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VII COLÓQUIO INTERNACIONAL MARX E ENGELS

Lênin e a Questão Agrária na Rússia no final do século XIX e início do século XX

Introdução

Marcos Cassin 1 Rodolfo de Jesus Chaves 2 Mírian Helena Goldschmidt 3 GT3 Marxismo e ciências humanas

Neste texto propomos apresentar alguns escritos de Vladimir Ilitch Lênin de

antes e durante os primeiros dias da Revolução Socialista de 1917, selecionados a partir

da temática agrária. Esse corte tem como objetivo compreendermos os estudos e as

análises das formulações teóricas e políticas de Lênin frente à Revolução Burguesa e o

desenvolvimento capitalista de economia mercantil e seus impactos na organização do

trabalho e na vida dos camponeses, como também as primeiras propostas apresentadas

para o campo e camponeses no início da construção da Rússia Soviética.

Nossas intenções de buscar em Lênin alguns referenciais teóricos a respeito da

questão agrária são de contribuir nas análises e estudos sobre o tema hoje no Brasil,

como também apontar algumas reflexões aos debates e às lutas pautadas pelos

movimentos sociais e sindicais, partidos políticos e intelectuais a respeito da Reforma

Agrária no Brasil no que se refere aos seus avanços e limites.

Lênin e a Questão Agrária

Lênin desde sua juventude esteve envolvido nos embates políticos e intelectuais

das questões agrárias da Rússia, efervescência do contexto da Reforma Camponesa que

aboliu a servidão em 1861 e das transformações capitalistas no campo. Os resultados

1 Doutor em Educação pela Universidade Estadual de Campinas, Professor de Sociologia da Educação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Universidade de São Paulo campus Ribeirão Preto e pesquisador do Instituto Cultural Lyndolpho Silva.

2 Mestre em Educação pela Universidade Federal de São Carlos, professor de História nas redes Estadual e Municipal de São Paulo e pesquisador do Instituto Cultural Lyndolpho Silva.

3 Doutoranda em Educação pela Universidade Federal de São Carlos, Supervisora de Ensino da rede Estadual de São Paulo e pesquisadora do Instituto Cultural Lyndolpho Silva.

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dessas transformações no campo significaram “a desintegração do campesinato”, a constituição de uma burguesia camponesa e de um proletariado camponês. Destacamos dois textos de Lênin, escritos antes de completar 30 anos, “A que herança renunciamos?” 4 escrito em 1897 e “O desenvolvimento do capitalismo na Rússia” 5 escrito em 1899. O primeiro se caracteriza como resposta a Mikháiloski, um populista liberal, que acusa os “discípulos” (seguidores de Marx e Engels) de renunciarem à herança de lutas deixada pelos movimentos contra o Tsarismo e as péssimas condições dos camponeses no início da segunda metade do século XIX, pós Reforma Camponesa de 1861 na Rússia. Quanto ao segundo texto, se assinala por ser uma análise rigorosa do desenvolvimento do capitalismo na Rússia e de seus desdobramentos na organização da nova forma de produção, eliminando contradições e o surgimento de novas contradições típicas das relações capitalistas, no essencial o aparecimento das classes sociais fundamentais desse modo de produção no campo e na cidade. Iremos nos deter mais ao primeiro texto, citado acima, dados os objetivos deste nosso artigo, de buscarmos identificar concepções, categorias e conceitos que se referem sobre a questão agrária, em particular de Reforma Agrária, nos debates travados por Lênin no campo intelectual e política dentro e fora do campo marxista e que possam contribuir nas análises das atuais concepções sobre a Questão Agrária e Reforma Agrária no Brasil, como também reconhecermos identidades e divergências dos atuais movimentos que lutam pela Reforma Agrária hoje e as contribuições que a história pode nos fornecer. Em “A que herança renunciamos?”, Lênin trava grande embate com os populistas”, corrente revolucionária pequena burguesa muito influente nas décadas de 60 e 70 do século XIX na Rússia, que lutavam pelo fim do regime autocrático do país e pela distribuição das terras dos latifundiários aos camponeses. Segundo o autor, esta corrente defendia a possibilidade da construção do socialismo sem necessariamente passar pelo desenvolvimento capitalista, propunha o socialismo “camponês” que incorporasse as tradições de produção aldeã da Rússia tsarista, levando essa corrente à “idealização do camponês e de sua comunidade [constituindo-se como] uma das partes

4 Vladimir Ilitch Lenine. A que herança renunciamos?. In: Obras Escolhidas. 2ª edição. São Paulo, Editora Alfa-Omega, 1982, v.1. 5 Vladimir Ilitch Lênin. O desenvolvimento do capitalismo na Rússia. São Paulo, Abril Cultural, 1982. (Os economistas)

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integrantes e necessárias do populismo” 6 . No texto Lênin conceitua o populismo a partir de três traços:

Por populismo entendemos um sistema de concepções, que

compreende os três traços seguintes: 1) Considerar o capitalismo na

Rússia como uma decadência, uma regressão

original o regime económico russo em geral e o camponês com sua comunidade, artel, etc., em particular. Não se considera necessário aplicar às relações económicas russas os conceitos elaborados pela ciência moderna sobre as diferentes classes sociais e os seus conflitos. O campesinato da comunidade é considerado como algo superior e

2) Considerar

3) Ignorar as relações

entre a “intelectualidade” e as instituições jurídico-políticas do país, por um lado, e os interesses materiais de determinadas classes

sociais, por outro

melhor em comparação com o capitalismo

(grifos do autor). 7

Também é apresentada a corrente intitulada “Herança” que apresentava uma concepção iluminista enquanto uma corrente intelectual e política que defendia a reforma de 1861 e a aceleração das relações capitalistas na Rússia, pois esses fenômenos políticos e econômicos levariam o país ao progresso e a sua ocidentalização. Em suas análises das concepções dessa corrente, se utiliza de uma obra escrita em 1870 “Numa aldeia Perdida e na Capital” por Skáldine 8 . Segundo Lênin, esse autor, representante desta corrente, diferenciava-se da concepção populista a respeito da reforma camponesa.

Skáldine considera a reforma sem qualquer ilusão, sem nenhuma espécie de idealização, vê nela um acordo entre duas partes os latifundiários e os camponeses que, até então, tinham usufruído a terra em comum em determinadas condições e que agora se dividiram, modificando-se com essa divisão a posição jurídica de ambas as partes. Os interesses das partes foram o factor determinante da forma dessa divisão e da extensão que cada uma delas recebeu. Esses interesses determinavam as aspirações de cada uma das partes, mas a possibilidade de uma delas participar directamente na própria reforma e na solução prática dos diversos problemas da sua realização foi, entre outras coisas, o que determinou o seu predomínio. 9

Na análise da “Herança”, os camponeses, na reforma “agrária” burguesa da Rússia, tiveram condições bem mais desvantajosas em relação aos camponeses nas reformas dos países ocidentais, decorrentes dos excessivos impostos, das relações

6 Lenine. A que herança renunciamos?, cit., p.58.

7 Idem, Ibidem, p.63.

8 Escritor e publicista russo, nos anos 60 foi um liberal burguês, colaborou na revista “Otétchestvennie”.

9 Lenine. A que herança renunciamos?, cit., p.49.

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monetárias que as novas relações exigiam e das condições desiguais na obtenção das condições de produção, como por exemplo: insumos, animais de tração, capacidade de compra de terras, arrendamentos de novas terras e capacidade de uso da força de trabalho familiar e assalariada. Lênin ao relacionar os populistas à “Herança” indica a importância destes ao colocarem os problemas do capitalismo na Rússia, mas também critica ao não apontarem soluções satisfatórias,

em consequência do seu ponto de vista pequeno-burguês e da sua crítica sentimental do capitalismo, que numa série de importantes questões da vida social ficou atrás em comparação com os “iluministas”. A associação do populismo com a herança e com as tradições dos nossos iluministas mostrou-se no fim de contas um facto negativo: os novos problemas que o desenvolvimento da Rússia posterior à reforma colocou ao pensamento social russo não foram solucionados pelo populismo, que se limitou a lamentações sentimentais e reacionárias a seu respeito, e obscureceu com o seu romantismo os velhos problemas, que já tinham sido levantados pelos iluministas, e retardou a sua completa solução (grifos do autor). 10

Ao relacionar as correntes populista e iluminista, afirma que a primeira teve como virtude identificar os problemas sociais da reforma, mas sem propor soluções a esses e a segunda por ter o mérito de enxergar as novas contradições que aparecem com o desenvolvimento capitalista na Rússia, contudo, sem perceber o aprofundamento das desigualdades geradas a partir desse desenvolvimento. Lênin ao se referir aos “discípulos” identifica essa corrente como superação das posições das correntes acima mencionadas, asseverando que essa “confia no actual desenvolvimento social, pois vê a garantia de um futuro melhor unicamente no pleno desenvolvimento destas contradições” 11 . Com relação ao posicionamento dos “discípulos” a respeito das Questões Agrárias e da Reforma Agrária com a aproximação da Revolução Russa de 1905-1907, podemos identificar a concepção de Lênin no texto “Um passo em frente, dois passos atrás” 12 , escrito em 1904, referindo-se às disputas dos vários grupos no interior do segundo congresso do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR) e, entre os

10 Idem, Ibidem, p.71.

11 Idem, Ibidem, p.71.

12 Vladimir Ilitch Lenine. Um passo em frente, dois passos atrás. In: Obras Escolhidas. 2ª edição. São Paulo, Editora Alfa-Omega, 1982, v.1.

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vários debates, a proposta do Programa Agrário feita pelos Iskristas 13 tomou grande parte do tempo do congresso. Apesar do texto se restringir às polêmicas e apresentar muito pouco o conteúdo do programa, consideramos o debate entre Mákhov e Plekhánov emblemático, pois:

O ponto de vista do “marxismo” vulgar sobre a questão agrária na

Rússia teve a sua expressão culminante nas últimas palavras do discurso do camarada Mákhov no qual este fiel defensor da velha redação do Iskra expôs os seus princípios. Por alguma razão as suas

irónicos, é verdade. “Não sei

palavras foram recebidas com aplausos

verdadeiramente ao que se possa chamar uma desgraça” – disse o camarada Mákhov, indignado com a observação de Plekhánov de que o movimento a favor da partilha negra 14 não nos assustava de modo

nenhum, e que não seríamos nós a entravar esse movimento progressivo (progressivo burguês). 15

A citação acima nos aponta para uma das problemáticas fundamentais do texto O Programa Agrário da Social Democracia na Primeira Revolução Russa de 1905190716 , escrito por Lênin no final de 1907. Nesse texto encontramos mais sistematizadas as propostas e possibilidades de Reforma Agrária na Revolução Burguesa na Rússia. Referindo-se ao desenvolvimento agrário neste momento, afirma que só há um caminho para esse desenvolvimento capitalista e de economia de mercado, mas apesar desse único caminho, são possíveis duas formas diferentes desse desenvolvimento 17 :

formas desse desenvolvimento podem ser duas. Os restos do

feudalismo podem desaparecer, quer mediante a transformação dos domínios dos latifundiários quer mediante a destruição dos latifúndios feudais, isto é, por meio da reforma ou por meio da revolução. O desenvolvimento burguês pode verificar-se tendo à frente as grandes propriedades dos latifundiários, que paulatinamente se tornarão cada vez mais burguesas, que paulatinamente substituirão os métodos feudais de exploração pelos métodos burgueses; e pode verificar-se também, tendo à frente as pequenas explorações camponesas, que, por via revolucionária, extirparão do organismo social a “excrescência”

as

13 Grupo da redação do jornal Iskra (A Faísca) e liderado por Lênin

14 Palavra de ordem popular no interior do campesinato da Rússia tsarista, que exprimia o desejo dos camponeses à partilha total da terra.

15 Lenine. Um passo em frente, dois passos atrás, cit., p.240.

16 Vladimir Ilitch Lênin. O programa agrário da social− democracia na primeira Revolução Russa de 1095 1907. Goiânia, Alternativa, 2002.

17 Essa tese também aparece no Prefácio à segunda edição do livro “O desenvolvimento do capitalismo na Rússia” escrito por Lênin em 1907. Ainda sobre essa edição cabe destacar a importância que Lênin dá às divergências com os populistas, substituindo o título do primeiro capítulo de “Referências à Teoria” para “Os erros Teóricos dos Economistas Populistas”.

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dos latifúndios feudais e, sem eles, desenvolver-se-ão livremente pelo caminho da agricultura capitalista dos granjeiros. A estes dois caminhos do desenvolvimento burguês, objetivamente possíveis, chamaríamos de caminho tipicamente prussiano e caminho do tipo norte-americano. 18

Julgamos esse texto fundamental para compreender as concepções e teorias que hoje orientam os lutadores pela Reforma Agrária, ou Revolução Agrária 19 , no Brasil. Ao mesmo tempo nos possibilita distinguir essas concepções e orientações no quadro político reacionário, reformista e revolucionário no que se refere ao capitalismo e sua superação na perspectiva socialista. Com relação ao Programa agrário do POSDR, Lênin assegura que:

O atual programa do Partido Social−Democrata, aprovado no Congresso de Estocolmo, dá um grande passo adiante, relativamente ao programa precedente, numa importante questão. A saber: ao endossar o confisco das terras dos latifundiários, o Partido Social−Democrata enveredou, pois, de maneira decidida, pelo caminho do reconhecimento da revolução agrária camponesa. As palavras do programa: “apoiando a ação revolucionária dos camponeses até chegar ao confisco das terras dos latifundiários”. 20

Afirma que a posição dos sociais-democratas frente à Revolução Russa deve ser em defesa da forma norte-americana no caminho do desenvolvimento agrário, esta é a mais democrática do ponto de vista burguês. Na discussão da participação dos sociais- democratas na Revolução também defende a estatização das terras, sendo esta proposta importante à própria burguesia que não precisaria dispor de capital para a compra de terras, direcionando todo seu capital para a produção. A defesa da estatização das terras e sua distribuição aos camponeses na Revolução Russa defendida no texto de 1907, acima citado, também aparece dez anos depois na Resolução Sobre a Questão Agráriada VII Conferência (de abril) de toda a Rússia do POSDR, já após a Revolução Russa de fevereiro e durante o governo provisório. Nesse texto de 1917, Lênin volta a afirmar a estatização (nacionalização) das terras como uma medida burguesa que:

18 Idem, Ibidem, p.28−29.

19 Importante destacar a distinção que Lênin faz de Reforma e Revolução Agrária, mantendo os dois conceitos a partir dos interesses da revolução burguesa com diferentes formas de distribuição das terras, ou seja, o termo Reforma vinculado à proposta chamada de Prussiana de desenvolvimento agrário burguês e o termo Revolução vinculado à proposta chamada por Lênin de norte−americana de desenvolvimento agrário burguês. 20 Lênin. O programa agrário da social− democracia na primeira Revolução Russa de 1095−1907, cit.,

p.48.

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significa liberdade da luta de classe e a liberdade do uso fruto da terra,

no

grau mais elevado possível e concebível na sociedade capitalista,

de

todos os apêndices não burgueses. Além disso, a nacionalização da

terra, como abolição da propriedade privada sobre a terra, representaria na prática um golpe tão poderoso na propriedade de todos os meios de produção em geral que o partido do proletariado deve prestar todo o seu concurso a essa transformação. 21

Já no fim de setembro de 1917, às portas da Revolução Socialista de outubro na Rússia, Lênin escreve o posfácio para edição do livro “O programa agrário da social−democracia na primeira Revolução Russa de 1905-1907”, reafirmando que a estatização da terra “não é só a „última palavra‟ da revolução burguesa, mas também um passo no sentido do socialismo” 22 . No dia do assalto ao poder da Revolução Socialista Russa, 25 de outubro de 1917 23 , Lênin se refere às questões agrárias no “Segundo Congresso dos Sovietes de Deputados Operários e Soldados de Toda a Rússia”, realizado entre os dias 25 e 26 de outubro de 1917 24 , reafirmando a estatização de todas as terras e sua entrega aos comitês camponeses 25 . No segundo dia do congresso, apresenta o “Relatório sobre a Terra” e o “Decreto sobre a Terra”. Com relação ao primeiro, Lênin afirma:

Consideramos que a revolução provou e mostrou como é importante

que a questão da terra seja colocada com clareza. O desencadeamento

da insurreição armada, da segunda revolução, a de Outubro, prova

claramente que a terra deve ser entregue nas mãos dos camponeses

O governo da revolução operária e camponesa deve resolver, em

primeiro lugar, a questão da terra. 26

Quanto ao “Decreto sobre a Terra”, aponta cinco itens:

21 Vladimir Ilitch Lenine. VII Conferência (de abril) de toda a Rússia do POSDR (b). In: Obras Escolhidas. 2ª edição. São Paulo, Editora Alfa-Omega, 1982, v.2, p.82.

22 Lênin. O programa agrário da social− democracia na primeira Revolução Russa de 1095−1907, cit.,

p.229.

23 A data se refere ao calendário Juliano, usado na Rússia revolucionária. O calendário Juliano é 13 dias defasados do calendário Gregoriano. Portanto, no calendário Gregoriano, o que usamos atualmente, a tomada do poder pelos bolcheviques corresponde a 07 de novembro de 1917.

24 Neste congresso foi deliberado a formação de um governo provisório operário camponês que foi denominado Conselho de Comissários do Povo, Lênin foi eleito Presidente desse conselho.

25 Vladimir Ilitch Lenine. Segundo Congresso dos Sovietes de Deputados Operários e Soldados de Toda a Rússia. In: Obras Escolhidas. 2ª edição. São Paulo, Editora Alfa-Omega, 1982, v.2, p.393. 26 Lenine. Segundo Congresso dos Sovietes de Deputados Operários e Soldados de Toda a Rússia, cit,

p.403.

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A propriedade latifundiária da terra é abolida imediatamente sem

qualquer indenização. 2) As propriedades dos latifundiários, bem como todas as terras de apanágio, dos mosteiros e da Igreja, com todo o seu gado e alfaias, edifícios e todas as dependências, passam a ficar à disposição dos comités agrários de vólost e dos Sovietes de deputados camponeses de uesd até à Assembleia Constituinte. 3) Qualquer estrago dos bens confiscados, que doravante pertencem

1)

4)

5)

a todo o povo, é declarado crime grave, punível pelo tribunal revolucionário Para dirigir a realização das grandes transformações agrárias, até à sua resolução definitiva pela Assembleia Constituinte 27 , deve servir em toda a parte o seguinte mandato camponês, elaborado pela Redacção do Izvéstia Vserossíiskogo Soveta Krestiánskikh Deputátov 28 , na base dos 242 mandatos camponeses locais, e publicado no número 88 deste Izvéstia (Petrogrado, nº88, 19 de Agosto de 1917). Não se confiscam as terras dos simples camponeses e dos simples cossacos (grifos do autor). 29

19 de Agosto de 1917). Não se confiscam as terras dos simples camponeses e dos simples

Ainda nos primeiros dias da revolução Lênin, como Presidente do Conselho de Comissários do Povo, em 05 de novembro de 1917, respondendo às incertezas dos camponeses em relação à terra e “apela para que os camponeses tomem eles próprios todo o poder local em suas mãos” 30 e que os “operários apoiarão os camponeses plena, totalmente e por todos os meios, organizarão a produção de máquinas e instrumentos, pedem aos camponeses ajuda por meio do envio de cereais” 31 .

Algumas considerações

A partir do exposto acima cabe refletir em que medida podemos, ou não, afirmar, segundo Lênin, que o Brasil teve de fato uma Reforma Agrária Burguesa de caráter prussiano. Que a Revolução de 1930 traz também no seu bojo mudanças das relações capitalistas no campo, não com a rapidez das urbanas industriais, mas lentas e graduais e que, por sua vez, o regime militar de 1964-1985 acelerou as incorporações das relações capitalistas no campo.

27 Sobre a polêmica da Assembleia Constituinte é sua incompatibilidade com o Poder Soviético e a necessidade de sua dissolução, ver os textos de Lênin “Teses sobre a Assembleia Constituinte” e “Projecto de decreto sobre a dissolução da Assembleia Constituinte” ambos In: Obras Escolhidas . 2ª edição. São Paulo, Editora Alfa-Omega, 1982, v.2

28 Notícias dos Sovietes de Deputados Camponeses de Toda a Rússia.

29 Lenine. Segundo Congresso dos Sovietes de Deputados Operários e Soldados de Toda a Rússia, cit,

p.403-405.

30 Vladimir Ilitch Lenine. Resposta às perguntas dos camponeses. In: Obras Escolhidas. 2ª edição. São Paulo, Editora Alfa-Omega, 1982, v.2, p.417.

31 Idem, Ibidem, p.417.

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Também acreditamos que os referenciais abordados podem contribuir na desmistificação de que a distribuição de terras em pequenos lotes, mesmo garantindo toda infraestrutura, tenha caráter socialista, pois mesmo que esta proposta tenha um caráter mais democrático, ela está no limite da democracia burguesa. Com o estudo dos textos de Marx 32 , Kautsky 33 e os de Lênin 34 sobre a produtividade das grandes propriedades como mais eficazes do que as pequenas, como podemos analisar as propostas de Reforma Agrária pelos setores mais progressistas de luta pela terra no Brasil? Entendemos como uma tese comum a estes textos a necessidade da pequena propriedade para a existência e desenvolvimento da grande propriedade nas sociedades capitalistas e a sua relação com o aumento da renda diferencial da terra. Como devemos compreender hoje a proposta de estatização de todas as terras na perspectiva dos interesses do capital, ao mesmo tempo como tático na luta pela construção da sociedade socialista? Em que medida podemos associar a polêmica entre Lênin e os populistas com algumas concepções de Reforma Agrária no Brasil de hoje e sua romantização da vida camponesa atual que contraditoriamente apresenta um discurso progressista, mas leva a uma prática reacionária? Quais as contribuições do referencial leninista sobre o desenvolvimento capitalista no campo nos ajuda a compreender o agronegócio e os assentamentos da Reforma Agrária como elementos de uma mesma realidade complexa e contraditória? Ou ainda, que papel a pequena propriedade rural cumpre neste momento do desenvolvimento agrícola e agrário no país? Certos de que essas são algumas das muitas questões que o referencial leninista sobre a questão agrária nos permite levantar, gostaríamos, de por último, nesse texto, destacar a insuficiência das análises dos movimentos sociais, sindicais e partidários sobre a questão agrária no país, comprometendo suas ações organizativas e políticas no interior da luta por melhores condições de vida e de trabalho dos trabalhadores rurais e a construção de uma sociedade mais justa.

32 Karl Marx. O Capital: crítica da economia política. 3ª edição. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, sd, L.3, v. 6.

33 Karl Kautsky. A Questão Agrária. 3ª edição. São Paulo, Proposta Editorial, 1980.

34 Lênin. O desenvolvimento do capitalismo na Rússia, cit. e Lênin. O programa agrário da social− democracia na primeira Revolução Russa de 1095−1907, cit.