SAMIZDAT

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ficina

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SAMIZDAT 34
setembro de 2012
Edição, Capa e Diagramação Henry Alfred Bugalho Editora de poesia Mariana Valle Autores Adriane Dias Bueno Aline Nardi Ana Peres Batista André Kondo Caio Dezorzi Cinthia Kriemler Cris Dakinis Danilo Augusto de Athayde Fraga Diana Cunha Gil Edweine Loureiro Fábio Wanderson de Sousa Fernando Domith Geovani Doratiotto Henrique César Cabral Henry Alfred Bugalho Isabela Penov Isabella Gonçalves João Paulo Hergesel João Vereza Joaquim Bispo Léo Tavares Leonardo Araújo Letícia Simões Lilly Araújo Luís Felipe Sprotte Mariza Lacerda Otávio Martins Rodrigo Pereira dos Santos Silvana Michele Ramos Volmar Camargo Júnior Zulmar Lopes Textos de: Cruz e Souza William Blake

Editorial
A Revista SAMIZDAT sempre teve um espírito combativo. Ela nasceu da nossa revolta, e também de uma certa angústia. Não pretendemos revolucionar a Literatura, tampouco transformar o mundo. Nossos anseios como escritores são muito mais básicos e essenciais: queremos ser lidos, deixarmos definitivamente as sombras e expormos aos demais nossos trabalhos. Não é fácil bater-se contra o muro de indiferença do mercado literário, Obstáculos mil tentam nos convencer que não há mais espaço, que qualquer esforço é vão e que nossas obras não têm valor, porém, não nos cansamos e jamais descansaremos. Não desistiremos, por mais que nos rejeitem ou nos ignorem. Pois desistir não é uma opção quando a escrita está entranhada até os ossos. Recentemente, numa entrevista, afirmei que: “há um mito que os artistas são sentimentais, mas isto é conversa fiada; para ser um artista é preciso trajar suas armas e armaduras e preparar-se para uma guerra sem fim.” Estamos atolados até o pescoço nesta guerra sem fim, combatendo até o limite de nossas forças para chegarmos aos nossos leitores fiéis, aqueles que justificam todas as horas gastas na criação de personagens, universos, versos e conceitos. Escrevemos para você. E a sua leitura é o combustível que nos moverá adiante, apesar de todos os contratempos inevitáveis. Henry Alfred Bugalho Obra Licenciada pela Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil Creative Commons. Todas as imagens publicadas são de domínio público, royalty free ou sob licença Creative Commons. Os textos publicados são de domínio público, com consenso ou autorização prévia dos autores, sob licença Creative Commons, ou se enquadram na doutrina de “fair use” da Lei de Copyright dos EUA (§107-112). As ideias expressas são de inteira responsabilidade de seus autores. A aceitação da revisão proposta depende da vontade expressa dos colaboradores da revista.

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Sumário
Por quE Samizdat?
Henry Alfred Bugalho

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autor Em LÍNGua PortuGuESa Broquéis
Cruz e Souza

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CoNtoS Algo Indefinível
Joaquim Bispo

12 15 16 19 20 24 28 32 34 36 38

Morfeu, Morfina
Mariza Lacerda

o Galo meu

Henry Alfred Bugalho Edweine Loureiro Lilly Araújo

microcontos

o “Gato” maluco Budapeste vai à Praia
Luís Felipe Sprotte Isabela Penov Aline Nardi Léo Tavares Diana Cunha Gil Fábio Wanderson de Sousa

Nadja ausente Grávida

iniciação

o Bichinho

João Pilão – o Sineiro de del rei

o Centauro de Saramago
Zulmar Lopes

40 42 44 48 50

Sonho de Cores ocolândia

Isabella Gonçalves Silvana Michele Ramos João Vereza

menina na tempestade Sombras de Carne
Cinthia Kriemler

traduÇÃo Provérbios do inferno
William Blake William Blake William Blake

54 58 59

A Imagem Divina O Cordeiro

artiGo o muro de indiferença, ou a invisibilidade dos candidatos a escritores 66
Henry Alfred Bugalho

tEoria LitErÁria os Signos do mundo, do amor e da Sensibilidade na Literatura de marcel Proust 74
Leonardo Araújo

CrÔNiCa Crônica transitiva
Adriane Dias Bueno

78 80 82

Sinestesia, oximoro e anadiplose
João Paulo Hergesel Otávio Martins

A 5ª Sinfonia de Beethoven

PoESia ii Concurso de Poesia autores S/a
Letícia Simões Cinthia Kriemler Geovani Doratiotto Henrique César Cabral

86 87 88 89 90 91 92

malvina

Cris Dakinis Volmar Camargo Junior

Visitante

Procedimentos técnico-administrativos em Caso de desordem na Gaveta dos Papéis involuntariamente Esquecidos 94
Volmar Camargo Junior Caio Dezorzi

Caem Corpos em Pinheirinho Sobre o trabalho do tempo
André Kondo

96 98 99 100 101

Noturno para Franz Joanna
Fernando Domith Ana Peres Batista

Danilo Augusto de Athayde Fraga

mendigo de tal

dançando e Encontrando – Loucuras Sãs 102
Rodrigo Pereira dos Santos

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O lugar onde

a boa Literatura
é fabricada

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Participe da Revista SAMIZDAT 35
A Revista SAMIZDAT conta com a sua participação para manter o alto padrão das publicações. Aceitamos e estimulamos a participação de autores estreantes, pois o nosso objetivo é apresentar a maior diversidade possível de autores, gêneros e textos. Por favor, aguarde o período de um mês após receber a resposta antes de enviar um outro texto. http://revistasamizdat.submishmash.com/ submit Não aceitamos mais textos enviados por e-mail. 4 - Os textos selecionados serão publicados na edição 35 da Revista SAMIZDAT na segunda quinzena de janeiro de 2013, no site www.revistasamizdat.com ou poderão aparecer no site, caso a edição em .PDF já esteja fechada. 5 - Os textos serão publicados sob licença Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas e o autor não será remunerado. O envio de textos implica na aceitação por parte do autor destes termos. 6 - Os organizadores da SAMIZDAT se reservam o direito de não publicar a revista, caso o número de submissões não seja o suficiente para o fechamento da edição. 7 - O não cumprimento dos itens acima poderá implicar na desqualificação da obra enviada. Contamos com a sua participação! Atenciosamente, Henry Alfred Bugalho Editor

instruções para envio de obras
1 - Cada escritor poderá inscrever, nos respectivos campos, somente 1 (um) texto literário para publicação, de qualquer gênero - conto, crônica, poesia, microconto - ou um (1) texto teórico, como artigo de teoria literária, resenha de livros, ou entrevista, além de traduções de textos literários em domínio público, sob licença Creative Commons ou com a expressa autorização do autor. A temática é livre. O autor também deve enviar uma breve biografia na primeira página do arquivo. 2 - O limite máximo para cada texto literário é de mil (1000) palavras, ou 4 páginas em A4, fonte Times ou Arial 12, espaçamento 1,5. O envio dos textos não implica na aceitação automática, a seleção dependerá da quantidade de textos enviados, da qualidade literária e da disponibilidade de espaço na revista. A revisão dos textos é de responsabilidade de seus autores. O texto não precisa ser inédito. 3 - Os textos devem ser enviados até o dia 31 de dezembro de 2012 através do nosso gerenciador de submissões (link abaixo) em um arquivo anexo, em formato .DOC, .DOCX ou .TXT.

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Por que Samizdat?
“Eu mesmo crio, edito, censuro, publico, distribuo e posso ser preso por causa disto” Vladimir Bukovsky

Henry Alfred Bugalho
henrybugalho@hotmail.com

inclusão e Exclusão
Nas relações humanas, sempre há uma dinâmica de inclusão e exclusão. O grupo dominante, pela própria natureza restritiva do poder, costuma excluir ou ignorar tudo aquilo que não pertença a seu projeto, ou que esteja contra seus princípios. Em regimes autoritários, esta exclusão é muito evidente, sob forma de perseguição, censura, exílio. Qualquer um que se interponha no caminho dos dirigentes é afastado e ostracizado. As razões disto são muito simples de se compreender: o diferente, o dissidente é perigoso, pois apresenta alternativas, às vezes, muito melhores do que o estabelecido. Por isto, é necessário suprimir, esconder, banir. A União Soviética não foi muito diferente de demais regimes autocráticos. Origina-se como uma forma de governo humanitária, igualitária, mas

logo se converte em uma ditadura como qualquer outra. É a microfísica do poder. Em reação, aqueles que se acreditavam como livrespensadores, que não queriam, ou não conseguiam, fazer parte da máquina administrativa – que estipulava como deveria ser a cultura, a informação, a voz do povo –, encontraram na autopublicação clandestina um meio de expressão. Datilografando, mimeografando, ou simplesmente manuscrevendo, tais autores russos disseminavam suas ideias. E ao leitor era incumbida a tarefa de continuar esta cadeia, reproduzindo tais obras e também as passando adiante. Este processo foi designado "samizdat", que nada mais significa em russo do que "autopublicado", em oposição às publicações oficiais do regime soviético.

Foto: exemplo de um samizdat. Cortesia do Gulag Museum em Perm-36.

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E por que Samizdat?
A indústria cultural – e o mercado literário faz parte dela – também realiza um processo de exclusão, baseado no que se julga não ter valor de mercado. Inexplicavelmente, estabeleceu-se que contos, poemas, autores desconhecidos não podem ser comercializados, que não vale a pena investir neles, pois os gastos seriam maiores do que o lucro. A indústria deseja o produto pronto e com consumidores. Não basta qualidade, não basta competência; se houver quem compre, mesmo o lixo possui prioridades na hora de ser absorvido pelo mercado. E a autopublicação, como em qualquer regime excludente, torna-se a via para produtores culturais atingirem o público. Este é um processo solitário e gradativo. O autor precisa conquistar leitor a leitor. Não há grandes aparatos midiáticos – como TV ,

revistas, jornais – onde ele possa divulgar seu trabalho. O único aspecto que conta é o prazer que a obra causa no leitor. Enquanto que este é um trabalho difícil, por outro lado, concede ao criador uma liberdade e uma autonomia total: ele é dono de sua palavra, é o responsável pelo que diz, o culpado por seus erros, é quem recebe os louros por seus acertos. E, com a internet, os autores possuem acesso direto e imediato a seus leitores. A repercussão do que escrevem (quando há) surge em questão de minutos. A serem obrigados a burlar a indústria cultural, os autores conquistaram algo que jamais conseguiriam de outro modo, o contato quase pessoal com os leitores, o diálogo capaz de tornar a obra melhor, a rede de contatos que, se não é tão influente quanto a da grande mídia, faz do leitor um colaborador, um co-autor da obra que lê. Não há sucesso, não há

grandes tiragens que substituam o prazer de ouvir o respaldo de leitores sinceros, que não estão atrás de grandes autores populares, que não perseguem ansiosos os 10 mais vendidos. Os autores que compõem este projeto não fazem parte de nenhum movimento literário organizado, não são modernistas, pósmodernistas, vanguardistas ou qualquer outra definição que vise rotular e definir a orientação dum grupo. São apenas escritores interessados em trocar experiências e sofisticarem suas escritas. A qualidade deles não é uma orientação de estilo, mas sim a heterogeneidade. Enfim, “Samizdat” porque a internet é um meio de autopublicação, mas “Samizdat” porque também é um modo de contornar um processo de exclusão e de atingir o objetivo fundamental da escrita: ser lido por alguém.

SAMIZDAT é uma revista eletrônica gratuita, escrita, editada e publicada pela novíssima geração de autores lusófonos. Diariamente são incluídos novos textos de autores consagrados e de jovens escritores amadores, entusiastas e profissionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas literárias e muito mais.

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Autor em Língua Portuguesa

Broquéis
Cruz e Souza

Encarnação
Carnais, sejam carnais tantos desejos, Carnais, sejam carnais tantos anseios, Palpitações e frêmitos e enleios, Das harpas da emoção tantos arpejos... Sonhos, que vão, por trêmulos adejos, À noite, ao luar, intumescer os seios Lácteos, de finos e azulados veios De virgindade, de pudor, de pejos... Sejam carnais todos os sonhos brumos De estranhos, vagos, estrelados rumos Onde as Visões do amor dormem geladas... Sonhos, palpitações, desejos e ânsias Formem, com claridades e fragrâncias, A encarnação das lívidas Amadas!

Carnal e Místico
Pelas regiões tenuíssimas da bruma Vagam as Virgens e as Estrelas raras... Como que o leve aroma das searas Todo o horizonte em derredor perfume. N’uma evaporação de branca espuma Vão diluindo as perspectivas claras... Com brilhos crus e fúlgidos de tiaras As Estrelas apagam-se uma a uma. E então, na treva, em místicas dormências Desfila, com sidéreas lactescências, Das Virgens o sonâmbulo cortejo... Ó Formas vagas, nebulosidades! Essência das eternas virgindades! Ó intensas quimeras do Desejo...

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SAMIZDAT setembro de 2012

Flor do mar
És da origem do mar, vens do secreto, Do estranho mar espumaroso e frio Que põe rede de sonhos ao navio, E o deixa balouçar, na vaga, inquieto. Possuis do mar o deslumbrante afeto, As dormências nervosas e o sombrio E torvo aspecto aterrador, bravio Das ondas no atro e proceloso aspecto. Num fundo ideal de púrpuras e rosas Surges das águas mucilaginosas Como a lua entre a névoa dos espaços... Trazes na carne o eflorescer das vinhas, Auroras, virgens músicas marinhas, Acres aromas de algas e sargaços...

Sinfonias do ocaso
Musselinosas como brumas diurnas Descem do ocaso as sombras harmoniosas, Sombras veladas e musselinosas Para as profundas solidões noturnas. Sacrários virgens, sacrossantas urnas, Os céus resplendem de sidéreas rosas, Da lua e das Estrelas majestosas Iluminando a escuridão das furnas. Ah! por estes sinfônicos ocasos A terra exala aromas de áureos vasos, Incensos de turíbulos divinos. Os plenilúnios mórbidos vaporam... E como que no Azul plangem e choram Cítaras, harpas, bandolins, violinos...

João da Cruz e Sousa
(Nossa Senhora do Desterro (atual Florianópolis), 24 de novembro de 1861 — Estação do Sítio, 19 de março de 1898) foi um poeta brasileiro. Alcunhado Dante Negro e Cisne Negro. Foi um dos precursores do simbolismo no Brasil.

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Conto

Algo Indefinível
Quando o padre Vicente entrou na barbearia, temeu por um momento que não fosse conseguir cortar o cabelo antes da missa das seis: na cadeira do ti Matias estava o presidente da Junta, e à espera estava o secretário, mas depressa percebeu que este não vinha para cortar o cabelo; simplesmente acompanhava o chefe para todo o lado. – Boa tarde, meus senhores! – cumprimentou. – Boa tarde, Sr. padre! – responderam os três em coro. Sentou-se num dos bancos forrados a napa que se alinhavam voltados para a majestosa cadeira onde os homens se vinham libertar de sumptuosas melenas, quando se tornavam demasiado rebeldes para aceitar o pente. No rádio acabara de cantar Artur Garcia e anunciava-se Suzy Paula. – Então, Sr. padre, já está ambientado cá à terra? – perguntou o presidente. O padre Vicente tinha sido colocado em – Sim, já conheço bastantes paroquianos, alguns até em confissão. Já se confessaram este ano? – inquiriu, com um prazer pouco católico.

Joaquim Bispo

Leirosa do Côa há pouco mais de um mês e quase só conhecia o pequeno grupo que ia à missa. Ainda não tinha atingido os trinta anos, era alto e rosado, e não vestia batina.

– Lá havemos de ir, Sr. padre – respondeu o presidente, prazenteiro. Era um homem na casa dos sessenta, um pouco anafado, de cabelo ralo e nariz abatatado. – Todos os anos, pela Páscoa, me confesso. Eu e aqui o meu secretário, não é verdade, Simão? O visado acenou que sim, subserviente. Teria quarenta e poucos anos, usava o cabelo liso com brilhantina e trazia um fato às riscas. – Mas isto é uma terra sem pecados – carregou o presidente, enquanto o barbeiro se esmerava no recorte da orelha direita. – Aqui é tudo boa gente, sem cobiça, sem luxúria.

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SAMIZDAT setembro de 2012

Olhe, aquela que ali vai, a D. Clotilde, não deve ter mais de cinquenta anos; ficou viúva há uns quatro anos e nunca mais se lhe conheceu homem, ou sequer interesse por eles. Passa a vida na igreja. Às vezes, até gostava que houvesse mais movimento, para a gente ter de que falar, sem ser só de caça. A propósito, o Sr. padre não caça? – rematou, com muita malícia na entoação. – Há por aí umas coelhas… O secretário e o barbeiro riram-se, mas com pouco à-vontade, devido à inconveniência do presidente da Junta. O padre também riu, e sem cinismo. – Há muito tempo que a minha alma e o meu corpo pertencem à Igreja. Sou homem, reparo quando uma mulher é bonita, mas estou comprometido com algo maior e só aos seus encantos me dedico – acentuou, numa meia verdade. Fazia parte do saber viver do relacionamento social. – Ah, Sr. padre, contam-se muitas histórias de padres e saias. E não são batinas. Ali na aldeia de Trevez correram com o de lá, há uns cinco anos, porque andava metido com a governanta, o desavergonhado. Levou uma sova! – Há sempre ovelhas ronhosas em todos os rebanhos. Por mim, espero ficar aqui por muitos anos, com o respeito de todos, que já vi que estou entre gente honrada. Sentada numa das filas da frente da igreja, D. Clotilde observava o Cristo crucificado de tamanho natural, que estava em fundo, sobranceiro ao altar-mor. Os seus olhos percorriam os músculos das pernas, magras e ossudas, como as do seu Albano, que Deus tinha. Custava-lhe muito a viuvez. Nenhum homem se tinha aproximado, a não ser o untuoso do presidente da Junta, com umas insinuações porcas. Ela própria também não se mostrava acessível. Tinha muitas saudades, mas do seu homem. Recordava-o, ao olhar este Cristo: o mesmo corpo ossudo, a barba, uma certa expressão de abandono. Ficava horas esquecidas

a percorrer-lhe o corpo com o olhar. Em momentos de maior desvario, imaginava que o abraçava, indefeso, e lhe arrancava o pano que a separava de algo tão indefinível que só se reconhece quando se volta a experimentálo. Louca! O mais perto que conseguia chegar desse algo indefinível acontecia quando, antes de adormecer, se persignava interminavelmente com o crucifixo, em que um Cristo em tudo igual, só que mais pequeno, abria os braços de impotência perante tal carência. Roçava com ele os peitos, por cima da camisa de dormir: “do Espírito” – “Santo”. Elevavao ao rosto, aos lábios, beijava-o: “Em nome do Pai”; baixava-o até ao ventre: “do Filho”, a rojar sempre um pouco mais abaixo, a cada descida. Pouco depois, de cabelo cortado e pescoço escanhoado, o presidente abandonou a barbearia do ti Matias, seguido pelo secretário. O padre Vicente sentou-se, pediu só uma aparadela, e daí a pouco estava na igreja. D. Irene, a esposa do presidente da Junta, veio pedir-lhe para se confessar. Era uma paroquiana muito bem arranjada, de uns cinquenta anos. Como ainda faltava quase meia hora para a missa, o padre acedeu. Pôs a estola e sentou-se no confessionário. Do outro lado da grelha, a senhora, em vozinha sussurrante, pediu perdão dos pecados e começou a estender um rol dos atos que vinha a ter com o seu homem e que ela temia que fossem pecados da carne. Pormenorizava o que ele fazia, como fazia, com que vagares. O padre Vicente, envolvido pelo perfume floral de D. Irene, ia ouvindo a confissão num fluxo morno ciciado junto ao seu ouvido, tentando avaliar se a paroquiana era culpada de luxúria ou tudo se devia ao cio do marido. Foi a voz suave de D. Irene que se encarregou de o elucidar: queria confessar tudo, porque se sentia culpada de ter gostado e de ter colaborado com entusiasmo. “Perdoai-me padre, que eu pequei”, pedia. O sacerdote observava o rubor do rosto da pecadora, os lábios cheios, o suave arquejo do peito generoso.

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Concluiu pela condenação: vinte pai-nossos. D. Irene sentou-se na sua cadeirinha almofadada da primeira fila e esperou pela missa, enquanto cumpria a penitência. Sentia-se mais aliviada. Tinha confessado tudo. Ou quase. Tinha descrito as partes mais escabrosas, mas dissimulara com quem praticara os atos confessados. Não tivera coragem de contar que, todas as quintas-feiras, enquanto o marido ia à reunião com o presidente da Câmara, na cidade, ela se encontrava com o secretário Simão, num anexo da Junta. Por outro lado, cedera ao prazer mórbido de se alongar em pormenores, para ver a reação do jovem padre. Pressentira a sua perturbação, o que, inexplicavelmente, lhe agradara. O padre Vicente disse a missa um pouco inquieto. Não que duvidasse da sua vocação, mas aquela vozinha insinuante reavivara-lhe algumas memórias gratas de adolescente. Quando chegou o momento da comunhão, D. Irene encabeçou a pequena fila de comungantes. Ajoelhou à frente do padre, abriu a boca, pôs a língua ligeiramente de fora, estendeu um pouco o rosto para a frente e fechou os olhos. O padre, sugestionado, pensou reconhecer nesta visão uma das peripécias lúbricas ouvidas há pouco em confissão, mas mal hesitou: pegou na hóstia branca e, com calma forçada, depositou-a na língua húmida e rosada da cativante paroquiana. Logo a língua se recolheu com a sua preciosa carga, como se recolheu D. Irene à sua cadeira, de cabeça humildemente baixa, tentando não

morder o que era para manter na boca até se liquefazer. Acabada a missa, o padre Vicente refugiou-se no seu pequeno reservado da sacristia. Depois de, em gestos rápidos, retirar os paramentos, sentou-se na cadeira da escrivaninha e abriu a sua Bíblia, de onde retirou um “santinho”. Era uma reprodução de uma “virgem do leite” do pintor Frei Carlos, que ele procurava em momentos de maior perturbação, desde os longos tempos de desamparo do seminário. Reviu o rosto adolescente da imagem, o olhar inocente, a boca onde parecia aflorar um sorriso compreensivo. Demorou-se a contemplar o seio da Virgem, que esta apertava, e do qual jorrava um fino esguicho de leite em direção à boca do menino, da qual escorria em veios brancos pelo queixo. A estampa, talvez pela assumida carnalidade, desencadeava sempre um movimento da sua alma, desta vez potenciado pela visão da boca recetiva de D. Irene e dos seus dois dedos a introduzirem nela o corpo de Cristo, com a mesma delicadeza com que agora seguravam o seu corpo e, mentalmente, repetiam o mesmo gesto. A comunhão de corpo e alma com o divino não tardou. Em arrebatamento. Em ausência de si. Em transcendência. Deus atingia-se de muitos modos. Conto integrante da coletânea de contos “Ora, vejamos… 2009”

Português, reformado, ex-técnico de televisão, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais de Henry Bugalho e de Marco Antunes. Rejeitado pelas editoras, tem obtido, no entanto, alguns prémios em concursos literários dos dois lados do Atlântico. Contacto: episcopum@hotmail.com

Joaquim Bispo

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Morfeu, Morfina
Mariza Lacerda

Contos

Meu coração, acelerado, tentava entoar uma melodia que velasse o teu sono. Meus olhos, paralisados, tentavam penetrar em teus mais secretos sonhos. Meus braços, inquietos, imaginavam-se abraçando e embalando o teu corpo. Meus lábios, sedentos, desejavam revisitar os traços do teu rosto. Eu já não sabia se era noite ou se era dia. Apenas te olhava, enquanto dormias.

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o Galo meu
Henry Alfred Bugalho

Conto

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SAMIZDAT setembro de 2012

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Ele desfilava com imponência pelo quintal da minha vó: o meu galo. O mais lindo de todos, alto, quase do meu próprio tamanho no auge de meus oito anos, com uma plumagem reluzente, o pescoço de um azul vivo e brilhante, e esporas ameaçadoras como lâminas, mesmo sendo um galo pacífico, até onde eu podia perceber. Encantava-me o mundinho dos galináceos, todos se aglomerando desesperadamente para comer a quirera que minha vó lançava ao ar, gritando: — Cuti-cuticuticuti! Vinham as galinhas e os pintinhos, redondinhos e amarelinhos, e também os frangotes desengonçados. Mas o meu galo, não, observava tudo de longe, o dono absoluto do terreiro. Ele não havia sido sempre meu galo, até que, num verão, fiz o pedido: — Vó, sabe aquele galo grandão? — Sei sim. — Dá ele pra mim? — E o que você vai fazer com um galo, moleque? — Cuidar dele. — Então ‘tá certo. Assim, daquele dia em diante, o galo mais lindo de todos havia se tornado o meu galo. Batizei-lhe de Harrison, e era o meu dever jogar-lhe a quirera: — Cutu-cuticuticuti! Vem cá, Harrison! E lentamente ele vinha, cheio de si, bicando a comida com soberbia.

Pensei muito no meu galo na viagem de volta para a cidade, repleto de planos para as próximas férias. Existia coleira para galos? Assim eu poderia exibir-me com ele pela vizinhança da minha vó, eu e o mais galo dos galos, o Hulk Hogan dos galos, temível e grandalhão. A molecada e as donas de casa se recolheriam ao ver-me caminhando com o galo ao meu lado, atemorizados que ele pudesse se soltar da coleira e sair bicando e esporeando a torto e a direito, muito mais perigoso do que qualquer cão de guarda. Cogitei até a levá-lo a rinhas, eu do lado do ringue, dando instruções a ele, e Harrison ganhando todas as pelejas. Mal sabia, naquele tempo, que isto era crueldade animal, proibido por lei, nem que voava sangue e penas para todos os lados. Nas brigas de galos de minha imaginação infantil, um deles sairia com o olho roxo, enquanto o outro levantaria as asas em glória, assim como nos desenhos animados, sem demasiado sofrimento nem mortes. Com o passar das semanas, esquecime um pouco de Harrison e só me ocorria a existência dele quando, ocasionalmente, comentava com os colegas de escola: — Sabia que eu tenho um galo? Acho que deve ser o maior galo do mundo! Mas a mente estava ocupada o bastante com as matérias da escola de manhã e com os seriados japoneses à tarde. E, vez ou outra, eu desenhava o meu galo, intercalando panteras, leões e super-heróis.

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Retornei meses depois à casa de minha avó, chegando cedinho como o habitual. Tomamos café da manhã e eu saí ao quintal, à procura por meu galo, mas não o avistei. Nada estranho, reconheço, pois o quintal era enorme e ele poderia estar vagando em meio às bananeiras e amoreiras. Certamente apareceria para comer quirera mais tarde. Mas não o vi depois, o que me perturbou. — Não estou encontrando o Harrison — comentei com meu primo na manhã seguinte. — Ninguém te contou? — vislumbrei um risinho sardônico — Ele morreu... — Sério? — Sério. Calei-me por um tempo, pensativo. — E o que fizeram com ele? — Como assim? — Com o cadáver do Harrison? — Sabe a canja de ontem à noite? — Sei. — Era o seu galo. Fiquei horrorizado. Era possível isto? Que desumanidade absurda! Barbárie!

Como assim, jantar um galo de estimação? Quer dizer que agora as pessoas deveriam comer seus cachorros quando estes morressem? Ou que um jóquei deveria comer o cavalo que montava? Ou um falcoeiro a seu falcão? Ou um dono de circo cearia o elefante ou o tigre quando estes passassem desta para melhor? Eu precisava confirmar esta história, poderia ser apenas uma maldade do meu primo, e corri para falar com minha vó. — É verdade que meu galo morreu? — Morreu sim. — E o que fizeram com ele? — Comemos, ora bolas! Para vovó era simples pensar deste modo, ela que quebrava o pescoço de um frango sem esforço algum, e deixava-o dependurado numa trave, debatendo-se até esvair-se-lhe a vida, mas, para mim, nada fazia sentido. A ausência de Harrison, o galo dos galos, naquele quintal imenso, era devastadora, um vazio inexplicável. Pois o meu galo havia sido o senhor absoluto do terreiro, e também a canja da noite passada.

Formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em Estética. Especialista em Literatura e História. Autor de “O Canto do Peregrino” (Editora Com-Arte/USP), de outros quatro romances e de duas coletâneas de contos. Editor da Revista SAMIZDAT e fundador da Oficina Editora. Autor do best-selling “Guia Nova York para Mãos-de-Vaca”, cidade na qual morou por 4 anos, e do “Curso de Introdução à Fotografia do Cala a Boca e Clica!”. Está baseado, atualmente, na Itália, com sua esposa Denise e Bia, sua cachorrinha.

Henry alfred Bugalho

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SAMIZDAT setembro de 2012

Conto

PrEÇoS
Edweine Loureiro
Gritava à janela da amada, que o havia deixado por um homem mais rico:

— E o Amor, Julieta? Vale quanto?
E uma voz, vinda da esquina:

— Duzentos reais, uma noite.
Nota: Miniconto vencedor do certame Miniconto para Dickens (Fevereiro/2012).

CiNEma mudo
Edweine Loureiro
Quase no final do filme, surge aquele homem, ensandecido, atirando contra a multidão. Em meio a gritos e tumulto, uma das balas atinge a criança ao meu lado, matandoa no mesmo instante. Enquanto isso, na tela, Chaplin discursa pela paz...

CorEia do NortE
Edweine Loureiro
Kim Jong-un, em pânico, no meio da noite, conversa com um dos generais ao telefone:

— Pensava que era o botão do microondas, e não o da bomba atômica!

Nasceu em Manaus em 20/09/1975. É advogado, professor de Literatura e Idiomas, e reside no Japão desde 2001. Em 2005, obteve o Mestrado em Política Internacional pela Universidade de Osaka (Japão). Premiado em diversos concursos literários, é autor dos livros: Sonhador Sim Senhor! (Ed. Litteris, 2000), Clandestinos [e outras crônicas] (Clube de Autores, 2011) e Em Curto Espaço (Ed. Multifoco, Selo 3x4, 2012). É membro-correspondente da Academia Cabista de Letras, Artes e Ciências (RJ) e da Academia de Letras de Nordestina (BA). Blog do autor: http://edweineloureiro.wordpress.com/

Edweine Loureiro

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O “gato” maluco
Lilly Araújo

Contos

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Carlos já beirava os dezessete anos quando resolveu sair da casa de seu pai e ir morar com sua mãe. Talvez o motivo fosse o ciúme que lhe tomou quando a bela e jovem madrasta engravidou. Não que sua mãe não o amasse, mas devido ao fato de suas condições financeiras serem milhares de vezes inferiores às do ex-marido, Cláudia preferia que o filho único tivesse uma vida mais abastada que a dela. Apesar de todos os argumentos, nada adiantou diante da decisão irredutível e conflituosa que Carlos impôs. Era mesmo um “cabeça dura” como o pai, ela pensava. Quem não gostou nada nada da novidade foi o Sr. Francisco. Homem austero, mas muito apegado ao filho, não aceitava ficar longe assim tão de repente dele, fosse pela saudade ou por orgulho de perdê-lo exatamente para a mulher que fora o único verdadeiro amor de sua vida. O que também explicaria o fato de tê-la deixado em tamanha dificuldade financeira. Pirraça. Pura pirraça! Pirraça que, aliás, agora lhe retribuía o filho sem saber, por não aceitar perder o status de filho único que até hoje ocupava cheio de mimos e regalias. Em protesto, estava resolvido a mudar sua vida radicalmente, abrindo mão de todo luxo a que estava acostumado, visto que o pai lhe recusara a ceder qualquer bem material para aquele traidor, que o estava abandonando. Posse. Pura posse! Sofriam de possessão crônica pai e filho. Passados alguns dias da nova rotina, Carlos estava completamente entediado no seu novo lar. Não tinha mais o videogame de última geração, nem seu inseparável tablet que ainda estava com

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cheirinho de loja. Agora se contentava apenas com seu notebook, que seu pai só liberou por ter sido presente de aniversário, mas que nas atuais circunstâncias era quase inútil, porque lá não tinha internet. Não tinha piscina. Não tinha sauna. Nem tinha sua motinha ou amigos ricos. Não tinha sequer TV a cabo. Tédio. Puro tédio! Até que numa tarde, Carlos estava sentado perto da janela, com vista nada privilegiada para os telhados dos vizinhos e num lance de olhar, notou uma antena de onde pendia um tremulante fio que partia telhado adentro do vizinho mais afortunado que ele. Teceu então um plano mirabolante em sua mente vazia. Iria fazer um “gato” para a TV que ficava em seu quarto. Foi a uma lan house e procurou por manuais de instalação para realizar sua peripécia. – É impressionante o que se pode encontrar na net hoje em dia! – pensou o garoto. Pesquisou. Revisou. Imprimiu. E marcou o dia, ou a noite, para o leitor melhor entender. Carlos se esgueirou pelo corredor apertado com o cinto de ferramentas pendendo-lhe de um dos lados e forçando a calça larga para baixo. Todo desengonçado e tremendo um pouco, o garoto alcançou a tal antena por sobre o telhado. Sentiu-se um felino aventurando-se naquela altitude. Em poucos minutos, seguindo o manual passo a passo, ele cortou e remendou fios na caixinha conectora que comprou num ferro velho, e que iria piratear e retransmitir o sinal para sua TV dando , umDesceu sem maiores dificuldades. Mas não antes de se engarranchar no último trecho do seu percurso e ralar todo o antebraço esquerdo. Valeria o preço se o “gato” funcionasse,

argumentou a si mesmo para aliviar o ardor. Ligou a TV com o coração na mão. E lá estava a imagem que o salvou de seu martírio! Dezenas de canais, que agora o manteriam cativo por vontade própria no seu pequeno “quarto prisão”. Mas, numa noite de tempestade e muitos raios, a conexão de alegria do pobre Carlos foi subitamente interrompida. Ele ficou chocado. Desespero. Puro desespero! Na manhã seguinte foi à escola brigado com sua TV Havia gastado . toda madrugada fuçando, sacudindo, torcendo e pedindo aos céus por um auxílio. Quando retornou, já na hora do almoço, esquentou a comida e engoliu desinteressadamente. Pulou na cama e dormiu, exausto que estava. Acordou com um barulho e uns feixes de luzes vindas do telhado do “vizinho-sócio”. Achou estranho aquilo e teve medo. Será que agora o seu delito seria descoberto? Resolveu ligar a TV por pura curiosidade, e para sua surpresa os canais estavam todos de volta. Foi à cozinha e fez pipoca para esperar pelo jogo do seu time que iria começar em dez minutos. Enquanto assistia ao jogo vibrante e comia pipoca, um sorriso de orelha a orelha não lhe saía do rosto. De repente, um lance dentro da grande área, já aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo, dava chance ao seu time de ser o vencedor. Ele se colocou debaixo do monitor, se contorcendo à espera de um milagre para que aquele gol saísse, e no auge da expectativa de vitória do seu timão: “Tssss”! Alguém mudou o canal da televisão. – Não! Não! Não! Isso não pode estar acontecendo! – Não podia, mas estava. ...

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A partir daquele dia era essa a vida de Carlos: No meio do filme, na cena do beijo, e “tsss!”, o canal mudava. Quando finalmente estavam pegando o serial killer, “tsss!”... Ele passou a ter memórias fragmentadas de tudo que assistia. Frustração. Pura frustração! E Carlos nem imaginava o quanto aquilo influenciaria a sua mente. Agora ele andava todo interrompido. Fazia as lições pela metade. Comia metade da comida. E um dia até chegou à escola com apenas um dos pés calçado. A namorada rompeu com ele, se recusava a ter meio namorado. E boletim escolar passou a vir com notas medianas. Até a mesada dele foi reduzida a meia, reflexo de seus últimos desempenhos. Agora aquele “meio garoto” não conseguia ter uma ideia por inteiro para restaurar a sua vida desconfigurada. – Francisco, você precisa levar nosso filho ao médico. Estou muito preocupada. – Besteira. Isso é artimanha dele para eu voltar atrás. Mas não volto! Onde já se viu, fazer um desaforo desses com a Lucinda grávida? Justo ela que sempre o tratou como um filho. Não volto! Mesmo com o problema, Carlos

continuou a ficar no seu quarto todo tempo. Em frente à TV desgovernada, concentrado em meias imagens. Estava meio triste, meio desiludido e meio arrependido de ter deixado sua outra casa. Descompletado! Foi aí então que algo iluminou sua mente por inteiro. Ele foi atrás do seu pai e lhe estendeu uma bandeira branca. Pediu sinceras desculpas em palavras que enterneceram o coração paterno de Francisco, e no embalo das emoções intercedeu por sua mãe junto ao pai, e conseguiu que ele se comprometesse em dar todos os direitos aos bens financeiros dela, na época sonegados. Carlos comprou ainda flores para a madrasta e presentes para o bebê. Que torceu para ser uma menina. Estava mudado, mas nem tanto! Queria continuar ao menos a ser o único varão da casa. Tudo resolvido naquela família. Parecia até um milagre! E talvez fosse mesmo um tipo de milagre para restaurar tantos conflitos antigos. Foi o “gato” maluco. Puro “gato”!

Bióloga, pós-graduada em Geo-Ambiental, começou sua carreira literária apenas no ano de 2011; de lá para cá já tem obtido sucesso e participações nos seguintes meios literários: Participou de 25 Antologias da CBJE-RJ, em poesias, contos e crônicas e em três e-books; MH e Antologia do Conc. de Poesias Encantadas II; 12° Lugar no V Conc. POESIARTE; Classif. para compor o livro do Conc. Landa Lopes; Prêmio Destaque no III Conc. Claudionor Ribeiro de Contos; Classif. na Antologia do V Conc. Crônica e Lit.- Prêmio lit. Ferreira Gullar; MH e Antologia do Conc. Poesias Encantadas III; Classif. entre os vinte para o Livro Prêmio do Conc. Alt Fest-Fliporto; Classif. no Conc. Um Poema em Cada Árvore; Classif. para Antologia do Conc. Letras no Palco 2011 – Digit-AL 2011, nas categorias Poema e Micro Poema; Classif. em 10° no Conc. Augusto dos Anjos; Vencedora do III JOGOS FLORAIS DE CAXIAS DO SUL.

Lilly araújo

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Contos

BUDAPESTE VAI À PRAIA
Luís Felipe Sprotte

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Budapeste acordou com frio, que aparecia pela primeira vez com força, fazendo-a recolher-se ainda mais nas cobertas. Outubro era um mês que a assustava, pois lhe vinha um sentimento de má-fé em relação ao inverno que se aproximava. O inverno deixava-a muito bela; ainda assim, era sempre complicado continuar viva depois que camadas de gelo formavam-se na sua principal artéria: o Danúbio. Todavia, o inverno em nada alterava sua eloquência; reafirmava-a, porém, num sentido mais peculiar. Naquela manhã teve vontade de ir à praia. E disse consigo mesma que sim, iria viajar. A escolha mais natural era alguma praia no Adriático, e apesar de os dias estarem cada vez mais frios, poderia sentar-se à beiramar e conquistar uma calma que ela não mais proporcionava a si mesma. Após tomar essa decisão, alegrou-se bastante. Ao olhar para o prédio em frente ao dela, na Rua Timár, observou a moça portuguesa que morava ali há alguns meses. Sabia-a estrangeira, porque o tempo lhe havia dado esse discernimento; sabia-a portuguesa porque pela primeira vez sentia que havia no apartamento algo diferente. Todos os dias saía e voltava a Saudade. Dava à moça quase todas as manhãs de presente uma neblina, como se dissesse: “Vem, busca teu D. Sebastião, que logo chega.”

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A moça, entretanto, não esperava por nada que não fosse seu Sebastião magiar, e que, ironicamente, se chamava Sebestyén. O homem pelo qual ela se fez estrangeira, depois de dez meses juntos, abandonou-a e voltou a sua cidade na Transilvânia. Como portuguesa num país sem mar, ela fez de seu apartamento a torre de Belém, na qual esperava o marinheiro que nada lhe prometera, e que desse nada, tudo esperava. No frio daquela manhã Budapeste sentiu que precisava fugir de si mesma. Fundar-se noutro lugar, como se nunca tivesse sido fundada ali. Sairia pela primeira vez dos alicerces danubianos, das colinas budinas, da imensidão plana pestina, de seu apartamento em Óbuda. Ela comprou a passagem de trem na Estação Keleti, e avisou Zagreb que estava indo visitá-la, e que seguiriam à praia. Fazia frio, mas no trem conseguiu cobrir-se com um pequeno cobertor que levara consigo. Algumas horas depois ela desceu na estação central de Zagreb, que a esperava. As duas seguiram até o estacionamento. Na Praça do Rei Tomislav Budapeste viu no meio do parque crianças brincando com seus pequenos trenós, treinando para o inverno que logo chegaria. “Vou levar você à Dalmácia para conhecer uma amiga: Makarska.” Zagreb pegou a estrada que iria

levá-las até à Dalmácia pelo interior do país. Os carros passavam, os bairros zagrebinos ficavam cada vez mais longe. Em muitas regiões por onde passavam, Budapeste viu prédios com buracos causados pelos tiros da guerra recente. Enquanto isso, os budapestinos e zagrebinos viam-se perdidos, com a sensação de que algo importante em suas cidades estava faltando. Alguns disseram que era o frio cedo demais em outubro, outros que se tratava de uma sensação bélica. Poucos disseram que tinham a sensação de que a alma da cidade havia ido embora, como se estivessem vivendo abraçados ao cadáver de alguém querido. Nas duas cidades as pessoas sentavam-se nas calçadas com a sensação de que a gravidade passara a ser, ao menos ali, a mais fraca das forças da Natureza. O Danúbio em Budapeste e o Sava em Zagreb portavam-se como se não se importassem com as beira-rios, inundando-as com ondas de ressentimento. Makarska estava vendo o mar no bulevar central da riviera. O dia estava bastante cinza, e ela sabia quem iria atacá-la à noite. Sabia-o há centenas de anos, e sempre que acontecia novamente ela se assustava. Para se tranquilizar, foi se encontrar com suas amigas. Em casa, a anfitriã serviu vinho e começaram a conversar animadamente. As três foram dormir tarde, e no meio da noite Budapeste acordou

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assustada com um vento fortíssimo. Ela foi até a janela ver o que era. Makarska acalmou-a, dizendo: “É o bora. Destrói tudo, como a paixão.” As três sabiam que nenhuma cidade sobrevive por si só, da mesma maneira que as pessoas fatais não podem viver sem amor, sem paixão, e pulam cada dia num oceano novo, cada vez mais profundo, cada vez mais perigoso. O bora podia quebrar todas as janelas de Makarska, mas nunca a destruiria. Elas sabiam que havia pessoas que sofriam por amor, e por isso cada uma delas rezou por alguém, para que essas pessoas, e também elas, morressem da ferida venenosa que vem do amor, e não mais dos dons sábios e conselhos benditos que nunca prevalecem diante do cáustico. E se rezar levava à lembrança, veio até elas uma pequena oração com o nome do santo do dia, um daqueles mártires do amor, aqueles que nunca esqueceriam as cidades que amaram, nem os amantes que os desprezaram, e que morreriam, assim, fracos de servidão, por encher a mente de tantas lembranças afiadas, que, inútil dizer, só lhes faria mal. Levá-los-ia à morte. Com rosários nas mãos, as três cidades dormiram caídas no chão e acordaram na praia.

Dois dias depois, de volta a si mesma, em frente à Estação Keleti, Budapeste viu dois orelhões conversando em meio à multidão. Ao entrar no carro, percebeu que esquecera um livro de contos de István Örkény, o que explicava a visão, minutos antes. Chovia quando o táxi deixou-a em casa. Todos os habitantes da cidade cochichavam que tudo estava ajeitado novamente. Não dava mais vontade de fugir de uma cidade novamente com alma. Seus habitantes poderiam temer Budapeste, graças aos mandatos diários que eles propunham a si mesmos, ao percebê-la pela primeira vez após abrirem as janelas todas as manhãs. Ali estava deitada na cama quando viam Peste; escondida nas colinas quando viam Buda. E por não olharem jamais Óbuda, nunca desconfiaram que de fato a alma da cidade que tanto amavam e odiavam vivia lá, reclusa – uma senhora sem trajes de idosa, e com o frescor do compartilhamento. Pela janela do seu quarto Budapeste viu a moça portuguesa arrumar as malas. Falou-lhe, baixinho, como se cantasse um fado: “Tu servias de porto latino, e ele de barco magiar.” Budapeste deixou a Saudade entrar em seu apartamento, como se fosse o vento bora. Estrangeira em sua própria casa, dormiu antes mesmo de anoitecer.

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Contos

Nadja Ausente
Há sempre uma ausência ao lado de cada um que existe. A ausência dos mortos, das alegrias, ausência dos sonhos, a ausência da esperança, e a noiva que se foi, o marido que jamais retornou, e as roupas carcomidas, as cartas que o tempo vai apagando... Mas naquela família as ausências eram tantas e tão imensas, que possuíam nomes próprios, impronunciáveis, no entanto. Aqueles sujeitos apenas sabiam-se pela falta, entendiam o que eram pelo que não eram e o que tinham pelo que não tinham. Odiavam-se, amavam-se, entediavam-se, separavam-se, eles e suas ausências, num pacto rancoroso. Seus olhares vagos viam somente o que não estava. E enquanto isso os corpos iam pela vida escorregando inúteis, esquecidos de si, em volta de suas presentes ausências. Acumulou-se essa falta por séculos em cada novo membro da família, a carência de uma geração depositando-se na próxima, herança dos vazios passados. As crianças iam nascendo mirradas e pálidas, parecendo que aquela lacuna estava cada vez mais tomando o espaço que o corpo deveria ocupar. Esse legado somava-se ao vazio de cada um deles que pelo mundo passava, constituindo em cada tempo uma ausência suprema, uma insuficiência incurável. Em certo tempo nasceriam descendentes raquíticos, e os descendentes dos seus descendentes nasceriam sem alguns membros do corpo, até que na geração próxima as mulheres ficariam grávidas sem sequer notar, grávidas de um vento ínfimo que se libertaria para
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Isabela Penov

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se espalhar e somar mais falta à falta. Assim essa família se extinguiria, de ausência em ausência. Mas podemos parar no tempo, muito antes dessa extinção familiar. Nadja estava com doze anos. Possuía todas as suas partes e era possível enxergá-la toda, embora com certo esforço: era um vulto de pele muito branca, corpo um pouco translúcido que não chamaria a atenção não fosse pelo vestígio daquele legado de ausência em sua geração: sua perna direita era mais curta e muito mais delgada que a esquerda, de maneira que ela acabava por mancar com evidência. Ao andar, todo o seu corpo caía para um lado, para então levantar-se todo para o outro, de um modo estranho na medida exata para satisfazer as necessidades alheias do sentimento de estar a salvo. Na maior parte do tempo estava no quintal de casa, visível através das grades mas salva da maior parte das ameaças. Ficava sentada com as pernas esticadas, fazendo comidinhas com folhas e montes de terra, comendo pequeníssimos tatus ou vestindo bonecas com roupazinhas feitas do mesmo pano das suas próprias. Seu olhar às vezes doce acostumou-se alheia do além das grades, exceto nos seus momentos de ódio absoluto: enquanto passavam meninas pulando a corda, tropeçando graciosas, correndo com seus tornozelos repletos de hematomas e cicatrizes que nasciam do viver excessivo. As suas cicatrizes e hematomas não nasciam, mas eram os sinais da morte gradual daquele membro que ela carregava como a um animal morto. Nessas horas ela

semicerrava as pálpebras, torcendo para que todas as pernas caíssem e rolassem pela íngreme descida logo mais ali. Depois se ausentava, preocupada com a caça aos tatus. Na casa da frente morava Ana. Ana saiu para a rua pela primeira vez quase dois anos depois de se mudar para o bairro. Talvez por timidez, talvez por estar muito ocupada consigo mesma em seu quintal. Ela era tão distraída, mas tão, que às vezes se esquecia de usar as mãos. Mas isso de distração é uma mentira. Fato é que ela estava atenta demais às suas fantasias, que eram aliás muito mais dignas da sua concentrada dedicação. Essa distração entre aspas fazia de Ana a amiga perfeita para Nadja. Exatamente pelo que se possa suspeitar. Ana saiu para a rua, avistou Nadja com seus tatus, puxou conversa e não pôde perceber nem que a menina mastigara quase meia dúzia de tatus-bola naquele tempo, e muito menos que ela tinha uma perna diferente da outra. Claro, porque a conversa foi de nuvens a cavalos-marinhos, dos avós a um primo que enlouquecera, e depois até muitas coisas inventadas. Se a princípio Irene, a mãe de Nadja, vigiava assustada a menina esguia no portão, em algum tempo convidou-a para o quintal, e pouco depois até para dentro de casa, embora raras vezes. Gostava de Ana tanto quanto Nadja, e Ana as estimava reciprocamente, embora o cheiro de Irene lhe enjoasse o estômago por vezes. Uma vez Nadja fez Ana reparar na perna. Não precisa fingir que não sou aleijada, disse. Não vou ficar triste se

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você falar disso. E Ana se deu conta. Dói? Pouco, sempre. Muito, às vezes. Posso tocar? Mas não aperta. É fria. Está um pouco morta, eu acho. Será? Não sei. Não, acho que não. Você é bonita. A gente sempre olha primeiro nos olhos das pessoas. Não se repara muito nas pernas. Mentira, a gente olha primeiro sempre o defeito. Será? É. Eu nunca te vejo andando. É estranho. Deixa eu ver. Melhor não. Eu te digo o que parece, juro. Será? Eu não rio, não acho graça nem do que tem graça. Bom. Sabe o que parece? O quê? Mas a mãe de Nadja chamou detrás da vidraça, e isso era sinal de que Ana precisava ir. Mas nem são quatro horas ainda. Irene espiava pela janela. Depois de alguns meses Nadja tomou coragem para pedir à mãe uma saída à rua. Com Ana, evidentemente. Depois de muita resistência, ganhou uma ida. A rua toda se juntou para ver. Nadja precisou engolir com força aquilo que parecia ser todos os tatus já engolidos querendo retornar. Sentiu rebentar dentro de si uma novidade que não soube nomear. Recolheu qualquer reação que ousou escapar pelo seu rosto. Foi útil a sua aparição para que alguns tivessem do que rir, outros do que lamentar, outros do que se apiedar e outros ainda como se sentir salvos da truculência da vida, por um instante. Os dias passaram e diminuíram os risos, lamentos, piedades e alívios. Restou um pouco de cada coisa, mas já era mais fácil acostumar. Ana experimentou os tatus. Eram crocantes na boca, mas raspavam a garganta. Depois aprendeu a não

mordê-los, dedicou-se à arte de comer os bichinhos, mas ainda assim não se constituiu nenhum vício. Nadja decepcionou-se, mas aos poucos também diminuiu as doses de tatu. Chegou um dia em que resolveram ter pena deles. Passavam quase todo o tempo sentadas na calçada em frente à casa, mas estar em frente às grades já preenchia as tardes de um vigor novo. Conversavam muito sobre todas as coisas, mas preferiam o silêncio. Flutuavam completas num silêncio sem constrangimento, um silêncio de amor absoluto e sem exigências. Uma pureza era aquilo. Algumas vezes se assustavam e permaneciam se olhando com a desconfiança do medo da morte, mas algo insuspeito e repentino as fazia gargalhar, e então ficava tudo bem para sempre. Ana distraiu-se em casa com a sua árvore, naquele dia. No dia seguinte permaneceu sentada no muro balançando o corpo para a frente e para trás, estudando a sensação do risco falso da queda. E foi ficando tarde para ir à casa da amiga. Nadja estava magoada, menos por Ana não aparecer e mais porque não se sentia capaz de atravessar o portão sem ela. Enquanto Ana brincava com os mil muros do muro, Nadja abriu o portão e permaneceu ali paralisada naquela fronteira, entre a casa e a rua. Ficava balançando o corpo para a frente e para trás, estudando os riscos possíveis de quedas, abandonos, risos e da piedade. E da solidão. E do silêncio vazio a que se desacostumara. Largou o corpo um passo em frente, permaneceu por uns instantes levemente vitoriosa. Baixou os olhos e retornou ao quintal com um único passo. Nesse momento

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Ana sentiu o cheiro da comida mesma da mãe, e descobriu que estava tarde demais novamente. O tempo ia passando estranhamente. Ana pensava debaixo da sua árvore quando ouviu um grito pelo meio da tarde. Correu para o portão e viu um fio de sangue escorrendo pela ladeira logo ali. Os olhos de Nadja estavam arregalados e a boca muito aberta, silenciosa então, um silêncio que só aparece no cume da aflição, quando o som foge de medo e o corpo todo troca a sua matéria por uma massa insuportável e latejante de dor. O seu pé jazia amassado sob um enorme paralelepípedo. Na hora Ana não pôde saber ao certo se o pé machucado fora o doente ou o saudável. Mas quando a boca de Nadja se fechou e ela desfaleceu, Ana voltou os olhos para a menina morena que observava tudo. As suas mãos morenas e pequenas destruíram um pé de Nadja esmagando-o com uma imensa pedra. Seu rosto pequeno estava pasmo: quando pensou em machucá-la não imaginou que seria tanto. Havia boatos de que mãe e filha partiram de madrugada, retornando a um país frio. Mas algumas vezes Ana ficava certa de ter visto os olhos de Nadja dentre as pregas das cortinas. E pensava se era justo que ela ficasse

presa para sempre. E pensava no que poderia ter levado uma menina a esmagar o pé de outra, e de onde poderia vir esse ódio sentido pelas imperfeições. Pensava nos motivos possíveis de tantas coisas, estática sobre o muro. E pensava que teve vontade de rir quando viu Nadja andando pela primeira vez, mas depois se distraiu com todas as coisas que Nadja em movimento parecia ser: barcos, águas, buracos, tempestades, molas, proezas, dias ensolarados que terminam com chuva, fruta misturada com comida salgada, quando a gente descobre que a goiaba está bichada e continua comendo tentando não pensar, pedaço de carta amassada no fundo do baú, um pano de copa úmido útil encolhido no canto, rabo de lagartixa sacudindo fora do corpo lembrando que o amor não morre fácil assim. De Nadja não houve mais notícias, mas Ana pensaria nela ainda anos mais tarde. Dizem que Ana engravidou seis vezes, mas que nenhum feto vingou. Houve um único que nasceu aos cinco meses, cabia num bolso de paletó e viveu horas, respirando pouco. Não chorou nem gemeu sequer por um momento, não se sabe se por falta de forças, por falta de tempo, por não estar suficientemente formado para o sofrimento, ou por pura compreensão.

Isabela Penov é escritora, atriz e arte-educadora. Dedica-se sobretudo a contos e críticas teatrais – esporadicamente, poesia. Publica alguns de seus trabalhos em seu blog Semeaduras, e também no blog Filacantos, um jogo-autoral coletivo. Desde que se lembra é apaixonada pelas palavras – sua potência, seus limites e seus segredos. Ama as crianças, adora o ócio, gosta de cantar, tem esperança na educação e uma fé inabalável nas pessoas e na construção de um mundo mais justo.

isabela Penov

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Contos

Grávida
Aline Nardi

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Estou grávida do mundo, e não sei o que fazer com ele. Me machuca, me irrita, está aqui. Não o quero, mas está aqui. Tudo o que ocorre por dentro, o que ocorre por fora, o que ocorre ao derredor, tudo converge pra esta barriga. Se reúnem ao redor desta barriga; esperam um novo milênio, como se novo fosse melhor, mas não é. Caminho lentamente para um fim de ciclo, aterrorizada por saber das coisas. Mãos nas costas, barriga proeminente, as pernas caminham levemente abertas e as pontadas me lembram uma foda espetacular de ressaca terrível. Eu acreditava num mundo melhor. Agora esta criança se forma inconsciente de seu futuro. E eu, a errância de sentimentos frívolos, a comer os doces hidrogenados das celebrações de ano novo. E enjoo. E enjoo. Vomito e enjoo com o resto de mim. As imagens embaçadas, misturando o meu reflexo. Lá fora estão se comendo, se embebedando. Aqui dentro protejo com a placenta doente um futuro incerto. Tenho medo. Tenho medo. Os corredores estão escuros, eu ouço as vozes, ouço os gemidos. Não os vejo, mas sei o que estão fazendo. Todas as verdades malditas e pervertidas em ações mascaradas para melhor degustação. aline Nardi

Não são o que falam; a coerência caminha à margem do real. Engolem a porra de um mundo contemporâneo. Ele copula com um passado ora glorioso, ora infame. E eu sou filha deste passado! E mãe deste futuro! Quem eu sou? Sou uma encruzilhada. Várias vias convergindo num ponto de onde se parte para o nada. E mastigo as oferendas como se fossem parte minha. Como se movimentassem minhas cólicas. Como se pressionassem meu ventre cheio. E fujo. Sem rumo, contraindo as vísceras para um fim desolador. Eu vou morrer neste parto. Eu vou implodir com a expulsão deste feto do amanhã. Não há fogos de artifício para receber o futuro. Não existem festas de contemplação para este novo rebento. O que há é choro, desespero, um soltar de mãos protetoras rumo ao caminhar sozinho aterrorizante. E não sabemos nada! E a dúvida é mais tenebrosa que a certeza de uma mentira. Desfaleço. E fico de cócoras. Esperando o momento em que as luzes serão acesas; em que as cartas serão viradas; em que eu morrerei na mesa, estendida em oferenda. Estou grávida. Com medo. Mas com o gosto acre na boca, ele me lembra que engoli a porra toda.

Escreve desde criança, mas apenas aos 29 teve coragem de publicar em papel. É autora de Mistérios do Meu Ventre (2010), pela Ed. Multifoco e A Cova da Alma (2011), pela Ed. Bookess. Publica de forma independente e sonha em continuar assim até o fim da vida. Persegue alguns títulos acadêmicos, mas não os considera relevantes ao ponto de serem mencionados. Publica sua literatura em http://alinenardi.com.

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Contos

iniciação
A gente gostava de passar as tardes na casa do meu avô. Quando era inverno eu ia pro quintal ficar procurando os espaços no chão onde o sol batia mais largo, peneirado pelas folhas da parreira. Achava bonito ficar olhando aqueles recortes de sombra. Algumas folhas secavam e caíam e então eu escolhia as maiores para levar pra dentro e jogar na lareira. Lá para as cinco horas o meu avô trazia a lenha e eu me arrumava atrás dele, todo encurvado, as mãos juntas entre os joelhos, pronto pra sentir o calor do fogo no rosto, com olhos e ouvidos aguçados, porque gostava de escutar o crepitar da folha se desmanchando pra virar cinza, e porque cada vez que eu lançava um punhado delas, a cor do fogo se avivava. Foi numa dessas tardes, ocupando o meu posto diante da lareira, com meu punhado de folhas secas e o rosto muito vermelho pela proximidade do fogo, que eu levantei os olhos num momento raro de distração e fiquei paralisado diante de um Jesus cujo olhar zeloso pela humanidade parecia fixarse em minha direção. Mas eu não soube distinguir uma expressão de complacência nos olhos azuis daquele Cristo pintado. O que queria dizer “estou olhando por vocês” para mim significava: “estou à espreita.” Senti-me incomodado porque era como se um estranho tivesse adentrado a sala para me pôr medo. Ele poderia me atacar a qualquer momento. Afastei-me do fogo, fui até a porta. Saí de dentro da casa e fiz a volta pela varanda. Pela janela ele também me olhava. Tinha um manto azul claro sobre os ombros, e os cabelos eram dourados. Mais tarde o reconheci no Drácula de Coppola. Aquele Jesus era Gary Oldman aparecendo em Londres para reencontrar Winona Ryder. Ambos haviam sido sentenciados e condenados às agonias físicas mais terríveis, até a hora de sua morte: um por empalamento, outro por crucificação. Um pelas mãos dos fiéis, outro pelos infiéis. Mas Jesus eu temia mais, porque me disseram a vida toda que existia. E se

Léo Tavares

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ele tivesse mesmo aquele olhar do quadro na casa do meu avô, eu certamente não gostaria de encontrá-lo. Minha infância teve tardes de sábado pavorosas em que a minha irmã me chamava para assistir a filmes de terror. Eu não podia recusar. Reconhecia a vergonha do medo pelas coisas que não existem e não queria demonstrar covardia. Olhava para minha irmã de canto de olho – para ver se ela me observava enquanto eu escondia o rosto com as mãos nas cenas mais terríveis. Eu nunca via as piores partes, mas sabia que nessas noites o sono seria perigoso, na iminência dos pesadelos. Foi de tanto ter pesadelos que acabei me acostumando com as imagens mais sinistras e aos poucos, escondia o rosto cada vez menos. Aos oito anos, já encarava de frente o Jesus na casa do meu avô, e por longos minutos. Vi que o que tinha de crueldade nele era exatamente o nosso sentimento de culpa. Diziam-nos que ele morrera pela gente. Como olhá-lo nos olhos, então? Eu queria dizimar numa inquisição de brinquedo um punhado de folhas secas, e naquela tarde reconheci no olhar dele um crime que eu nem suspeitava ter cometido. A primeira vez que aprofundei minha relação com as imagens foi através do medo e da culpa. Também foi a primeira vez que me revoltei, sem sequer saber o que era isso. Logicamente, naquela idade eu também não poderia suspeitar o que significa ser uma pessoa teofóbica. Mas foi através de Jesus que tive medo de Deus. Dele e de seu séquito de santos retratados em martírio e redenção epifânica. Certa vez fui com minha mãe visitar

alguém que tinha em casa uma verdadeira galeria de personagens católicos: anjos e santos pendiam de paredes descascadas pintadas de bege, que era a cor do hospital, da igreja, das capelas mortuárias e de todas as coisas amedrontadoras ou tristes construídas na minha cidade. Mas lembro de ter voltado toda a minha atenção para aquela mulher que trazia uma roda com serras de ferro. Perguntei quem era e me disseram que era Santa Catarina de Alexandria. Mais tarde me contaram que a roda fora um instrumento de tortura imposto por um imperador romano; que ela aos dezoito anos vencera com argumentos os cinquenta maiores sábios do mundo, e que quando morrera, no lugar de sangue, saíra leite. Nunca me interessei por questionar a veracidade desses fatos. A história me deixara embevecido no sentido mais místico que pode existir. Foi uma primeira sensação de enlevo erguendo meu corpo e levando a minha imaginação para longe da terra e de todas as pessoas. Mas não para um lugar de fé, eu sabia. Era um mundo de coisas indizíveis, inexplicáveis, muito mais rico do que qualquer mundo que eu já visitara no sono ou quando lançava ao fogo pequenas coisas mortas. Literatura, ficção, conto. Quando me contaram a história de Catarina de Alexandria pela primeira vez, eu tive sim, um verdadeiro arrebatamento. Não conseguia explicá-lo, a quem perguntasse. Eu disse à minha mãe: “virei fã de Santa Catarina!”. Em tempos mais antigos, me diriam ser este um êxtase católico, e talvez me levassem a seguir uma vida religiosa porque reconheceriam nisto uma espécie de chamamento. E foi. Não é à toa que hoje escrevo.

Léo tavares
Natural de São Gabriel, RS, mora em Brasília, onde estuda Artes Visuais na UnB. Participou da antologia do Concurso Nacional de Contos Newton Sampaio, edição 2007, Concurso Nacional de Poesia Cassiano Nunes, edição 2009, e Prêmio SESC de Poesia Carlos Drummond de Andrade 2011. Colaborou com textos na edição nº 4 da Revista Literária Macondo. Foi finalista do Prêmio SESC de Literatura em 2010, com o livro de contos Os Doentes em Torno da Caixa de Mesmer. Blog pessoal: http://mobileazul.blogspot.com

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Contos

O Bichinho
Diana Cunha Gil
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Não dormia há três dias seguidos; comer era quando se lembrava; os amigos não lhe punham os olhos em cima; estava uma sombra do que costumava ser. Tudo tinha começado com uma ideia. Estava no café muito bem a conversar e, de repente, a ideia surgiu assim do nada. Desde então só pensava nisso. Ao princípio ainda conseguia fazer a sua vida normal, mesmo com a ideia dentro da sua cabeça, constantemente a martelar. As ideias são assim, teimosas, obsessivas, ciumentas, quanto mais lhes tentamos escapar mais elas se agarram a nós. Os dias foram passando e parecia que a ideia cada vez crescia mais, ganhava forma dentro dele, alimentava-se do seu próprio corpo e ia ganhando vida própria. Começou a falar sozinho na rua, a ficar parado no meio dos passeios, simplesmente a olhar para o vazio; as pessoas atropelavam-no e achavam que estava meio louco. Os amigos preocupavam-se, diziamlhe para esquecer o assunto, levavam-no a passear e a beber copos, mas nada o tirava daquele estado. Começou a ficar cada vez mais tempo fechado em casa, ninguém sabia o que ele fazia. Recusava convites, não atendia o telemóvel, encerrou-se em profunda solidão. Chegou a um momento em que já nem ia trabalhar, tinha posto férias. Começava a ter problemas em conciliar a vida com a ideia, pois a ideia era já maior do que a sua própria vida. O seu melhor amigo pedia-lhe que consultasse um médico, um psicólogo talvez, pois era óbvio que estaria doente, talvez à beira de um esgotamento nervoso. Ele não ouvia, os seus ouvidos já só ouviam o que ela lhe dizia, aquela coisa que estava dentro

dele e contra a qual já não conseguia lutar. Ao fim de quase duas semanas de recolhimento, os amigos acharam que era demais, tinham de saber o que se passava e, por isso, organizaram uma equipa de salvamento. Tocaram à campainha por mais de uma hora, pensaram que afinal talvez tivesse saído. Ligaram para o telemóvel, mas ouviram-no tocar dentro do apartamento. Encostaram o ouvido à porta e ouviram a presença de alguém, por isso ele estava. Consideraram a hipótese de arrombamento, mas pareceu-lhes excessivo, por isso tocaram por mais uma hora à campainha. Nada. Decidiram-se pelo arrombamento e lançaram-se todos sobre a porta. PUM! PUM! PUM! O barulho ecoava pelo prédio e receavam que alguém chamasse a polícia. Ao fim de muito esforço e recorrendo a diversas artimanhas a porta abriu-se, exatamente no momento em que dois agentes da polícia chegavam a correr para tomar parte da ocorrência. Ao abrirem a porta viram-no sentado no meio da sala, rodeado de folhas, de portátil no colo, a teclar de forma furiosa. Nem levantou a cabeça. Só quando um polícia ameaçou os seus amigos de os levar para a esquadra é que se ouviu: – Senhor agente não se preocupe, eles são meus amigos e não há queixa a apresentar. Ao começarem a ler as folhas que se encontravam espalhadas um pouco por todo o lado os amigos perceberam, a ideia não era mais que o bichinho da escrita que o tinha dominado e se tinha transformado num romance.

diana Cunha Gil
Portuguesa, licenciada em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Portugal, publica os seus textos no blog Diário da Loira.

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Contos

João Pilão
o sineiro de del rei
badalos, onde os sinos falam com seus habitantes, entoados pela glória dos dobres e repiques cheios de regras litúrgicas em que cantam a vida e a morte. É quaresma. E ali, onde abrem as portas para o Senhor do Bonfim, com suas ruelas incrustadas de pedras, e casarios coloridos, desce um negro magro, esguio, e forte. O negro, conhecido por João Pilão, sineiro de tradição, ofício transmitido por gerações, sabedor dos mais de 40 tipos de toques festivos e criador de outros tantos aprovados pela mais alta cúpula eclesiástica das confrarias, desce para o cumprimento de suas obrigações. Naqueles dias João andava cabreiro, não se sabe se por amor a uma singela negrinha, ou se por conta do seu afastamento das forças armadas em Juiz de Fora, mas o certo é que foi visto passar ao lado da Igreja de São Francisco olhando discretamente e de soslaio, como se para não ser avaliado. Depois, foi visto no botequim da Ponte do Rosário, logo na entrada do Não vou ficar aqui me consumindo em exaustão, tentando descrever o que já está tão bem descrito. Bernardo Guimarães assim nos apresenta a bela São João Del Rei, essa formosa odalisca, que abre as portas das magníficas regiões do sul de Minas, com seu aspecto faceiro e risonho a dar-lhe aparência de noiva gentil trazendo na fronte a grinalda da festa nupcial, e nos lábios o sorriso da alegria e do amor. Travessa pastorinha. Com seu aroma de flor de laranjeira, rosa, jasmim, jambo e manjerona, das fragrâncias que se exalam de seus inúmeros jardins e pomares, sempre toucados de flores e frutos porque lá só se conhecem duas estações, a primavera e o outono, que reinam ali harmoniosamente durante todo o ano. Terra dos frutos, das flores, dos perfumes e das canções, dos risos e das festas, da beleza e do amor... A Nápoles de Minas. Melhor introdução não há de ter, essa bela dama ribeirinha, com suas pontes de pedras, envolta pelo sagrado e o profano. Cheia de histórias, mistérios, e lendas, senhora da erudição, das melodias e dos

Fábio Wanderson de Sousa

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Tijuco, a tagarelar com outros negros sobre mulheres, música, e capoeira, entornando uns goles de restilo de cana-de-açúcar. Lá pelas tantas, a observar o movimento dos transeuntes, percebeu que já se encontrava em atraso para o cumprimento do dever. Um pixote que por lá passava gritou para ele que o pároco estava à sua procura, pois havia de iniciar a cerimônia dos dobres convidando os fiéis para a procissão do Senhor dos Passos. Saiu dali num corisco, subiu a torre correndo dando início naquele dia aos mais belos dobres, jamais ouvidos por aquela estância, e a cidade toda foi envolvida pela sonoridade das baladas de Jerônimo. Na cidade Del Rei, todo sino tem o seu nome, todo sino é batizado. E Jerônimo era o nome do sino de João Pilão, por quem ele tinha grande estima e admiração. Jerônimo era o sino perfeito, de uma precisão rítmica inigualável. E foi por conta dessas considerações que os sineiros foram criando voz própria, sendo comum um sineiro reconhecer o outro apenas pela sonoridade que cantavam os sinos, quando estes soavam alegres ou tristes por toda a região. As confrarias subiam formando a procissão e já apontava suntuosa com os seus confrades a carregar o Senhor dos Passos em seus ombros, os coronhinhas vinham à frente, fazendo tilintar numa só harmonia as matracas ululantes, as corolas com suas ladainhas a repetir sem parar os contos do rosário, e lá no alto, na torre do belíssimo monumento erguido em homenagem a São Francisco de Assis, cartão postal, rainha majestosa de todas as igrejas, ro-

dopiava Jerônimo anunciando a passagem da comitiva formada pelo clero, coronéis, comerciantes, beatas e gente do povo sãojoanense. — Hoje os dobres estão perfeitos — dizia o bispo. De repente os dobres foram perdendo o seu ritmo, o que não era comum, justamente na passagem do Senhor dos Passos. Uma afronta. João abandonará o posto, pensou o Bispo acenando com a mão. O sacristão correu até a torre, entrando zunindo por entre os seus corredores apertados, lá encontrou um pesado alçapão. Com um dos ombros forçou até o esgotamento. Estirado sobre uma poça escarlate o corpo de João Pilão, com sua cabeça decepada um pouco mais adiante. Jerônimo encerrava o seu último dobre. Lá de cima, já num silêncio absoluto e com todos olhando para cima gritou a sacristão: — João morreu, João morreu! — se fez ecoar por todo o Campo das Vertentes. Alguns dias depois, lá estava Jerônimo no banco dos réus, o juiz da comarca optou pela condenação, e Jerônimo foi chamado de o “Sino Assassino”, seu badalo foi retirado e não deveria mais ser tocado até ser conduzido à fundição. Porém, os sinos são como a Fênix, eles ressurgem das cinzas dando forma a outros sinos, são conduzidos novamente ao batismo clerical onde recebem um novo nome. Jerônimo foi rebatizado com o nome de Francisco. Dizem que nas madrugadas sombrias da quaresma ouve-se Jerônimo chorar o badalo do dobre fúnebre.

Fábio Wanderson de Sousa
Mineiro de São João Del Rei, nascido no ano de 1971. Estudou Filosofia na Faculdade Católica de Anápolis – Goiás. Na filosofia é leitor de Nietzsche, o seu preferido; na literatura, Jorge Amado e Nelson Rodrigues. É membro da U.L.A – União Literária Anapolina. Lançou o seu primeiro livro de contos em julho de 2012. Atualmente deseja entrar para a comunidade SAMIZDAT, por acreditar na sua missão e filosofia.

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Contos

o Centauro de Saramago
Conheceu a Nélida no salão de cabeleireiro. Fora fazer um corte a máquina e a gerente, uma felliniana de quase 100 quilos, a convocou para executar o serviço. Sentado na cadeira, observando-a através do espelho, Ignácio sentiu o célebre desconforto machista em ser atendido por um travesti. Suas mãos eram pesadas, mãos de homem, a despeito da tentativa de figura feminina que Nélida se esforçava em representar. Não fosse o leve azular da barba e a voz artificialmente colocada, por mulher passaria. Ele voltou para casa incomodado, mas reconhecendo que Nélida havia caprichado no corte. Na segunda vez, já estavam um pouco mais íntimos e o desconforto diluíra. “Trabalha em quê?” perguntou Nélida enquanto manejava com maestria a máquina. “Professor de matemática” foi a lacônica resposta. Como estávamos na Quarta-feira de Cinzas, Ignácio ouviu atento e assombrado, o relato de Nélida para as outras cabeleireiras sobre suas aventuras no Baile Gay fantasiada de Coelhinha da Playboy. Voltou para casa curioso, imaginando Nélida dentro dos seus trajes carnavalescos. Na terceira ida ao salão, encontrou um negro forte sentado onde já considerava o seu lugar. A felliniana chamou outra cabeleireira para dar um trato em sua cabeça semirraspada e Ignácio, disfarçando a contrariedade, ficou bisbilhotando os movimentos de Nélida que, num frenesi entusiástico, esculpia na nuca do Apolo de Ébano a palavra “Mengo”.

Zulmar Lopes

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Voltou para casa platonicamente enciumado. Em sua quarta visita ao salão, durante o ritual do corte, Ignácio pediu Nélida em namoro. Seguiram para a casa do professor e tiveram sua primeira noite de amor. Passaram a dividir uma quitinete em Copacabana em companhia de um gato angorá chamado Oscar que interpretava o papel de filho que nunca teriam. Viviam como marido e mulher, pois Ignácio não a desejava como homem e tão pouco Nélida prestava-se ao papel ativo. Só um detalhe atrapalhava a paz conjugal: os flácidos 11 centímetros de Nélida. Ignácio tinha verdadeira ojeriza ao falo da amada, mal conseguia encará-lo. Passaram muitas madrugadas de carinhos no escuro, com o membro de Nélida ocultado pelo negrume do quarto enquanto o travesti recebia Ignácio de bruços, escondendo a parte de sua anatomia embaraçosa ao seu amor.

Saramago que a criatura mitológica sempre tivera o desejo de dormir deitado de costas, o que sua constituição, meio homem, meio equino, o impedia de realizar. Encurralado, o centauro queda-se por um desfiladeiro e tem seu corpo violentamente cortado ao meio por efeito de uma pedra pontiaguda. Em seus últimos momentos de vida, a porção humana do centauro caído de costas experimenta o prazer de sentir o solo acariciando suas omoplatas. Emocionada, Nélida cerrou o livro e tomou uma decisão.

Foram quase dois anos de espera, mais seis meses de recuperação após a cirurgia. Dr. Euclides Pessoa, conhecido nos meios cirúrgico-científicos como “O Pitanguy das Xoxotas”, fizera um trabalho digno de figurar em qualquer galeria de arte, dada a perfeição em que construíra a vagina de Nélida. Então, tal qual o centauro de Saramago, o agora extravesti provou da emoção única de, omoplatas roçando os lençóis, Um dia, pousou nas mãos de Nélireceber um homem, seu homem, de da um livro de contos de José Sarafrente pela primeira vez na vida e mago. Não era dada a leituras, mas ambos, unidos e extasiados, gozarem interessou-se pela história de um os prazeres que um prosaico papaicentauro caçado impiedosamente e-mamãe só àquele casal poderia por um grupo de humanos. Narrava proporcionar.
zulmar Lopes
Carioca, jornalista, contista e aspirante a romancista, Zulmar Lopes tem um punhado de prêmios literários, a maioria de nenhuma importância. Membro correspondente da Academia Cachoeirense de Letras (ACL). Roteirista do curta de animação “Chapeuzinho Adolescente”. Em 2011 lançou o livro de contos “O Cheiro da Carne Queimada”. Há anos escreve um romance cujo pano de fundo é o carnaval carioca. Espera terminá-lo ainda nesta encarnação.

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Contos

Sonho de Cores
O verde engole e envolve o tudo. A estrada fica ali, reservada. Seu cinza apagado, enquanto carros passam em cima, desejando explorar ainda mais a sua imensidão. Casas pequenas. Vacas brancas. Árvores. Mato, mato e mato... Nem vejo o final. Cadê o horizonte? Sumiu... E a gente continua indo e indo em cima desse carro que não sabe muito bem qual destino tomar. Só segue a estrada, perdido e guiado por aquele caminho incerto que guarda as surpresas do Pantanal. Pássaros voando. Um, dois, três, quatro. Formavam um V fazendo ba, rulho e ilustrando o céu. Perseguios, até que foram embora para não mais voltar. Abandonaram os meus olhos. Com o movimento, me deixei dormir. Acordei em um lugar encantado. Existiam milhares de borboletas, e elas pousavam em todos nós, enquanto fotos e flashes eram disparados. Tentativa de eternizar o invisível. As aves cantavam, sem se espantarem muito com a nossa presença. Tudo era iluminado com o sol e mais nada. A noite reservava a presença da lua, que ainda refletia certa luminosidade, mas apenas o bastante para fazer nossos olhos se acostumarem. As estrelas decoravam o céu, formavam um caminho branco, a via láctea. Deitei no barco, sem saber onde estava. Não podia ser o nosso planeta, a nossa casa. Era mais.

Isabella Gonçalves

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Fechei os olhos, enquanto tentava memorizar o instante. Esqueci rápido o imensurável. Não tinha como lembrar. Logo já me via espiando, tentando contar todas, perceber os nomes, lembrar os detalhes. Falaram do Cruzeiro do Sul, que apontava e mostrava a direção, e então o vi. Navegávamos, seguindo um caminho que ora coincidia com a sua indicação e ora desrespeitava. Ele ficava ali, vitorioso e brilhando. Devia olhar para nós lá de cima, tentar nos contar e guardar as características. Do jeito que fazíamos. Uma ironia constelar. Fiz três pedidos. Um para cada estrela cadente. A azul despencou, depois a verde e a amarela. Caíram e sumiram no horizonte, formando uma faísca em nossos olhos que perdurava... Ao nosso lado, pássaros descansavam em galhos e jacarés ficavam imóveis, com apenas a cabeça à mostra, movidos pela curiosidade. A gente também os via, quase caindo do barco, de tanto esticar o pescoço. Os olhos deles à mostra, cientes de nossa presença, mas sem atacar. – Ah, se você estivesse fora desse navio – deviam pensar. Porque o bote deles era pequeno demais para aquela embarcação. Tudo estava preto. Um silêncio quase total. O barco avançava lento, tentando acompanhar a calmaria. O céu se clareava pouco a pouco, e a lua se despedia dele. O sol se

preparava, emergia lentamente das águas ainda escuras do rio, pronto para iniciar o show e ocultar as outras estrelas. – “A casa está cheia hoje, chefe” – uma nuvem comentou. E ele logo se inflou todo, preparando-se até que o vento lhe soprasse um aviso final. Luzes surgiram, com raios irradiando atrás de nuvens e invadindo o céu. O sol nascia. Olhei para a frente e estava colorido. A bola vermelha pintava com a sua cor. Azul misturado com laranja em uma aquarela imensa. Alguns pássaros já se levantavam, tentando tirar um pouco da cara de sono voando por aí. Quando o sol já estava no alto, flashes foram disparados, tentando copiar aquilo tudo. Fotógrafos ganhavam a fama de artistas, enquanto a estrela amarela era a principal. Dava vontade de ficar ali, caçando animais com uma câmera e escrevendo as suas músicas em um papel. O bom mesmo seria deitar sobre uma grama dessas para sempre, vendo o Cruzeiro do Sul ao longe, enquanto o verde abraçava e não deixava ir embora.

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oCoLÂNdia

Contos

Silvana Michele Ramos

Naquela pacata terra, tudo funcionava com a mais perfeita integração. Era como uma engrenagem celeste: o açougueiro cortava a carne, o escrivão relatava as ocorrências, o leva-e-traz levava e trazia. Tudo ia bem, até que apareceu lá um arruaceiro. À sua chegada, todos se alvoroçaram. Pudera! Ele portava uma bagagem para lá de esquisita. Diversos caixotes castanhos com inscrições de “Cuidado! Frágil!” despertaram curiosidade nos moradores que se achavam na estação de trem no instante do desembarque do sujeito. E, como em todo lugar, houve quem se aproximasse tanto que conseguisse descobrir, pela denúncia de alguma fresta em um dos contêineres, o teor daquela tralha suspeitíssima: livros! O boato logo tomou o lugarejo; e, tal como no ditado “quem conta um conto aumenta um ponto”, havia quem jurasse que ele, mal entrara na cidade, já sacara – que perigo! – um robusto exemplar de As mil e uma noites. Já

sobre a bagagem, cogitava-se que seria artilharia das mais pesadas: de Gógol a Dostoiévski, de Donne a Hemingway, passando pelos Machados... Não foi absolutamente infundado concluir que ele traria problemas. E, se os traria, não interessava saber quais seriam ou quando iriam começar. O negócio era cortar logo o mal pela raiz, e em casos como aquele, de nítida transgressão, tinha validade saltar toda a baboseira de ouvir o outro lado e chegar sem delongas à parte em que o réu é condenado e punido. Com este ânimo, todos, até os mais liberais, repudiaram em coro a inaceitável abjeção do infame – ainda que não a tivessem presenciado – e se inclinaram, favoráveis, na direção da sentença. Algumas almas caridosas apiedaram-se quando a noite caiu sem que o forasteiro tivesse encontrado guarida, mas, que remédio? Havia provas irretorquíveis de que ele era realmente nocivo, e, diante de tantas evidências,

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quem se arriscaria a dar hospedagem a elemento tão vil? Ficava até mal... A ele coube, então, a sarjeta. Mas não qualquer sarjeta. Afinal, havia moradores de rua e moradores de rua, e ele era uma serpente que precisava ser mantida ao largo dos cidadãos de bem. E foi no lugar mais afastado e inóspito que ele improvisou uma acomodação ao relento. Na manhã seguinte, um grave acinte. Mal o sol nascera e já estava ele, cometendo franco ato ilícito em plena praça pública: em riste e perigosamente aberto, ostentava nada menos que um Tolstoi, em cuja capa, alguns adolescentes, já dando sinais de perigosa aculturação, leram: A morte de Ivan Ilitch. Todos se escandalizavam com aquelas atitudes aviltantes. Que situação! Uma cidade outrora tão tranquila estava agora relegada a aturar tipos como aquele... E as crianças eram as mais suscetíveis. Nutriam temerária simpatia pelo degenerado. Se os pais descuidavamse um instante sequer, lá estavam elas, rentes ao mal-encarado, implorando, ouriçadas, por uma estória. Ele, insensível a todo o dano que isto acarretaria a elas e à sociedade no futuro, contava-lhes as mais instrutivas, e elas, vulneráveis, sorviam-nas como água de um poço contaminado, embevecidas, para, mais tarde, de volta às casas, exasperarem os pais com perigosas interpretações, conjecturas e – horror! – questionamentos. Preocupado com a repercussão que aquele exemplo de má conduta teria, o policial do lugar foi ter com o prefeito da cidade, a quem expôs detalhadamente o que se estava passando para depois pedir, em nome da manutenção da ordem e da segurança, providências as mais emblemáticas. O prefeito, que era adepto de delegar e de reprimir, nem pestanejou. Era mesmo o caso de tomar uma atitude para solapar exemplarmente aquela audaciosa dissidência, sob risco de as bases da governabilidade implodirem a qualquer momento. E, enquanto ele selecionava com toda a cautela um castigo à altura da

vilania, a representação do lugar reuniu-se. Veio o barbeiro, e propôs que se passasse a navalha. Veio o carpinteiro e sugeriu que se descesse a lenha. Veio o banqueiro e impôs que se fechasse a conta. Mas melhor sugestão foi a do leiteiro, que se mudara há pouco para a cidade e ainda pisava em ovos para agradar os compatriotas e estabelecer seu negócio em terra tão tradicional. Ele ponderou – atento a cada reação positiva que sua fala ia imprimindo nos semblantes de quem lhe convinha bajular – que um resultado mais eloquente surgiria se se espremesse o indivíduo até a última gota, exaurindo-o, diante de todos, como uma teta. Sugestão acatada, era hora de cuidar da sua execução. E na calada da noite, um plano pela salvação da cidade foi engendrado. No outro dia, espreitaram desde cedo até se certificarem de que o sórdido tinha-se posto a caminho de seu banco de praça já cativo. Em seguida, esgueiraram-se na direção da moradia improvisada. Lá, confiscaram todos os livros do abutre e deixaram um aviso: “O FIM DE QUEM LÊ, AQUI, É O FOGO.” De volta à morada, ao cair da tarde, o homem deu com a subtração e com o bilhete. Porém, ao contrário do que seria natural em situação semelhante, não fez nenhum alarde sobre o sumiço dos seus bens. Tampouco arredou pé dali, e sequer pediu auxílio à autoridade máxima do lugar, atordoando os idealizadores e – versáteis! – desencadeadores do ato. No outro dia, os criadores do plano – que, antecipando-se ao escândalo que o biltre seguramente faria, tinham dado o confisco a saber aos que se encarregariam, involuntariamente, da disseminação do boato – divisaram o atrevido, que se encaminhava, nem minimamente abalado e no horário de costume, para a praça. Não bastasse isso, o desvelo com que os saqueadores do bem executaram aquela edificante tarefa não bastou para que um exemplar de O Anticristo, de Friedrich Nietzsche, fosse incluído na operação. Desta forma, o abominável levava-o consigo, como um declarado

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desafio para um duelo que envolvia a comunidade inteira – já toda ciente, àquelas horas, da ineficácia do corretivo. Infâmia! Era a prova da qual os guardiões da honra da cidade necessitavam para punir exemplarmente o desajustado. Juntaram-se em volta do infeliz e o arrastaram pela praça até chegar ao canteiro central. Lá, fincaram uma madeira à qual ele foi amarrado. E, como o instrumento acionado na hora H pelo membro da orquestra bem ensaiada, seus valiosos bens ressurgiram, trazidos em lombo de cavalo pelo policial, que manteve um risinho sarcástico no rosto por todo o tempo em que os descarregou diante da teta, cuja exaustão, perturbadoramente, tardava em se manifestar, encolerizando ainda mais os protetores da ordem da cidade. Aquelas crianças para quem o desordeiro lera histórias durante sua polêmica passagem pela cidadela, em franco indício de que o mal já se havia instalado a despeito da seriedade e empenho com que todos trataram a questão, choravam copiosamente. As que felizmente haviam escapado ilesas àquela nefasta impregnação, riam-se e gritavam palavras de ordem, atiçadas pelos pais que não cabiam em si de orgulho. Em tom forçadamente piedoso, o policial, abarrotado de solenidade, quis saber sobre o último desejo do – seu, enfim! – sujeitado. Então o homem – que não era afeito a dar espetáculos tendo a si como personagem – pediu, em tom artificialmente submisso, que o queimassem primeiro, e se deu ao luxo de uma justificativa, qual fosse a de que não suportaria ver seus livros, cujo valor, para ele, transcendia o meramente material e passava a ser afetivo – sendo, por isso, inestimável – convertendo-se em inúteis cinzas. Alguns, precisamente aqueles que se prestam a ser os redentores póstumos dos mais indefensáveis criminosos, viram pertinência no pedido. Mas o prefeito, que pertencia à ala dos opressores a la Nero e ansiava por esmagar aquele que ousara ir de encontro a todo um regime que vinha dando certo há tanto tempo

que ninguém se lembrava mais de averiguar a sua legitimidade, determinou que acontecesse precisamente o oposto. Que queimassem os livros antes, e bem na frente dele, para que ele pudesse ter, como última lembrança, a visão de seu tesouro arruinado, e para que eventuais seguidores ficassem certos de que a lei dali tinha de ser cumprida. Então, os zeladores da tradição do lugarejo dispuseram, sob o olhar regozijado do leiteiro – cujo prestígio crescera a ponto de se poder deleitar no mesmo espaço em que o prefeito, o policial e outros ilustríssimos do lugar celebravam o triste ocaso da ovelha negra – os livros empilhados a certa distância do réu, de modo que ele pudesse observar sua destruição para, na sequência, senti-la de encontro à própria pele. E não tardou para que calibrosas labaredas começassem a se erguer, enquanto os cidadãos, tochas em punho, observavam, atarantados, o olhar indiferente e até altivo do salafrário. Subitamente, entretanto, o inusitado aconteceu: aquelas pessoas impolutas, aqueles autênticos guardiões dos bons costumes, iam, repentina e inexplicavelmente, sendo puxados para o alto em solavancos. Um a um, a começar pelos mais próximos da fogueira e depois de maneira caótica, habitantes reles e célebres decolavam, como jatos, para sumirem nas nuvens. E o homem mantinha-se calmíssimo. Pânico instalou-se na praça lotada. Entendendo que aquilo devia ser alguma espécie de maldição do monstro, a multidão começava a se dispersar. Houve correria e estardalhaço. Os lugares mais insuspeitados serviram de esconderijos, mas as pessoas iam, inexoravelmente, sendo arrancadas de onde quer que estivessem, e, dada a aparente aleatoriedade daquela macabra escolha, não havia muito o que fazerem, a não ser se deixarem ficar – de nenhum modo isentas daquele tormento que amolece e acovarda – até terem que ir. Uma angústia acachapante pairava no ar, mas – não que aquela gente ainda estivesse reparando – o homem dela se eximia. Apenas ficava ali, amarrado e quieto.

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Depois de algum tempo (o mais longo da vida de quem lá esteve), os puxões cessaram. E, passado o susto, os remanescentes lembraram-se do motivo pelo qual estavam ali. Aproximaram-se do sujeito e o desamarraram, não sem, simultaneamente, crivá-lo de questões acerca do extraordinário episódio. O que havia ocorrido? Para onde tinham ido os demais habitantes? Por que ele, que deveria ser o mais apavorado, não aparentava o menor dos receios? Ele caminhou lentamente até o gramado, onde se sentou. Os demais fizeram o mesmo, construindo um semicírculo ao seu redor. Ele, placidamente e fitando cada um daqueles rostos tão indagadores quanto familiares, principiou uma explicação. No momento de fazer o pedido, ele conhecera que seus algozes, ávidos por demonstrarem, finalmente, quem mandava – ou desmandava – naquela cidade, fariam precisamente o oposto do que ele solicitasse. Por isso mesmo, fizera-o ao contrário. – Mas para quê, se você seria queimado em seguida? – perguntou um menino, que tinha sido – ele reconhecia – um dos frequentadores mais assíduos das sessões que ele promovera naquela praça. – Ora – respondeu ele – depois de ler todos aqueles livros, eu aprendi que nem tudo o que aparenta ser, chega a ser, na verdade. – Como assim? – insistiu o garoto. – Note – explicou ele – que todas aquelas pessoas tinham um comportamento padrão. Elas não tinham vontade própria. Logo, alguém as comandava. Eu me interessei por saber quem

era e, ao lançar os olhos em todas as direções buscando o entendimento amplo, vislumbrei, ao olhar para cima, talas e fios coordenando os movimentos de todas elas, e compreendi que não passavam, na realidade, de marionetes. Eu as induzi a queimarem os livros porque, desta forma, no momento em que as chamas atingissem as mãos que as animavam, estas mãos, por reflexo, afastar-se-iam, e elas, consequentemente, seriam retiradas deste cenário. – E nós? Porque nós não fomos puxados também? – quis saber uma mocinha que também não lhe era estranha. – Foi porque vocês, ao resolverem não se privar do conhecimento, adquiriram, por meio dele, uma volição autônoma que os desatrelou desse comando central. Assim foi que o homem, auxiliado pela população remanescente, reouve os exemplares que haviam escapado ao fogo, catalogou os incinerados e, graças a diversas vaquinhas levadas a cabo sobretudo pelas crianças, reconstruiu o acervo extraviado. Algum tempo depois, ele inauguraria a primeira biblioteca da Ocolândia e, anos mais tarde, essa mesma população, junto com seus descendentes, em plebiscito, decidiria que a cidade, em homenagem ao seu opinioso quase mártir, chamar-se-ia Opiniópolis, e que ali, doravante, só haveria uma proibição: recriminar pensamentos que divergissem do senso comum. E naquela pacata terra, ao se olhar para cima, via-se, agora, o céu azul... (Revisto em 08.07.12)

Silvana michele ramos
Ingressou propriamente na Literatura em 2006 com este conto “Ocolândia”. De então até o momento da presente republicação, foram 16 as deferências auferidas em seleções literárias. O conto “Ocolândia” foi publicado em 2007, em Belém do Pará, na coletânea “PRÊMIO DE LITERATURA AP” (Ícone Gráfica), decorrência de seu 3o. lugar no referido prêmio, em 2006. Pode ser tido como conto de estreia porque a única publicação afim e anterior é a de uma redação em coletânea trilíngue (concurso para universitários brasileiros promovido por UNESCO / Folha Dirigida / MEC em 2005), publicação esta que, apesar de seu alcance além-país (todos os países afiliados da UNESCO), ainda não assume inteiramente o formato de ficção. Mas o valor do velho conto “Ocolândia” é o de uma “obra-testemunho”: os elementos em que se baseia o estilo atual de escrita da autora já figuravam nele.

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João Vereza

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menina na tempestade

Contos

Gabriel Beautrace, o naturalista, deixou sua cabine e a enxurrada lhe cuspiu a cara. O aguaceiro escorria sem misericórdia, Deus perdeu o coração, o tanto que jorrava, a água que mandava, descia das calhas do galeão como corredeira. Foram os espécimes, seus potes de insetos, caíram pelo balanço labirintite, volta aqui, rola prali, criançada na gangorra do tombadilho. Beautrace partiu atrás, sal no peito, frio na vista, enfrentou lufada e escorregão, catando suas descobertas feito uma tia desesperada. Céu escuro, troço violento, trovões sem saber de onde, os raios sem saber o próximo, estalo!, explosão!, valei-nos que Deus acordou furioso. A tripulação espalhada na correria, recolham as velas descabeladas, amarrem firme estes barris, Nossa Senhora, tranquem logo os víveres na gaiola. O Capitão um capeta delirante, ordenou ser amarrado, chumbado, preso ao timão pela corda serpente. Gorgolejou com os pulmões, gargalhou como uma viúva louca, ‘molhe mais, vente mais, minha menina o Senhor não naufraga!. Seus marujos visíveis nos relâmpagos estroboscópicos, agora esticam uma corda, agora estirados no convés, agora rezam à garrafa de rum. O navio carregado pela avalanche do oceano, que chance terão suas almas?, pra que destino lhes suga o redemoinho?. Beautrace um suplício em direção à cabine, agachado, bambeado, um braço empilhando três jarros de borboletas, o outro se apoiando nos mastros e canhões. O barco subia, o barco descia, a porta a uma ironia do seu alcance. O naturalista olhou e se apavorou, um jarro de besouros passou entre seus pés, girando sem freio pro mar. Agarrado às madeiras velhas, o moleque Mirandinha também viu, se recuperar estes bichos, certeza!, Beautrace o adotará como aprendiz. O vidro cai na água, o menino se livra das cordas e salta o herói alado, o mergulho sob uma pratada de orquestra. Nada no estômago das ondas, chega até o jarro e agarra-se ao medalhão salva-vidas. Os besourinhos sobreviventes e amontoados, as patinhas vagarosas pelo ar, as pernas do menino gastando a bravura. Ele grita para o vulto do barco, a água rouca encharcando a voz adolescente. O Capitão voltaria com sua menina, nem homem, nem besouro, se esquece para trás. Seu fôlego falhando e o navio se distanciando, a esperança tola ninguém ouviu. ‘Meu Capitão, doutor Beautrace!, já iam lhe jogar a bóia, ‘aqui!, claro que iam, ‘aqui!, já iam já.

João Vereza
32 anos, é carioca. Redator publicitário, mora há 6 anos em São Paulo e tem seus textos publicados nos sites MundoMundano e Jornalirismo.

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Contos

Sombras de carne

Cinthia Kriemler

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Lola limpou a boca no lençol, pouco se importando com o olhar magoado do rapaz ao seu lado. Aqueles encontros estavam começando a irritá-la. Rodrigo aparecia mais de uma vez por semana no Mercado Municipal, com um jeito desamparado de cachorro com fome, e ela acabava por se deixar vencer pela piedade. Os olhos... Eram os olhos de Rodrigo que atraíam, prendiam. Não a boca, nem os gestos que não passavam de uma mão trêmula e gelada, e de um único grito abafado na hora do gozo. Seus olhos, no entanto, cuspiam sofrimento, escondiam algum segredo. Havia entre os dois um comércio. Nada mais. Lola não gostava da demora do rapaz, do tempo arrastado que levava para gozar. Uma coisa tão simples essa de trepar, mas Rodrigo insistia em fazer de cada uma das vezes um ritual de afeto, como se estivessem num encontro. Ela já estivera com outros da idade dele, outros que se apaixonaram pelos seus seios e pelo seu sexo sem pelos, que a tocaram como gatos nervosos, desajeitados, arranhando, mordendo, se esfregando em sua pele lisa. Mas Rodrigo tinha aqueles olhos, só podia ser isso! E ela acabava por se deitar com ele novamente, rendendo-se a preliminares que não permitia a ninguém mais. — Por que é que você limpou a boca? — quis saber o rapaz. Sem lhe dar resposta, Lola enfiou o corpo carnudo debaixo do chuveiro. Ela tinha pressa. Sempre tinha. As coisas deveriam estar fervendo no mercado, e Xavier não gostava de ficar sozinho na banca. Reclamava da demora nas entregas e pedia a ela que não se ausentasse por tanto tempo. Não que desconfiasse dela. Não, isso nunca! Mas ficava desorientado quando a mulher não estava para atender os fregueses. Embrulhava os queijos e as compotas no papel errado, amassava as frutas, e os fregueses só

não iam embora por causa da amizade. Ela e Xavier mantinham a banca desde que tinham se casado, 18 anos antes. Dezoito anos atrás Rodrigo tinha três anos, pensou, esquecendo-se do marido e do mercado. Mas logo afastou o pensamento e concentrou-se no vaivém da toalha com que enxugava as costas. Desde que Xavier tinha ficado doente, havia algum tempo, nunca mais fora o mesmo. Acabaram-se as brincadeiras prolongadas no colchão, o sexo em pé, atrás da porta, quando a urgência não permitia chegar ao quarto, e as fugas para os fundos da banca, onde se excitavam como adolescentes, escondidos atrás dos caixotes de fruta. Ela se acostumara, ano a ano, a fazer tudo com pressa. Não fosse aceitar aquela rapidez do marido, ficaria sem nada. Traíra Xavier, pela primeira vez, seis anos antes. Um freguês perguntou se faziam entregas em domicílio e ela mesma se encarregou de ir levar as compras. Preferia que o marido ficasse na banca. Por mais desajeitado que fosse, Xavier era melhor do que ela nas contas, e havia ainda os fornecedores, com quem Lola preferia não ter que lidar. Quando chegou ao apartamento sofisticado, foi o freguês quem lhe abriu a porta. Alto, com a pele clara e os cabelos escuros levemente ondulados, recendia a um perfume discreto, mas insinuante. Lola teve vontade, assim que o viu, de passear os dedos naquele peito largo. Deve ser bom deitar em cima dele depois do sexo, se pegou pensando. Depois, as mãos que se roçaram na entrega das compotas, o pacote que caiu, os dois corpos que se abaixaram juntos na tentativa de pegá-lo, e o perfume que se impregnou nos seus sentidos, roubando-lhe o juízo. Por fim, os olhos se provocaram. E os dois se completaram pela fome. Era assim que Lola gostava de se lembrar das coisas.

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Fizeram sexo, ela e o homem do perfume suave, por quase um ano. Ele ia até a banca, encomendava os produtos e pedia que fossem entregues em sua casa. E a entrega se fazia no suor dos corpos apressados. Lola fez-lhe uma exigência: que comprasse sempre muito. Aplicava, assim, ao amante e a si mesma, um mea culpa. Ambos pagavam, a seu modo, pelo que consumiam. Quando o amante parou de procurá-la, Lola percebeu que não sentia falta dele, mas das compras que fazia em abundância. E decidiu que era preciso repor o prejuízo. Da banca e do corpo. Um a um, foram surgindo outros fregueses. No princípio, ocasionais, induzidos pela boca pintada de Lola, que parecia a polpa das frutas que vendia. Mas, em poucos meses, o plantel que a solicitava era constante. Assim que Xavier quis contratar um ajudante para ajudá-la com as entregas, ela se opôs: “Desse jeito, o lucro vai-se embora!”. Aos 42 anos, Lola rendia-se pela primeira vez em sua vida a um vício. Viciara-se não somente no sexo diversificado, mas na urgência, no desejo pelos corpos que aliviavam os seus tremores. Nenhum dos amantes dava trabalho. Nenhum deles fazia do sexo mais do que o prazer das línguas ansiosas, das penetrações que a invadiam com mais ou menos força. Aceitava o aperto nos seios, as bofetadas ocasionais que levava ou dava, a cavalgada e a posse animal. Recusava-se, apenas, a dentes que lhe marcassem o corpo que Xavier veria, cedo ou tarde; e aos beijos na boca, que se empenhava em reservar para o marido. Negava-se, também, a deitar-se com menores e com mais de um amante ao mesmo tempo. Afora essas rejeições, fazia pouco sexo com mulheres, porque sentia falta da penetração e dos fluidos. O primeiro rapaz com o qual havia feito sexo tinha cerca de 20 anos. Lem-

brava-se sempre dele e dos outros, de mesma idade... É impressionante como são desajeitados!, pensava, observandolhes os gestos durante o coito. Como muitos deles não tinham dinheiro ou renda, comprometiam-se com a obrigação de levarem pais e amigos à banca no mercado. Cumpriam direito o trato, com medo de terem que ir correr atrás de jovens cheias de espinhas e regras que os afastavam por pudor ou esperteza. Rodrigo tinha ido à banca, pela primeira vez, num dia frio. Primeiro, ficara olhando para o chão, com timidez, mas no momento em que seu olhar cruzou com o dela, Lola percebeu a inquietação que havia naqueles olhos que fugiam de tudo. Chegando ao pequeno apartamento do rapaz para entregar as frutas e os doces, surpreendeu-se com a arrumação e o bom gosto do lugar. E surpreendeuse mais ainda quando Rodrigo lhe disse que morava sozinho. Fizeram um sexo ruim sobre a cama macia e larga, mas Lola não estava interessada nas habilidades de Rodrigo. Impressionava-se era com os gestos relutantes e respeitosos do rapaz, quase como se lhe quisesse fazer amor. — Primeira vez? — perguntou, curiosa. — Não, com certeza não. Mas, de uma certa maneira, sim... Apesar de intrigada, Lola decidiu que já tinham conversado demais. Coitado, não bate bem das ideias, disse a si mesma, enquanto saía do apartamento de Rodrigo, logo depois. O rapaz a procurava havia cinco meses. Procurava sempre, em excesso. E Lola concordava em se deitar com ele por pena, curiosidade, culpa... Sim, era culpa aquele sentimento que sempre a levava a fazer coisas das quais se arrependia depois. Sentia-se culpada por não conseguir dar a Rodrigo o alívio

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que vira em outros homens, em outros rapazes, como ele. Era o mesmo sentimento que a tomava quando percebia os olhares perdidos de Xavier, o cenho franzido, as mãos apertadas como se fossem dar socos no vazio, ou como se pensamentos absurdos lhe passassem pela cabeça. Chega!, pensava ela agora, contrariada, descendo com barulho as escadas do prédio de Rodrigo. Enquanto caminhava de volta ao mercado, decidiu que se livraria dele. Rodrigo não lhe fazia bem ao corpo nem aos pensamentos, que se aceleravam em hipóteses que ela não conseguia entender. Que se foda com os seus segredos!, decidiu, pouco antes de chegar à banca. Naquela noite, Lola resolveu que tinha que se livrar do rapaz. Xavier estava fora, num dos cursos para comerciantes que vivia fazendo, e ela teria tempo de sair e voltar sem ser vista. O marido não era homem de controlar os seus passos, mas ela preferia não ter que se explicar, para não ter que mentir. Orgulhava-se de pensar que não mentia para Xavier. Eu omito coisas dele, eu o engano, mas não minto para ele, repetia Lola para si mesma, quando a consciência teimava em vir à superfície. Aprontou-se rapidamente e borrifou nos pulsos e nas orelhas o perfume que usava diariamente. Em vez do táxi que pensara inicialmente pedir, preferiu caminhar. A noite estava um pouco fria e a falta do agasalho fez com que seus mamilos se avolumassem inconvenientemente sob o vestido de malha decota-

do. Prosseguiu a passo rápido, dando-se conta de onde estava apenas quando passou a ouvir alguns gracejos pesados e assovios que começaram a incomodála. O atalho pela praia não tinha sido uma boa escolha. Percebeu, tarde demais, que atravessava uma das piores zonas de meretrício da cidade. Nos muros, as sombras dos corpos que faziam sexo não a assustavam tanto quanto os corpos que enxergava em carne e osso consumindo-se perto dos barcos, na areia, ou nos carros estacionados ao longo do meio-fio. Correu para afastar-se daquelas Lolas multiplicadas em trepadas rápidas, daqueles espelhos incômodos. Encostando-se nas grades de uma loja fechada, vomitou. Pouco depois, retomou a caminhada, com passos ainda mais rápidos. Virando a última esquina em frente ao porto, suspirou, sentindo-se aliviada. No entanto, logo a seguir, viu os dois corpos projetados na parede mais à frente. Pensou em parar, em recuar, mas alguma coisa naquele coito a atraiu, deixando-a excitada. O movimento das sombras acelerou-lhe os sentidos, e ela procurou avidamente os próprios seios, apertandoos com força. Devagar, gemendo muito baixo, aproximou-se mais e mais do muro que se contorcia, e tornou-se parte daquele clímax. Então, seus olhos se cruzaram com outros. Nos de Rodrigo, mais nenhum segredo. Nos de Xavier, o fogo que ela perdera para sempre.

Cinthia Kriemler
Formada em Comunicação Social/Relações Públicas pela Universidade de Brasília. Especialista em Estratégias de Comunicação, Mobilização e Marketing Social. Começou a escrever em 2007 (para o público), na oficina Desafio dos Escritores, de Marco Antunes. Autora do livro de contos “Para enfim me deitar na minha alma”, projeto aprovado pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal — FAC, e do livro de crônicas “Do todo que me cerca”. Participa de duas coletâneas de poesia e de uma de contos. Membro do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal e da Rede de Escritoras Brasileiras — REBRA. Carioca. Mora em Brasília há mais de 40 anos. Uma filha e dois cachorros. Todos muito amados.

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tradução

Provérbios do inferno
o Casamento entre o Céu e o inferno (excerto)
William Blake
trad.: Henry Alfred Bugalho

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Na semeadura, aprenda, na colheita, ensine, no inverno, desfrute. Conduza sua carroça e o arado sobre os ossos dos mortos. O caminho do excesso conduz ao palácio da sabedoria. Prudência é uma rica senhora velha e feia cortejada pela incapacidade. Aquele que deseja mas não age, engendra pestilência. A minhoca perdoa o arado que a corta. Mergulha no rio aquele que ama a água. Um tolo não vê a mesma árvore que vê um homem sábio. Aquele cujo rosto não resplandece, jamais se tornará uma estrela. Eternidade é apaixonada pelas obras do tempo. A abelha ocupada não tem tempo para lamento. As horas de tolice são contadas pelo relógio, mas as de sabedoria nenhum relógio pode contar. Nenhuma comida saudável é apanhada com rede ou armadilha. Usa número, peso e medida num ano de escassez. Nenhum pássaro voa alto de mais se voa com as próprias asas. Um corpo morto não vinga ferimentos. O ato mais sublime é colocar o outro adiante de si. Se o tolo persistir em sua tolice, tornar-se-á sábio. Tolice é o disfarce da astúcia. Vergonha é orgulho disfarçado. Prisões são construídas com as pedras da Lei, bordéis com os tijolos da Religião. O orgulho do pavão é a glória de Deus. A luxúria do bode é a recompensa de Deus. A fúria do leão é a sabedoria de Deus. A nudez da mulher é a obra de Deus. Excesso de pesar, risos. Excesso de alegria, pranto. O rugido dos leões, o uivo dos lobos, a fúria do mar tempestuoso e a espada destrutiva são porções da eternidade grandes de mais para o olhar do homem. A raposa condena a armadilha, não a si mesma.

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Alegria impregna. Pesar dá a luz. Que o homem vista a pele do leão, a mulher o pelego da ovelha. O pássaro, um ninho; a aranha, uma teia; o homem, a amizade. O sorridente tolo egoísta e o tolo triste e carrancudo serão ambos considerados sábios e servirão de exemplos. O que hoje é prova, ontem era somente imaginação. A ratazana, o rato, a raposa e o coelho: atenção às raízes; o leão, o tigre, o cavalo e o elefante: atenção aos frutos. A cisterna contém; a fonte transborda. Um pensamento preenche a imensidão. Esteja sempre pronto para dizer o que pensa e um homem vil o evitará. Qualquer crença é uma imagem da verdade. A águia nunca desperdiçou também tempo como quando ela resolveu aprender com o corvo. A raposa provê para si própria, mas Deus provê para o leão. Pense de manhã. Aja ao meio-dia. Coma à tarde. Durma à noite. Aquele que te permite abusar dele, a ti conhece. Como o arado obedece às palavras, assim Deus recompensa as orações. Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da instrução. Espera veneno das águas paradas. Nunca saberás o que é o suficiente, a não ser que saibas o que é mais do que o suficiente. Ouve a repreensão dos tolos! É um título real! Os olhos do fogo, as narinas do ar, a boca da água, a barba da terra. O débil em coragem é forte em astúcia. A macieira nunca pergunta à faia como ela deve crescer, nem o leão ao cavalo como ele deve caçar sua presa. Aquele que agradece o que recebe tem uma abundante colheita. Se os outros não fossem tolos, nós deveríamos sê-lo. A alma do deleite doce não pode ser maculada.

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Quando tu vês uma águia, vês uma porção do gênio. Ergue tua cabeça! Assim como a lagarta escolhe as folhas mais belas para deitar seus ovos, assim o padre deita sua maldição nas mais belas alegrias. Criar uma pequena flor é um labor de eras. Maldição fortalece. Benção afrouxa. O melhor vinho é o mais antigo, a melhor água é a mais nova. Orações não aram! Elogios não ceifam! Alegrias não riem! Pesares não choram! A cabeça, Sublime, o coração, Pathos, os genitais, Beleza, as mãos e pés, Proporção. Assim como o ar para o pássaro e o mar para o peixe, assim é o desprezo para o desprezível. O corvo desejaria que tudo fosse preto, a coruja que tudo fosse branco. Exuberância é Beleza. Se o leão fosse aconselhado pela raposa, ele seria astuto. O progresso constrói estradas retas, mas os caminhos tortuosos, sem progresso, são estradas de gênio. Antes assassinar um bebê em seu berço do que nutrir desejos não realizados. Onde o homem não está, a natureza é estéril. A verdade nunca deve ser dita para ser compreendida, e não ser acreditada. Basta! Ou de mais!

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a imagem divina
William Blake
trad.: Henry Alfred Bugalho

À Misericórdia, Piedade, Paz e Amor Todos rezam em seu sofrimento; E para estas virtudes de deleite Devolvem seu agradecimento. Pois Misericórdia, Piedade, Paz e Amor É Deus nosso pai querido, E Misericórdia, Piedade, Paz e Amor É homem, sua cria e cuidado. Pois Misericórdia tem um humano coração, Piedade, um humano rosto, E Amor, a divina humana forma, E Paz, a humana veste. Então, cada homem, em cada clima, Que reza em sua desdita, Reza para a divina humana forma. Amor, Misericórdia, Piedade, Paz. E todos devem amar a humana forma, Nos pagãos, Turcos, ou Judeus; Onde Misericórdia, Amor e Piedade habitam Ali também habita Deus.

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o Cordeiro
William Blake
trad.: Henry Alfred Bugalho Cordeirinho, quem te fez? Acaso sabes quem te fez? Deu-te vida e comida Pelo córrego e pelo pasto; Deu-te veste de deleite, Veste macia, lanosa, reluzente; Deu-te tal terna voz, Regozijando os vales todos. Cordeirinho, quem te fez? Acaso sabes quem te fez? Cordeirinho, direi a ti, Cordeirinho, direi a ti: Por teu nome ele é chamado, Pois ele se chama por Cordeiro. Ele é humilde, ele é amável; Ele se tornou um menino. Eu um menino, tu um cordeiro, Somos chamados pelo nome dele. Cordeirinho, Deus abençoe a ti! Cordeirinho, Deus abençoe a ti!

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William Blake (Londres, 28 de novembro de 1757 — Londres, 12 de agosto de 1827) foi um poeta, tipógrafo e pintor inglês, sendo sua pintura definida como pintura fantástica. Blake viveu num período significativo da história, marcado pelo Iluminismo e pela Revolução Industrial na Inglaterra. A literatura estava no auge do que se pode chamar de clássico “augustano”, uma espécie de paraíso para os conformados às convenções sociais, mas não para Blake que, nesse sentido era romântico, “enxergava o que muitos se negavam a ver: a pobreza, a injustiça social, a negatividade do poder da Igreja Anglicana e do Estado.” infância Blake nasceu na “28ª Broad Street”, no Soho, Londres, numa família de classe média. Seu pai era um fabricante de roupas e sua mãe cuidava da

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educação de Blake e seus três irmãos. Logo cedo a Bíblia teve uma profunda influência sobre Blake, tornando-se uma de suas maiores fontes de inspiração. Desde muito jovem Blake dizia ter visões. A primeira delas ocorreu quando ele tinha cerca de nove anos, ao declarar ter visto anjos pendurando lantejoulas nos galhos de uma árvore. Mais tarde, num dia em que observava preparadores de feno trabalhando, Blake teve a visão de figuras angelicais caminhando entre eles. Com pouco mais de dez anos de idade, Blake começou a estampar cópias de desenhos de antiguidades gregas comprados por seu pai, além de escrever e ilustrar suas próprias poesias. aprendizado com Basire Em 4 de agosto de 1772, Blake tornou-se aprendiz do famoso estampador James Basire. Esse aprendizado, que estendeu-se até seus vinte e um anos, fez de Blake um profissional na arte. Segundo seus biógrafos, sua relação era harmoniosa e tranquila. aprendizado na the royal academy Em 1779, Blake começou seus estudos na The Royal Academy, uma respeitada instituição artística londrina. Sua bolsa de estudos permitia que não pagasse pelas aulas, contudo, o material requerido nos seis anos de duração do curso deveria ser providenciado pelo aluno. Este período foi marcado pelo desenvolvimento do

caráter e das ideias artísticas de Blake, que iam de encontro às de seus professores e colegas. Casamento Em 1782, após um relacionamento infeliz que terminou com uma recusa à sua proposta de casamento, Blake casou-se com Catherine Boucher. Blake ensinou-a a ler e escrever, além de tarefas de tipografia. Catherine retribuiu ajudando com devoção Blake em seus trabalhos, durante toda sua vida. trabalhos Blake escreveu e ilustrou mais de vinte livros, incluindo “O livro de Jó” da Bíblia, “A Divina Comédia” de Dante Alighieri – trabalho interrompido pela sua morte – além de títulos de grandes artistas britânicos de sua época. Muitos de seus trabalhos foram marcados pelos seus fortes ideais libertários, principalmente nos poemas do livro Songs of Innocence and of Experience (“Canções da Inocência e da Experiência”), onde ele apontava a Igreja e a alta Sociedade como exploradores dos fracos. No primeiro volume de poemas, Canções da inocência (1789), aparecem traços de misticismo. Cinco anos depois, Blake retoma o tema com Canções da experiência estabelecendo uma relação dialética com o volume anterior, acentuando a malignidade da Sociedade. Inicialmente publicados em separado, os dois volumes são depois impressos em Canções da inocência e da experiência - revelando os

dois estados opostos da alma humana. William Blake expressa sua recusa ao autoritarismo em Não há religião natural e Todas as religiões são uma só, textos em prosa publicados em 1788. Em 1790, publicou sua prosa mais conhecida, O matrimônio do céu e do inferno, em que formula uma posição religiosa e política revolucionária na época: “a negação da realidade da matéria, da punição eterna e da autoridade”. Apesar de seu talento, o trabalho de gravador era muito concorrido em sua época, e os livros de Blake eram considerados estranhos pela maioria. Devido a isto, Blake nunca alcançou fama significativa, vivendo muito próximo à pobreza. morte No dia de sua morte, Blake trabalhava exaustivamente em A Divina Comédia de Dante Alighieri, apesar da péssima condição física que culminaria no seu fim. Seu funeral, bastante humilde, foi pago pelo responsável pelas ilustrações do livro, e apesar de sua situação financeira constantemente precária, Blake morreu sem dívidas. Hoje Blake é reconhecido como um santo pela Igreja Gnóstica Católica, e o prêmio Blake Prize for Religious Art (Prêmio Blake para Arte Sacra) é entregue anualmente na Austrália em sua homenagem. Fonte: http://pt.wikipedia. org/wiki/William_Blake

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SAMIZDAT setembro de 2012 William Blake, O Grande Dragão Vermelho e a Mulher Vestida em Sol

William Blake, Sete Espíritos de Deus

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William Blake, The Ancient of Days setting a Compass to the Earth

William Blake, Night startled by the Lark

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artigo

Henry Alfred Bugalho

o muro de indiferença
ou a invisibilidade dos candidatos a escritores
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http://www.flickr.com/photos/lchifi/231115148/

Você teve uma ideia brilhante para um livro? Gastou os últimos meses, ou talvez anos, desenvolvendo-a e pondo-a no papel? Sua obra está pronta e agora só falta publicá-la? É neste ponto que o sonho de ser um escritor converte-se em pesadelo, ou melhor, é quando a realidade se mostra em sua mais crua e angustiante forma: qualquer um pode escrever um livro, mas não é qualquer um que poderá publicá-lo comercialmente.

que nos cinco séculos precedentes, quando Johannes Gutenberg inventou a imprensa. A primeira constatação a partir desta explosão criativa foi que talento artístico não é uma exclusividade de uns poucos gênios. Todavia, a segunda descoberta é que sempre haverá muito mais lixo do que obras de qualidade, pois nem todos que pensam ter algum talento o têm de fato, ou, o que é pior, às vezes um escritor talentoso acaba desperdiçando seu potencial em projetos ruins, somente na intenção de ganhar dinheiro ou ficar famoso. o muro da indiferença O capitalismo é brutal. Ninguém precisa que eu afirme isto para perceber que o capitalismo fundase na desigualdade econômica: alguns poucos ganham muito dinheiro, enquanto a maioria oferece sua força de trabalho por míseros trocados. O sucesso de poucos depende necessariamente do fracasso de muitos. Não sou contra o mercado de consumo, aliás sou o primeiro a reconhecer seus inúmeros benefícios. No entanto, quando se trata da criação artística e literária, estamos do lado de fora da indústria, fomos esquecidos por ela. Somos e fomos ignorados. Se você, caro candidato a escritor, já enviou seus originais para algumas

a proliferação do talento Até pouco tempo atrás, a escrita, ou pelo menos a escrita enquanto profissão, era uma tarefa para poucos afortunados. Não era todo o mundo que tinha acesso a educação de qualidade, nem o domínio técnico da escrita para produzir bons livros. Assim como em outras atividades artísticas – nas artes plásticas, na fotografia, na dança, na música e no cinema – era necessário muito tempo de estudo e prática para se consolidar numa carreira, além de ter de estar no lugar certo, relacionando-se com as pessoas certas. Inclusive, a quantidade de livros escritos, peças de teatro, filmes, canções, fotografias, etc., era muito inferior, apesar de já ser num volume muito maior do que qualquer ser humano pudesse assimilar. O fato é que, da década de 80 para cá, publicou-se mais livros do

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editoras e foi recusado, então já deve ter alguma ideia do que estou falando, senão, está na hora de você tentar.

o editor afirma que meu livro é um lixo, que meus personagens são fracos, que não sei escrever, que não tenho Em janeiro de 2012, entrei em conta- nenhum futuro no mercado literário, pois, pelo menos, terei a certeza que fui to com quase trinta editoras para conlido, que alguém realmente dedicou um firmar se estavam recebendo originais pouco de seu tempo para para análise, pois estas “Pior do que a tentar encontrar algum informações nem sempre crítica negativa, ou valor naquelas páginas estão muito claras nos até mesmo do que que me tomaram tantos sites delas. a crítica destrutiva, dias para serem escritas e Destas, somente três revisadas. responderam, sendo que é a indiferença” Pior do que a crítica duas delas não recebiam negativa, ou até mesmo mais material por não terem equipe do que a crítica destrutiva, é a indifesuficiente para dar conta de todos os rença, a sensação que você é tão insigmanuscritos que já haviam recebido nificante que não merece sequer uma anteriormente. resposta por e-mail. De trinta, somente três respostas! Este é o cenário que você, escritor As que informam que só analisam iniciante, encontrará diante de si. material enviado através de agentes liteApós mais de uma década escrerários já delimitaram sua política: “não trabalhamos com autores estreantes”. Pois vendo, conversando com centenas de escritores e participando de oficinas liqual autor em início de carreira possui terárias, editando obras e revistas indeum agente literário influente? pendentes, não conheço nenhum autor Em julho deste mesmo ano, contatei que tenha sido publicado por uma das dez editoras, enviando algumas breves grandes editoras do Brasil. Nenhum, perguntas sobre o processo de seleabsolutamente zero! ção de autores estreantes e apenas a E isto porque eu, que não tenho neSoraia Reis, diretora editorial da Editora nhuma influência no mercado literário, Planeta, respondeu*. já pude me deparar com escritores briAgora, cá entre nós, se a equipe de lhantes, daqueles que escrevem histórias uma editora é incapaz de ler e responque reverberam em sua mente por dias der simples e-mails, você ainda acredita e dias, de fazer os pelos de suas costas que eles lerão e darão alguma atenção se arrepiarem durante a leitura. Vários ao seu livro de trezentas páginas? deles não suportaram o muro de indifeComo escritor, eu não me importo se rença e hoje nem escrevem mais. receberei uma carta de recusa na qual Alguns simplesmente não aguentam.

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Alguns não estão prontos para arcarem com o peso da invisibilidade. a culpa é dos escritores? Talvez os dois grandes erros de um escritor iniciante sejam a ingenuidade e a presunção. Ingenuidade porque ele não dedicou algumas horas para tentar entender o mercado de livros, o que se tem publicado e como se aproximar das editoras.

Como aponta Bacellar, não basta que um romance seja bom, ele “precisa ter diferencial”, recomendação que se assemelha muito à visão de Soraia Reis, que um escritor deve “preparar um belo texto que se diferencie dos demais”. Muitos escritores em início de carreira tendem a parasitar o estilo e os temas de seus autores favoritos, tentando reescrever, a seu modo, o próximo bestseller. Por mais que existam tendências recorrentes no mercado literário, é fundamental que o autor encontre sua própria voz, aquela que o distinga tanto dos grandes escritores do momento quanto de outros que também estão lutando por um lugar ao sol.

Segundo Laura Bacellar, editora e autora da obra e site “Escreva seu Livro”: “qualquer nível de profissionalismo é tão raro entre autores brasileiros que ao fazer isso você já se diferencia do bando de A indiferença das editoras talvez seja uma maneira extravagante”. Soraia Reis, uma consequência direta da grande diretora editorial da Planeta, também quantidade de material que recebem e defende o mesmo argumento: “Outro que não possui o nível ponto importante é enviar mínimo de qualidade o original para as editoras “Grande parte da para sequer ser consicertas, ou seja, anteciparesponsabilidade derada com atenção em damente, verificar quais do fracasso é do um parecer inicial. áreas e gêneros as editoras escritor.” É incrível quanta publicam, para não perder gente se autoproclama tempo.” escritor, mas que não consegue escrever E não temos porque questionar que com competência uma linha sequer de grande parte da responsabilidade do literatura relevante. E é justamente esta fracasso é do escritor, e é aí que entra legião de pretensos autores que deflagra a presunção, pois vários autores acredia avalanche de originais que se amontotam que suas obras são muito melhores am nas editoras por todo o Brasil, difido que realmente são, ou eles imaginam cultando não somente o trabalho dos que revolucionarão o mundo da Litedepartamentos editoriais, como também ratura com suas “obras-primas” e que a descoberta de algum trabalho de méninguém é capaz de reconhecer a sua rito entre tantos entulhos. genialidade.

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Mesmo assim, Soraia Reis é categórica em afirmar que “recebemos muitos originais, como já citado, mas dentre estes, podemos descobrir grandes pérolas, afinal, todo escritor um dia foi inédito, não é mesmo?” qual é o caminho das pedras? Se eu pudesse lhe indicar este caminho, provavelmente nem estaria escrevendo este artigo. Talvez nem haja um caminho, a não ser o simples rolar dos dados da Fortuna. Alguns conseguem, outros não: uma verdade definitiva da existência. No entanto, nem tudo está perdido. O panorama é cinzento, as nuvens são carregadas, mas sempre há uma esperança. Seguem algumas alternativas para o candidato a escritor: 1 - publicação independente Autopublicar-se nunca foi visto com bons olhos por editores nem por leitores. No entanto, tudo tem mudado tão rápido que, hoje em dia, com tantos casos de megassucessos instantâneos de autores publicados independentemente nos EUA, a autopublicação não apenas não tem sido mais observada com desconfiança, como agora a crítica tem se voltado contra as grandes editoras americanas. “Como é que vocês não perceberam o

potencial comercial deste autor que acaba de vender milhões e milhões de livros digitais?”, é a questão que se levanta, e muita gente tem começado a dar-se conta que nem sempre os editores são um bom referencial na hora de determinar o que é que os leitores realmente gostam. 2 - concursos literários Ganhar algum prêmio literário importante, além de inflar seu ego e darlhe uns tostões, pode também atrair a atenção de alguma editora. No entanto, cautela! Nem todos os concursos são confiáveis e alguns deles são obviamente com cartas-marcadas. Os grandes concursos, entenda-se os que possuem um prêmio em dinheiro apetitoso, atraem tanto autores anônimos quanto consagrados, e você pode estar certo que, entre premiar Dalton Trevisan e você, eles escolherão o famoso. 3 - tente as pequenas editoras Fechar um contrato com uma grande e influente editora é o ideal de todo o escritor, motivado principalmente pela ilusão que assim ele terá muito mais visibilidade nas livrarias e venderá muito mais livros. Contudo, é preciso começar por algum lugar e existe uma porção de pequenas casas editoriais, às vezes no fundo do quintal do editor, dispostas a encontrar e publicar novos talentos. Mas também não se engane... Quase sempre você terá de meter a mão no

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bolso e liberar uma verba para custear parte do (ou todo o) processo de publicação. E também divulgar muito e, comumente, vender de porta em porta seu próprio trabalho. 4 - oficinas literárias Além de ser uma boa maneira para aprender técnicas novas e refinar a sua escrita, algumas oficinas literárias ministradas por escritores influentes podem lhe abrir as portas do mercado editorial, desde que seu material seja bom o bastante para ele querer recomendá-lo. 5 - escreva um blog Se não é para ficar rico, nem famoso, nem conseguir publicar por uma editora grande, por que não criar um blog e divulgar seus textos lá? Pelo menos assim você conquistará alguns leitores e, se seu blog fizer sucesso ou for muito polêmico, talvez até acabe fisgando alguma editora. Há alguns casos de autores publicados que começaram desta maneira e que hoje estão por aí, vendendo livros e ganhando prêmios. Mas, no final das contas, o que mais

importa mesmo é ser lido e confirmar que as suas obras têm valor, que merecem muito mais do que indiferença. Conclusão Não existe fórmula para ser publicado, assim como não existe fórmula para o sucesso. Se você pôs na cabeça que deseja ser escritor, então prepare-se para ser ignorado, rejeitado, recusado e criticado. Estas são as provas de fogo que você terá de enfrentar para confirmar esta sua decisão. O fracasso estará aí, sempre espreitando do outro lado da porta, e, atrás do muro da indiferença, não está o fim nem as respostas, somente outras lutas e outras dificuldades a serem enfrentadas. Às vezes, o caminho que parece ser o mais glorioso pode ofuscar as estreitas e obscuras trilhas secundárias, mas elas continuarão lá, prontas para quem ousar percorrê-las. * A Editora Globo nos enviou um email informando que os “diretores estão fora da empresa e não poderemos dar a atenção que você merece.”

Formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em Estética. Especialista em Literatura e História. Autor de “O Canto do Peregrino” (Editora Com-Arte/USP), de outros quatro romances e de duas coletâneas de contos. Editor da Revista SAMIZDAT e fundador da Oficina Editora. Autor do best-selling “Guia Nova York para Mãos-de-Vaca”, cidade na qual morou por 4 anos, e do “Curso de Introdução à Fotografia do Cala a Boca e Clica!”. Está baseado, atualmente, na Itália, com sua esposa Denise e Bia, sua cachorrinha.

Henry alfred Bugalho

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Soraia reis, diretora editorial da Planeta, responde:
1 - além de escrever um livro interessante, como deve proceder um escritor em início de carreira para despertar a atenção das grandes editoras? Como você disse, escrever bem em primeiro lugar. O autor de ficção deve criar uma história encantadora, aquela que o leitor não tem vontade de parar de ler. Para isto o texto deve ter fluência. Já no livro de não-ficção, o autor deve conhecer profundamente sobre o que está escrevendo. Deve pesquisar, se atualizar. Em ambas as áreas, o escritor precisa se preparar. Após preparar um belo texto que se diferencie dos demais, pois as editoras recebem centenas de originais por mês, o autor deve fazer uma boa apresentação do seu trabalho e encaminhar a sua biografia anexa. Outro ponto importante é enviar o original para as editoras certas, ou seja, antecipadamente, verificar quais áreas e gêneros as editoras publicam, para não perder tempo. O autor deve ter paciência para receber a resposta também. Às vezes os autores inéditos enviam textos para avaliação e querem resposta em um mês. O processo não funciona assim, pois a pressa pode atrapalhar a avaliação. 2 - um agente literário ou uma indicação influente facilita o processo, ou o

escritor pode confiar que um livro com potencial será descoberto em meio aos demais originais que a editora recebe todos os meses? O texto precisa ser bom, condição primordial, mas quando um agente conhecido acredita no livro, já sabemos que devemos ler, pois ele já fez a primeira leitura. Afinal você conhece o trabalho de cada agente. Mas inúmeras vezes não contratamos livros vindos dos agentes e contratamos livros que recebemos direto. Normalmente o agente ajuda na divulgação do livro, como também a melhorar a forma do livro. 3 - apostar em um autor nacional estreante é um risco? Por quê? Tudo é risco. Por exemplo: compramos direitos de livros estrangeiros que venderam 1 milhão de cópias nos EUA, mais 1 milhão na Europa, e no Brasil não acontece nada. O editor apostou em um tema que agrada ao público brasileiro e que vendeu bem; a princípio, isto seria um bom parâmetro, mas não o é. Desta forma, o que pode vender? No que apostar? O editor não tem bola de cristal, mas o seu conhecimento e o seu faro podem ajudar. Seja o autor inédito ou não. Recebemos muitos originais, como já citado, mas dentre estes, podemos descobrir grandes pérolas; afinal, todo escritor um dia foi inédito, não é mesmo?

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Laura Bacellar, editora, consultora editorial e autora de “Escreva seu Livro”, responde:
1 - além de escrever um livro interessante, como deve proceder um escritor em início de carreira para despertar a atenção das grandes editoras? Deve mostrar que sabe a quem se dirige, em primeiro lugar. Ter conhecimento do público com quem fala e, se possível, já se entender com ele – através de um blog ou rede social ou cursos ou palestras ou lá o que seja – é um megaponto a favor para ser levado a sério pelo editor. Em segundo lugar, deve demonstrar que conhece o mercado. Os autores americanos já têm uma formulazinha para isso, sempre que apresentam um original a uma editora dizem com que outros livros e autores ele concorre, o que tem de melhor ou parecido com esses livros publicados (de sucesso) e como vai conquistar esse mesmo público que gostou desses outros livros, elencando as razões para gostar do seu. Aqui isso não é tão difundido, mas uma postura como esta impressiona muito bem. Qualquer nível de profissionalismo é tão raro entre autores brasileiros que ao fazer isso você já se diferencia do bando de uma maneira extravagante, recomendo. Em terceiro lugar, o livro precisa ter diferencial. Não é só interessante, precisa não ser igual aos milhares de outros na praça. É por isso que livros de contos costumam ser recusados, que romances sem algo marcante não sejam considerados. O autor deve pensar em algum diferencial que combine com seu estilo, sua vontade de contar histórias ou seu tema, e aprofundar essa diferença.

2 - um agente literário ou uma indicação influente facilita o processo, ou o escritor pode confiar que um livro com potencial será descoberto em meio aos demais originais que a editora recebe todos os meses? Já vi sucessos sem conta pelos dois caminhos. Um agente muitas vezes facilita a entrada numa grande editora, porque a obra tem todo o perfil de boas vendas ou muito prestígio. Mas o caminho por conta própria também é trilhável e ainda possível em nosso mercado; é mais uma questão de tentar. O que não pode é desistir na primeira. Muita gente me diz que enviou para duas editoras, foi recusado e desistiu. Eu rio. Duas? Eu já tive um original recusado por dez editoras, apesar de ser do meio e saber a quem me dirigir. Depois esse original foi aceito e publicado... 3 - apostar em um autor nacional estreante é um risco? Por quê? É um risco enorme, todo escritor tem que entender isso. Porque o editor não tem a menor ideia de como o público vai reagir àquele novo nome, àquele novo título. Pode não acontecer nada e todo o esforço resultar em livros parados no depósito. O autor precisa entender que é uma loteria publicar e fazer de tudo, absolutamente de tudo, para o livro ser um sucesso. Tem gente que fica largada em casa, achando que divulgação é trabalho da editora. Não é. O autor precisa divulgar feito louco, colaborar de todas as formas possíveis para o livro acontecer. E nem vai ganhar muito dinheiro com isso, mas se ganhar um certo nome, uma famazinha, já vale, porque o segundo livro fica muito mais fácil. Quem quer viver de escrita ou ser levado a sério precisa pensar estrategicamente na carreira, não em ganhar dinheiro com a primeira obra.

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teoria Literária

Leonardo Araújo Oliveira

oS SiGNoS do muNdo,
do amor E da SENSiBiLidadE Na LitEratura dE marCEL ProuSt
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A obra Em busca do tempo perdido expressa a composição de um sistema de signos. Tudo é signo, mas, esses não se distribuem homogeneamente, isto é, os signos compõem diferentes tipos. Os regimes de signos são diferentes por várias razões, dentre elas, a de que não são emitidos do mesmo modo, a de que produzem efeitos diferentes nos intérpretes, de que produzem diferentes sentidos e principalmente, se estabelecem em relações com diferentes estruturas do tempo. Gilles Deleuze apresenta quatro desses tipos de signos: mundanos, amorosos, sensíveis e artísticos. Seguir-se-á doravante o rastro deixado pelo filósofo francês, mas por razões pragmáticas (limite espacial do texto) não serão abordados os signos da arte (que ficam, quem sabe, para um próximo texto) e, por conseguinte, nem mesmo as diferentes relações que cada regime de signo possui com o tempo, pois somente os signos artísticos permitem o desvelamento dessas relações. Ainda assim, será demonstrada uma ideia geral sobre o tempo: o afastamento da categoria da extensão e o entrelaçamento com a ordem da intensidade. o mundo É nas relações sociais descritas no romance de Proust que surgem os signos mundanos. Lê-se no texto vários encontros, festas e banquetes regrados com diálogos entre grupos de burgueses e aristocratas, povoados por personagens como médicos, diplomatas e militares. Causa curiosidade nesse regime de signos como ele próprio é composto de forma heterogênea, de modo a situar os personagens emissores de signos mundanos como dotados de uma mútua falta de compreensão. Um exemplo disso é o fato de que no grupo dos Verdurin não atuam os mesmos signos que no

grupo dos Guermantes, e vice-versa: “num domínio comum, os mundos se fecham: os signos dos Verdurin não funcionam entre os Guermantes; inversamente, o estilo de Swann ou os hieróglifos de Charlus também não funcionam entre os Verdurin” (DELEUZE, 2010, p. 5). o amor Os signos do amor aparecem frequentemente no texto de Proust; o amor é tomado como um de seus grandes temas e são apresentados vários casos na Recherche. Lá se encontra o amor de Saint-Loup por Rachel, a paixão de Charlus por Morel, a obsessão de Swann por Odette – tema principal do primeiro livro (O caminho de Swann). O amado aparece como uma pluralidade louca de signos a qual o amante não consegue apreender, decifrar, decodificar; o que mantém o mundo do amante inacessível ao amado, produzindo o ciúme, a obsessão, o sofrimento. O amado aparece como algo a ser interpretado, e o amante, precisamente pelo sentimento do amor, pelo imperialismo da paixão, sente-se forçado a interpretar, mas sempre verá no amado certos segredos, ocultações, que por sua vez, expressam os espaços aos quais o amante não pode acessar, não importando se são ou se não são da intenção daquele. Vários são os exemplos de casos de ciúmes na obra de Proust. Dentre eles, o mais notável, pelo grau de obsessão elevado, é o descrito em A prisioneira, quinto romance da série, em que quase todas as páginas do texto são marcadas com o nome de Albertine – personagem que aparece como que aprisionada em casa do narrador. No livro seguinte, A fugitiva, quando o herói do romance se dá conta de que Albertine fugiu, logo nas primeiras linhas, vê-se o personagem abandonado, atravessado pela dor, que, no entanto,

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força-o a pensar e realizar descobertas:
“A Senhorita Albertine foi-se embora!” Como, em psicologia, o sofrimento vai mais longe que a psicologia! Um momento antes, analisando-me, eu imaginara que tal separação sem que nos víssemos de novo era justamente o que havia desejado, e, comparando a mediocridade dos prazeres que me dava Albertine à riqueza daqueles de cuja realização ela me privava, julgara-me sutil, concluíra que não queria mais vê-la, que já não a amava. Mas estas palavras: “A Senhorita Albertine foi-se embora” acabavam de provocar no meu peito uma dor tal que eu sentia não poder suportá-la por muito tempo. Assim, o que pensara não ser nada para mim era simplesmente toda a minha vida. Como a gente se desconhece! [...] Sim, ainda há pouco, antes da chegada de Françoise, pensara que já não amava Albertine e que não teria de renunciar a nada; como analista rigoroso, imaginara conhecer muito bem o fundo do meu coração. Mas nossa inteligência, por maior que seja, não pode perceber os elementos de que ele se compõe e que permanecem insuspeitados, enquanto, do estado volátil em que subsistem a maior parte do tempo, um fenômeno capaz de isolá-lo não os faça sofrer um princípio de solidificação. Eu me enganara julgando ver claramente no meu coração. Mas esse conhecimento, que as mais finas percepções do espírito não me haviam conferido, acabava de me ser proporcionado, duro, brilhante, estranho, como um sal cristalizado, pela brusca reação da dor. (PROUST, 2004b, p. 317).

alizar descobertas, mas de que essas descobertas sejam feitas sempre posteriormente. a sensibilidade Os signos sensíveis são impressões mais gerais, qualidades tiradas da natureza. O grande exemplo se encontra no primeiro livro da série, na ocasião em que o personagem narrador experimenta o bolinho chamado madeleine, lhe dado por sua mãe: Fazia já muitos anos que, de Combray, tudo que não fosse o teatro e o drama do meu deitar não existia mais para mim, quando num dia de inverno, chegando eu em casa, minha mãe, vendo-me com frio, propôs que tomasse, contra meus hábitos, um pouco de chá. A princípio recusei e, nem sei bem por quê, acabei aceitando. Ela então mandou buscar um desses biscoitos curtos e rechonchudos chamados madeleines, que parecem ter sido moldados na valva estriada de uma concha de São Tiago. E logo, maquinalmente, acabrunhado pelo dia tristonho e a perspectiva de um dia seguinte igualmente sombrio, levei à boca uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço da madeleine. Mas no mesmo instante em que esse gole, misturado com os farelos do biscoito, tocou meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem a noção de sua causa. Rapidamente se me tornaram indiferentes as vicissitudes da minha vida, inofensivos os seus desastres, ilusória a sua brevidade, da mesma forma como opera o amor, enchendo-me de uma essência preciosa; ou antes, essa essência não estava em mim, ela era eu. Já não me sentia medíocre, contingente, mortal. De onde poderia ter vindo essa alegria poderosa? Sentia que estava ligada ao gosto do chá e do biscoito, mas ultrapassava-o infinitivamente, não deveria ser da mesma espécie. De onde

O primeiro capítulo desse livro, sobre mágoa e esquecimento, inicia partindo do acontecimento final do livro anterior, quando Françoise anuncia ao narrador que Albertine havia pedido as malas para ir embora. Aqui, o personagem principal percebe algo que escapava ao seu intelecto anteriormente, mas que depois lhe apareceu com a necessidade causada pelo encontro com a dor. Os signos do amor têm em comum com os signos mundanos o fato de forçarem a faculdade da inteligência a re-

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vinha? Que significaria? Onde apreendê-la? (PROUST, 2004a, p. 51). Esse tipo de signo possui ainda a particularidade de invocar a memória involuntária. A definição de memória involuntária é estabelecida pela insuficiência da memória da inteligência enquanto meio de conhecimento e de recuperação do tempo que passou: “Mas como o que na época eu lembrasse me seria fornecido exclusivamente pela memória voluntária, a memória da inteligência, e como as informações que ela nos dá do passado nada conservam dele, nunca teria sentido interesse em imaginar o resto de Combray” (PROUST, 2004a, p. 50). o tempo A memória voluntária produz uma imagem do passado segundo uma expressão de ordem cronológica do tempo, ou seja, o tempo, dentro do esquema da memória voluntária, aparece sob a mensuração do espaço, pois é considerado extensivo, e não intensivo. Por isso a memória voluntária não traz conhecimento. A intensidade é o que, conceitualmente na obra de Deleuze, ocupará em outros textos o lugar do signo. Pois o signo já é da ordem do intensivo, de uma força produzida no pensamento, de uma violência que força a pensar, como no caso da fuga de Albertine: “O que nos força a pensar é o signo. O signo é objeto de um encontro; mas é precisamente a contingência do encontro que garante a necessidade daquilo que ele faz pensar” (DELEUZE, 2010,

p. 91). A liberação do tempo de sua face extensiva, espacial, faz com que o tempo comporte certa multiplicidade, com que o tempo saia dos eixos, em consonância com a fórmula de Shakespeare, do tempo fora de seus gonzos, como anuncia (em) Hamlet: “nosso tempo está desnorteado” (SHAKESPEARE, 2007, p. 40). A questão de Proust é essa ambiguidade, essa complicação, as coimplicações do tempo: “como se houvesse no tempo séries diversas e paralelas” (PROUST, 2004c, p. 625).

referências DELEUZE, Gilles. Proust e os signos. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. PROUST, Marcel. A fugitiva. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004b. (Em busca do tempo perdido, vol. III). ––––––. No caminho de Swann. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004a. (Em busca do tempo perdido, vol. I). ––––––. Sodoma e Gomorra. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004c. (Em busca do tempo perdido, vol. II). SHAKESPEARE, William. Hamlet. Porto Alegre: L&PM, 2007.

nasceu em 1990, Vitória da Conquista – Bahia, onde ainda reside. Cursa filosofia na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Além de artigos acadêmicos em filosofia publicados em periódicos, publicou a crônica Morte e democracia, pela editora Carta, através do Prêmio Literário Sérgio Farina e tem três contos selecionados para serem publicados em três antologias pela Editora Estronho.

Leonardo araújo oliveira

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Crônica

CrÔNiCa traNSitiVa
Adriane Dias Bueno

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O meu coração escorre como a laguna para o mar. Suspiro como os navegadores ao deixarem suas mulheres, quando partem para desbravar novos e velhos mundos. Ah! Meu coração escorre como essa verde água para o mar escuro e indefinido.

guna ao encontro do mar, mas ambicionando não alcançá-lo nunca, nunca.

Que é isso que sinto? Que é isso que sinto? Não quero sentir, mas me vai tomando como uma canção dolorida. “Caruso”, reflito, sempre me lembrou o mar... Não Eu desgosto e gosto desta terra. sei quais minhas origens e então Ela nada fez por mim... Mas eu fiz misturo todas e sai esse refrão assim dissonante. Fico lembrando algo por ela? Nem sei qual é mida laguna que encontra o mar, nha origem, que raízes eu tenho. o mar que encontra a laguna, às No entanto, tem essa coisa presa vezes tão furiosos entre si, outras na garganta enquanto vou vendo a península ficar para trás. Quero tão calmos, harmoniosos. partir, quero ficar. E fico ouvinO meu navio transpõe a Barra do o rugido do vento atacando o do Rio Grande, canal perigoso, velame, entesando o cordame que cheio de armadilhas, naufrágios; prende o mesmo ao mastro. O sal o vento continua tocando as velas da água dói em meus olhos, mas que movimentam o barco. Eu só não é saudade da terra que vai fi- quero partir, mas o coração, com cando para trás não, é outra coisa, todo o seu desgosto, me implora penso convencida. para ficar. E detesto o cheiro do peixe, o odor da maresia. Detesto os lugares comuns da cidade que vou deixando, embora desejando voltar. Mesmo assim, meu coração vai escorrendo pela laadriane dias Buenos Nunca fizeste nada por mim, sinto aqui doendo, mas os marujos sempre voltam para suas terras, esposas e casas pobres e tristes. Os marujos são tristes. Será por isso que sempre retornam?

Casada, nascida em Rio Grande/RS. Formou-se Bacharel em Direito pela FURG em 2003, ingressando na Ordem dos Advogados do Brasil em 2004, sendo advogada militante em sua cidade, desde então. Livros e Publicações: “Casa de Ventos e Sussurros – Poesias”. Editora: CBJE, 2010. “Começo, meio ou fim?”. Conto publicado no livro “Criadores e Criaturas”, CBJE, seletiva de novembro de 2010. “Quem tem medo do escuro?”, poesia publicada na Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos, nº 72, CBJE, seletiva de novembro de 2010. “Estranhamento”. Crônicas e poesias. São Paulo: Scortecci, 2012.

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Crônica

João Paulo Hergesel

Sinestesia,

oximoro
Meu mal de nascença é a preferência por coisas incomuns; sempre fui o patinho feio que rodeia o lago dos cisnes. Nas aulas de educação física, todos brigavam pela bola de futsal, mas eu só queria saber do tabuleiro de ludo. Nos fins de semana, todos idolatravam o sol, mas eu adorava os sábados e domingos chuvosos. Nas baladas, todos carregavam o frasco de vodca, mas eu só segurava o copo com suco de abacaxi.

e anadiplose
nem sabia o que era isso. — Estatística? — Não. Estilística! — Ah, aquilo de fazer vestido de noiva. Quando eu tentava, humildemente, explicar que se tratava de estudar o estilo da palavra, a decepção era notável: — Tanta coisa para fazer, e você fica dizendo se a palavra é feia ou bonita?! De nada adiantavam meus solilóquios sobre funções, vícios e figuras de linguagem. Era inútil mostrar que há nome para quando se mescla sentidos, ou se fala de modo contraditório, ou se repete a última coisa que foi dita; sinestesia continuava sendo aquilo que o médico aplica para o paciente relaxar, oximoro permanecia uma marca de alvejante e anadiplose ainda era nome de uma tribo indígena do sul do Mato

Na faculdade, não foi diferente. Cada um tinha sua própria paixão por uma das áreas do curso de Letras: uns eram rígidos na gramática; alguns, meticulosos na linguística; outros, fantasiosos na literatura. A amplitude da Língua Portuguesa, no entanto, me permitiu ser diferente (de novo) e escolher me especializar em outro campo: o da estilística. A maioria dos meus colegas

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Grosso. Os dias iam passando, e as pessoas insistiam em ignorar a pobre estilística, mas eu me viciava cada vez mais. Passei a fazer análise do discurso em simples conversas. Meu namoro terminou por culpa disso. — Eu te amo do tamanho do mundo. — Hipérbole! — O que foi, gatinho? — Metáfora! — Dá pra parar de gritar alto? — Pleonasmo! — Faça isso mais uma vez e estes dedinhos vão balançar num ritmo de despedida. — Eu... Eu... —? — Eufemismo. Solteiro, sentia-me socialmente sofrível e só conseguia pensar na aliteração que isso provocava. Foi nessa ocasião que alguns amigos me levaram para o bar da universidade e, por acaso, foi anunciado que já estava decidida a sede para a Copa do Mundo de 2014. O balconista exaltou: — A Copa do Mundo está vindo para o Brasil! Cheguei a emitir uma onomatopeia — boom! — quando ouvi essa maravilha de personificação. Já havia analisado personificações de todos os tipos: animais, objetos, roupas, astros, datas e
João Paulo Hergesel

até sentimentos. Mas uma prosopopeia de evento internacional era novidade para mim. Pude imaginar aquela festa toda, com estádio e gente e barulho e bandeiras e polissíndeto, dando corridinhas até chegar ao Brasil. — Querem outra novidade? Acabaram de confirmar que as Olimpíadas também virão para a Cidade Maravilhosa! Nem dei tanta importância para a perífrase relacionada ao Rio de Janeiro; a personificação, do mesmo tipo da anterior, estava presente novamente. E, enquanto eu pensava a respeito disso, tudo começava a se modificar: novos estádios, novos hotéis, reformas nas cidades, reforma nos próprios brasileiros. Ocorria uma espécie de metonímia da vida real, a transformação do quase nada para o tudo, uma sinédoque do todo pela parte: o Brasil se modificava. Aí alguém comentou da tradicionalidade, se as cidades não perderiam seu valor histórico e cultural com tantas mudanças. A pergunta não era dirigida exatamente a mim, mas confesso que só consegui, mais uma vez, pensar na estilística. Assim, responderia: a conotação não destrói o sentido denotativo; apenas o embeleza. Mas não consegui. Analisei meu pensamento, a metáfora que foi utilizada para construir outra metáfora. — Metalinguagem! — berrei.

Jovem escritor brasileiro de 19 anos. Reside na cidade de Alumínio, onde é colunista de jornais locais. É estudante de Letras na Universidade de Sorocaba e se dedica principalmente às literaturas infantil e juvenil. Autor de um livro de contos e com participações em diversas antologias, coleciona dezenas de prêmios literários, nacionais e internacionais.

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Beethoven
Otávio Martins

A 5ª Sinfonia de

Crônica

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Quanto vale a 5ª Sinfonia de Beethoven? Foi o que me perguntei numa madrugada dessas. Não saberia responder, mesmo. Existem coisas, concluí, não adianta, não têm como mensurá-las. Aí, dei de pensar, ou matutar, como falava o meu amigo Théo, caipira, do interior de São Paulo. Fui atrás do prejuízo, como dizem outros. Afinal, eu formulara a pergunta. Então, a responsabilidade recaiu sobre mim mesmo. Pirâmide Social. Vou começar por aí, pensei. Vasculhei algumas páginas lá na Internet e, até, livros, pra entender melhor essa tal tão propalada e considerada, Pirâmide Social. Nossa! Fiquei assustado com tal estrutura. Fui tentando entender, desde lá das pirâmides do Egito que, não são e não será fácil desfazê-las, tampouco cairão de uma hora para outra. Napoleão não era nenhum louco quando exclamou, ao deparar-se com elas: “Quarenta séculos vos contemplam!”. Quatro mil anos, ou mais; É mole? Acho que não caem nem com reza brava. Mas, alguns esperançosos, acham que, um dia, a tal Pirâmide Social, supondo que é mais frágil que as do Egito, cairá por terra. Duvi-d+o=dó. Ou, pelo menos, não estarei por aqui. Quem viver, talvez, verá. Também, pensei no tripé Estado, Igreja e a “Comunidade” do Sistemão. Nem me aprofundei, precisaria de mais uma vida inteira. Certa vez perguntei para um mestre de obras, meu conhecido, por que as

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estruturas usadas, tanto para ficarem fixadas (tesouras, cumeeiras e outros bichos), quanto os meios de se ir levantando uma construção, são na forma triangular. Ele disse que o triângulo era o melhor suporte para segurar qualquer coisinha, mesmo que seja, ainda, uma coisona. Numa obra, revelou o mestre, é só pegar três pedacinhos de madeira e três preguinhos, desses manjados 12 x 12, e estará construída a fortaleza. Nossa, juntando as informações do meu amigo mestre de obras e alguns dados da minha investigação, me assustei. Ele também dissera que o triângulo, por ter três ângulos, tinha essa propriedade. Mas, se a tal de pirâmide tem quatro triângulos, postados sobre um quadrado, cujos lados, são, também, os lados de cada um desses triângulos e, ainda, lá em ciminha tem um vértice pra ninguém botar defeito... Parei. Desisti. Vai ser forte, assim, no inferno. Esses egípcios... Nem tentei fazer os cálculos. Por saberem, os analistas políticos e econômicos – expertinhos como eles só – que a pirâmide é um “achado”, passam a vida inteira tomando-a como o seu cavalo-de-batalha. Pano pra mais de metro. Vichi! A vida inteira, dela sobreviverão. Quatro milênios não são apenas uma vida. Bota um monte de gerações nisso. Bem, até aí morreu Neves. E a tal de Pirâmide Social, propriamente dita? Tive que percorrer algumas etapas da evolução do homem, até chegar onde cheguei. Quando atingi o cume,

maneira de falar, não sei se é assim que se diz, foi que comecei a entender melhor. Ora, além de formar esses quatro triângulos, na subida, existe, ainda, na base, o quadrado, mais quatro lados, formado, ao mesmo tempo, pelos próprios lados dos tais triângulos, para sustentá-los. Parece coisa de louco, mas não é. Tirando essa rigidez toda fora, o que será, no frigir dos ovos, que sustenta aquela pontinha, lá de cima? Uma das explicações achei numa frase corriqueira: “Você ainda chega lá.” Ou, “Eu ainda chego lá.” Saindo daqui de baixo, considerando a tal de Pirâmide Social, pra se chegar lá, me pareceu lógico, o sujeito terá que se valer de vários degraus, humanos. Por vezes, mais exatamente pela maioria das vezes, fica-se pelo caminho. Aí, não tem cristão que dê jeito. É uma longa estrada. Pior, na subida. Ainda, pra se chegar lá, é preciso ser bom de capoeira, rasteira, cotovelada, puxação de tapete e, claro, bom de corrupção e de hipocrisia, também. E, disso tudo, saber se defender. Os que estão, ou pensam que estão no meio do caminho (aí, precisa imaginar uma outra pirâmide, cujas bases, mantendo a mesma estrutura, vão-se estabelecendo ao longo da subida). Se for na descida, vertiginosa, certamente será. Triângulos abaixo e, sabe-se lá, quantos quadrados durante a queda, assim, no rapidão, se apresentarão? Isso tudo começou porque eu estava assistindo a um vídeo da Orquestra

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Filarmônica de Viena, no youtube, sob a batuta do maestro Leonard Bernstein. A orquestra e o maestro, todos tomados, me pareciam, de um transe, levados por essa tal de 5ª Sinfonia, de Beethoven. O maestro se contorcia todo, suava, regia, fazia caretas, se escabelava todo sem ficar bravo com ninguém. Por vezes, fazia até cara de satisfeito. Acho, até, que era ele quem estava provocando aquele “tumulto” musical, deliberadamente. Um monte de músicos, ainda, uma diversidade bárbara de instrumentos. Pensei: Mas o que está acontecendo? Parece que estão loucos? Uma hora, tudo pianinho, pianinho, daí a pouco, nossa, um deus nos acuda. Porém percebi que eles estavam bem era gostando da coisa. Como não entendo de sinfonias, fiquei ali, por quase quarenta minutos, tentando saber o que, realmente, poderia estar acontecendo. Ainda li que o otávio martins

tal de Beethoven tinha problemas auditivos. Eu, hein? Informaçãozinha aqui, outra ali, fui juntando os pauzinhos e, ao final, aliás, depois do final, já no replay, eu me sentia um entendido em sinfonias e em Beethoven. Ainda assim, não me contive, voltei a perguntar a mim mesmo: – Quanto vale a 5ª Sinfonia de Beethoven? Parei por aí. Foi o meu melhor presente de Páscoa. Dei-o a mim mesmo. R. – A Quinta Sinfonia de Beethoven não tem preço. Não pode ser avaliada pela Economia de Mercado, a qual pertence ao tal Sistemão que fez água, outra vez, em 2008, só por causa de umas hipotequinhas de merda. Teria muito mais coisas a considerar para provar a minha tese; desisto. Vou encerrar esta crônica por aqui.

68 anos, iniciou a escrever contos e crônicas por volta de 2006, para preencher alguns espaços em seu jornal eletrônico nb-NOTÍCIAS DO BRASIL, posteriormente rebatizado de O SPAM. É fotógrafo e cinegrafista (ou era). Trabalhou na extinta TV TUPI - (TV Ceará, em Fortaleza, 1969 e 1970). Produziu alguns shows em São Paulo, com Adoniran Barbosa e Grupo Talismã; Eduardo Gudin, Márcia e Roberto Riberti, além de Paulinho Nogueira; Tom Zé e Vicente Barreto; João do Vale, Zé Keti; Odair Cabeça de Poeta; Premeditando o Breque e outros. Foi assistente de produção do Festival Universitário de MPB, 1979, assessorando o produtor, Eduardo Gudin, do qual surgiram Arrigo Barnabé, Premeditando o Breque, Celso Viáfora e outros. No Festival do Guarujá, através da Secretaria de Cultura, coordenou e, junto com outros, definiu a participação e contratos na área musical (Hermeto Pascoal, Gonzaguinha, Egberto Gismonti, Sivuca, Baden Powell, Sérgio Cabral, Nelson Cavaquinho, Adoniran Barbosa, Paulinho Nogueira, Eduardo Gudin, Sérgio Ricardo, Maurício Tapajós e outros - participantes). Trabalhou como cozinheiro em Florianópolis. Arrisca algumas harmonias no violão para suas composições, como O dono do barco, Beija-flor, Meu amor sereno, É do mar e outras. Atualmente se dedica, somente ao jornal O Spam e escrever alguns contos e crônicas.

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Poesia

ii Concurso de Poesia autores S/a

Idealizado por Lohan Lage Pignone, graduado em letras pela UNESA Nova Friburgo e autor de Poesia é isso pela Editora Multifoco, o Concurso de Poesia Autores S/A é um concurso virtual que tem como arena o blog Autores S/A (http://autoressa.blogspot.com/). Prezando pela transparência na divulgação dos poemas, das notas e dos comentários dos jurados, o concurso teve sua primeira edição em maio de 2011 e, como ganhador, o poeta friburguense Marcelo Asht. A escolha do corpo de jurados é um ponto alto neste certame, que já contou com grandes participações como as dos autores João Gilberto Noll, Antônio Carlos Secchin, Ronaldo Cagiano, Afonso Henriques Neto, Thelma Guedes, Nilto Maciel, André San’tanna, Micheliny Verunschk e um belo parecer geral de Marina Colasanti, entre outros ícones do cenário literário brasileiro. Com a segunda edição finalizada, Lohan afirma que o legado deixado pelo certame é bastante rico. “A segunda edição foi um marco, um recorde de participantes, tanto entre os poetas quanto entre os jurados oficiais e convidados. Na primeira edição assumimos

o risco de encarar o ‘novo’. Nesta, confirmamos o formato inovador e atestamos que, definitivamente, é um certame que tem tudo para se tornar um dos mais importantes do país nos próximos anos”. Foram 502 inscritos de todo o Brasil (além de Angola, Portugal, Japão e Áustria) na fase de pré-seleção, tendo restado somente 12 finalistas, após três grandes peneiras. Os 12 guerreiros poetas lutaram pelo título e pela premiação. “O formato dinâmico, uma surpresa a cada etapa e o alto nível qualitativo dos poemas são os ingredientes infalíveis desta receita”, afirma Lohan. O concurso foi disputado por pontos corridos semanalmente. A final ocorreu nos dias 16, 17 e 18 de agosto, após uma boa dose de suspense na divulgação do nome do campeão. A vencedora foi a poeta baiana Letícia Simões, 24, que, no começo do concurso, morava no Rio de Janeiro; e hoje reside em São Paulo. A vice-campeã foi a poeta Cinthia Kriemler, tendo ficado apenas 4 pontos atrás da vencedora. Para ter acesso aos poemas tanto da primeira quanto da segunda edição, além de outros textos artísticos dos autores s/a, acessem: autoressa.blogspot.com.

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1ª Colocada do II Concurso de Poesia Autores S/A: Letícia Simões (Rio de Janeiro, rJ) Autora: Letícia Simões Título: ulisses, uma estrela suja caiu do céu caiu diretamente à minha mão arranhou-me as costas, os vitrais, os nervos de todas as ordens não acredito mais em você, não acredito mais em ninguém quisera eu acreditar que um dia voltarás – hoje prefiro enterrar-me aqui. a estrela arde os olhos e eletrifica-me o corpo atravessando aquela porta, morri um pouco aliás, com você, já morri de três a quatro vezes – a insistência vã deverá querer dizer algo. não penses que não gostaria de partir, de encontrar no branco o estremecimento do azul (o amor, ulisses, é só um estremecimento do azul) a estrela suja queima a mão largá-la significará abrir mão do céu – mas este céu eu não quero. este céu é sujo e feito de pássaros irrequietos. quero os meus pássaros em paz. talvez seja caso de renascer em azul, atropelando as fugas e reerguendo as gaivotas. fugir nunca é despreparo, mas antes: necessidade. acordei num sobressalto mas ainda no escuro. a estrela jazia no chão. a porta entreaberta já avista um muro. agora, resta apenas esse tecido: meus dedos desmancham o ontem esperando a sua voz.
http://www.flickr.com/photos/catzrule/4793895869/

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2ª Colocada do II Concurso de Poesia Autores S/A: Cinthia Kriemler (Brasília, DF)
Autora: Cinthia Kriemler Título: Nem todo napalm será perdoado – tributo a nudez não consentida de Kim Puhc –

existe uma carne a ser coberta e por ela cessem os melhores coitos os maiores gozos por ela dobrem os sinos ensurdecendo as turbinas que borrifam do céu o esperma de napalm que se cubra o nu imaculado da fêmea pequena, sem pecado e abram-se braços, olhos, ouvidos ao estupro de todas as fés que se cubra o corpo que queima urra, verte sangue submisso e se desnuda em dor ao fogo ácido da Grande Meretriz do Norte a filha insidiosa de Sam existe uma carne impúbere que corre rua abaixo em medo descalço implorando ao dono do mesmo céu que chove morte pelo milagre do “basta!" mas o Grande Onisciente não ouve, não vê descansa pois que sétimo é o dia e por isso tão somente por isso nem toda nudez será castigada.

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3º Colocado do ii Concurso de Poesia autores S/a: Geovani doratiotto (atibaia, SP)
Autor: Geovani Doratiotto Título: Poema-Dividido Lágrimas ao solo. “Esperei (tanta espera), mas agora Nem cansaço nem dor. Estou tranquilo. Um dia chegarei, ponta de lança, como um russo em Berlim”. (Carlos Drummond de Andrade) O sol é lodo e ofusca o sorriso cinza, quando a metade, meio desconfiada encontra o todo. Noticiário Alemão: Calou-se a voz de cimento. Reconstruir o parvo futuro. O tiro no escuro que declara extinta a mudez ficta do povo. – É proibido colar cartazes no muro. Mudo-me, Transpasso, com passos duros os restos que sobraram do morto. Disse o homem concreto - armado: MUDO-MURO-MUDO MURO-MUDO-MURO MUDO-MURO-MUDO Calo na mão do Mujiki, o Camponês que planta a semente acaba plantado no chão. Dentro de mim, ainda permanece inteiro parte do muro de Berlim. quanto ele caía [Enhttp://www.flickr.com/photos/catzrule/4793895869/

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minha mãe paria] O médico disse em tom de bravata: Nem homem, nem mulher, seu filho é Comunista.

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4º Colocado no ii Concurso de Poesia autores S/a: Henrique César Cabral (São Paulo, SP).

Título: Aulas Mortas cabeças são falsos girassóis cada olho sonha um ponto em fuga onda de silêncio sopra morna sobre o mundo enquanto a alma se lança em dança melindrosa o mundo vespertino abre a porta a teu perturbado ar noturno

com asas – roçando o azul de leve o silêncio alto da montanha velha o inesquecível sabor das cinzas seu lacrimoso alojar no olho avança um dedo o pensamento versava sobre flecha o arremesso a pressa outro pensamento serpenteia

o insuperável sabor do voo num banco duro – o coração e sonha ... as amarras do tempo – as correntes envolvem teu corpo de madeira esquece que é matéria

oblíquo, por tramas paralelas sem rastro a aura suspensa além-ali o pio da inocência o coração cai placenta adentro

sonha que é dardo no encalço de uma ideia

passa pelo estreito osso do tempo

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Poesia

maLViNa
Cris Dakinis

Sem velas pra queimar Cem velas ela acendera Arderam por seu amor Um jovem pescador Que sequer a conheceu Treze flores ressecadas Sete cores desbotadas Malvina construiu um castelo Num nebuloso e etéreo altar Guardou a Lua Negra na noite Até o astro inteiro inchar Para dourar o seu caminho Cantou o vento do Norte

Viajando pelos “cumulus” Do passado fez recorte Lançou fora as correntes E seus adornos de sementes Voou pela tempestade Rojões de trovoadas, raios de sina! Malvina sem um amor de verdade... Malvina banhada de lavanda Da suíte com varanda De frente pro mar Fez sua única maldade:
http://www.flickr.com/photos/waleedalzuhair/4799873548/

Malvina adoçou o mar...!

Cris dakinis
é o nome artístico de Ana Cristina Mendes Gomes, premiada em diversos concursos literários no Brasil e no exterior. É autora dos livros de poesia “Por Arte de Magia” (2008), “Aos Distraídos!” (2010). Menções Honrosas por livro infanto-juvenil (Argentina, 2009) e livro de poesia (Portugal, 2010). Membro da Academia de Letras e Artes de Arraial do Cabo/RJ, escreve para sua página: www.crisdakinis.com

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visitante
Volmar Camargo Junior

Poesia

Death em Sandman #20 Terra dos sonhos: Fachada de Neil Gaiman

sinto a presença de um animal feroz à minha volta não sou especialista em comportamento de feras selvagens nem das

sinto sua a aproximação fico em silêncio respiro e me abstraio

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“Vocês sempre se agarram às velhas identidades, faces e máscaras, mesmo depois que elas não servem mais. Mas um dia, você tem que aprender a jogá-las fora.”

domésticas menos ainda das invisíveis nem tenho qualquer traço de controle sobre tais bichos como aqueles caras da televisão ou da Índia que se envolvem corajosamente com crocodilos, cobras e leões [vi mais de um deles corajosamente morrer desse jeito]

evito encará-lo [ouvi isso de um desses especialistas, um dos que não morreu] e fico imóvel para que o bicho não se sinta ameaçado conheço-o bem me fareja porque por seu turno ele me conhece bem não contudo quis mostrar-lhe a intimidade sabe-a ter sido a sua jaula não foi um prazer tive de ser eu de forjar meu corpo para ser todo barras de aço chão de concreto telhado de qualquer coisa transparente mas intransponível submeter a uma vigilância dura a mim para registrar as reações dele fera pretensamente cativa mesmo sem olhá-lo sei que está confuso já esteve cá dentro agora está fora está livre desfruta da liberdade de existir e materializar-se quando quer não mais dentro de mim lá pelas tantas ele fareja toca as trancas, os cadeados com a pata não é possível que queira voltar para onde o mantive preso faço ideia de que não apenas eu fui roído no processo ele também se feriu

nos últimos dias de seu cativeiro eu encolhi meu espaço e as paredes e as grades devem tê-lo machucado tanto... ele rosna “merda! ele me viu” rosna alto dessa vez permaneço imóvel esmago a luz com as pálpebras tento parar de respirar meus ouvidos zunem minha garganta seca e como veio foi olho em redor mas eu o conheço submeto uma minuciosa inspeção do que antes foi a cela [agora é um quarto de jogar coisas de utilidade incerta, onde costumo ir para criar poesia quieto] ele não está lá confesso que tenho algo de tristeza por isso alívio leveza, sim mas algum sentimento ruim por sua ausência o lobo foi-se embora outra vez

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Poesia

procedimentos técnico-administrativos em caso de

papéis involuntariamente esquecidos
Volmar Camargo Junior

desordem na gaveta dos

a vida é organizada em livros do início ao fim tudo dividido em volumes tudo impresso em sinais gráficos reconhecíveis tudo atravessado num dos cantos da página por um número de um ao [isso varia de caso a caso] e se vai-se à frente ou se volta-se

a saudade é uma pilha de folhas soltas vez ou outra bate sobre quem as juntou a vontade de revê-las como bate sobre elas o ar movido por uma janela esquecida aberta ou por uma porta que de propósito se fecha

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o lugar marcado na história estará no mesmo lugar a exceção é a saudade

o amontoado se espalha pela casa toda as folhas misturam-se aos outros livros e vai-se encontrar saudade no meio do livro das contas a pagar do de certificados de cursos de sessenta horas do livro de visitas prometidas e nunca feitas daquele dos primos distantes que só se viam no natal e – como não? – do livro dos amores malresolvidos

a coisa passa como o ar que as moveu para e o tempo que se tem para reordenar o ordenável é o tempo que o tempo dá [e isso também é variável, que inferno!] qual é o procedimento?

na melhor hipótese reuni-las de qualquer jeito enfiá-las na mesma – ou noutra – gaveta e evitar com força pôr os olhos então – e de geral é o que aconte- na que ficou por cima ce – é-se tomado por essa má boa coi- [eis um processo fadado ao fracasso: sa lusófona amarga e doce não se sabe de nenhum caso em vai-se ver que nele tenha tido êxito] sentir retraçar com os olhos – úmidos – outra possibilidade seria costurácom as pontas dos dedos – trêlas mulos – a grafia de cada letra entretanto ninguém ousa fazê-lo ressignificar cada palavra reformular o sentido de cada sen- porque só estando quem as sente inerte tença é que se pode uni-las definitivamas o pior mente o realmente doloroso nas páginas amarelecidas da saudade é o vazio entre os ditos e os não- porém, nesse caso, o indivíduo já não sente mais nada ditos

Volmar Camargo Junior
V nativo de Cruz Alta, ativo em Rio Grande, é poeta, vendedor de livros. professor não prati., cante, arquivista em formação, pai do Dimitri. Escreveu os blogs Um resto de café frio e O balcão das artes impuras. Escreve o Verbo.

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Poesia

Caem corpos
Caio Dezorzi
http://www.flickr.com/photos/pedromoriyama/5767006855/

em Pinheirinho

Caem corpos em Pinheirinho! Viva Naji Nahas! Caem casas em Pinheirinho! Viva Naji Nahas! Cabo Oliveira Veste o uniforme antes do sol raiar Não é terça-feira E nem é dia de alguém trabalhar Mas recebeu ordens Leva balas de borracha Que destino elas terão? Leva bombas, gás pimenta Pra que tanta munição? Jennifer Souza Sonha em poder ser uma bailarina Moradores despejados Que destino eles terão? Lá vem a tropa de choque Pra que tanta munição? Ana dos Santos Tenta dormir apesar da pressão Ela é só espanto Quando às seis horas ouve uma explosão Acode as crianças

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Mas ela não ousa Pela manhã bailará na chacina Sem saber por quê É arrancada de seus pais Que destino eles terão? Ela só tem sete anos Pra que tanta munição? Governador Se olha no espelho sem se assustar Já se acostumou Pensa que o povo sempre aceitará E manda invadir Levem balas de borracha Blindados e um canhão! Levem bombas, gás pimenta Levem toda a munição! Caem corpos em Pinheirinho! Viva Naji Nahas! Caem casas em Pinheirinho! Viva Naji Nahas!

Sargento Santos Veste o uniforme antes do sol raiar E nem é dia de alguém trabalhar Mas recebeu ordens Maria Souza Tenta dormir apesar da pressão Quando às seis horas ouve uma explosão Acode as crianças Kelly Oliveira Sonha em poder ser uma bailarina Pela manhã bailará na chacina Sem saber por quê E a juíza Se olha no espelho sem se assustar Pensa que o povo sempre aceitará E manda invadir Caem corpos em Pinheirinho! Viva Naji Nahas! Caem casas em Pinheirinho! Viva Naji Nahas!

Caio dezorzi
Caio Dezorzi é um ator, professor e escritor paulistano, formado em educação pela Unesp, idealizador do jogo autoral “Filacantos” (filacantos.blogspot.com) e mantém um blog autoral chamado “Fundo da Gaveta” (caiodezorzi.blogspot.com).

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Poesia

Sobre o trabalho do tempo
André Telucazu Kondo

O tempo constrói o templo – do homem Cada segundo de prego Cada minuto de tábua Cada parede de hora Cada telhado ao tempo Vem a chuva dos anos A tempestade das décadas: Os segundos enferrujam Os minutos racham As horas trincam O tempo desmorona Do templo, só o tempo resta E um quê de sagrado, nas ruínas do homem.

andré Kondo
é autor dos livros “Além do Horizonte”, “Amor sem Fronteiras” (Prêmio Paulo Mendes Campos – UBE-RJ), “Contos do Sol Nascente” (Prêmio Bunkyo de Literatura 2011, M.H. Prêmio Esfera das Letras – Portugal e ProAC 2010). A lançar: “O Pequeno Samurai” (D.M.H. Prêmio João-de-Barro 2009) e “Palavras de Areia” (Prêmio Alejandro Cabassa – UBE-RJ). Como poeta, aceita também seu nome nipônico, gravado de forma equivocada no momento de seu registro: “Telucazu”, pois a poesia admite todos os equívocos do mundo. Com mais de 50 prêmios literários, é pós-graduado pela University of Sydney. Viajou por 60 países. Continua viajando, pelo universo das letras. www.andrekondo.blogspot.com

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Poesia

Noturno para Franz
Danilo Augusto de Athayde Fraga
Quando o espírito farfalha E a vontade estremece abandonada ao vento E a derradeira porta se entreabre – e a sabemos (Essa esperança não é para nós) E se tem o coração, mas já não o sente Entre dois espasmos E se tem olhos que estão como nublados Ou completamente anoitecidos E a mão desiste, e a palavra desiste na iminência E mesmo o pensamento se amedronta E mesmo o leve gesto queda ao lado: vencido E a música descansa no silêncio – talvez para sempre Ele nos lembra em sua doce paciência Em sua modéstia convicta Que talvez a pena não valha – e mesmo O poema não valha – e certamente A Rendição se atrasará. Mas, mesmo assim E apesar de tudo Existe tanta vida e por todos os lados Acontecendo incessante e explode em um segundo
http://www.flickr.com/photos/pagedooley/3769058618/

E sequer o pensamento e sequer a mais longa música poderá E mesmo que a gente esteja doente ou deseje a morte de forma sincera E mesmo depois de tudo o que acontece Somos num instante rendidos por coisas tão pequenas Por este mínimo incessante que existe em tudo Demasiadamente

danilo augusto de athayde Fraga,
jovem poeta e escritor da cidade de Salvador, é o autor do livro “Sonhos e outros Sonos” e, do ainda não publicado, “Os versos Quânticos”. Premiado em diversos concursos nacionais e internacionais, mantém o blog “www.malbelo.blogspot.com”.

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Joanna
Fernando Domith
Muito se foi dito, pouco foi feito E vagando sozinha a alma se sabota Colocando-se de joelhos diante de si mesma Esperando o golpe derradeiro Num vale completamente preenchido De ecos e lamentos Um dia ela foi minha E se hoje os ventos se contorcem em agonia Ela não é mais Um dia ela foi minha E se hoje alguém clama pelo nome de Deus Ela não é mais Quem se contorce sou eu Quem clama sou eu Quem não possui mais nada Sou eu E ainda assim as amarras Fazem minha alma sangrar A morte espreita A morte sou eu Sangue pelos poros De alguém extremamente Perturbado Órgãos se rompendo A vida em colapso A loucura vagarosamente Forçando a porta E nem hoje ou amanhã Ela será minha

Se ela me beijasse hoje Sentiria o gosto forte De uísque barato O gosto amargo, azedo Da desesperança Onde uma vez houve Alegria e despreocupação Ingênua esperança Talento, direção Se ela me olhasse hoje Estranharia aquela sombra Para sempre estacionada Na beirada de meus olhos Onde uma vez já houve luz Onde uma vez já houve amor Por algo singelo sutilmente Entrelaçado nas notas baixas de sua voz Se ela hoje falasse comigo Choraria ao ouvir os fracos lamentos De onde uma vez saíram belas palavras De onde uma vez extraiu-se consolo De onde uma vez a confiança transbordou Maravilhando e assustando O pequeno coração encerrado em seu peito Tudo um dia pareceu bonito E hoje tudo parece borrado Além de minhas lágrimas As pernas bambeiam e a mente hesita

Fernando domith
Tem 22 anos e estuda Psicologia na Universidade Federal de São João Del-rei. Um dos vencedores do 2º Prêmio Literário da FUMEC, categoria conto. Espera também causar uma boa impressão na categoria poesia e almeja escrever profissionalmente algum dia.

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http://www.flickr.com/photos/djt23/3207556438/

mendigo de tal
Ana Peres Batista

Poesia

Pobre dele, sem nome, que fala de amor e nunca se permitiu vivê-lo. Que por um pouco experimentou e fechou-se no medo. Não tem batismo e nem tenta o mistério. Faz do sagrado dia um deserto. Pobre de mim, que o amo. E nem posso entendê-lo. O sobrenome se repete, e eu o que posso, com o que fizeste? Canta alto o vagabundo sujo e sem nome, vai andando errante, tempo a tempo, o amor que te espere atento.
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Poesia

Rodrigo Pereira dos Santos

dançando e encontrando –

loucuras sãs
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Querendo fazer das dores e suas marcas algo concreto Buscando uma janela que seja, uma porta, uma fresta Preciso de ar, preciso olhar lá fora Preciso ver que nada acabou Que chances podem ser colhidas como flores à beira do caminho Meio que dançando, num ritmo desconhecido mas envolvente Parece que um som me guia, me transporta Um ar fresco me acalma o temor Não é tarde, não, não é! Pareço falar com tanta gente Pareço me comunicar descontroladamente Alguém me ouça! Não é tarde, não, não é! Tenho noção da fantasia Mas o que seria de mim sem o sonho? Sem o devaneio? Sem a esperança? Chega de só razão, razão e razão Chega de ser um “animal-máquina”. Não é mesmo, Descartes? Chega de ser José. E agora? E agora? Não é mesmo, Drummond? Pra que tanta métrica, não é, Camões? Pra que tanta preocupação com a forma, meus amigos parnasianos? Se os símbolos podem me ajudar a chegar ao desconhecido E por sinal esse desconhecido sou eu mesmo Os labirintos estão aí Senhas, signos, códigos

Não é, Édipo? Alice? Vou dançando, vou de olhos fechados Me chamem de insano, me chamem do que melhor o ego de vocês ficar saturado de orgulho por terem encontrado uma definição perfeita pra meu estado crônico-deliroso Não é absinto, não é haxixe, viu, ultrarromânticos? Não é tuberculose, não é a morte É a busca, é o encontro Vejam, vejam só! Não é tarde! Não é tarde! Estou solto. Preso talvez a mim mesmo Mas solto para encontrar a chave E abrir-me, e dizer-me livre Solto, mas em busca de liberdade Preso, mas ciente do ciclo da vida Como teclando um piano, vou comunicando infinitamente Vou dançando, vou falando Vou silenciando, vou ouvindo Vou decifrando, vou me encontrando Elementos, cores, símbolos, realidades vão me guiando Não é tarde! Não, não é! Aos crédulos e incrédulos Aos tripulantes e aos que acenam Aos simpatizantes e aos críticos Aos livres, aos libertos Ao mundo. A mim. A você. A nós Não é tarde! Não, não é!
http://www.flickr.com/photos/hoill/6070208004/

É o que tenho a dizer

rodrigo Pereira dos Santos
29 anos, residente em Lambari-MG, professor de Língua Portuguesa e psicanalista, com crônicas e poesias publicadas.

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Também nesta edição, textos de
adriane dias Bueno aline Nardi ana Peres Batista andré Kondo Caio dezorzi Cinthia Kriemler Cris dakinis Cruz e Souza Edweine Loureiro Fábio Wanderson de Sousa Fernando domith Geovani doratiotto Henrique César Cabral Henry alfred Bugalho isabela Penov isabella Gonçalvez João Paulo Hergesel João Vereza Joaquim Bispo Leonardo araújo Letícia Simões Luís Felipe Sprotte mariza Lacerda otávio martins rodrigo Pereira dos Santos Silvana michele ramos Volmar Camargo Junior zulmar Lopes

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