opiniões, sem receio de desagradar aos chefes, sendo, porém, um colega de trabalho leal e sincero para com todos. Por um desses absurdos, mesmo em um regime político de exceção, ambos são denunciados às autoridades militares como elementos "agitadores" e "subversivos", cuja permanência em serviço, na CSN, era considerada nociva e contrária à segurança da empresa e aos interesses nacionais. Logo em seguida, são sumariamente afastados do trabalho. A exemplo do que acontecera com o autor destas linhas, então, um jovem militante sindical metalúrgico, Bicca e Fritsch, humilhados por uma execração pública, perante seus colegas de trabalho, vizinhos, amigos e familiares, sofrem, ainda, a perda de todas as suas regalias e prerrogativas como empregados da CSN, com restrições ominosas - como a cessação da assistência médicohospitalar - que alcançam, inclusive, seus dependentes diretos. Obviamente, essa perda de regalias e prerrogativas se estende, também, a mais de cem companheiros da CSN, sediados em Volta Redonda e em outros setores regionais da empresa, no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. Por conhecer apenas superficialmente outras injustiças do regime de exceção para com empregados da CSN que não eram militantes sindicais ou políticos, o autor restringe seu relato a estes dois casos já mencionados, como ilustração do ambiente deplorável, de perseguição, medo e insegurança, que se instalou na empresa, a partir do Golpe Militar de 1º de abril de 1964.
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Luiz Bicca de Alencastro jamais se recuperou da dor pela terrível perseguição que sofrera e faleceu em 25 de julho de 1980. Pedro Eloy Fritsch dedicou toda a sua energia, durante vários anos, como um autêntico paladino, visando a corrigir, por ele e seus companheiros, a injustiça de que foram vítimas. Na luta que empreendera, Fritsch recorreu aos seus irmãos de confraria maçônica, moveu céus e terras, num trabalho insano, para conseguir o "retorno e a reintegração ao quadro ativo da CSN", como pleiteara, por fim, em 20 de outubro de 1985, ao Presidente José Sarney. Fez mais: com a ajuda e a boa vontade e toda a disposição do advogado Eljo Cândido de Oliveira, então Superintendente de Recursos Humanos da Companhia Siderúrgica Nacional, Fritsch procedeu a um minucioso levantamento da situação funcional e de salários de todos os exempregados da CSN, demitidos por força dos Atos Institucionais Nº's 1 e 5, da Ditadura Militar, bem como os nomes das viúvas e herdeiros daqueles já falecidos, a fim de que pudessem receber os benefícios da Anistia concedida pela Emenda Constitucional Nº 26, de 28 de novembro de 1985. Reproduz-se aqui a lista mimeografada pelo próprio Fritsch e anexada à referida petição ao Presidente José Sarney. EMPREGADOS DA CSN DEMITIDOS PELO GOLPE MILITAR Gentil Noronha Marcello de Mendonça Pinto Cid Pereira Buarque de Gusmão Hélcio Teixeira Justino Ferreira Gomes José de Moura Villas Boas Darley de Lacerda Arneiro
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Francisco Carvalho de Castro Hjalmar Astácio Rios Joel Braga de Mendonça Estanislau Torres Marly do Santos Chaves Christiano Leal de Moraes Dilma Lourdes Botelho Ferreira Ronaldo Pereira Ferreira Antônio Luiz de Aragão Miranda José Paulo Vieira da Cunha Hélio Gonçalves Neves Luiz Bicca de Alencastro (+250780) Adalto Heleno Pereira Willy do Nascimento Sales João Batista de Abreu Luiz Ferreira Brum Fernando Parreira João Ferreira de Souza Benedito Garcia de Oliveira José Luiz Manhães Gesualdi Domingos Magalhães Luiz Gerardo de Seixas Bona Jorge Gonzaga João Domingos Darcy de Oliveira Joaquim Antônio Sales Aldemy Gomes de Oliveira Pedro Eloy Fritsch Wilton de Araújo Meira Wanildo de Carvalho Walmir Barbosa de Menezes Brito Guilherme Carlos Köhler Nelson Silva José Machado Feitosa Volta Redonda na Era Vargas 129 .

Natnael José da Silva Waldyr Amaral Bedê Ubirajara Alves Ramos Marinho Santiago (+201089) Joacyr Patriota Ady Gigante (+210489) Eurípedes Estrella José Gonçalves Paulino (+010570) João Clímaco Filho José Amâncio da Silva (+121082) José Bonifácio de Castro Otto Gibson de Carvalho (+140385) Francisco Chagas Lopes João Ignácio da Silva José Emílio da Silva Fidelis Pereira Côrtes Jorge Fernandes Manoel Izaac de Carvalho Lima Francisco Gomes de Assunção Gerson da Cunha Bastos Feliciano Honorato Wanderley José Ferreira de Araújo Argenil Mendes de Sá Nilton Carraro Machado Odair Benedito de Aquino e Silva (+070690) Gustavo Alves de Lima (+210487) Florivaldo Ciarelli Israel Sant'Ana (+100583) Alberto Almirante Barbosa Geraldo Marcello Othon Reis Fernandes (+050371) Inaldo Albuquerque de Carvalho (+080874) Antônio Nascimento da Silva (+280687) 130 Waldyr Bedê .

e principalmente após sua privatização. como se estivessem em efetivo exercício.Genival Luiz da Silva Ely da Silva Aguiar João Alves dos Santos Lima Neto (+020284) Benedito Matos da Costa Nestor Lima Joaquim Martins Bastos (+260180) Vicente Francisco de Carvalho (+270784) José Garcia de Souza Pedro Celestino de Matos Francisco Aranha Viriato Querubino Dias Leão (+080166) Nilson Costa (+011177) Lenine Abdiel de Souza Adelino Pereira Palmeira (+150785) Anaximandro Rattes Carlos Carbalo Prieto Francisco Aguiar Guimarães (+) Iracindo Miranda (+ 211174) Joaquim Felipe de Barros (+) Joaquim Leocádio (+151265) Rubem Prota Sebastião Vilela de Andrade Wandyr de Carvalho (+260287) O INSS. à data da referida Emenda Constitucional. Todavia. então encarregado de aplicar os benefícios da Anistia aos aposentados. depois de algum tempo. a CSN deixou de fornecer as informações individuais sobre a posição salarial de cada anistiado .o que acarretou uma defasagem nos proventos de aposentadoria. corroída pela inflação. considerou a aposentadoria ou pensão excepcional calculada sobre o valor hipotético da remuneração a que esses servidores teriam direito. Volta Redonda na Era Vargas 131 .

a cada período de cinco anos de trabalho. sendo que: 4) desse número. dedicação e exemplar conduta.Analisando-se os dados pessoais de cada um dos cem exempregados da CSN aqui arrolados. com funções especializadas e responsabilidade técnica na vida da CSN. quatro dias antes de sua prisão. ou o dobro. entre dez e dezenove anos de trabalho. Toda essa gente recebera os chamados "prêmios qüinqüenais" (um mês de remuneração. aos cinco anos de serviço. por ordem do presidente do Inquérito Policial Militar da AMAN. no dia 9 de abril de 1964. 61% do total desses ex-servidores acumulavam mais de dez anos de serviço na CSN. pelo menos setenta e seis eram servidores qualificados. de dez e de vinte anos de bons serviços. A apresentação dessas informações vem a propósito das seguintes questões. outros 28% já haviam chegado. 2) desses. muito contribuído para a realização do programa da Companhia Siderúrgica Nacional". com rubi ou esmeralda. suscitadas pela situação desses cem homens e uma mulher demitidos da CSN: como e por que razões. no caso de cinco anos trabalhados sem faltas ou atrasos). pelo menos nove possuíam grau universitário e vinte e cinco detinham nível médio de ensino. "por haver. do "DIPLOMA DO DISTINTIVO DE BONS SERVIÇOS CSN" concedido a este autor. "subversivos" e "elementos nocivos" à segurança da Companhia? 132 Waldyr Bedê . de um momento para o outro. aliás. 30% tinham mais de vinte anos e 31%. além de distintivos de ouro. 3) dos 100 listados. com seu esforço. essas pessoas. com menos de seis faltas por ano. constata-se que: 1) ao serem afastados. como consta. ironicamente. pelo menos. se transformariam em "agitadores".

quando muito. um suposto delito de opinião.o então Diretor de Serviços Sociais da CSN eleito pelos empregados . constituída para apurar "atividades subversivas" no âmbito da empresa.interpelara esse mesmo chefe. certamente inspiradas por sentimentos menos nobres. “enriquecidos” com os relatórios dos beleguins do serviço secreto da Polícia Administrativa da empresa e com denúncias anônimas de uns poucos colegas. um dos setores mais polítizados da Usina Presidente Vargas. foi a primeira a tentar paralisar suas atividades no dia 1º de abril de 1964. no IPM da Academia Militar de Agulhas Negras? Até o Golpe Militar de abril de 1964. entre os demitidos. e que lhe fora lida durante a tomada de seu depoimento.De que maneira um simples auxiliar de escritório poderia "esfriar os fornos da CSN". embora sem êxito e. no intuito de que ele explicasse à Diretoria como e por que a FEM perdera determinada concorrência pública de obras em estrutura metálica. Nenhum dos demitidos havia cometido qualquer ato de natureza material. que pudesse colocar em risco a integridade patrimonial da CSN. Seu chefe fora designado para presidir a Comissão de Inquérito Administrativo. como a desforra. Coincidência ou não. meses antes do Golpe Militar. a Fábrica de Estruturas Metálicas. até que seus prontuários funcionais lhes foram entregues pela CSN. Othon Reis Fernandes . a liberdade de opinião e de Volta Redonda na Era Vargas 133 .Fábrica de Estruturas Metálicas. o ciúme e a ambição. que esses cidadãos apenas teriam cometido. a inveja. todos lotados na FEM . Ainda por coincidência ou não. até a ocorrência do Golpe Militar. na hora da verdade. dos servidores que viriam a ser demitidos. não eram do conhecimento das autoridades militares. Estas. Constatouse. Significativamente. a exemplo do que está escrito na acusação formal feita pelo Comando Revolucionário a este autor. ocorridas nos meses subseqüentes ao Golpe Militar. havia dez desenhistas técnicos. como "por conveniência de serviço"). por isso mesmo. nos tribunais militares. num país em que. a unidade que mais contribuiu para o rol de mais de trezentas demissões (anunciadas em boletim da CSN. muitos dos nomes.

em 1964.expressão era assegurada pela Constituição de 1946.. tácito. embora mais que 33 Pouco tempo depois do golpe militar. o próprio comandante do extinto 1º Batalhão de Infantaria Blindada chegou a ir ao Cine "Nove de Abril" com uma escolta de quatro soldados armados "até os dentes". na época (nota do autor). pela ambição de aparecerem como guardiães da segurança da empresa. sabotagem ou coisa semelhante (jamais se saberá o que deveria ir pela cabeça dessas pessoas. Da ominosa perseguição humana ocorrida na CSN. diga-se.e nos eventos escolares.). compreende-se que muitas pessoas que se prestaram ao papel de denunciar companheiros de trabalho. Excederam-se nas informações distorcidas e na produção de provas de validade discutível. a bem da verdade. conforme divulgou a imprensa local. com soldados de uma unidade denominada "PELESP" . seguida à risca por todos os demais oficiais que assumiram o comando daquela unidade. Isso perdurou alguns anos. Meses depois. "em reconhecimento pelos serviços prestados em defesa da democracia e da Companhia Siderúrgica Nacional". Em algumas ocasiões. do 1º Batalhão de Infantaria Blindada. Contudo. estivesse em curso um açodado torneio. simplesmente..pretensos "donos" da grande Usina de Aço. 134 Waldyr Bedê . Nos clubes. como se.. fora sorvida com mão pesada pelos senhores da situação .. escoltadas por soldados armados com pistolas automáticas ou revólveres calibre 45.Pelotão Especial. inveja ou. Discrição essa. Algumas vezes. voltaram a ser mais discretos. mas cínico e oportunista. As ruas passaram a ser patrulhadas por viaturas do Exército33. os militares eram recebidos com todas as honras e rapapés. certas atitudes dos novos donos do poder ultrapassaram o limite do ridículo: madames de oficiais iam às compras. para ver quem mais agradava aos novos senhores da situação. foram movidas por ódio.ainda que particulares . até sua extinção. a vingança. nas festas . como um prato frio. em Volta Redonda. a CSN doou ao 1º BIB cerca de dez veículos utilitários. quando constataram não existir qualquer ameaça de subversão.

suficientes para interromperem a carreira profissional de companheiros de trabalho, dignos e sem culpa. Mas, em tudo e por tudo, predominou o medo, em face de um novo tempo de autoritarismo, que jogava, abertamente, com a perspectiva de uma revolução comunista no Brasil, embora as condições objetivas para um empreendimento dessa envergadura - na verdade, qualquer movimento armado - fossem totalmente inexistentes. Aliás, os focos isolados de luta armada, que tiveram curso nos anos setenta, apenas confirmaram esta assertiva. No entanto, o espectro do comunismo prevaleceu, ainda, por muito tempo, como instrumento da propaganda reacionária. E muitos creram, piamente, que tal perigo existisse, de fato. Enfim, nossa Cidade de Volta Redonda - esse Eldorado com que, um dia, tantas pessoas sonharam - perdera, de vez, sua inocência. Marchava-se ao compasso de uma ordem unida: a da Nova Ordem imposta pela Ditadura Militar... Então, parodiando Maritain34, "uma longa noite de agonia", que duraria vinte anos, se abateu sobre o Brasil - a "Noite dos Generais". Encerrava-se a Era Vargas em Volta Redonda.

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MARITAIN, Jacques, "Noite de Agonia em França", Rio, 1941.
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EPÍLOGO
Este livro termina aqui. Não, obviamente, a história de Volta Redonda. Há muito a ser escrito a respeito dos últimos quarenta anos: as duas últimas gerações de ciclopes fizeram desta Cidade uma autêntica metrópole, e sua saga, entrecortada de dramas e comédias, merece ser contada. Certamente, outras histórias virão. Para finalizar, ofereço, ao leitor e à leitora, que tão generosamente me acompanharam por estas páginas, um poema dedicado àqueles que construíram Volta Redonda. Para compô-lo, dispensei-me dos rigores da forma poética e mergulhei fundo nos meus sentimentos, a exemplo do que fiz, ao longo de todo este livro. Ao vê-lo, e ouvi-lo, declamado em diversos jograis formados por estudantes de várias escolas de nossa Cidade - muitos deles moradores da periferia - , percebi que meu canto foi ouvido, sentido e aceito pelos meus concidadãos. Permitam-me, pois, registrá-lo, a seguir, nos escritos deste livro, eis que ele não mais me pertence, mas ao povo de Volta Redonda, a quem rendi essa singela homenagem.

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Lembrando saudades.. os Ciclopes chegaram. Acho que não. inté bolorento. Pés descalços. lembrando o dia da sinhazinha.. apito estridente. Jacá de queijo. Ficaram pra trás.. De Severina. dobrado pelo raio. Volta Redonda na Era Vargas 139 . os Ciclopes chegaram. CANTO I . Na volta de Volta Redonda.. Que ficaram lá atrás... Acho que não.DO ÊXODO Maria-fumaça... de Joana ou de Maria... Nas terras dos Coroados. do coroné.. tresnoitados e abatidos. Em busca de um Eldorado. Cortando o silêncio da noite fria. com chocolate. Queijo mineiro Com pão dormido.ODE AOS CICLOPES (Aos Trabalhadores de Volta Redonda) PRÓLOGO Na curva que o rio faz. Será que vou ver? Será que vou ver? Será que vou ver? Acho que não.. da fazendinha E do café. E o bule sujo. carcomidos.

de Minas. gente pra lá.. De muitos outros. começo de outro. leva agonia E carrega a esperança de um novo dia. Guardas armados. Até que a agonia chegasse ao fim. madeira podre. Aqui e ali. CANTO II . mineiramente. eles chegaram. entrando em forma.. faziam assustar! Enquanto isso.DA TERRA PROMETIDA Na velha estação.... Desconfiados. Tão grandes que eram.. Gente pra cá. Buraco de lama..Alimento do dia. Manhã Imprópria para quem chega a um Eldorado. Até que a sereia tocava o fim De mais um dia. o Mundo morria. Caindo aos pedaços. Enquanto maria-fumaça.. São Paulo 140 Waldyr Bedê ... na manhã cinzenta. Na Ásia e na África. Mas esses caboclos Ciclopes chegados De muitos cantos. poeira por cima. Transporta lembrança. Concreto na forma. na velha Europa. Maria. Apearam os ciclopes. pesadelo da noite. Agonia imprópria para quem veio Na esperança de um Eldorado. chegaram as máquinas. Tratores gigantes cortavam a terra Que os basculantes descarregavam. um pouco de dia.. Marreta empenando as pontas dos ferros.. Um pouco de noite. Dos "cabeças de tomate". No caos ordenado. que davam ordens.

congada e maxixe. De tresloucado. Recalques. sonhos e dores.. Na mesma tarefa irmanados.. Até que o dia chegou.. Louros e negros retintos. No seio da terra. se abria. morenos.. Enquanto o Eldorado não vinha. Samba do bom e xaxado.E de todos os santos.. Do pai-de-santo à beata. Ao mesmo Deus dedicados. E sorte nova buscaram. De Vulcano.. Vivia-se aos poucos.. Loucura imprópria Para quem constrói um Eldorado. Da usina de aço crescendo.. cafuzos... seguiam em frente. em sangue. No mesmo cadinho jogaram Vãs esperanças e amores.. instintos. Balanços de corpos trocados.. Orgia de cores. Do candomblé à capela.. Volta Redonda na Era Vargas 141 . Bumba-meu-boi e baião. a nova Terra do Eldorado! Enquanto o Mundo. Da assembléia à tendinha. operários.. Fé e fornalha aquecidas: Correu o aço na Terra Do Eldorado das vidas.. forjavam na terra.. Saudades de ontem: dorzinha.DAS GENTES Reisado... CANTO III . Mulatos. morrendo.

João? E agora. composto em 09/10/1980 é extraído do livro “A Terra é Azul” de Waldyr Bedê 142 Waldyr Bedê ... amores. Cinzentamente. A tristeza persiste. poemas e mares. De canto e falares. O dedo é em riste.. os homens dominam... E a fome campeia. EPÍLOGO Ninguém verá Eldorado fora do seu coração.ONDE FICA O ELDORADO? A casa está pronta.. Ardor e querências. E agora. Não só de comida: De cores...CANTO IV ... E a fome é tão triste. a fumaça domina.. Mané? Na rua cinzenta. Ninguém viverá Eldorado sem Liberdade à mão! Este poema. abraços... Nos palácios cinzentos. certezas e flores. a festa acabada. Liberdade? Não viste. afetos e vivências. a saudade existe. A angústia insiste. José" De Carlos Drummond. Se repete a pergunta. De beijos. "E agora. Eldorado? É um chiste..

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