O RIO DO CONTO: AGENCIAMENTOS E NARRATIVAS ORAIS
Autor1 NÚBIA PEREIRA PAIVA
¹ Doutorado em Educação, professora da UNEB, Grupo de ´pesquisa FEP.
E-mail paivanubia@[Link]
ÁREA DE INTERESSE: (FORMAÇÃO DE PROFESSORES)
RESUMO: Utilizando o rio como metáfora para o fluxo transformador das narrativas ao longo
do tempo, este trabalho é uma parte estrutural de minha Tese de Doutorado, defendida em 2024,
com o título “Quando a Palavra passa pela voz: do verbo ler ao verbo contar”, e objetiva
apresentar um panorama dos agenciamentos dos Contos de Narrativa Oral entre Brasil, Portugal
e África, contidos em registros escritos documentados pela história da literatura oral brasileira
e ouvidos pelos professores em escolas brasileiras e portuguesas. Para ouvir o rio e o vento "é
preciso estar no vazio dos pensamentos e preocupações” (Munduruku, 2016, p.34). Não é
preciso se concentrar nas palavras do rio, mas em seu fluxo, é ele quem diz, ouvir o rio é como
ouvir o corpo de uma pessoa, é como ouvir uma história se fazendo no corpo, e ver a história
transformar o corpo, se transformar, e transformar a gente. Levando consigo as palavras e
rolando pedras que encontrou no caminho. Passando pelo lugar, mudando o lugar. É como ouvir
a vida, que segue na lógica dos percursos e dos fluxos contingentes onde deitamos nossos
sonhos. Vivemos rodeados, no cotidiano das nossas conversas fabulosas, de nossas fábulas e
metáforas indígenas. O rio, assim como seres extraordinários: a iara, o curupira, a vitória régia,
o boto cor de rosa, compõem-se como metáforas bastante usadas nas narrativas indígenas. O
indígena é o primeiro que contou suas histórias destas terras: de suas plantas, dos céus, do sol,
dos deuses plantados ali em árvores. Uma linha disposta nos primeiros tempos do tornar-se
Brasil, alinhavando as primeiras narrativas, somando-se forçosamente às referências
portuguesas, e africanas. A Literatura Oral Brasileira vai se compondo “dos elementos trazidos
pelas três raças para a memória e uso do povo atual. Indígenas, portugueses e africanos”
(Cascudo, 2012, posição 267). Nos registros escritos sobre esses povos pintados, que possuíam
suas celebrações coletivas com cantos, danças, narrativas mitológicas místicas, religiosas,
Cascudo (2012) diz que a referência indígena fica reservada à um lugar de difícil colocação
“dentro do quadro colonial” registrado por inúmeros [Link] pouco, diante do que o
ameríndio sabia dizer, cantar e dançar, foi escrito. De acordo com Cascudo (2012), se os
indígenas aparecem quase apagados na história das narrativas orais, nos registros escritos
documentados no Brasil, os registros escritos desses períodos em relação ao povo negro, é de
festejos, bailes, se constituindo como proposições para repressão e abusos. E com tantos séculos
de convivência com os portugueses, seus mitos e lendas estariam agenciadas pela influência
branca. Apesar de até fins do século XIX, do africano ouvir-se muito pouco, e de que “o cuidado
de estudá-lo, numa aproximação desinteressada, humana e lógica” (Câmara Cascudo, local 271)
seja quase contemporânea, sua literatura oral é transmitida desde o seio nas amas de leite, e
espalha-se na extensão do território brasileiro, mais rápida e facilmente, através do mestiço. E
1
Fonte Times New Roman, simples, tamanho 10
VIII SEMFEP - FEP 20 ANOS: UM DEVIR ARTÍSTICO - METODOLOGIAS E PERFORMANCES
sendo a língua veículo das narrativas, é também o mestiço2, o maior disseminador da própria
língua portuguesa, que vai se instalar no Brasil. A escrita da nossa história sempre foi escrita
com palavras habitadas de poder, deslizadas continuamente para dar a versão do colonizador
sobre o colonizado, ou vice versa, a versão do quem ganhou a guerra ou o discurso, sobre quem
perdeu, “cada partido ou não ‘enxerga o meio dia da porta de sua casa’ através do prisma das
paixões da mentalidade particular dos interesses, ou ainda, da avidez em justificar um ponto de
vista”. (Amadou Hampâté Bâ, 2016, p.236). E desse meio dia da sua casa, o português, um
povo com sua própria literatura oral e escrita, o colonizador que conta a história de um indígena,
sob sua perspectiva, com um oceano de distância das metáforas sutis das florestas. Distante
muitos e muitos quilômetros daqueles dois povos que constroem suas linguagens de dentro da
relação do povo com a terra, com o sol, com os espíritos das florestas e das savanas. Sendo o
português aquele que venceu a narrativa, tanto histórica, como a perpetuação da literatura oral,
obviamente, é da herança desse povo que temos um contingente maior de referências históricas
nos registros sobre esta literatura, os contos contados de uma ponta à outra para as crianças
deste imenso país, são majoritariamente europeus, com seus príncipes e princesas altos, magros
e brancos.
Palavras-chave: Narrativas orais; Agenciamento; Formação Literária docente.
REFERÊNCIAS
CASCUDO, Luís da Câmara. Contos Tradicionais do Brasil. [Link]. São Paulo: Editora
Global, 2004.
CASCUDO, Luiz da Câmara. Literatura Oral no Brasil. Bertrand.
[Link]
Acesso em: 28 Maio. 2023.
HAMPÂTÉ – BÂ, Amandou. A tradição viva. In: MEDEIROS, Fábio Henrique Nunes;
MORAES, Taiza Mara Rauen (Org.). Contação de Histórias: tradição, poéticas e interfaces.
São Paulo: Edições SESC, 2016. p.235 – 288.
2A palavra mestiço vem do latim tardio mixticĭus, que significa “misto” ou “mesclado”. Ela é usada para
se referir a pessoas que descendem de duas ou mais etnias diferentes, possuindo características de
cada uma das etnias e povos de que descendem. Legalmente, até o período da independência dos
países americanos, os mestiços tinham um status inferior aos brancos, o que lhes impedia de acessar
certos cargos ou serviços. Eram também vistos com desconfiança pela população negra. Atualmente,
o conceito de mestiço continua a ser usado para descrever as pessoas de várias etnias. No Brasil, por
exemplo, os mestiços são a maioria da população, fruto da mistura entre europeus, índios e africanos.
VIII SEMFEP - FEP 20 ANOS: UM DEVIR ARTÍSTICO - METODOLOGIAS E PERFORMANCES
MUNDURUKU, Daniel. A história de uma vez: um olhar sobre o contador de história
indígena. In: MEDEIROS, Fábio Henrique Nunes; MORAES, Taiza Mara Rauen (Org.).
Contação de Histórias: tradição, poéticas e interfaces. São Paulo: Edições SESC, 2016. p.25
– 38.
VIII SEMFEP - FEP 20 ANOS: UM DEVIR ARTÍSTICO - METODOLOGIAS E PERFORMANCES