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CAMINHO NOVO EM 3D

Ângelo Alves Carrara

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CAMINHO NOVO EM 3D Ângelo Alves Carrara 1 O professor Ângelo Alves Carrara iniciou sua apresentação
CAMINHO NOVO EM 3D Ângelo Alves Carrara 1 O professor Ângelo Alves Carrara iniciou sua apresentação

O professor Ângelo Alves Carrara iniciou sua apresentação agradecendo pelo convite para estar novamente entre os pesquisadores do Caminho Novo e destacou que concorda com a opinião do organizador Luiz Mauro de Andrade Fonseca para quem o grupo ali reunido forma uma verdadeira Confraria de Amigos do Caminho Novo.

Seu objetivo inicial seria mostrar um trabalho que vem sendo desenvolvido dentro do conceito de Popularização da Ciência. Infelizmente, porém, não poderia ser francamente demonstrado por conta de problemas técnicos.

A questão fundamental, que o professor Carrara já citara nos Encontros anteriores, é como a sociedade pode ter acesso ao conhecimento produzido nas universidades. Para ele, popularizar a ciência é, na verdade, uma prestação de contas por parte das universidades, que devem apresentar os seus estudos à população seus estudos de uma forma muito objetiva e muito concisa porque o espaço para esta resposta ser dada à sociedade é muito pequeno.

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No ambiente acadêmico as comunicações de resultados se utilizam de muitas páginas, anexos e gráficos de dados, se necessários. Já para o cidadão comum é preciso ficar atento à objetividade e concisão citadas.

Em Juiz de Fora há um grupo de pesquisa que desde 2006 aposta no diálogo da história com a geografia. Inicialmente se fixaram em quatro iniciativas das quais a primeira era uma cartografia da ocupação do solo, ou seja, a História Agrária que é um campo do saber da História Econômica bem consolidado, com métodos muito consistentes. Isto tem a ver com a distribuição das sesmarias cujos requerimentos não foram processos aleatórios, ou seja, o indivíduo não chegava ao local, gostava da paisagem e se interessava por construir ali a sua fazenda. Na verdade, alertou Carrara, o sistema de distribuição implicava num processo cuja tecnologia já perdemos. Donde surge a questão: como reconstituir o sistema de escolha das áreas a serem requeridas como sesmaria?

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O homem do campo tem uma tecnologia agrária que nós não conhecemos. Ele sabe que determinada área é adequada ao plantio de certo gênero e não para outro tipo de plantação. Suas escolhas não são aleatórias, mas resultam do que o conhecimento deste homem indica como capacidade do solo e das suas demandas econômicas. Para começar a se aproximar da resposta, o grupo de pesquisa começou com o georreferenciamento do processo de uso e ocupação do solo. Ou seja, mapeando cada propriedade rural entre 1715 a 1850.

palestrante observou que, sendo farta a documentação em Minas Gerais, é possível saber com

quantos escravos o fazendeiro contava em 1715, 1736, 1750 e por aí vai. Sendo assim, pode-se reconstituir o

processo com certo nível de detalhe até chegar ao período entre 1850 e 1854 quando ocorreu o cadastramento das propriedades.

Para surpresa dos pesquisadores, quando aplicaram os dados ao mapa eles perceberam que o Caminho Novo surgiu como “vertebrador” da distribuição das propriedades. Ou seja, as pessoas que registraram suas propriedades em 1854 se mantiveram próximas ao Caminho Novo como ele era em 1712. Foram mapeadas 202 propriedades que formam uma linha nas margens daquele caminho.

segunda ação decidida pelo grupo de pesquisa foi georreferenciar a Ouro Preto do século XVIII.

Isto significa gerar um arquivo em terceira dimensão, reconstituindo a mancha urbana da cidade a partir de

um mapa de 1784, o IPTU do início do século XIX, o Censo de Ouro Preto de 1804 e outras bases de dados que permitem detalhar cada casa, saber o tamanho de cada imóvel, quem mora ali e quanto vale a construção. Isto significa associar à base cartográfica urbana uma base cadastral muito detalhada.

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Este trabalho está em andamento e uma grande surpresa que ele trouxe foi a descoberta de significativa quantidade de vielas, ruas e becos de Ouro Preto que desapareceram. Com a transferência da capital e o consequente esvaziamento da cidade, muitas casas que confrontavam com um beco ou uma viela simplesmente estenderam seus quintais. Foi identificado um caso extremo de uma rua que saía defronte à Igreja de São Francisco e em seu lugar hoje existe um belo casarão.

Associado a este projeto de Ouro Preto veio outro semelhante em Diamantina, onde o desafio é muito maior. Isto porque em 1784 Ouro Preto já era uma cidade em decadência, conforme se depreende da comparação do valor do IPT de Ouro Preto com o de São João del Rei, cidade na qual as casas valem o dobro do que na então capital de Minas Gerais. Portanto, enquanto se desenrolava a decadência urbana em Ouro Preto, Diamantina estava em pleno esplendor, como revela cartografia com inúmeros elementos urbanos a demonstrarem seu fausto. Segundo Carrara, para este período foi encontrada em Diamantina uma casa com valor igual ao de uma fazenda no sertão com 1.500 cabeças de gado.

ao de uma fazenda no sertão com 1.500 cabeças de gado. Foi destacado que o projeto

Foi destacado que o projeto vem sendo desenvolvido por diversos pesquisadores e que cada grupo trabalha com um programa específico, como um para a História Agrária e outro para a História Urbana, por exemplo.

Passando a abordar a terceira vertente do projeto, Ângelo Carrara informou que nesta são estudados os caminhos, os quais são mais fáceis de serem georreferenciados. Exemplificou com alguns comentários sobre o sistema de trabalho que podem explicar a antiga questão sobre se o caminho de Ouro Branco para Ouro Preto passaria ou não por Itatiaia.

Segundo Carrara, há um mapa do Caminho Novo, de 1843, com um importante nível de detalhe. Este documento apresenta o traçado de Diamantina a Ouro Preto e daí até o Rio de Janeiro, sendo facilmente identificável o que ele chamou de “caminho tronco”. Além disso, os pesquisadores utilizaram também os Diários de Viagem dos Soldados Dragões que, ao saírem em missão, levavam um caderninho para anotar todos os valores despendidos no trajeto como capim, ferraduras, alimentação e pouso, além dos lugares por onde passavam. Ao reconstituir estes diários, os pesquisadores encontraram diversas variantes para um mesmo caminho. Portanto, há um caminho “vertebrador” e as suas variantes eram trilhadas pelos soldados porque o seu objetivo era patrulhar, procurando encontrar aqueles que não estavam passando pela linha tronco. No caso de Ouro Preto a Diamantina, impressiona a quantidade de variantes, sendo de notar que os soldados eventualmente faziam o percurso de ida por um trecho e na volta se utilizavam de outra variante, dando notícia precisa da distância entre cada parada que faziam.

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A quarta iniciativa do grupo de pesquisa não poderia ser transmitida no telão por conta do problema

técnico mencionado do início da comunicação. Entretanto, os interessados puderam observá-la individualmente no computador portátil trazido pelo palestrante, onde se encontra o jogo criado para alunos de Ensino Fundamental, do 6º ao 9º ano que permite a popularização da História Econômica. O aluno pode observar o uso e ocupação do solo e descobrir, por exemplo, quanto tempo leva o indivíduo gastava para ir do Rio de Janeiro ao Registro do Paraibuna. Inúmeros outros aspectos estão disponíveis, sendo possível analisar as variáveis geográficas e, quando chegar a um pouso, o aluno é convidado a ver que tipo

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computador portátil, algumas pessoas da plateia puderam acompanhar os movimentos do jogo.

de mercadoria é transportada, ele pode descarregar as cangalhas, observar o relevo e a paisagem natural reconstituída pelos pesquisadores que trabalham com a paleogeografia.

O software permite que aluno brinque com a matemática e o português, além das mencionadas história e geografia, ou seja, envolve múltiplas disciplinas que devem ser dominadas ou desenvolvidas pelo estudante do Ensino Fundamental. O produto final será um livro didático, acompanhado de um CD, cujo objetivo é a popularização da História Econômica tendo como pano de fundo o Caminho Novo. Segundo Carrara, em geral os textos de História Econômica são muito áridos e avessos a um tratamento mais popular, mas, na realidade, ali são tratadas as questões mais básicas da vida cotidiana.

expectativa é ter o produto finalizado dentro de cerca de 9 meses e a “nossa confraria”, disse

Carrara, participará do teste de avaliação. Apesar da dificuldade de demonstração na pequena tela do

Ao final de sua apresentação, Ângelo Alves Carrara afirmou que “o processo de ocupação é fortemente condicionado pela geografia” e deixou para a plateia a convicção cada vez maior de que Encontros como este são uma excelente oportunidade de nos aproximarmos do conhecimento que vem sendo produzido pelas universidades.