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Cidades

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Natal, sexta-feira, 1º de janeiro de 2010 | NOVO JORNAL | 9

Útero artificial,

| CIÊNCIA | Novas técnicas de fecundação prometem revolucionar as relações sociais

Luana Ferreira, do Novo Jornal

SE VOCÊ TEM lhos com menos de dez anos, é possível que assista a seus bisnetos sen-

do gestados fora da barriga das

mães deles, em úteros arti ciais. Essas máquinas serão capazes

de reproduzir as condições de um útero e placenta naturais, dando o suporte adequado para

o desenvolvimento de um ser

humano durante nove meses, a

partir da concepção até o “nasci- mento”. Ficção cientí ca?

O pensador francês Hen-

ri Atlan, que durante 17 anos

acompanhou e discutiu o desen- volvimento de técnicas de repro- dução assistida e suas implica-

ções éticas no Comitê Consultivo Nacional de Ética para as Ciên- cias da Vida e da Saúde, na Fran-

ça, acredita não só que a ciência

caminha para isso como prevê mudanças profundas no com- portamento humano a partir da

disseminação da nova técnica. “A cada mês nós discutíamos sobre

as técnicas de fecundação assis-

tida. É evidente que ali se desen-

volveria um estudo até chegar ao útero arti cial”. Em 2005, cinco anos após

a saída do Comitê, Henri Atlan

lançou na França “L’ Utérus Ar- ti ciel” (“Útero Arti cial”, 128p,

publicado no Brasil pela Fio- cruz). Ele esteve em Natal dias 21 e 22 a convite do Grupo de Estudos da Complexidade (Gre- com) da UFRN e da Cátedra Iti- nerante Unesco/Edgar Morin e

apresentou durante 40 minutos suas ideias acerca do tema no sa- lão da livraria Siciliano do shop- ping Midway Mall.

O discurso claro e bem se-

quenciado do pensador “tele- transportou” (para usar um termo de ccção cientí ca) o público, com a ajuda do tradu- tor Adir Luiz Ferreira, para um mundo onde as mulheres não sofrerão mais a dor do parto e a relação entre pais e mães será ra- dicalmente igual. Isso, acredita, acontecerá em 60, 70 anos.

o futuro possível

FOTOS: ARGEMIRO LIMA/NJ
FOTOS: ARGEMIRO LIMA/NJ

Para Henri Atlan, as mudan-

cial podem ser imaginadas por-

tubo de ensaio e depois inseri-

o

será imaginado como uma téc-

outras mulheres irão querer usar

da Bíblia” – em que, ao comer a

ças provocadas pelo útero arti -

casal e paga pela inseminação. Outra questão que já vem

sendo discutida desde a criação

nica médica. Mas, rapidamente,

maçã da árvore do conhecimen- to, Adão foi condenado a ganhar

que elas já começaram com as

da pílula anticoncepcional é: ao

a

técnica porque isso seria uma

o

pão com o suor de seu rosto e

técnicas de reprodução assisti-

igualar biologicamente homens

forma de se libertar dos cons-

Eva a sentir as dores do parto.

da, como as barrigas de aluguel

e

mulheres, o útero arti cial

trangimentos da gravidez”.

“Temos que nos convencer de

mos cada vez menos e, por outro

(onde uma mulher carrega o con- cepto de outro casal no seu úte- ro). “Nessas condições, essa mu-

será visto como um instrumento de libertação feminina ou uma “armadilha” machista para fa-

dessa opinião, há também outras

Ao participar da criação de bebês apenas com o gameta e se igualar biologicamente ao homem,

que, graças à técnica, trabalha-

lado, as mulheres são cada vez

lher que deu o óvulo se encontra

zer a mulher abdicar do uso do

é

possível que as mulheres pas-

menos submetidas aos homens

em igualdade com o pai que dá apenas o espermatozóide”. Na inseminação in vitro (onde o óvulo e o espermatozói- de são fundidos dentro de um

dos na útero da mãe), a socie- dade, representada pelo médico, também participa da geração de um lho. Por isso, cada país já

seu próprio corpo? “Assim como acontece com as técnicas já exis- tentes, um certo número de mu- lheres vai reivindicar a liberdade do uso do seu corpo. No oposto

feministas que pensam exata- mente o contrário: o uso dessas técnicas assistidas é uma forma machista de despossuir as mu-

sem a abandonar seus lhos tanto quanto os pais atuais. A relação en- tre pais e lhos poderia seguir dois caminhos: um catastró co, que re- mete ao livro de cção “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, em que crianças são “fabricadas” para servir a uma sociedade totali- tária e, no outro extremo “uma so- ciedade liberal, democrática, onde

sofrem cada vez menos as do-

res do parto”. O público cou tão absorvido pelo tema que Henri Atlan passou outra meia hora respondendo às perguntas da plateia. Nem a sua mulher, a psicanalista Bela Atlan, resistiu. “Será que o útero arti cial vai provocar mudanças no nível do sagrado?”, perguntou. “Isso é

e

adota maneiras diferentes de li-

lheres do uso do seu corpo. So-

o

útero arti cial poderia ser uma

sabotagem”, sorriu o pesquisador,

dar com o problema: nos EUA e

mos então remetidos a uma mi-

maneira, entre outras, de construir

para depois “sair pela tangente”.

Canadá, por exemplo, qualquer pessoa pode usar a técnica, des-

tologia antiga da guerra entre os sexos para saber a quem vai per-

essa liberdade”. Para o pensador, o útero ar-

“A priori, não há nenhuma razão para pensar que o útero arti cial

de que tenha dinheiro para isso;

tencer a criança”, imagina Atlan.

ti

cial pode signi car a liberta-

produza qualquer tipo de mudan-

na França, o estado decide com

“Inicialmente, o útero arti cial

ção das mulheres da “maldição

ça

em relação à noção do sagrado”

“Inicialmente, o

útero artificial

será imaginado

como uma

técnica médica”

Henri Atlan

cientista

   

ENTREVISTA HENRI ATLAN

 
não apenas o trabalho científi- co propriamente dito, mas tam- bém que essa técnica seja

não apenas o trabalho científi- co propriamente dito, mas tam- bém que essa técnica seja aceita

miliar e do tipo de relação que os adultos, o pai e a mãe, terão com

a utilização de seres humanos, onde evidentemente se coloca

e

o

bebê. Os dois são possíveis: seja

problemas éticos.

socialmente. Por exemplo, uma técnica biológica não muito difí-

algo positivo, seja algo negativo.

 

Como os países vêm rea-

cil

e que já está sendo realizada

O senhor fez parte do Con- sultivo Nacional de Ética para as Ciências da Vida e da Saú- de durante 17 anos. Quais são os grandes dilemas éticos da atualidade?

gindo a esse dilema? Do lado de países de tradição

católica, claro que a resistência

em animais e ninguém ousa fa- zer em humanos: a fabricação de quimeras (fusão do material ge-

é

total, porque a Igreja Católica

nético de duas espécies). É fácil, depois de quase 30 anos, fundir

impede a utilização de qualquer tipo de células tronco-embrioná-

o

embrião de uma cabra com o

rias. Mas existe também resistên-

de um carneiro. O que vai sair é

Existe um grande debate atualmente sobre o uso de célu- las tronco-embrionárias. São de- bates difíceis, porque tratam da natureza do embrião. Essa ques- tão da natureza do embrião mu- dou por causa da técnica. Exis-

cia em países protestantes, como

Novo Jornal - Qual o obje- tivo de tentar prever mudan- ças provocadas por técnicas médicas que poderão ser uti- lizadas daqui a mais de meio século? Henri Atlan - Isso se refere a uma revolução que começou há um século, e esta revolução tem uma consequência social. Então, é importante que, ao lado dessa

um animal metade cabra, meta- de carneiro. Então, poderíamos fazer isso com embriões huma- nos, mas ninguém fez isso.

é

o caso dos Estados Unidos,

onde George Bush se opôs com- pletamente ao uso dessa técnica. Agora, isso mudou.

Desde que o senhor publi- cou Útero Arti cial, há quatro anos, alguma de suas ideias mudou?

Não, praticamente não porque

te

muita resistência de parte de

pessoas que pensam que o em-

brião é um ser humano sagrado desde a fecundação. Mas outras não pensam assim, sobretudo se

há muitos poucos pesquisadores que trabalham nesse campo.

o

embrião não é um verdadei-

 

ro

embrião, se foi produzido por

  ro embrião, se foi produzido por

revolução, possamos imaginar essas consequências sociais tão importantes.

Isso pode interferir de al- guma forma no curso da histó- ria da ciência? Sim, porque para que uma técnica se desenvolva, é preciso

O senhor falou que as rela- ções entre pais e lhos vão - car cada vez menos biológicas e mais humanas. Isso vai apro- ximá-los ou afastá-los? Os dois são possíveis. Tudo de- penderá da natureza do núcleo fa-

clonagem, onde não há fecunda- ção, ou a partir de células tronco pinçadas de um tecido adulto. Então há muitas formas de fabri- car células-tronco a partir de em-

briões e há muitas nuances en- tre utilização das células em que não se impõe problemas éticos

 

ENTREVISTA CONCEIÇÃO ALMEIDA*

Novo Jornal - O que é o Grecom? Conceição Almeida - O Gru-

Por que estudar a com- plexidade? A noção de complexidade se torna um conceito na ciência a par-

po de Estudos da Complexidade

é

um espaço de reflexão para

tir da metade do século XX e nas- ce em diferentes áreas do conhe- cimento: física, teoria dos sistemas, cibernética, entre outras. A ideia de

pesquisadores que se afinam com a construção de um conhe- cimento de natureza transdiscipli-

nar, mas universalista e que religa ciências da matéria, ciências da vida e ciências do homem.

complexidade diz respeito à com- preensão de certos fenômenos que têm muitas causas e sobre os quais é impossível prever sua dinâmica e seu futuro. O complexo é o que não

 

Quem participa do Grupo?

Ele

é composto por dez pro-

pode ser reduzido a uma de suas dimensões. É diferente de compli- cado, porque o que é complicado pode ter uma resolução desde que se decomponha em partes. O gran-

fessores doutores ligados ao De- partamento de Educação, De- partamento de Ciências Sociais, Departamento de Comunicação

e

também reúne pesquisadores

de construtor da ideia de complexi- dade e de um método complexo de investigação científica é o pensa- dor francês Edgar Morin.

de distintas áreas do conheci- mento (educadores, filósofos, fí- sicos e cientistas sociais).

 

Como ele surgiu?

Qual a ligação de Henri

O

Grecom é a ampliação de

Atlan com o grupo? Essa é a segunda vez que

um grupo de estudos sobre ciência

e

conhecimento, conhecido como

Henri Atlan é convidado pelo Grecom. Desde 1995 o grupo tem se dedicado à compreen- são de suas ideias que aparecem como base em dissertações de mestrado e teses de doutorado.

Grupo Morin, criado em 1992. Em 1994, passou a se constituir numa base de pesquisa sobre comple- xidade e é o primeiro grupo com essa temática da América Latina.

 

*Conceição Almeida é Prof. da UFRN e membro do Grecom