Você está na página 1de 20

IMAGEM DE MULHER: REPRESENTAÇÕES DE GÊNERO NA IMPRENSA BRASILEIRA OITOCENTISTA

Aluno: Marcio da Silva dos Anjos

Orientadora: Diana Luz Pessoa de Barros

Apoio: PIBIC Mackenzie

RESUMO

Este artigo aborda as representações de gênero constitutivas do período finissecular brasileiro (século XIX). Considerando-o como período de transição, tratamos de analisar um texto d’A Revista Moderna estudando, a partir da proposta greimasiana, como, no discurso em que a mulher aparece como actante da narrativa, ela encarna e emana valores de uma sociedade em transformação. Tratou-se, então, de, vendo o período considerado como o germe do capitalismo brasileiro, visualizar a forma como os valores dessa formação social podem ser encontrados na discursivização da mulher de elite.

PALAVRAS-CHAVE:

Discurso. História. Gênero.

ABSTRACT

This article approachs the gender representation constitutive of brazilian nineteenth century. Considering it as a trasition period, we treat to analyze the text of the A Revista Moderna in order to study, from the semiological proposal of Greimas, how, in discourse in that woman appears as actant of narrative, she embodies and emanates values of the one society in transformation. We treat, so, of, seeing the considerated period as the outset of Brazilian capitalism, visualize the way how the values of this social formation can be founded in the discourse about elite woman.

KEY-WORDS

Discourse. History. Gender.

INTRODUÇÃO

Período de enfoque para este estudo, o último quartel do século XIX assinala um momento de importância para o estudo cultural do Brasil, do ponto de vista das representações sociais. Nele, encontramos um conjunto de transformações, de diversas ordens, em processo, cujo conteúdo expressa uma alteração qualitativa da organização soci al brasileira.

Tomado enquanto processo, o momento em questão caracterizou-se por uma profunda

alteração das forças produtivas. Seguindo, por exemplo, a caracterização histórico- econômica brasileira efetuada por Celso Furtado (1979, p. 151), temos que é nesse período que ocorre “o aumento da importância relativa do setor assalariado”, forma por excelência da relação de produção capitalista. Uma “larga expansão das forças produtivas” (PRADO JUNIOR, 1970, p.207) ocorreu, com a finalidade “de desintegrar o sistema econômico brasileiro fundado na grande propriedade agrária e voltado para a produção exclusiva de alguns gêneros exportáveis de grande expressão comercial nos mercados mundiais” (idem, ibidem, p.216). Daí que, considerado em sua totalidade, esse foi o período-germe (FERNANDES, 1976, p. 266) da “emergência e expansão de um capitalismo dependente,

era esta que vai da

nascido do crescimento e consolidação do ‘setor novo da economia’ ( sexta década do século XIX até os nossos dias” (idem, p.229).

)

Deparamos, por isso, com o surgimento de uma classe propriamente burguesa, distinta do antigo senhorio de terra, que alcança o topo do sistema de poder com papel de reorganizar as antigas estruturas econômicas e políticas para a conjuntura de um capitalismo em transformação. Economicamente, coube a esse novo agrupamento sócio-lógico realizar na sociedade brasileira “parte da evolução interna do capitalismo competitivo” (FERNANDES, 1976, p. 269). Processo que é correlato, no plano social, à formação da própria modernidade no Brasil. As últimas décadas do século XIX caracterizam-se como o início (se assim se pode dizer) de um período de transformação de valores e absorção de novos padrões morais, em cujo conteúdo a burguesia nascente identificar-se-á. “Símbolo de modernidade e de civilização” (FERNANDES, 1976, p.268), a classe burguesa em nascimento julgar-se-á o correspondente concreto, no Brasil, da ideia de modernidade. É assim que, em matéria de cultura,

estabelecia-se um conflito de concepções, de mentalidade, de moral e de posição diante dos problemas sociais. Um conflito radical, entre o homem rural, conservador, escravocata, monarquista, de gostos clássicos, e o indivíduo mais jovem, urbano por excelência, liberal, republicano, de tendências românticas.” (MARTINS, 2008, p.27)

Assim, tal transformação resultou em “um salto, em várias esferas concomitantes da vida,

)”

do legado português às formas econômicas, jurídicas e políticas da Europa moderna (

(FERNANDES, 1976, p.12-3). De sorte que a modernização em questão, “nos quadros

históricos do século XIX”, diz Florestan Fernandes (idem, p. 268), “equivale à europeização

e acarreta efeitos europeizadores”. Assistimos, portanto, no Brasil, ao surgimento da

consciência de um ‘ser-moderno’, e de um pertencimento a esse universo e de todo um conjunto de disposições, instituições e práticas advindas do mundo social europeu moderno.

Porém, esse processo firmou-se contraditoriamente, visto que a reorganização das antigas estruturas de poder - da “era senhorial” (Fernandes, 1976, p. 267) para o capitalismo competitivo - não eliminou por completo o colonialismo, em suas formas e funções sociais. Nesse período, o moderno e o arcaico são concomitantes.

As estruturas econômicas e sociais, constituídas sob a égide do sistema colonial, permaneceram mais ou menos intactas, ao lado das novas estruturas sociais e econômicas, criadas sob o impulso da expansão urbana e da implantação do setor capitalista correspondente, montado através dos processos de modernização incentivados, orientados e comercializados a partir de fora (idem, ibidem, p. 34)

Assim, apesar de sua referência inevitável ao mundo desenvolvido, a modernização

brasileira não se situou como uma simples reprodução da evolução anterior do capitalismo na Europa” (idem, ibidem, p.12-3), dado que o caso europeu constituiu-se sob a eliminação

de

todos os resquícios feudais.

E

isso nos importa na medida em que possamos tratar dessa simultaneidade não somente

em sua realidade material, mas também nas formas de consciênc ia dela decorrentes (isto é, na cultura). A adoção de novos habitus (BOURDIEU, 2009, p.14), novos esquemas de percepção e de apreciação resultado de dependência cultural dos países imperialistas , em suma, de uma nova relação com a cultura, na medida em que se circunscreveram a grupos específicos (classe dominante e frações da classe dominante), atuaram brutalmente como um mecanismo de violência simbólica – isto é, como “poder que chega a impor significações e a impô-las como legítimas, dissimulando as relações de força que estão na base de sua força” (BOURDIEU & PASSERON, 2008, p.25) – contra grupos sociais distantes da burguesia nascente.

Dito de outro modo, as novas mentalidades, instituições e práticas, liberais e progressistas, faziam parte somente “dos níveis de aspiração das classes dominantes ou de suas elites dirigentes” (FERNANDES, 1976, p. 13), como forma de, por um lado, se auto-conservarem como classe para si, produzindo discursos justificadores de si mesmos e, de outro, para operar uma distinção cultural em frente a tudo aquilo que não se encaixe em uma “burguesia revolucionária, democrática e nacionalista” (FERNANDES, 1976, p.268), tanto no plano político quanto no plano cultural. Portanto, se se marcou o período de nosso estudo, no

plano cultural, por “um espírito de renovação, de revisão total de estilos de pensamento e de idealização política” (MARTINS, 2008, p.105), não é menos verdade que tal transformação atendeu, antes de tudo, às finalidades de manutenção e conservação do monopólio de uma classe particular nascente 1 .

A esse respeito, pode-se dizer que a imprensa figurou como um dos elementos de relevante peso, seja como produto, isto é, como resultado das transformações sócio-econômicas ocorridas, seja como processo necessário para a legitimação da nova ordem.

Quanto ao primeiro, no interior de seu próprio campo, o fim do século assinalou uma espécie de autonomização relativa da prática jornalística (ou, no caso limite, um esboço de tal), autonomia por meio da qual revistas e jornais, pequenos e artesanais, passaram a estruturar-se como empresa de informação. Assim, Sodré afirma que (1983, p. 275)

assinala, no Brasil, a transição da pequena a

cedem lugar às empresas

jornalísticas, com estrutura específica, dotadas de equipamento tipográfico necessário ao exercício de sua função ( )

A passagem do século, (

grande imprensa. Os pequenos jornais (

)

)

não se

circunscreveu à composição e à impressão propriamente ditas, mas atingiu a própria fatura do conteúdo, que passou a contar com redatores, articulistas, críticos, repórteres, revisores,

desenhistas, fotógrafos (

imprensa, que aqui chamamos de autonomização,

Ainda segundo Sodré (idem, ibidem), a transformação na

Mudança estrutural que, como assinalam Martins & De Luca (2008, p. 152), “(

)

)”.

está naturalmente ligada às transformações do país em seu conjunto, e, nele, à ascensão burguesa, ao avanço das relações capitalistas: a transformação da imprensa é um dos aspectos desse avanço; o jornal será, daí por diante, empresa capitalista, de maior ou menor porte. O jornal como empreendimento individual, como aventura isolada, desaparece, nas grandes cidades.

Essa transformação da imprensa - o germe de uma instância jornalística desinteressadamente interessada, isto é, em cujos discursos as ideologias passam traduzidas agora por valores jornalísticos. - implica, por sua vez, a gênese de um corpo de profissionais destinados a produzir discursos sobre si mesmos, na medida em que são frações de uma classe só, a burguesa.

1 Não somente econômico, deve-se notar, como também político e, mais perto do que desejamos estudar, cultural.

Ocorre, por isso, a circulação de um conjunto de valores que, como num circuito fechado, reproduzem, no plano da linguagem, o grupo de status 2 de uma burguesia nascente. Em outras palavras, as condições que dão acesso a um modo de ser moderno, distante dos arcaísmos portugueses e em oposição a eles, “tornam -se objeto de monopolização por grupos de status” (WEBER, 1974, p.77).

Então, para além de seu aspecto de controle político, uma das principais funções da

imprensa foi tornar clara a identidade entre o homem burguês brasileiro, dotado de práticas

e apreciações legítimas, e o mundo moderno europeu. Excluindo, por isso mesmo, qualquer

referência que não se encaixasse nesse âmbito. Seja o próprio ato da leitura (espécie de modalidade do ser-moderno, o letrado), competência cuja posse, por si, já funcionava como um mecanismo de diferenciação social, pois que tal prática impõe uma relação privilegiada com o tempo 3 ; seja também o surgimento das ditas ‘revistas de variedades’, cujo consumo

se dá mediante uma espécie de “gratuidade intelectual” (BOURDIEU, 2008, p.50), quer dizer, atividade sem nenhum fim a não ser a de esbanjar a luxúria espiritual.

É dessa mentalidade burguesa que tratamos neste estudo. Todavia, centramo-nos em um aspecto somente, qual seja, o das relações de gênero (masculino/feminino), analisando a construção do discurso do ‘feminino’ na imprensa da época, p or meio de um estudo concreto de textos referentes ao periódico A Revista Moderna.

Com isso, nosso objetivo principal foi o de compreender uma determinada relação social

enquanto articulada por discursos específicos (nesse caso, o da imprensa) que a justificam,

e a tornam uma realidade de segunda ordem, isto é, simbólica. Pois, torna-se inevitável

compreender, para além de sua manifestação material (divisão sexual do trabalho, por exemplo), as maneiras como as relações de gênero se concretizam no plano da cultura, por meio dos discursos. De modo que intencionamos caracterizar tal aspecto da história cultural

brasileira do fim do século XIX, nos discursos jornalísticos.

Essa tarefa se impõe caso desejemos compreender como uma sociedade se ordena (enquanto submissão e regularidade socio-lógicas) a partir de uma violência que não é física

e explícita, mas antes simbólica e, por isso, implícita. Ou seja, como os diversos textos

culturais contribuem para produzir um conformismo moral e lógico (DURKHEIM, 1989; BOURDIEU, 2009), desconhecidos enquanto tais, numa determinada sociedade. Em uma palavra, essa tarefa é importante quando a dimensão simbólica se torna parte da dimensão

2 No sentido de “portadores específicos de todas as convenções”, por meio das quais a ‘estilização’ da vida, isto é, as modalidades de condição de classe, manifesta-se. (WEBER, 1974, p.77).

3 A leitura é o que ocorre espontaneamente quando se vai ter tempo para não fazer nada, quando se vai ficar fechado sozinho em algum lugar” (BORDIEU & CHARTIER, 2009, p.238).

do poder. Pois, se o mundo material mantém sua eficácia de conservação e a reprodução de si mesmo, isso se deve sobremaneira aos mecanismos ideológicos de inculcação que, por meio do discurso, contribuem “para produzir e reproduzir a integração intelectual e a integração moral do grupo ou da classe em nome dos quais ele se exerce” (BOURDIEU & PASSERON, 2008, p.57). Quer dizer, fazendo com que formas concretas de vida tomem o conteúdo de uma suposta segunda natureza quando as instâncias culturais (imprensa, arte, etc.) tratam de representá-las, esse nível é uma das estratégias determinantes pela qual a ordem se perfaz e é, portanto, de necessária compreensão.

Nesse contexto, ao realizar este estudo, nós pretendemos:

1) compreender a maneira pela qual o periódico Revista Moderna constrói um discurso sobre a mulher;

2) desvendar em que procedimentos, mecanismos, estratégias e táticas discursivas e textuais esse discurso sobre a mulher se assenta;

3) mostrar em que quadros de valores esse discurso se insere, ou seja, quais funções ideológicas ele cumpre numa determinada fase da sociedade brasileira de classes.

REFERÊNCIAL TEÓRICO

Para dar conta disso, embasamo-nos no referencial da semiótica francesa greimasiana. Ela nos fornece um modelo teórico que permite analisar os processos de estruturação do discurso e que, entre outros resultados, explicita a relação dos sujeitos da enunciação com os valores e as ideologias postos no texto.

Greimas concebe o texto a partir do percurso gerativo, por meio do qual a construção do sentido se processa. Como caminho que passa por diferentes etapas, esse percurso é constituído por três níveis: 1) o fundamental; 2) o narrativo; 3) o discursivo, cada um deles possuindo uma sintaxe e uma semântica própria. Não é possível tratar de todos aqui. Por isso, falaremos somente daquele que nos interessa mais de perto, isto é, o nível discursivo.

Sintaticamente, é nesse nível que se observa a projeção da enunciação no discurso, temporal, espacial e actorialmente. Nessas três dimensões, ele realiza debreagens enuncivas e enunciativas (FIORIN, 2008, p.44), isto é, projeta para fora de si os actantes e

as coordenadas espaciotemporais do discurso de modo a produzir determinados efeitos de

sentido.

Semanticamente, são dois os procedimentos que revestem concretamente aos esquemas narrativos canônicos abstratos:

a) tematização, que se refere à construção de textos em um nível distante ‘das sensações’.

Ele é construído segundo categorias genéricas. “Em outras palavras, os percursos sã o

constituídos pela ocorrência de traços semânticos ou semas, concebidos abstratamente” (BARROS, 2007, p.68). A despeito disso, a tematização não deixa de ser uma concretização do sentido (FIORIN, 2008, p.64). É, ao contrário, de ordem explicativa e ordenatória. “Classificam e ordenam a realidade significante, estabelecendo relações e dependências”

(idem, ibidem, p.65). “(

elementos do mundo natural: elegância, vergonha, raciocinar, calculista, orgulhoso, etc.

(idem, ibidem, ibidem).

)

São categorias que organizam, categorizam, ordenam os

b) figurativização, que diz respeito ao grau de ‘concretude’ de um dado texto. Concretização

de um tema, esse procediemento discursivo usa elementos que visam a inculcar no enunciatário determinados efeitos de sentido de realidade e de veridicção. A função “descritiva e representativa” (FIORIN, 2008, p.64) predomina, sendo as diversas unidades mínimas de sentido revestidas de concretude: cor, temperatura, dimensão, sonoridade, cheiro etc.

Ambos os processos ocorrem de maneira relacional, cabendo analisar o movimento pelo qual a totalidade de figuras e temas se desenvolve, ou seja, como se desenrolam os percursos temáticos e figurativos (FIORIN, 2008, p.69) que, a partir de repetições, reproduções e redundâncias, formam percursos isotópicos que dão coerência interna aos discursos.

Portanto, ao ler os textos, nossa atenção foi para esse nível. Para nossa análise, que pressupôs uma relação determinada entre história e instância da enunciação, ele foi o de maior importância, dado que é “nas estruturas discursivas que a enunciação mais se revela e onde mais facilmente se apreendem os valores sobre os quais ou para os quais o texto foi construído" (BARROS, 2007, p.54). Por isso, na medida em que estuda as relações da enunciação com o enunciado, a maneira como aquela deixa suas marcas neste, a análise

do discurso contribui para a compreensão sistemática das formações ideológicas que regem

a construção de sentido do texto. Nele, torna-se possível encontrar “o conjunto de

elementos semânticos habitualmente usados nos discursos de uma dada época” e que “constitui a maneira de ver o mundo numa dada formação social” (FIORIN, 1988, p.19).

Nele, tem-se “o campo da determinação ideológica propriamente dita” (idem, ibidem, ibidem)

e, nesse sentido, as condições sociais de sua construção, isto é, as determinações de

classe que ele comporta.

Por fim, é esse nível que nos proporciona o estudo da relação entre as instâncias enunciador-enunciatário, tão cara ao nosso trabalho. Pois, dado que essa relação pressupõe um contrato comunicativo, por meio do qual “o enunciador determina como o

enunciatário deve interpretar o discurso, deve ler ‘a verdade’” (BARROS, 2007, p.63), os valores e as ideologias postos à intepretação para o enunciatário já estarão encerrados no âmbito do próprio texto. De sorte que a eficácia ideológica do discurso, a sua legitimidade enquanto difusor de uma determinada consciência social, será condicionada, sobretudo, pelas escolhas que a enunciação faz para construir o discurso, pelas regras sintáticas e semânticas utilizadas por ele a fim de fazer funcionar o ‘jogo de linguagem’ entre autor e leitor. Daí que se “para a manipulação dos jornais funcionar, é necessário, entre outros aspectos, que o público partilhe do mesmo sistema de valores do jornal” (HERNANDES, 2006, p.18), é também necessário afirmar que, nesse processo, o autor produz o leitor, não

só por lhe impor temas, mas também por lhe determinar regras de sint axe e de semântica

necessárias à interpretação do texto. Dá a ele a sua forma e o seu fim 4 .

MÉTODO

A realização desta pesquisa teve dois momentos. O primeiro,

bibliográfica acerca de temáticas determinantes para nossa problemática. O que incluiu:

dedicado à pesquisa

a) o estudo da história econômica e política referente ao período considerado, através de autores que estudaram o período em sua especificidade (FERNANDES, 1976, 1973; PRADO JUNIOR, 1970; FURTADO, 1979), tratando-o sob o ponto de vista ‘transformacional’ por nós levado em conta, isto é, observando as condições sob as quais se deram o surgimento de formas capitalistas de ação econômica. Em outros termos, de que forma a racionalidade econômica capitalista implantou-se numa economia ainda colonial;

b) do período considerado, o estudo do que se poderia chamar de história cultural, entendida menos do ponto das culturas objetivadas (literatura etc.), e mais no sentido de ‘formas de vida’, isto é, de costumes, no sentido, já mencionado, de mentalidades e de

4 “O objeto de arte - como qualquer outro produto cria um público capaz de apreciar a arte e de sentir prazer com a beleza. A produção, por conseguinte, produz não só um objeto para o sujeito, mas também um sujeito para o objeto”. Cf. MARX, 2011, p.47.

esquemas de percepção. Assim, tal abordagem nos fez enfatizar a chamada história privada (D’INCAO, 2002; FREYRE, 2009, 2000, 1985; MARTINS, 2008; MELLO, 1997), particularmente no que esses autores abordam a respeito das temáticas sobre: a condição feminina, o espaço doméstico e privado, a família e, sobretudo, sexualidade.

c) além disso, buscamos estudar também o campo jornalístico em sua especificidade, por

meio do método de reconstrução histórica a partir de autores que tratam do tema (SODRÉ,

1999; BAHIA, 1990;MARTINS & DE LUCA, 2008).

d) por fim, nos foi fundamental o estudo propriamente teórico (e, ao mesmo tempo, epistemológico) da principal hipótese aqui levantada. Ela postulou que uma determinada estrutura social engendra os próprios meio de sua perpetuação, dentre os quais se situa a própria cultura enquanto instrumento de conformação (BOURDIEU, 2009, 2008a, 2008b et al; GODELIER, 1981; WEBER, 1974; et al). E, dado que a linguagem (mais especificamente, o seu aspecto semântica) é um dos principais elementos por meio do qual essa hipótese pode ser verificada, tratamos de ‘operacionalizá-la’ por meio da pesquisa teoria do discurso (BARROS, 2007; FIORIN, 2005, 2008; GREIMAS, 1973; COURTÉS & GREIMAS, 2011 et al).Tendo essa base, selecionamos o corpus a seguir 5 (o único disponível da revista no Arquivo Público do Estado de São Paulo):

1)

De 1898 - nº 26, dezembro;

2)

De 1889 - nº 27, janeiro; nº 28, fevereiro; nº 29, março;

Com esse material, recortamos alguns textos que tinham como traço semântico dominante

‘mulher’, funcionando como figurativização do sema ‘feminilidade’. A partir disso, efetuamos

a análise de tais textos nos três níveis considerados pela teoria a fim de reconhecer todos

os seus planos e graus de manifestação. Depois, buscamos as temáticas e figuras que neles predominavam, observando o modo de desenvolvimento de ambos, isto é, o decorrer de seus percursos temáticos e figurativos. Tais percursos foram postos em relação entre si, de maneira a podermos depreender os diálogos que o periódico, explicita ou implicitamente, constrói.

Além de descrever os processos de construção de sentido, isto é, de mostrar sua organização interna, explicamos também quais funções cumpriam determinadas escolhas de sintaxe e semântica espalhadas ao longo do texto, ou seja, os porquês de tal ou qual uso

e quais efeitos deles se obtinham (BARROS, 2007, p.62).

5 É preciso, desde já, esclarecer que nós estudamos o corpus descrito em sua totalidade. Todavia, em virtude dos limites de exposição, não será possível expor os resultados exaustivamente. Restringir-nos-emos, então, somente a um dos diversos textos a que nos foi possível ter acesso.

10

RESULTADOS E DISCUSSÃO: DISPOSIÇÂO PARA O LAZER

A construção do discurso operada pela enunciação não é simplesmente uma operação

mental que visa contemplar determinada categoria de agentes dentro de uma sociedade.

Ela é também o próprio lado ativo da representação, na medida em que, por sua função de

inculcação e, por aí, de conformidade lógica e moral dentro de uma estrutura social, essa

representação produz, ela mesma, práticas e apreciações em conformidade com os valores

que ela euforiza. Como afirma Fiorin (1988, p.74-5), trata-se de uma “ação no mundo” que

“contribui para reforçar as estruturas de dominação”.

E não é outro o caso a seguir. Temos, no texto, uma valorização eufórica de uma atividade

cultural distante da vida brasileira de então. Vindas do mundo moderno, as práticas

esportivas, associadas às de lazer, constituem uma efetiva marca de distinção e de posição

da burguesia 6 . Daí ser esse texto, no nível das relações entre enunciador e enunciatário,

sobretudo uma incitação à ação, já que realizá-la é, sobretudo, obter reconhecimento em um

grupo monopolizante.

Em “Os ‘country clubs’ na Inglaterra: sports d’inverno e sport de verão”, publicada na

sessão Sport da revista, instaura-se, na instância da enunciação, um programa narrativo em

que o enunciador (S1), destinador de objetos-valores, procura convencer S2, o enunciatário

– explicitamente marcado no texto como “leitora” (nº 25, s/p.) – a entrar em conjunção com

os valores associados aos agrupamentos sociais aristocráticos como os Country Club’s

britânicos, associações em que se praticam diversos tipos de esportes (futebol, críquete,

pólo, etc.), e cuja forma é tomada como modelo – no sentido do “que é capaz de servir de

objeto de imitação” (COURTÉS & GREIMAS, 2011, p. 316) de sociabilidade pelo ator da

enunciação.

Em um trecho, assim descreve o narrador:

Durante o verão, as famílias ahí reúnem -se todas as tardes numa hospitaleira intimidade e, sob a sombra de árvores, tomam o clássico chá e comem o nacional plum-puding e no inverno, quando rapazes e raparigas, meninos e meninas, aproveitam o ultimo raio de sol nos longos exercícios de patinagem, trenós e bolas de neve, o vasto

6 É estilização da vida de que falamos no início deste trabalho e que encontramos bem expressada no seguinte trecho: “Capacidade generalizada de neutralizar as urgências habituais e suspender as finalidades práticas, inclinação e aptidão duradouras para uma prática sem função prática, a disposição estética consegue constituir-se apenas em uma experiência do mundo desembaraçada da urgência, assim como na prática de atividades que tem sua finalidade em si mesmas, por exemplo, os exercícios escolares ou a contemplação das obras de arte. Ou dito em outras palavras, ela pressupõe

o distanciamento do mundo ( 2008a, p.55).

)

que é o princípio da experiência burguesa do mundo.” (BOURDIEU,

salão bem aquecido espera-os, para continuar na dansa e nos differentes jogos, as boas palestras interrompidas ao cahir da noite (nº 25, p.96).

No que diz respeito à sintaxe discursiva, ao se projetar enuncivamente (ele-então-algures),

evitando marcas de uma enunciação explicitamente enunciada, bem como ao ancorar

espacial, temporal e actancialmente o discurso (“durante o verão”, “famílias”, “meninos”,

“salão”, “sob a sombra de árvores”) o narrador cria uma ilusão de referencialidade, um

simulacro do real, que fornece, nesse caso, condições para o êxito do programa entre S1-S2

mencionado acima. Trata-se, então, de um lugar e de um tempo solidamente preexistentes

ao sujeito que os narra e, por isso, crível de ser assimilado culturalmente. Tal procedimento

direciona utilização das figuras e de temas, que recobrem o sentido do texto, para um modo

mais distante e mais objetivo, dando ao enunciado caráter de independente e de autônomo

em relação ao próprio sujeito da enunciação. Vejamos alguns trechos:

Sobre o gelo duro e resistente elegantes Miss e correctos rapazes deslizam sem ruído sobre o equilíbrio dos patins, recebendo, em pleno rosto, o ar glacial e vivificador de uma temperatura de Dezembro (idem, ibidem)

Essas associações, conhecidas em geral pelo nome de Clube Campestre são uma espécie de prolongação da família, com todas as suas liberdades também com todas as garantias (idem, ibidem)

No primeiro parágrafo, encontramos as figuras do “deslizar sem ruído”, “ar glacial e

vivificador”, “sobre o equilíbrio dos patins” associadas à figura de “elegantes Miss”. Essas,

por sua vez, semânticamente opondo-se ao “gelo duro e resistente”, remetem ao tema da

suavidade e da leveza. Vemos, então, que, à configuração discursiva ‘mulher’, é

homologado, aqui, o tema do lazer, isto é, da ação desinteressada, recreativa, do ‘fazer por

esporte’, com o papel temático da ‘mulher que se diverte’. Porém, ela não só é marcada por

um saber-fazer os diversos esportes como também por um modo de fazer específico (a

suavidade, a delicadeza), que a marca e a diferencia. Modo de fazer que suas próprias

vestimentas exigem.

A esse respeito, as imagens que acompanham o texto são reveladoras. A primeira, na parte

superior-direita da página, mostra um diálogo entre duas damas e um rapaz, cujos estilos 7

se opõem frontalmente. Considerando a categoria estático-dinâmico, é o primeiro termo

dessa relação que é assumido pelas damas, já que toda a sua vestimenta as colocam, num

ambiente esportivo, ressalte-se, numa situação de objeto a ser visto e admirado. É a típica

7 Além de outros sentidos, enquanto modo de construção, pelo ator da enunciação, dos ‘personagens’ da narrativa, e, nesse sentido, concentrando “um mundo, definindo um modo de presença”. (DISCINI, 2003, p.107)

situação de mulher-objeto, apontada por Freyre (1981, p.98), feita para ser cultuada (narcisisticamente) pelo homem 8 .

Ao contrário, ele, segurando uma raquete, trajado e posicionado à esportiva, revela-se possuidor do segundo termo da relação. E, na medida em que o esporte é um poder -fazer condicionado por esse termo, seu papel é o único que efetivamente se adequa ao espaço cênico descrito pela enunciação.

Quanto à segunda foto, localizada na parte inferior-esquerda da tela, a relação descrita acima pode tanto ser confirmada pelo o que essa imagem diz, quanto, por meio dela, ainda se pode visualizar outras relações.

Numa pista de gelo, a foto mostra, à frente, uma senhora patinando, enquanto dois homens a ajudam. Um pouco atrás, outros dois homens os acompanham e, no canto direito da foto, situa-se outra senhora, dessa vez parada. O que se pode depreender, aqui, da relação mostrada na outra foto, é o fato de os ares e donaires, as delicadezas expressas, ademais, pelas vestimentas atuarem como um impedimento à realização da competência (poder- fazer) esportiva. Assim, ao se defrontar com um programa do fazer, não consegue dominá- lo, o que resultaria numa consequência negativa (COURTÉS & GREIMAS, 2011, p.93), não fossem os homens para auxiliá-la. Estes atuam, então, como doadores (COURTÉS & GREIMAS, 2011, p.152), como adjuvantes “operando ora no sentido do desejo, ora facilitando a comunicação” (RECTOR, 1978, p.99). Depreende-se daqui não só uma relação de dependência entre gêneros em relação à consecução de uma prática, como também uma relação contratitória entre texto escrito e imagem na medida em que o que é afirmado

no primeiro plano de expressão (cf., acima, “(

elegantes Miss e correctos rapazes

deslizam (

)

)”)

é negado no segundo.

Ainda do ponto de vista da semântica discursiva, há outro aspecto do texto que merece ser destacado. Figurativizando temporalmente o ambiente por meio da “hospitaleira intimidade”, no primeiro trecho citado, o enunciador introduz os eixos semânticos da privacidade e da individualidade, papéis temáticos típicos do mundo familiar, a despeito (e em contraste com) da própria ideia de comunidade que tais clubes, tematicamente, representam (“todos correm com mais ou menos ardor

8 O homem patriarcal se roça pela mulher macia, frágil, fingindo adorá-la, mas na verdade para sentir-se mais sexo forte, mais sexo nobre, mais sexo dominador.” (FREYRE, 1981, p.98)

Tanto isso que, em complementação, no segundo parágrafo, há uma associação metonímica entre as figuras “família” e “Clube Campestre”. O que não só cria um efeito de sentido que concretiza, “com precisão, algum tema que se deseja transmitir ao leitor” (FIORIN, 2008, p.100), como também, do ponto de vista semântico, permite transferir esquemas de percepção, ou seja, “sistema das disposições socialmente constituídas que

constituem o princípio gerador e unificador das práticas e das ideologias características

de um grupo de agentes” (BOURDIEU & PASSERON, 2008, p.62) de um campo social (família) a outro (esportes e lazer). Trata-se, por isso, de uma representação da mulher que, embora a apresente em papel público (o que, deve-se ressaltar, é um fato novo), não evita estilizá-la por meio de requintes e maneiras do papel privado feminino. É a mulher que sai à rua, todavia à custa da dura e contínua vigilância familiar e, principalmente, masculina (D’INCAO, 2002, p.228). Daí que tais ares e modos femininos, longe de serem um acessório, eles adquirem um caráter de necessidade, uma espécie de obligation, de convenção moral sem a qual essa mulher não poderia atuar nos espaços públicos. Sob a condição de perderem a sua própria nobreza, “essas mulheres tiveram de aprender a comportar-se em público, a viver de maneira educada” (idem, ibidem, ibidem). Assim é que a delicadeza, a suavidade, o decoro, maneiras femininas de fazer esporte, são papéis

temáticos que correspondem, por sua vez, também a papéis familiares.

) (

Assim, a aspectualização da mulher operada pela enunciação é significativa, pois, se não é homóloga, ao menos mantém uma relação ‘contratual’ com um conjunto de valores da burguesia de então. Ou seja, observa-se aqui um paralelismo entre categoria sêmicas e estrutura social.

Antes de tudo, é o fato de a categoria INDIVÍDUO-sociedade, princípio de classificação fundamental do ser-burguês, ser aqui determinante, principalmente pelo fato de a família (no texto, ancorada em “avós”, “filhos” etc.), com todas as suas oposições e hierarquias de sexualidade, ser um tema fundamental para a leitura do texto, aliado o tema do lazer.

Não à-toa essa valorização eufórica do indivíduo é sintomática nesse período. Na economia, ela é revestida, então, sob o elemento da livre-iniciativa (FERNANDES, 2006, p.120), isto é, sob o “indivíduo inteiramente voltado com suas atividades e atenções para o objetivo único de enriquecer” (PRADO, 1970, p.208). Na cultura, ela coincide com a própria forma burguesa da individualidade, que reorganiza os tipos de privacidade e de experienciação do ego. Daí, por exemplo, que

o desenvolvimento das cidades e da vida burguesa no século XIX influiu na disposição do espaço no interior da residência, tornando-a mais aconchegante; deixou ainda mais claros os limites do convívio e as

distâncias sociais entre a nova classe e o povo, permitindo um processo de privatização da família marcado pela valorização da intimidade. (D’INCAO, 2002, p.226).

Dessarte, na medida em que o sistema patriarcal começa a declinar, as estratégias para a obtenção da distinção, da raridade e do poder apesar de dependerem em alto do grau do capital econômico, social e cultural monopolizado pela elite (por meio dos quais os dominantes fechavam-se em si, contra qualquer mecanismo de ascensão) faziam recair, doravante, sobre o sujeito-em-si o sucesso ou o fracasso de determinadas apostas e investimentos. Trata-se, por isso, de um sujeito ensimesmado, este a que agora assistimos:

a ‘vocação’, o seu ‘talento’, o seu ‘dom’ são os princípios (des)classificadores, que produzem a estima ou a denegação. A título de exemplo, eis um dos im aginários emergentes no momento: “individualismo romântico, valorizando o amor independente de qualquer consideração de família ou de raça: ou de Romeu por Julieta. O amor independente da consideração econômica dos amantes9 (FREYRE, 2000, p.291).

Correspondente, no homem, da ‘auto-iniciativa’, do ‘altruísmo’, da ‘nobreza’, em suma, de categorias que conduzem para o exterior, essa individualidade é, entretanto, modalizada na mulher a partir de papéis temáticos que remetem ao indivíduo em sua interioridade. Uma série de aspectualizações que demarcam a mulher, os seus limites e as suas regras de ação, esse conjunto caracteriza-se por enfatizar uma “dimensão noológica” (GREIMAS, 1973, p.158) desse sujeito, em contraposição com a dimensão “cosmológica” (idem, ibidem, ibidem), esta dominante no sexo masculino. Em outras palavras, são representações sociais que ressaltam, na mulher, a isotopia temática do mundo interior (no habitar o espaço doméstico), do sentimento (nas práticas culturais cultas artes etc.), da delicadeza (nas práticas de lazer, esportes etc.).

Inscrevendo tal oposição na biologia, naturalizando-a, portanto, a ênfase tal dimensão constrói a própria maneira como a mulher é concretamente vista em sua figura, bem como em todos os papéis actanciais (COURTÉS, GREIMAS, 2011, p.357) que, socialmente, lhe são reservados. A respeito do primeiro, a comparação a seguir de Gilberto Freyre (1997, p.181) é ilustrativa.

Um ideal muito brasileiro tornou-se, por influência do Romantismo, o de sinhazinha adolescente, quase menina e, de tão delgada, quase de seios virginalmente discretíssimos e de mãos e de pés ostensivamente pequenos.

9 “É sabido que, no casamento pré-romântico, a felicidade conjugal não decorria predominantemente do relacionamento entre marido e mulher, mas (sic) do atendimento de outras necessidades práticas de que o casal era apenas instrumento. À conveniência conjugal bastava a estima e o respeito mútuos, a reciprocidade de serviços, sobretudo em caso de doença. Se a aliança tinha lados negativos do ponto de vista dos cônjuges, eles tornavam-se irrelevantes em face do êxito do que era reputado o essencial.” Cf. MELLO, 1997, p.397.

Contraste com aquele outro ideal: o de sinhá-dona de meia idade, gorda, ostensivamente bem nutrida, apta ao desempenho de mulher mãe de sucessivos filhos e a cujo físico não faltavam ancas mais dignamente maternas que provocantemente sexuais.

Esse ideal descrito em que vemos a oposição NOOLOGIA-cosmologia acima dita reforçada pelas nomeações: “delgada”, “seios discretos”, “pés pequenos”, que remetem, antes de tudo, a uma ausência de virilidade, isto é, de honra e, portanto, de possibilidade de poder se plasmou, dentre outros, na vestimenta 10 , elemento de distinção social por excelência. O corpus que nós aqui mostramos ilustra bem esse aspecto. Fundamentada em valores da nova Europa (FREYRE, 1997, p.33), para as mulheres, a alta costura funcionou como um mecanismo de: 1) insígnia da alta cultura, demonstração cabal de uma segunda natureza, sendo a escolha de um adorno qualquer a própria afirmação de uma classe; 2) diferenciação, pois, na escolha da cor, do tecido ou do penteado, ela mostra um conteúdo que lhe é próprio, distinto daquele que o homem, em seu éthos corporal, exibe. “Um ritmo de andar que tendia a apuros de delicadeza, de graça, de donaire, então associados de modo consagrador ao tipo, à figura, à personalidade da mulher, em aguda diferenciação da personalidade máscula.”, afirma Gilberto Freyre (1997, p.20-1).

Nesse sentido, na representação das práticas, sobressai-se, na mulher, uma determinada maneira de fazer e de realizar, ou seja, uma “forma da ação ou do objeto em detrimento de sua função” (BOURDIEU, 2009, p.16), inscrita em diversas oposições, que dão à mulher o seu sentido e sua posição dentro da totalidade social. Claro/escuro, interior/exterior, egoísmo/altruísmo e, como a análise exposta pôde visualizar, dinâmico/estático, em suma, a actante-mulher retira a sua diferencialidade a partir de uma série de modalizações que

simbolizam “claramente a posição diferencial d os agentes na estrutura social (

parecem ser “as propriedades essenciais da pessoa, como um ser irredutível ao ter, enfim,

já que

)”,

como uma natureza, mas que é paradoxalmente uma natureza cultivada, uma cultura tornada natureza, uma graça e um dom” (idem, ibidem, ibidem).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em diversas direções, o texto escolhido infirma a nossa tese, segundo a qual, a mulher é um dos elementos em que a transformação social observada se apoia e em que a referida

10 ‘Gorgorões’ e ‘veludos’ e, no fim do século XIX, até ‘peles’ passaram a ser moda feminina num Rio de Janeiro de calores, nos seus nada curtos verões tropicais. Luvas francesas passaram a requinte ortodoxo no trajo feminino e segundo modelos ingleses, no trajo masculino, marcando esse extremo,

o absurdo atingido pela europeização do trajo elegante nessa Corte.”

contrário ao clima carioca ( Cf. FREYRE, 1985, p.131.

)

concomitância (cf. acima, p.03). Ela tanto encarna determinados valores dessa estrutura nova, quanto se mantém, em si, ainda mecanismo de conservação de uma realidade patriarcal.

Por um lado, na vestimenta e nas marcas corporais, reserva-se a ela novas características (, encerrando-a num mundo de novos modos e costumes. Nas práticas de lazer, d as quais o texto analisado mostra somente um caso, ela também se mostra ‘moderna’, por meio de consumos culturais como os de clubes desportivos, de leitura, cultivo de flores (todos importados da Europa).

Porém, a mulher moderna mostra a sua verdadeira raiz no modo como atua dentro de um espaço como o clube. Seus ares e maneiras, sua incapacidade para a realização de um programa, dado que, por diversos motivos, ela está ali antes para ser olhada e vigiada. Além disso, ela não está livre das categorias de percepção que a família e o mundo androcêntrico lhe impõe. Ambos os espaços clube e família possuem estruturas semânticas correspondentes, de modo que a vigilância do segundo não cessa quando ela está no primeiro. Esse “viver de maneira educada” (D’INCAO, 2002, p.228), modo de ser feminino que conduz a diversas oposições semânticas (INTERIOR-exterior, ESTÁTICO-dinâmico etc.) no espaço social, é, desse modo, uma espécie de pan-óptico para o ser e o fazer femininos. E ele se traduz, entre outros, na prática feminina do lazer, em que a postura e o traje conduzem a uma incapacidade no fazer-esportivo, isto é, a uma situação em que ‘a maneira educada’ (interiorizada, sobretudo, no próprio corpo feminino) implica um não- poder-fazer, não-saber-fazer e também um não dever-fazer, em suma, uma condição de ócio, fruto de uma posição de classe que como a oposição ESTÁTICO-dinâmico demonstra torna a mulher um objeto a ser visto, admirado e trocado.

Este talvez seja um dos valores que se mantiveram inalterados. O de a mulher, apesar de toda a transformação em direção à secularização das práticas, e apesar de participar de práticas modernas (esportes, artes etc.), mostrar-se ainda no papel sacral do sujeito excessivamente protegido, que não age no mundo, mas, que somente tem paixões a respeito dele. Germinado nesse período, o amor romântico (D’INCAO, 2002, p.230), por exemplo, conjunto de regras que eufemizam toda a relação entre sexos, parece justamente ter feito o trabalho de conciliar os dois tempos: trazer formas de relação entre sexos modernas, mantendo a distância e a dominação patriarcais entre ambos. Isto é, por meio de uma forma de divisão do trabalho sexual, essa chamada romântica, que dá aos homens e às mulheres tarefas diferentes (ATIVO-passivo, RETO-curvo, EXTERIOR-interior, ACIMA- abaixo) as relações entre sexos, sob a capa do amor romântico, atuam como um princípio de manutenção da maneira patriarcal do homem agir sobre a mulher. Concomitância, nesse

sentido. Em outras palavras, na maneira, toda calculada, do homem conquistar a mulher,

falando “de seus pesinhos mimosos. De suas mãos delicadas. De sua cintura estreita. De

seus seios salientes e redondos” (FREYRE, 1985, p.97), encontra-se, na verdade, um

mecanismo que busca exprimir e acentuar “sua diferença física do homem; sua

especialização em boneca de carne para ser amolengada pelo homem. Pela imaginação do

poeta e pelas mãos do macho” (idem, ibidem, ibidem).

REFERÊNCIAS

BAHIA, Juarez. Jornal: história e Técnica. 4. ed. São Paulo: Ática, 1990.

BARROS, Diana Luz Pessoa de. Teoria Semiótica do Texto. 4. ed. São Paulo, Ática, 2007.

BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. 6. ed. São Paulo: Perspectiva, 2009.

A distinção: crítica social do julgamento. Porto Alegre: Edusp, Zouk,

2008.

& PASSERON, Jean-Claude. A reprodução: elementos para uma teoria

do sistema de ensino. Rio de Janeiro: Vozes, 2008.

&CHARTIEIR,

Roger. A leitura: uma prática cultural. In: CHARTIER,

Roger (org.). Práticas da leitura.4 ed. São Paulo: Estação Liberdade, 2009.

COURTÉS, Joseph; GREIMAS, Algirdas Julien. Contexto, 2008.

Dicionário de Semiótica. São Paulo:

D’INCAO, Maria Ângela. Mulher e família burguesa. In: DEL PRIORE, Mary (org.). Historia

das mulheres no Brasil. 6 ed. São Paulo: Contexto, 2002.

DISCINI, Norma. O Estilo nos Textos: história em quadrinhos, mídia, literatura. 2. ed. São

Paulo: Contexto, 2003.

DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa: o sistema totêmico na

Austrália. São Paulo: Paulinas, 1989.

ENGELS, Friedrich; MARX, Karl. A Ideologia Alemã. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

FERNANDES, Florestan. A Revolução Burguesa no Brasil. 2 ed. Rio de Janeiro: Zahar,

1976.

Capitalismo Dependente e classes sociais na América Latina. Rio

de Janeiro: Zahar, 1973.

FIORIN, José Luiz. Linguagem e Ideologia. 4 ed. São Paulo: Ática, 1988.

As astúcias da enunciação: as categorias de pessoa, espaço e tempo. 5. ed. São Paulo: Ática, 2005.

Elementos de análise do discurso. 14 ed. São Paulo: Contexto, 2008.

FREYRE, Gilberto. Modos de homem & modas de mulher. 3 ed.

São Paulo: Record, 1997.

Ordem e progresso. 5 ed. Rio de Janeiro: Record, 2000.

Sobrados e mucambos: decadência do patriarcado rural e desenvolvimento urbano. 7 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1985.

FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. 16 ed. São Paulo: Editora Nacional,

1979.

GODELIER, Maurice; CARVALHO, Edgar de Assis (org.). Godelier: antropologia. São Paulo:

Ática, 1981.

GREIMAS, Algirdas Julien. Semântica estrutural. São Paulo: Cultrix, 1973.

Semiótica e ciências sociais. São Paulo: Cultrix, 1981.

HERNANDES, Milton. A mídia e seus truques: o que jornal, revista, tv, rádio, internet fazem para captar a intenção do público. São Paulo: Contexto, 2006.

MARTINS, Ana Luíza & DE LUCA, Tania Regina. História da Imprensa no Brasil. São Paulo:

Contexto, 2008.

MARTINS, Luís. O patriarca e o bacharel. 2 ed. São Paulo: Alameda, 2008.

MARTINS, Ana Luíza & DE LUCA, Tânia Regina (orgs.). História da Imprensa no Brasil. São Paulo: Contexto, 2008.

MARX, Karl. Grundrisse. São Paulo: Boitempo, 2011.

MELLO, Evaldo Cabral de. O fim das casas-grandes. In: ALENCASTRO, Luiz Felipe de (org.). História da vida privada no Brasil: Império, vol. 2. São Paulo: Companhia da Letras,

1997.

PRADO JÚNIOR, Caio. História econômica do Brasil. 13 ed. São Paulo: Brasiliense, 1970.

RECTOR, Mônica. Para ler Greimas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978.

SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes,

1983.

WEBER, Max. Classe, “status”, partido. In: BERTELLI, Antônio, PALMEIRA, Moacir & VELHO, Otávio Guilherme (orgs.). Estrutura de classes e estratificação social. 5 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1974.