Você está na página 1de 6
IBP1749_12 EFEITO DA DEFORMAÇÃO PLÁSTICA DA AUSTENITA EM TEMPERATURA DE NÃO RECRISTALIZAÇÃO SOBRE A MICROESTRUTURA DO

IBP1749_12

EFEITO DA DEFORMAÇÃO PLÁSTICA DA AUSTENITA EM TEMPERATURA DE NÃO RECRISTALIZAÇÃO SOBRE A MICROESTRUTURA DO AÇO X-80 PARA TUBULAÇÃO Renato S. de Castro 1, Igor Rafael V. Pedrosa 2 , Ricardo Artur S.Ferreira 3 , Yogendra P. Yadava 4

Copyright 2012, Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis - IBP

Este Trabalho Técnico foi preparado para apresentação na Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012, realizado no período de 17 a 20 de setembro de 2012, no Rio de Janeiro. Este Trabalho Técnico foi selecionado para apresentação pelo Comitê Técnico do evento, seguindo as informações contidas no trabalho completo submetido pelo(s) autor(es). Os organizadores não irão traduzir ou corrigir os textos recebidos. O material conforme, apresentado, não necessariamente reflete as opiniões do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis, Sócios e Representantes. É de conhecimento e aprovação do(s) autor(es) que este

Trabalho Técnico seja publicado nos Anais da Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012.

Resumo

Aços de alta resistência e baixa liga (ARBL), largamente utilizados em tubulações de petróleo e gás, têm sido melhorados por meio do desenvolvimento de composição química e, principalmente, pelo uso de processos que empregam controle microestrutural. Neste trabalho, tratamentos termomecânicos foram aplicados em aço tipo API 5L X-80, a fim de se obter ferrita acicular na microestrutura. Após aquecimento até 950 ºC por 15 min., as amostras foram deformadas, em temperatura de não recristalização da austenita, alcançando redução de espessura de 10% a 35%, seguida de resfriamento brusco em água. Imagens obtidas por microscopia ótica e eletrônica revelaram que foi obtida microestrutura predominante de ferrita acicular. Por meio de análises de EBSD estudou-se o efeito da deformação na microestrutura. Foram identificadas as alterações no perfil de desorientação dos contornos, sendo possível relacionar esta modificação com aspectos morfológicos da ferrita acicular obtida.

Abstract

High strength low alloy steels (HSLA), widely used in oil and gas pipelines, have been improved through the development of chemical composition and especially by the use of processes with microstructural control. In this work, thermo-mechanical treatments were applied to an API 5L X-80 steel in order to obtain acicular ferrite microstructure. After heating to 950 ° C for 15 min., the samples were deformed at non-recrystallization temperature of austenite, reaching a thickness reduction of 10% to 35%, followed by quenching in water. Images obtained by optical and electron microscopy revealed that it was obtained predominantly acicular ferrite microstructure. The effect of deformation in the microstructure was studied by EBSD analyzes. Changes in the profile of misorientation of contours were identified and it was possible to relate this modification with morphological features of acicular ferrite obtained.

1-Introdução

Os aços ARBL (Alta Resistência e Baixa Liga), cuja composição e propriedades são estabelecidas pela norma API 5L (API, 2008), são largamente utilizados em tubulações de petróleo e gás. A necessidade tecnológica de aumento da tenacidade e resistência destes materiais tem levado à indústria siderúrgica a empregar novas técnicas de processamento Para a obtenção de aços que atendam à exigência de grau API superiores, a adição crescente de elementos de liga tornou-se uma rota inviável, pois eleva consideravelmente os custos de produção. Como rota alternativa a esta condição, a indústria siderúrgica buscou melhoria das propriedades com a modificação do processo de produção destes aços. Dentre as técnicas aplicadas podemos citar o resfriamento rápido e o tratamento termomecânico controlado ou uma combinação dos dois onde o tratamento termomecânico precede o resfriamento rápido (Caldeira E. et al, 2005), (Tang, Z, 2007).

______________________________

  • 1 Msc., Engenheiro Mecânico UFPE/IFPE

  • 2 Msc., Engenheiro Mecânico UFPE/IFPE 3 Dr., Engenheiro Mecânico UFPE

  • 4 PhD.,Físico UFPE

1

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012

Nos tratamentos termomecânicos um dos parâmetros determinantes do tipo de microestrutura obtida é a deformação plástica aplicada ao aço em sua fase austenítica. Aços ARBL submetidos a tratamento termomecânico, normalmente, apresentam microestruturas complexas, com presença de diversos constituintes e morfologias (Das et al, 2003), (Xiao F. 2005). No entanto a ferrita acicular é a microestrutura mais desejável tendo em vista sua elevada combinação de resistência e tenacidade. Com o uso de Microscopia eletrônica de varredura e da técnica de EBSD, estudamos o efeito da deformação plástica da austenita, em temperatura de não recristalização, por meio da realização de tratamento termomecânicos em amostras de aço X-80. Acreditamos que o entendimento dos fatores que influenciam a modificação microestrutural é caminho para o desenvolvimento de processos que resulte em melhoria de propriedades do aço com o objetivo de obtenção de aços com grau API superiores aos até então fabricados no Brasil.

2-Materiais e métodos

2.1-Composição química do aço

Para este estudo, utilizamos aço comercial com especificação API 5L X-80 fornecido pela Usiminas S/A.

Sua composição, verificada por meio de espectrometria de emissão é apresentada na tabela 1.

Tabela 1: composição química em peso (%) do aço em estudo.

 

Elemento químico em peso (%)

 

C

S

Al

Si

P

Ti

V

Cr

Mn

Ni

Cu

Nb

Mo

0,07

0,004

0,036

0,27

0,016

0,018

0,022

0,17

1,55

0,01

0,01

0,069

0,19

2.2-Tratamento termomecânico

Os corpos de prova foram produzidos em forma de tiras com dimensões de 100 x 9,5 x 6,0 mm, obtidos a

partir da usinagem de chapas de 3/4 pol. de espessura. As faces a serem laminadas foram submetidas a acabamento de fresagem com dimensão final de 6,0 ± 0,2 mm. As amostras foram aquecidas em forno de resistência elétrica até a temperatura de 950 ºC, mantidas por 15 minutos e laminadas, na direção longitudinal do comprimento da amostra, em laminador duo simples com taxa de deformação de 1,8 s -1 . Os percentuais de deformação aplicados foram de 10 a 35%, seguidos de resfriamento brusco em água à temperatura ambiente.

2.3-Preparação de amostras para microscopia e EBSD

As amostras foram cortadas sob refrigeração com um disco de corte de precisão e lixadas manualmente com lixas 400, 600, 800, 1200 e 1500. O polimento foi realizado com pasta de diamante de granulometria de 6 µm e

1 µm, seguidas de polimento em alumia coloidal de 1 µm. As micrografias foram obtidas em amostras atacadas com nital a 3%.

3-Resultados e discussão

O aço estudado apresentou, em sua estrutura original, grãos ferríticos poligonais bem delineados, com tamanho médio de 3.6 ±0.3 µm, como mostrado na figura 1. O material não apresentou textura de laminação aparente.

As amostras submetidas ao tratamento termomecânico tiveram eliminada a predominância de ferrita poligonal em sua microestrutura. A morfologia da amostra submetida à deformação de 10% apresentou-se de forma lamelar. Já as amostras deformadas em 25 e 35% apresentaram considerável diferença em sua morfologia quando comparadas à deformada em 10%. Nas amostras mais intensamente deformadas (figura 2 e figura 3(b)) foi predominante a presença de ferrita acicular, caracterizada por feixes ferríticos de ripas intertravadas em uma distribuição caótica favorável ao aumento da tenacidade (Wang W. et al, 2009), (Bhadeshia, 2001).

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 Figura1: Microscopia ótica do aço com recebido. Figura2:

Figura1: Microscopia ótica do aço com recebido.

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 Figura1: Microscopia ótica do aço com recebido. Figura2:

Figura2: Microscopia ótica do aço submetido a tratamento termomecânico deformado de 35%.

Na amostra deformada em 35% verificou-se a diminuição do comprimento das ripas de ferrita acicular e o aumento do intertravamento da estrutura, quando comparado a amostras menos deformadas (figura 3). Esta ocorrência pode estar relacionada com o aumento dos sítios de nucleação da ferrita, pois levados níveis de deformação favorecem a nucleação ao mesmo tempo em que dificulta o crescimento das ripas de ferrita acicular Lee et al (2003). Em algumas amostras também se observou a presença de feixes ferríticos alinhados (figura 3 (b)). Apesar da tendência de paralelismo entre as ripas não foi possível a identificação dos contornos de grãos austeníticos originário, fortalecendo a ideia de que a nucleação ocorreu de forma intragranular excluindo a possibilidade de se tratar de ferrita bainítica.

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 Figura1: Microscopia ótica do aço com recebido. Figura2:
Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 Figura1: Microscopia ótica do aço com recebido. Figura2:

Figura 3: Micrografia obtida por MEV em amostras de aço: (a) como recebido (b) com tratamento termomecânico deformado a 25%, (c) com tratamento termomecânico deformado a 35%.

Considerando-se que para o aço em estudo a temperatura de recristalização dinâmica está em torno dos 1100 ºC (Tang Z, 2007), a predominância da ferrita acicular nas amostras mais intensamente deformadas pode ser atribuída à influência da deformação plástica da austenita à temperatura de não recristalização (Madariaga et al, 2001). A alta densidade de discordâncias na austenita deformada parece ser benéfica à formação de núcleos para a ferrita acicular em detrimento da nucleação da ferrita bainítica. Apesar de ambas as microestruturas terem transformações de natureza predominantemente cisalhante, a deformação plástica da austenita, suprime a formação de estrutura bainítica a partir do contorno de grão e favorece a formação de estrutura acicular estimulada pela

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012

nucleação intragranular (Tang e Stumpf, 2008). Este resultado também corrobora com os obtidos por Kim (2008) que a partir de tratamentos termomecânicos de composição equivalente a um aço X-80, chegou a obter uma estrutura com 90% de ferrita acicular por meio do incremento de deformação plástica na zona de não recristalização da austenita. Wang et al (2009) estudou aços de alta resistência para tubulação e comparou as propriedades mecânicas de um aço com microestrutura predominantemente acicular a outro predominante ferrítico poligonal. Os autores obtiveram maiores valores de resistência e dureza no aço com ferrita acicular e atribuíram tal resultado a granulometria mais fina e maior densidade de discordâncias e subunidades neste tipo de microestrutura. Para Shanmugam (2008), a mudança na microestrutura de ferrita/perlita para uma estrutura predominantemente acicular é fator responsável pela combinação de alta resistência e tenacidade nos aços micro ligados ao Nb em altas taxas de resfriamento.

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 nucleação intragranular (Tang e Stumpf, 2008). Este resultado
Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 nucleação intragranular (Tang e Stumpf, 2008). Este resultado

Figura 4: Mapa de contorno de grãos obtido por EBSD: (a) aço como recebido, (b) aço deformado a 35%.

Os mapas de contorno de grão (figura 4) revelam a ocorrência de modificação microestrutural, partindo de uma morfologia com contornos regulares e grãos bem delineados, no aço como recebido (figura 4 (a)) para uma morfologia menos regular e mais refinada (figura 4 (b)). Os gráficos de desorientação (figura 5) gerados a partir das análises de EBSD atestaram o efeito da deformação plástica sobre a formação da ferrita acicular e refinamento do tamanho médio do grão. Tais análises revelaram que a deformação plástica tem influência não somente na modificação morfológica dos grãos, mas também na formação de subestruturas, não reveladas por microscopia, com graus de desorientação cristalográfica de até 5° entre elas (Kim, 2008).

a c b Figura 5: Distribuição do grau de desorientação no aço: (a) como recebido, (b)
a
c
b
Figura 5: Distribuição do grau de desorientação no aço: (a) como recebido, (b) deformado a 10%, (c) deformado a

35%.

Pode-se observar, a partir da comparação entre os histogramas, que o aço como recebido apresenta uma distribuição de frequência mais aproximada da distribuição normal. (figura 5 (a)). Para a condição de tratamento com deformação de 10% observa-se o aumento da frequência em baixos ângulos (2° a 15°) e também em alto ângulo (50° a 60°) (figura 5 (b)). Esta tendência é mantida para as demais condições. Este resultado, reforçado pela análise das micrografias de MEV, indica que a modificação no perfil de distribuição do grau de desorientação é uma consequência do efeito da deformação plástica sobre a nucleação austenita e formação de subgrãos nos pacotes cristalográficos de ferrita acicular.

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012

O aumento da deformação plástica da austenita em temperatura de não recristalização estimula a formação de sítios intra granulares favoráveis à nucleação da ferrita acicular (Lee et al, 2003) cuja microestrutura é formada por pacotes cristalográficos com um grau de desorientação entre si em torno dos 5°, com subunidades desalinhadas de 1° a 2° (Kim, 2008). Guo et al (2010) ao estudar propriedades mecânicas em juntas soldadas de aço com ferrita acicular, atribuíram o aumento de dureza em determinadas regiões à presença de graus de desorientação de até 3º. Segundo aquele autor a alta frequência de baixo ângulo é uma boa indicação do grau de refinamento da estrutura.

4-Conclusões

Microestrutura predominante de ferrita acicular pode se obtida em aços API 5L X-80 a partir de seqüências termomecânicas com deformação plástica abaixo da temperatura de não recristalização da austenita. O aumento do nível de deformação contribui para diminuir o comprimento das ripas dos feixes da ferrita acicular e eleva o seu intertravamento. O tratamento termomecânico modifica o perfil de distribuição do grau de desorientação das fronteiras elevando a frequências de desorientação em baixo ângulo (2° a 15°) e também em alto ângulo (50° a 60°), tendendo para uma distribuição do tipo bimodal. Esta modificação está relacionada com o aumento da ocorrência de contorno de baixo ângulo e grau de desalinhamento entre subunidades presente na ferrita acicular. A técnica de EBSD é válida para o estudo das alterações morfológicas e cristalográficas em aço submetido a tratamento termomecânico, revelando sua evolução microestrutural e efeitos decorrentes da deformação aplicada.

5-Agradecimentos

Os autores agradecem à FACEPE pelo apoio financeiro e ao LME/LNNANO/LNLS-CNPq pelo suporte técnico nas análises de EBSD e microscopia eletrônica.

6-Referências

API-American petroleum Institute, Specification for pipe line, specification 5L, norma técnica, 2008. CALDEIRA E.; LOURENCO P. de T.; COSTA R. de O; BELLON J. C.; CARVALHO R. D.; CELTIN P. R., Desenvolvimento de aços atendendo a norma API 5L no laminador de tiras a quente da CST, 60º Congresso da ABM, 2005.

BHADESHIA, H. K. D. H. Acicular Ferrite in Bainite in steels- transformations, microstructure and properties. Segunda edição, Cambridge, University of Cambridge, 2001. Página 237-273, capítulo 10.

DAS, S.; GHOSH, A.; CHATTERJEE, S.; RAO, P. R. Microstructural characterization of controlled forged HSLA- 80 steel by transmission electron microscopy. Materials Characterization, 50: 305-315, 2003.

GUO, A.; MIRSA, R. D. K.; LIU, J.; CHEN, L.; HE, X.; JANSTO S. J. Analysis of the microstructure of the heat- affected zone of an ultra-low carbon and niobium-bearing acicular ferrite steel using EBSD and its relationship to mechanical properties. Materials Science and Engineering A, 527: 6440-6448. 2010.

KIM, Y. M.; LEE H.; KIM N. J. Transformation behavior and microstructural characteristics of acicular ferrite in linepipe steels. Materials Science Engineering A478: 361-370, 2008.

LEE, C. H.; BHADESHIA, H. K. D. H.; LEE, H-C. Effect of plastic deformation on the formation of acicular ferrite. Materials Science Engineering A360: 249-257, 2003.

MADARIAGA I., Gutierrez I., Bhadeshia H.K.D.H. Acicular ferrite morphologies in a medium-carbon microalloyed steel. Metall. Mater Trans A, 32A: 218797. 2001.

SHANMUGAM, S.; RAMISETTI, N. K.; MISRA, R. D. K.; HARTMANN, J.; JANSTO, S. G. Microstructure and High StrengthToughness Combination of a New 700MPa Nb-Microalloyed Pipeline Steel. Materials Science and Engineering A, 478, 26-37, 2008.

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012

TANG, Z.; Optimising the transformation and yield to ultimate strength ratio of Ni-Ti micro-alloyed low carbon line pipe steels through alloy and microstructural control, Pretoria, 2007. 229p (Doutorado- University of Pretoria).

TANG, Z.; STUMPF, W. The role of molybdenum additions and prior deformation on acicular ferrite formation in microalloyed NbTi low-carbon line-pipe steels. Materials Characterization, 59: 717-728., 2008.

WANG W., SHAN W., YANG K., Study of high strength pipeline steels with different microstructures, Materials Science and Engineering A, 502: 38-44, 2009.

XIAO, F.; LIAO, B.;REN, DELIANG; SHAN, Y.; YANG, K. Acicular ferritic microstructure of a low-carbon MnMoNb microalloyed pipeline steel. Materials Characterization, 54:305-314, 2005.