COMENTÁRIOS À RECENTE MUDANÇA DO ART. 218 DO CÓDIGO PENAL (ALTERADO PELA LEI N. 12.

015/2009)

Sumário: 1. O novo art. 218 do Código Penal. 1.1. Confronto entre o antigo art. 218 e o novo art. 218 (alterado pela Lei n. 12.015/2009). 1.2. Objetividade jurídica. 1.3. Núcleo do tipo. 1.4. Sujeito Ativo. 1.5. Sujeito Passivo. 1.6. Elemento Subjetivo. 1.7. Consumação. 1.8. Tentativa. 1.9. Ação Penal. 1.10. Classificação Doutrinária. 2. O Art. 218 do CP e o tipo previsto no art. 244-B do ECA. 3. A celeuma entre a corrupção de menores e estupro de vulnerável. 4. Bibliografia.

RESUMO

Esse artigo se propõe a analisar as recentes mudanças introduzidas pela Lei 12.015/2009, mais especificamente, a mudança destinada ao art. 218 do Código Penal, onde percebe-se uma nítida mudança em relação ao tipo anterior delimitado pelo mesmo Estatuto Penal. 1) O Novo art. 218 do Código Penal: preceitua o art. 218 do Código Penal: “Induzir alguém menor de 14 (catorze) anos a satisfazer a lascívia de outrem: Pena – reclusão, de dois a cinco anos”. 1.1) Confronto entre o antigo art. 218 e o novo art. 218 do CP: Vejamos antiga redação do art. 218 do CP, antes da alteração dada pela Lei n. 12.015/2009: “Corromper ou facilitar a corrupção de pessoa maior de 14 (catorze) e menor de 18 (dezoito) anos, com ela praticando ato de libidinagem, ou induzindo-a a praticá-lo ou presenciá-lo. Pena – reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos. Como se vê, o tipo penal introduzido pela recente lei em nada se assemelha com o tipo penal anterior, por mais que o nomen iuris seja o mesmo. O Mestre Cleber Masson faz uma sucinta crítica à manutenção do referido nomen iuris do art. 218, ao qual o mesmo aduz:
“O nomen iuris pela Lei 12.015/2009 ao crime definido no art. 218 do Código Penal – “corrupção de menores” – não foi o mais acertado. Melhor teria sido a nomenclatura “mediação de menor vulnerável para satisfazer a lascívia de outrem”.

De fato, há uma maior semelhança entre o crime do art. 227 do CP (Mediação para servir a lascívia de outrem) em comparação à nomenclatura do antigo art. 218, sendo assim, bem apropriada a sugestão do ilustre professor. Outrossim, além dessa falha terminológica, seria mais correto a inclusão desse dispositivo legal, como uma forma de causa de aumento de pena, no próprio tipo do art. 227 do CP, onde ficaria melhor distribuído, sem a sensação de um tipo legal fora de órbita, de acordo com o meu entendimento.

registro de identidade. Elemento Subjetivo: É o dolo. na atividade sexual de terceiros. a consumação se dá com a realização.). equilibrado e compatível com a sua idade. convencendo-a a agir de uma determina forma. afim de que seja combatida a exploração sexual de menores. 155. menores são de fato induzidos à esse mundo sujo e completamente incompatível com a verdadeira vida que um menor deveria estar levando. Observe que não é necessário. no sentido de criar na mente de alguém a vontade de satisfazer a lascívia alheia. com esse dispositivo. Vejamos seu posicionamento: “A conduta deve atingir pessoa ou pessoas determinadas. com esse amparo legal. Procura-se. pode ser praticado por homem ou por mulher. Insta ressaltar a preocupação básica do legislador ao enfrentar o tema de forma mais contundente. onde. Segundo o doutrinador Cleber Masson.5) Sujeito ativo: É crime comum. Vejamos o seu boníssimo comentário a respeito: “O valor da pessoa humana passa a ser o objeto jurídico dos delitos contemplados nos Capítulos IV e V. a sensualidade. a luxúria. também. o cabritismo. 1. 1. nos moldes do art.3) Núcleo do tipo: O núcleo do tipo é “induzir”. o erotismo. do ato destinado a satisfazer a lascívia de outro.4) 1. parágrafo único. estimulado pela ação de terceiros que exploram o “comercial carnal”. impedir o desenvolvimento desenfreado da prostituição. bem como o direito ao desenvolvimento sexual sadio.1. Sendo assim. 1. comumente. o qual é. Destarte. cortar o estímulo da prostituição através do ataque direto ao sujeito ativo deste crime. Sujeito passivo: É a pessoa melhor de 14 anos.2) Objetividade jurídica: O bem jurídico penalmente tutelado é a dignidade sexual da pessoa menor de 14 anos. a satisfazer a lascívia de outrem. Neste tipo penal incriminador. tenta-se. a conduta deve atingir pessoa ou pessoas determinadas. Lascívia é o desejo sexual. no entanto. estará caracterizado o crime de favorecimento da prostituição ou outra forma de exploração sexual de vulnerável. Fernando Capez. o legislador incriminou o intermediário. relativamente aos menores de 14 anos.6) 1. 218-B do Código Penal”. etc. Não se admite a modalidade culposa. pois o tipo penal contém a elementar alguém”. Trata-se crime material ou causal. muitas das vezes. ou seja. entretanto. pelo menor de 14 anos. Segundo o Doutor e Procurador de Justiça Licenciado de São Paulo. se o sujeito induzir pessoas indeterminadas. do CPP. consubstanciado na vontade livre e consciente de induzir a vítima a satisfazer a lascívia alheia. Consumação: neste tipo penal incriminador. houve uma mudança de foco da proteção jurídica. menores de 14 anos. que haja a efetivação satisfação do desejo sexual alheio. A idade da vítima deve ser provada por documento hábil (certidão de nascimento. em face da regra contida no art.7) .

71. A vítima é pessoa menor de 14 anos. art. Tratase de crime instantâneo. do Código Penal. Ação Penal: trata-se de ação penal pública incondicionada segundo o art. com ele praticando infração penal ou induzindo-o a praticá-la: (Incluído pela Lei nº 12. e a conduta típica consiste em induzi-la a satisfazer a lascívia de outrem. (Incluído pela Lei nº 12. Só a título de curiosidade. 244-B. bastando um único comportamento da vítima em busca da satisfação do prazer sexual de terceira pessoa. 1. “Art.015.015. 244-B do ECA: embora o art. Por sua vez. Corromper ou facilitar a corrupção de menor de 18 (dezoito) anos. comum (pode ser praticado por qualquer pessoa). caput. em regra comissivo. de 2009)”. inclusive salas de bate-papo da internet. 244-B do ECA. segundo constatação do Promotor de Justiça Cleber Masson. O Delito do art. unissubjetivo ou de concurso eventual (pode ser cometido por uma única pessoa. de 2009) § 2o As penas previstas no caput deste artigo são aumentadas de um terço no caso de a infração cometida ou induzida estar incluída no rol do art. 225.015. permitindo o fracionamento do iter criminis. figura entre os crimes contra dignidade sexual. 2) O Art. e o tipo penal elencada no art. 218 do CP. pelo menor de 14 anos. 69) ou de crime continuado.015/2009. Sua redação é a seguinte. 218 do CP apresente a terminologia legal de “corrupção de menores”. de 2009) § 1o Incorre nas penas previstas no caput deste artigo quem pratica as condutas ali tipificadas utilizando-se de quaisquer meios eletrônicos.072. mais especificamente entre os delitos sexuais contra vulnerável. de 1 (um) a 4 (quatro) anos. de ato tendente a satisfazer a lascívia de outrem). de forma livre (admite qualquer meio de execução). (Incluído pela Lei nº 12.015.O crime de corrupção de menores não adentra na seara dos crimes habituais. em nada se relacionada ao campo sexual. 1o da Lei no 8. a título de concurso material (CP. 244-B da Lei 8. 1.069/90 – ECA – envolva a conduta de “corromper ou facilitar a corrupção de menor”. a repetição de atos importará na pluralidade de delitos.9) 1.10) Classificação doutrinária: a corrupção de menores é crime simples (ofende em único bem jurídico).8) Tentativa: é perfeitamente possível. instantâneo (a consumação ocorre em um momento determinado. do Código Penal. tais crimes não se confundem. e normalmente plurissubsistente (a conduta pode ser fracionada em diversos atos).reclusão. material ou causal (consuma-se com a realização. (Incluído pela Lei nº 12. sem continuidade no tempo). se presentes todos os requisitos exigidos pelo art. razão pela qual não se exige a reiteração de atos que visa à satisfação da lascívia alheia. mas admite concurso). o crime definido no art. de 25 de julho de 1990. . parágrafo único. embora instituído pela Lei 12. de 2009) Pena . 218 do CP e o tipo previsto no art. em face do caráter plurissubsistente do crime.

São Paulo: Saraiva. deverá responder pelo crime de estupro de vulnerável. Rel. 2º Corrente (Guilherme de Souza Nucci): O mesmo entende que o novo tipo criou uma exceção pluralística à teoria monística. Min. São Paulo: Método.Pune-se a conduta daquele que pratica alguma infração penal – crime ou contravenção penal – na companhia de menor de 18 anos. presencialmente ou mesmo valendo-se de meios tecnológicos (videoconferência. Direito Penal Esquematizado. os artigos tanto o 217-A como o art. Assim. HC 97. 3. Cleber. Manual de Direito Penal. Parte Especial. internet etc. pois busca prazer sexual mediante a observação de outras pessoas. tais como assistir à vítima dançar nua. beneficiado pela conduta do agente. mas não se pode promover uma interpretação prejudicial ao réu. Em síntese. deve limitar-se a atividades sexuais meramente contemplativas (contemplação passiva). MASSON. definido no art. se o sujeito ativo induzir menor de 14 anos responderia pelo artigo 218. 2º Turma. Rogério Sanches.2009).) O terceiro. 3) A celeuma entre a corrupção de menores e estupro de vulnerável: Existem dois posicionamentos atuais sobre essa questão: 1º Corrente (Luiz Flávio Gomes. fazer poses eróticas. atua como voyeur. O crime se verifica quando a criança ou adolescente já se encontra afetada em sua idoneidade moral. 2011. . demonstrando a intenção do legislador em punir distintamente cada meliante com seu devido tipo penal. 3. São Paulo: Revista dos Tribunais. 2010. e isto se concretizar. 27. Fernando Capez e Cleber Masson): esse posicionamento defendido inicialmente por Luiz Flávio Gomes e Rogério Sanchez acredita que. Curso de Direito Penal. 2011. mormente porque benéfica ao acusado”. sendo assim. se auxiliar ou instigar a mesma vítima (outras formas de participação) recairia na figura típica do artigo 217-A. se trata claramente de delitos distintos não tendo razão em suscitar uma possível exceção pluralística à teoria monística no concurso de pessoas. A legalidade deve prevalecer. NUCCI. j. Com a devida vênia. se o agente induzir alguém menor de 14 anos a ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com terceira pessoa.10. Vol. 4) Bibliografia: CAPEZ. o comportamento de induzir a vulnerável a satisfazer a lascívia de outrem. para Nucci. devendo a conduta do instigador incidir no novo delito. Como podemos ver.197/PR. 218 são bem diferentes no que tange à sua identificação. na qual. Vol. deturpando ou contribuindo de qualquer modo para sua depravação moral e para a má formação da sua personalidade. 217-A do Código Penal. pois a conduta ilícita prejudica ainda mais seu desenvolvimento ético (STF. Barbosa. Guilherme de Souza. Fernando. Segundo o referido doutrinador: “a ilogicidade é evidente. estou filiado a primeira corrente. De outra forma.

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