ARQUITETURA, BIOSSEGURANÇA EM LABORATÓRIOS DE EXPERIMENTAÇÃO ANIMAL.

Maria da Gloria Silva da Costa A Biossegurança pode ser definida de uma forma mais abrangente como sendo um o conjunto de ações voltadas para a prevenção, minimização ou eliminação de riscos inerentes às atividades de prestação de serviços, produção, ensino, pesquisa e desenvolvimento tecnológico visando a saúde do homem, dos animais, a preservação do meio ambiente e a qualidade dos trabalhos desenvolvidos (1). Permite a interlocução com diversas áreas do conhecimento e torna-se um tema de relevância nos estudos em que se avaliam riscos existentes nos ambientes de trabalho em instituições de saúde. Os danos, que podem ser causados pela realização do trabalho em laboratórios, vêm sendo estudados como potencial risco ocupacional. Cardoso (2) reconhece que a avaliação de risco é um importante instrumento para a adoção de medidas que visam a sua minimização, cuja análise contempla não só procedimentos, aspectos informacionais e utilização de equipamentos de segurança, mas também os relativos à infraestrutura física. Tal avaliação deve preceder à determinação do nível de Biossegurança do laboratório, de forma a se determinar quais as medidas de contenção a serem adotadas. Quanto à infra-estrutura física, a autora salienta que este aspecto se constitui em um dos fatores de importância para o funcionamento eficaz de um laboratório de experimentação animal e, conseqüentemente, para o cuidado e a vigilância adequados à manutenção dos animais (3). Portanto, a combinação entre os aspectos construtivos, equipamentos e métodos operacionais faz do sistema de barreiras, primárias e secundárias, um mecanismo que permite estabilizar as condições ambientais das áreas minimizando a probabilidade de contaminação humana e animal por patógenos e serão estabelecidas em função dos processos de trabalho a serem desenvolvidos e do potencial do agente de risco manipulado. 1

químicos. os biotérios constituem-se em instalações que se destinam a criação e manutenção de espécies animais destinadas a servir como reagentes biológicos. ser um espaço de trabalho importante a ser explorado. Dentro dos aspectos referentes aos animais a serem considerados em uma avaliação de risco.”. visam não só minimizar riscos de infecção ou acidentes.Segundo Cardoso (3). para atender à necessidades específicas. seu grau de agressividade. tendência à mordedura ou arranhadura. demonstrando . nos quais há a possibilidade de exposição a diversos agentes de risco. estão a espécie animal. como a utilização de equipamentos de proteção individual e coletiva. segundo a finalidade da instituição. biológicos e de acidentes. “os biotérios de experimentação assumem papel de maior importância tendo em vista os riscos potenciais e efetivos dos experimentos com agentes patogênicos de diferentes classes de risco” (6). a fim de estabelecer e implementar práticas operacionais. 2 . demonstrando que cada atividade desenvolvida deve ser avaliada para que sejam adotados os princípios adequados de Biossegurança. Nos laboratórios de experimentação animal os pesquisadores manipulam e controlam diversos instrumentos e reagentes biológicos. Este artigo visa discutir esta importância. Além disto. Conforme aponta o autor.. Majerowicz (4) ressalta que estes aspectos aliados a outros. execução de um planejamento arquitetônico adequado e sobretudo na fase pósocupacional. pois o animal já é um fator de amplificação de risco. Majerowicz (4) salienta que “a biossegurança em biotérios assume uma dimensão diferenciada de outras atividades em função da presença do animal. a execução de avaliações periódicas das condições ambientais. parasitas naturais e zoonoses susceptíveis (5). ergonômicos. a serem definidas. realizando um conjunto de fases e operações que caracterizam o processo de trabalho.. tais como os físicos. os biotérios de experimentação ao utilizarem espécies ou linhagens provenientes de diferentes biotérios de criação estão mais suscetíveis ao risco da introdução de infecções e contaminações. como também impedir a contaminação do ambiente externo.

A atividade de pesquisa na área da saúde seja para desenvolvimento tecnológico de insumos. (7). Estudos que utilizam como estratégia a observação de situações reais de trabalho permitenos fazer a leitura do espaço em uso. etc. um cidadão. Além disto. podemos inferir que teremos. Esse homem está em constante interação com o seu meio social. nestes locais. Tais construções. ambiental. suas complexidades e seus efeitos sobre a arquitetos. qualidade e segurança”. também. é necessário que sejam analisados todos os mecanismos que caracterizam a relação entre ambiente e processos de trabalho. acima de tudo. entre os pesquisadores e usuários com os engenheiros e arquitetos. É importante o envolvimento dos membros das equipes multidisciplinares desde a fase de planejamento da edificação de um laboratório. contínuo e intenso. se propiciarmos a esse homem condições saudáveis. Por isto. “os suportes laboratoriais são dependentes do projeto de edificação. Portanto. pois como é apontado por Cardoso (3). Essa eficiência e essa eficácia estão. intimamente ligadas ao homem. evitando. também. exigem o envolvimento de equipes multidisciplinares e instalações laboratoriais diferenciadas e específicas (6). infecções cruzadas e assegurando a saúde dos trabalhadores”. Para a elaboração deste projeto há a necessidade de intercâmbio. Costa (8) salienta que “a confiabilidade dos resultados está intimamente relacionada à eficiência dos processos e à eficácia dos resultados. compreender como são desenvolvidas as atividades. Biossegurança e Saúde. que muitas vezes requer longos períodos de duração em seus ensaios. a disseminação ou a contaminação ambiental. e o considerarmos. devem levar em conta vários fatores que devem estar presentes no desenvolvimento de qualquer trabalho de investigação para assegurar o desempenho a qualidade dos trabalhos e a segurança dos pesquisadores. fármacos ou imunobiológicos. 3 saúde. dados estes que devem ser utilizados pelos . assim. a que chamaremos bioinstalações. a partir da interface entre Arquitetura. para diagnóstico ou para fins de pesquisa é bastante complexa.

Pode ser citado. de outras pessoas e do meio ambiente aos agentes potencialmente infecciosos (9).Agentes potencialmente perigosos devem ser confinados ao ambiente onde se realiza o trabalho com animais. Na implementação dos níveis de contenção são utilizados dois tipos de barreiras: primárias (formadas pelas práticas operacionais e pelos equipamentos de proteção individuais e coletivos) e secundárias. que formam um sistema que combina os aspectos construtivos. A barreira de contenção secundária é constituída por uma série de componentes integrados a fim de construir um ambiente laboratorial mais seguro distinto dos outros ambientes em seu entorno. sistemas de ventilação. nos laboratórios de experimentação animal. dentre outros. equipamentos e procedimentos operacionais. possibilitando a definição de padrões de qualidade para os diferentes níveis de contenção. sendo as exigências de contenção crescentes no seu grau de complexidade e no nível de proteção aos profissionais e ao meio ambiente (10). onde é demonstrada a probabilidade de liberação de aerossóis. podem expor os profissionais a diversos tipos de risco. fluxo de ar direcional com diferencial de pressão. Esta classificação divide os agentes em quatro classes de risco. dentre eles estão os agentes de risco biológico. autoclaves de barreira. os vestiários de barreira. a separação das áreas de trabalho das áreas públicas. Dentre os critérios que estabelecem os níveis de contenção devem ser consideradas as exigências da qualidade. Como foi dito anteriormente. As instalações que permitem a contenção destes agentes necessitam serem projetadas conforme a classificação de risco do agente etiológico envolvido. câmaras de transferências. O confinamento é feito utilizando-se as barreiras de contenção. Um exemplo disto pode ser dado pela análise de risco a partir de cálculos. as atividades desenvolvidas nestes espaços laborais. visando minimizar ou eliminar a probabilidade de exposição dos profissionais do laboratório. As barreiras contenção secundárias possuem duas funções importantes: 4 . como exemplo de barreiras secundárias. o qual pode ser realizado em vários níveis de contenção dependendo da avaliação de risco do processo de trabalho.

2005. Majerowicz J. Panam. Procedimentos de biossegurança para as novas instalações do Laboratório de Experimentação Animal (Laean) de Bio-Manguinhos. [Dissertação em Saúde Pública] Escola Nacional de Saúde Pública. Itter G. Valle S. J Am Assoc Lab Anim Sci. Arquitetura e Saúde do Trabalhador : Da Gênese Ao Uso. − Criar uma barreira ao escape do risco biológico. a Construção dos espaços. 64-67: 3-17. Mestrado. Referências bibliográficas Cardoso TAO. 5 . Rio de Janeiro: Fiocruz. umidade e pressão de ar sejam controladas. Mestrado Profissional [Dissertação em Tecnologia de Imunobiológicos] Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos/Instituto Oswaldo Cruz. Centr. Bol. 2001. Rio de Janeiro.− Configurar um ambiente bem definido para a contenção e assegurar que todos os parâmetros relevantes tais como temperatura. Considerações sobre a Biossegurança em Arquitetura de Biotérios. Hansen A K. Rio de Janeiro. Fosse R T. 45: 51–53. 2003. 1996. Fiebre Aftosa. Controlling allergens in animal rooms by using curtains. Krohn T C. Riscos biológicos em laboratórios. In: Biossegurança uma abordagem multidisciplinar. Teixeira P. Costa MGS. Um olhar para além das normas. 2006.

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