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25/09/2009 - A linguística de Grimm

Jakob Grimm, famoso por fábulas como Chapeuzinho Vermelho, legou importantes descobertas aos estudos sobre as

origens das palavras

REVISTA LÍNGUA PORTUGUESA http://revistalingua.uol.com.br/imprime.asp?codigo=11868 25/09/2009 - A linguística de Grimm Jakob Grimm, famoso por fábulas como

Chapeuzinho Vermelho, história clássica dos irmãos Grimm

Muita gente conhece as fábulas dos irmãos Grimm, mas talvez só especialistas saibam que um deles, Jakob Grimm (1785-1863), foi um dos maiores linguistas da primeira metade do século 19. Os manuais de historiografia, seguindo o raciocínio errôneo dos neogramáticos, atribuem a ele a descoberta das leis fonéticas que dão segurança às etimologias. No entanto, as chamadas leis de Grimm só aparecem na segunda edição de sua Gramática Alemã, depois que Grimm teve contato com a obra do genial Rasmus Rask (1787-1832), um poliglota precursor da ideia do indo-europeu, de quem mesmo o alemão Franz Bopp (1791-1867) sofreu influências. Com uma média de 25 anos, os três autores mudaram definitivamente os rumos da linguística.

A diferença de Rask e Grimm está na perspectiva. Rask descreve e organiza, usando a indução. Grimm prefere uma perspectiva dedutiva. Na verdade, Rask deve ter buscado a ideia de suas regras nas gramáticas espanholas de Nebrija (1444-1522), se não conheceu de fato as Origens do português Duarte Nunes de Leão (c1530-1608), pois cita exemplos de português em seu livro de 1818, escrito em dinamarquês (Undersögelse om det gamle Nordiske eller Islandske Sprogs oprindelse) e até hoje não traduzido para o português, mas consultável no site http://booksgoogle.com.

A perspectiva de Grimm tem ainda alguma influência de Gébelin, sobre quem já comentamos nestas páginas, uma vez que tem algo de esotérico e místico, como na tese do monossilabismo da língua original, que seria aglutinante, com três vogais (a, i, u) e poucas consoantes, sem abstrações e sem indícios de tempo, pessoas, números e modos. Grimm

procurava os elementos eternos e invariáveis nas línguas, o que justificaria as transformações motivadas pelo "espírito da língua" (Sprachgeist). Outro aspecto místico é a sua obsessão pelo número três: são três classes de consoantes, três vogais básicas, três declinações, três gêneros, três números, três pessoas, três vozes, três tempos.

Resumindo o método de Grimm, esse autor acreditava que um p se transforma em b e um b em ph (ou f ou v) e este, por sua vez, voltava a ser p, gerando, assim, um círculo. O mesmo ocorreria com o t, que passaria a d e depois a th (ou z), tornando-se novamente t. Por fim, um k se tornaria um g, que se transformaria em um kh (ou h), e voltaria ao k. A ideia parece genial, sobretudo quando o círculo se fecha, pois aparentemente descobrira uma espécie de mecanismo latente.

Parcialidade

Por meio de regras parecidas com essa, a linguística oitocentista adquiriu um fenomenal aparato para reconhecer étimos válidos. A validade das leis fonéticas, no entanto, é parcial, pois ao movimento inexorável e irrefreável da língua deve acrescer-se o fenômeno da analogia, que destrói a herança histórica das palavras em prol do sistema, que visa a comunicação.

Em 1922, Jespersen apresentou várias falhas no raciocínio de Grimm, que havia sido usado e levado às últimas consequências pelos neogramáticos do fim do século 19. Em alguns momentos, há de fato falhas e dificuldade na distinção entre letra e som. Por exemplo, a palavra alemã Schrift (escrita) tem, na verdade, sete letras e cinco sons, pois a sequência sch tem o mesmo som de x em "xícara". Grimm, no entanto, afirma que tem oito sons, pois não só computa cada letra da sequência sch como três sons, mas também entende que f equivale a ph, portanto, a dois sons. Tais confusões não são uma característica geral dos antigos, como soberbamente se afirma em manuais. Fernão de Oliveira (1507-c1581), muito antes dele, jamais cometeria esse deslize.

Há palavras que parecem seguir ciclos de fato, mas dificilmente esse fenômeno seria convertível numa regra. Um exemplo é a palavra "sarau" em português. A palavra latina serum significava "tarde". Do seu plural sera nasceram palavras como sera em italiano e seara em romeno, ambas significando "noite". Supõe-se que a palavra portuguesa "serão" venha de um adjetivo derivado dessa palavra, *seranum (no caso acusativo lexicogênico), ou seja, algo que é feito à noite. Pois bem, a palavra portuguesa, no seu sentido substantivado, foi emprestada pelo espanhol, língua que não tem vogais nasais. O empréstimo passou a ser pronunciado como *serao e, rapidamente, tornou-se sarao. Sarao foi de novo importado pelo português, sob a

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forma "sarau". O caminho tortuoso da palavra é amostra de quão facilmente ela pode entrar ou sair de uma língua.

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Jakob (1785 - 1863) e Wilhem (1786 - 1859), os irmãoes Grimm: autor de conto de fadas, Jakob dedicou-se à linguistica

As leis de Grimm não previam vários fenômenos. Um deles é a associação analógica que perpassa as línguas. A palavra "sarapintado", por exemplo. É fácil observar que é uma espécie de composto da palavra "pintado", mas qual é o primeiro elemento? Houve quem aventasse um fantasioso cruzamento com a palavra "serpente".

O curioso nessas propostas etimológicas é que, aparentemente, o etimólogo que as propõe "descobre" numa espécie de visão profética algo oculto. Não é assim. Ao lado de "sarapintar", há também outro verbo, com significado distinto, "sarapantar", que se diz derivado de "espantar". Como o es- se tornou sara- não é explicado satisfatoriamente e haverá quem afirme que isso é devido à pronúncia dos escravos. Afora toda a infâmia pela qual passaram, eles ainda se tornam justificativa de étimos obscuros, com subentendida ou suposta má proficiência em português.

Ilusão do falante

Duas outras palavras são semelhantes às acima: "salpintar", que parece sinônimo de "salpicar", também presente no espanhol e um composto de "sal" + "picar". Salpicar em espanhol é testemunhado em 1570, mas em

catalão já no século 14. No português, aparece no século 17. As outras palavras citadas são todas mais tardias. Ao que tudo indica, "salpicar" gerou "salpintar", que gerou "sarapintar". A forma "sarapantar" é contemporânea de "sarapintar". Novamente aqui temos algo tortuoso.

Baseado em casos como esse, Hugo Schuchardt (1842-1927) mostrava que cada palavra tem uma história e a noção de sistema, afinal de contas, nada mais é que uma ilusão do falante. As inúmeras etimologias que propôs eram verdadeiras histórias e seu método, a partir de 1909, se consubstanciou na revista Wörter und Sachen (palavras e coisas). O étimo não é mais uma regra neogramática, mas tem um longo e complexo percurso que deve ser provado com testemunhos antigos, similaridades em outras línguas e regularidade, nada parecido com histórias tiradas da cabeça de pessoas que tentam explicar fenômenos, sem abrir um livro sequer e pautando-se exclusivamente na sua intuição.

Vendo um trabalho como o do tão esquecido Schuchardt, que não simplificava o étimo com regras milagrosas, antes o deixava ainda mais complicado para aumentar a dimensão de nossa ignorância, penso que o espaço para a ciência etimológica ainda não foi conquistado desde o tempo de Platão. Afinal, os resultados realmente sérios e científicos da etimologia são muitas vezes sem graça e, num mundo de entretenimento, isso parece estar muito pouco valorizado. A etimologia vive nesse paradoxo: como é ciência empírica, precisa dos dados, mas os dados são mudos. Assim, é necessária uma teoria, como a de Grimm, que é falha em alguns aspectos. Mas a dimensão dedutiva "descoberta" por Grimm associada com a dimensão indutiva dos dados deu frutos colossais como as gigantescas gramáticas e dicionários históricos do século 19 e início do 20, como os de Meyer-Lübke (1861-1936).

Hoje temos muitos dados, mas pouca informação do trabalho dos linguistas do passado, de tal modo que até foram tachados de não científicos. Se quisermos conhecer a história do nosso idioma, é preciso fazer essa historiografia, recuperar ideias esquecidas, muitas excelentes, aliás. Paralelamente, organizar os dados e, desse modo, estaremos prontos para uma grande síntese das linguísticas. Quem sabe assim cheguemos a uma teoria realmente dedutiva, que ombreie a física de Newton ou a biologia de Darwin, no seu poder de previsibilidade e explicação. Por enquanto, engatinhamos e qualquer afirmação nesse sentido não passa de bravata.

Mário Eduardo Viaro é professor de Língua Portuguesa na USP, autor de Por Trás das Palavras (Globo: 2004) e colaborador do Beco das palavras, do Museu da Língua Portuguesa

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Publicada em:

25/9/2009 16:25:53

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Impresso em:

3/4/2010 15:45:57

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