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Os Projetos de Lei SOPA e PIPA e os Direitos Autorais Sob a Ótica da Ética

Johnny C. Siebeneichler 1 , Mauricio Klipe 1

1 Departamento de Ciência da Computação Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO) – Guarapuava, PR– Brasil

johnny_siebeneichler@hotmail.com, mklipe@yahoo.com.br

Resumo. Neste artigo são abordados os projetos de lei SOPA (Stop Online Piracy Act) e PIPA (Protect IP Act), projetos estes que foram elaborados nos Estados Unidos visando combater a pirataria na internet. São relatados também acontecimentos decorridos após a elaboração dos projetos de lei e da reação das empresas que os defendiam ou que protestaram contra sua aprovação. É realizado também um estudo sobre as vantagens e desvantagens de tais projetos bem como os efeitos que poderiam ser vistos caso tivessem sido aprovados. Ao final são detalhadas as visões dos autores sob a luz da ética e dos direitos autorais.

1. Introdução

A internet trouxe uma modificação radical no modo de vida da sociedade do mundo todo, isso porque a partir da massificação desta tecnologia, diversas ações que antes eram realizadas em outros meios e mídias passaram a ser disponibilizadas também na web, como por exemplo pode-se citar o acesso a informações nos sites e blogs jornalísticos; acesso a jogos e aplicações voltadas ao entretenimento, tais como músicas, filmes, clipes, dentre outras; a disponibilização de softwares e suites de aplicativos para a realização de uma infinidade de tarefas e o compartilhamento de arquivos e dados.

Essa massificação da utilização da internet e o aumento exponencial no número de usuários trouxe alguns problemas para dentro da grande rede, como a pirataria, a violação de direitos autorais, o acesso indevido a dados e informações confidenciais, dentre outros.

A internet tornou-se um meio rápido e fácil de distribuição de material não autorizado, principalmente filmes, músicas, livros e softwares em geral. Isso não foi bem visto pelas grandes produtoras e governos que deixaram de lucrar com a venda e com a arrecadação de impostos sobre estes produtos.

Com isso, surgiram nos Estados Unidos alguns projetos de lei que visavam combater e repudiar a pirataria online, além de fornecer subsídios para as polícias e órgãos reguladores da internet poderem agir em casos de descumprimento às leis de propriedade intelectual e de direitos autorais. É o caso dos projetos de lei chamados SOPA e PIPA, que são detalhados na próxima seção.

Surgidos do esforço das indústrias fonográficas e de cinema americamas para retomar as vendas reduzidas pelo compartilhamento de seus produtos de forma ilegal na rede, dois projetos ambiciosos surgiram para bloquear e punir os “piratas” e aumentar as vendas, inclusive de forma online.

2.1. SOPA

Stop Online Piracy Act (Ação/Ato para Parar a Pirataria Online) foi um projeto de lei criado pelo representante americano Lamar S. Smith para aumentar a habilidade da polícia dos Estados Unidos de combater tráfico online de material com direitos autorais e produtos falsificados. Provisões incluiam a requisição de ordens judiciais para impedir que redes de publicidade e de pagamento online negociem com websites que infringem essa lei, impedir que motores de busca direcionem a esses websites, e ordens judiciais que obrigam provedores a bloquear o acesso a esses websites. A lei expandiria as leis criminais existentes para incluir streaming de material com direitos autorais, impondo uma pena máxima de cinco anos na cadeia.

A justificativa, segundo o projeto de lei, seria modernizar as leis americanas na

esfera Penal e Civil para atender aos novos desafios e proteger os empregos americanos. Mas, com tais poderes, o Departamento de Justiça dos EUA poderia investigar, perseguir e desconectar qualquer pessoa ou empresa que fosse acusada de disponibilizar na rede sem permissão todo material sujeito a direitos autorais, mesmo que estivesse fora do país, o que afetaria praticamente toda a internet, visto que, com a globalização das tecnologias da informação, muito material americano se espalha pelo mundo de uma forma muito rapida. A lei exigiria que os sites de busca, provedores de domínios e empresas de publicidade americanas bloqueassem os serviços de qualquer site que estivesse sob investigação do Departamento de Justiça por publicar material violando os direitos de propriedade intelectual. Mais adiante, estes provedores, que estão todos nos EUA, deveriam cumprir os mandatos do Departamento de Justiça para evitar serem eles também os afetados pela regulação (InformationWeekBrasil, 2012).

2.2. PIPA

O projeto chamado Preventing Real Online Threats to Economic Creativity and Theft

of Intellectual Property Act ou PROTECT IP Act ficou conhecido pela sigla PIPA.

É conceitualmente parecido com o SOPA, porém, é mais focado na distribuição de

conteúdo digital e menos focado na venda de produtos físicos piratas. O PIPA também previa que provedores dos Estados Unidos deveriam bloquear a sites considerados impróprios e que empresas americanas cortassem qualquer tipo de vínculo com esses sites (Portal Ig, 2012).

O objetivo era dar mais ferramentas ao governo americano e donos de direitos

autorais para impedir acesso a websites dedicados à venda de produtos falsificados ou infringentes, especialmente websites registrados fora dos Estados Unidos. Este projeto foi apresentado em 12 de maio de 2011 pelo senador Patrick Leahy e outros onze co-patrocinadores. O Congressional Budget Office, que analisa o custo de projetos, calculou que o projeto custaria 47 milhões de dólares até 2016 para cobrir os custos de efetivação da lei e contratação e treinamento novos agentes especiais e operários de suporte.

3. A Visão das Grandes Empresas Sobre os Projetos

Os projetos tinham apoio de emissoras de TV, gravadoras de músicas, estúdios de cinema e editoras de livros, que sentiam-se lesadas com a livre distribuição de arquivos na web, principalmente em servidores internacionais. Disney, Universal, Paramount, Sony e Warner Bros são exemplos de empresas que explicitamente apoiaram os projetos de lei.

Em contrapartida as empresas de tecnologia como Google, Facebook, Wikipedia, Craigslist, WordPress, dentre outras, são contra os projetos de lei, alegando que os projetos reduzem a liberdade de expressão na internet e dão poderes em excesso para quem quiser tirar os endereços do ar, o que prejudica o funcionamento da web em todo o mundo. A Casa Branca também se manifestou contra os projetos, afirmando que eles podem atentar contra a liberdade de expressão na internet. Em mensagem publicada, a Casa Branca afirmou que não pode apoiar “um projeto de lei que reduz a liberdade de expressão, amplia os riscos de segurança na computação ou solapa o dinamismo e inovação da internet global” (G1 Tecnologia e Games, 2012).

3.1. Os Protestos

Em 18 de janeiro de 2012, ocorrereu uma série de protestos coordenados contra esses projetos. Os protestos baseavam-se em preocupações de os projetos, cuja intenção era responder mais severamente à infração de direitos autorais que ocorria fora dos Estados Unidos, continha medidas que causaria detrimento à liberdade de expressão online, websites e comunidades online.

Os protestantes também argumentavam que não haviam garantias suficientes para proteger sites baseados em conteúdo criado por usuários. Acredita-se que cerca de 115000 websites participaram do protesto (New York Times, 2012).

Na figura 1 são mostradas as homepages de alguns sites que aderiram aos protestos contra os projetos de lei, Google, Firefox, Wikipedia e Wired, empresas que estão entre as mais influentes dentro da grande rede.

Figura 1 1 . Página inicial de alguns sites em protesto contra os projetos de

Figura 1 1 . Página inicial de alguns sites em protesto contra os projetos de lei.

4. SOPA e PIPA Sob a Ótica da Ética

Os projetos de lei SOPA e PIPA pretendiam atingir novos patamares na luta contra a pirataria online, com pouca preocupação com o quanto isso afetaria os usuários que não fazem pirataria. Uma questão levantada por aqueles contra os projetos de lei foi “até que ponto eles (estúdios e gravadoras) chegarão para conseguir o que querem?” (Forbes,

2012).

Do ponto de vista ético, o fato dos projetos de lei tentarem combater a pirataria sem se importar com o efeito disso para com os usuários comuns é procupante. Kotchar também sugere que o governo poderia facilmente abusar dos direitos que SOPA e PIPA dar-lo-iam para fechar qualquer website de que não gostem e prender os donos. Segundo ela, se um website tem um hyperlink a um outro website, o governo poderia convencer este outro website a acusá-lo de infringir seus direitos autorais (Forbes,

2012).

Em um evento em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, mais precisamente na décima terceira edição do FISL (Fórum Internacional de Software Livre), Rick Falkvinge, o fundador do Partido Pirata da Suécia mostrou sua visão sobre o que ele considera “monopólio de copyright”. Ele exemplificou de forma prática:

“se eu compro uma cadeira e tenho o recibo no meu bolso, ela é minha para eu fazer o que quiser. Esta cadeira é feita de materiais como plástico e metal, e é idêntica a várias outras, mas esta é minha. Posso destruí-la, posso deixá-la na entrada de casa para os meus vizinhos

1 Fonte: The New York Times

usarem. Posso mudar o formato dela para qualquer coisa que eu queria,

e transformá-la em outro objeto, tudo isto é algo natural quando

pensamos em uma propriedade privada. A habilidade de fazermos o que

agora se eu fosse comprar um

DVD ao invés de uma cadeira, a história é bem diferente. Eu não posso usar o conteúdo do DVD para novos projetos. Não posso ver como ele

é feito, fazer outras cópias e vender. Não posso deixá-lo na porta de

casa e cobrar o uso dos meus vizinhos. Mesmo que o DVD seja feito em escala industrial, que seja cópia de um original, como uma cadeira, no caso do DVD isto não é aceito pelas leis de direitos autorais.” (Techtudo, 2012)

Para Falkvinge, “sempre que um dominador procura defender seus interesses, ele tenta convencer o resto do mundo de que copiar algo é imoral (ou ilegal).” O fundador do Partido Pirata da Suécia discorda desta visão, e diz que “O monopólio é que é imoral, e afeta não só os nossos direitos civis, mas também os dos nossos filhos.” (Techtudo, 2012).

O fundador e presidente do Facebook, Mark Zuckerberg, também é contra

os projetos de lei americanos. “O Facebook se opõe ao SOPA e ao PIPA e vamos

continuar nos opondo a quaisquer leis que possam prejudicar a internet. [

pedimos

ao Congresso para não apressar este processo. É importante tomar o tempo necessário para fazer isso direito” escreveu o CEO em sua página pessoal. (Portal Ig, 2012; Radar Tecnológico, 2012a).

Outro personagem importante na história da internet, Tim Berners-Lee, o

porque eles não

criador da web também se mostrou contra esses projetos de lei, “

foram elaborados para respeitar os direitos humanos, como seria apropriado em um país democrático” (Radar Tecnológico, 2012b).

Esse tipo de legislação, segundo os opositores dos projetos, poderia prejudicar a inovação e a colaboração em novos projetos e iniciativas, uma das maiores virtudes da internet.

quisermos com nossos objetos físicos [

]

]

5. SOPA e PIPA e os Direitos Autorais

Com o surgimento de programas P2P (ponto a ponto) como Napster, AudioGalaxy, Soulseek, eMule e os arquivos Torrent, que facilitavam a troca de arquivos e de sites em que se podia tanto armazenar conteúdo quanto fazer o download, como Megaupload, Fileserve, 4shared, Rapidshare, Filesonic, Mediafire, dentre outros, a busca e o download de qualquer seriado de TV, filme, música ou outro tipo de produto eram possíveis e facilitados.

A liberdade que a internet deu às pessoas fez com que tudo o que você tinha

acesso ia parar lá, e os outros podiam pegar livremente. Com SOPA e PIPA, isso

não seria mais possível. O que é negativo não só para os usuários, mas para os sites

e

programas que facilitavam essa troca. O Napster teve uma briga complicada com

o

Metallica na Justiça, por direito autoral das músicas, em um episódio que foi o

marco inicial para a reflexão de quem é o verdadeiro dono desses arquivos na internet.

Recentemente, após o SOPA, o fundador do Megaupload, Kim "Dotcom" Schmitz,

foi preso em sua mansão na Nova Zelândia. O site foi fechado pelo FBI. Outros sites similares saíram do ar ou reduziram bruscamente o movimento. Todos ficaram com medo (R7 Notícias, 2012).

Segundo as leis SOPA e PIPA, um site como a Wikipédia, cujo conteúdo é criado por voluntários que em muitos casos usam fontes online para obter informações, teria que monitorar o estado de cada website que estivesse sendo usado como referência, para garantir que nenhum direito autoral estivesse sendo infringido nestes outros websites.

6. Considerações Finais

Apesar de tentarem apoiar uma causa nobre: acabar com a pirataria online os criadores dos projetos de lei SOPA e PIPA não gastaram tempo pensando em como essas leis afetariam o usuário comum. Felizmente, as grandes companhias perceberam o perigo que corriam caso as leis fossem aprovadas e resolveram agir para convencer o público a se posicionar contra os projetos. Desta forma, os parlamentares e senadores entenderam que, com os protestos, tais leis não conseguiriam ser aprovadas da forma como foram redigidas e acabaram arquivando os projetos.

Há a possibilidade de outras leis semelhantes surgirem, ou até mesmo, estas voltarem camufladas com outras nomenclaturas e/ou com algumas modificações. Com isso, é interessante atentar-se para o que os representantes do povo estão fazendo, protestar caso não estejam trabalhando pelo bem comum e em vez disso estejam atendendo aos interesses de grandes empresas, empresas estas que patrocinam suas eleições e cobram em forma de “favores” dos políticos.

Um ponto interessante que percebeu-se com a rejeição dos projetos de lei, foi

a união/cooperação entre as empresas que eram contra, os usuários e entidades que

defendem a liberdade na internet. Foi o que derrubou os projetos de lei, a força e a forma com as quais protestou-se, o mundo ficou sabendo de uma lei que era pra ser apenas nacional, mas que traria reflexos para o mundo todo. O mundo se voltou contra

as leis que mudariam a forma de nos expressar-mos e de vivermos na era digital. Uma

lição que marcou e fez a maioria dos internautas imaginar como seria a grande rede sem

a liberdade existente hoje.

Existem sim problemas oriundos da pirataria e da falsificação na internet, porém podem existir medidas menos agressivas para combater tais atos e é em busca dessas medidas que os legisladores estadunidenses trabalham após a rejeição dos projetos SOPA e PIPA. É reconhecida a necessidade de controlar a pirataria online, mas a crítica aos projetos SOPA e a PIPA surgiu especialmente por estes serem muito amplos.

7. Referências

<http://

www.forbes.com/sites/derekbroes/2012/01/20/why-should-you-fear-sopa-and-pipa/>.

Acesso em: 09 set. 2012.

G1 TECNOLOGIA E GAMES. Entenda o Sopa e o Pipa, projetos de lei que motivam protestos de sites. Disponível em: <http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2012/01/

FORBES.

Why

Should

You

Fear

SOPA

and

PIPA.

Disponível

em:

entenda-o-projeto-de-lei-dos-eua-que-motiva-protestos-de-sites.html>. Acesso em:

09 set. 2012.

INFORMATIONWEEK BRASIL. Sopa: 10 fatos que você precisa saber sobre a lei antipirataria. Disponível em: <http://informationweek.itweb.com.br/6632/sopa-10- fatos-que-voce-precisa-saber-sobre-a-lei-antipirataria/>. Acesso em: 09 set. 2012.

O GLOBO. Entenda o que são os projetos de lei antipirataria SOPA e PIPA. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/tecnologia/entenda-que-sao-os-projetos- de-lei-antipirataria-sopa-pipa-3701327>. Acesso em: 07 set. 2012.

PORTAL IG. "Mundo precisa de políticos pró-internet", diz CEO do Facebook. Disponível em: <http://tecnologia.ig.com.br/mundo-precisa-de-politicos -prointernet- diz-ceo-do-facebook/n1597584378094.html>. Acesso em: 09 set. 2012.

RADAR TECNOLÓGICO (a). Zuckerberg se opõe à SOPA. Disponível em: <http://

blogs.estadao.com.br/radar-tecnologico/2012/01/18/zuckerberg-se-opoe-a-sopa/>.

Acesso em: 10 set. 2012.

RADAR TECNOLÓGICO (b). SOPA e PIPA violam direitos humanos, diz criador da web. Disponível em: <http://blogs.estadao.com.br/radar-tecnologico/ 2012/01/ 20/sopa-e-pipa-violam-direitos-humanos-diz-criador-da-web/>. Acesso em: 10 set.

2012.

R7 NOTÍCIAS. Entenda o que é SOPA, PIPA e o que está acontecendo na internet sobre downloads ilegais e pirataria: Fique por dentro do impasse que está rolando

sobre filmes e músicas na web. Disponível em: <http://noticias.r7.com/tecnologia-

e-ciencia/noticias/entenda-o-que-esta-acontecendo-na-internet-sobre-sopa-pipa-

downloads-ilegais-e-pirataria-20120216.html>. Acesso em: 10 set. 2012.

Pirata

brasileira. Disponível em: <http://www.techtudo.com.br/artigos/noticia/2012/07/ fundador-do-partido-pirata-elogia-marco-civil-e-lideranca-brasileira.html>. Acesso em: 09 set. 2012.

THE NEW YORK TIMES. A Political Coming of Age for the Tech Industry. Disponível em: <http://www.nytimes.com/2012/01/18/technology/web-wide-protest- over-two- antipiracy-bills.html>. Acesso em: 10 set. 2012.

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