Trabalho Final - Ind. Pessoa, Sociedade
Natal/RN
Agosto, 2025
Introdução
Segundo o Codex Alimentarius, podemos definir “comida de rua” como
alimentos e bebidas preparados e/ ou vendidos por comerciantes, em vias públicas,
para consumo imediato ou posterior, sem a necessidade de processamentos
adicionais (FAO/WHO, 2017). Entretanto, alguns alimentos comercializados não
necessitam de nenhuma finalização, pois são previamente coccionados e, na rua,
vendidos já prontos para o consumo, imediato ou não, como biju, cocada,
queijadinhas, algodão doce, etc. (Fonseca; Kulcsar; Pregnolato; Leme, 2013).
Vale salientar que a maioria dos vendedores que trabalham de modo
informal, em barracas e/ou carrinhos, estão presentes em feiras livres, ao lado de
mercados municipais, próximo a terminais de ônibus ou estações de metrô, em
frente a escolas, faculdades e universidades, além de outros lugares (Junior, 2013).
Sendo assim, a presença dos comerciantes em vários ambientes e os preços
acessíveis tornam o ato de comer fora uma prática democrática, conferindo à
comida outros sentidos além do seu sentido biológico, ou seja, aquele atribuído à
nutrição, simplesmente. Comer fora se converte em um ato cultural, social e
econômico que está envolto por tradições, costumes e memórias afetivas (Fonseca;
Kulcsar; Pregnolato; Leme, 2013).
Desse modo, sabendo que a prática de comer fora não é somente um
exercício nutricional, mas também uma atividade de alto impacto social, é por meio
dela que podemos conhecer o senso comum de um grupo, a forma como ele pensa,
em que acredita e como cria sua (s) própria (s) identidade (s) (Garcia, 1994). Para a
realização desta pesquisa, o cenário escolhido é um dos pontos tradicionais da
gastronomia de rua, uma praça localizada no bairro Cidade 2000, na cidade de
Fortaleza. É de conhecimento popular, na cidade, que o bairro é considerado um
polo gastronômico e de lazer, no entanto, apesar de ser um pensamento comum
aos moradores da Cidade 2000, o bairro em si, enquanto um importante centro de
gastronomia é pouco investigado.
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Fortaleza. Porém, após uma forte campanha publicitária de divulgação do bairro, o
nome que se fixou foi o de Cidade 2000.
Além da mudança de nome, a proposta inicial do bairro também sofreu
modificações: o que viria a ser um conjunto habitacional revolucionário, não foi
estruturado de forma a seguir a ideia do projeto original. Surgiram inúmeras
adversidades, como a falta de saneamento básico; a falta de transporte para o
deslocamento dos moradores a outros locais; devido a distância do bairro ao
centro, os órgãos públicos desprezaram o bairro que, por isso, carecia de
infraestrutura básica, fato que mobilizou os próprios moradores a exigirem seus
direitos básicos (Costa, 1988).
Ao longo do tempo, o bairro foi perdendo seu formato planejado, já que as
pessoas foram modificando as casas conforme seus gostos e conforme as famílias
iam crescendo. Porém, segundo o arquiteto Ricardo Bezerra, essa estrutura cria um
ambiente diferente no bairro, pois as casas possuem seus fundos atrelados entre si,
e isso faz com que as pessoas criem um convívio maior. Por isso, é característica a
política da boa vizinhança presente na Cidade 2000. Bezerra comenta que existe
uma sensação maior de conforto e segurança devido a essa dinâmica do bairro
(Nóbrega, 2016).
Mas o que está no imaginário coletivo dos fortalezenses, quando se refere à
Cidade 2000, é a praça onde se vende comida, que dá ao bairro o status de polo
gastronômico de Fortaleza. A praça funciona diariamente, iniciando sempre as
dezoito horas. Seus frequentadores são os próprios moradores e pessoas que vêm
de outros bairros, especialmente para comer as refeições oferecidas (Nóbrega,
2016).
O local conta com mais de 30 pontos, que variam entre carrinhos, food
trucks, barracas e churrasqueiras. Entre as opções oferecidas estão: pizzas,
pastéis, comida asiática, batata frita, sanduíches, acarajés, doces, sobremesas e
bebidas em geral. Os frequentadores são bem diversos, oscilando entre moradores
do bairro e visitantes de outras localidades que vão até a praça especialmente para
apreciar as refeições.
Apresento a seguir um mapa que mostra a localização da praça e sua
extensão.
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Mapa 1 – Praça gastronômica Cidade 2000
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comida típica de Fortaleza.
Da afetação a construção
Após fazer uma breve introdução sobre a temática do meu trabalho e meu
campo de pesquisa, gostaria de explicar como cheguei até ele, pois as emoções
estiveram muito envolvidas nesse processo, então acredito que seja pertinente a
este trabalho, já que iremos tratar das emoções e o campo.
A temática da comida não é novidade em minha vida, pois sou formada em
gastronomia, então já é um assunto recorrente na minha trajetória a um bom tempo
– sem contar o fato de que somos seres humanos e precisamos de comida para
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sobreviver, entre outras coisas - mas para além de falar sobre o alimento em si, o
que me cativava era entender a relação que as pessoas tinham com ele, o ponto
chave ali eram as pessoas. E foi isso que me levou até a antropologia, pois sabia
que ali, poderia analisar as relações, mas ainda precisava afunilar mais, querer
entender a relação que as pessoas tinham com a comida ainda era muito amplo.
Foi quando assisti Street Food: América Latina [serie documental] (McGinn, Gelb,
2020), que conta com 6 episódios, cada qual abordando um pais, entre eles estão:
Argentina, Brasil, México, Peru, Colômbia e Bolívia, dentre os países escolhem um
estado em especifico para representa-lo.
Nos episódios eles apresentam alguns pratos, que são comercializados na
rua, mostram seu preparo, o que representa para a cidade ao qual está inserido,
mas para além disso o que me chamou a atenção foi quando vi que para além
disso, mostravam quem os preparava e vendia. A serie poderia se tratar apenas de
comida, mas ela não faz isso, ela vai além, busca mostrar não só o alimento, mas o
que está em torno dele, as relações presentes ali, a emoção. Eles escolhem mais
ou menos três pratos em cada cidade, e aí vão mostrando ela e contando a história
das pessoas que fazem a preparação e como chegaram até ali, o que as levou a
virarem cozinheiras e a mudança que isso trouxe em suas vidas.
É impossível não se emocionar, e no meu caso, não se inspirar. Ao assistir a
série, tive um momento como aqueles de desenho animado, em que uma lâmpada
aparece em cima da cabeça de um personagem e acende quando ele tem uma
ideia, foi aí que pensei: é com isso que quero trabalhar. Além de falar sobre comida
é claro, quero poder mostrar o que está por traz e além dela, as emoções que
causa, as relações que constrói ou também as que não, mostrar tudo que está a
sua volta.
Quis trazer esse breve relato aqui, pois ao final da disciplina vejo que faz
total sentido, lembro me dá conversa que tivemos em sua sala, sobre no início não
sabermos muito bem a direção que a disciplina ia percorrer, mas ao longo das
aulas fui encontrando um caminho ao qual fazia total sentido com o meu trabalho e
meu campo.
O campo e as emoções
Seguimos agora para as reflexões. Partindo da compreensão de que as
emoções não são inatas do indivíduo e sim uma criação social que é ensinada e
manifestada através da cultura (Ahmed, Sara, 2015; Le Breton, David, 2009), com
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base nas leituras propostas e das discussões feitas em sala, pretendo discorrer
sobre as emoções como parte integrante das práticas alimentares de rua. Utilizando
como referência as discussões trazidas por Maria Claudia Coelho (2019), Michele
Rosaldo (2019), Ahmed (2015), Catherine Lutz e Lila Abu-Lughod (1990), Geoffrey
M. White (1990), Le Breton (2009) e Norbert Elias (1993), que pensam as emoções
como experiências coletivas, construídas socialmente, produzidas do sentimento de
pertencimento, criadoras de relações de poder. Também pretendo trazer para as
discussões, pequenas observações que obtive quando fiz as fotografias que estão
no presente trabalho.
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são interessantes de serem aplicadas, uma delas lida com as emoções “como
maneira de entender a natureza da pesquisa” e a outra “como forma de
conhecimento da experiência do outro por meio do contraste com a vivência do
pesquisador” (Coelho, 2019, p.285). A partir desse contraste, com a vivência do
pesquisador, constrói-se um conhecimento posicionado, que acarreta uma escrita
mais ética, horizontal e mais fiel às dinâmicas da pesquisa.
No meu trabalho com a comida de rua, o envolvimento afetivo vai ser a chave
para o entendimento das práticas que ocorrem no campo, já que a comida está
extremamente ligada à afetividade. Entender essa dinâmica e o protagonismo das
emoções no meu campo, permite que eu faça esse reconhecimento e não o
mascare a fim de mostrar uma certa neutralidade.
Michele Rosaldo
No trabalho de Rosaldo (2019) ela traz alguns exemplos de etnografias que
vão argumentar como as emoções não devem ser vistas como “coisas” e sim como
processos que vão ser melhor compreendidos quando estão atrelados aos cenários
culturais e quando observamos as associações que eles evocam. Em sua
perspectiva, o corpo, a personalidade e os selves surgem das relações
interpessoais que ocorrem no cotidiano e não são elementos separados da cultura e
de um grupo social. A sociedade é quem vai moldar esse self, por meio da cultura e
essa cultura molda o entendimento das pessoas sobre as coisas. A cultura age
muito mais do que só uma representação de crenças, rituais, costumes, muito mais
do que um mero produto, ela age também como criadora de subjetividades. Além de
representar os valores sociais, ela também vai produzir formas de sentir, perceber e
estar no mundo.
Compreender a cultura como produtora de subjetividades é relevante quando
se observa o campo da comida de rua. As relações que ali ocorrem – entre quem
prepara, quem comercializa e quem consome – são cruzadas pelas emoções, que
não vão surgir de uma maneira isolada e sim a partir das memórias, dos hábitos, e
contextos sociais compartilhados. Tudo aquilo que está envolto no ato de comer
fora, os cheiros, as maneiras de servir, os nomes, os sabores, vai ativar um
pertencimento ao indivíduo, pertencimento esse que não é individual, mas sim
cultural. Rosaldo (2019) lembra bem em seu trabalho como os sentimentos e as
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emoções não vão ser criados de forma simplesmente espontânea, mas vão surgir a
partir das relações sociais.
Isso me faz pensar em uma cena que presenciei no dia em que tirei as
fotografias mostradas aqui. Era dia 14 de junho, por volta das 20h, um sábado à
noite, a praça estava mais cheia do que de costume, já que estava no período de
festas juninas, nessa época do ano, muita gente gosta de sair para comer o
“pratinho” que é um prato típico aqui de Fortaleza- CE, que não necessariamente é
servido em um prato, pode ser servido em uma embalagem plástica, ou de isopor,
geralmente descartável, seu tamanho varia entre médio e grande, e sua composição
vai consistir em baião de dois ou arroz branco, creme de galinha ou vatapá,
calabresa ou carne do sol acebolada, acompanhado de farofa e salada, caso o
cliente assim o queira.
Já que estava lá para tirar as fotos aproveitei para comer, pois além de
fotografar a comida, também queria prova-la, nada mais justo! Como a praça tinha
mais gente que o normal, o lugar que escolhi para comer – um carrinho de comida,
o que aparece na Figura 1 - Imagens do polo gastronômico da Cidade 2000, na
imagem do canto inferior direito – estava com um fila um tanto quanto grande, e
enquanto aguardava ia observando o movimento, enfim chegou a minha vez de ser
atendida, fiz o meu pedido, e na hora de pagar tive que esperar um momento
enquanto o atendente pegava um refrigerante que eu havia pedido, neste momento
acabei presenciando uma cena que me chamou a atenção, logo atrás de mim
seguia uma cliente que já tinha o costume de comprar ali, uma “freguesa”, percebi
isso pois na hora de realizar seu pedido disse que “seria o de sempre”, com isso fica
fácil de concluir que não era a primeira vez que comia ali, enquanto a mulher servia
a cliente, elas iam conversando, durante essa conversa a atendente questiona se
“fulano” estava bem, provavelmente um familiar da cliente, neste momento os olhos
da cliente se enchem de agua, a atendente logo entende a situação e antes mesmo
que a cliente diga outra coisa, a atendente lhe conforta com palavras.
Tudo aconteceu muito rápido, enquanto eu aguardava para fazer meu
pagamento. Ainda assim, foi uma experiência muito interessante, porque em
questão de minutos, consegui presenciar uma cena que estava completamente
envolta de emoção, uma relação criada e estabelecida entre vendedor e cliente e
que tem tudo a ver com o que Rosaldo (2019) discute.
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Sara Ahmed
A autora Sara Ahmed (2015) traz uma perspectiva interessante para se
pensar as emoções a partir do que ela chama de economia afetiva, onde, de acordo
com ela: “as emoções funcionam como uma forma de capital: o afeto não reside
positivamente no signo ou na mercadoria, mas sim no que produz como efeito da
sua circulação. Os objetos das emoções circulam através de um campo social e
também de um psíquico.” Ou seja, as emoções têm um valor social e assim como o
dinheiro elas também circulam entre as pessoas, corpos e objetos. Os sentimentos
não habitam os sujeitos nem os objetos em si, mas surgem da repetição de relações
sociais e afetivas. A circulação dos objetos permite pensar sobre a sociabilidade da
emoção.
A autora coloca as emoções como sendo relacionais: “envolvem (re) ações
ou relações de ‘aproximação’ ou ‘distância’ em relação aos referidos objetos”. Traz a
ideia de que os corpos são superfícies e as emoções moldam essas superfícies,
que vão tomando forma a partir da repetição de ações ao longo do tempo e também
por meio da aproximação e do distanciamento de outros. Essas superfícies criam
fronteiras que marcam os corpos, dizendo onde podem estar ou não, o que eles
podem fazer, onde são aceitos, o que lhe cabem, o que podem sentir (Ahmed,
2015).
Ahmed (2015) também discorre sobre a ideia de pegajosidade das emoções,
onde os afetos vão se “colar” aos objetos, as coisas, as superfícies. O que vai gerar
um significado a esses objetos, significados esses que vão sendo criados a partir de
repetições, das histórias de contato e da impressão que deixa na superfície do
objeto. A partir disso, as palavras/afetos adquirem a pegajosidade, quando
nomeamos algo transferimos essa pegajosidade ao objeto. A relação entre a
pegajosidade do signo e do objeto vai ser primordial para a performance da
emoção. Nomear as coisas não só gera um sujeito e um objeto, mas também cria
uma comunidade de pessoas que se ligam através de um julgamento partilhado de
um objeto.
Podemos associar a ideia de economia afetiva e pegajosidade desenvolvida
por Ahmed (2015) à comida de rua, observando como certos pratos ou certos
lugares passam a ser associados a certos tipos de emoção como nojo, repulsa,
desejo ou saudade. Emoções essas que não fixas aos alimentos ou espaços em si,
mas são construídas socialmente e mudam conforme marcadores sociais – gênero,
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classe, idade, território – e que são criadas a partir das relações sociais. O mesmo
alimento que para uma pessoa pode trazer uma memória afetiva, como uma
lembrança da infância, para outra pode ser repugnante, atrelado a coisas ruins,
vemos que o significado não está em si no objeto, mas na experiência e nas
relações que estão envolvidas.
Observo essa circulação das emoções quando vejo as pessoas classificarem
um alimento como típico. Trago aqui o “pratinho” novamente para pensarmos, em
Fortaleza ele é um prato típico, mas em Natal-RN muita gente nem sabe o que é,
porém tem conhecimento dos elementos que formam o “pratinho”, como o arroz ou
o vatapá. Com isso é possível entender na pratica como os sentimentos não estão
impressos nos itens em si, mas sim na repetição que ocorre nas relações sociais em
tratarem aqui em Fortaleza o “pratinho” como sendo uma comida típica da cidade.
Outro exemplo disso foi a entrada do “pratinho” na merenda escolar das
crianças de Fortaleza. A partir de 1 de agosto de 2025, o prato fara parte da
alimentação escolar, dos alunos, professores e servidores das escolas municipais
(G1, 2025).
Le Breton
Assim como para Rosaldo (2019), Ahmed (2015), Lutz e Abu-Lughod (1990),
para Le Breton (2009) as emoções também contêm razão, elas vão obedecer às
lógicas pessoais e sociais e a razão também vai conter de certa forma um tanto de
emoção porque ela não é rígida, nem extremamente formalizada e perfeita como
pensada por uma máquina.
Le Breton (2009) também cita como as emoções não são somente biológicas,
que dependem também do aprendizado adquirido na sociedade em que se vive. Ela
não vai existir se não estiver ligada com a vida social, pois depende das relações
sociais e dos contextos para existir. Ela não tem significado por si só, precisa estar
em um contexto e inserida na sociedade para poder significar. Como aponta Le
Breton (2009), em um trecho o que expressa com precisão essa concepção:
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pessoal, sua psicologia, seu status social, seu sexo, idade, etc. As emoções
são a matéria viva do fenômeno social a base que orienta o estilo das
relações nutridas pelos indivíduos, distribuindo os valores e as hierarquias
que sustentam a afetividade” (Le Breton, 2009).
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Mas o que faz com que certos espaços — como uma praça — sejam
associados a formas específicas de comer e de sentir? Para responder a isso,
podemos recorrer ao conceito de espaço social alimentar de Jean-Pierre Poulain
(2003). Segundo o autor, esse espaço corresponde: “à zona de liberdade dada aos
‘comedores’ humanos por uma dupla serie de condicionantes materiais”. Essas
condicionantes são, por um lado, biológicas – já que comer é uma necessidade
natural do ser humano – e, por outro, ecológicas – o lugar onde o indivíduo vive.
Esses fatores podem se modificar de acordo com as condições econômicas e
conforme a sociedade vai se industrializando e diminuindo conforme as tecnologias
dominam a natureza (Poulain 1999;2002).
O espaço social alimentar, é composto por diferentes dimensões. O espaço
do comestível, que seria aquilo que as pessoas decidem comer. O sistema
alimentar, abrange todos os processos que envolvem a comida, desde a colheita até
seu preparo. O espaço do culinário, é tanto o espaço em si, a praça por exemplo,
quanto um espaço no “senso social”, onde define onde é lugar de homem e mulher
por exemplo. O espaço dos hábitos de consumo, são os rituais que envolvem a
alimentação, como e quando se comer. Já a temporalidade alimentar, os ciclos da
alimentação, comidas festivas, comida da infância ou da velhice (Poulain, 2003).
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realidade social. Um exemplo é o que podemos observar nas interações que
ocorrem nos locais onde se vende comida de rua, onde os clientes comentam sobre
o sabor de um alimento, como ele se assemelha a comida de sua mãe, como
lembra a infância, como a comida tem o mesmo cheiro da que sua avó fazia. O
discurso que essas pessoas fazem, não é apenas um discurso que descreve um
sentimento, mas é um discurso que performa a construção de um vínculo e de
memórias compartilhadas. O modo como a nostalgia é expressa nesses relatos
contribui para a criação de um ambiente de pertencimento e uma identidade
coletiva, o que reforça o papel social da comida de rua como um espaço de afeto e
memória.
Por isso, Abu-Lughod (1990) propõe que, em vez de fazer como a grande
maioria e ter o foco em entender o significado do discurso, devemos focar em
investigar as maneiras que esses discursos emotivos são usados, focar na prática e
analisar os discursos em sua função e efeito e não apenas em seus referentes.
Percebemos a forte presença desses discursos na concepção daquilo que é
aceito e o que não é entre o público. Geralmente o que se nota na praça é a forte
presença de comidas tidas como “típicas” e “regionais” tanto da cidade, quanto da
região do Nordeste. Essa definição muitas vezes é obtida a partir dos discursos, em
uma tentativa de se criar uma identidade, um símbolo, um pertencimento.
Para além disso os discursos podem fazer com que comidas que não
pertençam a essas categorias, que são predominantes, também se tornem
populares, podemos ver um exemplo na Figura 1 - Imagens do polo gastronômico
da Cidade 2000, na imagem superior direita, uma barraca de yakisoba, comida
tipicamente oriental, mas que na praça foi “abrasileirada” e é um dos itens populares
entre os consumidores.
Norbert Elias
No capítulo “Vergonha e repugnância”, do livro de Norbert Elias (1993), o
autor discute como, ao longo do tempo, a sociedade foi moldando sua forma de
sentir, transformando seus comportamentos vistos como “selvagens” e passando a
ter modos considerados “civilizados”. Nesse processo, os medos que antes eram
externos se tornaram internos, transformando-se em medos subjetivos e individuais.
O autor explica que:
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O que acontece no curso do processo civilizador não é desaparecimento de
um e o aparecimento de outro. O que muda é simplesmente a proporção
entre os medos de origem externa e os que são gerados dentro da pessoa,
e a estrutura que os articula. O temor de potências externas diminui, sem
jamais desaparecer (Elias, 1993, p. 248).
Podemos associar esses medos aos modos de se comer tanto na rua, quanto
na casa. Da Matta (1997), discute como socialmente a rua é conhecida por ser um
espaço sujo, de impurezas, coisas ruins. Essa classificação contribui para que as
pessoas se comportem de uma maneira distinta da que fazem fora de casa. Muitas
podem optar por não comer na rua, quando o fazem possuem uma conduta
diferente da que tem em casa.
A vergonha faz com que certos atos sejam evitados ou mal vistos, comer com
a mão pode ser um exemplo disso. Ao fazer uma refeição dentro de casa nos
sentimos mais livres para não seguir as regras de etiqueta postas pela sociedade,
podemos comer como nos parece mais interessante. Já em ambientes públicos,
como a rua, não fazemos o mesmo, devido a inibição que a vergonha causa, um
sentimento de uma coisa errada a se fazer em público.
Os alimentos que as pessoas vão escolher para comer também podem estar
associados a essa ideia já que as vezes um gosto pessoal não é tão bem visto em
público, é algo que é estigmatizado. Devido a essas restrições Ellen Woortmann
(2016), classifica as comidas em duas categorias: comível e comestível.
Pelos nomes, não parecem ter muita diferença, mas ao entender seus
significados, entende-se como elas são criadas a partir de fatores simbólicos e
culturais, e não apenas por questões biológicas. O que o ser humano caracteriza
como comível é tudo aquilo que ingerimos do ponto de vista biológico, ou seja,
alimentos que podem ser consumidos, independentemente de serem aceitos
socialmente ou não. Já os alimentos que são considerados comestíveis são aqueles
que um determinado grupo social ou uma cultura considera apropriados para
consumo, mostrando o que é ou não culturalmente aceito.
Considerações finais
Portanto, a partir da reflexão feita, entende-se como um consenso entre os
autores de que a emoção surge por meio das práticas sociais, que ela é ensinada e
não algo inato ao ser humano. Por meio das teorias e conceitos trazidos pelos
autores podemos entender de uma maneira mais intima nosso campo de estudo.
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Coelho (2019), apresenta as emoções como um modo de compreender a
natureza da pesquisa e como uma maneira de conhecer o outro a partir da diferença
em relação a vida do pesquisador. Rosaldo (2019) insere a perspectiva de que as
emoções surgem a partir de memórias, hábitos e contextos sociais compartilhados,
e não aparecem de forma isolada. Essas emoções, em vez de ativar um
pertencimento individual, ativam um pertencimento cultural.
Ahmed (2015) propõe que pensemos as emoções como uma economia
afetiva, onde, assim como o dinheiro, esses sentimentos vão circular entre as
pessoas, corpos e objetos. Porém sem habitar esses sujeitos, surgindo apenas da
repetição. Isso nos leva a segunda proposta que ela discute, sobre a pegajosidade
das emoções, que ocorre por meio de sentimentos que se “colam” a objetos, coisas
e superfícies. Dando significância a esses objetos, que surgem por meio de
repetições de histórias de contato e da impressão deixada na superfície de objetos.
Lutz, Abu-Lughod (1990) e White (1990), fazem uma análise das emoções a
partir dos discursos. Para eles, o momento que alguém fala, a pessoa não está
apenas discursando, está descrevendo e para além disso está performando as
memorias compartilhadas e construindo um vínculo.
Le Breton (2009) discute como as emoções estão atreladas com a vida
social. Sozinhas não possuem significados, precisam estar inseridas na sociedade e
em um contexto para ter significado.
Por fim Elias (1993), discute como alguns comportamentos que antes eram
públicos e externos foram sendo gradualmente reprimidos até se tornarem internos,
subjetivos e individuais.
A partir desta análise dos autores e da reflexão baseada em meu campo,
noto a importância de tal exercício para uma melhor compreensão das relações
existentes – pesquisadora e campo, pesquisadora e interlocutores, interlocutores e
campo – e para uma relação mais horizontal na pesquisa.
REFERÊNCIAS
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