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“Ensino:

Novas oportunidades”
Hoje, com 49 anos de idade, voltei a estudar para finalizar o
12º ano, que deixei incompleto ao mesmo tempo que
frequento um curso Profissional de Contabilidade, área na
qual trabalhei, mas que, por falta de apoio e incentivo por
parte dos meus encarregados de educação (pais), nunca
passou de uma meta a alcançar e que, hoje, proponho-me a
transpor.

Teria sido isso possível, sem a alteração do ensino e a


criação das Novas Oportunidades?

Penso que não! Senão vejamos.

Frequentei o Ensino Primário, em Minas de S. Domingos,


Alentejo, até á 3ª classe, no método antigo em que, o
Professor do Ensino Primário, tinha uma importância
enorme na nossa conduta e formação do carácter. Era ele, a
figura que, para além do seu papel principal de docente,
era também o braço direito do Estado e da Igreja
instituições essas que, caminhavam lado a lado, impondo
as suas ideias e ideais sobre os jovens de então. A este,
cabia para além do ensino, voltado e programado para o
regime ditatorial dessa era, sensibilizar o respeito pelo
estado e seu regime, bem como divulgar a Religião Católica
através das catequeses, e outras práticas de sensibilização,
(a aprendizagem do Hino Nacional, o Pai Nosso e Ave Maria
entre outros), tornara-se assim, a figura, que, unia, Escola,

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Estado, Igreja e família. Este era, talvez a figura mais
respeitada bem como temida pelos jovens de então.

Aos 8 anos de idade, os meus pais mudaram-se para


Lisboa, terminando eu, o Ensino Primário (4ª classe) em
Linda-a-Velha.

O método de ensino era severo, austero, mas, na minha


opinião, eficaz quanto aos seus objectivos.

Ao complementar a 6ª classe, tive que optar por uma das


três vertentes de ensino existentes na altura, o liceu, a
escola industrial e a escola comercial.

As condições económicas dos meus pais eram escassas, os


seus conhecimentos também, tinham a 4ª classe, que
tiraram em adultos, para me puderem aconselhar, aí e sem
muitos esclarecimentos sobre o caminho a tomar, decidi
optar pela escola comercial.

Frequentei o ensino até ao 6º ano (11º ano), deixando a


escola com 17 anos de idade e um ano após o 25 de Abril
1974.

O método manteve-se rigoroso, austero e em tudo diferente


dos dias de hoje, dias em que, é agora vez, de os meus
filhos, viverem o seu tempo de juventude estudantil.

Um ensino liberal, menos rigoroso e imposto, com métodos


de aprendizagem mais evoluídos, que, se por um lado
podemos dizer mais fáceis, por outro penso, que, nem tanto
assim. Ao aluno, cabe agora, a decisão de querer ou não
estudar, mostrar ou não interesse pela aprendizagem,
cabendo-lhe também a ele o bom ou mau aproveitamento
na escola, o estado coloca todas as ferramentas de ensino
ao seu dispor, e a ele cabe o empenho para daí tirar o
melhor aproveitamento, a escola, apenas estabelece uma
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idade mínima de frequência do ensino e coloca ao dispor
dos jovens os meios. Por vezes e devido á sociedade em
que vivemos, torna-se uma tarefa difícil, para os jovens
saber onde termina o entretenimento (lazer) e começa a
sua primeira responsabilidade enquanto ser humano para
consigo próprio, o estudo. È aí, que, muitos jovens se
perdem ficando pelo caminho por falta de investimento da
sua parte para com o seu futuro.

Foi a nível da disciplina nas escolas, que eu senti uma


enorme alteração.

No meu tempo, as regras eram severas e os professores,


alguém a quem nós nunca pensaríamos em faltar ao
respeito.

Hoje verifica-se precisamente o contrário.

O deixar a escola, aos 17 anos, foi uma opção, assim como,


o retornar agora, passados 32 anos.

A entrada de Portugal na CEE, veio revolucionar o País, em


várias áreas, uma das quais o ensino, pois apercebo-me
que, tal como eu, milhares de pessoas, abandonaram os
estudos, uns por falta de recursos, outros por necessidade
de optar, entre o emprego e a escola e também, porque
durante algumas décadas, fomos uma sociedade de portas
fechadas para o mundo, voltada apenas para dentro si
mesma, onde a grande parte da população, vivia através da
mão-de-obra não especializada, e com um grau de
escolaridade baixo ou nenhum. Verificámos que, embora se
tenha evoluído bastante no método de ensino, temos ainda
uma boa parte, da população activa, com um baixo nível de
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escolaridade, tenta-se agora alterar essa realidade, dando a
oportunidade a quem se predispõe a se valorizar.

A escola da vida, ensina-nos muita coisa, dá-nos muitas


experiências, mas infelizmente, não nos dá a certificação
que a evolução laboral nos exige, para podermos conservar
os nossos empregos.

Foi a alteração do sistema de ensino, que veio proporcionar


a esses milhares de pessoas, que não conseguiram
terminar os seus cursos, de o puderem fazer agora,
recorrendo às Novas Oportunidades.

Mais do que pensar só nas pessoas, que não tinham um


nível de escolaridade obrigatório, para os dias de hoje, foi o
pensar num País que no século XXI, ainda tinha uma grande
parte da sua população quase analfabeta.

As novas oportunidades, enriquecem as pessoas que


tomaram a decisão de as frequentar, mas também o País a
nível intelectual, com elas conseguiu-se ou consegue-se
uma população com um índice de escolaridade maior.

Será esse método totalmente isento e imparcial?

Será que em nome dos índices, das percentagens


obrigatórias, para se puder obter os benefícios estatais, as
avaliações e a aceitação das mesmas têm o mesmo rigor e
imparcialidade para todas as vertentes da Sociedade?

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Esperemos que sim, o esforço envolvido é grande de todas
as partes que nele se envolvem.

O Estado dá-nos a possibilidade de actualizar os nossos


conhecimentos, a nossa escolaridade, nós retribuímos
contribuindo para sermos um País mais culto.

Ninguém perde todos ganham….

Margarida Salvador