OS NÓS, O LAÇO E A REDE

:
considerações sobre a institucionalização da Educação Ambiental no Brasil

Celso Sánchez

Orientadora: Profa. Dra. Hedy Silva Ramos de Vasconcellos

Objetivos
• Analisar o processo de institucionalização da EA brasileira, a partir dos jogos, tensões, aproximações e afastamentos das instâncias oficiais e formais, no âmbito do governo federal e da REBEA - a Rede Brasileira de Educação Ambiental. Analisar a inserção institucional da EA no Brasil; Analisar as articulações entre REBEA e Governo Federal, tentar compreender as influências da REBEA na institucionalização da EA brasileira e a influência das ações de governo sobre a REBEA, no movimento de consolidação de políticas públicas no campo da EA.

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Portanto: • Compreender como a EA se desenvolveu, alimentada pelo discurso ambientalista: consolidando-se real e virtualmente através da REBEA; e institucionalizando-se, ocupando espaços formais nas estruturas de governo, tanto no Ministério do Meio Ambiente, como no Ministério da Educação, amparada por legislações em nível Federal, Estadual e Municipal em diversos entes federativos.

Questões de estudo
• Como se deram as trajetórias de educadores ambientais que participam das articulações entre REBEA e Governo Federal? • Como se articulam entre si para tecer esta rede e consolidá-la institucionalmente? • Como acontece o entrelaçamento na rede que começaram a tecer, quais as tensões, desafios e resultados efetivos desta rede? Como se posicionam nas suas relações entre o oficial e o social? Como se situam suas práticas e discursos, seus consensos e contradições?

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Fundamentação
• Capítulos II e III - Questão Contemporânea , Movimento ambientalista, Novos Movimentos Sociais, Estado Sociedade, Histórico da Educação Ambiental, questões políticas em Educação Ambiental.
Zygmunt Baumam, Anthony Guiddens, Boaventura de Souza Santos, Edgar Morin, Enrique Leff / Alain Turraine, Scherer-Warren / Alexandre de Gusmão Pedrini, Pedro Jacobi, Carlos Frederico Loureiro, Genebaldo Freire Dias, Irineu Tamaio, Isabel Carvalho, Phillipe Layrargues, entre outros.

Capítulo IV – A questão da Institucionalização.
René Kaes; Eugéne Enriquez,; Luis C. Fridman, Benedito Silva, entre outros.

Capítulo V – O paradigma das redes
Bruno Latour, Manuel Castells, Humberto Maturana, Fritfof Capra, entre

outros

Hipótese
Entendemos que o processo de institucionalização da EA no Brasil se deu de forma consoante com o movimento de redemocratização do país, refletido também em outras áreas de governo. Neste processo, iremos observar a participação dos movimentos sociais no fomento a produção de políticas públicas para atender as novas demandas sociais. No caso da EA, acredita-se que a REBEA, como rede das redes, teve uma participação importante na formação dos quadros ministeriais no âmbito do Governo Federal, bem como de suas linhas de atuação, programas e ações de governo. Com as estruturas de Estado sendo ocupadas por pessoas de origem na REBEA, e esta, acabou servindo como eixo propagador, disseminador das políticas e ações de governo, criando tensões e aproximações características que marcam o cenário da EA brasileira.

O Corpus da Pesquisa
• Pesquisa Bibliográfica • Pesquisa Documental • Entrevistas

Pesquisa Documental
REBEA • A Carta de Itajaí; • A Carta de Brasília; • A Carta de Goiânia ou Carta Brasileira para Educação Ambiental; • O Sítio da REBEA na internet (www.rebea.org.br). • Do Governo: • O sítio do governo para Educação Ambiental (www.mma.gov.br); • A política nacional de EA, Lei 9795/99 e seu decreto regulamentar n.4281/02; • Relatório da DEA/MMA período 2003/2006.

Entrevistas
• As entrevistas foram aplicadas a dois grupos de sujeitos: • entrevistados governamentais (EG) e entrevistados da REBEA (ER). • Este segundo grupo (ER) foi dividido entre membros integrantes da atual direção executiva e seus apoiadores (ERP) e membros divergentes da atual direção executiva (ERO).

• Os atores governamentais entrevistados fazem parte do Órgão Gestor da Política Nacional de EA, e constituem-se de membros da DEA (Diretoria de Educação Ambiental) do MMA e da CGEA (Coordenadoria Geral de Educação Ambiental) do MEC. Como atuam de forma integrada não foi feita distinção destes setores no corpus amostral da pesquisa.

Entrevistas
Os sujeitos informantes da pesquisa foram escolhidos por critérios qualitativos e constituíram-se de 13 educadores ambientais sendo: – 3 do governo (EG); – 10 da REBEA; • 6 membros integrantes da direção executiva e seus apoiadores • 4 membros da ala opositora (ERO)

Roteiro das entrevistas
• Dados pessoais e atuação profissional, • Quais os caminhos profissionais que os conduziram até o lugar que ocupam? Ou seja, como o educador se engajou na Educação Ambiental, sua trajetória pessoal e profissional? • O que o educador entende por Educação Ambiental e como ele atua em EA? • O que o educador espera de seu trabalho? Qual é o fruto de seu trabalho, como ele percebe a inserção de seu trabalho tanto no governo quanto a REBEA? • Quais são os principais acertos e erros dos passos da EA em âmbito governamental? • Quais os problemas e/ou soluções que o educador identifica a partir de seu trabalho e na Educação Ambiental de um modo geral? • Como o educador observa a trajetória da Educação Ambiental? • Como o educador observa a Educação no contexto político nacional? • Quais os principais movimentos de apoio ou retrocesso a EA? • Como a EA brasileira se situa no contexto internacional?

Análises
• • • • Considerações Iniciais Quanto a Trajetória(Protagonistas e coadjuvantes) A questão da dupla formação acadêmica e universitária As Articulações entre REBEA e Governo - Movimentos Sociais e Papel do Estado - A Rede em Movimento - Movimento em Rede e Rede em Movimento A questão da Instituição EA

Análises

Analises

“Fiz curso normal…Biologia, Pedagogia, Especialização em Docência Superior…Mestrado… porque queria trabalhar em educação ambiental…no Rio de Janeiro... não existe ainda Mestrado específico em educação ambiental... Depois disso eu achei que valia a pena continuar investindo e fui para o... programa de Doutorado... E foi assim que entrei no campo da EA, mais tarde me envolvi com a REBEA” (E1. R.P.).

Análises

• “Minha trajetória começa na USP… no movimento estudantil, depois eu fui atuar numa organização não governamental... Depois eu atuei na Comissão de Meio Ambiente da CUT e depois eu atuei também Comissão de Meio Ambiente do PT – Partido dos Trabalhadores. Depois eu fui convocado, na época pela prefeita Luiza Erundina, que venceu um a eleição e eu fui Coordenador de Educação Ambiental de toda a rede municipal de Educação Ambiental. Professor Paulo Freire era meu superior na época...Depois eu viajei para Brasília (...) para o Governo Federal, Nessa época terminei meu doutorado. ”(E.3.G)

Segundo Tourraine (2003):

“Esta sociedade civil, pelo fato de fazer reivindicações mais morais e culturais que econômicas, só pode agir em ligação com forças políticas, mas estas por sua vez, não podem confundir-se com partidos e coalisões que administram a política nacional, assim se constrói a meio caminho entre os programas políticos e as situações sociais, um conjunto de mediações simultaneamente sociais e políticas. O exemplo mais claro disso são as ongs nos países subdesenvolvidos. Elas são movimentos de opinião e até movimentos sociais , mas são também elementos do sistema político ao qual as vezes são censuradas de pertencer diretamente demais” (p.122).

Tensões na REBEA
...essas pessoas lá no Ministério, eu acho que criou uma dificuldade muito grande entre todos, os que estavam no estado e os que estavam na rede e nas organizações, em conseguirem perceber essas mudanças dos papéis, e hoje eu vejo que a REBEA é agenciada pelo governo, e hoje uma das formas de você ver a questão da horizontalidade na rede ou seja relação de subordinação e de autonomia, é só você ver de onde sai as iniciativas, quem propõe? Quem enuncia? Porque a rede na verdade é um espaço de conversação, quem faz os enunciados? Quem faz os enunciados te dá uma idéia, te mostra quem puxa a ação da rede. Então se você tiver uma análise, a partir do registro da lista, que é o trabalho que estou fazendo agora, mas com outra intenção, você vai perceber, que todas as últimas iniciativas da REBEA, a partir do quinto fórum, foram iniciativas sugeridas ou acionadas pelo governo(...).Eu acho que tem basicamente, em termos individuais, eu acho que existe um problema, que é da relação do cara que era crítico da ação do Estado e que entra no Estado (E.1RO).”

A Rede em movimento e os movimentos em rede
Lembrando Maturana (2007): “O conversar é um fluir na convivência, no entrelaçamento do linguagear e do emocionar. Ou seja, viver na convivência em coordenações...de fazeres e de emoções. Por isso é que digo que tudo o que é humano se constitui pela conversa, o fluxo de coordenações ... de fazeres e emoções”(p.57).

A EA como Instituição
• Conceito de instituição Sumner 1906 apud Silva, 1986 afirma que: “uma instituição consiste num conceito (idéia, noção, doutrina, interesse) e numa estrutura” (p.613). Assim: “a estrutura é uma armação, ou sistema, ou talvez apenas um número de funcionários... [Ela] sustenta o conceito e fornece meios para introduzi-lo no mundo dos fatos e da ação”. (p.613).

T. Parsons (1951) apud Silva (1986) considera que:

“Os agentes humanos interiorizam os valores e as normas, e a conformidade a essas coisas adquire para eles, portanto, grande importância pessoal. Desde que haja co-participação, i.e., desde que outros indivíduos... tenham interiorizado os mesmos valores, de modo que a conformidade tanto seja pessoalmente satisfatória quanto uma necessidade pra evocar reações “favoráveis” por parte de outros, pode-se dizer que um padrão de valor passa a ser institucionalizado. Uma instituição, como tal torna-se então” um complexo de integrados papéis interiorizados... de relacionamento, de status... Que é de significância estrutural estratégica no sistema social “. (p.613).

Conclusões
• Há lacunas de conhecimento no campo de análise de novos movimentos sociais em meio ambiente e em especial na EA, há necessidade de estudos mais aprofundados neste aspecto. • A REBEA como experiência nova e espaço democrático. • As idéias de participação, representação, envolvimento, atividade militante e mobilização no contexto da REBEA ainda não são bem definidas e necessitem de amadurecimento. • Pode-se considerar, a partir das análises realizadas que os educadores ambientais produzem o campo da EA e que este campo se comporta como uma instituição, ou seja, estabelece princípios com o objetivo de estruturar, regular e organizar a sociedade. • Pode-se considerar que os diferentes atores e segmentos da EA participam e comportam-se de formas diferentes em relação ao processo de institucionalização da EA.

Conclusões
• REBEA semelhante ao que pode ser notado em outros coletivos sociais, e está alinhado com que autores como Tourraine (op.cit) Souza-Santos (op.cit) e outros vem denotando como ”novos movimentos sociais”. Tal semelhança se percebe: • Não há a intenção de uma regularização legal • “Horizontalidade” na distribuição do poder entre seus partícipes • Aproximação com o estado, tornando-se quase uma extensão das estruturas governamentais, seja pelas parcerias, seja pelo financiamento público aos seus projetos ou •Pelo apoio da REBEA as pessoas e estruturas de governo, em como projetos governamentais.

•Assim, antigas posturas militantes reivindicatórias, de pressão sobre as estruturas de governo, com um posicionamento oposto ao Estado ou complementar ao Estado, transformam-se numa postura de parceria de associação, evidenciando uma continuidade, que muitas vezes, observa-se quando a REBEA assume posições de aproximação com o estado, apoiando projetos governamentais, bem como o governo a tem apoiado também em seus projetos privados.

Conclusões
• Observou-se que o processo de legalização da EA acontece nos marcos legais, (Lei 9795/99 e decreto 4231/02), no entanto, esta não acompanha o processo de institucionalização da EA, evidenciando dois fenômenos distintos, • O processo de institucionalização se fez e ainda está se fazendo, no bojo dos conflitos, contradições, tensões e aproximações entre os educadores situados nos diferentes segmentos da EA, seja na REBEA, quanto no governo. • Desta forma, pode-se considerar que o processo de institucionalização da EA brasileira é um processo dinâmico, engendrado pela teia de relações e conexões, tensões, afastamentos e aproximações entre os diferentes segmentos e setores da EA, Governo que direciona e REBEA que propaga.

Conclusões
Restam várias indagações para estudos futuros: • • • • • Como ficarão as continuidades das atuais ações em EA no governo? Como a REBEA se organizará numa eventual mudança de orientação política no governo federal? Suponho neste sentido, que qualquer que seja a alteração as novas lideranças no campo da EA, emergirão a partir das redes e em especial, da REBEA REBEA, como uma grande arena, onde a polifonia da EA se expressa a busca de sentidos e significações. A análise do processo de institucionalização da EA no país mostrou-se um campo fértil, evidenciando a necessidade de outras pesquisas, de maiores aprofundamentos.

Neste sentido, pode-se corroborar a hipótese de que o processo de institucionalização da EA brasileira aconteceu de forma consoante com o movimento de redemocratização do país, refletido também em outras áreas de governo. Neste processo, iremos observar a participação dos movimentos sociais, no caso a REBEA, no fomento a produção de políticas públicas para atender as novas demandas sociais. No caso da EA, pode-se dizer que a REBEA, como rede das redes, teve uma participação importante na formação dos quadros ministeriais no âmbito do Governo Federal, bem como de suas linhas de atuação, programas e ações de governo. Com as estruturas de Estado sendo ocupadas por pessoas de origem na REBEA, e esta, acabou servindo como eixo propagador, disseminador das políticas e ações de governo, criando tensões e aproximações características que marcam o cenário da EA brasileira.

Para finalizar, conclui-se que os objetivos de pesquisa foram alcançados e espera-se ter contribuído para uma melhor compreensão do campo da EA, seus educadores ambientais e suas formas de fazer articulação, organização, através do fenômeno da institucionalização.

"El Universo requiere la eternidad... Por eso afirman que la conservación de este mundo es una perpetua creación, y que los verbos ´conservar' y 'crear', tan enemistados aquí, son sinónimos en el Cielo". História de la Eternidad Jorge Luis Borges

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