Você está na página 1de 6

CURSO DE EXTENSÃO - UMA OUTRA LITERATURA: LITERATURA FANTÁSTICA E DE FANTASIA DOS SÉCULOS XIX A XXI Professor: Ms. André Luiz Rodriguez Modesto Pereira AULA 7: 18/09/12

Contos de fadas artísticos:

O Pequeno Zacarias chamado Cinábrio de E. T. A. Hoffmann

O Pequeno Zacarias chamado Cinábrio de E. T. A. Hoffmann • Contos de fadas artísticos (Kunstmärchen):

Contos de fadas artísticos (Kunstmärchen):

O conto de fadas artístico surge inspirado no conto popular, porém com uma elaboração autoral. Em alguns casos, como na coletânea dos irmãos Grimm, a precisão na coleta de contos ou a forma final dada aos contos, os situam entre o conto de fadas popular (Volksmärchen) e o conto de fadas artístico (Kunstmärchen).

Segundo Karin Volobuef:

O conto de fadas artístico busca a originalidade na abordagem e profundidade do tema, na elaboração do estilo, na variedade do conteúdo etc. Caracteriza-se, em geral, pelo emprego esteticamente mais elaborado dos elementos mágicos (que adquirem muitas vezes um sentido alegórico, podendo ser uma camuflagem para a exposição de um conteúdo realístico, por vezes de acentuado teor satírico); mostra preferência pelo aspecto individualizante (em detrimento da universalidade) através da complexidade psicológica dos personagens e da presença de indicadores de época e lugar onde se passa a ação; emprega maior profusão de detalhes (em oposição ao econômico estilo do conto popular, que se limita ao estritamente necessário), apresenta versatilidade na composição de sua estrutura; e explora um leque maior de possibilidades de significação. (VOLOBUEF, 1993, p.105)

O gênero conto de fadas artístico foi praticado por diversos autores do romantismo

alemão e de outras épocas e países, tais como, Goethe, Ludwig Tieck, Hans Christian

Andersen, Oscar Wilde e, recentemente, J. K. Rowling. A forma como cada autor

elaborou seus contos de fadas é bastante variada, podendo, em alguns casos,

desenvolver-se como uma maior elaboração da forma simples; em outros, através do

retorno estilístico às características comuns dos contos populares.

Ernst Theodor Amadeus Hoffmann (1776 – 1822)

Goethezeit (1770 – 1830)

Sturm und Drang – Pré-Romantismo

Frühromantik: filosófica, gênio – irmãos Schlegel, Fichte, Schleiermacher; Tieck, Novalis.

Hochromantik: nacionalista – Arnim, Brentano, Grimm.

Spätromantik: síntese – Tieck, Novalis, Brentano, E. T. A. Hoffmann

Biedermeier

Goethezeit ou Época de Goethe 1 – período longo que engloba vários movimentos

artísticos e intelectuais dentro da Alemanha, como, por exemplo, o Classicismo Alemão

e o Romantismo. Contempla, na área da filosofia, a época de Kant, Hegel, Schopenhauer

entre outros. Aufkärung – Iluminismo ou Esclarecimento. Questionamento da autoridade

da Igreja Católica (Newton, Kepler, entendimento da órbita dos planetas). Grande

revolução cultural, científica e política:

Hoffmann atravessou um período que foi marcado, no âmbito político-social, pela Revolução Francesa, pelo terror jacobino, pela ascensão, expansão e derrota napoleônicas – um período de guerra e grande violência – e, por fim, a Restauração dos velhos estados nacionais na Alemanha, quando o retrocesso nos avanços sociais acentuou as diferenças entre burguesia e nobreza – algo tematizado em O Pequeno Zacarias. No âmbito das ciências, o que era científico se misturava à superstição de tal modo que alguns passos dados no sentido do que viriam a ser a Psicologia, Pedagogia e Psiquiatria1 modernas, eram acompanhados pelo retorno do interesse na doutrina da Música das Esferas, pelo surgimento de uma Doutrina dos Sonhos, pela crença no magnetismo animal (mesmerismo) e a descoberta da eletricidade – ainda misteriosa.

Hoffmann era um autor bastante interessado em diversas áreas do conhecimento

humano, incluindo aquelas ainda não bem delimitadas em sua época, como a alquimia e

a química, além dos possíveis avanços tecnológicos, já tematizando em suas obras os

autômatos, por exemplo.

Bastante conhecido por seus contos fantásticos, contudo, escreveu obras bem distantes

desse gênero como O pequeno Zacarias chamado Cinábrio e Considerações sobre a vida do gato Murr. Dedicou-se a várias artes além da literatura, como a música e o desenho.

É importante notar que o Romantismo não é uma época antirracionalista, mas sim uma época em que determinados ideais e procedimentos e ideias científicos sofriam mudanças tão grandes que chegavam a ser questionados, colocados em perspectivas – inclusive a histórica, a ideia de que a arte deveria acompanhar a situação do seu tempo, contrária ao Classicismo Francês. Daí a importância da subjetividade e do gênio na época.

O pequeno Zacarias chamado Cinábrio (1819) – um conto de fadas

Conto de fadas artístico. Poderia ser considerado uma novela, dada sua extensão.

Sátira (Caricatura) dos costumes burgueses, da corte na época da Restauração, da ciência da época e até mesmo das próprias idealizações românticas, como a figura do poeta e de sua amada, Cândida, quase o oposto da donzela idealizada ultrarromântica (p. 57).

Composto em forma episódica: 10 capítulos com subtítulos quixotescos; primeiro e último capítulo servem como moldura à narrativa, o primeiro conta sobre o encantamento de Zacarias e a instauração do Iluminismo e o último fecha com o final feliz após a morte de Zacarias.

Um dos temas centrais: a percepção de mundo. Contraposição entre o mundo como ele é e o mundo como se convenciona ver (imposição do Iluminismo):

mundo como se convenciona ver (imposição do Iluminismo): ▪ visão do poeta (Balthasar) X visão do

visão do poeta (Balthasar) X visão do cientista (Mosch Terpin,empirista, e Ptolomäus

Philadelphus, reflexões abstratas, especulações). As duas visões só se contrapõe na

medida em que a do cientista tenta limitar e classificar o mundo, ao passo que a do poeta está aberta para qualquer maravilha que possa brotar do mundo. Ambas, contudo, contemplam o mesmo objeto: a Natureza.

Calma - retrucou Balthasar -, calma, amigo referendário, não é com outro

que este diabo atinge seus fins, há alguma outra coisa por trás disso tudo! É verdade que o príncipe Paphnutius introduziu o Iluminismo, para grande proveito de seu povo e seus descendentes, mas muitas coisas maravilhosas e incompreensíveis subsistiram. Eu acredito que alguns vistosos prodígios foram mantidos para uso doméstico. Por exemplo, de reles sementinhas continuam nascendo as árvores mais altas e formidáveis, assim como os mais variados frutos e tipos de cereais com os quais enchemos a barriga. E inclusive ainda se permite às matizadas flores e aos insetos usarem em suas pétalas e asas as cores mais resplandecentes, até mesmo os mais deslumbrantes caracteres, dos quais nenhum ser humano sabe se são pinturas a óleo, guache ou aquarela, e nenhum diabo de escrivão consegue ler a garbosa escrita cursiva e, menos ainda, copiá-la. Sim, sim, referendário, eu lhe digo, por vezes surgem em meu íntimo ideias extravagantes! Ponho o cachimbo de lado e dou longas passadas para cima e para baixo em meu quarto e uma estranha voz sussurra que eu mesmo sou um milagre, que o feiticeiro Microcosmo age em mim e me impele a todo tipo de desatinos! E então, referendário, eu saio e olho para o âmago da natureza e entendo tudo o que as flores, as águas me dizem, e uma felicidade celestial me envolve! (HOFFMANN, 2009, p. 77-78)

linguagem poética X linguagem discursiva: a primeira se liga ao mito e confere um sentido mais profundo e belo ao mundo, tende ser mais subjetiva, evoca impressões e sentimentos; a segunda é a linguagem objetiva usada na ciência e nos afazeres cotidianos, tende a ser mais limitada, buscando sua ampliação através da linguagem poética até que as metáforas e metonímias, pelo uso e pelo costume, deixem de assim ser. Questão do poema sobre o Rouxinol e a Rosa Púrpura, considerado por Prosper Alpanus como um ensaio histórico.

Conto de fadas artístico que mantém o mundo em sua maneira unidimensional. As fadas e os magos são mais naturais que a ciência produzida pelo homem. A divisão entre o mágico e o comum é colocada posterior e arbitrariamente através da instauração do Iluminismo, mas o mundo em si é o mundo mágico.

Monstrengo/Wechselbalg: a palavra usada no subtítulo do primeiro capítulo é, no original, Wechselbalg, que significa, no caso, uma criança deformada, mas que mantém alguma relação com algum ser mágico, no caso uma fada. O termo se refere à Zacarias/Cinábrio, que é, de fato, um ser encantado que penetra e tem sucesso numa sociedade racionalizada. A relação entre criança e ser mágico é um tema muito comum

nos contos de fadas e pode ser benéfica ou não.

Confronto de Prosper Alpanus e Fada Rosabelverde (Cap. 6 – p. 106 – 112): eventos mais maravilhosos do conto.

Apresentação do maravilhoso como real, porém colocado em uma perspectiva criativa, autoral, ficcional. Note-se, contudo, também uma certa ironia nas súplicas do autor, que escreve como que para um leitor razoável do Iluminismo, mas o convida a uma visão mais ampla das possibilidades da imaginação humana e dos mistérios do mundo:

ÚLTIMO CAPÍTULO

Tristes súplicas do autor – Como o professor Mosch Terpin se acalmou e Cândida nunca poderia ficar agastada – Como um escaravelho dourado zumbiu algo no ouvido de Prosper Alpanus, este se despediu e Balthasar foi feliz no casamento.

Chegou o momento de despedida daquele que escreveu estas páginas para você, querido

Ainda muito, muito mais ele

poderia narrar acerca dos singulares feitos do pequeno Cinábrio e ele teria grande vontade – visto

que, de qualquer forma, sentiu-se irresistivelmente estimulado em seu íntimo a escrever a presente

Olhando em retrospectiva para todos

os acontecimentos, tal como estão apresentados nos nove capítulos, ele sente claramente que deles já constam coisas tão estranhas, estapafúrdias e contrárias ao sóbrio bom senso que, se ele acumulasse um número ainda maior delas, fatalmente correria o perigo de abusar de sua

indulgência, querido leitor, e indispor-se completamente com você. Na tristeza, na inquietação que subitamente vieram angustiar-lhe o coração quando escreveu “Último Capítulo”, ele lhe pede que, com uma disposição verdadeiramente alegre e despreocupada, contemple ou, mais do que isso, torne-se mesmo amigo das estranhas figuras que foram inspiradas ao poeta pelo espírito endiabrado chamado Phantasus, 2 a cuja natureza bizarra e caprichosa ele talvez tenha se abandonado em

demasia

história – de ainda contar-lhe tudo, oh, meu leitor. Contudo!

leitor, e, neste instante, ele é acossado pela tristeza e inquietação

Não se amue, portanto, com ambos: com o poeta e o espírito caprichoso!

Se você,

amado leitor, tiver sorrido de vez [p.153] em quando em seu íntimo, então você terá experimentado naquele estado de espírito que desejou o escritor destas páginas, e assim, ele acredita, você lhe

perdoará muitas coisas!

[…] (HOFFMANN, 2009, p. 152 -153)

Referências:

HOFFMANN, E. T. A. Klein Zaches gennant Zinnober. Stuttgart: Reclam, 2008.

O pequeno Zacarias chamado Cinábrio. Trad. Karin Volobuef. São Paulo: Hedra, 2009.

VOLOBUEF, Karin. “Um estudo do conto de fadas”. Revista de Letras. São Paulo (UNESP), v. 33, p. 99-114, 1993.