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SEMINÁRIO MAIOR ARQUIDIOCESANO DE BRASÍLIA NOSSA SENHORA DE

FÁTIMA

NAILTON ALMEIDA DE ARAUJO CORREA

SUSPENSÃO TELEOLÓGICA DA MORAL EM TEMOR E TREMOR DE SØREN KIERKEGAARD

BRASÍLIA

2012

NAILTON ALMEIDA DE ARAUJO CORREA

A SUSPENSÃO TELEOLÓGICA DA ÉTICA EM TEMOR E TREMOR DE SOREN KIERKEGAARD

Monografia apresentada ao curso de Filosofia do Seminário Maior de Brasília como requisito parcial para a graduação da disciplina de Filosofia.

BRASÍLIA

2012

NAILTON ALMEIDA DE ARAUJO CORREA

A SUSPENSÃO TELEOLÓGICA DA MORAL EM TEMOR E TREMOR DE SØREN

KIERKEGAARD

APROVADO:

Trabalho de conclusão de curso apresentado como requisito parcial para a graduação em Filosofia no Seminário Maior de Brasília.

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EXAMINADORES:

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Prof. Orientador: Olyver Tavares de Lemos

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RESUMO

Este trabalho apresenta a suspensão teleológica da moralidade segundo Kierkegaard que ele desenvolve em sua obra Temor e tremor. Por meio de pesquisa bibliográfica buscou-se refletir e compreender como acontece essa suspensão. E a crítica que contém à filosofia puramente racional e especulativa. Para tanto, colocou-se em destaque a interpretação que Kierkegaard faz da existência em três estádios distintos: estético, ético e religioso. Ficou claro que para o dinamarquês existe uma suspensão teleológica da moralidade. E tal processo só é possível mediante o absurdo paradoxo da fé. O indivíduo descobre que o dever para com Deus supera todo dever moral.

Palavras-chave:

Estádios

da existência.

Indivíduo.

Fé.

Paradoxo.

Absurdo.

Suspensão

Teleológica.

RESUMEN

En este trabajo se presenta la suspensión teleológica de la moralidad de acuerdo con Kierkegaard desarrollada en su libro Temor e temblor. A través de la investigación bibliográfica se ha buscado reflejar y comprender cómo sucede esa suspensión. Y la crítica

que contiene a la filosofía puramente racional y especulativa. Por lo tanto, se hizo hincapié en

la interpretación que hace Kierkegaard de la existencia en tres etapas distintas: estético, ético

y religioso. Está evidente que para el danés existe una suspensión teleológica de la moralidad.

Y este proceso sólo es posible a través de lo absurdo paradoja de la fe. El individuo descubre

que el deber para con Dios sobrepasa todo deber moral.

Palabras-clave: Estadios de la existencia. Individuo. Fe. Paradoja. Absurdo. Suspensión teleológica

.

Sumário

INTRODUÇÃO

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1 A VIDA DE KIERKEGAARD E SUA RELAÇÃO COM OS TRÊS ESTÁDIOS DA

EXISTÊNCIA

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1.1 Kierkegaard: O rigor moral do luteranismo dinamarquês e o pecado do pai

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1.2 A angústia da escolha de si mesmo no matrimônio e o rompimento do noivado

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1.3 Kierkegaard e a crítica ao sistema hegeliano

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1.4 Comunicação indireta e pseudonímia

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1.5 Os estádios da existência

21

1.5.1 O

Estágio estético

21

1.5.2 O estágio ético

22

1.5.3 O Estágio Religioso

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2 A SUSPENSÃO TELEOLÓGICA DA MORAL E SUAS IMPLICAÇÕES SEGUNDO

TEMOR E TREMOR

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2.1 Primeiras aproximações à obra Temor e tremor

27

2.2 Os dois movimentos da fé: a resignação infinita e o salto paradoxal

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2.3 A suspensão teleológica da moral, segundo Kierkegaard

35

CONCLUSÃO REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

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8

INTRODUÇÃO

Acercar-se da filosofia de Kierkegaard já é por si mesmo, uma aventura que carece de ousadia. Ele extrapola a esfera do comum e faz seu leitor admirá-lo sem reservas ou experimentar aquela estranha sensação de quando se quer identificar um determinado objeto, mas, dele só se pode ver, por hora, a informe penumbra. O modo como aborda a existência humana coloca-o no rol dos grandes filósofos da humanidade. A tal ponto que seus escritos são considerados preconizadores do que comumente veio ser denominado existencialismo: a filosofia da existência. Søren Aabye Kierkegaard nasceu em 5 de maio de 1813 na cidade de Copenhague, Dinamarca. Tanto seu pai, Michael Pedersen Kierkegaard (1756-1834), quanto sua mãe, Anne Sorensdatter Lund (1768-1834), procediam do oeste da Jutlândia, interior da Dinamarca. Antes de terminar o tempo de luto pela morte da primeira esposa, Michael já seduzira e violara Anne que, então, era sua empregada. Ao nascer Søren o último dos sete filhos eles já haviam se instalado em Copenhague, onde Michael Pedersen, após alcançado fortuna no comércio de roupas, desfrutava dos benefícios oriundos do sucesso que obtivera com suas rendas financeiras. Quando criança, com doze anos de idade, o pai de Kierkegaard havia sido pastor de ovelhas nas planícies da Jutlândia. Certa feita, por conta das condições precárias em que se encontrava na ocasião, além do peso que lhe causava o cuidado do rebanho, oprimido pela dor do frio, da fome e da solidão, amaldiçoou Deus. A lembrança de tal episódio ele o levará consigo, lutando interiormente por obter o perdão Daquele a quem amaldiçoara. O sentimento de culpa por conta de tal evento bem como a visão melancólica e trágica do cristianismo luterano que esse homem possuía influenciou determinantemente a formação da personalidade de Kierkegaard e do seu pensamento. Esse cristianismo duro, sombrio e melancólico, pesado e tristonho, exigente ao máximo, envolto numa atmosfera de maldição que Michael impunha aos seus forjou o ambiente familiar onde Søren nasceu e foi educado. Tudo isso como fruto da atormentadora culpa referente ao episódio ocorrido nos campos da Jutlândia. Aos oitenta e dois anos, esse homem ainda não conseguia reconciliar-se com o passado e o Deus no qual cria. Depois do pai, a outra grande influência na vida e pensamento de Kierkegaard é Regina Olsen, a jovem com quem assumiu o compromisso do noivado rompido 11 meses depois. A essas duas figuras, o dinamarquês faz constantes referências em seus escritos. E os escritos

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kierkegaardianos possuem uma característica impar. Falam da existência mesma dele. Suas angústias, melancolias, decepções, esperanças, questionamentos que são fruto da formação paterna e das impressões que lhe deixaram o rompimento do noivado. Sem levar em conta a íntima relação que há entre a vida e o pensamento de Kierkegaard, correr-se-á o risco de interpretar suas ideias de forma leviana e tendenciosa. Na contramão das filosofias que elaboravam sistemas racionais que pretendiam explicar todos os eventos da história e da vida humana de forma objetiva, Kierkegaard se posiciona categoricamente contra, afirmando e reafirmando que me primeiro lugar vem o indivíduo em sua existência particular e singular. A razão não tinha poder suficiente para explicar tudo dentro de categorias lógicas. O indivíduo possui uma subjetividade que foge completamente às determinações sistemáticas e metodológicas da racionalidade. Sua inimizade declarada em relação a todo sistema filosófico ele nunca escondeu. Preocupou-se em primeiro lugar com o indivíduo enquanto ser que existe e é possuidor duma subjetividade maior do que as circunscrições objetivas dadas por qualquer teoria, sistematizada em parâmetros puramente racionais e desvinculados da existência enquanto tal. Seu grito existencial ecoa o seu “si mesmo” do qual ele se apropriou com tanta autoridade. Evidencia seu itinerário de compreensão daquilo que compreendeu como sendo uma existência autêntica. Do púlpito de sua vida, esse enigmático pensador do “indivíduo singular”; da “subjetividade”; da existência; do “instante”; da “escolha”; da angústia; do “tornar-se cristão”; dos “estádios no caminho da vida”; do “salto da fé”; do “absurdo”; do “paradoxo”; da “suspensão teleológica da moralidade” de “Deus” e outros variados temas tão candentes – daí, ele pregou seus maiores sermões. Realizou o gesto do semeador. Lançou sementes. E até previu que os frutos que adviriam das mesmas, só seriam colhidos mais tarde. Kierkegaard escreveu abundantemente. Seus escritos contemplam dezenas de volumes e milhares de páginas com denso teor filosófico, teológico, psicológico, radiografando de modo único o contexto histórico em que viveu. Mas ao mesmo tempo, reflete e evidencia verdades tangentes a todo indivíduo de todas as épocas. Por isso, no desenvolvimento do presente trabalho, isso será levado em conta. Nesse sentido, a intenção principal do presente trabalho é refletir a ideia da suspensão teleológica da moralidade desenvolvida por Kierkegaard em sua obra pseudônima Temor e tremor assinada por Johannes de Silentio. Por esse motivo, diante de um escrito kierkegaardiano, além da ousadia, é preciso ter paciência, pois, Kierkegaard não filosofa em sentido linear. O que é percebido pelo recurso à forma indireta que utiliza para escrever em

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determinadas obras. Sendo um filósofo assistemático ele se apresenta marcadamente como um pensador emblemático. Importa sempre em primeiro lugar o indivíduo, a existência que, segundo seu pensar, extrapola todo sistema filosófico elaborado com intuito de oferecer respostas acabadas. De situar o humano dentro de categorias sitiantes e reducionistas. Sua obra é semelhante a uma tela pintada que permanece sem moldura, cujo avesso também possui status de arte e importância. Há que se ter prudência na tarefa de lê-lo. Ele escreve, pisando o chão de sua época histórica, mas com o olhar na existência individual do ser humano entendido e interpretado estética, ética e religiosamente, como foi exposto anteriormente. Isto quer dizer que além do texto, do contexto e dos instrumentais interpretativos disponíveis para analisar seu pensamento, é necessário, quanto possível, raciocinar, duvidar, perguntar, crer com ele: “Kierkegaardear”. Ele expressa em seus escritos não aquilo que supõe, mas, aquilo que vive e é enquanto indivíduo possuidor de existência e as implicações advindas do fenômeno “existir”. Kierkegaard é, sem dúvida, ametódico. Nunca teve pretensão de elaborar um sistema filosófico que respondesse a inúmeros problemas e questões. Escreve narrando. A ‘existência pessoal’ é a sua oficina de labor diário de onde ele extrai, mediante apurada reflexão, as grandes conclusões a respeito do humano, do divino e do terreno. Assemelha-se, na genialidade, aos grandes escritores e romancistas que o precederam. Por isso, entrou em atrito com todos aqueles que não o identificavam como pensador filosófico o que não o afetava, pois negava ter o status de filósofo , mas, apenas reputavam-lhe o status de escritor literário. De fato, Kierkegaard, foi um incompreendido por apresentar compreensões a cerca do homem, do mundo e de Deus que destoavam escandalosamente do convencional. Sua obra Temor e tremor foi publicada em 1843. O autor reconta um evento acontecido na vida do personagem bíblico Abraão. E a partir daí desenvolve toda uma interpretação da conduta ética do ser humano frente a si mesmo e principalmente em relação Deus, descrevendo como se dá a passagem de um estádio para outro. Ele entende que há momentos tão cruciais na história humana, que é preciso realizar uma suspensão teleológica da ética em vista da realidade da fé. Que diante de tais eventos a fé assume surge como único recurso plausível ainda que, permanecendo absurdo e paradoxo, pois, não pode ser explicada. Assim, a proposta do presente trabalho não tem pretensão de esmiuçar em detalhes os grandes eventos da vida de Kierkegaard que redundaram na produção da obra citada. Os elementos de que se vale o dinamarquês para a elaboração de Temor e tremor, remontam a

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eventos de sua vida e a determinante relação eivada de estranhamentos e proximidades tida com seu pai e Regina Olsen. Dessa forma, o capítulo 1 abordará a figura de Kierkegaard a partir do esquema que perpassa toda sua obra que é o dos estádios da existência: o estético, o ético e o religioso, explicando o recurso da comunicação indireta de que se valia o dinamarquês para deixar evidente tal esquema. Serão pontuadas a oposição ao sistema hegeliano e a Igreja Luterana da Dinamarca e a apresentação dos três estádios com ênfase nos dois últimos que preparam a abordagem capítulo final. O capítulo 2 que encerra o trabalho, abordará mais detidamente a obra Temor e tremor em seus aspectos gerais apontando para a reflexão de Kierkegaard no Problema 1 que trata da suspensão teleológica da moralidade. Feitas essas primeiras aproximações diga-se de passagem, bem simples passar-se-á para a questão fundamental desse trabalho: a suspensão teleológica da moralidade em Temor e tremor. Mais esclarecimentos serão dados adiante, tendo em vista que algumas lacunas foram deixadas a respeito da vida de Kierkegaard e as grandes influências afetivas que sofreu.

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1 A VIDA DE KIERKEGAARD E SUA RELAÇÃO COM OS TRÊS ESTÁDIOS DA EXISTÊNCIA

Logo no início da edição Kierkegaard da coleção os pensadores, na parte intitulada

Vida e Obra, pode se ler o seguinte:

Régis Jolivet afirma que o pensamento de Kierkegaard formou-se, “não tanto por assimilação de elementos estranhos, mas sobretudo através de uma luta de consciência, cada vez mais intensa e cada vez mais exigente, perante as condições, não já da existência em geral, mas do seu próprio existir”. Ainda segundo Jolivet, a filosofia de Kierkegaard é precisamente ele mesmo, e ele mesmo, não fortuitamente e, de certo modo contrariado, mas ele mesmo voluntária e sistematicamente, a tal ponto que o “existir como indivíduo” e a consciência desse existir chegaram, a ser, para ele, condição absoluta da filosofia e até sua única razão de ser. (1979, p. 10)

As ideias e conceitos contidos na obra de Kierkegaard traduzem as experiências de seu

itinerário existencial. Por essa razão faz-se necessário conhecer mais detidamente, alguns

pontos capitais de sua história para, assim, adentrar-se com mais segurança e menos

desavisado em seu pensamento escrito.

Sua obra que é sua existência mesma feita reflexão em busca da verdade pode ser

abordada à luz daquilo que ele mesmo denominou ‘estádios no caminho da vida’. Ou seja, a

existência a seu ver acontece de três modos bem distintos interpretados como: estádio

estético, estádio ético e estádio religioso. Segundo Farago (2009 p. 120): o estádio estético em

que o homem se abandona a imediatidade, o estádio ético em que se submete à lei moral (o

geral, como se diz), e o estádio religioso em que o homem, abraçando a eternidade, se deixa

dirigir pelo amor, para além do bem e do mal.

Furtar-se dessa estrutura que perpassa toda a sua obra é negar a íntima conexão entre

sua vida e seus pensamentos sejam eles filosóficos, teológicos ou psicológicos.

1.1 Kierkegaard: O rigor moral do luteranismo dinamarquês e o pecado do pai

A primeira grande figura que está por trás desse esquema triádico da existência

elaborado por Kierkegaard é o seu pai, Michael Pedersen Kierkegaard. Esse homem fora

doutrinado sob a batuta da Igreja luterana da Dinamarca, a igreja estatal, e, fortemente

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influenciado pela comunidade dos irmãos morávios, de acentuadas tendências pietistas. Desse modo, toda a formação cristã exageradamente escrupulosa quanto ao pecado e, notadamente, quanto à sexualidade que ele recebera, encontra no filho mais novo Kierkegaard seu herdeiro e depositário exclusivo. Não se pode negar que essa relação de Søren com o pai foi de fundamental importância em sua vida espiritual e intelectual. A educação luterana severa e excêntrica recebida deste iniciou-lhe na dialética da qual Kierkegaard valeu-se com tanta argúcia. Grande parte da melancolia e do sentimento de culpa destilada nos escritos kierkegaardianos, é herança inegável do temperamento paterno. Valls endossa e complementa isso ao dizer que: “Nas viagens pelo mundo da fantasia, da dialética e da melancolia, deu-se a formação intelectual do jovem Kierkegaard. Assistiu e, mais tarde, participou das discussões teológicas entre seu pai e os poucos amigos que frequentavam a casa”. Michael Pedersen representa a próprio luteranismo na vida de Søren. O pai o insere nessa espécie de religiosidade punitiva, sentenciosa, mas que, apesar de tudo preconizava a recompensa eterna. Até os vinte anos, a vida de Kierkegaard não contava com nenhum grande evento que lhe pudesse ter causado sérias mudanças. Seu pai era sua escola principal. Seu instigador da imaginação. Seu referencial. Michael tinha pretensões não poderia ser diferente religiosas para o filho, pois o queria ver formado para ser pastor luterano. Kierkegaard, indeciso quanto à carreira que haveria de seguir, aplica-se, entretanto, com apatia aos estudos teológicos que o orientavam para o futuro ministério pastoral. É um período de crise interior para o jovem Søren. Começa a interessar-se mais por outras disciplinas e estudos. Distancia-se do pai e do cristianismo de então. Por hora, abandona as práticas religiosas, entregando-se a uma vida de esbanjamento e prazeres típica do estádio estético onde o indivíduo busca somente viver do momento, fugindo de toda responsabilidade que lhe acarrete realizar escolhas. Desperta-lhe um desejo intenso de encontrar uma ideia, uma verdade pela qual pudesse viver em absoluto e que ocupasse toda a sua vida. Grande parte do tempo que deveria empregar nos estudos teológicos ele dedica à literatura, povoando assim, ao máximo o seu gênio imaginário tão fértil e aguçado. Moralmente, Kierkegaard apresentava um caráter difícil. Mesmo as relações parentais não são fortes o bastante para estabelecer um sentimento verdadeiro de pertença e responsabilidade. O pai, por sua vez, assistia consternado a essa mudança tão brusca do filho.

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A comunicação entre ambos ficou insustentável a ponto de em 1837 separarem-se amistosamente. Søren sairia de casa para morar em domicilio próprio, porém, sustentado pelo pai.

Mas, apesar da liberdade que desfrutava em decorrência dessa pretensa separação, o jovem Søren continuava atormentado por dentro, sofrendo um sentimento de morte que ele mesmo ao descrever em seu Diário e repetidas vezes -, utilizava a expressão de São Paulo:

“um espinho na carne”. Não se sabe com exatidão o que ele queria dizer com isso. Contudo, já era indício de tudo aquilo que ele iria desenvolver de maneira filosófica, teológica e psicológica em seus escritos a respeito da existência, do indivíduo, da angústia, do desespero, da morte, da fé, do cristianismo à luz dos estádios estético, ético e religioso que desenvolvera e cujo esquema fundamenta toda a sua obra. Em 1838, Kierkegaard reconcilia-se com seu pai. Foi nessa época que Michael revelou- lhe as verdadeiras circunstâncias que deram origem à família numerosa. Revelou que engravidara Anne antes de desposá-la. Tinha consigo que a família jazia sob um castigo de Deus por conta de tais pecados cometidos no passado. A esse fato, Kierkegaard dá o nome de “O grande terremoto”. E não é de estranhar, pois, para Søren, o pai representava o arquétipo da moral e da pureza religiosa. “Descobriu, então, que sob a grande figura paterna, tão imponente e tutelar, se ocultava uma pessoa frágil, um pecador. Compreendeu que a penitência se havia obsessivamente apoderado da alma do pai, e que o remorso coloria com essa luz trágica uma fé que, no entanto, prometia o júbilo”. (FARAGO, 2009, p. 27) A esse acontecimento basilar da vida de Kierkegaard que está centralizado na figura do pai, segue-se outro ainda mais intenso e decisivo do qual é impossível furtar-se. Na senda dos estádios da existência essa é uma parada obrigatória visto que uma vez mais e sempre, o dinamarquês se afigura como protagonista.

1.2 A angústia da escolha de si mesmo no matrimônio e o rompimento do noivado

Kierkegaard resolve por fim, colocar sua vida em ordem. A mãe, o pai, e vários irmãos já haviam falecido. Resolve retomar os estudos teológicos e seguir o desejo do pai de que fosse pastor. Em 1841 pronunciava seu primeiro sermão num igreja de Copenhague e no mesmo ano apresentava sua tese doutoral Sobre o Conceito de Ironia.

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Nesse período de atenção mais voltada para a vida religiosa, Søren alenta em seu coração o desejo pelo matrimônio. Eis que entra em cena agora a figura de Regina Olsen. Por ela, Kierkegaard se apaixonou. Com ela firmou o compromisso do noivado um ano antes de defender sua tese na universidade. Tal compromisso para a época já era um grande prenúncio do matrimônio. Entretanto, 11 meses depois, Kierkegaard rompe o noivado com Regina, alegando que não seria capaz de levar adiante esse tipo de união, em vista de uma suposta vocação filosófica e religiosa. Na verdade, o que está no âmago dessa ruptura pode ser entendido a partir da maneira como Kierkegaard sempre entendia a existência, ou seja, à luz dos três estádios existenciais. Entendimento que era fruto de seu próprio existir. Casar-se com Regina seria assumir a dimensão de permanência, de duração terrestre contida na dinâmica característica da instituição matrimonial: existir eticamente. Assentar a vida em bases moralmente aceitas e

convencionadas pela vida na sociedade, fazendo disso um telos existencial. Porém, Kierkegaard sabia-se estético o suficiente para não suportar algo de tal sorte, pois, estava para

o instante, o momentâneo, a dimensão temporal. Escolher a existência ética equivaleria a

fazer a escolha de si mesmo, como se explicará adiante. Coisa para a qual não estava preparado. Por isso, rompe o noivado. Regina torna-se, a partir de então, na vida do jovem Søren, uma presença indelével da qual falará incansavelmente em seus escritos. Ela segue o curso de sua vida e acaba casando-

se posteriormente. Entretanto, Kierkegaard permanece só. E como entender tal decisão? O que

de fato o levou a romper seu noivado com Regina? Após esse episódio, viaja em outubro desse mesmo ano para Berlim, mas, insatisfeito com a experiência que lá tivera, retorna para Copenhague em março de 1842. Esse é o ano em que escreve uma de suas mais importantes obras, A alternativa. Inicia-se assim a partir de então, a produção escrita de Kierkegaard, por sinal, muito fecunda. As obras que seguirão:

Diário do Sedutor, Culpado? Não culpado?, Temor e tremor e a Repetição, todos de 1843, ele atribui à influência recebida do seu pai e à experiência de seu noivado com Regina. Está de posse, portanto, da consciência do seu gênio para a reflexão e as implicações advindas das ideias que havia elaborado a respeito da existência humana. Levará adiante suas convicções filosóficas e religiosas, defendendo a bandeira da primazia do “Indivíduo singular” com sua inegável “subjetividade” e a necessidade absoluta que esse mesmo indivíduo tem de realizar a “escolha” entre o mundo e Deus.

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Por conta disso, posicionou-se enfaticamente contra todo sistema filosófico. E aqui entram em cena as oposições que Kierkegaard fez ao pensamento objetivamente racionalista de Hegel que tanta influência havia causado.

1.3 Kierkegaard e a crítica ao sistema hegeliano

Na Europa de modo geral e inclusive na Dinamarca do tempo de Kierkegaard, as obras de Hegel gozavam de grande prestígio. Esse filósofo alemão elaborou um grandioso sistema filosófico cujas influências eram inegáveis. Opositor declarado da filosofia sistemática, Søren manifestou sem reservas as suas opiniões principalmente em relação ao pensamento hegeliano. A grande distinção entre Kierkegaard e Hegel encontra-se no fato de que, para o dinamarquês, o eixo condutor de todo o seu pensamento é o Indivíduo que não cabe nas categorias de nenhum sistema. Para o danês, fora da “existência” não há filosofia, pois é no concreto do existir que o Indivíduo vive sua subjetividade mediante aquilo que para Kierkegaard é de importância capital em sua reflexão, isto é, a “escolha”. Sobre esse tema da escolha encontra-se o seguinte comentário na mesma edição Kierkegaard da coleção os pensadores, na parte intitulada Vida e Obra:

A noção de “escolha” constitui uma das ideias fundamentais da filosofia de Kierkegaard. Ela seria o próprio núcleo da existência humana. Para Kierkegaard, o ponto de vista hegeliano, segundo o qual a existência humana se desenvolve logicamente no interior de esquemas conceituais, não constitui apenas um erro intelectual, mas, sobretudo, uma tentativa de dissimular os verdadeiros fatos e rejeitar as responsabilidades implicadas pela escolha. (1979, p. 16)

Sua querela com Hegel é enfática, visto que também os ensinamentos cristãos de sua igreja estavam manifestamente influenciados pelas ideias filosóficas do alemão. Dai, então, surge outro embate na vida de Kierkegaard. Giles pontua que:

“Hegel pretendia explicar racionalmente todos os mistérios do Cristianismo, o que levaria a secularização total da fé. Contra essa tentativa Kierkegaard se levanta, em nome da apropriação do Cristianismo pelo Individuo, numa atitude de fé que só mediante aquela apropriação conseguirá realizar a paixão do Infinito, que é a subjetividade”. (1975, p. 8)

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Diferente de Niestzche, que viu em Cristo o único e último “cristão” autêntico, mas, fracassado na cruz, criticando negativamente o cristianismo de sua época, Kierkegaard, por sua vez insurge-se positivamente contra o cristianismo que era ensinado na igreja luterana do seu tempo, propondo o que acreditava ser o “cristianismo de fato”. Kierkegaard ataca publicamente a igreja luterana da época por vê-la subvertida pelos valores do mundo e não os do Reino de Cristo. Firmado em suas certezas do que acreditava ser um cristão de verdade ele posiciona-se categoricamente contra uma igreja institucionalizada cujo corpo eclesiástico responsável pelo zelo da salvação das almas transformava-se em meros funcionários do sagrado. Contrapunha-se a uma igreja que discursava sobre Cristo de uma maneira muito racional, deturpando o verdadeiro sentido da mensagem deixado pelo mesmo Cristo. O modo como sua igreja comportava-se no mundo estava em contraste com os autênticos ideais de seguimento radical propostos nos Evangelhos.

O luteranismo havia se distanciado acintosamente de suas intenções primeiras, assumindo

posições filosóficas e teológicas que o tornava cada vez menos capaz de anunciar as verdades

de Cristo. Ainda na mesma edição Kierkegaard da coleção os pensadores, se diz que:

Por essa razão, toda a filosofia de Kierkegaard centraliza-se no significado e nas complexas implicações do fato de se ser cristão. Toda a sua vida constituiu uma intensa experiência da contraposição entre aquilo que considerava ser o cristianismo em seu significado mais profundo e as roupagens exteriores com as quais se revestia a Igreja luterana de seu tempo. Para Kierkegaard, a vivência mais profunda do cristianismo é a vivência e a certeza da fé. (1979, p. 21)

Em vista de toda essa insatisfação com a Igreja Luterana e do cristianismo como um todo, Kierkegaard tinha a seu favor o dom da escrita. Agudo pensador forjado na convivência com o pai, ele lança mão desse recurso e opõe-se incansavelmente a tudo o que desvirtuava o indivíduo da verdadeira religião cristã e da grande responsabilidade de tornar-se cristão de fato e existir como tal. Mas como Kierkegaard comunicava suas ideias às pessoas de seu tempo? Que recursos utilizava para fazer chegar a seus leitores as conclusões a que havia chegado sobre o indivíduo e a existência, sobre a fé e o cristianismo e tantos outros temas? Se ele se opunha a toda sistematização filosófica que tentava explicar tudo dentro de uma racionalidade puramente objetiva e que atingia até mesmo a religião cristã, então, deveria valer-se de uma linguagem que valorizasse em primeiro lugar a subjetividade de quem lesse suas obras.

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1.4 Comunicação indireta e pseudonímia

Tudo que concerne às verdades da existência de cada indivíduo deve ser pensado na dimensão subjetiva. Por isso, Kierkegaard afirma que a esse respeito não era possível uma comunicação direta.

Kierkegaard não se propõe a ambiciosa missão de construir um sistema que transmitisse o fundamento exclusivo da sabedoria. A sua tarefa e a sua missão serão muito mais humildes: mostrar que uma vez um homem viu o que significa existir. É nesse sentido que Kierkegaard tenta transmitir, mediante diversas formas, o que significa existir. Não como aquele que, ele próprio, já viveu tal existência, mas apenas como aquele que viu o que significa existir. Dai o uso de pseudônimos, ou seja, da comunicação indireta. (GILES, 1975, p.11-12)

Isso leva a inevitável abordagem de um elemento intrínseco à intensa e extensa produção escrita de Kierkegaard: os estádios da existência. O esquema triádico: estético, ético, religioso que ele deixou bem delineado em Estádios no caminho da vida fundamenta toda a sua obra. Para tanto, ele utilizou uma linguagem de comunicação indireta, criando pseudônimos cujos significados estavam intimamente ligados a obra assinada. De tal modo elaborava seus escritos e criava personagens para suas reflexões, que o leitor, deparando-se com as situações abordadas e apresentadas era levado a fazer sua escolha particular, isto é, individual, subjetiva. Kierkegaard parte de sua própria existência para realizar a identificação de cada estádio e o desenvolvimento dos conteúdos de cada qual. Conclui, por sua vez, que, em algum momento da existência, todo ser humano encontrar-se-á dentro da vivência de um desses três estádios. E sempre haverá a possibilidade de “escolha” inerente a todo indivíduo de decidir permanecer ou passar para o estádio posterior. Preocupado com a Dinamarca do seu tempo que era predominantemente cristã; insatisfeito com o cristianismo que via ser propagado de maneira tão superficial empregou todas as suas potências intelectuais e religiosas para mostrar de maneira global através do seu pensamento escrito, o que entendia ser uma existência autêntica e a grande tarefa do “tornar- se cristão” incutida no fato de existir. É o que confirma Roos:

Para que essa preocupação pudesse atingir seus leitores e leitoras, nosso autor não se preocupa apenas com o que escreve, mas também com o como escreve, comunica e publica suas ideias. Assim, Kierkegaard desenvolve

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uma obra que é uma complexa trama de obras assinadas sob diferentes pseudônimos e obras publicadas sob seu próprio nome. Neste empreendimento são utilizados os artifícios da ironia e da comunicação indireta que, mais do que transmitir conhecimentos, quer provocar movimentos existenciais e atingir a subjetividade de seus leitores e leitoras. ( 2007, p. 17)

Ele escreveu abundantemente. O conjunto da obra contempla dezenas de volumes e milhares de páginas com denso teor filosófico, teológico, psicológico, radiografando de modo único o contexto histórico em que viveu. Mas ao mesmo tempo, refletindo e evidenciando verdades tangentes a todo indivíduo de todas as épocas. Sua pseudonímia era sutilmente criativa e variada. Quando publicava algo sob os pseudônimos de Victor Eremita, Johannes de Silentio, Constantin Constantio, Johannes Climacus, Nicolaus Notabene, Virgilius Haufniensis, Hilarius Bogbinder, Anti-Climacus fazia-o com a intenção de comunicar indiretamente o que postulava como característico de determinado estádio existencial. O que entendia sobre o existir de um indivíduo no mundo e as implicações daí decorrentes. Pois, Kierkegaard não queria interferir nas compreensões subjetivas de seus leitores. Desde 1838 quando, muito jovem iniciou sua carreira de autor, até 1855, ano de sua morte, Kierkegaard escreveu abundantemente sempre nesta perspectiva dos três estádios da existência. Entendê-los em sua amplitude é uma tarefa deveras dantesca. Caberá aqui tão somente apresentá-los e pontuar em cada um o que comumente é identificado e interpretado pela maioria dos estudiosos de seu pensamento. Tal apresentação faz-se necessária, pois, Kierkegaard assim estruturou sua obra escrita. Os pseudônimos que criou, colocando-os como autores de muitos dos seus textos, representam e significam ora o esteta, ora o ético, ora o religioso. Sua estratégia, portanto, não é arbitrária. O dinamarquês transpõe para o papel suas convicções derivadas de sua própria experiência existencial. Tem como ponto de partida a existência mesma de Kierkegaard. Para tanto, escrevia em comunicação indireta afim de não interferir na subjetividade dos seus leitores. Não levar em conta tais dados é mutilar qualquer chance de sincera aproximação da sua vida e do seu pensamento. Por isso, diz Valls a esse respeito quando afirma que:

Se existe chave hermenêutica para entender Kierkegaard, essa chave é ele mesmo, e isso só é possível frequentando o labirinto de sua obra. Do contrário, o risco de se enganar e de se iludir com a apresentação dos temas é muito maior do que construir pouco a pouco o enorme quebra-cabeça chamado Kierkegaard. A contradição existencial e o mostrar-se enigmático

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pela pseudonímia constituem a estratégia fundamental e intencional para demostrar a impotência da filosofia especulativa diante da realidade concreta. (2007, p. 18)

Seguir-se-á, então, a uma sucinta apresentação dos estádios bem como a que cada um se refere, levando em conta que ambos são modos de existir, nos quais o indivíduo permanece sempre diante da possibilidade de realizar uma escolha. A partir desses estágios é possível entrever não sem assombro uma realidade desnudada por Kierkegaard, a saber, que: “existir é escolher”. “Existir é opção”. E eis aí uma prerrogativa do indivíduo que se lhe apresenta como característica distintiva. Que o interpela a cada instante de sua existência singular em si mesma e no entrerelacionar-se com outras existências singulares. Que constrange sua vontade pessoal mediante os eventos nos quais se envolve ou provoca. Escolha que não obedece a um método ou critério sistemático de decisão, mas se dá na dinâmica imprevisível do instante existencial, concorrendo para passagem de um estádio à outro quando acolhida e realizada concretamente. A partir de agora já é possível ter em vista o fim a que se propõe o presente trabalho. Entrever na perspectiva dos estádios da existência a consideração kierkegaardiana de haver uma “suspensão teleológica da ética” como ele postulou em Temor e Tremor. Kierkegaard fala diretamente ao indivíduo cristão de seu tempo. Os três estádios, embora sejam modos de existência distintos, perfazem o itinerário existencial de todo e qualquer indivíduo. Para ele, o estádio religioso é o cume a que se pode chegar. Mas para isso é preciso que aconteça o que para Kierkegaard é essencial no processo: a escolha. Escolha que acontece na possibilidade de cada instante da existência e que para tanto não pode ser controlada pela razão ou circunscrita a um modelo de pensamento capaz de nortear as decisões individuais. Isso se dá através de um salto qualitativo que só é possível no âmbito da fé. E das características que serão apresentadas de cada um dos estádios ficará mais claro para onde se endereça o pensamento kierkegaardiano. Estético, ético e religioso são os ‘estádios no caminho da vida’ pelos quais todo indivíduo deve passar em algum momento de sua existência. Permanecer como esteta, pretendendo-se firmar a existência no prazer do momento e da fuga de ‘escolher’; chegar a ser ético, onde se pode viver a vida pautada em preceitos morais norteadores que dão segurança exterior, mas, carecendo de fazer-se a escolha de si mesmo e a descoberta da fé que dá sentido a toda existência; realizar o salto da fé que desemboca no estádio religioso onde se vive verdadeiramente uma existência cujo sentido é Deus somente e pelo qual se faz tudo. Eis a

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aventura humana descrita por Kierkegaard em sua obra que, segundo ele, tem como fim a descoberta da existência autentica.

1.5 Os estádios da existência

1.5.1 O Estágio estético

Para o indivíduo que vive nesse estágio, o prazer tem a primazia e constitui-se como que o seu telos existencial. Nesse estádio, existe algo que o caracteriza bem, tornando-o imagem da sede interior que habita o coração humano: “o desejo”. Desejo que se manifesta na busca por saciar-se com coisas sentimentais, materiais, artísticas, intelectuais, mas, sobretudo, no que diz respeito ao prazer na sua vertente erótica. E esse desejar não dá margem para “esperas”, pois, tem pressa de que a satisfação pretendida se realize no tempo do “momento”. Caso contrário não se contentará. Há um imediatismo da sensualidade, clamando no ser do esteta por uma resposta rápida. Que ancorar sua existência em algo. Gouvêa assim se expressa sobre o estádio estético, entendendo-o como uma estação existencial:

A estação estética está associada ao imediato, e não há aceitação consciente de um ideal. O esteta evita compromisso a todo custo, encarando-o como uma limitação. Ele vive para o momento, na busca sem descanso pelo prazer imediato, mas ele nunca alcança a satisfação. Variedade, e não conexões, é o mais importante. A possibilidade de algo é mais importante de que sua realização. Como ele vive para o agora, sua vida torna-se uma série de momentos desconexos, sem sentido de continuidade. (2006, p. 256)

Isso leva a perguntar: Onde está de fato a felicidade do homem? Onde encontra-la, se é possível que algo no mundo seja capaz de comunica-la? Por que o ser humano é tão sedento e faminto de realidades que lhe proporcione completude e inteireza? A busca do esteta é sempre fora de si. Jamais sossega em seus desejos. Jamais se esgota seu querer de preenchimento. Experimenta o goza dos prazeres que tanto busca, mas, por outro lado, experimenta o sabor amargo e entediante que se seguem aos mesmos. Segundo Giles,

Falta a esse estádio qualquer distinção ética embora nele o indivíduo se sinta numa liberdade total, perfeita. Porém, de fato, não passa de uma vítima e escravo, pois a sua vida toma todo significado de acontecimentos e de forças

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exteriores. Sem o saber, ele se submete ao simples azar e a sorte. É apenas um joguete dos impulsos, sempre a procura do instante efêmero que passa, pois não vive senão no instante que já é do passado. A realidade para ele toma o seu valor a partir da recordação. Daí a tristeza do hedonismo. (1975, p. 16)

Kierkegaard apresenta como esteta por excelência o personagem literário Dom Juan. Em seu Diário do Sedutor essa figura surge como o retrato do indivíduo que está consciente da escolha a ser feita, mas, não faz. Prefere ir de encontro ao próximo instante e sempre ávido das possibilidades de prazer que isso poderá trazer-lhe. Gozar a vida é o imperativo que reina no estádio estético. Se existir é opção, escolha, então, o esteta é um angustiado e fugitivo, pois, escolhe não escolher. Contudo, para que o indivíduo caminhe para a realização de uma existência autêntica, ele terá de passar pelo estádio ético. Caso contrário, permanecerá prisioneiro de seus impulsos hedonistas, condenando-se a perda do verdadeiro existir.

1.5.2 O estágio ético

O personagem que representa com todos os matizes esse estádio é o juiz Wilhelmus em A Alternativa e Etapas no Caminho da Vida. Nesse estádio da existência, mais fácil de ser assimilado que o estético, há um dado primeiro a ser salientado: é marcado pela vivência da vida pautada em regras, leis e\ou condutas de caráter moral. Moralidade assentada em bases sólidas que salvaguardam a tranquilidade exterior. Seu arquétipo é visivelmente encontrado naquelas pessoas que assumiram algum compromisso conjugal. Aqueles que no correr de suas existências primam pelo certo, pelo honesto, pela preservação de valores dentro de um contexto familiar conjugal. As decisões são tomadas com toda seriedade. Há um senso de responsabilidade que permeia a existência do indivíduo ético. Ele é capaz de fazer escolhas com discernimento e sensatez. Ocupa-se consigo e com os outros na medida em que isso se lhe surge como tarefa a ser executada bem como, reconhecida e aprovada pelos outros. É o bom pai, a esposa dedicada, o cidadão responsável, o indivíduo justo e reto em seu agir. Que procura manter a sobriedade no convívio social. No estético, prevalece o “desejo” constante como fruto de um imediatismo. Porém, no ético há espaço para a escolha. E é a escolha de si mesmo. Em outras palavras diz FARAGO (2009, p. 124): “O estádio ético, pelo contrário, caracteriza-se pelo espirito de seriedade. Superior ao estádio estético, salva-lhe os

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valores positivos que o esteta não era capaz de honrar na harmonia e na duração, integrando- os em uma vida equilibrada”. Mas o fato de pautar a vida em padrões morais de comportamento não garante ao ético uma existência autêntica. Aí reside o perigo de acomodar-se numa estilo de vida “politicamente correto”, fazendo de sua inserção e engajamento na sociedade o sentido último de seu estar no mundo. Por isso que na sua relação com Deus, o ético permanece na periferia do encontro e do diálogo, pois, já se considera comprometido com as coisas que entende serem as mais importantes da vida. Escolhe ficar na imanência de seu existir, crendo bastar-se a si mesmo. Imanência versus Transcendência. Temporalidade versus Eternidade. Finito versus Infinito. Não quer se conhecer e por isso não quer se escolher, pois, assim, não descobrirá o que é de fato diante si mesmo e de Deus e as transformantes implicações advindas disso. Nesse sentido diz Dacoregio que:

Assim como no modo de vida estético, o ético liga-se ao que é temporal e o indivíduo assim desesperado não sabe o que acontece com ele. Perde a eternidade e a si mesmo e nem percebe. O modo de vida ético não possui valores constantes, pois estes não são internos ao indivíduo e por isso tudo é passageiro. Um homem nessas condições, nega seu desespero e não quer se encontrar. E acaba com isso acomodando-se no seu papel social, onde é bem julgado pelos demais e vive em situação confortável. (2007, p. 45)

Kierkegaard entende que a existência autêntica se dá no estádio posterior que é o religioso. Todavia, ainda e mais uma vez o indivíduo é interpelado a realizar uma escolha. Sem seguir parâmetros. Apenas lançando-se como num salto. Já se pode divisar agora, por conta do estádio religioso, a figura ímpar de Abraão, o pai da fé. Nele, Kierkegaard vê o indivíduo que encontrou o verdadeiro telos de sua existência e realizou o salto mais ousado no caminho da vida. Surpreendentemente, o dinamarquês elabora sua reflexão sobre a suspensão teleológica da moralidade, valendo-se do evento bíblico registrado no livro do Genesis quando, a pedido de Deus, Abraão sobe o monte Moriá para sacrificar o filho Isaac. Temor e tremor entra cena como uma das grandes obras de Kierkegaard onde se pensa o indivíduo diante de Deus no silêncio inevitável de realizar a maior das escolhas.

1.5.3 O Estágio Religioso

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Esse é o estádio em que Kierkegaard se atém como sendo o cume para ao qual deveria chegar todo ser humano. Especificamente reflete sobre o evento da Encarnação quando vai falar desse modo de existência. Revela de maneira impar uma série de intuições e conclusões do que supunha ser uma pessoa autenticamente religiosa. Entra em cena o “absurdo da fé” que suscita a coragem de realizar o “salto no Abismo”. Nesse estádio se encontra o escândalo de crer, a aventura de estar diante de Deus sempre como pecador reconhecido se sua culpa. Evoca-se para modelo de tal instância o biblicamente denominado “pai da fé” Abraão como foi mencionada anteriormente. O estádio religioso só pode ser pensando dentro de uma consciência de fé. Fora disso, ele perde todo sentido. Afinal, Kierkegaard o pensou em relação às circunstancias do cristianismo do seu tempo. Uma vez mais ficará patente as profundas influências religiosas que recebeu de seu pai na ambiente familiar onde fora educado. Eis que agora o indivíduo depara-se sozinho diante de Deus, que se cala e com O qual tem necessidade de relacionar-se. É o estádio que distingue-se pelo alto grau de interioridade. Aqui, exige-se uma volta para si mesmo na fé. Para Kierkegaard, o estádio religioso é o passo definitivo que se pode dar para o conhecimento de si mesmo e o encontro de um sentido para a própria existência. Farago (2009, p. 126) ao explicar esse estádio esclarece uma crítica que Kierkegaard faz ao cristianismo de sua época: “Existe, efetivamente, uma religião estética, prisioneira das aparências e dos impulsos sentimentais. Existe uma religião moral, escrava do mandamento. Mas o cristianismo real é o confronto que faz pesar sobre o eleito da graça o peso mais grave”. Tempo e eternidade, finito e infinito, criatura e Criador se deparam na dinâmica da experiência desse estádio da existência entendido por Kierkegaard. O indivíduo descobre que Deus chegou primeiro e O reconhece definitivamente como sua realidade última. A fonte de alegria verdadeira que nenhum outro estádio poderia mediar. A relação e o diálogo com Deus se manifesta como imperativo na existência do indivíduo nesse estádio. Identifica-se assim, que há uma superação do ético pelo religioso sem que isso seja em absoluto uma espécie de supressão. Tal superação só se dá mediante um salto qualitativo. E somente a fé torna esse salto possível. Abraão realizou esse salto. E Kierkegaard com isso, deixa bem claro em Temor e tremor os limites da moralidade e da racionalidade, mostrando que nem tudo na existência humana pode ser pautado por regras estabelecidas ou explicado pelas astúcias da razão. A subjetividade do indivíduo fica expressamente evidente nesse estádio. Ele depara-se diante de si e de Deus e precisa escolher.

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A suspensão teleológica da ética já mencionada até aqui ficará mais elucidada no próximo capitulo. Nos extremos do estádio ético está contida a busca do indivíduo pelo sentido de sua existência. Quando escolhe por fim a Deus em absoluto, ele o faz, saltando na fé e, sem suprimir sua eticidade, mas, superando-a por uma verdade pela qual se possa viver começa então, a existir autenticamente. Tendo em vista tal apresentação sucinta dos estádios existências kierkegaardianos, vale a pena salientar o modo como Valls sintetiza-os, à luz das perspectivas cristãs do dinamarquês:

Kierkegaard desenvolve os estádios da existência como uma metáfora escatológica. O estético representa a queda, o homem que vive o momento e não tem consciência do télos último da existência. O ético caracteriza a autossuficiência do homem que crê poder resolver os problemas e construir seu paraíso na terra, o que o deixa frustrado e impotente. Enfim, no ético- religioso, o indivíduo constata a insuficiência da existência centrada em si mesma e a necessidade do reconhecimento da realidade de Deus como realidade última. (2007, p. 35-36)

São esses os três modos de existência concebidos por Kierkegaard explicados de maneira bem sucinta, apenas à guisa de elucidação. Pois, sem uma prévia inserção em tal temática ficaria uma lacuna incomoda, carecendo de preenchimento. Diante do que foi exposto a respeito dos estádios da existência e as implicações contidas em cada um dos mesmos, é possível fazer agora vários questionamentos. Porém, à luz da obra Temor e tremor datada de 1843, um grande questionamento levantado por Kierkegaard através do pseudônimo Johannes de Silencio vem à tona: é possível haver uma suspensão teleológica da moralidade? Com Temor e tremor, o dinamarquês põe em cheque o racionalismo que imperava em sua época. Ele demonstra com bastante perspicácia que a ética, assentada na razão, não é capaz de dar respostas ou soluções a todos os eventos que ocorrem na existência do indivíduo. Há respostas e soluções que só a fé em Deus e, prescindindo de toda moralidade poderá oferecer. Em oposição à ética como juíza de todas as ações humanas, Kierkegaard afirma o primado da fé que faz com que o indivíduo descubra seu lugar na história e diante de Deus principalmente a quem reconhece como a verdade última de todas as coisas. Dos três estádios apresentados: estético, ético e religioso, os dois últimos ficarão bem mais evidenciados com seus respectivos conteúdos e temáticas. A suspenção teleológica da

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moralidade se dá como a passagem do estádio ético para o estádio religioso e isso será apresentado em seguida.

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2 A SUSPENSÃO TELEOLÓGICA DA MORAL E SUAS IMPLICAÇÕES SEGUNDO TEMOR E TREMOR

A partir de agora serão feitas algumas observações quanto à obra Temor e tremor a

título de introdução, ressaltando seu conteúdo e a temática da fé cuja centralidade

Kierkegaard procura evidenciar. Breves explicações quanto ao significado de fé para o

dinamarquês serão dadas, bem como de outros termos e expressões que ele utiliza

reiteradamente em seu texto. Antecede a suspensão teleológica da moral o movimento da

resignação infinita e o movimento mesmo da fé que, no caso da história de Abraão, o faz ser

um Cavaleiro da fé. Por fim, a explicação para qual tende todo este trabalho que é a da

suspensão teleológica da moral.

2.1 Primeiras aproximações à obra Temor e tremor

A obra Temor e tremor de Kierkegaard é tida com uma de suas mais célebres produções

e trás à tona o episódio bíblico de Gêneses 22. Nesse trecho bíblico relata-se o pedido de Deus

a Abraão de sacrificar o seu filho único Isaac no monte Moriá. Filho que viera já no tempo da

velhice e que carregava em si toda uma esperança de posteridade. Ao voltar da experiência

angustiante no monte Moriá, Abraão, já não é mais o mesmo, recebe seu filho Isaac pela

segunda vez e tal fato apresentava-se sem explicação.

Kierkegaard retoma esse texto e prende toda sua reflexão na figura de Abraão, tecendo-

lhe um entusiasmado elogio, mas ao mesmo tempo, criticando uma vez mais o sistema

hegeliano e toda filosofia sistemática que tentava restringir tudo à esfera racional. A partir do

relato oficial, ele elabora outros quatro, procurando deixar claro quão complexo é entender o

comportamento e a decisão do patriarca. Pois a dimensão subjetiva do indivíduo em sua

existência prescinde da objetividade dos eventos concretos que se lhe apresentam, bem como

de todas as circunscrições lógicas da razão.

O grande tema do livro no seu plano geral é a fé. Com fina perspicácia, o dinamarquês

traça o perfil de Abraão na perspectiva ética e religiosa e aponta claramente seu parecer

quanto ao desfecho do episódio do sacrifício. Nesse sentido, fica mais evidente o significado

último do pseudônimo utilizado para assinar a obra: Johannes de Silentio (João do Silêncio).

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Ou seja, diante do paradoxo da fé e o absurdo ao qual ela está ligada, resta apenas fazer silêncio como o fez Abraão após o pedido que Deus lhe fizera. De Paula pontua que:

As grandes perguntas feitas em Temor e tremor, baseadas na história de Abraão, são: há uma suspensão teleológica da ética? Em outras palavras, existe na história de Abraão algo maior do que a ética? Os homens e a sociedade em geral sempre são pautados pela ética, ou seja, as ações são sempre consideradas boas ou más. A ética é, nesse sentido, a juíza desse tipo de relação entre os homens. Contudo, na história do patriarca israelita, a ética parece ter sido suspensa; Abraão ultrapassa a ética e não pode ser

enquadrado dentro dela. Ele vai além daquilo que é o máximo na relação entre os homens. Ele vai além da ética, mas não pode ser considerado um simples infrator. Sua ação se baseia em outra coisa que não é a ética e nem a

legitimação do coletivo social. Sua base é a fé [

] (2008, p. 56)

Abraão é o indivíduo que, para Kierkegaard, possui uma singularidade tal que não encontra paralelo algum. Ironicamente ele o considera um autêntico cristão, em vista da escolha que fez de obedecer a Deus absolutamente, indo por isso, além dos ditames da moralidade, além dos limites convencionados pela ética. O tom de insistência que perpassa o texto kierkegaardiano é de que nem todas as ações do indivíduo em sua existência podem ser guiadas pelos padrões éticos ou as leis morais. Acima dessas instâncias está a fé. O paradoxo da fé como ele enfaticamente reitera. Fé que se dá no absurdo e faz que o indivíduo seja capaz de realizar o salto do estádio ético para o religioso. Fé que traduz a opção fundamental do indivíduo por Deus, numa relação de total confiança, revelando-lhe o verdadeiro e absoluto telos de sua existência. Para Kierkegaard, o patriarca é um indivíduo admirável. Quem pode entender Abraão? Ele é o maior de todos. Merece o maior dos elogios e deve ser entendido como referencial para a humanidade, pois, sua grandeza reside na fé e no amor incondicional a Deus. Em Temor e tremor ele assim se expressa:

Os grandes homens hão de permanecer na memória dos pósteros, porém cada qual deles foi grande pela importância do que combateu. Pois aquele que combateu contra o mundo, foi grande no seu triunfo sobre o mundo, o que lutou consigo mesmo foi grande pela vitória alcançada sobre si porém aquele que combateu contra Deus foi o maior de todos. Este é o resumo dos combates feridos na Terra: homem contra homem, um contra mil; porém aquele que combate contra Deus é o maior de todos. Tais são as lutas deste mundo: um atinge o termo utilizando-se da força, o outro desarma a Deus pela sua debilidade. Viu-se aqueles que em si mesmos se apoiaram de tudo triunfarem e os demais, fortes em sua fortaleza, tudo sacrificarem porém o maior de todos foi aquele que creu em Deus. E existiram grandes homens

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pela sua energia, sabedoria, esperança ou amor porém Abraão foi o maior de todos: grande pela energia cuja força é fraqueza, grande pelo saber cujo segredo é loucura, pela esperança cuja forma é a demência, pelo amor que ser resume em ódio a si mesmo. (2008, p. 12)

Abraão merece tal elogio porque na liberdade escolheu ir além da normalidade moral das relações às quais estava habituado, por causa de uma relação maior com seu Deus e que se dava no paradoxo da fé. Porque amou a Deus acima de tudo e foi por isso capaz de ter para com Ele um dever de obediência absoluta. Escolheu ir além da razão através da fé. Sua existência só tinha sentido, então, porque acreditava. Existir é crer. E a existência entendida e vivida assim não questiona os pedidos que vem de Deus como o faria a razão. A despeito das exigências lógicas que a razão impõe, como se fosse possível responder a tudo que ocorre na história e principalmente na existência singular de cada indivíduo, Kierkegaard apresenta a história de Abraão marcada pelo sofrimento interior que causara o pedido de Deus e a própria fé do mesmo como divisor de águas na relação entre razão e fé. O sistema hegeliano e as instancias por ele influenciadas tornavam-se impotentes diante das questões suscitadas na reflexão feita em Temor e tremor. Kierkegaard critica também, nesse sentido, a Igreja Luterana do seu tempo que apresentava a história de Abraão de maneira superficial, como se fosse algo simples de se compreender racionalmente, do modo como a filosofia sistemática de Hegel interpretava. O cristianismo que predominava em seu tempo estava revestido de pressupostos filosóficos que davam segurança à transmissão da doutrina como se isso facilitasse a inserção do indivíduo no cerne da proposta de Cristo. Kierkegaard combateu esse tipo de cristianismo por julgá-lo objetivo demais e afastado das verdadeiras questões existências as quais o indivíduo era confrontado instantemente. Carvalhães diz que:

O ponto de vista de Kierkegaard sobre o cristianismo opunha-se ao ensino da igreja. Criticava a religião fácil da igreja por ser mais intelectual do que existencial. Para ele, esse tipo de filosofia corrompia o cristianismo e afastava as pessoas da religião de Cristo. O hegelianismo deformava a fé transformando-a em algo pobre e fácil. A fé cristã transformava-se numa religião sem dificuldades, sem temor, sem mysterium, sem decisão - constituía-se em sistema de crenças e em tipo de conhecimento em lugar de peregrinação cuidadosa e cheia de riscos. A fé tornava-se num tipo de viagem guiada sem qualquer relação com a existência real. (2008, p. 76)

A pregação que se fazia a respeito do pai da fé não levava em conta a sua angústia. Baseava-se, contudo, em uma especulação racional como se fosse simples de entender. E essa omissão era inaceitável para Kierkegaard. Existir implica escolher e a escolha embora não

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siga ditames filosóficos algum, se dá de modo desafiador, implicando sofrimento. Abraão estava sob a mira dessa exigência que contém toda escolha e o sofrimento advindo dela. Sofria assim quando do pedido de Deus de que sacrificasse o filho tão amado, Isaac. A esse respeito, Faria diz que:

A história de Abraão consegue se manter magnifica mesmo que dela se compreenda pouca coisa. Contudo, para avaliarmos um pouco melhor a dimensão do seu ato, é necessário que antes percebamos que o que Abraão estava disposto a sacrificar não era aquilo que ele tinha de melhor. Não devemos, aqui, identificar indistintamente Isaac com o “melhor”. Explica Johannes que é certo que não nos tornamos como Abraão porque sacrificamos a melhor coisa que possuímos. O seu caso é especial, porque nele está envolvida uma angústia. Angústia de ter que sacrificar aquilo com o que mais possuía obrigações morais últimas e inalienáveis: angústia de ter que matar o próprio filho. (2009, p.74-75)

Tal pregação negava dessa forma o paradoxo que é a fé cristã, pretendendo apresentá-la como algo inteligível. Com isso, negava também a subjetividade e a interiodade próprias do indivíduo. Pregava-se sobre Abraão de maneira simplista. Mas, segundo Kierkegaard, a história do pai da fé deveria causar insônia, pois, é a história de todo indivíduo que se encontra aí. É a historia do tornar-se cristão contida no movimento da fé realizado pelo patriarca. Entretanto, sua decisão contraria a ética estabelecida e Kierkegaard procura provar que na esfera religiosa pela fé é possível justificar a atitude do pai da fé. A moralidade de um modo geral julgaria a escolha de Abraão como sendo um crime. Mas do ponto de vista religioso seria entendido como quem realiza um sacrifício. Ao dar sua interpretação do relato bíblico do sacrifício de Abraão, procurando deixar bem claro quão falha é a razão para fazê-lo e que somente à luz da fé é possível aceitar a escolha do patriarca frente ao pedido de Deus, Kierkegaard retorna ao tema do herói grego, relacionando-o ao pai da fé. Deixa claro que Abraão sobressai-se ao heroísmo grego e é maior justamente porque creu e escolheu a Deus como sua realidade última. O telos divino acima do telos humano. O eterno acima do temporal. Para tanto, Abraão precisou realizar dois movimentos importantes que culminaram em sua decisão final por sacrificar ao filho Isaac em atendimento ao pedido divino. Não abandona suas responsabilidades morais para com o filho. Mas se lança ao absurdo de crer que Deus solucionará toda a situação, pois, racionalmente era impossível pensar-se em algo que justificasse eticamente o que estava decidido a fazer.

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2.2 Os dois movimentos da fé: a resignação infinita e o salto paradoxal

Abraão representa o indivíduo desafiado pelo Eterno a fazer uma escolha no tempo. Desafiado a transpor os limites de suas próprias convicções éticas a despeito de tudo e de todos. Escolha que só pode ser compreendida subjetivamente, pois, toca a existência em sua individualidade, impulsionando-o a uma tomada de decisão na fé. Por isso, em Temor e tremor se falará de um salto na fé que pressupõe total confiança em Deus e sem a necessidade de qualquer sorte de questionamentos. Sem reflexões lógicas que sirvam de intermediárias na tomada de decisão. Sacrificar Isaac fere a moralidade, sim. Mas se é por amor a Deus que Abraão decide-se a fazê-lo, crendo na providência divina ainda para esta existência, então, ele se lança no absurdo da fé, que é paradoxal, pois não pode ser explicada à luz da razão. Kierkegaard, sob o pseudônimo Johannes de Silentio, quer levar o leitor a pensar sobre a situação religiosa de seu tempo. Especificamente sobre a fé cristã que a seu ver estava distanciada da sua verdadeira essência. Contudo, é preciso pontuar o que é a fé para Kierkegaard. Segundo Carvalhães (2008, p.72): A fé para Kierkegaard não era objetiva, lógica, capaz de ser explicada. Por outro lado, também não era considerada ilógica ou resultado de mero fideísmo. Era, como já mencionado, uma opção fundamental que comprometia toda a existência. Aonde Kierkegaard quer chegar com todo o elogio que faz a Abraão, considerando-o o pai da fé e o Cavaleiro da fé, deve ser entendido antes de passar para o tema da suspensão propriamente dita. A suspensão teleológica da moralidade só pode ser assimilada tendo em conta os pressupostos kierkegaardianos a respeito dos movimentos da fé e as implicações contidas neles. E Abraão realizou esses movimentos. Na Problemata de Temor e tremor, Kierkegaard pontua a postura de Abraão frente ao pedido de Deus. O patriarca vai além da mera resignação. Poderia se conformar com o fato de sacrificar Isaac como se nada mais pudesse ser feito. Como se não tivesse compromisso algum com a vida do filho. Obedecendo ao pedido divino, ele lança-se no absurdo de crer que tudo isso tem um sentido, mas que, por sua vez, não lhe compete indagar os porquês, pois, ama e confia ainda que as circunstâncias clamem por uma resposta racional. Assim o dinamarquês se expressa pelo olhar de Silentio:

A verdade é que, se, no momento em que montou o seu burro, Abraão tivesse dito: já que estou perdido para mim tanto faz sacrificar Isaac aqui, em

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casa, como realizar esta longa caminhada até Morija se assim fosse não teria nada com ele, ao passo que assim eu me inclino sete vezes diante de seu nome e setenta e sete vezes diante de seu proceder. Que ele não esteve entregue a dilações para se recolher do mundo finito e de seus prazeres. De outra maneira, ele teria talvez amado a Deus, porém não seria o homem de fé pois amar a Deus sem a fé é refletir-se a respeito de si mesmo, porém amar a Deus com fé é refletir-se no próprio Deus. Este é o cume onde se encontra Abraão. A última etapa de que ele se afasta é a resignação infinita. Vai mais distante verdadeiramente e chaga até a fé. (2009, p. 30)

Kierkegaard insiste em que o importante na história de Abraão é o sofrimento pelo qual ele passou sua angústia para cumprir a vontade de Deus. Quer deixar bem claro que isso só foi possível porque o patriarca fundamentou sua decisão tão somente na fé. Por isso fala de um duplo movimento da fé. Carvalhães explicita isso com mais clareza ao dizer que:

Segundo Kierkegaard, a fé de Abraão teve dois movimentos o da resignação infinita e o da fé. No primeiro caso, ele se rende totalmente a Deus. Buscou a verdade não no mundo, mas em Deus. Abraão encontrou a verdade quando se ofereceu correndo risco de tudo perder. Renunciou as exigências morais, tudo abandonando. Nesse momento, sacrificou Isaque e também se sacrificou. Nas palavras de Johannes de Silentio, esses atos foram cometidos “em virtude do absurdo”. De Silentio chama esse fato de “coragem da fé”. Ao se integrar plenamente com esse gesto de fé, Abraão torna-se o cavaleiro da resignação infinita. (2008, p. 77-78)

A resignação infinita é uma tomada de consciência de que na dimensão do tempo

temporal no mundo finito, renuncia-se a alguma coisa ou a alguém sem esperar de volta o que fora renunciado. Há uma aceitação das circunstâncias, mas que, permanece na normalidade moral estabelecida e compreendida por todos. Significa também saber que algumas coisas residem na esfera do impossível dentro do mundo finito e que, portanto, não

podem ser alcançadas. O indivíduo conforma-se com a situação na qual se encontra ou a qual é confrontado, tendo a seu favor uma base moral que a razão explica.

O cavaleiro da resignação infinita abre mão de um bem precioso por acreditar que o

dever moral ao qual obedece é o que justifica seu ato, sua renúncia, ou o que quer que tenha de fazer. No fim das contas será elogiado por sua conduta que se enquadra nos parâmetros

morais da normalidade. Permanecerá na esfera ética e sua ação ganhará status de heroísmo. Mas, de acordo com Kierkegaard, o indivíduo que estaciona aí não chega a ser nunca um Cavaleiro da fé. Pois não basta apenas essa tomada de consciência ou reconhecimento de certas impossibilidades, é preciso ir, além disso. Em Temor e tremor, Kierkegaard realiza uma apurada análise do drama interior, do sofrimento pelo qual passa Abraão em virtude do pedido divino. Não há nada de fácil na

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situação do patriarca. Por isso, dentre as escolhas que poderia ter feito em relação ao pedido de Deus, ele resolve primeiro resignar-se mesmo sabendo do sofrimento decorrente disso. No silêncio de si mesmo ele sofre a aceitação do pedido e a decisão de cumpri-lo e aí ele se encontra sozinho diante de Deus que o assiste. Mas a resignação não o salva do conflito interior e as questões decorrentes de estar conformado em sacrificar o filho. Ele sabe das consequências morais do ato que decidiu realizar. É preciso prescindir da simples resignação. É preciso a fé. E eis, então, o segundo movimento que põe Abraão numa relação absoluta com o Absoluto. Movimento que o coloca acima da moralidade e o torna, segundo Kierkegaard, o Cavaleiro da fé. Quanto ao segundo movimento, Carvalhães diz:

O segundo movimento é o da fé quando Abraão recebe de volta das mãos de Deus o seu filho Isaac. O anjo segura sua mão, surge o cordeiro e Abraão volta para a casa com o filho. Aí está o paradoxo da fé: o cavaleiro da resignação infinita encontra o cavaleiro da fé no mesmo momento. Abraão é ao mesmo tempo o incrível cavaleiro da fé e o herói trágico, o assassino. (2008, p. 78)

O cavaleiro da fé é posto em oposição ao herói trágico grego com o qual Kierkegaard traça um paralelo, buscando esclarecer da comparação de ambos, Abraão merece o verdadeiro reconhecimento. Toda sua luta interior de sacrificar a Isaac para cumprir um dever de amor e fé para com Deus, o coloca na posição de cavaleiro, daquele que combate sem instrumental lógico, racional, argumentativa, mas, unicamente com a fé, que, por si mesma já é um absurdo e paradoxo, pois, não pode ser explicada. De Paula fala acrescenta que:

A fé do cavaleiro da fé se torna ainda mais absurda, pois o que a pratica faz isso consciente do absurdo. Para Silentio, ela não é estética e nem um instinto imediato do coração, mas paradoxo da vida. Visto dessa forma, a resignação equivale à consciência eterna e não a fé. A fé é imprescindível para obter a mínima coisa, mas ela não é indispensável para se resignar. Segundo nosso autor, fé significa recebimento e não renúncia. (2008, p. 66)

Para resignar-se basta apenas coragem. E, segundo Kierkegaard, qualquer um está em condições de fazer isso. O indivíduo que está no estádio ético pode muito bem ter uma fé. Uma religiosidade, mas, que está conformada com suas condutas morais. Ao se ver interpelado por Deus em certo momento de sua existência ele se defrontará com as possibilidades de resignar-se ou realizar o salto da fé onde não restará ninguém mais que ele e Deus numa relação absolutamente única.

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Abraão não deve ser elogiado por ter renunciado ao filho Isaac em obediência a divindade, mas, por ter decidido levar adiante o sacrifício crendo somente e, esperando receber o filho de volta ainda nessa existência. Sabe dos deveres morais que o prendem a Isaac e das grandes responsabilidades para com o mesmo. Contudo, acredita que acima de tudo isso está a vontade de Deus. E qualquer pedido que venha de Deus deve ser realizado, pois, para além de qualquer finalidade a que possa se assegurar a existência aqui na terra, o telos absolutamente maior é Ele. A crítica que Kierkegaard faz a igreja luterana de sua época concentra-se muito na forma como se pregava a respeito do pai da fé, isto é, como mero exemplo de conduta obediente e abnegada a vontade de Deus. Ele não acreditava encontrar em seu tempo ninguém que fosse capaz de ir até onde chegou Abraão com sua fé absurda e paradoxal. Opunha-se a qualquer tentativa racional de se explicar os complexos meandros da fé, pois, essa só se dá na interioridade do indivíduo. Subjetivamente e no absurdo. Abraão é o modelo de fé autêntica que dá sentido à vida. Representa o indivíduo que é capaz de ir além das exigências da moral, porque se lança no absurdo. Silentio faz notar isso quando interpela:

Que fez, porém, Abraão? Não chegou muito cedo, nem muito tarde. Selou o burro seguindo, com lentidão, o rumo determinado. Durante todo esse

período manteve a fé, creu que Deus não desejava exigir-lhe Isaac, estando, contudo. Disposto a sacrificá-lo se isso fosse absolutamente preciso. Creu no absurdo, porque isso não faz parte do cálculo humano. O absurdo está em que Deus, pedindo-lhe o sacrifício, devia revogar o seu pedido no momento seguinte. Escalou a montanha e no momento em que a faca brilhava, creu que Deus não lhe exigira Isaac. Então, com segurança, foi surpreendido pelo desenlace, porém já nessa oportunidade recobrara por um movimento duplo o seu primitivo estado, e foi por esse motivo que recebeu Isaac com a mesma

alegria que sentira pela vez primeira.(

cálculo humano estava, desde há muito tempo, abandonado. (2009, p. 29)

Creu pelo absurdo, porque todo

)

O cavaleiro da fé abandona as certezas morais que se assentam na razão para aventurar- se no absurdo da fé paradoxal. Paradoxal porque exatamente para ganhar deve perder; para chegar à felicidade deve passar pelo sofrimento; para ter vida deve morrer; para expressar-se deve silenciar. Sem levar em conta esses detalhes que antecedem a decisão de ir além da esfera ética, a suspensão teleológica torna-se incompreensível. Assim, o presente trabalho chega a seu objetivo último que é explicar a suspensão teleológica da moral em Temor e tremor de Kierkegaard.

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2.3 A suspensão teleológica da moral, segundo Kierkegaard

Ao concentrar-se no relato bíblico que narra a história de Abraão em Genesis 22, Kierkegaard faz três perguntas em seu livro Temor e tremor. A primeira delas será abordada a partir de agora, a saber: Existe uma suspensão teleológica da moralidade?

Analisando o fato de Abraão receber de Deus o pedido de que sacrificasse a Isaac, seu filho, no monte Moriá, Kierkegaard demonstra que o patriarca, pela fé, foi capaz de ir além das determinações morais as quais estava obrigado. Assim, em Temor e tremor, Problema I que trata da suspensão teleológica, começa a sendo exposto nos seguintes termos:

A moralidade, por si mesma, está no geral, e sob este aspecto aplica-se a todos. O que pode, de outra parte, exprimir-se dizendo que se pode aplicar a cada momento. Descansa imanente em si própria, sem ter nada exterior que constitua o seu TELOS, sendo ela própria TELOS de tudo quanto lhe seja exterior; e desde que se tenha integrado nesse exterior não vai mais além. (2009, p. 48)

A moralidade de que fala Kierkegaard situa-se no estádio ético. Quando apresenta a figura de Abraão e seu angustiante dilema de ter que sacrificar o filho a pedido de Deus, quer com isso tecer uma crítica ao pensamento do seu tempo. Em Abraão se encontra a situação do indivíduo que nas suas relações com o Absoluto, vê-se desafiado a responder somente com a fé. Indo, por meio dela, para além da moral estabelecida. Da Silva ao elucidar isso diz:

Na filosofia de Kierkegaard a ética é um estádio na vida do indivíduo em que se vive no geral, isto é, o geral é semelhante a uma sociedade em que as normas e padrões da vida das pessoas são determinadas. A moralidade está no geral e é aplicável a todos sem distinção e a cada instante. No geral o indivíduo, para Kierkegaard, teria que despojar-se da sua individualidade para poder alcançar a generalidade. Abraão é um indivíduo que está incluído no geral, mas é um homem de fé que tem sua relação com Deus de forma individual. Kierkegaard faz uma comparação entre o indivíduo e o geral através do ato de Abraão e inicia uma crítica ao sistema hegeliano que buscava uma unidade ética originária. (2009, p. 114)

Sob o pseudônimo Johannes de Silentio, Kierkegaard insiste em proclamar a primazia do indivíduo frente ao geral. Combatia toda filosofia que se desse o luxo de interpretar tudo de maneira totalizante, pondo a razão com detentora do poder de dar todas as respostas possíveis para todas as questões. Como se a subjetividade do indivíduo em sua existência particular pudesse se acessada objetivamente. Esquadrinhada até.

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A afirmação do indivíduo, segundo Kierkegaard, só se dá pelo paradoxo da fé. A fé dá ao indivíduo a segurança de que precisa para abandonar seus lançar-se para além dos princípios éticos. Concernente a isso o autor diz em Temor e tremor o seguinte:

Efetivamente, é a fé esse paradoxo conforme o qual o Indivíduo está acima do geral, porém de tal modo que, e isso é importante, o movimento torne a repetir-se e, consequentemente, o Indivíduo, após ter ficado no geral, esteja isolado logo depois, como Indivíduo acima do geral. (2009, p. 49)

Embora as relações humanas devam seguir padrões éticos comuns ao geral, o dinamarquês insiste em Temor e tremor que não é possível a alguém encontrar sentido pleno para sua existência somente pautado na moralidade. Ou seja, o estádio ético por si mesmo não tem respostas para todas as situações que acometem a existência do indivíduo. Para a existência possuir sentido e ser vivida autenticamente é preciso a fé. Aí, a despeito de tudo o que acontecer não se buscará explicações, pois, elas não são possíveis. A lógica puramente racional é abandonada para dar lugar ao absurdo de crer tão somente e esperar contra toda esperança como o fez Abraão, tornado, por isso, pai da fé e Cavaleiro da fé. Eleger um texto bíblico do Antigo Testamento para defender a tese da existência de uma suspensão teleológica da moral é no mínimo atípico. Todavia, Kierkegaard tinha plena consciência do que tentava demonstrar, analisando a história do patriarca e o sacrifício que lhe fora pedido. Inconformado com a maneira como a fé cristã na Dinamarca de seu tempo era transmitida, ele busca expressar através de Temor e tremor as impressões e convicções que havia adquirido a respeito do que acreditava ser verdadeiramente a fé. E a fé, pensa Kierkegaard, é o movimento paradoxal a que está sujeito todo e qualquer indivíduo. É aquela realidade que parte da interioridade subjetiva do indivíduo em sua existência particular e singular. Só ocorre autenticamente na individualidade. Por isso ao defender a possibilidade da suspensão teleológica da moral, ele tem sempre em vista o indivíduo como seu protagonista. Individualidade que foge às categorias lógicas da razão. Individualidade que é capaz de lançar-se no absurdo da fé paradoxal para encontrar exatamente aí o telos que ultrapassa todos os outros telos. Sobre a individualidade, da Silva diz que:

A individualidade não pode ser compreendida como um conceito lógico, mas como uma relação absoluta do finito diante do infinito. Esse posicionamento do Indivíduo diante do infinito está completamente fora do aparato lógico, ou de qualquer sistema racional. Ele está diante de fatos que precisam de sua decisão e sua decisão está fincada em base absurda, a saber, a fé. Para

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Kierkegaard, as decisões humanas não são ordenadas por conceitos pois está fora de qualquer sistema lógico por saltos e alternativas. (2009, p.

115)

Abraão obedece ao pedido de Deus. Decide cumprir a vontade divina. Sacrificar a Isaac, o filho a quem tanto ama, é visto pela moral como um assassinato. Pelos cálculos humanos, esse homem jamais cogitaria a possibilidade de realizar tal ação. Sabe que possui deveres paternos para com o filho. Não nega em momento algum suas responsabilidades morais. Contudo, escolhe atender ao pedido de Deus, crendo absurdamente que de alguma forma obteria Isaac outra vez. Alicerça sua decisão unicamente na fé. No absurdo da fé. Ninguém pode decidir no seu lugar. Ao lançar-se à tarefa de cumprir a vontade de Deus, qual seja, sacrificar Isaac o filho da promessa sobre o monte Moriá, Abraão descobre-se absolutamente sozinho com o Absoluto. Por isso, Carvalhães comenta:

A fé vive em virtude do absurdo, e o absurdo não tem explicação. Carrega em si o irracional e a impossibilidade de ouvir. A partir de suas raízes, ab surdus significa tornar-se surdo. A fé deixa de lado as explicações racionais. Não as ouve. Vive pela capacidade de desafiar e de não entender. Vive de ter esperança contra a esperança. (2008, p.88)

Em virtude desse absurdo ao qual Abraão se submete, Kierkegaard diz não ser capaz de compreendê-lo completamente. Se o patriarca ficasse somente na esfera do estádio ético seria possível entende-lo melhor, mas, contudo, qual cavaleiro pronto para a batalha, Abraão salta do estádio ético para o estádio religioso quando escolhe, na fé, fazer o que Deus lhe pede:

sacrificar Isaac, o filho da promessa. Como forma de dar sustentação a seus argumentos em favor da suspensão teleológica da moral realizado por Abraão, Kierkegaard evoca três figuras do passado. Duas da cultura grega e uma do Antigo Testamento. Retomando suas histórias, o dinamarquês busca fazer compreender que esses personagens são heróis de fato, pois suas ações obedeceram a necessidades morais que se harmonizavam ao pensamento geral dos demais. Ainda que tivessem sofrido por causa da ação que praticaram, não haviam saído da esfera moral. O que não é o caso de Abraão. Traz primeiro o caso dos heróis trágico Agamenom que precisa sacrificar Ifigênia, sua filha, para acalmar a ira dos deuses, pois, do contrário as condições climáticas não lhe seriam favoráveis na guerra marítima que comandava contra Troia. Depois relembra Jefté, figura do Antigo Testamento. Um dos doze juízes de Israel. Esse prometera a Deus que sacrificaria a primeira pessoa que aparecesse em sua frente caso

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conseguisse sair vitorioso do combate contra os amonitas. Para sua tristeza, a primeira pessoa a lhe aparecer após voltar da guerra fora sua única filha. Por último, Brutus, cônsule da República de Roma que, para cumprir com suas obrigações militares teve de levar a cabo o julgamento dos próprios filhos que tinham se rebelado contra a mesma República, condenando-os à morte. Kierkegaard conclui desses casos, comparados com o de Abraão, que o patriarca fizera algo muito maior, porque fugira a toda regra moral em virtude de um sentido acima de toda moralidade. Ao subir o monte Moriá para sacrificar Isaac, ele não tem por motivo acalmar a ira dos deuses como Agamenom; ou cumprir uma promessa feita pelo resultado favorável obtido em campo de batalha; nem mesmo a defesa dos interesses dos políticos da república. O herói trágico pode ser justificado, mas Abraão, não. É o que Kierkegaard faz notar em Temor tremor:

A diferença que distancia o herói trágico de Abraão é evidente. O primeiro prossegue ainda na esfera moral. Para ele toda a expressão da moralidade possui o seu TELOS em uma expressão superior da moral; limita essa relação entre pai e filho, ou filha e pai a um modo se sentir cuja dialética é referente à ideia da moralidade. Consequentemente não temos aqui uma suspensão teleológica da moralidade em si mesma. (2009, p. 53)

Abraão está só. O que não que dizer abandonado a si mesmo, mas, encontra na solidão da escolha individual que foge a qualquer regra estabelecida racionalmente, pois, tem um dever para com Deus. Precisa para isso adentrar numa esfera de relação a qual ninguém posse acessar a não ser o próprio indivíduo Abraão. Ele soltou todas as rédeas de segurança da existência ética para entrar na posse da existência autentica e plena de sentido que é o estádio religioso mediante o movimento paradoxal da fé. É nesse sentido que Kierkegaard depois de esclarecer quão diferente é Abraão do herói trágico, revela porque o pai da fé decidiu ir além da moral e suas implicações, aceitando ser submetido à prova divina de sacrificar Isaac:

Muito outro é o caso de Abraão. Através de seu ato foi além de todo estágio moral; tem para além disso um TELOS diante do qual suspende esse estágio.

Então, por que motivo o fez Abraão? Por amor de Deus, como de modo

inteiramente idêntico, por amor a si próprio. Por amor de Deus porque exigia este essa prova de fé; e amor a si próprio para realizar a prova. Esta conformidade acha o seu termo apropriado na frase que sempre tem designado esta situação: é uma prova, uma tentação. Contudo, que significa isso de tentação? Em geral, pretende desviar o homem do dever; porém aqui a tentação é a moral, zelosa de impedir Abraão de concretizar a vontade de Deus. Que significa, então, o dever? A expressão da vontade de Deus. (2009, p. 53-54)

] [

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O amor de Abraão por Deus o faz ter para com o mesmo um confiança inabalável

originada na fé em que se baseia. Acima de todo dever moral, o patriarca descobre o dever

para com Deus como a primeira coisa a ser cumprida e isso implica em suspender teleologicamente a esfera ética, a moralidade.

A suspensão teleológica da moralidade realizada por Abraão o coloca numa relação

absoluta com o absoluto onde ele é o único responsável pela escolha que faz, cujo movimento exigido para que seja concretizada é tão somente o absurdo paradoxal da fé. Não há mediações, há somente o indivíduo diante de Deus. Sem métodos, sem lógica alguma, sem questionamentos racionais. Kierkegaard, ao finalizar o problema levantado quanto a suspensão teleológica, deixa claro que Abraão não pode ser entendido. Que pela fé qual salto sem cálculos na relação com Deus o patriarca toma consciência do verdadeiro sentido, telos de sua existência. Eis o que diz em Temor e tremor:

A história de Abraão implica uma suspensão teleológica da moral. Como Indivíduo, foi além do geral. Este é o paradoxo que se recusa à mediação. Não se pode explicar nem como aí entra nem como aí permanece. Se este não é o caso de Abraão, nem mesmo ele consegue ser herói trágico, é um assassino. E então é estulto persistir em chama-lo pai da fé, e conversar sobre ele com pessoas que desejam escutar mais do que palavras. O homem pode vir a ser um herói trágico, pelas suas mesmas forças, porém não um cavaleiro da fé. Quando um homem se mete no caminho, doloroso em um sentido, do herói trágico, muitos devem estar prontos a aconselhá-lo; porém aquele que segue a estreita senda da fé, não há quem o possa auxiliar, nem quem o possa entender. (2009, p. 60-61)

Abraão foi além da moral. Passou do estádio ético para o estádio religioso que dentre os três estádios existências sobressai como superior aos demais e é aí que sua existência acontece de maneira autêntica. Não suprime a moral, como a partir de então ela deixasse de ter seu valor. Mas, o fato é que, encontra em Deus por meio da fé, o verdadeiro sentido último de tudo. Sentido que ultrapassa qualquer outro sentido. Em Abraão, Kierkegaard faz entrever o percurso e o processo a que deve se submeter todo indivíduo que escolher fazer o mesmo: crer com uma fé que é absurdo e paradoxo. Fé que leva a uma suspensão teleológica da moralidade. A uma superação do dever moral por outro totalmente incompreensível racionalmente que é a vontade de Deus, sentido último de toda existência.

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CONCLUSÃO

O presente trabalho procurou apresentar a partir da obra pseudônima Temor e tremor de Kierkegaard, a sua concepção de fé e seu argumento de que há uma suspensão teleológica da moral. Apresentando ideias centrais de seu pensamento à luz dos três estádios da existência por ele elaborados, foi possível perceber como sua obra encontra-se fundamentada em tal esquema de interpretação da existência: estádio estético, estádio ético e estádio religioso, sendo este último o que supera os demais e onde o indivíduo pode viver autenticamente sua existência. Em Temor e tremor ficam evidenciados os estádios ético e religioso e o processo de passagem que se dá de um para o outro mediante o absurdo paradoxo da fé. Somente na esfera religiosa onde todas as certezas racionais da ética são abandonadas para dar lugar à fé que não busca explicações é que é possível realizar uma suspensão teleológica da moral. Kierkegaard trás à tona a história de Abraão para desenvolver essa ideia da suspensão. Para provar a fé do patriarca, Deus pede-lhe o sacrifício do filho que tanto amava Isaac, em quem se encontrava a garantia de sua posteridade. Abraão escolhe, contudo, cumprir a vontade de Deus, esperando contra toda esperança. Admite não poder fazer nada diante de tal pedido: resignação infinita. Porém, acima de qualquer cálculo humano, acredita na providência divina: torna-se o Cavaleiro da fé. Pela moral, sua decisão de sacrificar o próprio filho é encarada como crime. Pela fé, sua decisão se justifica como ação santa em obediência a um pedido de Deus. O dever religioso acima do dever moral. Por isso, abandona todas as certezas do estádio ético, onde a razão determina os limites das escolhas e ações morais, onde há uma lógica a ser respeitada para, baseado na fé tão somente, que é absurdo e paradoxo, suspender toda moralidade, o geral, e ficar sozinho diante de Deus numa relação absoluta com Ele. Crendo, amando a Deus e a si mesmo, descobre-se autorizado a ir além da moralidade de sua relação paterna com Isaac e pronto a realizar o pedido divino. Temor e tremor ao trazer uma análise da história de Abraão, o pai da fé, foi desde sua publicação uma crítica de Kierkegaard às pretensões filosóficas da época de sistematizar e explicar tudo racionalmente. O sistema hegeliano havia imposto concepções extremamente lógicas e racionais onde a existência individual era tida como elemento objetivo e possível de ser explicado. Kierkegaard pela interpretação que faz do evento bíblico que narra a angustiante situação de Abraão frente a um pedido divino de que sacrificasse o próprio filho, demonstra que a lógica da razão não é capaz de responder e explicar tudo. Abraão não

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encontrou amparo racional para sua escolha. Restou-lhe o absurdo paradoxal da fé como única alternativa. Somente à luz da mesma fé é possível admitir a decisão do patriarca e concluir com Kierkegaard que, existe uma suspensão teleológica da moralidade.

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