Você está na página 1de 7

162

QUAL A FUNÇÃO DO LEGISLADOR NO ESTADO REPUBLICANO DE ROUSSEAU?

Vital Francisco C. Alves

Investigar a função do legislador no pensamento político de Rousseau demanda uma reflexão anterior sobre o conceito de lei. A contribuição rousseauísta acerca da lei pode ser considerada original porque rompe com tradição, posto que não se limita em saber como os indivíduos elaboram as leis, mas se preocupa em pensar sobre como as leis deveriam ser e busca considerar a origem e a essência delas. Assim, torna-se necessário compreender o significado da lei em Rousseau, para em seguida, tratar da função do legislador. Para tanto, devemos, sobretudo, percorrer o ponto de partida utilizado pelo Cidadão de Genebra para demonstrar os fundamentos do estado civil, ou seja, o pacto social. Para Rousseau o pacto social pode ser compreendido como um ato de associação mútuo firmado entre o público e os particulares, por meio do qual, cada indivíduo transfere totalmente e sem reserva todos os seus direitos em favor da comunidade. Tal pacto possibilita o surgimento do corpo político. Entretanto, após adquirir vida, ele passa a necessitar de um conjunto de leis que atente ao dinamismo da sociedade e que tenha origem na vontade do povo, pois “o ato primitivo, pelo qual esse corpo se forma e se une nada determina ainda daquilo que deverá fazer para conservar-se” (ROUSSEAU, 1997, p. 105). Por conseguinte, torna-se imprescindível formular acordos e leis que visem reunir os direitos e deveres dos indivíduos. O filósofo genebrino busca demonstrar que independente da origem elevada que seus predecessores e contemporâneos tentaram dar a justiça, isto é, fundamentando-a em Deus ou na Razão, eles não conseguiram, por meio de tal fundamento, provar que não seria mais necessário o estabelecimento de convenções e a formulação de leis para determinar os padrões coletivos. Contrário a isso, Rousseau afirma que, por mais que exista uma justiça universal e oriunda da razão, é preciso que ela atinja a todos para que tenha validade. Porque não se

Mestrando em Filosofia na Universidade Federal de Goiás (vitalalves1@gmail.com).

163

levando em conta o caráter humano das questões que a justiça deve se direcionar, ela não terá significado para os indivíduos. Portanto, “são necessárias convenções e leis para unir os direitos aos deveres, e conduzir a justiça a seu objetivo. No estado de natureza, no qual tudo é comum, nada devo àqueles a quem nada prometi; só reconheço como de outrem aquilo que me é inútil. Isso não acontece no estado civil, no qual todos os direitos são fixados pela lei”. (Ibidem, p. 106). No estado civil a lei é uma expressão da vontade geral e, conforme Rousseau, não é possível conceber a existência de uma vontade geral orientada por um objeto particular, pois ela sempre se guia conforme o interesse comum. Para ele, a partir do momento em que o povo institui algo que vise alcançar todo o povo tendo em vista apenas ele mesmo, consegue fundamentar uma relação sob duas perspectivas: a dos membros do soberano, ao produzirem a lei, e a dos súditos, que a cumprirão. Convém lembrar, que os membros do soberano e os súditos são os mesmos indivíduos que formam o corpo político. Em tal caso, não há partilha e o assunto em que a lei se estabelece é geral assim como a vontade que a institui. Ao declarar que o objeto da lei é sempre geral, Rousseau compreende que a lei define “os súditos como corpo e as ações como abstratas e jamais como um indivíduo ou uma ação particular” (Ibidem, p. 107). Assim, a Lei pode conceber privilégios, porém não poderá nomear aqueles que desfrutam de um privilégio. Com efeito, a lei pode instituir várias classes, contudo não será permitido a ela designar um ou outro para serem reconhecidos nelas. Como conseqüência, qualquer função relacionada a uma questão particular não compete ao poder legislativo, mas ao executivo. Porque cabe ao executivo o emprego das leis em questões particulares enquanto ao legislativo confere a elaboração das leis. Logo, as leis são formuladas por atos da vontade geral e o governo não está acima das leis, pois ele é parte do Estado, além disso, não cabe mais perguntar como se pode ser livre estando subordinado às leis, porque elas expressam a vontade dos cidadãos. Ademais, para Rousseau o indivíduo é livre ao se submeter às leis, mas não quando obedece a um único homem, visto que, nessa circunstância ele está se sujeitando a vontade de outro, ao passo que, sujeitando-se à lei estará obedecendo a vontade geral, portanto a si próprio. De acordo com Rousseau, todo Estado orientado por leis oriundas da vontade geral, independente da forma de governo, é considerado uma república e possui legitimidade. As leis estabelecem as condições de associação civil e o povo

164

subordinado a elas é o seu autor. Apenas aos associados compete instaurar as condições da sociedade; ao enaltecer a vontade geral Rousseau pretende demonstrar que na ausência dela não existe lei, tampouco governo legítimo. Apesar desta exigência fundamental do pensamento político rousseauniano, cumpre dizer, que “o povo sempre deseja o próprio bem, mas tem dificuldades de alcançá-lo sozinho e, a vontade geral é sempre correta, todavia o juízo que a dirigi nem sempre é inteligível” (Ibidem, p. 108). Visto que o julgamento orientador da vontade geral possui limitações que o impedem de ter clareza nos seus propósitos, torna-se necessário a presença de alguém que o auxilie a “enxergar em algumas situações as coisas como elas são, em outras como elas poderiam ser, apresentar o caminho certo que a procura e protegê-lo da sedução das vontades particulares” (Ibidem, p. 108). Desse modo, se por um lado, os particulares diferenciam o bem que recusam, por outro, o público deseja o bem que não consegue distinguir. Nessa situação, todos precisam de um legislador. Pois, para alguns “é preciso submeter à vontade a razão e a outros, instruir a conhecer aquilo que deseja” (Ibidem, p. 108). No Estado republicano defendido por Rousseau o legislador é considerado um homem excepcional. Isso é justificado pelo seu talento pedagógico e não pelo cargo que ocupa. Sua incumbência não é governar e nem praticar a soberania. Tais atributos da vida republicana não dizem respeito ao legislador. Assim, o fato do legislador ter uma função especial e particular no Estado não o torna superior aos demais cidadãos; ele é uma parte do todo. Sua função não lhe dará poderes que o deixará acima dos outros, tampouco seu procedimento irá determinar a vida comum do Estado republicano. Segundo Rousseau, “aquele que governa os homens não deve governar as leis, o que governa as leis não deve também governar os homens” (Ibidem, p. 110). Ademais, o legislador não pode impor leis sem que elas sejam acatadas pelo soberano, uma vez que, a soberania é intransferível. Rousseau admite que o Legislador não deve possuir qualquer direito legislativo. Desse modo, “o próprio povo não poderia, se o desejasse despojar-se desse direito incomunicável, porque, segundo o pacto fundamental, só a vontade geral obriga os particulares e só podemos estar certos de que uma vontade particular é conforme à vontade geral depois de submetê-la ao sufrágio livre do povo”. (Ibidem, p. 111). Por conseguinte, a função do legislador não deve ser confundida com a vontade geral, porque a manifestação desta é um ato de

165

soberania, é inalienável do corpo do povo e desempenha o poder legislativo. Enquanto o legislador ocupa-se de “transformar” a natureza humana: transforma homens naturais em cidadãos, fazendo de indivíduos solitários participantes de um corpo político, ou seja, por meio das instituições sociais, o legislador instaura uma mudança na natureza do homem, colocando no lugar da existência física e autônoma que os indivíduos recebem da natureza, uma existência parcial e moral. Ao operar essa tarefa, o legislador estabelecerá entre os cidadãos uma igualdade superior à soma das forças naturais de todos os indivíduos. A função do legislador não é fundar um Estado, governar homens ou exercer a soberania. Ela consiste em mudar a natureza dos homens, tornando-os cidadãos apropriados a um Estado. O legislador somente poderá agir propondo leis, porque dessa maneira estará agindo legitimamente e a única forma dele fazer isso, será aconselhando um Estado a consentir com as leis que ele apresentar e que visam contribuir para a formação dos cidadãos. Entretanto, o legislador não pode ser magistrado ou soberano, pois o poder legislativo pertence unicamente ao soberano, isto é, a vontade geral. E Rousseau deixa claro isso ao definir a lei como um ato da vontade geral. Assim, aquele que propõe as leis, as redige ou apenas as sugere, não pode ter nenhum direito legislativo. A função pedagógica do legislador se realiza ao elaborar leis adequadas e submetê-las a apreciação do povo do qual elas se destinam. Porém, ele não pode impor tais leis seja por autoridade, seja por força, pois em qualquer caso violaria a necessária liberdade e igualdade dos cidadãos. Aos olhos de Rousseau, o legislador propõe as leis ao soberano porque é um homem excepcional dotado de uma razão sublime. O legislador não se opõe ao soberano, ele apresenta o que lhe falta, isto é, ele o complementa. Nesse sentido, uma das tarefas do legislador consiste em dar leis apropriadas a natureza de um povo. Para o autor da obra Do contrato social, o povo mais propício a legislação é aquele no qual os membros do corpo político se conhecem e as leis se posicionam de acordo com o tamanho do território da nação, sua localização geográfica, suas riquezas, seu clima e seus costumes. Esses são alguns dos problemas que o legislador deve enfrentar, a saber, ele deve descobrir as leis e os meios possíveis para a instituição de um corpo coeso em que os cidadãos ligados uns aos outros e a sua pátria, serão capazes de conhecer e respeitar as leis. Destarte, a ação do legislador é um ato puramente intelectual de

166

uma habilidade extraordinária que examina uma nação com objetivo de lhe oferecer boas leis, por intermédio da razão. Nesse sentido, é importante observar que a manutenção do Estado não está ancorada no mero cumprimento da lei formulada pelo corpo soberano, mas no processo legislativo, na capacidade do corpo de tornar presente seu propósito passado. Nota-se, portanto, que a lei não deve exprimir a vontade geral que predominava no passado, mas sim a atual, porque os indivíduos se comprometem em realizar não o que eles desejavam no passado, mas aquilo que desejam no presente, levando em conta que as resoluções do corpo político dizem respeito somente a ele mesmo, o qual sendo soberano para si possuirá sempre a liberdade de alterar as leis que fez. Ademais, as leis terão autoridade até o momento em que o corpo do povo decidir revogá-las, mas, caso ele não o faça, estará manifestando o seu consentimento. Com tais elucidações, Rousseau pretende explicar porque a Vontade geral é o liame permanente da constituição política e que mesmo o Legislador possuindo uma autoridade anterior, jamais poderá atuar de outra maneira que não seja guiando tal vontade pelo convencimento dos cidadãos e também não poderá indicar a eles aquilo que não tenha passado pela aprovação do assentimento geral. Portanto, para Rousseau, o Legislador atuará com o objetivo de impedir a destruição da essência justamente daquilo que deseja construir. O filósofo genebrino aponta ainda outra dificuldade digna de atenção. Trata- se da linguagem que o legislador deve usar para ser entendido pelo povo. Na perspectiva rousseauísta, o legislador deve utilizar recursos digno dos deuses para convencer um povo, pela virtude dos sentimentos, a aceitar as leis que ele propõe. A analogia entre o legislador e os deuses é feita por Rousseau porque o legislador age como os deuses ao apresentar leis pertinentes a um determinado povo. Porém, não é a intenção do Cidadão de Genebra fornecer ao legislador um caráter divino ou exaltá-lo como um enviado de Deus, isto é, ele não ambiciona, em momento algum, dar à lei e ao legislador um alicerce teocrático, mas sim, com essa analogia, demonstrar a habilidade do legislador. O legislador tem a destreza de interpretar as questões mais problemáticas de um Estado e a partir delas propor leis, tal é a sua grande função, assemelhando-se assim aos deuses por sua capacidade de estabelecer uma ordem harmônica na sociedade. É, com efeito, uma habilidade digna dos deuses a aptidão que o legislador possui em descobrir as leis que podem

167

promover a ordem daquilo que se tenciona engendrar. Todavia, o verdadeiro problema do legislador, é conseguir ser sábio e ter uma razão elevada, para falar com segurança a linguagem da razão e demonstrar que é dotado dessa. Conselhos capciosos implicam em prestígios frívolos e na breve derrocada do mau legislador e do Estado. Somente a sabedoria do legislador pode prolongar a existência de sua obra.

A excepcional habilidade que o legislador tem para compreender a vontade geral, redigir as leis e sua capacidade pedagógica de demonstrar ao povo o que é verdadeiramente bom, o faz distanciar-se dos homens comuns e torna sua função essencial no Estado republicano. Por intermédio dessa habilidade, as decisões tomadas pelo Legislador são colocadas para os outros indivíduos e utilizadas para orientar aqueles nos quais a prudência humana é capaz de impressionar. O legislador estimula o povo a desenvolver-se por si mesmo a sua liberdade, a saber, as leis das quais ele propõe explicitam que ele também desempenha no Estado a função política como um exercício pedagógico, não apenas devido à razão que lhe auxilia como fundamento, mas acima de tudo, porque contribui para que cada cidadão se integre a vontade geral. Na ordem política apresentada pelo legislador, cada indivíduo membro da comunidade se dá livremente, por meio da vontade geral. Deve-se notar que o legislador não tem poderes na cidade e se os possuísse seriam inoportunos, ao passo que, ele utiliza de recursos pedagógicos ao propor a posição dos indivíduos nas instituições políticas e as leis que os instituem, fornecendo alma e virtudes aos cidadãos. A figura do Legislador possui um caráter polêmico, a primeira vista, pois, os leitores desatentos podem confundir sua função e dar a ele um poder que não tem. O Legislador no pensamento político de Rousseau é essencial para o ordenamento do Estado republicano, mas, convém lembrar, que ele não é o soberano e nem o governo. Não obstante, o caráter extraordinário que o pensador suíço dá ao legislador, sua ênfase em apresentá-lo como um homem com habilidades semelhantes a dos deuses e a exigência que Rousseau faz a este homem podem nos levar a questionar se é tarefa para um homem apenas ou se para vários homens por diversas gerações.

Referências

168

CASSIRER, Ernest. A questão Jean-Jacques Rousseau. São Paulo: Unesp, 1999. DENT, N.J.H. Dicionário de Rousseau. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1996 DERATHÉ, Robert. Jean-Jacques Rousseau e la Science Politique de son Temps.

Paris: Vrin, 1950. FORTES, Luis Roberto Salinas. Rousseau: o bom selvagem. São Paulo: FTD, 1989.

_______.

Rousseau: da teoria a prática. São Paulo: Ática, 1995.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social. São Paulo: Nova Cultural, 1997.

_______.

Considérations sur le gouvenement de Pologne. Paris: Flammarion, 1993.

Discours sur l´origine et les fondementes de l´inegalité parmi les hommens. Paris: Folio France, 1989.

____.

 

Discours sur l´économie e politique. Paris: Hachette, 1990. Ecrits Politiques. Paris: Hachette, 1992. Du contrat social. Paris: Folio France, 1993 Du contrat social. Texto comentado por Maurice Halbwachs. Paris: Aubier:

1943.

 

Emille ou de L´éducacion. Paris: Folio France, 1995.