HC 222141

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HC importante em matéria penal julgado pelo Supremo Tribunal Federal e que envolve a tutela de liberdades fundamentais
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Supremo Tribunal Federal

Ementa e Acórdão

Inteiro Teor do Acórdão - Página 1 de 83

06/02/2024 SEGUNDA TURMA

[Link]. NO HABEAS CORPUS 222.141 PARANÁ

RELATOR : MIN. RICARDO LEWANDOWSKI


REDATOR DO : MIN. GILMAR MENDES
ACÓRDÃO RISTF
AGTE.(S) : MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROC.(A/S)(ES) : PROCURADOR-GERAL DA REPÚBLICA
AGTE.(S) : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PARANÁ
PROC.(A/S)(ES) : PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO
PARANÁ
AGDO.(A/S) : RAQUEL AMARAL CARDOSO
ADV.(A/S) : DANIEL GERBER E OUTRO(A/S)
ADV.(A/S) : YGOR NASSER SALAH SALMEN
INTDO.(A/S) : SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

Agravos regimentais no habeas corpus. 2. Constitucional, Penal e


Processual Penal. 3. Marco civil da Internet. Lei 12.965/2014. Ministério
Público. Provedores e plataformas dos registros de conexão e registros de
acesso a aplicações de Internet. 4. Congelamento do conteúdo de
comunicações privadas e de dados pessoais da paciente, com base no art.
13, § 2º, do Marco Civil da Internet, por determinação do Ministério
Público, sem prévia autorização judicial. Ilegitimidade. 5. A
disponibilização de dados pessoais, comunicações privadas ou
informações relativas a registros de conexão/acesso está condicionada à
determinação do juiz. A exceção fica por conta dos dados cadastrais, que
podem ser alcançados por autoridades administrativas devidamente
autorizadas por lei. Inteligência do art. 10, caput, e §§ 1º, 2º e 3º, da Lei
12.965/2014. 6. No caso concreto, o pedido de congelamento efetuado pelo
GAECO não se limitou aos elementos permitidos pela lei: registros de
conexão e de acesso a aplicações de Internet. 7. Em hipótese alguma o
“histórico de pesquisa, todo conteúdo de e-mail e iMessages, fotos,
contatos e históricos de localização” podem ser considerados registros de
acesso a aplicação de Internet. E mais, o próprio formato da requisição
formulada pelo Ministério Público, buscando dados relativos a período

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que retroage mais de 5 anos, evidencia a desproporcionalidade do pedido


e o descompasso entre a diligência efetuada e o permissivo legal. 8. A
concepção do direito à privacidade como uma garantia individual de
abstenção do Estado na esfera privada individual passou por profundas
transformações no decorrer do século XX. Devido ao próprio avanço das
tecnologias da informação, assistiu-se a uma verdadeira mutação jurídica
do sentido e do alcance do direito à privacidade. A releitura do direito à
privacidade coincide com o desenvolvimento jurisprudencial do conceito
de autodeterminação informacional (die informationelle Selbsstbestimmung)
pelo Tribunal Constitucional Alemão. Essa nova abordagem revelou-se
paradigmática por ter permitido que o direito à privacidade não mais
ficasse estaticamente restrito à frágil dicotomia entre as esferas pública e
privada, mas, sim, se desenvolvesse como uma proteção dinâmica e
permanentemente aberta às referências sociais e aos múltiplos contextos
de uso. 9. A maior abrangência da proteção atribuída ao direito de
autodeterminação repercute no âmbito de proteção do direito à proteção
de dados pessoais, que não recai sobre a dimensão privada ou não do
dado, mas sim sobre os riscos atribuídos ao seu processamento por
terceiros. A força normativa do direito fundamental à proteção de dados
pessoais decorre da necessidade de proteção da dignidade da pessoa
humana, vis-à-vis a contínua exposição dos indivíduos ao risco de
comprometimento da autodeterminação informacional. 10. No caso,
embora o acesso às informações tenha decorrido de decisão judicial, a
própria coleta dos dados, ou congelamento, ocorreu sem a observância
dos procedimentos legais. Noutros termos, se é verdade que o sigilo das
informações não foi vulnerado sem prévia autorização judicial, também é
correto afirmar que o controle da paciente sobre seus dados foi subtraído
sem a observância dos procedimentos legais e sem qualquer ordem
judicial. 11. Uma vez inserida na equação a autodeterminação
informacional, o mero congelamento de dados sem autorização judicial e
fora das hipóteses legais afronta a tutela da privacidade. É
inconstitucional, portanto, a subtração do controle do cidadão sobre suas
informações (congelamento) sem observância das regras de organização e

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procedimento, ainda que a quebra do sigilo em si tenha ocorrido,


posteriormente, mediante ordem judicial. 12. É impossível diferenciar a
amostragem de dados no momento da coleta – congelamento – daquela
que estaria disponível apenas no momento da autorização judicial. A
inviabilidade dessa prognose torna imperioso que, para fins de proteção
dos dados pessoais, não seja exigido da paciente a comprovação de
tentativas de acesso ou modificação do conteúdo. 13. Ao requerer o
congelamento fora das hipóteses legais, o Ministério Público pretendeu
retirar dados pessoais e comunicações privadas do âmbito de
disponibilidade dos investigados. E como tal, a medida afronta não
apenas a legislação, como também o direito à autodeterminação
informativa. 14. Agravos regimentais não providos. 15. Acórdão redigido
nos termos do art. 38, inciso IV, alínea “b”, do RI/STF.
AC ÓRDÃ O
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do
Supremo Tribunal Federal, em Segunda Turma, sob a presidência do
Senhor Ministro Dias Toffoli, na conformidade da ata de julgamento e das
notas taquigráficas, por maioria de votos, negar provimento aos agravos
regimentais, nos termos do voto do Relator, vencidos os Ministros André
Mendonça e Edson Fachin. Redigirá o acórdão o Ministro Gilmar Mendes
(art. 38, IV, b, do RISTF). Não participou deste julgamento o Ministro Dias
Toffoli por suceder a cadeira do Ministro Ricardo Lewandowski na
Turma.
Brasília, Sessão Virtual de 6 fevereiro de 2023.
Ministro GILMAR MENDES
Redator
Documento assinado digitalmente

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AGTE.(S) : MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROC.(A/S)(ES) : PROCURADOR-GERAL DA REPÚBLICA
AGTE.(S) : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PARANÁ
PROC.(A/S)(ES) : PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO
PARANÁ
AGDO.(A/S) : RAQUEL AMARAL CARDOSO
ADV.(A/S) : DANIEL GERBER E OUTRO(A/S)
ADV.(A/S) : YGOR NASSER SALAH SALMEN
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RE LAT Ó RI O

O Senhor Ministro Ricardo Lewandowski (Relator): Trata-se de


agravos regimentais interpostos pelo Ministério Público Federal - MPF e
pelo Ministério Público do Estado do Paraná - MPPR contra a decisão na
qual concedi a ordem para declarar nulos os elementos de prova
angariados em desfavor da paciente a partir do congelamento prévio, sem
autorização judicial, do conteúdo de suas contas eletrônicas, bem assim
de todos os demais que dele decorrem, nos autos da ação penal sob
exame.

No agravo regimental constante do documento eletrônico 59,


interposto pelo MPF, alega-se, em síntese, que:

“5. O art. 13 da Lei nº 12.965/14, que trata da guarda e


registro de conexão no âmbito da internet, estabelece o dever de
guarda de registros e conexão pelo prazo de 1 (um) ano, bem
como prevê a possibilidade de a autoridade policial ou o
Ministério Público requerer, cautelarmente, que os registros
sejam guardados por prazo indeterminado, desde que no prazo
de 60 (sessenta) dias a partir do requerimento, ingresse com o
pedido de autorização judicial de acesso, em prazo superior:
[…]
6. No caso em exame, a atuação do Ministério Público do

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Estado do Paraná atende aos ditames legais. O Parquet requereu


à Apple e ao Google a preservação dos dados em 22/11/2019, e
ingressou com pedido de quebra do sigilo desses dados em
29/11/2019, havendo o Juízo singular deferido o pleito em
03/12/2019. Nesse contexto, o acesso aos dados da ora agravada
ocorreu mediante autorização judicial da quebra de sigilo de
dados telemáticos devidamente fundamentada. No ponto,
destaca-se do acórdão prolatado pela Corte a quo:
[…]
8. Os Ofícios expedidos à Apple e ao Google apenas
solicitavam que tais empresas preservassem os dados
telemáticos da investigada, a fim de proteger elementos de
prova indispensáveis à comprovação dos crimes. […].
9. Ao contrário do que consta na decisão combatida, o
objetivo do Parquet não é: ‘requisitar aos provedores da internet,
sem a devida autorização judicial, a indisponibilidade de dados
telemáticos de qualquer investigado’. O ofício expedido pelo
Ministério Público gera um dever de preservação dos dados
para o provedor, ou seja, que seja realizado um back up de
dados, que somente será acessado na medida e na extensão da
autorização expressa na ordem judicial. Os titulares dos dados
não perdem o acesso a eles, inclusive eventualmente podem
apagá-los – por isso a indispensável preservação para não por
em risco as investigações.
[…]
11. Não há, no caso em exame, uma interpretação
ampliativa dos poderes conferidos às autoridades públicas para
requererem a preservação de dados sem a indispensável
autorização judicial correspondente. Pretende-se, tão somente,
proteger possíveis provas e garantir a ampla investigação dos
fatos ocorridos.
[…]
13. Assim, não há que se falar em nulidade dos elementos
de prova angariados em desfavor da paciente a partir do
congelamento prévio requisitado pelo Ministério Público,
porquanto não houve qualquer violação à legislação aplicável, à

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inviolabilidade do sigilo das comunicações ou ao direito à


privacidade.
14. Acresce que, não se aplica ao caso concreto a ADPF
403/SE. O STJ assevera expressamente, no julgamento objeto do
presente writ:
[…]
15. A matéria também é tratada na Convenção de
Budapeste sobre o Crime Cibernético, cuja adesão foi aprovada
pelo Brasil em dezembro de 2021. Dentre os dispositivos
aplicáveis, destaca-se o artigo 16º, item 1, que prevê: ‘cada parte
adoptará as medidas legislativas e outras que se revelem
necessárias para permitir às suas autoridades competentes
exigir ou obter de uma outra forma a conservação expedita de
dados informáticos específicos, incluindo dados relativos ao
tráfego, armazenados por meio de um sistema informático,
nomeadamente nos casos em que existem motivos para pensar
que os mesmos são susceptíveis de perda ou alteração’.
16. No art. 18º, item 1: ‘Cada Parte adoptará as medidas
legislativas e outras que se revelem necessárias para habilitar as
suas autoridades competentes para ordenar: (…) b) a um
fornecedor de serviços que preste serviços no território da
Parte, que comunique os dados na sua posse ou sob seu
controlo, relativos aos assinantes e respeitantes a esses serviços’.
17. Cumpre salientar, por fim, a inaplicabilidade da Lei
Geral de Proteção de Dados Pessoais ao processo penal, nos
termos de seu art. 4º, III, d: […].” (págs. 6-11 do documento
eletrônico 59)

Requer, ao final, a reconsideração da decisão agravada ou o


recebimento do agravo regimental, “[…] apresentando-se o feito em
mesa, para o competente pronunciamento do douto Colegiado”. (pág. 11
do documento eletrônico 11)

No agravo regimental constante do documento eletrônico 62, o


MPPR secunda a argumentação do MPF e requer a reforma da decisão
com a consequente denegação da ordem de habeas corpus, pelas razões

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seguintes:

“a) os ofícios expedidos pelo Ministério Público aos


provedores Apple e Google não extrapolaram os limites fixados
pela Lei do Marco Civil da Internet, eis que se restringiram ao
pedido de preservação dos dados e não da disponibilização de
seu conteúdo (o que se encontra envolto pela reserva de
jurisdição);
b) o efetivo atendimento das demandas pelos provedores
se deu, exclusivamente, em razão da decisão judicial
autorizando a quebra de sigilo dos dados telemáticos da
paciente, inexistindo nexo causal entre os ofícios tidos como
nulos e a suposta indisponibilização dos dados; e
c) o princípio pas de nullité sans grief exige a demonstração
de prejuízo suportado pela parte para que um ato seja
declarado nulo. A defesa não demonstrou que a paciente foi
prejudicada pelos ofícios que sequer deram causa ao
descobrimento das provas, bem como não comprovou que teria
tentado, sem êxito, dispor ou apagar os dados mantidos pela
APPLE.
Por fim, tem-se que o habeas corpus não é o remédio
adequado para reexaminar o material probatório da ação penal
para, eventualmente, concluir-se pela ocorrência de prejuízo.”
(pág. 34 do documento eletrônico 62; grifos no original)

Intimada, a agravada apresentou contrarrazões (documento


eletrônico 67).

Marcelo Alvarenga Panizzi peticionou nos autos pedindo o ingresso


como terceiro interessado, “[…] vez que também figura como denunciado
no autos de Ação Penal nº 0014768- 70.2020.8.16.0013, o qual guarda
relação direta com o presente recurso”. (documento eletrônico 55)

A seu turno, a Associação Nacional dos Membros do Ministério


Público – Conamp solicitou a sua admissão na condição de amicus curiae,

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com fundamento no art. 138 do CPC/2015. Explica que, além de possuir


inquestionável representatividade, sua participação se revela pertinente,
já que “[…] a matéria tratada no Habeas Corpus repercute diretamente em
prerrogativas, funções institucionais e na própria missão constitucional
do Ministério Público brasileiro”. (pág. 4 do documento eletrônico 69).

O MPF juntou memorial elaborado pelo Grupo de Apoio Sobre a


Criminalidade Cibernética – GACC, reforçando, em linhas gerais, que

“[…] o pedido de preservação dos dados armazenados


deve necessariamente ser feito pelas autoridades competentes
que estão à frente da investigação, quais sejam, a autoridade
policial ou administrativa ou o Ministério Público, na esteira
dos termos do Marco Civil da Internet, uma vez que precisa ser
feito de forma muito rápida para evitar o perecimento dos
dados, justamente porque não saem da disponibilidade do
usuário.” (pág. 9 do documento eletrônico 75)

Na sequência, o impetrante compareceu aos autos pleiteando o


ingresso - na qualidade de amicus curiae - do Conselho Federal da Ordem
dos Advogados do Brasil, nos seguintes moldes:

“1. Tendo em vista o relevantíssimo interesse público na


matéria discutida no referenciado habeas corpus, eis que trata
de afronta a Direitos Fundamentais, bem como a movimentação
do Ministério Público Federal e Estadual para reverter a decisão
desse eminente Ministro Relator, torna-se imprescindível o
ingresso do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do
Brasil aos autos epigrafados na condição de amicus curiae.
2. Isso porque aquela Instituição tem como escopo a
defesa da Constituição, da ordem jurídica do Estado
Democrático de Direito e da boa aplicação das leis, consoante
previsto no artigo 44 da Lei 8.906, razão pela qual poderá
contribuir com a discussão ora debatida.
3. Por este motivo, o Impetrante requer seja solicitada a

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sua participação na presente demanda, com base no artigo 138


do Código de Processo Civil combinado com artigo 3º do
Código de Processo Penal.” (págs. 1-2 do documento eletrônico
77)

Indeferi o ingresso dos amici curiae, nos termos da decisão eletrônica


79, por não constatar a presença dos requisitos legais para a intervenção
de terceiros nestes autos.

É o relatório.

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VOTO

O Senhor Ministro Ricardo Lewandowski (Relator): Bem


reexaminados os autos, tenho que a decisão ora atacada não merece
reforma ou qualquer correção, pois os seus fundamentos harmonizam-se
estritamente com a jurisprudência desta Suprema Corte que orienta a
matéria em questão.

Inicialmente, reafirmo que, apesar de o presente writ ter sido


impetrado em substituição a recurso ordinário, inexiste óbice ao seu
conhecimento, na linha do que decidiu o Plenário deste Supremo
Tribunal no julgamento do HC 152.752/SP, relator Ministro Edson Fachin.
Cito, ainda, o voto por mim proferido no julgamento do HC 164.493/PR,
redator para o acórdão o Ministro Gilmar Mendes.

Na sequência, relembro que é desnecessário o revolvimento de


matéria fático-probatória na hipótese, pois é incontroverso que o
Ministério Público do Estado do Paraná expediu ofícios aos provedores
Apple e Google, solicitando a preservação de informações nas contas dos
sócios da empresa Infosolo, dentre as quais, “[…] informações cadastrais,
histórico de localização e pesquisas, conteúdo de e-mails e
iMessages/hangouts, fotos e nomes de contatos [...]” (documento eletrônico
2). A solicitação prévia encaminhada pelo Parquet determinava o
congelamento dos dados desde 1º/6/2017, ao passo que o pedido de
quebra de sigilo da paciente só foi submetido ao Juízo em 29/11/2019,
sendo deferido em 3/12/2019 (documentos eletrônicos 3 e 4).

Por outro lado, a alegação ministerial de que os ofícios não


resultaram na resposta da Apple e Google – sim essa - leva à necessidade
de revolvimento fático-probatório, o que não se concebe nesta via estreita.
O que se afirma nesta seara diz respeito a um procedimento ofensivo às
balizas legais, para além do que é autorizado, por mais tempo do que se

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determina, de registros de conexão e de acesso a aplicações de internet.


Então, o tema aqui versará exclusivamente sobre o que aconteceu antes
da autorização judicial e fora do rol taxativo de hipóteses legais para a
preservação da integralidade do conteúdo telemático da agravada.

Ademais, nem se diga, com a devida vênia, sobre ausência de


prejuízo. Ora, no caso concreto, o prejuízo suportado pela investigada me
parece evidente, até porque já foi denunciada e tornando-se ré nos autos
de uma ação penal, com todas as consequências sabidamente daí
advindas. E assim o foi, ao menos em parte, em razão da ilegal
impossibilidade de administrar uma vasta gama de informações
íntimas/pessoais, mesmo sem que houvesse qualquer decisão judicial
impondo-lhe essa proibição. Sob tal enfoque, afigura-se intuitivo que o
congelamento dos dados telemáticos violou, por diversas formas, uma
gama de direitos individuais da paciente.

Pois bem. De saída, sublinho que inexiste, nestes autos, nenhuma


discussão a respeito da constitucionalidade de dispositivos da Lei
12.965/2014 (Marco Civil da Internet), tampouco da validade das
inovações normativas trazidas por esse importante marco legal. Bem ao
contrário, o presente writ discute exclusivamente a validade de parte –
não da integralidade - da prova colhida no caso concreto, ou seja, apenas
se, parcialmente, a prova arrecadada durante essa específica investigação
ultrapassou ou não as prerrogativas dadas ao Ministério Público pela lei
regente.

Com efeito, antes mesmo do advento da Lei Geral de Proteção de


Dados Pessoais (Lei 13.709/2018), a consolidar, de forma ampla e efetiva, a
preservação dessas informações de ordem subjetiva, em boa hora, o
Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014) trouxe relevantes balizas sobre
esse mesmo tema, remetendo às mais diversas problemáticas que o
mundo pós-moderno impõe. Exemplo disso é a Emenda Constitucional
115/2022, que incluiu o direito à proteção dos dados pessoais, inclusive

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nos meios digitais, no art. 5º da Constituição Federal (LXXIX), mostrando


que vive-se ainda em um momento embrionário, mas de extrema
consideração e preocupação acerca do tema da privacidade no Brasil.

Ainda sobre esse ponto introdutório, ao tratar do direito à


privacidade, da guarda e da disponibilização dos registros de conexão e
de acesso a aplicações de internet, na forma disposta no art. 10 da Lei
12.965/2014, a doutrina especializada destaca o seguinte:

“Fica evidente no caput do art. 10 da lei 12.965/14 (MCI) de


forma clara, a preocupação do legislador com a privacidade.
Esta que é um Direito fundamental, além de ser um direito da
personalidade, tem por regra a sua proteção, tanto de dados
cadastrais, quanto dados de registro. O que revela a
necessidade de que seus tratamentos e eventuais exposições,
ocorram única e exclusivamente dentro das balizas e exceções
legislativas. Isto posto, a privacidade encontra sua barreira
restritiva, frente às requisições judiciais, é o que fica
evidenciado nos parágrafos do próprio art. 10:
‘§ 1º O provedor responsável pela guarda somente
será obrigado a disponibilizar os registros mencionados
no caput, de forma autônoma ou associados a dados
pessoais ou a outras informações que possam contribuir
para a identificação do usuário ou do terminal, mediante
ordem judicial, na forma do disposto na Seção IV deste
Capítulo, respeitado o disposto no art. 7º .
§ 2º O conteúdo das comunicações privadas somente
poderá ser disponibilizado mediante ordem judicial, nas
hipóteses e na forma que a lei estabelecer, respeitado o
disposto nos incisos II e III do art. 7º .
§ 3º O disposto no caput não impede o acesso aos
dados cadastrais que informem qualificação pessoal,
filiação e endereço, na forma da lei, pelas autoridades
administrativas que detenham competência legal para a
sua requisição.
§ 4º As medidas e os procedimentos de segurança e

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de sigilo devem ser informados pelo responsável pela


provisão de serviços de forma clara e atender a padrões
definidos em regulamento, respeitado seu direito de
confidencialidade quanto a segredos empresariais.’
Pelos parágrafos 1º e 2º, que tratam tanto dos registros,
como do próprio conteúdo das comunicações, temos de forma
expressa, que a restrição legislativa imposta à privacidade, se
dá por meio de ordem judicial, e apenas desta forma, o sigilo
pode ser quebrado e as informações expostas, sob pena de ser
considerada uma prova ilícita, caso tenham acesso sem a
referida ordem.
[...]
Encontramos maior problemática, quando adentramos à
inteligência do parágrafo 3º do referido artigo, pois este, traz
uma exceção expressa as demais normas postas nos parágrafos
anteriores, assim como ao caput.
O MCI excepcionou a regra da necessidade de ordem
judicial, permitindo que as autoridades administrativas,
obtenham acesso aos dados cadastrais, que informem
qualificação pessoal, filiação (a fim de evitar homônimos) e
endereço, mediante requisição direta, desta forma, importante
se faz a necessidade de delimitar os limites desta exceção. Fica
evidente pelo texto legal, que a exceção apenas se aplica aos
dados cadastrais de qualificação pessoal, filiação e endereço,
qualquer pedido que extrapole os limites expressamente
impostos pela letra da lei, se caracterizariam como um abuso
de poder”. (Laura Porto, Disponível em: https: / /www.
migalhas. com. Br/depeso/380308/reflexoes – sobre-o-art-10-do-
marco- civil-da-internet-lei-12-965-14. Acesso em 27/3/2023,
grifei)

Volvendo os olhos para o caso sob exame, rememoro, mais uma vez,
que o debate recai sobre o ato do Ministério Público do Estado do Paraná
em expedir ofícios a provedores de internet, sem autorização judicial,
determinando a preservação dos dados e IMEIs, informações cadastrais,
histórico de localização e pesquisas, conteúdo de e-mails e

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HC 222141 A GR / PR

iMessages/hangouts, fotos e nomes de contatos de pessoas investigadas.

E para que não haja espaço para nenhuma dúvida sobre o que se
discute no caso concreto, a lei é didática e traz todos os conceitos
necessários para o deslinde da controvérsia.

Segundo o art. 13, § 2º, da Lei 12.965/2014, “a autoridade policial ou


administrativa ou o Ministério Público poderá requerer cautelarmente
que os registros de conexão sejam guardados”, por prazo superior a 1
ano, cabendo à autoridade requerer a devida autorização judicial para
acesso a eles no prazo de até 60 dias. O diploma é autoexplicativo, pois,
permite o congelamento prévio, pelo Parquet, sem autorização judicial,
apenas dos chamados “registros de conexão”.

Para que fique claro, a própria lei regente dá o conceito de“registros


de conexão”. Ele está no seu art. 5º, VI, estabelecendo que eles consistem
no “conjunto de informações referentes à data e hora de início e término
de uma conexão à internet, sua duração e o endereço IP utilizado pelo
terminal para o envio e recebimento de pacotes de dados” (grifei).

Sobre o tema, extraem-se, ainda, informações do sítio oficial da Casa


Civil acerca do sentido do termo “registros de conexão”:

“Registros de conexão - IP atribuído ao computador, hora


e data de início e término de sua conexão à Internet: Cada vez
que um computador é conectado à Internet, ele é identificado
por um número de endereço IP, que identifica aquela conexão
(em alguns casos, uma mesma conexão pode ser partilhada por
mais de um terminal, sendo que todos eles serão identificados
na Internet pelo mesmo número IP (este é o caso dos roteadores
wifi domésticos, por exemplo). São as empresas que prestam o
serviço de conexão que atribuem aos seus usuários os
endereços IP. Essas empresas, como qualquer prestadora de
serviço, mantêm cadastros de seus usuários. Logo, um

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provedor de conexão já é capaz, hoje, de identificar seus


usuários a partir do endereço IP. (CASA CIVIL. Perguntas e
respostas sobre Marco Civil da Internet. Disponível em: https://
casa- civil. [Link]/ noticias /2816963/ perguntas-e-
respostas-sobre-marco-civil-da-internet >. Acesso em
22/11/2022).

Ora, a lei autoriza ao Ministério Público o requerimento de


preservação de registros de conexão - repita-se -, em conceitos legais,
relativos a: (i) data e hora de início e término da conexão; (ii) a sua
duração; e (iii) endereços IP utilizados pelos terminais para o envio e
recebimento de pacotes de dados. Isso é tudo. Entretanto, no caso sob
exame, a acusação pleiteou muito mais aos provedores, buscando a
preservação dos “dados e IMEI’s coletados nas contas vinculadas aos
investigados, informações cadastrais, histórico de localização e pesquisas,
conteúdo de e-mails e iMessages/hangouts, fotos e nomes de contatos”.

A distância entre aquilo que se pode fazer e aquilo que se fez é


axiomática.

O direito de qualquer cidadão de administrar e dispor do conteúdo


pessoal de e-mails, mensagens, contatos e históricos de localização é uma
garantia individual enrijecida pelo direito à preservação da intimidade,
da vida privada, da honra e da imagem das pessoas (art. 5º, X, da
Constituição Federal).

Conforme destaquei na decisão recorrida,

“[…] o inciso XII do Texto Maior proclama que ‘é


inviolável o sigilo da correspondência e das comunicações
telegráficas, de dados e das comunicações telefônicas, salvo, no
último caso, por ordem judicial, nas hipóteses e na forma que a
lei estabelecer para fins de investigação criminal ou instrução
processual penal’.
A jurisprudência desta Suprema Corte tem afirmado

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reiteradamente que o inciso XII do art. 5º da Carta Magna


protege o sigilo das comunicações em fluxo (troca de dados e
mensagens). Assenta também que o sigilo das comunicações
armazenadas, como depósito registral, é tutelado pela previsão
constitucional do direito à privacidade, na forma do inciso X do
art. 5º, CF (cito o HC 91.867/PA, relator Ministro Gilmar
Mendes). No campo infraconstitucional, o Marco Civil da
Internet (Lei 12.965/2014) traça os princípios aplicáveis em
nosso ordenamento, enumerados no art. 3º, tal como o da
proteção da privacidade e dos dados pessoais, assegurando,
outrossim, a inviolabilidade e sigilo do fluxo de suas
comunicações e sigilo de suas comunicações privadas
armazenadas, ressalvada ordem judicial de sua quebra (art. 7º
da mencionada lei)”. (págs. 8-9 do documento eletrônico 48)

Nesse ponto, no âmbito acadêmico e com apoio na doutrina de


Tercio Ferraz, o Ministro Alexandre de Moraes leciona que:

“A inviolabilidade do sigilo de dados (art. 5º, XI)


complementa a previsão ao direito à intimidade e vida privada
(art. 5º, X), sendo ambas as previsões de defesa da privacidade
regidas pelo princípio da exclusividade, que pretende
assegurar ao indivíduo, como ressalta Tercio Ferraz, a
‘sua identidade diante dos riscos proporcionados
pela niveladora pressão social e pela incontrastável
impositividade do poder político. Aquilo que é exclusivo é
o que passa pelas opções pessoais, afetadas pela
subjetividade do indivíduo e que não é guiada nem por
normas nem por padrões objetivos. No recôndito da
privacidade se esconde, pois, a intimidade. A intimidade
não exige publicidade porque não envolve direitos de
terceiros. No âmbito da privacidade, a intimidade é o
mais exclusivo dos seus direitos’.
Dessa forma, a defesa da privacidade deve proteger o
homem contra: (a) a interferência em sua vida privada, familiar
e doméstica; (b) a ingerência em sua integridade física ou

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mental , ou em sua liberdade intelectual e moral; (c) os ataques


à sua honra e reputação; (d) sua colocação em perspectiva falsa;
(e) comunicação de fatos relevantes e embaraçosos relativos à
sua intimidade; (f) o uso de seu nome, identidade e retrato; (g)
a espionagem e a espreita; (h) a intervenção na
correspondência; (i) a má utilização de informações escritas e
orais; (j) a transmissão de informes dados ou recebidos em
razão do segredo profissional.” (Direito Constitucional. 33. ed.
São Paulo: Atlas, 2017. p. 74; grifei)

Ao contrário do que afirmado pelos agravantes, a decisão


impugnada afastou, sobejamente, a premissa de que o art. 13, § 2º, da Lei
12.965/2014 supostamente autorizaria a autoridade policial ou o
Ministério Público a implementarem medidas semelhantes ao que fez o
órgão acusatório do Paraná, ao fazer - insisto – a clara e objetiva
diferenciação entre os conceitos técnicos conferidos pela legislação.
Naquele decisum descrevi, minuciosamente, a diferença entre: (i) acesso
aos registros de conexão (conjunto de informações referentes à data e
hora de início e término de uma conexão à internet, sua duração e o
endereço IP utilizado pelo terminal para o envio e recebimento de pacotes
de dados); e (ii) utilização/preservação/congelamento dos dados
telemáticos de qualquer investigado (conteúdo de e-mail,
iMessages/hangouts, fotos, contatos, históricos, dentre outros).

Em obra dedicada ao tema, Adriano Marteleto Godinho e Wilson


Furtado Roberto ponderam o seguinte:

“Da análise do texto dos incisos VI e VIII do art.5º,


constata-se que o propósito do art. 13 do Marco Civil da
Internet consiste em disciplinar, de forma exclusiva, a
manutenção dos registros de conexão, que abarcam apenas
informações relativas ao termo inicial e final de uma conexão
- e, consequentemente, sua duração - e o endereço IP, isto é, o
endereço de protocolo da internet, qualificado como ‘o código
atribuído a um terminal de uma rede para permitir sua

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identificação, definido segundo parâmetros internacionais’ pelo


inciso III do mesmo art. 5º. A disponibilização dos registros de
conexão, pois, não revela dados pessoais do usuário
responsável pelo acesso à rede, tais como nome, endereço e
informações de identificação (CPF, RG e outras) - cabendo
salientar, a propósito, que o Marco Civil da Internet sequer
especifica quais dados cadastrais devem ser cobrados pelo
utente no momento da contratação do serviço de acesso à
Internet junto ao provedor. Ademais, da guarda de registros de
acesso a aplicações de Internet cuidam os arts. 14 e 15 da Lei,
ficando sua análise à margem do escopo central deste capítulo,
destinado a investigar de que modo se dará a guarda exclusiva
de registros de conexão e o eventual requerimento judicial para
o fornecimento de tais dados.”(GODINHO, Adriano Marteleto
e ROBERTO, Wilson Furtado, in LEITE, George Salomão e
LEMOS, Ronaldo, Coord. Marco Civil da Internet. 2 ed. São
Paulo: Atlas. 2015, págs. 744-745, grifei).

Os mesmos autores demonstram certa perplexidade com o risco de


interpretações ampliativas dos poderes dados às autoridades públicas
para requererem a preservação de dados sem que haja autorização
judicial a este respeito, litteris:

“Há, todavia, certos aspectos nebulosos relativamente ao


modo que a lei regulamentou, em particular, a guarda dos
registros de conexão. Sabe-se, do teor do já analisado art. 13 do
Marco Civil, que a obrigação de manutenção destes dados
perdura por um período de um ano, estabelecendo o § 2º do
próprio dispositivo que tanto a autoridade policial ou
administrativa quanto o Ministério Público podem requerer
cautelarmente que os registros de conexão fiquem armazenados
sigilosamente por lapso temporal mais extenso. E, para já,
surgem algumas indagações acerca dos exatos contornos para a
solicitação em questão. Salta aos olhos a possibilidade de não
apenas o órgão ministerial, como também a autoridade
policial ou administrativa virem a solicitar a ampliação do

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aludido prazo. E, à falta de previsão legal específica, resta


indagar: quem seria a tal ‘autoridade administrativa’
competente para tais fins? Diante da omissão legislativa, resta
ainda questionar: por quanto tempo os dados continuariam a
ser preservados? Não se estaria, afinal, conferindo amplíssima
margem ao Estado para intervir nos domínios da internet?”
(Op. Cit., pág. 751, grifei)

Outrossim, foi devidamente elucidado que – de acordo com o firme


entendimento desta Suprema Corte - a privacidade alcança “[…] o direito
de manter o controle sobre a sua própria informação e de determinar a
maneira de construir sua própria esfera pública”. (pág. 11 do documento
eletrônico 48). Desse modo, o congelamento de dados telemáticos, na
extensão buscada pela acusação, seja para utilização atual ou futura em
processo crime, não pode se dar sem prévia autorização judicial.

E mais, o supracitado art. 10, § 1º, do Marco Civil da Internet, ao


tratar de forma específica da proteção aos registros, dados pessoais e
comunicações privadas, é claro quanto à possibilidade de fornecimento
de informações de acesso (registro de conexão e registro de acesso a
aplicações de internet), desde que sejam requisitados por ordem de um
juiz.

A possibilidade de o cidadão administrar e dispor sobre o conteúdo


pessoal de e-mails, mensagens, contatos e históricos de localização é uma
garantia individual enrijecida pelo direito à preservação da intimidade,
da vida privada, da honra e da imagem das pessoas (art. 5º, X e XII, da
Constituição Federal), e somente pode ser mitigada sob a ótica
constitucional nos casos expressamente autorizados por lei e, no que
importa no caso concreto, nos limites estritos dessa autorização.
Entendimento diverso permitiria que autoridades de investigação,
independentemente de decisão judicial, realizassem a busca e apreensão
prévia de conteúdos e seu congelamento, para posterior formalização da
medida por ordem judicial, em prática vedada por qualquer stantard que

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se extraia da ordem constitucional vigente.

Por fim, vale registrar que a submissão da medida requerida pelo


Ministério Público do Estado do Paraná à prévia autorização judicial não
conflita com os arts. 16º, item 1, e art. 18º, item 1, b, da Convenção de
Budapeste. Eis o teor dos dispositivos:

“Art. 16º – Conservação expedita de dados informáticos


armazenados
1. Cada parte adotará as medidas legislativas e
outras que se revelem necessárias para permitir às suas
autoridades competentes exigir ou obter de uma outra
forma a conservação expedita de dados informáticos
específicos, incluindo dados relativos ao tráfego,
armazenados por meio de um sistema informático,
nomeadamente nos casos em que existem motivos para
pensar que os mesmos são susceptíveis de perda ou
alteração.”

“Art. 18 – Injunção
1. Cada Parte adotará as medidas legislativas e outras que
se revelem necessárias para habilitar as suas autoridades
competentes para ordenar:
[…]
b) a um fornecedor de serviços que preste serviços no
território da Parte, que comunique os dados na sua posse ou
sob seu controlo, relativos aos assinantes e respeitantes a esses
serviços.”

Conforme se verifica, referidas normas, por mais que se esforce o


intérprete, não afastam ou restringem a incidência da cláusula pétrea da
reserva de jurisdição na hipótese.

Ante o quadro, considerando o modelo constitucional vigente e a


venerável tradição jurídica pátria, não há como cogitar, como alegam os

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agravantes, que a submissão judicial prévia para acesso ou preservação


de dados acobertadas pelo direito à intimidade, à imagem e à vida
privada signifique prejuízo ao combate da criminalidade, bastando, para
tanto, que as autoridades investigativas guardem reverência aos limites
constitucionais de sua atuação.

Portanto, caberá ao juízo a quo indicar, precisamente, a prova ora


declarada inválida e que tenha sido arrecadada na investigação, ou seja:
(i) todo e qualquer material, seja ele qual for, que seja anterior a
3/12/2018, pois ultrapassado o prazo de 1 ano (art. 13, caput, da Lei
12.965/2014), contado do dia em que deferida judicialmente a quebra do
sigilo, ou seja, 3/12/2019 (doc. eletrônico 4); e (ii) todo material que não
se enquadre no conceito de “registros de conexão” (art. 5º , VI, da Lei
12.965/2014) no período compreendido entre 3/12/2018 e 3/12/2019.

Na forma do art. 157 do CPP, as provas ilícitas deverão ser


desentranhadas dos autos, não podendo ser mantidas sob o
fundamento de validade daquele conteúdo precisamente identificado
como ilícito, nos exatos termos dessa decisão.

Em seguida, o magistrado de origem deverá reavaliar, após o


devido contraditório das partes, quanto à existência de justa causa para
o prosseguimento da ação penal, abstendo-se a acusação, ainda, de fazer
uso de tais elementos em quaisquer outros procedimentos
investigatórios porventura existentes.

Por fim, no que tange ao pleito formulado por Marcelo Alvarenga


Panizzi (documento eletrônico 55), tratando-se de coautoria, aplica-se ao
caso justamente o art. 580, do CPP, de modo a permitir que a decisão
prolatada neste habeas corpus, estritamente quanto às provas consideradas
inválidas, estenda-se ao peticionante, por não ter sido baseada em
motivos de caráter exclusivamente pessoal.

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Voto - MIN. RICARDO LEWANDOWSKI

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HC 222141 A GR / PR

Em face do exposto, nego provimento aos agravos regimentais.

É como voto.

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Extrato de Ata - 18/04/2023

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SEGUNDA TURMA
EXTRATO DE ATA

[Link]. NO HABEAS CORPUS 222.141


PROCED. : PARANÁ
RELATOR : MIN. RICARDO LEWANDOWSKI
AGTE.(S) : MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROC.(A/S)(ES) : PROCURADOR-GERAL DA REPÚBLICA
AGTE.(S) : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PARANÁ
PROC.(A/S)(ES) : PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PARANÁ
AGDO.(A/S) : RAQUEL AMARAL CARDOSO
ADV.(A/S) : DANIEL GERBER (47827/DF, 39879/RS, 473254/SP, 10.482-
A/TO) E OUTRO(A/S)
ADV.(A/S) : YGOR NASSER SALAH SALMEN (75151/PR)
INTDO.(A/S) : SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

Decisão: Após o voto do Ministro Ricardo Lewandowski


(Relator), que negava provimento aos agravos regimentais, pediu
vista dos autos o Ministro André Mendonça. Falou, pelo agravante
Ministério Público Federal, a Dra. Maria Caetana Cintra Santos,
Subprocuradora-Geral da República. Segunda Turma, Sessão Virtual
de 7.4.2023 a 17.4.2023.

Composição: Ministros André Mendonça (Presidente), Gilmar


Mendes, Ricardo Lewandowski, Edson Fachin e Nunes Marques.

Hannah Gevartosky
Secretária

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Voto Vista

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18/09/2023 SEGUNDA TURMA

[Link]. NO HABEAS CORPUS 222.141 PARANÁ

VOTO-VISTA

AGRAVOS REGIMENTAIS NO HABEAS


CORPUS. MARCO CIVIL DA INTERNET.
PRESERVAÇÃO DE DADOS
TELEMÁTICOS. PRAZO MÍNIMO DE
GUARDA DOS REGISTROS. NULIDADE:
INEXISTÊNCIA. NECESSIDADE DE
DEMONSTRAÇÃO DO NEXO DE
CAUSALIDADE.
1. A prova digital carece de regulamentação
suficiente sobre o modo de produção,
obtenção e análise dos vestígios, exigindo
das autoridades encarregadas da
persecução penal necessário juízo de
ponderação entre a eventual frustração do
princípio da oportunidade investigativa,
pelo eventual risco de imprestabilidade ou
frustração da investigação, e os direitos e
garantias dos investigados.
2. A previsão dos arts. 13 e 15 da Lei nº
12.965, de 2014 (Marco Civil da Internet) de
guarda dos registros, seu prazo e
disponibilização se relaciona com a
possibilidade de identificação da autoria de
ilícitos praticados pela internet, tanto de
natureza civil como penal, garantida a
preservação da intimidade, da vida privada,
da honra e da imagem das partes direta ou
indiretamente envolvidas. Assim, a
obrigação legal se destina aos provedores

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Voto Vista

Inteiro Teor do Acórdão - Página 25 de 83

HC 222141 A GR / PR

como dever de guarda por período mínimo,


não máximo, atrelado à viabilidade de
produção probatória.
3. O pedido extrajudicial de preservação de
dados ou conteúdo telemáticos não
encontra previsão legal expressa, haja vista
que a Lei nº 12.965, de 2014 (Marco Civil da
Internet) não tratou diretamente do
regramento sobre a forma de produção
probatória de ilícitos criminais, civis e
administrativos praticados por meio da
internet. Da mesma forma, tal medida não
foi prevista na regulamentação da cadeia de
custódia pelo Código de Processo Penal,
com a nova redação conferida pela Lei nº
13.964, de 2019, tampouco por meio do
Decreto nº 11.491, de 12/04/2023, que
promulgou a Convenção sobre o Crime
Cibernético (CCIBER ou Convenção de
Budapeste).
4. Entretanto, tal medida não se apresenta
com meio de produção ou obtenção de
provas, pois dela não decorre resultado
probatório com a incorporação das fontes
de prova ao processo, frustrando o
princípio da causalidade, decorrente da
teoria das nulidades no processo penal.
5. No caso concreto, não restou
demonstrado, ainda, nexo de causalidade
entre o pedido de preservação de dados e
sua interferência no conteúdo do material
disponibilizado validamente por decisão
judicial.

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HC 222141 A GR / PR

6. Não sendo perceptível prima facie a


alegada contaminação das provas derivadas
da decisão judicial que afastou o sigilo
telemático, torna-se inviável, ao menos na
via do habeas corpus, assentar sua ilicitude.
7. Agravos regimentais providos.

O SENHOR MINISTRO ANDRÉ MENDONÇA:

1. Trata-se de agravos regimentais interpostos pelo Ministério


Público Federal e pelo Ministério Público do Estado do Paraná contra
decisão monocrática do Ministro Relator, mediante a qual deferida a
ordem em habeas corpus “a fim de declarar nulos os elementos de prova
angariados em desfavor da paciente a partir do congelamento prévio, sem
autorização judicial, do conteúdo de suas contas eletrônicas, bem como de todos
os demais que dele decorrem, nos autos da ação penal ora em comento” (e-doc.
48).

2. Colhe-se dos autos que a agravada foi denunciada, em 13/08/2020,


pela prática, em tese, dos crimes do art. 2º, § 4º, inc. II, da Lei nº 12.850, de
2013 (organização criminosa com participação de funcionário público);
art. 299, parágrafo único, do Código Penal, por três vezes (falsidade
ideológica); arts. 89, última parte e parágrafo único, e 92, caput e
parágrafo único, da Lei nº 8.666, de 1993 (crime licitatório); art. 4º, inc. I,
c/c o art. 11 da Lei nº 8.137, de 1990 (abuso do poder econômico). Os fatos
estariam relacionados a um esquema de organização criminosa e fraude a
licitações envolvendo funcionários do Detran/PR, com intuito de
direcionar o certame licitatório em favor da empresa representada pela
agravada, na qualidade de diretora comercial e de tecnologia.

3. No decorrer das investigações, o Ministério Público do Estado do


Paraná solicitou “a preservação dos dados e IMEI coletados a partir das contas
de usuários vinculadas, tais como dados cadastrais, histórico de pesquisa, todo

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conteúdo de e-mail e iMessages, fotos, contatos e históricos de localização, desde a


data de 01.06.2017 até o presente momento”, em ofício enviado aos
provedores em 22/11/2019, ingressando com pedido de quebra de sigilo
em 29/11/2019, cuja decisão judicial foi proferida em 03/12/2019.

4. Na tese dos impetrantes, o pedido extrajudicial exorbitaria os


limites legais, revestindo-se de verdadeira medida cautelar sob reserva de
jurisdição, porquanto:

(i) o conteúdo de e-mail e iMessages, fotos, contatos e históricos de


localização não faria parte do conceito de “registros de acesso a aplicações de
internet” ou “registros de conexão”, albergados pela notificação
extrajudicial, prevista nos arts. 13, § 2º, e 15, § 2º, da Lei nº 12.965, de 2014
(Marco Civil da Internet — MCI);

(ii) inexiste dever de guarda do conteúdo de dados telemáticos


imposto pelo MCI, na linha do que assentou a eminente Ministra Rosa
Weber no voto condutor na ADI nº 5.527/DF, razão pela qual o
requerimento do MP não encontra amparo legal;

(iii) impediu a livre utilização e o controle sobre a própria


informação, por parte de seus titulares, referente a todos os dados que
estivessem armazenados nas mencionadas plataformas, manipulando a
possibilidade de serem acessados e dispostos, em flagrante violação ao
direito à preservação da intimidade, da vida privada, da honra e da
imagem das pessoas, disposto no art. 5º, inc. XII, da Constituição da
República, conforme óptica adotada no voto condutor do e. Ministro
Edson Fachin na ADPF nº 403/DF, e à proteção aos direitos fundamentais
da pessoa humana reforçados pela Lei nº 12.965, de 2014;

(iv) a posterior concessão de acesso ao conteúdo dos dados


telemáticos por força de decisão judicial não torna legítimo verdadeiro
“congelamento” prévio da sua disponibilidade, sem autorização legal,

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por medida extrajudicial.

5. A defesa requereu, assim, fossem “declarados nulos dos elementos de


prova angariados em desfavor da Paciente a partir do congelamento prévio e
despido de autorização judicial do conteúdo de suas contas, nos autos da ação
penal ora em comento, tudo por violação ao princípio do juiz natural (CF, art. 5º,
inciso LIII) e por violação ao princípio da jurisdicionalidade” (e-doc. 1, p. 20-
21).

6. O acórdão proferido pela 6ª Turma do Superior Tribunal de


Justiça, que denegou a ordem no HC nº 626.983/PR, restou assim
ementado (e-doc. 32):

“HABEAS CORPUS. MARCO CIVIL DA INTERNET. LEI


12.965/2014. MINISTÉRIO PÚBLICO. PROVEDORES E
PLATAFORMAS DOS REGISTROS DE CONEXÃO E
REGISTROS DE ACESSO A APLICAÇÕES DE INTERNET.
REQUERIMENTO CAUTELAR DE GUARDA DOS DADOS
E CONTEÚDOS POR PERÍODO DETERMINADO ALÉM
DO PRAZO LEGAL. LEGALIDADE. EFETIVO ACESSO
DEPENDENTE DE ORDEM JUDICIAL. AUSÊNCIA DE
NULIDADE. ADPF 403/SE E ADI 5527/DF. INEXISTÊNCIA DE
PERTINÊNCIA TEMÁTICA. HABEAS CORPUS DENEGADO.
1. A paciente (e outros imputados) responde a processo
criminal pela prática de crimes relativos a fatos ocorridos no
DETRAN/PR, atinentes ao Edital de Credenciamento n.
001/2018, que regulamentou o credenciamento de empresas
para a prestação de registro eletrônico de contratos, e sustenta a
nulidade das provas carreadas aos autos, porquanto, além de
obtidas mediante ‘verdadeira medida cautelar’ em detrimento
do direito à intimidade/privacidade, houve o congelamento do
conteúdo telemático junto aos provedores de internet, a pedido
do Ministério Público, sem autorização judicial.
2. A Lei nº 12.965/2014 (Marco Civil da Internet) dispõe
que ‘a guarda e a disponibilização dos registros de conexão e de

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acesso a aplicações de internet’, nela tratados, ‘bem como de


dados pessoais e do conteúdo de comunicações privadas,
devem atender à preservação da intimidade, da vida privada,
da honra e da imagem das partes direta ou indiretamente
envolvidas’ (art. 10).
3. Mas ressalva que o provedor responsável pela guarda
está obrigado a disponibilizar os registros (de conexão e de
acesso a aplicações da internet), mediante ordem judicial (art.
10, §§ 1º e 2º), com a finalidade de ‘formar conjunto probatório
em processo judicial cível ou criminal, em caráter incidental ou
autônomo’ (art. 22), a pedido da parte interessada, desde que
haja ‘indícios fundados da ocorrência do ilícito’, ‘justificativa
motivada da utilidade dos registros solicitados para fins de
investigação ou instrução probatória’ e ‘período ao qual se
referem os registros’ (art. 22, incisos I, II e III).
4. Os impetrantes, em verdade, não discutem o
fornecimento dos registros por ordem judicial, senão a
nulidade das provas carreadas aos autos, porquanto, além de
obtidas mediante ‘verdadeira medida cautelar’ em detrimento
do direito à intimidade/privacidade, houve o congelamento
do conteúdo telemático junto aos provedores de internet sem
autorização judicial, congelamento de conteúdo que, na tese
da impetração, extrapola os limites da legislação de proteção
geral de dados pessoais.
5. Trata-se de matéria que recebe tratamento específico
da Lei 12.965/2014, ao dispor que constitui dever jurídico do
administrador do respectivo sistema autônomo manter os
registros de conexão, sob sigilo, em ambiente controlado e de
segurança, pelo prazo de 1 (um) ano (art. 13); e, do provedor de
aplicações de internet, por sua vez, manter os registros de
acesso, sob sigilo, em ambiente controlado e de segurança, pelo
prazo de 6 (seis) meses (art. 15).
6. Dispõe, ainda, que a autoridade policial,
administrativa ou o Ministério Público poderão requerer
cautelarmente que os registros de conexão sejam guardados
por prazo superior a 1 (um) ano (art. 13, § 2º), e os registros de

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acesso a aplicações de internet por prazo superior a 6 (seis)


meses (art. 15, § 2º), devendo, nas duas situações, e no prazo de
60 (sessenta) dias, contados do requerimento administrativo,
ingressar com o pedido de autorização judicial de acesso aos
(dois) registros (arts. 13, § 3º, e 15, § 2º).
7. A lei dispõe que a autoridade policial, administrativa
ou o Ministério Público poderão requerer cautelarmente —
que os registros de conexão sejam guardados por prazo
superior a 1 (um) ano (art. 13, § 2º), e os registros de acesso a
aplicações de internet por prazo superior a 6 (seis) meses (art.
15, § 2º) —, parecendo dizer menos do que pretendia.
8. É que, quem requer alguma coisa, pura e simplesmente
pode tê-la deferida ou não, e, no caso, até mesmo pelo uso do
termo ‘cautelarmente’, seguido da previsão de pedido judicial
de acesso no prazo de 60 (sessenta) dias, contados do
requerimento administrativo, sob pena de caducidade, tem-se
que o administrador de sistema autônomo e o provedor de
aplicações de internet estariam obrigados a atender à
solicitações da autoridade policial, administrativa ou o
Ministério Público.
9. Disso se infere que o pedido de ‘congelamento’ do
Ministério Público, contra o qual se rebelam os impetrantes, e
diversamente do que advogam, não precisa necessariamente
de prévia decisão judicial para ser atendido pelo provedor,
mesmo porque — e esse é o ponto nodal da discussão, visto
em face do direito à preservação da intimidade, da vida
privada, da honra e da imagem das partes (CF - art. 5º, X, e Lei
12.965/2014 - art. 10) — não equivale a que o requerente tenha
acesso aos dados ‘congelados’ sem ordem judicial.
10. A jurisprudência do STF tem afirmado que o inciso XII
do art. 5º da Constituição protege somente o sigilo das
comunicações em fluxo (troca de dados e mensagens em tempo
real), e que o sigilo das comunicações armazenadas, como
depósito registral, é tutelado pela previsão constitucional do
direito à privacidade do inciso X do art. 5º (HC nº 91.867 - Rel.
Ministro Gilmar Mendes - 2ª Turma, julgado em 24/04/2012).

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11. Mas, em verdade, a disponibilização ao requerente dos


registros de que trata a Lei 12.965/2014 (dados intercambiados),
em atenção à referida cláusula constitucional, deverá ser
precedida de autorização judicial, sendo estabelecido, inclusive,
um prazo de 60 dias, contados a partir do requerimento de
preservação dos dados, para que o Ministério Público ingresse
com esse pedido de autorização judicial de acesso aos registros,
sob pena de caducidade (art. 13, § 4º).
12. No caso dos autos, o Ministério Público requereu a
preservação de dados e conteúdos eletrônicos às plataformas
em 22/11/2019, o que foi mantido em sigilo, e ingressou com
pedido de quebra do sigilo desses dados em 29/11/2019, tendo o
Juízo singular deferido fundamentadamente o pleito em
3/12/2019.
13. Esse tema, diversamente do que advogam os
impetrantes, não se relaciona com a matéria da Arguição de
Descumprimento de Preceito Fundamental - ADPF n. 403/SE,
Ministro Relator Edson Fachin, com julgamento ainda não
concluído, nem com a Ação Direta de Inconstitucionalidade -
ADI n. 5527/DF, Ministra Rosa Weber, nas quais se discute a
interpretação do inciso II do art. 7º e do inciso III do art. 12 da
Lei 12.965/2014, que autorize ordem judicial que exija acesso
excepcional a conteúdo de mensagem criptografada ponta-a-
ponta ou que, por qualquer outro meio, enfraqueça a proteção
criptográfica de aplicações da internet, o que não tem
pertinência nenhuma com o objeto do presente caso.
14. O Ministério Público solicitou ‘a preservação dos
dados e IMEI coletados a partir das contas de usuários
vinculadas, tais como dados cadastrais, histórico de pesquisa,
todo conteúdo de e-mail e iMessages, fotos, contatos e
históricos de localização, desde a data de 01.06.2017 até o
presente momento’, pedido que, na tese dos impetrantes,
exorbitaria os limites legais, porque o conteúdo de e-mail e
iMessages, fotos, contatos e históricos de localização não
fariam parte do conceito de ‘registros de acesso a aplicações
de internet’ ou ‘registros de conexão’.

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15. A Lei 12.965/2014, define que ‘registros de acesso a


aplicações de internet’ são o conjunto de informações referentes
à data e hora de uso de uma determinada aplicação de internet
a partir de um determinado endereço IP’ (art. 5º, VIII). Já o
inciso VII define que ‘aplicações de internet’ são o conjunto de
funcionalidades que podem ser acessadas por meio de um
terminal conectado à internet.
16. A lei a fim de viabilizar investigações criminais, que,
normalmente, são de difícil realização em ambientes
eletrônicos, tornou mais eficiente o acesso a dados e
informações relevantes ao possibilitar que o Ministério
Público, diretamente, requeira ao provedor apenas a guarda,
em ambiente seguro e sigiloso, dos registros de acesso a
aplicações de internet, mas a disponibilização ao requerente
dos conteúdos dos registros — dados cadastrais, histórico de
pesquisa, todo conteúdo de e-mail e iMessages, fotos,
contatos e históricos de localização etc. — deve sempre ser
precedida de autorização judicial devidamente
fundamentada, o que ocorreu no presente caso.
17. Não se perfaz a pretendida nulidade do pedido de
‘congelamento’ dos registros, além do tempo legal, pelo
Ministério Público do Estado do Paraná, vindo o acesso aos
respectivos dados a ser deferido, a tempo e modo, por ordem
judicial, sob pena de caducidade (art. 13, § 4º).
18. Habeas corpus denegado.” (e-doc. 32, grifos nossos).

7. Ao deferir a ordem em habeas corpus, o e. Ministro Ricardo


Lewandowski compreendeu ser ilegal o requerimento extrajudicial do
Ministério Público para guarda de conteúdo telemático por prazo
superior a 1 ano, por estar em desacordo com a previsão disposta nos
arts. 13, § 2º, e 15, § 2º, da Lei nº 19.965, de 2014, contrariando cláusula de
reserva de jurisdição e o direito à preservação da intimidade, da vida
privada, da honra e da imagem das pessoas e da inviolabilidade das
comunicações (art. 5º, incs. X e XII, da CRFB) (e-doc. 48).

8. No agravo regimental da Procuradoria-Geral da República (e-doc.

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59), são asseveradas as mesmas ópticas adotadas no STJ. Acrescentou-se,


ainda, o risco de prevalência do entendimento adotado na decisão
recorrida, haja vista que a preservação de dados telemáticos é praxe nas
investigações criminais com intuito de proteger possíveis provas, diante
da efemeridade característica das evidências digitais, e garantir cópia de
segurança, visando assegurar, em especial, a integridade da cadeia de
custódia. Esclareceu-se que a mera preservação de dados e de
informações mantém o acesso ao conteúdo do que foi preservado na
esfera de disponibilidade do usuário, que pode acessá-los e até mesmo
apagá-los. Ademais, afirmou-se que inexistiria qualquer violação à
privacidade ou à intimidade ou mesmo seu comprometimento, pois o
conteúdo só foi disponibilizado por decisão judicial.

9. No agravo regimental do Ministério Público do Estado do Paraná


(e-doc. 62), são esclarecidas ainda as condicionantes da reserva de
jurisdição quanto à divulgação das informações e do conteúdo das
comunicações privadas, na forma do art. 10, §§ 1º e 2º, do MCI, e não
propriamente do congelamento desses dados. O agravante assevera ainda
a inexistência de nexo de causalidade a justificar qualquer nulidade, haja
vista que os elementos de prova utilizados na persecução penal não
provieram do pedido de preservação extrajudicial, mas em atendimento e
após a decisão judicial de quebra de sigilo. Por fim, aduz ausência de
qualquer prova pré-constituída de que a paciente tenha sido impedida
de dispor ou de apagar os dados, já que o pedido foi de preservação, e
não de “indisponibilização” ou de “revelação de seu conteúdo”, não
havendo demonstração de prejuízo.

10. A Polícia Federal juntou aos autos Nota Técnica (e-doc. 86),
elencando fundamentos pelos quais preconiza que pedido extrajudicial
de preservação de dados telemáticos não viola qualquer direito à
intimidade, à privacidade ou à comunicação. Correlaciona a medida de
preservação de dados telemáticos à apreensão de aparelho celular em
circunstância de flagrante delito, cujo acesso ao conteúdo estará

10

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condicionado à decisão judicial. Argumenta não caber confusão quanto à


aplicação da limitação temporal de 6 meses e 1 ano feita pelo e. Relator
para o acesso aos dados armazenados, ao afirmar que teriam sido
preservados e disponibilizados dados armazenados há mais de 2 anos,
pois o provedor apenas preservará o que o próprio usuário deixou
armazenado nos servidores da empresa. Conclui indicando que a
Convenção de Budapeste, promulgada recentemente pelo Decreto nº
11.491, 2023, preceitua a “expedida preservação de dados de
computador”, justamente em virtude da indispensabilidade da urgência
da medida e sua boa prática como investigação em ambiente virtual.

11. A parte agravada apresentou manifestação subsequente (e-doc.


87), ressaltando que o (referido) Decreto reforça a necessária regulação
pelos Estados, para permitir que “a autoridade competente ordene ou obtenha
a expedita preservação de dados de computador especificados”. Acrescenta que o
Marco Civil da Internet já prevê essa possibilidade de congelamento, mas
a restringe aos registros de conexão e de acesso a aplicações de internet.
Concluiu que o alargamento de tal previsão normativa exige alteração
legislativa, sem a qual a preservação de outros dados telemáticos estaria
incluída na reserva de jurisdição.

Passo a decidir.

12. Inicialmente, caberia delimitar sobre qual conjunto de dados


telemáticos recairia eventual vício por violação da cláusula de reserva de
jurisdição.

13. Na espécie, a investigação apura diversas condutas criminosas


com vistas a direcionar certame licitatório à empresa Infosolo Informática
S.A, representada pela agravada, Raquel Amaral Cardoso.

14. O Ministério Público do Estado do Paraná encaminhou Ofício


nº 1010/2019 à Apple, em 22/11/2019 solicitando a preservação dos dados

11

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e IMEI, tais como dados cadastrais, histórico de pesquisa, todo conteúdo


de e-mail e iMessages/hangouts, fotos, contatos, histórico de localização,
desde 1º/06/2017, relacionados à agravada (e-doc. 2).

15. A representação pela quebra do sigilo telemático foi formalizada,


em 29/11/2019, com base no art. 10, § 1º, e art. 22 do MCI (e-doc. 3), tendo
sido proferida decisão judicial favorável em 03/12/2019 (e-doc. 4) e
determinado afastamento do sigilo telemático da agravada junto à
Apple.

16. Posteriormente à decisão judicial, o MPPR determinou a


expedição de ofícios à Google e à Apple, em 22/01/2020, solicitando a
preservação dos dados e IMEI, tais como dados cadastrais, histórico de
pesquisa, todo conteúdo de e-mail e iMessages/hangouts, fotos, contatos,
histórico de localização, desde 1º/01/2018, quanto aos sócios e diretores
da Infosolo, não incluído o nome da agravada (ofícios nº 046 — e-doc.
31, p. 32-33 e 047/2020 — e-doc. 31, p. 36-37).

17. Assim, ao contrário da inferência aduzida pela agravada, a


solicitação endereçada à Google envolvendo seu nome só ocorreu após
a identificação de seu Gmail, por meio da Informação nº 002/2020, datada
em 07/01/2020 (e-doc. 29, p. 1), quando já havia sido deferida a quebra
complementar do sigilo telemático da agravada, em 31/01/2020 (processo
nº 0030036-04.2019.8.16.0013), para abarcar os dados mantidos pela
Google (e-doc. 7).

18. Portanto, faço a primeira ressalva quanto à conclusão contida no


voto condutor proferido pelo eminente Relator, no sentido de que a
análise no tocante ao reconhecimento de eventual vício capaz de resultar
na nulidade dos elementos probatórios recairia apenas sobre os dados
mantidos junto à Apple, e não os relativos à Google, já que estes
últimos foram submetidos diretamente ao crivo judicial.

12

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19. O segundo ponto a ressalvar, respeitando posicionamentos em


sentido contrário, reside na limitação temporal estabelecida pelo e.
Ministro Relator ao proferir seu voto nestes agravos regimentais, quanto
à validade apenas do material equivalente aos denominados “registros de
conexão”, cujo armazenamento não ultrapasse o período de 1 ano que
antecede à data da sentença, proferida em 03/12/2019.

20. Para tanto, Sua Excelência aduziu à previsão de guarda do art.


13, caput, da Lei nº 12.965, de 2014, que, assim como o art. 15, caput, do
mesmo Diploma, dispõe sobre o dever de “manter os registros de
conexão, sob sigilo, em ambiente controlado e de segurança, pelo prazo de 1
(um) ano, nos termos do regulamento” e “manter os respectivos registros de
acesso a aplicações de internet, sob sigilo, em ambiente controlado e de
segurança, pelo prazo de 6 (seis) meses, nos termos do regulamento”,
respectivamente.

21. Entretanto, vislumbro que a obrigação legal em tela se destina


aos provedores como dever de guarda por período mínimo, não
máximo. Tanto que, muito embora o MCI não disponha sobre dever e
prazo de guarda do conteúdo de dados telemáticos, determina que os
provedores garantam a “preservação da intimidade, da vida privada, da honra
e da imagem das partes direta ou indiretamente envolvidas”, condicionando
sua disponibilização por ordem judicial (art. 10).

22. Assim, mesmo diante da ausência de obrigação legal de


armazenamento do conteúdo dos dados telemáticos e,
consequentemente, de qualquer prazo mínimo (ou máximo) para tanto,
como o serviço é oferecido pelos provedores e, portanto, os dados
existem, o MCI exige, outrossim, a adoção de políticas internas de
responsabilidade civil e criminal pelo seu manuseio, guarda e
disponibilização. Essa lacuna na regulamentação do prazo de guarda do
conteúdo das comunicações telemáticas não impede, obviamente, que
seja determinada judicialmente a quebra de sigilo, com o consequente

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fornecimento das informações, pelo período determinado na decisão,


conforme interesse da persecução penal e disponibilidade do responsável
pela guarda.

23. A previsão legal de guarda dos registros, seu prazo e


disponibilização se relacionam com a possibilidade de identificação da
autoria de ilícitos praticados pela internet, tanto de natureza civil como
penal, garantida a preservação da intimidade, da vida privada, da honra e
da imagem das partes direta ou indiretamente envolvidas. Assim, a
função do dever de guarda seria a viabilidade de produção probatória e
a ela também está atrelado o prazo estabelecido para tal finalidade, que
pode ser prorrogado enquanto a prova se fizer necessária1.

24. Dessa forma, não haveria que se falar na invalidade dos registros
de conexão ou de aplicações de internet, ou ainda de conteúdos
telemáticos, quando armazenados por interesse, prazo e condições
escolhidos pelo usuário e oferecidos pela relação contratual com o
provedor, com prazo superior a 1 ano ou 6 meses.

25. Nesse sentido, faço a segunda ressalva quanto à conclusão


contida no voto condutor proferido pelo eminente Relator, no sentido de
afastar qualquer vício relacionado ao limite de prazo de
armazenamento dos registros de conexão objeto da decisão judicial de
quebra de sigilo telemático proferida em 03/12/2019.

26. Finalmente, no que tange ao tema central da controvérsia


submetida ao crivo deste Colegiado, pertinente à disciplina da requisição
cautelar de preservação de informações relativas a dados e a registros de
acesso de internet, a matéria ainda não parece ter sido discutida pela

1 FLUMIGNAN, Silvano José Gomes. O dever de guarda de registro de aplicações


mediante notificação extrajudicial na Lei nº 12.965/14 (Marco Civil da Internet) in De Lucca,
Newton; Simão Filho, Adalberto; e Lima, Cíntia Rosa Pereira de (coord.). Direito e Internet
III Tomo II. Marco Civil da Internet (Lei n. 12.965/2014). São Paulo: Quartier Latin, 2015, p.
423.

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Corte. Assim, entendo ser necessária compreensão quanto à natureza


jurídica do apontado “congelamento” de dados telemáticos.

27. Por um lado, a preservação de vestígios na investigação


criminal, em especial quando envolvidos dados digitais, revela a
importância e a complexidade decorrentes de sua submissão às regras do
sigilo constitucional da intimidade, da privacidade e das comunicações,
além do fato de contar com particularidades, como sua volatilidade e
efemeridade. Ademais, tais evidências estão sujeitas a regramentos
próprios do ambiente virtual, que impactam tanto na responsabilidade
dos provedores como na atuação das autoridades envolvidas na
persecução penal.

28. Por outro lado, a melhor contextualização da celeuma ainda


exige do intérprete acurado exercício hermenêutico, haja vista que o
denominado Marco Civil da Internet não tratou diretamente do
regramento sobre a forma de produção probatória de ilícitos criminais,
civis e administrativos praticados por meio da internet, deixando de
prever a preservação extrajudicial do conteúdo dos dados digitais
armazenados.

29. Da mesma forma, tal medida não foi prevista na


regulamentação da cadeia de custódia pelo Código de Processo Penal,
com a nova redação conferida pela Lei nº 13.964, de 2019, tampouco por
meio do Decreto nº 11.491, de 12/04/2023, que promulgou a Convenção
sobre o Crime Cibernético (CCIBER ou Convenção de Budapeste).

30. Ocorre que, considerando as limitações inerentes à via judicial


adotada para solução do caso concreto, em olhar ínsito ao juízo deste
rito sumaríssimo, que exige prova pré-constituída e ilegalidade flagrante
para concessão da ordem, sem prejuízo de eventual aprofundamento
futuro da matéria por este Supremo, limito-me aos aspectos coerentes e
compatíveis com este remédio constitucional.

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31. Salvo melhor juízo, o que se discute no caso concreto não se


restringe apenas às diferenças conceituais e prazos legais trazidos pela
Lei nº 12.965, de 2014.

32. Estar-se-ia sob análise eventual ilicitude de prova obtida após


afastamento judicial de sigilo, ante à potencial violação prévia da
“privacidade informacional”, pelo “legítimo interesse de uma pessoa de evitar - e
controlar - a divulgação de assuntos e questões pessoais” 2, que teria resultado
no vício de nulidade por derivação.

33. A exigência de ordem judicial para obtenção de informações


telemáticas armazenadas, sejam registros ou conteúdos, atende o juízo
de ponderação entre direitos e garantias fundamentais à privacidade e
ao sigilo das comunicações e o dever de prover a manutenção da ordem
pública e a administração da Justiça, mediante a apuração da prática de
atos ilícitos e a consequente responsabilização de seus autores. Em outras
palavras, aplicação do “necessário equilíbrio entre os princípios da liberdade e
privacidade e a eficiência na produção de provas”3.

34. Na espécie, não identifico nexo de causalidade entre o pedido


extrajudicial e a nulidade pretendida.

35. O primeiro aspecto desta constatação reside no fato de que o


pedido de preservação de dados não se apresenta como um dos meios
de obtenção ou produção de prova que, nas palavras de Gomes Filho,

2 GODINHO, Adriano Marteleto; e Roberto, Wilson Furtado. A guarda de registros


de conexão: o Marco Civil da Internet entre a segurança na rede e os riscos à privacidade in
Leite, George Salomão; e Lemos, Ronaldo (coord.). Marco Civil da Internet. São Paulo: Atlas,
2014, p. 751 e 753.

3 BRAUN, Caroline; e MARTINS, Rafael D’Errico. O Marco Civil da Internet, a


guarda e fornecimento de registro por provedores de conexão e de acesso a aplicações de
internet: limites legais e questões probatórias relevantes in ARTESE, Gustavo (coord.). Marco
Civil da Internet. Análise jurídica sob uma perspectiva empresarial. São Paulo: Quartier
Latin, 2015, p. 124.

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seriam os “meios de pesquisa ou investigação [que] dizem respeito a certos


procedimentos (em geral, extraprocessuais) regulados pela lei, com o objetivo de
conseguir provas materiais, e que podem ser realizados por outros
funcionários (policiais, por exemplo)”.4 Isso porque a medida não repercute
diretamente na instrução dos autos do processo.

36. Quanto aos efeitos dos vícios para reconhecimento de


nulidades relacionadas ao direito probatório e à distinção inerente aos
meios e ao momento da produção da prova, citamos a seguinte
perspectiva da literatura:

“Essa distinção é importante quando se aponta as


consequências de eventuais irregularidades ocorridas no
momento de sua produção. Deveras, eventuais vícios quanto
aos meios de prova terão como consequência a nulidade da
prova produzida, haja vista referir-se a uma atividade
endoprocessual. Lado outro, verificando-se qualquer
ilegalidade no tocante à produção de qualquer meio de
obtenção de prova, a consequência será o reconhecimento de
sua inadmissibilidade no processo, diante de violação de regras
relacionada à sua obtenção (CF, artigo 5°, LVI), com o
consequente desentranhamento dos autos do processo (CPP,
artigo 157, caput).”
(LIMA, Renato Brasileiro de. Manual de processo penal. 5.
ed. rev., ampl. e atual. Salvador: JusPodivm, 2017, p. 589).

37. Sendo incontroverso que o conteúdo dos dados telemáticos foi


disponibilizado apenas após decisão judicial, entendemos ser decisiva a
conclusão acerca da eventual repercussão do pedido extrajudicial de
preservação nos “elos de uma cadeia lógica que objetiva a preparação da

4 MAGALHÃES GOMES FILHO, Antonio. Notas sobre a terminologia da prova


(reflexos no processo penal brasileiro). In: YARSHELL, Flavio Luiz; MORAES, Mauricio
Zanoide de. (Coord.). Estudos em homenagem à Professora Ada Pellegrini Grinover. São
Paulo: DPJ Editora, 2005, p. 309.

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sentença final”5, considerando que sua natureza jurídica não envolve a


produção ou a obtenção de prova.

38. Desta feita, considerando que o pedido extrajudicial não produz


qualquer resultado probatório, não havendo a inserção dos dados
telemáticos no processo, conclui-se que a produção de prova somente
ocorre após o afastamento do sigilo judicial por ordem judicial, não
existindo nexo de causalidade entre a atividade persecutória apontada
como ilegítima e a introdução do material probatório nos autos.

39. Como já registramos anteriormente, com mais razão ainda não há


qualquer nexo causal entre o afastamento do sigilo telemático da
agravada junto à Google, deferido em medida judicial complementar, em
31/01/2020, inexistindo pedido de preservação extrajudicial prévio em seu
nome.

40. Além disso, sendo requisito deste remédio constitucional a


existência de prova pré-constituída da alegada contaminação das provas
derivadas da decisão judicial que afastou o sigilo telemático, restaria à
agravada demonstrar que o pedido de preservação de seus dados
telemáticos, mesmo não sendo meio de produção ou obtenção de prova,
interferiu ou modificou a fonte de prova, cujo acesso foi posteriormente
autorizado judicialmente.

41. Sobre esse segundo aspecto do nexo de causalidade, destacamos


trecho do voto convergente da Desembargadora no julgamento de habeas
corpus no Tribunal de origem:

“A premissa, entretanto, de que os provedores mantiveram


o conteúdo que extrapolaria o ofício requisitório do Ministério
Público foi a de que congelou os dados não merece prosperar.

5 GRINOVER, Ada Pellegrini e FERNANDES, Antonio Scarance e GOMES FILHO,


Antônio Magalhães. As nulidades no processo penal. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais,
2011, p. 29.

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A troca de informações que se tem entre o agente do


GAECO e os provedores demonstra que isso ocorreu em face
da decisão judicial. Destaco os seguintes pontos:
Às fls. 30 – ref. Mov. 22.8 (Autos Projudi 0030036-
04.8.16.0013, acostado à Mov. 1.14 desses autos, o GAECO
comunica ao setor legal da Apple acerca do deferimento da
medida judicial. E nas fls. seguinte é que vem a resposta da
Apple solicitando inclusive dilação de prazo, para a prestação
de informações. Sendo certo que nas fls. 32 vem a resposta da
Apple fazendo expressa referência à ordem judicial, como
também é possível inferir que a resposta grafada com
URGENTE E SIGILOSO, menciona as tratativas com o
representante do GAECO, cujo início refere a decisão judicial
(fls. 38-38).
Esclarecedora é a mensagem de e-mail enviada em 27 de
dezembro de 2019, pela Apple ao representante da GAECO,
onde aduz o tipo de mensagem que pode ser enviada e obtida
sem autorização judicial e qual somente mediante requisição.
Ou seja, a Apple deixa evidente que a preservação e o
fornecimento não apenas dos dados de conexão, e sim do
conteúdo, só foi viabilizada por conta da determinação
judicial, inclusive limitando o acesso a dados de usuários que
estejam no ICloud. (fls. 1 e 2 - Mov. 1.15 dos presentes e demais
informações da própria Google, nas fls. seguintes).
No mesmo sentido, estão as informações prestadas pela
Google, afirmando disponibilizar os dados e conteúdos além
dos cadastrais, apenas com ordem judicial (mov. 1.15 – fls.
16/17).
No ofício remetido pelo GAECO, está a menção expressa à
ordem judicial (fls. 24-27) – mov. 1.15. Sendo relevante, muito
especialmente considerar o que consta das mensagens travadas
entre o GAECO e tais provedores (notadamente nos movs. 1.15
e 1.16 da impetração, que trazem o que consta nos autos da
medida cautelar).
E, destaco, inclusive, o ofício extrajudicial no qual se
questiona o porque a Google não preservou uma conta de e-

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mail por requisição extrajudicial (em janeiro de 2020).


Esclarecedora é a resposta da Google prestada às fls. 01/02 do
mov. 1.16, informando o delay entre os ofícios extrajudicial e
judicial, e de que não havia o indicativo de preservação no
primeiro.
Assim, verifica-se que a preservação de dados não
ocorreu por força da requisição do Ministério Público.
Pondero ademais, verificando não apenas o que se tem
aqui, mas uma questão que no cenário em mesa sobreleva como
importante: não parece crível que os provedores da
envergadura que os que estão em debate têm, desconhecessem
as disposições legais e as implicações que teriam acaso
violassem a privacidade de seus clientes indevidamente. Digo
isso, por conta dos entraves e as menções legais que estão
acostadas notadamente nos documentos que compõem o acervo
dos movs. 1.14 a 1.16, sendo possível afirmar – salvo prova em
contrário que, na análise feita e no que foi amealhado não
socorre a impetração – que os provedores, mesmo em se
tratando de decisão judicial, colocaram óbices legais sobretudo
a um possível impacto de violação de sigilo de pessoas que não
fossem investigadas: ou seja, não parece crível que o motivo
pelo qual os dados estavam congelados e guardados, com a
vênia devida, tenha sido a requisição ministerial.
(...)
Por derradeiro, considero que vale, como última
observação de ordem fática, dizer que a determinação judicial
de acesso data em um primeiro momento de novembro de
2019 e posteriormente em janeiro de 2020, e os ofícios
requisitórios contemporâneos a isso, mas os dados e o
conteúdo, aplicações etc, são de muito antes, aliás mais de 1
anos antes, e assim, já os provedores estavam em guarda de
tais informações e conteúdos em tempo superior ao mínimo
exigido. Que se lembre que a lei do Marco Civil exige uma
guarda por tempo mínimo legalmente estabelecido. Concluo,
portanto, que – da análise dos documentos – os provedores não
mantiveram os arquivos, informações e dados que

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extrapolariam o permissivo legal (que só os autoriza a tanto no


que se refere a dados de conexão), cuja definição estrita é
trazida no disposto pelo Art. 5º, INC. VII, da Lei especial de
regência (12.965/2014), por conta dos ofícios requisitórios, e sim,
por uma política de prazo dilatado, e pela decisão judicial.” (e-
doc. 8, p. 31-32; grifos nossos).

42. Observa-se que a agravada não se desincumbiu do ônus de


apresentar prova pré-constituída no sentido que, entre 22/11/2019 e
03/12/2019, promoveu ou tentou promover alteração dos dados objeto do
afastamento de sigilo telemático, ou seja, que o conteúdo das informações
disponibilizadas como prova nos autos sofreu interferência decorrente de
“congelamento” ilegítimo.

43. Inexistindo nexo de causalidade entre o pedido de preservação,


que não resultou na obtenção de qualquer elemento de prova, e a prova
introduzida ao processo por decisão judicial, não cabe concluir pela
ilicitude. É o que dispõe o art. 157, caput e § 1º, do CPP, in verbis:

“Art. 157. São inadmissíveis, devendo ser desentranhadas


do processo, as provas ilícitas, assim entendidas as obtidas em
violação a normas constitucionais ou legais.
§ 1º São também inadmissíveis as provas derivadas das
ilícitas, salvo quando não evidenciado o nexo de causalidade
entre umas e outras, ou quando as derivadas puderem ser
obtidas por uma fonte independente das primeiras.”

44. A jurisprudência desta Corte também converge quanto à


exigência de prova pré-constituída e do nexo de causalidade para o
reconhecimento da nulidade em sede de habeas corpus. Cito
exemplificativamente:

“Evidenciada, pela instância ordinária, a ausência de nexo


de causalidade, não há falar que a prova declarada ilícita
contaminou o suporte probatório embasadorda sentença

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condenatória (CPP, art. 157, § 1º). Ademais, não sendo


perceptível prima facie a derivação da prova, torna-se
inviável, ao menos na via do habeas corpus, cotejar os
inúmeros elementos de convicção trazidos aos autos e
modificar a conclusão exarada pelo juízo sentenciante.”
(HC nº 116.931/RJ, Rel. Min. Teori Zavascki, Segunda
Turma, j. 03/03/2015, p. 08/05/2015; grifos nossos).

“A pretensão ao reconhecimento da inexistência de


provas autônomas suficientes para o embasamento da
denúncia pelo Parquet militar esbarra no entendimento assente
na Corte de que descabe, na via estreita do habeas corpus,
revolver o acervo fático-probatório para reanalisar essa
questão. Precedentes. 3. Recurso não provido.”
(RHC nº 117.964-2ºJulg/RJ, Rel. Min. Dias Toffoli, Primeira
Turma, j. 04/02/2014, j. 10/03/2014; grifos nossos).

“HABEAS CORPUS – REVISÃO CRIMINAL – ÓBICE –


INEXISTÊNCIA. O fato de a decisão impugnada desafiar, em
tese, revisão criminal não torna inadequada a impetração.
PROVA – ILICITUDE – CONTAMINAÇÃO – AUSÊNCIA.
Ausente nexo de causalidade entre dado de convicção e prova
ilícita, inexiste nulidade. PROVA ILÍCITA – CONTEÚDO –
CONHECIMENTO – JULGADOR. Ausente, à época da
tramitação processual, norma a versar impedido de sentenciar
juiz que conhecer conteúdo de prova ilícita, não cabe declarar
ilegalidade.”
(HC nº 163.457/RJ, Rel. Min. Marco Aurélio, Primeira
Turma, j. 18/05/2021, p. 28/05/2021; grifos nossos).

“PROCESSUAL PENAL. HABEAS CORPUS. TRÁFICO


DE DROGAS E ASSOCIAÇÃO PARA O TRÁFICO (ARTS. 33 E
35 DA LEI Nº 11.343/06). DENÚNCIA. TRANCAMENTO DA
AÇÃO PENAL POR AUSÊNCIA DE JUSTA CAUSA.
INADEQUAÇÃO DA VIA ELEITA ANTE A
IMPOSSIBILIDADE DE REVOLVER MATÉRIA FÁTICA E

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HC 222141 A GR / PR

PROBATÓRIA. NEGATIVA DE SEGUIMENTO POR ATO DO


RELATOR. INTERPOSIÇÃO DE AGRAVO REGIMENTAL,
ALEGANDO AUSÊNCIA DE ÍNDICIOS DE AUTORIA E
NULIDADE DA PROVA PRODUZIDA MEDIANTE
INTERCEPTAÇÃO TELEFÔNICA. AGRAVO REGIMENTAL
NÃO PROVIDO. 1. O trancamento de ação penal, em habeas
corpus, constitui medida excepcional que só deve ser adotada
quando se apresenta indiscutível a ausência de justa causa e em
face de inequívoca ilegalidade da prova pré-constituída. 2. In
casu: A) As questões suscitadas na inicial da impetração são
controvertidas e somente a partir do exame aprofundado da
prova seria possível concluir-se no sentido de ser inepta a
denúncia. Ademais, na peça acusatória estão descritas e
individualizadas as condutas imputadas ao paciente, não sendo
verificados óbices ao exercício da ampla defesa; B) Ademais,
eventual nulidade das interceptações telefônicas não tem o
condão de contaminar todo o conjunto probatório, quando há
outras provas independentes ou não se evidencia a existência
de nexo de causalidade entre umas e outras; C) Deveras, o
tribunal de origem, além de refutar a pretensão do impetrante,
esclareceu quanto à existência de outras provas autônomas,
igualmente suficientes para embasar o início da persecução
criminal. 3. Agravo regimental desprovido.
(HC nº 107.948-AgR/MG, Rel. Luiz Fux, Primeira Turma, j.
17/04/2012, p. 14/05/2012; grifos nossos).

45. Na mesma linha a doutrina pátria sobre o sistema de nulidades


no processo penal, em especial a regência do princípio da causalidade
como requisito para desencadeamento do processo contaminatório, vale
dizer, a chamada ilicitude por derivação, assim registra:

“A questão, também momentosa, das denominadas provas


ilícitas por derivação diz respeito àquelas provas em si mesmas
lícitas, mas a que se chegou por intermédio da informação
obtida por prova ilicitamente colhida. (...)
Na posição mais sensível às garantias da pessoa humana,

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e consequentemente mais intransigente com os princípios e


normas constitucionais, a ilicitude da obtenção da prova
transmite-se às provas derivadas, que são, assim, igualmente
banidas do processo”.
(GRINOVER, Ada Pellegrini e FERNANDES, Antonio
Scarance e GOMES FILHO, Antônio Magalhães. As nulidades
no processo penal. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 2011,
p. 130).

46. Assim, o terceiro e derradeiro ponto que, data venia, penso deva
ser ressalvado, reside no fato de não vislumbrar nexo de causalidade
para a nulidade apontada, uma vez não demonstrado que o pedido de
preservação de dados telemáticos endereçado à Apple, em 22/11/2019, por
não constituir meio de obtenção ou de produção de prova, interferiu no
conteúdo do material disponibilizado pela Apple, em atendimento à
decisão judicial, proferida em 03/12/2019.

47. Ante o exposto, pedindo vênia ao eminente Relator, dou


provimento aos agravos regimentais do Ministério Público Federal e do
Ministério Público do Estado do Paraná, a fim de denegar a ordem de
habeas corpus, com base no art. 192 do RISTF.

É como voto.

Ministro ANDRÉ MENDONÇA

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Extrato de Ata - 18/09/2023

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SEGUNDA TURMA
EXTRATO DE ATA

[Link]. NO HABEAS CORPUS 222.141


PROCED. : PARANÁ
RELATOR : MIN. RICARDO LEWANDOWSKI
AGTE.(S) : MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROC.(A/S)(ES) : PROCURADOR-GERAL DA REPÚBLICA
AGTE.(S) : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PARANÁ
PROC.(A/S)(ES) : PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PARANÁ
AGDO.(A/S) : RAQUEL AMARAL CARDOSO
ADV.(A/S) : DANIEL GERBER (47827/DF, 39879/RS, 473254/SP, 10.482-
A/TO) E OUTRO(A/S)
ADV.(A/S) : YGOR NASSER SALAH SALMEN (75151/PR)
INTDO.(A/S) : SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

Decisão: Após o voto do Ministro Ricardo Lewandowski


(Relator), que negava provimento aos agravos regimentais, pediu
vista dos autos o Ministro André Mendonça. Falou, pelo agravante
Ministério Público Federal, a Dra. Maria Caetana Cintra Santos,
Subprocuradora-Geral da República. Segunda Turma, Sessão Virtual
de 7.4.2023 a 17.4.2023.

Decisão: Após o voto do Ministro Ricardo Lewandowski


(Relator), que negava provimento ao agravo regimental, e dos votos
divergentes dos Ministros André Mendonça e Edson Fachin, que davam
provimento aos agravos regimentais do Ministério Público Federal e
do Ministério Público do Estado do Paraná, a fim de denegar a
ordem de habeas corpus, com base no art. 192 do RISTF, pediu vista
dos autos o Ministro Gilmar Mendes. Segunda Turma, Sessão Virtual
de 8.9.2023 a 15.9.2023.

Composição: Ministros Dias Toffoli (Presidente), Gilmar


Mendes, Edson Fachin, Nunes Marques e André Mendonça.

Hannah Gevartosky
Secretária

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06/02/2024 SEGUNDA TURMA

[Link]. NO HABEAS CORPUS 222.141 PARANÁ

VOTO

O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES: Trata-se de habeas corpus


impetrado contra acórdão formalizado pelo Superior Tribunal de Justiça,
que recebeu a seguinte ementa (eDOC 32):

HABEAS CORPUS. MARCO CIVIL DA INTERNET. LEI


12.965/2014. MINISTÉRIO PÚBLICO. PROVEDORES E
PLATAFORMAS DOS REGISTROS DE CONEXÃO E
REGISTROS DE ACESSO A APLICAÇÕES DE INTERNET.
REQUERIMENTO CAUTELAR DE GUARDA DOS DADOS E
CONTEÚDOS POR PERÍODO DETERMINADO ALÉM DO
PRAZO LEGAL. LEGALIDADE. EFETIVO ACESSO
DEPENDENTE DE ORDEM JUDICIAL. AUSÊNCIA DE
NULIDADE. ADPF 403/SE E ADI 5527/DF. INEXISTÊNCIA DE
PERTINÊNCIA TEMÁTICA. HABEAS CORPUS DENEGADO.
1. A paciente (e outros imputados) responde a processo
criminal pela prática de crimes relativos a fatos ocorridos no
DETRAN/PR, atinentes ao Edital de Credenciamento n.
001/2018, que regulamentou o credenciamento de empresas
para a prestação de registro eletrônico de contratos, e sustenta a
nulidade das provas carreadas aos autos, porquanto, além de
obtidas mediante "verdadeira medida cautelar" em detrimento
do direito à intimidade/privacidade, houve o congelamento do
conteúdo telemático junto aos provedores de internet, a pedido
do Ministério Público, sem autorização judicial.
2. A Lei nº 12.965/2014 (Marco Civil da Internet) dispõe
que "a guarda e a disponibilização dos registros de conexão e
de acesso a aplicações de internet", nela tratados, "bem como de
dados pessoais e do conteúdo de comunicações privadas,
devem atender à preservação da intimidade, da vida privada,
da honra e da imagem das partes direta ou indiretamente

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HC 222141 A GR / PR

envolvidas" (art. 10).


3. Mas ressalva que o provedor responsável pela guarda
está obrigado a disponibilizar os registros (de conexão e de
acesso a aplicações da internet), mediante ordem judicial (art.
10, §§ 1º e 2º), com a finalidade de "formar conjunto probatório
em processo judicial cível ou criminal, em caráter incidental ou
autônomo" (art.22), a pedido da parte interessada, desde que
haja "indícios fundados da ocorrência do ilícito", "justificativa
motivada da utilidade dos registros solicitados para fins de
investigação ou instrução probatória" e "período ao qual se
referem os registros" (art. 22, incisos I, II e III).
4. Os impetrantes, em verdade, não discutem o
fornecimento dos registros por ordem judicial, senão a nulidade
das provas carreadas aos autos, porquanto, além de obtidas
mediante "verdadeira medida cautelar" em detrimento do
direito à intimidade/privacidade, houve o congelamento do
conteúdo telemático junto aos provedores de internet sem
autorização judicial, congelamento de conteúdo que, na tese da
impetração, extrapola os limites da legislação de proteção geral
de dados pessoais.
5. Trata-se de matéria que recebe tratamento específico da
Lei 12.965/2014, ao dispor que constitui dever jurídico do
administrador do respectivo sistema autônomo manter os
registros de conexão, sob sigilo, em ambiente controlado e de
segurança, pelo prazo de 1 (um) ano (art. 13); e, do provedor de
aplicações de internet, por sua vez, manter os registros de
acesso, sob sigilo, em ambiente controlado e de segurança, pelo
prazo de 6 (seis) meses (art. 15).
6. Dispõe, ainda, que a autoridade policial, administrativa
ou o Ministério Público poderão requerer cautelarmente que os
registros de conexão sejam guardados por prazo superior a 1
(um) ano (art. 13, § 2º), e os registros de acesso a aplicações de
internet por prazo superior a 6 (seis) meses (art. 15, § 2º),
devendo, nas duas situações, e no prazo de 60 (sessenta) dias,
contados do requerimento administrativo, ingressar com o
pedido de autorização judicial de acesso aos (dois) registros

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HC 222141 A GR / PR

(arts. 13, § 3º, e 15, § 2º):


7. A lei dispõe que a autoridade policial, administrativa ou
o Ministério Público poderão requerer cautelarmente — que os
registros de conexão sejam guardados por prazo superior a 1
(um) ano (art. 13, § 2º), e os registros de acesso a aplicações de
internet por prazo superior a 6 (seis) meses (art. 15, § 2º) —,
parecendo dizer menos do que pretendia.
8. É que, quem requer alguma coisa, pura e simplesmente
pode tê-la deferida ou não, e, no caso, até mesmo pelo uso do
termo "cautelarmente", seguido da previsão de pedido judicial
de acesso no prazo de 60 (sessenta) dias, contados do
requerimento administrativo, sob pena de caducidade, tem-se
que o administrador de sistema autônomo e o provedor de
aplicações de internet estariam obrigados a atender à
solicitaçóes da autoridade policial, administrativa ou o
Ministério Público.
9. Disso se infere que o pedido de "congelamento" do
Ministério Público, contra o qual se rebelam os impetrantes, e
diversamente do que advogam, não precisa necessariamente de
prévia decisão judicial para ser atendido pelo provedor, mesmo
porque — e esse é o ponto nodal da discussão, visto em face do
direito à preservação da intimidade, da vida privada, da honra
e da imagem das partes (CF- art. 5º, X, e Lei 12.965/2014 - art.
10) — não equivale a que o requerente tenha acesso aos dados
"congelados" sem ordem judicial.
10. A jurisprudência do STF tem afirmado que o inciso XII
do art. 5º da Constituição protege somente o sigilo das
comunicações em fluxo (troca de dados e mensagens em tempo
real), e que o sigilo das comunicações armazenadas, como
depósito registral, é tutelado pela previsão constitucional do
direito à privacidade do inciso X do art. 5º (HC nº 91.867 - Rel.
Ministro Gilmar Mendes - 2ª Turma, julgado em 24/04/2012).
11. Mas, em verdade, a disponibilização ao requerente dos
registros de que trata a Lei 12.965/2014 (dados intercambiados),
em atenção à referida cláusula constitucional, deverá ser
precedida de autorização judicial, sendo estabelecido, inclusive,

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um prazo de 60 dias, contados a partir do requerimento de


preservação dos dados, para que o Ministério Público ingresse
com esse pedido de autorização judicial de acesso aos registros,
sob pena de caducidade (art.13, § 4º).
12. No caso dos autos, o Ministério Público requereu a
preservação de dados e conteúdos eletrônicos às plataformas
em 22/11/2019, o que foi mantido em sigilo, e ingressou com
pedido de quebra do sigilo desses dados em 29/11/2019, tendo o
Juízo singular deferido fundamentadamente o pleito em
3/12/2019.
13. Esse tema, diversamente do que advogam os
impetrantes, não se relaciona com a matéria da Arguição de
Descumprimento de Preceito Fundamental - ADPF n. 403/SE,
Ministro Relator Edson Fachin, com julgamento ainda não
concluído, nem com a Ação Direta de Inconstitucionalidade -
ADI n. 5527/DF, Ministra Rosa Weber, nas quais se discute a
interpretação do inciso II do art. 7º, e do inciso III do art. 12, da
Lei 12.965/2014, que autorize ordem judicial que exija acesso
excepcional a conteúdo de mensagem criptografada ponta-a-
ponta ou que, por qualquer outro meio, enfraqueça a proteção
criptográfica de aplicações da internet, o que não tem
pertinência nenhuma com o objeto do presente caso.
14. O Ministério Público solicitou "a preservação dos
dados e IMEI coletados a partir das contas de usuários
vinculadas, tais como dados cadastrais, histórico de pesquisa,
todo conteúdo de e-mail e iMessages, fotos, contatos e
históricos de localização, desde a data de 01.06.2017 até o
presente momento", pedido que, na tese dos impetrantes,
exorbitaria os limites legais, porque o conteúdo de e-mail e
iMessages, fotos, contatos e históricos de localização não fariam
parte do conceito de "registros de acesso a aplicações de
internet" ou "registros de conexão".
15. A Lei 12.965/2014, define que "registros de acesso a
aplicações de internet" são o conjunto de informações referentes
à data e hora de uso de uma determinada aplicação de internet
a partir de um determinado endereço IP" (art. 5º, VIII). Já o

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inciso VII define que "aplicações de internet" são o conjunto de


funcionalidades que podem ser acessadas por meio de um
terminal conectado à internet.
16. A lei a fim de viabilizar investigações criminais, que,
normalmente, são de difícil realização em ambientes
eletrônicos, tornou mais eficiente o acesso a dados e
informações relevantes ao possibilitar que o Ministério Público,
diretamente, requeira ao provedor apenas a guarda, em
ambiente seguro e sigiloso, dos registros de acesso a aplicações
de internet, mas a disponibilização ao requerente dos conteúdos
dos registros — dados cadastrais, histórico de pesquisa, todo
conteúdo de e-mail e iMessages, fotos, contatos e históricos de
localização etc. — deve sempre ser precedida de autorização
judicial devidamente fundamentada, o que ocorreu no presente
caso.
17. Não se perfaz a pretendida nulidade do pedido de
"congelamento" dos registros, além do tempo legal, pelo
Ministério Público do Estado do Paraná, vindo o acesso aos
respectivos dados a ser deferido, a tempo e modo, por ordem
judicial, sob pena de caducidade (art. 13, § 4º).
18. Habeas corpus denegado.

Nas razões do habeas corpus, o impetrante sustentou que o ato


coator afronta o direito fundamental à privacidade e à intimidade, na
medida em que afastou a livre disposição dos dados telemáticos pela
paciente, sem prévia ordem judicial. Aduziu que o Marco Civil da
Internet não permite o congelamento de dados e informações pessoais
diretamente pelo Ministério Público, sem a análise e anuência do Poder
Judiciário.
O eminente Ministro Relator concedeu a ordem, declarando a
nulidade das provas, por entender que a diligência afrontou os direitos à
privacidade e à intimidade.
O Ministério Público do Estado do Paraná e o Ministério Público
Federal interpuseram agravos regimentais. Sustentaram, em síntese, que
a diligência ora combatida foi legítima, tendo em vista que não houve

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acesso aos dados sem autorização judicial. Além disso, ponderou-se que
inexiste nexo de causalidade entre a diligência de congelamento e a prova
obtida, uma vez que esta foi obtida em virtude de decisão judicial que
autorizou o acesso às informações.
Iniciado o julgamento em Sessão Virtual, o Ministro Relator
encaminhou voto pelo desprovimento dos recursos.
Após pedido de vista, o Min. André Mendonça inaugurou a
divergência e deu provimento aos agravos regimentais para denegar a
ordem de habeas corpus, no que foi acompanhado pelo Min. Edson Fachin.
Pedi vista dos autos para analisar com mais vagar a matéria e, em
razão de sua relevância, devolvi o processo para continuidade de
julgamento em sessão presencial.

É o relatório. Passo a votar.

Peço vênia à divergência inaugurada pelo Min. André Mendonça


para acompanhar o Ministro Relator.
A questão consiste em definir se é lícito o congelamento do conteúdo
de comunicações privadas e de dados pessoais do paciente, com base no
art. 13, § 2º, do Marco Civil da Internet, por determinação do Ministério
Público, sem prévia autorização judicial.
O exame adequado do tema pressupõe o seu desdobramento em
dois eixos: (i) definir se a requisição do Ministério Público está respaldada
pelo permissivo legal; e (ii) avaliar se o congelamento de dados pessoais e
do conteúdo de comunicações privadas, sem prévia autorização judicial,
ofende o direito fundamental previsto no inciso LXXIX do art. 5º da
Constituição Federal.
No que diz respeito ao primeiro aspecto, a Lei 12.965/2014 prevê de
forma detalhada os limites e requisitos para acesso de autoridades a
dados na internet.
O art. 10, caput, do diploma legal estabelece que “a guarda e a
disponibilização dos registros de conexão e de acesso a aplicações de
internet de que trata esta Lei, bem como de dados pessoais e do conteúdo

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de comunicações privadas, devem atender à preservação da intimidade,


da vida privada, da honra e da imagem das partes direta ou
indiretamente envolvidas”.
Esse dispositivo densifica os princípios que disciplinam o uso da
internet no Brasil, especialmente a proteção da privacidade e dos dados
pessoais, fixando as premissas e parâmetros para os atores do sistema e
autoridades governamentais.
O parágrafo 1º preceitua que a disponibilização de registros de
conexão ou de acesso a aplicações de internet e de dados pessoais
pressupõem prévia ordem judicial. O § 2º reforça que também a
disponibilização do conteúdo das comunicações privadas depende de
decisão judicial.
O parágrafo 3º excepciona essa regra ao permitir o acesso de
autoridades administrativas a dados cadastrais que informem
qualificação pessoal, filiação e endereço, sem autorização judicial.
Portanto, o quadro delineado no Marco Civil da Internet é claro: a
disponibilização de dados pessoais, comunicações privadas ou
informações relativas a registros de conexão/acesso está condicionada à
determinação do juiz. A exceção fica por conta dos dados cadastrais,
que podem ser alcançados por autoridades administrativas
devidamente autorizadas por lei.
Preocupado com a eficácia das investigações, o legislador
determinou, nos artigos 13 e 15 da Lei 12.965/2014, que os provedores de
conexão à internet e de aplicações de internet mantenham os registros de
conexão e de acesso em ambiente controlado e de segurança pelos prazos
de 6 meses e de 1 ano, respectivamente.
Além disso, dentro do contexto específico do dever de guarda de
registros de conexão à internet e de acesso a aplicações de internet, o art.
15, § 2º, da Lei 12.965/2014 permitiu que a autoridade policial ou
administrativa ou o Ministério Público requeira cautelarmente “que os
registros de acesso a aplicações de internet sejam guardados, inclusive
por prazo superior ao previsto no caput”.
Assim, o Marco Civil da Internet preceitua uma segunda exceção à

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reserva de jurisdição no que concerne ao tratamento de dados pessoais,


consubstanciada na possibilidade de preservação ou congelamento dos
registros de acesso e conexão por prazo superior ao previsto em lei, por
determinação direta do órgão de investigação.
No caso dos autos, com base nessa previsão legal, o Ministério
Público pleiteou a “preservação dos dados e IMEI coletados a partir das
contas de usuários vinculadas, tais como dados cadastrais, histórico de
pesquisa, todo conteúdo de e-mail e iMessages, fotos, contatos e
históricos de localização, desde a data de 01.06.2017 até o presente
momento”.
Em outras palavras, o Ministério Público requereu o congelamento
de todas as informações, comunicações e dados pessoais, inclusive
aqueles concernentes à localização da paciente, para posterior acesso
mediante ordem judicial.
Todavia, conforme visto na análise inicial do sistema de proteção à
privacidade instituído pelo Marco Civil da Internet, as únicas exceções à
reserva de jurisdição são a disponibilização de dados cadastrais e a
preservação de registros de conexão e acesso.
No caso concreto, o pedido de congelamento efetuado pelo GAECO
não se limitou aos elementos permitidos pela lei: registros de conexão e
de acesso a aplicações de internet.
O art. 5º, VI e VIII, da Lei 12.965/2014 define os registros de conexão
como “o conjunto de informações referentes à data e hora de início e término de
uma conexão à internet, sua duração e o endereço IP utilizado pelo terminal para
o envio e recebimento de pacotes de dados”; e registros de acesso a aplicações
como “o conjunto de informações referentes à data e hora de uso de uma
determinada aplicação de internet a partir de um determinado endereço IP”.
Como se vê, a lei limita as informações cuja preservação pode ser
solicitada pelo Ministério Público sem ordem judicial. Apenas aquelas
relativas a data e hora de uso de determinado endereço IP estão sujeitas
a essa diligência e, consequentemente, fora do âmbito da reserva de
jurisdição.
Em hipótese alguma o “histórico de pesquisa, todo conteúdo de e-

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mail e iMessages, fotos, contatos e históricos de localização” podem ser


considerados registros de acesso a aplicação de internet.
E mais, o próprio formato da requisição formulada pelo Ministério
Público, buscando dados relativos a período que retroage mais de 5 anos,
evidencia a desproporcionalidade do pedido e o descompasso entre a
diligência efetuada e o permissivo legal.
Portanto, a determinação de congelamento de dados e informações
pessoais da paciente, como efetuada pelo MP/PR, carece de fundamento
legal. A legislação não autoriza diligências dessa natureza.
Nada obstante, cumpre analisar se a ausência de acesso ao conteúdo
desses dados e informações pessoais, sem prévia autorização judicial,
legitimaria a diligência, como concluiu o ato coator. Em outras palavras, é
necessário responder à seguinte pergunta: o congelamento dos dados
pessoais, sem acesso pelo órgão de investigação antes da ordem judicial,
torna lícita a diligência?
Esse aspecto da questão controvertida não pode ser adequadamente
analisado sem a compreensão integral do postulado da autodeterminação
informativa, consagrado no art. 2º da Lei Proteção de Dados Pessoais, que
densifica os direitos fundamentais à privacidade, à intimidade e à
proteção dos dados pessoais, especialmente no ambiente digital.
A conclusão alcançada pelo ato coator decorre de uma concepção do
direito à privacidade atrelada aos padrões de tutela da propriedade,
centrados no sigilo das informações, em detrimento do controle da coleta,
processamento e utilização dos dados pessoais.
No julgamento da ADI 6387 MC-Ref, de relatoria da Min. Rosa
Weber (DJe de 12.11.2020), consignei que, dentro da teoria jurídica
moderna, a compreensão histórica do direito à privacidade é comumente
vinculada – com todas as possíveis e necessárias ressalvas – à publicação
do seminal artigo “The Right to Privacy”, escrito por Samuel Warren e
Louis Brandeis ainda no final do Século XIX (Warren, S., & Brandeis, L.
(1890). The Right to Privacy. Harvard Law Review, 4(5), p. 193–220). Esse
texto revelou-se paradigmático por ter possibilitado, a partir de
precedentes da tradição do common law, a identificação de um direito de

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privacidade de natureza pessoal independente da estrutura da tutela da


propriedade.
Nessa concepção tradicional, o direito à privacidade pressupunha
uma dicotomia entre as esferas pública e privada, colmatando-se o núcleo
da proteção jurídica como o direito de ser deixado só (“the right to be left
alone”). Em sentido individualista, a proteção atribuída ao direito à
privacidade importaria, portanto, uma postura absenteísta do Estado: o
direito do titular de retrair aspectos de sua vida do domínio público
(BIONI, Bruno Ricardo. Proteção de dados pessoais: a função e os limites
do consentimento. São Paulo: Editora Gen, 2019, p. 95).
Na doutrina pátria, os estudos voltados à identificação da autonomia
do Direito à Privacidade parecem ter se vinculado inicialmente a essa
abordagem formal de um direito negativo de não intervenção. Tal
abordagem foi reproduzida em artigo clássico do Professor Tércio
Sampaio Ferraz Júnior (Sigilo de dados: o direito à privacidade e os
limites da função fiscalizadora do estado. Revista da Faculdade de Direito
da Universidade de São Paulo, v. 88, p. 430-459, 1993).
O corolário imediato dessa subsunção do direito à privacidade à
função negativa de um direito fundamental personalíssimo limitou o
reconhecimento da proteção constitucional ao sigilo (art. 5º, inciso XII) ao
conteúdo das comunicações. Tal abordagem formalista influenciou, na
década passada, o entendimento do Supremo Tribunal Federal, sobretudo
no julgamento do Mandado de Segurança 21.729/DF e no julgamento do
RE 418.416-8/SC.
Neste último caso, o Tribunal negou que as informações contidas
nesses registros estariam acobertadas pelo direito à privacidade,
reproduzindo mais uma vez a fórmula do Professor Ferraz Júnior. Na
visão do saudoso Ministro Sepúlveda Pertence, relator do caso, não teria
havido violação do art. 5º, inciso XII, da Constituição, uma vez que não
houve interceptação de comunicações, e sim a apreensão da base física dos
dados (RE 418.416, Rel. Min. SEPÚLVEDA PERTENCE, Plenário, DJ
19.12.2006).
Essa concepção do direito à privacidade como uma garantia

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individual de abstenção do Estado na esfera privada individual, todavia,


passou por profundas transformações no decorrer do século XX. Devido
ao próprio avanço das tecnologias da informação, assistiu-se a uma
verdadeira mutação jurídica do sentido e do alcance do direito à
privacidade. Nas palavras de Stefano Rodotà, nas últimas décadas,
vivenciamos verdadeiro “processo de inexorável reinvenção da
privacidade” (RODOTÀ, Stefano. A vida na sociedade da vigilância: a
privacidade hoje. Rio de Janeiro: Renovar, 2008, p. 15).
Esse processo de reinvenção do direito à privacidade é analisado na
monografia do Professor Danilo Doneda (DONEDA, Danilo. Da
privacidade à proteção de dados pessoais. Renovar: Rio de Janeiro, 2006).
Ao examinar as sucessões geracionais das leis de proteção de dados a
partir da década de 1970, bem como o espraiamento da proteção jurídica
da privacidade em tratados internacionais ao longo do século XX, o autor
assevera que:

“A trajetória percorrida pelo direito à privacidade reflete


tanto uma mudança de perspectiva para a tutela da pessoa
quanto sua adequação às novas tecnologias da informação. Não
basta pensar a privacidade nos moldes de um direito subjetivo,
a ser tutelado conforme as conveniências individuais, nem da
privacidade como uma ‘predileção’ individual, associada
basicamente ao conforto e comodidade. (...)
Uma esfera privada, na qual a pessoa tenha condições de
desenvolvimento da própria personalidade, livre de ingerências
externas, ganha hoje ainda mais em importância: passa a ser um
pressuposto para que ela não seja submetida a formas de
controle social que, em última análise, anulariam sua
individualidade, cerceariam sua autonomia privada e, em
última análise, inviabilizariam o livre desenvolvimento da sua
personalidade.
A privacidade assume, portanto, posição de destaque na
proteção da pessoa humana, não somente tomada como escudo
contra o exterior – na lógica da exclusão – mas como elemento
positivo, indutor da cidadania, da própria atividade política em

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sentido amplo e dos direitos de liberdade de uma forma geral.


Neste papel, a vemos como pressuposto de uma sociedade
democrática moderna, da qual o dissenso e o anticonformismo
são componentes orgânicos” (grifos nossos) (DONEDA, op. cit.,
pp. 141-142).

A releitura do direito à privacidade coincide com o desenvolvimento


jurisprudencial do conceito de autodeterminação informacional (die
informationelle Selbsstbestimmung) pelo Tribunal Constitucional
Alemão.
Como destaca Claudio Franzius, a característica especial do direito à
autodeterminação informativa não é resultante de invencionismo, mas
sim de “várias linhas de argumentação da jurisprudência do Tribunal,
que já na decisão do microcenso, com recurso à sua jurisprudência sobre
a dignidade humana, atribuiu ao cidadão individual uma esfera
inviolável da vida privada, da qual se supõe que a influência da
autoridade pública deve ser removida” (FRANZIUS, Claudio. Das
Rechtaufinformationelle Selbstbestimmung. Zeitschrift für das juristische
Studium. Gießen, 2015, p. 262).
No paradigmático Volkszählungsurteil (BVerfGE 65, 1), de 1983, o
Tribunal declarou a inconstitucionalidade da chamada Lei do Censo
alemã (Volkszählunsgesetz), que possibilitava que o Estado realizasse o
cruzamento de informações sobre os cidadãos para mensuração
estatística da distribuição especial e geográfica da população.
Nesse julgado, a Corte Constitucional redefiniu os contornos do
direito de proteção de dados pessoais, situando-o como verdadeira
projeção de um direito geral de personalidade para além da mera
proteção constitucional ao sigilo.
A partir da leitura ampliativa do artigo 2.1, em conjunto com o artigo
1.1. da Grundgesetz, o Tribunal Constitucional reconheceu a existência
de um direito constitucional de personalidade que teria como objeto de
proteção o poder do indivíduo de “decidir sobre a divulgação e o uso
dos seus dados pessoais” („selbst über die Preisgabe und Verwendung
seinerpersönlichen Daten zu bestimmen“), de “decidir sobre quando e

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dentro de quais limites os fatos da sua vida pessoal podem ser


revelados” („zuentscheiden, wann und innerhalb welcher Grenzen
persönliche Lebenssachverhalte offenbart werden“) e ainda “de ter
conhecimento sobre quem sabe e o que sabe sobre si, quando e em que
ocasião” („wissen können, wer was wann und bei welcher Gelegenheit
über sie weiß“). (FRANZIUS, op. cit., p. 259).
Seguindo esse raciocínio, o Tribunal entendeu que o processamento
automatizado dos dados possibilitado pela Lei do Censo de 1983
colocaria em risco o poder do indivíduo de decidir por si mesmo sobre se
e como ele desejaria fornecer a terceiros seus dados pessoais. O risco
identificado pelo Tribunal referia-se à possibilidade de, por meio de
sistemas automatizados, o Estado formar um “perfil completo da
personalidade” dos cidadãos.
Essa nova abordagem revelou-se paradigmática por ter permitido
que o direito à privacidade não mais ficasse estaticamente restrito à frágil
dicotomia entre as esferas pública e privada, mas, sim, se desenvolvesse
como uma proteção dinâmica e permanentemente aberta às referências
sociais e aos múltiplos contextos de uso. Como destacou a decisão, a
identificação de um constante avanço tecnológico demanda a afirmação
de um direito de personalidade que integre o contexto das “condições
atuais e futuras circunstâncias do processamento automático de dados”
(“heutigen und künftigen Bedingungen der automatischen
Datenverarbeitung“).
Essa releitura possibilita a afirmação do direito à autodeterminação
informacional como um contraponto a qualquer contexto concreto de
coleta, processamento ou transmissão de dados passível de configurar
situação de perigo.
Nas palavras de Stefano Rodotà, a privacidade também passa ser
definida como "o direito de manter o controle sobre suas próprias
informações e de determinar como a privacidade é alcançada e, em
última instância, como o direito de escolher livremente o seu modo de
vida" (tradução livre) (RODOTÀ, Stefano. In diritto di avere. Roma:
Laterza, 2012, p. 321).

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A maior abrangência da proteção atribuída ao direito de


autodeterminação repercute no âmbito de proteção do direito à proteção
de dados pessoais, que não recai sobre a dimensão privada ou não do
dado, mas sim sobre os riscos atribuídos ao seu processamento por
terceiros.
Entre nós, o reconhecimento da autonomia do direito fundamental à
proteção de dados foi desenvolvido a partir das contribuições da
Professora Laura Schertel Mendes. Nas suas palavras:

“Para além da coincidência do léxico com os modernos


instrumentos internacionais de tutela da privacidade, certo é
que a proteção da dignidade humana e a inviolabilidade da
intimidade e da vida privada numa sociedade da informação
somente pode ser atingida hoje por meio da proteção contra os
riscos do processamento de dados pessoais. Assim, quando se
interpreta a norma do art. 5º, X, em conjunto com a garantia do
habeas data e com o princípio fundamental da dignidade
humana, é possível extrair-se da Constituição Federal um
verdadeiro direito fundamental à proteção de dados pessoais.
Entendemos que o reconhecimento desse direito
fundamental não é apenas uma possibilidade; trata-se de uma
necessidade para tornar efetivos os fundamentos e princípios
do Estado democrático de direito, na sociedade contemporânea
da informação, conforme determina a Constituição Federal”
(MENDES, Laura Schertel Ferreira. Habeas data e
autodeterminação informativa: os dois lados da mesma moeda.
Direitos Fundamentais & Justiça, Belo Horizonte, ano 12, n. 39,
p. 185-216, jul./dez. 2018. p. 188).

A afirmação da autonomia do direito fundamental à proteção de


dados pessoais não se faz tributária de mero encantamento teórico, e sim
da necessidade de afirmação de direitos fundamentais nas sociedades
contemporâneas.
Considerando que os espaços digitais são controlados por agentes
econômicos dotados de alta capacidade de coleta, armazenamento e

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processamento de dados pessoais, a intensificação do fluxo


comunicacional na internet aumenta as possibilidades de violação de
direitos de personalidade e de privacidade.
Todas essas transformações tecnológicas ensejam aquilo que Bruno
Bioni enxerga como um cenário de hipervulnerabilidade no regime de
proteção de dados pessoais, que se desdobra em traços vulnerantes
peculiares sob as perspectivas informacional, técnica e econômica (BIONI,
op. cit., p. 164).
Desse modo, a força normativa do direito fundamental à proteção de
dados pessoais decorre da necessidade de proteção da dignidade da
pessoa humana, vis-à-vis a contínua exposição dos indivíduos ao risco de
comprometimento da autodeterminação informacional.
A dogmática contribui para a resolução de casos como o dos autos.
Aqui, embora o acesso às informações tenha decorrido de decisão
judicial, a própria coleta dos dados, ou congelamento, ocorreu sem a
observância dos procedimentos legais.
Noutros termos, se é verdade que o sigilo das informações não foi
vulnerado sem prévia autorização judicial, também é correto afirmar que
o controle da paciente sobre seus dados foi subtraído sem a observância
dos procedimentos legais e sem qualquer ordem judicial.
Nesse sentido, uma vez inserida na equação a autodeterminação
informacional, o mero congelamento de dados sem autorização judicial e
fora das hipóteses legais afronta a tutela da privacidade.
É inconstitucional, portanto, a subtração do controle do cidadão
sobre suas informações (congelamento) sem observância das regras de
organização e procedimento, ainda que a quebra do sigilo em si tenha
ocorrido, posteriormente, mediante ordem judicial.
Caso contrário, a própria possibilidade de dispor de suas
informações pessoais, cerne do direito fundamental à proteção de dados
pessoais, estaria inviabilizada, sem qualquer autorização legal, parâmetro
normativo ou decisão judicial.
É dizer, semelhante quadro significaria inequívoco esvaziamento do
direito fundamental à intimidade, na medida em que atos de tratamento

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Voto Vista

Inteiro Teor do Acórdão - Página 64 de 83

HC 222141 A GR / PR

de dados pessoais seriam implementados à revelia de seu titular ou de


qualquer autorização judicial e legal.
Neste ponto, convém reiterar que as diligências realizadas são não
apenas ilegais, como também manifestamente desproporcionais. Afinal,
o Ministério Público não se limitou pleitear a guarda de registros de
conexão ou acesso, como autoriza a lei, mas sim impôs o congelamento
de todo um conjunto de dados pessoais e de comunicações privadas
(histórico de pesquisa, e-mail, fotos, contatos e históricos de localização),
que foram retirados da esfera de disponibilidade da paciente.
Por fim, é necessário assentar que não é possível isolar, para fins de
validade da prova, a diligência de congelamento de dados do posterior
acesso precedido de autorização judicial. As provas produzidas a partir
do conjunto de informações da paciente é indissociável da diligência do
Ministério Público voltada à preservação desses dados.
Uma vez demonstrado que a própria autodeterminação
informacional é elemento inerente do direito fundamental à privacidade,
sua violação implica a ilicitude das provas coletadas a partir do
congelamento de dados sem autorização judicial.
A mera supressão da autodeterminação informacional configura de
pleno direito a nulidade dos elementos probatórios obtidos a partir do
conjunto de informações.
A par desse aspecto, é impossível diferenciar a amostragem de
dados no momento da coleta – congelamento – daquela que estaria
disponível apenas no momento da autorização judicial. A inviabilidade
dessa prognose torna imperioso que, para fins de proteção dos dados
pessoais, não seja exigido da paciente a comprovação de tentativas de
acesso ou modificação do conteúdo.
A meu ver, é paradoxal a alegação de que não há nexo de
causalidade entre o pedido de congelamento e as provas por ele obtidas.
Afinal, se realmente não houvesse relação de dependência, o Ministério
Público não teria afirmado, quando pediu a preservação dos dados, que a
medida era necessária para a instrução das investigações criminais.
Enfim, ao requerer o congelamento fora das hipóteses legais, o

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Voto Vista

Inteiro Teor do Acórdão - Página 65 de 83

HC 222141 A GR / PR

Ministério Público pretendeu retirar dados pessoais e comunicações


privadas do âmbito de disponibilidade dos investigados. E como tal, a
medida afronta não apenas a legislação, como também o direito à
autodeterminação informativa.

Ante o exposto, acompanho o eminente Ministro Relator e nego


provimento aos agravos regimentais.
É como voto.

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Observação

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06/02/2024 SEGUNDA TURMA

[Link]. NO HABEAS CORPUS 222.141 PARANÁ

RELATOR : MIN. RICARDO LEWANDOWSKI


REDATOR DO : MIN. GILMAR MENDES
ACÓRDÃO RISTF
AGTE.(S) : MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROC.(A/S)(ES) : PROCURADOR-GERAL DA REPÚBLICA
AGTE.(S) : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PARANÁ
PROC.(A/S)(ES) : PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO
PARANÁ
AGDO.(A/S) : RAQUEL AMARAL CARDOSO
ADV.(A/S) : DANIEL GERBER E OUTRO(A/S)
ADV.(A/S) : YGOR NASSER SALAH SALMEN
INTDO.(A/S) : SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

OBSERVAÇÃO

O SENHOR MINISTRO ANDRÉ MENDONÇA -

Agradeço, Senhor Presidente!

Minha saudação a Vossa Excelência, aos eminentes

Pares, ao eminente Subprocurador-Geral da República Doutor Luiz

Augusto, à Doutora Hannah, a todos os Advogados e àqueles que nos

acompanham nesta tarde.

Primeiramente, cumprimento o Ministro Gilmar

Mendes pelo substancioso voto que Sua Excelência acaba de pronunciar.

De fato, é uma matéria nova. Da pesquisa que fiz, é a

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Observação

Inteiro Teor do Acórdão - Página 67 de 83

HC 222141 AGR / PR

primeira discussão que temos no Supremo especificamente sobre esses

dois dispositivos do Marco Civil da Internet, que disciplinam a requisição

cautelar de preservação de informações relativas a dados e a registros de

acesso de internet. Ficou clara a divergência trazida pelo eminente Relator

e agora acompanhada pelo eminente Ministro Gilmar Mendes.

Permitam-me apenas fazer uma consideração que julgo

relevante em função do voto do Ministro-Relator, agora acompanhado

pelo Ministro Gilmar.

O eminente Relator, em seu dispositivo, concedeu o

habeas corpus, a fim de declarar nulos os elementos de prova angariados

em desfavor da paciente, a Senhora Raquel Amaral, a partir do

congelamento prévio, sem autorização judicial, do conteúdo de suas

contas eletrônicas, bem como de todos os demais que dele decorrem nos

autos da ação penal ora em comento, ou seja, sem autorização judicial do

conteúdo das contas eletrônicas.

Como já bem observado pelos votos do Relator e do

Ministro Gilmar, o acesso às informações se deu posteriormente, esse sim

com autorização judicial. Houve expedição de ofícios por parte do

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Observação

Inteiro Teor do Acórdão - Página 68 de 83

HC 222141 AGR / PR

Ministério Público do Estado do Paraná de acautelamento desses dados,

vou usar a expressão como "genérica" desses dados, que foram objeto de

ofício por parte do Ministério Público.

Em relação à paciente, tivemos de fato a expedição do

ofício junto à empresa Apple, previamente, e só posteriormente houve o

pedido de autorização judicial. Em relação à Google, os ofícios que

constam dos autos indicam o pedido desse acautelamento em relação a

outros corréus, mas não em relação à Senhora Raquel.

No meu entendimento, apenas para manifestar esse

ponto, em relação às informações obtidas pelo Ministério Público junto à

Google, essas foram todas obtidas após a decisão judicial e não houve em

relação à Google, junto, no que se refere à paciente, pedido de

acautelamento desses dados e informações. No meu entender, apenas

fazendo esse registro, Ministro Gilmar, para haver essa separação,

entendo, sob a minha ótica, que, em relação às informações obtidas via

Apple, de fato temos, à luz do voto de Vossa Excelência e do Ministro de

Gilmar, o vício apontado. Há uma divergência da minha parte e do

Ministro Luiz Edson Fachin, mas entendo que, em relação à empresa

Google, não há esse vício. Mantêm-se, portanto, sob a minha ótica,

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Observação

Inteiro Teor do Acórdão - Página 69 de 83

HC 222141 AGR / PR

hígidas as provas obtidas a partir das informações trazidas pela empresa

após a decisão judicial correspondente. Gostaria de fazer apenas essa

consignação.

Muito obrigado!

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Confirmação de Voto

Inteiro Teor do Acórdão - Página 70 de 83

06/02/2024 SEGUNDA TURMA

[Link]. NO HABEAS CORPUS 222.141 PARANÁ

CONFIRMAÇÃO DE VOTO
O SENHOR MINISTRO EDSON FACHIN - Senhor Presidente,
apenas para reiterar o voto que proferi, acompanhando a divergência
agora reiterada por Sua Excelência o Ministro André Mendonça, e realçar
esse aspecto atinente à Google, porque aqui o encaminhamento à Google
se deu somente após a decisão judicial. Portanto, é uma situação distinta
pelo registro que tenho.
No que diz respeito à empresa Apple, sim, se instaura esta questão
de saber se o ofício anterior do Ministério Público, por assim dizer, se
reputado indevido, contaminaria as provas depois carreadas aos autos
por decisão judicial.
E qual é a razão que me leva a manter o acompanhamento que tenho
da divergência, pedindo todas as vênias não apenas a Sua Excelência o
Relator, mas também ao eminente Ministro Gilmar Mendes. As provas
juntadas aos autos assim o foram como decorrência da decisão judicial. Se
essa impetração debatesse o problema atinente ao registro específico
daquelas informações e ao seu congelamento, quiçá toda essa formulação
importantíssima acerca da proteção dos dados pessoais aflorasse. Mas,
aqui, o que se busca na impetração, pelo que eu deduzi, é a nulidade das
provas. Ocorre que as provas juntadas aos autos foram juntadas por
determinação judicial.
Portanto, faço essa distinção e compreendo que essa cindibilidade
que faço possa ser reputada, eventualmente, suscetível de ser afastada se
se compreender que o ofício originário do Ministério Público, caso
indevido, contaminasse o fornecimento posterior, ainda que por ordem
judicial. Mas dessa tese, com toda a vênia, ainda não me convenci.
Por isso, pedi a palavra, Senhor Presidente, apenas para
cumprimentar o voto que o eminente Ministro Gilmar Mendes traz à
colação, aliás, citando atilada doutrina sobre a proteção da privacidade de
dados pessoais, a autodeterminação informativa, à luz de tantos autores
importantes, especialmente o saudoso Professor Stefano Rodotà,

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Confirmação de Voto

Inteiro Teor do Acórdão - Página 71 de 83

HC 222141 AGR / PR

autoridade garante na Europa acerca da proteção dos dados pessoais e


que tem uma contribuição indelével nessa área.
Muito obrigado, Presidente.

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Debate

Inteiro Teor do Acórdão - Página 72 de 83

06/02/2024 SEGUNDA TURMA

[Link]. NO HABEAS CORPUS 222.141 PARANÁ

DEBATE

O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES - Eu tentei apontar o


que a lei autoriza - e está claro no texto, arts. 5º, 6º e 8º, da Lei nº 12.965 - e
define:
"Art. 5º.............................................................................................
VI - registro de conexão: o conjunto de informações referentes à data
e hora de início e término de uma conexão à internet, sua duração e o
endereço IP utilizado pelo terminal para o envio e recebimento de pacotes
de dados;
(...)
VIII - registros de acesso a aplicações de internet: o conjunto de
informações referentes à data e hora de uso de uma determinada
aplicação de internet a partir de um determinado endereço IP."
O que eu estava ressaltando era isso, e, óbvio, o debate é
importantíssimo.
A lei limita as informações cuja preservação pode ser solicitada pelo
Ministério Público, ou pela polícia sem ordem judicial. Apenas aquelas
relativas à data e hora de uso de determinado endereço IP estão sujeitas a
essa diligência e, consequentemente, fora do âmbito da chamada reserva
de jurisdição, considerando que é concebido como se fosse uma medida
acauteladora.
Em hipótese alguma o histórico de pesquisa, todo o conteúdo de e-
mail e Messenger, fotos, contatos e histórico de localização podem ser
considerados registros de acesso à aplicação de internet., como faz o
ofício do Ministério Público. Por isso a questão.
O SENHOR MINISTRO ANDRÉ MENDONÇA - Esse é um ponto
grande, talvez o substancial, de divergência. É a definição do que são
esses registros.
O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES - Isso.
O SENHOR MINISTRO ANDRÉ MENDONÇA - Eu confesso que

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Supremo Tribunal Federal
Debate

Inteiro Teor do Acórdão - Página 73 de 83

HC 222141 AGR / PR

pedi vista dos autos desse caso sensibilizado com esse ponto reforçado
agora por Vossa Excelência. Embora divergente, não posso negar que há
razões substanciais no sentido de defender a posição de Vossa Excelência.
Ao pedir vista, recebi, por exemplo, a visita da Direção-Geral da
Polícia Federal - não apenas do diretor-geral, mas a direção-geral. Pontuei
esse aspecto junto a eles, que é relevante e precisa ser trabalhado. Eles me
trouxeram elementos - daí, talvez, o ineditismo dessa discussão hoje - que
me fizeram ver além da árvore em si, do que estamos vendo do caso
concreto, outros aspectos da criminalidade relacionada à rede mundial de
computadores, que é vastíssima.
Então, nós temos criminalidade internacional, nós temos
criminalidade hoje no âmbito de criptomoedas, por exemplo, que se
utiliza e se vale muito dessa sistemática.
O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (PRESIDENTE):
Aliás, na Operação Spoofing, um determinado cidadão de uma ONG
falou que ia financiar os candidatos oriundos da Lava a Jato via
criptomoeda.
O SENHOR MINISTRO ANDRÉ MENDONÇA - Pois é. Temos a
criminalidade relacionada à pedofilia.
O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES - Sim.
O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (PRESIDENTE):
Sem necessitar de registrar nos autos, só para ilustrar, já que tem
muita coisa aparecendo na imprensa. Ele inclusive, disse: "[v]amos fazer
via criptomoedas”.
O SENHOR MINISTRO ANDRÉ MENDONÇA - Então, dentro
desse contexto, a leitura que fiz, penso, se também compreendi, feita pelo
Ministro Luiz Edson Fachin, é que o registro simplesmente do IP, sem a
possibilidade de acautelamento de toda a substância que vem por trás
desses registros... Então, vamos a um crime de pedofilia: entrou num
determinado site, por vezes entrou por engano, mas baixar imagens,
transmitir. Há uma série de outras ações que, na minha leitura, esse
acautelamento é uma medida de simples prudência.
O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (PRESIDENTE):

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Debate

Inteiro Teor do Acórdão - Página 74 de 83

HC 222141 AGR / PR

Desculpe-me, Ministro André Mendonça, por interromper, eu não


tenho voto, mas posso participar dos debates. Pelo que entendi, o que foi
feito aqui foi um acautelamento, não foi feito o uso. Penso que é
realmente uma situação bastante delicada. Então, não vou adiantar a
posição, mas acredito que, de uma forma ou de outra, nossa deliberação
sobre o caso do juiz das garantias tem uma repercussão indireta aqui, no
sentido de que lá nós deliberamos que, nos novos casos em que haja
algum tipo de início de investigação, o Ministério Público tem um prazo
de 30 dias para formalizar um requerimento ao Poder Judiciário. Ele não
pode ficar com isso guardado.
O SENHOR MINISTRO ANDRÉ MENDONÇA - Isso foi feito no
caso concreto, Ministro Dias Toffoli. Foram alguns dias, talvez dez dias
depois.
O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES - Aqui o juiz decidiu em
dois dias úteis.
O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (PRESIDENTE):
Também não quero interferir no convencimento aqui, mas tem um
caso muito interessante que o Ministro Alexandre de Moraes destacou do
Virtual, de que eu sou Relator e que está em pauta próxima do Plenário
físico. Foi um caso de furto em que o cidadão acusado do furto deixou
cair seu celular.
O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES - Aberto.
O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (PRESIDENTE):
Aberto. E a polícia localizou o celular dele e conseguiu capturá-lo.
Então, meu voto foi no sentido de que era lícita essa utilização do dado
do acusado daquele furto, que, ao fugir do local do eventual crime ou do
crime de que é acusado, deixou cair seu celular, e, com isso,
imediatamente...
O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES - Permitiu-se a
identificação.
O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (PRESIDENTE):
Permitiu-se a identificação. Ou seja, a polícia militar – não foi nem
Polícia Investigativa, não foi nem a polícia judiciária –, ao recolher do

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Debate

Inteiro Teor do Acórdão - Página 75 de 83

HC 222141 AGR / PR

chão o aparelho, conseguiu identificar aquele cidadão, e assim prendê-lo


praticamente em flagrante, praticamente de imediato. Evidentemente,
este é um caso que está em julgamento, tanto que chegou ao Supremo
com a alegação de que haveria a necessidade de reversão da decisão do
tribunal de justiça. Salvo engano, é um caso que veio do Rio de Janeiro,
em que o Tribunal Local entendeu que prova obtida daquela forma seria
ilícita.
Como coloquei em repercussão geral, a Corte atribuiu repercussão
geral a ele. Coloquei em votação no Plenário Virtual, e meu voto foi pela
higidez da prova, dando provimento ao recurso extraordinário do
Supremo Tribunal Federal por conta daquela circunstância. Uma
circunstância que, se fosse esperar uma autorização judicial, talvez não se
conseguiria localizar o suposto meliante. Eu sempre coloco no
condicional, porque o princípio da ampla defesa é absoluto. Como nós
sabemos, é um princípio constitucional do qual nós somos os maiores
guardas. Mas eu entendi que, no caso, realmente, era um caso de se
reformar a decisão do Tribunal Local, que entendeu as provas nulas, para
entendê-las lícitas em razão de toda a circunstância fática.
São questões complexas que, realmente, merecem uma discussão
mais aprofundada, até porque esse caso de que sou relator tem
repercussão geral. Então, é uma situação muito complexa. Às vezes, até
para decidir, Ministro Gilmar, Ministro Nunes Marques, uma
repercussão geral, porque isso pode atingir situações muito complexas.
Desculpem-me, mas o debate está muito interessante.
O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES - Como também o ponto
que o Ministro André trouxe sobre a abrangência da própria decisão, se
válida apenas para a situação da Apple ou se atinge também a Google,
porque aparentemente o Relator não fez a distinção. É uma questão que
teríamos que examinar. Mas o ponto que eu insisto é essa decisão que,
talvez recomende, no futuro, até uma revisão da própria legislação. Vossa
Excelência, por exemplo, é Relator do debate sobre o art. 19 do Marco
Civil.
O SENHOR MINISTRO EDSON FACHIN - Eu também tenho,

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Debate

Inteiro Teor do Acórdão - Página 76 de 83

HC 222141 AGR / PR

Ministro Gilmar, na minha relatoria, essa referência que Vossa Excelência


fez e que consta - aliás, fiz uma audiência pública em conjunto com a
Ministra Rosa Weber, embora se refira, de fato, a um outro universo de
comunicação criptografada por um outro tipo de aplicativo e
modalidade.
O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES - Sim, pois é.
O SENHOR MINISTRO EDSON FACHIN - Mas de fato o tema é,
aqui, de uma sensibilidade imensa, quem sabe até mesmo a sugerir uma
verticalização do exame dessa matéria, porque nós estamos diante de
circunstâncias que abrem muitas janelas de diálogo, para usar uma
linguagem um pouco da cibernética. Inclusive essa distinção que o
Ministro Gilmar fez.
Eu vi o dado. O Ministério Público expediu ofícios à Google, pela
informação que tenho aqui, ao menos, em 22 de janeiro. Sendo que a
decisão judicial é de 3 de dezembro, portanto, a Google está, parece-me,
efetivamente de fora deste núcleo de controvérsia.
Já no tocante à Apple, o ofício foi em 22 de novembro, mas a decisão
é de 3 de dezembro. O Ministério Público mandou ofício em 22 de
novembro, ingressou com o pedido no dia 29, poucos dias depois. E como
bem já registrou o Ministro Gilmar, dois ou três dias depois, houve o
deferimento judicial. Ou seja, há muitas nuanças, inclusive neste caso, e a
repercussão que a intervenção do Ministro Dias Toffoli bem evidenciou,
de que há muitas janelas de diálogo que esse tema suscita.
O SENHOR MINISTRO ANDRÉ MENDONÇA - Mas agradeço.
Agradeço ao Senhor Presidente, agradeço ao Ministro Gilmar Mendes.
O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (PRESIDENTE):
Bom, de qualquer forma, esse é um feito que não tem repercussão
geral, não tem um efeito vinculante, estamos a julgar o caso concreto.
O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES - E no HC, só constou,
de fato, o ofício da Apple.

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Supremo Tribunal Federal
Voto Vogal

Inteiro Teor do Acórdão - Página 77 de 83

06/02/2024 SEGUNDA TURMA

[Link]. NO HABEAS CORPUS 222.141 PARANÁ

RELATOR : MIN. RICARDO LEWANDOWSKI


REDATOR DO : MIN. GILMAR MENDES
ACÓRDÃO RISTF
AGTE.(S) : MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROC.(A/S)(ES) : PROCURADOR-GERAL DA REPÚBLICA
AGTE.(S) : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PARANÁ
PROC.(A/S)(ES) : PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO
PARANÁ
AGDO.(A/S) : RAQUEL AMARAL CARDOSO
ADV.(A/S) : DANIEL GERBER E OUTRO(A/S)
ADV.(A/S) : YGOR NASSER SALAH SALMEN
INTDO.(A/S) : SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

VOTO-VOGAL

O SENHOR MINISTRO NUNES MARQUES: Nestes agravos


internos, o Ministério Público Federal e o Ministério Público do Estado do
Paraná impugnam decisão do ministro Ricardo Lewandowski que, ao
apreciar habeas corpus impetrado pela defesa de Raquel Amaral Cardoso,
concedeu “a ordem a fim de declarar nulos os elementos de prova
angariados em desfavor da paciente a partir do congelamento prévio, sem
autorização judicial, do conteúdo de suas contas eletrônicas, bem como
de todos os demais que dele decorrem, nos autos da ação penal ora em
comento”.

A parte impetrante sustenta que a requisição direta, pelo Ministério


Público, com fundamento no art. 13, § 2º, da Lei n. 12.965/2014, “está
limitada aos registros de conexão e acesso”, tendo o órgão de acusação
requerido “a preservação de dados e conteúdos eletrônicos”, sem
autorização judicial, o que caracteriza a ilicitude ora veiculada.

O ministro Ricardo Lewandowski, Relator, votou pelo

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Supremo Tribunal Federal
Voto Vogal

Inteiro Teor do Acórdão - Página 78 de 83

HC 222141 AGR / PR

desprovimento do agravo. Destaco o seguinte fragmento:

Portanto, caberá ao juízo a quo indicar, precisamente, a


prova ora declarada inválida e que tenha sido arrecadada na
investigação, ou seja: (i) todo e qualquer material, seja ele qual
for, que seja anterior a 3/12/2018, pois ultrapassado o prazo de 1
ano (art. 13, caput, da Lei 12.965/2014), contado do dia em que
deferida judicialmente a quebra do sigilo, ou seja, 3/12/2019
(doc. eletrônico 4); e (ii) todo material que não se enquadre no
conceito de “registros de conexão” (art. 5º, VI, da Lei
12.965/2014) no período compreendido entre 3/12/2018 e
3/12/2019.

O ministro André Mendonça apresentou voto-vista pelo provimento


do agravo, em termos assim resumidos:

AGRAVOS REGIMENTAIS EM HABEAS CORPUS.


MARCO CIVIL DA INTERNET. PRESERVAÇÃO DE DADOS
TELEMÁTICOS. PRAZO MÍNIMO DE GUARDA DOS
REGISTROS. NULIDADE: INEXISTÊNCIA. NECESSIDADE
DE DEMONSTRAÇÃO DO NEXO DE CAUSALIDADE.
1. A prova digital carece de regulamentação suficiente
sobre o modo de produção, obtenção e análise dos vestígios,
exigindo das autoridades encarregadas da persecução penal
necessário juízo de ponderação entre a eventual frustração do
princípio da oportunidade investigativa, pelo eventual risco de
imprestabilidade ou frustração da investigação, e os direitos e
garantias dos investigados.
2. A previsão dos arts. 13 e 15 da Lei nº 12.965, de 2014
(Marco Civil da Internet) de guarda dos registros, seu prazo e
disponibilização se relaciona com a possibilidade de
identificação da autoria de ilícitos praticados pela internet,
tanto de natureza civil como penal, garantida a preservação da
intimidade, da vida privada, da honra e da imagem das partes
direta ou indiretamente envolvidas. Assim, a obrigação legal se
destina aos provedores como dever de guarda por período

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Voto Vogal

Inteiro Teor do Acórdão - Página 79 de 83

HC 222141 AGR / PR

mínimo, não máximo, atrelado à viabilidade de produção


probatória.
3. O pedido extrajudicial de preservação de dados ou
conteúdo telemáticos não encontra previsão legal expressa, haja
vista que a Lei nº 12.965, de 2014 (Marco Civil da Internet) não
tratou diretamente do regramento sobre a forma de produção
probatória de ilícitos criminais, civis e administrativos
praticados por meio da internet. Da mesma forma, tal medida
não foi prevista na regulamentação da cadeia de custódia pelo
Código de Processo Penal, com a nova redação conferida pela
Lei nº 13.964, de 2019, tampouco por meio do Decreto nº 11.491,
de 12/04/2023, que promulgou a Convenção sobre o Crime
Cibernético (CCIBER ou Convenção de Budapeste).
4. Entretanto, tal medida não se apresenta com meio de
produção ou obtenção de provas, pois dela não decorre
resultado probatório com a incorporação das fontes de prova ao
processo, frustrando o princípio da causalidade, decorrente da
teoria das nulidades no processo penal.
5. No caso concreto, não restou demonstrado, ainda, nexo
de causalidade entre o pedido de preservação de dados e sua
interferência no conteúdo do material disponibilizado
validamente por decisão judicial.
6. Não sendo perceptível prima facie a alegada
contaminação das provas derivadas da decisão judicial que
afastou o sigilo telemático, torna-se inviável, ao menos na via
do habeas corpus, assentar sua ilicitude.
7. Agravos regimentais providos.

É o relato do essencial. Passo ao voto.

Inicialmente, cabe apontar que a controvérsia suscitada nesta


impetração não abrange questionamentos relativos à constitucionalidade
da Lei n. 12.965/2014 (Marco Civil da Internet). Ao contrário, limita-se à
discussão acerca da licitude das provas obtidas pelo órgão de acusação,
com fundamento na referida legislação de regência.

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Voto Vogal

Inteiro Teor do Acórdão - Página 80 de 83

HC 222141 AGR / PR

Pois bem. A Lei n. 12.965/2014 determina (art. 13, caput), ao


administrador de sistema provedor de conexão de internet, a manutenção
dos registros de conexão, sob sigilo, em ambiente controlado e de
segurança, pelo prazo de um ano, possibilitando ao Ministério Público a
requisição cautelar a fim de que os registros de conexão sejam guardados
por prazo superior (art. 13, § 2º). Ademais, a autorização judicial de
acesso aos registros deve ser requerida no prazo de sessenta dias (art. 13,
§ 3º) e a disponibilização ao requerente dos registros deve ser precedida
de autorização judicial (art. 13, § 5º).

Por sua vez, nos termos do art. 15 e parágrafos da Lei n. 12.965/2014,


a ciência dos registros de acesso a aplicações de internet perante o
provedor respectivo, seguem as mesmas regras do art. 13, §§ 3 e 4º, do
mesmo diploma legal.

No caso, o Superior Tribunal de Justiça ressaltou que “o Ministério


Público requereu a preservação de dados e conteúdos eletrônicos às
plataformas em 22/11/2019, o que foi mantido em sigilo, e ingressou com
pedido de quebra do sigilo desses dados em 29/11/2019, tendo o Juízo
singular deferido fundamentadamente o pleito em 3/12/2019” (eDoc 32).

Desse modo, observo ausente desrespeito ao prazo de sessenta dias


para a solicitação de autorização judicial para acesso aos dados cuja
preservação havia sido requerida, nos termos do que estabelece o art. 13,
§ 3º, da Lei n. 12.965/2014.

Entretanto, o pedido de preservação de informações enviado às


plataformas em 22/11/2019, faz referência ao período “desde a data de
01.06.2017 até o presente momento”. Como se percebe, superior a um
ano.

Nesse contexto, acompanho o ministro Ricardo Lewandowski, no


sentido de limitar o acesso e a preservação das informações ao período de

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Inteiro Teor do Acórdão - Página 81 de 83

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um ano, devendo ser anulado o acesso a “todo e qualquer material, seja


ele qual for, que seja anterior a 3/12/2018, pois ultrapassado o prazo de 1
ano (art. 13, caput, da Lei 12.965/2014), contado do dia em que deferida
judicialmente a quebra do sigilo, ou seja, 3/12/2019 (doc. Eletrônico 4)”.

Por outro lado, é cristalina a possibilidade de o Ministério Público


requerer, nos termos da regulamentação do art. 13 e 15 da Lei n.
12.965/2014, a preservação dos registros de conexão e dos registros de
acesso a aplicações de internet.

Nesse ponto, os impetrantes questionam, nesta impetração, o


requerimento de preservação de informações que exorbitariam os limites
legais, porque o conteúdo de e-mail e iMessages, fotos, contatos e
históricos de localização não fariam parte do conceito de “registros de
acesso a aplicações de internet” ou “registros de conexão”.

A Lei n. 12.965/2014 não autoriza ao Ministério Público, sem prévia


autorização judicial, o requerimento de preservação de dados pessoais e
do conteúdo de comunicações privadas.

Nesse ponto, também acompanho o entendimento do ministro


Relator, no sentido de anular o acesso a “todo material que não se
enquadre no conceito de ‘registros de conexão’ (art. 5º, VI, da Lei
12.965/2014) no período compreendido entre 3/12/2018 e 3/12/2019”.

Do exposto, acompanho o ministro Relator para negar provimento


aos agravos.

É como voto.

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Extrato de Ata - 06/02/2024

Inteiro Teor do Acórdão - Página 82 de 83

SEGUNDA TURMA
EXTRATO DE ATA

[Link]. NO HABEAS CORPUS 222.141


PROCED. : PARANÁ
RELATOR : MIN. RICARDO LEWANDOWSKI
REDATOR DO ACÓRDÃO RISTF : MIN. GILMAR MENDES
AGTE.(S) : MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROC.(A/S)(ES) : PROCURADOR-GERAL DA REPÚBLICA
AGTE.(S) : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PARANÁ
PROC.(A/S)(ES) : PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PARANÁ
AGDO.(A/S) : RAQUEL AMARAL CARDOSO
ADV.(A/S) : DANIEL GERBER (47827/DF, 39879/RS, 473254/SP, 10.482-
A/TO) E OUTRO(A/S)
ADV.(A/S) : YGOR NASSER SALAH SALMEN (75151/PR)
INTDO.(A/S) : SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

Decisão: Após o voto do Ministro Ricardo Lewandowski


(Relator), que negava provimento aos agravos regimentais, pediu
vista dos autos o Ministro André Mendonça. Falou, pelo agravante
Ministério Público Federal, a Dra. Maria Caetana Cintra Santos,
Subprocuradora-Geral da República. Segunda Turma, Sessão Virtual
de 7.4.2023 a 17.4.2023.

Decisão: Após o voto do Ministro Ricardo Lewandowski


(Relator), que negava provimento ao agravo regimental, e dos votos
divergentes dos Ministros André Mendonça e Edson Fachin, que davam
provimento aos agravos regimentais do Ministério Público Federal e
do Ministério Público do Estado do Paraná, a fim de denegar a
ordem de habeas corpus, com base no art. 192 do RISTF, pediu vista
dos autos o Ministro Gilmar Mendes. Segunda Turma, Sessão Virtual
de 8.9.2023 a 15.9.2023.

Decisão: A Turma, por maioria, negou provimento aos agravos


regimentais, nos termos do voto do Relator, vencidos os Ministros
André Mendonça e Edson Fachin. Redigirá o acórdão o Ministro
Gilmar Mendes (art. 38, IV, b, do RISTF). Não participou deste
julgamento o Ministro Dias Toffoli por suceder a cadeira do
Ministro Ricardo Lewandowski na Turma. Presidência do Ministro
Dias Toffoli. 2ª Turma, 6.2.2024.

Presidência do Senhor Ministro Dias Toffoli. Presentes à


sessão os Senhores Ministros Gilmar Mendes, Edson Fachin, Nunes
Marques e André Mendonça.

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Extrato de Ata - 06/02/2024

Inteiro Teor do Acórdão - Página 83 de 83

Subprocurador-Geral da República, Dr. Luiz Augusto Santos


Lima.

Hannah Gevartosky
Secretária

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