Construindo a Democracia em Sala de Aula: para Além da Tolerância

Leonides da Silva Justiniano

O verbo "tolerar" é capicioso: tanto pode dar a entender a atitude de quem é tolerante, no sentido de paciente, compreensivo, aberto ao "normal", quanto pode dar a entender a atitude de suportamento, de alguém que se submeta a conviver com algo que lhe é avesso, mas não reage negativa e opositivamente. Quando se discute a diversidade, em geral se discute, também, a tolerância. Fala-se em tolerância religiosa, em tolerância política, em tolerância sexual, em tolerância étnico-racial... Em suma, fala-se, quando do encontro com a diferença, diversidade, correlacionando-a com o sentimento de tolerância. Mas não se questiona a concepção de tolerância que aí está implítica. O que se pode ter, então, é o simples suportamento, sem uma ação positiva, pró-ativa, verdadeiramente construtora da inclusão e de uma sociedade mais justa, igualitária e democrática. A intolerância é umas das expressões da violência – entendida como a ruptura das relações harmoniosas, justas e fundadas no diálogo e no respeito ao outro. E por ser uma das formas da violência, há que se interpelar sobre suas implicações e as exigências para que a real tolerância seja efetivada, sobretudo nos meios escolares e/ou acadêmicos. Françoise Hèritier, em seu artigo "O eu, o outro e a tolerância" (1999), coloca-se a interrogação de ser possível a intolerância para com os intolerantes. Afinal, se o intolerante mina os valores e os princípios da diversidade, da inclusão, se lhe for permitido (mediante a tolerância) que continue a vivenciar seus princípios e valores contrários à democracia, não se estaria permitindo que essa mesma democracia fosse vilipendiada? Diante da questão, Hèritier diria que são possíveis 1) a postura do enfrentamento, a negativa dessa abertura à violência da intolerância; 2) a postura da autocríticadas próprias convicções... Essa última postura poderia incluir três variáveis (conf. HÈRITIER, 1999, p. 83): - a mais fácil, que é deixar existir o que não se pode evitar; - a indiferente, que consiste em deixar que os outros sejam o que são; - a mais difícil, que implica em reconhecer que a verdade pode se encontrar para além de nós. Hèritier faz referência a Paul Ricoeur – este tematiza a questão da relação entre o "Eu" e o "Outro" (O simesmo como um outro, 1991), afirmando que se deve aspirar a uma vida justa a partir da "perspectiva ética"; o que significa "[...] a perspectiva da 'vida boa' com e para outros nas instituições justas." (RICOUER, 1990, p. 202. Grifos do autor). A tolerância, portanto, exige uma "não-violência ativa", que fora apregoada por líderes como Gandhi, Luther King e outros. A tolerância aponta para o diálogo, a simetria das relações, o respeito mútuo, em que o outro é tratado como igual, apesar de suas idiossincrasias, especificidades, diferenças. Ser tratado como igual por sua humanidade e a exigência de respeito que a dignidade humana impõe a todo outro humano – o ser tratado, sempre, como fim e, jamais, como meio (como recomendava Kant). Essa abordagem sobre a tolerância é importante para os tempos atuais, em que, a despeito do discurso da globalização, e sua inerente ruptura de fronteiras e o contato – muitas vezes forçado – com o diferente, ao contrário do que se poderia esperar, verificam-se os acirramentos da intolerância. Pode-se especular sobre as raízes da intolerância, manifestada em atitudes e ações violentas: seria o medo do diferente? Seria o receio de perder qualidade de vida e privilégios? Seria a pura e simples incapacidade de conviver com costumes diversos? Seriam o egoísmo e o etnocentrismo naturais, de pessoas e grupos homogêneos?

É certo que esses conteúdos não são passados de maneira neutra. formar os futuros cidadãos de um país. dentre outros recursos. dos valores que aqueles mais próximos lhe incutem. os textos literários. meramente no resultado. ainda que assistematicamente. em verdade. a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) apontam o desejável como resultado do processo educacional: a aquisição de competências (entendidas como conhecimentos. sim. e para isso deve ensinarlhes a História do país. pela diferenciação – os limites colocados pelas "fronteiras" do etnocentrismo. porque em tempos de globalização se retoma o conceito de "cidadão do mundo" – o cosmopolita. hoje. pois. Ser cidadão. forjado de acordo com o modelo da terceira . em seu ápice. tão somente. A educação. deve focar a formação para a democracia. de valores (éticos. nem que seja pela oposição. com o descarte ou a negação da diversidade.Aqui. Essa modelagem cognitiva imprime. toda sociedade. Daí que a democracia não pode ser "ensinada" em sala de aula. capazes de conviver com a alteridade. hoje. portanto. neoliberal. É certo que há uma modelagem feita pelos meios de comunicação. reforçado pelos estereótipos e preconceitos. Os objetivos expressos nas várias legislações escolares (sobretudo a Lei 9. a diferença.). o modelo espetaculoso norte-americano (e europeu). capitalista. uma compreensão unívoca do mundo: padrões únicos de beleza. A sociedade. Pode-se reconhecer que toda cultura. estabelecendo um padrão pelo qual os seus integrantes são reconhecidos. habilidades e atitudes). a língua e a Literatura do país. E isso é ir além da tolerância: é ir além da mera suportação. todavia. Pois bem. também estabelece padrões pelos quais se pode reconhecer o "Outro". o diferente. escolar. o alienígena – o alien. não se resume em ser um cidadão patriota. sejam cognitivas. Formar o cidadão não significa. o grupo. todo grupo estabelece um padrão a partir do qual forja sua identidade. O espírito democrático é aquele que convive com as decisões dolorosas de um processo participativo. Sobretudo. fechado sobre os benefícios de seu país. É quando se destaca o princípio da tolerância.. onde todos tiveram a possibilidade de expor seus pontos de vista. morais. a inserção – de maneira competente – de um indivíduo à sociedade à qual pertence ou deve pertencer. sejam instrucionais. É aí que alguns dilemas se colocam. A formação para a democracia deve permitir a compreensão de que a democracia radica-se no processo e. o que significa a formação para o diálogo. As práticas educacionais focam. uma ameaça... contínua. mesmo com a melhor das intenções. mesmo os meios de comunicação de massa veiculam um padrão cultural forjado no modelo ocidental – que é. Primeiro. Não há que se descartar. que. não se quer discutir a tolerância (ou a intolerância) em toda a sua magnitude. mas restrita ao âmbito educacional – mais propriamente. culturas) semelhantes e pessoas abertas à diferença. a despeito de toda a sua argumentação. todavia. mas veiculam. de instituições. A democracia não se impõe. sejam sociais. das localizações geográficas. é uma cidadania transnacional – que alguns pensadores designam de cidadania pós-nacional (fundada em um patriotismo constitucional). A instituição escolar deve. mas tem de ser "vivenciada" nas práticas escolares. na pessoa ainda em desenvolvimento. paradoxalmente. sejam relativas à cidadania. Entre formar pessoas com visões (valores. que não é um simples alter. econômico-financeiros. a Geografia do país. não.. o que se encontra em jogo é o dilema entre a "mesmidade" – a singularidade – e a multiplicidade. Enfim. Até o momento em que a criança é encaminhada a uma instituição educacional – pensemos na primeira série do Ensino Fundamental – ela compartilha da cultura e. a discussão sobre as regras que regulam os processos decisórios. A cidadania. juntamente. uma compreensão do mundo como tendo apenas uma faceta. Portanto. apenas.394/96. da mera passividade. valores alinhados com os recortes privilegiados da história. Segundo. o estrangeiro. de significados. culturais. formar a pessoa cumpridora de normas – o célebre mote de que ser cidadão é cumprir os deveres e exigir os direitos. representando. a diversidade.

competitivo. Bauru. seu reconhecimento. tentando enxergar aquilo que essa diferença tem de melhor e que possa contribuir para o bem maior da maior parte dos envolvidos em uma dada situação. Essa prática é a maior tarefa que a escola pode se colocar. hedonista. que solicita o reconhecimento de que a verdade pode estar fora de nós. 1999. Trad. processos que se pautem pela dialogicidade são alguns dos meios para se implantar a democracia em sala de aula. ser o primeiro a qualquer custo. Essas reflexões merecem ser continuadas. com os quais não se têm contato. Retomando Hèritier. sua vontade. com os quais não se partilha o mundo. são referidos como exóticos. Uma ética para quantos? Trad. discriminatórios. . 1991. pode estar no outro. SP: Papirus. Que encontra seu modelo extremo em escolas enclausuradas a tal ponto que o "outro". O eu. Paul. cientes de que estabelecem uma ruptura com um modelo individualista. Essa prática subverte muitas das convenções e posturas vigentes nos modelos educacionais hodiernos. Maria Dolores Prades Vianna e Waldo Mermelstein. Esses modelos escolares rompem com a tradição de que a escola é um mundo à parte. o outro e a tolerância. a todo custo. Elaborar projetos inclusivos. ou passividade (como citado). Lucy Moreira César. O si-mesmo como um outro. a escola democrática não pode compactuar com modelos excludentes. para além da tolerância concebida como suportação.postura referido acima. que buscam. RICOUER. por parte dos excluídos. Algumas escolas já estão elaborando propostas nesse sentido. planos que contemplem a diferença. melhorando a vida interna e externa aos muros institucionais. egocêntrico. o diferente. SP: EDUSC. sobretudo oriundos de classes menos favorecidas. A falta de abertura e "tolerância" (conforme o indicado na terceira postura) é um foco de violência: por parte dos instalados. onde o que importa é o indivíduo. Jean-Pierre. utilitarista. Escolas que contemplam intervenções na região onde estão situadas. se não existe ou não deve existir tolerância para os intolerantes. qualquer que seja a natureza dessas atitudes. REFERÊNCIAS HÈRITIER. Campinas. Escolas em que a comunidade é atuante e voz importante nas tomadas de decisão. o prazer pessoal e a consideração dos outros seres a partir daquilo que podem contribuir para o projeto pessoal. da disciplina aos conteúdos disciplinares. que se recusam à inclusão da diferença. Françoise. Escolas em que a comunidade educativa discute os pontos principais. a postura mais difícil. O mais exigente da democracia é essa abertura ao outro. In CHANGEUX. a capacidade de conviver com a diferença.