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A Influência Africana na Amazónia*

Com a chegada dos portugueses em 1616, a Belém do Pará, inicia-se a


colonização da Amazónia com o propósito do domínio do imenso território a
explorar, a par de motivos políticos, mas com o objectivo implícito da
ocupação efectiva do espaço. A unificação das coroas de Portugal e da
Espanha, desde 1580, possibilitou a penetração no vale amazónico, uma
competição acirrada pela posse da terra.

Nessa altura os portugueses adiantaram-se expulsando os holandeses,


franceses e ingleses que instalados com feitorias exploravam vários pontos
da região, obtendo grande proveito económico (cf. Andrés Pereira, no seu
relatório escrito em 1616).

O imenso território em grande parte ainda por descobrir limitou a acção dos
portugueses nas actividades agrárias, obrigando-os inicialmente a
permanecerem no núcleo de Belém.

Entretanto as viagens a que foram obrigados a fazer até ao rio Gurupá para
expulsão de estrangeiros, possibilitou-os avançar e dominar esta área. Mas
só a partir de 1637 com a Grande Viagem de Pedro Teixeira é que foram
descobertos os grandes tributários do rio Amazonas, uma vez que essas
viagens possibilitaram descobrir ligações fluviais e marítimas ao norte, ao
sul e ao nordeste, descortinando-se horizontes para conquistar.

Nessa perspectiva ainda no século XVII começa o ingresso do negro


africano na Amazónia que marcará profundamente sua presença em todos
os pontos das ciências humanas.

Para sua subsistência, o português após instalar-se no forte do Presépio,


cuidou de chamar os colonos para iniciar os trabalhos agrícolas.
Paralelamente, foram deslocados missionários para contactar os ameríndios
das redondezas. Foi um período bastante hostil, tanto para os colonos como
para os missionários que disputavam a posse do índio.

Deste antagonismo derivou-se a introdução do escravo da África, que


promovida pelos jesuítas, representava um acordo destes com Portugal.

Neste particular destaca-se a habilidade do Padre António Vieira, em 1680,


quando mencionou à Coroa Portuguesa que:” o negro deveria ocupar o lugar
do gentio no lavoura”, e mencionava: que se faria a introdução de escravos
de Angola por conta da Coroa”. Justificando-se da seguinte forma: “a raça
nativa era fraca. Que se sacrificasse o africano em benefício da raça
indígena que os jesuítas queriam redimir e que já lhes houvera custado
sacrifícios sem par”!

A introdução do negro na Região deu-se nas duas últimas décadas do


século XVI e na primeira do século XVII, na costa do Amapá e na foz do rio
Amazonas pelos ingleses para o funcionamento de engenhos clandestinos,
na fabricação do açucar e da aguardente.
No Maranhão houve a primeira tentativa da importação do negro através
da Cia. do Comércio do Maranhão, em 1682. Entretanto, a empresa foi
extinta devido a dificuldade da aquisição das “peças negras”, conforme
queixume dos colonos.

Todavia, com a fundação da Cia. Geral do Grão Pará Maranhão, quase um


século depois, renasceu o interesse para a importação negra.

Referida Companhia tinha exclusividade para transportar da África os negros


destinados à Capitania do Gram Pará e Maranhão, isentos de impostos e
taxas alfandegárias nas duas Capitanias. No século XVIII, período de 1757 a
1779, chegou à Capitania, 25.365 negros.

Destinados ao Maranhão:4.562 procedentes de Bissau

4.758 “ Cacheu

1.296 “ Angola

Destinados ao Pará: 4.667 “ Bissau

3.604 “ Cacheu

6.478 “ Angola

Para o Maranhão, houve um total de: 10.616

Para o Pará “ um total de: 14-749

A introdução efectiva do africano no Pará, deveu-se ao governador Francisco


Xavier de Mendonça Furtado para dar suporte à produção agrícola, uma vez
que o braço do ameríndio não era suficiente para desenvolver a agricultura.

Chegam negros procedentes do grupo Banto: Angola, Congo, Benguela,


Cabinda, Moçambique, Moxicongo, Macua e Caçanje.

Do grupo Sudanês: Mina, Mali ou Mai ou ainda Mandinga, Fula, Fulupe ou


Fulupo, Bijojó ou Bixapô.

Em 1616, há as primeiras determinantes para o tráfico de negros da Costa


da Guiné para o Maranhão.

A Câmara de Comércio de São Luís, em 14 de Junho de 1665, cria o cargo


de Juiz da Saúde, para visitar os navios, a fim de examinar se os passageiros
eram ou não portadores de moléstias.
Em 1673, chega ao Maranhão, uma nau holandesa com 900 negros de
Angola, todos de saúde e vigorosa idade.

Em 1684, Chega ao Maranhão um navio com 200 negros procedentes da


Guiné.

O governador do Maranhão, Artur de Sá e Menezes, em 1686, determina o


estabelecimento de povoações no rio Itapicuru, mandando distribuir entre
os moradores 200 a 300 negros por conta da Fazenda Real.

Em 1692, A Coroa ajusta com a Cia. de Cacheu, a título de experiência, a


compra de 145 negros destinados ao Pará. Como o negócio deu certo, El
Rey ordenou que os escravos destinados às lavouras e aos engenhos seriam
repartidos entre o Pará e o Maranhão.

Em 1695, chega ao Maranhão um navio com carregamento de pretos de


Angola os quais foram impedidos de desembarcar por estarem
contaminados de bexigas. Todavia, essa precaução não livrou os índios e
negros da peste que ceifou milhares de vidas e aldeias inteiras foram
exterminadas tanto no Pará como no Maranhão.

No século XVIII, o tráfico prossegue.

Em 1709, chega pelo navio Nossa Senhora do Monte Santo António, o


carregamento de 80 negros escravos, para serem repartidos entre senhores
de engenhos, lavradores e moradores de São Luís, custando cada um 165
mil réis.

Em 1753, aportam em Belém, os navios Nossa Senhora do Monte Carmo e


São José com peças negras vindas de Bissau, destinadas a engenhos e
lavouras.

A Cia. Geral do Comércio do Gram Pará e Maranhão, criada em 1755


introduziu no Pará 14.749 escravos oriundos da África. Deste contingente
muitos eram recambiados para o Mato Grosso.

Em 1760, chega a Belém procedente dos portos da Guiné 140 negros de


Cacheu.

Em 1771, O governador do Pará Fernando da Costa Ataíde Teive mandou


construir no Ver-o-Peso um lagamar com uma estância segura e
independente para guarda dos escravos.

Em 1773, Os negros da Nova Mazagão que chegaram em 1767 a Guiana


Brasileira (actual Macapá), realizam a cavalhada dos Mouros e Cristãos,
evento que perdura até aos dias actuais.

Em 1787, Alexandre Rodrigues Ferreira, elabora um Mapa de


Recenseamento das Freguesias e Povoações do Rio Negro onde se lê haver
247 escravos africanos naquelas localidades.
No mesmo ano, a Freguesia da Sé em Belém informa a Coroa que dos 5.276
residentes 50% eram moradores escravos (2.733 indivíduos), conforme o
Mapa elaborado pelo Regimento dos Senhores Generais do Estado do Grão
Pará.

Em 1778, dá-se a extinção da Cia. de Comércio Pará Maranhão, mas o


tráfico continuou até o ano de 1792.

Em 1793, o governador do Gram Pará, Francisco de Souza Coutinho


remeteu para Lisboa, a informação de que a cidade possuía 8.573
habitantes, dos quais 3.051 escravos negros.

Em 1798, o mesmo governador D. Francisco de Souza Coutinho, determina


que todos os navios desaferrados da África com destino directamente ao
Pará, transportando escravos, estavam isentos de pagar direitos de entrada
e saída. Referida medida intensificou o tráfico de negros para o Grão Pará,
atingindo até 1820 o total de 38.323 negros

No século XIX o tráfico prossegue não só da África como do Brasil.

No ano de 1820, chega ao porto de Belém, a “Galera portuguesa Tâmega”,


com peças africanas procedentes da Bahia para o Pará, no total de 547
escravos.

Outra Galera a “Cinderela do Tejo”, também portuguesa, comandada pelo 1º


Tenente Joaquim José Carvalho, dá entrada no porto paraense em 12 de
Março, com 600 escravos oriundos de Cabinda.

No ano de 1824, a “Galera Maria” aporta em Belém, transportando 436


escravos, procedentes de Luanda.

Em 1822, (ano da Independência do Brasil) Belém possuía 5.719 escravos


negros e 1.109 libertos entre pretos e mestiços, cf. O IBGE.

Entre 1835 até 1848, há uma grande evasão, devido a Revolução da


Cabanagem que contou com grande adesão dos escravos que almejavam a
liberdade.

Posterior a essa data, o negro vai perdendo essa superioridade,


constituindo-se nos dias atuais uma parcela ínfima da população de Belém.

Em 1849, a estatística mostra a população escrava negra do Pará, Amapá,


Amazonas e Maranhão, no total de 34.207 escravos:

Homens Mulheres Totais

PA: 14.191 13.606 27.797

AP: 1.516 1.418 2.934


MA: 1.416 1.350 2.766

AM: 348 362 710

T o t a l:17.471 16.736 34.207

No ano de 1854, a Câmara Municipal de Belém, regulamenta a lei sobre o


comércio de escravos negros.

Em 1860, a Lei do Orçamento Provincial regulamentada em 1861,


estabelece no seu Artº 13, Parágrafo 18, a criação do Imposto de 100$000
por escravo negro saído da Província, havendo mais recomendações:

“Os escravos dos funcionários públicos, e os de qualquer particular que


saírem da Província em companhia de seus senhores, não estão sujeitos ao
imposto; mas se estes voltarem sem eles, o deverão pagar, uma vez que
entende-se haver os escravos sido vendidos fora da Província”.

No período de 1862, 1872 até 1885, decresceu o número de escravos,


tendo atingido respectivamente 30.623, 23.090 e 10.535. Este último
contingente permaneceu até 13 de Maio de 1888, data da libertação dos
negros escravos no Brasil.

No final do século XIX, início do século XX, dá-se o fluxo migratório dos
negros barbadianos originários das colónias inglesas de Barbados, Caribe,
directamente para Belém do Pará.

Chegando ao século XX, vimos que em 1950, o Pará possuía 60.935


moradores classificados como pretos.

A cidade de Cametá (PA) e seus arredores possuía considerável núcleo


africano nas lavouras de cana-de-açucar e fazendas de cacau de 129
proprietários agrícolas.

Nessa localidade desenvolveram-se com maior ênfase, as tradições e as


festas africanas. Por exemplo: Festa de São Tomé, São Benedito, Nossa
Senhora da Conceição, São Jorge e Divino Espírito Santo. O evento de maior
expressão sempre foi o Império de Cametá lembrando a Congada.

O antropólogo Ignácio Moura, diz:“ além da beleza da mulata cametaense


havia os grilhões de ouro que rodeavam o colo das antigas escravas e o
samba na casa de festa tem o cunho da raça africana, que ninguém pode
negar”.

Na topografia da região amazónica, dominada pela indígena, há a “Ilha das


Mulatas”, e outra das “Quindingues”, topónimo indiscutível de origem
africana onde as danças mais apreciadas eram o samba e o lundu.
Na literatura, nos relatos de viagens, os autores analisam
pormenorizadamente a formação da raça paraense no seu tripé indígena,
europeu e africano, comprovante da sua inegável integração.

O linguajar africano legou ao paraense palavras como:

muxinga = chicote de cavalo, vergasta;

mocambo = couto de cavalos; m

mocambeiro = escravo refugiado no mocambo;

tanga = cachimbo;

mucama = criada de serviços domésticos, aia;

caçamba = alcatruz de nora, balde;

samburá = espécie de cesto;

cabungo = urinol;

batuque e samba = danças;

caçula = filho mais novo, o último;

corcunda = costa, dorso;

gingar = andar bamboleando;

guzo = força;

quitute = guisado, comida apetitosa;

senzala = casa de escravos, etc. etc.

No tangente ao trabalho, deparamos com a raça negra na cidade,


desempenhando actividades classificadas como negro de ganho ou de
aluguel; o homem da rua; dos mercados, das feiras, dos recados e dos
mandados.

Nos ofícios formavam-se pedreiros, ferreiros, carpinteiros, escultores,


canoeiros, serradores, torneiros, alfaiates, tecelões, dentre outros.

Os escravos negros que se especializassem na escultura do modelo europeu


recebiam o grau de mestres, e muitas vezes adquiriam a carta de alforria. O
ofício mais difundido era o de calafete pela necessidade da conservação das
embarcaçôes fluviais tarefa que dividiam e actuavam em parcerias com os
ameríndios.

Havia ofícios que eram considerados deprimentes como: coveiros,


carregadores de escrementos humanos e carrascos, dentre outros.
Por sua vez as mulheres ocupavam os cargos de cozinheiras, costureiras,
amassadeiras de açai, vendedoras de tacacá, ama-seca, criadas de servir e
dama de companhia.

Asseadas por natureza, adoravam perfumes feitos de raízes e ervas


aromáticas como a priprioca, catinga de mulata, mucuraá, cipó caringa,
oriza, arruda e chama, etc, etc, que socavam, adicionavam álcool e faziam
suas loções. Habitualmente, usavam o cabelo preso com um pente de
madeira ou de tartaruga que segurava o ramo de patichulí logo acima da
orelha.

Na mão esquerda levava uma cesta de compras e na direita a sombrinha,


que tanto servia para o sol como para a chuva.

Encontramos documentos que referem-se à identificação social dos negros


em nível elevado com títulos de nobreza ainda que folclóricos, tais como o
Império de Cametá, o Marambiré de Alenquer, a Marujada de Bragança, e a
Coroação do Rei Negro da festa promovida pela Irmandade de Nossa
Senhora do Rosário dos Negros, em Belém do Pará.

Fora das festividades todas as manhãs e as noites, os escravos negros


cantavam sempre em grupos, os seus cantos de trabalho, a que muitas
vezes se associavam os índios remeiros.

Usavam os instrumentos berimbau, marimba, pandeiro, cuíca e tambor


para acompanhar seus cantos. Em Belém havia um apreciável número de
pretos músicos e cantores.

Para comemorar a ascensão de D. Maria I ao trono de Portugal, o


governador João Pereira Caldas, aprovou o cortejo triunfal composto por 13
músicos negros escravos. A orquestra compunha-se de um tocador de
timbales, seis trompas, duas rabecas, duas flautas e dois clarins.

Uma brincadeira bastante difundida foi o Bumbá-Meu Boi, em toda a


Amazónia, conforme afirma o escritor português Sanches de Frias, em 1880,
ser a mesma de origem africana, no Pará.

O primeiro registro sobre o Bumba- meu- boi surge no “O Carapuceiro”,


Recife, no jornal do padre Miguel do Sacramento Lopes Gama, de 22 de
Fevereiro de 1834, sob o título de “ o que he o bumba meu boi”. O artigo
explica os pormenores das vestimentas dos brincantes, os bailados e
enredos característicos de origem africana.

Outras danças permanecem como um rico legado dos africanos. São o


lundu que tem origem dos negros bantos, de Angola é bastante difundido na
região amazónica, o carimbó, a capoeira (que para uns tida como defesa
pessoal), o tambor de mina, o tambor de crioula, o batuque e o marambiré,
além do tradicional samba.
Havia uma excepção em certos festejos, como o de Dezembro quando os
escravos negros tinham de 15 a 16 dias de descanso como férias, devido os
festejos em honra a São Benedito. Aí se misturavam aos índios, desfrutando
os seus usos e costumes nas brincadeiras. Mas a Igreja entendeu ser um
folguedo pagão e fez a sua adaptação à religião católica.

Os direitos dos trabalhadores negros foram assegurados pelo governo


paraense que criou as “Despesas Provinciais” para garantir seus
pagamentos. Regulamentou a lei da seguinte forma: “Serão feitos,
separadamente, as férias dos operários e serventes, e dos escravos. Nas
primeiras se deixará uma coluna em branco para nela se lançar a verba do
pagamento; e na dos escravos negros haverá um intervalo entre os nomes
para aí passarem recibo os senhores ou quem estes autorizarem”.

Outra forma de pagamento era a do Arsenal de Marinha que através da


imprensa anunciava: “ Contratam-se trabalhadores livres ou escravos para o
corte de madeiras no rio Acará..., percebendo além da gratificação uma
ração de peixe, farinha, aguardente, azeite e vinagre”.

Os mocambos eram os refúgios dos negros fugitivos. No Pará, os


mocambos espalharam-se, sendo o mais famoso o da povoação de Juaba,
em Cametá que tinha cerca de 300 escravos fugitivos. Era dirigido por uma
mulher chamada Felipa Maria Aranha, que permaneceu até 1895, já após a
Abolição.

Pesquisas comprovam que o mocambo do Cumá, em Alenquer, conforme o


Censo de 1950 tinha um bairro negro, chamado Luanda, numa evocação de
Angola, o qual possuía 4.000 habitantes, à época.

Dado curioso, confirma que os mocambeiros ao fazerem amizade com


outros companheiros conseguiram localizar familiares negros do norte do
Suriname, também escapos dos cativeiros.

O Parlamento Nacional em 28 de Setembro de 1871, aprovou a Lei nº 2040,


chamada de Lei do Ventre Livre, beneficiando até ao final de 1887, no Pará,
11.273 filhos livres de mulheres escravas, todos com idade média de 16
anos.

A luta pela Abolição da Escravatura começou em Maio de 1882, através do


Clube Abolicionista Patroni, em Belém, envolvendo grande parte da
sociedade, inclusive lojas maçònicas.

Já em 1884, nasceu a Liga de Emancipação dos Escravos, com idêntico


objectivo.

A seguir no ano de 1887, foi aprovada a Lei do Sexagenário, livrando do


cativeiro todos os escravos negros que atingissem 60 anos de idade.
Beneficiou aproximadamente 633 negros.
No dia 13 de Maio de 1888, a Princesa Imperial Regente Dona Isabel,
através da Lei nº 3353, assinou a Lei Áurea ou Lei da Abolição, extinguindo
a escravatura no Brasil.

Os festejos prolongaram-se por vários dias para celebrar o fim do cativeiro.

Pós proclamação, a primeira iniciativa do Presidente do Legislativo


paraense foi criar a “Regulamentação para o Serviço de Criados”, visando
colocar o negro livre no gozo das suas prerrogativas de cidadão e que
entrava decididamente no mercado de ofertas e procura de mão-de-obra
assalariadas.

Neste contexto e a partir de então, o negro passou a representar um papel


importante na sociedade da Amazónia.

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