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PREDADORES : UMA REFLEXÃO IRÔNICA DAS PRÁTICAS POLÍTICO-SOCIAIS ANGOLANAS Prof. Dr. Silvio de Almeida Carvalho Filho (Universidade Federal do Rio de Janeiro/PPGHC/LEÁFRICA) Ao analisar o romance Predadores, publicado em 2005, do escritor Pepetela, detectamos como a ficção torna-se, nessa narração, um instrumento esmerado para interpretar a história do tempo presente angolano. Aqui, o historiador pode se utilizar da intriga literária, para verificar como ela criou efeitos explicativos dos fatos relatados. A ironia utilizada em Predadores é basicamente uma figura de linguagem pela qual o autor ou os narradores dizem o contrário do que pensam, “‘com intenção sarcástica’”, construindo saberes sobre a Angola do tempo presente. Ela é fruto de uma rede interdiscursiva, uma comunidade dialógica, ou seja, não apenas condicionada pela intenção da consciência do enunciador, mas também pela compreensão de códigos comuns que possui com os seus supostos ou reais destinatários, seus leitores. Passeando por uma cronologia ficcional historicizante que estabeleceu como balizas os anos de 1974 a 2004, o narrador elegeu a cidade de Luanda como o principal, mas não único, topos de seu discurso. A obra oferece uma critica reformista da opção política angolana pelo socialismo, ou seja, juízos sobre esse sistema a partir da utopia socialista e não em oposição a ela. Entre outros fatos, chama a atenção para a superficialidade do jargão revolucionário utilizado, antes de 1991, por alguns angolanos, o oportunismo político corrente em alguns setores do Movimento Popular pela Libertação de Angola (MPLA), assim como para a crítica da atuação estadunidense e soviética frente à guerra civil no país. Se, por exemplo, ora ironizava os norte- americanos em sua intensa espionagem sobre as ações do MPLA no governo, ora escarnecia dos soviéticos, chamando-os de arrogantes em sua cooperação dita socialista. Ao expor realidades emolduradas pela transição do socialismo para o capitalismo em Angola, iniciada em 1987, a crítica revolucionária do autor se exacerbou. Ironizando as antinomias das trajetórias de muitos angolanos de revolucionários para capitalistas antiéticos, permitiu, também, aferir como a cultura política, apesar das transformações político-econômicas, permaneceu a mesma ou se acrisolou. Analisando, em detalhes, como um Estado patrimonialista, clientelístico e personalista se formara e se reproduzia, o autor mofava da emergência de uma burguesia predadora que não somente extorquia o público como se fosse um patrimônio privado, mas também era responsável pela fuga ilegal de capitais para o exterior.

Indiciou como a aparente desordem na administração pública e o caráter informal do poder beneficiavam mais aos interesses particulares que públicos, favorecendo a formação das clientelas, a não transparência das decisões, a corrupção e a impunidade. Se essas condições ofereciam mais oportunidades para aqueles que sabiam e podiam operar com elas, não deixavam de serem utilizadas por elementos advindos de estratos subalternos da hierarquia social, de acordo com seus limites e possibilidades. Essa criminalização do Estado articulava-se, também, com investidores estrangeiros que muito lucravam ao incentivar aquelas práticas. Ademais, o autor abre o nosso olhar para ver como essas relações patrimonialistas vinculavam-se com um autoritarismo que percorria as relações públicas e privadas de poder, mesmo após processo de democratização ainda inconcluso. Relata a necessidade de aumentar as seguranças patrimoniais e pessoais dos novos ricos que ostentavam riqueza excessiva ante uma sociedade majoritariamente pobre ou miserável. Oferece exemplos da extrema desigualdade social visualizada em Luanda no contraste entre bairros nobres com suntuosas casas, como o Alvalade, frente à pobreza de um bairro como o Catambor. Não abandonando sua graça mordaz, satirizou os escapismos como o de atribuir as mazelas aos inimigos do MPLA, seja o colonialismo, seja a UNITA, ou, do mesmo modo, o daqueles que buscavam as igrejas eletrônicas. Essas últimas, assim denominadas por utilizarem os meios eletrônicos de comunicação social, em especial, o rádio e a televisão, trabalham com a idéia de que quando se tem fé, essa garantirá a prosperidade, amenizando as agruras sociais sofridas. Todavia, a demonstração dessa supõe doações financeiras dos fiéis a essas denominações, estabelecendo-se, portanto, o eixo salvação-milagres-coleta de fundos. Em suma, vemos que, em Predadores, Pepetela retorna, de forma mais acre, à verve satírica já expressa em obras anteriores, como O Cão e os Calús (1985), Geração da Utopia (1992) e O Desejo de Kianda (1995) e, fazendo o historiador reconhecer as contradições de uma Angola em nada sufragante da Utopia.