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MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE GOIÁS


25ª PROMOTORIA DE JUSTIÇA DE GOIÂNIA

EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA 4ª VARA


CRIMINAL DE GOIÂNIA – VARA DA EXECUÇÃO PENAL.

"Ninguém conhece verdadeiramente uma nação até que tenha estado dentro de suas
prisões. Uma nação não deve ser julgada pelo modo como trata seus cidadãos mais
elevados, mas, sim, pelo modo como trata seus cidadãos mais baixos".

NELSON MANDELA

O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE GOIÁS, por seu 25º


Promotor de Justiça da Comarca de Goiânia, vem à presença de Vossa
Excelência, com fundamento no art. 66, VIII, da Lei de Execução Penal,
requerer a INTERDIÇÃO PARCIAL dos estabelecimentos penais que
compõem o COMPLEXO PENITENCIÁRIO DE APARECIDA DE
GOIÂNIA e da CASA DO ALBERGADO MINISTRO GUIMARÃES
NATAL, nos termos seguintes:

I – OCUPAÇÃO/SUPERLOTAÇÃO DAS UNIDADES

O complexo penitenciário de Aparecida de Goiânia é integrado pela


Penitenciária Odenir Guimarães (POG), Casa de Prisão Provisória (CPP), Penitenciária
de Mulheres, Núcleo de Custódia e pela Colônia Agroindustrial do regime semi-aberto.
A Casa do Albergado Ministro Guimarães Natal, destinada ao regime aberto, situa-se no
Jardim Europa, nesta Capital.

A superlotação dos estabelecimentos penais não é novidade, sendo uma


situação que remonta há décadas, marcadas pela falta de políticas públicas voltadas para
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o setor penitenciário, notadamente pelo desinteresse na construção de novas unidades. O


resultado que se tem é uma ocupação desmedida das prisões, diante da tolerância que
existe ao amontoamento de homens e mulheres em ambientes que somente contribuem
para a degradação humana. Mesmo conscientes dos reflexos nefastos do
encarceramento de pessoas em prisões superlotadas (comprovadamente um dos
principais fatores criminógenos na atualidade), os agentes do Estado insistem em
ignorar essa realidade, limitando-se a repetir os erros do passado, fazendo das prisões
simples depósitos de pessoas, sem qualquer respeito aos limites físicos de ocupação.

No caso dos estabelecimentos jurisdicionados por essa Vara de Execução


Penal, segundo o mais recente relatório da Secretaria de Estado da Justiça repassado a
esta Promotoria de Justiça (docs. 1-8), as unidades estão assim ocupadas:

Estabelecimento Penal Capacidade Ocupação atual Déficit

PENITENCIÁRIA ODENIR 730 1406 676


GUIMARÃES

CASA DE PRISÃO PROVISÓRIA 680 1208 528

NÚCLEO DE CUSTÓDIA 30 59 29

PENITENCIÁRIA DE MULHERES 24 49 25

COLÔNIA AGROINDUSTRIAL (NOVO 230 394 164


SEMI-ABERTO)

COLÔNIA AGROINDUSTRIAL 109 186 77


(ANTIGO SEMI-ABERTO)

CASA DO ALBERGADO 120 237 117

TOTAL GERAL 1923 3539 1616

Chega a ser assustador, mesmo para quem há tanto tempo milita na


execução penal, o panorama desolador e degradante desses estabelecimentos penais
superlotados. Seja na cadeia pública ou na penitenciária; nas unidades de homens ou de
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mulheres; nas unidades do regime fechado ou semi-aberto; ou até no albergue, o que se


vê é miséria, abandono e indignidade. Resultado não apenas da superlotação carcerária,
mas que se potencializa pelas previsíveis conseqüências advindas dessa cultura que tem
a prisão como mero depósito de pessoas, amontoadas de qualquer maneira, mesmo que
não haja espaços sequer para o repouso noturno.

Particularmente no que tange à Casa de Prisão Provisória, cuja ocupação


fora discutida em incidente específico perante essa VEP no final do ano de 2003, numa
iniciativa que já demonstrava a preocupação dos órgãos da execução penal,
particularmente do Ministério Público e da própria VEP, para com a ocupação ilimitada
dos espaços carcerários, há uma fixação judicial do limite de superlotação daquela
unidade. Na ocasião fixou-se em 1.250 presos o limite de ocupação da CPP. Mesmo
tendo sido tal providência determinada em procedimento instaurado por este Órgão,
hoje percebe-se o equívoco da medida que, não obstante algum pequeno efeito positivo,
acabou na prática por legitimar o abuso e a ilegalidade da superlotação. Talvez tenha se
servido aquela providência como uma espécie de pausa para a reflexão, até que viesse
uma medida duradoura, como a que ora se apresenta.

Os espaços carcerários há muito estão superlotados, fato que, a despeito


das extremamente danosas consequências derivadas do amontoamento de pessoas nas
prisões, é por muitos visto como normal. Regras estabelecidas em diversos estatutos,
desde a Declaração Universal dos Direitos do Homem, passando pelo Pacto de San José
da Costa Rica, pela Constituição brasileira, chegando às expressas disposições da Lei de
Execução Penal, são simplesmente ignoradas.

A tragédia humanitária que se percebe no interior das prisões deixa


patente que não é sem razão que o Brasil vem sendo reiteradamente denunciado pelos
órgãos internacionais de defesa de direitos humanos.

II – DEFICIÊNCIA NA ASSISTÊNCIA À SAÚDE DOS PRESOS

Sobre a assistência ao preso, dispõe a Lei de Execução Penal:

Art. 10. A assistência ao preso e ao internado é dever do Estado, objetivando prevenir o


crime e orientar o retorno à convivência em sociedade.
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Parágrafo único. A assistência estende-se ao egresso.

Art. 11. A assistência será:

I - material;

II - à saúde;

III - jurídica;

IV - educacional;

V - social;

VI - religiosa.

No complexo penitenciário de Aparecida de Goiânia têm sido rotineiras


reclamações trazidas ao Ministério Público em razão da deficiência no atendimento à
saúde da população carcerária, situação decorrente, dentre outros fatores, também da
superlotação. As unidades prisionais não estão aparelhadas para uma demanda que vai
muito além de sua capacidade e de suas condições estruturais.

Não obstante a formalização de recomendações deste Órgão diretamente


aos diretores das unidades1 ou mesmo às instâncias superiores da Secretaria de Estado
da Justiça, as deficiências persistem e continuam a resultar em violações a esse direito
básico do preso. Sobre a assistência à saúde, dispõe a LEP:

Art. 14. A assistência à saúde do preso e do internado de caráter preventivo e curativo,


compreenderá atendimento médico, farmacêutico e odontológico.

§ 1º (Vetado).

1
A partir de reclamações de presos e familiares de presos, bem como da Pastoral Carcerária, somente no
ano de 2007 e neste início de 2008, foram encaminhadas 39 (trinta e nove) recomendações formais do
Ministério Público às diversas instâncias da administração penitenciária, objetivando a garantia de
atendimento à saúde da população carcerária nos casos mais graves.
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§ 2º Quando o estabelecimento penal não estiver aparelhado para prover a assistência


médica necessária, esta será prestada em outro local, mediante autorização da direção do
estabelecimento.

Pessoas com doenças graves ou infecto-contagiosas alojadas em


ambientes superlotados e insalubres, em contato direto com outros presos; homens que
carecem de intervenções cirúrgicas ou acompanhamento pós-operatório, outros de
atendimento odontológico de urgência; portadores de distúrbios psiquiátricos sem
acesso à medicação de controle. Essa é a realidade dos estabelecimentos penais do
complexo de Aparecida de Goiânia, perceptível em visita a qualquer de suas unidades.

O crônico problema da falta de água potável para consumo dos presos,


embora objeto de procedimento no âmbito do Ministério Público com perspectiva de
solução em termo de ajustamento de conduta, persiste há tempos e expõe mais ainda a
saúde da população carcerária. A propósito do assunto, em relatório após inspeção
realizada por aquele Órgão na Penitenciária Odenir Guimarães (doc. 9), o Conselho
Penitenciário do Estado de Goiás atestou:

“Situação precária. A água do presídio é fornecida pelo DAIAG – Distrito Agroindustrial


de Aparecida de Goiânia. A interrupção no fornecimento de água em um domingo anterior
a essa inspeção (dia de visita) provocou um início de revolta pelos presos, cujo movimento
foi contido com tomada de providência rápida. Na ocasião, foi feito o abastecimento pela
Saneago e Corpo de Bombeiros”.

Convém também registrar que em recente visita à Penitenciária Odenir


Guimarães (realizada em fevereiro último), esta Promotoria de Justiça foi comunicada
pela direção que não havia sequer aspirinas na farmácia daquela unidade e que os
medicamentos somente ficam disponíveis quando se consegue alguma doação. Na
ocasião, não havia previsão sobre futuro provimento de medicamentos para o
atendimento básico da população carcerária. Sobre a questão, o relatório do Conselho
Penitenciário, acima referido, também informa:

“Geralmente são recebidas doações de medicamentos feitas por laboratórios, os quais, no


entanto, não são utilizados em razão de que não existe o profissional para fazer a
prescrição”.
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Outro agravante em matéria de assistência ao preso é o deficiente serviço


de transporte e escolta. Mesmo aqueles presos que conseguem a marcação de consultas
ou de exames laboratoriais não têm garantido o atendimento, pois nem sempre haverá
transporte disponível ou, eventualmente, escolta para o serviço. Inclusive procedimentos
cirúrgicos já se frustraram pela deficiência no transporte. Como se vê dos documentos
provenientes da Secretaria de Estado da Justiça, somente no ano de 2007 cerca de 100
(cem) procedimentos agendados deixaram de se realizar por deficiência no serviço de
transporte e de escolta (docs. 10-11), ao passo que somente nos quatro primeiros meses
deste ano de 2008 outros 65 (sessenta e cinco) procedimentos se frustraram pelos
mesmos motivos (doc. 12).

Embora seja desnecessário argumentar acerca do prejuízo humano


decorrente da não realização de procedimentos dessa natureza, nunca é demais lembrar
que é previsível o agravamento do quadro clínico do doente, que, além de levar ao
aumento do sofrimento e da dor, pode resultar em mutilações, atrofias irrecuperáveis,
debilidades permanentes, morte.2

Não há, é bom que se diga, uma rebelião em andamento ou qualquer


outra espécie de insubordinação ou alteração da ordem interna dos estabelecimentos 3.
Ocorre, sim, uma tragédia silenciosa. Colapso talvez seja palavra que defina o que

2
Em visita realizada na Casa de Prisão Provisória no dia 17 de abril/2008, constatei pessoalmente a
situação crítica em que se encontra a assistência à saúde da população carcerária. Na ocasião, visitei o
posto de saúde da CPP, onde conversei com diversos presos doentes, dois dos quais (Marcos Correia
Braga e Valtemir Ribeiro da Costa) correm o risco de terem braços amputados por não conseguirem
atendimento adequado. Tudo isto diante de uma única técnica em enfermagem, impotente diante da
situação, talvez tão desamparada nas suas condições de trabalho quanto os presos na assistência à saúde.

3
É fato, todavia, que no final de 2007 houve uma rebelião no interior da Penitenciária Odenir Guimarães,
que resultou inclusive na morte de um preso, evento ocorrido logo após a veiculação na imprensa
goianiense de imagens produzidas em vídeo pela ASPEGO (Associação dos Servidores do Sistema
Prisional do Estado de Goiás), documento que mostra com muito realismo a precariedade das instalações
e o quadro de superlotação daquela unidade prisional (doc. 13).
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acontece no interior das unidades prisionais. Homens e mulheres encarcerados sob


condições de indignidade em ambientes insalubres e que não comportam tantas pessoas,
sem um mínimo atendimento à saúde.

Situação que afronta o princípio da dignidade da pessoa humana, pilar da


República Federativa do Brasil enquanto Estado Democrático de Direito (art. 1º, III, da
CF), expondo seres humanos a um desnecessário sofrimento extra no cumprimento da
pena, em colisão direta com os direitos do preso expressamente previstos na
Constituição e na Lei de Execução Penal.

Afinal, a Constituição veda penas cruéis (art. 5º, XLIII) e assegura aos
presos o respeito à sua integridade física e moral (art. 5º, XLIX), ao passo que o art. 3º
da LEP prevê textualmente que “ao condenado e ao internado serão assegurados todos
os direitos não atingidos pela sentença ou pela lei”.

III – CONFIGURAÇÃO DE TORTURA

O que ocorre no complexo penitenciário de Aparecida de Goiânia quanto


à superlotação e às deficiências no atendimento à saúde da população carcerária é de tal
gravidade a ponto de configurar crime de tortura, tipificado pela Lei nº 9.455/97, que
assim dispõe:

Art. 1º Constitui crime de tortura:

I - constranger alguém com emprego de violência ou grave ameaça, causando-lhe


sofrimento físico ou mental:

(...)

Pena - reclusão, de dois a oito anos.

§ 1º Na mesma pena incorre quem submete pessoa presa ou sujeita a medida de


segurança a sofrimento físico ou mental, por intermédio da prática de ato não previsto
em lei ou não resultante de medida legal.

§ 2º Aquele que se omite em face dessas condutas, quando tinha o dever de evitá-las ou
apurá-las, incorre na pena de detenção de um a quatro anos.
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(...)

§ 4º Aumenta-se a pena de um sexto até um terço:

I – se o crime é cometido por agente público;

(...)

O estatuto jurídico estabelecido pela Lei de Execução Penal, ao definir os


limites da ação do Estado no exercício do jus puniendi, particularmente no momento em
que executa a sanção penal, estabelece textualmente as obrigações e os direitos do
preso. Determina também que esses direitos devem ser preservados por não terem sido
alcançados pela sentença condenatória ou pela lei. A pena é privativa da liberdade,
exclusivamente da liberdade, não podendo atingir, entre outros, o direito a um espaço
mínimo que garanta respeito à dignidade humana ou o direito à assistência à saúde da
pessoa submetida à prisão.

Inúmeros direitos expressamente previstos na Constituição e na Lei de


Execução Penal são violados pela ação do Estado que, na execução penal, insiste em
considerar o indivíduo preso como objeto. Ao manter pessoas humanas em espaços
insuficientes (que muitos já disseram se parecer com latas de sardinha, mas que são de
concreto mesmo), bem como ao negar assistência à saúde daquele indivíduo
encarcerado, ignorando os gritos abafados pelos corredores das prisões, o Estado pratica
tortura, provoca sofrimento ilegal e absolutamente desnecessário ao preso,
desrespeitando princípio que é um dos fundamentos da sociedade brasileira
estabelecidos no art. 1º da Constituição Federal: a dignidade da pessoa humana4.

4
Sobre o direito ao respeito à dignidade como direito que merece proteção absoluta, a lição de MIREILLE
DELMAS-MARTY: “Quando se pergunta a um cidadão qualquer quais os direitos que ele colocaria no alto
da hierarquia, geralmente ele cita o direito à vida. Ora, o direito à vida, nessa hierarquia implícita dos
direitos humanos, não se encontra no cimo, pois todos os textos admitem o homicídio em caso de guerra
ou de legítima defesa e alguns admitem ainda a pena de morte. Então, que direito absoluto é esse que os
Estados não podem infringir nem sequer em caso de guerra ou de ameaças graves? É um direito que
formulamos pela proibição: a proibição da tortura e dos tratamentos desumanos e degradantes, a proibição
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E a Lei nº 9.455/97, acima citada, exige a atuação daqueles que têm o


dever legal de apurar ou evitar a tortura, sob pena de incorrer nas sanções previstas em
seu art. 1º, § 2º, não se podendo afastar dessa responsabilidade, cabe aqui salientar, os
agentes administrativos da execução e também aqueles a quem compete a fiscalização
dos estabelecimentos penais, com destaque para o Ministério Público e o Juízo da
Execução Penal.

É de se rechaçar, de maneira plena, a ilegalidade derivada dessa prática,


competindo essa relevante missão a Vossa Excelência, por força do disposto no art. 66,
VIII, da LEP. Não se pode compactuar com a tortura praticada no interior das prisões,
especialmente quando caracterizada pelo amontoamento ilimitado de seres humanos e
pela omissão em se atender aquela pessoa que padece de uma enfermidade e que,
portanto, carece de assistência à saúde.

III – DA ATUAÇÃO ADMINISTRATIVA DO JUÍZO DA EXECUÇÃO PENAL

Na execução penal, a par de suas competências classificadas como de


natureza estritamente jurisdicional, o juiz tem também atribuições de natureza
administrativa. Acerca do tema, a lição do saudoso MIRABETE:

“Além da competência jurisdicional estrita, o juiz também tem atribuições de caráter


administrativo quando tem por objetivo normalizar a execução penal, que está sujeita a
normas legais e a prescrições regulamentares. Nessa atividade, o juiz, agora como órgão de
administração, atua para tornar efetivo o interesse do Estado, decidindo, como titular de um
interesse particular, defender e preservar e tendo como limite apenas a lei. Exerce assim
funções administrativas, muitas vezes denominadas funções judiciárias em sentido estrito e
não função jurisdicional. Daí determinar a lei que compete ao juiz zelar pelo correto

da escravidão, ou seja, o único direito à proteção absoluta é o direito ao respeito da dignidade, no sentido
mais forte do termo: a dignidade da família humana. Pode-se matar em caso de guerra, mas não se pode
utilizar a tortura. A razão disso talvez seja o fato de que a morte atinge apenas o indivíduo e seus
próximos, é claro, enquanto que a tortura atinge, além das pessoas diretamente implicadas, a humanidade
inteira” (MIREILLE DELMAS-MARTY. Acesso à humanidade em termos jurídicos. In: A religação dos
saberes – o desafio do século XXI. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001, p. 257-266).
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cumprimento da pena e da medida de segurança, inspecionar estabelecimentos penais,


interdita-los, compor e instalar o Conselho da Comunidade etc. (art. 66, incs. VI a IX)”.5

Elencando atribuições decorrentes da atuação administrativa do juízo da


execução penal, dispõe a LEP em seu art. 66, incisos VI a VIII:

Art. 66. Compete ao juiz da execução:

...

VI - zelar pelo correto cumprimento da pena e da medida de segurança;

VII - inspecionar, mensalmente, os estabelecimentos penais, tomando providências para o


adequado funcionamento e promovendo, quando for o caso, a apuração de
responsabilidade;

VIII - interditar, no todo ou em parte, estabelecimento penal que estiver funcionando em


condições inadequadas ou com infringência aos dispositivos desta Lei.

Especificamente sobre a possibilidade de interdição total ou parcial de


estabelecimento penal como decorrência da atuação administrativa do juízo da
execução, também ensina MIRABETE:

“O art. 66 da Lei de Execução Penal prevê também as hipóteses de competência do juiz da


execução para as atividades administrativas da execução penal. (...) Pode o juiz também
interditar, no todo ou em parte, o estabelecimento penal que estiver funcionando em
condições inadequadas ou com infringência aos dispositivos da lei (art. 66, VIII). Se, por
deficiências materiais, falta de segurança, inexistência de condições de salubridade etc.,
verificar o juiz a impossibilidade de se atender aos requisitos mínimos previstos para a
execução penal, deve interditar o estabelecimento total ou parcialmente. Evidentemente, tal
determinação somente se justifica na hipótese de graves irregularidades ou deficiências, que
não possam ser sanadas por outros meios menos drásticos, já que a interdição,
principalmente nos estabelecimentos penais de grande porte, provoca sérios problemas de
acomodação da população carcerária”.6

5
JULIO FABBRINI MIRABETE. Execução Penal, 11. ed. São Paulo: Atlas, 2004, p. 177-1778.

6
Idem, p. 225.
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No caso dos estabelecimentos penais em comento, há dois motivos


principais que tornam imprescindível a atuação de Vossa Excelência para a
regularização do funcionamento daquelas unidades: a superlotação carcerária e a
extrema deficiência na assistência à saúde dos presos.

A superlotação é problema histórico, para o qual não há perspectivas de


solução, tanto pelo desinteresse de grande parte da sociedade quanto, particularmente,
pela pouca disposição política da União e do Estado de Goiás em enfrentar a questão.

Quanto às deficiências na assistência à saúde da população carcerária,


correspondem também a um problema crônico, antigo, e mesmo havendo iniciativas
esparsas para o melhor encaminhamento do tema, a questão não obtém uma definição
clara de como deve ser a rotina de atendimento ou, o que tem sido muito comum, não é
objeto da devida atenção pela administração penitenciária, que sofre também pelas
extremas carências de equipamentos e de pessoal, o que leva à precariedade do
atendimento e, muitas vezes, à não realização desse atendimento. É fato também que a
priorização absoluta das rotinas de segurança (fenômeno comum no sistema
penitenciário) faz com que o atendimento à saúde fique sempre para um segundo plano.

Mas é chegada a hora – aliás já é bem tarde – de se atuar com


determinação e fôlego redobrado para a busca de caminhos que possam auxiliar na
construção de um sistema penitenciário que contemple o encarceramento de pessoas
com respeito à dignidade humana. É a dignidade do indivíduo, como primeiro limite
material a ser respeitado por um Estado democrático, que fixa limites máximos à rigidez
das penas e aguça a sensibilidade de todos com relação aos danos por elas causados7. E
essa dignidade, leciona ADAUTO SUANNES, “diz com a necessidade de serem
observados por todos os membros da sociedade – e, por motivos bastante óbvios,

7
Cf. SANTIAGO MIR PUIG, Direito Penal – fundamentos e teoria do delito, p. 99.
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principalmente por seus juízes – determinados princípios, que se consideram


fundamentais para que aquela dignidade seja concretamente respeitada e feita valer” 8.

É certo que o problema das prisões não é exclusividade de Goiás ou do


complexo penitenciário de Aparecida de Goiânia. É um problema do país. Mas como a
atuação desse juízo, assim como desta Promotoria de Justiça, tem uma delimitação
precisa, nada impede que a solução por aqui tenha começo 9, dentro dos exíguos espaços
da competência da Vara da Execução Penal de Goiânia. É tempo de dar um basta a tanta
atrocidade. Não só por significar desrespeito à dignidade de seres humanos, mas
também por produzir mais crime e mais violência. Sob a ótica de perdas e ganhos, o
resultado do que temos em decorrência da superlotação carcerária traz somente perdas...
E para todos, presos ou livres.

Nunca é demais lembrar, como faz LUIGI FERRAJOLI, que o Estado que
mata, que tortura, que humilha o cidadão, não só perde qualquer legitimidade como
contradiz a sua própria razão de ser, que é servir à tutela dos direitos fundamentais do
homem, colocando-se no mesmo nível dos delinqüentes10. No Brasil temos uma
execução penal jurisdicionalizada, o que faz muito sentido. E nesse espaço em que se
mostra para muitos tão estranha a idéia de direito e legalidade, sobressai a importância
da jurisdicionalização e da atuação garantista do juízo da execução penal, valendo aqui
o registro da memorável lição de ALBERTO SILVA FRANCO: “O juiz e a Constituição
devem ter, em verdade, uma relação de intimidade: direta, imediata, completa. Há um
nível de cumplicidade que os atrai e os enlaça. Na medida em que, de maneira explícita

8
ADAUTO SUANNES, Os fundamentos éticos do devido processo penal, p. 76.

9
Merece registro que a interdição parcial em termos próxima da que ora se propõe não é inédita, já tendo
sido decretada – até com maior amplitude – pela Vara da Execução Penal de São Luiz do Maranhão que,
em dezembro de 2005, determinou a INTERDIÇÃO PARCIAL dos estabelecimentos penais integrantes
do complexo penitenciário de Pedrinhas, naquele Estado, sob fundamentos e com objetivos muito
parecidos com os que aqui se apresentam (doc. 14).

10
Cf. LUIGI FERRAJOLI, Direito e razão, p. 364.
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ou implícita, dá-se positividade constitucional aos direitos fundamentais da pessoa


humana, estabelece-se, ao mesmo tempo, um sistema de garantias com o objetivo de
preservá-los. O juiz passa a ser o garantidor desse sistema”.11

IV – DAS PROVIDÊNCIAS A CARGO DO JUÍZO DA EXECUÇÃO PENAL

Aos órgãos fiscalizadores da execução penal compete atuar no sentido de


garantir a legalidade do funcionamento do sistema penitenciário, sob pena de incorrer o
agente omisso em crime previsto pela Lei de Tortura, conforme visto em linhas
pretéritas. Seja administrador de prisão, promotor de justiça, agente penitenciário ou
juiz de direito, o dever legal de agir se impõe.

E sobre esses agentes – entre os quais inclui-se obviamente o órgão do


Ministério Público que subscreve esta petição – pesa responsabilidade maior, qual seja,
a de garantir uma execução penal isenta de desvios ou de excessos; uma execução penal
que contribua para a segurança da sociedade, mas que, ao mesmo tempo, seja
respeitadora da dignidade daqueles seres humanos levados ao cárcere.

Será, pois, da atuação corajosa dos órgãos da execução, particularmente


do Juízo da Execução Penal, que se implementará esse modelo já previsto na
Constituição e nas leis. Esse modelo que faz do sistema penitenciário um espaço de
castigo limitado pela dignidade da pessoa humana, princípio que, como se disse,
compõe a estrutura fundamental do Brasil enquanto Estado Democrático de Direito.

São providências duras e corajosas que o Ministério Público vem propor


a Vossa Excelência, mas também imprescindíveis para a regularização do
funcionamento das unidades prisionais que integram o complexo penitenciário de
Aparecida de Goiânia. É fato que não há solução mágica ou imediata, mas é também
verdade que a solução só virá, mesmo que a médio ou a longo prazos, a partir do
primeiro passo.

11
ALBERTO SILVA FRANCO, Crimes hediondos, p. 70.
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A providência inicial passa necessariamente pelo respeito da


administração penitenciária aos limites dos espaços físicos de cada estabelecimento
penal, de sorte que cada unidade seja ocupada, no máximo, pelo número de vagas
existentes.

Dessa primeira medida resultará naturalmente um panorama novo, em


que os espaços serão ocupados de maneira a respeitar a condição humana dos presos e,
daí, ter-se-á um ambiente adequado para a garantia dos direitos não atingidos pela
sentença ou pela lei. E a administração penitenciária, em melhores condições para
administrar o sistema, poderá fazer funcionar serviços voltados à assistência à saúde do
preso, objeto específico da segunda medida a seguir proposta.

A segunda providência, que visa garantir o atendimento à saúde da


população carcerária, depende naturalmente da primeira providência acima referida,
uma vez que o estabelecimento penal ocupado dentro dos seus limites arquitetônicos,
observado rigorosamente o número de vagas, terá melhores condições para a triagem
dos casos mais urgentes, dentro de uma ação preventiva por parte dos profissionais da
saúde, bem como poderá definir rotinas de atendimento dentro de sua capacidade e dos
recursos humanos e materiais disponíveis. Mas a regularização dos serviços de
assistência à saúde demanda ainda outras providências, como a imediata verificação de
todos os procedimentos frustrados no passado recente, bem como com a definição de
protocolos de ação, de maneira sistemática, para o encaminhamento de todas as
demandas por atendimento médico, farmacêutico e odontológico.

Impõe-se também o provimento de uma farmácia que atenda às


necessidades básicas por medicamentos da população carcerária de todos os
estabelecimentos penais do complexo prisional.

Faz-se necessário o funcionamento de serviço de Enfermagem em tempo


integral. Hoje as unidades não dispõem de serviço de Enfermagem no período noturno.
Durante o dia, carecem de profissionais em número suficiente.

O transporte para atendimento à saúde, acompanhado do necessário


serviço de escolta, deve ter prioridade em relação a qualquer outro atendimento ou,
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preferencialmente, que sejam definidas equipes exclusivamente voltadas para esse


trabalho (transporte e escolta), de forma a evitar a frustração de consultas e outros
procedimentos.

É imperioso que o complexo penitenciário disponha de atendimento


odontológico, com a contratação de profissionais para atender de maneira contínua – e
não somente em ritmo de raros mutirões – à demanda por esse serviço especializado.

V – DA INTERDIÇÃO PARCIAL PLANEJADA

Uma decisão judicial que apenas decrete a interdição das unidades do


complexo penitenciário de Aparecida de Goiânia proibindo a entrada de novos presos e
a retirada do excedente de lotação poderia ter algum efeito impactante momentâneo,
mas não atenderia a contento, todavia, ao objetivo almejado, qual seja, a regularização
da execução penal dentro de patamares aceitáveis em face da estrutura penitenciária
disponível. Além do mais, a simples proibição de ingresso de novos presidiários
engessaria o sistema por inteiro, sem espaço para a movimentação exigida no sistema
progressivo (progressões e regressões do regime prisional), assim como impediria a
prisão provisória nos casos de novos crimes, especialmente os mais graves.

Nesse sentido, o Ministério Público propõe que haja uma


INTERDIÇÃO PARCIAL PLANEJADA, com metas a serem alcançadas no curto e
médio prazos, refletindo-se de maneira indireta também em providências a serem
tomadas no longo prazo.

A interdição parcial planejada é medida interessante também para que a


administração penitenciária possa providenciar as necessárias correções, inclusive
abertura de novas vagas em prazo razoável, sem a pressão de uma medida puramente
proibitiva.

Nesse ínterim, abre-se espaço também para que se estabeleça um debate


público sobre as prioridades que devem orientar a ocupação das prisões, para o que será
fundamental a participação dos órgãos ligados ao sistema penitenciário e à segurança
pública, Poder Judiciário, Ministério Público, Ordem dos Advogados do Brasil,
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Departamento Penitenciário Nacional e, dentre outros, de representantes da


comunidade. Afinal, não há solução mágica e tampouco uma decisão judicial neste
incidente conseguirá resolver os graves problemas do sistema penitenciário.

Essa interdição parcial planejada há de ser implantada não de uma única


vez ou mediante ato judicial isolado. A execução penal é um processo dinâmico e que
tem uma antiga história de descaso e abandono, problema para o qual não se deve
buscar uma solução simplista – mesmo que justificável – de fechar as portas de entrada
e retirar de maneira abrupta a população carcerária excedente. Aliás, medidas radicais a
esse ponto não são bem absorvidas e acabam não se sustentando em outras instâncias do
próprio Poder Judiciário.

A idéia é então conduzir a ocupação carcerária gradativamente até o


limite de cada estabelecimento prisional, para o que o Ministério Público vislumbra o
prazo de dois anos como um limite razoável, desde que haja rigoroso monitoramento
das medidas a serem adotadas.

O que não se pode mais admitir é a ocupação desordenada e ilimitada dos


espaços carcerários, desconsiderando a condição humana do preso. Tal situação expõe a
segurança interna dos presídios, mas também a segurança pública, favorecendo, dentre
tantas conseqüências nefastas, à construção de uma criminalidade cada vez mais
perversa e violenta. E a desatenção aos limites legais estabelecidos para a ação punitiva
do Estado, inclusive os limites decorrentes do espaço físico das prisões, leva à
responsabilização não apenas dos agentes da administração penitenciária, mas também,
como já se disse, dos órgãos fiscalizadores da execução penal.

De tal sorte, o pedido que se formulará apresenta uma equação


matemática a ser observada pela administração de cada uma das unidades: A CADA TRÊS
PESSOAS QUE SAÍREM DO ESTABELECIMENTO PENAL ABRE-SE A POSSIBILIDADE DE

INGRESSO DE UM NOVO PRESO. A medida, a ser verificada e conferida ao final de cada


mês, levará a uma gradual redução da ocupação carcerária até que se alcance o limite
máximo de cada estabelecimento prisional.
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VI – DA PARTICULAR SITUAÇÃO DA COLÔNIA AGROINDUSTRIAL


(DESTINADA AO REGIME SEMI-ABERTO)

No caso da Colônia Agroindustrial, a interdição parcial planejada não


será capaz de atender à urgência das medidas que se fazem necessárias naquela unidade
prisional.

Em inspeção noturna realizada no dia 22 de abril/2008, esta Promotoria


de Justiça pode verificar in loco a extrema precariedade do funcionamento daquele
estabelecimento penal destinado a quem cumpre pena no regime semi-aberto. Conforme
Vossa Excelência poderá observar por ocasião da inspeção judicial abaixo requerida, a
situação em que os cerca de 400 (quatrocentos) condenados do novo semi-aberto e dos
quase 200 (duzentos) do antigo semi-aberto se encontram é de absoluta indignidade.
Vale lembrar que aqueles homens, na sua maioria, estão autorizados ao trabalho
externo, devendo retornar diariamente para o pernoite na Colônia.

As condições de alojamento da unidade fazem do pernoite dos presos


algo como uma sujeição voluntária à tortura. Após um dia de trabalho – no caso
daqueles que efetivamente desempenham alguma ocupação lícita – o condenado
simplesmente retorna para passar a noite na Colônia, pois sono e repouso são
absolutamente incompatíveis com a estrutura atual daquele estabelecimento penal, como
Vossa Excelência poderá perceber por ocasião da inspeção judicial.

Como exigir desses seres humanos a abnegação diária da própria


dignidade e do direito a um mínimo de repouso após a jornada de trabalho!?

A Lei de Execução Penal fala em integração social (art. 1º) e respeito aos
direitos não atingidos pela sentença ou pela lei (art. 3º). Todavia, o que se tem nas
unidades do semi-aberto (embora não com exclusividade, pois as demais unidades
também apresentam falhas graves no seu funcionamento) é a negação plena da condição
humana daqueles que ali cumprem pena.

As fugas, constantes e reiteradas, são perfeitamente naturais nesse


ambiente de horror e medo. Aliás, plenamente justificadas pela simples verificação dos
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espaços onde pessoas são recolhidas naquelas unidades. Algumas pocilgas são espaços
mais dignos do que os alojamentos das unidades do regime semi-aberto12.

Em relação a essas unidades, a proposta ministerial será mais abrangente,


para que se garanta desde já alguma condição de sobrevivência dos condenados nos
alojamentos da Colônia. Para tanto, como se verá, o Ministério Público apresentará
requerimento para que se restabeleça antigo instituto outrora utilizado por essa VEP: a
apresentação semanal. De tal sorte, a população carcerária excedente ao número de
vagas poderá ser autorizada a permanecer em prisão domiciliar, sob monitoramento de
agentes da Secretaria de Estado da Justiça e com a obrigação de obter ocupação lícita,
bem como comparecer semanalmente em local a ser designado por Vossa Excelência,
onde o condenado irá justificar suas atividades, dentre outras condições a serem fixadas.

VII – DA INSPEÇÃO JUDICIAL

Caso Vossa Excelência entenda necessário, requer inicialmente o


Ministério Público, como complementação à prova documental que instrui esta petição,
a realização de INSPEÇÃO JUDICIAL às dependências dos estabelecimentos
prisionais objetos do pedido, inclusive no período noturno no caso dos alojamentos
destinados aos regimes semi-aberto e aberto.

VIII – DOS PEDIDOS

12
No dia 22 de abril/2008, realizei inspeção noturna nas dependências da colônia do regime semi-aberto.
Não obstante os muitos anos atuando na execução penal, fiquei estarrecido com a precariedade dos
alojamentos e a condição inominável em que estão recolhidos os condenados daquela unidade prisional.
Presos deitados no chão das celas e até no “boi” (banheiro), lixo por toda parte, agentes penitenciários em
número insuficiente, esgoto a céu aberto no pátio levando o odor fétido para o interior dos alojamentos,
guaritas desguarnecidas de policiais, homens clamando por atendimento médico e jurídico. O que era
ruim ficou pior e pode se deteriorar ainda mais.
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Diante do que se expôs, requer o Ministério Público:

1. INTERDIÇÃO PARCIAL da Casa de Prisão Provisória, Penitenciária Odenir


Guimarães, Penitenciária Feminina, Núcleo de Custódia e da Casa do Albergado
Ministro Guimarães Natal, a ser implementada nos seguintes termos:

1.a) REDUÇÃO GRADATIVA da ocupação dos espaços carcerários, a ser obtida


mediante a seguinte fórmula: A CADA TRÊS PESSOAS QUE SAÍREM DO
ESTABELECIMENTO PENAL ABRE-SE A POSSIBILIDADE DE
INGRESSO DE UM NOVO PRESO, até que seja alcançado o limite máximo
previsto para a ocupação de cada um dos estabelecimentos prisionais;

1.b) MONITORAMENTO MENSAL do movimento de entrada e saída de presos


de cada uma das unidades, mediante relatório a ser encaminhado pelos respectivos
diretores a essa VEP, com a indicação, dentre outras informações relevantes, do
nome de cada um dos presos que saíram e dos que ingressaram no estabelecimento;

2. Como conseqüência da interdição parcial e visando a abertura de vagas para o regime


semi-aberto, que seja deferida, com fundamento no art. 1º, inciso III, da Constituição
Federal, c/c. artigos 3º e 116 da LEP, a inclusão dos condenados do REGIME
ABERTO EM PRISÃO DOMICILIAR, sob a condição de comparecimento mensal e
obrigatório ao Setor Interdisciplinar Penal dessa VEP e prestação de serviços à
comunidade, além de monitoramento por equipes próprias da administração
penitenciária;

3. INTERDIÇÃO PARCIAL da Colônia Agroindustrial do Regime Semi-aberto, a ser


implementada nos seguintes termos:

3.a) TRIAGEM dos condenados dos alojamentos (antigos e novos) do regime


semi-aberto, para liberação da população carcerária excedente à efetiva capacidade
das unidades, a partir de critérios a serem definidos por Vossa Excelência;

3.b) Como CRITÉRIOS que podem ser aproveitados na triagem dos presos, sugere
o Ministério Público os seguintes: tempo efetivo de cumprimento de pena,
desempenho de trabalho externo, comportamento carcerário;
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3.c) APRESENTAÇÃO SEMANAL: a partir da triagem acima referida, os presos


liberados do comparecimento à unidade prisional deverão comparecer
semanalmente em local a ser designado por Vossa Excelência, preferencialmente
aos sábados ou domingos e na própria Secretaria de Estado da Justiça (situada no
prédio do IPASGO, no Setor Pedro Ludovico, nesta Capital), órgão que deverá
designar equipe de servidores para tal tarefa;

3.d) Dentre outras CONDIÇÕES, que sejam fixadas, para os presos autorizados à
apresentação semanal, as seguintes obrigações: exercício de ocupação lícita;
proibição de que se ausentem da região metropolitana de Goiânia sem expressa
autorização judicial; recolhimento à própria residência até às 21 horas nos dias
úteis; permanência no local de residência durante todo o período nos dias de
domingo e feriados; tudo mediante aceitação formal em audiência solene perante
essa VEP;

3.e) MONITORAMENTO contínuo de todos os condenados beneficiados com a


apresentação semanal, a ser realizado pela Secretaria de Estado da Justiça, com a
elaboração de relatório mensal a ser encaminhado a essa VEP;

4. COMUNICAÇÃO da INTERDIÇÃO PARCIAL à Secretaria de Estado da Justiça


(cujas atribuições são atualmente exercidas pela Secretaria de Segurança Pública 13), à
própria Secretaria de Segurança Pública, ao Tribunal de Justiça do Estado de Goiás, à
Corregedoria Geral da Justiça, à Procuradoria Geral de Justiça, à Corregedoria Geral do
Ministério Público, à Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Goiás, ao Conselho
Penitenciário de Goiás, ao Conselho da Comunidade de Goiânia, ao Conselho Nacional
de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP), ao Departamento Penitenciário Nacional
(DEPEN);

5. DETERMINAÇÃO ao órgão gestor do sistema penitenciário de Goiás da adoção


das seguintes providências:

13
Conforme Decreto nº 6.728, de 14 de março de 2008 (doc. 15).
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5.a) Verificação, no prazo máximo de quinze dias, de todos os procedimentos


voltados ao ATENDIMENTO À SAÚDE que tenham sido frustrados nos últimos
doze meses, bem como a definição de protocolos de ação de maneira sistemática,
para o encaminhamento das demandas por atendimento médico e odontológico da
população carcerária do complexo penitenciário de Aparecida de Goiânia;

5.b) Definição de equipes responsáveis exclusivamente (ou prioritariamente) pelo


TRANSPORTE E ESCOLTA DE PRESOS para o atendimento à saúde, de
forma a evitar a frustração de consultas e outros procedimentos, como exames
laboratoriais e cirurgias;

5.c) Programação da AQUISIÇÃO PERIÓDICA DOS MEDICAMENTOS


destinados ao atendimento básico da população carcerária e que devem constar das
farmácias que atendem o complexo penitenciário de Aparecida de Goiânia;

5.d) Designação de profissionais e técnicos em ENFERMAGEM para atendimento


em tempo integral da população carcerária de todas as unidades do complexo
penitenciário de Aparecida de Goiânia.

6. REUNIÃO MENSAL de avaliação e monitoramento da implementação das


providências determinadas, com a participação da autoridade gestora do sistema
penitenciário, dos diretores dos estabelecimentos penais, de representantes da Secretaria
de Segurança Pública, do Conselho Penitenciário, do Conselho da Comunidade de
Goiânia, além do Ministério Público e dessa VEP.

Goiânia, 29 de abril de 2008.

HAROLDO CAETANO DA SILVA


PROMOTOR DE JUSTIÇA

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