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MEDO, AMOK E

XADREZ
STEFAN ZWEIG
©1920,1922,1941

Título original:
Angst; Der Amokläufer; Schachnovelle

Tradução de Lya Luft e Pedro Süssekind


"[Stefan Zweig tem] esse demônio, de fuga do regime nazista. Por meio do
tudo ver e saber e de viver todas as vidas, embate enxadrístico discutem-se a
que fez dele um peregrino apaixonado e em resistência humana às adversidades, a
permanente viagem." loucura e a derrocada do mundo frente ao
Romain Rofland totalitarismo.
Nos três textos, está presente o
Este volume reúne três obras-primas melhor de Zweig: a descrição
de Stefan Zweig, um dos mais profícuos e psicologicamente profunda do ser humano
festejados autores europeus do século XX. em conflito com o mundo e consigo
“Medo” de 1920, é um dos seus primeiros mesmo, bem como a reflexão sobre a
textos ficcionais e mostra morte.
a angústia de uma jovem mulher que
se debate entre uma vida de aparências e Stefan Zweig (1881-1942) nasceu em
uma existência secreta. Em "Amok", de Viena. Na década de 1920, tornou-se um
1922, um médico conta como o pedido de escritor de grande sucesso. Em 1941, em
uma grávida para que realizasse um aborto função do recrudescimento do nazismo na
o precipitou em uma espiral de perdição. E Europa, mudou-separa Petrópolis (RJ),
em "Xadrez", de 1941, o autor, às vésperas onde cometeu suicídio junto com a mulher.
de fugir para o exibo, parodia o
nazifascismo: em um navio rumo a Buenos
Aires, Mirko Czentovic, campeão mundial
de xadrez, enfrenta Dr. B., austríaco em
QUANDO DESCIA As escadas do
apartamento de seu amante, Irene foi
outra vez dominada por um medo
insensato. De súbito um círculo negro
zunia diante de seus olhos, os joelhos
MEDO congelaram-se numa paralisia horrenda,
ela teve de agarrar-se rapidamente no
corrimão para não cair para a frente. Não
Tradução de Lya Luft
era a primeira vez que ousava aquela visita
perigosa, esse calafrio repentino não lhe
era estranho; apesar de tentar resistir
interiormente, a cada volta para casa ela
era vítima desses inexplicáveis ataques de
um medo insensato e ridículo. Vir para
aqueles encontros era muito mais fácil.
Mandava o carro parar na esquina, corria
depressa, e sem erguer os olhos, aqueles
poucos passos até o portão da casa, e
subia rapidamente os degraus sabendo
que ele já esperava lá dentro, atrás da
porta que se abria depressa, e esse
primeiro medo, no qual também ardia a
impaciência, desfazia-se ardente no abraço desarrumação, a paixão daquelas horas.
que a saudava. Quando era o caso de Então vinham ainda as últimas palavras,
voltar para casa, porém, subia como um inutilmente apaziguadoras, que, de
calafrio esse horror misterioso, nervosa, ela mal ouvia, e aquele segundo à
confusamente mesclado com o calafrio da escuta atrás da porta para ver se ninguém
culpa e aquela fantasia louca de que todo subia ou descia pela escada. Mas o medo
olhar estranho na rua haveria de ler nela já esperava do lado de fora, impaciente por
de onde vinha, reagindo com um sorriso agarrá-la, e inibia tão imperiosamente o
atrevido à sua perturbação. Até os últimos pulsar de seu coração que descia ofegante
minutos perto dele eram envenenados pela os poucos degraus até sentir faltarem-lhe
crescente inquietação desse as forças que reunira nervosamente.
pressentimento; quando ia partir, suas Por um minuto ficou assim, parada,
mãos tremiam de pressa nervosa, escutava de olhos fechados, respirando avidamente
distraída as palavras dele, defendendo-se o frescor penumbroso do patamar. Então
precipitadamente dos restos da paixão uma porta bateu num andar superior, ela
dele; sair, sair era o que tudo nela queria, se retesou, assustada, e, fechando melhor
sair do quarto dele, da casa, da aventura, involuntariamente com as mãos o denso
voltando para o seu calmo mundo bur- véu, desceu correndo os últimos degraus.
guês. Mal se atrevia a olhar-se no espelho, Agora restava a ameaça daquele terrível e
temendo a desconfiança em seu próprio derradeiro instante, o horror de sair de um
olhar; mas era preciso averiguar se nada portão estranho para a rua, talvez
em suas roupas revelava, pela enfrentando a pergunta importuna de
algum conhecido que passava querendo gaguejou Irene com uma desajeitada
saber de onde ela vinha, e a perturbação e tentativa de escapar, mas a criatura
o perigo de uma mentira: ela baixou a fechava a porta com seu corpo maciço,
cabeça como o saltador que toma impulso, gritando-lhe na cara em tom estridente:
e correu com súbita determinação para o - Não, não estou enganada... conheço
portão entreaberto. você... esteve com meu namorado
Lá se chocou duramente com uma Eduard... agora finalmente eu a peguei,
mulher que obviamente queria entrar. agora sei por que ultimamente ele tem tão
- Perdão - disse, constrangida, pouco tempo para mim... Por sua causa,
esforçando-se por passar depressa. Mas a então... sua ordinária! - Pelo amor de Deus
criatura fechou-lhe o caminho da porta, - interrompeu Irene, tentando apaziguá-la
encarando-a zangada e ao mesmo tempo -, não grite desse jeito.
com franco sarcasmo: E involuntariamente voltou para o
- Finalmente consegui pegar você! - vestíbulo. A mulher a encarava
berrou ela sem se importar, com voz ironicamente. Aquele medo trêmulo, aquele
grosseira. - Naturalmente uma dessas que visível desamparo parecia de alguma forma
se dizem decentes! Não se contenta com fazerlhe bem, pois agora examinava sua
um homem só e o dinheiro dele e todas vítima com um sorriso confiante e de
essas coisas; precisa roubar também o zombeteira satisfação. Sua voz ficou mais
amante de uma pobre moça... calma e quase bonachona na sua
- Pelo amor de Deus... o que é que a vulgaridade.
senhora... a senhora está enganada... -
- Então são assim as mulheres A criatura pegou o dinheiro com um
casadas, as nobres, as finas, que vão olhar mau. - Vagabunda - murmurou.
roubar os homens das outras. Com véu, Irene estremeceu ouvindo a palavra,
naturalmente, com véu para depois mas viu que a outra liberava a porta e
poderem bancar as mulheres decentes... precipitou-se para fora, ofegante e
- O que... o que quer de mim? Se nem atordoada, como um suicida saltando de
a conheço... Tenho de ir agora... uma torre. Enquanto ela se afastava
- Tem de ir ... sim, claro... para junto correndo, os rostos que passavam lhe
do senhor seu marido... bancar a fina pareciam máscaras contorcidas; abriu
dama na sua sala aquecida, e deixar que caminho com dificuldade até um táxi
as criadas lhe tirem as roupas... Mas se a estacionado na esquina. Jogou-se no
gente está batendo as botas de fome, banco do carro como um saco informe,
damas finas como você não se interessam sentia-se rígida e imóvel interiormente; e,
por esse tipo de coisa... E ainda roubam a quando o motorista perguntou à
última coisa que temos, essas damas passageira esquisita para onde queria ir,
decentes... ela o fitou por um momento sem entender,
Irene endireitou-se e, seguindo um até que seu cérebro abalado pôde
instinto vago, meteu a mão na bolsinha e finalmente assimilar as palavras dele.
pegou todas as notas que pôde apanhar. - Para a estação sul - disse então,
- Tome aqui... mas agora me deixe... rapidamente, e, com a súbita idéia de que
nunca mais volto aqui... Juro. aquela criatura a podia estar seguindo,
acrescentou: - Depressa, depressa, ande sensação de náusea foi ficando cada vez
depressa! mais intensa, o balanço do carro em
Só durante o trajeto ela realmente disparada jogava-a de um lado para outro,
sentiu o quanto aquele encontro atingira quis pedir ao motorista que fosse um
seu coração. Apalpou as próprias mãos, pouco mais devagar, quando lhe ocorreu,
duras e frias como coisas mortas em tempo, que talvez não tivesse mais
penduradas em seu corpo, e de repente dinheiro suficiente, pois dera todas as
começou a tremer tanto que chegava a notas à chantagista. Fez rapidamente sinal
sacudir-se. Algo amargo rastejava pela sua de parada e, com o motorista novamente
garganta acima, sentiu náuseas e ao espantado, desembarcou. Por sorte, o
mesmo tempo uma raiva obtusa e dinheiro que tinha sobrado dera para
insensata querendo rasgar seu peito lá pagar a corrida até ali. Mas então se viu
bem no fundo, como numa câimbra. Quis num bairro desconhecido, numa multidão
gritar ou bater com os punhos, libertar-se de pessoas ocupadas que a magoavam
do horror daquela lembrança que se fisicamente a cada palavra e olhar. E seus
prendera em seu cérebro como gancho, joelhos frouxos de medo a levavam com
aquele rosto desfeito com o riso sarcástico, dificuldade, mas ela precisava ir para casa
aquele ar de vulgaridade que vinha com o e, reunindo toda a sua energia, avançou de
hálito mau da proletária, a boca ordinária ruela em ruela com um esforço sobre-
que cuspira cheia de ódio palavras humano, como se chapinhasse num
vulgares na sua cara, e o punho erguido, lodaçal ou na neve alta. Finalmente chegou
vermelho, com o qual a ameaçara. A em casa e subiu as escadas com uma
pressa nervosa que logo controlou para - Onde andou tanto tempo?
que sua agitação não chamasse a atenção - Eu estava... estava... com Amélia...
de ninguém. que tinha coisas a fazer... e eu fui com ela
Só agora, quando a criada lhe tirava o - completou Irene, já irada pela maneira
manto e quando ouviu no quarto ao lado impensada com que mentira. Normalmente
seu filhinho brincando com a irmã menor, sempre se prevenia com alguma mentira
e seu olhar apaziguado abrangeu seus cuidadosamente arquitetada que
objetos, sua posse e seu abrigo, ela desafiasse todas as possibilidades de verifi-
recuperou a aparência externa de controle, cação, mas naquele dia o medo a fizera
enquanto por baixo a onda de excitação esquecer isso, forçando-a a uma
ainda rolava dolorosamente no peito tenso. improvisação desajeitada. E, de repente,
Tirou o véu, alisou o rosto com a pensou, e se o marido telefonasse para
determinação de parecer inocente e entrou conferir, como vira acontecer numa peça
na sala de jantar, onde o marido lia o de teatro a que assistira recentemente?
jornal diante da mesa posta para a refeição - Mas o que foi?... Você parece tão
da noite. nervosa... e por que não tira o chapéu? -
-Atrasada, atrasada, querida Irene- perguntou o marido. Ela sobressaltou-se,
saudou ele com uma branda censura, mais uma vez flagrada em seu
levantou-se e beijou-a no rosto, o que lhe constrangimento, levantou-se depressa, foi
causou uma penosa sensação de vergonha. até o quarto para tirar o chapéu, e no
Sentaram-se à mesa e, indiferente, espelho fitou seus próprios olhos inquietos
mal se desligando do jornal, ele perguntou:
até parecerem outra vez firmes e seguros. Na manhã seguinte, quando o marido
Depois voltou à sala de jantar. estava no escritório e as crianças tinham
A empregada veio com a refeição, e foi ido passear, e ela finalmente ficou a sós
mais uma noite como todas as outras, consigo mesma, aquele encontro pavoroso,
talvez um pouco mais calada e menos visto em retrospectiva na clara luz da
animada do que habitualmente, uma noite manhã, perdeu muito do que tinha de
com conversas pobres, cansadas, muitas assustador. Irene recordou que seu véu era
vezes trôpegas. Os pensamentos dela muito denso e que aquela criatura não
retornavam incessantemente pelo caminho devia ter distinguido bem suas feições,
e sempre se assustavam quando chegavam nem as reconheceria. Ponderou com calma
àqueles minutos na horrenda presença da todas as medidas a tomar para prevenir-
chantagista: ela erguia o olhar para sentir- se. De modo algum voltaria a procurar o
se abrigada, tocava com ele ternamente amante na casa dele - e com isso
cada um dos objetos espalhados pela sala certamente removia-se a mais provável
segundo sua lembrança e importância, e causa de nova surpresa. Portanto, restava
uma leve tranqüilidade retornava. E o apenas o perigo de reencontrar a criatura
relógio na parede, varando o silêncio com por acaso, mas mesmo isso era improvável,
seu confortável passo de aço, devolveu pois partira de carro e a outra não a
imperceptivelmente ao coração dela algo de poderia ter seguido. Ela não sabia o nome
seu próprio ritmo regular, seguro e nem o endereço de Irene e não havia por
despreocupado. que temer qualquer outro modo de
* * * identificação, uma vez que seu rosto per-
manecera indistinto. Mas mesmo para esse marcada, nem nos dias seguintes. Relendo
caso extremo Irene estava preparada. o bilhete em que pela primeira vez
Então, já livre do torno do medo que a disfarçou sua letra, achou-o um tanto frio,
apertara, decidiu que simplesmente e já queria substituir as palavras casuais
manteria a calma, negando tudo, por outras mais íntimas, quando se
protestando friamente que era um engano, lembrou do dia anterior e da raiva a que
e, como era quase impossível obter prova inconscientemente atribuía a frieza
daquela visita, eventualmente poderia daquelas linhas. Seu orgulho estava
acusar a criatura de chantagista. Não era instigado pela penosa revelação de ter
em vão que Irene era esposa de um dos substituído nas graças do amante uma
mais famosos defensores do distrito; antecessora tão indigna e ordinária, e,
conhecia o suficiente das conversas dele analisando com raiva as palavras que
com os colegas para saber que chantagens escrevera, alegrou-se, vingativa, com a
somente podiam ser eliminadas com maneira fria com que de certa forma
atitude imediata e grande sangue-frio, conferia às suas visitas uma espécie de
porque cada hesitação, cada demonstração aura de humor condescendente.
de inquietação por parte do perseguido Conhecera o rapaz, um pianista
apenas aumentaria a superioridade do famoso num círculo ainda limitado, em
adversário. uma reunião à noite, e pouco depois, sem
A primeira medida foi uma breve carta querer direito e quase sem entender,
ao amante dizendo que não poderia ir ao tornarase sua amante. Nada em seu
seu encontro no outro dia, à hora sangue na verdade desejara o dele, nada
sensual e pouca coisa emocional a ligara duradoura é funesta pela falta de
ao corpo dele: ela se entregara sem esperança. A saciedade não excita menos
precisar dele, sem o desejar intensamente, do que a fome, e a sua vida segura e
por uma certa preguiça de resistir-lhe à protegida a deixava curiosa por aventuras.
vontade, e uma espécie de curiosidade Em parte alguma de sua vida havia
inquieta. Nada nela, nem seu sangue resistências. Onde quer que pusesse a
plenamente satisfeito com a felicidade mão, pegava em algo macio; estava cercada
conjugal, nem a sensação tão freqüente em de cuidados, carinho, amor morno e
mulheres de que seus interesses respeito doméstico, e, sem adivinhar que
emocionais estão morrendo à míngua, essa existência comedida nunca é
fizera-a sentir necessidade de um amante; determinada por coisas exteriores, mas é
ela era perfeitamente feliz junto de seu sempre, apenas, reflexo de um isolamento
marido rico, intelectualmente superior a interior, ela de alguma forma sentia que
ela, com os dois filhos, aninhada e esse conforto lhe roubava algo da vida real.
contente na calmaria de sua existência Agora que se aproximava dos trinta
confortável. Mas existe um relaxamento da anos, voltavam a despertar seus vagos
atmosfera que torna as pessoas tão sonhos de mocinha com o grande amor e o
sensuais quanto o calor ou a tempestade, êxtase da emoção, adormecidos pelo
um equilíbrio de felicidade que é mais amigável apaziguamento dos primeiros
excitante do que a desgraça, e para muitas anos de casada e pelo alegre encantamento
mulheres a ausência de desejos é tão da maternidade, e, como qualquer mulher,
funesta quanto uma insatisfação ela se julgava capaz de uma grande paixão
sem a coragem de a experimentar, nem de saciadas e burguesas, havia nessa tristeza
pagar pela aventura seu verdadeiro preço, uma antevisão do mundo mais elevado que
o perigo. Quando, num desses momentos aparecia colorido nos livros e que se movia,
de uma satisfação que ela própria não romântico, nas peças de teatro, e
conseguia aumentar, aquele jovem se involuntariamente ela se debruçou sobre a
aproximara dela com desejo intenso e beirada de seus sentimentos cotidianos
indisfarçado e, rodeado pelo romantismo para contemplá-lo. Um elogio talvez mais
da arte, entrara no seu mundo burguês, ardente do que seria adequado, num
onde habitualmente os homens festejavam segundo de arrebatamento, fez com que ele
a "bela mulher" que ela era apenas com erguesse os olhos do piano para a mulher
brincadeiras sem graça e pequenas e já esse primeiro olhar a assediou.
coqueterias, sem jamais desejarem a sério Ela assustou-se e sentiu ao mesmo
a fêmea que havia nela, pela primeira vez tempo a sensualidade de todo o medo: um
desde seus tempos de mocinha Irene se diálogo, no qual tudo parecia iluminado e
sentiu intimamente excitada. Talvez nada aquecido por chamas subterrâneas,
a atraísse na maneira dele além de uma ocupou e excitou muito a sua curiosidade
sombra de melancolia que pairava sobre já animada, tanto que não fugiu de outro
seu rosto quem sabe um pouco encontro num concerto público. Depois
interessante demais, e daquela postura viram-se mais vezes, e em breve não era
melancólica com a qual ele atacava um apenas por acaso. A vaidade por sentir que
(bem ensaiado) impromptu. Para ela, que ela, até ali dando pouco valor a seus
se sentia rodeada apenas de pessoas próprios julgamentos musicais, e com
razão negando qualquer importância ao nos primeiros dias a assustava,
seu senso artístico, pudesse ser a que transformou sua vaidade em orgulho. Mas
compreendia e aconselhava o verdadeiro também essas excitações misteriosas só
artista - o que ele afirmou várias vezes - fez eram plenas nos primeiros momentos. No
com que poucas semanas depois ela fundo, seu instinto se revoltava contra
confiasse precipitadamente na sugestão aquele homem e sobretudo contra o novo
dele de querer tocar sua mais nova que havia nele, o diferente, aquilo que na
composição para ela, e só para ela, em sua verdade seduzira a sua curiosidade. A
própria casa - promessa que talvez na extravagância das roupas, o jeito cigano de
intenção dele fosse mais ou menos sincera, sua moradia, sua vida financeira
mas que sucumbiu entre os beijos e por desregrada sempre oscilando entre
fim na surpresa da entrega dela. esbanjamento e constrangimento eram
Sua primeira sensação foi de susto antipáticos aos seus sentimentos bur-
com aquela inesperada mudança para o gueses; como a maioria das mulheres, ela
sensual, o calafrio misterioso que envolvia queria o artista de um modo muito
essa relação logo se rompeu, e a culpa por romântico, de longe, num convívio muito
aquele adultério não-desejado só se cortês, um cintilante animal de rapina,
acalmou em parte pela vaidade que lhe mas atrás das grades de ferro da moral. A
fazia cócegas, porque pela primeira vez, paixão que a embriagava quando ele estava
como pensava, por decisão própria, tocando inquietava-a quando ele estava
desafiava o mundo burguês em que vivia. fisicamente perto; na verdade ela não
O calafrio de sua primeira ação má, que queria esses abraços súbitos e imperiosos,
cuja desconsideração egoísta sem querer alterava o confortável mecanismo de sua
comparava com o ardor do marido, que existência, tornando-se uma excrescência
depois de todos aqueles anos ainda era da sua equilibrada felicidade, como um
tímido e cheio de veneração. terceiro filho ou um automóvel, e em breve
Mas agora que a traição fora cometida a aventura lhe pareceu tão banal quanto
sempre voltava a ele, nem feliz nem um prazer permitido.
decepcionada, mas por certa sensação de Mas da primeira vez em que teve de
dever e pela indolência do hábito. Era uma pagar pela aventura o seu verdadeiro
dessas mulheres, comuns mesmo entre as preço, o perigo, começou a calcular de
levianas e até as prostitutas, cuja maneira mesquinha o seu valor. Mimada
concepção burguesa de vida é tão forte que pelo destino, acarinhada pela família,
até no adultério colocam uma ordem, e no quase sem ter o que desejar por causa das
excesso uma espécie de domesticidade, condições financeiras favoráveis, o
buscando revestir os mais estranhos primeiro desconforto já parecia excessivo à
sentimentos com a máscara paciente do sua sensibilidade. Imediatamente recusou-
cotidiano. Em poucas semanas ela colocou se a ceder algo de sua despreocupação
seu jovem amante num lugar ordenado de espiritual, e na verdade estava disposta a
sua vida, destinou-lhe como a seus sogros sacrificar, sem refletir, o amante à
um dia da semana, e com essa nova comodidade.
relação não renunciava a nada de sua A resposta dele, uma carta assustada,
ordem antiga, apenas acrescentava algo à nervosa e repleta d. hesitações, que um
sua vida. Em breve esse amante já não mensageiro trouxera na mesma tarde, uma
carta que suplicava, perturbada, queixava- novo em sua vida agora, depois de ter
se e acusava, abalou outra vez sua decisão murchado em todos os anos de seu
de terminar com a aventura, pois a avidez casamento. E já quase se alegrava
dele lisonjeava sua vaidade, o desespero intimamente pelo encontro com aquela
dele a deixava encantada. O amante mulher vulgar do dia anterior, que lhe
insistia em pelo menos um breve encontro causara de novo uma emoção real, tão
para tentar esclarecer sua culpa caso a forte e estimulante que seus nervos
tivesse ofendido sem saber, e esse novo habitualmente relaxados ainda vibravam
jogo fez com que quisesse continuar subterraneamente.
fazendo-se de ofendida, tornando-se ainda Desta vez pegou um vestido escuro e
mais desejável pela recusa. Agora estava pouco chamativo e outro chapéu, para
mergulhada em algo excitante, e isso, confundir a memória da criatura, caso a
como a todas as pessoas interiormente encontrasse. Tinha o véu preparado para
frias, fazia-lhe bem, essa sensação de estar dissimular-se, mas num súbito ímpeto
rodeada pelo incêndio da paixão, mas sem desafiador deixou-o de lado. Acaso ela,
arder. Então convidou-o a uma confeitaria, uma mulher respeitada, deveria ter medo
da qual de repente se lembrou, pois de sair à rua por receio de uma pessoa que
quando mocinha tivera lá um encontro nem conhecia? E já ao medo do perigo se
com um ator, encontro que agora lhe pare- misturava uma instigante, estranha
cia infantil por ter sido tão respeitoso e atração, um prazer belicoso e perigosa-
superficial. Estranho, sorriu de si para si, mente excitante parecido com o de quem
que o romantismo começasse a florir de sente nos dedos a fria lâmina de um
punhal ou fita a boca do cano de um tura. Mas o tempo que destinara àquele
revólver em cujo ventre negro se instalou a encontro era curto, e uma agradável
morte, comprimida. Nesse calafrio de impressão de segurança lhe dizia que o
aventura havia algo inusitado em sua vida amante já esperava por ela.
protegida que a atraía como num jogo, Estava sentado a um canto quando
uma sensação que agora esticava ela entrou, e levantou-se de um salto, com
maravilhosamente seus nervos fazendo uma excitação que lhe foi a um tempo
correr faíscas elétricas em seu sangue. agradável e penosa. Teve de pedir-lhe que
Um medo breve perpassou-a só no falasse mais baixo, tão ardentemente
primeiro momento em que saiu à rua; um brotava do tumulto da excitação dele um
calafrio nervoso e gelado como quando redemoinho de perguntas e acusações.
colocamos a ponta do pé na água para ver Sem mencionar o verdadeiro motivo de sua
sua temperatura antes de nos entregarmos ausência, ela brincou com alusões que o
às ondas. Mas esse frio a atingiu apenas instigaram ainda mais por serem
um momento; depois, de repente, imprecisas. Desta vez permaneceu inalcan-
rumorejava nela uma rara alegria de viver, çável aos desejos dele, e hesitou até
o prazer de estar caminhando com um mesmo em fazer-lhe promessas, porque
passo firme, elástico e tenso que nem sentia o quanto o instigavam essa recusa e
conhecia. Quase lhe deu pena que a fuga repentinas... E quando depois de meia
confeitaria ficasse tão perto, pois agora a hora de diálogo acalorado, ela o deixou
vontade era prosseguir ritmicamente na sem pelo menos lhe dar ou prometer
magnética e misteriosa sensação de aven- alguma carícia, ardia internamente numa
sensação muito singular, que só conhecera contragosto escutou da igreja de São
em mocinha. Era como se uma Miguel, pela qual passava rapidamente, o
chamazinha crepitando brilhasse bem no toque da hora chamando-a para casa, para
fundo e só aguardasse o vento soprar para o seu estreito mundo ordenado. Desde
o fogo se fechar sobre sua cabeça. Levava seus dias de jovenzinha não se sentia tão
consigo, ao passar rapidamente, cada leve, sentidos tão agitados, pois nem os
olhar que lhe lançavam na ruela, e o primeiros dias do casamento nem os
inesperado sucesso representado por abraços do amante tinham espicaçado
muitos desses apelos masculinos de tanto seu corpo, e era intolerável a idéia de
repente atiçou de tal maneira a já agora desperdiçar em horas regradas
curiosidade por seu próprio rosto que toda essa singular leveza, essa doce
parou diante do espelho da vitrine de uma embriaguez do sangue. Parou mais uma
florista para contemplar sua própria beleza vez, hesitante, na frente de sua casa,
na moldura de rosas vermelhas e violetas respirando com peito amplo esse ar
cintilantes de orvalho. Encarou-se com quente, a perturbação dessa hora, para
olhar faiscante, leve e jovem, uma boca sentir bem fundo no coração essa última
sensualmente entreaberta sorria-lhe onda de aventura, que já morria. Então
satisfeita, e sentia o corpo alado quando alguém lhe tocou o ombro. Ela se virou.
continuou a andar; o anseio por algo que - O que... o que é que você quer outra
lhe descarregasse a tensão física, dança ou vez? - gaguejou mortalmente assustada,
tumulto, desfez o ritmo habitualmente pois de repente via aquele rosto odiado, e
comedido de seu caminhar, e só a assustou-se ainda mais ouvindo-se dizer
aquelas palavras funestas. Tomara o nome. - Sabe muito bem por que estou
propósito de não reconhecer mais aquela aqui.
mulher se alguma vez se encontrassem, de - Eu nunca mais me encontrei com
negar tudo, enfrentando cara a cara a ele... agora me deixe... nunca mais o
chantagista... E agora era tarde demais. verei... nunca...
- Estou esperando há meia hora, A criatura esperou calmamente, até
senhora Wagner. Irene estremeceu ouvindo que, nervosa, Irene não conseguiu mais
o seu nome. A criatura sabia seu nome, falar. Então disse, grosseira como se
seu endereço. Agora tudo estava perdido, falasse com um subalterno:
entregue sem salvação nas mãos da outra. - Não minta! Eu a segui até a
Tinha nos lábios as palavras confeitaria... - e, vendo Irene recuar,
cuidadosamente preparadas e calculadas, acrescentou, sarcástica: - Afinal eu não
mas sua língua estava paralisada e sem tenho compromissos. Fui despedida da loja
forças para emitir um som. por falta de trabalho, segundo disseram, e
- Faz meia hora que estou esperando, porque os tempos estão ruins. Bom, então
senhora Wagner. gente como nós aproveita para também
A criatura repetiu as palavras, passear um pouco... como as mulheres
ameaçadoras como uma acusação. decentes.
- O que quer... o que quer de mim... Disse isso com uma maldade fria que
-A senhora sabe, senhora Wagner. - perfurou o coração de Irene. Ela se sentia
Irene estremeceu de novo ouvindo seu desamparada diante da brutalidade dessa
pessoa vulgar, e sentia cada vez mais medo
de que a criatura falasse alto e seu marido perseguida pelo horror, correu escadas
passasse por ali, pois então tudo estaria acima.
perdido. Rapidamente apalpou dentro do O marido ainda não estava em casa,
seu regalo, abriu a bolsa de prata e tirou de modo que pôde jogar-se no sofá. Ficou
todo o dinheiro que seus dedos deitada imóvel, como atingida por um
conseguiram agarrar. Meteu-o com nojo na martelo; só pelos dedos corria um tremor
mão insolente que já se estendia devagar, louco sacudindo o braço até os ombros,
certa do lucro. mas não conseguia se defender da
Mas dessa vez a mão insolente não se violência do horror desencadeado. Só
recolheu assim que sentiu o dinheiro, quando ouviu a voz do marido lá fora é que
humilde como da outra vez, mas ficou se controlou, com enorme esforço, e
hirta no ar, aberta como garras. arrastou-se para outro aposento com
- Me dê também a bolsinha de prata movimentos automáticos e sentidos
para eu não perder o dinheiro! - e da boca mortos.
zombeteira saiu uma risada baixa e rouca. * * *
Irene fitou os olhos dela, mas só um Agora o horror estava instalado em
segundo. Aquele sarcasmo malcriado e sua casa e não saía dos quartos. Nas
ordinário era insuportável. A repulsa varou muitas horas vazias que lhe traziam de
todo o seu corpo como uma dor ardente. volta à memória, em ondas, aquele
Fugir, fugir, nunca mais ver aquele rosto! encontro medonho, entendeu claramente
Virando-se para o outro lado, com gesto que não havia saída. Aquela criatura sabia
rápido estendeu a bolsa cara, e depois, - ela não podia entender como - o nome
dela, seu endereço e, como as primeiras chantagista consigo. Pois o que eram seis
tentativas tinham dado tão certo, agora meses de prisão para aquela pessoa
sem dúvida não pouparia meios de ordinária que certamente já fora
aproveitar sua cumplicidade tornando a condenada antes, em comparação com a
chantagem permanente. Anos e anos a fio existência que ela própria estava perdendo,
pesaria sobre sua vida como um pesadelo sabendo, com horror, que era a única
impossível de remover nem com o mais possível para ela? Iniciar uma existência
desesperado esforço, pois, embora rica e nova, desonrada e sua, parecia-lhe incon-
esposa de um homem de fortuna, Irene cebível, pois até ali sempre fora
não conseguiria obter sem falar com o presenteada pela vida, não tendo
marido uma quantia tão grande que a construído pessoalmente nem uma parcela
livrasse definitivamente daquela criatura. de seu próprio destino. E além do mais ali
E além disso - isso ela sabia de relatos estavam seus filhos, ali estava seu marido,
casuais de seu marido e de seus processos ali era seu lar, todas as coisas que só
- os acordos e promessas de gente tão agora que as iria perder realmente
desonrada e pérfida como aquela não percebia o quanto eram parte e essência de
valiam nada. Por um mês ou dois, talvez, sua vida interior. Tudo isso que antes ela
ela calculava, ainda poderia manter a apenas roçava com o vestido de repente lhe
desgraça afastada; depois o castelo parecia espantosamente necessário, e era
artificial de sua felicidade doméstica impensável, irreal como um sonho, que
desabaria, e pouca satisfação oferecia a uma desconhecida vagabunda, à espreita
certeza de que na queda arrastaria a em algum lugar na rua, tivesse o poder de
rebentar com uma única palavra aquele lado oito anos de felicidade tranqüila e
ambiente cálido. confortável; tinha filhos dele, um lar, e
Não havia como remover essa incontáveis horas de comunhão física, mas
fatalidade, disso ela tinha uma certeza só agora, indagando qual seria o seu
medonha, fugir era impossível. Mas o comportamento, entendeu como ele lhe
que... o que iria acontecer? Da manhã à permanecera distante e desconhecido. Nas
noite ela remexia essa pergunta. Um dia o memórias febris com que examinava os
marido receberia uma carta, já o via últimos anos como se lançasse sobre eles
entrar, pálido, olhar sombrio, pegando-a holofotes fantasmagóricos, descobriu que
pelo braço e perguntando... mas então... nunca pesquisara a verdadeira natureza
que aconteceria então? O que ele faria? dele, e depois de anos nem ao menos sabia
Neste ponto as imagens se perdiam no se ele era duro ou condescendente, severo
escuro de um medo confuso e cruel. Ela ou sensível. Com um sentimento de culpa
não sabia mais como continuar, e suas funestamente tardio despertado pelo grave
suspeitas se precipitavam, vertiginosas, no medo por sua existência, teve de admitir
insondável. Mas nessas especulações uma que só conhecia o lado superficial e social
coisa era cruelmente certa: na verdade, da natureza dele, não o interior, do qual
pouco conhecia o marido e era incapaz de naquela hora trágica teria de brotar a
calcular suas reações. Casara-se com ele decisão. Involuntariamente, começou a
por sugestão dos pais, mas sem resistir, e procurar pequenos traços e alusões, e a
com uma simpatia agradável que os anos lembrar como, em conversas com ela, ele
não tinham decepcionado, e vivera a seu julgara questões parecidas, e, para seu
dolorido espanto, notou que ele quase começava ela a suspeitar, pouco diferente
nunca lhe falara sobre suas opiniões daquela com que tratava os criados e
pessoais; e, por outro lado, que ela certamente menor do que o seu jeito de
também jamais lhe dirigira perguntas tratar as crianças, sempre animado, ora
desse tipo. Só agora começava a avaliar alegre, ora apaixonado. Também nesse dia
toda a vida dele, em traços isolados que ele se informou minuciosamente dos
pudessem definir-lhe o caráter. O medo assuntos domésticos para dar a ela
dela batia com seu tímido martelo em cada oportunidade de revelar-lhe seus inte-
pequena lembrança, para penetrar nas resses, mas ocultando os dele; e pela
câmaras secretas do coração dele. primeira vez ela descobriu, porque o
Passou a espreitar suas menores observava, o quanto ele a poupava, com
manifestações e aguardava febrilmente sua que discrição se esforçava por se adaptar
chegada. Seu cumprimento mal lhe roçava às conversas cotidianas dela - cuja
o rosto, mas nos seus gestos-como beijava inofensiva banalidade de repente ela
a mão dela ou acariciava seu cabelo com reconheceu com horror. Mas de si mesmo
os dedos - ela pensava ver uma ternura ele nada revelou ao falar, e a curiosidade
que, embora evitando atitudes dela, ansiosa por algo que a acalmasse,
tempestuosas, podia significar um não foi satisfeita.
profundo afeto. Ele sempre era comedido Então, como as palavras não o traíam,
ao falar com ela, nunca impaciente ou ela interrogou seu rosto, agora que estava
nervoso; todo o seu comportamento era de sentado em sua poltrona lendo um livro,
uma amabilidade sossegada, mas, bem iluminado pela luz elétrica. Analisou o
semblante dele como o de um estranho, esse perfil desconhecido cuja dureza a
procurou os traços familiares mas assustava, mas em cuja determinação pela
subitamente desconhecidos do caráter primeira vez percebia uma beleza singular.
dele, que os oito anos de vida em comum De repente sentiu que gostava de olhar
tinham ocultado à indiferença dela. A para ele, com prazer e orgulho. Alguma
fronte era clara e nobre, com marcas de coisa se crispou doloridamente dentro dela
força intelectual, mas a boca era severa e no despertar dessa sensação, pena por
implacável. Tudo nos traços muito viris era algo que desperdiçara, uma tensão quase
tenso, era energia e força: espantada por sensual que não recordava ter jamais
descobrir beleza neles, e com certa obtido com tamanha intensidade do corpo
admiração, ela contemplava aquela dele. Então ele ergueu os olhos do livro.
gravidade reservada, aquela visível Ela se recolheu depressa no escuro para
aspereza dele, que até então, simplória, não acender, com a ardente pergunta de
apenas considerara pouco interessante e seu olhar, a suspeita dele.
teria alegremente trocado por maior * * *
animação social. Mas os olhos, nos quais Há três dias não saía de casa. E já
devia estar encerrado o verdadeiro segredo, notava com desconforto que sua presença,
estavam baixados sobre o livro, portanto de repente tão constante, chamava a
ocultos à sua contemplação. Podia apenas atenção dos outros, pois era raro que
fitar interrogativamente o perfil, como se ficasse em casa muitas horas, quanto mais
aquela linha sinuosa significasse uma vários dias. Com pouca inclinação para a
única palavra de perdão ou condenação, vida doméstica, dispensada das pequenas
preocupações de administrar a casa por habituada ao convívio indiferente, perdia
ser materialmente independente, entediada toda a sustentação: sem seu alimento
consigo mesma, para ela a casa era pouco habitual de sensações extremamente
mais do que um transitório local de insignificantes, mas mesmo assim
repouso, e a rua, o teatro, as reuniões indispensáveis, os sentidos se rebelavam, e
sociais com seus encontros divertidos, o em breve estar sozinha produziu uma
eterno fluxo de mudanças exteriores, eram nervosa hostilidade contra si mesma.
seu lugar preferido, porque ali o prazer não Sentia o tempo pesar sobre ela mesma,
exigia qualquer esforço interior, e, com as infinito; as horas sem sua costumeira
emoções meio adormecidas, os sentidos ocupação perderam todo o significado.
percebem mais excitações. Irene pertencia Andava de um lado para outro em seus
em todo o seu modo de pensar àquela aposentos, ociosa e nervosa como entre as
elegante comunidade da burguesia paredes de uma masmorra; as ruas, o
vienense, cujo dia parecia ordenar-se mundo, que eram sua verdadeira vida,
segundo algum acordo secreto que estavam proibidos, a chantagista postava-
determinava que todos os membros dessa se ali ameaçadora como o anjo com a
liga invisível se encontrassem espada de fogo.
incessantemente à mesma hora com os Os primeiros a notar a mudança
mesmos interesses, e aos poucos o sentido foram os filhos, especialmente o menino,
de suas existências fosse esse eterno mais velho, que expressava com
observar-se e encontrar-se. Agora, sozinha constrangedora ingenuidade seu espanto
consigo mesma e isolada, sua vida, por ver a mamãe tanto tempo em casa, e
os criados apenas murmuravam seu súbito interesse um controle
comentando suas suspeitas com a aborrecido, e sentiu-se corar,
governanta. Em vão ela se esforçou por envergonhada, quando numa dessas
desculpar sua chamativa presença com as tentativas de vigiá-los o menino de sete
mais diversas necessidades que em parte anos lhe perguntou, malcriado, por que,
inventava com bastante felicidade - mas afinal, ela já não ia mais passear. Por toda
exatamente esse lado artificial de suas parte onde quisesse ajudar, só perturbava
explicações mostrou-lhe o quanto se a ordem, e onde se interessava, despertava
tornara inútil em seu próprio meio, por suspeitas. Além disso, faltava-lhe
causa desses muitos anos de indiferença. capacidade de tornar menos visível aquela
Onde quer que quisesse fazer alguma sua presença constante através de uma
coisa, topava com a resistência de discrição inteligente, permanecendo calma
interesses estranhos que rejeitavam suas em seu quarto com um livro ou algum
súbitas tentativas como sendo uma trabalho; o medo que, como toda emoção
intromissão insolente em direitos mais forte, nela se transformava em
adquiridos. Todos os lugares estavam nervosismo, perseguia-a fazendo-a correr
ocupados; por falta de hábito, ela era um incessantemente de um aposento a outro.
corpo estranho no organismo de sua Sobressaltava-se a cada chamada do
própria casa. Portanto, não sabia o que telefone, a cada toque de campainha na
fazer consigo mesma nem com o tempo, e porta, e sempre se apanhava espiando a
até as tentativas de se aproximar das rua atrás das cortinas, faminta por gente
crianças falhavam, pois consideravam o ou pelo menos por vê-Ia, nostálgica por
liberdade e mesmo com muito medo de perseguição invisível que rondava seus
subitamente ver, entre os rostos que caminhos? O calafrio durou apenas um
passavam, olhando para cima, aquele que segundo, o breve segundo em que saía da
a perseguia até em sonhos. Sentia sua casa - pela primeira vez desde aquele
calma existência de repente desfazer-se e encontro voltava à rua onde a criatura
diluir-se, pressentia a ruína de toda a sua podia estar à espreita em qualquer canto.
vida. Aqueles três dias na prisão do quarto Pegou sem notar o braço do marido, fechou
lhe pareceram mais longos do que os oito os olhos e deu rapidamente os poucos
anos de seu casamento. passos da calçada até o carro que
Mas semanas atrás ela aceitara, junto esperava, mas depois, abrigada ao lado do
com o marido, um convite para a terceira marido, o automóvel disparando pelas ruas
noite, que agora seria impossível recusar noturnas e desertas, aquele peso interior
sem motivo adequado. Além disso, as se desfez, e subindo os degraus da casa
grades invisíveis de horror erguidas em dos outros sabia que estava protegida.
torno de sua vida precisavam ser Por algumas horas, podia novamente
quebradas para ela não sucumbir. ser como fora por muitos anos:
Precisava de gente, algumas horas de despreocupada, alegre, com a alegria
descanso de si mesma e daquele intensa e consciente de quem sai das
isolamento suicida do medo. E, além do paredes do cárcere para a luz do sol. Ali
mais, onde estaria mais abrigada do que havia paredes que a protegiam de toda a
na casa de outras pessoas, de amigos? perseguição, o ódio ali não podia entrar; ali
Onde estaria mais segura contra aquela havia só pessoas que a amavam, sem
intenção alguma; ali estava cercada das envergonhava-se daquela euforia de
fagulhas rubras da leviandade, uma bacante, mas no momento seguinte voltava
ciranda de prazeres que enfim voltava a a rir. Em seus nervos relaxados vibrava a
rodeá-la. Pois ao entrar percebia pelos eletricidade, todos os sentidos estavam
olhares dos outros que estava bonita, e se- excitados, fortes e saudáveis; pela primeira
ria ainda mais bela pela sensação vez em vários dias ela comeu com fome
consciente há tanto tempo desejada. Como verdadeira e bebeu como quem morre de
aquilo fazia bem depois de todos os dias de sede.
silêncio em que sentira o arado cortante Sua alma ressequida, sequiosa por
daquele único pensamento lavrar seu gente, bebia vida e prazer. Ao lado, havia
cérebro de maneira estéril, tudo nela música que chamava e penetrava fundo
machucado e dolorido! Como fazia bem sob sua pele em fogo. Começava a dança e
voltar a ouvir palavras lisonjeiras, sem perceber ela já estava no meio do
crepitando, elétricas e animadoras até torvelinho. Dançou como nunca na vida.
embaixo da pele, fazendo o sangue Aquele giro vertiginoso expulsou dela todo
disparar. Lá ficou, parada, olhando fixo, o peso, o ritmo crescia em seu corpo,
algo em seu peito se agitava e queria sair. conferindo-lhe um movimento fogoso. Se a
De repente, soube que era o nosso música parava, ela sentia o silêncio como
encarcerado querendo libertar-se. E uma dor, a serpente da inquietação
estourou como uma rolha de garrafa de começava a colear em seus membros
champanhe, deu cambalhotas pequenas, e trêmulos, e lançava-se de volta no
ela ria e ria, e de vez em quando torvelinho como num banho, numa água
que a lavasse, fresca e apaziguadora. marido perfurou seu coração. Ela se
Normalmente fora apenas uma dançarina assustou. Estava louca demais? Sua
medíocre, controlada demais, contida intensidade traíra alguma coisa?
demais, movimentos demasiadamente - O que... que quer dizer com isso,
rígidos e cuidadosos; mas aquela ebriedade Fritz? - gaguejou, admirada com o olhar
de alegria desencadeada desfez toda a penetrante dele, que parecia entrar cada
inibição física. Uma fita de aço de vergonha vez mais fundo e que ela já sentia no cora-
e circunspeção que habitualmente fixava ção. Quis gritar diante da determinação
suas mais loucas paixões rasgava-se ao perquiridora desse olhar.
meio, e ela se sentia desfeita, solta, - Estranho - murmurou ele por fim.
inquieta, feliz. Sentia braços e mãos ao seu Nessa voz havia um assombro vago. Ela
redor, toques e afastamentos, sopro de não ousou perguntar a que ele se referia.
palavras, cócega de risos, música vibrando Mas um calafrio percorreu seus membros
em seu sangue, todo o corpo tenso, tão quando ele se afastou sem dizer mais nada
tenso que suas roupas ardiam no corpo e e ela viu seus ombros largos, duros e
ela teria gostado de arrancar todos os grandes, sobre eles um pescoço férreo e
trajes e sentir melhor essa vertigem no tenso. Como de um assassino, pensou de
corpo nu. repente, absurdamente, e afastou a idéia.
- Irene, o que foi? - Ela virou-se Como se o visse pela primeira vez, a seu
cambaleando e de olhos risonhos, ainda próprio marido... só agora sentia,
ardente dos abraços do parceiro. Então, horrorizada, que ele era forte e perigoso.
duro e frio, o olhar fixo e espantado do
A música recomeçou. Um cavalheiro larga e ameaçadora. Vestiram-lhe o
veio até ela, que pegou seu braço casacão de peles, mas mesmo assim ela
mecanicamente. Mas agora tudo estava sentia frio. Rodaram no carro em silêncio.
mais desbotado, a melodia clara já não Ela não ousava dizer uma palavra. Sentia
conseguia levantar seus membros hirtos. vagamente um novo perigo. Agora estava
Um peso soturno crescia nela vindo do encurralada.
coração e atingindo os pés: cada passo lhe * * *
doia. E teve de pedir ao parceiro que a Nessa noite teve um sonho opressivo.
liberasse. Involuntariamente olhou em Ouvia-se uma música desconhecida, o
torno, ao recuar, para ver se o marido salão era claro e de teto alto; ela entrou,
estava por perto. E assustou-se. Ele estava muitas pessoas e cores se misturavam aos
parado bem atrás dela como se movimentos dela; então, um jovem a quem
aguardasse, e mais uma vez o seu olhar vagamente pensou conhecer aproximou-se.
chocou-se com o dela. O que queria? Pegou-lhe o braço e dançaram. Sentia-se
Quanto já saberia? Fechou sem sentir o bem, suave, uma só onda de música a
decote do vestido, como se precisasse erguia no alto e nem sentia mais o chão, e
proteger dele o peito nu. O silêncio dele era assim dançaram por muitos salões nos
tão obstinado quanto o seu olhar. quais lustres dourados bem em cima
- Vamos? - perguntou ela, sustentavam chamazinhas como estrelas, e
medrosamente. - Sim. muitos espelhos de parede a parede lhe
A voz dele soou dura e hostil. Ele foi devolviam seu próprio sorriso, levando-a
na frente. Ela viu mais uma vez a nuca mais longe em reflexos infinitos. A dança
era cada vez mais alada, a música, cada horrenda, pois era ela... e as paredes
vez mais ardente. Notou que o jovem se reboaram, e a mulher fechou sobre seu
apertava mais contra o seu corpo, sua mão pulso dedos gelados. Ela se retorceu e
se enterrava no braço dela, nu, fazendo-a ouviu seu próprio grito, um som louco, um
gemer de um prazer doloroso, e agora que guincho de horror, e as duas puseram-se a
seus olhos mergulhavam nos dele pensou lutar, mas a mulher era mais forte,
reconhecê-lo. Parecia um ator a quem arrancou-lhe o colar de pérolas e metade
amara de longe quando menina; quis do vestido, expondo, nus, seu peito e os
pronunciar seu nome, feliz, mas ele lhe braços debaixo dos farrapos pendurados. E
fechou a boca e abafou seu pequeno grito de repente havia outra vez gente ao redor,
com um beijo ardente. E assim, lábios vinham de todos os salões com murmúrio
unidos, um só corpo queimando, voaram crescente e ficaram contemplando a
pelos aposentos como se um vento feliz os seminua, sarcasticamente, e a mulher, que
carregasse. As paredes passavam em berrava em tom agudo: "Ela o roubou de
disparada, ela não sentia mais o teto que mim, essa adúltera, essa prostituta". Ela
se erguia, nem o tempo; estava não sabia onde se esconder, pois as
indizivelmente leve e de membros soltos. pessoas se aproximavam cada vez mais,
De repente alguém tocou seu ombro. Ela olhavam sua nudez, careteando, curiosas e
parou, e com ela a música, as luzes boquiabertas; e quando seu olhar vacilante
apagaram-se, as paredes aproximaram-se procurou ajuda, viu de repente, na
negras, o dançarino sumia. "Me devolva moldura sombria da porta, seu marido,
meu homem, sua ladra!", berrava a mulher imóvel, a mão direita escondida nas costas.
Deu um grito e saiu correndo pelos muitos ela correu, mas quando abriu a porta num
aposentos, atrás dela a multidão ávida; arranco seu marido estava ali parado, faca
sentia o vestido escorregar pelo corpo e na mão, encarando-a com olhar
mal conseguia segurá-lo. Então uma porta penetrante. "Onde você esteve?",
abriu-se diante dela, ela desceu as escadas perguntou sombrio. "Em parte alguma",
ansiosa por se salvar, mas lá embaixo ouviu sua voz dizendo, e uma risada
esperava a ordinária, com sua saia de lã e estridente a seu lado: "Eu vi tudo! Eu vi
as mãos em garras. Ela saltou de lado e tudo!'; gritava a mulher rindo, subitamente
correu como louca, mas a outra se dando risadas dementes junto dela. Então
precipitou atrás, e assim as duas seu marido ergueu a faca e ela gritou:
dispararam pela noite em longas ruas "Socorro! Socorro!"*
silenciosas, os lampiões inclinando-se para Abriu os olhos e seus olhares
elas com sorriso cínico. Ela ouvia os apavorados depararam com os do marido.
tamancos de madeira da outra atrás de si, O que... o que era aquilo? Estava em seu
mas cada vez que chegava a uma esquina, quarto, a lâmpada brilhando baça, estava
a mulher saltava dessa, e da outra; estava em casa em sua cama, tudo fora um
à espera atrás de todas as casas, à direita sonho. Mas por que o marido estava
e à esquerda. E sempre aparecia sentado na beira da cama olhando-a como
horrendamente multiplicada, impossível de se estivesse enferma? Quem acendera a
escapar, sempre saltava em frente e a luz, por que estava tão sério e rígido? Foi
queria agarrar, a ela que sentia os joelhos varada por um susto. Olhou a mão dele:
cederem. Finalmente ali estava sua casa, não, não havia nenhuma faca. Lentamente
a rigidez do sono a deixou, com o - Não - insistiu ele -, não me esconda
relampejar de suas imagens. Devia ter nada. Você tem alguma preocupação,
sonhado e gritado, acordando o marido. alguma coisa a atormenta? Todo mundo na
Mas por que estava tão sério, tão casa já notou como você está mudada.
penetrante seu olhar, tão implacavelmente Tenha confiança em mim, Irene.
grave? Aproximava-se imperceptivelmente
Tentou sorrir. dela, que sentiu os dedos dele acariciarem
- O que... o que foi? Por que me olha seu braço nu, e uma estranha luz nos seus
assim? Acho que tive um pesadelo. olhos. Foi dominada pela vontade de
- Sim, você gritou bem alto. Ouvi do lançar-se contra o corpo firme dele,
outro quarto. O que terei gritado, o que agarrar-se a ele, confessar tudo e não o
revelei, pensou ela num calafrio, o que é deixar partir antes de a ter perdoado,
que ele sabe? Mal ousou olhar de novo nesse mesmo momento em que a vira
para ele. Mas ele a contemplava bem sério sofrer.
com uma calma singular. Mas a lâmpada iluminava
- O que está acontecendo com você, palidamente o rosto dela e teve vergonha.
Irene? Alguma coisa está acontecendo. Faz Teve medo da palavra.
dias que está mudada, parece estar com - Não se preocupe, Fritz - disse,
febre, nervosa, consumida, e quando procurando sorrir, enquanto seu corpo
dorme pede socorro... tremia até os dedos nus dos pés. - Eu só
Ela tentou sorrir de novo. estou um pouco nervosa. Vai passar.
A mão que já a segurava recolheu-se assim. Mas a luz, a lâmpada, aquela luz
depressa. Ela tremeu, vendo-o agora pálido amarela e ávida!
na luz vítrea, a fronte coberta pelas Ela se controlou.
pesadas sombras de pensamentos - O que é que você está pensando? -
soturnos. Ele levantou-se devagar. disse rindo, e assustou-se com o tom falso
- Não sei, mas todos esses dias me da própria voz. - Só porque durmo mal
parece que você tem algo a me dizer. Algo acha que tenho segredos? Quem sabe até
que interessa só a você e a mim. Estamos alguma aventura?
sozinhos agora, Irene. Ela própria sentiu calafrios ouvindo a
Ela ficou deitada sem se mexer, mentira em suas palavras, teve horror de
hipnotizada por aquele olhar sério e si mesma, e involuntariamente desviou o
enevoado. Agora tudo podia se resolver, ela olhar.
sentiu, bastava dizer uma palavra, uma - Muito bem, então... durma bem.
pequena palavra: "perdão", e ele nem Ele disse isso laconicamente, bem
perguntaria por quê. Mas aquela luz estava áspero. Com voz bem diferente, como uma
acesa, forte, insolente, à escuta! No escuro ameaça ou uma perigosa zombaria
ela teria podido falar, sentia isso. Mas a luz maligna.
lhe roubava as forças. E apagou a luz. Ela viu sua sombra
- Então, realmente nada, você não branca desaparecer na porta, silenciosa,
tem nada a me dizer? um espectro noturno; e quando a porta se
Como era terrível a sedução, como era fechou, foi como se um caixão se fechasse.
macia a voz dele! Nunca o ouvira falar Ela sentiu o mundo morto e oco, só dentro
de seu corpo hirto o coração pulsava louco perdera a chave da caixinha; abriu e
e forte contra o peito, cada batida uma dor. remexeu todas as suas gavetas até que
* * * finalmente a encontrou. Meteu as notas
No dia seguinte, quando almoçavam em um envelope, tremendo, e entregou-a
juntos - as crianças tinham brigado e só se pessoalmente ao criado que aguardava na
acalmaram com dificuldade -, a criada porta. Fez tudo isso sem pensar, como que
trouxe uma carta. Era para a senhora, e hipnotizada, e nem pensou em hesitar.
esperavam resposta lá fora. Ela Depois - afastara-se apenas por dois
contemplou espantada a letra minutos - voltou à sala.
desconhecida e abriu o envelope depressa, Todos calados. Sentou-se tímida e
empalidecendo fortemente ao ver a desajeitada, e queria procurar alguma
primeira frase. Levantou-se de um salto e desculpa quando - sua mão tremia tanto
assustou-se ainda mais ao ver, no evidente que teve de largar depressa o copo -, com
espanto do marido, o quanto sua terrível susto, notou que, cega pelo
precipitação a traía. nervosismo, deixara a carta aberta ao lado
A carta era breve. Três linhas: de seu prato. Um pequeno gesto, e seu
"Por favor, entregue imediatamente marido poderia tê-la pegado, teria talvez
cem coroas ao portador desta"* bastado um simples olhar para ler as
Nada de assinatura nem data na letra linhas em letras grandes e desajeitadas.
visivelmente disfarçada, apenas aquela Ela não conseguiu falar. Pegando o bilhete
ordem horrenda e imperiosa! Irene correu disfarçadamente, amassou-o, mas, quando
para seu quarto para pegar dinheiro, mas ia guardá-lo, levantou os olhos e deparou
com o olhar intenso do marido, um olhar concentrada, perdia o controle e
penetrante, severo e doloroso, que antes abandonava inerme a mentira
nunca vira. Só agora, há alguns dias, ele a cuidadosamente arquitetada. Acaso ele
olhava com aqueles súbitos golpes de próprio entenderia dessa perigosa arte, e
desconfiança que a faziam tremer no ela seria a vítima? Estremeceu tanto mais
íntimo, e que ela não sabia fazer parar. por saber que uma enorme paixão
Com um olhar desses ele avaliara o corpo psicológica o prendia à profissão bem além
dela aquela vez na dança, e era o mesmo das exigências jurídicas. Investigar,
que à noite, na véspera, faiscara no sonho analisar e chantagear um crime podiam
dela como um punhal. ocupá-lo como a outros os jogos de azar ou
Era um saber ou um querer-saber que o erotismo, e nesses dias de caçada
o deixava tão afiado e tão brilhante, psicológica ele sempre ficava ardente. Um
parecendo de aço, tão doloroso; e, nervosismo ardente que às vezes o fazia
enquanto ainda procurava uma palavra, rever à noite decisões esquecidas
recordou algo há muito esquecido: que manifestava-se por uma impenetrabilidade
certa vez o marido contara que enfrentara férrea, e ele comia e bebia pouco, fumava
como advogado um juiz cuja arte residia incessantemente, poupando as palavras
em examinar os documentos com olhos para a hora em que estaria no tribunal.
míopes e, na hora da pergunta decisiva, Uma vez ela o vira lá em um discurso e
erguia rápido o olhar e o cravava como um nunca mais quisera assistir a ele, tanto se
punhal no acusado, que, a esse olhar assustara com aquela paixão sombria, o
penetrante e alerta de atenção fogo quase maligno de seu discurso e um
traço rude e sombrio em seu rosto que marido se ergueu e foi ao quarto ao lado,
pensara ter visto novamente apenas uma com passo pesado e sem olhar para trás.
vez, no olhar fixo sob as sobrancelhas Mal ficou sozinha, ela pegou de novo a
ameaçadoramente franzidas. carta funesta, releu ainda uma vez as
Todas aquelas lembranças perdidas palavras: "Por favor, entregue ime-
acumularam-se num segundo, impedindo- diatamente cem coroas ao portador desta"
a de dizer o que se formava em seus lábios. Depois, enraivecida, rasgou-a em
Calava-se, e ficou mais perturbada ao re- pedacinhos e amassava os restos para os
parar no quanto esse silêncio era perigoso, jogar no cesto de papéis quando pensou
e o quanto perdia a última possibilidade melhor, parou, inclinou-se diante da
plausível de uma explicação. Não se lareira e jogou o papel nas chamas, que
atreveu mais a erguer os olhos, mas agora, sibilaram. A labareda branca que devorou
com eles baixos, assustou-se ainda mais avidamente a ameaça a deixou mais
quando viu as mãos dele, geralmente tranqüila.
calmas e comedidas, movendo-se pela Nesse momento ouviu os passos do
mesa como pequenos animais selvagens. marido que voltava e estava na porta.
Por sorte o almoço terminou, as crianças Levantou-se depressa, rosto vermelho do
levantaram-se de um salto e correram para calor e de ter sido apanhada. A portinhola
a sala ao lado com suas vozes agudas e da lareira ainda estava reveladoramente
alegres, enquanto a governanta tentava em aberta, e procurou, desajeitada, escondê-la
vão inibir sua agitação alegre; também seu com o corpo. Ele aproximou-se da mesa,
acendeu um fósforo para o charuto, e
quando a chama chegou-lhe perto do decidiu dar novamente um passeio, ainda
rosto, ela pensou ver um frêmito em suas mais que havia uma série de coisas a
narinas, o que nele sempre era sinal de providenciar, e esconder de casa seu
raiva. Ele a contemplou calmamente: comportamento mudado. Agora tinha um
- Quero só chamar sua atenção para o jeito especial de fugir. Do portão da casa
fato de você não ser obrigada a me mostrar corria de olhos fechados para a rua, como
cartas. Se deseja ter segredos só para si, um nadador salta do trampolim. E uma
tem toda a liberdade para isso. vez que tinha o asfalto duro debaixo dos
Ela ficou quieta e não se atreveu a pés, a cálida torrente humana ao seu
olhar para ele. Ele esperou um instante, redor, ela se movia numa pressa nervosa,
depois soprou a fumaça do charuto com tão rapidamente quanto podia andar uma
toda a força do peito e, com passo pesado, dama sem chamar atenção, cegamente em
saiu da sala. frente, olhos fixos no chão, no temor
Ela não queria pensar em mais nada, compreensível de encontrar outra vez
só viver, atordoar-se, encher o coração com aquele olhar hostil. Se alguém a
ocupações vazias e sem sentido. Não espreitava, pelo menos ela não queria
suportava mais a casa, tinha de sair, saber disso. Mas sentia que só nisso
sentia isso, precisava sair à rua, estar com pensava e assustava-se quando alguém
outras pessoas, para não enlouquecer de roçava seu corpo casualmente. Seus
horror. Esperava que, com aquelas cem nervos sofriam dolorosamente a cada
coroas, pelo menos tivesse comprado ruído, cada passo que se aproximasse,
alguns dias de liberdade da chantagista, e cada sombra que passasse por ela; só no
carro ou na casa de outros conseguia sempre mais depressa, embora soubesse
respirar de verdade. que no final não escaparia da perseguição.
Um senhor a cumprimentou. Seus ombros começaram a tremer
Levantando os olhos, reconheceu um pressentindo a mão que - o passo estava
amigo de sua família que conhecera na cada vez mais perto - no instante seguinte
juventude, um cavalheiro de barba a tocaria; quanto mais queria apressar o
grisalha amável e falante, de quem em passo, mais pesados ficavam seus joelhos.
geral preferia fugir porque tinha mania de Agora o perseguidor estava bem perto, e de
se queixar horas a fio de pequenos trás, insistente mas baixinho, alguém
sofrimentos físicos talvez apenas chamou "Irene!"; uma voz que no começo
imaginários. Mas agora lamentava ter teve alguma dificuldade em reconhecer,
apenas retribuído sua saudação sem mas que não era a da temida, horrenda
procurar a companhia dele, pois um mensageira da desgraça. Respirando
conhecido seria uma defesa contra uma aliviada, virou-se: era o seu amante, que
interpelação da chantagista. Hesitou e quis quase se chocou com ela pela maneira
retroceder, mas foi como se alguém viesse brusca como ela se deteve. Pálido e
depressa ao seu encontro por trás, e desfeito estava o rosto dele, com todos os
instintivamente, sem refletir, seguiu em sinais de nervosismo e, vendo o olhar
frente intempestivamente. Mas sentia nas perplexo dela, já envergonhado. Ele
costas, junto com o pressentimento levantou a mão para saudá-la, inseguro,
cruelmente aguçado pelo medo, uma mas deixou-a cair de novo vendo que ela
aproximação cada vez mais rápida, e corria não lhe oferecia a sua. Apenas o fitou, um,
dois segundos, tão inesperada era a - Mas, Irene... Irene!
presença dele. Exatamente dele tinha - Não faça escândalo - ordenou ela,
esquecido naqueles dias de medo. Mas rudemente. - Nem faça comédia comigo.
agora, vendo-lhe o rosto pálido e Certamente ela está outra vez espreitando
interrogativo de perto com aquela aqui por perto, a sua bela amiga, ela vai
expressão de vazio perplexo que toda me atacar de novo.
sensação de incerteza sempre expressa nos - Mas quem... quem?
olhos, de repente a raiva espumou dentro Ela queria lhe dar um soco na cara,
dela numa onda quente. Seus lábios aquela cara desfeita, tola e hirta. Sentia a
tremeram procurando uma palavra, e a mão agarrando a sombrinha. Nunca odiara
excitação em seu rosto era tão visível que nem desprezara tanto uma pessoa.
ele, assustado, apenas gaguejou seu nome: - Mas Irene... Irene... - gaguejava ele
- Irene, o que tem você? - E, vendo o cada vez mais confuso. - O que foi que eu
gesto impaciente dela, acrescentou, já lhe fiz?... De repente você some... Eu
encolhido: - O que foi que eu lhe fiz? Ela o espero dia e noite... Hoje passei o dia
encarava com raiva mal contida. inteiro parado diante de sua casa
- O que você me fez? - perguntou ela, esperando para poder-lhe falar por um
sarcástica. - Nada! Nada mesmo! Só coisas minuto.
boas! Só coisas agradáveis! O olhar dele - Você estava esperando... então...
estava atônito, a boca, entreaberta de você também. A raiva a deixava atordoada.
espanto, o que aumentava ainda mais sua Como seria bom dar-lhe uma bofetada!
aparência ridícula e simplória. Mas controlou-se, olhou-o ainda uma vez
cheia de uma intensa repulsa, ao mesmo causa de toda a desgraça, tinha pensado
tempo refletindo se não devia cuspir na nele, nem ao menos em sonhos. Ele não
cara dele, como um insulto, toda a sua ira era nada em sua vida, nem uma sedução,
acumulada; mas de repente virou-se e en- quase nem uma lembrança. já não podia
trou na multidão sem olhar para trás. Ele compreender que um dia seus lábios
ficou parado, com a mão estendida, tivessem beijado aquela boca, era capaz de
suplicante, perplexo e trêmulo, até que foi jurar que jamais lhe pertencera. O que
empurrado pela multidão da rua como a fizera nos braços dele, que terrível
torrente leva uma folha caída que oscila e insanidade a impelira a uma aventura que
gira e finalmente acaba sendo levada dali. seu próprio coração não entendia mais,
* * * nem seus sentidos? Ela não sabia mais
Agora, de repente lhe parecia nada daquilo, tudo nesse fato lhe era
totalmente irreal e absurdo que aquela estranho, ela parecia estranha a si mesma.
pessoa tivesse sido seu amante. Não Mas tudo não se transformara
conseguia lembrar de nada, nem da cor de naqueles seis dias, naquela semana de
seus olhos, o formato do rosto, nenhuma horror? Como divisor de águas, o medo
de suas carícias lhe era presente corrosivo desagregara a sua vida e
fisicamente, e nenhuma de suas palavras apartara seus elementos. De repente as
ecoava nela senão aquele "Mas, Irene!" coisas tinham um peso diferente, todos os
choraminguento, efeminado, canino, valores trocados, todas as relações
gaguejado em desespero. Nem uma só vez perturbadas. Era como se até ali apenas
em todos aqueles dias, embora ele fosse a tivesse tateado pela vida com uma
sensação penumbrosa e olhar semicerrado, Casada há oito anos, na loucura de
e agora, de súbito, tudo estava iluminado uma felicidade modesta demais, ela nunca
de dentro numa claridade terrível e bela. se aproximara do marido, permanecera
Bem diante de si havia coisas que jamais estranha à sua natureza interior, à
tocara e que, de repente compreendia, natureza de seus próprios filhos. Entre ela
eram sua verdadeira vida; e, por outro e eles havia gente paga para isso,
lado, tudo o que lhe parecera importante governantas e criadagem para a eximirem
desaparecia como fumaça. Até ali vivera de todas as pequenas preocupações que só
numa atividade social animada, naquele agora - desde que observava mais de perto
convívio ruidoso e falastrão dos círculos a vida dos filhos - começava a perceber que
afortunados - na verdade tinha vivido só podiam ser muito mais agradáveis do que
para isso; mas agora, há uma semana, os ardentes olhares dos homens, e dar-lhe
renunciando a tudo isso na prisão de sua mais felicidade do que um abraço amoroso.
própria casa, de nada sentira falta, apenas Lentamente sua vida começava a adquirir
horror daquela vazia atividade dos desocu- um novo sentido, estabelecendo novas
pados e, involuntariamente, comparando a relações, mostrando-lhe um semblante
esse primeiro sentimento intenso que lhe grave e cheio de significado. Desde que
era dado, avaliava agora a superficialidade conhecera o perigo e com ele um primeiro
das inclinações a que se entregara até sentimento verdadeiro, todas as coisas,
então, e a infinita perda de um amor mesmo as mais estranhas, começaram a
verdadeiro. Via seu passado como quem parecer próximas. Ela se sentia presente
contempla um abismo. em tudo, e o mundo, antes transparente
como vidro, de repente, diante da escura desespero de repente se tornava real para
superfície de sua própria sombra, tornava- ela. Tudo lhe dizia "eu": aquele que estava
se um espelho. Para onde quer que olhasse cansado da vida, o desesperado, a criada
e escutasse, de súbito havia realidade. seduzida e a criança abandonada, tudo lhe
Estava sentada junto das crianças. A aparecia como seu próprio destino. De
governanta lia para elas a lenda da repente sentia toda a riqueza da vida, e
princesa que podia visitar todos os soube que nunca mais uma hora de seu
aposentos do seu palácio menos um, destino seria pobre, e agora, que tudo se
aquele trancado com uma chave de prata, dirigia para o fim, ela sentia tudo começar.
mas que, para sua própria condenação, ela E esse maravilhoso entrelaçamento com
acabou abrindo. Aquele não seria seu todo o infinito mundo seria dilacerado
próprio destino, também ela atiçada pelo pelos punhos grosseiros de uma mulher
proibido não caíra em desgraça? Pareceu- vagabunda? Por causa de um único erro
lhe haver uma profunda sabedoria naquela deveriam ser arruinadas todas as coisas
pequena lenda que uma semana atrás ela grandes e belas das quais pela primeira vez
ainda teria achado simplória. No jornal se sentia capaz?
apareceu a história de um oficial que, sob E por que - ela se defendia cegamente
chantagem, se tornara um traidor. Ela contra uma fatalidade que, sem saber,
mesma não faria o impossível para obter pensava estar vivendo -, por que logo ela
dinheiro a fim de comprar alguns dias de receberia uma punição tão horrível por um
paz, uma ilusão de felicidade? Cada frase erro menor? Quantas mulheres conhecia,
que falava de suicídio, cada crime, cada vaidosas, insolentes, sensuais, que até
sustentavam amantes e nos braços deles pensamentos. Quem dissera aquilo? Al-
zombavam dos próprios maridos, mulheres guém perto dela, recentemente, há poucos
que viviam na mentira como na própria dias. Refletiu e seu susto não diminuiu
casa, que nessa mentira ficavam mais quando recordou que fora seu próprio
bonitas, mais fortes na dissimulação, mais marido quem lhe despertara aquele
inteligentes no perigo, enquanto ela pensamento. Ele voltara de um
desmoronava, impotente, no primeiro julgamento, nervoso, pálido, e de repente,
medo, no primeiro erro? habitualmente tão calado, dissera a ela e a
Mas acaso ela realmente seria amigos que por acaso estavam presentes:
culpada? No seu íntimo sentia que aquela - Hoje um inocente foi condenado.
pessoa, seu amante, era-lhe estranha, ela Quando perguntaram como, ele ainda
jamais lhe dera nada da sua verdadeira contou, nervoso, que acabavam de punir
vida. Nada recebera dele, nada de si lhe um ladrão por um roubo cometido há três
concedera. Todas essas coisas passadas e anos, e, na opinião dele, injustamente,
esquecidas não tinham sido crime dela, pois depois de três anos o crime nem era
mas de outra mulher que ela mesma nem mais crime. Castigavam outra pessoa,
entendia, e da qual nem ao menos duplamente, aliás, porque ele já tinha
conseguia se lembrar direito. Seria per- passado aqueles três anos na prisão de seu
mitido castigar um crime já anistiado pelo próprio medo, da eterna inquietação de ser
tempo? descoberto.
De repente ela se assustou. Sentiu Horrorizada, ela recordou que naquela
que aqueles nem eram mais seus vez contradissera o marido. Sua
sensibilidade alienada considerava o prir, pois, embora de família rica, não
criminoso apenas um risco para a estava em condições de obter tais quantias
segurança burguesa, que tinha de ser sem chamar a atenção. Além do mais, de
eliminado a qualquer preço. Só agora via que adiantava? Ela sabia que amanhã
como seus argumentos tinham sido seriam quatrocentas coroas, e em breve
lamentáveis, como haviam sido bondosos e mil, sempre mais, enquanto mais ela
justos os do marido. Acaso ele também desse; quando não tivesse mais meios,
saberia entender que ela não tinha amado viriam a carta anônima e a derrocada final.
uma pessoa, mas uma aventura? Que ele O que ela estava comprando era apenas
era cúmplice pela sua excessiva bondade, tempo, uma trégua, dois dias ou três de
pelo conforto com que a rodeara, deixando- descanso, uma semana talvez, mas um
a mais frágil? Ele seria bom juiz em causa tempo horrivelmente sem valor, cheio de
própria? tormento e tensão. Agora havia semanas
* * * que dormia mal, com pesadelos piores do
Mas a inquietação não permitiu que que a vigília; faltava-lhe o ar para respirar,
cultivasse doces esperanças. Já no dia a liberdade de movimentos, a calma, a
seguinte chegou outro bilhete, outro golpe ocupação. Não conseguia mais ler nem
de chibata atiçando seu medo diminuído. fazer nada, acossada por demônios do
Desta vez exigiam duzentas coroas, que ela medo. Sentia-se doente. De vez em quando
entregou sem resistir. Ficou horrorizada precisava sentar-se, tanto pulsava seu
com o aumento de preço da chantagem, coração, um peso invadia todo o seu corpo
que estava materialmente incapaz de cum- com o caldo denso e um cansaço quase
doloroso, mas mesmo assim não conseguia alegre, sem que ninguém adivinhasse o
dormir. Toda a sua existência estava infinito esforço daquela alegria fingida, a
solapada pelo medo que a devorava, o força heróica que esbanjava nessa
corpo envenenado, e intimamente ansiava autoviolação diária e mesmo assim inútil.
que aquele estado enfermiço finalmente Só uma pessoa entre todas ao seu
irrompesse em uma dor visível, um mal redor, pressentia ela, parecia adivinhar
realmente palpável e clínico que desper- algo do terrível tormento em seu interior, e
tasse nos outros compaixão e piedade. apenas porque estava sempre à espreita.
Sentia inveja dos que estavam doentes, Ela sentia - e essa certeza a obrigava a
nessas horas de tormentos subterrâneos. dupla cautela -, que ele pensava nela o
Como devia ser bom estar deitada num tempo todo, da mesma forma que ela pen-
sanatório, numa cama branca entre sava nele. Ambos rondavam-se dia e noite,
paredes brancas, rodeada de piedade e girando um em torno do outro, e se
flores. Viriam pessoas bondosas, e por trás espreitavam, escondendo atrás das costas
da nuvem de dor veria a cura, ao longe, o próprio mistério. Seu marido também
como um grande sol bondoso. Se ela tinha mudado ultimamente. A ameaçadora
sentisse dor ao menos poderia gritar alto, severidade daqueles primeiros dias
mas agora tinha de encenar inquisitoriais cedera nele a uma espécie de
incessantemente a tragicomédia de uma bondade e preocupação que a fazia pensar
alegria saudável que diariamente enfren- involuntariamente nos tempos de noivado.
tava novas situações terríveis. Com nervos Ele a tratava como a uma enferma, com
dilacerados precisava sorrir e parecer um cuidado perturbador; envergonhava-a
tanto amor imerecido, e de outro lado o visível? Ela sentia um calafrio singular
temia, pois agora também podia significar vendo que de vez em quando ele
algum ardil para, num instante imprevisto, praticamente lhe oferecia a palavra
arrancar-lhe das mãos cansadas o seu salvadora e lhe facilitava a confissão.
segredo. Desde aquela noite em que a Compreendia a intenção dele e agradecia-
espreitara dormindo, e aquele dia em que lhe a bondade. Mas também sentia que a
vira a carta em suas mãos, a desconfiança compreensão dele fazia crescer a vergonha
dele parecia ter-se transformado em com- dela, impedindo-a de pronunciar a palavra,
paixão, ele tentava conquistar sua mais severamente do que antes a inibira a
confiança com uma ternura que por vezes desconfiança.
a acalmava e quase a fazia ceder, mas no Uma vez, naqueles dias, ele lhe falou
instante seguinte dava outra vez lugar à claramente, olho no olho. Ela voltara para
desconfiança. Seria apenas um ardil, o juiz casa e ouvira vozes altas na ante-sala, a do
seduzindo o acusado, a ponte pênsil para a marido, áspera e enérgica, a tagarelice
confiança que sua confissão atravessaria e mal-humorada da governanta e, no meio
que, subitamente recolhida, a deixaria disso, choro e soluços. Sua primeira
indefesa, entregue à arbitrariedade dele? sensação fora susto. Sempre que ouvia
Ou ele também já sentia que aquele estado vozes alteradas ou alguma agitação na
de espreitamento e escuta se tornava casa, estremecia. Medo era a sensação com
insuportável, e a compreensão dele era tão que agora reagia a tudo que fosse
forte que em segredo ele também sofria incomum, medo intenso de que a carta já
com o sofrimento dela, dia a dia mais tivesse chegado e o segredo tivesse sido
revelado. Sempre que abria a porta, seu madeira, o pêlo colorido arrancado, e o
primeiro olhar interrogativo avaliava os interior retirado. Naturalmente a suspeita
rostos para ver se nada acontecera na sua recaiu sobre a menina; o menino correra
ausência, se a catástrofe já não tinha para o pai, chorando, para acusar a
desabado enquanto ela estava fora. Desta malvada, que não conseguiu escapar de
vez logo reconheceu ser uma briga de uma justificação, e o interrogatório estava
crianças, um pequeno tribunal iniciando.
improvisado, e tranqüilizou-se. Há poucos Irene sentiu uma súbita inveja. Por
dias uma tia dera um brinquedo ao que as crianças sempre procuravam o pai
menino - um cavalinho colorido, que a em suas preocupações, e não a ela? Desde
menina, que recebera presentes menores, sempre confiavam ao seu marido todas as
invejava amargamente. Em vão tentara brigas e queixas; até ali gostara de se ver
fazer valer seus direitos, tão avidamente livre desses pequenos aborrecimentos, mas
que o menino se recusou a deixá-la sequer de repente ansiava por eles, porque
tocar no brinquedo, o que primeiro significavam amor e confiança.
provocou gritos de raiva na criança, depois O pequeno tribunal logo se resolveu.
um silêncio embotado, encolhido e No começo a criança negou, embora
obstinado. Mas na manhã seguinte o baixando timidamente os olhos e com a voz
cavalinho sumira, e todos os esforços do reveladoramente trêmula. A governanta
menino foram em vão, até que por acaso testemunhou contra ela, dizendo ter
encontram o objeto perdido no fogão, ouvido a menina, enraivecida, ameaçar
despedaçado, quebradas as partes de jogar o cavalinho pela janela, o que a
criança tentou em vão negar. Houve um mesmo assim condenável, e por fim ela
pequeno tumulto e soluços de desespero. começou a chorar feito louca. E logo,
Irene olhou para o marido; parecia-lhe que protegida pela torrente de lágrimas,
ele não presidia o julgamento da criança finalmente gaguejou a confissão.
mas o dela, pois talvez no dia seguinte Irene correu para abraçar a menina
estivesse assim na frente dele com o que chorava, mas esta a empurrou
mesmo tremor e a mesma voz falhando. No enfurecida. Seu marido também lhe pediu
começo o marido olhou severamente que não demonstrasse uma compaixão
quando a criança insistiu na mentira, mas precipitada, pois não pretendia deixar
depois, palavra a palavra, baixou as suas passar o fato sem castigo; deu a sentença,
resistências, sem jamais se zangar quando insignificante mas importante para a
ela se recusava admiti-Ia. E quando a criança, de que no dia seguinte não
negativa passou a uma teimosia embotada, poderia ir a uma festa aguardada com
ele lhe falou com bondade, provou alegria havia semanas. A criança escutou a
praticamente a necessidade interna daque- sentença chorando alto; o menino começou
le procedimento e de certa forma a comemorar alto o seu triunfo, mas seu
desculpou sua atitude ruim feita num sarcasmo prematuro e cheio de rancor fez
momento de raiva, sem pensar que real- com que também levasse castigo, sendo
mente magoaria o irmão. Explicou à igualmente proibido de ir à festa infantil.
menina, cada vez mais insegura, sua Tristes mas consolados pelo castigo
própria ação, de modo tão cálido e comum, os dois finalmente saíram da sala,
insistente, como algo compreensível mas e Irene ficou sozinha com o marido.
Sentiu de repente que aquela era palavra por palavra; ela aguardava a pausa
enfim a oportunidade de, por alusões e sob no final que, de maneira intencional ou
o disfarce de um diálogo sobre a culpa e a ponderada, demorou-se particularmente.
confissão da criança, falar de si mesma, e - Se eu tenho pena dela? Não tenho
teve uma vaga sensação de alívio por poder mais. Pois agora tudo é mais fácil para ela
confessar-se ao menos de forma oculta, e porque foi punida, embora lhe pareça
pedir compaixão. Pois se ele recebesse com amargo. Infeliz ela esteve ontem, quando o
bondade sua intervenção em favor da pobre cavalinho quebrado estava metido
menina seria um sinal, e nesse caso talvez no fogão, todo mundo na casa procurando
ousasse falar em si mesma. por ele e ela o tempo todo temendo que a
- Diga, Fritz - começou -, você gente descobrisse tudo. O medo é pior do
realmente pretende proibir as crianças de que o castigo, pois este é algo determinado,
irem à festa amanhã? Vão ficar muito mais claro do que o terrível incerto, o
tristes, especialmente a pequena. Afinal o horrendamente interminável da tensão.
que ela fez não foi tão grave assim. Por que Assim que ela soube qual seu castigo,
a castiga com tanta severidade? Não tem sentiu-se melhor. Não se iluda com o choro
pena dela? dela; foi porque brotou o que estava
Ele a encarou. Então sentou-se contido lá dentro. E dentro é pior do que
confortavelmente. Parecia disposto a fora. Se ela não fosse uma criança, ou se a
comentar o ocorrido, e um pressentimento gente pudesse compreender tudo que se
a um tempo agradável e assustador a fez passa nela, creio que veríamos que, na
perceber que ele lhe explicaria tudo verdade, apesar do castigo e das lágrimas,
ela está contente, e certamente mais alegre extrair o "sim" de dentro dele como com
do que ontem, quando andava por aí um gancho que o arrancasse de sua carne
aparentemente despreocupada, e ninguém renitente. Às vezes já está bem em cima na
suspeitava dela. garganta, uma força irresistível empurra
Ela ergueu os olhos. Era como se o de baixo, eles sufocam, quase pronunciam
marido tivesse dirigido cada palavra contra a palavra; então o poder maligno os
ela. Ele parecia nem prestar atenção nela, domina, aquela incompreensível sensação
mas, talvez sem entender seu olhar, de teimosia e medo, e voltam a engolir
prosseguiu: tudo. E a luta recomeça. Às vezes os juízes
- É realmente assim, acredite. sofrem mais do que as vítimas. E os
Conheço isso do tribunal e dos acusados sempre os encaram como
julgamentos. Os acusados sofrem mais inimigos, quando, na verdade, eles os
com o ocultamento do erro e a ameaça da ajudam. E eu, como seu advogado, como
descoberta, sob o cruel peso de terem de seu defensor, na verdade deveria dizer aos
defender uma mentira contra mil pequenos meus clientes que não confessassem, mas
ataques dissimulados. É terrível ver um firmassem e fortalecessem sua mentira;
caso em que o juiz tem tudo nas mãos, a mas muitas vezes não me atrevo, pois
culpa, a prova, talvez até a sentença, tudo sofrem mais com a não-confissão do que
menos a confissão que está dentro do com a confissão e o castigo. Na verdade,
acusado e não quer sair, por mais que se ainda não compreendi bem como se pode
puxe e tente. É terrível ver o acusado fazer uma coisa, consciente do perigo, e
retorcer-se e reagir porque precisam depois não ter a coragem de confessar.
Considero mais lamentá rel do que menos a gente poderia confessar aos que
qualquer crime esse medo da palavra. estão mais próximos... Você recorda aquele
-Você acha... que sempre... é sempre incendiário que defendi no ano passado...
apenas medo... que impede as pessoas? que passou a gostar tão singularmente de
Não poderia... não poderia ser vergonha... mim... ele me contou tudo, historinhas de
vergonha de pronunciar as palavras... de sua infância... até coisas muito íntimas...
se despir diante de todo mundo? Você vê, ele certamente cometera o ato, e
Ele ergueu os olhos, admirado. Não foi condenado... mas nem a mim admitiu...
estava habituado a receber respostas dela. Era o medo de que eu o traísse, não a
Mas aquela palavra o fascinou. - Você diz vergonha, pois ele confiou em mim... Penso
vergonha... isso... isso também é apenas que fui a única pessoa na vida por quem
uma forma de medo... Não, não o medo do ele sentiu algo como amizade... então já
castigo, mas... sim, eu entendo... não era vergonha do estranho... O que era
Ele se levantara, estava singularmente então, se podia confiar em mim?
excitado, andou de um lado para outro. - Talvez - disse ela, virando-se para o
Aquela idéia parecia ter tocado dentro dele outro lado, porque ele a olhava de um
algo que agora estremecia e se movia modo que lhe fazia tremer a voz-, talvez... a
agitado. De repente ele parou. vergonha seja maior... diante daqueles de
- Eu admito... Vergonha diante das quem a gente... se sente mais próximo.
pessoas, dos estranhos... do populacho, Ele parou de súbito, como se uma
que devora o destino alheio nos jornais força interior o dominasse.
como um pão com manteiga... mas pelo
- Então você acha... você acha... - de pense que sou incapaz de perdoar... não
repente sua voz estava diferente, bem quero isso... logo de você, Irene.
macia e aveludada -, você acha... que Ele a encarou e ela sentiu que ficava
Helena... poderia ter admitido sua culpa vermelha sob aquele olhar. Era
mais facilmente a outra pessoa... quem intencionalmente que ele falava assim ou
sabe à governanta... que ela... -Tenho era o acaso, um acaso sorrateiro e
certeza... ela resistiu tanto exatamente a perigoso? Ela ainda sentia uma indecisão
você... porque... porque seu julgamento é o terrível.
mais importante... porque... porque... ela... - A sentença foi revogada. - Ele
ama você mais do que a todos... Ele parou parecia de alguma forma estar se
mais uma vez. divertindo agora. - Helena está livre, e eu
- Talvez... Talvez você tenha razão, mesmo vou lhe anunciar isso. Está
sim, certamente é isso... mas é estranho... contente comigo agora? Ou deseja ainda
pois exatamente nisso eu nunca pensei... e alguma coisa? ... Você... está vendo... está
é tão simples... Talvez eu tenha sido severo vendo que hoje estou generoso... talvez
demais, você me conhece... não tive má porque esteja contente por ter reconhecido
intenção. Mas vou até eles agora mesmo. em tempo uma injustiça. Isso sempre dá
Claro que ela pode ir... eu só queria alívio, Irene, sempre...
castigar a sua teimosia, a sua resistência, Ela pensou entender o que aquela
e... a falta de confiança dela em mim... ênfase significava. Involuntariamente
Mas você tem razão, não quero que você chegou mais perto dele, já sentia a palavra
brotar dentro de si, e também ele se
adiantou como se quisesse pegar de suas modo que a cada toque de campainha na
mãos aquilo que a oprimia tanto. Mas porta ela se levantava de um salto para
então viu no olhar dele a avidez pela interceptar em tempo a mensagem da
confissão, por algo na natureza dela, uma chantagista. Nessa precipitação havia uma
ardente impaciência, e de repente tudo impaciência, quase uma nostalgia, pois a
desmoronou. Sua mão caiu cansada, e ela cada pagamento desses ela comprava uma
se desviou. Era inútil, sentiu, jamais noite de paz, algumas horas com as
poderia dizer a palavra libertadora que crianças, um passeio. Por uma noite, um
ardia dentro dela consumindo a sua paz. dia, podia respirar aliviada, sair à rua e
O aviso era como um trovão próximo, encontrar amigos; o sono era sábio, não se
mas ela sabia que não havia como fugir. E deixava enganar por aquele precário con-
secretamente ansiava por aquilo que até solo enganador, e à noite enchia o seu
então temera tanto, o raio salvador: ser sangue com pesadelos dilacerantes de
descoberta. medo.
* * * Mais de uma vez ela saíra correndo ao
Seu desejo pareceu realizar-se mais toque da campainha, para abrir a porta,
depressa do que ela imaginara. Agora a mesmo sabendo que essa pressa em
luta já durava duas semanas, e Irene antecipar-se aos criados despertava
sentia que chegara ao fim de suas forças. suspeitas e facilmente causaria uma
Há quatro dias aquela criatura não se desconfiança hostil. Mas como eram
anunciava, e o medo estava tão embutido frágeis essas pequenas resistências de
em seu corpo, invadira seu sangue de tal uma reflexão mais ponderada, quando o
som do telefone, um passo na rua atrás tempo contentamento, seguiu sem ser
dela ou um chamado da campainha da convidada em direção à porta entreaberta
porta fazia seu corpo estremecer como sob na sala.
uma chibatada. Mais uma vez a - Por aqui, não é mesmo? - perguntou
campainha a arrancara do quarto fazendo- com sarcasmo contido, e quando a
a correr até a porta. Ela abriu e, ao apavorada dona da casa, ainda incapaz de
primeiro olhar, viu uma mulher estranha, falar, quis protestar, acrescentou em tom
e depois, horrorizada, recuou ao reco- apaziguador: - Podemos resolver tudo
nhecer em roupas novas e sob um chapéu depressa se não lhe for incômodo.
elegante o odiado rosto da sua chantagista. Irene foi atrás dela sem retrucar. A
-Ah, é a senhora mesma, senhora idéia de que a chantagista estava em sua
Wagner, que bom. Tenho algo importante a própria casa, essa audácia que superava
lhe dizer. suas mais horrendas suspeitas, a deixava
E sem esperar resposta da assustada atordoada. Era como se tudo aquilo fosse
mulher que se apoiava na maçaneta da um sonho.
porta com mão trêmula, ela entrou, largou - Bela casa a sua, muito bonita. - A
a sombrinha de um vermelho berrante, criatura admirava tudo com visível
obviamente uma primeira aplicação dos satisfação, enquanto se aboletava. - Ah,
frutos de suas chantagens. Movia-se com mas que poltrona boa! E quantos quadros!
incrível segurança, como se estivesse em Só aí a gente vê como se vive mal. Muito
sua própria casa, e, contemplando a impo- bela a sua casa, senhora Wagner, muito
nente decoração com agrado e ao mesmo linda.
Então, vendo a criminosa tão ficou ali parada, quase humilde, e
confortável em sua própria casa, inquieta.
finalmente irrompeu a raiva na - Então, senhora Wagner, não quero
martirizada. - O que deseja aqui, sua rodeios. Não ando muito bem de vida, a
chantagista? Perseguindo-me até dentro de senhora sabe. Eu já lhe disse. E agora
minha própria casa? Mas eu não deixarei preciso de dinheiro por causa dos juros.
que me torture até a morte. Eu vou... Faz muito tempo que tenho dívidas, e
- Não fale tão alto - interrompeu a outras coisas mais. Quero finalmente botar
outra com uma familiaridade ofensiva. - A minha vida em ordem. Por isso vim ver se
porta está aberta e os criados poderiam a senhora me ajuda... digamos,
ouvir. Não que eu me importe. Não nego quatrocentas coroas.
nada, meu Deus, e afinal na prisão não vai - Não posso - gaguejou Irene,
ser pior para mim do que agora, nessa assustada com a quantia que realmente
minha vida miserável. Mas a senhora, não tinha mais em moeda sonante. - Desta
senhora Wagner, deveria ter mais cuidado. vez realmente não tenho. Este mês já lhe
Vou fechar a porta, se ficar nervosa. Mas dei trezentas coroas, de onde vou tirar
saiba que insultos não me impressionam. tudo isso?
A força de Irene, por um momento - Bom, a senhora vai dar um jeito,
fortalecida pelo ódio, desmoronou outra pense um pouquinho. Uma mulher tão rica
vez, impotente, vendo o quanto aquela há de ter todo o dinheiro que quiser. Mas
criatura era inabalável. Como uma criança tem de querer, claro. Portanto, reflita,
que espera a tarefa que lhe será ditada, senhora Wagner, e dê um jeito.
- Mas eu realmente não tenho tanto. era altamente valorizado por uma bela
Daria com prazer, mas não tenho. Posso pedra cara.
lhe dar alguma coisa... talvez cem coroas... - Ué, e por que não? Eu lhe mando o
- Eu disse que preciso de recibo do penhor, e pode pegar de novo se
quatrocentas. - A mulher falava quiser. Não vou ficar com ele. O que faria
rudemente, como que ofendida com a uma pessoa pobre como eu com um anel
impertinência. desses?
-Mas eu não tenho! - gritou Irene, - Por que está me perseguindo? Por
desesperada. E se seu marido chegasse que está me atormentando? Eu não
agora, pensou, ele podia chegar a qualquer posso... não posso. Precisa entender isso...
momento. - Eu lhe juro que não tenho... Veja, eu fiz o que podia. Tem de entender
- Pois então, tente conseguir... isso. Tenha piedade de mim!
- Não posso. - Ninguém teve pena de mim. Quase
A criatura a encarou de cima a baixo me deixaram morrer de fome. Por que logo
como se a quisesse avaliar. eu teria pena de uma mulher tão rica?
- Bom... por exemplo, esse anel aí... Irene quis dar uma resposta
Seria fácil de botar no prego. Não entendo veemente. Então - seu sangue congelou -
muito de jóias, claro... Nunca tive uma... ouviu uma porta fechar-se. Devia ser o
mas acho que a gente consegue quatrocen- marido voltando do escritório. Sem refletir,
tas coroas por ele... arrancou o anel do dedo e estendeu-o à
- O anel! - gritou Irene. Era seu anel mulher, que esperava, e o fez desaparecer
de noivado, o único que jamais tirava e que depressa.
- Não tenha medo, estou indo - disse a tempo todo, perseguindo cada um de seus
criatura, vendo um medo indizível no rosto movimentos. Esforçou-se ao máximo para
da outra, que escutava, tensa, a ante-sala desviar a atenção dele e fazer fluir a
onde se ouvia distintamente um passo conversa com perguntas incessantes.
masculino. Ela abriu a porta, Falava com ele, falava com as crianças,
cumprimentou o marido de Irene que com a governanta, sempre voltava a
entrava e que a encarou por um instante acender a conversa com as pequenas
sem lhe dar muita atenção, e desapareceu. chamas de suas perguntas, mas sua
- Uma senhora que veio pedir inspiração falhava e a conversa voltava a
informações - disse Irene com o resto de morrer sufocada. Ela tentava parecer
suas forças assim que a porta se fechou animada, levar os outros a serem alegres,
atrás da criatura. O pior momento brincava com as crianças, instigando-as
passara. Seu marido ainda respondeu, e uma contra a outra, mas elas não
entrou calmamente na sala onde a mesa brigavam nem riam: ela mesma sentia que
estava posta para o almoço. devia haver algo muito falso na sua alegria,
Irene sentiu o dedo em fogo no lugar que inconscientemente os outros deviam
onde habitualmente ficava o fresco aro do estranhar. Quanto mais se esforçava, mais
anel; era como se todo mundo olhasse na falhavam suas tentativas. Por fim ficou
pele nua uma marca a fogo. Durante o cansada, e se calou.
almoço sempre escondia a mão, e na sua Os outros também se calaram; ouvia-
sensibilidade excessiva imaginava que o se apenas o leve rumor dos pratos e dentro
olhar do marido procurava sua mão o
dela as vozes sufocantes do medo. Então recobriu seu medo. Internamente crescia
de repente seu marido disse: algo, uma nova força, força para viver e
- Onde está seu anel? força para morrer. A consciência
Ela estremeceu. Dentro dela uma finalmente assegurada da decisão iminente
palavra bem clara: Acabou! Mas seu começou a difundir dentro dela uma
instinto ainda se defendia. Reunir todas as inesperada claridade. O nervosismo cedeu
forças, dizer só uma frase, ainda uma maravilhosamente a uma reflexão
palavra. Inventar ainda uma mentira, uma ordenada; o medo, a uma sensação de paz
última mentira. cristalina que ela não conhecia, graças à
- Eu... eu o mandei para limpar. qual conseguia ver de repente todas as
E ao mesmo tempo, fortalecida na coisas de sua vida de modo transparente e
mentira, acrescentou: em seu verdadeiro valor. Avaliou sua vida e
- Vou pegar depois de amanhã. sentiu que ainda tinha bastante peso. Que
Depois de amanhã. Agora estava a poderia manter e intensificar naquele
comprometida, a mentira haveria de sentido novo e mais elevado aprendido nos
desabar e ela também. Agora ela mesma últimos dias de medo; podia reencetá-la
determinara um prazo, e todo o seu medo ainda uma vez, pura e segura, sem
confuso de repente. era repassado de uma mentiras, sentia-se disposta a isso. Mas
nova sensação, uma espécie de felicidade estava cansada demais para continuar
por saber a decisão tão próxima. Depois de vivendo como desquitada, adúltera,
amanhã: agora ela sabia qual o seu prazo, manchada pelo escândalo, e também
e, nessa certeza, uma calma singular cansada demais para prosseguir com
aquele perigoso jogo de uma calma Assim que o riso das crianças se desfizera
comprada e com prazo certo. Sentia que dentro dela com seu doloroso eco, tratou
não podia mais pensar em resistir, o fim de executar as suas decisões, cheia de
estava próximo, estava ameaçada de ser determinação. Primeiro queria tentar
traída diante do marido, dos filhos, de tudo retomar o anel, pois, fosse qual fosse o seu
o que a rodeava e até de si mesma. fim, sobre a sua memória não deveria
Impossível fugir de um adversário que recair qualquer suspeita, ninguém deveria
parecia onipresente. E a confissão, ajuda possuir uma prova visível da sua culpa.
segura, era-lhe negada, agora sabia isso. Ninguém deveria adivinhar seu terrível
Havia apenas um único caminho aberto, segredo, muito menos as crianças; teria de
mas desse não havia retorno. parecer um acaso pelo qual ninguém seria
A vida ainda a atraía. Era um responsável.
daqueles dias elementares de primavera, Ela foi até uma casa de penhores para
que às vezes irrompem inesperadamente penhorar uma jóia herdada que quase
do regaço fechado do inverno, um dia com nunca usava, e assim obter dinheiro
céu azul infinito, cuja alta vastidão se suficiente para eventualmente comprar de
pensava sentir como um sopro depois volta o anel daquela criatura. Sentindo-se
daquelas sombrias horas de inverno. As mais segura com o dinheiro na bolsa,
crianças entraram correndo, em seus continuou caminhando a seu bel-prazer,
trajes claros, que usavam pela primeira vez desejando intimamente aquilo que até
naquele ano, e ela teve de se controlar para ontem mais temera: encontrar a
não reagir com lágrimas ao júbilo delas. chantagista. O ar era suave e a claridade
do sol jorrava sobre os telhados. Algo do procurava o caçador, e assim como o
movimento impetuoso do vento contagiava animal mais fraco, acuado, de repente se
o ritmo das pessoas, que andavam mais vira com a determinação do desespero ao
leve e rápido do que nos sombrios dias de sentir que não vai escapar e enfrenta o
inverno. E ela própria pensava sentir um perseguidor, agora ela queria enfrentar
pouco disso. A idéia de morrer, que a mão cara a cara a sua torturadora e lutar com
trêmula agarrara na véspera como num aquelas últimas forças que o impulso de
vôo e não largara mais, cresceu, de súbito, viver confere aos desesperados. Chegou
tornando-se gigantesca, escapando aos intencionalmente perto da moradia onde
seus sentidos. Seria possível que a palavra habitualmente a chantagista espreitara por
de uma mulher ordinária e repulsiva ela, uma vez até atravessou depressa a rua
destruísse tudo isso, as casas com as porque uma mulher qualquer lhe
fachadas cintilantes, os carros em recordara a outra pelos trajes. lá não era
disparada, as pessoas risonhas e dentro mais pelo anel em si que lutava, pois ele
dela aquela inebriante sensação de apenas significava um adiamento e não a
sangue? Uma palavra poderia apagar a libertação, mas ansiava por esse encontro
chama infinita com que o mundo inteiro se como por um sinal do destino, e possuir o
incendiava no coração dela? anel outra vez lhe parecia uma decisão de
Andava e andava, mas já não de olhar vida ou morte, tomada por sua própria
baixo, e sim encarando tudo abertamente, vontade. Mas a criatura não estava em
quase ávida por finalmente encontrar a parte alguma. Desaparecera como um rato
mulher tão procurada. Agora a vítima num buraco, na incessante agitação dessa
cidade imensa. Decepcionada, mas não inalcançável, deixava a mulher abatida,
sem esperanças, ela voltou ao meio-dia impotente e entregue àquele medo cada vez
para casa, para logo depois do almoço mais místico. Era como se forças mais
reiniciar a procura vã. Mais uma vez altas se houvessem conjurado
andou pelas ruas e agora, sem encontrar diabolicamente para liquidar com ela, de
nada, voltou a crescer nela o horror a que tal maneira aquela confusão de acasos
quase se desabituara. Não era mais a hostis zombava da sua fragilidade. Já
mulher nem o anel o que a inquietava, mas nervosa, com passo febril, ela ainda corria
o terrível aspecto secreto de todos esses pela mesma rua, acima e abaixo. Como
encontros que a lógica não explicava. uma puta, pensou. Mas a criatura
Aquela criatura descobrira o nome dela e continuava invisível. Só a escuridão agora
seu endereço como por magia, conhecia descia ameaçadora, a noite de primavera,
todos os seus horários e condições em sua precoce, desfazia as cores claras do céu
casa, viera sempre nos momentos mais numa sombra suja, a noite caía depressa.
perigosos e assustadores, e no instante Lampiões acenderam-se nas ruas, a
mais desejado de repente sumira. Tinha de torrente humana corria mais veloz,
estar em algum lugar naquela agitação voltando às suas casas, toda a vida parecia
enorme, perto mas mesmo assim desaparecer numa corrente escura. Ela an-
inatingível sempre que a gente a buscava, dou de um lado a outro mais algumas
e essa ameaça informe, essa incom- vezes, espreitou ainda a rua com uma
preensível proximidade da chantagista, última esperança, depois dirigiu-se para
bem perto de sua vida mas mesmo assim sua casa. Estava com frio.
Subiu, cansada. Ouviu que no quarto porção de perguntas. Ela pensava ver certo
botavam as crianças na cama, mas evitou nervosismo nessa solicitude súbita, mas
dar-lhes boa-noite. Despedir-se por uma não queria conversar, lembrando a
noite pensando na noite eterna? Para que conversa do dia anterior. O medo a
ainda ver as crianças? Para sentir uma impedia de comunicar-se pelo afeto, de
felicidade serena em seus beijos alegres, e deixar-se prender pela simpatia. Ele
amor em seus rostos claros? Para que pareceu sentir sua resistência e estava
martirizar-se com uma alegria já perdida? preocupado. Ela temeu mais uma vez que
Cerrou os dentes: não, não queria sentir essa preocupação os aproximasse mais e
mais nada da vida, nada mais do que era despediu-se cedo para dormir.
bom e risonho e que a prendia com muitas - Até amanhã - respondeu ele. E ela
lembranças, pois no dia seguinte teria de saiu da sala. Amanhã: como estava perto,
rasgar todo esse tecido com um ímpeto só. e como era infinitamente remoto!
Agora queria pensar só no que era Incrivelmente longa e escura lhe pareceu a
repulsivo, no feio, no ordinário, no funesto, noite insone. Aos poucos foram rareando
na chantagista, no escândalo, em tudo o os ruídos da rua, e nos reflexos no quarto
que a levava em direção ao abismo. ela viu os lampiões apagando-se lá fora.
A volta do marido interrompeu suas Por vezes pensou sentir a respiração, ali
reflexões sombrias e solitárias. Esforçando- perto, nos outros quartos, a vida dos
se amavelmente para manter uma filhos, o marido, e o mundo tão próximo e
conversa animada, ele procurou já distante, quase desaparecido; mas ao
aproximar-se dela pela palavra, e fez uma mesmo tempo havia um indizível silêncio
que não vinha da natureza, não vinha de conteúdo, tinham-lhe dito, bastava para
fora, mas de dentro, de uma fonte que fazer alguém adormecer suavemente. Ah,
rumorejava, misteriosa. Sentia-se en- não ser mais perseguida, poder descansar,
caixotada num infinito silêncio e no escuro repousar no infinito, não mais sentir os
céu invisível em seu peito. Por vezes os golpes do medo no coração! A idéia de
relógios pronunciavam alto um número na adormecer suavemente atraiu a insone,
treva, e a noite era negra e morta, mas pela pensava já sentir o gosto amargo nos
primeira vez ela pensou entender o sentido lábios e a noite macia dos sentidos.
dessa escuridão interminável e vazia. Não Levantou-se depressa e acendeu a luz. O
refletia mais sobre despedida e morte, mas frasquinho, que logo achou, estava apenas
apenas em como refugiar-se nelas e meio cheio; receou que não bastasse.
poupar o mais possível as crianças e a si Remexeu febrilmente as gavetas até
mesma do opróbrio do sensacionalismo. finalmente encontrar a receita que
Recordou todos os caminhos que possibilitava preparar uma quantidade
conduziam à morte, pensou em todas as maior. Dobrou o papel sorrindo, como se
possibilidades de se destruir, até que fosse um dinheiro valioso: agora estava
recordou, com uma espécie de susto com a morte nas mãos. Com um calafrio, e
alegre, que o médico lhe prescrevera ainda assim tranqüila, quis voltar para a
morfina durante uma enfermidade cama, mas então, passando pelo espelho
dolorosa que provocava insônia, e que iluminado, envolta na camisola branca
aquela vez ela tomara em gotas o veneno como numa mortalha, sentiu horror,
doce-amargo, de um frasquinho cujo apagou a luz e fugiu para a cama solitária,
com frio, e ficou deitada insone até o lhe pareciam estranhos, todos mortos e
amanhecer. inanimados. Tudo aquilo já estava distante
De manhã queimou toda a sua e perdido, não lhe pertencia mais.
correspondência, ordenou toda a sorte de Só uma vez teve um sobressalto. E foi
pequenas coisas, mas evitou ao máximo como se do outro lado da rua sentisse de
ver as crianças e tudo o que amava. Agora repente na multidão o olhar do marido,
queria apenas impedir que a vida se aquele olhar singular, duro e penetrante
agarrasse a ela com prazer e sedução que só vira recentemente. Aborrecida,
dificultando ainda mais, com uma olhou fixamente para o outro lado, mas o
hesitação inútil, a decisão tomada. Depois vulto desaparecera rápido atrás de um
saiu mais uma vez para a rua, tentou mais carro que passava, e ela se acalmou
uma vez o destino, quem sabe encontraria pensando que a essa hora ele sempre
a chantagista. Mais uma vez andou estava ocupado no tribunal. Seu senso de
incansavelmente pelas ruas, mas não mais horário ficou perturbado naquela excitação
com aquela tensão incrível. Algo dentro de quem procura, e chegou atrasada para
dela já estava cansado, não queria mais o almoço. Mas ele também ainda não
lutar. Caminhou e caminhou por duas estava lá, como habitualmente, veio dois
horas como por um dever de consciência. A minutos depois, um pouco nervoso,
criatura não estava em parte alguma. E pensou ela.
não lhe doía mais. Quase nem desejava Agora contava as horas até a noite e
mais esse encontro, tão fraca se sentia. assustou-se vendo como ainda faltavam
Olhava bem no rosto das pessoas e todos muitas, como era estranho aquilo, como
precisava de pouco tempo para a criatura. Ela quase tremeu de alegria.
despedida, como lhe parecia ter pouco Como não pensara nisso, nessa coisa tão
valor tudo o que não podia ser levado simples? De repente voltou a sentir o corpo
junto. Sentiu uma espécie de sonolência. ágil, a esperança animava seus
Mecanicamente voltou à rua, andando ao pensamentos vagarosos, que agora
léu, sem pensar nem olhar. Numa esquina emergiam enredados. Ele tinha de ir com
um cocheiro freou no último instante os ela até a criatura, e acabar com aquele
cavalos, o varal parou bem diante dela. O assunto de uma vez por todas. Precisava
cocheiro praguejou coisas vulgares, ela ameaçá-la, qualquer coisa que
nem se virou: teria sido salvação ou interrompesse as chantagens, talvez uma
adiamento? Um acaso teria poupado sua certa quantia bastasse para afastá-la da
decisão foral. Continuou andando, cidade. De repente lamentou ter tratado
cansada: fazia bem não pensar em nada, tão mal o pobre rapaz ainda recentemente,
só sentindo no íntimo aquela sombria mas ele a ajudaria, estava certa disso. Que
sensação de fim, um nevoeiro que baixa estranho que a salvação viesse agora, na
mansamente e oculta todas as coisas. última hora.
Quando casualmente levantou os Correu depressa escadas acima e
olhos para ver o nome da rua, teve um tocou a campainha. Ninguém abriu.
sobressalto: em sua andança confusa, por Escutou: pareceu-lhe ter ouvido passos
acaso chegara quase diante da casa do ex- cautelosos atrás da porta. Tocou de novo.
amante. Seria um sinal? Talvez ele ainda Novamente, silêncio. E, novamente, rumor
pudesse ajudar, devia saber o endereço da baixinho lá dentro. Isso a fez perder a
paciência: tocou sem parar, afinal tratava- lado -, agora estou... não posso... - Mas
se de sua vida. tem de me ouvir. Afinal, é tudo culpa sua.
Finalmente algo se mexeu atrás da Você tem o dever de me ajudar... tem de
porta, a fechadura estalou, uma fresta me conseguir aquele anel de volta... ou
estreita abriu-se. pelo menos me diga o endereço... Ela está
- Sou eu - disse ela depressa. sempre me perseguindo, e agora
Ele abriu a porta, como se tivesse desapareceu... Você precisa, está ouvindo,
levado um susto. precisa fazer isso...
- É você... a senhora... cara senhora - Agora ele a encarou fixamente. Só
gaguejou ele, visivelmente constrangido. então ela percebeu que estava arquejando
- Eu estava... perdão... eu não estava palavras sem sentido.
preparado... para a sua visita... perdoe -Ah, claro... Você não sabe... Pois
meus trajes. E apontou para a camisa então, sua amante, a anterior, aquela
meio aberta, sem colarinho. criatura que certa vez me viu sair daqui e
- Preciso urgentemente falar-lhe... tem desde então me persegue e me
de me ajudar - disse ela, nervosa, porque chantageia... Ela está me torturando até a
ainda estava no corredor como uma morte... Agora pegou meu anel, e preciso
mendiga. - Pode me deixar entrar e me tê-lo de volta. Preciso dele até esta noite,
ouvir por um minuto? - acrescentou, eu já lhe disse, esta noite... Você quer me
irritada. ajudar...
- Por favor - murmurou ele, - Mas... mas eu...
envergonhado, lançando um olhar para o - Quer ou não?
- Mas eu não conheço nenhuma cheguei, não são desse tipo... Não vou dar
pessoa. Não sei de quem está falando. nomes, mas... mas é ridículo... Eu lhe
Nunca tive relação com chantagistas. Ele asseguro que deve ser um engano.
foi quase rude. - Então não quer me ajudar?
- Então... você não a conhece. Ela - Mas claro que quero... se puder.
inventou tudo do nada. Sabe o seu nome e - Então... venha. Vamos procurá-la
conhece meu endereço. Talvez nem seja juntos...
verdade que me chantageia. Talvez eu - Mas quem... quem?
esteja apenas sonhando. Ele sentiu de novo a sensação
Ela deu uma risada estridente. O apavorante de que ela enlouquecera,
rapaz estava ficando inquieto. Por um quando lhe pegou pelo braço.
momento pensou que ela podia ter - Até ela... Você quer ou não quer?
enlouquecido, tal a fulguração em seus - Claro, claro... – A suspeita dele era
olhos. Sua postura era estranha, as cada vez mais forte, pela avidez com que
palavras, sem nexo. Olhou em torno, ela insistia.
amedrontado. - Claro... claro...
- Por favor, acalme-se. Cara senhora... - Então, venha... É caso de morte!
eu lhe asseguro que está enganada... é Ele se conteve para não sorrir. Depois,
totalmente impossível, deve ser... Não, eu de repente, formalizou-se.
mesmo não entendo. Não conheço mulhe- - Perdoe, cara senhora, mas no
res desse tipo. As duas relações que tive momento não posso. Estou com aula de
aqui na cidade, no pouco tempo desde que piano... agora não posso interromper...
- Ah, é... ah, é... - ela deu uma risada pois achava que ela tinha ficado louca,
estridente na cara dele -, então você dá mas ela saiu outra vez do quarto.
aulas de piano... em mangas de camisa... - Perdão... - murmurou. Agora estava
seu mentiroso. totalmente confusa. Não entendia mais
E subitamente, tomada por uma idéia, nada, sentia apenas nojo, um nojo infinito,
ela se precipitou para diante. Ele tentou e um grande cansaço.
detê-la. - Perdão - repetiu, vendo o olhar
- Então é aqui que está a chantagista, inquieto dele. - Amanhã... amanhã você vai
com você? Quem sabe afinal estão metidos entender tudo... Quer dizer, eu... eu
nisso juntos. Quem sabe dividem tudo o mesma não entendo mais nada.
que ela tirou de mim. Mas eu vou pegála. Falava com ele como com um
Agora não tenho mais medo de nada. estranho. Nem se lembrava de que um dia
Falava aos gritos. Ele a segurou, mas pertencera àquele homem, mal sentia seu
ela lutou, libertou-se e correu para a porta próprio corpo. Agora tudo estava muito
do quarto. mais confuso do que antes, ela só sabia
Um vulto recuou, alguém obviamente que alguém estava mentindo. Mas estava
escutara atrás da porta. Irene fitou cansada demais para pensar, cansada
perplexa uma mulher desconhecida com demais para olhar. De olhos fechados,
roupa em desalinho, que desviou logo o desceu a escada como um condenado no
rosto. O amante correra atrás para deter cadafalso.
Irene, procurando impedir uma desgraça, * * *
Quando ela saiu, a rua estava escura. estranhamente tensa como de um olhar
Talvez, ocorreu-lhe, ela agora esteja que a queimasse por trás. Uma vez ainda
esperando lá do outro lado, talvez no se virou. Mas não se via ninguém.
último momento ainda chegue a salvação. A farmácia ficava perto. Entrou com
Teve vontade de pôr as mãos e rezar para um leve calafrio. O farmacêutico pegou a
algum Deus esquecido. Ah, poder comprar receita e pôs-se a aviá-la. Naquele minuto
só aqueles poucos meses, os dois meses ela analisou tudo, a balança lustrosa, os
até o verão, e viver neles, em paz, em minúsculos pesos, as pequenas etiquetas e
algum lugar onde a chantagista não a em cima, no armarinho, as fileiras de
pudesse alcançar, entre prados e campos; essências com estranhos nomes latinos,
só um verão, mas tão pleno e cheio que que soletrou inconscientemente com o
valesse mais do que uma vida inteira. olhar. Ouviu o relógio tiquetaquear, sentiu
Pensou ver um vulto à espreita numa porta o aroma singular, esse cheiro gorduroso e
de casa, mas quando se aproximou o vulto adocicado de remédios, e de repente
se recolheu dentro da treva. Por um recordou-se que, quando criança, sempre
momento pensou que era alguém parecido pedia à mãe que a deixasse apanhar
com o marido. Naquele dia pela segunda remédios na farmácia porque apreciava
vez teve medo de sentir subitamente na aquele odor e a visão estranha das muitas
rua a presença dele e o seu olhar. Deteve o tigelinhas faiscantes. E recordou,
passo para convencer-se, mas o vulto horrorizada, que não se despedira da mãe,
desaparecera nas sombras. Prosseguiu e sentiu uma piedade imensa pela pobre
inquieta, na nuca uma sensação mulher. Como haveria de se assustar,
pensou horrorizada, mas o farmacêutico já Nesse momento sentiu seu braço
media as gotas claras do pote barrigudo nervosamente empurrado de lado e
passando-as para um frasquinho azul. Ela escutou moedas tilintando na bacia de
viu, rígida, a morte passar do pote para o vidro. Uma mão estendeu-se ao lado dela e
frasco menor, de onde em breve circularia pegou o frasquinho.
em suas veias, e uma sensação de frio Ela se virou, sem querer. Seu olhar
perpassou seus membros. Numa espécie ficou paralisado. Era o marido, parado ali
de estado hipnótico, ela fitava os dedos com os lábios fortemente cerrados. Seu
dele, que agora enfiavam a rolha no vidro rosto estava branco, e o suor brilhava em
cheio e colavam o rótulo na perigosa su- sua testa. Ela sentiu que ia desmaiar e
perfície redonda. Todos os sentidos dela teve de segurar-se na mesa. De repente
estavam absortos naquele pensamento compreendeu que fora ele que vira na rua
cruel. e que espreitara na porta de uma casa.
- Duas coroas, por favor - disse o Tinha adivinhado que era ele, e lembrou-se
farmacêutico. Ela despertou de sua disso, confusa, num segundo.
paralisia e olhou em torno, estranhando -Venha - disse ele com a voz abafada e
tudo. Depois botou mecanicamente a mão contida. Ela o encarou, e num lugar muito
na bolsa para apanhar o dinheiro. Tudo profundo e sufocado de sua consciência
ainda lhe parecia um sonho, olhou as recordou que afinal pertencia a ele. E seu
moedas sem as reconhecer logo, e hesitou passo o seguiu sem que ela mesma se
no cálculo. desse conta.
Andaram lado a lado pela rua. Mas Calavam-se, e calavam-se. Ela sabia
não se olhavam. Ele ainda segurava o que ele se controlava, sentia sem ver.
frasquinho na mão. Uma vez parou e Finalmente ele se aproximou. Perto, muito
limpou a testa úmida. Involuntariamente perto. Ela sentia sua respiração pesada, e
também ela freou o passo, sem querer, com seu olhar fixo e enevoado viu os olhos
sem notar. Mas não se atreveu a olhar dele faiscando na escuridão do quarto.
para ele. Ninguém dizia uma palavra, os Esperou que a raiva dele se de-
rumores da rua pairavam entre eles. sencadeasse, esperou apavorada e hirta o
Ele a deixou andar à frente na escada toque duro de sua mão. O coração de Irene
da entrada da casa. E imediatamente, não parou de bater, só os nervos vibravam
o sentindo a seu lado, ela começou a como cordas muito tensas; tudo aguardava
oscilar. E parou. Ele a sustentou pelo o castigo, ela quase desejava a ira do
braço. Esse toque a assustou, e subiu outro. Mas ele continuava calado, e com
correndo os últimos degraus. um espanto infinito ela sentiu que ele não
Entrou no quarto. Ele foi atrás. As a interpelaria com violência.
paredes rebrilhavam escuras, mal se viam - Irene - disse ele, a voz
os objetos. Ainda não tinham pronunciado estranhamente macia. - Quanto tempo
uma palavra. Ele abriu num arranco o pa- ainda vamos nos atormentar?
pel do embrulho, desarrolhou o frasquinho Então de repente, convulsivamente,
e botou fora o conteúdo. Depois jogou-o tudo irrompeu dela com um ímpeto
com força num canto. Ela estremeceu poderosíssimo, como um único grito
ouvindo o ruído. insensato e animal finalmente jorrou dela
todo aquele soluço contido e reprimido dor disparava desenfreada pelo corpo
todas aquelas semanas. Era como se uma insensível.
mão furiosa a agarrasse por dentro e a Nervosíssimo, ele segurava-lhe o
sacudisse com tamanha força que ela corpo trêmulo, pegava-lhe as mãos
balançava como bêbada, e teria caído se geladas, beijou-lhe o vestido e a nuca,
ele a não segurasse. primeiro buscando acalmar mas depois
- Irene - apaziguava ele. - Irene, loucamente, cheio de medo e paixão; o
Irene... - Cada vez mais baixo, repetindo o vulto encolhido continuava sacudido por
seu nome de modo tranqüilizador, como se tremores, e do seu interior rolava aquela
com aquele tom doce da voz pudesse onda de soluços finalmente liberada. Ele
abrandar o ímpeto desesperado dos nervos apalpou-lhe o rosto, estava fresco,
dela. Mas apenas os soluços lhe molhado de lágrimas, e sentiu as veias
respondiam, selvagens ondas de dor que pulsando nas têmporas. Foi então tomado
perpassavam todo o corpo dela. Ele de um medo indizível. Ajoelhou-se para
conduziu, carregou o corpo trêmulo até o falar mais perto do rosto dela.
sofá e deitou-a. Mas os soluços não - Irene - disse ele, afagando-a -, por
paravam. O choro convulsivo sacudia o que está chorando assim? Acabou, meu
corpo como choques elétricos, ondas de bem, pronto... Por que se tortura tanto?
frio e calafrios pareciam passar no corpo Não tenha mais medo... Ela não virá nunca
torturado. Insuportavelmente tensos há mais, nunca mais...
semanas, os nervos agora rebentavam e a O corpo dela estremeceu de novo, e
ele a segurou com as duas mãos. Sentindo
esse desespero romper o corpo torturado, isso... Observei cada um de seus passos...
ele sentiu medo, como se a estivesse as- só por causa das crianças, sabe, por causa
sassinando. Beijava-a muitas vezes, delas eu precisava forçar você... Mas já
gaguejando confusos pedidos de perdão. passou... agora tudo vai ficar bem de novo.
- Não... nunca mais... juro... Eu não Ela escutava vagamente como de
podia imaginar que você se assustaria muito longe palavras que soavam perto,
tanto... Só queria chamar... chamar você mas não as entendia. Dentro dela havia
de volta para o seu dever... para que você um tumulto que reboava mais alto do que
se afastasse do outro... para sempre... e tudo, um tumulto dos sentidos em que
voltasse para nós... Eu não tinha outra qualquer sentimento desaparecia. Sentiu
saída quando por acaso soube... Eu que ele tocava sua pele, beijos, carícias, e
mesmo não podia lhe dizer. Pensei... suas próprias lágrimas já frias, mas dentro
sempre pensei que você viria... por isso o sangue retumbava num tom abafado e
mandei aquela pobre criatura para que a cheio de ecos, que crescia poderosamente e
empurrasse. É uma pobre criatura, uma agora trovejava como sinos desvairados.
atriz desempregada... Ela não fez isso com Depois ela foi perdendo qualquer contato
gosto, mas eu quis... e vejo que fui com a realidade. Despertando de seu
injusto... mas eu queria você de volta... desmaio, atordoada, viu, como através de
Sempre lhe mostrei que estava disposto... muitas nuvens, o rosto do marido, bon-
que só quero perdoar, mas você não me doso e preocupado. Depois tombou na
entendia... mas assim... a esse ponto eu escuridão, no sono tão desejado, negro e
não queria chegar... Sofri mais vendo tudo sem sonhos.
* * * fora enredada. Ficou amargurada, e enver-
Quando abriu os olhos na manhã gonhada, seus nervos começaram a tremer
seguinte, estava claro no quarto. E sentiu de novo e quase se arrependeu de ter
claridade dentro de si, sem nuvens, como acordado daquele sono sem sonhos nem
se uma tempestade tivesse limpado seu medo.
sangue. Tentou recordar o que acontecera, Então um riso soou do quarto ao lado.
mas tudo ainda parecia um sonho. Tinha As crianças tinham-se levantado e corriam
uma sensação irreal, leve e livre como, fazendo barulho, como passarinhos ao
quando em sonho, se flutua pelos amanhecer. Reconheceu nitidamente a voz
aposentos; e para ter certeza de que estava do menino e, espantada, sentiu pela
realmente acordando apalpou as próprias primeira vez como era parecida com a do
mãos. pai. Um leve sorriso cobriu seus lábios e lá
De repente sobressaltou- se: o anel repousou. Sentou-se de olhos cerrados
faiscava em seu dedo. De repente estava para saborear profundamente tudo isso
bem lúcida. As palavras confusas que que fora a sua vida e que agora era
escutara meio desmaiada mas não ouvira também sua felicidade. Algo em seu
bem, um vago pressentimento que não interior ainda doía um pouco, mas era
ousara tornar-se pensamento e suspeita, uma dor promissora, ardente porém
entrelaçavam-se de repente num contexto branda, como as feridas que queimam
claro. Súbito, entendeu tudo, as perguntas antes de cicatrizarem para sempre.
do marido, o espanto do amante, tudo se
desenrolava e ela via a rede cruel em que
EM MARÇO DE 1912 aconteceu, no
porto de Nápoles, durante o

AMOK
descarregamento de um vapor
transatlântico, um incidente notável, sobre
o qual os jornais trouxeram relatos
Tradução de Pedro Süssekind extensos, porém exagerados e fantasiosos.
Embora eu fosse passageiro do Oceania,
tanto para mim quanto para os demais não
foi possível testemunhar aquele caso
estranho, porque ele se deu de madrugada,
enquanto se embarcava carvão e se
desembarcava a carga. Para escapar do
barulho do descarregamento, todos nós
estávamos em terra, passando o tempo nos
cafés ou nos teatros. Entretanto, minha
opinião pessoal é de que algumas su-
posições que não anunciei publicamente
na época do incidente contêm a verdadeira
explicação daquela cena comovente, e a
distância dos anos me permite fazer uso da
confidência de uma conversa que ocorreu
imediatamente antes desse episódio
peculiar. O funcionário me informara
corretamente. O navio estava superlotado,
Quando, na agência de viagens e a cabine era ruim, não passava de um
marítimas de Calcutá, quis reservar um canto apertado perto da casa de máquinas,
lugar no navio Oceania de volta para a iluminado apenas pela fresta embaçada de
Europa, o funcionário deu de ombros, uma escotilha. O ar carregado e estagnado
lamentando. Disse que não sabia se ainda tinha cheiro de óleo e mofo; não se podia
seria possível garantir uma cabine para escapar nem por um instante do ventilador
mim, afirmou que naquele período, logo elétrico, que girava zunindo sobre a cabeça
antes do início da estação de chuvas, o do passageiro, como um morcego brilhante
navio sempre costumava sair da Austrália enlouquecido. De baixo vinha o barulho
com todos os lugares vendidos, de modo das máquinas, que crepitavam e gemiam
que precisava primeiro esperar um telegra- como um carregador de carvão que subisse
ma de Cingapura. No dia seguinte, ele me sem cessar a mesma escada; de cima,
comunicou, com ar alegre, que ainda ouvia-se incessantemente o ir e vir ar-
poderia providenciar um lugar para mim, rastado dos passos no convés de passeio.
mas evidentemente era uma cabine não Assim, logo após ter guardado a mala
muito confortável, sob o convés, na parte naquele túmulo mofado com traves
do meio do navio. Eu já estava impaciente cinzentas, fugi de volta para o convés e,
para voltar, por isso fiz a reserva da cabine saindo das profundezas, embriaguei-me do
após uma hesitação não muito longa. aroma suave do vento sul, que soprava
sobre as ondas, vindo do continente.
No entanto, o convés também estava das pessoas que passavam conversando.
repleto de aperto e inquietação: havia um Era impossível estar sozinho consigo
turbilhão tumultuado de pessoas que, com mesmo nesse beco ambulante do navio,
um nervosismo trêmulo de inatividade para o qual não havia escapatória.
acumulada, não paravam de tagarelar Por três dias, tentei me concentrar;
enquanto andavam para lá e para cá. Por olhava resignado para as pessoas, para o
algum motivo, sentia-me mal com o mar, mas o mar permanecia sempre o
arrulho dos gracejos entre as mulheres, mesmo, azul e vazio, só no pôr do sol se
com o vaivém apressado no espaço estreito pintava de repente com todas as cores. E
do convés, onde aquela multidão vagava as pessoas eu já conhecia de cor depois de
diante das espreguiçadeiras, numa in- três vezes vinte e quatro horas. Cada rosto
quietação indiscreta, para incessantes me era familiar a ponto de me deixar
reencontros das mesmas pessoas. Eu enfastiado, o riso agudo das mulheres me
havia visto um novo mundo, absorvido irritava, as discussões ruidosas de dois
imagens que se misturavam depressa num oficiais holandeses a meu lado era
movimento intenso. Agora, queria refletir insuportável. Assim, só restava a fuga:
sobre isso, distribuir, ordenar o que vira, contudo, a cabine era quente e abafada, e
dar forma, pela imaginação, ao que ainda no salão algumas meninas inglesas
estava quente no olhar; mas ali, naquele exercitavam sem cessar sua falta de jeito
bulevar abarrotado, não havia um minuto ao piano, tocando valsas entrecortadas.
de paz e descanso. As linhas num livro se Por fim, decidi trocar o dia pela noite e
desordenavam diante das sombras fugidias durante a tarde me recolhi à cabine, lá
embaixo, depois de ter me embriagado com claridade mágica ofuscou de súbito meus
alguns copos de cerveja, para dormir olhos. O céu reluzia. Ele era escuro em
enquanto durassem lá em cima o jantar e contraste com as estrelas, que o
a dança. salpicavam de branco, no entanto reluzia;
Quando acordei, o caixão que era era como se uma cortina de veludo
aquela cabine estava escuro e abafado. encobrisse uma luz imensa, como se as
Como eu tinha desligado o ventilador, o estrelas fossem apenas orifícios e fendas
próprio ar parecia gorduroso e úmido como através das quais brilhava aquela claridade
o suor na minha testa. Meus sentidos indescritível. Eu nunca havia visto um céu
estavam de algum modo embotados: como naquela noite, tão reluzente, cheio de
precisei de alguns minutos para me situar um brilho azul imóvel, porém cintilante,
no tempo e no espaço. Já devia passar de com a luz escorrendo, derramando-se,
meianoite, pois eu não ouvia nem a música brotando, uma luz que parecia despontar
nem o ruído apressado dos passos; apenas da lua e das estrelas, encoberta, e de
as máquinas, o coração pulsante do algum modo arder a partir de um interior
Leviatã, impeliam, ofegando, o corpo misterioso. Como laca branca, todos os
barulhento do navio na direção do contornos do navio cintilavam de maneira
invisível. deslumbrante à luz da lua, contra o mar
Tateei escada acima até o convés. de um escuro fechado; as amarras, as
Estava vazio. Quando ergui o olhar por vergas, os apetrechos, todas as linhas do
sobre a torre de fumaça da chaminé e os navio estavam dissolvidas nesse brilho
mastros metálicos fantasmagóricos, uma flutuante: as luzes no mastro e o posto de
vigia redondo pareciam como que e, bem-aventurado, senti nos meus lábios
suspensos no vazio, estrelas amarelas o ar como uma bebida clara, o ar suave,
terrestres entre as radiosas estrelas do fermentado, levemente embriagante, no
céu. qual havia o cheiro de frutas, o perfume de
Diretamente acima de minha cabeça ilhas distantes. Então, naquele momento,
se encontrava a constelação mágica, o pela primeira vez desde que havia
Cruzeiro do Sul, presa com pregos embarcado, apoderou-se de mim o desejo
reluzentes de diamante no invisível, sagrado de sonhar e aquele outro, mais
aparentemente oscilando, quando era sensorial, feminino, de entregar meu corpo
apenas o navio que, vibrando um pouco, a essa suavidade que me cercava. Queria
como um gigantesco nadador de respiração deitar e erguer os olhos para os hieróglifos
forte, movia-se para cima e para baixo, brancos. Mas as poltronas e cadeiras do
para cima e para baixo, atravessando as convés já estavam guardadas, em ponto
ondas escuras. Fiquei parado, com o olhar algum do convés de passeio vazio se
voltado para o alto: era como num banho encontrava um local para um descanso
em que a água morna cai sobre a gente, só sonhador.
que em vez da água era luz que, branca e Ainda tateando, avancei pouco a
também tépida, cobria com suavidade mi- pouco em direção à proa do navio,
nhas mãos, os ombros, a cabeça, e parecia inteiramente ofuscado pela luz, que pa-
de algum modo se dirigir para dentro, pois recia sair dos objetos com intensidade
tudo o que havia de abafado em mim de cada vez maior e penetrar em mim. Ela já
repente se iluminara. Respirei livremente quase doia, essa luz estrelar branca como
cal, ardente, e eu tinha necessidade de me o cansaço, e ele era como uma volúpia.
recolher a algum lugar na sombra, Queria dormir, sonhar; contudo, não que-
estendido numa espreguiçadeira, para ria ir embora daquela magia, de volta para
sentir a luz não em mim, mas sobre mim, o meu túmulo. Involuntariamente,
refletida nas coisas, assim como se vê uma mexendo o pé, encontrei no chão um feixe
paisagem a partir de um quarto de corda. Sentei-me ali, de olhos fechados
escurecido. Finalmente, tropeçando nos e no entanto não inteiramente no escuro,
cabos, passando pela catraca de ferro, pois sobre eles, sobre mim, irrompia o
cheguei à ponta da embarcação e observei, brilho prateado. Lá embaixo, percebia o
lá embaixo, como a extremidade da proa murmúrio suave da água; acima de mim,
batia no mar negro, e a luz da lua com uma ressonância inaudível, a
dissolvida se espraiava pelos dois lados do correnteza branca deste mundo. Pouco a
casco. De novo e de novo, aquele arado se pouco, aquele murmúrio tomou conta do
alçava e afundava no torrão líquido negro, meu sangue: não sentia mais meu próprio
e eu sentia toda a dor do elemento vencido, corpo, não sabia se aquela respiração era
sentia todo o prazer da força terrestre minha ou do coração do navio, batendo ao
nesse jogo resplandecente. Assim, perdi a longe, enquanto eu era levado pela
noção do tempo. Foi uma hora que passei correnteza desse murmúrio incansável do
ali de pé, ou foram apenas alguns mundo noturno.
minutos? No seu sobe-e-desce, a Uma tosse seca, baixa, bem perto de
gigantesca balança do navio me lançava mim despertou-me. O susto me tirou dos
para além do tempo. Senti apenas que veio meus sonhos já quase delirantes. Meus
olhos, ofuscados pela luminosidade branca de alguém, mas sem conseguir enxergá-lo.
sobre as pálpebras até aquele momento Sem saber o porquê, eu tinha a sensação
fechadas, tentavam enxergar algo: bem à de que o homem me encarava, da mesma
minha frente, na sombra do parapeito, maneira que eu o encarava. Mas a luz
havia o brilho de alguma coisa que poderia branca e cintilante acima de nós era tão
ser o reflexo de uma lente de óculos. Em forte, que nenhum dos dois podia ver nada
seguida, tornou-se visível uma centelha além da silhueta do outro na sombra. Só
redonda, a brasa de um charuto. Ao me conseguia escutar sua respiração e a
sentar, com os olhos voltados apenas para aspiração sibilante no cachimbo.
a espuma vinda do casco e, acima, para o O silêncio era insuportável. Eu
Cruzeiro do Sul, evidentemente não havia preferiria ter ido embora, mas isso parecia
notado esse vizinho, que com certeza já brusco demais, repentino demais. Sem
estava sentado ali durante todo aquele saída para o embaraço, peguei um cigarro.
tempo. Sem pensar, ainda com os sentidos O fósforo se acendeu, e por segundos uma
embotados, eu disse em alemão: luz trêmula iluminou aquele espaço
- Verzeihung! (* Perdão! (N.T.)) estreito. Por trás das lentes dos óculos, vi
- Oh, bitte... (* Não há de quê. (N.T.)) - um rosto desconhecido, que nunca vira a
respondeu em alemão a voz vinda do bordo, em nenhuma refeição, em nenhum
escuro. passeio pelo convés. Seja porque a chama
Não sou capaz de dizer o quanto isto repentina fez os seus olhos doerem, seja
era estranho e horripilante: o fato de estar por uma alucinação minha, esse rosto
sentado lado a lado, no escuro, bem perto pareceu horrivelmente contorcido,
sombrio, o rosto de um duende. Contudo, através da escuridão eu sentia um sinal de
antes que eu pudesse perceber claramente medo e opressão em seus passos.
os detalhes, a escuridão voltou a engolir os - Desculpe - disse ele apressadamente
traços iluminados por um instante, e eu - se lhe faço um pedido. Eu... eu... -
voltei a enxergar apenas a silhueta de uma gaguejou e, por embaraço, demorou a
figura, escuro impresso no escuro, e às conseguir retomar o que dizia - eu... eu
vezes o anel vermelho do fogo do charuto tenho motivos particulares... inteiramente
no vazio. Ninguém disse nada, e esse particulares para me recolher aqui... um
silêncio era sufocante e opressor como o ar caso de luto... evito o contato a bordo...
dos trópicos. Não me refiro ao senhor... não, não...
Por fim, não consegui mais agüentar. Queria apenas lhe pedir... O senhor me
Levantei-me e disse de modo cortês: faria um grande favor se não dissesse a
- Boa noite. ninguém a bordo que me viu aqui... São...
- Boa noite - foi a resposta saída do por assim dizer, motivos particulares que
escuro, com uma voz áspera, rouca, me impedem agora de estar junto com as
enferrujada. pessoas... e... então... seria lamentável
Com esforço, segui meu caminho para mim se o senhor mencionasse que
tropeçando pelo cordame ao longo dos alguém aqui, durante a noite... que eu...
mastros. Então ressoaram passos atrás de Voltou a se interromper, sem
mim, apressados e inseguros. Era o meu conseguir falar. Dissipei depressa sua
vizinho de logo antes. Sem refletir, parei. perturbação ao lhe assegurar que cum-
Ele não chegou a se aproximar muito, priria seu desejo. Apertamos as mãos. Em
seguida, voltei para a minha cabine e psicologicamente enigmáticos possuem um
dormi um sono pesado, extraordi- poder inquietante sobre mim; agita-me o
nariamente agitado e perturbado por sangue a ânsia de encontrar as pistas de
imagens. Mantive a minha promessa de conexões não ~suspeitadas, e pessoas
não contar a ninguém a bordo a respeito estranhas são capazes, por sua mera
do estranho encontro, embora a tentação presença, de me levar a uma paixão de
não fosse pequena. Pois, numa viagem querer saber, uma paixão que, no meu
marítima, o menor detalhe se torna um caso, não é muito menor do que a paixão
acontecimento importante, seja ele uma de querer ter uma mulher. O dia foi longo e
vela no horizonte, um golfinho que salta, vazio, como que se desfazendo em meus
um flerte descoberto, uma piada qualquer. dedos. Fui para a cama cedo: sabia que
Assim, fui atormentado pela curiosidade de iria acordar à meia-noite, que algo me
saber mais a respeito daquele passageiro despertaria.
incomum. Pesquisei as listas de pas- E, de fato, acordei aproximadamente
sageiros do navio à procura de um nome na mesma hora do dia anterior. No
que pudesse ser o dele, observei as mostrador do relógio, os dois ponteiros se
pessoas para verificar se poderiam ter cobriam formando um traço luminoso.
alguma relação com ele: durante o dia Com pressa, saí da cabine abafada para a
inteiro fui tomado por uma paciência noite ainda mais abafada. As estrelas
irritadiça, e na verdade apenas esperei a brilhavam como na véspera e espalhavam
chegada da noite, a fim de saber se o uma luminosidade difusa sobre o navio
encontraria de novo. Assuntos oscilante; bem lá no alto reluzia o Cruzeiro
do Sul. Tudo era como na véspera - nos minha frente, sua voz educada e
trópicos, os dias e as noites são mais constrangida.
parecidos do que em nossas esferas -, só - Desculpe-me - disse -, o senhor
que eu não estava acalentado de maneira evidentemente quer voltar a seu lugar, e
suave, fluida e sonhadora como na noite tenho a sensação de que se afastou
anterior. Alguma coisa me atraía, quando me viu. Por favor, sente-se, já me
perturbavame, e eu sabia para onde era vou.
atraído: em direção àquele canto escuro na Apressei-me, por minha vez, em dizer
proa, a fim de verificar se ele ainda estava que ele devia ficar, que eu só havia
lá sentado, imóvel, aquele ser misterioso. recuado para não incomodá-lo.
Lá no alto ressoou o sino do navio. Isso me - O senhor não me incomoda - disse,
impeliu para frente. Passo a passo, contra com uma certa amargura -, pelo contrário,
a vontade, no entanto atraído, deixei-me fico contente por não estar sozinho. Há dez
levar. Ainda não havia chegado à parte da dias que não falava uma palavra sequer...
frente do navio e, de repente, acendeu-se na verdade, há anos que... e isso é tão
lá na ponta algo como um olho vermelho: o difícil, talvez justamente porque a pessoa
charuto. Portanto ele estava sentado ali. já está sufocada por reprimir tudo... Não
Sem querer, recuei assustado e consigo mais sentar na cabine, naquele...
permaneci parado. Teria ido embora no naquele túmulo... não consigo mais... e as
instante seguinte. Então houve um pessoas eu também não suporto, porque
movimento no escuro, algo se ergueu, deu eles não param de rir o tempo todo... Não
dois passos, e de repente ouvi, bem à posso suportar isso agora... escuto o riso
até na cabine e tampo os ouvidos... claro, mim. Senti que o homem queria falar,
eles não sabem que... ora, eles não sabem, precisava falar. E sabia que eu tinha de me
e aliás, em que isso interessa aos calar para ajudá-lo.
estranhos... Voltamos a nos sentar. Ele tinha ali
Interrompeu-se novamente. E em uma segunda cadeira, que me ofereceu.
seguida disse, de modo repentino e Nossos cigarros cintilavam, e pela maneira
apressado: como o anel iluminado do cigarro dele ba-
- Mas não quero importunar o lançava no escuro, sem se aquietar, vi que
senhor... desculpe a minha tagarelice. sua mão tremia. Mas mantive o silêncio, e
Inclinou-se e quis seguir adiante. Mas ele manteve o silêncio. Em seguida,
insisti em me opor ao desejo dele. perguntou de repente, com a voz baixa:
- O senhor não me importuna. - O senhor está muito cansado?
Também estou contente por trocar - Não, de maneira alguma.
algumas palavras tranqüilas aqui... Aceita A voz vinda do escuro voltou a hesitar:
um cigarro? - Gostaria de lhe fazer uma pergunta
Ele aceitou um, que acendi. Mais uma sobre algo... quero dizer, gostaria de contar
vez, bruxuleando contra a borda escura do algo para o senhor. Sei, sei exatamente o
navio, ganhou contornos o rosto, só que quanto é absurdo me dirigir ao primeiro
agora inteiramente voltado para mim: os que me vem ao encontro, mas... estou...
olhos por trás dos óculos perscrutavam estou numa condição psíquica terrível...
meu rosto, ávidos e com uma insistência estou num ponto em que preciso de
desatinada. Um horror se apoderou de qualquer maneira conversar com alguém...
não há outra saída para mim... O senhor homem era louco? Será que estava
vai entender isso quando eu... sim, quando bêbado?
eu lhe contar... Sei que o senhor não No entanto, como se eu tivesse
poderá ajudar... mas estou de alguma manifestado essa suposição em voz alta, de
maneira doente por me calar... e um repente ele disse com uma voz
doente é sempre ridículo para as outras inteiramente diferente:
pessoas... - Talvez o senhor me tome por um
Interrompi e lhe pedi para não se maluco ou por um bêbado. Não, não sou
preocupar. Podia simplesmente me nada disso... ainda não. Só que as
contar... claro que eu não lhe poderia palavras que o senhor disse me tocaram de
prometer nada, mas temos o dever de maneira tão extraordinária... tão
oferecer nossa boa vontade. Quando vemos extraordinária, porque é justamente isso
alguém em dificuldades, naturalmente que me perturba, ou seja, se temos o
surge o dever de ajudar... dever... o dever... Ele começou novamente
- O dever... de oferecer sua boa a gaguejar. Então parou por um momento
vontade... o dever de tentar... Portanto, o e começou com um novo impulso.
senhor quer dizer, o senhor também, que - Sou médico. E por isso há tais
temos o dever... o dever de oferecer nossa casos, tais complicações... bem, digamos,
boa vontade. situações-limite, nas quais a gente não
Ele repetiu três vezes a frase. Fiquei sabe se tem o dever... quero dizer, o que há
horrorizado com a maneira incisiva, não é só um dever com relação às outras
amarga, de repetir aquilo. Será que o pessoas, mas um dever para consigo
mesmo, um com relação ao Estado e um ser o salvador, alguém que ajuda o mundo
para com a ciência... A gente deve ajudar, inteiro, só porque ele tem um diploma com
claro, por isso estamos ali... mas essas palavras em latim? Será que ele precisa
máximas são apenas teóricas... Até que realmente jogar fora sua vida, injetar água
ponto a gente deve ajudar?... Aí está o em suas veias, quando qualquer um...
senhor, uma pessoa desconhecida, e eu qualquer um chega e quer que ele seja
sou um desconhecido para o senhor, e lhe nobre, prestativo e bondoso? Pois é, em
peço para não contar que me viu... Bom, o algum ponto cessa o dever... no ponto em
senhor não conta, cumpre esse dever... que a gente não consegue mais,
Peço-lhe que converse comigo, porque o justamente nesse ponto...
silêncio está me matando... O senhor está Ele se recompôs e prosseguiu:
pronto a me ouvir... bom... Mas isso é - Desculpe-me... falo assim tão
fácil... Porém, se eu lhe pedisse para me agitado... mas não estou bêbado... ainda
agarrar e me jogar no mar... então cessaria não estou bêbado... isso também acontece
a solicitude e a vontade de ajudar. Ou seja, comigo ultimamente com freqüência,
em algum ponto acaba isso... no ponto em confesso ao senhor, nessa solidão
que começa a própria vida de alguém, sua infernal... Imagine só, por sete anos vivi
própria responsabilidade.. em algum ponto quase que apenas entre nativos e
é preciso que acabe... em algum ponto esse animais... então a gente desaprende a falar
dever precisa cessar... Ou talvez, justa- tranqüilamente. Quando a gente se abre,
mente no caso dos médicos, ele não transborda tudo de uma vez... Mas
devesse cessar? Será que o médico precisa espere... já sei... queria perguntar, queria
expor-lhe um caso para saber se a gente De repente, puxou a cadeira para perto de
tem o dever de ajudar... ajudar de maneira mim. - Assim não é possível. Preciso lhe
pura, como um anjo, se a gente... Contudo contar tudo logo, desde o início, senão o
temo que vá demorar. O senhor realmente senhor não vai entender... Não posso
não está cansado? relatar isso como um exemplo, como uma
- Não, de maneira alguma. teoria... preciso lhe contar o meu caso. Não
-Eu... eu lhe agradeço.,. Não toma há vergonha alguma, nada a esconder...
algo? diante de mim, as pessoas também andam
Estendeu a mão para algum lugar nuas e me mostram suas sarnas, sua
atrás dele. Algo tilintou, duas, três garrafas urina e seus excrementos... quando
- em todo caso, mais de uma garrafa das alguém quer ser ajudado, não pode fazer
que se encontravam a seu lado. Ofereceu- circunlóquios e não pode deixar de falar
me um copo de uísque, do qual beberiquei nada... Portanto, não vou lhe contar
um trago, enquanto ele virava o seu de nenhum caso de um médico fictício... tiro a
uma vez. Por um momento, fez-se silêncio minha roupa e digo: eu... desaprendi a ter
entre nós. Então bateu o sino do relógio: vergonha nesta solidão medonha, nesta
meia-noite e meia. terra amaldiçoada que destroça a alma de
- Pois então... eu gostaria de lhe uma pessoa e chupa o tutano de seus
contar um caso. Imagine um médico ossos.
numa... numa cidade pequena... ou, na Devo ter feito algum movimento, pois
verdade, no interior... um médico que... ele se interrompeu antes de retomar a
um médico que...-voltou a parar de falar. narrativa.
-Ah, o senhor protesta... entendo, o até a medula, a gente fica indolente e
senhor é entusiasmado pela índia, pelos preguiçoso, fica mole, um molusco. De
templos e pelas palmeiras, por todo o alguma maneira nós, europeus, somos
romantismo de uma viagem de dois meses. separados de nossa verdadeira essência
É... dessa perspectiva, são encantadores os quando saímos das cidades grandes para
trópicos, quando a gente os atravessa de essa maldita estação pantanosa: mais cedo
trem, de carro, de jinriquixá. (*Carro de ou mais tarde, todos se perdem, um bebe,
duas rodas para transporte de pessoas, outros fumam ópio, outros passam a
puxado por um ou dois homens. (N.T.)) brigar como bestas-feras - algum tipo de
Não foi diferente o que senti quando, há loucura acaba atingindo cada pessoa.
sete anos, cheguei aqui pela primeira vez. Sentimos falta da Europa, sonhamos
Tinha todos os sonhos: queria aprender a algum dia voltar a andar numa rua, sentar
língua e ler os livros sagrados no original, numa sala clara com paredes de pedra,
queria estudar as doenças, trabalhar entre pessoas brancas; ano após ano
cientificamente, aprofundar-me na psique sonhamos com isso, então chega a época
dos nativos - como se diz no jargão em que teríamos férias e já estamos
europeu -, tornar-me um missionário da tomados demais pela inércia para ir.
humanidade, da civilização. Todos os que Sabemos que lá fomos esquecidos, somos
chegam sonham o mesmo sonho. Mas, estranhos, uma concha neste mar, uma
naquela estufa invisível, acaba a força da concha na qual qualquer um pode pisar.
gente; a febre - por mais que se tenha Por isso continuamos, corrompidos e
tomado quinino, acaba-se pegando - ataca depravados, nessas florestas quentes e
úmidas. Maldito dia em que me vendi e fui do caixa do hospital, e, quando a coisa veio
parar naquele ninho de imundícies... à tona, foi um inferno. Um tio meu ainda
"Aliás, meu ato não foi tão voluntário conseguiu encobrir o escândalo, mas
assim. Havia estudado na Alemanha, minha carreira não tinha salvação. Ouvi
tornara-me um médico, até um bom dizer então que o governo holandês estava
médico, com um emprego numa clínica de contratando médicos para a colônias e
Leipzig; num número antigo do periódico oferecia um adiantamento. Ora, achei
de medicina, fizeram grande estardalhaço imediatamente que devia ser uma coisa
por causa de uma nova injeção que fui o suspeita, por oferecerem dinheiro
primeiro a utilizar. Aconteceu então uma adiantado; eu sabia que o número de
história com uma mulher, uma pessoa que sepulturas crescia três vezes mais
eu conheci no hospital: ela havia depressa, naquelas plantações assoladas
enlouquecido tanto seu amante, que ele pela febre, do que entre nós, mas quando a
lhe deu um tiro de revólver, e eu não gente é jovem acredita que a febre e a
demorei para ficar tão transtornado quanto morte atacam apenas os outros. Não tive
ele. Ela tinha um modo de ser, arrogante e muita escolha, então me encaminhei para
frio, que me deixava furioso - mulheres Roterdam, assinei um contrato de dez
autoritárias e insolentes sempre me anos, recebi um belo maço de cédulas,
tiveram nas mãos, mas essa me dobrava a enviei a metade para meu tio em casa, a
ponto de quebrar meus ossos. Eu fazia o outra metade gastei com uma pessoa no
que ela queria, eu-por que não dizer agora, bairro do porto, só porque ela era tão
que se passaram oito anos? - tirei dinheiro parecida com aquela maldita garota. Sem
dinheiro, sem compromissos, sem ilusões, companhia, além da amplitude da floresta,
parti então da Europa, e não estava das plantações, do mato e do pântano.
especialmente triste quando deixamos o "No início, ainda era suportável.
porto. Naquele tempo, sentava-me no con- Dedicava-me aos estudos; certa vez,
vés, como faz o senhor, como fazem todos, quando o vice-governador sofreu um
observando o Cruzeiro do Sul e as acidente de automóvel durante uma
palmeiras, o coração acelerado - ah, viagem de inspeção e arrebentou a perna,
sonhava com florestas, com solidão, com realizei sem qualquer auxílio uma operação
silêncio! Agora, quanto à solidão, tive o sobre a qual muito se falou depois. Para
bastante. Não me mandaram para Batavia me manter ativo, eu colecionava venenos e
ou para Surabaya, (* Cidades das Índias armas dos nativos e me ocupava com
Orientais Holandesas, colónia nos centenas de coisas sem importância. Mas
territórios da atual Indonésia. N.T.) para tudo isso só funcionou enquanto a energia
alguma cidade em que há pessoas e clubes da Europa ainda atuava em mim; depois
e golfe e livros e jornais, mas - o nome não esmoreci. Os poucos europeus me
vem ao caso - para um distrito qualquer, a entediavam, parei de circular, passei a
dois dias de viagem da cidade mais beber e a me perder em sonhos solitários.
próxima. Uns poucos funcionários Só me restavam dois anos, depois estaria
entediados, magros, uns poucos half- livre, com uma pensão, e poderia retornar
castess, (* Mestiços filhos de indianos com à Europa, recomeçar uma vida. Na
europeus. N.T.) não passava disso minha verdade, eu nada mais fazia do que
esperar, recostar-me e esperar. E estaria
sentado assim ainda hoje, se ela não... se recomeçou, mas agora como que mais
aquilo não tivesse ocorrido." tensa, mais exaltada.
* * * - Bem... Espere... bem, foi assim. Eu
A voz na escuridão se interrompeu. estava lá sentado na minha teia, sentado
Também o charuto não brilhava mais. A como uma aranha na teia, impassível, fazia
quietude era tão grande, que mais uma vez já meses. Foi justamente no fim da estação
escutei a água que batia na quilha forman- das chuvas, quando, por semanas e
do espuma e a batida de coração das semanas, a água escorria no telhado;
máquinas ao longe, abafada. Teria gostado ninguém viera, nenhum europeu; dia após
de acender um cigarro, mas tinha medo do dia eu ficava sentado ali, com minhas
clarão do fósforo e do reflexo em seu rosto. mulheres amarelas pela casa e meu bom
Ele se manteve calado. Eu não sabia se uísque. Naquele tempo, eu estava muito
tinha terminado, se estava cochilando, se down (* Deprimido. N.T.)), doente de
estava dormindo, pois era um silêncio de nostalgia da Europa; se lia qualquer
morte. romance que falasse de ruas claras e
Então o sino do navio deu uma mulheres brancas, meus dedos
badalada forte: uma hora. Ele se começavam a tremer. Não sou capaz de
sobressaltou; voltei a ouvir o copo tilintar. descrever o estado, é uma espécie de
Obviamente, estendia a mão para trás, em doença tropical, uma nostalgia furiosa,
busca do uísque. Um gole se fez ouvir febril e contudo sem força, que às vezes
baixinho - em seguida, subitamente a voz acomete a gente. Era assim que eu ficava
naquele tempo, sentado ali, acho que
debruçado sobre um Atlas, sonhando com cumprimentá-la, mas ela me dirige a
viagens. Então batem na porta de maneira palavra depressa:
exaltada, o garoto está lá fora, e uma das "- Bom dia, doutor - diz ela em inglês
mulheres, ambos com os olhos totalmente de modo fluente (um tanto fluente demais
arregalados pelo susto. Fazem gestos para e como se as palavras tivessem sido
me avisar: uma dama está ali, uma lady, decoradas). - Perdoe-me por chegar assim.
uma mulher branca. Mas estávamos agora mesmo no posto,
"Levanto-me sobressaltado. Não ouvi nosso carro ficou parado lá - por que ela
nenhum carro chegar, veículo algum. Uma não veio de carro é a pergunta que passa
mulher branca aqui nesta selva? por minha cabeça num átimo -, então
"Quero descer a escada, mas ainda lembrei que o senhor mora aqui. Já ouvi
me detenho. Uma olhada no espelho, tanto falar do senhor, foi uma verdadeira
apressadamente me ajeito um pouco. mágica o que o senhor fez com o vice-
Estou nervoso, inquieto, por algum motivo governador, a perna dele está allright (*
perturbado por um pressentimento Em perfeito estado. N.T.)), sem qualquer
desagradável, pois não conheço ninguém problema, ele está jogando golfe como
neste mundo que viria me procurar só por antes. Ah, sim, lá embaixo se fala de tudo,
amizade. Finalmente desço. e todos nós queríamos dar em troca nosso
"Na ante-sala a dama me espera e cirurgião resmungão e mais dois outros, se
vem ao meu encontro apressada. Um véu o senhor fosse trabalhar para nós. Ora, por
fechado esconde seu rosto. Quero que não vemos o senhor lá embaixo?, vive
aqui como um iogue...
"Ela continua a tagarelar assim, cada "- Posso lhe oferecer um chá? -
vez mais depressa, sem deixar que eu tome pergunto. "Ela não se vira e olha apenas
a palavra. Há algo de nervoso e desatento para os livros.
nesse falatório incessante, e fico inquieto "- Não, obrigada, doutor... precisamos
com isso. Por que ela fala tanto, pergunto- partir logo... não tenho muito tempo... foi
me internamente, por que não se apenas um pequeno passeio... Ah, o
apresenta, por que não tira o véu? Será senhor também tem aqui Flaubert, que eu
que tem febre? Será que está doente? Será adoro... maravilhoso, maravilhoso... a
que é louca? Fico cada vez mais nervoso, Education sentimentale (* Educação
porque percebo o ridículo de permanecer sentimental: publicado em 1869 por
assim tão calado diante dela, prostrado por Gustave Flaubert (1821-1880), o livro
sua tagarelice atordoante. Finalmente ela reinventou o chamado romance de
pára de falar por um momento, e eu formação e se tornou nm modelo para o
consigo lhe pedir para subir. Ela faz um Realismo. N.T.)... vejo que também lê
gesto para o empregado esperar ali e me francês... Quantas coisas os alemães
segue escada acima. sabem!... É verdade, aprendem tudo na es-
"- É agradável aqui - olhando ao redor cola... É realmente muito bom saber falar
para o meu quarto. - Ah, que belos livros! tantas línguas... O vice-governador jura
Queria ler todos eles! "Anda até a estante e sempre que o senhor é o único em quem
examina os títulos dos livros. Pela primeira confiaria para qualquer cirurgia... nosso
vez desde que a encontrei ela se cala por bom cirurgião só serve para jogar bridge...
um minuto. Aliás, sabia de uma coisa? - ela continua,
sem se virar. - Hoje me ocorreu que eu "- Não posso julgar assim. A senhora
deveria marcar uma consulta com o tem com freqüência desmaios desse tipo?
senhor... e como estávamos justamente "- Não... quero dizer, tenho tido... nos
passando por aqui, pensei... ora, com últimos tempos... principalmente por
certeza o senhor tem outras coisas para agora... tenho tido... esses desmaios e
fazer agora... melhor eu vir numa outra enjôos.
hora. "Ela se vira novamente de frente para
"`Mostre logo as cartas!'- pensei de a estante, fecha o livro, apanha um outro e
imediato. Mas não demonstrei, apenas lhe começa a folhear. Estranho, por que ela
assegurei que seria uma honra para mim continua a folhear assim tão... tão nervosa,
prestar um serviço naquele momento ou por que ela não tira o véu para olhar? De
quando quer que fosse. propósito, não digo nada. Gosto de deixá-la
"- Não é nada sério - ela disse, esperar. Por fim ela recomeça a falar
virando-se parcialmente e ao mesmo tempo daquela maneira incessante e intranqüila.
folheando um livro que havia tirado da "- Não é verdade, doutor, nada
estante - nada sério... ninharias... coisas preocupante? Nenhuma doença dos
de mulher... vertigem, desmaios. Hoje trópicos... nada perigoso...
cedo, quando fizemos uma curva, de "- Primeiro preciso verificar se a
repente perdi os sentidos... o garoto teve senhora está com febre. Posso tirar o seu
que me endireitar no carro e pegar água... pulso...
ora, talvez o chofer estivesse correndo "Dou um passo em sua direção. Ela se
muito... o senhor não acha, doutor? esquiva levemente.
"- Não, não, não estou com febre... senhora teve sintomas semelhantes? `-
com certeza, com certeza absoluta... tirei a Tive.
minha temperatura todos os dias desde... "Como uma lâmina afiada e cortante,
desde que começaram esses desmaios. a palavra sai de sua boca. Em sua cabeça
Nenhuma febre, sempre 36,4 e nada além. virada não há qualquer movimento.
Minha digestão também está saudável. "- Talvez fosse melhor, cara senhora,
"Hesito por um instante. Durante que eu fizesse um exame completo... posso
aquele tempo todo uma suspeita vinha se lhe pedir talvez para... para se dirigir à
insinuando: pressinto que essa mulher sala ao lado?
quer algo de mim, ninguém vai até o meio "Então ela se vira subitamente.
da floresta para falar de Flaubert. Por um, Através do véu, sinto um olhar frio e
dois minutos eu a deixo esperando. decidido em minha direção.
"- Com licença - digo então de modo "- Não... isso não é necessário... tenho
direto -, posso lhe fazer algumas perguntas toda certeza a respeito de meu estado."
sem cerimônia? * * *
"- Claro, doutor, afinal o senhor é um A voz hesitou por um momento. De
médico - ela responde, mas volta a me dar novo o copo cheio tilintou no escuro.
as costas e brincar com os livros. - Portanto, ouça bem... mas tente
"- A senhora tem filhos? "- Tenho sim, primeiro refletir por um instante sobre
um filho. isso. Aparece de supetão, diante de um
"- E a senhora teve... a senhora teve homem perdido em sua existência
antes... quero dizer, da outra vez... a solitária, uma mulher, a primeira mulher
branca que entra em seu quarto nos havia algo de malévolo em mim... o homem
últimos anos... e de repente pressinto que que se defende, algum tipo de irritação...
há algo de malévolo no aposento, um pois... já disse isto... desde o primeiro
perigo. De alguma maneira isto se apodera segundo, na verdade antes mesmo de vê-
de mim: fico horrorizado diante da re- Ia, percebi aquela mulher como um
solução férrea dessa mulher, que chegara inimigo.
ali com uma conversa superficial e então, "A princípio me calei. Fiquei calado,
de uma hora para outra, saca a sua de maneira obstinada, irritado. Pressentia
exigência como se fosse uma faca. Pois eu que ela me encarava sob o véu - encarava-
já sabia o que ela queria de mim, soube de me diretamente, com um olhar imperioso,
imediato - não era a primeira vez que pressentia que ela queria me obrigar a
mulheres me pediam algo assim, mas elas falar, mas... desviando o assunto... de
costumavam me abordar de outra maneira, maneira inconsciente passei a imitar sua
costumavam chegar envergonhadas ou maneira de falar superficial e indiferente.
suplicantes, costumavam chegar com Agi como se não tivesse entendido, pois -
lágrimas e juras. Mas ali se encontrava não sei se o senhor já pode prever isso -
uma... uma resolução férrea, sim, uma queria obrigá-la a se expressar claramente,
resolução masculina... desde o primeiro não queria oferecer, mas... ser solicitado...
segundo percebi isso, que ela era mais justamente por ela, porque viera com uma
forte do que eu... que ela era capaz de me atitude tão dominadora... e porque eu
obrigar a realizar sua vontade, a fazer tudo sabia que, com relação às mulheres, nada
como ela quisesse... Mas... mas... também
me subjugava tanto quanto essas "- Ah, problemas no coração - repeti,
maneiras frias e altivas. dando a impressão de estar preocupado -,
"Assim, desviei o assunto, afirmei que quero examinar isso então. "E fiz um
não havia com que se preocupar, que tais movimento como se fosse levantar e qui-
desmaios eram algo natural no processo, sesse pegar o estetoscópio.
que na verdade eles revelavam quase um "Mas ela logo me cortou. Agora a voz
bom desenvolvimento. Citei casos tirados era totalmente incisiva e determinada -
dar revistas médicas... falei, falei, de modo como uma ordem.
solto e leve, sempre considerando o "- Eu tenho problemas no coração,
assunto como uma completa banalidade... doutor, preciso lhe pedir para acreditar no
sempre à espera de que ela fosse me que digo. Não quero perder muito tempo
interromper. Pois sabia que ela não com exames. O senhor poderia, quero di-
agüentaria. zer, ter mais confiança em mim. Eu, pelo
"Logo ela me cortou, com um gesto menos, já demonstrei suficientemente
que deixava de lado toda aquela conversa minha confiança no senhor. "Agora já se
tranqüilizadora. tratava de uma luta, de um desafio aberto.
"- Não é isso, doutor, que me E eu o aceitei.
incomoda. Na época em que tive meu "- Faz parte da confiança a
menino eu estava em melhores condições... sinceridade, uma sinceridade
mas agora não estou mais afright... tenho incondicional. Fale com clareza, eu sou um
problemas no coração... médico. Sobretudo, tire o véu, sente-se,
deixe para lá os livros e os rodeios. Não se "- O senhor sabe, doutor, o que quero
vai ao médico de véu. do senhor, ou não sabe?
"Ela me encarou, altiva e orgulhosa. "-Acredito que sei. Mas é melhor que
Hesitou por um instante. Em seguida, sejamos totalmente claros. A senhora
sentou-se e levantou o véu. Vi um rosto tal deseja encerrar seu estado... A senhora
e qual o que havia temido, um rosto impe- deseja que eu a livre de seu desmaio, de
netrável, duro, controlado, de uma beleza suas náuseas, eliminando... eliminando a
sem idade, um rosto com olhos cinzentos causa. É isso?
ingleses, nos quais tudo dava a impressão “- É.
de quietude e por trás dos quais era "A palavra soou como uma guilhotina.
possível, contudo, imaginar grandes - A senhora sabe também que tais
paixões. Aquela boca pequena e contraída procedimentos são perigosos... para ambas
não revelaria segredo algum se não quises- as partes...?
se. Durante um minuto ficamos nos "- Sei.
encarando - ela, ao mesmo tempo "- Que é algo proibido por lei?
autoritária e interrogativa, com uma cruel- "- Há situações em que isso não é
dade tão fria e rígida que não suportei - e, proibido, mas até recomendado.
sem querer, olhei para o lado. "- Mas essas situações exigem uma
"Ela batia levemente com os dedos na recomendação médica.
mesa. Portanto, também havia nela algum "- Então o senhor encontrará essa
grau de nervosismo. De súbito ela disse, recomendação. O senhor é médico.
apressadamente:
"Claros, fixos, sem piscar, seus olhos especialmente se o senhor... se o senhor
estavam voltados para mim. Era uma puder levar uma grande quantia para casa.
ordem, e eu, um fraco, estremeci de "Tive um calafrio. Aquela clareza dura,
admiração pela imperiosidade demoníaca de negociante, de comerciante, me
de sua vontade. Mas eu ainda me atordoava. Até então, ela ainda não abrira
segurava, não queria demonstrar que já os lábios para fazer um pedido - tudo fora
estava derrotado, pisoteado. `Não tão previamente calculado, primeiro a tocaia e
depressa! Faça rodeios! Obrigue-a a pedir!', depois a captura. Eu sentia como o caráter
sugeria algum tipo de ímpeto em mim. demoníaco de sua vontade me dominava,
"- Isso nem sempre depende da mas me defendia com toda a minha
vontade do médico. Mas estou pronto a irritação. Mais uma vez, forcei-me a ser
consultar um colega no hospital... "-Não objetivo, quase irônico até.
quero o seu colega... vim procurar o "- E essa grande quantia a senhora
senhor. "- Posso perguntar por que iria... a senhora colocaria à minha
justamente a mim? disposição?
"Ela me olhou friamente. "- Para ajudá-lo e para a sua partida
"- Não tenho escrúpulo algum em imediata.
dizer. Porque o senhor mora longe, porque "- A senhora sabe que desse modo eu
não me conhece, porque o senhor é um perderia a minha pensão?
bom médico, porque... - nesse momento "- Eu vou recompensá-lo.
ela hesitou pela primeira vez - não deverá "- A senhora está sendo muito clara...
ficar muito tempo nesta região, mas quero ainda mais clareza. Qual a
quantia que a senhora tem em vista como entre nós dois estava subitamente a
honorários? descoberto. Eu sabia que ela me odiava,
"- Doze mil florins, a serem porque precisava de mim, e eu a odiava
descontados em cheque em Amsterdam. porque... porque ela não queria fazer um
"Eu... estremeci... estremeci de raiva pedido. Nesse segundo, nesse único
e... também de admiração. Ela tinha segundo de silêncio nos falamos pela
calculado tudo, desde a quantia até o primeira vez com toda sinceridade. Em
modo de pagar, que me obrigaria a fazer a seguida, repentina como o bote de um
viagem; ela me avaliara e me comprara réptil, ocorreu-me uma idéia, e eu lhe
sem me conhecer, tinha-me à disposição, disse... disse...
pelo menos segundo sua previsão e sua "Mas espere, assim o senhor vai
vontade. Seria preferível que eu tivesse entender mal o que fiz... o que disse...
dado um tapa em seu rosto... Mas quando preciso esclarecer primeiro como... como
me levantei, tremendo - ela também se essa idéia desvairada surgiu em meu
levantou - e a encarei, olhos nos olhos, ao pensamento..:"
ver aquela boca cerrada incapaz de pedir * * *
algo, a sua fronte orgulhosa que não De novo o copo tilintou no escuro. E a
queria se curvar, de repente fui tomado... voz ficou mais agitada.
por... uma espécie de ímpeto violento. Ela - Não que eu queira me desculpar, me
deve ter sentido alguma coisa, pois ergueu justificar, limpar meu nome... Mas de
as sobrancelhas como quando queremos outra maneira, o senhor não entende...
nos livrar de alguém incômodo: o ódio Não sei se algum dia cheguei a ser um bom
homem, mas... acredito que sempre fui sentimento de que o outro precisa da
uma pessoa prestativa... Na vida horrível gente.
que eu tinha lá, essa era a minha única "Essa mulher, contudo - não sei se
alegria, com o bocado de ciência acumula- consigo descrever -, por sua altivez, ela me
do no cérebro, conseguir salvar algum agitou, ela me despertou para a resistência
sopro de vida... um tipo de satisfação desde o instante em que entrou na casa,
divina... Sinceramente, eram meus aparentemente a passeio; ela trouxe à tona
melhores momentos quando vinha um tudo... como dizer... tudo o que havia em
daqueles garotos amarelos, pálido de mim de reprimido, de escondido, de
horror, uma mordida de cobra no pé já maldoso. O fato de ela se fazer passar por
inchado, urrando que não amputassem uma lady, fria e distante, propondo um
sua perna, e eu ainda conseguia salvá-lo. negócio, quando na verdade se tratava de
Viajava horas quando havia alguma vida ou morte, isso me deixou maluco...
mulher com febre... também já havia Além disso... além disso... afinal, a pessoa
ajudado algumas da mesma maneira que não fica grávida por jogar golfe... eu
esta queria, mesmo na Europa, na clínica. sabia... quer dizer, de repente eu tinha de
Mas pelo menos se percebia que aquele ser me lembrar com uma - e era essa a tal
humano precisava da gente, era algo que a idéia -, com uma clareza terrível do fato de
gente sabia, que se estava salvando que essa mulher distante, essa mulher
alguém da morte ou do desespero... e isso altiva, essa mulher fria, que franzia as
era necessário mesmo para ajudar, esse sobrancelhas sobre seus olhos de aço
quando eu a encarava apenas de maneira
crítica... essa mulher se entregara aproveitar de alguma situação como
ardentemente a um homem, dois ou três médico... Mas dessa vez não era luxúria,
meses antes, nua como um animal, e não era lascívia, nada de sexual,
talvez gemendo de prazer, os corpos sinceramente não... eu assumiria, se
colados um no outro como dois lábios... fosse... dessa vez era apenas a cobiça de sé
Foi esse, foi esse o pensamento que me tornar senhor de uma arrogância... senhor
queimou, que tomou conta de mim quando como homem... Já disse ao senhor, acho,
ela me encarou de maneira tão orgulhosa, que mulheres arrogantes, aparentemente
fria e intocável como um oficial inglês... frias, sempre haviam tido poder sobre
Então tudo se tornou mais tenso... fui mim... mas agora, agora havia, além disso,
acometido pela idéia de humilhá-la... a o fato de eu viver ali fazia sete anos, sem
partir daquele segundo, eu via, através do ter nenhuma mulher branca, o fato de eu
vestido, seu corpo nu... a partir daquele não ter encontrado mais resistência... Pois
segundo, passei a viver apenas com o essas garotas de lá, esses pequenos
pensamento de possuí-Ia, de forçar um bichinhos trêmulos e palpitantes, elas
gemido a sair de seus lábios duros, de estremecem de veneração quando um
sentir aquela frieza e aquela altivez homem branco, um `senhor' toca nelas...
tomadas de volúpia, como havia sentido o desmancham-se em humildade, sempre
outro, aquele outro homem que eu não estão abertas, sempre prontas, com seus
conhecia. É isso... é isso que eu queria risos suaves e satisfeitos, a servir a gente...
explicar para o senhor... Nunca, por mais Mas justamente essa submissão, essa
degenerado que eu fosse, tentara me dedicação de escrava estraga o prazer... O
senhor entende agora, o senhor entende o "- O que o senhor exige então? "P1ão
efeito que teve sobre mim a chegada desisti mais daquele tom frio.
repentina daquela mulher, cheia de "-Vamos jogar com as cartas abertas.
arrogância e ódio, fechada até a ponta dos Não sou um homem de negócios... não sou
dedos, ao mesmo tempo vibrante de o pobre farmacêutico de Romeu e Julieta,
mistério e maculada por uma paixão ante- que vende seu veneno por corrupted gold (*
rior... Quando uma mulher dessas entra "Ouro corrompido". Referência à Cena I do
na jaula de um homem assim, de uma Ato V de Romeu e Julieta. N.T.) ... talvez eu
besta humana solitária, faminta, seja o contrário de um homem de
desgastada... Isso... é isso que eu queria negócios... dessa maneira a senhora não
dizer para que o senhor entendesse... o verá o seu desejo realizado.
que virá agora. Portanto... tomado de uma "- Então o senhor não quer fazer?
cobiça maldosa, envenenado pelo "-Não por dinheiro.
pensamento nela, nua, sensual, entregue, "Por um segundo nós dois ficamos
eu me recompus e fingi indiferença. Disse muito quietos. O silêncio era tanto, que
friamente: escutei pela primeira vez a respiração dela.
"- Doze mil florins?... Não, por essa "- O que mais o senhor poderia
quantia não farei. desejar? "Nesse momento não me contive
"Ela me encarava, um pouco mais.
empalidecida. Já pressentia que essa "- Em primeiro lugar, quero que a
resistência não era motivada por uma co- senhora... que a senhora não se dirija a
biça financeira. No entanto ela disse: mim como se eu fosse um merceeiro, mas
fale como se fala com um ser humano. Que "Então se apoderou de mim a raiva, a
a senhora, se quer ajuda, não... não venha raiva rubra e sem sentido.
imediatamente com seu dinheiro "- Nesse caso eu vou fazer exigências,
vergonhoso... mas peça... a mim, ao se a senhora não quer pedir. Acho que não
homem, peça, a senhora, ao homem, que a preciso ser mais claro... A senhora sabe o
ajude... Não sou apenas médico, não tenho que desejo. Depois, só depois vou ajudá-la.
apenas horas marcadas para consulta... "Ela me encarou por um instante. Em
também tenho outras horas... talvez a se- seguida - ah, não sou capaz, não sou
nhora tenha chegado numa delas... capaz de dizer como foi horrível -, em
"Ela se mantém calada por um seguida seus traços se contraíram, e
instante. Em seguida, sua boca se curva então... então ela riu de repente... deu uma
levemente, estremece e diz depressa: "- gargalhada na minha cara, com um
Então, se eu pedisse... o senhor faria? desprezo indizível... com um desprezo que
"- A senhora já quer de novo fazer um me arrasava... e que me encantava ao
negócio... quer pedir só se eu prometer. mesmo tempo... Foi como uma explosão,
Primeiro tem de me pedir... depois vou tão súbita, tão intensa, tão violenta, uma
responder. gargalhada de desprezo solta com tamanha
"Ela lançou a cabeça para trás como força, que eu... que eu poderia ter me
um cavalo obstinado. Encarou-me furiosa. atirado ao chão e beijado seus pés. Durou
"- Não. Eu não vou pedir ao senhor. só um segundo... foi como um relâmpago,
Prefiro morrer! e eu estava pegando fogo no corpo todo...
em seguida ela se virou e se dirigiu dela... E no entanto eu não conseguia ir.
apressada para a porta. Meus membros estavam como que
"Sem pensar, eu queria ir atrás dela... paralisados por um choque elétrico... eu
pedir desculpas... fazer súplicas... minha havia sido atingido, atingido até a medula
força estava vencida... ela se voltou mais pelo raio imperioso daquele olhar... Sei que
uma vez para mim e disse... não, ordenou: não é algo explicável, possível de contar...
"- Não se atreva a me seguir ou me pode parecer ridículo, mas fiquei ali
espionar... O senhor se arrependerá. parado, de pé... precisei de alguns
"E a porta já ia batendo atrás dela." minutos, talvez cinco, talvez dez minutos,
* * * antes de conseguir arrastar um pé do
De novo uma hesitação. De novo um chão.
silêncio... De novo apenas o murmúrio, "Contudo, mal havia movido um pé, já
como se a luz da lua fizesse barulho de estava ardendo de ansiedade, já estava
chuva. E então, finalmente, de novo a voz: com pressa... num milésimo de segundo
- A porta bateu... mas eu fiquei imóvel corri escada abaixo... Ela só podia ter des-
no lugar onde estava... Encontrava-me cido a rua em direção à civilização... Corri
como que hipnotizado pela ordem... ouvi-a para a cabana, a fim de pegar a bicicleta,
descer a escada, fechar a porta da casa... vi que tinha esquecido a chave, forcei a
ouvi tudo, e toda a minha vontade ia atrás porta, de maneira que o bambu estala e se
dela... dela... não sei para fazer o quê... parte... e já monto na bicicleta e saio
chamá-la de volta, ou lhe dar um tapa, ou pedalando atrás dela... tenho que... tenho
estrangulá-la... mas atrás dela... atrás que encontrá-la, antes que ela consiga
chegar ao carro... tenho que falar com nela... Mas então o desgraçado se adianta
ela... A poeira da estrada passa por mim... num salto, segura a bicicleta e diz, em seu
só então percebo quanto tempo devo ter inglês lamentável:
ficado lá em cima parado... Ali... na curva "- You remain here. (* O senhor fica
à beira da floresta, bem em frente à aqui. N.T.)
estação, eu a vejo, vejo como se apressa "O senhor não viveu nos trópicos...
com passos firmes e diretos, acompanhada Não sabe a dimensão do atrevimento de
pelo empregado... Mas ela também deve ter um desses desgraçados amarelos se ele
visto que eu estava chegando, pois agora agarra a bicicleta de um `senhor' branco e
fala com o empregado, que fica para trás, e ordena a ele, ao `senhor; que fique ali. Em
ela continua sozinha... O que pretende vez de dar qualquer resposta, acerto um
fazer? Por que ela quer ficar sozinha? ... soco em sua cara... ele vacila, mas
Será que ela quer falar comigo sem que o continua a segurar a bicicleta... seus
garoto ouça?... Cego de arrebatamento, olhos, seus olhos puxados e covardes estão
piso nos pedais... De repente salta algo no muito arregalados, tomados por um medo
meu caminho, vindo da beira da estrada... de escravo... contudo, ele segura o guidom,
o empregado... só consigo desviar a segura com uma firmeza demoníaca...
bicicleta e bater... "- You remain here - balbucia mais
"Xingando, fico de pé... sem pensar, uma vez.
levanto o punho para dar um soco no "Por sorte eu não estava carregando
idiota, mas ele salta para o lado... Ergo a um revólver. Senão o teria derrubado a
bicicleta do chão para voltar a montar tiros.
"- Fora, pulha! - foi só o que eu disse. passando pelas cabanas, onde a ralé
"Ele me encara humilhado, contudo amarela se comprimia espantada para ver
não solta o volante. Volto a dar um soco na um homem branco, um doutor, correr.
cabeça dele, mas ele ainda não solta o "Encharcado de suor, alcancei o
guidom. Isso me deixa furioso... vejo que posto... Minha primeira pergunta: onde
ela já vai longe, talvez já tenha escapado... está o carro?... Acabou de partir... As
e lhe dou um verdadeiro soco de boxeador pessoas me olham espantadas: devo
no queixo, para derrubá-lo. Agora tenho parecer um desvairado para eles, chegando
novamente minha bicicleta... contudo, assim, molhado e sujo, berrando a
quando monto nela, algo está travado... pergunta antes mesmo de parar de
Com a batida violenta a roda entortou... correr... Lá embaixo na estrada, vejo a
Tento ajeitá-la com mãos febris... Não dá fumaça do carro... ela conseguiu...
certo... Então atiro a bicicleta no meio do conseguiu, como deve conseguir tudo com
caminho, ao lado do desgraçado, que está seu cálculo cruel, terrivelmente cruel.
de pé, sangrando, e se desvia... E em "Mas a fuga não a ajuda em nada...
seguida - não, o senhor não pode perceber Nos trópicos, não há segredo entre os
o quanto é ridículo, lá, na frente de todos, europeus... cada um conhece os outros,
quando um europeu... bem, eu não sabia tudo se torna um grande acontecimento...
mais o que estava fazendo... tinha um Não foi em vão que o chofer dela
único pensamento: ir atrás dela, alcançá- permaneceu por uma hora no bangalô do
la... -, em seguida corri, saí correndo como governo... em poucos minutos sei de
um possesso ao longo da estrada de terra, tudo... Sei quem ela é... que ela mora lá
embaixo, na capital administrativa, a oito sentido tudo o que eu fazia; no entanto,
horas de trem dali... que ela é... digamos, a não tinha poder algum sobre mim... não
esposa de um grande homem de negócios, entendia mais a mim mesmo... seguia
absurdamente rica, distinta, uma inglesa... adiante apenas obcecado por minha
sei que seu marido se encontrava na meta... Aliás, espere... talvez eu ainda seja
América havia cinco meses e chegará nos capaz de tornar isso compreensível para o
próximos dias para levá-la de volta à senhor... O senhor sabe o que é amok?
Europa. - Amok?... acho que me lembro... uma
"Mas ela - e o pensamento queima nas espécie de embriaguez entre os malaios...
minhas veias como um veneno - só pode - É mais do que embriaguez... é
estar grávida no máximo há dois ou três loucura, uma versão humana da raiva dos
meses..." cães... um acesso de monomania assassina
* * * e sem sentido, que não pode ser
-Até agora fui capaz de tornar tudo comparada com nenhum outro frenesi
compreensível para o senhor... talvez causado por bebidas alcoólicas... eu
apenas porque até esse momento eu ainda mesmo, durante minha estada, estudei
me entendia... como médico, sempre dava alguns casos - em relação aos outros, a
o diagnóstico de minha própria situação. gente é sempre muito esperto e muito
Mas a partir de então, aquilo se tornou objetivo -, sem, contudo, ser capaz de
como que uma febre em mim... perdi o revelar o segredo terrível de sua origem...
controle sobre mim mesmo... quer dizer, De algum modo, tem a ver com o clima,
sabia perfeitamente o quanto era sem com essa atmosfera sufocante, cerrada,
que pressiona os nervos como os sua gritaria aguda, com seu kris
momentos anteriores a uma tempestade, ensangüentado, sempre em frente... As
até que eles um dia se arrebentam... pessoas nas vilas sabem que nenhum po-
Portanto, amok... Isso mesmo, amok, é der é capaz de deter essa disparada de
assim: um malaio, qualquer pessoa muito amok... então gritam um aviso quando ele
simples, muito bem-humorada, que toma a vem: "Amok! Amok!" e todos fogem... mas
sua bebida fermentada... fica lá sentado, ele continua a correr, sem ouvir nada,
embotado, indiferente, apático... da mesma corre sem ver nada, derrubando a
maneira que eu costumava ficar sentado punhaladas o que encontra... até que o
em meu consultório... e de repente ele matem a tiros como se mata um cão
levanta num salto, segura o punhal e corre raivoso, ou até que ele mesmo desmaie,
pela rua... corre para frente, sempre em espumando...
frente... sem saber para onde... O que "Uma vez vi isso, da janela do meu
aparecer em seu caminho, seja uma bangalô... foi algo horrível... mas só pelo
pessoa ou um bicho, ele apunhala com seu fato de ter visto é que compreendo a mim
kris, (* Tipo de punhal malaio. N.T.) e a mesmo naqueles dias... pois assim, exa-
visão do sangue só o torna mais tamente assim, com esse olhar terrível
impetuoso... A saliva escorre de seus voltado só para frente, sem ver o que
lábios, ele berra como um possesso... mas acontecia à direita ou à esquerda, com
corre, corre, corre, não olha mais para a essa obsessão me precipitei... atrás
direita, não olha mais para a esquerda, daquela mulher... Não sei mais como fiz
apenas dispara assustadoramente, com tudo, naquela disparada possessa, na
velocidade insensata com que tudo se "Corri sempre em frente, até dar de
passou... Dez minutos; não, cinco; não, cabeça na parede... às seis da tarde eu
dois... depois que eu sabia tudo a respeito havia chegado... às seis e dez, estava em
dessa mulher, seu nome, sua casa, seu sua casa e me fiz anunciar.. Foi... O
destino, voltei correndo para minha casa senhor entenderá... foi a coisa mais sem
numa bicicleta alugada às pressas, joguei sentido, a coisa mais estúpida que eu
um terno numa mala, apanhei algum poderia fazer... mas quem sofre da
dinheiro e fui de carro até a estação de obsessão de amok corre com olhos fixos no
trem... Fui embora sem avisar o vazio, não vê para onde corre... Após
funcionário do distrito... sem nomear um alguns minutos, o empregado voltou.. poli-
substituto, deixei a casa aberta, do e frio... avisou que a senhora estava
abandonei-a como estava... Em torno de indisposta e não podia receber ninguém.
mim se encontravam os empregados; as "Cambaleei porta afora... ainda vaguei
mulheres se espantaram e faziam por uma hora em torno da casa, obcecado
perguntas, eu não respondia, nem sequer pela esperança desvairada de que ela
virava o rosto... fui até a estação e peguei o talvez procurasse por mim... só então fui
próximo trem para a cidade... Uma hora, providenciar um quarto no hotel da praia e
ao todo, depois que aquela mulher havia mandei entregar duas garrafas de uísque
entrado em meu consultório, eu havia no quarto... elas e uma dose dupla de
jogado fora minha existência e disparado Veronal me ajudaram... finalmente
com um acesso de amok em direção ao adormeci... e esse sono abafado, pesado,
vazio...
foi a única pausa naquela corrida entre a loucura - um possesso de amok, como lhe
vida e a morte." disse. Mas não se esqueça: era terça-feira
* * * à noite quando cheguei, e no sábado -
Soou o sino do navio. Duas badaladas como fiquei sabendo - chegaria seu marido
duras, cheias, que ainda continuaram a no vapor P. & O., de Yokohama; portanto,
ressoar tremulamente na suavidade do ar só restavam três dias, três breves dias para
quase sem vento e, em seguida, perderam- a decisão e para a ajuda. Entenda isso: eu
se no murmúrio leve e incessante que sabia que tinha de ajudá-la ime-
teimava em acompanhar a fala diatamente, e, no entanto, não podia
apaixonada. O homem na escuridão diante dirigir a ela palavra alguma. E justamente
de mim deve ter tomado um susto, pois essa necessidade de pedir desculpas por
sua fala se interrompeu. De novo, ouvi a meu comportamento ridículo, meu
mão tatear em busca da garrafa, de novo o comportamento insensato é que me
som baixo dos goles. Em seguida ele impelia adiante. Eu tinha conhecimento da
recomeçou, aparentemente tranqüilo, com preciosidade de cada instante, sabia que se
uma voz mais firme. tratava de um assunto de vida ou morte
- Acerca das horas que sucederam para ela, porém não tinha possibilidade
àquele momento, quase não posso contar alguma de me aproximar dela, nem que
nada. Hoje acredito que, naqueles dias, eu fosse com um sussurro, com um sinal,
deveria estar com febre; em todo caso, eu pois justamente a impetuosidade, a
me encontrava numa espécie de grosseria da minha perseguição a
hiperatividade que chegava às raias da assustaram. Era... espere... era como
quando alguém corre atrás de outra pessoa ela me atormenta... talvez estivesse tudo já
para preveni-Ia de um assassinato, mas a preparado para me receber... mas na hora,
pessoa a toma pelo próprio assassino, de ao vê-lo, lembrei-me da minha vergonha;
modo que continua a correr em direção à de novo eu estava ali, sem me atrever a
sua desgraça... Ela via apenas o possesso repetir a tentativa da visita... Os meus
de amok em mim, que a perseguia para joelhos tremiam. Bem perto do umbral da
humilhá-la, mas eu... essa era a terrível porta, fiz a volta e fui embora de novo... fui
contradição... eu não estava mais embora, enquanto ela talvez estivesse me
pensando nisso... eu já estava totalmente esperando, com um tormento semelhante
aniquilado, só queria ajudá-la, só queria ao meu.
servir a ela... Eu teria cometido um "Naquele momento, eu não sabia mais
assassinato, um crime, para ajudá-la... o que fazer na cidade desconhecida, que
Mas ela não entendia isso. Quando abrasava meus pés como fogo... De
acordei, na manhã do dia seguinte, e logo repente, me ocorreu a idéia de chamar um
em seguida me encaminhei para a casa carro, e me encaminhei para a casa do
dela, o empregado se encontrava diante da vice-governador, aquele mesmo que eu
porta, o mesmo garoto que eu havia acer- havia ajudado no meu posto, e me fiz
tado na cara, e assim que ele me viu à anunciar... Alguma coisa em minha
distância - devia estar à minha espera - aparência devia estar muito estranha, pois
esgueirou-se porta adentro. Talvez tenha ele me encarou com um olhar assustado, e
feito isso apenas para me anunciar em sua cortesia tinha um quê de inquietação...
segredo... talvez... Ah, essa incerteza, como Talvez ele já estivesse reconhecendo em
mim o possesso de amok... Disse-lhe, de "Continuei de pé, com os dentes
maneira breve e decidida, que solicitava cerrados: pela primeira vez, percebia
minha transferência para a cidade, que claramente que eu era um homem vendido,
não podia mais viver em meu posto... tinha um escravo. Tudo já se encaminhava para
de me mudar imediatamente... Ele olhou uma discussão, mas ele, o ardiloso, tomou
para mim... não sou capaz de lhe descrever a dianteira:
como ele me olhou... da mesma maneira "- O senhor está desacostumado do
que um médico olha para um doente. contato com pessoas, doutor, e isso acaba
"- Um colapso nervoso, caro doutor - virando uma doença. Todos nós ficamos
disse em seguida -, entendo perfeitamente. surpresos pelo fato de o senhor nunca ter
Será possível conseguir isso, mas espere... vindo aqui, nunca ter tirado férias. O
digamos, quatro semanas... primeiro senhor precisava de mais companhia, de
preciso encontrar um substituto. mais distração. Pelo menos venha esta
"- Não posso esperar, nem mesmo um noite; hoje temos uma recepção do
dia - respondi. governo, e muitos gostariam de conhecê-lo
"De novo, aquele olhar de faz tempo, com freqüência perguntam pelo
estranhamento. senhor e gostariam que trabalhasse aqui.
"- É preciso, doutor - disse ele com "As últimas palavras me arrepiaram.
seriedade -, não podemos deixar o posto Perguntavam por mim? Será que tinha
sem médico. Mas prometo ao senhor que sido ela? De repente mudei de atitude: de
ainda hoje tomarei todas as providências. imediato lhe agradeci de maneira muito
educada por seu convite e assegurei que
viria pontualmente. E fui mesmo pontual, vesse com as costas voltadas para a porta
até pontual demais. Antes de tudo, preciso de entrada do salão, senti de repente que
lhe dizer que, acossado por minha impa- ela havia entrado, que ela devia estar
ciência, fui o primeiro a chegar no grande presente: não sou capaz de lhe dizer o
salão do prédio do governo, cercado por quanto essa certeza repentina me
criados amarelos silenciosos que, com seus perturbou. Contudo, enquanto eu ainda
pés descalços, apressavam-se para lá e estava falando com o governador, com
para cá e - segundo me parecia em minha suas palavras ressoando em meus ouvidos,
consciência perturbada - riam de mim pressenti em algum lugar às minhas
pelas costas. Durante uns quinze minutos, costas a presença dela. Por sorte, o gover-
eu era o único europeu no meio de todos nador encerrou logo a conversa - senão,
aqueles preparativos sem alarde, tão acredito que eu me teria virado
sozinho no meu canto que ouvia o tique- bruscamente, de tão forte que era aquela
taque do meu relógio de bolso. Finalmente atração misteriosa sobre os meus nervos,
chegaram alguns funcionários do governo de tão ardente que era a minha ânsia de
com suas famílias, e um pouco depois vê-Ia. E de fato, logo depois de me virar,
também o governador, que me envolveu enxerguei-a exatamente naquele ponto em
numa longa conversa, durante a qual eu que a pressentira de modo inconsciente.
estava respondendo de maneira hábil até Ela estava usando um vestido amarelo de
que... até que de súbito, acometido por um baile, que realçava seus ombros estreitos e
nervosismo misterioso, perdi toda a minha lisos como se fossem de marfim, e
fluidez e comecei a gaguejar. Embora esti- conversava em meio a um grupo de
pessoas. Sorria, no entanto eu tinha a convidara para dançar. Pedindo licença,
impressão de notar em seu rosto um traço ela deu o braço ao oficial, deixou o círculo
de tensão. Aproximei-me - ela não podia ou animado e se dirigiu à outra sala,
não queria me ver-, olhando para aquele passando por mim. Ao me ver, de repente
sorriso que envolvia, amável e educado, seu rosto se contraiu violentamente - mas
seus lábios finos. E aquele sorriso voltou a apenas por um segundo, logo em seguida
me encantar, porque... só porque eu sabia acenou com a cabeça num gesto educado
que era uma mentira, arte ou técnica, de reconhecimento (antes que eu tivesse
maestria na dissimulação. Hoje é quarta- decidido se ia cumprimentá-la ou não),
feira - foi o que passou pela minha cabeça como se eu fosse um conhecido de outra
-, no sábado chega o navio com o marido... ocasião:
como ela pode sorrir assim, tão... tão "- Boa noite, doutor - e já tinha
segura, sorrir tão despreocupada, brin- passado por mim. "Ninguém poderia ter
cando com o leque nas mãos, em vez de percebido o que se escondia naqueles
quebrá-lo, tomada pelo medo? Eu... eu, o olhos verde-acinzentados, e eu, eu mesmo
estranho... eu estava tremendo já havia não o sabia. Por que ela me
dois dias, com medo daquela hora... eu, o cumprimentara... por que agora me
estranho, vivia seu medo, seu horror, com reconhecera de repente?... Era uma defesa,
todos os excessos do sentimento... e ela ia era uma aproximação, era apenas o
ao baile e sorria, sorria, sorria... embaraço da surpresa? Não sou capaz de
"Ao fundo, a música teve início. A lhe descrever a agitação do meu espírito
dança começou. Um velho oficial a quando a olhei passar; tudo em mim se
revolveu, tudo se tornou explosivo. Quando encarou-me por um instante, com o olhar
a vi, em seguida, dançando à vontade uma imperioso, como que me dispensando: de
valsa nos braços do oficial, no rosto, o bri- novo se contraiu em sua testa aquela
lho frio da despreocupação, enquanto eu pequena ruga de raiva orgulhosa que eu já
sabia que ela... que ela, tanto quanto eu, conhecia de nosso encontro anterior.
só pensava naquele fato... que apenas nós "Mas... mas... já lhe disse... eu estava
dois ali compartilhávamos de um segredo possuído por amok, não olhava nem para a
terrível... e ela dançava... Naquele direita nem para a esquerda. Entendi
segundo, meu medo, minha cobiça e imediatamente, aquele olhar queria dizer:
minha admiração se converteram ainda "Não seja descuidado! Controle-se!" - eu
mais em paixão. Não sei se alguém estava sabia que ela... como devo dizer?... que ela
me observando, mas com certeza eu traía desejava de mim, ali naquele salão, em
em minhas atitudes muito mais do que ela público, um comportamento discreto...
escondia - não conseguia nem mesmo entendia que, se fosse embora naquele
dirigir o olhar para outra direção, momento, poderia estar certo de que seria
precisava... precisava vê-Ia; à distância, eu recebido por ela no dia seguinte... que ela
explorava obsessivamente aquele rosto só queria evitar naquele momento... só
fechado, para saber se a máscara não naquele momento, a exposição à minha
cairia por um momento sequer. E ela deve intimidade ostensiva, que ela - com toda
ter sentido o desconforto do meu olhar razão - temia que minha falta de jeito
intenso e incessante. Quando caminhava causasse uma cena... O senhor vê... eu
de volta, de braços dados com o oficial, sabia de tudo, eu entendia aquele olhar
sombrio e imperioso, mas... mas era algo "Por quanto tempo eu teria ficado ali,
forte demais, eu tinha de falar com ela. não sei... uma eternidade, talvez...
Assim, caminho até o grupo em que ela se simplesmente não conseguia sair desse
encontrava, conversando de pé, introduzi- encantamento da vontade. Era justamente
me naquele círculo descontraído - embora a obstinação de meu ânimo que me
conhecesse apenas alguns dos presentes -, paralisava... Mas ela não suportou a
apenas pela ânsia de ouvi-Ia falar, e, situação por muito mais tempo... De
contudo, intimidado, curvado como um repente, voltou-se para os senhores, com a
cão em que atirassem pedras diante suntuosa leveza de seu modo de ser, e
daquele olhar quando ele passava por mim disse:
friamente, como se eu fosse um dos `- Estou um pouco cansada... hoje
reposteiros de linho nos quais eu me quero ir para cama cedo... Boa noite!.
apoiava, ou o vento que os movia. No "Em seguida, passou por mim com
entanto, continuei ali, de pé, sedento por um aceno sociável de cabeça... ainda vi a
uma palavra que ela chegasse a me dizer, ruga contraída de sua testa e, logo depois,
por um sinal de concordância; continuei apenas as costas, os ombros brancos,
ali, de pé, com os olhos fixos, como um frios, expostos. Foi só um segundo antes
bloco de pedra no meio da conversa. Com de eu compreender que ela ia embora...
certeza, já devia estar chamando atenção; que eu não a poderia mais ver, não poderia
com certeza, pois ninguém dirigia a mais falar com ela naquela noite, essa
palavra a mim, e ela devia estar sofrendo última noite da salvação... por um instante
com a minha presença ridícula.
ainda permaneci de pé, congelado, até ficado para trás; como dizia para o senhor,
compreender... então... então... encontrava-me como que paralisado antes
"Mas, espere... espere... senão o de compreender que ela estava indo embo-
senhor não entenderá meu ato sem ra... E quando compreendi ela já se
sentido, a estupidez do meu ato... primeiro encontrava no final do salão, perto da
tenho de lhe descrever todo o local... Era o porta... Então... ah, tenho vergonha ainda
grande salão do edifício do governo, agora de pensar nisso... então, num
inteiramente iluminado e quase vazio, o ímpeto, comecei a correr - ouça bem:
imenso salão... os pares tinham ido corri... não andei, saí correndo, com
dançar, os senhores tinham saído para sapatos de festa que faziam muito barulho,
jogar... apenas nos cantos havia alguns através do salão, atrás dela... Ouvia meus
grupos conversando... Portanto, o salão passos, via todos os olhares espantados
estava vazio, qualquer movimento voltados para mim... poderia morrer de
chamava a atenção e era muito visível vergonha... enquanto estava correndo, já
naquela claridade... E era esse salão com- tinha consciência da loucura... contudo,
prido e amplo que ela atravessava não conseguia mais... não podia mais
lentamente, com passos leves e seus voltar atrás... Junto à porta a alcancei...
ombros eretos, respondendo de vez em Ela se virou... seus olhos me perfuravam
quando a um cumprimento com sua como o aço mais cruel, suas narinas
postura indescritível... com aquela estavam tremendo de fúria... eu queria co-
esplêndida, gelada e nobre tranqüilidade meçar a gaguejar... quando... quando... de
que me encantara tanto... Eu... tinha repente ela riu... soltou uma risada franca,
despreocupada, cordial, e disse alto... alto apresentar-me centenas e centenas de
o suficiente para que todos em volta vezes à sua porta, e que ela me mandaria
pudessem ouvir: embora como a um cachorro.
"- Ah, doutor, só agora lhe ocorre a "Cambaleei pelo salão... reparei que as
receita para o meu filho... ah, esses pessoas me olhavam... Eu devia ter uma
senhores de ciência... aparência estranha... Fui ao bufê, tomei
"Um casal que se encontrava por dois, três, quatro copos de conhaque em
perto riu junto, de bom humor... seqüência... isso me salvou de desabar...
compreendi, eu vacilava diante do Meus nervos não agüentavam mais,
autocontrole com que ela salvara a estavam como que arrebentados... Então
situação... pus a mão no bolso vazio e tirei escapei discretamente por uma porta
uma folha em branco do bloco, folha que lateral, em segredo, como um criminoso...
ela pegou com desembaraço antes de... Por nenhum reino do mundo eu poderia
mais uma vez com um sorriso frio, de ter voltado a atravessar aquele salão, onde
agradecimento... ir embora... Para mim foi o seu riso ainda estava grudado a todas as
fácil no primeiro segundo... vi meu paredes... Fui andando... não sei mais
desatino consertado por seu autocontrole, dizer exatamente para onde andei... fui
a situação superada... Mas também soube, parar em alguns bares e me embriaguei...
de imediato, que tudo estava perdido para bebi como alguém que desejasse embriagar
mim, que aquela mulher me odiava por todo o resto de sua consciência... mas...
minha tolice descontrolada... odiava-me não conseguia embotar meus sentidos... O
mais do que à morte... Soube que poderia riso se fazia sentir em mim, uma
gargalhada forte, aguda e maldosa... a vinha o navio, e eu sabia que aquela
gargalhada, essa maldita gargalhada que mulher, aquela mulher altiva e orgulhosa
eu não conseguia anestesiar... Ainda não sobreviveria ao escândalo diante do
vaguei pelo cais... Deixara meu revólver em seu marido, diante do mundo... Ah, como
casa, senão me teria suicidado. Não esses pensamentos sobre o precioso tempo
pensava em nada além daquilo, e com esse desperdiçado me torturaram! Pensamentos
pensamento voltei para o quarto... apenas sobre a minha precipitação insana que
com esse pensamento, focado na gaveta da impedira qualquer ajuda no tempo certo...
esquerda do armário, onde se encontrava Por horas e horas, juro, andei de um lado
meu revólver... apenas com esse único para o outro no quarto, de um lado para o
pensamento. outro, e atormentei o meu cérebro para
"Se não me matei com um tiro... juro descobrir como poderia chegar a me
que não foi covardia... teria sido uma aproximar dela, como poderia consertar
salvação para mim apertar o gatilho... Mas, tudo, como poderia ajudar... pois estava
como explicar isso para o senhor? ... ainda certo de que ela não me deixaria mais
sentia que tinha uma obrigação... é, uma entrar em sua casa... Ainda tinha a
obrigação de ajudar, aquele maldito gargalhada estampada em todos os nervos,
dever... deixava-me maluco a idéia de que e o estremecimento de raiva das suas
ela ainda poderia precisar de mim, de que narinas... por horas, realmente por horas e
ela precisava de mim... já era quinta-feira horas, percorri os três metros do quarto
de madrugada quando cheguei no hotel, e estreito... já era dia, já era manhã...
no sábado... Já lhe disse isso... no sábado
"De repente, me atirei à mesa... ocorreu-me algo. Repentinamente eu sabia
arranquei um maço de papéis de carta e quais seriam as palavras realmente
comecei a escrever para ela... a escrever decisivas. Peguei de novo a pena entre os
tudo... uma carta de lamentações servis, dedos e escrevi na última página: `Aguardo
na qual pedia perdão, na qual me aqui no hotel da praia por uma palavra de
considerava um louco, um criminoso... na perdão. Se não receber nenhuma resposta
qual suplicava que confiasse em mim... até as sete horas, me suicido com um tiro.
Jurava desaparecer nas próximas horas, "Em seguida, fechei a carta, chamei
da cidade, da colônia, se ela quisesse: do um mensageiro e mandei que a entregasse
mundo... ela só deveria me perdoar e con- de imediato. Finalmente tudo estava dito -
fiar em mim, permitir que a ajudasse nas tudo."
últimas horas, nas horas derradeiras... * * *
Dessa maneira, preenchi febrilmente vinte Alguma coisa tilintou e rolou ao nosso
páginas... deve ter sido uma carta insana, lado. Com um movimento brusco, ele
indescritível, como que saída de um delírio, derrubara a garrafa de uísque; ouvi como
pois quando me levantei estava coberto de sua mão tateava o chão à sua procura e
suor... o quarto balançava, tive de tomar então, com um puxão repentino, a
um copo d'água... Em seguida, tentei, apanhava: esticando o braço, ele jogou a
antes de tudo, reler a carta, mas fiquei garrafa vazia no mar. Por alguns minutos a
horrorizado já nas primeiras palavras... voz se calou; em seguida, continuou a falar
tremendo, dobrei as folhas de papel e as febrilmente, ainda mais agitada e
enfiei num envelope... Então, de súbito, apressada do que antes:
-Não sou mais um cristão... para mim um possesso de amok age, de uma
não há nem céu nem inferno... Se houver maneira desatinada, animalesca, com
algum, não tenho medo, pois o inferno não aquela obstinação furiosa, sem desvios.
pode ser pior do que aquelas horas que "Bem... não vou descrever aquelas
vivi, desde a manhã até a tarde... Imagine horas para o senhor... isso não pode ser
um pequeno quarto, quente sob o sol, cada descrito... eu mesmo não entendo mais
vez mais escaldante no calor do meio-dia... como é possível viver algo assim sem...
um pequeno quarto, só a mesa, a cadeira e sem ficar louco... Portanto... às 3h22... sei
a cama... E sobre essa mesa nada além de com precisão, afinal olhava fixamente para
um relógio e um revólver, e diante da mesa o relógio... de repente bateram na porta...
um homem... um homem que não faz nada Dou um salto... salto como um tigre salta
além de encarar fixamente a mesa, o sobre a sua presa, atravessando o quarto
ponteiro de segundos do relógio... um inteiro até a porta, que abro... lá fora
homem que não come, não bebe, não encontra-se um pequeno jovem chinês,
fuma, não se move... que apenas... ouça amedrontado, com um bilhete dobrado na
bem: que apenas, por três horas mão, e, enquanto eu agarro o bilhete com
seguidas... olha fixamente para o círculo precipitação, ele já se retira depressa e
branco do mostrador e para o ponteiro desaparece.
que, pouco a pouco, percorre esse círculo... "Abro o bilhete, quero ler... mas não
Assim... foi assim que passei aquele dia, consigo... Vejo tudo vermelho diante dos
apenas esperando, esperando, esperando... meus olhos... Imagine o tormento de
mas esperando como... exatamente como finalmente ter uma mensagem, palavras
dela... e agora as palavras tremem e permissão... ah, comecei a me perder nas
dançam diante das minhas pupilas... mais desvairadas conjecturas e
Mergulho a cabeça na água... e agora fica esperanças... Centenas de vezes, milhares
tudo mais claro... De novo pego o bilhete, e de vezes reli o pequeno bilhete, beijei-o...
leio: `Tarde demais! Mas espere onde está. examinei-o à procura de qualquer palavra
Talvez ainda mande chamá-lo. esquecida que tivesse passado
"Nenhuma assinatura no papel despercebida... cada vez mais profundo,
amassado, que fora arrancado de algum cada vez mais confuso se tornou o meu
velho prospecto... traços de caneta mergulho nesses sonhos, num estado
apressados, confusos, de uma escrita que fantástico como que a dormir de olhos
seria firme em outra situação... Não sei por abertos... uma espécie de paralisia, alguma
que aquele papel me abalou tanto... Ele coisa de totalmente embotado e, contudo,
tinha alguma coisa de terrível, alguma movimentado, entre o sono e a vigília, que
coisa secreta, fora escrito como que talvez tenha durado quinze minutos, talvez
durante uma fuga, por alguém de pé num horas...
parapeito ou andando num carro... Uma "De repente me assustei... Será que
sensação indescritível de medo, de pressa, tinham batido na porta?... Prendi a
de horror escorreu friamente daquele respiração... um minuto, dois minutos de
bilhete misterioso para a minha alma... e, silêncio total... e então, de novo, um ruído
no entanto... no entanto, eu estava feliz: muito baixo, como o movimento de um
ela me escrevera, eu ainda não tinha de rato, baixo mas incisivo... Levantei num
morrer, podia ajudála... talvez... tinha salto, ainda inteiramente cambaleante,
abri a porta - lá fora se encontrava o mais... O carrinho avançava tão depressa
empregado, seu empregado, aquele mesmo no meio da confusão, que as pessoas em
garoto que eu havia acertado na boca com fuga esbarravam umas nas outras, e assim
um soco... seu rosto moreno estava saiu do bairro europeu na praia para
empalidecido, seu olhar transtornado entrar na cidade baixa, pelo bairro chinês
manifestava um infortúnio... De imediato, adentro... Por fim, chegamos a um beco
pressenti algum horror... estreito, que ficava muito escondido...
"- O que... o que aconteceu? - ainda diante de uma casa baixa o carro parou...
consegui gaguejar. Era um lugar sujo e como que retorcido;
"- Come quickly (* "Venha depressa" na parte da frente, uma pequena loja com
N.T.) - ele disse... nada mais. um lampião... um daqueles antros em que
"Imediatamente me precipitei escada se escondiam casas de ópio ou bordéis, um
abaixo, com ele me seguindo... Um sado, ninho de bandidos ou de traficantes... Com
um pequeno carro, estava preparado à pressa, o garoto bateu na porta... Lá
nossa espera, e nós entramos... dentro, uma voz sussurrava, fazendo
"- O que aconteceu? - perguntei a ele. perguntas... Não consegui mais agüentar,
"Ele me olhava tremendo, em silêncio, saltei do banco do carro, empurrei a porta
com os lábios cerrados... Perguntei mais só encostada... uma velha chinesa recuou
uma vez - ele continuou calado... Teria com um gritinho... atrás de mim vinha o
sido melhor bater de novo na sua cara, garoto, conduzindo-me pelo corredor... Ele
mas... justamente a sua fidelidade canina abriu uma outra porta... mais outra, que
a ela me comoveu... por isso, não perguntei dava para um cômodo escuro, que tinha
um cheiro ruim de aguardente e sangue só porque eu, louco... porque eu não
coagulado... Alguém estava gemendo lá poupara o seu orgulho, não a havia
dentro... Entrei tateando..." ajudado logo... porque ela temia menos a
* * * morte do que a mim...
De novo a voz se interrompeu. E o que "Gritei para que trouxessem luz. O
se desencadeou em seguida foram mais garoto deu um salto: a chinesa detestável
soluços do que fala. -Eu... fui tateando... e trouxe um lampião fumacento a óleo, com
ali... ali se encontrava, sobre um colchão as mãos tremendo... tive de me conter para
sujo... contorcida de dor... um pedaço de não pular no pescoço da canalha
pessoa soltando gemidos... ali se amarela... ela pôs o lampião sobre a
encontrava ela... mesa... o brilho recaiu, amarelo e claro,
"Não pude ver seu rosto no escuro... sobre o corpo torturado... E de repente...
Meus olhos ainda não estavam de repente tudo aquilo me abandonou,
acostumados... então fui apenas todo embotamento, toda fúria, toda essa
tateando... sua mão... quente... impureza de paixão acumulada... passei a
queimando... febre, febre alta... e tive um ser apenas médico, uma pessoa que ajuda,
calafrio... entendi tudo imediatamente... que sabe... tinha esquecido de mim
ela viera parar ali fugindo de mim... mesmo... lutava, com os sentidos
deixara-se mutilar por alguma chinesa despertos e claros, contra o horror... Senti
suja, só porque esperava maior discrição o corpo nu que cobiçava em meus sonhos
aqui... preferira deixar-se assassinar por só como... não sei dizer... como matéria,
uma bruxa diabólica a confiar em mim... como organismo... não a notava mais,
notava apenas a vida que se defendia "- Não... não... prefiro morrer...
contra a morte, o ser humano que se ninguém pode saber... ninguém pode
contorcia naquele tormento mortal... Seu saber... para casa... para casa... "Entendi...
sangue, seu sangue quente e sagrado ela batalhava apenas pelo segredo, por sua
encharcava minhas mãos, mas eu não o honra... não por sua vida... E obedeci... O
percebia nem com prazer, nem com garoto trouxe uma padiola... nós a
horror... era apenas um médico... via acomodamos deitada... e assim... já com o
apenas o sofrimento.. e vi ... aspecto de um cadáver, esgotada e
"Percebi imediatamente que tudo ardendo em febre... nós a levamos pela
estava perdido, se não ocorresse um noite... para casa... evitando a criadagem
milagre... ela estava ferida e perdera muito assustada e interrogativa... como ladrões a
sangue pela intervenção de mãos carregamos para o seu quarto e trancamos
criminosas e inábeis... e eu não tinha nada as portas... Então... então teve início a
para estancar o sangue, naquele buraco luta, a longa luta contra a morte..."
fedorento, nem mesmo água limpa... tudo * * *
o que eu tocava cheirava a sujeira... De repente, meu braço foi segurado
"- Temos de ir imediatamente para o com tanta força que quase gritei de susto e
hospital - eu dor. No escuro, o rosto se encontrava, de
disse. um momento para outro, absurdamente
"Mal havia dito isso, o corpo torturado perto de mim, vi os dentes brancos na
se inclinou num espasmo. boca aberta pelo ímpeto súbito da fala, vi
as lentes dos óculos com o reflexo da lua,
brilhando como se fossem dois enormes participando, morrendo junto, só daquela
olhos de gato E agora ele não falava mais - vez, naquela noite... naquela noite terrível
berrava, sacudido por uma fúria ululante. em que me sentei ali e pressionei ao máxi-
- O senhor sabe então, desconhecido mo o meu cérebro para saber algo, para
que está aqui sentado numa encontrar algo, para descobrir algo contra
espreguiçadeira de convés, viajando pelo a hemorragia, contra o sangue que escorria
mundo, o senhor sabe como é quando uma e escorria e escorria, contra a febre, que a
pessoa morre? Será que já acompanhou consumia diante dos meus olhos... contra
uma coisa assim, já viu como o corpo se a morte, que se aproximava cada vez mais
contorce, como as unhas azuladas se e que eu não era capaz de afastar daquela
cravam no vazio, como a garganta solta cama.
ruídos agonizantes, como cada membro se "O senhor entende o que é ser um
defende, cada dedo se volta contra o terror, médico, saber tudo contra todas as
e como o olho salta num horror para o doenças - ter o dever de ajudar, como o
qual não há palavras? Será que o senhor já senhor disse sabiamente - e no entanto
viveu isso alguma vez, o senhor, um ficar sentado, impotente, diante de uma
turista, um viajante; o senhor, que fala de pessoa à beira da morte, ter todo o
ajudar como de um dever? Eu já vi isso conhecimento, mas sem nenhum poder
muitas vezes, como médico, vi muitas para... sabendo apenas isto, tendo
vezes como... caso clínico, como um fato da conhecimento do fato terrível de não poder
vida... já havia, por assim dizer, estudado ajudar, mesmo que todas as veias do corpo
o fenômeno - mas vivê-lo foi só uma vez, fossem abertas e examinadas... Ver um
corpo amado, acompanhar como ele minha alma... sentir como ela se esvaía...
sangra miseravelmente, torturado por escapava para algum lugar, esvaía-se cada
dores; sentir um pulso que dispara e ao vez mais depressa, de minuto a minuto, e
mesmo tempo se esvai... que escapa por eu não tinha nenhum conhecimento em
sob os dedos... Ser um médico e não saber meu cérebro febril suficiente para
nada, nada, nada... Só saber ficar ali, preservar aquele único ser humano...
sentado, e balbuciar alguma oração, como "Além disso, para redobrar
uma beata na igreja, e então erguer o diabolicamente o meu tormento, além
punho de novo contra um Deus maldito, disso... Enquanto eu estava sentado ao
mesmo sabendo que ele não existe... O lado da cama dela - eu lhe dera morfina
senhor entende isso? Entende?... Eu... Eu para aliviar as dores e a via deitada, com
só não entendo uma coisa: como... como a as faces ardentes, ardentes e pálidas ao
gente faz para não morrer junto em tais mesmo tempo -, enquanto eu estava ali
momentos... como a gente, apesar de tudo, sentado, percebia, durante todo o tempo,
levanta do sono na manhã seguinte e às minhas costas, dois olhos dirigidos para
escova os dentes, dá o nó numa gravata... mim com uma expressão horrorizada de
como a gente pode continuar a viver depois tensão... O garoto se encontrava agachado
de vivenciar uma coisa dessas, uma coisa no chão, num canto, sussurrando algum
como aquela que eu senti, a respiração do tipo de oração... Quando meu olhar se
primeiro ser humano pelo qual eu lutei e cruzou com o dele... não, na verdade não
me empenhei, uma respiração que eu sou capaz de descrever isso... havia algo de
queria manter viva com todas as forças da tão suplicante, de tão... agradecido em seu
olhar canino, e naquele mesmo instante ele expectativa... como se a ajuda fosse... a
ergueu as mãos para mim, como se salvação... Eu sei que ele teria aberto as
quisesse me suplicar que a salvasse... O próprias veias para ajudá-la... Era assim
senhor entende: para mim, ele levantou as aquela mulher, era assim o poder que ela
mãos para mim como se fosse para um tinha sobre os homens... E eu... eu não
deus... para mim... para o fraco impotente tinha o poder de salvar nem mesmo uma
que sabia muito bem que tudo estava gotinha de sangue... Ah, aquela noite,
perdido... sabia que eu era tão inútil ali aquela noite terrível, interminável, entre a
quanto um inseto rastejando pelo chão... vida e a morte!
Ah, aquele olhar, como ele me atormentou, "Perto do amanhecer, ela voltou a
aquela esperança fanática, animalesca, na despertar... abriu os olhos... agora eles não
minha perícia... Eu poderia ter gritado com eram mais orgulhosos e frios... Uma febre
ele e lhe dado um chute, de tanto que seu brilhava neles, como se eles investigassem
olhar me fazia mal... e no entanto eu o quarto, com estranheza... Em seguida ela
percebia o quanto nós dois estávamos me encarou: pareceu refletir, tentando
ligados por meio de nosso amor por ela... lembrar de quem era o rosto... e de
por meio do segredo... Um animal à repente... eu vi... ela se lembrou... pois
espreita, um aglomerado amorfo, ele se algum espanto, uma defesa... algo de hostil
encontrava agachado, todo curvado, atrás e terrível contraiu o seu rosto... ela mexeu
de mim... Bastava eu precisar de alguma os braços como se quisesse fugir... ir em-
coisa, ele levantava de um salto, com seus bora, escapar, escapar de mim... eu vi, ela
pés descalços e silenciosos, tremendo de pensava naquilo... naquela hora... Mas em
seguida tomou consciência... olhou-me já ele estava suave, caloroso, agradecido...
mais calma, com a respiração pesada... realmente, realmente agradecido... Ainda
senti que desejava falar, dizer algo... De quis dizer alguma coisa, mas foi difícil
novo, as mãos começaram a se estender... demais para ela. Ficou deitada sem se
ela queria levantar, mas estava fraca mover por muito tempo, empalidecida pelo
demais... Procurei acalmá-la, inclinei-me... esforço, com os olhos fechados. Em
então ela me encarou com um olhar seguida teve início o horror... o horror...
demorado e atormentado... Seus lábios se Ela ainda lutou por uma hora: só de
moveram levemente... Foi apenas um manhã a luta teve fim..."
último som muito sumido, quando ela * * *
disse: Ele ficou muito tempo calado. Não
"- Ninguém vai saber?... Ninguém? notei isso até vir do meio do convés o som
"- Ninguém - respondi com toda força do sino quebrando o silêncio, uma, duas,
e convicção -, eu prometo. três fortes badaladas - três horas da ma-
"Mas seus olhos ainda estavam nhã. A luz da lua ficara mais fraca, mas
inquietos... Com os lábios febris, ela foi alguma outra claridade amarela reluzia de
capaz de se exprimir de maneira muito maneira tênue ao vento, que às vezes
pouco compreensível: soprava, leve como uma brisa. Meia hora,
"- Jure para mim... ninguém vai uma hora mais e já seria dia, esse horror
saber... jure. "Levantei o dedo como para se dissiparia na luminosidade. Agora eu
fazer um juramento. Ela me encarou com via seus traços com mais clareza, já que as
um olhar... com um olhar indescritível... sombras não eram mais tão densas e
escuras no nosso canto - ele havia tirado o foram fechadas... e de manhã ela está
chapéu, e sob a cabeça descoberta seu morta... só então os criados são chamados,
rosto atormentado parecia ainda mais e de repente a casa se enche de gritos...
atemorizante. O brilho dos óculos se voltou naquele instante, os vizinhos ficam
de novo para mim, ele se contraiu, e sua sabendo, toda a cidade fica sabendo... e só
voz assumiu um tom irônico e incisivo. uma pessoa ali pode esclarecer tudo... eu,
- Para ela estava tudo terminado, mas o homem desconhecido, o médico de um
não para mim. Eu estava sozinho com o posto distante... Uma situação agradável,
cadáver, mas sozinho numa casa não é verdade?
desconhecida, sozinho numa cidade que "Eu sabia o que tinha pela frente. Por
não suportava segredo algum, e eu... eu sorte, o garoto estava comigo, o rapaz
tinha que proteger o segredo... Pois é, corajoso que lia em meus olhos cada
imagine só, a situação toda: uma mulher intenção - aquele bicho amarelo obstinado
da melhor sociedade da colônia, totalmente também compreendia que ainda era
saudável, que na noite anterior havia preciso travar uma batalha. Disse-lhe
dançado no baile do governo, de repente se apenas:
encontra morta em sua cama... Um médico "- A senhora deseja que ninguém fique
desconhecido está a seu lado, sabendo o que aconteceu.
supostamente chamado pelo criado dela... "Ele me encarou com seu olhar
ninguém na casa viu quando nem de onde canino, oblíquo, porém decidido.
ele veio... à noite, viram-na chegar trazida "- Yes, Sir - não disse mais nada.
numa padiola, e em seguida as portas
"Mas lavou os vestígios de sangue do "Às nove horas, finalmente ouvi o
chão, arrumou tudo - e justamente a sua aviso da chegada do médico responsável.
determinação devolveu a minha. Eu mandara chamá-lo - era meu superior
"Nunca na vida, bem o sei, tive uma na hierarquia e, ao mesmo tempo, meu
tal concentração de energia, e nunca mais concorrente, aquele mesmo médico de
terei. Se alguém perdeu tudo, luta como quem ela havia falado com desprezo e que
um desesperado pelo que resta - e o que evidentemente já ficara sabendo do meu
restava era o seu legado, o segredo. Recebi desejo de ser transferido. À primeira vista
cheio de tranqüilidade as pessoas, contei a percebi: ele demonstrava hostilidade em
elas todas a mesma história inventada, relação a mim. Mas justamente isso
sobre o empregado que ela mandara em aumentou a minha força.
busca de um médico e que por acaso me "Na ante-sala, ele já perguntou:
encontrara no caminho. Mas, enquanto "- A que horas a senhora... -
falava aparentemente tranqüilo, ficava à mencionou o nome dela - morreu?
espera... sempre à espera... do responsável "- Às seis horas da manhã.
pelo atestado de óbito, que tinha de chegar "- Quando ela mandou chamar o
antes que a fechássemos no caixão, e o senhor?
segredo com ela... Era, não se esqueça, “- Às onze da noite.
quinta-feira, (*Há um erro de data aqui por "- O senhor sabia que eu era seu
parte do autor. Seguindo a cronologia da médico.
história, deveria ser sexta-feira. N.T.)) e no "- Sabia, mas era urgente... e além
sábado chegaria seu marido... disso a senhora exigira expressamente que
eu viesse. Ela havia proibido que "Posicionei-me com tranqüilidade
chamassem um outro médico. diante dele:
"Ele me olhou fixamente: em seu rosto "- Não se trata aqui de determinar a
pálido, um tanto gordo, surgiu um rubor, e causa da morte, mas... de encontrar uma
eu pude perceber que ele estava irritado. outra causa. Essa mulher me chamou
Mas era justamente disso que eu precisava para... para tratá-la depois das
- todas as minhas energias se conseqüências de uma intervenção
concentraram para uma decisão rápida, desastrosa... não pude mais salvá-la, mas
pois eu pressentia que meus nervos não lhe prometi que salvaria sua honra, e é
suportariam por muito mais tempo. isso que vou fazer. Peço ao senhor que me
Querendo dar uma resposta pouco ajude!
amistosa, ele disse: "Seus olhos ficaram muito arregalados
"- Embora o senhor tenha achado que de espanto. "- O senhor não pretende -
podia me dispensar, é meu dever gaguejou em seguida - que eu, o médico
profissional atestar o óbito e... como ele se oficial, deva encobrir aqui um crime? "-
deu. Sim, é isso mesmo que quero e que preciso
"Não respondi e o deixei avançar. Em fazer. "- Para encobrir um crime do senhor
seguida recuei, tranquei a porta e coloquei eu devo...
a chave sobre a mesa. Surpreso, ele "- Fique sabendo que não toquei nesta
levantou as sobrancelhas: mulher, senão... senão eu não estaria aqui
"- O que significa isso? diante do senhor, senão eu teria dado fim
à minha vida faz tempo. Ela pagou pela
sua falta, se o senhor quiser chamar "Pus a mão no bolso - meu revólver
assim; o mundo não precisa ficar sabendo não estava comigo. Mas ele estremeceu.
de nada. E eu não vou tolerar que a honra Dei um passo em sua direção e o encarei.
dessa mulher agora seja inutilmente "- Ouça bem, vou lhe dizer uma
maculada. "Meu tom decidido só fez agitá- coisa... para que não cheguemos a
lo ainda mais. extremos. Minha vida não me importa em
"- O senhor não vai tolerar... então... nada... nem a vida de uma outra pessoa.
agora o senhor é meu superior... ou pelo Já cheguei neste ponto... a única coisa que
menos acredita ser... Tente me dar me importa é manter minha promessa de
ordens... eu tinha imaginado logo que que o motivo desta morte fique em
havia sujeira em jogo aqui quando segredo... Ouça bem: dou-lhe minha
chamaram o senhor do seu esconderijo... é palavra de honra de que, se o senhor
uma prática muito honesta a que o senhor assinar o atestado de que essa mulher
está começando aqui, um belo teste... Mas morreu de... de alguma casualidade, ainda
agora eu vou examinar, eu, e o senhor no decorrer desta semana eu vou embora
pode ter certeza de que um documento da cidade e da índia... Se o senhor exigir,
com a minha assinatura estará correto. pego meu revólver e me mato, logo que o
Não vou atestar nenhuma mentira. caixão esteja enterrado e que eu possa ter
"Permaneci muito tranqüilo. certeza de que ninguém... O senhor
"- Na verdade é o que o senhor tem de compreende: ninguém mais poderá fazer
fazer desta vez. Pois não sairá do quarto um exame. Isso bastará para o senhor
antes disso. -precisa ser o suficiente.
"Devia haver algo de ameaçador, algo apenas ofender um vivo e fazer algo terrível
de perigoso em minha voz, pois, à medida a um morto, com certeza não vai hesitar.
que me aproximava involuntariamente, ele "Ele assentiu com um gesto.
recuava com aquele mesmo horror com Chegamos perto da mesa. Após alguns
que... com que os homens fogem do minutos o atestado estava pronto (depois
possesso de amok, quando ele corre célere ele foi publicado também no jornal,
com o kris desembainhado... De uma hora descrevendo convincentemente um ataque
para outra, ele mudou de atitude... de cardíaco). Em seguida ele se levantou e me
alguma maneira humilhado e paralisado... encarou:
sua postura rígida desabou. Murmurou, "- O senhor viajará ainda nesta
numa última tentativa muito fraca de semana, não é? "- Minha palavra de honra.
resistência: "Voltou a me encarar. Percebi que ele
"- Seria a primeira vez em minha vida queria parecer rigoroso, objetivo.
em que eu assinaria um atestado falso... "- Vou providenciar imediatamente
mesmo assim, encontraremos uma um caixão - disse, para encobrir seu
solução... a gente sabe as coisas que embaraço.
acontecem... Mas não posso assinar "Mas o que havia em mim que me
assim... tornava tão... tão atemorizante... tão
"- Com certeza o senhor não poderia - inquietante? De repente, ele estendeu a
ajudei-o para lhe dar força - "Depressa! mão para mim e a apertou com uma
Depressa!", era o que eu pensava -, mas cordialidade exagerada.
agora, agora que o senhor sabe que iria "- Procure superar isso - disse ele.
"Eu não sabia o que ele queria dizer. diante de mim com um ar medroso e com
Será que eu estava doente? Será que seus gestos devotados, encarando-me com
estava... louco? Acompanhei-o até a porta, um olhar inquieto.
fechei-a - mas foi a minha última gota de "- Alguém quer entrar... quer vê-Ia... "-
força que fechou a porta atrás dele. Em Ninguém pode entrar.
seguida recomeçou a agitação mental, tudo `- É... mas...
balançava e rodava: exatamente em frente "Seus olhos estavam assustados. Ele
à cama dela eu desmaiei... da mesma queria dizer alguma coisa e no entanto não
maneira que... que o possesso de amok, ao se atrevia. Por algum motivo, o bicho fiel
final de sua disparada, desaba, com os sofria um tormento.
nervos arrebentados." `- Quem é?
* * * "Ele me encarou temeroso, como
De novo ele se interrompeu. Por quem receasse levar um tapa. E em
algum motivo, isso me deu um calafrio: seguida disse... ia mencionar um nome...
teria sido o primeiro sopro do vento De onde vinha de repente tanto saber
matinal, que passava por sobre o navio naquela criatura inferior, como é que, em
sussurrando levemente? Mas o rosto poucos segundos, uma delicadeza
atormentado - só em parte iluminado pelo indescritível tomava conta de uma pessoa
brilho da manhã - contraiu-se novamente: obtusa? Em seguida ele disse... com muito,
- Não sei por quanto tempo fiquei muito temor:
deitado sobre a esteira. Então, alguém me "- É ele.
tocou. Era o garoto, que se encontrava
"Tive um sobressalto, entendi de maneira indescritível ao ver como ele se
imediato e fiquei muito curioso, impaciente esforçava para ser um homem, para ter
em relação àquele desconhecido. Pois, olhe uma atitude digna... para encobrir sua
só, como é estranho... em meio a todo agitação... Percebi imediatamente que suas
aquele tormento, naquela febre de mãos tremiam quando ele foi tirar o
exigências, medo e pressa, eu havia quepe... Eu preferiria tê-lo abraçado...
esquecido completamente dele... havia porque ele era exatamente como eu queria
esquecido que havia um outro homem em que fosse o homem que possuíra aquela
jogo... o homem que aquela mulher amava, mulher... Não fora a um sedutor, nem a
a quem ela dera apaixonadamente o que um homem arrogante... não, fora a quase
recusara a mim... Doze, vinte e quatro uma criança, uma criatura pura e frágil,
horas antes eu ainda teria odiado esse que ela se entregara.
homem, a quem poderia ter feito em "Totalmente encabulado, o jovem se
pedaços.. Agora... não sou capaz, não sou encontrava diante de mim. Meu olhar
capaz de descrever o quanto desejava vê- curioso, meu sobressalto exaltado o
lo.. ele... amálo, porque ela o amara. deixaram ainda mais confuso. O pequeno
"Num instante eu estava na porta. Um bigode sobre o lábio tremia, revelando a
jovem oficial louro, muito jovem, emoção... aquele jovem oficial, aquela
encontrava-se ali, muito sem jeito, muito criança tinha de se esforçar para não cair
magro, muito pálido. Ele parecia uma em prantos.
criança, tão... tão jovem que era "- Perdão - disse afinal -, eu gostaria
comovente... e logo me emocionei de de ver... gostaria de ver ainda a senhora...
"Inconscientemente, sem querer, "Imediatamente avancei, num salto,
passei meu braço em torno do ombro levantei-o e o levei até uma poltrona. Ele
daquele desconhecido e o conduzi, como se não tinha mais vergonha, apenas deixava
conduz um doente. Ele me encarava seu tormento se exprimir em soluços. Não
espantado, com um olhar infinitamente fui capaz de dizer nada - apenas afaguei,
caloroso e agradecido... Algum tipo de sem tomar consciência, seu cabelo louro
compreensão sobre a nossa ligação se infantil e macio. Ele segurou minha mão...
estabeleceu entre nós naquele segundo... de maneira suave, porém cheio de angús-
Fomos em direção à morta... Ela se tia... e de súbito senti seu olhar pousado
encontrava ali deitada, branca, no linho em mim...
branco - percebi que minha proximidade o "- Conte-me a verdade, doutor -
oprimia ainda mais... por isso, recuei balbuciou -, ela se matou?
alguns passos para deixá-lo sozinho com "- Não - respondi.
ela. Ele se aproximou lentamente com... "- E alguém... quero dizer... alguém...
com passos tão inseguros, tão arrastados... alguma pessoa é culpada por sua morte?
vi, pelos seus ombros, como ele se revolvia "- Não - voltei a dizer, embora tenha
por dentro, despedaçava-se... ele andava ficado presa na garganta a resposta: `Eu!
como alguém que vai na direção de uma Eu! Eu!... E você!... Nós dois! E a teimosia
imensa tempestade... E de repente caiu de dela, a maldita teimosia dela!'. Mas me
joelhos diante da cama... da mesma contive. Repeti mais uma vez:
maneira como eu me deixara cair ali. "- Não... ninguém teve culpa... foi uma
fatalidade! "- Não posso acreditar -
lamentou -, não posso acreditar. mim... O marido dela havia chegado
Anteontem mesmo ela estava no baile, ela quando o caixão já estava fechado... ele
sorria, ela acenou para mim. Como é não queria acreditar no diagnóstico... As
possível, como isso pôde acontecer? pessoas faziam intrigas... e ele estava à
"Contei uma longa mentira. Também minha procura... Mas eu não podia
para ele não traí o segredo. Como dois suportar vê-lo, uma pessoa que eu sabia
irmãos, voltamos a nos falar ao longo de tê-la feito sofrer... Fiquei escondido... por
todos os dias seguintes, como que quatro dias não saí da casa, nós dois não
iluminados pelo sentimento que nos deixamos o apartamento... O amante dela
unia.... Não confiávamos inteiramente um havia providenciado para mim um lugar no
no outro, mas pressentíamos mutuamente navio, sob um nome falso, para que eu
que toda a nossa vida estava ligada àquela pudesse fugir... Como um ladrão, passeio
mulher... Às vezes as palavras roçavam furtivamente pelo convés durante a
meus lábios; contudo, eu cerrava os dentes madrugada, de modo que ninguém me
- ele nunca ficou sabendo que ela carre- reconhece... Deixei para trás tudo que eu
gava seu filho... que eu teria sido possuía... minha casa com todo o trabalho
responsável pela morte da criança, do seu de sete anos, meus bens, tudo ficou à
filho, que ela levara junto para o abismo. disposição de qualquer um... E os
E, no entanto, nós só falamos sobre ela senhores do governo já devem ter riscado
naqueles dias, durante os quais me meu nome, porque abandonei o meu posto
escondi na casa dele... pois - tinha sem estar de férias... Mas, eu não poderia
esquecido de lhe dizer que procuravam por mais viver naquela casa, naquela cidade...
naquele mundo em que tudo me fazia não vai saber de nada... O segredo dela
lembrar dela... Como um ladrão, escapei pertence a mim, só a mim...
durante a noite... só para fugir dela... só "O senhor entende agora... entende
para esquecer... Mas, quando cheguei a agora... porque não posso encontrar as
bordo... à noite... à meia-noite... meu pessoas... não posso ouvir os risos delas...
amigo estava junto... naquela hora... o quando elas se juntam aos pares... pois lá
guindaste estava levantando algo... atrás... lá atrás, no porão de carga, entre
retangular, preto... o caixão dela... Preste caixas de chá e castanhas-do-pará, está
atenção: o caixão dela... ela me perseguiu acomodado o caixão... Não posso entrar, o
até aqui, da mesma maneira que a porão está trancado... mas eu sei disso,
persegui... e eu tive de me ocultar, de ficar percebo com todos os meus sentidos, sei a
à parte, pois ele, o marido, estava junto... cada segundo... mesmo quando eles
ele a acompanha para a Inglaterra... talvez dançam valsa ou tango... É uma tolice, já
queira mandar fazer uma autópsia... ele se que o mar encobre milhões de mortos, e
apoderou dela... agora ela pertence de novo em cada pedaço de terra que a gente pisa
a ele... não pertence mais a nós, a nós... apodrece um cadáver... No entanto, não
dois... Mas eu ainda estou aqui... vou posso suportar, não posso suportar o fato
junto até o último momento... ele não vai, de eles brincarem em bailes de máscaras,
ele não pode tomar conhecimento... Eu vou rindo alegremente... Esta morta, eu sinto a
saber como defender o segredo dela contra presença dela, e sei o que ela quer de
qualquer tentativa... contra esse canalha mim... Eu sei, ainda tenho um dever a
de quem ela fugiu para a morte... Nada, ele cumprir... ainda não terminou minha
tarefa... o segredo dela ainda não está a Ele me encarou - um traço cínico,
salvo... ela ainda não me liberou." rude e irônico contraiu seus lábios, algo de
* * * maldoso impelia e distorcia cada palavra.
Do meio do navio vinha o som de -Ah... seu célebre dever de ajudar...
passos arrastados e de pessoas aha... Com essa máxima, o senhor
conversando: marinheiros começaram a conseguiu me fazer falar. Mas não, meu
limpar o convés. Ele se sobressaltou, como senhor, agradeço. Não creia que tudo se
que surpreendido, e seu rosto contraído tornou mais fácil para mim desde que
ganhou traços de medo. Levantou-se e terminei de lhe expor minha vísceras, até
sussurrou: os excrementos em meus intestinos. Minha
- Já vou embora... já vou embora. vida estragada não pode ser consertada
Foi um sofrimento observá-lo: seu por ninguém... Foi em vão que servi ao
olhar devastado, os olhos inchados, honorável governo holandês... A pensão se
vermelhos da bebida e das lágrimas. Ele se perdeu, volto para a Europa como um
esquivava do meu interesse, seu pobre diabo... como um cachorro ganindo
comportamento acanhado deixava nítida a atrás de um caixão... Não fica muito tempo
vergonha, uma vergonha infinita por ter sem punição uma disparada de amok, ao
revelado seu segredo para mim naquela final a pessoa é derrubada, e eu espero
noite. Sem pensar, disse a ele: estar perto do fim... Não, obrigado, meu
- Será que eu posso ir à sua cabine de senhor, por sua bondosa visita... já tenho
tarde...? meus companheiros de viagem na cabine...
algumas boas garrafas de uísque, que de
vez em quando me consolam, e meu velho passageiros, um deles usando uma tarja
amigo ao qual infelizmente não recorri na preta de luto no braço, um grande
hora certa, meu fiel browning (* Marca de comerciante holandês que, segundo me
revólver. N.T.)... que afinal ajuda mais do confirmaram, havia acabado de perder sua
que qualquer conversa... Por favor, não se esposa em conseqüência de alguma doença
dê ao trabalho... O único direito humano tropical. Observei-o caminhando para lá e
que resta é o de se arrebentar como para cá, sério e atormentado, e a idéia de
quiser... e, por isso, ser deixado em paz, saber de suas preocupações mais secretas
sem receber ajuda alheia. me dava um misterioso acanhamento:
Encarou-me de novo com um ar sempre que ele passava eu me esquivava,
sarcástico... até mesmo desafiador, mas para não revelar com um olhar que eu
percebi que era apenas vergonha, uma sabia mais a respeito de sua vida do que
vergonha sem limites. Em seguida ele deu ele mesmo.
de ombros, virou-se sem se despedir e se * * *
encaminhou para a cabine, atravessando o No porto de Nápoles ocorreu, então,
convés já iluminado de uma maneira aquele estranho acidente, cuja explicação
estranhamente enviesada e arrastada. Não acredito ter encontrado na narrativa do
o vi mais. Em vão o procurei no lugar desconhecido. A maioria dos passageiros
habitual na noite seguinte. Havia não estava a bordo naquela noite; eu
desaparecido, e eu teria acreditado que se mesmo fora à ópera e a seguir ainda me
tratava de um sonho ou de uma aparição demorara num dos cafés iluminados da
fantástica, se não tivesse notado, entre os Via Roma. Quando estávamos voltando
para o vapor num bote a remo, percebi que para um bote. Ele estava sendo baixado
alguns barcos circulavam o navio com por uma escada de cordas, na presença do
tochas e lampiões de acetileno, à procura marido, quando algo pesado teria
de alguma coisa. E lá em cima, no convés despencado do convés do navio, levando
escuro, havia uma movimentação suspeita para a água o caixão, junto com os
de carabineris e guardas. Perguntei a um carregadores e o marido que o baixavam.
dos marinheiros o que havia acontecido. Um jornal afirmava tratar-se de um louco,
Ele dissimulou de uma maneira que que lançara alguma coisa escada abaixo;
demonstrava, de imediato, que havia uma um outro atenuava a informação, afirman-
ordem de silêncio. Mesmo no dia seguinte, do que as cordas haviam arrebentado
quando o navio seguia calmamente seu sozinhas, pelo excesso de peso. Em todo
caminho em direção a Gênova, sem caso, a empresa naval parecia ter feito
nenhum vestígio de qualquer incidente, tudo para encobrir os fatos exatos. Com
não foi possível averiguar nada a bordo. grande esforço, os carregadores e o marido
Foi só nos jornais italianos que li, depois, da falecida haviam sido resgatados da
num texto cheio de ornamentos água, mas o caixão de chumbo submergira
românticos, sobre o suposto acidente no imediatamente e não pudera mais ser
porto de Nápoles. Segundo os jornalistas, recuperado. Ao mesmo tempo, numa outra
naquela noite, durante a madrugada, para notícia, mencionava-se que o cadáver de
não inquietar os passageiros, o caixão de um homem de aproximadamente quarenta
uma dama importante das colônias anos fora encontrado na água do porto,
holandesas deveria ser transferido do navio mas para os meios de comunicação esse
fato não pareceu ter qualquer relação com
o acidente divulgado. Para mim, no
entanto, mal havia terminado de ler as
poucas linhas da notícia, foi como se, por
trás da página do jornal, de repente es-
tivessem fixadas em mim mais uma vez as
lentes brilhantes dos óculos e o rosto
fantasmagórico, com o branco da lua.
No GRANDE VAPOR DE passageiros
que partiria à meia-noite de Nova York
para Buenos Aires, predominava a usual

XADREZ
atividade e movimentação de última hora.
Visitantes se comprimiam para dar adeus
a seus amigos, mensageiros do telégrafo
Tradução de Pedro Süssekind com bonés enviesados gritavam nomes
pelos salões, malas e flores eram
carregadas, crianças curiosas corriam para
cima e para baixo nas escadas, enquanto a
orquestra tocava, imperturbável, no
convés. Um pouco afastado dessa
confusão, eu estava conversando na área
de passeio com um conhecido quando, ao
nosso lado, flashes repentinos espocaram
por duas ou três vezes - aparentemente,
alguém famoso ainda estava sendo
entrevistado e fotografado às pressas, logo
antes da partida. Meu amigo olhou e
sorriu.
- O senhor tem uma ave rara a bordo,
o Czentovic. Como essa informação
provocou em meu rosto uma expressão de círculo de grandes nomes. Isso porque as
indagação, ele acrescentou o esclare- capacidades intelectuais de Czentovic não
cimento: pareciam prenunciar de modo algum uma
- Mirko Czentovic, o campeão mundial carreira tão brilhante. Logo se espalhou o
de xadrez. Ele percorreu a América de leste segredo de que, em sua vida particular,
a oeste participando de torneios, agora esse campeão de xadrez era incapaz de
parte rumo a novos triunfos na Argentina. escrever, em qualquer língua, uma frase
Ao ouvir isso, lembrei-me desse jovem inteira sem erros de ortografia. Como dizia,
campeão mundial e até de alguns detalhes com raiva e despeito, um de seus colegas
com relação a sua carreira fulgurante. Meu indignados, "sua falta de cultura era
amigo, um leitor de jornais mais atento do igualmente universal em todos os campos".
que eu, soube complementá-los com uma Filho de um paupérrimo barqueiro eslavo
série de anedotas. Aproximadamente um do rio Donau, cuja barca mínima certa
ano antes, Czentovic fora comparado, de noite fora abalroada por um vapor
modo repentino, aos velhos mestres mais carregado de trigo, o menino havia sido
respeitados da arte do xadrez, como acolhido por piedade, aos doze anos,
Alekhine, Capablanca, Tartakower, Lasker, depois da morte do pai, pelo vigário da
Bogoljubow; desde o surgimento do localidade onde se dera o acidente. E o
menino-prodígio Rzecewski, de sete anos, bom padre havia se esforçado
no torneio de xadrez de Nova York, em honestamente para ensinar em casa o que
1922, não despertava tanta atenção o aquele garoto de testa grande, calado e
destaque de um total desconhecido nesse
apático, não era capaz de aprender na mais aborrecia o padre naquele garoto
escola da vila. ensimesmado era sua total indiferença. Ele
Mas os esforços foram em vão. Mirko não fazia nada que não lhe fosse
encarava sempre com estranheza as letras especialmente solicitado, nunca pergun-
escritas que já lhe haviam sido explicadas tava coisa alguma, não brincava com
centenas de vezes; até para o mais simples outros meninos e não procurava por si
assunto das aulas faltava a seu cérebro, próprio qualquer ocupação enquanto não
que trabalhava lentamente, qualquer lhe dessem alguma ordem direta. Assim
capacidade de reter as informações. que Mirko terminava a arrumação da casa,
Quando precisava contar, mesmo aos ficava sentado no quarto, imóvel, com
quatorze anos tinha de usar os dedos, e a aquele olhar vazio que as ovelhas no
leitura de um livro ou de um jornal ainda campo possuem, sem tomar parte
exigia um grande empenho do garoto já minimamente nos acontecimentos em
quase crescido. Mas não se podia de modo torno dele. À noite, enquanto o vigário, fu-
algum considerar que Mirko tivesse má mando um longo cachimbo de camponês,
vontade ou fosse teimoso. Cumpria jogava, como de hábito, suas três partidas
obedientemente o que lhe mandavam, de xadrez com o sargento da gendarmaria,
buscava água, rachava lenha, ajudava no o garoto de cabelos louros e desalinhados
trabalho da lavoura, arrumava a cozinha e permanecia por perto em silêncio, com os
realizava de maneira confiável, embora olhos de pálpebras pesadas fixos no
com uma lentidão irritante, todo serviço tabuleiro quadriculado, de modo
que lhe fora exigido. No entanto, o que aparentemente sonolento e indiferente.
Certa noite de inverno, enquanto os tabuleiro. O garoto tímido ergueu a vista,
dois parceiros estavam profundamente fez um sinal de assentimento e sentou no
concentrados numa de suas partidas lugar do vigário. Após quatorze lances, o
diárias, veio da rua o som dos sininhos de sargento havia perdido e, além disso, foi
um trenó, que se aproximava cada vez forçado a admitir que sua derrota não era
mais depressa. Um camponês com o gorro de modo algum uma conseqüência de al-
coberto de neve entrou apressado, para gum lance descuidado. A segunda partida
avisar que sua velha mãe estava à beira da não foi diferente.
morte e pedir ao vigário que fosse sem - O asno de Balaão! - exclamou
demora lhe dar a extrema-unção. Sem espantado o vigário ao retornar, antes de
hesitação o padre o acompanhou. O explicar ao sargento pouco versado na
sargento da gendarmaria, que ainda não Bíblia que ocorrera dois mil anos antes um
tinha terminado seu copo de cerveja, milagre semelhante, quando uma criatura
acendeu um último cachimbo e já se muda de repente havia encontrado a
preparava para calçar as suas botas língua da sabedoria. Embora fosse já tarde
quando percebeu o quanto os olhos de da noite, o vigário não conseguiu se conter
Mirko estavam fixos no tabuleiro de e desafiou seu aprendiz semi-analfabeto
xadrez, que exibia a partida já iniciada. para uma partida. Mirko também o
- Então, você quer continuar a derrotou com facilidade. Ele jogava con-
partida? - brincou, inteiramente centrado, devagar, imperturbável, sem
convencido de que o jovem sonolento não erguer sequer uma vez a testa grande
saberia mover direito nenhuma peça no inclinada para o tabuleiro. Mas jogava com
uma segurança incontestável; nem o bochechas vermelhas, o casaco de pele
sargento nem o vigário foram capazes de vestido ao avesso e botas pesadas de cano
ganhar uma partida dele nos dias alto. O jovem permaneceu num canto,
seguintes. O vigário, mais capaz do que assustado e com os olhos timidamente
qualquer outro de avaliar o atraso de seu baixos, até que o chamaram para uma
aluno em todo o resto, a princípio ficou mesa de xadrez. Na primeira partida,
apenas curioso para saber até onde esse Mirko foi derrotado, já que nunca vira, na
único dom especial resistiria a um teste casa do bom vigário, a chamada abertura
rigoroso. Depois de ter levado Mirko ao siciliana. Na segunda partida, ele já
barbeiro da vila para cortar seu cabelo empatou com o melhor jogador. A partir da
desgrenhado cor de palha, com a intenção terceira e da quarta, venceu todos os
de tornar o menino um pouco mais presentes, um após o outro.
apresentável, o vigário partiu com ele de Ora, é raríssimo que ocorra alguma
trenó para a cidadezinha vizinha, onde coisa emocionante numa pequena cidade
sabia que um grupo de fanáticos jogadores de província eslava; assim, o surgimento
de xadrez se reunia num canto do café da desse campeão camponês causou sensação
praça principal, jogadores aos quais ele imediatamente entre os enxadristas ali
mesmo nunca tinha conseguido se equipa- reunidos. Decidiram por unanimidade que
rar. Não despertou muita atenção do grupo o menino-prodígio teria de ficar na cidade
sentado a entrada do vigário em até o dia seguinte, para que chamassem os
companhia daquele garoto de quinze anos, outros sócios do clube de xadrez, e
com seu cabelo cor de palha e as sobretudo para que o velho Conde Simczic,
um fanático do jogo de xadrez, fosse preendeu esse modo de jogar, adaptou-se
informado em seu castelo. O vigário, que depressa à tarefa, passou de mesa a mesa
olhava seu pupilo com um orgulho arrastando os sapatos pesados que
completamente novo, mas que apesar da rangiam e, ao final, venceu sete das oito
alegria de sua descoberta não poderia partidas.
deixar de celebrar a missa de domingo, Iniciaram-se então grandes
declarou-se pronto a deixar Mirko na deliberações. Embora esse novo campeão a
cidade para mais um teste. O jovem rigor não pertencesse à cidade, o orgulho
Czentovic foi hospedado num hotel às local foi vivamente exaltado. Talvez a
custas do clube de xadrez e, nesta noite, cidadezinha, cuja existência no mapa
viu pela primeira vez um vaso sanitário. Na quase não era sequer notada, pudesse
tarde seguinte, a sala de jogo destinada ao enfim, pela primeira vez, conquistar a
xadrez estava lotada. Sentado imóvel honra de oferecer ao mundo um homem
diante do tabuleiro durante quatro horas, famoso. Um agente chamado Koller, que
Mirko venceu um jogador após outro, sem até então só representava cançonetistas e
dizer palavra alguma ou mesmo erguer os cantoras para o cabaré da guarnição,
olhos; por fim, propuseram uma partida declarou-se pronto, contanto que lhe
simultânea. Durou algum tempo até que fornecessem pagamento por um ano, para
conseguissem explicar ao garoto pouco mandar o jovem ser preparado
instruído que, numa partida simultânea, profissionalmente na arte do xadrez por
ele teria de enfrentar sozinho os vários um excelente mestre de Viena, seu
adversários. Mas, logo que Mirko com- conhecido. O Conde Simczic, que em
sessenta anos de xadrez diário nunca dos olhos alguma posição, caso quisesse
encontrara um adversário tão notável, reconstruir alguma partida de um mestre
providenciou imediatamente a quantia ou resolver algum problema enxadrístico.
necessária. Foi nesse dia que começou a Esse defeito, por si só pouco considerável,
carreira espantosa do filho do barqueiro. revelava uma falta de capacidade
Após meio ano, Mirko dominava todos imaginativa e foi discutido tão vivamente,
os segredos da técnica do xadrez, no no círculo restrito interessado, como seria
entanto tinha uma estranha limitação, que o caso, entre músicos, se um virtuose de
mais tarde seria notada nos círculos destaque ou um maestro tivesse se
profissionais e despertaria muitas mostrado incapaz de tocar ou reger sem
zombarias. Pois Czentovic nunca foi capaz uma partitura aberta. Mas essa
de jogar uma partida de xadrez de cor - ou, característica curiosa não impediu de
como dizem, às cegas -, nem uma única modo algum a estupenda ascensão de
partida. Faltav-lhe completamente a Mirko.
capacidade de projetar o campo de batalha Aos dezessete anos, ele já tinha
no espaço ilimitado da fantasia. Ele ganhado uma dúzia de prêmios de xadrez;
precisava sempre ter à mão, diante de si, o aos dezoito, o campeonato húngaro; aos
quadriculado preto e branco com as 64 vinte, finalmente conquistara o
casas e 32 peças; até mesmo no período campeonato mundial. Os campeões mais
em que se tornou mundialmente audazes, cada um incalculavelmente
conhecido, carregava sempre um tabuleiro superior a ele em termos de capacidade
dobrável de bolso, a fim de montar diante intelectual, imaginação e arrojo, também
foram derrotados por sua lógica fria e rústico e calado, do qual mesmo o
obstinada, como Napoleão, pelo lento e jornalista mais esperto nunca tinha
pesado Kutusov, (* Mikhail Illarionovich conseguido arrancar uma única palavra
Golenishchev-Kutusov (1745-1813), Mare- digna de ser publicada. Evidentemente, as
chal-de-campo russo durante as guerras frases bem formuladas que Czentovic
napoleônicas. N.T.) e como Aníbal, por deixava de dar aos jornais eram logo
Fabius Cunctator, de quem Tito Lívio conta compensadas em abundância por anedotas
que mostrara igualmente, em sua infância, sobre sua pessoa. Pois, no segundo em que
aqueles traços evidentes de fleuma e se levantava da mesa de xadrez, onde era
imbecilidade.(* Tito Lívio (59 a.CA7d.C.), um mestre sem igual, Czentovic tornava-se
historiador romano, conta episódios da um personagem grotesco e quase cômico;
vida do soldado e político Quintus Fabius apesar de seu terno preto cerimonioso, de
Maximus Verrucosus (275 a.C. 203 a.C.), sua gravata pomposa com um broche de
chamado de Cunctator. N.T.) Aconteceu pérola um tanto exagerado e de seus dedos
assim que, na ilustre galeria dos campeões tratados com grande esforço pela
de xadrez, que reúne em suas fileiras os manicure, em seus hábitos e em suas
mais diversos tipos de superioridade maneiras ele continuava a ser o mesmo
intelectual, entre filósofos, matemáticos, jovem camponês que, na aldeia, varria o
naturezas calculadoras, imaginativas e quarto do vigário. De modo desajeitado,
muitas vezes criadoras, pela primeira vez deselegante e sem refinamento, para a
despontou alguém completamente alheio diversão ou a irritação de seus colegas de
ao mundo espiritual, um garoto camponês profissão, ele procurava extrair de seu
talento e de sua fama, com uma ganância oradores e escritores brilhantes,
mesquinha e às vezes mesmo vulgar, o inteligentes e sensatos, fortalecida
máximo de dinheiro possível. Viajava de sobretudo pelo fato palpável de ganhar
cidade em cidade, morando sempre nos mais dinheiro do que eles, transformou a
hotéis mais baratos, jogava nos clubes insegurança original num orgulho frio,
mais insignificantes, contanto que lhe quase sempre ostentado de modo
pagassem seu honorário; deu permissão grosseiro.
para que usassem sua foto em anúncios de - Mas como uma fama tão repentina
sabonete e chegou ao ponto, sem dar não iria embriagar uma cabeça tão vazia? -
atenção à zombaria de seus concorrentes, concluiu meu amigo, que acabara de me
que sabiam muito bem de sua confiar algumas provas típicas da
incapacidade de escrever três frases prepotência infantil de Czentovic. - Como
corretamente, de vender seu nome para um garoto camponês do Banato, (* Banato
uma Filosofia do xadrez, na verdade escrita é uma região da Europa Central cujos
por um estudantezinho da Galícia para um territórios se estendem atualmente por
editor em busca de bons negócios. Como quatro paises: Romênia, Sérvia,
ocorre com muitas naturezas obstinadas, Montenegro e Hungria. N.T.) aos 21 anos,
faltavalhe qualquer senso do ridículo; não seria afetado pela vaidade se, de
desde sua vitória no torneio mundial, repente, com alguns movimentos de peças
considerava-se o homem mais importante num tabuleiro de madeira, passasse a
do mundo, e a consciência de ter derrotado ganhar mais do que toda a sua aldeia
em seu próprio campo todos aqueles consegue obter durante um ano inteiro
cortando árvores e trabalhando na lavoura isoladas do mundo constroem para si, em
até a exaustão? Além disso, não é seu âmbito especial, uma maravilhosa
incrivelmente fácil alguém se considerar miniatura do mundo, algo único. Assim,
um grande homem caso não tenha a não fiz segredo de minha intenção de
menor noção de que já viveram pessoas examinar com cuidado esse espécime
como um Rembrandt, um Beethoven, um curioso de unilateralidade intelectual du-
Dante, um Napoleão? Esse garoto só sabe rante a viagem de doze dias até o Rio de
uma única coisa em seu cérebro janeiro.
empedernido: que há meses ele não perde - O senhor não terá muita sorte -
sequer uma partida de xadrez, e como ele avisou meu amigo. -Até onde sei, ninguém
não faz idéia de que há outros valores em foi capaz extrair de Czentovic o mínimo de
nosso planeta além do xadrez e do material psicológico. Por trás de sua
dinheiro, tem todos os motivos para estar abissal limitação, esse camponês esconde
empolgado consigo mesmo. a grande astúcia de não revelar seu ponto
Essas informações de meu amigo não fraco, e na verdade faz isso por meio da
puderam deixar de despertar minha técnica simples de evitar qualquer
grande curiosidade. Todo tipo de pessoa conversa, a não ser com compatriotas de
monomaníaca, cerrada numa única idéia, seu próprio círculo, que ele procura
sempre me encantou, pois quanto mais encontrar em pequenas hospedarias.
alguém se limita, tanto mais, por outro Quando pressente uma pessoa culta,
lado, ele está próximo do ilimitado; encolhe-se em sua concha; assim ninguém
justamente essas pessoas que parecem pode se gabar de ter ouvido uma burrice
dita por ele ou de ter medido a recapitular partidas de xadrez num vistoso
profundidade supostamente ilimitada de tabuleiro.
sua falta de cultura. Após três dias, comecei realmente a
De fato, meu amigo tinha razão. me irritar pelo fato de sua obstinada
Durante os primeiros dias da viagem, técnica de defesa ser mais eficaz do que
mostrou-se inteiramente impossível me minha vontade de me aproximar dele. Em
aproximar de Czentovic sem importuná-lo toda a minha vida, nunca tivera a
de modo grosseiro, o que afinal não é do oportunidade de travar conhecimento com
meu feitio. Às vezes ele até passeava pelo um mestre de xadrez, e quanto mais me
convés, mas sempre com as mãos esforçava para imaginar a personalidade
cruzadas para atrás, com aquela atitude de uma pessoa desse tipo, mais me parecia
orgulhosamente introspectiva, como inimaginável uma atividade cerebral que
Napoleão na sua imagem célebre; além girasse durante a vida inteira
disso, ele realizava sua ronda peripatética exclusivamente em torno de um espaço de
pelo convés de maneira tão brusca e 64 casas brancas e pretas. Por experiência
apressada que seria preciso correr a seu própria, eu conhecia muito bem a atração
lado para poder lhe dirigir a palavra. Nos desse "jogo majestoso", o único entre todos
locais de reunião, no bar e no salão dos os jogos inventados pelo homem que
fumantes ele nunca apareceu; e, de acordo escapa soberanamente daquela tirania do
com o que o comissário de bordo me acaso, que confere suas palmas da vitória
confidenciou, ele passava a maior parte do apenas ao intelecto, ou melhor, a uma
dia em sua cabine, para praticar ou determinada forma de aptidão intelectual.
Mas já não se incorre numa restrição trouxe ao mundo para matar o tédio, afiar
ofensiva quando se chama o xadrez de os sentidos, estimular a alma. Onde ele
jogo? Ele não é também uma ciência, uma começa e onde termina? Qualquer criança
arte, oscilando entre essas categorias como pode aprender suas primeiras regras,
o esquife de Maomé entre o céu e a terra, qualquer principiante pode experimentar
constituindo uma conexão singular de jogá-lo; no entanto, esse jogo e capaz de
todos os pares de opostos? Arcaico e, no gerar, dentro desse estreito quadrado
entanto, eternamente novo; mecânico na inalterável, uma espécie particular de
organização e, no entanto, eficiente apenas mestres, um tipo incomparável com todos
por meio da imaginação; limitado a um os outros, homens com um talento voltado
espaço geométrico rígido e, com isso, unicamente para o xadrez, gênios
ilimitado em suas combinações; específicos, nos quais visão, paciência e
continuamente em desenvolvimento e, no técnica atuam numa distribuição tão bem
entanto, estéril; um pensamento que não determinada quanto no matemático, no
conduz a nada, uma matemática que não poeta, no músico, só que com outra
calcula nada, uma arte sem produtos, uma dosagem e combinação. No passado, em
arquitetura sem substância, mas que nem tempos de paixão pela frenologia, talvez
por isso deixa de se mostrar mais um Gall (* Franz Joseph Gall (1758-1828),
duradouro em sua existência do que todos anatomista e fisiologista alemão, pioneiro
os livros e obras, o único jogo que pertence em pesquisas sobre as funções cerebrais.
a todos os povos e a todas as épocas, de N.T.) tivesse dissecado o cérebro de tais
modo que ninguém sabe qual deus o mestres do xadrez, a fim de estabelecer se
nesses gênios encontra-se mais pro- abertura, avançando o cavalo em vez do
nunciada do que em outros crânios uma peão, significa uma proeza e reserva um
determinada dobra da massa cinzenta do mísero cantinho de imortalidade nas
cérebro, uma espécie de músculo páginas de algum livro de xadrez - um ser
enxadrístico ou protuberância humano, um ser humano inteligente que,
enxadrística. E como o caso de Czentovic sem enlouquecer, dedica por dez, vinte,
teria entusiasmado esse fisiognomonista, trinta, quarenta anos toda a força de seu
já que o gênio específico aparece inserido, pensamento, insistentemente, ao propósito
em seu caso, numa inércia intelectual ridículo de acuar um rei de madeira no
absoluta, como um único fio de ouro em canto de um tabuleiro de madeira!
cinqüenta quilos de rocha sem valor. Em E agora um desses fenômenos, um
princípio, sempre considerei compreensível desses gênios singulares ou um desses
o fato de um jogo tão singular, tão genial, tolos enigmáticos estava pela primeira vez
ter de criar seus campeões específicos; bem perto de mim espacialmente, seis
mas como era difícil, mesmo impossível cabines adiante no mesmo navio. E eu, um
imaginar a vida de uma pessoa desgraçado para quem a curiosidade a
intelectualmente ativa para quem o mundo respeito de assuntos intelectuais sempre
se reduz apenas ao movimento restrito do ganhara contornos de um tipo de paixão,
branco para o preto, alguém que procura não teria condições de me aproximar dele.
os triunfos da vida no mero ir e vir de 32 Comecei a imaginar os truques mais
peças para lá e para cá, para frente e para absurdos: por exemplo, lisonjear sua
trás, uma pessoa para quem uma nova vaidade simulando uma suposta entrevista
para um jornal importante, ou capturá-lo parceiro, e por hora eu ainda não sabia se
pela cobiça, propondolhe um torneio havia a bordo, além de nós dois, outros
rentável na Escócia. Finalmente, lembrei apreciadores do xadrez. A fim de retirá-los
da melhor técnica usada pelos caçadores de suas tocas, preparei no salão de fumar
austríacos para atrair o galo silvestre, uma armadilha primitiva, sentando com
técnica que consistia em imitar seu grito minha esposa diante de um tabuleiro,
de cortejo. Afinal, o que seria mais eficiente embora ela jogasse ainda pior do que eu,
para chamar a atenção de um mestre de como um caçador de pássaros. E de fato,
xadrez do que alguém jogar xadrez? antes mesmo de completarmos seis lances,
O problema é que nunca fui, ao longo alguém que estava passando parou, um
da vida, um jogador sério de xadrez, e na segundo pediu permissão para assistir; por
verdade pelo motivo muito simples de que fim surgiu também o desejado parceiro,
sempre encarei o xadrez de modo leviano, que me desafiou para uma partida. Ele se
jogando exclusivamente para me divertir; chamava McConnor e era um engenheiro
quando me sento por uma hora diante do de minas escocês que, segundo ouvi dizer,
tabuleiro, isso nunca ocorre para que eu havia feito fortuna com a perfuração de
me esforce, mas, ao contrário, para relaxar poços de petróleo na Califórnia. Quanto à
da tensão mental. "Jogo" xadrez, no aparência, era um homem robusto, com o
sentido mais autêntico do verbo, enquanto queixo forte, quase quadrado, dentes
os outros, os verdadeiros jogadores, levam grandes e um rosto corado, cujo rubor
o xadrez a sério. Agora, assim como para o acentuado provavelmente se devia, pelo
amor, para o xadrez é indispensável um menos em parte, ao consumo abundante
de uísque. Os ombros muito largos, quase perder uma partida sem pedir de imediato
como os de um atleta, infelizmente se a revanche. A princípio, essa obstinação
fizeram notar de modo característico ambiciosa me divertiu; mais tarde eu a
também no jogo, pois esse Mr. McConnor aproveitaria como uma colaboração
era daquela espécie de homens bem inevitável para meu verdadeiro propósito
sucedidos por esforço próprio que, mesmo de atrair até a nossa mesa o campeão
no jogo mais despretensioso, considera mundial.
uma derrota como uma depreciação de sua No terceiro dia, a armadilha
personalidade. Habituado a se impor na funcionou, mas apenas em parte. Ou
vida sem preocupação, e mal acostumado porque Czentovic, do convés externo,
pelo sucesso, esse corpulento self-made- observasse-nos diante do tabuleiro pela
man estava de tal maneira seguramente escotilha, ou porque ele só por acaso
convencido de sua superioridade, que toda honrasse com sua presença o salão de
resistência o aborrecia como uma fumar - em todo caso ele entrou e, assim
insurreição inconveniente e quase como que viu amadores como nós exercendo sua
uma ofensa. Quando perdeu a primeira arte, quase sem querer avançou um passo
partida, ficou mal-humorado e começou a e lançou, dessa distância calculada, um
explicar de modo pormenorizado e olhar examinador para o nosso tabuleiro.
ditatorial que isso só podia ter ocorrido McConnor estava justamente fazendo um
graças a uma desatenção momentânea; na lance. E esse único lance já foi suficiente
terceira, responsabilizou por seu fracasso o para mostrar a Czentovic que nossos es-
barulho na sala ao lado; nunca se permitia forços diletantes não eram dignos de serem
acompanhados por seu interesse de surpresa, essa informação despretensiosa
mestre. Com o mesmo gesto imediato com exerceu sobre McConnor um efeito
que nós deixamos de lado, numa livraria, totalmente inesperado. De imediato ele
um romance policial de má qualidade que ficou exaltado, esqueceu nossa partida, e
nos é oferecido, sem sequer folheá-lo, ele sua imensa ambição começou a se
se afastou de nossa mesa e deixou o salão. manifestar abertamente. Afirmou que não
"Pôs na balança e achou leve demais" fazia a menor idéia de que Czentovic estava
pensei, um pouco irritado por aquele olhar a bordo, e que Czentovic precisava jogar
frio de desprezo, e em seguida, para de com ele de qualquer maneira; nunca em
algum modo desabafar minha contrarie- sua vida jogara contra um campeão
dade, declarei a McConnor: mundial, a não ser em uma partida
- Seu lance não parece ter simultânea com quarenta outros; isso já
entusiasmado muito o campeão. havia sido bastante excitante, e ele quase
- Que campeão? saíra vitorioso. Perguntou se eu conhecia
Expliquei a ele que aquele senhor que pessoalmente o campeão de xadrez.
acabara de passar por nós e voltar para o Respondi que não. Perguntou então se eu
nosso jogo um olhar desdenhoso era o não gostaria de falar com ele e convidá-lo à
campeão de xadrez Czentovic. Acrescentei nossa mesa. Declinei, com a explicação de
que nós deixaríamos isso para lá, sem nos que Czentovic, segundo a informação que
afligir com seu ilustre desprezo; que me haviam dado, não estava muito
pessoas pobres têm de se contentar em pôr disponível para estabelecer novas relações.
mais água na sopa. Mas, para minha Além disso, questionei qual seria o
estímulo para um campeão mundial de - E então? - perguntei.
jogar com pessoas como nós, jogadores de - O senhor tinha razão - respondeu
terceira. um tanto irritado. - Não é um cavalheiro
Evidentemente eu não deveria ter agradável. Apresentei-me, expliquei quem
falado em jogadores de terceira para um sou. Ele nem me cumprimentou. Tentei lhe
homem tão orgulhoso como McConnor. Ele demonstrar o quanto todos nós a bordo
se inclinou para trás e declarou aspera- ficaríamos orgulhosos e honrados caso ele
mente que ele, por sua vez, não acreditava quisesse jogar contra nós uma partida
que Czentovic recusaria o convite educado simultânea. Mas ele recusou, inflexível;
de um cavalheiro; e que logo tomaria as disse que sentia muito, mas tinha
devidas providências. A um pedido seu, fiz obrigações contratuais com seus
uma breve descrição pessoal do campeão empresários que o impediam
do mundo, em seguida ele saiu expressamente de jogar sem receber
precipitadamente, deixando com indife- honorários durante toda a sua turnê. Seu
rença nosso tabuleiro como estava, para cachê mínimo é 250 dólares por partida.
perseguir de maneira impaciente Czentovic Dei uma risada.
no convés. De novo, percebi que não havia - Nunca tinha pensado que mover
como deter aquele homem de ombros peças entre casas brancas e pretas
largos quando ele queria alguma coisa. pudesse ser um negócio tão lucrativo.
Esperei, bastante curioso. Depois de Espero que o senhor tenha se despedido
dez minutos, McConnor retornou, não com a mesma educação.
muito satisfeito, ao que me pareceu.
Mas McConnor permaneceu sem jogar com nenhum campeão do
totalmente sério. mundo. Para jogadores "de terceira" não é
- A partida está marcada para vergonha alguma uma derrota para
amanhã de tarde, às três. Aqui no salão. Czentovic.
Espero que não nos deixemos aniquilar tão Achei graça em perceber o quanto eu
facilmente. havia ferido sua auto-estima com uma
- Como? O senhor se comprometeu a expressão inocente como "jogador de
pagar duzentos e cinqüenta dólares? - terceira"' Todavia, como ele estava disposto
exclamei, totalmente perplexo. - Por que a pagar o alto preço da diversão, eu não
não? C'est son métier. Seu eu estivesse tinha nada a objetar contra sua ambição
com dor de dente e por acaso houvesse um exagerada, que finalmente possibilitaria
dentista a bordo, também não exigiria que que eu conhecesse o objeto de minha
ele tratasse do meu dente de graça. O curiosidade. Sem demora, comunicamos
homem tem toda razão de pedir um preço aos quatro ou cinco senhores que até
alto; em todas as profissões, os verdadeiros então haviam se declarado jogadores de
peritos são também os melhores homens xadrez a respeito do evento marcado e,
de negócios. Por mim, quanto mais claro para não sermos muito incomodados por
um negócio, melhor. Prefiro pagar à vista a pessoas de passagem, providenciamos a
permitir que um Sr. Czentovic me faça um reserva não só de nossa mesa, para o
favor e depois eu ainda tenha de match, como também das mesas vizinhas.
agradecer. Afinal já perdi, em nosso clube, No dia seguinte, todo o nosso pequeno
mais de 250 dólares numa noite, e isso grupo compareceu na hora combinada. O
lugar central diante do mestre coube, para não atrapalhar nossas deliberações.
evidentemente, a McConnor, que aliviava Assim que fizéssemos nosso lance, uma
seu nervosismo acendendo um charuto vez que infelizmente não havia uma
atrás do outro e olhando a todo momento campainha de mesa à disposição,
para o relógio com inquietação. Mas o deveríamos bater com uma colher num
campeão do mundo - como eu já copo. Sugeriu o tempo máximo de dez
pressentira pelo relato de meu amigo - minutos para cada lance, caso não
deixou que esperassem por ele bons dez desejássemos combinar outra coisa.
minutos, de modo que sua presença, ao Obviamente, aceitamos todas as sugestões,
chegar, causou um impacto maior ainda. como se fôssemos colegiais tímidos. No
Andou em direção à mesa, tranqüilo e sorteio das cores, Czentovic ficou com as
relaxado. Sem se apresentar - essa pretas; ainda de pé, ele fez o primeiro lance
indelicadeza parecia dizer: "Os senhores de defesa, em seguida se dirigiu à mesa de
sabem quem eu sou, e não me interessa espera que havia sugerido, onde passou a
quem são os senhores" -, ele começou a folhear uma revista ilustrada, recostado
arrumar as coisas com uma secura de negligentemente.
profissional. Como a falta de tabuleiros Não faz muito sentido relatar como foi
disponíveis tornava impossível uma a partida. Ela terminou obviamente como
partida simultânea a bordo, sugeriu que tinha que terminar, com nossa completa
jogássemos todos juntos contra ele. derrota, e aliás já no vigésimo quarto lan-
Combinou que, depois de cada lance, iria ce. O fato de um campeão mundial vencer
sentar em outra mesa, no final do salão, com a mão esquerda uma dúzia de
jogadores medianos, ou abaixo de diante da mesa, depois de dizer "xeque-
medianos, não era, em si, nada de mate", para saber se os adversários ainda
surpreendente; o que nos aborreceu foi, na queriam uma segunda partida. Eu já me
verdade, o modo prepotente como levantara, desamparado como sempre cos-
Czentovic nos fazia sentir com toda clareza tumamos ficar diante de uma grosseria
que nos vencia com a mão esquerda. A dessas, a fim de esclarecer com um gesto
cada vez, ele lançava apenas um olhar que, pelo menos de minha parte, o prazer
aparentemente furtivo para o tabuleiro, de nosso encontro terminava com a
passando por nós de uma maneira conclusão daquele negócio de muitos
negligente, sem prestar atenção, como se dólares, quando ao meu lado, para minha
não passássemos de figuras de madeira irritação, McConnor disse com a voz total-
mortas, e esse gesto impertinente mente rouca:
recordava o de alguém que, com o olhar - Revanche!
voltado para o outro lado, joga um bocado Fiquei espantado exatamente pelo tom
de comida para um cão sarnento. Na desafiador. De fato, McConnor dava
minha opinião, se tivesse alguma naquele instante mais a impressão de um
delicadeza, ele poderia ter chamado nossa pugilista antes de soltar o golpe do que de
atenção para os erros ou nos animado com um cavalheiro bem educado. Fosse pelo
uma palavra amistosa. No entanto, mesmo modo desagradável como Czentovic havia
ao final da partida essa máquina de xadrez nos tratado, ou apenas por sua ambição
desumana não pronunciou uma sílaba patologicamente exaltada, em qualquer dos
sequer, mas ficou esperando sem se mover casos, a figura de McConnor estava
completamente alterada. Vermelho no Czentovic continuou impassível.
rosto até a raiz dos cabelos, as narinas - Claro - respondeu polidamente. - Os
muito dilatadas por uma pressão interna, senhores jogam agora com as pretas.
ele suava visivelmente, e dos lábios A segunda partida não foi muito
contraídos saía uma ruga profunda em diferente, a não ser pelo fato de que, em
direção a seu queixo proeminente de função da curiosidade despertada, nosso
lutador. Apreensivo, reconheci em seus grupo não só aumentou, como também
olhos aquela chama de paixão ficou mais animado. McConnor mantinha
incontrolável que só costuma se apoderar os olhos fixos no tabuleiro, como se
das pessoas nas mesas de roleta, quando quisesse magnetizar as peças com sua
não sai a cor certa pela sexta ou sétima vontade de ganhar; senti que ele teria
vez, sempre com a aposta dobrada. sacrificado com entusiasmo milhares de
Naquele instante soube que o ambicioso dólares pelo prazer de dar o grito de
fanático, mesmo que isso custasse toda a "xeque-mate!" contra aquele adversário frio
sua fortuna, jogaria e jogaria e jogaria con- e de nariz empinado. O curioso é que algo
tra Czentovic, sozinho ou acompanhado, daquela agitação obstinada passou
até ter ganhado pelo menos uma única inconscientemente para nós. Cada lance
partida. Se Czentovic agüentasse, havia foi discutido de maneira muito mais
encontrado em McConnor uma mina de apaixonada do que antes, sempre um de
ouro da qual poderia extrair alguns nós impedia o outro no último momento
milhares de dólares durante o percurso até antes de concordarmos em dar o sinal que
Buenos Aires. chamaria Czentovic de volta à nossa mesa.
Pouco a pouco, chegamos ao 37- lance, e situação, com o objetivo de servir de isca.
para a nossa surpresa surgiu uma Mas, apesar dos esforços conjuntos de
situação que parecia incrivelmente busca e discussão, não fomos capazes de
vantajosa, já que havíamos conseguido perceber o truque escondido. Por fim, já
avançar o peão da coluna c até a quase no limite do prazo para concluir a
penúltima casa, c2; precisávamos apenas jogada, decidimos arriscar o lance.
avançá-lo até c1 para ganhar uma outra McConnor já tocava o peão para avançá-lo
dama (* No jargão enxadristra, usa-se à última fileira quando sentiu seu braço
"dama" mais comumente do que "rainha". ser segurado, e alguém sussurrou em voz
Quanto a "ganhar uma outra dama", o baixa, com veemência:
autor refere-se ao direito que o jogador tem - Pelo amor de Deus! Não!
de promover um peão se ele chegar à Sem querer, todos se viraram. Um
oitava linha (ou primeira do adversário). senhor de aproximadamente 45 anos, cujo
Nesse caso, normalmente promove-se o rosto fino e anguloso já havia chamado
peão a rainha - ou dama -, a peça mais minha atenção no convés de passeio por
poderosa do xadrez. N T.). Claro que não causa de sua palidez extraordinária, quase
estávamos totalmente confortáveis diante de giz, devia ter chegado nos últimos
dessa oportunidade tão evidente; todos nós minutos, enquanto toda a nossa con-
suspeitávamos de que essa vantagem centração estava voltada para o problema.
aparentemente conquistada por nós Percebendo nossos olhares, ele
deveria ter sido oferecida por Czentovic, acrescentou apressado:
que tinha uma visão muito mais ampla da
- Se os senhores fizerem a dama - O que o senhor aconselharia? -
agora, ele vai tornála com o bispo cl, que sussurrou aflito. - Não avançar
as pretas tomam com o cavalo. Então ele imediatamente, mas primeiro escapar!
vai com o peão passado para d7, Sobretudo tirar o rei da coluna ameaçada,
ameaçando a torre, e mesmo que os de g8 para h7. É provável que ele
senhores dêem xeque com o cavalo vão concentre o ataque então na outra ala.
perder, em mais nove ou dez lances Mas isso os senhores podem defender com
estarão derrotados. É quase a mesma a torre em c8-c4; e essa jogada lhe custará
combinação que Alekhine começou em dois tempos, um peão e, com isso, a
1922 contra Bogoljubov, em Pistyaner. superioridade. Assim fica peão passado
Espantado, McConnor afastou a mão contra peão passado, e se os senhores
da peça e fixou os olhos, tão surpreso jogarem direito defensivamente ainda
quanto todos nós, no homem que caíra do podem chegar ao empate. Mais do que isso
céu para nos ajudar, como um anjo não se pode fazer.
inesperado. Alguém capaz de prever um Ficamos ainda mais espantados.
mate em nove lances era necessariamente Tanto a precisão quanto a rapidez de seus
um enxadrista de primeira categoria, talvez cálculos tinham algo de perturbador; era
até um concorrente ao título que estivesse como se ele estivesse lendo os lances num
viajando para o mesmo torneio, e sua livro. Mesmo assim, a chance inesperada
aparição súbita justamente num momento de, graças à sua intervenção, levar a um
tão crítico era algo quase sobrenatural. O empate a nossa partida contra um
primeiro a se recompor foi McConnor. campeão mundial teve um efeito mágico.
Numa decisão unânime, chegamos para o Não entendemos o que ele estava
lado a fim de lhe deixar livre a vista do dizendo. Para nós, era como se falasse
tabuleiro. De novo, foi McConnor quem chinês. Contudo, já dominado por ele,
perguntou: McConnor moveu a peça, sem parar para
- Então, rei de g8 para h7? refletir, da maneira como ele havia
- Claro! Antes de tudo, escapar! mandado. Batemos de novo no copo, para
McConnor obedeceu, e nós batemos chamar de volta Czentovic. Pela primeira
no copo. Czentovic se aproximou da nossa vez, ele não se decidiu rapidamente, mas
mesa com seu habitual andar indiferente e parou para observar com atenção o
avaliou o lance de resposta com um único tabuleiro. Involuntariamente, franziu a
olhar. Então moveu o peão na ala do rei de testa. Em seguida fez exatamente o lance
h2 para h4, exatamente como havia que o desconhecido nos anunciara e nos
previsto nosso colaborador desconhecido. voltou as costas para se retirar. No
De imediato, este sussurrou aflito: entanto, antes que fosse, ocorreu algo novo
- Torre para a frente, torre para a e inesperado. Czentovic ergueu os olhos e
frente, c8 para c4, então ele precisará examinou nosso grupo; era evidente que
antes de tudo proteger o peão. Mas isso ele queria descobrir quem, de repente,
não vai ajudar em nada! Os senhores oferecia uma resistência tão enérgica.
atacarão com o cavalo d3-e5, sem se A partir desse momento, nossa
importar com o peão passado, e o excitação aumentou de maneira
equilíbrio estará restabelecido. Toda a desmedida. Até então havíamos jogado sem
pressão no ataque, em vez de defender! nenhuma verdadeira esperança, mas agora
a idéia de quebrar o orgulho frio de aparência um tanto simplória. Czentovic
Czentovic fez um calor acelerado tomar pensou por alguns minutos, em seguida
conta de nossas veias. Nosso novo amigo já fez seu lance e se levantou. De imediato
havia comandado o lance seguinte, e nosso amigo sussurrou:
pudemos - meus dedos tremiam quando - Um lance de espera! Bem pensado!
bati com a colher no copo - chamar Mas nada de entrar no jogo dele! Forçar a
Czentovic de volta. Foi então o nosso troca, obrigá-lo a trocar, então podemos
primeiro triunfo. Czentovic, que até aquele chegar ao empate, e nem Deus pode ajudá-
ponto sempre jogara de pé, hesitou, lo.
hesitou e acabou sentando-se. Seu McConnor obedeceu. Teve início, nos
movimento para sentar-se foi lento e lances seguintes entre os dois - nós já
pesado; mas com isso, do ponto de vista havíamos sido reduzidos a meros
meramente corporal, suspendeu-se a figurantes - um vaivém incompreensível
relação de cima para baixo que havia entre para nós. Depois de uns sete lances,
nós e ele. Foi obrigado por nós, pelo menos Czentovic pensou por um bom tempo,
espacialmente, a se colocar no mesmo ergueu os olhos e reconheceu:
plano. Pensou durante muito tempo, com - Empate.
os olhos afundados no tabuleiro, de modo Por um instante reinou um silêncio
que mal se podiam enxergar as pupilas sob completo. De repente, era possível ouvir o
as pálpebras escuras, e no esforço dessa ruído das ondas e o rádio do salão tocando
reflexão sua boca se abriu pouco a pouco, jazz; percebia-se cada passo dado no con-
o que dava a seu rosto redondo uma vés de passeio e o sussurro leve, suave, do
vento que passava pelas frestas das fazê-la, não tinha olhado para McConnor, e
janelas. Nenhum de nós respirava, foi tudo sim voltado um olhar penetrante para o
muito súbito, e nós ainda estávamos nosso salvador. Assim como um cavalo
chocados demais diante do fato reconhece um cavaleiro novo e melhor pela
inverossímil de aquele desconhecido, numa maneira mais segura de montar, ele devia
partida já meio perdida, ter imposto a sua ter reconhecido seu adversário. Sem
vontade ao campeão mundial. McConnor querer, seguimos seu olhar e nos voltamos,
recostou-se bruscamente, e a respiração tensos, para o estranho. Contudo, antes
contida escapou de seus lábios em um que esse pudesse refletir ou responder,
"Ah!" satisfeito. Quanto a mim, fiquei McConnor já exclamara num tom
observando Czentovic. Já nos últimos triunfante, em sua excitação ambiciosa:
lances me parecera que ele havia - Obviamente! Mas agora o senhor
empalidecido. Entretanto sabia se tem que jogar sozinho contra ele! Só o
controlar bem. Conseguiu manter sua senhor contra Czentovic!
rigidez aparentemente indiferente e então Mas aconteceu então algo imprevisto.
perguntou, de maneira negligente, en- O estranho, que curiosamente ainda tinha
quanto retirava com calma as peças do o olhar fixo no tabuleiro de xadrez já vazio,
tabuleiro: tomou um susto ao sentir que todos os
- Os senhores desejam ainda uma olhos estavam voltados para ele e que
terceira partida? Fez a pergunta de alguém lhe dirigia a palavra com tanto
maneira objetiva, como se falasse de um entusiasmo. Seus traços mostravam o
mero negócio. Mas o curioso foi que, ao quanto ele ficou desconcertado.
- De modo algum, senhores - que se possa fazer de improviso. É
balbuciou, visivelmente confuso. - Isso totalmente sem cabimento, não é verdade?
está fora de cogitação... Não cabe a mim... Ao fazer a última pergunta, McConnor
faz vinte, não, 25 anos que não me sento tinha se voltado involuntariamente para
diante de um tabuleiro de xadrez... e só Czentovic. Mas o campeão mundial
agora vejo como me comportei de maneira permaneceu frio, inabalável.
inconveniente ao me intrometer no jogo - Não posso avaliar. Em todo caso,
dos senhores sem permissão... Por favor, aquele senhor jogou de maneira um pouco
desculpem a minha precipitação... sem estranha e interessante; por isso lhe dei
dúvida não quero mais incomodar. uma chance intencionalmente.
E, antes mesmo de nos termos Ao mesmo tempo em que levantava
recuperado de nossa surpresa, ele já havia com ar indiferente, acrescentou:
se afastado e deixado a sala. - Se o senhor ou os senhores
-Mas isso é completamente desejarem mais uma partida amanhã,
impossível-esbravejou o temperamental estarei à disposição a partir das três horas.
McConnor, batendo com o punho. - Não pudemos evitar um leve sorriso. Cada
Absolutamente sem cabimento que esse um de nós sabia que Czentovic não havia,
homem não tenha jogado xadrez por 25 de modo algum, num ato de generosidade,
anos! Ora, ele calculou cada lance, cada dado uma chance a nosso colaborador
resposta com cinco, seis jogadas de desconhecido, e que tal observação não
antecipação. Uma coisa assim não é algo passava de um subterfúgio ingênuo para
mascarar sua falha. Com isso intensificou-
se ainda mais nosso desejo de ver rebai- algum motivo insondável? Todas essas
xado um orgulho tão inabalável. De possibilidades foram discutidas por nós
repente, nós passageiros, pessoas pacíficas com entusiasmo, e até mesmo as hipóteses
e tranqüilas, fomos acometidos por uma mais ousadas não nos pareciam ousadas o
selvagem e exaltada vontade de lutar, pois bastante para harmonizar a timidez
a idéia de que justamente em nosso navio, enigmática e a confissão surpreendente do
no meio do oceano, pudesse trocar de desconhecido com sua inegável habilidade
mãos o título de campeão de xadrez - um como jogador. Quanto a um aspecto,
evento que seria então transmitido por contudo, estávamos todos de acordo: de
todos as agências telegráficas para o modo algum desistiríamos do espetáculo
mundo todo - era algo que nos fascinava de uma nova batalha. Decidimos tentar de
como um grande desafio. Além disso, havia tudo para que nosso colaborador jogasse
o encanto do caráter misterioso da no dia seguinte uma partida contra
intervenção inesperada de nosso salvador, Czentovic, e McConnor se comprometia a
justamente no momento crítico, e o assumir o risco. Como, no decorrer dessa
contraste de sua modéstia quase medrosa discussão, havíamos descoberto por meio
com a autoestima inabalável do de informações pedidas ao comissário de
profissional. Quem era aquele des- bordo que o desconhecido era austríaco,
conhecido? Será que o acaso havia coube a mim, seu compatriota, a
revelado aqui um gênio do xadrez ainda incumbência de comunicar a ele o nosso
não descoberto? Ou será que um mestre pedido.
célebre escondia seu nome de nós por
Não precisei de muito tempo para também de que um dos médicos do velho
encontrar no convés de passeio o homem imperador vinha dessa família. Quando
que havia fugido com tanta pressa. Ele transmiti ao Dr. B. nosso pedido de que
estava deitado em sua espreguiçadeira; aceitasse o desafio de Czentovic, ele ficou
lendo. visivelmente perplexo. Era evidente que ele
Antes de abordá-lo, aproveitei a não tinha a menor idéia de que, naquela
oportunidade para observá-lo melhor. A partida, havia enfrentado um campeão
cabeça de perfil bem recortado descansava mundial, e justamente o mais célebre e
na almofada, numa atitude de leve vitorioso da época. Por algum motivo, essa
cansaço; mais uma vez me chamou informação pareceu causar nele uma
atenção a notável palidez do rosto impressão peculiar, pois perguntou várias
relativamente jovem, emoldurado por vezes se eu tinha certeza de que seu adver-
cabelos muito brancos; não sei por que, eu sário era de fato um conhecido campeão
tinha a impressão de que esse homem mundial. Logo percebi que essa
devia ter envelhecido de repente. Logo que circunstância facilitava a minha tarefa e,
me aproximei, ele se levantou de modo intuindo sua sensibilidade, considerei
educado e se apresentou com um nome aconselhável silenciar sobre o fato de que o
que reconheci imediatamente como o de risco material de uma provável derrota
uma das mais tradicionais famílias ficaria a cargo dos recursos de McConnor.
austríacas. Lembrei-me de que alguém Após uma longa hesitação, finalmente o
com esse nome havia pertencido ao círculo Dr. B. se declarou preparado para uma
de amigos mais íntimos de Schubert, e partida, mas não sem antes insistir no
pedido de que eu avisasse aos outros assim, deveria ter se dedicado muito ao
senhores para não depositarem de modo xadrez, pelo menos teoricamente. Dr. B.
algum esperanças exageradas em sua voltou a sorrir com aquele ar
capacidade. particularmente sonhador.
- Pois - acrescentou com um sorriso - Muita dedicação! Só Deus sabe o
pensativo - realmente não sei se sou capaz quanto se pode dizer que me dediquei ao
de jogar uma partida de xadrez de acordo xadrez. Mas isso ocorreu em
com todas as regras. Por favor, acredite circunstâncias muito particulares,
que não foi de modo algum falsa modéstia absolutamente únicas. Foi uma história
quando disse que desde meu tempo de bastante complicada, que aliás pode ser
ginásio, portanto desde mais de vinte anos considerada como uma pequena
atrás, nunca mais toquei em uma peça de contribuição para o entendimento de nossa
xadrez. E mesmo naquela época eu era querida e grandiosa época. Se o senhor
considerado um jogador sem qualquer tiver meia hora de paciência...
talento especial. Ele tinha apontado para uma
Ele afirmou isso com tanta espreguiçadeira a seu lado. Aceitei com
naturalidade, que eu não podia ter prazer o convite. Não havia ninguém
nenhuma dúvida a respeito de sua since- sentado por perto. Dr. B. tirou os óculos de
ridade. No entanto, não pude evitar de leitura, colocou-os de lado e começou:
exprimir meu espanto pelo modo como ele - O senhor teve a amabilidade de dizer
era capaz de se lembrar com exatidão dos que, por ser vienense, lembra-se do nome
mais variados mestres a cada combinação; de minha família. Mas suponho que não
tenha ouvido falar do escritório de advo- conservá-las, e era uma atividade
cacia que dirigi, a princípio junto com meu tranqüila, posso dizer, uma atividade
pai e depois sozinho, pois não trabalhamos silenciosa que nos coube por meio de uma
em nenhuma causa que tenha sido confiança herdada, e que na verdade não
divulgada pelos jornais e costumávamos exigia muito mais do que rigorosa discrição
evitar novos clientes. Na verdade, não e confiabilidade, duas qualidades que meu
exercíamos mais propriamente a falecido pai possuía no mais alto grau. De
advocacia, mas nos limitávamos com fato, graças a sua cautela, ele conseguiu,
exclusividade à consultoria jurídica e tanto nos anos de inflação quanto
sobretudo à administração dos bens dos naqueles da revolução, resguardar as
grandes mosteiros, com os quais meu pai, fortunas consideráveis de seus clientes.
um antigo deputado do partido clerical, Em seguida, quando Hitler chegou ao
mantinha uma relação muito próxima. poder na Alemanha e começou a saquear
Além disso (hoje, como a monarquia as posses da Igreja e dos mosteiros,
pertence à história, já se pode falar sobre o passaram por nossas mãos alguns
assunto), foi confiada a nós a negócios e transações, inclusive do outro
administração dos bens de alguns lado da fronteira, para salvar do seqüestro
membros da família imperial. Essas ao menos os bens móveis; e a respeito de
ligações com a corte e com o clero (meu tio certas transações políticas secretas da
foi médico do imperador, um outro foi cúria e da casa imperial nós sabíamos
abade em Seitenstetten) já se estendiam mais do que o público jamais chegará a
por duas gerações; só tínhamos de saber. Mas justamente a discrição do
nosso escritório - não tínhamos nem chamadas "células", em todos os lugares,
mesmo uma placa na porta -, assim como até nos aposentos particulares de Dollful3
o cuidado com que evitávamos e de Schuschnigg, encontravam-se os seus
ostensivamente todos os círculos postos de escuta e os seus espiões. Mesmo
monarquistas, oferecia a proteção mais em nosso discreto escritório eles tinham,
segura contra investigações indesejadas. como infelizmente só cheguei a descobrir
Realmente, em todos aqueles anos, tarde demais, seu homem. Claro que não
nenhuma autoridade na Áustria chegou passava de um escriturário miserável e
sequer a suspeitar de que os mensageiros sem talento, que eu só havia empregado
secretos da casa imperial entregavam ou por indicação de um padre, para dar ao
recebiam sua correspondência mais escritório a aparência de uma firma
importante logo em nosso discreto regular; na verdade, nós o usávamos
escritório no quarto andar. apenas para serviços inocentes de entrega
Continuou: de mensagens, pedíamos que atendesse o
- Só que os nazistas, muito antes de telefone e organizasse os documentos, quer
equiparem seus exércitos contra o mundo, dizer, aqueles documentos que não fossem
haviam começado a organizar um exército importantes nem comprometedores. Ele
igualmente perigoso e especializado em nunca teve a permissão de abrir a corres-
todos os países vizinhos, a legião dos pondência, todas as cartas importantes
prejudicados, dos preteridos, dos eram escritas por mim na máquina sem
ofendidos. Em cada repartição, em cada deixar cópia, eu levava pessoalmente para
empresa, foram implantadas as assim casa todos os documentos essenciais, e as
conversas secretas tinham lugar transformado, durante os últimos meses,
exclusivamente na sala do prior do num empenho súbito, e ele havia se
convento ou no consultório de meu tio. oferecido diversas vezes, de modo quase
Graças a esses procedimentos cuidadosos, importuno, para levar ao correio minha
o espião não chegava a ver nada das correspondência. Portanto, não posso me
atividades importantes; mas, por um acaso eximir de um certo descuido, mas, no final
infeliz, o garoto ambicioso e vaidoso das contas, os maiores diplomatas e
percebeu que não confiavam nele e que por militares também não foram perfidamente
trás de suas costas aconteciam as coisas vencidos pelo hitlerismo? A minúcia e a
interessantes. Talvez algum dos dedicação que a Gestapo já me havia
mensageiros tenha falado dedicado se revelaram depois con-
descuidadamente, em minha ausência, de cretamente pela circunstância de que,
"Sua Majestade", em vez de usar a naquela mesma noite em que Schuschnigg
denominação combinada de "Barão Ferm" tornou pública sua renúncia, e um dia
ou talvez o tratante tenha aberto cartas antes de Hitler entrar em Viena, fui levado
sem permissão - em todo caso, antes que preso por gente da SS. Por sorte, ainda
eu pudesse criar qualquer suspeita, ele consegui queimar os papéis mais
recebera de Munique ou de Berlim a importantes de todos, logo que ouvi no
incumbência de nos vigiar. Só muito mais rádio o discurso de despedida de
tarde, quando me encontrava fazia Schuschnigg. Quanto ao resto dos
bastante tempo na prisão, lembrei-me de documentos, com os comprovantes
que seu desleixo inicial no serviço havia se indispensáveis dos bens dos mosteiros e de
dois arquiduques, depositados fora do torturas que sofri ali. Mas não aconteceu
país, consegui enviá-los para meu tio, por nada disso. Eu pertencia a uma outra
intermédio de uma antiga governanta categoria. Não fui jogado entre aqueles
confiável, escondidos numa cesta de roupa infelizes nos quais se descontava, com
suja - realmente no último minuto antes humilhações corporais e espirituais, um
que minha porta fosse arrombada. ressentimento contido por muito tempo,
Dr. B. interrompeu o relato para mas incluído naquele grupo muito pequeno
acender um charuto. Sob a luz do qual os nazistas esperavam extrair
bruxuleante, reparei que um tique nervoso dinheiro ou informações importantes. Por
contraía o canto direito de seu lábio, tique si só, claro que minha modesta pessoa era
que eu já havia notado antes e que, como inteiramente desinteressante para a
pude observar, repetia-se a intervalos de Gestapo. No entanto, eles devem ter ficado
poucos minutos. Era apenas um movi- sabendo que éramos os representantes, os
mento fugaz, pouco mais forte do que um administradores e homens de confiança de
sopro, mas dava ao rosto toda uma seus adversários mais obstinados. E o que
estranha inquietação. eles esperavam extrair de mim era material
- O senhor provavelmente supõe que comprometedor: contra os mosteiros, cujas
lhe falarei agora sobre o campo de transferências de bens eles queriam
concentração para o qual, como sabe, comprovar, contra a família imperial e to-
eram levados todos aqueles que se dos aqueles que, na Áustria, haviam se
mantiveram fiéis à nossa velha Áustria; sacrificado a favor da monarquia.
sobre as humilhações, os suplícios e as Supunham - e na verdade não deixavam
de ter razão - que, daqueles fundos que separado. Também a mim, uma pessoa
haviam passado por nossas mãos, uma insignificante, foi concedida essa distinção.
parcela importante ainda se encontrava "Um quarto próprio num hotel - isso
escondida, inacessível à sua cobiça. Por não soa extremamente humano? Mas o
isso, logo no primeiro dia já foram me senhor pode acreditar que não nos
buscar, para arrancar de mim esses reservavam de modo algum um tratamento
segredos com seus métodos eficazes. humano, e sim um método mais refinado,
Pessoas de minha categoria, das quais quando deixaram de encarcerar vinte de
material importante ou grandes somas de nós, pessoas `importantes; juntos numa
dinheiro deveriam ser extraídos, não foram barraca gélida, para nos acomodar num
encarceradas em campos de concentração, quarto de hotel separado e bem aquecido.
foram reservadas para um tratamento Pois a pressão com a qual pretendiam
especial. Talvez o senhor recorde que extrair de nós o `material' necessário
nosso chanceler e o barão Rotschild, de deveria funcionar de modo mais sutil do
cujos parentes eles esperavam tirar que por meio de surras brutais ou torturas
milhões, não foram de modo algum postos fisicas: por meio do isolamento mais
atrás de cercas de arame farpado num requintado que se pode imaginar. Não nos
campo de concentração; em vez disso, com fizeram nada - simplesmente nos puseram
um aparente privilégio, foram acomodados no completo nada, pois é sabido que não
num hotel, o Hotel Metrópole, que era ao há coisa alguma sobre a Terra que exerça
mesmo tempo o quartel-general da maior pressão sobre a alma humana do
Gestapo, onde cada um recebeu um quarto que o nada. À medida que cada um de nós
era trancado num vácuo absoluto, num cigarro me foi proibida. Fora o vigia, que
quarto hermeticamente isolado do mundo não tinha permissão para dizer nenhuma
exterior, deveria ser criada a partir de palavra nem responder a qualquer
dentro, e não a partir de fora - por meio de pergunta, eu nunca via um rosto humano,
pancadas e do frio -, aquela pressão que nunca ouvia uma voz humana; olhos,
acabaria por abrir nossas bocas. À ouvidos, todos os sentidos ficavam de
primeira vista, o quarto que me fora manhã até a noite sem receber o mínimo
reservado não parecia de modo algum alimento, a pessoa permanecia
desconfortável. Ele tinha uma porta, uma irremediavelmente sozinha consigo mesma,
cama, uma poltrona, uma bacia e uma com seu corpo e os quatro ou cinco objetos
janela com grades. Contudo, a porta silenciosos, a mesa, a cama, a janela, a ba-
permanecia fechada dia e noite, sobre a cia. Vivia-se como um escafandrista
mesa não havia nenhum livro, jornal, folha submerso no oceano escuro desse silêncio,
de papel ou lápis, e a janela dava para um e mesmo como um mergulhador já
muro; em torno de mim e mesmo em meu consciente de que o cabo de ligação com o
próprio corpo foi construído o nada mundo exterior está rompido e ele nunca
absoluto. Haviam tirado de mim todos os mais será puxado para fora das
objetos, o relógio, para que eu não profundezas. Não havia nada para fazer,
soubesse que horas eram, o lápis, de modo nada para ouvir, nada para ver, por toda
que eu não pudesse escrever, a faca, a fim parte e incessantemente se encontrava em
de que eu não pudesse cortar os pulsos; torno o nada, o vazio mais completo, sem
até mesmo a mais leve distração de um tempo nem espaço. Eu andava para lá e
para cá, e comigo passeavam os mesma parede; cada linha de seu padrão
pensamentos, para lá e para cá, para lá e em ziguezague se gravou profundamente
para cá, repetidamente. Mas mesmo no meu cérebro, de tanto eu olhar para
pensamentos, por mais imateriais que aquilo. Foi então que começaram,
pareçam, precisam de um ponto de apoio, finalmente, os interrogatórios. De repente
senão eles começam a rodar no vazio, a fui chamado, sem saber ao certo se era dia
girar sem sentido em torno de si mesmos; ou noite. A pessoa era chamada e
eles também não suportam o nada. conduzida por alguns corredores, não se
Esperava-se por alguma coisa, da manhã sabia para onde; então ficava esperando
até a noite, e nada acontecia. Esperava-se em algum lugar, sem saber onde, e de
sempre, sempre. E nada acontecia. Eu súbito se encontrava diante de uma mesa,
esperava, esperava, esperava, pensava, em torno da qual estavam sentados alguns
pensava, pensava, até a cabeça doer. Nada homens uniformizados. Sobre a mesa
acontecia. Eu continuava sozinho. havia um maço de papéis, os dossiês, cujo
Sozinho. Sozinho. conteúdo era desconhecido para o interro-
"Isso durou quatorze dias, que vivi gado, e então começavam as perguntas, as
fora do tempo, fora do mundo. Se naquele verdadeiras e as falsas, as claras e as
período uma guerra tivesse começado, eu ardilosas, as perguntas para enganar e as
não teria ficado sabendo; meu mundo con- perguntas para induzir a uma armadilha, e
sistia apenas de mesa, porta, cama, bacia, enquanto a pessoa respondia, dedos
poltrona, janela e parede, e eu sempre desconhecidos e maldosos folheavam os
olhava para o mesmo papel de parede, na papéis, cujo conteúdo era desconhecido, e
dedos desconhecidos e maldosos escreviam conhecia ou não um senhor fulano de tal,
algo num protocolo, e eu não sabia o que se havia recebido cartas da Suíça e de
escreviam. Mas para mim o mais terrível Steenookerzeel. Como eu nunca era capaz
nesses interrogatórios era o fato de que eu de avaliar o quanto eles já haviam
nunca era capaz de adivinhar, nem de apurado, cada resposta se tornava uma
avaliar, o que a gente da Gestapo de fato imensa responsabilidade. Se eu
sabia a respeito das atividades do meu confessasse alguma coisa que eles não
escritório e o que eles queriam extrair de sabiam, talvez condenasse alguém à morte
mim. Como já disse ao senhor, na última sem necessidade. Se omitisse demais, esta-
hora eu havia enviado os papéis realmente va causando prejuízo a mim mesmo.
comprometedores para meu tio, por "Mas o interrogatório ainda não era o
intermédio da governanta. Mas será que pior. O pior era a volta, após o
ele os recebera? Será que não os recebera? interrogatório, para o meu nada, para o
E o quanto aquele escriturário havia mesmo quarto com a mesma mesa, a
descoberto? Quantas cartas haviam sido mesma cama, a mesma bacia, o mesmo
interceptadas, quantas coisas eles talvez já papel de parede. Pois, logo que ficava
tivessem tirado de um religioso pouco sozinho, eu tentava reconstituir qual a
habilidoso dos mosteiros que nós repre- resposta mais inteligente que eu deveria
sentávamos? E eles perguntavam e ter dado e imaginar o que teria de dizer, da
continuavam a perguntar. Que títulos eu próxima vez, para afastar a suspeita que
havia comprado para tal mosteiro, com eu talvez houvesse despertado com uma
quais bancos me correspondia, se eu observação irrefletida. Meditava,
considerava, investigava, examinava minha armário, a cama, o papel de parede, a ja-
própria entonação em cada palavra que nela, nenhuma distração, nenhum livro,
dissera ao diretor da averiguação, nenhum jornal, nenhum rosto
recapitulava cada pergunta que fora feita, desconhecido, nenhum lápis para anotar
cada resposta que dera; tentava especular algo, nenhum fósforo para brincar, nada,
o que eles poderiam ter anotado no nada, nada. Só então eu me dava conta do
protocolo, e no entanto sabia que nunca quanto era diabolicamente coerente, do
poderia avaliar ou descobrir isso. Mas quanto era planejado de maneira psicologi-
esses pensamentos, uma vez lançados no camente mortal esse sistema do quarto de
espaço vazio, não paravam mais de rodar hotel. No campo de concentração, talvez
na cabeça, sempre de novo, cada vez em tivéssemos de carregar pedras até que as
novas combinações, e isso se estendia até mãos sangrassem e os pés congelassem na
durante o sono; a cada vez, depois de uma neve, seríamos confinados junto com duas
inquirição feita pela Gestapo, meus dúzias de pessoas, agüentando o fedor e o
próprios pensamentos sofriam sem trégua frio. Mas teríamos visto rostos, teríamos a
o martírio das perguntas e investigações e possibilidade de olhar para um campo,
suplícios, talvez de uma maneira ainda para um carrinho, uma árvore, uma
mais horrível, pois cada interrogatório estrela, qualquer coisa, qualquer coisa
terminava sempre após uma hora, e esses mesmo, enquanto no quarto se encontrava
pensamentos não acabavam nunca, graças sempre o mesmo em torno de nós, sempre
à tortura insidiosa daquela solidão. E o mesmo, a terrível mesmice. Ali não havia
sempre, em torno de mim, a mesa, o nada que pudesse me desviar de meus
pensamentos, de minhas idéias insanas, Sempre voltavam e se insinuavam os
de minha recapitulação doentia. E era mesmos pensamentos: o que eles sabem?
justamente isso que eles pretendiam - eu O que eu disse ontem, o que tenho de dizer
deveria me esforçar para engolir o excesso da próxima vez?
dos meus pensamentos até que eles me "Essa situação, na verdade
sufocassem e eu nada pudesse fazer além indescritível, durou quatro meses. Ora,
de cuspi-los, de contar, contar tudo o que quatro meses, isso é fácil de escrever: ape-
eles queriam, por fim entregar o material e nas umas poucas letras! É fácil de falar:
as pessoas. Pouco a pouco, eu sentia como quatro meses - quatro sílabas. Numa
meus nervos começavam a ceder sob a fração de segundo, os lábios já articulam
pressão horrível do nada e, consciente do rapidamente um som assim: quatro meses!
perigo, tensionava meus nervos até quase Mas ninguém pode imaginar, pode medir,
arrebentarem para encontrar ou inventar pode tornar compreensível, nem para outra
alguma distração. A fim de me ocupar, pessoa nem para si mesmo, o quanto dura
procurei recitar e reconstituir tudo o que já um tempo na ausência de espaço, na
havia aprendido de cor: o hino nacional e ausência de tempo; e não se pode explicar
as rimas da infância, o Homero do ginásio, a ninguém o quanto isso corrói e destrói
os parágrafos do código civil. Em seguida, uma pessoa, esse nada e nada e nada em
tentava contar, somar e dividir números torno de alguém, essa contínua presença
quaisquer, mas minha memória não tinha, apenas de mesa e cadeira e bacia e papel
no vazio, qualquer capacidade de retenção. de parede, e sempre o silêncio, sempre o
Não conseguia me concentrar em nada. mesmo vigia que, sem nem sequer olhar,
traz a comida para dentro, sempre os conseguir com isso mais do que um
mesmos pensamentos que giram no nada instante de repouso para mim. Certa noite,
em torno da pessoa, até que ela realmente cheguei a esse ponto: quando o
enlouqueça. Por pequenos sinais, tomei vigia por acaso me trouxe a comida nesse
consciência, inquieto, de que meu cérebro momento de sufoco, gritei para ele de
estava ficando desordenado. No começo eu maneira repentina: `Leve-me para o
ainda possuía uma clareza interna durante interrogatório! Quero contar onde estão os
os interrogatórios, me expressava com papéis, onde está o dinheiro! Vou dizer
calma e ponderação; aquela reflexão sobre tudo, tudo!'. Por sorte ele não estava mais
o que eu deveria ou não dizer ainda havia ouvindo. Talvez ele também não quisesse
funcionado. Agora eu só conseguia dar ouvidos a mim.
pronunciar até as frases mais simples com "Nessa penúria extrema, aconteceu
hesitação, pois enquanto me expressava algo imprevisto que oferecia uma salvação,
olhava fixamente para a pena que corria pelo menos uma salvação temporária. Era
sobre o papel de protocolo, como se o final de julho, num dia escuro,
quisesse correr atrás de minhas próprias encoberto, chuvoso: lembro-me muito bem
palavras. Sentia que minha força diminuía, desse detalhe porque a chuva ressoava
sentia que se aproximava cada vez mais o contra as vidraças no corredor pelo qual
momento em que eu, para me salvar, diria fui conduzido para o interrogatório. Tive de
tudo o que sabia, e talvez ainda mais; no esperar no vestíbulo da sala do diretor de
qual eu, para escapar do jugo desse nada, investigação. Sempre era preciso esperar,
trairia doze homens e seus segredos, sem antes de cada interrogatório: deixar a pes-
soa esperando também fazia parte da minha voracidade por coisas impressas,
técnica. Em primeiro lugar, arrebentavam por coisas escritas, encarava sem parar
os nervos da pessoa chamando-a, tirando- este número, estas poucas palavras, `27 de
a subitamente da cela no meio da noite, e julho; na parede; era como se as devorasse
então, quando ela já estava pronta para a com meu cérebro. E então continuei
inquirição, já havia tensionado o esperando e olhando fixamente para a
entendimento e a vontade para ser capaz porta, esperando o momento em que ela se
de resistir, deixavam-na esperar, e era abriria afinal, e ao mesmo tempo cogitando
uma espera sem sentido, sem propósito, o que os interrogadores poderiam
por uma, duas, três horas antes do perguntar daquela vez, mesmo sabendo
interrogatório, para cansar o corpo, para que eles me perguntariam algo muito
debilitar a alma. Especialmente naquela diferente daquilo para o que eu me
quarta-feira, 27 de julho, eles me fizeram preparava. Mas, apesar de tudo, o tor-
esperar por muito tempo, esperar por duas mento dessa espera em pé era, ao mesmo
horas inteiras no vestíbulo, de pé; lembro- tempo, um beneficio, um prazer, porque a
me dessa data com tanta exatidão por um sala pelo menos era outro cômodo que não
motivo determinado, pois nessa sala de o meu quarto, um pouco maior e com duas
espera onde eu - evidentemente sem ter janelas em vez de uma, sem a cama e sem
permissão para me sentar - tive de ficar de a bacia e sem uma certa rachadura no
pé durante duas horas, havia um peitoril da janela que eu havia observado
calendário pendurado na parede. Não sou milhões de vezes. A porta tinha uma pin-
capaz de explicar ao senhor como eu, em tura diferente, uma outra poltrona estava
encostada na parede, e à esquerda havia ele finalmente tinha escorrido, passei a
um arquivo com documentos e um cabide, contar os botões dos sobretudos, oito num
no qual estavam pendurados três ou deles, oito no outro, dez no terceiro, em
quatro sobretudos militares molhados, os seguida comparei as divisas; todas essas
sobretudos dos meus torturadores. minúcias ridículas, sem importância, eram
Portanto, eu tinha algo novo para observar, apalpadas, envolvidas, agarradas pelos
algo diferente, finalmente algo diferente meus olhos famintos com uma avidez que
para meus olhos famintos, e eles se não sou capaz de descrever. De repente,
cravavam com avidez em cada detalhe. meu olhar se fixou sobre algo. Eu havia
Observei cada dobra naqueles sobretudos, descoberto que, num dos sobretudos, o
reparei por exemplo numa gota que pendia bolso estava um pouco abaulado. Cheguei
de uma das golas molhadas, e por mais mais perto e acreditei reconhecer, na forma
que possa soar ridículo para o senhor, retangular protuberante, o que aquele bol-
esperei com uma excitação sem sentido so um pouco inchado escondia: um livro!
para saber se essa gota iria afinal correr ao Meus joelhos começaram a tremer: um
longo de uma dobra ou se ela ainda iria LIVRO! Durante quatro meses eu não
contrariar a força da gravidade, tivera nenhum livro nas mãos, e a mera
permanecendo por mais tempo presa na idéia de um livro, no qual se podiam ver
gola - de fato, fiquei olhando fixamente por palavras enfileiradas, linhas, páginas e
vários minutos, quase sem respirar, para folhas, de um livro do qual se podiam ler,
aquela gota, como se a minha vida acompanhar, receber no cérebro outros
dependesse de sua ação. Depois, quando pensamentos, novos, alheios, diversos,
essa idéia tinha algo de encantador e ao elas pudessem tocar de maneira discreta o
mesmo tempo embriagante. Hipnotizados, sobretudo. Tateei o tecido e senti, de fato,
meus olhos ficaram fixados na pequena através dele algo retangular, algo que era
protuberância formada pelo livro dentro do flexível e estalava levemente - um livro! Um
bolso, eles contemplavam aquele ponto livro! Como um tiro, ocorreu-me o pen-
específico como se quisessem queimá-lo, samento: roube o livro! Talvez você consiga
fazendo um buraco no sobretudo. Por fim, e possa escondê-lo na cela e então ler, ler,
não fui mais capaz de conter minha avidez; ler, finalmente voltar a ler! O pensamento,
inadvertidamente fui chegando mais perto. logo que me ocorreu, teve o efeito de um
Só o pensamento de poder ao menos tocar forte veneno; de uma vez, meus ouvidos
um livro através do tecido fazia meus começaram a zumbir e meu coração a
nervos arderem, dos dedos até as unhas. martelar, minhas mãos ficaram geladas e
Quase sem tomar conhecimento, não me obedeciam mais. Contudo, após o
aproximei-me cada vez mais. Por sorte, o atordoamento inicial, cheguei de leve e
vigia não prestou atenção na minha com cuidado mais para perto do sobretudo
atitude certamente estranha; talvez lhe e, sempre observando o vigia, fui erguendo
tenha parecido natural que uma pessoa, o livro pouco a pouco, por fora, a partir da
depois de passar duas horas de pé, base do bolso, com as mãos escondidas
quisesse se apoiar um pouco na parede. atrás das costas. E então: um fechar de
Por fim, eu me encontrava bem perto do dedos, um gesto leve e cuidadoso, e de
sobretudo e, de propósito, havia posto as repente eu tinha nas mãos o pequeno livro,
mãos para trás, nas costas, de modo que não muito volumoso. Só então me espantei
com a minha ação. Mas não podia voltar o senhor com todos os detalhes, pois em
atrás. No entanto, como fazer? Meti o livro dado momento ele escorregou perigo-
sob a calça, por trás das minhas costas, samente pela calça, no meio do corredor,
num ponto onde o cinto o prendia, e dali de modo que tive de simular um forte
gradativamente em direção aos quadris, de acesso de tosse, a fim de dobrar o corpo e
modo que pudesse segurá-lo enquanto recolocá-lo a salvo sob o cinto. Mas que
andava, com a mão apoiada na costura da instante de glória quando voltei com o livro
calça à maneira militar. Foi então o para o meu inferno, finalmente sozinho e,
momento do primeiro teste. Recuei de no entanto, não mais sozinho!
perto do cabide, um passo, dois passos, "É provável que o senhor suponha que
três passos. Funcionou. Era possível apanhei de imediato o livro, observei-o e
segurar o livro enquanto andava, caso eu comecei a ler. De modo algum! Primeiro,
apertasse firmemente o cinto com a mão. queria valorizar o prazer antecipado do fato
"Veio em seguida o interrogatório. De de ter um livro comigo, prolongar
minha parte, ele exigiu mais esforço do que artificialmente esse prazer que excitava de
nunca, pois na verdade eu concentrava maneira maravilhosa meus nervos, ficar
toda a minha força, enquanto respondia, imaginando que tipo de livro seria melhor
não no que estava dizendo, mas sobretudo ter roubado: de preferência com a
em segurar o livro de maneira discreta. Por impressão apertada, contendo muitas,
sorte, a inquirição não demorou muito muitas letras, muitas, muitas folhas finas,
daquela vez, e eu consegui levar o livro a de modo que eu pudesse ler por mais
salvo para o meu quarto - não quero reter tempo. Em seguida, desejava que fosse
uma obra que me motivasse o espírito, absurdo? Quando garoto, no ginásio, uma
nada superficial, nada leve, mas algo que vez ou outra eu havia me sentado diante
se pudesse aprender, e aprender de cor, de um tabuleiro de xadrez, como a maioria
poemas, e na melhor das hipóteses - que dos garotos, só por estar entediado. Mas
sonho audacioso! - Goethe ou Homero. para que me serviria aquele trabalho
Mas, enfim, não consegui mais conter teórico? Xadrez não é algo que se possa
minha avidez, minha curiosidade. Estirado jogar sem um parceiro, muito menos sem
sobre a cama, de maneira que o vigia, caso peças, sem tabuleiro. Contrariado, folheei
viesse a abrir de repente a porta, não as páginas, para procurar, quem sabe, algo
pudesse me surpreender, tirei com a mão a ser lido, uma introdução, uma indicação
tremendo o volume da calça. qualquer; mas não achei nada além de
"O primeiro olhar foi uma decepção e simples diagramas quadrados das partidas
até mesmo uma espécie de raiva de mestres e, embaixo, signos que a
indignada: aquele livro capturado com um princípio eram incompreensíveis para mim,
risco tão grande, reservado com uma a2-a3, Tfl-g3, e assim por diante. Tudo isso
expectativa tão ardente, não passava de me parecia uma espécie de álgebra para a
um repertório de xadrez, uma coletânea de qual eu não encontrava nenhuma chave.
150 partidas de mestres. Se eu não esti- Só gradativamente decifrei que as letras a,
vesse encarcerado, fechado, teria jogado o b, c referiam-se às fileiras horizontais, que
livro por alguma janela aberta, naquele os números de 1 a 8 diziam respeito às
momento inicial de cólera, pois o que eu linhas verticais, e que as letras maiúsculas
deveria, o que poderia fazer com aquele designavam, quando necessário, as peças;
com isso, os diagramas puramente gráficos ridículas peças de miolo de pão, das quais
se tornavam uma linguagem. Talvez, eu havia escurecido com poeira a metade,
ponderei, eu pudesse construir em minha para diferenciar as cores. Nos primeiros
cela uma espécie de tabuleiro de xadrez e dias eu me confundia incessantemente;
então tentar reproduzir essas partidas; cinco vezes, dez vezes, vinte vezes eu tinha
como uma revelação dos céus, dei-me que recomeçar uma única partida. Mas
conta de que meu lençol por acaso era quem na face da Terra dispunha de tanto
quadriculado. Dobrado de maneira correta, tempo inutilizado e inútil quanto eu, o
era possível arrumá-lo para formar 64 escravo do nada; a quem na face da Terra
casas. Em seguida, escondi o livro sob o se oferecia tamanha avidez e paciência e
colchão e arranquei apenas a primeira ócio? Depois de seis dias, eu já jogava a
página. Depois, com pequenos pedaços de partida sem falhas até o final; depois de
miolo que eu guardava do pão, comecei a mais oito dias, já não precisava mais dos
modelar, é evidente que de uma maneira pedaços de miolo sobre o lençol para
ridiculamente imperfeita, as peças de compreender a posição tirada do livro de
xadrez, rei, dama e assim por diante; após xadrez, e depois de mais oito dias também
esforços intermináveis, afinal pude fazer o lençol quadriculado se tornara
uma tentativa de reproduzir sobre o lençol dispensável; de maneira automática, os
quadriculado a posição mostrada no livro signos inicialmente abstratos do livro, al,
de xadrez. No entanto, quando tentei a2, c7, c8, convertiam-se, na minha
refazer a partida inteira, a princípio isso foi cabeça, em posições visuais definidas. A
um fracasso completo, com as minhas conversão fora bem sucedida, e isso de
modo irreversível: eu havia projetado para afazeres de cada dia: duas partidas de
dentro o tabuleiro de xadrez com suas manhã, duas partidas à tarde e, ainda,
peças e também, com base na mera uma breve recapitulação à noite. Com isso,
fórmula, via cada uma das posições, assim estava preenchido o meu dia, que de outra
como um músico experimentado precisa maneira decorreria sem forma, como um
apenas ler a partitura para ouvir todas as molusco; com isso, eu estava ocupado,
vozes e seu conjunto. Depois de mais sem me cansar, pois o jogo de xadrez
quatorze dias, sem esforço eu tinha a possui a fantástica vantagem de, por meio
capacidade de reproduzir de cor - ou, com da concentração das energias intelectuais
o termo técnico, às cegas - qualquer no campo muito restrito, mesmo com
partida do livro; só então comecei a grande esforço de pensamento, não fatigar
entender o incalculável beneficio que meu o cérebro, mas, ao contrário, aguçar sua
furto audacioso me proporcionara. Pois, a agilidade e seu vigor. Aos poucos, comecei
um só tempo, eu tinha uma atividade - a despertar em mim, pela reprodução a
sem sentido, sem propósito, se o senhor princípio meramente mecânica das
quiser pensar assim, contudo uma partidas dos mestres, uma compreensão
atividade que acabava com o nada em artística, prazerosa. Aprendi a entender as
torno de mim -, e com as 150 partidas eu sutilezas, as insídias e astúcias dos
possuía uma arma contra a monotonia ataques e das defesas, compreendi a
opressora do espaço e do tempo. A fim de técnica de prever, combinar, responder, e
preservar integralmente o encanto da nova logo passei a reconhecer a nota pessoal de
ocupação, eu dividia com exatidão os cada mestre de xadrez, tão inconfundível
em sua maneira de conduzir a partida não me entregava sem recursos ao in-
quanto, nas poucas linhas de um poema, a terrogatório, e cheguei até mesmo a supor
voz de seu autor. Aquilo que tinha que os membros da Gestapo começaram a
começado como mera ocupação do tempo me encarar com um certo respeito. Talvez
se tornou um prazer, e os vultos dos gran- eles se perguntassem, no íntimo, ao verem
des estrategistas do xadrez, como todos os outros perderem o controle, de
Alekhine, Lasker, Bogoljubov, Tartakower, que fontes secretas apenas eu tirava a
apareciam como companheiros queridos força daquela resistência inabalável.
em minha solidão. Uma alternância sem "Esse período afortunado, no qual eu
fim animava dia após dia o silêncio da cela, reproduzia as jogadas daquelas 150
e justamente essa regularidade dos meus partidas do livro, dia após dia, siste-
exercícios devolvia à minha capacidade de maticamente, durou mais ou menos dois
pensar a segurança já abalada: senti meu meses e meio ou três meses. Então, de
cérebro renovado e, com a constante modo inesperado, cheguei a um ponto
disciplina de pensamento, até mesmo morto. De repente, voltei a me encontrar
afiado novamente. O fato de eu conseguir diante do nada. Pois, logo após eu ter
pensar de maneira clara e concisa se jogado cada uma das partidas vinte ou
revelou sobretudo no decorrer dos trinta vezes, ela perdia o encanto da
interrogatórios; de modo inconsciente, eu novidade; a surpresa, sua força antes tão
me havia aperfeiçoado, diante do tabuleiro estimulante, tão emocionante, estava
de xadrez, na defesa contra ameaças falsas esgotada. Qual o sentido de repetir mais e
e lances encobertos; a partir de então, já mais partidas que eu já sabia de cor havia
muito tempo, lance a lance? Bastava fazer constitui um absurdo querer jogar contra
a abertura, e a seqüência do jogo me si mesmo. No fundo, o atrativo do xadrez
ocorria como que de maneira automática, se baseia unicamente no fato de que sua
não havia mais qualquer surpresa, estratégia se desenvolve de modo diferente
qualquer tensão, qualquer problema. Para em dois cérebros distintos; no fato de que,
me ocupar, para criar o esforço e a distra- nessa guerra intelectual, as pretas não
ção que se tinham tornado indispensáveis conhecem as manobras das brancas e
para mim, eu precisaria na verdade de procuram sempre adivinhá-las e se opor a
outro livro, com outras partidas. Uma vez elas, enquanto as brancas, por sua vez, se
que isso era totalmente impossível de esforçam por se antecipar e impedir as
obter, só havia uma saída desse caminho intenções secretas das brancas. Se
errado: eu tinha de inventar novas brancas e pretas forem movidas pela
partidas em lugar de repetir as velhas. mesma pessoa, o resultado é um contra-
Tinha de tentar jogar comigo mesmo, ou senso, uma circunstância em que um só
melhor, contra mim mesmo. cérebro ao mesmo tempo deveria e não
"Não sei até que ponto o senhor já deveria saber algo. Ao agir como parceiro
refletiu sobre a situação intelectual que diz jogando com as brancas, ele deveria poder
respeito a esse jogo, o jogo dos jogos. Mas esquecer por completo, a seu comando, o
até a consideração mais superficial deve que queria e intentava fazer um minuto
bastar para deixar claro que, no xadrez, antes, como parceiro jogando com as
por se tratar de um jogo de puro pretas. Essa duplicidade do pensamento,
pensamento, livre do acaso, é lógico que na verdade, provoca uma divisão total da
consciência, um poder de ligar e desligar à perturbadora. De novo, surgiu o tique que
vontade uma função cerebral como se ele não sabia controlar no canto esquerdo
fosse um aparelho mecânico. Ter a preten- da boca. Em seguida, ele se ergueu um
são de jogar contra si mesmo significa, pouco em sua espreguiçadeira.
portanto, no xadrez, um paradoxo como o - Então, até esse ponto espero ter
de querer saltar sobre sua própria sombra. esclarecido tudo de maneira bastante
"Agora, para resumir, foi essa compreensível para o senhor. Mas
impossibilidade, foi esse absurdo o que infelizmente não tenho certeza alguma de
tentei realizar durante meses, em meu que poderei fazê-lo perceber de maneira
desespero. Mas eu não tinha qualquer tão clara o que houve depois. Pois essa
escolha a não ser tal contra-senso, para nova ocupação exigia um esforço tão
não cair simplesmente na loucura ou num grande do cérebro, que qualquer
completo marasmo intelectual. Em função autocontrole se tornava impossível. Já lhe
da minha terrível situação, era obrigado a expliquei que, na minha opinião, não faz
pelo menos tentar essa divisão num eu- sentido querer jogar xadrez contra si
pretas e num eu-brancas, a fim de não ser mesmo; mas até esse absurdo ainda teria
sufocado pelo horripilante nada em torno uma chance mínima de funcionar caso
de mim. houvesse um tabuleiro real de xadrez à
O Dr. B. voltou a se reclinar na disposição, porque a realidade do tabuleiro
espreguiçadeira e fechou os olhos por um permite um certo distanciamento, uma
minuto. Era como se ele quisesse reprimir exteriorização material. Diante de um
violentamente uma lembrança tabuleiro de xadrez real, com peças reais,
uma pessoa pode intercalar pausas entre o senhor imagine essa loucura, mas nesse
as jogadas para refletir, pode se colocar ao jogo ocorrido no espaço abstrato da
menos fisicamente ora de um lado ora de fantasia eu tinha de prever, jogando com
outro lado da mesa, a fim de examinar a as brancas, quatro ou cinco lances, e fazer
situação do ponto de vista das pretas ou a mesma coisa jogando com as pretas;
do ponto de vista das brancas. Todavia, portanto, tinha de antecipar a combinação
tendo a necessidade, como eu tinha, de de todas as situações resultantes do
projetar num espaço imaginário essa desenvolvimento da partida, de certa ma-
batalha contra mim mesmo ou, se o neira como se tivesse dois cérebros, um
senhor preferir, comigo mesmo, eu era para as brancas, outro para as pretas.
obrigado a guardar com clareza cada Contudo, o elemento mais perigoso de
posição das peças nas 64 casas; além minha experiência absurda não era essa
disso, não só precisava lembrar a divisão em dois, era o fato de eu, ao
configuração momentânea, como também imaginar por mim mesmo partidas novas,
calcular os possíveis lances seguintes dos perder de repente o solo sob meus pés e
dois parceiros. E na verdade - sei o quanto ser lançado no vazio. A mera repetição das
tudo isso soa absurdo - precisava me partidas dos mestres, como eu a exercitara
duplicar, triplicar; não: me multiplicar por nas semanas anteriores, não passava,
seis, oito, doze, considerando as jogadas enfim, de um esforço de reprodução, uma
para cada eu, para as pretas e para as mera recapitulação de uma matéria dada
brancas, com quatro ou cinco lances de e, como tal, não era um esforço mais
antecipação. Perdoe-me por pretender que cansativo do que se eu tivesse aprendido
poemas de cor ou memorizado artigos de aproveitavam as peripécias e as belezas
leis; era uma atividade limitada, daquelas partidas apenas sob a ótica de
disciplinada, e por isso mesmo um um espectador, como um conhecedor.
exercício mental extraordinário. As duas Contudo, a partir do instante em que
partidas que eu examinava de manhã, as tentei jogar contra mim mesmo, comecei a
duas que eu examinava à tarde me desafia~ de maneira inconsciente. Cada
representavam uma determinada um dos meus dois eus, meu eu-pretas e
dedicação mental pela qual eu passava meu eu-brancas, tinha de competir com o
sem grande ansiedade; elas substituíam, outro, e cada um, por sua vez, incorria na
para mim, uma ocupação normal e, além cobiça, na impaciência da vitória; como eu-
disso, eu tinha sempre um apoio do livro, pretas, eu tinha uma expectativa febril,
caso me enganasse no decorrer de uma depois de cada lance, para saber o que o
partida e não mais soubesse seguir eu-brancas faria. Cada um dos dois eus
adiante. Essa atividade só foi tão saudável triunfava quando o outro cometia um erro,
e tranqüilizadora para os meus nervos e ao mesmo tempo o outro se exasperava
abalados porque uma repetição de partidas por sua incapacidade.
alheias não me trazia para o jogo; se "Tudo isso parece sem sentido, e de
ganhavam as pretas ou as brancas, era fato tal esquizofrenia artificial, tal cisão da
algo indiferente para mim - afinal era consciência, com sua complexidade de
Alekhine ou Bogoliubov quem lutava pelo agitação perigosa, seria impensável no
título de campeão -, e minha própria caso de uma pessoa normal, numa
pessoa, meu entendimento, minha alma situação normal. Mas não se esqueça de
que havia sido arrancado de maneira vio- pretas já avançava febrilmente; mal uma
lenta de toda normalidade, que era um partida havia terminado, eu já me
prisioneiro, inocentemente encarcerado, desafiava para a seguinte, pois a cada vez
fazia meses sofrendo uma tortura refinada um dos dois eus-enxadristas fora vencido e
com a solidão, uma pessoa que desde exigia revanche. Nunca serei capaz de di-
muito tempo desejava descarregar sua zer, mesmo aproximadamente, quantas
raiva acumulada contra alguma coisa. E partidas joguei contra mim mesmo, em
como eu não tinha nada além desse jogo conseqüência dessa insatisfação
sem sentido contra mim mesmo, minha alucinada, durante os últimos meses em
raiva e meu desejo fanático de vingança se minha cela - talvez mil, talvez mais. Era
concentravam nele. Algo em mim queria uma possessão da qual eu não conseguia
manter a razão, no entanto eu só tinha em me livrar; desde cedo até a noite eu não
mim esse outro eu contra o qual podia pensava em nada além de bispos e peões e
lutar; assim, durante o jogo, eu me deixava torre e rei e "a" e "b" e "c" e mate e roque;
levar por uma agitação quase maníaca. No com todo o meu ser e com todo o meu
começo, eu ainda tinha pensado de sentimento, eu me precipitava no
maneira tranqüila e ponderada, tinha feito quadrado quadriculado. A alegria de jogar
pausas entre uma partida e outra, a fim de se convertera num anseio de jogar, o
me recuperar do esforço; mas pouco a anseio se convertera num impulso, numa
pouco os meus nervos excitados não me mania, numa raiva frenética, que não
permitiam mais espera alguma. Mal o meu preenchia apenas minhas horas acordado,
eu-brancas havia feito um lance, meu eu- como também, pouco a pouco, o meu sono.
Só conseguia pensar em xadrez, só em sem nexo, começando uma nova partida e
movimentos de xadrez, em problemas de mais uma e mais uma. Cada interrupção
xadrez; às vezes acordava com a testa tornara-se para mim uma perturbação; até
molhada e percebia que, mesmo durante o mesmo os quinze minutos em que o vigia
sono, devia ter continuado arrumava a cela, os dois minutos em que
inconscientemente a jogar, e quando ele me trazia a comida atormentavam a
sonhava com pessoas, isso seguia minha impaciência febril. Algumas vezes, a
exclusivamente os movimentos do bispo, tigela com a comida ainda estava intocada
da torre, no salto para frente ou para trás à noite, eu havia esquecido de comer de
do cavalo. Mesmo quando eu era chamado tanto jogar. A única coisa que eu sentia, do
para o interrogatório não conseguia mais ponto de vista corporal, era uma sede
pensar com concentração na minha terrível; deve ter sido a febre dessa
responsabilidade; tenho a impressão de atividade constante de pensar e jogar; eu
que, nas últimas sessões de perguntas, bebia a garrafa toda em dois goles e
devo ter me expressado de maneira atormentava o vigia pedindo mais e, no
bastante confusa, pois os interrogadores entanto, sentia a língua seca na boca num
me encaravam com estranheza. Na instante. Por fim, minha excitação durante
verdade, enquanto eles faziam perguntas e o jogo aumentou a tal ponto - e eu não
considerações, eu esperava apenas, na fazia nada além disso, da manhã até a
minha desgraçada avidez, o momento de noite - que eu não conseguia mais perma-
ser levado de volta para a minha cela, a necer um momento sentado;
fim de continuar meu jogo, aquele jogo ininterruptamente, andava de um lado
para o outro, enquanto pensava nas envenenamento pelo xadrez. Por fim, essa
partidas, cada vez mais rápido e mais possessão monomaníaca começou a atacar
rápido e mais rápido, para cá e para lá, não só o meu cérebro, como também o
para cá e para lá, e de um modo cada vez meu corpo. Emagreci, meu sono era
mais impetuoso, quanto mais a partida se inquieto e perturbado, ao acordar
aproximava de uma decisão. A avidez de precisava sempre fazer um esforço especial
ganhar, de conseguir a vitória, de derrotar para forçar as pálpebras de chumbo a
a mim mesmo tornou-se gradativamente abrirem-se. Às vezes, sentia-me tão fraco
uma espécie de fúria: eu tremia de que, ao segurar um copo, só com muito
impaciência, pois um dos meus eus- esforço conseguia levá-lo até os lábios, de
enxadristas sempre era lento demais para tanto que minhas mãos tremiam. Contudo,
o outro. Um impelia o outro; por mais mal começava o jogo, uma força selvagem
ridículo que isso possa lhe parecer, se apoderava de mim: andava para lá e
comecei a me repreender -'depressa, para cá com os punhos cerrados, e, como
depressa!" ou `vamos, vamos!'-, quando através de uma nebulosidade vermelha,
um dos eus em mim não respondia com ouvia de tanto em tanto tempo minha
rapidez suficiente ao outro. Obviamente, própria voz, quando ela exclamava para si
hoje em dia tenho clareza de que esse meu mesma, rouca e exasperada: `xeque' ou
estado já era uma forma patológica de `mate'. "Como esse estado terrível,
sobreexcitação intelectual, para o qual não indescritível chegou a uma crise é algo que
encontro qualquer nome a não ser este até nem eu mesmo sou capaz de contar. Tudo
então desconhecido da medicina: o que sei a respeito é que certa manhã
acordei, e o momento de despertar foi olhos de modo algum, senão verá de novo
diferente. Meu corpo estava como que a maldita cela em torno, a cadeira e a
desligado de mim mesmo, eu descansava bacia e a mesa e o papel de parede com o
de maneira suave e agradável. Um cansaço padrão eternamente igual. Você está
satisfeito e bom, como eu não havia sonhando... continue a sonhar!'
experimentado por meses, espalhavase "Mas a curiosidade assumiu o
pelos membros do meu corpo, de maneira controle. Abri os olhos devagar, com todo
tão calorosa e benéfica, que a princípio eu cuidado. E, milagre: era um outro quarto
não conseguia nem me decidir a abrir os no qual eu me encontrava, um quarto mais
olhos. Permaneci vários minutos acordado, amplo e mais espaçoso do que a minha
aproveitando aquele torpor pesado, aquela cela no hotel. Uma janela sem grades
imobilidade tépida, com os sentidos deixava a luz entrar livremente e dava para
deliciosamente anestesiados. De repente, árvores, para o verde daquelas árvores que
tive a vaga impressão de estar ouvindo balançavam ao vento, em lugar do muro
vozes atrás de mim, vozes vivas de áspero. As paredes lisas brilhavam, muito
pessoas, que diziam palavras, e o senhor brancas, e o teto sobre mim era branco e
não pode imaginar o meu arrebatamento, alto - realmente eu me encontrava numa
pois havia meses que eu não escutava nova cama, diferente, e pude constatar que
nenhuma palavra além daquelas duras, não se tratava de um sonho, que ali atrás
afiadas e maldosas dos interrogadores. vozes humanas murmuravam levemente.
`Você está sonhando, disse para mim mes- Sem querer, devo ter me agitado de
mo. `Você está sonhando! Não abra os maneira brusca, em minha surpresa, pois
logo ouvi atrás de mim um passo que se dirigir a outro de maneira bondosa. Ela
aproximava. Uma mulher chegou perto sorriu para mim - sim, ela sorriu, ainda
suavemente, uma mulher de touca branca havia seres humanos capazes de sorrir
sobre o cabelo, uma enfermeira, uma irmã. bondosamente -, depois pôs o dedo nos
Um jato de encantamento caiu sobre mim: lábios, num sinal tranqüilizador, e seguiu
havia um ano que eu não via mulher seu caminho com delicadeza. Mas não fui
alguma. Olhei fixamente para a aparição capaz de obedecer à ordem. Ainda não me
graciosa, e aquele deve ter sido um olhar saciara de contemplar o milagre. Com for-
selvagem, desvairado, pois a figura que se ça, tentei me endireitar na cama para
aproximava insistia em me tranqüilizar, continuar a olhá-la, para continuar a olhar
dizendo: `Calma! Fique calmo!' Mas eu só aquele milagre de um ser humano capaz
dava atenção à sua voz - não era um ser de ser bondoso. Entretanto, quando tentei
humano que falava? Realmente havia me apoiar na beira da cama, isso não foi
ainda, sobre a Terra, um ser humano que possível. Onde deveria estar minha mão
não me interrogava, que não me direita, dedos e palma, senti algo estranho,
atormentava? Além disso - milagre um tufo branco, grande e grosso,
impensável -, era uma voz de mulher, evidentemente um curativo volumoso. A
suave, calorosa, quase frágil. Ávido, eu princípio, encarei sem compreender aquela
olhava fixamente para sua boca, pois coisa branca, grande, estranha em minha
durante todo aquele ano no inferno tinha mão, em seguida comecei pouco a pouco a
se tornado improvável, do meu ponto de entender onde estava, a pensar no que
vista, que um ser humano pudesse se poderia ter acontecido comigo. Alguém
devia ter me ferido, ou então eu mesmo me "- Nada sério. Uma irritação aguda
ferira na mão. Encontrava-me num dos nervos. - E acrescentou em voz baixa,
hospital. depois de ter olhado em torno
"Ao meio-dia chegou o médico, um cuidadosamente: - Afinal, algo bastante
senhor de ar amigável, já mais velho. Ele compreensível. Desde o dia 13 de março,
conhecia o nome da minha família e não é?
mencionou com tanto respeito meu tio, o "Assenti com um gesto.
médico pessoal do imperador, que tive de "- Não é de se espantar, com esse
imediato a impressão de que ele pretendia método - cochichou. - O senhor não é o
me tratar bem. No decorrer da consulta, primeiro. Mas não se preocupe. "Pela
dirigiu-me várias perguntas, uma das maneira como ele se dirigia a mim para me
quais me espantou especialmente: se eu tranqüilizar, e graças a seu olhar bondoso,
era matemático ou químico. Respondi que soube que estaria protegido perto dele.
não. "Dois dias depois, o bondoso doutor
"- Estranho - sussurrou. - Quando me explicou, de maneira bastante sincera,
estava com febre, o senhor sempre gritava o que havia acontecido. O vigia me ouvira
fórmulas tão estranhas, c3, c4. Nenhum de gritar alto em minha cela e, a princípio,
nós as reconheceu. tivera a impressão de que uma pessoa
"Informei-me a respeito do que havia havia invadido o quarto, alguém com quem
acontecido comigo. Ele deu um sorriso eu estivesse brigando. Contudo, assim que
inusitado. abrira porta, eu havia me atirado sobre ele,
dirigindo-lhe gritos descontrolados, que
soavam aproximadamente como: `Mova de "O que esse médico prestativo relatou
uma vez, miserável, covarde!'. aos meus algozes é algo que desconheço.
Ainda segundo ele, eu tentara segurá- Em todo caso, ele conseguiu o que queria:
lo pela garganta e, por fim, o tinha atacado minha libertação. Pode ser que tenha me
de maneira tão selvagem que se fizera declarado incapaz de dar informações
necessário chamar ajuda. Quando, em confiáveis, ou talvez eu já houvesse
meu estado de insanidade, arrastavam-me perdido a importância para a Gestapo, pois
para um exame médico, eu teria me naquele intervalo Hitler havia ocupado a
soltado, corrido em direção à janela do Boêmia, e com isso o caso da Áustria
corredor e quebrado o vidro, cortando estava encerrado para ele. Assim, precisei
assim a mão - o senhor ainda pode ver a apenas assinar o termo de respon-
cicatriz profunda aqui. Durante as pri- sabilidade de deixar nossa pátria dentro de
meiras noites no hospital, eu havia sofrido quatorze dias, e esses quatorze dias foram
uma espécie de febre cerebral, mas de tal maneira preenchidos por todas as
naquele momento o doutor achava que a mil formalidades de que, hoje em dia, o
lucidez voltara a meus pensamentos. antigo cidadão do mundo necessita para
"- É evidente - acrescentou em voz viajar - documentos militares, da polícia,
baixa - que não comunicarei esse fato aos do fisco, passaporte, visto, atestado médico
responsáveis, senão levam o senhor de - que eu não tive tempo algum para refletir
volta para lá. Confie em mim, farei o muito sobre o que se passara. Ao que
máximo que puder. parece, funcionam em nosso cérebro forças
reguladoras misteriosas, que excluem
automaticamente aquilo que poderia ser Precisei de alguns minutos para me
penoso e perigoso para a alma, pois lembrar que a atividade daqueles
sempre que eu queria voltar a pensar em jogadores, no fundo, consistia no mesmo
meu período preso era como se a luz se jogo que eu, no meu desamparo, tentei
apagasse em meu cérebro; só depois de durante meses jogar contra mim mesmo.
várias semanas, na verdade apenas aqui Os sinais dos quais eu me valera durante
no navio, reencontrei o ânimo para refletir meus exercícios enfurecidos não passavam
sobre o que havia acontecido comigo. de substitutos e símbolos para aquelas
"E agora o senhor deve entender por peças esculpidas; minha surpresa pelo fato
que me comportei de maneira pouco de que o movimento das peças no tabuleiro
apropriada e aparentemente era o mesmo movimento da minha
incompreensível diante de seus amigos. fantasia, imaginada no espaço do
Estava apenas passeando, por mero acaso, pensamento, talvez seja semelhante à de
no salão, quando vi os senhores sentados um astrônomo que, com os mais
diante do tabuleiro de xadrez; involunta- complicados métodos desenvolvidos no
riamente, tomado de susto e terror, senti papel, descobrisse a existência de um novo
meus pés presos ao chão. Pois tinha planeta e depois o enxergasse realmente no
esquecido por completo que se podia jogar céu como um astro branco, claro, concreto.
xadrez num tabuleiro de verdade, com Como que preso por uma força magnética,
peças de verdade; tinha esquecido que, permaneci olhando fixamente para o
nesse jogo, dois homens inteiramente tabuleiro e vi ali meus esquemas, com
diferentes sentam-se um diante do outro. cavalo, torre, rei, rainha e peões, como
objetos reais, feitos de madeira; para para mim, depois de tudo o que ele me
avaliar a posição da partida, tive primeiro confidenciou, seria duplamente
que transportá-la do meu mundo abstrato interessante ter a possibilidade de vê-lo no
de sinais para as peças em movimento. torneio improvisado do dia seguinte. Dr. B.
Pouco a pouco, apoderou-se de mim a fez um gesto de inquietação.
curiosidade de observar um jogo real entre - Não, realmente não espere muito.
dois adversários. E então ocorreu o fato Isso não deve passar de um teste para
lamentável de eu, esquecendo toda polidez, mim... um teste para verificar se... se sou
ter interferido na partida dos senhores. capaz de jogar uma partida de xadrez
Mas aquele lance errado de seu amigo normal, uma partida no tabuleiro real, com
atingiu meu coração como uma peças concretas e um adversário vivo...
punhalada. Foi um ato realmente pois agora é duvidoso para mim, cada vez
instintivo que me levou a interrompê-lo, mais, se aquelas centenas e talvez
um impulso, como o de alguém que, sem milhares de partidas que joguei de fato
parar para pensar, segura uma criança foram partidas de xadrez segundo as
inclinada num parapeito. Só depois ficou regras, e não apenas uma espécie de
clara para mim a inconveniência grosseira xadrez de sonho, um xadrez febril, um jogo
de que fui culpado, com minha doentio no qual, como sempre acontece em
precipitação." sonhos, etapas intermediárias são
Apressei-me em garantir ao Dr. B. que puladas. Espero que o senhor não
nos alegráramos muito por dever a esse suponha a sério que eu tenha a presunção
acaso o fato de o termos conhecido e que, de fazer frente a um mestre de xadrez,
muito menos ao primeiro do mundo. O que traço derradeiro para fechar uma conta
me interessa e intriga é unicamente a antiga, um desfecho e não um novo
curiosidade de averiguar se aquilo na cela começo... Não gostaria de ser acometido
ainda era xadrez ou já era loucura; se uma segunda vez por aquela febre de jogo
naquele período eu ainda me encontrava exaltada, na qual só consigo pensar com
na beira do perigoso abismo, ou se já me horror... e além do mais... além do mais o
precipitara nele... só isso, nada além disso. médico me advertiu... advertiu
Do tombadilho ressoou naquele expressamente. Qualquer um que tenha
instante o gongo que chamava para o sido acometido por uma mania permanece
jantar. Devíamos ter conversado - Dr. B. para sempre afetado, e com um
me contara tudo de maneira bem mais envenenamento pelo xadrez, mesmo
detalhada do que fiz aqui - por quase duas curado, o melhor é não se aproximar de
horas. Agradeci a ele cordialmente e me nenhum tabuleiro... Portanto, o senhor
despedi. Mas ainda não havia atravessado entende... apenas essa partida de teste
todo o convés quando ele me alcançou e, para mim mesmo e nada mais.
nervoso, até mesmo gaguejando um pouco, No dia seguinte, pontualmente na
acrescentou: hora combinada, às três, estávamos
- Mais uma coisa ainda! Por favor reunidos no salão de fumar. Nosso grupo
comunique com antecedência aos demais tinha aumentado com a vinda de mais dois
senhores, para que eu não pareça amantes da arte régia, dois oficiais do
descortês depois: jogarei apenas uma navio que haviam solicitado dispensa do
partida... ela não deve ser nada além do serviço a bordo para poder assistir ao
torneio. Também Czentovic não se fez permanecia o tempo todo imóvel, como um
esperar, como fizera no dia anterior, e após bloco de pedra, com os olhos sérios e fixos
o sorteio obrigatório das cores começou a afundados no tabuleiro de xadrez, de modo
memorável partida daquele homo que a reflexão parecia, no seu caso, um
obscurissimus contra o famoso campeão esforço físico que demandava de todos os
mundial. É uma pena que ela tenha sido seus órgãos a mais extrema concentração.
jogada apenas para nós, espectadores Dr. B., em contrapartida, movia-se de
incompetentes, de modo que seu maneira totalmente solta e
desenvolvimento se perdeu para os anais desembaraçada. Como o verdadeiro
do xadrez, assim como os improvisos de diletante, no mais belo sentido da palavra,
Beethoven no piano se perderam para a para o qual a única alegria, no jogo, é o
música. Na verdade, tentamos na tarde próprio jogo, o diletto, manteve seu corpo
seguinte reconstruir juntos a partida, de inteiramente relaxado, conversou conosco
memória, mas foi em vão; provavelmente, para dar explicações durante as primeiras
durante a partida, todos nós tínhamos pausas, acendeu um cigarro de maneira
prestado atenção de maneira muito descontraída, enquanto dirigia o olhar para
intensa nos dois jogadores, e não no o tabuleiro apenas quando chegava a sua
desenvolvimento do jogo. Pois a oposição vez, por um minuto. A cada vez, a
intelectual na atitude dos dois adversários impressão era de que ele já esperava de
se tornou, no decorrer da partida, cada vez antemão o lance do adversário.
mais marcada, corporalmente, em suas Os lances de abertura obrigatórios
posturas. Czentovic, o profissional, decorreram bastante depressa. Apenas lá
pelo sétimo ou oitavo pareceu se jogadores de alto nível encontrava-se
desenvolver algo que dava a impressão de sempre articulado a uma combinação de
um plano definido. Czentovic passou a lances - de compreender a intenção es-
prolongar suas pausas para pensar; com tratégica desse ir e vir das peças. A isso se
isso percebemos que a verdadeira batalha juntou, pouco a pouco, um cansaço
pela supremacia começava a se paralisante, causado sobretudo pelas
estabelecer. Mas, para não faltar à intermináveis pausas de Czentovic para
verdade, o desenvolvimento gradativo da pensar, pausas que começaram
situação significava para nós, leigos, assim visivelmente a irritar também nosso amigo.
como em qualquer partida de torneio, um Observei, inquieto, que este, quanto mais
certo desapontamento. Pois, quanto mais se estendia a partida, passara a se mover
as peças se entrelaçavam numa disposição na poltrona, cada vez mais agitado, e às
estranhamente ornamental, mais se vezes acendia um cigarro no outro, por
tornava impenetrável para a nossa nervosismo, às vezes estendia a mão para
compreensão a verdadeira situação do o lápis, a fim de anotar alguma coisa.
jogo. Não conseguíamos perceber o que Depois ele pediu uma água mineral, que
pretendia um adversário ou o outro, nem passou a beber apressadamente, copo após
qual dos dois se encontrava em vantagem. copo; era evidente que fazia combinações
Reparávamos apenas que algumas peças cem vezes mais do depressa do que
avançavam como alavancas, para romper o Czentovic. A cada vez, quando este se
front inimigo, contudo não éramos capazes decidia, depois de uma reflexão
- uma vez que cada movimento desses interminável, a avançar uma peça com sua
mão vagarosa, nosso amigo sorria como momentânea para a mesa quando havia
alguém que vê ocorrer algo esperado há alguma modificação. Foi então que, de
muito tempo e respondia de imediato. Com repente, quando Czentovic fazia um lance,
o trabalho rápido de sua inteligência, ele ocorreu o inesperado. Assim que o Dr. B.
devia ter antecipado na cabeça todas as percebeu que Czentovic tocava o cavalo
possibilidades do adversário; por isso, para avançá-lo, encolheu-se como um gato
quanto mais as decisões de Czentovic antes de dar o bote. Todo o seu corpo co-
tardavam, mais crescia a sua impaciência, meçou a tremer, e mal Czentovic fizera o
e durante a espera seus lábios se lance com o cavalo, ele avançou a dama
apertavam, manifestando irritação, quase mais que depressa, dizendo em voz alta
hostilidade. Mas Czentovic não se deixava com ar triunfante: "Pronto! Acabado!", em
pressionar de maneira alguma. Ele parava seguida reclinou-se, cruzou os braços e
para pensar, obstinado, calado, fazendo encarou Czentovic com um olhar
pausas cada vez mais longas, quanto desafiador. Uma luz quente brilhou de
menor era o número de peças em jogo. No repente em suas pupilas.
quadragésimo segundo lance, depois de Involuntariamente, todos nós nos
duas horas e 45 minutos, todos nós inclinamos sobre o tabuleiro, para
estávamos esgotados, sentados em torno entender o lance anunciado de maneira tão
da mesa quase sem prestar atenção. Um triunfante. À primeira vista, não era
dos oficiais do navio já se havia afastado, perceptível nenhuma ameaça direta. A
um outro observador pegara um livro para declaração do nosso amigo devia se referir
ler e dava apenas uma olhada então a um desenvolvimento que nós,
diletantes de pensamento curto, ainda não admirados, entretanto ninguém estava
conseguíamos calcular. Czentovic era o mais inquieto do que eu, pois me parecia
único entre nós que, ao ouvir aquela que seus passos, apesar de toda a
declaração desafiadora, não se movera; ele impetuosidade daquele andar, percorriam
permanecia sentado, tão inabalável como sempre a mesma extensão do espaço
se simplesmente não tivesse ouvido o disponível; era como se ele, a cada vez, no
ofensivo "Acabado!" : Nada acontecia. meio do salão vazio, esbarrasse numa
Como todos nós involuntariamente barreira invisível que o obrigava a fazer a
prendíamos a respiração, ouviam-se as volta. Estremecendo, percebi que esse ir e
batidas do relógio que havia sido colocado vir reproduzia inconscientemente a exten-
sobre a mesa para determinar o tempo dos são de sua antiga cela; era exatamente
lances. Passaram-se três minutos, sete assim que ele devia ter corrido para lá e
minutos, oito minutos - Czentovic não se para cá, durante os meses encarcerado,
movia, mas minha impressão era de que como um animal em sua jaula, exatamente
suas narinas grossas estavam dilatadas daquele jeito, com as mãos cerradas e os
pelo esforço interior. Para nosso amigo, ombros encolhidos; assim, e só assim, ele
essa espera em silêncio parecia tão devia ter percorrido aquele mesmo espaço,
insuportável quanto para nós. Ele se de um lado para o outro, milhares de
levantou de supetão e começou a andar de vezes, com as luzes avermelhadas da
um lado para o outro na sala, a princípio loucura no olhar fixo e febril. Mas a sua
lentamente, depois cada vez mais de- capacidade de raciocínio parecia ainda
pressa. Todos nós o observamos um tanto intacta, pois de tempos em tempos ele se
voltava para a mesa, impaciente, querendo derrotara em luta aberta o mais forte
saber se Czentovic já havia se decidido. jogador de xadrez do planeta!
Passaram-se, contudo, nove, dez minutos. Sem perceber, em nossa excitação,
Então, finalmente, aconteceu o que já havíamos levantado das cadeiras, um após
nenhum de nós esperava. Czentovic o outro. Cada um de nós tinha a sensação
ergueu devagar sua mão pesada, que até de ter que dizer ou fazer algo, para dar
aquele momento permanecera imóvel sobre vazão a nosso espanto cheio de alegria. O
a mesa. Tensos, todos nós observávamos, único que permaneceu tranqüilo, sem se
à espera de sua decisão. No entanto, mover, foi Czentovic. Só depois de uma
Czentovic não fez lance algum; em vez pausa calculada, ele ergueu a cabeça e
disso, empurrou lentamente com a parte encarou nosso amigo com um olhar de
de trás da mão, num gesto decidido, todas pedra.
as peças do tabuleiro. Só um instante - Mais uma partida? - perguntou.
depois entendemos: Czentovic havia - É evidente que sim - respondeu o
abandonado a partida. Ele desistira, para Dr. B. com um entusiasmo que me
não levar o xeque-mate diante de nós. O desagradou. Em seguida sentou-se
improvável havia acontecido, o campeão bruscamente, antes mesmo que eu
mundial, vencedor de inúmeros torneios, pudesse lembrar a ele a sua intenção
capitulara frente a um desconhecido, um previamente declarada de se dar por satis-
homem que não tocava em um tabuleiro de feito com uma partida só, e começou a
xadrez havia vinte ou vinte e cinco anos. organizar as peças com uma pressa
Nosso amigo, o anônimo, o ignorado, doentia. Ele as arrumava com tal ardor,
que por duas vezes um peão escapou de um olhar que se mantinha tranqüilo,
seus dedos trêmulos e caiu no chão; meu comedido, mas que possuía, em sua
mal-estar, já antes desagradável, cresceu fixação, algo como um punho fechado. De
em vista de sua excitação pouco natural, súbito, surgiu algo novo entre os dois joga-
convertendo-se numa espécie de temor. dores; uma tensão perigosa, um ódio
Pois uma exaltação visível acometera exaltado. Não eram mais dois parceiros
aquele homem, antes tão quieto e que desejavam testar suas capacidades no
tranqüilo; o tique se manifestava com jogo, eram dois inimigos que juravam
maior freqüência em sua boca, e seu corpo aniquilar um ao outro. Czentovic hesitou
tremia como se tivesse calafrios de febre. por bastante tempo, antes de fazer o
- Não! - disse a ele em voz baixa. - Não primeiro lance, e eu tive a sensação clara
agora! Já foi o bastante por hoje! É de que ele estava demorando
cansativo demais para o senhor. - intencionalmente. É evidente que aquele
Cansativo! Ha! - ele riu alto, com um ar tático muito escolado já descobrira que,
malicioso. - Eu poderia ter jogado justamente com sua lentidão, cansava e
dezessete partidas, em vez dessa irritava o adversário. Assim, deixou passar
lengalenga! Para mim só é cansativo o nada menos de quatro minutos, antes de
esforço de não dormir, com esse ritmo! fazer a mais normal, a mais simples das
Agora! Comece logo de uma vez! aberturas, avançando o peão do rei as
Essas últimas palavras foram usuais duas casas. De imediato, nosso
dirigidas num tom veemente, quase amigo respondeu com seu peão do rei, mas
grosseiro, a Czentovic, que o encarava com de novo Czentovic fez uma pausa
interminável, quase insuportável; era como interminavelmente, ele perdeu a
se um forte raio tivesse caído e, com o compostura e, de repente, esbravejou:
coração batendo forte, aguardássemos o - Jogue logo de uma vez! Czentovic
trovão, e o trovão não ressoasse. Czentovic tinha um olhar frio.
não se movia. Pensava quieto, devagar e, - Que eu saiba, combinamos dez
como eu sentia com uma certeza cada vez minutos para cada lance. Por princípio,
maior, com uma lentidão mal- não jogo com menos tempo.
intencionada; com isso, porém, dava-me Dr. B. mordeu o lábio; notei que, por
muito tempo para observar o Dr. B.. Ele baixo da mesa, a sola de seu sapato roçava
tinha acabado de beber o terceiro copo o chão de maneira inquieta, cada vez mais,
d'água; involuntariamente, ocorreu-me a e eu mesmo não pude deixar de ficar mais
lembrança de que ele havia mencionado nervoso, sob a pressão do pressentimento
sua sede doentia na cela. Todos os sin- de que algo de insensato se preparava nele.
tomas de uma agitação anormal se De fato, no oitavo lance ocorreu outro
mostravam com clareza; vi sua testa ficar incidente. Dr. B., que havia esperado de
úmida e percebi que a cicatriz em sua mão maneira cada vez menos contida, não
se tornara mais vermelha e mais conseguiu mais esconder sua tensão;
acentuada do que antes. Entretanto, ele mexia-se de um lado para o outro e
ainda mantinha o controle sobre si mesmo. começou, inconscientemente, a bater com
Só quando, no quarto lance, Czentovic os dedos na mesa. Mais uma vez,
voltou a parar para pensar Czentovic ergueu sua pesada cabeça de
camponês.
- Posso pedir ao senhor que não bata vez mais estranho de um intervalo a outro.
na mesa? Isso me atrapalha. Não posso A impressão era de que ele não estava
jogar assim. mais participando da partida, mas estava
- Ha! - Dr. B. soltou uma breve risada. ocupado com alguma outra coisa. Ele
- Percebe-se. O rosto de Czentovic ficou deixou de andar de maneira impetuosa de
vermelho. um lado para o outro e permaneceu
- O que o senhor quer dizer com isso? sentado em seu lugar, sem demonstrar
- perguntou, de maneira incisiva, com agitação. Com um olhar fixo e quase
irritação. desvairado para o vazio, murmurava sem
Dr. B. soltou mais uma vez uma parar palavras incompreensíveis; ou se
risada curta e maliciosa. perdia em intermináveis combinações, ou
- Nada. Só que o senhor então elaborava-era essa minha suspeita
evidentemente está muito nervoso. mais particular - outras partidas, pois a
Czentovic se calou e voltou a inclinar cada vez, quando Czentovic finalmente
a cabeça. Só depois de sete minutos ele fez havia mexido, era preciso tirá-lo desse
o lance seguinte, e foi nesse ritmo moroso estado de ausência. Então ele passou a
que a partida continuou. Czentovic como precisar sempre de alguns minutos para se
que se petrificava cada vez mais; por fim, inteirar de novo da situação; cada vez mais
passou a fazer uso sempre do máximo de se apoderou de mim a suspeita de que ele
tempo combinado para as pausas, antes de já havia esquecido Czentovic e todos nós,
se decidir por um lance, e o comporta- fazia muito tempo, tomado por uma forma
mento de nosso amigo foi se tornando cada fria de loucura que pode se descarregar
subitamente em algum tipo de violência. ainda incompreensível para nós, dirigiu-se
De fato, no décimo nono lance, desen- a nosso grupo num tom de falsa polidez:
cadeou-se a crise. Mal Czentovic acabara - Sinto muito, mas não vejo nenhum
de mexer sua peça, de repente o Dr. B., xeque. Será que algum dos senhores
sem olhar direito para o tabuleiro, avançou enxerga um xeque contra meu rei?
o seu bispo três casas e gritou tão alto que Olhamos para o tabuleiro e depois,
todos nós tomamos um grande susto. inquietos, para o Dr. B.. A casa do rei de
- Xeque! Xeque ao rei. Czentovic de fato - mesmo uma criança
Na expectativa de um lance especial, poderia perceber isso - estava protegida do
olhamos de imediato para o tabuleiro. Mas, bispo por um peão, portanto não era
após um minuto, ocorreu algo que possível um xeque ao rei. Todos estavam
nenhum de nós esperava. Czentovic preocupados. Será que nosso amigo, em
ergueu sua pressa, havia movido alguma peça
a cabeça, muito, muito devagar, e uma casa a mais ou a menos? Tendo a sua
olhou em volta - o que não fizera até então atenção chamada por nosso silêncio, o Dr.
- para cada pessoa de nosso grupo. Ele B. também olhou para o tabuleiro e come-
parecia estar se deliciando çou a balbuciar de maneira descontrolada:
incomensuravelmente com alguma coisa, - Mas o rei deveria estar em f7... ele
pois aos poucos seus lábios começaram a está na casa errada, totalmente errada. O
ganhar a forma de um sorriso satisfeito e senhor jogou errado! Tudo está equivocado
claramente irônico. Só depois de ter nesse tabuleiro... o peão deveria estar em
aproveitado até a última gota esse triunfo
g5 e nã,3 em g4... essa é uma outra besteira... será que fiquei de novo...? - Não
partida... Isso é... - sussurrei. - Mas o senhor precisa inter-
Parou de repente. Eu o tinha romper de imediato a partida, não há mais
segurado com firmeza pelo braço, ou tempo. Lembre-se do que o médico lhe
melhor, tinha beliscado seu braço com disse!
tanta força que mesmo em seu desvario Dr. B. levantou-se de supetão.
febril ele devia ter sentido o apertão. Olhou - Peço desculpas por meu erro tolo -
em volta e me encarou como um disse, com seu tom de voz polido de antes,
sonâmbulo. e inclinou-se diante de Czentovic. - Claro
- O que... o que o senhor quer? Eu que não faz sentido algum o que eu disse.
disse apenas: Obviamente esta partida é sua.
- Remember! (* "Lembre-se!" em inglês Em seguida, ele se dirigiu a nós:
no original. N.T) - Também aos senhores devo pedir
Ao mesmo tempo, conduzi seus dedos desculpas. Mas de antemão tinha avisado
até a cicatriz em sua mão. De maneira que não deveriam esperar muito de mim.
involuntária, ele seguiu meu movimento, Perdoem-me a bobagem... foi a última vez
seus olhos se fixaram, como se fossem de que tentei jogar xadrez.
vidro, no traço cor de sangue. Em seguida, Inclinou-se e partiu, da mesma
ele começou de repente a tremer, e um maneira tímida e misteriosa como havia
arrepio percorreu seu corpo todo. aparecido pela primeira vez. Só eusabia
- Meu Deus - murmurou, com os por que esse homem nunca mais tocaria
lábios pálidos. - Eu disse ou fiz alguma um tabuleiro de xadrez, enquanto os
demais permaneceram um tanto
desconcertados, com a sensação incerta de
que se tinham livrado por pouco de alguma
coisa incômoda e perigosa.
- Damned fool! (* "Maldito idiota!" em
inglês no original. N.T.) -resmungou
McConnor em sua decepção.
O último a se levantar de sua poltrona
foi Czentovic, que ainda voltou o olhar
para a partida não terminada. - Pena -
disse num tom condescendente -, o ataque
até que não foi mal planejado. Para um
diletante, esse senhor realmente tinha um
talento extraordinário.
SOBRE O AUTOR nos Estados Unidos. Em 1941 mudou-se
para o Brasil, país que visitara pela
STEFAN ZWEIG nasceu em Viena, em primeira vez em 1936; ficara tão fascinado
1881, filho de Moritz Zweig, rico fabricante que o transformou no objeto de um de
judeu de têxteis, e de Ida Brettauer, de seus livros mais conhecidos, Brasil, um
uma família de banqueiros italianos. país do futuro, publicado em português em
Estudou filosofia e literatura, e na 1941 (as edições norte-americana, alemã,
juventude participou de vanguardas sueca, portuguesa, francesa e espanhola
artísticas. A religião não teve muita não tardaram a sair). Desesperançado com
importância na sua educação. Na década o rumo da política européia e com o futuro
de 1920, publicou seus primeiros livros. da cultura de língua alemã, e sentindo-se
Praticou os mais variados gêneros incapaz de recomeçar uma nova existência,
literários - poesia, teatro, biografias em 23 de fevereiro de 1942 Zweig cometeu
romanceadas, crítica literária - e também suicídio, junto com a sua segunda mulher,
realizou algumas traduções. Seus contos e Charlotte Elisabeth Altmann (mais
novelas curtas, assim como as biografias conhecida como Lotte), na casa dos dois,
de artistas e figuras históricas, o tornaram em Petrópolis. A carta de despedida diz o
célebre no mundo inteiro. Em 1934, com o seguinte:
recrudescimento do nazifascimo na Europa "Antes de abandonar a vida por
e a ascensão de Hitler ao poder, Zweig vontade própria e em plena lucidez, sinto
emigrou para a Inglaterra, onde viveu na necessidade de cumprir um último dever:
cidade de Bath, indo morar posteriormente agradecer profundamente ao Brasil, este
maravilhoso país que me proporcionou, longa noite! Eu sou por demais impaciente,
assim como ao meu trabalho, um descanso parto antes deles".
tão amigável e tão hospitaleiro. Um dia Sua obra é muito extensa, e alguns de
após o outro aprendi a amá-lo mais e mais seus textos ficcionais mais conhecidos são
e em nenhuma outra parte eu teria A confusão de sentimentos, Vinte e quatro
preferido construir uma nova existência, horas na vida de uma mulher e A embria-
agora que o mundo da minha língua guez da metamorfose. Entre as várias
materna desapareceu para mim e que a exitosas biografias que escreveu, podem-se
minha pátria espiritual, a Europa, destruiu citar as de Nietzsche, Maria Antonieta,
a si própria. Erasmo e Balzac.
"Mas com mais de sessenta anos seria
necessário ter forças extraordinárias para
recomeçar totalmente a vida. E as minhas
esgotaram-se devido aos longos anos de
errância. Além disso, creio que vale mais
pôr um fim a tempo, e de cabeça erguida, a
uma existência na qual o trabalho
intelectual sempre foi a alegria mais pura e
a liberdade individual, o bem supremo
deste mundo.
"Saúdo todos os meus amigos. Que
eles possam ver ainda a aurora após a

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