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Lívia Neide de Azevedo Alves

A POLÍCIA FEMININA NA POLÍCIA MILITAR DE MINAS GERAIS:

PERCURSO HISTÓRICO

Belo Horizonte

2011

Lívia Neide de Azevedo Alves

A POLÍCIA FEMININA NA POLÍCIA MILITAR DE MINAS GERAIS:

PERCURSO HISTÓRICO

Monografia apresentada à Academia de Polícia Militar do Estado de Minas Gerais e à Fundação João Pinheiro como requisito parcial para aprovação no Curso de Especialização em Segurança Pública (CESP/2011), na área de Segurança Pública.

Orientadora: Coronel PM Luciene Magalhães de Albuquerque.

Belo Horizonte

2011

Fundação João Pinheiro

Monografia intitulada “A Polícia Feminina na Polícia Militar de Minas Gerais: percurso histórico”, aprovada pela banca examinadora constituída por:

Luciene Magalhães de Albuquerque, Cel PM QOR - orientadora

Cláudia Araújo Romualdo, Cel PM - Examinadora

Martha Araújo - Examinadora

Examinada em:26/10/2011

Às policiais militares femininos da PMMG.

Em homenagem à Cap PM Flaviana Germânia de Oliveira.

AGRADECIMENTOS

A Deus e a meus pais, Judite e Marcelino. Sei que com os três posso contar sempre, ainda que

a distância.

A meus filhos, André e Ana Beatriz, que por tanto tempo conviveram estoicamente com a

presença meramente física da Mãe. Mamãe está de volta!

Ao Alê, meu amor, que mesmo envolvido com o próprio trabalho monográfico, esteve sempre ao alcance da minha mão.

À Juju, que tomou conta dos meus filhos nesse longo período, como se a mãe fosse! E à

amiga querida, Maria Duarte, por estar sempre por perto para “adotá-los” se fosse preciso!

Ao Coronel Jair Cançado Coutinho e às demais autoridades envolvidas no processo de inclusão da mulher na PMMG, que dispuseram do seu tempo para me conceder longas

entrevistas, nas quais fui surpreendida por diversas vezes. Foram tantas histórias que daria um

livro!

À Cap PM QOR Denise Gonçalves: palavras e gestos são muito pouco para expressar minha

gratidão e reconhecimento pelo apoio em todas as fases de construção desse projeto, desde a

escolha do tema até a correção final, antes da entrega à orientadora. Seu rigor na correção ortográfica, gramatical e de normalização faz as outras parecerem anjos, mas foram fundamentais para a qualidade final do trabalho. E ao Glênio, pela ajuda com os gráficos e pelos lanches deliciosos!

À Coronel Luciene, minha querida e respeitada orientadora, que mesmo conhecendo o

percurso na palma da mão, me deixou livre para construir minha própria estrada, iluminando

os trechos mais densos, com sua serena sabedoria.

Às integrantes do CFS Fem/1981 que se dispuseram a abrir suas lembranças, dividir as memórias e conhecimentos. A participação e o entusiasmo de vocês contribuíram sobremaneira para me manter animada, mesmo com as naturais dificuldades para o levantamento dos dados necessários ao registro fidedigno de suas passagens pelas fileiras da PMMG.

Às Tenentes Chiarelli e Mary, duas entusiastas da preservação da história da PMMG e, em especial, à equipe da Seção de Microfilmagem do CGDoc: Onório, Avelino, Nathália, Elizete, Vinícius e Cármen. Se não fossem vocês, a pesquisa teria sido muito chata!

À Professora Madalena Jabour, que abriu as portas de sua casa e seus álbuns à minha ávida curiosidade, desvendando imagens únicas e surpreendentes de um período de intensa transformação institucional e de abertura de um novo capítulo na vida de cada uma das mulheres ali retratadas.

Por fim, aos amigos Silma, Marcelo e Silvano, meus companheiros no grupo de trabalho, muito obrigada pela amizade e companheirismo. O CESP ficou muito melhor na companhia de vocês!

Todo conhecimento histórico pode ser representado pela imagem de uma balança em equilíbrio, que tem sobre um de seus pratos o ocorrido e sobre o outro o conhecimento do presente. Enquanto no primeiro prato os fatos reunidos nunca serão insignificantes e numerosos demais, o outro deve receber apenas alguns poucos pesos grandes e maciços.

(Walter Benjamin: Passagens)

RESUMO

A história da Polícia Feminina na Polícia Militar de Minas Gerais se faz com uma sucessão de acontecimentos que tiveram e continuam tendo reflexos nas carreiras das próprias policiais, nas ações da Polícia Militar e, via de conseqüência, na segurança pública de maneira geral. A percepção sobre os eventos pioneiros, iniciados com o Decreto 21.336, de 20 de maio de 1981, que criou a Companhia de Polícia Feminina, e sobre os processos que se sucederam é determinante para que se avalie, sob quaisquer ângulos, a situação atual da mulher na Instituição. Para resgatar o percurso histórico da Polícia Feminina na Polícia Militar de Minas Gerais, foram coletadas informações disponíveis nos documentos expedidos pela própria Instituição, desde o ano de 1981 até 2011, além das disponíveis em estudos acadêmicos, livros e outras publicações. De forma complementar, foram coletados relatos orais de pessoas, civis e militares, que ajudaram a entrelaçar os fatos, contando os acontecimentos dos quais participaram e que não estavam registrados nas fontes anteriores.

Palavras-chave: mulher - polícia feminina Cia PFem polícia militar - PMMG

ABSTRACT

The history of the Female Police in the Minas Gerais Military Police is done with a succession of happenings that had and still having reflexes in own policewomen career, in the Military Police‟s actions and, consequently, in the public security in a general manner. The perception over the pioneer events, started with the Decree nº 21.336, from may, 20 th , 1981, that created the Female Police Company, and over the processes which has succeeded is determinant to evaluates, under any angle, the actual situation of the woman in the Institution. To rescue the historical trajectory of the Female Police in the Minas Gerais Military Police, had been collected available information in documents dispatched by the own Institution, since the year of 1981 up to 2011, beyond the available academic studies, books and others publications. In a complementary way, had been collected oral relates of people, civilians and militaries, who supported to interlace the facts, telling the happenings which they had participated and that had not been registered in earlier sources.

Keywords: woman female police PFem Cia military police PMMG.

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

AFA

- Academia da Força Aérea

ALMG

- Assembleia Legislativa de Minas Gerais

APM

- Academia de Polícia Militar

BPTran

- Batalhão de Policia de Trânsito

BGPM

- Boletim Geral da Polícia Militar

BI

- Boletim Interno

BPChq

- Batalhão de Polícia de Choque (extinto)

Cad

- Cadete

CAO

- Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais (atual CESP)

CAS

- Curso de Aperfeiçoamento de Sargentos (atual CASP)

CASP

- Curso de Aperfeiçoamento em Segurança Pública (antigo CAS)

CEGESP

- Curso de Especialização em Gestão Estratégica de Segurança Pública

CESP

- Curso de Especialização em Segurança Pública

CGDoc

- Centro de Gestão de Documentos

Cia PFem

- Companhia de Polícia Feminina

CICOP

- Centro Integrado de Comunicações Operacionais

CIGAR

- Centro de Instrução de Graduados da Aeronáutica

CTPM

- Colégio Tiradentes da Polícia Militar

CPC

- Comando de Policiamento da Capital

CFC

- Curso de Formação de Cabos

CFO

- Curso de Formação de Oficiais

CFS

- Curso de Formação de Sargentos

CFS/Fem

- Curso de Formação de Sargentos Femininos

CFSd

- Curso de Formação de Soldados

COPOM

- Centro de Operações Policiais Militares (atual CICOP)

COPM

- Clube dos Oficiais da PMMG

CRFA

- Corpo Feminino da Reserva da Aeronáutica

CSP

- Curso Superior de Polícia (atual CEGESP)

CTPM

- Colégio Tiradentes da PMMG

DOSSAF

- Sociedade Benemerente de Auxílio ao Exército, à Aviação e à Marinha (Rússia)

DOPM

- Diretriz de Operações Policiais-Militares

DRH

- Diretoria de Recursos Humanos

DP

- Diretoria de Pessoal

EAP

- Exame de Aptidão Profissional

EB

- Exército Brasileiro

EsAEx

- Escola de Administração do Exército Brasileiro

FAB

- Força Aérea Brasileira

IBGE

- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

ICOP

- Instrução de Conduta Operacional

IGPM

- Inspetoria Geral das Polícias Militares

IME

- Instituto Militar de Engenharia (EB)

IPEA

- Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada

NSA

- Lei do Serviço Nacional (National Service Act)

OTAN

- Organização do Tratado do Atlântico Norte

PM5

- Quinta Seção do Estado-Maior (Seção de Comunicação Organizacional)

PM6

- Sexta Seção do Estado-Maior (Seção de Coordenação Administrativa)

PMAM

- Polícia Militar do Estado do Amazonas

PMBA

- Polícia Militar da Bahia

PMDF

- Polícia Militar do Distrito Federal

PMESP

- Polícia Militar do Estado de São Paulo

PMGO

- Polícia Militar de Goiás

PMMG

- Polícia Militar de Minas Gerais

PMPA

- Polícia Militar do Pará

PMPB

- Polícia Militar da Paraíba

PMPI

- Polícia Militar do Piauí

PMRO

- Polícia Militar de Rondônia

PMSC

- Polícia Militar de Santa Catarina

POV

- Posto de Observação e Vigilância

PPC

- Posto de Policiamento Comunitário

QOE

- Quadro de Oficiais Especialistas

QOPM

- Quadro de Oficiais Policiais Militares

QPBM

- Quadro de Praças Policiais Militares

QPE

- Quadro de Praças Especialistas

QPPM

- Quadro de Praças Policiais Militares

QPPM Fem

- Quadro de Praças Policiais Militares Femininos

RAPM

- Regimento da Academia de Polícia Militar

RDPM

- Regulamento Disciplinar da Polícia Militar

RCAT

- Regimento de Cavalaria Alferes Tiradentes

RCONT

Regulamento de Continências, Honras e Sinais de Respeito

RMBH

- Região Metropolitana de Belo Horizonte

RPMont

- Regimento de Polícia Montada (atual RCAT)

RePoFem

- Regulamento da Companhia de Polícia Feminina

RUIPM

- Regulamento do Uniformes e Insígnias (PMMG)

Sgt

- Sargento

SIRH

- Sistema Integrado de Recursos Humanos (SIRH)

UEOp

- Unidade de Execução Operacional

WAC

- Women‟s Army Corps (EUA)

LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Figura 01 -

Comandante-Geral da PM apresenta uniformes da Policia

60

Figura 02 -

Feminina ao Governador Estandarte da Cia PFem

91

Figura 03 -

Penteado para cabelos curtos, conforme Resolução 3423/90

105

Figura 04 -

Penteado para cabelos médios, conforme Resolução 3423/90

106

Figura 05 -

Penteado para cabelos longos, conforme Resolução 3423/90

106

Gráfico 01 - Profissões informadas pelas aprovadas no concurso ao CFS

55

 

Fem/81

Gráfico 02 -

Tempo de permanência no serviço ativo das aprovadas no concurso ao CFS Fem/81

121

Gráfico 03 -

Causas da evasão das aprovadas no concurso ao CFS Fem/81

122

Quadro 01 -

Composição dos uniformes operacionais dos PM masculinos e

61

Quadro 02 -

femininos em 1981 Modificações introduzidas no RePoFem pela Res. 1284/84 83

Quadro 03 -

Distribuição do efetivo de oficiais em decorrência da Lei 9089/85

88

Quadro 04 -

Distribuição do efetivo de praças em decorrência do Decreto

89

25381/86

Quadro 05 -

Situação do efetivo PMFem em decorrência da Lei 9362/86 94

Quadro 06 -

Efetivo de Policiais Militares Femininos da PMMG

120

SUMÁRIO

1

INTRODUÇÃO

17

2

CRIAÇÃO DA POLÍCIA FEMININA NA PMMG

22

2.1

Importância do contexto histórico

22

2.2

O papel da mulher na sociedade

23

2.3

A inserção da mulher no mercado de trabalho

25

2.4

Mulheres nas instituições militares

27

2.5

A Polícia Militar de Minas Gerais

42

3

METODOLOGIA

48

3.1

Métodos

48

3.1.1

Coleta de registros escritos

48

3.1.2

Coleta de relatos orais

50

4

PERCURSO HISTÓRICO

53

4.1

Acontecimentos da década de 80

53

4.1.1

Providências preliminares para a criação da Polícia Feminina

53

4.1.2

Normas e procedimentos iniciais

53

4.1.3

O primeiro processo seletivo

55

4.1.4

Outros acontecimentos da década de 80

56

4.1.4.1

1981

56

4.1.4.2

1982

64

4.1.4.3

1983

71

4.1.4.4

1984

81

4.1.4.5

1985

84

4.1.4.6

1986

88

4.1.4.7

1987

95

4.1.4.8

1988

102

4.1.4.9

1989

103

4.2

Acontecimentos da década de 90

104

4.2.2

1991 a 1999

109

4.3

Acontecimentos de 2000 a 2011

115

4.4

Registros da situação atual

119

5

CONSIDERAÇÕES FINAIS

123

5.1

Implicações da pesquisa

125

5.1.1

Acesso aos documentos históricos

125

5.1.2

Conservação da história por meio da publicação e da conservação de textos diversos

126

5.1.3

Boletins como fonte de pesquisa sobre a PMMG

127

5.1.4

Sistema de Recursos Humanos como fonte de dados sobre o pessoal da PMMG

128

REFERÊNCIAS

129

ANEXOS

152

17

A POLÍCIA FEMININA NA POLÍCIA MILITAR DE MINAS GERAIS:

PERCURSO HISTÓRICO

1 INTRODUÇÃO

Desde 20 de maio de 1981, com a entrada em vigor do Decreto 21.336, que criou a Companhia de Polícia Feminina (Cia PFem) na Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), as mulheres passaram a compor as fileiras dessa Instituição. (MINAS GERAIS, 1981)

Transcorridos 30 anos da edição do Decreto 21.336, observa-se a presença da mulher policial

militar nas mais diversas atividades operacionais e administrativas, ocupando todos os postos

e graduações e participando dos processos de desenvolvimento institucional. (MINAS GERAIS, 1981)

A simples visualização do atual posicionamento da mulher nos quadros da PMMG não permite, no entanto, conhecer como se deu o processo que possibilitou que se chegasse a esse quadro. Isso ocorre porque, em 1981, quando da criação da Polícia Feminina na Corporação,

os cenários político e social, assim como as próprias tradições que vigoravam, determinaram os procedimentos de seleção, inclusão, formação, empenho, além dos padrões de comportamento próprios para as policiais femininas.

A partir do decreto mencionado, criaram-se normas específicas para essas servidoras, tanto no

que se refere aos padrões pessoais e profissionais de comportamento, quanto para o emprego e

para o acesso na carreira.

O franqueamento do acesso das mulheres na Corporação deu-se, portanto, de maneira paulatina, resultado de planejamentos específicos e da sucessão de acontecimentos que determinaram o cenário que hoje se observa.

A PMMG foi uma das Corporações Policiais Militares do Brasil pioneiras na incorporação

das mulheres em seus quadros de carreira. Em 1981, já transcorridos vinte e seis anos da

18

criação da Polícia Feminina do Estado de São Paulo (PMSP, 2010), quatro anos da criação da Polícia Feminina do Estado do Paraná (SCHACTE, 2006), e no mesmo ano em que se criou a Polícia Feminina do Estado do Rio de Janeiro (SOARES e MUSUMECI, 2005), o emprego das mulheres nas forças policiais militares dos estados ainda não era consolidado em todo o País.

Ao contrário do que ocorria com os homens, que chegavam à Corporação pelas graduações iniciais de Soldado, no caso das Praças, e de Tenente, no caso daqueles que acessavam diretamente ao Oficialato, as primeiras policiais femininas da PMMG galgaram, diretamente, à graduação de Sargentos. Somente em 1983 as mulheres foram admitidas no Curso de Formação de Oficiais (MINAS GERAIS, 1983). E somente em 1986, a PMMG incorporou as primeiras mulheres aprovadas, em concurso público, para o Curso de Formação de Soldados Femininos (MINAS GERAIS, 1986).

Enquanto, no círculo dos Oficiais, as mulheres pertenceram, desde o início, ao mesmo quadro que os homens (Quadro de Oficiais Policiais Militares QOPM), no círculo das Praças, criou- se o Quadro de Praças Policiais Militares Femininos (QPPMFem). Essa situação somente foi alterada em 1993 com a unificação dos quadros, que juntou o QPPM Fem com o QPPM (MINAS GERAIS, 1993).

Dessa forma, observa-se que a decisão inovadora de incorporar mulheres na PMMG alterou a estrutura da própria Instituição em 1981 e continuou alterando, de acordo com a evolução do pensamento estratégico do Comando e com a estabilização dessa força de trabalho.

Buscando definir o foco da pesquisa, percebeu-se que as abordagens sobre o emprego das mulheres nas instituições militares, e especialmente na PMMG, poderiam ser as mais diversas, dependendo dos inúmeros aspectos que se desejasse abordar em cada estudo.

Diante das limitações próprias do trabalho monográfico, que se pretendeu como resultado final desta pesquisa, a proposta foi delinear o percurso histórico das mulheres do quadro Policial Militar na PMMG, desde a criação da Polícia Feminina nessa Instituição, até setembro de 2011.

Por esses motivos, não se contempla, neste estudo, a trajetória das mulheres dos quadros de especialistas, muito embora se saiba que a presença das profissionais da área de saúde,

19

música, comunicações e das bombeiras constitui também um percurso pioneiro, sob os mais diversos pontos de vista, inclusive sendo aplicáveis a essas profissionais, muitas das regras mencionadas nesta monografia, mormente aquelas de caráter geral. No caso específico das Bombeiras Militares, resta esclarecer que, até 1999, o Corpo de Bombeiros em Minas Gerais pertencia à PMMG; a Emenda à Constituição nº 39, de 02 de junho de 1999, desvinculou o Corpo de Bombeiros da PMMG, atribuindo à nova Corporação a competência para coordenar e executar ações de defesa civil, perícias de incêndio, busca e salvamento e estabelecimento de normas relativas à segurança das pessoas e de seus bens contra incêndio ou qualquer tipo

de catástrofe (MINAS GERAIS, 1999).

Também em virtude da delimitação dos objetivos deste trabalho, não se pretendeu

desenvolver avaliações sobre a inclusão, seleção, emprego ou quaisquer aspectos relacionados

à Polícia Feminina na PMMG, não obstante as informações aqui coletadas possam ser utilizadas em trabalhos posteriores com esse escopo.

O objetivo geral da pesquisa foi o de Registrar o percurso histórico da Polícia Feminina na

PMMG, desde sua concepção, em 20 de maio de 1981, até setembro de 2011. Para tanto foram definidos três objetivos específicos: levantar informações que permitam conhecer o percurso histórico da Polícia Feminina na PMMG; compilar, em ordem cronológica, os registros referentes ao histórico da Polícia Feminina na PMMG e historiar o contexto de criação e a evolução da Polícia Feminina na PMMG.

Justifica-se essa pesquisa pelo fato de que a PMMG, em seus 236 anos de existência, foi alvo de estudos por especialistas das mais variadas áreas, motivados, dentre outros, pelo seu protagonismo no cenário de segurança pública estadual e nacional. No entanto, apesar de já se terem passado trinta anos da inclusão das mulheres na PMMG, até o presente momento, os registros do percurso da Polícia Feminina não foram compilados. Assim, as referências disponíveis sobre esse caminhar se encontram esparsas em legislações específicas e gerais - algumas em vigor, outras revogadas - em trabalhos de pesquisa cujos focos não convergiam para a consolidação exclusiva da história da Polícia Feminina na PMMG portanto, sem a preocupação com a memória minuciosa e em notícias publicadas por órgãos de imprensa.

Logo após a sua criação, a Polícia Feminina foi objeto de estudo por Oficiais da PMMG, com foco na forma de emprego das mulheres policiais, seja buscando a comprovação de sua adequabilidade ao trabalho policial, ou procurando medir seu desempenho operacional em

20

comparação ao homem, ou, mais recentemente, discutindo o tema sob a ótica relacional, a exemplo de Salazar (2007). Dos estudos realizados por pesquisadores militares, localizados nos acervos da biblioteca da APM, apenas alguns destes trabalhos foram feitos por mulher, a exemplo daquele feito com enfoque na aposentadoria aos 25 anos de serviço para o efetivo feminino da PMMG (COCOVIK, 2006).

Pesquisadores civis, vinculados a instituições de ensino diversas, também focaram seus estudos na mulher policial militar, algumas vezes discutindo questões relacionadas à inserção da força feminina no mercado de trabalho, outras procurando traçar o perfil identitário dessas profissionais, tal como Listgarten (2002), ou, ainda, discutindo a subjetividade, as relações de poder e gênero, como fez Capelle (2006), contudo, sem aprofundamento nos aspectos contextuais que vigoravam na época da criação da Polícia Feminina em Minas Gerais ou dos acontecimentos relatados, já que não eram objetivos específicos dos estudos.

Alguns desses trabalhos acadêmicos utilizaram, para contextualização, partes da história da Polícia Feminina, no entanto, não se detiveram no delineamento aprofundado, minucioso, cronológico e estritamente narrativo da mulher na PMMG.

O presente estudo se propõs a levantar e registrar os acontecimentos que, iniciados em 1980, constituíram o caminhar da Polícia Feminina na PMMG, delineando o percurso dessa força de trabalho que, apesar de agora consolidada, demandou preparativos, estratégias, normas e procedimentos específicos, fruto de estudos, expectativas e resultados indissociáveis da história da própria Instituição.

Espera-se que o registro do percurso da Polícia Feminina na PMMG não se preste, exclusivamente, para trazer à luz o caminhar de uma parte do efetivo da Milícia de Tiradentes. Mais do que isso, pretendeu-se que o presente estudo se constituísse em uma das fontes de consulta para quaisquer trabalhos que dependam do delineamento seguro dessas informações, bem como documentação definitiva de um conjunto de ações de Comando que, iniciadas em 1980, bem planejadas e executadas, receberam continuidade nos Comandos posteriores, cada qual implementando características apropriadas ao seu tempo, e que permitiram que a mulher policial militar chegasse aos dias atuais em sólidas condições de emprego na PMMG.

Para contar a história da Polícia Feminina na PMMG, o trabalho foi dividido em cinco partes.

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Na primeira, a criação da Polícia Feminina foi inserida no seu contexto histórico, recuperado a partir das informações que apresentaram o papel da mulher na sociedade, sua inserção no mercado de trabalho, a presença das mulheres nas instituições militares e a Polícia Militar de Minas Gerais.

Na segunda parte, a apresentação da metodologia permitiu esclarecer os métodos de coleta das informações, a forma de seleção dos dados e os motivos que determinaram essa seleção.

Na terceira parte, os registros do percurso histórico, por sua vez, também foram divididos em três décadas: a) a década de oitenta, que concentrou a maior parte dos acontecimentos sobre a Polícia Feminina na PMMG, especialmente em virtude do grande volume de normas e acontecimentos pioneiros. Essa década foi apresentada ano a ano, para assegurar melhor percepção quanto à sequência e a época em que os fatos aconteceram; b) a década de noventa foi dividida em duas partes. A primeira contou os acontecimentos do último ano de existência da Companhia de Polícia Feminina (Cia PFem), 1990, cujos registros ainda indicaram muitos acontecimentos relacionados exclusivamente às Policiais Femininos 1 . Os acontecimentos dos demais anos da década de 90 foram agrupados, já que, a partir de então, os registros específicos sobre a Polícia Feminina se tornam escassos; c) os acontecimentos de 2000 a 2011 também foram apresentados em conjunto, embora, como o restante do trabalho, na ordem cronológica em que se sucederam.

A quinta parte do trabalho foi dedicada ao registro das considerações finais, apresentando aspectos da complexidade para o acesso às informações.

1 Para fins de uniformização, nesse trabalho foram usadas as expressões “Policial Militar Feminino” e “Policial Feminino” para se referir às mulheres da Instituição. No entanto, nas citações diretas ou reproduções de documentos, foi mantida a expressão original, seja “Policial Feminina” ou ainda, “Policial Militar Feminina”.

22

2 CRIAÇÃO DA POLÍCIA FEMININA NA PMMG

2.1 Importância do contexto histórico

A história da humanidade nos conta que, tradicionalmente, as culturas reservaram papéis

distintos para homens e mulheres. Assim, por vários séculos, predominou, nas diversas

culturas, o modelo em que o homem exercia o papel exclusivo de provedor, cabendo à mulher

as

funções exercidas para manutenção do lar e criação dos filhos.

O

caminhar da humanidade registrou mudanças a passos lentos, com casos pontuais de fuga

do modelo estabelecido, contudo, o século XIX, em virtude de transformações sociais de ordens diversas, trouxe alterações nessa ordem. Assim, paulatinamente, observa-se que a mulher passou a participar do mercado de trabalho, inicialmente ocupando funções específicas.

Desse movimento inicial, a mulher passou a se fazer presente em todas as áreas da vida do trabalho, de maneira que, no século XX, ao contrário do que se observava algumas décadas antes, não se distinguem mais funções exclusivamente masculinas, considerando como referência o fato de serem ou não exercidas também por mulheres.

Ao passo em que se inseria nos demais setores, a mulher também caminhou em direção às carreiras militares. No Brasil atual, as mulheres estão presentes nas Forças Armadas e nas Polícias Militares, exercendo funções relacionadas aos postos e graduações que envergam, a exemplo do que acontece na PMMG.

Dessa forma, para resgatar o percurso histórico da Polícia Feminina na PMMG, torna-se necessário rever os passos na mulher na sociedade, sua inserção no mercado de trabalho, seu acesso aos organismos militares no mundo e no Brasil, passando pelos fatos motivadores da decisão de inserir indivíduos do sexo feminino na Instituição e culminando com os registros, década após década, de 1980 a 2011.

23

2.2 O papel da mulher na sociedade

Ao discutir a participação da mulher na vida pública no período de 1850 e 1932, Marques (2009) destaca a profunda diferença no tratamento entre os sexos na sociedade luso-brasileira, “sempre no sentido de reduzir a mulher à condição de inferioridade na ordem patriarcal” (MARQUES, 2009, p. 439). Contudo, na Europa, no final dos séculos XVII e XVIII, os sinais de que evidenciava a mudança dos papéis atribuídos às mulheres causaram reflexos na corte portuguesa:

Na esteira do processo civilizador que alterou os padrões de conduta de gênero, também as práticas relativas ao processo de educação das mulheres da nobreza na sociedade de corte absolutista foram alteradas de modo a permitir um desempenho apropriado destas mulheres no espaço de socialização, especialmente, nos salões aristocráticos. (MARQUES, 2009, p. 439)

No entanto, conforme Marques (2009), somente com a chegada da família real, em 1808, as mudanças nos padrões de comportamento da elite européia começaram a ter reflexo no Brasil. Assim, segundo Silva (1998), apud Marques (2009), datam de 1809 os primeiros registros do surgimento de colégios privados que ofereciam educação às filhas da elite local. Seguiu-se, de acordo com Marques (2009), uma elevação cultural das filhas da elite. Foi um processo gradual de redefinição dos costumes e dos padrões de convívio na aristocracia, cujo auge, no Brasil, ocorreu no segundo reinado.

Marques (2009) aponta que a educação feminina na elite brasileira criou raízes em meados do século XIX, embora as mulheres estivessem circunscritas aos espaços de socialização consentidos: o lar e o salão, no entanto, “para o conjunto mais amplo da sociedade, a difusão da concepção da educação feminina como um valor social foi um processo simultâneo ao surgimento nos setores médios” (MARQUES, 2009, p. 441). Isso porque, conforme o Estado se reorganizava e se fazia presente nas províncias mais distantes, adveio um contingente urbano, que ocupava funções na burocracia pública e privada, assim como no provimento de serviços, que também tinha interesse em educar suas filhas.

Samara (2009) destaca as primeiras décadas do século XX como cruciais para as mulheres mobilizadas na conquista da cidadania e ressalta o direito do voto, que foi uma das lutas

24

feministas. Assim, aponta que, na América Latina, o Equador foi o primeiro país a garantir o sufrágio feminino (em 1929) e o Paraguai, o último (em 1961). A autora relata que, em teoria, a primeira nação do hemisfério ocidental a reconhecer o sufrágio feminino na Constituição, foi o Uruguai (em 1917), contudo, a prática era inviabilizada pela exigência de dois terços de maioria em cada uma das casas legislativas para que se tornasse lei. A Constituição Peruana de 1933 permitiu que as mulheres votassem em nível local, contudo, não reconhecia sua cidadania, que permanecia privilégio masculino. Cuba, em 1934, foi o quarto país da América Latina a permitir o direito de voto às mulheres.

Também falando sobre a emersão dos direitos femininos no Brasil, D‟Araújo (2004) destaca:

No Brasil, as mulheres ganharam o direito de freqüentar universidades em 1874; a partir de 1932 puderam votar e ser votadas, mas só a partir de 1981 puderam jogar futebol profissionalmente, o principal esporte do país. Aliás, o grande conjunto de mudanças para as mulheres do Brasil veio a partir dos anos 1980: surgiram as primeiras delegacias voltadas para o atendimento a mulheres vítimas de violência, as escolas militares se abriram para elas, e aumentou a bancada feminina no Congresso Nacional de 5% para 8% nas eleições de 2002. Nesse mesmo ano, nas eleições para presidente da República, em quase todas as chapas havia uma mulher como candidata a vice-presidente, e dois dos 27 estados brasileiros escolheram uma mulher para o governo estadual. (D‟ARAÚJO, 2004, P. 442)

No entanto, como ressalta Xavier (2008):

É válido ressaltar, que apesar dos preconceitos velados em relação a elas, as mulheres obtiveram importantes conquistas sociais a partir do século XX, como o direito ao voto; a existência de uma cota para candidatas a cargos eletivos; o fim do casamento imposto pelo pai; o término do confinamento ao mundo privado doméstico com a obrigação de servir ao homem e a conquista em diferentes espaços no mercado de trabalho. (XAVIER, 2008, p.

20).

Para Oliveira (2001), a partir da década de 70, em decorrência da incorporação feminina no mercado de trabalho, o modelo de “dona de casa”, que até as décadas anteriores implicava uma condição de status feminino, declinou acentuadamente. A nova identidade feminina que começou a ser construída não estava mais restrita ao espaço privado da família e as mulheres foram se deslocando “das ocupações de professoras do ensino primário, de secretárias e de enfermeiras para posições mais valorizadas e qualificadas no mercado de trabalho, bem como passaram a galgar posições de comando na hierarquia funcional” (OLIVEIRA, 2001, p. 111).

25

2.3 A inserção da mulher no mercado de trabalho

Analisando dados do Censo Demográfico de 1920, Oliveira (2001) conclui que, até então, apenas as trabalhadoras de baixa renda vivenciavam o trabalho extradomiciliar, idéia que se reforça com a baixa representação das mulheres nas profissões liberais (menos de 5%). A autora demonstra que, nos anos 70, o quadro começa a se modificar, especialmente entre as mulheres dos segmentos médios, assim como as mulheres casadas e as mães.

Conforme Oliveira (2001), a estrutura ocupacional tornou-se mais complexa, na década de 70, em virtude da intensificação da urbanização, e isso conduziu à emergência de uma classe de trabalhadores não-manuais. As novas oportunidades de inserção da mulher no mercado de trabalho se deram com o crescimento dos setores modernos da economia, além de mudanças de ordem cultural e social:

Por outro lado, os valores culturais e as práticas sociais modificaram-se de forma expressiva, ocasionando a redução dos níveis de fecundidade, o enfraquecimento dos vínculos matrimoniais, como conseqüente número de separações e de divórcios, bem como propiciando o crescimento das famílias lideradas pelas mulheres.

A família brasileira passou por transformações profundas ao longo da

década de 70, que se refletiram, particularmente, na mudança verificada na

condição da mulher e nas relações entre os sexos. Para tanto, contribuíram

de modo decisivo o aumento do acesso feminino ao ensino superior e a

influência dos movimentos feministas. (OLIVEIRA, 2001, p. 111)

Segundo Ramos e Soares(1994), a taxa de participação das mulheres com 16 anos ou mais no mercado de trabalho nos Estados Unidos passou de 41,6 para 51,7%, no período de 1976 a 1985, ao passo que, no Brasil, essa taxa passou de 28,7 para 36,9%, o que ainda demonstrou uma baixa participação da mulher no mercado de trabalho brasileiro.

Apesar disso, Hoffmann e Leoni (2004) apontam uma intensificação da participação das mulheres na atividade econômica na década de 1970, em um contexto em que a economia se expandia, sendo que esse movimento prosseguiu na década de 1980, apesar da estagnação da atividade econômica e da deterioração das oportunidades de ocupação.

Bruschini (2000) indica, com base em informações recolhidas em levantamentos oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Ministério do Trabalho, que as

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últimas décadas do século XX no Brasil (período de 1981 a 1998) foram marcadas por intensas transformações demográficas, culturais, políticas e econômicas. A autora cita, como indicadores dessas modificações, a queda de fecundidade, o envelhecimento da população, o aumento do número de famílias chefiadas por mulheres e a redemocratização do país. Além disso, aponta que os anos em questão foram marcados por crises econômicas, elevadas taxas de inflação, sucessivos planos de estabilização e, a partir de 1994, queda da inflação e estabilização da moeda.

Pautando-se em critérios macrossociais, Bruschini (2000) defende que, não obstante a persistência de desigualdades e discriminações em relação ao trabalho feminino no Brasil, as duas últimas décadas do século XX são marcadas por mudanças relevantes, tanto no que se refere ao perfil demográfico e educacional da mão de obra feminina, quanto ao lugar ocupado pela mulher no mercado de trabalho.

Bruschini (2000) refere-se aos anos 80 como um período de “permanente e prolongada crise econômica, com aumento do desemprego e alteração na distribuição da população economicamente ativa, deslocando-a do setor industrial para ocupações no setor informal” (BRUSCHINI, 2000, p. 438). Os dados analisados pela autora demonstram o papel destacado do setor terciário, na primeira metade dessa década, no sentido de evitar maiores quedas no nível de desemprego, já que os ramos que mais geraram empregos foram a prestação de serviços, o comércio, as atividades sociais, a administração pública e alguns outros, a exemplo das instituições financeiras. Nesse sentido, a década de 80 registra, conforme a autora, um declínio no nível de emprego no setor industrial, representada por uma queda ligeira no caso dos trabalhadores masculinos e de forma mais acentuada (9,6%) para as mulheres. Segundo ela, as maiores possibilidades para as mulheres continuaram sendo na prestação de serviços (apesar de cederem lugar para os homens de 7,8% em 1981, para 12,4% em 1998), na área social e no comércio de mercadorias.

Em seu estudo, Bruschini (2000) aponta que, nas duas últimas décadas do século XX, apesar de nos setores denominados “menos favorecidos” (trabalhadores domésticos, não remunerados e consumo próprio e da família), ainda predominar o trabalho da mulher, também aumenta a parcela feminina em todos os grupos ocupacionais, com aumento nas funções administrativas (ampliando presença nas burocráticas e nos cargos de diretoria e chefia na administração pública). A autora também indica que, no período analisado (1981 a

27

1998), o aumento considerável das mulheres nas funções de chefia, gerência e administração de empresas, bem como nas funções de empresárias, ou empregadoras, num acréscimo de participação na ordem de 224%. No grupo das ocupações técnicas, aumentou a presença feminina nas profissões de prestígio: arquitetura e odontologia (170%), medicina (137%), jornalismo (146%), engenharia (126%) e ocupações jurídicas (144% - destacando-se o número de juízas, cuja evolução foi de 300%).

2.4 Mulheres nas instituições militares

Dedicando-se a traçar a participação da mulher nas forças armadas, Caire (2004) identifica que a presença feminina sempre foi permitida nos exércitos desde a pré-história, ainda que elas não ocupassem os cargos militares propriamente ditos. Assim, o autor trata das “mulheres que acompanhavam os exércitos” em circunstâncias distintas, em cada exército, país ou época. O autor cita dois exemplos lendários da coragem das mulheres celtas e gaulesas:

Os ambrons da região de Ais-em-Provence, aliados aos ombriens, combateram os romanos de Marius; quando vencidos, retiraram-se para as carroças, suas mulheres se postaram entre eles e os romanos, que empreendiam a perseguição com espadas e machados. Os romanos se viram obrigados a recuar, interrompendo o ataque até o dia seguinte. O mesmo aconteceu quando Marius derrotou os cimbres. As mulheres organizaram uma posição para a defesa com as carroças e preferiram ser degoladas, juntamente com as crianças, em vez da rendição. (DECAUX, Alain. 1973, apud CAIRE, 2004. pp. 15 16).

Caire (2004) esclarece que a tradição de permitir que as mulheres acompanhassem os exércitos se manteve na Gália e na França, contudo, a presença feminina passou por um período de incessante degradação durante o antigo regime (entre os séculos XVI e XVIII), alimentado pelo mito da inferioridade da mulher, consagrado por muito tempo graças a uma conjugação de crenças gregas, romanas, francas e cristãs.

Assim, segundo Caire (2004), “na Idade Média os exércitos reais transbordavam de mulheres” (CAIRE, 2004, p. 18). Desde 638, os francos tinham o costume de levar suas mulheres com o exército. Eram, em grande parte, das chamadas “mulheres autorizadas”.

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Tais mulheres que, em princípio, não participavam do combate iriam exercer diversas funções e vivenciar várias experiências. Seja durante a Idade Média, seja no decorrer do Antigo Regime, seja no tempo da Revolução ou do Império, elas seguiram exércitos como esposas, enfermeiras, prostitutas ou mercadoras, antes que fossem reconhecidos os papéis de cantineiras, vivandeiras e lavadeiras. A partir do surgimento dessas profissões regulamentares, tentou-se, mais uma vez, eliminar todas as outras categorias de „acompanhantes‟, mas foi em vão. (CAIRE, 2004, p.

18)

Assim, Caire (2004) especifica que “todas essas „mulheres que acompanhavam os exércitos‟ partilharam a vida do soldado, a ponto de, em determinadas circunstâncias, combaterem ao seu lado. (CAIRE, 2004, p. 35)

Caire (2004) também trata das mulheres guerreiras, as quais classifica em duas categorias. A primeira categoria é a das chefes de exércitos, quase sempre rainhas, princesas e amazonas, cujos registros remontam à Antiguidade, a exemplo de Artemisa, primeira Rainha de Halicarnasso, que combateu que combateu ao lado de Xerxes, rei dos persas. Nesse grupo também estão Joana d‟Arc, considerada a mais célebre de todas, e as amazonas, cujos exércitos eram comandados e compostos por mulheres guerreiras. As primeiras amazonas da França teriam surgido com a Revolução de 1789.

A segunda categoria de mulheres guerreiras, segundo Caire (2004), a mais numerosa, é a das mulheres-soldados, muitas das quais, por necessidade, defenderam vilas e castelos sitiados. Dentre essas, o autor enumera as que considera mais famosas: Jeanne Hachette, que defendeu Beauvais, em 1472, contra Carlos o Temerário, e Améliane Puget e suas companheiras, que combateram durante o cerco de Marsella, em 1542, contra o grande oficial da coroa de Bourbon, dentre outras.

Caire (2004) pontua que, apesar de seu antifeminismo notório, Napoleão Bonaparte admitiu a presença de determinadas mulheres-soldados nos exércitos imperiais. Assim, há registros da presença de Rose Barreau, que serviu com seu marido e se destacou durante a tomada do reduto espanhol de Biriaton, em 1793; de Angélique Ducheim, que começou sua carreira como cantineira e, depois da morte do marido, foi engajada no 42º de Infantaria e participou de sete campanhas, de 1792 a 1799, na qualidade de fuzileiro, cabo, cabo-furriel e sargento- maior, dentre outras.

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Relacionando mulheres-soldados de outros países, Caire (2004) menciona: Mary Read, uma célebre mulher-pirata do século XVII; Francesca Scanagetta, oficial do Exército austríaco que, disfarçada de homem, freqüentou cursos na academia militar de Viena e serviu como porta-estandarte por três anos, a partir de 1979; Augustine Sarzella, na Espanha, que defendeu o sítio de Zaragosa, que foi nomeada oficial e passou a ser reconhecida como “a Virgem de Zaragosa” após ter os braços arrancados por uma granada de canhão; a primeira mulher- almirante da história, a grega Laskarina Bourboulina, que comandou uma frota que combateu os turcos de 1821 a 1825; Deborah Sampson Garret e Molly Pitchers, que combateram na Guerra de Secessão nos Estados Unidos e foram chamadas de riflewomen; e Emilie Plater que, por ocasião do levante de 1831, na Polônia, foi encarregada da defesa da cidade de Kowna, investida no posto de capitão-comandante.

Contudo, conforme assevera Caire (2004), somente com o advento dos grandes conflitos mundiais do século XX, as mulheres passaram a ser admitidas nos exércitos, não apenas em caráter excepcional, como ocorrera até então. Antes disso, o século XIX, considerado uma época de transição, viu despontar as enfermeiras que atuavam nos hospitais militares e, em alguns casos, nos campos de batalha, no socorro aos feridos. Aumentou a importância da participação das mulheres na direção das instituições da Cruz Vermelha e os decretos que regulamentaram a participação de seus membros nas zonas de retaguarda dos conflitos, autorizaram seus membros a usar uniforme e portar um braçal característico.

A primeira guerra mundial gerou a necessidade de mão de obra na retaguarda para sustentar o esforço de guerra. Assim, as mulheres foram mobilizadas ou requisitadas, conforme Caire (2004) para servirem nas formações militares. Segundo o autor, foram muitas as mulheres que combateram na Rússia, dentre as quais estavam as três primeiras pilotos militares do mundo:

Lioubov Galanchikova e a Princesa Dolgoroukaia, que serviram na guerra contra a Alemanha, em 1917, e Natalia Bervy, primeira piloto do exército vermelho, em 1918. Há registros da atuação de mulheres em combates na Romênia, na Tchecoslováquia, na Sérvia e na Polônia; neste último, inicialmente em organizações clandestinas há notícia de uma formação militar polonesa totalmente feminina que chegou a ter três mil componentes. No entanto, “diferentemente dos países da Europa Ocidental, os do Ocidente não enviaram suas mulheres para a guerra; porém, elas fizeram um esforço prodigioso na retaguarda para substituir os homens” (CAIRE, 2004, p. 58).

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Foi na Inglaterra, no fim de 1914 e no início de 1915, e nos Estados Unidos, em 1917, que, conforme Caire (2004) surgiram as precursoras dos corpos femininos militares como hoje conhecemos. Na Inglaterra, havia os corpos femininos benemerentes, que eram submetidos a uma disciplina mais ou menos militar e que constituíram os futuros corpos femininos, em decorrência de sua função de auxiliar a marinha, o exército e a aviação militar. Nos Estados Unidos, em 1917, o exército terrestre empreendeu algumas tentativas no sentido de gerar a criação de corpos femininos militarizados, sem sucesso. A Marinha e o Corpo de Fuzileiros, no entanto, recrutaram mulheres para substituir os homens nos serviços de terra: 11.275 na Marinha e 305 no Corpo de Fuzileiros Navais, todas dispensadas em julho de 1919.

As mulheres alemãs também tiveram intensa participação no primeiro conflito mundial. O serviço feminino nacional, criado em 31 de julho de 1914, por Gertrude Bauer, Presidente da Liga das Mulheres Alemãs, convocava as associações femininas para se juntarem num esforço de guerra coordenado pela Cruz Vermelha e das autoridades locais, com o objetivo de “dar assistência à população em todos os casos de necessidade, servir nos hospitais militares e criar cursos para enfermeiras” (CAIRE, 2004, p. 65). Em 1916, essa iniciativa foi substituída por uma participação mais estruturada das mulheres, sendo que mais de 700.000 (setecentas mil) foram empregadas em atividades relacionadas ao armamento e, em menor quantidade, nos depósitos de retaguarda e nas formações “territoriais” próximas ao front, além daquelas que trabalharam nas estradas, na preparação de abrigos e fortificações. As unidades femininas militarizadas alemãs nasceram de um projeto de uma unidade feminina de comunicações, criado em 1918, do qual apenas uma seção subsistiu até 1920.

Ao lado do esforço anônimo e considerável despendido no interior para suprir a ausência dos homens (três milhões de mulheres na Inglaterra e perto de dois milhões a França), acabou-se também reconhecendo a diversidade de funções que a mulher podia desempenhar nos exércitos.

Com efeito, pela primeira vez, no seio de formações organizadas, foram ofertadas posições civis e militares às mulheres, em paralelo com as benemerentes que continuaram sendo exercidas. Um estudo comparativo entre diversos países pode ilustrar bastante porque a Primeira Guerra Mundial viu surgir os primeiros corpos femininos militarizados. Mesmo que muitos deles fossem compostos de auxiliares e fossem desativados no fim do conflito, o impulso inicial fora dado. Não apenas eles nasceriam em 1939, como também novos corpos seriam criados à sua margem. (CAIRE, 2004, pp. 58 e 59).

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Os acontecimentos anteriores ao segundo conflito mundial (1939 a 1945) anunciavam evolução em relação à participação da mulher nas forças militares:

A partir de 1938, as organizações femininas ou menos militarizadas passaram a ser reverenciadas pela mídia. Elas foram realçadas em Nanquim, em Xangai, em Tóquio, na Espanha, na URSS. Na Turquia, o Parlamento chegou a visualizar a possibilidade de uma mobilização geral das mulheres graças a um serviço militar obrigatório. As mulheres de 26 a 40 anos de idade, segundo o projeto, deveriam ser concitadas a portar armas e combater no front. As outras mais jovens (a partir de 16 anos) e as mais idosas (até 60 anos) prestariam serviços na retaguarda. (CAIRE, 2004, p. 83).

A época da Segunda Grande Guerra registra acontecimentos significativos no que se refere à

inserção das mulheres nas forças armadas, embora, segundo Caire (2004), tenha ficado ainda mais evidente a oposição entre a Rússia, cujas mulheres participaram mais ativamente nos fronts, e os países da Europa e os da América e da Europa Ocidental, onde coube às mulheres substituir os homens em muitas e variadas ocupações, o que levou-as a conquistar lugar na qualidade de auxiliares não-combatentes dos exércitos.

Segundo Caire (2004), em abril de 1939, a Inglaterra reativou o Serviço Feminino da Marinha Real e, em junho do mesmo ano, o de Mulheres Auxiliares da Força Aérea. A essa época, já existia o Serviço Auxiliar Territorial, instituído em 1938, que consistia em um corpo feminino dentro da organização do exército terrestre. As três consistiam corpos militarizados e três eram associações voluntárias; o recrutamento englobava mulheres de 17 anos e meio até 43 anos (45 para a Marinha Real). O engajamento das mulheres foi voluntário até abril de 1941

e, a partir dessa data, as mulheres foram requisitadas pelo governo inglês para trabalharem nas

fábricas, no campo e nos escritórios; o governo concedeu-lhes a escolha do engajamento prioritário nas associações do exército, da marinha e da aeronáutica. Em dezembro do mesmo

ano, com a Lei do Serviço Nacional (National Service Act) foi permitida a mobilização das mulheres para as funções militares na Inglaterra.

Conforme computou Caire (2004), os corpos auxiliares e os mais ou menos integrados a eles na Inglaterra nessa época somaram 437.000 (quatrocentas e trinta e sete mil) mulheres, o que representava 8,5% das forças armadas do país. A avaliação da mobilização das mulheres na Inglaterra ainda se torna mais relevante quando se considera que, das 17 milhões existentes, sete milhões foram requisitadas para serviços de retaguarda (como o serviço nacional feminino contra incêndios e o exército feminino agrícola, dentre outros).

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Os efetivos dos três corpos militarizados da Inglaterra, segundo Caire (2004) tinham a missão de substituir os homens nas tarefas não-combatentes, mas a situação mudou quando elas começaram a servir mais próximas ao combate. Dentre as características desses corpos estão:

Seu estatuto era militar, mas não havia correspondência exata com o do elemento masculino. O alistamento era subscrito pela duração da guerra. As engajadas tinham direito a dois shillings de soldo-base, quando não eram especializadas, mais uma gratificação de guerra de oito pence por dia. O uniforme era distribuído gratuitamente e elas tinham direito a uma gratificação para manutenção dos uniformes, ao alojamento, à alimentação e ao tratamento médico. Eram obrigatoriamente inscritas nos organismos de seguro contra doenças e contra a inatividade. Os soldos eram maiores para as especializadas, para as suboficiais e para os oficiais de posto inferior aos do pessoal masculino (cerca de 80% a 85%). O mesmo acontecia com as diversas gratificações. (CAIRE, 2005, p. 85)

No organismo denominado Transportes Aéreos Auxiliares (ATA) da Inglaterra, cem dos mil pilotos eram mulheres, que pilotaram todos os tipos de aviões, mas elas foram desmobilizadas ao fim da guerra. Na Inglaterra, também, foram criados os Corpos de Enfermeiras da Marinha Real, cujas integrantes, em alguns casos, tinham postos correspondentes aos dos oficiais. O final da guerra anunciou um resultado favorável ao ingresso das mulheres nas forças armadas, já que “as mulheres prestaram tal contribuição durante a guerra, que a existência dos corpos femininos foi oficialmente reconhecida. O Parlamento britânico anunciou, em 1946, sua intenção de conservar o elemento feminino nas forças armadas da Coroa e, dessa vez, de maneira permanente”. (CAIRE, 2004, p. 90).

Em 14 de maio de 1942, após debates sobre a conveniência de aceitar mulheres nos serviços militares, o Congresso dos Estados Unidos instituiu o Corpo Auxiliar Feminino do Exército, com estatuto civil. Contudo, as mulheres que integravam esse corpo não podiam prestar serviço ultramarino e somente podiam ser empregadas em funções militares. Em 30 de julho de 1942, uma lei criou a Reserva Feminina da Marinha dos EUA. Em 25 de novembro de 1942, a Reserva Feminina da Guarda Costeira dos EUA foi reativada e, em 03 de fevereiro de 1943, foi criada a Reserva do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA. Os dois últimos corpos, segundo Caires (2004), foram dotados de estatuto militar, contudo, as suas integrantes não podiam prestar serviço além-mar e nem estavam autorizadas a substituir o pessoal civil, o que seriam demonstrações da hesitação legislativa da época em relação ao emprego das mulheres nas forças armadas.

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Com o evoluir da guerra, os corpos femininos, que não eram regidos exatamente pelas mesmas regras que os masculinos e que tinham comandos separados, sofreram alterações quanto às circunstâncias de emprego. O Corpo Auxiliar Feminino do Exército foi transformado, em julho de 1943, em Corpo Feminino do Exército – WAC (Women‟s Army Corps), cujo efetivo não poderia, segundo Caires (2004), ultrapassar 150 mil integrantes. As interessadas em integrar esse corpo assinaram um engajamento pela duração da guerra e a autoridade feminina sobre o pessoal masculino somente era admitida em casos excepcionais. As oficiais da WAC possuíam diploma universitário e receberam formação mais exigente. Predominavam as funções na administração e no suprimento. Às suboficiais, foi proibido o trabalho como serventes, cozinheiras, ordenanças ou domésticas. Algumas integrantes da WAC foram empregadas nas baterias antiaéreas. Engenheiras atuaram no projeto atômico e nos laboratórios de balística. Nenhuma atuou no serviço de informações. Na Força Aérea do Exército, nenhuma atuou em tripulação específica de combate, mas foram empregadas como radioperadoras, mecânicas, fotógrafas e até mesmo como serventes de bordo (aeromoças).

Conforme Caire (2004) duas mil integrantes da WAC serviram no teatro de operações do Mediterrâneo (Norte da África), oito mil na Europa (incluindo as campanhas da Itália e da França), cinco mil na Austrália, Nova Guiné e nas Filipinas. Caire (2004) destaca a atuação dessas mulheres na Normandia:

As primeiras unidades WACs desembarcaram na Normandia em D+38 e seguiram bem de perto as forças combatentes. Algumas chegaram a operar a apenas 17 quilômetros do front. Suas condições de vida eram bem semelhantes àquelas dos não-combatentes, seja em termos de alojamento, seja em termos de alimentação e outros suprimentos. Sua taxa de acidentes foi igual à dos homens (0,5%) e a de hospitalização, menos (2,2% contra 2,5%). Elas causaram menos problemas no plano psicológico e se mostraram mais disciplinadas do que os homens. As taxas de gravidez foram insignificantes. (CAIRE, 2004, p. 94).

Segundo Caire (2004), quando os efeitos da legislação que criara o WAC expiraram, em 1948, foi preservado como um corpo militar na ativa do exército, não sem que, antes, essa medida fosse debatida nos Estados Unidos. Em 1947, cerca de 1500 (mil e quinhentas) mulheres haviam sido recebidas e constituíram a primeira Women Air Force.

Também nos Estados Unidos, conforme Caire (2004), os Fuzileiros e a Armada que, apesar de serem forças distintas, estavam ambas sob a autoridade da Marinha, viram surgir sua primeira

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reserva feminina (Women‟s Reserve) em 30 de julho de 1942, cujas integrantes receberam o nome de Waves. O efetivo máximo inicial das Waves deveria ser de 10 (dez) mil integrantes, contudo, existiam cerca de 86 (oitenta e seis) mil no final do conflito, o que representava 18% de todo o efetivo da Marinha dos EUA. Até 1944, as Waves atuaram somente em terra, em atividades nas bases navais, nos hospitais, nos estados-maiores de distritos, nos arsenais e nos depósitos; dessa época em diante, foram autorizadas a servir além-mar nas zonas americanas, no Havaí e no Alaska. Em 1946 o Congresso dissolveu a reserva feminina, e boa parte das mulheres voltou à vida civil. Algumas delas permaneceram no serviço até que, em 12 de junho de 1948, a lei que integrou as mulheres nas forças armadas fez nascer o Corpo das Waves, não mais como um corpo distinto, mas um componente regular. A reserva feminina do Corpo de Fuzileiros foi criado em 03 de fevereiro de 1943 e suas integrantes foram denominadas Women Marines, as quais chegaram ao número de mil oficiais e 18 (dezoito) mil engajadas no final de 1944. Esse grupamento foi desmobilizado em 1946 e recriado em 12 de junho de 1948.

A respeito da Força Aérea dos Estados Unidos, Caire (2004) esclarece que, em 1939, dois grupamentos distintos foram criados. O autor registra que as mulheres do Women Air Service (WASP) percorreram, durante a Segunda Guerra, cerca de 90 (noventa) milhões de quilômetros em vôo, em 77 (setenta e sete) tipos de aviões, e tiveram uma taxa de acidentes comparada aos dos homens: 38 (trinta e oito) acidentes mortais.

As mulheres dos Estados Unidos também representaram um grande efetivo na Segunda Guerra, de acordo com Caire (2004): aproximadamente 57 (cinqüenta e sete) mil no exército terrestre e 11 (onze) mil na Marinha.

Elas seguiam as forças armadas por todos os cantos, da Islândia ao Pacífico, arriscando suas vidas em navios-hospitais, em aviões de transporte e em ambulâncias no front. Serviram tão perto das operações que as que partiram para o Pacífico foram treinadas para o combate e receberam o mesmo equipamento que os GI. Com efeito, saltaram até de barcaças de desembarque sob fogo inimigo! (CAIRE, 2004, p. 101).

O corpo permanente de enfermeiras e especialistas mulheres do Serviço de Saúde do exército terrestre e da Marinha dos Estados Unidos, no entanto, somente foi estabelecido em 1943, de acordo com Caire (2004).

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Sobre a Rússia, Caire (2004) esclarece que, graças a um sistema de preparação que se iniciou antes mesmo da guerra, inclusive com um “registro militar” de mulheres, o país já conhecia quantas tinham condições de substituir o homem no combate. Essas mulheres, cujas idades estavam entre 18 e 45 anos para oficiais e 18 a 40 anos para soldados, já alcançavam o número de cinco milhões em agosto de 1920. Eram obrigadas a se alistar na Sociedade Benemerente de Auxílio ao Exército, à Aviação e à Marinha (DOSAAF), as mulheres empregadas nos serviços de saúde que possuíam o curso militarizado da Cruz vermelha (enfermeiras ajudantes cirúrgicas ou parteiras), além das diplomadas pelos cursos de estado- maior, empregadas na administração ou nas academias militares, onde ocupavam postos oficiais. Por ocasião do apelo ao serviço militar, decorrente de uma lei de 1º de setembro de 1939, as mulheres alistadas na DOSSAF faziam parte da reserva militar; a partir de 1940, as demais podiam ser requisitadas para a chamada “reserva de mão-de-obra”. A partir de um decreto de 13 de fevereiro de 1943, as mulheres de 16 a 45 anos, aptas ao serviço militar, foram mobilizadas. Entre as combatentes, selecionadas entre mulheres de 18 a 25 anos que não se haviam engajado voluntariamente, um batalhão feminino recebeu a missão de desativar as minas nos territórios conquistados; as sobreviventes foram empregadas como enfermeiras no front. Ainda consoante Caire (2004), cerca de 800 (oitocentas) mil mulheres serviram no Exército Soviético durante a Segunda Grande Guerra Mundial, dentre essas, aviadoras militares. Ainda segundo o autor, esse foi um dos poucos países em não houve distinção de sexo para emprego no conflito.

Segundo Caire (2004), no período entre guerras na Alemanha, era enaltecido o retorno da mulher. Além disso, os preconceitos contra o emprego da mulher impediam qualquer iniciativa para emprego feminino de maior vulto. Por outro lado, a Lei da Defesa, de 21 de maio de 1935, previa a obrigatoriedade do serviço militar e a disponibilização para o serviço da pátria de todos os homens e mulheres em tempo de guerra. Posteriormente, foi criado, em 15 de outubro de 1938, um serviço obrigatório de urgência, especialmente para as administrações públicas; já em 13 de fevereiro de 1939, outro decreto permitiu a requisição de mulheres para serviços mais diversos; em 27 de janeiro de 1943, por força de decreto, todas as mulheres de 17 a 45 anos foram concitadas a ser inscrever para colaborar com o Reich; o limite de idade foi aumentado para 50 anos no ano seguinte. Há registros de que, a partir de 1944, as alemãs eram empregadas nas baterias antiaéreas (sem fazer parte das guarnições de canhões) e de que, em janeiro de 1945, assumiram pela primeira vez postos de chefia, o que

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ocorreu nas baterias de projetores (quando essas subunidades eram mobilizadas apenas por mulheres).

Fornecendo uma visão panorâmica, D‟Araújo (2004) apresenta dados, de 2001, sobre a presença das mulheres nas Forças Armadas dos países membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Assim, fica demonstrado que o primeiro país membro da OTAN

a

aceitar mulheres nas forças armadas foi a Bélgica, em 1946. Em 1951, seguiram-se a França

e

o Canadá, depois a Turquia, em 1955. Somente na década de 1970, as mulheres foram

aceitas nas forças armadas dos Estados Unidos (1970), da Dinamarca (1977) e da Grécia (1979). A maior concentração de abertura das forças armadas para mulheres ocorreu na década de 1980, com Noruega e República Tcheca (1985), Luxemburgo (1987), Portugal, Espanha e Holanda (1988). Na década de 90, as forças armadas do Reino Unido (1992), da Hungria (1996) e da Polônia abriram as portas para as mulheres. Finalmente, no ano de 2000, as mulheres foram recebidas nas forças armadas da Alemanha e da Itália.

Os dados apresentados por D‟Araújo (2004) demonstram que o percentual de mulheres em relação ao total do efetivo nas forças armadas dos países membros da OTAN varia bastante, sendo que o maior número está nos Estados Unidos (14%), seguido do Canadá (11,4%) e da Hungria (9,6%). As menores taxas de presença feminina nas forças armadas dos países em questão estão na Itália, na Polônia e na Turquia, todas com 1%.

Tratando da inserção das mulheres nas Forças Armadas dos países latino-americanos, Mathias (2005) assevera:

são três os principais fatores que levam à integração das mulheres às forças armadas. O primeiro é a democracia que cada vez mais exige maior igualdade na oferta de oportunidades para os cidadãos. Depois, está a mudança na forma de fazer a guerra, nisto compreendendo as mudanças tecnológicas (sofisticação nos armamentos) e administrativas (gestão da guerra). O terceiro fator poderia ser chamado de psicossocial, pois é conseqüência da percepção dos agentes sobre a função dos militares, o que englobaria a questão econômica (proventos e benefícios) e também o prestígio da profissão, resultante tanto do grau de legitimidade castrense (crise de identidade e grau de confiança da sociedade) como da pouca atração que a profissão teria para o sexo masculino. Adicionalmente, o estabelecimento do voluntariado no recrutamento militar também explica a abertura para as mulheres. (MATHIAS, 2005, p. 2)

37

Mathias (2005) apresenta dados comparativos da incorporação das mulheres às Forças Armadas nos países do Mercosul e demonstra que os dois primeiros países a receber elementos femininos foram o Brasil e a Argentina (ambos em 1980); na Bolívia, as mulheres são incorporadas ao quadro complementar do Exército desde 1981, embora somente em 2003 tivessem sido admitidas como cadetes na academia militar; no Chile, as mulheres estão nas Formas Armadas desde 1995; e no Paraguai e no Uruguai, desde 1999.

Especificamente quanto ao Brasil, Mathias se posiciona:

No Brasil, não houve nenhuma reformulação da estrutura militar. Ao contrário, o que se apresenta é uma sobreposição de medidas objetivando promover uma aparente adaptação das Forças Armadas à Democracia e às exigências bélicas do mundo hoje. O recrutamento feminino para as Forças Armadas, iniciado pela Marinha em 1980, também não se baseou na necessidade de cumprir com as exigências de igualdade de oportunidades, pois é apenas em 1988, com a nova Constituição, que esse preceito aparece. Defende-se aqui que o que justificou esse procedimento foi a somatória do sucesso que a incorporação feminina teve nas polícias militares estaduais (provinciais) e, por outro, o desprestígio dos militares particularmente diante das elites, o que abriu a profissão para as mulheres. De forma nenhuma esses fatores são excludentes, ao contrário, estão em perfeita sintonia, pois as policiais femininas foram interpretadas como humanizadoras das forças militares, compensando a visão popular de que as polícias militares se alimentavam da tortura e da corrupção. No mesmo sentido, a crise de identidade castrense advinda de seu afastamento da política e a participação crescente de mulheres nas Missões da ONU exigiram reformulações que apontavam para a incorporação feminina. Em 1982, foi a vez da Aeronáutica e apenas em dez anos, em 1992, ingressou a primeira turma com 29 alunas na Escola de Administração do Exército (EsAex Salvador/BA), para formação de oficiais de carreira. Nas três Forças as mulheres atuam em diversas áreas como médicas, enfermeiras, dentistas, farmacêuticas, veterinárias, professoras, engenheiras, arquitetas, advogadas, jornalistas, etc. (MATHIAS, 2005, p. 4)

D‟Araújo (2004) entende que é uma mudança significativa o fato de, atualmente, a maioria dos países ocidentais aceitarem mulheres nas Forças Armadas, ainda que com restrições quanto ao acesso às posições hierárquicas e as de comando. Para a autora, isso representa uma significativa mudança de valores, considerando que seriam mais ligados à masculinidade alguns atributos da vida militar, tais como “risco, alta mobilidade geográfica, separação temporária da família, necessidade de praticar a violência, exposição a perigos, treinamentos intensivos, disciplina férrea, exercícios físicos pesados e obediência profissional acima de qualquer direito ou dever pessoal” (D‟ARAÚJO, 2004, p. 441).

38

D‟Araújo (2004) esclarece que as portas da caserna para as mulheres foram abertas, no Brasil, na década de 1980, inicialmente nos quadros complementares de apoio administrativo, depois nos quadros de médicos, dentistas, farmacêuticos, veterinários, professores, economistas, advogados e outros. Posteriormente, as mulheres acessaram aos quadros permanentes, não exclusivamente femininos. A autora delineia esse processo da seguinte forma:

A

integração de mulheres nas Forças Armadas do Brasil começou em 1980,

na

Marinha, com a criação do Corpo Auxiliar Feminino da Reserva, para

atuar na área técnica administrativa. Em 1998 esse corpo foi extinto e a

participação se estendeu aos corpos de engenheiros e intendentes, quadros médicos de cirurgiões dentistas e quadros de apoio. Na mesma época, passou-se a permitir a presença feminina em missões nos navios hidrográficos, oceanográficos e de guerra e em tripulações de helicópteros.

A Aeronáutica foi a segunda força a inovar nessa questão. Em 1982,

diplomou-se a primeira turma de mulheres da Força Aérea Brasileira (FAB), graduadas como segundos-tenentes, terceiros-sargentos e cabos. Em 1996, 17 mulheres ingressaram como cadetes da Academia da Força Aérea (AFA) em Pirassununga-SP, nos quadros de intendência (área administrativa e financeira). Três anos depois teríamos a primeira turma de oficiais militares femininas, formada em uma academia militar no país. Finalmente, em 1992 o Exército constituiu a primeira turma: 29 mulheres

ingressaram na Escola de Administração do Exército (EsAEx) em Salvador. Cinco anos depois, 10 mulheres ingressaram no respeitado Instituto Militar

de Engenharia (IME), no Rio de Janeiro, e em 2001 criou-se o curso de

Formação de Sargentos de Saúde (auxiliar de enfermagem). (D‟ARAÚJO, 2004, pp. 446-447)

D‟Araújo (2004) também esclarece que, além das funções de carreira, o Exército também promoveu a formação de mulheres para ocupação de funções temporárias:

Assim, em 1996 instituiu-se para uma turma de 290 mulheres o Serviço

Militar Feminino Voluntário, destinado a médicas, dentistas, farmacêuticas

e enfermeiras de nível superior. Dois anos depois criou-se o Estágio de

Serviço Técnico para profissionais de nível superior em direito, contabilidade, administração, análise de sistemas, engenharia, arquitetura e jornalismo, entre outros. Finalmente, em 1998 foi implantado na região amazônica um projeto piloto para prestação do serviço militar voluntário feminino na função de „atiradoras‟, projeto desativado em 2002. (D‟ARAÚJO, 2004, p. 447)

Ao tratar de indicação e acesso ao serviço policial, Cerqueira (2001) afirma, baseando-se na Resolução 34/169 da Assembleia Geral das Nações Unidas, de 17 de dezembro de 1979, que todo o policiamento deve ser representativo, ou seja, toda instituição policial deve ser representativa da comunidade como um todo. Assim, “isso significa que deve haver um número suficiente de mulheres empregadas em uma instituição policial, para que ela seja considerada representativa da comunidade a que serve” (CERQUEIRA, 2001, p. 79).

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Por sua vez, ao abordar a situação dos países de maneira geral, Soares e Musumeci (2005) especificam:

Em muitos países, o ingresso das mulheres nas polícias correspondeu, de um lado, à necessidade de preencher lacunas deixadas por guerras no efetivo masculino e, de outro, à realização de amplas reformas institucionais para enfrentar problemas como corrupção, violência e deterioração da imagem e perda da credibilidade policiais. Correspondeu, além disso, ao acolhimento de demandas e pressões sociais pela democratização de um campo de trabalho secularmente fechado à participação feminina. (SOARES E MUSUMECI, 2005, p. 15)

Para Monet (2001), a polícia representa um ofício de homens, ainda que sejam raras, atualmente, as organizações estritamente masculinas. O autor explica que, na França, somente a partir de 1972, as mulheres começaram a ser admitidas no corpo de inspetores; em 1979 começaram a ser admitidas no corpo dos guardiães da paz e na Gendarmeria. Até 1987 existia um sistema de cotas, que limitava o número de mulheres em 11%. Como o Tribunal de Justiça européia condenou o sexismo naquele país, as autoridades elevaram a altura exigida das candidatas de 1 m 63 cm para 1 m 66 cm, o que teria restringido o acesso, tendo em vista a altura mínima das francesas.

Expondo dados numéricos sobre os efetivos femininos nas polícias de diversos países, sem distinção de corpos civis e militares, Monet indica, em 2001, que, na França e na Dinamarca, a taxa de feminilização é de 5%; na Grã-Bretanha, os dados indicam cerca de 14 (quatorze) mil mulheres policiais, o que representa uma mulher por cada nove homens; no Corpo Nacional de Polícia (civil) da Espanha, 1% do efetivo é composto por mulheres, as quais não exercem nenhuma função de comando; na Bélgica, as mulheres são 5% do efetivo das polícias municipais, 2,6% na polícia judiciária e 0,5% na Gendarmaria; em Israel, as mulheres representam 16% dos 19 mil policiais; no Japão, onde cerca de 2% do efetivo é composto por mulheres, a maior parte delas está empregada no controle de trânsito.

Expondo as diferenças observadas entre departamentos de polícia atuais e os de 1900, nos Estados Unidos, Reiss Jr (2003) explica que, na virada do século, à exceção das encarregadas

das prisioneiras mulheres, o policiamento era uma função exclusivamente masculina. As fileiras dos departamentos de polícia foram abertas para as minorias, inclusive as mulheres, com o advento de oportunidades iguais de emprego, o que ocorreu na última metade do século

40

A respeito da polícia do Reino Unido, Reiner (2003) esclarece que a ausência de composição representativa de gênero bem como étnica foi uma das preocupações oficiais naquele país. O autor indica, no entanto, que embora o desequilíbrio entre homens e mulheres continue acentuado, houve uma mudança considerável nesse quadro, em decorrência da Lei de Discriminação Social, que data de 1975. Essa lei aboliu a separação entre as divisões de polícia feminina e gerou uma integração formal entre os corpos masculino e feminino.

Ao comparar a situação das mulheres nas polícias militares do Brasil e de outros 51 países, com dados do ano de 2000, Musumeci (2009) mostra números que apresentam a Estônia como aquele cujo efetivo feminino é maior (26%), seguido de Israel 2 (22%), África do Sul (21,4%). Na mesma exposição, a Suécia apresenta um efetivo feminino de 17,3% do total, Inglaterra e Gales, 16,7%, Canadá, 13,7%, França, 13,3%, EUA, 10% e Brasil, na 33ª posição, 8,2%.

Musumeci (2009) destaca que, na maioria dos estados brasileiros, as polícias militares começaram a admitir mulheres na década de 80, o que ocorreu num contexto de redemocratização do país, embora, para a autora, isso não tenha derivado de movimentos sociais em prol da criação de serviços especializados ou pela abertura de um novo espaço profissional para as mulheres. Assim, esse processo teria ocorrido “ao que tudo indica, do propósito interno de humanizara imagem das corporações, fortemente marcada pelo seu envolvimento anterior com a ditadura”. (MUSUMECI, 2009, p.176)

De fato, na década de 80, as mulheres haviam conquistado muitos direitos, entre eles, o de acessar o mercado de trabalho nas mais variadas profissões. O serviço militar e o ingresso nas Polícias Militares, até então, era inacessível nas Forças Armadas e na maioria dos estados. Esse cenário começa a mudar com a abertura dos quadros das polícias militares para as mulheres, conforme esclarece Schactae (2006).

No estado de São Paulo, o Corpo de Policiais Femininos existe desde 12 de maio de 1955, embora, àquela época, não pertencesse aos quadros da Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP), mas à Guarda Civil. Com o advento do Decreto-Lei 1072, de 30 de dezembro de

2 Dados de 2002.

41

1969 (que deu nova redação ao art. 3º, letra “a” do Decreto-Lei 667, de 02 de junho de 1969, que reorganizou as Polícias Militares e os Corpos de Bombeiros), as missões de policiamento ostensivo fardado passaram a ser de exclusividade das polícias militares, o que gerou modificações nesse quadro.

Como esclarecem Moreira e Wolf (2009):

Havia mulheres policiais no Estado de São Paulo deste o ano de 1955 com a criação do “Corpo de Policiamento Feminino”. Esse grupo de policiais foi agregado às demais polícias - Guarda Civil, Força Pública e a Polícia Marítima e Aérea, em 1970, dando início a Polícia Militar do Estado de São Paulo. Nesse caso o surgimento da própria PMSP levada a cabo no período ditatorial é que insere mulheres e homens em uma mesma instituição policial, pois até então a inclusão de mulheres se dava em uma organização em separado, permanecendo, no entanto, a atividade das policiais como um tipo de policiamento específico e fisicamente dividido. (MOREIRA E WOLF, 2009, p. 57)

Conforme Schactae (2006), em 20 de outubro de 1977, publicou-se a inserção das primeiras quarenta e duas mulheres na Polícia Militar do Estado do Paraná (PMPR). A Companhia de Polícia Feminina da PMPR, por sua vez, foi criada em 1984.

Na Polícia Militar do Pará (PMPA), conforme Xavier (2008), a polícia feminina foi criada em 15 de dezembro de 1981, sendo que a primeira turma formou-se em agosto de 1982. A Companhia de Polícia Feminina do Pará, no entanto, somente foi criada em janeiro de 1984.

Segundo Musumeci (2009), no ano de 1982, as mulheres ingressaram nas Polícias Militares do Amazonas, do Maranhão e do Rio de Janeiro. Em 1983, foi a vez das Polícias Militares do Distrito Federal, do Espírito Santo e de Santa Catarina. Em 1985, a Polícia Militar do Acre abriu as portas para o ingresso feminino. Em 1986, foi a vez das Polícias Militares de Goiás, Rio Grande do Sul e de Tocantins. Em 1987, o mesmo aconteceu na Paraíba e no Rio Grande do Norte. Em 1988, as mulheres ingressaram na Polícia Militar de Alagoas. Em 1989, ingressaram na Polícia Militar do Amapá. Em 1993, as mulheres chegaram à Polícia Militar de Pernambuco e em 1994, à Polícia Militar do Ceará. Em 2000, foi a vez da Polícia Militar de Roraima receber suas primeiras integrantes femininas.

42

2.5 A Polícia Militar de Minas Gerais

Silva Neto (1995) esclarece que, em todo seu período de existência, a PMMG desempenhou

missões de natureza militar e policial, embora uma dessas missões sempre tenha predominado

sobre a outra, alternadamente, em momentos distintos da história, o que decorria do ambiente

histórico vivido pelo país.

Segundo Netto (1981), as Companhias de Ordenanças, eram as mais antigas corporações militares mineiras e foram criadas em fins de 1709, com o início das minerações, e contribuíam para a manutenção da ordem pública, consistindo fator de ordem e hierarquia nas primeiras décadas mineiras.

Como as Companhias de Ordenanças eram compostas por homens voluntários e das camadas menos favorecidas (pobres, negros, índios e pardos), elas não serviam aos desígnios exploradores do Brasil-Colônia, o que levou à criação das Companhias de Dragões, formadas por homens oriundos do reino, bem adestrados e, portanto, mais aptos a impor a ordem interna nas capitanias” (SILVA NETO, 1995, p. 40).

As Companhias de Dragões, criadas em 1719, eram uma força militar composta por soldados e oficiais profissionais, organizadas nos moldes do exército e foram extintas em 1775, conforme esclarecido por Netto (1981).

De acordo com Silva Neto (1995), a mais evidente organização de uma “força pública” estruturada como uma organização militar, na então Capitania de Minas, se configura com a criação, em 09 de junho de 1775, do Regimento Regular de Cavalaria.

Conforme Marco Filho (2005) o Regimento Regular de Cavalaria tinha missões de natureza policial e militar: a primeira, com a missão de impedir o contrabando do ouro e escoltar esse minério até o Rio de Janeiro; a segunda, que levou o Regimento a estar mobilizado, por várias vezes, para o Rio de Janeiro e outros estados do País.

Segundo Silva Neto (1995) as raízes históricas da PMMG são as tropas pagas dos séculos

43

Unidades foram transformadas em organizações militares de sustentação da pátria a partir da proclamação da independência do Brasil, quando se dividiram em duas vertentes: o nascente Exército Brasileiro e os Corpos de Guardas Municipais Permanentes, cuja missão era a defesa do indivíduo e da comunidade. A completa militarização das Forças Públicas estaduais decorre do surgimento da Federação, sendo que, “assim, os estados-membros passaram a contar com forças militares que, na condição de „exércitos estaduais‟, davam suporte aos então Presidentes dos Estados Federados.(SILVA NETO, 1995, p. 41)

Cotta (2006) se debruça ao estudo da História da Polícia Militar de Minas Gerais e sintetiza acontecimentos importantes do final da década de 30:

Entrando em vigência o regime ditatorial do Estado Novo (1937), as Forças Públicas passaram a ser órgãos dependentes de controle único do poder executivo e subordinado ao governo federal nos assuntos relativos à defesa interna. A lei nº 192, de 17 de janeiro de 1936, definiu a posição das polícias estaduais perante a União, discriminando-lhes os deveres e direitos e considerando-as reservas de primeira linha do Exército Nacional. Como tal, eram elas inspecionadas semestralmente pelos comandos das Regiões Militares, que tinham como atribuição instruir-lhes militarmente. Em dezembro de 1939, a Força Pública passou a denominar-se Força Policial. Seu efetivo era distribuído em 10 batalhões de Caçadores, um Regimento de Cavalaria e quatro serviços. Somente em 1946, a Força Policial recebe a sua designação atual: Polícia Militar do Estado de Minas Gerais. (COTTA, 2006, p. 116)

Silva Neto (1995) atribui ao papel decisivo da Polícia Militar de Minas Gerais, como força militar, na Revolução de 1964, o processo de inversão do quadro de atribuições da instituição, cuja missão principal, até então voltada para as operações militares, deu lugar a uma missão então considerada secundária: a manutenção da ordem pública.

Essa inversão gerou a modernização das estruturas e a consolidação de doutrinas de emprego da PMMG, fazendo-a voltar-se integralmente para o policiamento. Dessa forma, conforme destaca Silva Neto (1995), a evolução histórica da PMMG, cuja característica organizacional marcante foi o hibridismo de destinação (militar e policial), “em que pese a atual tendência profissional de integral dedicação ao provimento da segurança pública, deve ser considerada como pano de fundo para se compreender sua ideologia e sua cultura” (SILVA NETO, 1995, p. 43).

44

Nessa linha de raciocínio, Silva Neto (1995) conclui que “o abstrato das crenças e valores que fundamentam as práticas formais e informais que dinamizam a Polícia Militar como organização ainda agrega elementos com raízes em passado como instituição genuinamente militar(SILVA NETO, 1995, p. 214). O autor ainda defende que:

O espírito e caráter militar da organização afloram através da manifestação observável da proeminência da coletividade sobre o indivíduo e ainda dos seguintes atributos: senso de honestidade; retidão de caráter; a preocupação com as causas nobres e elevadas; espírito de renúncia e sacrifício; desapego a bens materiais; o respeito à ordem, à disciplina e à hierarquia; coesão; espírito de corpo e distanciamento do mundo civil. (SILVA NETO, 1995,

p. 214)

Os anos 1980 alcançaram uma instituição regida pelo Regulamento Disciplinar da Polícia Militar de Minas Gerais (RDPM), cuja última versão havia sido aprovada pelo Decreto 16.231, de 02 de maio de 1974.

As transgressões disciplinares estavam relacionadas no artigo 13 do RDPM e eram classificadas entre as de natureza gravíssima (GG), grave (G), média (M) ou leve (L). No total, a versão vigente do RDPM listava 154 (cento e cinquenta e quatro) transgressões disciplinares. Essas transgressões tratavam tanto da conduta profissional quanto social dos policiais e previam situações como: deixar de pagar dívida no prazo previsto; emitir ou aceitar cheque sem provisão de fundos; ingressar como jogador em equipe profissional; freqüentar locais incompatíveis com o decoro da classe; deixar de comunicar seu casamento (no caso dos Oficiais) ou de solicitar autorização para casar-se (no caso das Praças) à autoridade competente, dentre outras.

Um exemplo da conduta que se esperava dos policiais militares, especialmente dos alunos dos cursos de formação, está publicado no BI APM 027, de 06 de julho de 1981, onde está inserida a decisão do Conselho de Disciplina Escolar ao qual foi submetido um aluno do CFO1 enquadrado no art. 74, inciso VIII, do Regimento da Academia de Polícia Militar (RAPM), aprovado pela Resolução n.º 804, de 09 de julho de 1980. No caso em questão, o aluno, acusado de viver maritalmente com uma senhora, sendo ele solteiro, e de não pagar as despesas da pensão onde morava, foi punido com o desligamento do curso e com a exclusão dos quadros da PMMG:

45

vivia

maritalmente com a senhora (

), sendo solteiro, residindo ambos

em um quarto da pensão de propriedade (informações suprimidas);

Considerando que o Aluno já no primeiro ano do Curso de Formação de Oficiais Período Básico, revela conduta que o incompatibiliza para a carreira Policial Militar, por viver maritalmente com uma senhora em um quarto de pensão em frente ao Quartel desta APM, revelando não ter condições próprias de eliminar este seu relacionamento, aceitando que esta senhora inclusive efetue o pagamento das despesas que faz;

Considerando que este tipo de comportamento é pernicioso aos demais componentes da corporação, principalmente ao Corpo de Alunos desta APM.

O RDPM também previa recompensas, a serem concedidas de acordo com a relevância da

ação do policial militar: elogio individual, dispensa total do serviço, dispensa parcial do

serviço, dispensa da revista do recolher, para as Praças, dentre outras.

Até 1980, somente os cidadãos do sexo masculino podiam ser incluídos nos quadros militares da PMMG. De forma semelhante ao que ocorre nos dias atuais, os militares incluídos na Instituição eram classificados nos chamados quadros: a) policial militar; b) de especialistas

(este integrado pelos pessoal de saúde, capelães, veterinários, dentre outros); c) bombeiros militares, até 1999. Especificamente quanto ao quadro policial militar (objeto deste trabalho),

a

estruturação se dá da seguinte forma: a) o Quadro de Oficiais da Polícia Militar (QOPM); b)

o

Quadro de Praças Policiais Militares (QPPM).

O

ingresso no QOPM se dá a partir da seleção em concurso público para: a) o Curso de

Formação de Oficiais (CFO), ao qual concorrem civis, integrantes de outras forças militares e

os próprios policiais militares da PMMG; b) o atual Curso de Habilitação de Oficiais (CHO),

cujos concorrentes são policiais militares da PMMG que atendem a requisitos específicos.

O ingresso no QPPM se dá com a aprovação em concurso público para o Curso Técnico em

Segurança Pública (CTSP), cuja versão similar, nos anos 80, era o Curso de Formação de Soldados (CFSd). A partir do ingresso na função de Soldado, o policial militar pode galgar outras graduações, quais sejam: Cabo, 3º Sargento, 2º Sargento, 1º Sargento e Subtenente.

Como se vê, as chamadas portas de entrada nos quadros operacionais da PMMG eram, o CFO, para ingresso nas funções de Oficiais, e o CFSd, para ingresso nas funções de Praças. Como será detalhado nesta monografia, a inclusão das primeiras policiais militares ocorreu de

46

forma diferente, já que se deu, por alguns anos, a partir do ingresso na graduação de 3º Sargento.

No ano de 1981, a Polícia Militar editou normas visando à seleção e matrícula de 120 mulheres no primeiro Curso de Formação de Sargentos Femininos. Nesse mesmo ano, foram previstas 160 vagas para o curso de Formação de Sargentos Masculinos, a ser realizado em 1982, de acordo com a Resolução 911, de 14 de agosto de 1981. Para os candidatos a esse curso, era exigida a Carteira Nacional de Habilitação, requisito que não foi requerido das mulheres, como se verá no curso deste estudo, além do 1º grau completo.

Nesse ano, o Comandante-Geral da PMMG era o Cel PM Jair Cançado Coutinho, que assumiu o Comando em 1980 e ocupou esse cargo até 1983.

No ano de 1982, o efetivo previsto para a PMMG era de 30.200 (trinta mil e duzentos) policiais militares, conforme ficou definido na Lei 8191, de 13 de maio de 1982, que fixou o efetivo da PMMG. Apesar de editada após a inclusão das primeiras policiais, a Lei não previu efetivo feminino na Instituição. Foi essa mesma Lei que, conforme Coutinho (1983) permitiu a criação dos então mais recentes Batalhões da Corporação: o 17º BPM, sediado em Uberlândia, o 18º BPM, sediado em Contagem, o 19º BPM, sediado em Teófilo Otoni, e o 20º BPM, em Pouso Alegre.

No início dos anos 80, vigorava o Código Eleitoral instituído pela Lei 4737, de 15 de julho de 1965, que esclarecia, no parágrafo único do art. 5º: “os militares são alistáveis desde que oficiais, aspirantes a oficiais, guarda-marinhas, subtenentes ou suboficiais, sargentos ou alunos das escolas militares de ensino superior para formação de Oficiais”. (BRASIL, 1965). Somente no ano de 1988, com o advento da Constituição Cidadã, os Soldados e os Cabos da PMMG puderam exercer o direito ao voto. A administração da PMMG, por sua vez, relacionava e publicava os nomes dos policiais militares obrigados ao exercício do voto que votaram ou justificaram sua ausência, além dos policiais que não cumprissem, quando havia casos, para os “efeitos legais”. (MINAS GERAIS, 1982)

Nesse contexto, a criação da Companhia de Polícia Feminina da PMMG foi o primeiro passo para a inserção da mulher numa organização que iniciava o processo de sobreposição do

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caráter policial ao caráter militar. Numa instituição que comemora, em 2011, 236 anos de existência e que passou, e vem passando, por mudanças que repercutem na própria cultura organizacional e nos padrões de comportamento e de emprego, seria demasiado simplista focar qualquer aspecto isolado do tempo e do quadro institucional em que ocorreu.

Conhecer o contexto é, portanto, determinante para que se percebam os processos que resultaram na entrada e na consolidação da mulher na PMMG, já que permite o rastreamento do caminhar dessa força de trabalho numa instituição que caminhava também. Essa deve ser a base da identificação, dos futuros estudos, de como, à maneira que se diz nas instituições militares, Polícia Militar e mulher buscam “acertar o passo”, para que a inserção resulte na melhor prestação de serviços, com benefícios para a própria servidora, para a Instituição e, em primeiro plano, para a sociedade.

48

3 METODOLOGIA

3.1 Métodos

A proposta inicial do trabalho consistia basicamente em buscar, nas diversas fontes de consulta, informações que permitissem contar o percurso histórico da Polícia Feminina na PMMG. Os dados seriam originados, portanto, em normas e outros textos oficiais, além de notícias de jornais, trabalhos acadêmicos, livros, revistas, divulgações e afins, ou seja, textos escritos.

Com o caminhar dos estudos, percebeu-se que restavam lacunas que impediam a produção de uma narrativa que satisfizesse os objetivos propostos, já que o registrado nas fontes de consulta escritas não respondia algumas perguntas sobre: o resultado prático de certas normas editadas; a percepção do andamento do processo de entrosamento das mulheres na Instituição pelos atores envolvidos, tanto no preparo das estratégias de atuação, como na sua aplicação na rotina diária da Polícia Feminina na PMMG.

Por esse motivo, a metodologia da História Oral foi acrescida ao trabalho, constituindo-se na fonte dos esclarecimentos que permitiram o encadeamento dos fatos apresentados.

Os dois métodos utilizados (consulta a textos escritos e História Oral) serão detalhados a seguir.

3.1.1 Coleta de registros escritos

Na primeira etapa da pesquisa, foram coletados registros escritos (documentos da PMMG, notícias, estudos sobre a Polícia Feminina, etc.) existentes em fontes diversas.

Diante da inexistência de um banco de dados que concentrasse toda a legislação e toda a documentação existente sobre o assunto, os Boletins Gerais da PMMG (BGPM) e os Boletins

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Internos (BI), dos anos 80 e 90 microfilmados, disponíveis na Seção de Microfilmagem do Centro de Gestão de Documentos (CGDoc) da PMMG, foram consultados.

Nesse trabalho, foram lidos todos os BGPMs microfilmados, publicados de 1979 a 2000, uma vez que, de 2001 em diante, os BGPMs já estão disponíveis na intranet da PMMG, que tornou-se a fonte de consulta para o restante do período estudado.

Também microfilmados, foram lidos todos os BIs da Academia da Polícia Militar (APM), no período de 1980 a janeiro de 1983; do Comando de Policiamento da Capital (CPC), no período de janeiro de 1982 a fevereiro de 1991, uma vez que essas Unidades publicaram documentos referentes à Polícia Feminina: a APM, por ser a Unidade de Ensino onde se formaram as policiais e deu apoio administrativo à Cia PFem até a sua completa estruturação; o CPC, por ser a Unidade de Direção Intermediária à qual se subordinou a unidade feminina de 1982 a 1990, quando foi extinta.

A Cia PFem somente começou a publicar BIs a partir de 17 de janeiro de 1983. Dessa época

em diante, foram consultados todos os BI daquela Unidade, microfilmados, até o último exemplar editado.

Especificamente quanto aos Boletins da Cia PFem, a pesquisa aos arquivos microfilmados não resultou na localização de publicações referentes aos anos de 1988 e 1989. Por esse motivo, os fatos referentes a esse biênio, porventura publicados apenas pela Cia PFem, não puderam ser coletados para a pesquisa.

Na existência de duas publicações da mesma norma, decorrente da transcrição de atos publicados em BGPM, optou-se por mencionar apenas uma das publicações, visto que isso já atendia aos objetivos do trabalho.

A metodologia de pesquisa permitiu o acesso a muitos fatos referentes às policiais femininos,

além dos que constaram deste trabalho. Isso porque a seleção dos conteúdos focou naqueles eventos que pudessem contar a história da forma proposta para o trabalho. Assim, a maior parte dos fatos apresenta ocorrências que afetaram a Polícia Feminina como um todo. No entanto, para alinhavar os acontecimentos, foram selecionados eventos pontuais, que narram episódios acontecidos com integrantes desse grupo. Assim, foram apresentados os primeiros

50

casos identificados de recompensas, punições, ocorrências de destaque, licenças médicas, empenhos além da Cia PFem, baixas, cursos de extensão, dentre outros, por serem considerados, para os fins desta pesquisa, marcas de que as Policiais Femininos já começavam a vivenciar as rotinas próprias dos servidores da Instituição. É certo que todos esses acontecimentos se repetiram, embora não estejam registrados neste trabalho.

Tendo em vista que o presente trabalho objetivou a apresentar fatos que ajudassem a contar o percurso da Polícia Feminina como um todo, não foram pesquisados os Boletins Internos nem os Boletins Gerais da PMMG de caráter reservado. Essa categoria contém, por sua própria natureza, informações restritas a pessoas em específico. Os boletins de caráter não sigiloso publicam assuntos que afetam ou devem interessar, direta ou indiretamente, ao grupo de policiais.

Considerando as pesquisas nos BGPM e nos BI da APM, do CPC e da Cia PFem, nos períodos já mencionados, foram consultados, aproximadamente, 5.100 (cinco mil e cem) boletins microfilmados. Ressalta-se que na redação desse trabalho, devido ao elevado número de Boletins consultados, só foram referenciados bibliograficamente, conforme a normalização técnica, os registros que constituíam legislação; foram citados no próprio corpo do texto o número do Boletim Interno ou Geral e a data para as demais publicações.

Foram realizadas consultas junto a órgãos de imprensa da capital mineira, com o objetivo de resgatar notícias sobre a Polícia Feminina, especialmente no início dos anos 80.

Finalmente, mas não menos importante, foram consultados trabalhos acadêmicos e livros que mencionaram ou estudaram a história da Polícia Feminina na PMMG e no País.

3.1.2 Coleta de relatos orais

Foram realizadas entrevistas com pessoas que pudessem contar fatos que não puderam ser reconstituídos pelas fontes escritas disponíveis, especialmente aqueles que se referem aos procedimentos que antecederam o ingresso das primeiras policiais militares na PMMG e aqueles relacionados à rotina dessas profissionais nos seus primeiros anos na Instituição.

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Para tanto, foram entrevistados profissionais, militares e civis, envolvidos no processo de implementação, seleção, formação e comando das primeiras turmas femininas, além de policiais femininos que participaram de eventos que se pretendeu apresentar neste estudo. As entrevistas foram gravadas e, na sequência, degravadas, de maneira que permitissem análises mais detalhadas para seleção das informações extraídas e registradas na monografia. A seleção dos entrevistados não se deu em virtude de hierarquia, mas do acesso que tais pessoas tiveram aos fatos apresentados no presente trabalho.

Cassab (1995) explica que “como metodologia de pesquisa, a História Oral se ocupa em conhecer e aprofundar aspectos sobre determinada realidade, como os padrões culturais, as estruturas sociais, os processos históricos ou os laços do cotidiano” (CASSAB, 1995, pp. 7 e 8). Conforme o autor, as fontes orais contribuem para recuperar fatos não registrados em outros tipos de documentos, assim como aqueles cuja documentação se deseja completar ou abordar de ângulo diverso.

Alberti (1994, apud Cassab, 1995) qualifica a metodologia da História Oral como agente da ampliação do conhecimento e fonte de consulta, a partir da consideração de duas especificidades dessa metodologia: uma decorrente da intencionalidade do pesquisador em produzir documentos históricos que tornar-se-ão fontes de conhecimento; a outra, que a História Oral é utilizada apenas em pesquisas de temas contemporâneos em que:

a memória dos seres humanos alcance, para que se possa entrevistar

pessoas que deles participaram, seja como autores, seja como testemunhas. É claro que, com o passar do tempo, as entrevistas assim produzidas poderão servir de fontes de consultas para pesquisas sobre temas não mais contemporâneos. (ALBERTI, 1994, apud CASSAB, 1995, p. 12)

( )

A metodologia da História Oral já foi utilizada como estratégia para falar da Polícia Feminina

da PMMG, conforme trabalho desenvolvido por Souza (2011). Nesse caso, a metodologia em questão foi utilizada como a estratégia principal para levantar as informações buscadas pela pesquisadora, portanto, sem aprofundamento nas fontes documentais ou no contexto em que

se deram os fatos buscados nos textos utilizados, já que não se tratava do objetivo do estudo.

No presente trabalho, a História Oral foi utilizada, nos termos apresentados por Cassab (1995), como um dos recursos para recuperar o percurso traçado pela Polícia Feminina na

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PMMG. Como o objetivo do estudo foi trazer à tona os acontecimentos, os relatos contribuíram para contar os fatos, para construir uma narrativa cujos personagens atuaram nos acontecimentos que não foram contados pelos documentos, pelas notícias, pelos trabalhos acadêmicos e pelos demais registros escritos existentes.

Dessa forma, dos relatos orais coletados, não foram transportados para o presente estudo quaisquer julgamentos, avaliações, perspectivas pessoais das pessoas entrevistadas, já que esses registros não se relacionam ao objeto da pesquisa. A História Oral foi utilizada, portanto, como uma das fontes de coleta de dados que contribuiu para descortinar, juntamente com os registros escritos arrecadados, os acontecimentos que constituem a história da Polícia Feminina na PMMG.

Quanto aos procedimentos de coleta, foram entrevistados 04 ex-comandantes gerais, 02 ex- chefes do Estado-Maior da PMMG, 03 dos 05 comandantes da Cia PFem, 02 ex-chefes de curso da primeira turma, 04 policiais femininos da primeira turma de PFem e 02 professoras civis que atuaram na seleção e na formação das primeiras turmas de policiais femininos.

A seleção dos entrevistados se deu em virtude das contribuições que cada poderia fornecer, de acordo com o acesso que teve em virtude das funções que desempenhou no período focado.

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4 PERCURSO HISTÓRICO

4.1 Acontecimentos da década de 80

4.1.1 Providências preliminares para a criação da Polícia Feminina na PMMG

No final do ano 1980, após a decisão de criar a Cia PFem nos quadros operacionais da Corporação, um grupo de profissionais já discutia possíveis regras para a inclusão, com o estabelecimento dos critérios relativos à idade, altura, idoneidade moral, estado civil, entre outros. Nesse grupo, que posteriormente passou a compor uma comissão, estavam o Diretor

de Pessoal, o futuro Comandante da Companhia, uma professora de renome no cenário

educacional da capital e outra pertencente ao Colégio Tiradentes da PMMG. Uma integrante

da comissão manifestou-se sobre essa época:

nós conversamos muito sobre a criação da Polícia Feminina. E trocamos

falando comigo que eles estavam pensando na criação da Polícia

Feminina e nós assumimos essa idéia e nas conversas que a gente tinha, em encontros pra discutir o assunto, a gente procurava, assim, abrir uma visão pra esse aspecto. E nós vimos o quê que era, como que seria a concepção de uma Polícia Feminina dentro da Polícia Militar de Minas Gerais. Então,

qual seria o papel dessa Polícia, o quê que se esperava dessa Polícia, isso foi

muito discutido. (

muito como é que se deu essa concepção duma mulher profissional da área da Polícia Militar. Então, eu, como mulher, eu via naquilo uma oportunidade a mais da mulher ingressar numa outra carreira. Nós que estávamos saindo da década de setenta, entrando pra de oitenta, vendo que a mulher já tinha passado aquela barreira de abrir as portas para o mercado de trabalho diferenciado. (Professora civil 02)

Então, foi uma oportunidade em que a gente discutiu

idéias, (

)

)

4.1.2 Normas e procedimentos iniciais

A realidade política na década de 1980 já estendia às mulheres alguns direitos antes

exclusivamente masculinos, como o voto. As providências para a inserção da mulher na PMMG cuidaram da manutenção desse direito, ainda que de forma não intencional, com a

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exigência, pelo então Comandante-Geral, Coronel PM Jair Cançado Coutinho, de que o primeiro cargo a ser ocupado pelas mulheres fosse o de Sargento:

Uma grande dificuldade que eu enfrentei foi que eu queria que a primeira turma da Polícia Militar Feminina fosse iniciada com uma turma de terceiros sargentos, isso aqui é um ponto principal e nevrálgico. A IGPM resistia e só admitia dar autorização se fosse uma turma de soldados, com o quê eu não concordava. Nos primeiros contatos que tivemos com a IGPM eu dizia: Eu quero iniciar com uma turma de sargentos. A IGPM por si: Isso não tem lógica no ordenamento militar porque no ordenamento militar a gente começa tudo como soldados. E eu não queria. As razões eram óbvias: estávamos implantando algo novo, era necessário começar-se bem. 3

Além das vantagens elencadas pelo oficial, a inclusão na graduação de Sargento garantiu a manutenção do direito ao voto, que ainda não alcançava os Cabos e Soldados, o que só foi acontecer em 1988, com a atual Constituição Federal. Portanto, se a mulher tivesse ingressado como Soldado, teria que abrir mão de tal conquista. No período de duração do curso não foram realizadas eleições.

Quando ainda eram alunas, recebiam salário correspondente ao de Cabo (Art. 8º do Decreto 21.336), embora, para fins de subordinação, eram equiparadas a Soldados. Justificando que essa exigência teria implicações nos salários das novas policiais e acarretaria candidatas de melhor nível, o Comandante-Geral manifestou sua certeza de que

Uma turma de sargentos atrairia moças mais bem preparadas, as exigências poderiam ser maiores, finalmente, porque eu entendia que no momento devido, as circunstâncias seriam melhores para a Corporação. 4

De fato, as candidatas selecionadas e aprovadas na primeira turma de sargentos femininos da PMMG, em suas trajetórias profissionais, destacaram-se pela capacidade intelectual com o alcance de várias primeiras colocações nos concursos e cursos dos quais participaram na Corporação ao longo de suas carreiras.

3 Declaração concedida em entrevista. Considerando a importância de identificar o autor dessa fala, a citação não será acompanhada do código aplicado às demais informações coletadas em relatos orais.

4 Idem ao anterior.

55

4.1.3 O Primeiro Processo Seletivo

Tomada a decisão de abrir as fileiras da Instituição para o ingresso das mulheres, o Comandante-Geral estava ciente da repercussão e da responsabilidade decorrente de tal medida e, por esse motivo, estabeleceu critérios rígidos para a primeira turma, na certeza que seu sucesso ou seu fracasso iriam afetar de forma irremediável a definição da realização de um novo processo seletivo para a inclusão de uma nova leva de mulheres.

Quando assumi o Comando Geral da Corporação, com esse convencimento já consolidado, levei o assunto ao Senhor Governador do Estado, em caráter reservado, que deixou a matéria a meu critério. Assim, recomendei que se fizessem os estudos preliminares e tomassem as providências, determinado que estava em criar a Polícia Militar Feminina. 5

Ainda sobre o processo seletivo, outro entrevistado acrescenta informações:

Eu era da comissão. Aí foi aberta a inscrição. A número um, a primeira inscrição foi da Nancy. Ela foi a zero um, zero um, na hora que abriu ela já tava na fila lá, desde cedo. E aí eu me lembro que foram duas mil quatrocentos e não sei quantas candidatas. (Cmt Cia PFem 01)

No Gráfico 1, observa-se um incipiente movimento de entrada no mercado de trabalho entre as candidatas aprovadas no primeiro processo seletivo.

0 10 20 30 40 50 60 70 80 estudante 73 61% outras 17 14%
0
10
20
30
40
50
60
70
80
estudante
73
61%
outras
17
14%
professora
14
12%
aux. escritório
6
5%
secretária
5
4%
escriturária
3
3%
não informado
2
2%

GRÁFICO 1 Profissões informadas pelas aprovadas no concurso ao CFS Fem/81

Fonte: BI 047/81-APM

5 Idem ao anterior.

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Enquanto a maioria absoluta (61%) das candidatas aprovadas se declararam estudantes, pequena, porém considerável parcela (38%), já tinha ingressado no mercado de trabalho, com destaque para o exercício do magistério. Assim, podemos concluir que as vantagens oferecidas no Edital de fato eram atraentes, especialmente quanto a questão salarial.

4.1.4 Outros acontecimentos da década de 80

4.1.4.1 1981

A Companhia de Polícia Feminina foi criada pelo Decreto Estadual 21.336, de 20 de maio de 1981, assinado pelo Governador Francelino Pereira dos Santos. A mesma norma estabeleceu que a Cia PFem seria composta por um Capitão PM e um Tenente PM do Quadro de Oficiais Policiais Militares (QOPM), um 1º Sargento e um 2º Sargento do Quadro de Praças Policiais Militares (QPPM) e cento e vinte 3º Sargentos PM Fem.

As vagas destinadas às policiais femininos seriam preenchidas após o Curso de Formação de Sargento PM Feminino (CFS/Fem), cuja seleção ficou a cargo da então Diretoria de Pessoal (DP) e a realização pela Academia de Polícia Militar (APM). Para a realização do curso na APM, foi necessário preparar as instalações do quartel que, até então, somente possuía integrantes do sexo masculino:

Evidentemente que a presença feminina nos obrigou a fazer adequações de instalações. Contudo, quanto a regras específicas, considerando que a diferença de sexo dever-se-ia fazer com naturalidade, não foi necessário criá-las. Pelo meu ângulo de visão (e sempre comandei junto à tropa), a aceitação e convivência, com respeito e ética, transcorreu com normalidade. (Chefe do Estado-Maior 01)

Embora dois Oficiais e Praças masculinos tivessem sido designados para a Cia PFem, o Decreto 21.336/81 previu que, assim que houvesse condições de formação e acesso, os cargos para o comando e a administração da Companhia seriam providos por Oficiais e Praças do Quadro de Polícia Feminina, conforme se dispusesse em lei e regulamento.

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Os requisitos para ingresso no Curso de Formação de Sargentos PM Fem foram estabelecidos pelo artigo 4º do mesmo Decreto:

I ser brasileira;

II ter idade compreendida entre 18 e 25 anos;

III ter idoneidade moral e político-social;

IV ter sanidade física e mental;

V

ter altura mínima de 1,56 m (um metro e cinquenta e seis centímetros);

V

ser solteira;

VII ser aprovada nos exames de escolaridade, em nível de 2º grau e psicológicos.

Anos após, o Comandante-Geral em exercício no ano de 1983 relembrou, na Ordem do Dia referente à formatura do CFS/83, as decisões dessa época:

Ao ser criada a Polícia Feminina na Polícia Militar, a preocupação inicial foi de selecionar um grupo de jovens que pudesse, ao final do curso, atuar em trabalhos específicos de policiamento ostensivo e, por isso mesmo, exigiu-se como um dos pré-requisitos o nível de escolaridade de II grau. Exatamente para a composição desse grupo conforme o que se pretendia, a Polícia Militar optou por uma formação na graduação de Sargento, o que tornou-se um atrativo muito grande em termos de procura e propiciou às jovens candidatas o ingresso compatível com essas exigências. (BEPM 039, 1983, p. 319)

Diante da inexistência de normas específicas para o corpo feminino, o Decreto em questão previu a criação do Regulamento da Companhia de Polícia Feminina (RePoFem), que seria aprovado pelo Comandante-Geral da PMMG e, ainda, que, até que fosse aprovada legislação específica, aplicar-se-iam às alunas do CFS/Fem, as normas peculiares à Polícia Militar.

A partir dessa norma, o Comando da PMMG expediu outras que visaram a implementar a seleção, a inclusão, a formação e o emprego das policiais femininos. A primeira delas, a Resolução 880, de 29 de maio de 1981, que aprovou as diretrizes para o recrutamento, seleção e matrícula, inclusão e formação de Sargentos PM Femininos naquele mesmo ano, visava a “preparar policiais militares femininas para o exercício das funções atribuídas a Sargento PM Feminina, formando grupo homogêneo, dotado de comprovada vocação e habilitados para a carreira”. As condições para inscrição foram as mesmas previstas no edital que criou a Cia PFem, acrescidas da exigência de “assumir o compromisso, junto à Polícia Militar, de não contrair matrimônio antes de decorridos 02 (dois) anos após a conclusão do CFS PM Fem, sob pena de exclusão”.

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As candidatas foram submetidas a exames de escolaridade, exames médico-odontológicos, psicológicos, entrevista, pesquisa social e teste de aptidão física, sendo o primeiro de caráter classificatório e os últimos, eliminatórios.

As atividades referentes ao recrutamento e à seleção das candidatas foram executadas por uma comissão, designada pelo Comandante-Geral da PMMG, composta por Oficiais e civis:

Cel PM Leonel Archanjo Affonso; Cel PM Fábio do Patrocínio; Ten Cel PM José Braga Júnior; Maj QOS Sílvio Álvares da Silva; Professora Maria Auxiliadora dos Santos Mafra; Professora Maria Natividade Teixeira Guerra; Cap PM Dalmir José de Sá; Cap PM Paulo Afonso de Miranda (BGPM 102, de 02/06/1981).

O primeiro Comandante da Cia PFem, então Cap PM Dalmir José de Sá, foi designado em 02

de junho de 1981 (BGPM 102, de 02/06/1981). Três anos mais tarde, em Ato de Concessão de recompensa ao Cap Dalmir pela sua atuação na Cia PFem, o Comandante-Geral da PMMG manifestou-se sobre a escolha:

A escolha do Comandante para a incipiente fração cercou-se de inúmeros cuidados, pois, ao lado das qualidades de líder, de bom administrador, de equilíbrio e de inteligência, deveria também exceder-se em requisitos morais de integridade, lealdade, desprendimento, coragem e responsabilidade. (BI 039/84-Cia PFem, p. 161)

Por meio de Instruções Reguladoras, o Comando da PMMG detalhou normas para o concurso ao CFS/Fem, registrando que o recrutamento objetivava “atrair candidatas devidamente qualificadas para concorrer ao processo de seleção” (BGPM 117/81).

Com esse objetivo, ficou estabelecido que cada policial militar deveria estar em condições de informar, às candidatas interessadas, as informações básicas sobre a seleção. A PM5 ficou

encarregada de “realizar intensa divulgação por cartazes, anúncios da imprensa falada, escrita

e televisada, em horários adequados a atingir as possíveis candidatas.” Ainda foram

produzidos panfletos e disponibilizados números de telefones unicamente para fornecimento de informações (BGPM 117/81).

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Dentre as recomendações práticas para execução das atividades, estavam procedimentos que deveriam ser adotados em relação às possíveis candidatas, especialmente por ocasião das inscrições, que funcionaram de 08 às 20 horas:

a) Recepção das candidatas, com especial cautela para demonstração de urbanidade, cavalheirismo, organização e disciplina, que serão as primeiras impressões a serem observadas. (BGPM 117/81).

O Edital de Concurso Público para o Recrutamento, Seleção e Admissão de Matrícula no CFS PM Fem, publicado no BGPM 119/81, de 26 de junho de 1981, esclareceu, em seu art. 1º, que caberia à 3º Sgt PM Fem trabalho específico de policiamento ostensivo fardado, executando missões impostas a Unidade Operacional:

I policiamento ostensivo geral em locais ou eventos freqüentados por

mulheres, menores ou pessoas idosas, onde a ação do policial-militar masculino seja dificultada ou possa ser complementada pela policial militar

feminina;

II policiamento ostensivo de trânsito;

III atuação, como radioperadoras no Centro de Operações Policiais

Militares (COPOM) e nas Salas de Operações das Unidades Operacionais;

IV atuação em atividades de assuntos civis de interesse da Polícia Militar;

V apoio em operações de ação cívico-social;

VI apoio em operações de defesa civil;

VII participações em solenidades e desfiles cívicos; VIII emprego em outras atividades da Polícia Militar, a critério do

Comandante-Geral da Corporação.

Os vencimentos atribuídos às policiais militares no período de curso e após formadas eram de Cr$ 19.229,00 (dezenove mil, duzentos e vinte e nove cruzeiros), até 01/10/81; Cr$ 29.918,00 (vinte e nove mil, novecentos e dezoito cruzeiros), a partir de 01/10/81; Cr$45.251,00 (quarenta e cinco mil, duzentos e cinqüenta e um cruzeiros), a partir do término curso. No

período, o valor do salário mínimo 6 era de Cr$ 8.464,80 (oito mil, quatrocentos e sessenta e quatro cruzeiros e oitenta centavos) até novembro de 1981, quando passou a Cr$ 11.928,00 (onze mil, novecentos e vinte e oito cruzeiros). Assim, as alunas recebiam 2,27 salários mínimos na inclusão, passando a 3,53 a partir de outubro e 5,25 salários mínimos em abril de

1982.

6 Fonte: Tribunal Regional do Trabalho-3ª Região Minas Gerais: Disponível em http://www.trt3.jus.br/informe/calculos/minimo.htm, consulta em 15Ago2011.

60

No Brasil, em 1981, o salário médio percebido pela mulher no mercado de trabalho era equivalente a 68% do salário pago ao homem, na mesma função (GIUBERTI e MENEZES- FILHO, 2005). Tal diferença não existiu na PMMG, uma vez que o salário era definido para o posto ou a graduação, sem distinção de gênero. A única exceção, como já apresentado, foi o período em que as policiais femininos, alunas do CFS, receberam vencimentos iguais aos Cabos, muito embora exercessem funções de Soldados. Nesse caso, portanto, o vencimento das mulheres era superior aos dos homens na mesma situação funcional.

Para composição do efetivo da Cia PFem, foram remanejados cargos de outras Unidades da Corporação, conforme Resolução 883, de 02 de junho de 1981, publicada no BGPM 125, de 06 de julho de 1981.

A criação da Cia PFem gerou a necessidade de que fossem previstos uniformes para as novas

policiais. Em virtude disso, foram criadas as Normas Provisórias para Uniformes e Insígnias

da Polícia Feminina, aprovadas pela Resolução 885, de 08 de junho de 1981. Uma primeira

versão desses uniformes foi apresentada para o Governador do Estado, ocasião em que foram escolhidas as filhas do estilista, então Tenente Coronel João Teixeira Vicente, para usá-los. A repercussão rendeu matérias em jornais de grande circulação no Estado, iniciando, dessa forma, a divulgação do concurso.

A FIG. 1 mostra o momento da apresentação dos uniformes a serem usados pelas futuras

sargentos, ao Governador Francelino Pereira, no dia 29 de maio de 1981.

ao Governador Francelino Pereira, no dia 29 de maio de 1981. FIGURA 1- Comandante-Geral da PMMG

FIGURA 1- Comandante-Geral da PMMG apresenta uniformes da Polícia Feminina ao Governador Francelino Pereira, no Palácio dos Despachos. Fonte: Acervo pessoal do Cel PM QOR Cleinis de Alvarenga Mafra

61

Nota-se que os sapatos que compunham os uniformes de cerimônia cinza e branco eram tipo

peep toe, caracterizado pela pequena abertura na ponta, deixando entrever partes dos dedos.

Esse modelo, no entanto, nunca foi adotado para uso pelas policiais femininos, segundo as

integrantes da primeira turma, prevalecendo o modelo que na FIG. 1 compõe o uniforme de

cerimônia cáqui.

Os uniformes foram classificados em duas categorias: uniformes em geral (cerimônia,

passeio, trânsito e expediente, campanha e educação física) e uniforme operacional (de

policiamento a pé; de radiopatrulhamento, de trânsito).

A composição dos uniformes guardava semelhança com o previsto para os policiais

masculinos, diferenciando-se pela inclusão da saia na maioria deles (exceto o de educação

física e o de campanha). Para o uniforme operacional foi criada uma bolsa marrom café, que

comportava a arma de fogo utilizada pelas policiais.

O QUADRO 1 apresenta comparação entre os uniformes operacionais e de campanha

previstos para as policiais femininos e para os policiais militares naquela época.

QUADRO 1

Composição do uniforme operacional para policiais militares masculinos e femininos em

1981.

Uniforme Operacional (para policiamento a pé, radiopatrulhamento)

Policiais masculinos

Policiais femininos

- sapato marrom café

- sapato marrom café

- meia marrom café;

- meia;

- calça de tergal bege;

- saia bege

- cinto marrom café;

- cinto marrom café;

- cinturão marrom café com acessórios;

- cinturão marrom café com acessórios;

- camisa de tergal bege meia manga;

- blusa bege manga curta;

- quepe.

- chapéu bege;

- bolsa marrom café.

62

Também ficou estabelecido, pela Resolução 885/81, que às policiais militares a partir do sexto mês de gravidez seria facultado o uso do uniforme.

O primeiro CFS/Fem da PMMG teve início em primeiro de setembro de 1981, e o ato de matrícula trazia o esclarecimento de que sendo às alunas “esclarecidas as exigências regulamentares e os deveres a que ficarão sujeitas como integrantes da Corporação, a partir da data acima referida, ficaram inteiramente de acordo” (BI 047/81-APM, p. 006).

Outra norma especificamente destinada às mulheres policiais foi o Regulamento da Companhia de Polícia Feminina, cuja primeira versão foi aprovada pela Resolução 920, de 11 de setembro de 1981, que estabeleceu a missão, a estrutura orgânica, a definição, as atribuições, as normas disciplinares e as linhas gerais de funcionamento da Cia PFem.

O art. 3º do RePoFem previu que a Cia PFem estaria estruturada com Comandante, Subcomandante, Seção de Comando e Pelotões.

O art. 10 do RePoFem previu que o emprego da Cia PFem odedeceria às seguintes variáveis:

I quanto ao tipo, será empregada no policiamento ostensivo normal e de

trânsito;

II quanto ao processo, serão utilizados os meios de locomoção a pé e

motorizado;

III

permanência, a diligência e a escolta, em observância às particularidades da

missão;

IV quanto à circunstância, será empregada em serviço ordinário ou de

rotina, extraordinário e especial; V quanto ao lugar, será empregada, prioritariamente, em áreas urbanas;

a

quanto

à

modalidade,

serão

executados

o

patrulhamento,

VI

quanto ao número, de acordo com a missão a executar, será empregada

em

patrulhas, em duplas ou individualmente;

VII quanto à forma e duração, será empregada em turnos e jornadas de

trabalho,

Unidades

seguindo

os

mesmos

critérios

previstos

para

as

Operacionais da Capital.(g.n.)

As variáveis listadas pelo RePoFem eram as constantes do Manual Básico de Policiamento Ostensivo (Exército Brasileiro, 1987), à exceção do emprego feminino nos policiamentos rodoviário, florestal e de mananciais e de guardas, nos processos em embarcação, em bicicleta, aéreo, montado e nem em áreas rurais.

63

O RePoFem registrou uma orientação especial quanto à exposição do armamento pelas policiais femininas:

Art. 12 A Cia PFem, quando empregada operacionalmente, utilizará, de forma discreta, armamento e equipamento apropriado à missão que lhe for atribuída.

Além das previstas no Regulamento Disciplinar da Polícia Militar (RDPM), ao qual também estavam sujeitas as policiais femininos, o art. 14 da primeira versão do RePoFem estabeleceu transgressões disciplinares próprias para as integrantes da Cia PFem:

I comprometer-se irregularmente com encargos de família, principalmente

se

solteira (grave);

II

manter relacionamento íntimo não recomendável ou socialmente

reprovável, com superiores, pares ou subordinados (grave);

III frequentar, uniformizada, cafés, bares ou estabelecimentos similares,

salvo se em missão ou em serviço (média);

IV

frequentar, quando uniformizada, cinemas, teatros, casas de diversão

ou

similares, salvo se em missão ou serviço (média);

V

manter relacionamento de amizade ou de intimidade com pessoas de

reputação duvidosa (grave);

VI usar, quando uniformizada, penteados exagerados, perucas,

maquilagens excessivas, unhas longas ou com verniz de cor extravagante (leve);

VII invocar circunstâncias de matrimônio ou encargo de família para

eximir-se de obrigações funcionais (média);

VIII usar jóias e adereços que prejudiquem a apresentação pessoal como

policial-militar feminina, enquanto uniformizada (leve);

IX demonstrar intimidade com outrem, mediante atos e gestos

comprometedores, estando uniformizada (grave); X usar gírias, expressões ou gestos incompatíveis com a conduta policial militar feminina (média);

XI transitar em público conduzindo objetos estranhos ao serviço, estando

uniformizada (leve);

XII passear ou transitar em companhia de pessoas do sexo masculino, estando fardada (leve);

XIII fumar em público, estando serviço (leve);

XIV deixar de solicitar, com a devida antecedência, autorização para

contrair matrimônio (média).

Para as mulheres, a redação das transgressões foi mais clara e específica, em contraponto a redação por vezes genérica do RDPM, na sua versão anterior à entrada das mulheres na Corporação. Como se verá, os acontecimentos históricos registram que uma versão posterior do RDPM, estendeu a todos os policiais militares as transgressões tipificadas nos incisos I, II, VI, VII, VIII, IX, além de uma 16ª transgressão, inserida na versão alterada do RePoFem.

64

O art. 15 do RePoFem previa a exclusão da Corporação para a policial militar que contraísse

matrimônio antes de completado o período de dois anos de conclusão do CFS/Fem. Além

disso, estabeleceu entendimentos gerais a respeito da Cia PFem:

Art. 18 A Cia PFem não deve ser entendida como uma organização de mulheres masculinizadas ou um movimento feminista de libertação, não considerando, todavia, a beleza e a estética como valores fundamentais, mas procurando manter e estimular a feminilidade de suas integrantes. Art. 19 A Cia PFem é uma organização em que são respeitadas as diferenças bio-psicológicas de suas integrantes, mas de quem são exigidos os mesmos padrões de desempenho profissional atribuídos ao policial- militar do sexo masculino. (RePoFem, 1981).

O Art. 22 do mesmo regulamento esclareceu que os postos e graduações femininos seriam

identificados com as mesmas designações previstas na Corporação, acrescidas da abreviatura Fem. Esse foi, de fato, o padrão utilizado para designar o Quadro de Praças Femininos (QPPM Fem) e se assemelhava aos empregados para especificar os diversos quadros da PMMG.

No ano seguinte o RePoFem foi alterado, sendo-lhe acrescidas novas transgressões disciplinares, além de outras prescrições de caráter mais geral.

Para as Alunas do Curso de Formação de Sargentos e para as demais integrantes da Cia PFem, a Resolução 929, de 30 de setembro de 1981, definiu o uso de corte curto de cabelo e penteado discreto, o que seria fiscalizado por revistas quinzenais, procedidas pelo Comandante da Cia.

O primeiro registro de baixa de uma das alunas do CFS/Fem aconteceu em 1º de outubro do

ano de ingresso. A Sd PM Fem Arlene Rosa, sob a alegação de que não mais desejava pertencer às fileiras da Corporação, teve sua baixa deferida a partir de então, conforme consta

do BI 040/APM, de 05 de outubro de 1981.

4.1.4.2 1982

As primeiras punições disciplinares de policiais militares do sexo masculino em decorrência da inclusão da mulher na Corporação, foram publicadas no BI 005, de 01 de fevereiro de 1982, da APM. Na primeira está registrado:

65

Deixou de cumprir uma ordem no sentido de tomar conta dos fuzis da apresentação (da equipe de ginástica), sendo surpreendido por um superior hierárquico, conversando com uma Aluna do CFS-Fem.

Na segunda consta:

Fez comentários desairosos contra uma aluna do CFS-Fem, na presença de outras pessoas, dizendo estar a aluna muito obesa e necessitada de fazer regime alimentar, o que ensejou a apresentação de queixa por parte da aluna.

Pouco tempo depois, foi a vez da primeira Aluna ser punida, agora porque, “no dia 25 de dezembro de 1981, às 04:00, chegou ao portão principal da Academia, conduzindo em seu carro, um aluno do CFO, contrariando recomendações do Comando no sentido”. Seu acompanhante foi punido no mesmo BI pelas mesmas razões e, ainda, “por ter induzido subordinada a cometimento de falta disciplinar”. Ao policial masculino coube o dobro da punição da Aluna. (BI APM 008, de 22/02/1982)

Em 12 de março de 1982, uma comissão composta por três Policiais Militares, dentre eles uma aluna do CFS/Fem, foi designada para estudar e selecionar, para posterior aprovação, a letra e a música da Canção da Polícia Feminina. No entanto, não foram encontrados registros da existência oficial da Canção da Cia PFem.

Com a proximidade da formatura houve-se por bem reforçar e esclarecer o previsto no art. 22 do RePoFem (1981). Assim, no BGPM 058, de 30 de março de 1982, foi publicado o Aviso n.º 210, que dispunha sobre o tratamento que seria dispensado às graduadas do sexo feminino a partir da formatura no CFS/Fem, ficando determinado que seria mantida a forma masculina dos postos e graduações e que a designação do gênero seria feita com a flexão do artigo e do adjetivo. As demais regras se dariam conforme procedimentos previstos no Regulamento de Continências, Honras, Sinais de Respeito e Cerimonial Militar (RCont) do Exército Brasileiro.

Em 02 de abril de 1982, o Comandante designado assumiu o Comando da Cia PFem. Nessa mesma data aconteceu a instalação da Companhia, com a formatura da primeira turma de sargentos femininos. (BEPM 005, de 02/04/1982)

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O Ato Final do primeiro Curso de Formação de Sargentos Femininos da PMMG foi publicado

no BEPM 005, de 02 de abril de 1982. O ato esclarece que o resultado final é o conjunto das médias obtidas nas disciplinas do curso: Organização Social e Política do Brasil, Língua Portuguesa, Legislação e Regulamentos, Comunicações, Metodologia do Ensino, Administração PM, Defesa Civil, Ordem Unida, Educação Física, Armamento e Tiro, Informações, Noções de Direito, Socorros de Urgência, Relações Públicas e Humanas, Noções de Serviço Social, Chefia e Liderança, Defesa Pessoal, Técnica Policial Militar e Operações de Defesa Interna e Defesa Territorial. Todas as novas 3º Sargentos foram classificadas na Cia PFem, conforme ato também publicado no BEPM 005/82.

Das 112 (cento e doze) aprovadas no CFS/82, a primeira classificada foi a 3º Sgt PM Fem Vilma Neri Jatobá, com a média de 9,089 pontos. Como prêmio por seu desempenho acadêmico, a graduada recebeu, na solenidade de formatura, um revólver calibre .38, que gerou posterior ato para sua regularização (BI APM 017, de 25/04/82). A policial militar permaneceu nas fileiras da Corporação até 08 de agosto de 1983 (BI APM 015, de 12/04/82).

Na Nota do Comando referente à formatura, o Comandante-Geral se dirigiu às formandas:

Aplicando com critério e bom senso os conhecimentos adquiridos no curso, vocês estarão contribuindo para manter cada vez mais alto o conceito que a Corporação adquiriu na comunidade, mercê de cento e cinqüenta anos de bons serviços prestados. Vocês passaram a fazer parte da Milícia de Tiradentes, e como tal, terão as responsabilidades inerentes à nossa qualidade de policiais-militares, qualidades que se refletirão num comportamento sóbrio, numa disciplina consciente, na coragem, no espírito público, na lealdade, enfim, em todas aquelas virtudes que, ao longo dos anos, fizeram o espírito da Corporação. Vocês, como primeira turma de Polícia Feminina, têm a responsabilidade de fazer bem feito o seu trabalho, que esperamos seja dignificado pela sua atuação, para que sirva de exemplo para as policiais vindouras. ( ) Policiais de fato e de direito, vocês estarão sujeitas às nossas leis e regulamentos, com os direitos e deveres da profissão como todo e qualquer policial-militar e como tal devem agir. (BEPM 005, 1982, pp. 053 e 054)

A Cia PFem passou a executar policiamento ostensivo feminino nas ruas de Belo Horizonte em 14 de abril de 1982. (BI 001-Cia PFem)

O acompanhamento das dispensas e licenças médicas das alunas e posteriormente, 3º

Sargentos Femininos, ressalta o número expressivo de dispensas ou licenças por motivos

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ortopédicos, com incidência da dispensa do uso de calçados ou da execução de exercícios físicos de maior intensidade.

A partir de maio de 1982, surgiu uma nova situação motivadora de dispensa médica das 3º

Sargentos Femininos: o uso da bolsa prevista no RUIPM para compor os uniformes femininos, na qual era transportado o armamento. Do BI APM 22, de 31 de maio, ao BI APM 32, de 09 de agosto de 1982, das 49 dispensas médicas publicadas, 19 (ou seja, 9,31%) foram decorrentes do “uso da bolsa com peso sobre os ombros” ou “do uso de bolsa e equipamento

que apóia sobre a coluna”. Essa situação é narrada por uma das entrevistadas, que também trata do armamento utilizado:

Logo no primeiro mês de emprego na atividade fim, o problema se manifestou. Não chegou a ser um problema ortopédico, mas, com a bolsa no ombro, ora no direito, ora no esquerdo, o peso não era bem distribuído e provocava dores nas costas das policiais. É importante relatar que, mesmo com a bolsa, já era utilizado o revólver calibre .38, com cinco tiros. O revólver 5 tiros (menor e mais leve) foi adquirido especialmente para uso da Polícia Feminina, mesmo com a bolsa. A PMMG estudou a utilização do cinturão, fez teste em algumas e trocou a bolsa pelo cinturão. O problema foi solucionado. A arma utilizada continuou a ser o revólver .38, cinco tiros. (PFem 1ª turma 03)

Essas informações foram confirmadas por outra Policial militar:

Quando nós começamos com o policiamento, a gente usava uma bolsa. E o armamento ia dentro da bolsa. Como aquela bolsa começou a trazer muito problema de coluna pra nós e então foi feito um estudo e foi mudado. Começamos a usar o cinto de guarnição. Só que o nosso cinto era diferente dos homens porque nos nossos cintos tinha uma capinha pra cobrir a arma. (PFem 1ª turma 02)

No mesmo ano, a PMMG, por meio da Resolução 1014, de 02 de junho, previu o funcionamento dos cursos para 1983, estabelecendo que haveria 30 vagas para o CFS Feminino; para o CFS Masculino foram previstas 40 vagas. (BGPM 101/1981)

A leitura de ato publicado no BGPM 104, de 07 de junho de 1982, permitiu perceber que, das

120 vagas de Sargentos Femininas previstas, 112 eram efetivamente ocupadas.

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Dando sequência ao processo de integração às atividades rotineiras e operacionais da Cia PFem, integrantes da Unidade se submeteram a exames aplicados por comissão do Batalhão de Trânsito e, no BI APM 023, de 07 de junho de 1982, é publicada a autorização para conduzir viaturas de transporte de pessoal com capacidade até 8 lugares, distribuídas ou colocadas à disposição da Cia PFem, os seguintes policiais-militares:

036.755-9, Cap PM Dalmir José de Sá; 035.389-6, 1º Ten PM Luiz Felipe Soares; 048.472-5, 2º Ten PM Adalberto Geraldo Martins Campelo; 035.389-4, 2º Ten PM José Marinho Filho; 033.939-8, 1º Sgt PM Edalmo Villa; 044.536-1, 2º Sgt PM Ronaldo Soares de Oliveira; 071.674-6, 3º Sgt PM Fem Marilda Solange Vieira de Lima; 071.601-9, 3º Sgt PM Fem Andréia Mara Lopes da Silva; 071.700-9, 3º Sgt PM Fem Solange Maria Zago; 071.647-2, 3º Sgt PM Fem Lílian Therese Froeseler; 071.600-1, 3º Sgt PM Fem Ana Maria Keltke Guimarães; 071.673-8, 3º Sgt PM Fem Maria Terezinha Taboada Esteves; 071.678-7, 3º Sgt PM Fem Mary Marques de Almeida; 071.698-5, 3º Sgt PM Fem Sílvia Rosa.

A partir do dia 26 de julho de 1982, cinco Sargentos da Cia PFem estiveram à disposição do Centro de Instrução de Graduados da Aeronáutica (CIGAR). Não foram localizadas publicações referentes à ida dessas militares, porém a apresentação à Cia PFem, após encerrado o empenho, foi publicada no BI 01/83-Cia PFem, de 17 de janeiro de 1983. As Sargentos da Cia PFem ficaram à disposição da Força Aérea Brasileira para auxiliar na formação da primeira turma de Sargentos e Cabos do Corpo Feminino da Reserva da Aeronáutica (CFRA). Conforme constou do Of. 001/DIR-046, de 17 de janeiro de 1983, o Diretor de Ensino da Aeronáutica manifestou-se dizendo: “é com grata satisfação que elogio os seguintes Sargentos, pertencentes ao corpo feminino da PMMG, pela competência, dedicação, entusiasmo e valor profissional demonstrado quando da instrução da 1ª turma de Sargentos e Cabos do CRFA, contribuindo significativamente para o êxito da formação militar do Corpo Discente do CIGAR” (BI 004/83-CPC, p. 042). As Policiais Femininas empenhadas nessa tarefa foram:

- 3º Sgt PM Fem Vilma Meri Jatobá;

- 3º Sgt PM Fem Dulcinéia Maria Barros;

- 3º Sgt PM Fem Maíza Ferreira dos Santos;

- 3º Sgt PM Fem Luciene Magalhães de Albuquerque;

- 3º Sgt PM Fem Janete Parreira Campos. (BI 003/83-Cia PFem)

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No mesmo ano, o RePoFem sofreu alterações, inseridas pela Resolução 1056, de 22/09/1982. Essa versão inseriu duas novas transgressões disciplinares àquelas já listadas na edição que data de 1981:

XV ter conduta incompatível com os princípios e valores policiais-

militares ou contrários ao prescrito no capítulo II deste Regulamento (gravíssima);

XVI manter convivência íntima fora do âmbito do círculo da Cia P Fem

(gravíssima). (g.n.).

Algumas das transgressões definidas pelo RePoFem, na primeira e na segunda versão, embora previstas especificamente para as policiais femininos, somente poderiam ser praticadas com a participação de policiais militares masculinos, o que ocorre com o inciso II da primeira versão (manter relacionamento íntimo não recomendável ou socialmente reprovável, com superiores, pares ou subordinados) e o inciso XVI, acrescido à versão de 1982.

Na mesma linha, a edição de 1982 também preocupou-se em acrescentar outras normas para a policial feminino, como a que previu exclusão disciplinar também no caso de casamento fora do círculo hierárquico:

Art. 27 A policial-militar que contrair matrimônio, antes de completado o período de dois anos de conclusão do CFS/Fem, ou com integrantes da Corporação, fora do círculo hierárquico a que corresponder (Subten e Sgt),

será excluída da Corporação. (RePoFem, 1982).

No mês de setembro, quatro Sargentos Femininos foram hipotecadas ao Batalhão de Polícia de Trânsito (BPTran) para participarem de uma Campanha Educativa de Trânsito, integrando a equipe de palestras que foram realizadas em estabelecimentos de ensino da capital. O empenho gerou retornos positivos, conforme se vê no ato assinado pelo Coronel PM Comandante de Policiamento da Capital, que se manifestou:

Recebida a missão, as graduadas não mediram esforços no sentido de atingir os fins colimados, não lhes faltando inteligência, dedicação, zelo e eficiência, deixando nas escolas a marca inconfundível de suas presenças, conforme pôde ser constatado „in loco‟ pelo Cmt do BPTran.

Este Comando constata com invulgar satisfação que as integrantes da Cia

PFem estão devidamente sintonizadas com o ideal de bem servir que norteia a obra da Corporação.

(BI 051/82-APM, p. 002).

70

Os registros encontrados indicam que, após a formatura do CFS/Fem, a primeira mulher a ser excluída, por baixa a pedido, foi a 3º Sgt PM Fem Lilian Thérese Froeseler, o que ocorreu a partir de 1º de novembro de 1982.

A primeira sede própria da Cia PFem foi localizada na Rua Almirante Alexandrino, nº 277, no

bairro Gutierrez, em Belo Horizonte, onde a Cia passou a funcionar a partir de 05 de

novembro de 1982, operacionalmente subordinada ao Comando de Policiamento da Capital.

O resumo da locação do imóvel foi publicado no BGPM 211, de 12 de novembro de 1982.

Sobre a sede própria da Cia PFem, um dos entrevistados falou com entusiasmo, ressaltando as qualidades do imóvel para acomodar o contingente da Cia PFem:

Então nós tivemos que mudar, aí mandaram procurar um imóvel pra alugar

).Uma (

meu tempo lá, todas tinham armário, tudo arrumado, não era? Armário

grande, maior do que esse aqui. (

A gente tinha que mandar bem, olha,

tudo tinha seu armário mas não podia deixar nada fora do armário.

(Cmt Cia PFem - 01)

casa maravilhosa, três pavimentos, todas as policiais femininas, no

)

As primeiras vagas femininas para o Curso de Formação de Oficiais foram previstas na Resolução 1014, de 01 de junho de 1982. Foram cinco vagas das 40 existentes para o primeiro ano do período profissional do CFO. A Resolução 1079, de 19 de novembro de 1982 previu que a seleção se daria por meio de concurso interno e que a turma feminina seria composta, também, por pessoal feminino de outras Corporações, para as quais foram destinadas 10 (dez) vagas.

Em 29 de novembro de 1982, quatro Sargentos Femininos foram deslocadas para a cidade de Montes Claros, onde foram empenhadas no policiamento executado em virtude do julgamento de um crime de grandes repercussões, do qual eram acusados dois ex-detetives, e que durou até as 11h30min do dia seguinte. Após tomar conhecimento da forma como atuaram as policiais, o Comandante do Policiamento da Capital, assim se manifestou:

A Cia PFem, organização ainda nova, já afirmou um conceito positivo, pela maneira eficiente de atuação das suas integrantes. É com prazer que recebo mais essa manifestação e comando que se consigne um caloroso elogio individual às policiais acima nomeadas. (BI 002/83-APM).

71

4.1.4.3 1983

No início de 1983, teve início o primeiro Curso de Formação de Oficiais da PMMG integrado por policiais femininos. Foi designado como Coordenador do curso o 1º Ten PM Paulo Eustáquio de Oliveira, porém, verificou-se que efetivamente outro oficial exerceu essa função, o Tenente Jairo Maio Borges. Por ordem de classificação, as aprovadas no concurso ao CFO foram:

- 3º Sgt PM Fem Luciene Magalhães de Albuquerque;

- 3º Sgt PM Fem Miriam Assumpção Paschoal;

- 3º Sgt PM Fem Marisa Ribeiro Xavier Cardoso;

- 3º Sgt PM Fem Maíza Ferreira dos Santos;

- 3º Sgt PM Fem Dulcinéia Maria Barros. (BI 03/83-Cia PFem)

Sobre os anos de CFO, uma das entrevistadas se manifestou:

Dificílimo em vários aspectos. Não havia medida para nada. Era tudo demais ou não era nada. Não que houvesse culpados para a situação, mas o próprio ineditismo da situação causava isso. Éramos excessivamente

Não se conformavam com

as nossas colocações na ordem de antiguidade. Foi uma relação de amor e ódio, porque, ao mesmo tempo, tivemos a oportunidade de nos dar a conhecer e de merecer respeito e reconhecimento. No final das contas, não poderia ter sido diferente.

(PFem 1ª turma 01)

cobradas ou não éramos, sem meio termo. (

).

Dentre as policiais militares de outros estados esperadas para cursar essa edição do CFO, apenas a Cadete Angelina dos Santos Correia, que pertencia à PMRO efetivamente realizou o curso. Anos mais tarde, ela assumiu o cargo de Comandante-Geral da sua Corporação.

A primeira linha telefônica direta da Cia PFem teve o número 337-0199 e foi instalada a partir de 03 de janeiro de 1983.

Somente nesse ano, a calça comprida passou a compor o uniforme operacional da Polícia Feminina, o que se deu a partir da Resolução 970, de 06 de janeiro de 1983. Dessa forma, além da saia bege, a calça comprida bege passou a ser usada pelas alunas dos Cursos de Formação de Oficiais e de Sargentos, bem como pelas Sargentos em serviço no policiamento

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a pé ou de trânsito. antes.

As demais características do uniforme operacional permaneceram como

A Resolução 1109, de 03 de janeiro de 1983, acrescentou ao Manual de Manutenção de

Transportes da PMMG a observação de que os Oficiais da Cia PFem poderiam conduzir as viaturas da Unidades, devido à peculiaridade do efetivo e missões. Nessa época, o Manual previa que os Oficiais da Instituição não poderiam conduzir esses veículos.

A

exemplo do que já estava previsto para o CFO, a recepção de policiais militares femininos

de

outros estados para a formação na PMMG também se repetiu com o CFS que funcionou

neste ano, já que a Resolução 1113, de 06 de janeiro de 1983, alterou o número de vagas para este curso, acrescentando 10 (dez) vagas destinadas às co-irmãs. Essas vagas foram ocupadas

por policiais femininos da Polícia Militar de Rondônia (PMRO) e da Polícia Militar do Estado

do Mato Grosso do Sul (PMMS).

A Instrução 02, de 03 de fevereiro de 1983, que dispôs sobre a seleção de candidatas ao

CFS/Fem que funcionou no mesmo ano e previu as seguintes condições para inscrição:

I ser brasileira;

II ser solteira, sem encargos de família;

III ter idade compreendida entre 18 (dezoito) e 26 (vinte e seis) anos, até

28Fev83;

IV não possuir antecedentes criminais e ter idoneidade político-social;

V ser possuidora de curso de 2º grau completo ou equivalente legal.

(BGPM 24/83).

A Comissão designada para proceder à seleção das candidatas ao CFS/83 era composta por

policiais militares e civis:

Cel PM José Braga Júnior Cel PM José Luiz de Castro Cap PM Dalmir José de Sá Professora Maria de Lourdes Costa Dias Reis Professora Vera Lúcia Resende Cunha Cap PM Fausto Afonso do Carmo. (BGPM 030/1983)

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Para exercer as funções de Supervisora Pedagógica do CFS/Fem foi designada a Professora Ivete Braga, pertencente ao Sistema de Ensino da PMMG, que era lotada no Colégio Tiradentes da PMMG (CTPM).

O BI 002/Cia PFem, de 24 de janeiro de 1983, publicou a transcrição de uma notícia

publicada no dia 04 do mesmo mês, a respeito da atuação de uma policial feminina:

A primeira prisão, em flagrante, realizada por uma Sargento da Companhia

de Polícia Feminina da PM, se deu, ontem, e ao estilo dos policiais mais

experimentados da Corporação. A Sargento Junia Dias Murta, de 19 anos, foi solicitada para proteger uma mulher, cujo marido ameaçava matar, e,

armado com um revólver, calibre 32, já havia feito um disparo em direção à vítima. Era questão familiar, uma vez que a doméstica Alimar Maria da Silva Ribeiro, de 23 anos, estava na cada do marido, José Eustáquio Batista Ribeiro, na Rua Norberto Ribeiro, 569, Eldorado. Ela levou somente dois dos três filhos e o marido queria ver o terceiro, surgindo o desentendimento. Quando Alimar saía da casa, o marido apanhou seu revólver e atirou em direção à mulher de quem estava separado há um ano, embora estivessem casados há cinco.

A Sargento Junia, que mora na mesma rua onde ocorreu a tentativa de

homicídio, foi solicitada a comparecer à casa 569 da Rua Mayer, onde estava José Eustáquio e lhe deu voz de prisão. Em seguida, chamou uma radiopatrulha, que levou o acusado para a Seccional Oeste, onde este foi autuado em flagrante. A „ocorrência‟ registrada pela Sargento Junia dá conta de que a bala raspou o corpo de Alimar Maria, quebrando o vidro da porta e se alojando na parede interna da sala. Como testemunha, a Sargento arrolou o comerciante João Leite Murta e o vendedor Otílio Augusto Dias Murta. Apreendeu um revólver Taurus, calibre 32, número 260.951, uma capa, duas balas intactas e uma deflagrada. (Jornal Estado de Minas de 04/01/1983, transcrição disponível no BI 002/83-Cia PFem).

Apesar de ser a Cia PFem uma Unidade autônoma, há registros de que suas integrantes eram empenhadas, eventualmente, em outras Unidades da PMMG, para atividades específicas, exercidas pelos militares dessas Unidades. No ano de 1983, algumas Unidades da PMMG tiveram seus efetivos empregados em abrigos da Grande BH, atuando em atividades organizadas pela Defesa Civil, em virtude dos transtornos gerados pelas enchentes que acometeram a capital. Nessa ocasião, algumas policiais da Cia PFem foram hipotecadas a essas Unidades para reforçarem o serviço em questão, conforme se vê no BI 004-Cia PFem,

de

07 de fevereiro de 1983.

no início de sua existência, a Cia PFem colocava suas policiais à disposição de outras

Unidades, a fim de participar de tarefas específicas. O BI 008-Cia PFem, de 07 de março de 1983, publicou o Of. 326/83, no qual o Comandante do 13º BPM, localizado no bairro

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Planalto, em BH, se manifesta quanto ao efetivo hipotecado àquela Unidade no período de 04 a 28 de março de 1983. Os registros não permitem identificar em qual serviço as policiais foram empenhadas, contudo, é relevante para este início de coleta das impressões da época sobre o desempenho das profissionais:

Esclareço-vos que o trabalho prestado pelas policiais militares é digno de reconhecimento e louvor. As PFem executam suas missões com entusiasmo

e abnegação, não se restringindo apenas às ordens pré-estabelecidas, mas

indo além das mesmas. Aqueles que não acreditavam no serviço delas, inclusive os policiais militares, mudaram suas concepções. Temos a certeza de que o trabalho executado pela Cia PFem contribui, a cada dia, para o engrandecimento da Polícia Militar. (BI 012/82-Cia PFem, pp. 091-092)

Nessa época, a Polícia Feminina já era observada pelos olhos dos cidadãos, ao exemplo do que ficou registrado numa carta enviada ao Comandante-Geral da Polícia Militar, na qual o missivista, que assina José Jovino de Souza, morador de Belo Horizonte, tece elogios à Polícia Militar. Na linguagem própria da época ele afirma:

Sr. Cmt., o signatário desta vem mui respeitosamente a Vossa presença e pede vênia a V. Excia para narrar ocorrências, muito elogiáveis e dignas levadas a efeito pelos seus mui dedicados comandados da Gloriosa Polícia Militar. ( ) Polícia Feminina, muito útil na rua e na Rodoviária para todos e sobretudo as mulheres e crianças que chegam e partem para o interior. (BI 008/83-Cia PFem, p. 070)

A Nota de Serviço 006/83, de 08 de março de 1983, que detalhou os procedimentos para seleção das candidatas ao CFS/Fem do mesmo ano, previu a realização de exames de escolaridade, médico-odontológicos, psicológicos, de aptidão física, além de entrevista.

Em março de 1983, no discurso que proferiu na ocasião em que passou o Comando da PMMG, o Cel PM Jair Cançado Coutinho teceu as seguintes observações sobre a Polícia Feminina:

Seguiu-se a criação da Polícia Feminina, ocasião em que a PM mineira viveu um momento histórico.

A idéia de criar um contingente feminino na Corporação era antiga e surgia,

de forma cíclica, em determinadas épocas. É que existem funções, na manutenção da ordem pública, que são essencialmente exercidas por mulheres, e há aquelas que são, às vezes melhor exercidas por essas do que pelos homens.

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A idéia evoluiu, venceu naturais resistências e foi concretizada através do Decreto de v. Ex.ª, que culminou na formatura, no dia 02 de abril de 1982, das 112 primeiras policiais-femininas da Corporação. Concluído o Curso de Formação Profissional e promovidas a Sargentos, elas são hoje uma presença efetiva nos logradouros públicos, nas ruas, nos centros de diversões públicas, em locais onde sua presença se faz necessária e recomendável. A atuação da Polícia Feminina veio liberar centenas de homens que se encontravam nesse tipo de serviço, remanejados para locais e horários em que a presença deles é de maior eficácia. (COUTINHO, 1983, pp. 46 e

47).

Também o Comandante da Cia PFem publicou nota a respeito do primeiro aniversário da Unidade. Em suas palavras, publicadas no BE 001-Cia PFem, de 06 de abril de 1983, o Oficial faz alusão a um grupo de policiais femininos que estava sendo preparado para atuar como telefonistas do Centro de Operações Policiais Militares (COPOM), o que ampliaria ainda mais a área de atuação da mulher como policial.

Um dos entrevistados se manifestou sobre o emprego de Policiais Femininos no COPOM:

Foi aí que elas mostraram bastante serviço porque nós medíamos o tempo que ocorre entre o momento em que a pessoa liga o telefone pra ser atendido e o momento que a radiopatrulha chega no local. Esse tempo, ele era medido, na época, em doze, treze, catorze minutos. Com a chegada das PFem nos telefones das patrulhas e por terem uma escolaridade maior, o segundo grau, e algumas tinham um curso superior, elas tinham mais

então isso permitiu um ganho substancial de quase um

minuto na redução de tempo de espera pela radiopatrulha.

facilidade (

)

(Cmt Cia PFem 02)

A publicação da transferência, para a Cia PFem, dos policiais militares masculinos que exerceriam funções na Cia PFem foi publicada no BGPM 064, de 07 de abril de 1983. Esses militares eram, o Cap PM Dalmir José de Sá, o 1º Ten PM Luiz Felipe Soares, o 2º Ten PM José Marinho Filho, o 2º Ten Adalberto Geraldo Martins Campelo e o 2º Sgt PM Ronaldo Soares de Oliveira.

O BGPM 75, de 22 de abril de 1983, publicou o resultado do exame de seleção ao CFS/Fem do ano de 1983.

Ao apresentar as Diretrizes para o Aumento do Grau de Operacionalidade da PMMG, publicadas no BGPM 85, de 06 de maio de 1983, o Comandante-Geral da Corporação

76

abordou o aumento dos níveis de criminalidade e de violência então vivenciados pela população brasileira. Dentre as estratégias para fazer face a essa situação, ficou definido o emprego da Polícia Feminina no Centro de Operações Policiais-Militares (COPOM), de maneira a “gradualmente substituir o pessoal do COPOM, liberando-o para atividades policiais que exijam trabalho masculino” (BGPM 85/83, p. 1320).

Para implementar essa medida, o Memorando 190, de 06 de maio de 1983, recomendou que

se colocassem à disposição do COPOM as Sargentos PM Fem, em grupos de 20 (vinte), para

estagiarem com o objetivo de se prepararem para substituir, em caráter definitivo, os Sargentos masculinos. O mesmo Memorando determinou que também as alunas do CFS Fem que estava em andamento deveriam estagiar no COPOM, em grupos de 10 (dez), aos sábados, no horário compreendido entre 08 e 18 horas, sem prejuízo para as demais atividades do curso.

O BGPM 85, de 06 de maio de 1983, também apresentou o Conceito das Operações de

Policiamento Ostensivo, de Prevenção e Combate a Incêndios e de Busca e Salvamento na RMBH e no Interior do Estado, em atendimento às responsabilidades da Corporação, visando a ocupar os chamados “espaços vazios de segurança”. Foram fixados conceitos referentes ao policiamento ostensivo geral, ao policiamento ostensivo de trânsito e ao policiamento ostensivo de guardas. Nas classificações e distribuições de responsabilidades na RMBH, a Cia PFem foi enquadrada entre as Unidades encarregadas do recobrimento intermediário, juntamente com outras Unidades Táticas do CPC: a tropa não motorizada do Batalhão de Choque (encarregada de policiamento a pé e com cães) e do então Regimento de Polícia

Montada (RPMont), atual Regimento de Cavalaria Alferes Tiradentes (RCAT). Coube especificamente à Cia PFem, executar o policiamento em suplementação ao policiamento masculino, especialmente em locais ou eventos freqüentados por mulheres, menores ou pessoas idosas, além do empenho no COPOM, como operadora de comunicações.

O BEPM 15, de 19 de julho de 1983, publicou o Ato de Concessão de Recompensas

regulamentares (Elogio Individual e Dispensa do Serviço), concedidas pelo Comandante- Geral da PMMG, a policiais militares que foram homenageados como Destaques Operacionais. Dentre os agraciados estavam: a 3º Sgt PM Fem Junia Dias Murta que, em 14/01/1983, mesmo estando de folga, interveio em uma ocorrência em que um cidadão ameaçava sua esposa com uma arma, e contra a qual já havia efetuado um disparo, e, para

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utilizar as palavras do ato, “com uma coragem invulgar e um acurado senso do dever”, prendeu o autor; a 3º Sgt PM Fem Elizabete Jurema Machado e a 3º Sgt PM Fem Belísia Barroso Ferreira, que, após suspeitarem de um cidadão que parecia haver feito uso de substâncias entorpecentes, e após imobilizá-lo (já que houve reação), descobriram que ele conduzia, em seu veículo particular, uma porção de maconha e 60 (sessenta) comprimidos de Iniber (bolinha); a 3º Sgt PM Fem Maria Emília de Freitas que, também em seu horário de folga, atuou numa ocorrência em que uma residência era inundada, em virtude das chuvas, e após entrar pelo teto da casa, resgatou dois idosos e duas crianças. Esses são os primeiros registros identificados de concessão de recompensa, por ato do Comandante-Geral, para policiais femininos que se destacaram em atividades operacionais da PMMG. A ocorrência em que se envolveu a 3º Sgt Junia Dias Murta foi publicada, conforme informações contidas no ato de concessão de recompensas, no Jornal Estado de Minas, de 14 de janeiro de 1983.

As consultas aos Boletins Internos da Cia PFem revelam a existência de recorrentes registros de recompensas pela atuação operacional das policiais femininos, especialmente aqueles relacionados a ocorrências com prisões, assistências, apreensões de porções de drogas, dentre outras.

No início de sua existência, também era comum que a Cia PFem cedesse suas Policiais para apoiarem eventos sociais diversos, como, por exemplo, exercendo a função de monitoras nas colônias de férias organizadas pela 4ª Divisão do Exército, situada em BH, e pelo Clube dos Oficiais da PMMG (COPM), conforme se constata pelas publicações disponíveis no BI 28- Cia PFem de 25 de julho de 1983.

No decorrer do ano de 1983, outras publicações registram o emprego temporário das policiais femininos em outras Unidades da Corporação. As publicações transcrevem elogios dos Comandos das Unidades apoiadas ao trabalho das integrantes da Cia PFem. Exemplos disso são: o Of. 683/83-17º BPM, referente ao empenho em palestras de trânsito, em conjunto com policiais masculinos; Of. 443/83-11º BPM, pelo empenho na realização de palestras em estabelecimentos de ensino; Of. s/nº 16º BPM, que agradece pelo empenho na festa de natal da Unidade.

Há registros de que a Cia PFem adotava a prática de consignar anotações sobre suas policiais em um Livro de Conceitos. Isso se salienta pela concessão de uma recompensa, publicada no

78

BI 33-Cia PFem, de 29 de agosto de 1983, em que cinco policiais são homenageadas por se

destacarem positivamente, o que se constatou porque elas alcançaram o maior saldo de

anotações positivas no Livro de Conceito da Cia.

Em setembro de 1983, por meio da Instrução 08/DE, de 30 de agosto de 1983, foram aprovadas as normas reguladoras para seleção e matrícula nos Cursos de Formação de Oficiais, Sargentos e Cabos da PMMG que teriam início em 1984. Para nenhum dos cursos houve previsão de participação feminina. Todos os militares candidatos a cursos

necessitavam, para se inscreverem, do despacho favorável dos respectivos comandantes. Dentre os requisitos exigidos dos candidatos civis, militares das Forças Armadas e dos Sd 2ª

Cl da PMMG, para a inscrição em quaisquer dos cursos, estava a necessidade de ser solteiro.

A norma não registra, no entanto, a obrigatoriedade de permanência neste estado civil após a

formatura, ao contrário do que era exigido às mulheres. Para a matrícula dos aprovados no concurso ao CFS Masculino, é exigida a Carteira Nacional de Habilitação (CNH), nas categorias B, C ou D, e a apresentação do Certificado de Conclusão do Ensino de 1º Grau e o histórico escolar, exceto para os Cabos.

Na

programação das atividades da Semana da Polícia Militar, entre os dias 03 e 10 de outubro

de

1983, em comemoração ao aniversário de 152 anos da Corporação, enquanto as demais

Unidades receberam missões específicas, coube à Cia PFem a escala de comissões representativas:

c) Escalar sargentos PM Femininos para eventos constantes no Programa da Semana da PM, mediante solicitação dos órgãos encarregados dos mesmos. (BGPM 179, 1983, p. 3052)

No BGPM 185, de 29 de setembro de 1983, a mulher volta a ser alvo de regulamentação

normativa, com a publicação da Resolução 1190, de 29 de setembro de 1983, que dispõe sobre penteado e corte de cabelo para as policiais femininos, de acordo com o tamanho destes. Tal norma, resultado de um estudo apresentado pelas Cadetes do CFO, representou uma evolução e um certo afrouxamento das exigências impostas às militares na, até então, única seleção para ingresso na PMMG, vez que restringe a obrigatoriedade do uso do cabelo curto

ao período de formação:

Art 5º - Durante o período de formação, as policiais-militares femininas adotarão apenas o cabelo curto.

79

Nesse mesmo período, o Exército Brasileiro baixa, em 30 de setembro de 1983, o Decreto 88.777, com o qual aprova o Regulamento para as Polícias Militares e Corpos de Bombeiros Militares, com a codificação R-200 7 . A essa altura, a presença da mulher nas polícias militares era realidade em considerável número de estados, no entanto, isso é ignorado no regulamento.

O Regulamento Disciplinar da Polícia Militar (R-116) 8 passa a ter uma nova versão, aprovada pelo Decreto 23.085, de 10 de outubro de 1983. O artigo 13, que lista e classifica as transgressões disciplinares, passa a incorporar, e consequentemente estende a todos os policiais militares, algumas das transgressões que foram previstas no RePoFem:

157 - comprometer-se irregularmente, com encargos de família, principalmente se for solteiro; (grave)

158 - manter relacionamento íntimo não recomendável ou socialmente

reprovável, com superiores, pares, subordinados ou civis; (gravíssima) 159 - usar, quando uniformizado, penteados exagerados, perucas, maquilagens excessivas, unhas demasiadamente longas ou com esmalte extravagante; (leve)

160 - invocar circunstância de matrimônio, ou de encargo de família para

eximir-se de obrigações funcionais; (média) 161 - usar jóias e outros adereços que prejudiquem a apresentação pessoal,

quando uniformizado; (leve)

162 - demonstrar intimidade com outrem, mediante atos ou gestos

comprometedores, estando uniformizado; (grave)

163 - ter conduta incompatível com os princípios e valores policiais-

militares. (gravíssima) (MINAS GERAIS, 1983)

Em seu Relatório de Comando, o Comandante-Geral em exercício no ano de 1983, referiu-se ao novo RDPM: “A Fim de adequar a legislação à evolução da Corporação, em virtude das alterações estruturais, especialmente com a criação dos Comandos Intermediários e da admissão de Policiais Militares Femininos nos seus quadros, foi editado um novo Regulamento Disciplinar, que entrou em vigor a 10 de outubro de 1983”. (SOARES, 1984, p.

370)

Pelo que indicam as publicações, iniciou-se no ano de 1983 o emprego das policiais femininos no Centro de Operações Policiais Militares (COPOM). Em um Elogio Individual publicado no BI 038, de 03 de outubro de 1983, o Comandante do Policiamento da Capital se reporta à “presença do elemento feminino, que tem sido expressivo em alguns segmentos

7 Os Regulamentos baixados pelo EB são codificados por uma letra, seguida de um número seqüencial. A PMMG adotou e mantém até hoje, o mesmo tipo de codificação dos regulamentos internos

8 Conforme nota 3.

80

deste Comando, vem, atualmente, emprestando sua relevante contribuição ao Centro de Operações Policiais Militares (COPOM)”. (BI 038/83-Cia PFem, p. 201)

Para regular as comemorações natalinas no âmbito da Corporação, é publicado o Aviso 229, de 20 de outubro de 1983, marcando a data de 21 de dezembro, das 08 às 12 horas, para a realização dos eventos em todas as Unidades, da capital e do interior, à exceção da Cia PFem, que faria a sua comemoração a partir das 19 horas do dia 23, “tendo em vista que no dia 21 Dez, as integrantes daquela Cia estarão colaborando com outras OPM, na realização do Natal/83.”(BGPM 198/83, p. 3541)

O Ato de Resultado Final do Curso de Formação de Sargentos Femininos/83, publicado no BGPM 234, de 15 de dezembro de 1983, registrou a aprovação de 38 policiais femininos da PMMG e, como primeira colocada o n.º 80071-4, Sd PM Vilma Regina Amaral. Esse ato registra que também se formaram no curso as 02 (duas) policiais militares da PMMS e as 09 (nove) da PMRO.

Na Ordem do Dia referente ao evento, o Comandante-Geral da PMMG avaliou a participação das mulheres na PMMG:

Não mais uma experimentação mas uma constatação de um fato positivamente aceito pela Comunidade Mineira, vemos com uma ponta de orgulho até a participação da mulher na atividade operacional da Polícia Militar. É certo que, encontrando o seu espaço também no campo da Segurança Pública, a mulher, ansiosa por participar e influir no seu tempo, vem apresentando um relevante serviço à sociedade com notável desempenho na missão basilar da PMMG de Manutenção da Ordem Pública. ( ) Instalada a Companhia de Polícia Feminina há pouco mais de um ano, quer pelo preparo aliado ao humanismo, quer pela inteligência aliada à dedicação, soube se impor como um componente importante da Polícia Militar de Minas Gerais. (BEPM 039, 1983, pp. 318 a 320)

Como paraninfa, tiveram a Srª Risoleta Tolentino Neves, então primeira-dama do Estado. Em seu discurso, ela destacou que as qualidades inerentemente femininas seriam fundamentais para a atuação das formandas na manutenção da segurança pública no estado e destacou, também, a importância da graduação na qual estavam se formando:

81

Incorpora-se à mentalidade de cada uma de vocês, como elemento fundamental, o verdadeiro sentido de disciplina e hierarquia, colunas mestras da organização militar. E, na pirâmide hierárquica, caberá a vocês papel dos mais expressivos e responsáveis. O sargento não é um simples executor. Como elo da cadeia hierárquica, a ele cabe guiar, orientar, conduzir de perto o escalão executante, no cumprimento das ordens e dos planejamentos emanados dos escalões de comando. (BGPM 238, 1983, p.

4558)

O pioneirismo da abertura das fileiras da corporação para a mulher, não passa despercebido à paraninfa, que, em outro ponto do discurso, cumprimenta o então Comandante Geral, por “manter aberto e crescente, inovadoramente, este mercado de trabalho.” (BGPM 238, 1983, p. 4559) e compara tal inovação ao passado recente, quando se dirige às mães das formandas, lembrando que estas “vivendo em outros tempos e em outras situações, não tiveram a oportunidade de exercer diretamente um trabalho junto à comunidade. (BGPM 238, 1983, p.

4559)

Todas as formandas da PMMG foram classificadas na Cia PFem, conforme ato publicado no BGPM 238, de 21 de dezembro de 1983.

A Resolução 1233, de 20 de dezembro de 1983, que aprovou o Plano de Aplicação dos Recursos Orçamentários (PARO) para ano de 1984, incluiu a Cia PFem como Unidade Administrativa Autônoma para fins da execução orçamentária, assim definidas aquelas que “dispõem de organização e meios para exercer plena administração própria e têm competência para praticar todos os atos e fatos administrativos decorrentes da gestão de bens do Estado e de terceiros, bem como para encaminhar, dar parecer e julgar direitos”. (BGPM 242, 1983, p.

4618)

4.1.4.4 1984

Em 1º de abril de 1984, encerrou-se o prazo de dois anos, contados a partir da formatura, dentro do qual as policiais não poderiam contrair matrimônio. No início desse ano, foram apresentados os primeiros pedidos para contrair núpcias. Assim, os primeiros casamentos foram agendados, conforme autorizações publicadas em Boletins da Cia PFem, para 02 de abril de 1984.

82

A inexistência da previsão, nas leis federais, para inclusão de mulheres nas Polícias Militares

somente mudou em 1984, com a entrada em vigor do Decreto-Lei 2.106, de 06 de fevereiro de 1984, que alterou o Decreto-lei 667, de 2 de julho de 1969, passando a redação da letra “a” do art. 8º ser a seguinte:

Art 8º A hierarquia nas Polícias Militares é a seguinte:

§ 1º

§ 2º Os Estados, Territórios e o Distrito Federal poderão, se convier às

respectivas Polícias Militares:

a) admitir o ingresso de pessoal feminino em seus efetivos de oficiais e praças, para atender necessidades da respectiva Corporação em atividades específicas, mediante prévia autorização do Ministério do Exército.

No BI 022-CPC, de 20 de junho de 1984, foi publicada a aprovação do Regimento da Transitolândia Inspetor Pimentel, cuja finalidade era promover a educação de trânsito junto à comunidade de Belo Horizonte, com foco nos alunos das primeiras séries do 1º grau.

A Transitolândia pertencia ao Batalhão de Trânsito da PMMG e sua equipe era composta,

dentre outros, por 04 (quatro) sargentos PM Fem, indicadas pelo próprio BPTran e designadas pelo CPC. Competiam às graduadas tarefas basicamente relacionadas à administração da Transitolândia, tais como auxiliar o coordenador (função ocupada por um Oficial PM); supervisionar e fiscalizar equipes de palestras; elaborar a agenda, dentre outras.

A professora Madalena Jabour, do Colégio Tiradentes da Polícia Militar (CTPM) foi designada para ministrar aulas de educação física para as policiais da Cia PFem, durante as instruções semanais. A mesma professora foi autorizada a ministrar aulas para as alunas do CFO que estava em andamento na APM.

Por ocasião do segundo aniversário da Companhia de Polícia Feminina, a Ordem do Dia mencionou as formas de empenho da Unidade:

A presença serena, circunspecta e cordial das componentes da Cia PFem vem se tornando uma exigência do público usuário de locais como o Aeroporto de Confins, Centro Comercial da Savassi, Parque das Mangabeiras, Palácio da Liberdade, Parque Municipal, Mineirão, Mineirinho, Palácio das Artes, Terminal Rodoviário e outros lugares em que a ação policial prescinde de características típicas do sexo feminino. ( )

83

Assim é que lhes foram atribuídas, recentemente, as atividades de telefonistas e digitadoras de ocorrências policiais do Centro de Operações

Policiais-Militares da Polícia Militar, o que permitiu a destinação dos Sargentos substituídos para locais e horários em que a presença do policial- militar masculino era de maior eficácia.

A Cia PFem mantém ainda um plantão diário de vinte e quatro horas,

durante o qual suas integrantes participam daquelas ocorrências em que o elemento feminino se acha envolvido, com o fim de efetuar buscas pessoais, prestar assistência a gestantes e outras missões que requerem a presença do policial-militar feminino. (BGPM 064/85, p. 1114)

A Resolução 1284, de 08 de junho de 1984, alterou a redação dos artigos 26 e 17 do

RePoFem. O artigo 26, que trazia a tipificação das transgressões disciplinares, foi substituído pelo seguinte texto:

Art. 26: comparecimento em atividades sociais:

I Somente poderá frequentar Clubes e Cassinos Militares do círculo que lhe corresponder, mesmo quando existir vínculo matrimonial com policial- militar de círculo diferente. II O comparecimento a eventos sociais decorrentes da atividade policial-

militar, que se realizem no âmbito de Organização Policial-Militar, far-se-á exclusivamente em seu círculo; quando convidada a participar de eventos

de outro círculo, poderá comparecer, fazendo-o, obrigatoriamente, em traje

civil. (BGPM 110/84, p. 1841)

Quanto ao art. 27, o QUADRO 2 permite melhor visualização das modificações:

QUADRO 2 Modificações introduzidas no art. 27 do RePoFem, pela Resolução 1284/84

 

Versão anterior

 

Redação dada pela Resolução 1284/84

Art. 27 A policial militar que contrair matrimônio, antes de completado o período

Art. 27 A policial-militar somente poderá contrair matrimônio após dois anos da conclusão do CFS/Fem, observada a legislação civil específica.

de

dois anos de conclusão do CFS/Fem, ou

com integrante da Corporação, fora do

círculo hierárquico a que corresponder (Subten e Sgt), será excluída da Corporação. Parágrafo único O pedido de autorização para contrair matrimônio deverá ser apresentado ao Comandante da Cia P Fem com a antecedência mínima de sessenta dias

§

1º - O não cumprimento do disposto neste

artigo implicará em exclusão da Corporação.

2º - O pedido de autorização para contrair matrimônio, deverá ser apresentado ao Cmt da Cia PFem com a antecedência mínima de 60 (sessenta) dias do evento.

§

do

evento.

84

No mesmo ano, verifica-se o primeiro registro de autorização para que uma Policial Feminino contraísse matrimônio com um outro policial militar, de círculo diferente. No caso apresentado, a 3º Sgt PM Fem foi autorizada a contrair núpcias com um 2º Tenente.

As vagas para o CFO que teria início no ano de 1985 foram previstas na Resolução 1300, de 31 de julho de 1984, contudo a norma não menciona a destinação de vagas para policiais femininos.

Também nesse ano em que as primeiras policiais militares completaram dois anos de serviço, foi editada a Resolução 1307, de 17 de agosto de 1984, que alterou as Normas Provisórias de Uniformes e Insígnias da Polícia Feminina, e acrescentou o Uniforme de Gestante, composto por uma veste bege (bata estilo vestido), que seria utilizado no interior dos estabelecimentos de serviço, quando o comandante da Unidade julgasse conveniente.

Foi no ano de 1984 que surge o primeiro registro de Policial Feminino punida com a pena de exclusão disciplinar. A policial foi enquadrada no RDPM por manter relacionamento íntimo socialmente reprovável com civil, além de ter ingressado no mau comportamento.

4.1.4.5 1985

Em 08 de maio de 1985, o CPC expediu a Instrução de Conduta Operacional 13 (ICOP 13/85) que orientava as Unidades subordinadas sobre a rotina de procedimentos a ser adotada quando da realização de escoltas de presos. A ICOP determinou que a Cia PFem seria acionada pelo COPOM sempre que houvesse a necessidade de escoltar mulheres; o empenho das Policiais Femininos se daria em Belo Horizonte e em Contagem, em apoio à Unidade responsável pela escolta, unicamente na missão de efetuar buscas em escoltadas do sexo feminino (BI 18-CPC, de 13 de maio de 1985).

Por ocasião do 3º aniversário da Cia PFem, as palavras do Comandante-Geral, registradas na Ordem do Dia, reportam à criação e registram resultados já observados pela Instituição:

85

Sendo um forjado e inédito empreendimento, a criação da Cia PFem, já nos primeiros meses de atividade, superou todas as expectativas, revelando-se medida acertada e correspondente aos anseios da comunidade mineira.

Dados estatísticos revelam que o emprego das sargentos-femininos como telefonistas no Centro de Operações da Polícia Militar fez reduzir sensivelmente o tempo de transmissão das ocorrências. Diminuíram-se os riscos de detentas atentarem contra a própria vida, antes, durante e após as audiências ou julgamentos, porque integrantes da Cia PFem realizam buscas preventivas com vistas a detectar a condução de giletes, navalhas ou similares. Já não constituem problemas para a Polícia Militar as ocorrências, particularmente as do grupo A (Assistência), envolvendo menores perdidos ou carentes, dementes, socorros de urgência, migrantes ou parturientes.

Já não nos causam preocupação a realização de buscas em bolsas, sacolas, conduzidas por mulheres nos locais de diversões públicas, nem tampouco as buscas em mulheres detidas ou suspeitas nos mais variados locais, como delegacias, Polícia Federal, sedes de frações, ônibus municipais ou intermunicipais. Outro exemplo de emprego em que vêm se projetando as integrantes da Cia PFem é a sua utilização nas campanhas educativas de trânsito, promovidas

pelo BPTran, através da Transitolândia

(BGPM 061/85, pp.881-882)

Neste ano, foram previstas seis vagas femininas para o Curso de Formação de Oficiais que teria início em 1986. Ficou definido, pela Resolução 1420, de 12 de julho de 1985, que tais vagas seriam destinadas a militares da Cia PFem, selecionadas em concurso. A seleção e a matrícula para esse curso foram reguladas pela Instrução 3003-EMPM, de 31 de julho de 1985, e pela Instrução 3008, de 18 de novembro de 1985.

No período de 09 de setembro a 04 de outubro de 1985, cinco Sargentos Femininos participaram do Curso de Extensão de Comando de Operações de Radiopatrulhamento, realizado na APM, juntamente com outros 28 (vinte e oito) Sargentos de diversas Unidades operacionais da PMMG. As policiais que participaram desse curso foram:

3º Sgt PM Fem Junia Dias Murta 3º Sgt PM Fem Elizabeth Jurema Machado da Rocha 3º Sgt PM Fem Marisa Solange Vieira de Lima Nunes 3º Sgt PM Fem Zaíra Zanon Bagetti 3º Sgt PM Fem Célia Ribeiro Vasconcelos. (BGPM 175/85, pp. 188-189)

Os dois primeiros lugares do resultado final do Curso de Extensão de Comando de Operações de Radiopatrulhamento foram ocupados por Sargentos Femininos da Cia PFem. As demais

86

policiais ocuparam o 12º, o 20º e o 22º lugares na classificação, conforme foi publicado no BGPM 205, de 1º de novembro de 1985.

Em seguida, a Cia PFem recebeu a sua primeira viatura para emprego no radiopatrulhamento; o Fiat sedan, ano 1985, recebeu o prefixo de TP 1616. O episódio mereceu registro no BI 46- Cia PFem, de 18 de novembro de 1985:

No dia 11 de novembro de 85, às 1600 horas, na Praça da Liberdade, foi lançada pelo Exmo. Sr. Cel PM Comandante-Geral, a primeira RP Fem de prefixo RP 1616-Cia PFem. Compareceram à solenidade o Exmo. Sr. Cel PM Leonel Arcanjo Affonso, Cmt-Geral, o Senhor Cel PM Dorgival Olavo Guedes Júnior, Chefe do EM/PM; o Senhor Cel PM Éden Ângelo, CPC; os senhores oficiais do EM/CPC; os senhores oficiais da PM/5; os oficiais da Cia P Fem e as seis graduadas integrantes das Guarnições de Radiopatrulha. A imprensa se fez presente, através de representantes de diversas emissoras de rádio e televisão. O Sr. Cel CPC fez a entrega da chave da viatura à 3º Sgt PM Fem Marilda Solange Vieira de Lima Nunes, graduada mais antiga presente ao evento e a primeira classificada no Curso de Comando de Radiopatrulha, realizado na APM no corrente ano. (BI 046/85-Cia PFem, pp. 199-200).

Quanto à forma de atuação, ficou determinado que

A RP Fem foi lançada para atuar, inicialmente, nos 2º e 3º turnos, com a missão de atender ocorrências que envolvam mulheres como vítimas ou agentes; ocorrências do grupo de assistências; realização de buscas em mulheres em apoio ás diversas RP, em complementação ao policiamento masculino no centro da cidade, ou em outras áreas e situações, mediante empenho pelo COPOM. (BI 046/85-Cia PFem, pp. 199-200).

A Resolução 1460, de 29 de outubro de 1985, previu 40 (quarenta) vagas para o CFS/Fem que

seria realizado no ano de 1986, cujas alunas seriam selecionadas por meio de concurso público. Posteriormente, por meio da Resolução 1502, de 03 de janeiro de 1986, o número de vagas foi ampliado para 80 (oitenta).

Em 12 de dezembro de 1985, foi divulgado o Ato de Resultado Final do 1º Curso de

Formação de Oficiais integrado por mulheres da PMMG, coroado com a declaração dos aprovados a Aspirantes-a-Oficial. Na relação dos 70 (setenta) aprovados em primeira época, o primeiro lugar foi ocupado por uma mulher da PMMG. As demais ficaram posicionadas até o

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Cad PM Luciene Magalhães de Albuquerque - 1º lugar Cad PM Maiza Ferreira dos Santos - 2º lugar Cad PM Dulcinéia Maria Barros - 3º lugar Cad PM Miriam Assumpção Paschoal - 6º lugar Cad PM Mariza Ribeiro Xavier Cardoso - 9º lugar. (BGPM 233/85, p. 2986)

As cinco Aspirantes-a-Oficial foram classificadas na Cia PFem.

Ressaltando o resultado final do CFO no qual participaram as primeiras policiais femininos, um dos entrevistados remete o sucesso à seleção do CFS Fem:

Entre os dez primeiros nós tivemos as cinco mulheres. Porquê isso aconteceu? Eu tenho apenas teorias a respeito disso. É, primeiro que a seleção para a Polícia Feminina foi mais brava, mais apertada do que pra Polícia Masculina. Então elas já vinham com um preparo melhor daquela época. (Cmt Cia PFem - 02)

Outro reforça o aspecto da dedicação aos estudos e ressalta, também, a apresentação pessoal:

Em relação às mulheres, tive um ponto muito positivo em termos de uniforme bem passado, dedicação nos estudos, todo o trabalho que pegavam, trabalhavam com muito afinco, muita seriedade, participação em jornada, nenhuma reclamação, sempre vibrantes nas atividades, é, a dedicação muito, muito perfeita em relação aos estudos. (Chefe de Curso - 02)

A Lei 9089, de 16 de dezembro de 1985, fixou o efetivo da PMMG e alterou dispositivos da Lei de Organização Básica da Instituição. Essa lei detalhou os quadros de pessoal da PMMG e indicou o efetivo previsto em cada um deles. Para o Quadro de Oficiais PM, não houve distinção de pessoal masculino ou feminino, portanto, homens e mulheres policiais militares pertenciam a um quadro único. De acordo com a Lei, o efetivo de Oficiais do Quadro PM ficou assim distribuído:

88

QUADRO 3 Distribuição do efetivo de Oficiais em decorrência da Lei 9089/85

Quadro de Oficiais Policiais Militares (QOPM)

Coronel

21

Tenente-Coronel

56

Major

104

Capitão

332

1º Tenente

374

2º Tenente

370 (1)

Total

1257

(1) Nessa época, havia 05 (cinco) Aspirantes-a-Oficial Femininos.

A mesma lei previu, pela primeira vez, a existência de um quadro de policiais femininos na PMMG. Tratou-se do Quadro de Praças Policiais Militares Femininos (QPPM Fem), composto por 120 Sargentos. Os demais quadros de praças eram compostos por Subtenentes, Sargentos, Cabos e Soldados.

4.1.4.6 1986

Em 1986, a mulher policial começa a ocupar posições relacionadas à seleção e à formação de outras Policiais Femininos. Foi o caso da Aspirante-a-Oficial Luciene Magalhães de Albuquerque, que compôs a comissão encarregada da seleção das candidatas aprovadas no exame escolar do concurso ao CFS/86, de acordo com ato publicado no BGPM 14, de 21 de janeiro de 1986. Foi ainda o caso da mesma Aspirante, que juntamente com a Aspirante-a- Oficial Dulcinéia Maria Barros, foi designada para exercer funções de Chefe de Curso do CFS/86, conforme está publicado no BGPM 11, de 16 de janeiro de 1986.

Na Cia PFem, as Aspirantes-a-Oficial começaram a assumir as funções próprias de Oficiais da administração da Unidade. Assim, o BI 004-Cia PFem, de 27/01/1986, publica a designação da Aspirante Maíza Ferreira dos Santos para exercer as funções de Chefe da Seção de Comando; da Aspirante Dulcinéia Maria Barros Tristão para exercer as funções de Auxiliar da Seção de Comando; da Aspirante Mirian Assumpção e Lima para as funções de P1 (Seção de Recursos Humanos); da Aspirante Luciene Magalhães de Albuquerque para as funções de P2 (informações) e P5 (comunicação social) e da Aspirante Marisa Ribeiro Xavier

89

Cardoso para as funções de P3 (operações). A partir dessa publicação, outras se seguiram, demonstrando a movimentação nos cargos e funções na Cia PFem.

Também Sargentos Femininos passaram a ser empenhadas na formação das novas policiais militares: a 3º Sgt PM Fem Janice Maria Ferreira e a 3º Sgt PM Fem Márcia Maria Queiroz Cabral Costa foram designadas para atuar como auxiliares dos Chefes de Curso e como Monitoras do CFS/Fem 1986.

No início de 1986, foram divulgados os nomes das candidatas aprovadas ao segundo Curso de Formação de Oficiais composto por Policiais Femininos da PMMG. São elas:

- 3º Sgt PM Fem Áurea dos Santos Silva

- 3º Sgt PM Fem Diana Torres dos Santos

- 3º Sgt PM Fem Elizabete Jurema Machado da Rocha

- 3º Sgt PM Fem Maria Tereza Ferreira Ribeiro

- 3º Sgt PM Fem Mary Marques de Almeida

- 3º Sgt PM Fem Silvânia Aparecida Vidal (BGPM 016/86, p. 305)

O Quadro de Organização e Distribuição (QOD) da PMMG foi aprovado pelo Decreto 25381, de 27 de janeiro de 1986. A distribuição das Praças da PMMG nos diversos quadros ficou assim representada:

QUADRO 4 Distribuição de Praças da PMMG em decorrência do Decreto 25381/86

 

Sten

1Sgt

2Sgt

3Sgt

Cb

Sd

soma

Quadro

de

Praças

da

Polícia

Militar

206

393

983

1915

4147

1781

25455

(QPPM)

 

Combatente

 

35

47

84

138

305

1015

1624

QPBM

Condutor e Op. de viatura

4

6

9

33

51

122

225

(1)

Manutenção Equip. Especiais

3

3

3

3

3

-

15

Busca e salvamento

 

3

4

6

7

22

67

109

 

Manutenção de Armamento

1

3

5

6

4

-

19

Operador de Comunicações

6

21

59

170

45

16

308

Manutenção

de

moto

6

20

32

31

45

31

165

QPE (2)

 

mecanização

 

Músico

 

24

106

147

56

42

84

459

 

Manutenção de Comunicações

3

8

13

38

-

-

60

Auxiliar de Saúde

 

6

10

18

85

48

20

287

Corneteiro

 

-

1

2

4

35

36

78

QPPMFem

 

-

-

-

120

-

-

-

 

297

520

1352

2686

4867

19202

28824

(1) Quadro de Praças Bombeiros Militares

(2) Quadro de Praças Especialistas

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A previsão de inclusão da primeira turma de Soldados Femininos na PMMG se deu por meio do Aviso 262, de 01 de julho de 1986. A norma estabeleceu 120 (cento e vinte) vagas para o Curso de Formação de Soldados Femininos (CFSd Fem), que teria início em 1º de setembro do mesmo ano e seria realizado no Batalhão de Polícia de Choque (BPChq). Coube à própria Cia PFem realizar o recrutamento e a seleção das candidatas.

Posteriormente, a Instrução Geral 004, de 02 de julho de 1986, esclareceu as atribuições das futuras Soldados:

I Policiamento ostensivo geral em locais ou eventos freqüentados por

mulheres, menores ou pessoas idosas, onde a ação do policial militar masculino seja dificultada ou possa ser complementada pela policial militar

feminina;

II policiamento ostensivo de trânsito;

III atuação em atividades de assuntos civis de interesse da Polícia Militar;

IV apoio em operações de ação cívico-social;

V apoio em operações de defesa civil;

VI participação em solenidades e desfiles cívicos;

VII emprego em outras atividades da Polícia Militar, a critério do Comandante-Geral da Corporação. (BGPM 120/86, p. 2167)

Dentre as condições para inscrição, estavam a necessidade de ser solteira, sem encargos de família; possuir o primeiro grau completo, até o início do curso e ter no mínimo 1,60 m de altura. Nesse caso, pela primeira vez, a altura mínima exigida para ingresso na PMMG (1,60m) foi a mesma para homens e mulheres.

As etapas do concurso ao primeiro CFSd Fem da PMMG incluíam exame de: escolaridade, médico-odontológico, psicológico, entrevistas e teste de aptidão física. Além disso, estava prevista, para o período em que o processo era realizado, a execução da pesquisa social das candidatas.

As disciplinas constantes da grade curricular do CFSd Fem/86 foram: Educação Moral e Cívica; Língua Portuguesa; História da PMMG; Relações Públicas e Humanas; Higiene e Socorros de Urgência; Educação Física; Ataque e Defesa; Criminalística; Legislação e Regulamentos; Informações; Comunicações; Armamento e Tiro; Conhecimentos Básicos de Direito; Policiamento Ostensivo Geral; Policiamento de Trânsito; Policiamento Rodoviário; Policiamento de Guardas; Noções de Geografia Urbana; Noções de Defesa Civil; Instrução Militar Básica; Noções de Serviço Social; Criminologia; Psicologia Criminal; Noções Básicas

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de Sociologia; Noções Básicas de Psicologia; Noções de Proteção e Combate a Incêndio. Além das disciplinas, estava prevista a realização de um estágio de especialização, com 60 horas. A carga horária total do curso era de 960 horas-aula.

No dia 1º de julho de 1986, a PMMG passou a contar com as cinco primeiras Oficiais Femininos, visto que, nessa data, ocorreu a promoção a 2º Tenente das Aspirantes-a-Oficial formadas no ano anterior.

Foi também no ano de 1986 que foi aprovado o estandarte da Cia PFem, de autoria do Cap PM Heli Maurílio Pereira, lotado no 2º BPM, conforme consta da Resolução 1573, de 10 de julho de 1986.

conforme consta da Resolução 1573, de 10 de julho de 1986. FIGURA 2- Estandarte da Cia

FIGURA 2- Estandarte da Cia PFem

Também neste ano, a Resolução 1578, de 11 de julho de 1986, revogou o artigo 5º da Resolução 1190/83, que exigia o uso de cabelo curto pelas alunas dos cursos de formação.

Ainda no ano de 1986, foi prevista a realização de outro CFSd/Fem, com 50 vagas, este a ser realizado no 2º Batalhão de Polícia Militar (2º BPM), sediado em Juiz de Fora/MG, também com início em 1º de setembro de 1986. Conforme estabeleceu o Aviso 263, de 17 de julho de 1986, as atividades de recrutamento e seleção ficaram a cargo do 2º BPM.

As Chefes de curso do CFSd/86 foram as 2º Tenentes PM Maíza Ferreira dos Santos, Miriam Assumpção e Lima e Marisa Ribeiro Xavier Cardoso, e as monitoras foram as 3º Sargentos PM Fem Luíza de Marilac Maciel Leite, Sara Aparecida da Costa Capucho e Arlete Henrique de Almeida, todas da Cia PFem, conforme designação publicada no BI 036/Cia PFem, de 08 de setembro de 1986.

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Para participar nas atividades de formação, duas Sargentos Femininas da Cia PFem ficaram adidas ao 2º BPM: a 3º Sgt PM Fem Noeme Afonso da Silva Rocha e a 3º Sgt PM Fem Wanice Sadi Campos.

Em 1º de setembro de 1986, teve início no BPChq, o primeiro CFSd Fem executado pela Cia PFem. Diversos Oficiais e Praças da Cia PFem foram designados para ministrar aulas das disciplinas curriculares. As 3º Sgt PM Fem Sara Aparecida da Costa Capucho, Luíza Marilac Maciel Leite e Arlete Gomes Henrique foram designadas para exercer as funções de monitoras de cada uma das três turmas, conforme está publicado no BI 44-Cia PFem de 03 de novembro de 1986.

Também o 10º Batalhão de Polícia Militar (10º BPM), localizado em Montes Claros, passou a ser sede de formação de Soldados Femininos. As 50 (cinqüenta) futuras Soldados iniciaram o curso em 1º de dezembro do mesmo ano, conforme o Aviso 266, de 18 de setembro de 1986.

A mesma norma previu que a Cia PFem disponibilizaria pessoal feminino para apoiar a

execução do curso.

A Resolução 1607, de 22 de setembro de 1986, implementa alterações no Regulamento de

Uniformes da Polícia Feminina e acrescenta a boina marrom café (para as atividades operacionais de rotina) e o boné branco tipo bico de pato (para o policiamento de trânsito urbano).

Em 26 de setembro de 1986, foi designada uma comissão, composta por quatro militares, para consolidar as normas relativas ao uso dos uniformes e insígnias e apresentar propostas para o novo Regulamento de Uniformes e Insígnias da PMMG (RUIPM). O Major PM Josemar Trant de Miranda era integrante dessa Comissão. No mês seguinte, a 2º Ten PM Luciene Magalhães de Albuquerque também foi designada para integrar a comissão.

O primeiro registro de transferência de Policial Militar Feminino da Cia PFem para outra

Unidade está publicado no BGPM 192, de 15 de outubro de 1986. O ato transfere a 2º Ten

PM Maíza Ferreira dos Santos para o 2º BPM, sediado em Juiz de Fora.

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O primeiro registro encontrado de concessão de Medalha de Mérito Profissional a Policial

Militar Feminino foi publicado no Diário Oficial de MG e transcrito no BI 043, de 28 de

outubro de 1986. A agraciada foi a 3º Sgt PM Fem Sara Aparecida Costa Capucho.

O BGPM 198, de 23 de outubro de 1986, publicou a transferência do Comandante da Cia

PFem, Maj PM Josemar Trant de Miranda, para a Diretoria de Apoio Logístico (DAL). O

mesmo BGPM publicou a transferência do Comandante substituto, Maj PM Wanderson Soares dos Santos, oriundo da DAL.

O Maj PM Josemar Trant de Miranda foi desligado da Cia PFem em 20 de novembro de

1986, por ato assinado pelo novo Comandante, publicado no BI 47-Cia PFem, de 24 de novembro de 1986.

O primeiro Curso de Formação de Cabos Femininos (CFC) da PMMG foi previsto pela

Resolução 1618, de 28 de outubro de 1986. Foram 50 (cinqüenta) vagas para um curso que teve início em 07 de abril de 1987.

A mesma Resolução 1618/86 previu 12 (doze) vagas femininas para o Curso de Formação de

Oficiais que seria realizado no ano de 1987.

Para o ano de 1987, a Resolução 1563, de 03 de junho de 1986, previu 40 vagas femininas para a quarta edição do CFS/Fem.

O Aviso 269, de 24 de novembro de 1986, previu a inclusão de Soldados Masculinos e

Femininos em diversas Unidades da PMMG no ano de 1987 e no início de 1988. Para a

realização dos CFSd Fem, ficou estabelecido: a) 50 vagas para o 4º BPM 9 , sediado em Uberaba; b) 50 vagas para o 6º BPM, sediado em Governador Valadares; c) 50 vagas para o

8º BPM, localizado em Lavras; d) 50 vagas para o 14º BPM, em Ipatinga; e) 50 vagas para o

17º BPM, em Uberlândia.

No dia 04 de dezembro de 1986, realizou-se a formatura do CFS/Fem 1986, classificando-se em primeiro lugar a 3º Sgt PM Fem Cláudia Araújo Romualdo. A maior parte das formandas

9 Curso com início previsto para 1988. Os demais cursos foram previstos para 1987.

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foi classificada na Cia PFem, contudo, algumas foram transferidas para Unidades do interior do estado, nas localidades onde estavam sendo realizados ou havia programação para realização do CFSd Fem. Assim, três formandas foram transferidas para o 2º BPM; uma para o 6º BPM; duas para o 8º BPM; duas para o 10º BPM; uma para o 14º BPM; duas para o 17º BPM.

Ainda em dezembro de 1986, duas outras Sargentos, essas da turma que se formara no ano de 1982, foram transferidas para Unidades do interior do estado, 6º e 14º BPM.

A Lei 9.362, de 11 de dezembro de 1986, fixou o efetivo da PMMG e previu um aumento do efetivo feminino para o triênio seguinte, da seguinte forma:

QUADRO 5 Situação do efetivo de policiais militares femininos em decorrência da Lei 9362/86

Graduações

1987

1988

1989

Segundo-Sargento

25

25

25

Terceiro-Sargento

162

162

162

Cabo

50

50

50

Soldado

403

403

403

Soma

640

640

640

Fonte: BGPM 232, de 12/12/1986

O ano de 1986 foi marcado por mudanças significativas no cenário da Polícia Feminina da PMMG. Neste ano, ficou definida a inclusão de Cabos e Soldados, o que ampliou as graduações femininas na Instituição. O ano marcou, ainda, o emprego efetivo de Policiais Femininos em diversas Unidades do interior: as Soldados, cuja formação já se daria nas Unidades, assim como as Sargentos e a própria Oficial que foram transferidas da Cia PFem para Unidades do interior.

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4.1.4.7 1987

Neste ano, continuaram as transferências de Policiais Femininos da Cia PFem para outras Unidades da Corporação, tais como o HPM, Estado-Maior (PM5), 17º BPM, o 15º BPM, o 4º BPM, a PM6, a Diretoria de Pessoal (DP), dentre outras.

Também teve sequência a prática de disponibilizar Policiais Femininos, sem efetivação de transferência, para realizarem atividades temporárias em outras Unidades, como a APM, o Batalhão de Trânsito e o 6º BPM.

A partir dessa época são encontrados registros da participação das Policiais Femininos em

situações que demonstram seu entrosamento com atividades diversas da atividade operacional ou administrativa específicas da PMMG. Exemplo disso são como o empenho na fiscalização das eleições para presidente do Clube de Cabos e Soldados para as Praças e inclusão na relação de Oficiais em condições de compor os Conselhos da Auditoria Judiciária Militar,

para as Oficiais, dentre outras.

Tiveram continuidade, também, as concessões de recompensas, publicadas em BGPMs e em outros boletins, para policiais femininos que se destacaram em atividades operacionais e administrativas, a exemplo do empenho na formação de outras policiais femininos, na comissão que propôs o RUIPM e em destaques operacionais.

Acentuaram-se as designações para participações de cursos e estágios, diversos dos destinados à formação, como o Estágio de Manutenção de Comunicações, Instrutores de Educação Física, Retrato Falado, especialização em informática, a maior parte com a presença de militares masculinos e femininos. Alguns desses cursos foram promovidos pela própria PMMG, outros por Polícias Militares de outros estados, ou, ainda, por entidades civis.

A participação de Policiais Femininos na seleção e na formação das novas policiais também

continuou a ocorrer para os cursos que foram realizados desde então, fossem no CFS, no CFC

ou no CFSd.

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Nos anos que se seguiram, a PMMG continuou a recepcionar Policiais Femininos de outras Instituições para freqüentarem Cursos de Formação de Oficiais e Cursos de Formação de Sargentos. O CFO que teve início em 1987 contou com alunas oriundas da Polícia Militar de Rondônia (PMRO), da Polícia Militar da Paraíba (PMPB), da Polícia Militar do Estado do Amazonas (PMAM), da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF), da Polícia Militar do Espírito Santo (PMES) e da Polícia Militar de Goiás (PMGO).

Ainda, os Decretos que aprovaram os Quadros de Organização e Distribuição passaram a ser atualizados com o efetivo feminino, por postos e graduações.

O BGPM 012, de 20 de janeiro de 1987, publicou os resultados dos exames seletivos dos

concursos ao CFO/87, com 12 vagas femininas, e ao CFS Fem/87, com 40 vagas. Conforme Ato de Matrícula publicado no BI 08-Cia PFem, de 23 de fevereiro de 1987, dentre as aprovadas no concurso, havia Soldados PM Fem, ou seja, esse curso contou, tanto com alunas selecionadas no meio civil quanto com alunas que já eram policiais militares.

A Instrução 01.1/87-DE, de 12 de fevereiro de 1987, divulgou as Normas Reguladoras para a

seleção e matrícula do primeiro Curso de Formação de Cabos Femininos (CFC Fem) da PMMG, cujo início se daria em 07 de abril, e o término em agosto do mesmo ano. Das

candidatas, foram exigidos os seguintes requisitos:

I estar no mínimo no bom comportamento;

II não estar submetida a Conselho de Disciplina;

III não estar enquadrada nos impedimentos (

IV não ter sido punida duas ou mais vezes, por transgressão disciplinar de

natureza gravíssima, nos últimos 06 (seis) meses, contados até a data da

inscrição;

V obter conceito favorável do seu Comandante;

(BGPM 31/87, p. 648)

);

A formatura das primeiras Soldados Femininos da Cia PFem ocorreu em 17 de fevereiro de

1987, e as formandas tiveram como paraninfa a Srª Neusa Coutinho Affonso. Das 120 alunas iniciais (com a graduação de Sd de 2ª Classe), 116 (cento e dezesseis) foram promovidas a Soldado de 1ª Classe e 04 (quatro) foram reprovadas no curso.

Na Nota do Gabinete do Comando referente à formatura, o Coronel PM Comandante do Policiamento da Capital constou:

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A Cia de Polícia Feminina já tem sua história. Após estes anos de trabalho, seu saldo de êxitos extrapola todas as perspectivas feitas quando de sua

criação e instalação. (

atuam no atendimento às ocorrências de assistência à pessoa, socorrendo

vítimas ou prendendo agentes, enfim, a Cia está engajada também no radiopatrulhamento. (BI 08-Cia PFem, p. 094)

)

Agora, mas recentemente, numa iniciativa inédita,

A partir da segunda metade da década de 80, a PMMG esclareceu os procedimentos para

elaboração, atualização, difusão e posses de Diretrizes. A partir de então, as Diretrizes de Operações Policiais Militares (DOPM) se constituíram nos documentos destinados a versar sobre as atividades finalísticas da Corporação, do planejamento à execução, a exemplo das:

Operações de Policiamento Ostensivo, Operações de Bombeiros, Operações de Choque, Ações Cívico-Sociais, dentre outros. Dessa forma, as Diretrizes se constituíram na maneira como as orientações de interesse geral passaram a circular na Instituição, substituindo outros documentos existentes até então. A PMMG instituiu normas para a edição das DOPM, dentre elas, o formato e a numeração, de maneira que recebessem numeração seqüencial, por assunto, de acordo com a ordem cronológica de expedição.

Foi nesse contexto que surgiu a DOPM 08/87, de 19 de fevereiro de 1987, que tratou do Emprego de Policiais Militares Femininos no Policiamento Ostensivo. Os objetivos da DOPM 08/87 foram:

a. aumentar qualitativa e objetivamente o rendimento do policiamento

ostensivo geral e de trânsito na Região Metropolitana de Belo Horizonte e

principais cidades do interior do Estado.

b. intensificar a interação comunitária.

c. facilitar a integração operacional entre frações integradas por policiais

militares masculinos e femininos. (BGPM 035/87, p. 760)

A DOPM 08/87 estabelece orientações sobre a execução do policiamento feminino:

a. A Mulher e o policiamento Ostensivo de Trânsito

O emprego do policial-militar feminino no policiamento ostensivo de trânsito pressupõe:

1) Maior força no policiamento e crescimento do leque de atuação da

mulher no policiamento ostensivo. 2) Maior contribuição para tornar cada vez mais cordial o relacionamento com o cidadão e a comunidade. 3) Possibilidade de deslocamento do PM masculino para atividades não peculiares à atuação feminina.

b. A racionalização do emprego

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O

emprego de policiais-militares femininos deve ser feito de forma a cobrir

os

locais de fluxo intenso de veículos, de forma dosada, de maneira que em

cada posto seja alocado o efetivo estritamente necessário ao cumprimento

da missão.

c. Apoio às atividades turísticas

Além de ser uma forma de ampliar a malha protetora do cidadão, promove maior interação comunitária, conquista o apoio da opinião pública e melhora, consequentemente, a imagem da Polícia Militar. (BGPM 35/87, pp. 761-762)

Os locais prioritários de atuação definidos pela DOPM08/87 foram: os Centros de Operações

da Polícia Militar; os Terminais Aeroviários e Rodoviários; os Shopping Centers de grandes

centros urbanos; os pontos turísticos, principalmente as cidades históricas e estâncias hidrominerais mais importantes; áreas comerciais de intensa movimentação de veículos e pedestres; estádios de futebol e ginásios cobertos, em grandes jogos e apresentações artísticas; exposições; feiras de amostras em pontos nobres; clubes sociais; escolas.

As atribuições gerais das Policiais Femininos foram, conforme a DOPM 08/87, executar o policiamento ostensivo geral e de trânsito e atividades auxiliares na RMBH e nas cidades do interior. As atribuições específicas tratam do emprego no radiopatrulhamento, em terminais aeroviários e rodoviários, nas cabines de informações em pontos turísticos, em shopping centers, em desfiles carnavalescos e bailes e nos estabelecimentos penais.

Foi nessa época que as Policiais Femininos passaram a atuar efetivamente no Policiamento Ostensivo de Trânsito, executando as atividades referentes ao controle e à fiscalização. Na Capital, também em cumprimento à DOPM 08/87, a Cia PFem hipotecou, ao BPTran, Policiais Militares Femininos que foram empenhados nessas atividades.

A DOPM 08/87 vedava o emprego conjunto de patrulheiros masculinos e femininos em

frações mistas, assim como emprego de Policiais Femininos no policiamento ostensivo de

guardas.

Por outro lado, especificava que as Policiais Femininos poderiam ser empregadas tanto em motocicleta quanto em viatura básica (Fiat, Opala, Volks). Dessa forma, a partir de 1987, começaram a atuar em Belo Horizonte as primeiras Policiais Militares empregadas em

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policiamento de trânsito em motocicletas. Algumas das Policiais Femininos, organizadas em duas turmas de 10 (dez) integrantes cada, participaram de um Curso de Motociclistas, no período de 18/05/87 a 07/07/187, no BPTran. As aprovadas no curso foram, portanto, as primeiras motociclistas da Polícia Feminina:

- Sd PM Fem Célia Gonçalves;

- Sd PM Fem Cleide Luíza Soares Reis;

- Sd PM Fem Dalva Aparecida de Oliveira;

- Sd PM Fem Denise Eni da Silva;

- Sd PM Fem Jacqueline Aparecida de Paula;

- Sd PM Fem Lana Aparecida Moreira;

- Sd PM Fem Márcia Regina Magalhães;

- Sd PM Fem Maria da Conceição de Lima;

- Sd PM Fem Maria Eneida Rodrigues da Fonseca;

- Sd PM Fem Marilindes Maria de Carvalho;

- Sd PM Fem Rosilene Perpétuo de Jesus;

- Sd PM Fem Sara Izabel Costa;

- Sd PM Fem Shirley Maria do Carmo;

- Sd PM Fem Tânia Silva;

- Sd PM Fem Valéria Eveline Monteiro Machado;

- Sd PM Fem Vilma Azevedo Fernandes;

- Sd PM Fem Vilma Oliveira Vasconcelos. (BGPM 137/87, p. 2755)

Em 09 de março de 1987, o efetivo feminino da PMMG ganha uma nova categoria já que, nessa data, foram promovidas as primeiras policiais à graduação de 2º Sargentos. A relação das promovidas permite observar Unidades, diversas da Cia PFem, onde as Policiais Femininos já atuavam:

- 3º Sgt PM Fem Rejane Batista - Cia PFem;

- 3º Sgt PM Fem Sônia Lopes Gomes - Cia PFem;

- 3º Sgt PM Fem Marilda Solange Vieira de Lima Nunes - Cia PFem;

- 3º Sgt PM Fem Leda Lourenço da Silva Borges - Cia PFem;

- 3º Sgt PM Fem Sílvia Rosa - Cia PFem;

- 3º Sgt PM Fem Maria Aparecida dos Santos - Cia PFem;

- 3º Sgt PM Fem Janete Parreira Campos - Cia PFem;

- 3º Sgt PM Fem Vânia da Conceição Lisboa de Araújo - Cia PFem;

- 3º Sgt PM Fem Soraia Aparecida Moreira - Cia PFem;

- 3º Sgt PM Fem Eunice Souza de Castro - Cia PFem;

- 3º Sgt PM Fem Sara Aparecida da Costa Capucho - Cia PFem;

- 3º Sgt PM Fem Tânia Mary Fonseca - DP;

- 3º Sgt PM Fem Eunice Veríssimo Lima - DP;

- 3º Sgt PM Fem Simone Pinheiro Brettas Vargas - Cia PFem;

- 3º Sgt PM Fem Noeme Afonso da Silveira Rocha