Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Linguagem, usos e ensino no 43, p.

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NOLL, Volker. O português brasileiro: formação e contrastes. São Paulo: Globo, 2008. Por: Luiz Claudio Valente Walker Medeiros

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oi recentemente traduzido para a língua portuguesa, pelo professor do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da USP, Mário E. Viaro, o livro do filólogo alemão Volker Noll, O português brasileiro: formação e contrastes. Professor catedrático de linguística românica da Universidade de Göttingen, Noll se doutorou com tese sobre o português brasileiro (PB), inserindo-se em uma longa tradição alemã, ao enfatizar os estudos filológicos românicos. Nessa obra, além de esmiuçar o PB em várias de suas características estruturais, textuais e históricas, o autor compara o português falado no Brasil (PB) e o europeu (PE), a fim de deixar clara a natureza das diferenças entre essas duas variantes continentais da língua portuguesa. Em decorrência, encontra-se na obra uma apresentação, ainda que sucinta, do próprio PE. Para alcançar seus objetivos descritivos, Noll compila o resultado de inúmeras pesquisas sobre o PB e a língua portuguesa em geral, fornecendo, assim, retrato muito preciso do PB. Tal precisão descritiva diz respeito não só à estrutura do português americano, mas também à sua história, sempre embasado em testemunhos de relevante credibilidade. Fora isso, levanta questões fundamentais para seu entendimento, como periodização (característica mais ou menos conservadora em relação ao PE) e sua origem (ou não) a partir de um crioulo, entre outros itens. A partir desses dados, o filólogo traça relevante análise a respeito do tema, alicerçado na referida (e desejável) precisão descritiva. A profundidade com que trata o assunto fica explícita em sua bibliografia: ao longo de nada menos do que setenta e cinco (75) páginas, o autor lista mais de 1.540 referências bibliográficas, das quais dezesseis (16) são de autoria do próprio Noll. Tais números, surpreendentes, vêm a comprovar o conhecimento de causa a respeito do assunto sobre o qual o estudioso se dispõe a discorrer. Porém, não é só a quantidade que salta aos olhos na bibliografia:

1. tópicos discutidos em um capítulo. Arcaicidade. Volker. pode-se notar outro mérito da obra: o texto não se contenta apenas em apresentar um retrato preciso do PB. Assim. no sétimo capítulo. Evanildo Bechara. A periodização do PB. fonológico e morfossintático) quanto no lexical e no ortográfico. seja na sua formação. em 7. e 9.1. seja nas peculiaridades do PB.1. Eni P. Dinah Callou. O primeiro deles (3) descreve sincronicamente as características do PB. O português brasileiro: formação e contrastes. O capítulo 7. Dieter Messner. Essa relação de interdependência é mais notória entre os capítulos 3 e 7. Maria Martha P. Testemunhos antigos da diferenciação do PB. i. A questão da crioulização. pois. Romero Silvio (entre sociólogos e historiadores). 3. tornando a leitura simples.1 o mesmo assunto é retomado (em seu viés diacrônico). o autor respeita o mais estrito paralelismo entre os tópicos tratados.188 Resenha: NOLL. Orlandi. com a citação de autores do calibre de Antenor Nascentes. Como se verifica. A formação das peculiaridades do PB em comparação com o PE. Sílvio Elia (entre filólogos e/ou gramáticos). Medeiros. por seu turno. E para facilitar o entendimento do assunto. muitas vezes. 2008. se em 3. As peculiaridades do PB em contraste com o PE. inovação e regionalismo europeu no PB. São Paulo: Globo. mas tam- . Antônio Geraldo da Cunha. tanto no nível estrutural (fonético. são tomados como pressupostos para a leitura de outro. Gladstone Chaves de Mello. seguindo. O PB nos estudos da língua portuguesa. Luiz Claudio Valente Walker. a referenciação entre eles encadeia-se de forma alinhada. A obra se divide em nove capítulos: 1.e. 5. Sherre. a sistemática numérica escolhida no terceiro. O PB no mundo lusófono. Brasil – brasileiro – língua brasileira. José Paranhos da Silva.1 se discutem as vogais orais pretônicas (em sua sincronia). 4. 2. Além disso. Nessa última perspectiva. de Antony Naro. 8.. contatos aloglotas e o lugar histórico do português. mais atuais – é de indiscutível qualidade. trabalha com as mesmas características.1. 6. mas em perspectiva diacrônico-formativa. sempre que necessário. Antônio Houaiss. a bibliografia consultada – na qual constam desde autores clássicos a outros. a qualidade do material listado é excelente. 7. Noll indica a localização do conteúdo anterior tido como imprescindível para o entendimento do tópico de que está tratando. Meyer-Lübke (entre os linguistas) e de Gilberto Freyre. Celso Cunha. sob qualquer dos dois ângulos (qualidade e/ ou quantidade). Esses capítulos são estruturados de forma que os conteúdos neles tratados também se encadeiam.

e. 2011 189 bém defende suas opiniões eficientemente. (2) não há testemunhos de que nessa época o PB no Rio de Janeiro já começava a ser chiado (o chiamento só começa a ser testemunhado no início do século XX. era estigmatizado no território brasileiro (o que. o autor (p. p. (3) não há nenhuma outra característica do PE (em especial a redução das vogais átonas. Noll nega a hipótese de adstrato. Recife. o chiamento do /s/ implosivo no dialeto carioca – considerado. então. linguística e etimilogicamente significativos. então. muito dificultaria a assimilação de traços linguísticos europeus pelos brasileiros). apoiando-se nos seguintes argumentos: (1) há testemunhos de que o PE. e não como [ c]. O desenvolvimento do chiamento em Belém. como consequência da transferência da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 –. usos e ensino no 43. tal como é no PE e o que seria de se esperar se o chiamento carioca fosse uma consequência desse contato. da página 229 à 235. por fim. ou seja. . em áreas não contíguas ao Rio de Janeiro.(descer. fenômeno que ocorreu na Europa no começo do século XIX) que se tenha transferido para o PB carioca. sustentadas em sólida argumentação. demonstra. no Norte do país. a partir de testemunhos e dados. Conclui. (4) o curto período de permanência da Corte no Rio de Janeiro não favorece a referida hipótese. 187-194. Como se verifica. Por exemplo: ao descrever diacronicamente. finalmente. mesmo que elas não sejam as mais aceitas no meio acadêmico. mas é encontrado também no litoral de Santa Catarina. 234) que A constelação geolinguística no Brasil deixa claro ser impossível que uma irradiação do chiamento possa ter ocorrido a partir do Rio de Janeiro para o resto do país.Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Linguagem. há firmeza nas opiniões exaradas. normalmente. nas cidades de Santos. sem estar diretamente associado à presença da Corte portuguesa. nascer) é pronunciado no dialeto carioca como [s]. (5) o encontro consonantal -sc. que também o chiamento no Rio de Janeiro pode ter sido iniciado de maneira independente. na Baixada Cuiabana e em Belém. sem dúvida. (6) a distribuição desse chiamento não se restringe ao Rio de Janeiro e áreas adjacentes. em classes altas).

Além do mais. são. Assim. Outra consideração interessante é a que diz respeito às influências das línguas indígenas (americanas) e das africanas no PB. entre esses testemunhos. o próprio fato de um mesmo fenômeno linguístico do PB ser interpretado pelos estudiosos ora como de influência indígena. de Gabriel Soares de Sousa. ora como de influência africana. O português brasileiro: formação e contrastes. proveniente do tupi a’su.138). em texto de 1511. o autor rebate a tese de que as diferenças entre o PB e o PE sejam devidas a essas influências. e a gramática de Sorares Barbosa.1 mas também outros não usualmente tidos como fontes de pesquisa para o PB. peças do teatro português na segunda metade do século XVIII. filólogo que ele é) que o quinto capítulo inteiro é dedicado ao tratamento dos “Testemunhos antigos da diferenciação do PB”. já constitui indício de que existem sérias inconsistências nas teses indianistas e africanistas. tida como a “certidão de nascimento do Brasil”. no diário de bordo da Nau Bretoa: nele. há o registro de tuim (“periquito”) e sagüi. que tende a ser mais conservador. a africativização de /t/ em [t ]. a Carta de Caminha. que provêm do tupi” (p. u’su. uma vez que já são observadas na língua portuguesa antes de sua implantação no território brasileiro. Em vários pontos de seu texto. São Paulo: Globo. documentadas em português. Noll considera. não só os mais tradicionalmente aceitos como fontes de pesquisa para o PB. o primeiro documentado é o adjetivo sufixoide -(gu)açu. na qual se atestam – direta ou indiretamente – particularidades do PB. Isto posto. 2008. registrado em texto do século XVI. pois nela não há nenhum vocabulário tupi. Continuando sua análise. para Noll. Noll não inclui. o autor lista e analisa uma série de testemunhos. “gato-do-mato grande”. caracteriza linguisticamente o “brasileiro”. Quanto aos empréstimos gramaticais. Termos oriundos dessa língua indígena americana são encontrados. . há uma seção inteira dedicada ao testemunho de Hans 1 Como O Tratado Descritivo do Brasil em 1587. com o significado de “grande”. que as diferenças entre o PB e o PE são causadas pela própria deriva (drift) do PB. fundamentar todas essas teses a partir de textos é tão importante (como não poderia deixar de ser. de 1822. Por exemplo. Volker. como salienta o autor. Luiz Claudio Valente Walker. Medeiros. entretanto. que. então. que são “as primeiras palavras do Brasil. por exemplo. a negação repetida (“não quero não”) e a nasalização heterossilábica (cama [‘ ]) – que já foram consideradas influência tanto de línguas africanas como das indígenas-. pela primeira vez.190 Resenha: NOLL. arcaísmos do PB. no termo maracajá-açu. por vezes.

“capivara”. entre os quais. encampando a ideia de transmissão linguística irregular. entre 1550 e 1555. registram-se ineditamente trinta e dois (32) termos ainda hoje correntes. 141). 2011 191 Staden. na comunhão com a natureza do dia-a-dia. 186). utiliza <e> por [i] (“mezericordia”. 187-194. p. defendida por alguns autores como fundamental para a instituição do PB. “vevia”). 151). posicionando-se claramente contra a hipótese de o PB ser fruto de um crioulo (ou semicrioulo) de base portuguesa com influência indígena e/ou africana. Aqui está mais um ponto em que o filólogo apresenta uma severa discussão a respeito do tema. (p. Nessa obra. com certa atenção. 169) Tal registro é utilizado por Noll para relativizar (ou mesmo negar) a teoria da crioulização. os hábitos e os habitantes brasileiros a partir de sua segunda estada no Brasil. Segundo essa hipótese. óbvio. favorecendo a opção de Noll por incluir essa obra estrangeira entre os testemunhos que se devem pesquisar para a descrição do PB. que descreveu detalhadamente. pois a autora escrava relata a violenta (e sofrida) vida na fazenda de um capitão.Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Linguagem. usos e ensino no 43. os portugueses. Apesar de Staden ser alemão. O filólogo analisa: Entre as características que contém. por exemplo. O autor também analisa. Como se pode notar. sob a variante cativare. Trata-se de um registro extremamente emocional. a qual é típica da língua popular brasileira. pertenciam “preponderantemente também ao léxico dos europeus que viviam no Brasil” (p. em 1557. no contexto da obra de Staden (e de outras a ela contemporâneas). todas as discussões são fundamentadas a partir de clara definição . Além disso. “o aprendizado do português por meio de falantes indígenas e africanos teria ativado um processo de transmissão irregular da língua que se poderia caracterizar como ‘tipo mais leve do que o que se dá na pidgnização/crioulização típica’” (p. a carta que uma escrava escreveu de próprio punho em 1770. as palavras brasileiras de origem indígena. são notáveis a epêntese (“adeministrar”) e a metátese (“Porcurador”). a autora transmitiu oscilações na realização da pretônica de /e/ [e i] (“ordinando”) à escrita e. como. elencadas em seu texto. percebe-se que “a comunicação oral da antiga sociedade colonial. era permeada de numerosos tupinismos” (p. Além do mais. portanto.

PB [o]). tonicidade. fome. a submeter-se a uma nasalização heterossilábica (PB [k ’t mus] . PE [ ] vs. para assimilar satisfatoriamente o texto.. mas também o que alicerça a hipótese contrária à sua.192 Resenha: NOLL. São Paulo: Globo. por meio do fechamento da vogal (PE prémio [ ] vs. neutralização. talvez não seja adequado trabalhar essa obra em nível de graduação: muitas vezes. em um pequeno excerto. mas com uma leitura muito mais acessível do que levariam a supor a complexidade do tema e a profundidade com que esse é tratado. uma característica da obra . deve-se observar que vogais tônicas em sílaba aberta diante de nasal tendem. No entanto. o autor fornece um livro denso em seu conteúdo. O autor não parte de uma discussão a respeito dessas disciplinas e de seus conceitos. [. Com isso. apresenta vários conceitos complexos e rapidamente transita de transcrições fonológicas (entre barras) para fonéticas (entre colchetes). levando em conta não apenas aquilo que sustenta as hipóteses de Noll. Medeiros. o ideal seria que se fizesse uma leitura dirigida. diante de nasal. esperando de seu leitor o domínio do referido conteúdo. cite-se a passagem em que se trata das particularidades fonéticas e fonológicas do PB. no português brasileiro. sílaba aberta.. Consequentemente. O português brasileiro: formação e contrastes. oposição fonológica. o status de alofones. Como exemplo.).. Ao lado disso. Percebe-se claramente que. Luiz Claudio Valente Walker. acerca dos conceitos nelas envolvidos. PB prêmio [e]. em português brasileiro. caso se opte por trabalhá-la ainda no nível da graduação.] As oposições fonológicas entre /e/ : / / e /o/ : / / são neutralizadas. Volker.. parece mais adequada a leitura da obra em pauta no nível de pós-graduação. Logo. Porém. são necessários pressupostos que o graduando pode não ter ainda bem sedimentados. no português brasileiro. Todavia. consoante nasal e fechamento da vogal. há utilização de conceitos próprios aos que já são. mesmo assim. mas os têm como necessário conhecimento prévio para o entendimento do que se discute. iniciados na linguística: alofonia. Ilustra o fato o seguinte trecho: As vogais [a] e [ ] possuem. nasalização (heterossilábica). pelo menos. 2008.

187-194. p. usos e ensino no 43.320. no prefácio da edição brasileira. no entanto.org foi acessado em 6/6/2007. a descrição científica do português brasileiro. o original alemão é de 1999.. conheceu um enorme desenvolvimento. 2011 193 que atenua a dificuldade conceitual seria o fato de ela vir sempre muito bem exemplificada. 2004). entre os quais se destaca Por trás das palavras: manual de etimologia do português (São Paulo: Globo. a partir da edição alemã. se erros no campo da revisão houver. Nota à parte deve ser dada à tradução feita por Mário E. É o próprio Noll. Como falam os brasileiros.Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Linguagem. em alguns pontos. A edição alemã em que se pauta a versão brasileira foi preparada nos anos entre 1994 e 1996.corpusdoportugues. doutor em Filologia Românica (ambos pela USP). Toda essa formação soma créditos à tradução do texto. indica-se ao leitor (p. Em resumo. sobretudo no Brasil. deve se tornar leitura imprescindível aos estudantes e estudiosos das áreas de história. Segundo o autor. de Yonne Leite e Dinah Callou. não só se encontra nas Referências como é citado na página 319. lançado em 2002. passam imperceptíveis.] Com isso. Digna de nota. o que se reflete no grande número de publicações disponíveis. atualizada em todos os capítulos e significativamente ampliada. apontadas ao longo do texto. com o devido cuidado por parte do autor. há razões práticas para a elaboração de uma versão revista. Desde então. com data posterior. formação e características atuais do português no Brasil. que explica tal discrepância. . Além disso. também. mesmo em se tratando de uma primeira edição. A publicação brasileira leva ainda vantagem em relação ao original europeu: segundo a ficha catalográfica. nota 57) que o site www. percebe-se uma atualização entre o original alemão e essa tradução. Viaro.. que é especialista em tradução do alemão. e publicada em 1999. Assim. autor de artigos e livros sobre a história do Latim ao Português (e de outras línguas românicas). nota 23. [. a edição brasileira (mais atual até do que a edição alemã). não são poucas as obras listadas nas referências bibliográficas. sempre atento a esses problemas. Por exemplo. sem o crivo do grande público. é a circunstância do próprio autor participar da revisão – e.

194 Resenha: NOLL. Yonne & CALLOU. Recebido em: 13/03/2011 Aceito em: 16/06/2011 . Dinah. Referências NOLL. São Paulo: Globo. Volker. Mário E. 2004. O português brasileiro: formação e contrastes. alemã: 1999. [ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. O português brasileiro: formação e contrastes. or. Luiz Claudio Valente Walker. LEITE. São Paulo: Globo. 2008. São Paulo: Globo. Volker. Medeiros. VIARO. 2002. 2008. Como falam os brasileiros. Por trás das palavras: manual de etimologia do português. de Mário Eduardo Viaro]. trad.

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