O golpe de 1964 e a instauração da ditadura civil-militar no Pará: apoios e resistências The coup of 1964 and the establishment

of civil-military dictatorship in Pará: supports and resistances
Pere Pe tit e Jaime Cuéllar

Em 1964, estávamos a 19 anos de distância do fim da ditadura do Estado Novo. E não fazíamos, nós estudantes, a menor idéia do que era um golpe militar, do que era uma ditadura e as terríveis consequências da supressão das liberdades democráticas, do medo, das perseguições, das prisões arbitrárias, das torturas, dos assassinatos políticos, do exílio de lideranças e talentos, da censura, do cerceamento da liberdade de ensino, das perdas incalculáveis em ciência e tecnologia e para a formação de uma inteligência nacional livre, corajosa e criadora. Pedro Galvão, presidente da União Acadêmica Paraense de novembro de 1963 a abril de 1964

Pere Petit é doutor em História Econômica pela USP e professor da Faculdade de História da Universidade Federal do Pará (UFPA) (petitpere@hotmail.com), e Jaime Cuéllar é mestrando em Comunicação, Linguagens e Cultura na Universidade da Amazônia e professor da Secretaria de Educação do Pará (Seduc-PA), (jcvelarde31@hotmail.com). Artigo recebido em 31 de dezembro de 2011 e aprovado para publicação em 4 de abril de 2012. Est. Hist., Rio de Janeiro, vol. 25, nº 49, p. 169-189, janeiro-junho de 2012.

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Pere Petit e Jaime Cuéllar

Introdução Ainda que seja inegável o protagonismo da cúpula das Forças Armadas, sobretudo do Exército, no vitorioso golpe de estado iniciado no dia 31 de abril de 1964 e na posterior instauração e consolidação da ditadura civil-militar, a relativa facilidade da vitória dos militares golpistas seria impensável sem o apoio de amplos setores da sociedade civil liderados pelos políticos conservadores, empresários e fazendeiros, entre outros atores e instituições, pela maioria dos membros da hierarquia da Igreja Católica e pelos meios de comunicação de massa. Foram esses setores que alimentaram durante anos, sobretudo a partir de 1961, a luta contra os reformistas-populistas e contra a crescente influência na sociedade brasileira dos partidos e organizações de esquerda, especialmente o Partido Comunista Brasileiro (PCB). Tal constatação se impõe sem desmerecer, nunca, o apoio ideológico, econômico e militar do governo dos Estados Unidos aos golpistas no contexto internacional da Guerra Fria e do impacto no continente americano da Revolução Cubana e, portanto, da disputa político-ideológica entre partidários do sistema capitalista e socialista no mundo. Estas páginas sintetizam os resultados e reflexões das pesquisas realizadas pelos autores sobre a ditadura civil-militar no Pará (1964-1985) e se alimentam, além de fontes oficiais e hemerográficas (jornais e revistas de Belém), de livros de memórias, artigos que examinam a produção historiográfica sobre o regime militar e entrevistas realizadas em 2011 com alguns líderes do movimento estudantil e dos partidos de esquerda no Pará em 1964. Entre os livros de memórias destacamos o intitulado A Planície (1990), escrito pelo principal articulador do golpe de estado no Pará, o ex-governador e ex-ministro Jarbas Passarinho,1 e sobretudo 1964: relatos subversivos – os estudantes e o golpe militar no Pará (2004), no qual se recolhem os textos de oito pessoas que tiveram destacada participação no movimento estudantil paraense e que apresentam algumas das suas recordações e reflexões sobre os acontecimentos políticos ocorridos no Pará em 1964. A edição de mil livros, financiada pelos próprios autores, foi rapidamente consumida pelo público, ávido por novidades na produção sobre a ditadura civil-militar instalada no país 40 anos antes. Carlos Fico explicava, em 2004, que o crescente número de publicações, seminários e debates sobre o regime militar relaciona-se ao fato de que velhos mitos e estereótipos estão sendo superados, graças tanto à pesquisa histórica factual de perfil profissional quanto ao que poderíamos caracterizar como um “desprendimento político” que o distanciamento histórico possibilita: tabus e ícones da esquerda vão sendo contestados sem que tais críticas possam ser classificadas como “reacionárias”. Ao mesmo tempo, também vão sendo abandonados clichês sobre o golpe de 64, os militares e o regime, como a ideia de que só após 1968 houve tortura e
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Pela manhã Ramagem ainda estava muito reticente em apoiar o golpe Est. Rio de Janeiro. sob comando do general Amaury Kruel. a classificação simplista dos militares em “duros” ou “moderados” etc. p. em suas diferentes fases de governo. certamente. sediada em Belo Horizonte. o Brasil está. pela primeira vez desde abril de 1964. Iniciava-se o vitorioso golpe de estado que instauraria a ditadura civil-militar que perduraria. quando. mas a lógica e a consistência interna das versões e informações fornecidas pelos indivíduos escolhidos como “material histórico”. um civil. o general Olympio Mourão Filho. Entre memória e história existem entrelaçamentos e autonomias. por sabê-la inexoravelmente seletiva. 2011) nas quais ficaram mergulhadas por força das circunstâncias. condicionada pelo momento no qual as falas são emitidas e os textos são escritos e retocados para serem feitos públicos. se reunia com o tenente-coronel Jarbas Passarinho e os membros do Exército. Passados 27 anos do fim da ditadura civil-militar. Quanto à memória.O golpe de 1964 e a instauração da ditadura civil-militar no Pará censura. José Sarney. comandante da 4a Região Militar. sempre controladas pelas Forças Armadas. Minas Gerais. as testemunhas daqueles anos emergem das “zonas de silêncio” (Pacheco. nº 49.. bem distante de medos de represálias típicos dos tempos de práticas ditatoriais. Hist. Hoje. às vezes unilateral e. Marinha e da Aeronáutica que integravam o CMA. A “Revolução de 1964” no Pará No dia 31 de março. 169-189. chefe do Comando Militar da Amazônia (CMA). nos seus discursos ou nos seus textos autobiográficos. Jarbas Passarinho foi quem intermediou a conversa por rádio-amador entre Ramagem e o QG do II Exército (São Paulo-Mato Grosso). de cotejá-la. o general Orlando Ramagem. sempre. vol. a impressão de que as diversas instâncias da repressão formavam um todo homogêneo e articulado. os quais nos fornecem verdades parciais que usamos como materiais para construir nossos textos após dialogar com nossas visões de mundo. janeiro-junho de 2012. considerado um militar “legalista” como o general Ramagem. assumiu a presidência da República. podemos falar em uma nova fase da produção histórica sobre o período (Fico. Em Belém. Por tudo isso. ordenou às tropas sob seu comando que se dirigissem ao Rio de Janeiro para exigir a renúncia do presidente João Goulart. 25. O que importa não é propriamente a correspondência entre a/s memória/s e o processo histórico que pretendemos “reconstruir” e “refletir”. sabemos todos da necessidade de contextualizá-la. 2004: 30). a versão de que os oficiais-generais não tinham responsabilidade pela tortura e o assassinato político. subjetividades e pretensões de cientificidade. 171 . até março de 1985. seja nas entrevistas. de criticá-la. no dia 1° de abril.

considerado até aquele dia um dos homens de confiança do esquema militar do presidente Jango. O governador do Pará. como fora sugerido pelo Estado-Maior do Comando Militar da Amazônia. Entretanto. e igualmente repudiando o comunismo ateu e tirânico.] parecia uma incógnita para os líderes da conjura local. nº 49. Aurélio do Carmo também aceitou que seu nome fosse incluído entre os signatários do Manifesto ao Povo do Pará. Seu comportamento por isso foi expectante e aderente ao golpe depois de sua consumação (Barata. . ligados pelo mesmo amor ao Brasil. o apoio à “Revolução”. mas a partir da conversa com o general Kruel. Hist.. 25. relutava em manifestar publicamente o apoio aos golpistas. e o vice-governador. 1968: 31). Assim. encontrava-se no Rio de Janeiro. No dia 1° de abril a maioria dos militares e governadores do país tinha aderido ao golpe.. em telegrama remetido a Belém. a situação no Centro-Sul do país já se definira – o governo paraense do [Partido Social Democrático] PSD/ [Partido Trabalhista Brasileiro] PTB optou pelos vitoriosos” (Tupiassu. como recomendava a virtude da prudência e o desejo do não derramamento de sangue dos amazônidas. Aurélio do Carmo. 169-189. Tão pronto alguns problemas locais foram satisfatoriamente solucionados.Pere Petit e Jaime Cuéllar de estado. pelo seu governador. por volta das 15 horas aderiu ao golpe. Ramagem era anticomunista e participara da Cruzada Democrática. Rio de Janeiro. janeiro-junho de 2012. Governo e Comandantes Militares. Não foi este o caso do governador do Amazonas e do interventor federal no Amapá. e os militares. A figura do general Orlando Ramagem [. que tornaram pública sua oposição ao levante militar. Nos primeiros parágrafos do Manifesto. retardar por mais tempo a sua completa adesão ao abençoado movimento. fazem saber à 172 Est.. 2004: 281). o governador manifestou. Mas nada indicava uma vocação golpista. em íntima comunhão de pensamento. através do qual autoridades civis e militares mostraram sua solidariedade ao movimento militar. como escreveu o cientista político paraense Amílcar Tupiassu: “Quando uma atitude foi explicitada. já na noite daquele dia... que eclodiu no generoso solo de Minas Gerais [. que logo se irradiou por todo o território pátrio. A. cuja redação foi encomendada pelo general Orlando Ramagem a Jarbas Passarinho. lia-se: Não poderiam os paraenses. vol. grupo que se antagonizou a Estillac Leal e a Lott nas disputas dos anos 50 no Clube Militar. por seus chefes legítimos. p.]. R. Newton Miranda..

o que representou a aspiração de todo povo brasileiro. p. criando condições essenciais à urgente reconstrução econômica. a autoridade do novo presidente da República e suas normas traçadas de governo constituem uma segurança para todos os brasileiros. Moura Carvalho: No momento em que a nação retorna à plenitude do seu regime democrático como resultado do esforço patriótico das nossas gloriosas Forças Armadas. dentro dos postulados constitucionais que fixaram como base da organização das Forças Armadas. Após seu retorno a Belém. a posição lúcida assumida pelo governador Aurélio do Carmo. que não faltou nessa hora com sua palavra de fé no regime democrático e na defesa da Constituição (A Província do Pará.O golpe de 1964 e a instauração da ditadura civil-militar no Pará Nação brasileira a sua firme e inabalável determinação de formarem ao lado das forças que se batem pela restauração do princípio da autoridade e pelos fundamentos da própria organização militar.. nº 49. No dia 4 de abril. 173 . janeiro-junho de 2012. presidente da República: Combatendo a inflação. Acompanhei. o telegrama remetido por ele a Castelo Branco. dentro das contingências impostas pelos últimos acontecimentos. 25. 4/4/1964). 1990: 105-106). pelo Congresso Nacional. nessa atitude. Desde os primeiros instantes da crise coloquei-me ao lado daqueles que desejam devolver a tranquilidade e a paz ao nosso povo. o princípio da disciplina e da hierarquia. Rio de Janeiro. aliás. o governador Aurélio do Carmo também apoiou a proposta de que o novo presidente da República fosse o general Castelo Branco. Vejamos. desejo na qualidade de militar e com a responsabilidade de uma liderança partidária proclamar a incontida vibração de que me acho possuído por esse acontecimento histórico que significa o esmagamento definitivo da traição e dos inimigos da Pátria. vol. 169-189. e restabelecendo as liberdades públicas. no mesmo dia em que este foi escolhido. promovendo a regulamentação de nosso crédito externo. a seguir. os jornais de Belém reproduziam uma nota oficial do presidente do PSD no Pará e prefeito de Belém. em nome da coletividade que nos honrou com sua Est. Hist. Começando com as esperanças gerais. tão vilmente vilipendiados e enxovalhados pela mais despudorada demagogia e pela deplorável ausência de espírito público (Passarinho. que são a disciplina e a hierarquia.

o advogado e escritor Benedito Monteiro foi quem maior número de votos obteve. fundador no Pará do PSD. primeiro suplente na chapa do PTB-PSB para a Câmara Municipal de Belém. A máquina político-eleitoral criada por Magalhães Barata. Nesses anos militantes e militantes do PCB candidatavam-se a mandatos eletivos pelo PTB ou pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB). continuou sendo o principal partido de esquerda no país até a fundação do Partido dos Trabalhadores (PT). num momento em que o mundo entrava em plena Guerra Fria. Retornando ao passado para tentar compreender . O PCB. 15/4/1964). 25. no fim do Estado Novo. Dos seis deputados estaduais eleitos pelo PTB em 1962. 1964 No dia 29 de maio de 1959. que se sustentava no seu carisma. congratulo-me com o Excelentíssimo Senhor General Humberto de Alencar Castelo Branco pelo período administrativo que hoje se inicia e formulo os mais veementes votos pela sua felicidade pessoal (A Província do Pará. Em janeiro 1948. o PSD elegeu quatro dos dez deputados federais paraenses e 17 dos 37 membros da Assembleia Legislativa. líder do PCB e presidente do Sindicato dos Bancários de Pará e Amapá. Hist. nº 49. Fundado em 1922. ao eleger o advogado Aurélio do Carmo governador. o PCB obteve sua legalização em 1945. 169-189.. interventor federal entre 1930 e 1935 e entre 1943 e 1945. entre eles o deputado estadual paraense Henrique Felipe Santiago. Embora na ilegalidade. tentaram impugnar sua eleição. O PCB 174 Est. mas também nas relações clientelísticas com os comerciantes e grandes proprietários de terra que asseguravam ao PSD o controle de boa parte das prefeituras dos municípios do interior. no movimento estudantil e no meio intelectual e artístico. janeiro-junho de 2012.. Rio de Janeiro. morria em Belém uma das principais lideranças políticas do Pará no século XX: Magalhães Barata. nem tampouco as que se voltavam contra o jornalista. especialmente nos sindicatos urbanos e rurais.Pere Petit e Jaime Cuéllar confiança nas urnas. vol. Militar. voltou à clandestinidade ao ter cancelado seu registro pelo Superior Tribunal Eleitoral (7 de maio de 1947) e serem cassados pelo Congresso Nacional (7 de janeiro de 1948) os mandatos de todos os seus representantes eleitos entre 1945 e 1947. o PCB exerceu considerável influência na política nacional e no cenário político paraense até o golpe de estado de 1964. obteve uma nova vitória em 1960.. tenentista. . apesar das inúmeras cisões que sofreu na década de 1960. acusando Monteiro de comunista e subversivo. Raimundo Jinkings. Os comandantes do Estado-Maior do Comando Militar da Amazônia. p. eleito senador em 1945 e governador em 1955. mas suas alegações não foram aceitas pelo Tribunal Eleitoral. Nas eleições de 1962.

entidade que reunia os diferentes Diretórios e Centros Acadêmicos da Universidade do Pará. Com essa finalidade. em sindicatos de Belém e entre camponeses da microrregião Bragantina. R. entre outros... a AP nasceu no período em que a UNE Volante se deslocou por todo o Brasil (Barata. De todas essas organizações. ainda que a Polop também contasse com um pequeno grupo de simpatizantes em Belém. no Jornal do Dia e . petroleiros e bancários. três presidentes da União Nacional dos Estudantes — UNE: Aldo Arantes. Vinicius Brandt e José Serra.. p.O golpe de 1964 e a instauração da ditadura civil-militar no Pará liderava no Pará. a Organização Revolucionária Marxista-Política Operária (ORM-Polop) e organizações trotskistas eram as principais forças políticas que. apenas AP dispunha de relativo peso político no Pará antes do golpe militar. cuja diretoria era compartilhada com o PCB e o grupo dos denominados independentes. as lideranças locais tanto do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) e da União Acadêmica Paraense (UAP). militantes da AP lideravam o movimento dos estudantes secundaristas e o Sindicato dos Metalúrgicos e tinham bastante influência na União Acadêmica Paraense (UAP).. Na primeira metade da década de 1960. A AP foi fundada em 1962 por membros de entidades ligadas à juventude católica. Hist. ambas as entidades publicaram notas de repúdio e chamadas à mobilização. No Pará. afirmando-se como corrente forte capaz de eleger. o manifesto do CGT. Segundo o jurista Ronaldo Barata. nº 49. competiam com o PCB. a Ação Popular (AP). o Partido Comunista do Brasil (PCdoB). sobretudo à Juventude Universitária Católica (JUC) e à Juventude Estudantil Católica (JEC). Em Belém. 2 na Folha Vespertina. liderança do movimento estudantil e militante do PCB em 1964: Foi no seio da juventude universitária que a AP construiu o seu setor mais numeroso. 2004: 125-126). da UAP ambos reproduzidos. posteriormente. janeiro-junho de 2012. como do PCB e da AP tentaram organizar os trabalha. dores e estudantes de Belém e de outros municípios paraenses para se contrapor aos golpistas. 175 . Tentando resistir: sindicalistas. a seguir. que não manifestaram nenhuma repulsa formal contra o levante militar. vice-governador e prefeitos do Pará. Rio de Janeiro. estudantes. Est. Vejamos. os sindicatos dos estivadores. no espaço da esquerda. e. 25. vol. no dia 1° de abril. 169-189. Diferentemente do governador. Sua atuação no Pará centrou-se no movimento estudantil. em aliança com o PCB.

trabalhadores. além de outros. O estudante do curso de Direito José Seráfico de Carvalho. ao tentar sair pela porta de entrada – enquanto todos corriam pela porta dos fundos – foi recebido com uma bofetada pelo coronel “Peixe-agulha”. UAP: Nota Oficial A União Acadêmica Paraense. sargentos. aglutinando forças que deverão entrar em ação a qualquer momento. assim. por meio de um alto-falante. 25. recebeu ordens de prender os “subversivos” que pudessem colocar em risco todo o aparato montado desde o Centro-Sul até Belém. o coronel José Lopes de Oliveira (“Peixe-agulha”). À noite. Bancários. . 176 Est. era de alerta. em caso de ordem do CGT. estado no qual Leonel Brizola. A situação. Todos os dispositivos de arregimentação acham-se em célere funcionamento. Lá. como fizera em 1961. Hist. que foi voto vencido na aprovação dessa ação. No dia 1° de abril as aulas foram suspensas pelas autoridades. resolve: 1 – Decretar greve geral dos universitários paraenses até que seja destruído todo o esquema golpista que ameaça o Brasil.. irradiavam hinos patrióticos. telegráficos. Na tarde desse mesmo dia. e atentando à orientação da União Nacional dos Estudantes. considerando que se desenvolve no país um processo golpista contra o mandato do Presidente da República. janeiro-junho de 2012. em intensa manifestação. Motoristas. que encarna. a UAP foi invadida por indicação de Jarbas Passarinho e com reticências do general Orlando Ramagem. Hoje estarão reunidos os Estivadores. cumprindo decisão de seu Congresso Extraordinário ontem realizado. soldados. Marítimos.. nº 49. 2 – Conclamar todos os oficiais. vol. em face dos acontecimentos. Um emissário deveria seguir hoje para o Rio. acompanhando a Vigília Cívica pela Democracia convocada pela UAP na sua sede na avenida São Jerônimo (hoje José Malcher). Rio de Janeiro. Para afirmar posição nesse sentido reuniram-se ontem a Federação dos Marítimos. sobretudo do Rio Grande do Sul. e muitos estudantes universitários e secundaristas se concentraram na sede da UAP . canções libertárias e notícias das rádios legalistas. com missão especial. camponeses e o povo em geral para cerrarem fileiras em torno do Presidente da República. desde ontem. 169-189. Operários Navais e PUA. que esta madrugada decretou greve geral. os Sindicatos do Petróleo. os sentimentos reformistas de libertação do povo brasileiro. tentava organizar a defesa da legalidade e a permanência de João Goulart na Presidência da República. neste momento. Arrumadores. Náuticos. Alfaiates.Pere Petit e Jaime Cuéllar Trabalhadores e estudantes unidos contra o golpe Os trabalhadores paraenses estão.. p.

que construímos no quintal da sede (. ao invés de correr para trás. entrevista realizada em Belém em 9/10/2011). armários. que. parecia que não tinha mais volta. ao ser indagado.. descreveu aquela violência com tanta precisão que pareceu ter visto. de arma em punho.O golpe de 1964 e a instauração da ditadura civil-militar no Pará . porque ele trazia a destra vazia.. vi a brutalidade irracional investindo contra cadeiras. 177 . Vi uma bandeira brasileira estraçalhada no assoalho. sobre ter presenciado o gesto do agressor. A UAP havia sido invadida e depredada por uma tropa do Exército comandada pelo famoso coronel José Lopes de Oliveira. nº 49. vol. O movimento universitário. mimeógrafos. Nas janelas da frente da UAP fomos surpreendidos pela chegada espaventosa da tropa. Fui recebido ou recebi o coronel. e também as que foram entrevistadas em 2011. com um bofetão no lado esquerdo do meu rosto.). afirma Pedro Galvão. 169-189.relatos subversivos. p. deitando nas calçadas e no asfalto. em entrevista realizada em 25 de maio de 2011. Todas as lideranças do movimento estudantil de Belém que escreveram seus relatos para o livro 1964 .. e eu. Entretanto. onde posicionavam os tripés de suas metralhadoras apontadas contra nós. mencionaram o ataque à sede da UAP como o momento mais representativo da vitória dos golpistas no Pará e como um dos momentos mais traumáticos em suas vidas e na história do movimento estudantil paraense. o Teatro de Arte Popular. uma pistola na sua mão esquerda (. na entrada. corri ao encontro dos militares para enquanto eles se preocupavam em entrar eu sair e tentar me escafeder. Rio de Janeiro. varando os quintais vizinhos (.). a rapaziada escapando pelos fundos. em seu livro de memórias. tinha acabado. a cena teve tamanha repercussão que.. a democracia do bofete (José Seráfico de Carvalho. mesas. me julgando mais esperto do que os colegas. O processo ditatorial no Pará. equipamentos de som. e foi melhor não ver.. o movimento estudantil. galgando muros.. 25.. vi a turma de estudantes de braços erguidos contra as paredes no salão. o nosso teatrinho ser destroçado. Est. Hist. segundo as memórias dos então estudantes. soldados avançando no marche-marche típico da ordem unida militar. 2004: 19-20).).. disponível para esse ato da democracia em que ele acreditava naquele momento. Eles invadiram. Aquele gesto foi símbolo do destempero. Daí para frente tudo foi correria e atropelo. respondeu que “não lembrava” de ter visto ou não. Vi o medo no ar (Galvão. Não vi.. janeiro-junho de 2012.

colombianos. Por alguma feliz razão. surpreendidos dentro e fora da UAP foram presos (Cortez. filhos de fazendeiros em sua maioria. os “lenços brancos” invadiram o auditório antes do momento combinado com oficiais da PM: Poderia ter sido uma carnificina. Mickey entrou berrando palavrões. esporeado pelos nervos. 169-189. o Mickey Lobato. 25. p. A tropa só chegaria depois.. venezuelanos e peruanos e parte da diretoria da UNE. Na noite de 30 de março. um daqueles rapazes [que fazia parte dos chamados “lenços brancos”].. eu estava dentro e escapei [. a capital do Pará conheceria a violência das elites burguesas e dos militares golpistas.]. nº 49. Era para ser uma ação sincronizada entre os invasores.]. quando já conseguiríamos serenar os ânimos. com manifestação popular de aplausos dos que apoiavam e da “maioria silenciosa” presente em frente da sede da UAP . Alguns colegas. guianenses. A noite dos “Lenços brancos” Dias antes.). se esta miserável memória não me trai (. interrompendo o discurso do representante da Nicarágua... no quarteirão da São Jerônimo.. que estava sendo realizado no auditório da antiga Faculdade de Odontologia. com organização da UAP haviam chegado a Belém estudantes de dife. tido como do esquema militar do Jango – imagina se não fosse! –.Pere Petit e Jaime Cuéllar apelidado “Peixe-agulha”. 2004: 21). Jarbas Passarinho. alguns anos mais tarde. rentes municípios paraenses e de outros estados brasileiros. estudantes argentinos. 2004: 53-54). A invasão deveria ter acontecido em sincronia com a ação da Polícia Militar. um dia antes do levante militar em Minas Gerais. bando de comunas filhos da puta” (Galvão. e uma força da Polícia Militar do Estado. Hist. E só não o foi porque houve uma precipitação. talvez exagerando. . por alguns “lenços brancos” [.. estudantes de Belém e da ilha do Marajó e membros da Polícia Militar iniciaram sua denominada “Revolução” tentando impedir o ato de abertura do SLARDES. 178 Est. gritavam “vamos acabar com esta merda. alguém me contou.. janeiro-junho de 2012. entre Rui Barbosa e Benjamim. Rio de Janeiro. Insuflados. dizem as boas e as más línguas. convocados pela União Internacional dos Estudantes (UIE) e a UNE. vol. cuja incumbência seria agredir e prender aqueles que não tivessem lenços brancos amarrados no pescoço. para participar do I Seminário Latino Americano de Reforma e Democratização do Ensino Superior (SLARDES). detonou a invasão alguns minutos antes do tempo. . bolivianos. Por sorte.

Essa classe média alta.. Ou quem devia prender. dissolvidos ou colocados sob intervenção. janeiro-junho de 2012. sindicalistas. secretário político. e muitas organizações e entidades sindicais. centenas de militantes dos partidos de esquerda.3 interrogar aos “subversivos universitários”. Ou quando chegasse a polícia.. cerca de 300 pessoas foram detidas durante e após o 1º de abril de 1964. militares e estudantes progressistas foram presos. o major Alacid Nunes. sobretudo. Forças militares e policiais. E que criaram uma associação pra enfrentar os esquerdistas e pra serem identificados numa hora de briga ou qualquer coisa. do Sindicato dos Petroleiros e da UAP . 179 . nº 49. Est. Rio de Janeiro. E com muitos filhos de fazendeiros do Marajó.. invadiram no 1º de abril as sedes. especialmente as Ligas Camponesas e os sindicatos vinculados ao CGT. vol. e Jocelyn Brasil. do PCB. 169-189.]. 2004: 301). Procurando e encarcerando os comunistas e seus aliados Nas semanas seguintes ao golpe de estado. R. No dia seguinte começaram as prisões em massa (Barata. algumas lideranças do PTB e PSD. No Pará. Jarbas Passarinho teve como principal objetivo localizar e prender aos membros do PCB. Que eram rapazes da chamada burguesia da época. Hist. aquela noite tinha sido pródiga em bons resultados. coronel reformado da Aeronáutica [. com quem eles estavam mancomunados. em Belém. do PTB. 25. Logo de cara prenderam duas importantes lideranças do PCB no Pará: Humberto Lopes. A.. Ficou sob a responsabilidade do futuro prefeito de Belém e governador do Pará. apoiadas por grupos civis. A maioria dos presos eram estudantes universitários. E foi a primeira vez que ocorreu essa manifestação deles (entrevista realizada em Belém em 3/3/2011). foram declarados ilegais. Os sindicatos sob influência do PCB também sofreram intervenção. Se buscavam comunistas. p. Então a identificação deles era o lenço branco amarrado no pescoço. lideranças sindicais e militantes da AP e. A polícia sabia em quem deveria baixar a porrada e em quem não deveria.O golpe de 1964 e a instauração da ditadura civil-militar no Pará Segundo o poeta e professor da UFPA João de Jesus Paes Loureiro: Naquela noite lá na SLARDES nós fomos vítimas da agressão dos “lenços brancos”.

Eles foram colocados do meu lado... Também foram presos o presidente do Sindicato dos Petroleiros. os discursos jornalísticos acabaram solidificando opiniões. ambos do PCB. e ali encontrei a representação mesmo do poder. passando por vários bairros como se eles quisessem nos mostrar. 169-189.). era uma Rural Willis. Depois nos levaram para o Quartel General na Praça da Bandeira (. Um comboio feito por aquela camionete e outros. Carlos Sá Pereira. Rio de Janeiro.. comandante do Estado Maior. morreu no Hospital Militar de Belém no dia 16 de maio de 1964. Pedro Galvão. mas. detido no município de Castanhal.. vol.Pere Petit e Jaime Cuéllar Pedro Galvão nos relata a sua detenção no dia 1° de abril: Aí eles me levaram para aquela camionete (. E era um direitista.). como vimos acima. fazendeiros e Igreja Católica: o velho e o novo bloco no poder Destaque especial contra as reformas democrático-progressistas e contra o “comunismo” tiveram os jornais.. presidente da União dos Lavradores da Zona Bragantina.. não me lembro qual primeiro nome dele.). presidente da UAP detido.. janeiro-junho de 2012. liberado.) dois homens em cuecas e escoltados por uns soldados. . até o momento que eu vi ao longe (.) comandantes do Exército... mas o apelido dele era “Cococa”. p. E depois de algum tempo nos levaram numa longa volta pela cidade. No caso da imprensa paraense. durante e após o golpe de estado. E alguns áulicos: Jarbas Passarinho.. os oficiais que estavam acompanhando o golpe (entrevista realizada em Belém em 25/5/2011). e o ex-deputado federal Ruy Barata. da 2ª Seção ou coisa assim.. produ180 Est. da Aeronáutica e da Marinha. 25. Estavam lá dentro (. que era apelidado de “Cococa”. que estavam prendendo (. Hist. . Me parecia um áulico. O vice-governador. e fiquei sozinho ali alguns minutos (. rádios e canais de TV. do Exército aqui em Belém. sendo registrada como causa de seu falecimento hepatite aguda. Jornais. Benedito Pereira Serra. desvelando outras. mas foi preso no município de Alenquer em meados de abril. acima de tudo. na Rural Willis. Se podia usar essa impressão: bajulando os golpistas. após a invasão da sede da UAP foi inicialmente .. Eram o Jocelyn Brasil e o Humberto Lopes. antes..). No final de junho de 1964 os presos políticos do Pará foram postos em liberdade.. mas seria novamente preso após ser aberto contra ele Inquérito Policial Militar. eu acho. nº 49.. O deputado estadual Benedito Monteiro (PCB) conseguiu fugir de Belém.

sobretudo através de artigos publicados no jornal católico a Voz de Nazaré.O golpe de 1964 e a instauração da ditadura civil-militar no Pará ziram discussões. R. Tratava-se de matérias que “desqualificavam” o ideário marxista como estratégia de embate ideológico que permeou a Guerra Fria. O “dedo duro” virava uma instituição política nacional. O “informante invisível”. como impositivo estratégico para o sucesso do golpe militar... Os artigos versavam sobre o “Perigo Vermelho”. e uns talvez até pirando. Est. Ao debate sobre as grandes nacionais. Os jornais a Folha do Norte e A Província do Pará foram os que mais se destacaram em Belém nessa empreitada.]. Personagem de inestimável relevância na “luta contra o comunismo” no Pará foi Dom Alberto Ramos.]. e reduzido a um punhal parado no ar com o suicídio de Vargas em agosto de 1954 (Barata. preferiam a forma tosca. universitária) eram automaticamente rotulados de comunistas. sanitária.. (Cortez. Ela iria a endurecer. confrontos e um sem número de imagens acerca do que fosse o perigo comunista ou a ameaça vermelha para a sociedade brasileira.. janeiro-junho de 2012. famosa coluna do fim de semana da Folha do Norte. 25. A. A direita estava eufórica e sorridente [. 2004: 55-56). Rio de Janeiro. Na sua visita ao jornal A Província do Pará. 2004: 277). 181 . “Cubanização”. Sousa. vol. todos aqueles que se alinhassem ao lado das reformas de base (agrária.. em agosto de 1961.. nº 49. arcebispo de Belém.. Jornais de Belém também colaboraram com os golpistas na “caça aos comunistas”: O anonimato da denúncia política e ideológica era incentivado e premiado. “Avanço Comunista” e outras expressões que instigavam os leitores a pensar esse regime sócio-político-econômico como um inimigo a ser combatido (Velarde. bancária.. 2011). Hist. Jarbas Passarinho afirma que era ele quem escrevia todos os editoriais do jornal A Província do Pará “na linha de oposição severa ao que se passava no Brasil” (Passarinho. outros foragidos. divulgava listas dos suspeitos recomendando as suas prisões. anteriormente desarmado na renúncia de Jânio Quadros. 2005. 1990: 85). cultivada com requinte [. mas historicamente eficaz: a satanização dos comunistas. Segundo Ruy Antonio Barata. p. A repressão estava apenas começando. Ninguém se sentia seguro. 169-189. Alguns colegas estavam presos. para os editorialistas de direita dos jornais do Pará.

além de declarar seu apoio ao levante militar. 2004: 298). com o objetivo de apurar as denúncias de corrupção e malversação de fundos públicos por parte dos membros do governo estadual e da prefeitura de Belém. Também estimulou a convocatória da Marcha com Deus pela Família. Belém. nem foi. respectivamente. As apurações da CIS não se restringiram ao uso indevido de dinheiro público ou corrupção. inclusão de funcionários inexistentes na folha de pagamentos e recebimento de vultosas quantias derivadas do jogo do bicho. A. “que logo seriam aquinhoados com cargos pelos relevantes serviços prestados à redenção do país” (Barata. e o prefeito e vice-prefeito de 182 Est. 4/4 /1964). nº 49..Pere Petit e Jaime Cuéllar Dom Alberto parabenizou A Província pela vitória da causa da Democracia no país. dos 38 diretórios estudantis secundários. malversação da coisa pública. não fez qualquer gestão em favor dos padres e estudantes católicos que foram presos naqueles dias. vol. liderada pelas senhoras das frações conservadoras do catolicismo. a CIS apresentou seu relatório final. os responsáveis pela Secretaria de Educação e Cultura do governo do Pará foram acusados de “ter permitido. a maioria deles membros da AP e das JUC (Coimbra. Dom Alberto Ramos. Em 9 de junho de 1964. Aurélio do Carmo e Newton Miranda. então interventor na Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (Spvea). janeiro-junho de 2012. No início de junho. existindo 30. mas visaram também as atividades políticas dos membros do governo estadual e prefeituras paraenses. 169-189. Hist. a Cooperativa de Fazendeiros do Marajó e diretores da Assembleia Paraense. R. a infiltração comunista na União de Estudantes dos Cursos Secundários do Pará. Os militares afastam os civis e assumem o governo do Pará e a prefeitura de Belém No dia 21 de maio de 1964. integrada por oficiais das três Forças Armadas e presidida pelo general Bandeira Coelho. 18/6/1964). clientelismo. . Rio de Janeiro. como nunca será afastado (A Província do Pará. pela qual muito nos batemos sem temores nem desfalecimento fieis às tradições de liberdade do nosso povo. Assim é que nesse mesmo relatório da CIS. por omissão. o governador e vice-governador do Pará. de cujo coração Cristo não desertou. A Província do Pará. no qual os principais responsáveis pelo governo estadual e pela prefeitura de Belém e líderes do PSD eram acusados de suborno. com sinais de infiltração comunista” (Relatório da Comissão de Investigação Sumária. p. 25. 2003). iniciaram-se os trabalhos da Comissão de Investigação Sumária (CIS)..

Aurélio já estava. porém. Numa entrevista concedida ao jornal A Província do Pará. 10/6/1964). e.. ainda que Jarbas Passarinho assinale que tentou preservar o governador. e a solução para o governo passava necessariamente por mim’” (idem). a Assembleia Legislativa Paraense escolheu como governador. general que “não inspirava confiança aos chefes revolucionários” (idem: 111). “tão pronto chegou a Belém. como já o fizera no Amazonas. a legalização do PCB. a deposição dos principais responsáveis pelo governo estadual e pela prefeitura de Belém foi uma decisão tomada pela cúpula das Forças Armadas antes de serem iniciados os trabalhos da CIS (Passarinho. substituído no início de junho pelo o general Bizarria Mamede. tiveram seus mandatos cassados e seus direitos políticos suspensos por um período de dez anos. Se a Supra quer mesmo fazer a reforma agrária. A Província do Pará. A decisão foi favorecida pelo afastamento de Orlando Ramagem do Comando Militar da Amazônia. por exemplo. afirmou que “toda reforma que vier em benefício do povo receberá sua opinião favorável [. Por estritas motivações políticas tiveram seus direitos políticos suspensos e mandatos eletivos cassados os militantes do PCB Raimundo Jinkings.. Agenor Moreira (PSD). o tenente-coronel Jarbas Gonçalves PassaEst. e o deputado estadual Benedito Monteiro (“Dez paraenses na lista de ontem de cassação de mandatos e direitos”. Jarbas Passarinho afirma que a cassação desses mandatos foi decorrente da apuração das denúncias de corrupção feitas contra os acusados. como ele mesmo relata. no dia 5 de março de 1964. ele próprio escreve que o “destino do Dr. 169-189. nº 49. entre outros. prefeito de Cametá. 1990: 110-111). vereador de Belém. sob as mesmas acusações. José Manuel Reis Ferreira (PSD) e Nagib Mutran. Portanto. por unanimidade. Ao respeito da reforma agrária. Alberto Nunes (PTB). vol. no regime democrático. Moura Carvalho e Isaac Soares. que o faça dentro dos processos de técnica da agricultura. Rio de Janeiro.O golpe de 1964 e a instauração da ditadura civil-militar no Pará Belém. da União Democrática Nacional (UDN). todas as associações políticas devem ter seus direitos garantidos”. No dia 12 de junho de 1964. Hist. Também tiveram seus mandatos cassados.]. incluindo. foi muito claro: ‘a Revolução decidira intervir no Pará. ao ser perguntado sobre a legalização do PCB. a essa altura decidido em Brasília” (idem).. No seu livro A Planície. janeiro-junho de 2012. Isso fica mais claro ainda quando assinala que o general Bizarria Mamede. 183 . vereador de Belém. manifestado publicamente em diferentes ocasiões. 25. os deputados estaduais Amílcar Moreira (PSD). sob a justificativa de que. p. dando assistência ao homem do campo”. Contudo. mandou chamar-me à residência particular. As declarações do prefeito de Belém e do governador em apoio à “Revolução” não levaram aos militares golpistas a esquecer o apoio de ambas as lideranças do PSD às denominadas Reformas de Base preconizadas pelo governo de João Goulart e às mudanças no sistema político brasileiro. Na ocasião. Aurélio do Carmo declarou ser “favorável.

ficou facilitada a tarefa dos seus tradicionais e novos opositores. general Zacarias de Assumpção. Ao perder o PSD o controle do governo estadual e a prefeitura da capital. através do Ato Institucional n° 2.Pere Petit e Jaime Cuéllar rinho e. Também em junho de 1964. Ao ser instituído o bipartidarismo. que em 1946 fora eleito deputado federal na legenda da UDN. com o apoio do governador e da coligação de partidos integrada pela UDN. foi instaurado o sistema bipartidarista. O candidato escolhido pelo PSD foi. 169-189. os vereadores de Belém elegeram o tenente-coronel Alacid Nunes como prefeito. . nº 49.166 obtidos por Zacarias de Assumpção. 184 Est. Eleições de 1965 e nascimento do bipartidarismo Nas eleições para governador realizadas no dia 3 de outubro de 1965. Rio de Janeiro. Este último. vol. outorgando à Aliança Renovadora Nacional (Arena) o papel de aliado do regime e ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB) o de “oposição”. venceu o pleito eleitoral sem muitas dificuldades somando um total de 163. poucos dias depois da vitória dos candidatos do PSD aos governos estaduais de Minas Gerais e Guanabara. a antiga disputa entre os membros do PSD e os da maioria dos restantes partidos existentes no Pará transferiu-se. Contudo. Aqueles que haviam sofrido a suspensão de seus direitos políticos não poderiam filiar-se nem a um partido nem a outro. 25. ficando. com o intuito de fornecer certa aparência democrática à ditadura civil-militar. Somente em cinco municípios. Assumpção foi o mais votado. portanto. todos os partidos foram declarados extintos e foram suspensas as futuras eleições diretas para presidente da República. o Partido Democrata Cristão (PDC) e o Partido Republicano (PR). o PTB. Num primeiro momento. Hist. impossibilitados de candidatar-se a qualquer cargo político-eletivo. o ex-governador e então senador. o candidato dos partidários da “Revolução” no Pará foi Alacid Nunes. militares e outras pessoas sintonizadas com os golpistas de 1964. p. A escolha era justificada pelas lideranças do PSD com o argumento de que somente um militar com notável respaldo eleitoral no Pará poderia tentar pôr freio à crescente influência política dos militares e civis vinculados a Jarbas Passarinho e Alacid Nunes.. o empresário Agostinho Monteiro.527 votos contra 67. o principal oponente eleitoral dos baratistas. a cúpula das Forças Armadas manteve inalterado o sistema eleitoral e partidista surgido no Brasil após a extinção do Estado Novo. janeiro-junho de 2012. curiosamente. de liquidar a máquina político-eleitoral pessedista. diferentemente da maioria dos regimes militares instaurados nos países latino-americanos nas décadas de 1960 e 1970. como vice-governador. e em 1958 se candidatara ao Senado com o apoio do então governador Magalhães Barata e não fora eleito. Um mês depois. dos 83 então existentes no Pará. de 27 de outubro de 1965.

como a maioria dos membros da Arena. recebeu apenas 40. mais propriamente em implementar as diretrizes da “Revolução” do que em favorecer os interesses dos diferentes grupos ou classes sociais paraenses. “fraco e pessimista” (Tupiassu. disputando entre si o controle do partido no poder (Arena).. “forte.O golpe de 1964 e a instauração da ditadura civil-militar no Pará em linhas gerais. na segunda metade da década de 1960. A Arena elegeu 8 dos 10 deputados federais a que o Pará tinha direito e 33 dos 41 deputados estaduais. que também pretendia o cargo. a grande maioria dos integrantes dos partidos que apoiaram a candidatura de Alacid Nunes. após a destituição de Aurélio do Carmo em 1964. A maioria das lideranças e militantes do PSD de Belém ingressou no MDB. Dois anos deEst. o cargo de governador. enquanto Moura Palha. por solicitação do marechal Cordeiro de Farias. Jarbas Passarinho. Para concluir. Nas eleições de 1966. a partir de 1964 até o início dos anos 1980.. para assumir seu segundo mandato de governador. ingressaria no PDS. nas eleições de 1982. Jarbas Passarinho. Jarbas Passarinho e Alacid Nunes. em 1979. e preocuparam-se. nº 49. em 1975. vol. Aloysio da Costa Chaves. sendo o primeiro civil. que exerceu essa responsabilidade no Pará. vitoriosa e em expansão”. para a oposição entre Arena. ex-reitor da Universidade Federal do Pará e ex-juiz do trabalho. Ainda que o vice-governador fosse um militar. pelo MDB. apoiou a candidatura vitoriosa de Jader Barbalho (PMDB) a governador. 25. Na Arena ingressaram. em sua ação de governo. mas depois liderou a recriação do PTB no Pará e.. a vida política no Pará parecia ser decorrente mais de um sistema de partido único que de um sistema bipartidarista (idem: 62). sobre a ditadura civil e militar O engenheiro paraense Fernando José de Leão Guilhon assumiu o cargo de governador no dia 15 de março de 1971. o sistema bipartidarista.913 votos. em detrimento de Jarbas Passarinho. Hist. apenas seis foram assumidos por membros das Forças Armadas. p. também assumiu. candidato a senador pela Arena. 185 . o coronel Newton Burlamaqui Barreira. 1968: 38). Rio de Janeiro. o ex-governador e então deputado federal Alacid Nunes seria indicado por Ernesto Geisel. janeiro-junho de 2012. Em 1978. converteram-se. Assim. e o MDB. além de Jarbas Passarinho e Alacid Nunes. também Zacarias de Assumpção e muitas lideranças e militantes do PSD dos municípios do interior. dos 30 cargos de maior responsabilidade do governo de Fernando Guilhon. nas principais lideranças políticas paraenses. Depois de extinto. obteve 204. O então governador Alacid Nunes optou inicialmente por filiar-se ao PDS.4 Outro civil. como acertadamente ponderou Amílcar Tupiassu.078 votos. 169-189.

preferimos denominar esse período. de outros setores das Forças Armadas no vitorioso golpe de estado de 1964 e no controle político direto ou indireto das instituições do estado brasileiro durante a vigência do regime militar. 2012). vol. 25. tentamos mostrar neste estudo de história local estadual (Belém-Pará) a hegemonia exercida pelos membros do Exército e. ao destacar também a importância da participação de diferentes setores da “sociedade civil” no levante militar de 1964 e na consolidação e durabilidade do regime militar até 1985. Compartilhando as reflexões de Carlos Fico. janeiro-junho de 2012. seguindo a Daniel Araão Reis. É como tapar o sol com a peneira (. em algum momento. ditadura civil-militar. em suas diferentes fases de governo. em 1964. a hábitos adquiridos e à preguiça intelectual. (.)..). Não.. É inútil esconder a participação de amplos segmentos da população no golpe que instaurou a ditadura... . ainda que não concordemos com a periodização (1964-1979) proposta por esse autor.. Os que financiaram a máquina repressiva. propriamente. p.5 Sirvam esses exemplos para reforçar a importância da participação de setores da “sociedade civil” na consolidação da ditadura civil-militar no Pará. Contudo. Rio de Janeiro. o responsável pelo Instituto de Terras do Pará (Iterpa) e o diretor-presidente da Cia.Pere Petit e Jaime Cuéllar pois. Paraense de Abastecimento. Mas de desvendar uma interessada memória e suas bases de sustentação. Os que celebraram os atos de exceção.. 2004: 52). o comandante da Secretaria de Estado de Segurança Pública. Trata-se de um exercício de memória. Hist. O mesmo se pode dizer dos segmentos sociais que. O problema é que esta memória não contribui para a compreensão da história recente do país e da ditadura em particular. apoiaram a ditadura (Reis. em menor medida. não se trata de esclarecer um equívoco. para quem. 169-189. no golpe. 186 Est. “se a preparação do golpe foi de fato ‘civil-militar’. que se mantém graças a diferentes interesses. Se ela foi “apenas” militar . apenas quatro militares participavam do primeiro escalão do seu governo: o chefe do Gabinete Militar. Tornou-se um lugar comum chamar o regime político existente entre 1964 e 1979 de “ditadura militar”. São interessados na memória atual as lideranças e entidades civis que apoiaram a ditadura. nº 49. sobressaiu o papel dos militares” (Fico.. Desaparecem os civis que se beneficiaram do regime ditatorial.

3. Alacid Nunes. p. 2004. Jarbas Gonçalves Passarinho nasceu no dia 11 de janeiro de 1920 em Xapuri (Acre). Hist. da Educação (governo Médici)..). em 1961. Passou a maior parte da infância em Be lém e in gres sou na Esco la de Cadetes em 1939. e Fernando Guilhon. dono do jornal O Liberal. Oswaldo. em Belém. 2003. CORTEZ. História de raça e pirraça nas terras do Grão Pará. vinculado politicamente aos petebistas (PTB). nº 49. Aloysio Chaves. Eleito governador do Pará em junho de 1964. Belém: Edição dos Autores. In: NUNES. 43-118. Belém: Edição dos Autores. governador interino do Amapá. 1964 – Relatos Subversivos: os estudantes e golpe no Pará. janeiro-junho de 2012. Lucilia de Almeida Neves. 169-189. circulou em Belém entre 1961 e 1965. Ruy Antonio. da Previdência e Assistência Social (governo João Figueiredo) e da Justiça (governo Collor). vol. In: NUNES. Cem dias quarenta anos depois. 1964 – Relatos Subversivos: os estudantes e golpe no Pará. BARATA. Rodrigo Patto Sá (orgs. Cf. 25. COIMBRA. 1964: quem conta um conto aumenta um ponto. DELGADO. pelo jornalista João Paulo Maranhão. O golpe Est. 5. Marcelo & MOTTA. Cf. 1964: temporalidade e interpretações. Refe rências bibl iog ráficas BARATA. Ronaldo. p. p. 2004. Mensagem à Assembleia Legislativa – 15 de julho de 1967. 187 . Daniel Aarão. In: REIS. Roberto. Belém: Paka–Tatu. como segundo jornal do grupo Folha do Norte. Ingressou na Academia Militar das Agulhas Negras (Rio de Janeiro) em 1946. O jornal a Folha Vespertina foi fundado em 1941. 2004. Rio de Janeiro. André Costa et al. 4. Alacid da Silva Nunes nasceu em Belém no dia 25 de novembro de 1924. Em 1960 foi secretário de Segurança do Território Federal do Amapá e.O golpe de 1964 e a instauração da ditadura civil-militar no Pará Notas 1. 119-149. Após a renúncia de Jânio Quadros retornou à vida militar. pp. grupo editorial que encerrou suas atividades em 1974 ao ser comprado pelo Grupo Maiorana. Mensagem do Governador à Assembleia Legislativa do Pará – 31 de março de 1971. 1964 – Relatos Subversivos: os estudantes e golpe no Pará. 2. O Jornal do Dia. André Costa et al. Belém: Edição dos Autores. exerceu o cargo até janeiro de 1966. Mensagem à Assembleia Legislativa do Pará – 31 de março de 1977. RIDENTI. Dom Alberto Ramos mandou prender seus padres: a denúncia de Frei Betto contra o Arcebispo do Pará em 1964. 269-307. André Costa et al. Foi também ministro de Trabalho e Previdência Social (governo Costa e Silva). In: NUNES.

1964 Relatos Subversivos: os estudantes e golpe no Pará. 31 de março de 2012. Rio de Janeiro. A ditadura civil-militar. 2011. 2004. vol. . REIS. UFMG. 1968. inserido nos debates historiográficos sobre a ditadura civil-militar no Brasil (1964-1985). ———. partidos de esquerda. Vencidos e vencedores. Unesp. Carlos. nº 49. Ditadura. 23-64. vol. Pere. Estudos de História. nº 1. nº 45. p. Bauru: Edusc. vol. PETIT. jan-jun 2010. Estudos Históricos. Na planície. 2001. Belém: Edição dos Autores. pp. Na perspectiva metodológica dos estudos de história local e regional. SOUSA. p. Imagens narradas. durante e após o golpe de estado de 1964. livros de memórias. Algumas notas sobre historiografia e história da ditadura militar. 69-90. As eleições paraenses de 1966. Belém: Paka-Tatu. 171186. . Monografia de graduação em História (UFPA). nº 5. as principais fontes utilizadas foram os jornais de Belém. Resumo Este artigo. p. Amílcar. Pedro. FICO. trabalhos acadêmicos e fontes orais. Versões e controvérsias sobre 1964 e a ditadura militar. O golpe civil-militar e a importância dos jornais A Província do Pará e O Liberal na sua trajetória e legitimação.. O Globo. 188 Est. PACHECO. 2005. Jaime Cuéllar. Hist. 2003. 169-189. nº 47. Belém. 135-55. anistia e reconciliação. p. Examinamos preferencialmente a participação dos militares e o apoio de setores da sociedade civil ao golpe militar. PASSARINHO. história política do estado do Pará. Franca. Agenor Sarraf. 23. 2004. 3. movimento estudantil. ———. GALVÃO. Ensaio Geral. Belo Horizonte. 8. jan-jul/2011. p. Rio de Janeiro. vol. Chão de promessas: elites políticas e transformações econômicas no Estado do Pará pós-1964. Revista Brasileira de História. e a repressão que sofreram os estudantes e organizações de esquerda e políticos “populistas”. Palavras-chave: ditadura civil-militar. VELARDE. 15-28. Jarbas. Belém: IDEPA. pretende contribuir para o conhecimento da história política do estado do Pará antes. p. São Paulo. O vermelho nas letras de jornais: uma análise dos discursos anticomunistas na imprensa paraense (1961-64). p. Revista Brasileira de Estudos Políticos. militares. Daniel Aarão.Pere Petit e Jaime Cuéllar militar e a ditadura: quarenta anos depois. 15-42. TUPIASSU. 2004. In: NUNES. 25. nº 23-24. janeiro-junho de 2012. Monografia de Conclusão de Curso de Especialização em Ensino de História do Brasil. Rio de Janeiro. 29-60. Alaide Roberth Mendes de. memórias e patrimônios desvelados. 24. vol. André Costa et al. repressão política. Belém: CEJUP 1990.

academic works and oral sources. 189 . It preferably examines the participation of military forces and the support of civil society sectors to the military coup. inscrit dans les débats historiographiques sur la dictature civil-militaire au Brésil (1964-1985).. political repression. In the view of methodological studies of local and regional history. histoire politique de l’état du Pará. intends to contribute to the knowledge of political history of the state of Pará before. 25. vol. les travaux universitaires et les témoignages oraux. leftist parties. during and after the coup of 1964. les principales sources utilisées ont été les journaux de Belém. Rio de Janeiro. memoirs books. p. 169-189. Key words: civil-military dictatorship. inserted in the historiographical debates about the civil-military dictatorship in Brazil (1964-1985). partis de gauche. and the repression suffered by the students. janeiro-junho de 2012. Hist. the main sources used were the newspapers of Belem. nº 49.O golpe de 1964 e a instauração da ditadura civil-militar no Pará Abstract This article. durant et après le coup d’état de 1964. mouvement étudiant. et la répression subie par les étudiants. veut contribuer à la connaissance de la conjoncture politique de l’état du Pará avant. On analyse plus spécialement la participation des militaires et l’appui de secteurs de la société civile au coup d’état militaire. militaires. student movements. les livres de mémoire. Résumé Cet article. Est. left-wing organizations and “populist” politicians. répression politique. Dans la perspective méthodologique des études d’histoire locale et régionale. political history of the state of Pará. Mots-clés: dictature civil-militaire. les organisations de gauche et les hommes politiques ‘populistes’. military forces.

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