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O CRÂNIO DE CRISTAL

Escritor Valente

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DEDICATÓRIA

“Dedico este livro aos meus pais, irmãos, esposa, filhos, amigos e em particular aos leitores, razão principal desta obra.”

valente@estadao.com.br

Paulo Valente Ago/1996

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1 A Musa Após o término de um dia estafante de trabalho no escritório, resolvi ir para casa. Larguei o que estava fazendo pela metade, afrouxei a gravata e fui embora pilotando atentamente minha motocicleta no meio do trânsito maluco. Graças a Deus consegui chegar inteiro ao agradável e doce lar. Então, agradeci por mais este dia, por ter resistido a mais uma batalha em meio a milhares de motoristas neuróticos que estão soltos na cidade de São Paulo, incluída entre as mais violentas do mundo. Imensa e agitada, São Paulo revelava no trânsito conturbado as repressões e aflições que nós, seus habitantes, somos submetidos. Contudo a cidade apresentava uma face benevolente, oferecendo inúmeras oportunidades a seus moradores, e foi justamente por isso que mudei do interior para cá. Quando cheguei aqui pela primeira vez, acostumado com a vidinha pacata interiorana, fui surpreendido pelo ritmo intenso desta terra de mil contrastes. Onde podese ouvir o barulho do trânsito rugindo noite adentro feito uma fera acuada. Ao chegar ao meu apartamento, mal abri a porta, fui logo tirando os sapatos e as roupas. Totalmente nu, debrucei-me à janela para contemplar aquela cidade que não dorme nunca. Do alto de um esguio edifício branco de quinze andares, que parecia uma torre espetando o céu, vislumbrei a imensidão de São Paulo no exato momento em que o sol sumia no horizonte e a escuridão envolvia assustadoramente as ruas dos bairros distantes, apesar das milhões de lâmpadas acesas espalhadas no vasto manto negro. Era surpreendentemente fantástica a vista panorâmica que descortinava-se à minha frente, na qual o moderno contrastava com os pobres barracos da favela, não distante daqui. Daquele ponto de observação privilegiado avistei outras "torres" brilhantes plantadas no horizonte, propiciando efeitos futuristas. Lá embaixo, nas ruas, os carros trafegavam morosamente, indiferentes à poluição que causavam. Contemplando calmamente a paisagem, relaxei os músculos e, sobretudo, a mente. Em minutos revigorei as energias supostamente perdidas. Seguramente, naquele horário, a maior parte das pessoas já encontrava-se na segurança de seus lares. As noites, são sempre perigosas e traiçoeiras, verdadeiras cúmplices das violências extremadas, dos desastres e dos assaltantes. Por isso, a população acabou vivendo "enjaulada" em quatro paredes, para grande felicidade da indústria da segurança, que se desenvolveu a plena carga: armas pessoais, sistemas de segurança, guarda-costas e seguros de todos os tipos. "Todo cuidado é pouco", proclamam as propagandas desta "indústria" rentável. Lamentavelmente, os fatos que ocorrem diariamente não desmentem a afirmação. Eu mesmo, temendo a violência desenfreada dos marginais, cogitei comprar uma arma de fogo e andar com ela; mas acabei concluindo que não seria uma boa solução. Sendo assim, praticamente indefeso neste mundo cão, só me restava a fé na proteção divina. Tempos atrás, numa destas contemplações, descobri que na "torre" vizinha morava uma encantadora jovem de cabelos negros compridos e brilhantes. A primeira vez que a vi, ela também contemplava a cidade da janela de seu apartamento. Sua presença marcante logo me encantou e para poder observa-la, comprei um potente binóculo. Foi desta maneira que me transformei num "espião" assíduo e perseverante.

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Totalmente alheia ao mundo exterior, a jovem vizinha involuntariamente cooperava comigo, à medida que sempre deixava escancaradas as janelas do apartamento. De tal forma que em pouco tempo acabei por descobrir alguns de seus hábitos domésticos, e a intimidade de sua residência. E, logo descobri que tínhamos algo em comum: a nudez doméstica. Entrando porta adentro, a moça libertava seus empinados seios da escravidão do sutiã e Invariavelmente ficava apenas de calcinha sensual preta, que combinava com sua pele bronzeada pelo sol da praia. Era uma mulher alta e bonita, de boca pequena e nariz apontando para o céu. Além disso, possuía um corpo invejável. Bumbum arrebitado, cintura fina e pernas envolventes. Uma verdadeira obra-prima da natureza; esculpida por artistas de primeira grandeza. Ela morava sozinha, entretanto, nunca cheguei a vê-la nos braços de um homem; embora recebesse freqüentemente a visita de muitas pessoas, sendo a maior parte delas constituída por mulheres. Muitas vezes a vi dançar sozinha a beira da janela. Dançava suavemente exibindo seu corpo de uma maneira estranha, que lembrava os movimentos do tai-chi-chuan e do balé russo. Pena que eu não conseguia ver tudo lá dentro. Observando-a dançar indagava a mim mesmo qual seria seu nome, sua profissão e outros tantos detalhes de sua vida particular. E a cada dia minha curiosidade aumentava mais. Eu lembrava os astrônomos antigos que olhavam as estrelas do firmamento e formulavam questões... Como o hábito faz o monge, espiar minha anônima musa acabou transformandose em vício. Por causa dele, abandonei temporariamente os livros e a televisão. No canto da sala formou uma pilha de jornais e revista que nunca li, constituindo prova evidente da minha alienação. O vício dominara-me de tal forma que ficava irritado quando não conseguia vê-la naqueles horários determinados. Desta maneira inusitada tornei-me prisioneiro temporário de uma mulher que sequer conhecia. Um espião obcecado, cujo prazer misturava-se em igual dose com o incômodo e a frustração.

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2 O encontro Que época danada aquela! As coisas não corriam bem para nosso país. Nas ruas, as pessoas não falavam noutra coisa, senão da crise. Uma hidra de inúmeros tentáculos: crise moral, crise política, crise econômica e por aí vai... Diziam que o país estava prestes a cair no abismo. Na Bolsa de Valores pairava um clima de ansiedade e expectativa. Corria boato que o governo lançaria outro plano econômico para tentar debelar a inflação. O rumor fez despencar o índice geral das ações da Bolsa. Era indício que o capital, temeroso, refugiava-se no dólar; para a grande alegria de "doleiros" poderosos, que assim engordavam ainda mais seus patrimônios milionários. Como sempre, os mais ricos continuavam ganhando muito e os mais pobres levando na cabeça. Entretanto, com a crise financeira, não era só o povo que levava a pior. Do outro lado do jogo, alguns investidores menos avisados amargavam prejuízos consideráveis. Os relatórios numéricos sobre a minha mesa indicavam o quanto a economia do Brasil ia mal. Para aumentar as incertezas, eles não mencionavam nenhuma perspectiva de que a situação fosse revertida a curto prazo. O tremor na Bolsa, naquele dia, provocou uma avalanche de serviços extras para mim, justamente quando uma forte indisposição estomacal roubara meu ânimo para o trabalho. Ainda ao final da tarde, eu arrotava o alimento do almoço mal digerido. Quem come fora de casa, nos restaurantes da vida, está sujeito a estes transtornos. Resolvi sair mais cedo do trabalho e ir para casa. Deixei o escritório e fui embora voando baixo com a minha moto. Assim que cheguei ao apartamento, tomei um analgésico e deitei no sofá da sala para descansar. Nem ao menos espiei pela janela para tentar ver minha adorável musa. Logo um sono avassalador transportou-me, sem escalas, para o mundo dos sonhos. Acordei horas depois, mais disposto, quando lembrei que no dia seguinte haveria faxina no apartamento e precisaria comprar alguns produtos de limpeza que haviam acabado. Tremendamente irritado, vesti um conjunto de moletom e fui até o supermercado situado no quarteirão ao lado, na movimentada Rua Teodoro Sampaio, no bairro de Pinheiros. Percorrendo os corredores das prateleiras abarrotadas de mercadorias constatei que os preços haviam disparados. A remarcação evidente sinalizava que metiam a mão no nosso bolso descaradamente. E eu, que já não estava bem, fiquei mais azedo ainda. Porém, a vida que é feita de altos e baixos, havia reservado uma agradável surpresa para mim. Como em conto de fadas, apareceu na minha frente a musa dos meus sonhos. Diante daquela visão inesperada o meu coração acelerou imediatamente, aflorando minhas emoções contidas. A proximidade da moça fez meu corpo vibrar por inteiro, abrindo e ativando todos os seus canais de percepção. Então, não foi difícil para meu olfato descobrir a presença daquela mulher no ar. Estimulado pelo aromado do perfume dela, notei minhas orelhas arderem em brasa. Jamais havia me sentido assim antes.

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Mais que depressa, igual a um gavião que mergulha das alturas sobre sua presa, aproximei-me da moça e sem inibições puxei conversa: − Eu conheço você! - exclamei convicto, fitando seus olhos de mel. − É mesmo... de onde? - indagou-me sorrindo, não disfarçando surpresa. − Você mora em um prédio ao lado do meu. Sempre a vejo na janela. É muito bonita e eu não a esqueceria nunca. Mesmo que se passem cem anos... − Obrigada - sorriu novamente, mostrando seus dentes perfeitos e as covinhas sensuais da face. Percebi prontamente nos olhos da moça que ela gostara de mim. Um tipo incomum de brasileiro: alto, magro, rosto comprido e traços de judeu. Pensando bem, não sou feio, devo estar na "média". Lembrei-me instantaneamente do que escrevera para o jornal, o ex-secretário americano Henry Kissinger. Segundo ele, não se deve desperdiçar uma oportunidade, pois é incerto se ela vai se repetir novamente. Sem perder tempo, parti para o tudo ou nada. A minha oportunidade estava ali. − Meu nome é Daniel e o seu? − Bárbara - respondeu um tanto tímida.

Ela era mais simpática do que eu imaginara, sempre com um sorriso pronto nos lábios e muito brilho nos olhos; sinal de quem está de bem com a vida.

Como Bárbara adorava conversar acabamos fazendo as compras juntos. Conversamos à vontade e rimos muito. Apenas assuntos amenos e engraçados, do tipo que as pessoas conversam quando se conhecem. Apesar dos assuntos frívolos, intuí o quanto ela era uma pessoa culta e de raciocínio rápido. Além da solidão e da "nudez doméstica" descobri que tínhamos outras coisas em comum: O prazer de conversar, a boa leitura, a música e a dança. Se antes já admirava Bárbara secretamente, imagine após conhecer aquela doçura em forma de pessoa, sempre transbordando simpatia. Amavelmente levei seus pacotes até a entrada do edifício onde ela morava. Lá conversamos mais um pouquinho e aproveitamos para o tradicional intercâmbio de números de telefones. Ao despedir-me de Bárbara dei-lhe um abusado e afetuoso beijo no cantinho de seus lábios sensuais. Assim, involuntariamente, roubei um pouquinho do seu batom vermelho. Pela intensidade do brilho de seus olhos, naquele instante intuí o quanto ela gostara da ousadia... Fui embora feliz, envolto no agradável aroma do seu perfume.

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3 Sexta-feira A semana seguinte fora agitada, mas o país não caíra em nenhum abismo, apesar dos boatos plantados por fabricantes de crises. Por conseguinte, o negócio era relaxar para recuperar o fôlego. Afrouxei a gravata, estiquei os pés adormecidos e apoiei-os em cima da lixeira por uns instantes. Olhando através da janela do escritório, notei que o sol acabara de abandonar o horizonte, deixando no céu um rastro avermelhado na direção do poente. A cidade já acendera suas luzes e os milhares de veículos abandonavam o centro em direção aos bairros silenciosos. Na grande e complicada fuga para casa havia excesso de veículos nas ruas e isso causava os intermináveis transtornos de sempre: barulho, engarrafamentos, cansaço, discussões e brigas. Minha cabeça encontrava-se atordoada devido às más notícias econômicas, que resolvi ir embora. Afinal, ninguém é de ferro. Ainda mais que era sexta-feira, dia consagrado para beber cerveja nos bares com os amigos. Sem vacilar, deixei para terminar na segunda-feira aquele relatório maçante sobre a movimentação de capitais estrangeiros na Bolsa de Valores de São Paulo. Despedi-me do pessoal, pequei a moto no estacionamento e sai dali o mais rápido possível. Quando percebi já estava na Avenida Consolação. Rumava rápido e feliz da vida, sentindo um vento frio no rosto, que secava meus lábios. Durante a semana eu havia conversado por telefone com Bárbara e havíamos combinado de sairmos juntos naquela noite. Seria nosso primeiro encontro e isso causava em mim uma brutal ansiedade. Para amenizá-la eu acelerava fundo a moto, que em resposta rugia como uma leoa ferida. Rumei velozmente para o bairro de Pinheiros em meio a um mar de veículos. Dirigia apressadamente naquele trânsito caótico, com atenção redobrada, para evitar qualquer acidente. Um simples deslize poderia ser fatal para mim. Pretendia chegar logo, tomar um banho quente, me arrumar; passar o melhor perfume e ir ao encontro marcado com minha amada Bárbara.

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4 Um bar da Henrique Shaumann O enorme relógio digital fixado em cima de um prédio na Praça Ramos indicava meia-noite em São Paulo. Apesar do frio, os bares e boates estavam apinhados de gente de diversas "tribos" da moda: dark, punk, yuppies e os terríveis carecas do subúrbio. Estes "índios urbanos" de roupas estranhas e penteados malucos, haviam transformado os locais mais badalados dos bairros de Moema, Jardins e Pinheiros em seus territórios de caça. Nas ruas imundas dos bairros da periferia perambulavam gangues de adolescentes à procura de diversão barata ou mesmo de confusão. Já nas esquinas escuras da Avenida República do Líbano, travestis formosos e quase nus disputavam fregueses anônimos, ocultos pelas sombras da noite. No outro lado da cidade, na famosa rua Augusta, o trânsito continuava congestionado por carros e motos lotados de pessoas ávidas por aventuras sem compromissos. Longe dali, o centro da cidade encontrava-se repleto de prostitutas finas ou rampeiras, de mendigos, de vagabundos e de marginais de todos os tipos. É um risco enorme passar por lá naquele horário. Em contrapartida, nos bairros mais afastados, as ruas estavam completamente desertas. Nenhuma viva alma, nem mesmo os cachorros de rua são encontrados. Apenas enormes ratazanas furtivas atreviam-se a sair dos esgotos imundos para revirarem os lixos em busca de alimentos. Observei tudo atentamente através da viseira do capacete. Estava muito frio e ele havia gelado minha face. Agarrada em mim, na parte de trás do banco da moto, Bárbara também olhava curiosa aqueles locais da cidade que desconhecia. Depois deste longo passeio "turístico", resolvemos tomar uns tragos em um bar qualquer da Avenida Henrique Schaumann. Escolhemos um bastante acolhedor, freqüentado por intelectuais da Universidade de São Paulo. Pelo que se notava nas faces e nas vestimentas sóbrias das pessoas que o freqüentavam, a média de idade do pessoal gira girava em torno dos trinta anos. Contrariando o ambiente, entramos no bar trajando calças jeans e jaquetas de couro preto. Ignorando os olhares curiosos, sentamos em uma mesa localizada no centro do salão e solicitamos ao garçom que nos trouxesse vinho quente e queijo. Uma deliciosa combinação que degustamos vagarosamente entre uma conversa e outra. Sentado frente à Bárbara eu olhava fixamente seus olhos meigos, admirando sua simpatia contagiante. Na qual sempre ria das coisas, pondo à amostra seus dentes cor de marfim perfeitos.

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Naquele ambiente esfumaçado e ruidoso, de trago em trago, a nossa conversa fútil prosseguia animadamente. Ao redor, os outros provavelmente faziam o mesmo. A certa altura, saboreando com o olhar aquele doce em forma de pessoa, falei: − Bárbara, conversamos muito das coisas da vida, mas não de nós mesmos. Que tal falarmos um pouquinho da gente? − Bem, o que quer saber? - indagou. − Quero saber algo mais sobre esta linda moça a minha frente, da qual não consigo desviar meus olhos. − Compreendo, tentarei fazer um resumo da minha vida; embora seja difícil falar da gente mesmo, não é? Fiz um sinal afirmativo com a cabeça e ela continuou. − Na realidade, não sei quem sou. Mesmo fazendo meditação ainda não consegui me descobrir por inteira. − Ah, então temos isso em comum pois também medito – falei sorrindo. − Bem... sou filha de pai árabe e mãe portuguesa. Do lado de meu pai "herdei" o gosto pela música e de minha mãe o gosto da dança. E foi ela que me ensinou a difícil dança do ventre. Minha mãe também influenciou-me no aprendizado de ocultismo; o que tornou-se fundamental para mim atualmente. O esoterismo é meu prazer e minha profissão. Sou jornalista e escrevo artigos ligados ao misticismo para revistas e jornais. Além disso, participo da elaboração de um programa de rádio que vai ao ar aos domingos pela manhã. E mais, presto consultoria de grafologia e numerologia para algumas empresas. Também atendo clientes em minha residência. A maior parte é constituída por mulheres; pois os homens em geral não se interessam por esses assuntos. Mas os clientes homens estão aparecendo. Acho que os tempos estão mudando. Sem interrompê-la eu prestava atenção em suas palavras, ao mesmo tempo que olhava para ela como quem olha para uma deusa viva. Bárbara era realmente linda e suas palavras meigas e doces poderiam derreter até os corações mais duros. Ela continuou falando. − Nenhuma mulher gosta de dizer a idade, mas não me importo e vou dizer a minha. Tenho vinte e nove anos bem vividos. Estou contente e em paz comigo mesma. Sempre encaro os fatos de maneira positiva, pois possuo muita fé em Deus. Sou do tipo que gosta de viver a vida, mas sem excessos. Não me considero perfeccionista, embora goste das coisas corretas. Como todo ser humano tenho lá meus defeitos. − Por exemplo? - indaguei. − Quero um mundo mais justo, o que me parece impossível. Outro defeito é confiar demais nas pessoas e elas normalmente estão interessadas um duas coisas apenas, satisfação sexual e dinheiro. Acontece que considero essas coisas causas dos grandes males da humanidade. − Concordo em parte contigo - argumentei - acho que sexo e dinheiro causam o mal se as pessoas permanecerem cegas para a realidade e o sentido da vida.

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− Pois é - continuou ela - de forma que não tive muita sorte com os homens. Conheci um monte deles, todos mal intencionados. Queriam apenas usufruir egoísticamente de mim e depois exibir-me por aí como um troféu vivo. − Realmente faltou sorte - concordei. − Pois é, e se não bastasse, um dia me apaixonei intensamente por um homem, bem mais velho que eu. Chegamos a marcar nosso casamento. Nesta ocasião, eu cursava a faculdade de Jornalismo. Certa vez saí mais cedo do trabalho e resolvi passar em seu escritório sem avisá-lo. Chegando lá, fui logo entrando, pois a porta estava aberta. Qual não foi a minha surpresa, encontrei-o nu em companhia da minha melhor amiga, que eu mesma havia apresentado um dia a ele. − E o que você fez? − Nada! Virei as costas e fui embora sem dizer uma palavra. Foi horrível. Chegando a meu apartamento chorei muito. Depois dormi como uma pedra. No dia seguinte não queria mais pensar no assunto. Consegui esquecê-lo sem guardar raiva ou ressentimento. Inconformado com o azar ele me procurou diversas vezes para se desculpar, mas não dei ouvidos a ele. − Bem, já falei muito a meu respeito, e você? − Também não aprecio falar de mim. Talvez por falta de assunto... - comentei rindo e ela riu também, então continuei. − Acho que já lhe contei que trabalho na Bolsa de Valores como analista financeiro. Vivo sozinho aqui em São Paulo e meus pais moram no interior do Estado. Namorei bastante na vida, porém nenhum namoro deu certo pelo fato de gostar de sair sem ter hora para voltar. E minhas namoradas não entendiam isso. Queriam me aprisionavam a esquemas tirânicos de tempo e posse. Esses namoros contaminados por ciúmes doentios causavam desentendimentos, o que desgastava os relacionamentos. Acredito que uma pessoa não é propriedade da outra. Contudo, não sou libertino quanto possa parecer. Acho que a moral e o respeito são necessários à sociedade, mas sem hipocrisias, claro. Considero-me realizado, tenho um bom emprego e uma boa saúde. Creio estar de "bem" com a vida. Foi o tempo de querer dar murros em ponta de faca... Mas houve uma época que fiquei numa pior. Foi quando perdi meu único irmão, vítima de um desastre de automóvel. Desanimado da vida, quase larguei tudo. Precisei fazer análise para me reencontrar. Graças a Deus consegui sair do buraco, depois de seis meses daquelas cansativas sessões de psicoterapia em grupo. − A morte repentina do seu irmão que foi tão horrível para você, deve ter sido pior para seus pais - comentou penalizada. − Foi mesmo, meu pai até hoje está traumatizado. A minha mãe que é mais espiritualizada superou o incidente. Não gosto de relembrar desse dia tão triste. Quero ter apenas boas recordações do meu irmão. Ele era muito legal, de uma inteligência invejável e muito bondoso. Mas, ele já partiu desta vida. Provavelmente deve estar melhor que nós, quem sabe? − É mesmo - confirmou Bárbara, servindo-se de mais um gole do delicioso vinho.

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O bate papo atravessou a noite e nem percebemos o tempo passar. O bar, que a princípio estava cheio e enfumaçado, agora encontrava-se vazio e melancólico. Da noite agitada restava apenas a movimentação dos garçons que olhavam para a gente, de um modo atravessado, torcendo para irmos embora. Depois deste encontro houveram outros. Muitas conversas e risadas, mas nada sério. Certa noite, quando namorávamos dentro do automóvel de Bárbara, segurei carinhosamente suas mãos. Ela tremeu inteira, da cabeça aos pés e seu coração começou pulsar mais rápido. Meus toques carinhosos despertaram bruscamente o prazer de Bárbara, até então oculto em sua profunda e complexa alma feminina. Sem dizer nada fui beijando seu pescoço provocante e subi até encontrar sua boca sensual. Bárbara se entregou de corpo e alma aos beijos que inundavam-lhes as coxas. Se não fosse perigoso faríamos amor ali mesmo. Assim resolvemos ir a um motel na Rodovia Raposo Tavares, a famosa rodovia do amor. Na segurança do Motel executamos toda sorte de "brincadeiras" eróticas. Aquelas que os amantes conhecem muito bem. Passamos uma noite inteira em gozo, deitando e rolando numa imensa e confortável cama vermelha; de onde víamos nossos corpos entrelaçados refletidos no teto espelhado. Após o êxtase, entramos em uma magnífica banheira de mármore branco que transbordava água quente e espuma perfumada, e fizemos um merecido repouso. Como a nossa sede de sexo ainda não estava saciada, reiniciamos dentro da banheira mesmo, o intricado jogo dos amantes. Ali também, entre abraços e beijos, tivemos os mais profundos prazeres. Tanto do corpo quanto da alma...

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5 O nefasto presidente do Brasil A noite estava muito fria e um vento insistente varria a cidade espantando as últimas pessoas da rua. No céu, uma imensa lua cheia refletia sobre a cidade seu magnífico brilho prateado. Da janela do apartamento notei que muitas luzes dos edifícios próximos ainda estavam acessas. A cidade jamais dorme por inteira. Milhares de pessoas ainda encontravam-se acordadas naquele exato momento. Trabalhavam ou se divertiam em recintos aconchegantes ou em locais sórdidos. Enquanto isso, eu refletia sobre a vida, aproveitando a insônia irritante que não me deixava dormir. Pensava no clima de insegurança que varria o país de norte a sul e que influenciava negativamente o pregão da Bolsa de Valores. O povo aguardava ansiosamente a cassação do mandato do presidente do Brasil, um tremendo vexame prestes a ser registrado na história do país. Simultaneamente, os políticos corruptos causavam grandes rombos no orçamento Federal. Eles agiam como ratos esfomeados dentro de um armazém de queijos. As incertezas da política refletiam na bolsa de maneira negativa, provocando tensão e ansiedade nos investidores. Em resposta, os “barões do dinheiro “ transferiam suas aplicações para outros setores que julgavam seguros na economia. Os mais temerosos, acreditando no agravamento da situação, remetiam rios de dinheiro para o exterior. O quadro negro do desemprego e da inflação aumentava vertiginosamente. Um período recessivo que causava muitas desilusões ao já sofrido povo brasileiro. Talvez fossem esses os motivos centrais que perturbavam meu sono. Para passar o tempo resolvi dar umas voltas pela cidade. Saí só enfrentando o inverno rigoroso nas ruas. Para resistir ao frio me equipei todo; casaco de couro, calça grossa, capacete, botas de cano alto e luvas. Convenientemente agasalhado, rodei nas ruas desertas da cidade por horas a fio. Pilotava prazerosamente a máquina sem destino algum em mente. Rodei tanto e quando dei por mim descobri que estava perdido no distante bairro Jardim Japonês. A esta altura o marcador de combustível estava no vermelho. Precisava abastecer logo. A qualquer momento faltaria combustível. Parar naquele bairro escuro e deserto seria uma loucura que me preocupava muito. Poderia ser assaltado por criminosos sem escrúpulos, capazes de praticarem maldades absurdas. Isso quando não matam friamente as vítimas só pelo prazer mórbido de vê-las morrendo em suas mãos. Desolado, não encontrava ninguém para perguntar onde ficava o posto de gasolina mais próximo. E pensar que naquele momento poderia estar dormindo na segurança do meu apartamento; caso não tivesse inventado aquele famigerado passeio...

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A cada minuto meu pavor aumentava mais, fazendo meu corpo suar bastante; e acabou encharcando minhas vestes, apesar do frio que fazia. Permaneci nesta agonia não sei por quanto tempo, até que o milagre o tão sonhado aconteceu. Avistei um imenso luminoso da Petrobrás. Aliviado, agradeci a Deus. Após abastecer motocicleta naquele posto, imediatamente reencontrei a tranqüilidade de espírito. Como se houvesse caído uma ducha de água quente em cima de mim. Com o tanque abarrotado de gasolina, poderia rodar novamente centenas de quilômetros noite adentro. Entretanto, não tinha mais vontade de prosseguir a jornada. Tudo o que eu mais queria naquele instante era voltar rapidamente para a segurança da minha cama quente. Dirigindo velozmente pelas ruas desertas daquele bairro fantasma que tanto me assustava; logo deixei para trás o posto da Petrobrás. Naquele mesmo instante uma procissão de pensamentos vagabundos sobressaltaram minha mente excitada. Pensei em Bárbara, que, naquele momento dormia profundamente e também na crise política. Depois refleti muito sobre mim mesmo. De todos os pensamentos itinerantes, o que mais me encabulou foi o assustador crânio humano que enfeitava a sala de Bárbara. Seria ela uma bruxa? Há tempo que desejava fazer esta pergunta para ela, mas não tinha a ousadia necessária, muito embora nossa amizade possibilitasse tal indagação. Temia que a pergunta pudesse magoá-la e creditava que não deveria bisbilhotar sua vida; nem violar sua privacidade. Exceto, é claro, através do binóculo espião. A "voltinha" pela cidade causou-me um peso tremendo no corpo, que terminou todo dolorido. Os braços, as pernas e as costas doíam bastante. Além da agonia do corpo, surgiu também um sono perturbador. Então passei a sonhar com a minha cama quente... Quando cheguei na segurança do lar, mesmo cansado pelos percalços passados, dormi feliz e realizado. Antes porém, me ocorreu a idéia de convidar Bárbara para um futuro passeio na Ilha de São Sebastião. Um verdadeiro paraíso natural, situado no Litoral Norte do Estado de São Paulo. Trata-se de uma ilha que possui matas intocadas e praias maravilhosas que servem de refúgio para os amantes da natureza. São Sebastião é ideal para retiro espiritual, sobretudo no inverno, quando não é invadida por hordas de turistas inconvenientes.

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6 Ilhabela Aquele dia tão esperado chegara. Com a bagagem em cima da moto, partimos felizes em direção a um paraíso natural – a Ilha de São Sebastião. Trafegando na magnífica estrada Rio-Santos, em velocidade moderada para apreciar a paisagem, decidimos que nosso primeiro destino fosse a antiga cidade de São Sebastião. Fundada na época do descobrimento do Brasil, esta cidade preserva seu patrimônio histórico através da conservação dos casarões coloniais, das ruas estreitas de pedra e dos enormes canhões de ferro apontados para o mar. Lembrando uma era que não voltará mais. Andando pelas ruas de São Sebastião tem-se a impressão de que os escravos negros, os portugueses e os marinheiros de épocas passadas andavam aflitos entre nós; por causa dos navios corsários que assediavam o porto. Horas mais tarde, ainda na estrada, nossas costas doíam muito e o barulho constante do motor do "trator" causava irritação insuportável. Resolvemos parar num restaurante em frente ao mar, para o merecido repouso. Bárbara estava entusiasmada pelas paisagens que vislumbrara pelo caminho. − Puxa... que lugar lindo, - comentou. − É verdade. Mas a ilha é ainda muito mais. Um verdadeiro santuário natural, você verá - afirmei. - É o lugar ideal para energizar o espírito. As vibrações da ilha são altamente positivas. Não vejo a hora de chegarmos lá. Entre um gole e outro de cerveja eu fitava o rostinho encantador de Bárbara; admirando seus cabelos lisos e brilhantes que esvoaçavam ao vento. Seu olhar meigo e carregado de ternura refletia sua própria alma, tal qual a água límpida de uma fonte reflete a luz da lua.

A voz calma e pausada da Bárbara acariciava meus ouvidos naquele instante feliz. - Dan, falta muito para chegarmos?

− Não! Talvez uma hora - respondi. - Também quero chegar logo. Você sabe o quanto sou fascinado pela ilha, não? Barbará acenou afirmativamente com a cabeça e eu continuei. − Tanto é, que li muito a respeito dela e dos seus mistérios. − Então diga-me algo? − No tempo do Império a ilha foi refúgio de piratas. Eles se escondiam do outro lado das montanhas. Em uma baía que fica de frente para o mar aberto, onde está situada a Praia dos Castelhanos. Praia em que deságua um rio cristalino que antigamente abastecia de água potável as caravelas dos piratas e dos traficantes de escravos. E, quando a Inglaterra proibiu o tráfico de escravos para o Brasil; os contrabandistas desembarcavam ali, às escondidas, os negros contrabandeados da África.

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- Naquela época - prossegui - existiam na ilha inúmeras fazendas de cana-deaçúcar onde eram fabricadas saborosas cachaças. Muitos índios habitavam o lugar e segundo uma lenda antiga; relatada em um livro que li na biblioteca de São Sebastião, um deles apaixonou-se pela filha de um ilustre fazendeiro do continente. Todos os dias o jovem índio atravessava o canal para encontrar sua amada. Até que um dia o pai da moça descobriu o namoro. Descontente com o fato, o fazendeiro proibiu os dois de se encontrarem. Mas os amantes continuaram se encontrando, às escondidas. Então o severo fazendeiro tomado pela fúria espancou a filha e enviou-a em exílio na capital paulista. Quando o jovem índio soube do fato, abateu-se em profunda desolação. Desiludido e sem esperança de ver novamente sua amada, procurou retornar à ilha. Abatido que estava pela dor da paixão o índio remava sem ânimo. Para piorar as coisas a sua canoa naufragou em meio a um temporal e, selou seu destino para sempre. Curiosamente na ilha existe uma estranha árvore; que muitos moradores do lugar acreditam que nela habita o espírito daquele índio que morreu por amor. Notando o visível interesse de Bárbara pelo assunto, continuei. − Em torno da ilha, muitos navios afundaram por causa das tempestades e das rochas traiçoeiras. São verdadeiros cemitérios, onde os cardumes de peixes multicoloridos e a exuberante vegetação aquática deram ao lugar o título de "paraíso dos mergulhadores". − No começo do século – continuei - um grande navio de passageiros, chamado Príncipe das Astúrias, naufragou quando passava próximo da ilha. Aquele desastre horrível ocorreu à noite, justamente quando os passageiros dançavam no luxuoso salão do restaurante. No dia seguinte, quando o sol apareceu no horizonte, as praias estavam repletas de cadáveres de homens, mulheres e crianças, todos vestidos com trajes de gala. As mulheres ainda portavam suas jóias preciosas, que proporcionaram grande alegria aos humildes caiçaras que as recolheram... Este naufrágio vitimou quase quinhentas pessoas. − A história da ilha é impressionante... Você realmente conhece a ilha toda? – perguntou curiosa. − Toda, não; ela é muito grande, mas conheço uma boa parte. Passei uma férias inteiras lá e deu para conhecê-la bem. Naquela época, aluguei um quarto, com banheiro conjugado, na pousada da tia Neiva. Este nome homenageava a mulher de um pescador iletrado, mas muito esperto; que conseguiu juntar dinheiro suficiente para construir a pousada. Esta senhora que também não sabia ler seu próprio nome; era igualmente esperta e simpática. Foi ela quem me deu dicas preciosas sobre os encantos da ilha. Naquela época fiquei sabendo de uma antiga lenda, que afirma que piratas do passado teriam enterrado um tesouro enorme na ilha. E que até hoje não foi encontrado. − Já pensou se a gente encontrasse o tal tesouro? - indagou Bárbara, sorrindo. − Não seria nada mal - respondi -, mas isso é muito difícil. Talvez seja apenas uma lenda. Quem sabe? Em todo caso, o local provável, onde estaria oculto o tesouro, é montanhoso e de difícil acesso. Um pesquisador que reside na ilha tenta há anos encontrá-lo, sem sucesso.

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Hospedados no gracioso Hotel Petit Village, onde se avista o verde-mar apinhado de barcos e as montanhas azuladas do continente; Bárbara e eu passamos alguns dias memoráveis na ilha de São Sebastião. Divertimo-nos a valer visitando praias maravilhosas e montanhas de densa vegetação, onde conhecemos muitos rios de águas límpidas e suas cachoeiras colossais. Contudo, não pudemos nadar em suas águas, pois o forte frio desestimulava qualquer aventura. Em razão disso as praias encontravam-se desertas e monótonas. Aproveitando a ausência de pessoas, empreendemos longas e tranqüilas caminhadas pelas praias. Nas quais nossos pés descalços nem pegadas deixavam, pois as marcas eram logo apagadas por um vento gelado que soprava insistentemente a areia. Por vezes sentávamos no chão á maneira hindu para contemplarmos o horizonte. Ali, ouvindo apenas o murmúrio do vento e das ondas que morriam na praia, fazíamos longos períodos de meditações. E, juntos, alcançamos a grande paz íntima, que é a base de toda serenidade. Caminhando pelas estreitas estradas de terra que cruzam as montanhas verdejantes, percorremos um mundo fantástico. Atravessamos matas apinhadas de pássaros alegres, que não se incomodavam com nossa presença. Conhecemos rios de águas puras e cachoeiras fascinantes. Com certeza, as impressões por nós recebidas daquele paraíso natural foram gravadas para sempre em nossas mentes. Os dias que permanecemos na ilha propiciaram uma aproximação substancial com a natureza, tanto em corpo quanto em espírito. As pessoas das cidades pensam que estão separadas da natureza, no entanto, nascemos dela e a ela pertencemos. A natureza é tudo, inclusive o ar que respiramos. A natureza é o princípio, meio e fim. Dela viemos, dela pertencemos e a ela voltaremos. Observando os pássaros alegres nas copas das árvores, a gente percebe o ciclo da vida e o quanto a natureza é complexa. Por falar nos pássaros, é inacreditável a precisão com que alguns deles apanhavam os peixes, depois de um mergulho certeiro nas águas do mar. Quando isso ocorria, aquelas aves sempre saíam do mar levando no bico um peixe que se debatia desesperado. Em uma das andanças pelas praias desertas, não resisti mais à curiosidade e perguntei: − Bárbara, faz tempo que pretendo perguntar uma coisa a você, mas tive receios... − Pois pergunte - exclamou curiosa, olhando para mim. − Bem... conheci seu apartamento e gostei muito da decoração. É moderna, agradável e os móveis são confortáveis. Digo que tem bom gosto. No entanto aquela caveira humana, encima da estante me intriga. Bárbara ouvia atenta. A expressão de seriedade de sua face espelhava uma enigmática beleza. Prossegui a fala, espiando dentro de seus olhos úmidos e brilhantes, procurando interpretá-los.

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− Aquele crânio humano traz um clima tétrico ao ambiente do seu apartamento. Ele contrasta com tudo que por lá se vê. Acaso você é adepta de bruxarias? - perguntei decidido. − Ah, não...! Pode ficar tranqüilo. Sou ocultista, espiritualista e humanista. De maneira alguma eu seria capaz de fazer qualquer bruxaria. E, se o fizesse, iria contra meus princípios. Aliás, esse conceito ocidental de bruxaria é relativo. Você sabe... − Sei - respondi, continuando. - Por ordem da Santa Inquisição, diversos cientistas acabaram queimados em fogueiras, acusados de praticar bruxarias. No caso falo de bruxarias ligadas ao mal e ao demônio, cujo culto principal inclui sacrifícios de pessoas e animais. Bárbara sorriu encabulada, mostrando seus dentes perfeitos de fazer inveja a qualquer um. Não desviando seus olhos dos meus, ela balançou negativamente a cabeça e falou. − Não sou adepta de bruxarias, nem de seitas ligadas a ela, eu juro - falou beijando seus dedos em cruz, sorrindo. – Essa estória o crânio começou quando eu tinha doze anos. Naquela época, tive um sonho inesquecível. Eu caminhava entre ruínas de antigas edificações, situadas em local montanhoso, de vegetação densa e exuberante. Brincava ali, escalando alguns blocos de pedras perfeitamente talhadas, que estavam empilhadas atrás de um edifício semi-destruído que apresentava cinco janelas. Em um dado momento notei que um reflexo intenso de luz projetava-se de uma das fendas do monte. O reflexo era semelhante àquele provocado por raios solares quando incidem na superfície de um espelho. Curiosa, enfiei o braço naquela fenda e depois de muito custo consegui retirar um objeto lá de dentro. Sabe o que era? perguntou-me. − Não faço idéia! − Era uma réplica perfeita, em tamanho natural, de um crânio humano esculpido em um bloco de cristal de quartzo. Corri com o crânio nos braços até uma fonte para lavá-lo. Ele estava imundo. Depois de limpá-lo notei a perfeição dos detalhes. A mandíbula, por exemplo, era móvel; percebia-se inclusive as linhas de suturas da caixa craniana. Os dentes foram esculpidos com o maior realismo, obra de artista mesmo. Logo ao tocá-lo senti que aquele misterioso crânio possuía poderes ocultos. O crânio de cristal conseguia comunicar-se comigo sem fazer um único ruído. Por absurdo que pareça, chegamos conversar por telepatia. Nossa conversa ocorreu em um nível mental. Eu entendia o crânio, e ele também me entendia perfeitamente. Fiquei deslumbrada com ele. Talvez, em outros tempos, eu o tivesse possuído, pois ele conhecia minha vida e minhas emoções. Engraçado, o crânio apresentava uma aura própria e cintilante; que variava entre o dourado, o prateado e diversos tons de verde. Ao tocá-lo com as mãos pela primeira vez, tive sensação de que já o tocara antes, em tempos remotos.

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Bárbara continuou o relato, entusiasmada. − A aura do crânio causava certo êxtase hipnótico. Creio que ele possuía um certo tipo de “vida” e que encerrava grandes enigmas. Quem o elaborou? Quando? Para quê? Quais os mistérios que ele continha? Bárbara fazia seu relato através de palavras meigas, embora estivesse visivelmente emocionada. − Fiz essas perguntas a ele, mas não obtive respostas. Talvez alguns seres possuidores de imensa sabedoria o tivessem fabricado. Quem sabe? Depois deste sonho fantástico, ocorreram outros, sempre com o mesmo crânio, nos quais aconteceram algumas previsões sobre o futuro. Para meu espanto, estas previsões foram confirmadas. − Por exemplo? - perguntei. − A eleição e a cassação do presidente Collor. Permaneci calado por alguns instantes, matutando; Bárbara me parecia sincera, embora seu relato fosse um tanto fantasioso. − Até hoje não encontrei o tal Crânio de Cristal, mas tenho vontade de encontrálo. − E como o conseguiu aquele da sala? – indaguei. − Para compensar a ausência do crânio de meu sonho, resolvi possuir um que já tivesse servido de morada a um espírito. Então,. adquiri um crânio verdadeiro de um coveiro do cemitério de Vila Formosa, lá em São Paulo. Com dinheiro, você compra até cadáver, sabia? − É mesmo? - fiquei surpreso com a revelação deste fato. − Pois é verdade! O coveiro que me vendeu o crânio confidenciou-me que vende cadáveres. Principalmente de criancinhas recém-nascidas, para serem usados em rituais de bruxaria. No meu caso, comprei o crânio humano pelo motivo que lhe contei, não para praticar atos macabros de magia negra. Jamais... Bárbara e eu passamos longos dias e longas noites naquele paraíso em forma de ilha. Desfrutando o que havia de melhor no lugar e no nosso amor. Quando abandonamos o paraíso, depois de atravessarmos o canal, em cima de uma morosa balsa, demos uma última olhada para trás. Um imenso sol avermelhado, típico desta época do ano, acabava de nascer detrás das altas montanhas. No céu, as aves continuavam os certeiros mergulhos nas águas geladas do mar, em busca do seu peixe. Afinal o mundo não para. Respiramos o ar que apresentava o perfume da orla marítima, e fomos embora. Em pouco tempo ganhamos a estrada, rumo à poluída e fascinante São Paulo. Com a moto caminho devorando a estrada sem vacilar e fazendo seu incômodo barulho. Eu dirigia a moto confiante e decidido, enquanto Bárbara estava feliz e satisfeita.

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7 O Crânio de Cristal Durante certo tempo, pensei no relato que Bárbara fizera sobre o Crânio de Cristal. O caso já teria encerrado se eu também não tivesse passado a sonhar com ele. A princípio imaginei que estes sonhos ocorriam por influência do relato que Bárbara fizera. Supunha que, ao dormir, minha imaginação alcançava altos vôos e dava forma a esses sonhos misteriosos. Esta era minha explicação simplista para o fato. Sucedeu-se, porém, que aqueles sonhos tornaram-se freqüentes, com nitidez impressionante. Nos quais eu também conversava mentalmente com o crânio, tal qual Bárbara havia dito. As mensagens espirituais transmitidas através dele eram maravilhosas realmente. Conversamos mentalmente sobre os sentimentos mais sublimes. Sobretudo das emoções mais profundas do espírito. Invariavelmente, a comunicação com o crânio ocorria no universo cósmico do inconsciente; no qual os sonhos são a expressão máxima. Percebi que havia entre nós dois uma ligação muito antiga; que compreendia eras remotas e sombrias do mundo. Todavia, eu não conseguia identificar a origem, por mais que me esforçasse. Nestes sonhos, tão logo o crânio aparecia, sucediam-se dentro dele; imagens de pessoas e lugares estranhos, que a História tradicional pouco conhece. Surgiam animais pré-históricos e cidades que foram sepultadas no tempo implacável, que a tudo transforma. O crânio funcionava semelhante à bola de cristal das ciganas, que pode-se prever o futuro ou observar o passado. As vezes, em torno do crânio surgia uma aura pulsante semelhante à luz de néon da cor verde. Bárbara, mais do que nunca, tinha razão. Dada a insistência desses sonhos, interessei-me pelo assunto, de modo que passei a pesquisar tudo que o fosse relacionado a ele. Descobri que os arqueólogos encontraram crânios de cristal em diversas partes do mundo. Dois deles, ambos em tamanho natural, estão nos museus de Londres e Paris. O mais famoso crânio de cristal está em posse de uma mulher, que é filha do cientista que o encontrou nas antigas ruínas maias, na Guatemala. Conforme consta no livro "Mistérios dos Crânios de Cristal Revelados", de Sandra Bowen, F. R. "Nick" Nocerino e Joshua Shapiro. Essa mulher, de nome Ana Mitchel Hedge, é uma grande pesquisadora do assunto e, mantém o crânio em exposição aberta ao público, permitindo que cientistas interessados façam pesquisas com ele. O Crânio de Ana M. Hedge é uma cópia perfeita, em tamanho natural, esculpida por hábeis e misteriosos artesãos sabe-se lá de onde. Comenta-se que o tal crânio possui poderes de curar certas doenças através das vibrações harmônicas e positivas emanadas da sua aura. Inúmeros relatos confirmam casos de pessoas doentes que alcançaram a cura simplesmente quando o visitaram. Pesquisando descobri que podem haver outros crânios iguais a ele no Tibet e no Peru; mas que não foram encontrados ainda.

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Comentei o assunto com Bárbara e ela animou-se ao saber que existe possibilidade de encontrar um Crânio de Cristal no nosso vizinho Peru. Assim sendo, cogitamos, dar um pulo lá e tentar achá-lo. O Peru é imenso. Achar o crânio naquele país seria muito mais difícil que encontrar uma agulha num palheiro. Mas, como a esperança é a última que morre, talvez num dia, de posse de alguma pista concreta, nós possamos ao encontrá-lo no Peru. Neste ínterim, li mais coisas sobre a história dos crânios, mas nada que indicasse, um leve vestígio sequer, do seu paradeiro no país dos incas. Tentei esquecer o assunto, mas, dada a insistência dos aparecimentos do crânio em meus sonhos, isso tornou-se impossível. Desta forma, assumi o interesse em ajudar Bárbara a encontrá-lo. Mas de que maneira? As publicações que tratam do tema são raras. Apesar das dificuldades, não desanimei. Então decidi procurar pistas concretas, via viagens astrais. Minha esperança era que adentrando no "Registro Cósmico," pudesse descobrir tão sonhada pista. Pois ali estão registrados todos os acontecimentos do Universo. Relatei minha intenção a Bárbara e obtive prontamente seu total apoio. Daí em diante iniciei uma série de viagens no astral com este firme propósito. Trancado na escuridão do meu quarto de dormir, para que não houvesse interferências de barulhos ocasionais na concentração mental, iniciei a busca de maneira estranha aos olhos da pessoa comum. Isolado do mundo exterior através sentidos da audição e visão, sentava na cama em posição de yoga meditativa e em poucos minutos, libertava minha mente de pensamentos vagabundos e inúteis. Desta maneira bizarra, comecei minha jornada no Astral, onde tempo e espaço não existiam e apenas o espírito podia penetrar. A viagem astral assemelha-se a um sonho nítido e consciente. É como se sonhasse acordado. Neste "sonho" pode-se estar em qualquer parte e em qualquer tempo perceber as coisas sem precisar estar presente fisicamente. Pois apenas o espírito viajava. Estas viagens não são nenhuma novidade. Os hindus e tibetanos já empreendiam essas viagens há milhares de anos. Qualquer esotérico sabe deste fato. Assim, por diversas madrugadas vaguei pelo Astral, mas não vi nada que se relacionasse ao Crânio de Cristal. Fiz dezenas dessas viagens, sem alcançar sucesso algum. A tarefa era muito difícil, mas mesmo assim continuei obstinadamente a missão, Não sou do tipo que desiste facilmente. Apesar do fracasso aparente, passei por grandes emoções e elas me animaram à continuar em busca das pistas do crânio perdido.

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8 Viagem Astral Certa noite no meu quarto, concentrei toda minha força mental em um único objetivo; viajar no Astral, em busca do Crânio de Cristal. Em pouco tempo a respiração abdominal tornou-se imperceptível e o coração diminuiu a pulsação. A escuridão, que antes era total, foi subitamente iluminada por um clarão dourado. A seguir, senti o exato momento em que meu espírito abandonou o corpo, imóvel feito estátua. Liberto do pesado fardo que representa o corpo físico, o espírito navegou rápido rumo ao infinito, como muitas vezes o fizera antes. Lembro perfeitamente que inúmeras imagens sucediam-se aleatoriamente como se fossem cenas de diversos filmes ou mesmo de sonhos diferentes. De certa maneira, eu vivenciava as sensações como se estivesse acordado. Era uma espécie de "sonho consciente", que aguçava minhas percepções sensoriais. Neste "sonho", meu espírito visitava lugares incríveis, que não se pode nem imaginar. Certa feita, adentrei o espaço astral na velocidade do pensamento e aproximei-me dos bilhões de pontos luminosos espalhados por toda parte, que são as estrelas. Sendo um viajante privilegiado do Astral, pude percorrer paisagens virgens: estrelas, planetas, satélites, asteróides, meteoros, nuvens de gases, cometas e galáxias. Enfim, percorri na velocidade do pensamento uma infinidade de corpos celestes, componentes do gigantesco mosaico cósmico, que flutuam eternamente na escuridão incomensurável do universo. Em alguns pontos do cosmo a concentração das estrelas era enorme. Tratava-se das galáxias e havia milhões delas espalhadas, flutuando no espaço sem fim. Continuei aproximando-me das estrelas distantes, sempre em direção ao sol. Chegando próximo dele, notei que seu brilho dourado intenso escondia o céu de onde eu vinha. Em sua grandeza o universo passou a ser uma coisa só. Um interminável oceano de luz dourada, igual à da chama de uma vela. Não existia mais nada além disso. Logo após, afastei-me do Sol e logo sobrevoei Marte. A primeira coisa que me chamou a atenção, foi seu solo estéril e pedregoso. Em tempos remotos aquele solo miserável fora muito fértil, e possuíra uma vegetação formosa e variada. Da altitude em que me encontrava, vi perfeitamente um rosto gigantesco esculpido numa montanha. Provavelmente seus escultores tivessem extintos à milhares de anos. Foi emocionante verificar "in loco" esta escultura que antes só havia visto em uma fotografia tirada pela NASA, que revistas e jornais do mundo inteiro publicaram. Até hoje aquela foto gera controvérsias. Que civilização esculpira tal rosto? É ou não verdadeira? Localizei também, no solo de Marte, o maior vulcão conhecido do sistema solar, o NIX OLÍMPICA, cuja base gigantesca mede aproximadamente quinhentos quilômetros de diâmetro. Na velocidade do pensamento larguei Marte para trás. Num passe de mágica, aproximei-me de Júpiter, que logo cresceu à minha frente, até transformar-se em uma enorme esfera. Este gigante do nosso sistema solar era muito deslumbrante. Na verdade, tudo no espaço sideral era incrivelmente belo e fascinante.

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Dei umas voltas em torno de Júpiter e observei curioso, as imensas manchas arredondadas de sua superfície. O planeta é todo salpicado dessas manchas escuras e misteriosas. Na órbita de Júpiter gravitam diminutas luas, enfileiradas, uma após outra, que, refletindo a luz dourada do sol, proporcionavam um espetáculo sem igual. Abandonei repentinamente o gigantesco planeta e, num piscar de olhos, fui circundar Saturno, o mais bonito planeta que conheci. Este planeta é envolto por diversos anéis formados por milhões de pedaços de rochas que gravitam em sua órbita, formando uma espécie de auréola sideral. Mal comecei a admirar as paisagens de Saturno, e o cenário mudou bruscamente. Novamente num passe de mágica, já de volta a querida Terra, avistei as quedas de água que formam as cataratas do Iguaçu. Toneladas de água precipitavam-se das alturas dos rochedos, provocando um barulho ensurdecedor, ouvido a léguas de distância. A região do leito deste rio é muito rochosa, por isso as águas têm dificuldade em seguir seu caminho natural. Nas margens do rio havia uma vegetação verde, exuberante. Acima dela, sobrevoavam bandos de pássaros de bico longo e pescoço em forma de "s", cuja plumagem branca era sem igual. Enquanto o bando cruzava o céu em algazarra, pude sentir a umidade da névoa fina que brotavam das cachoeiras. Nunca imaginei que um dia andaria pelas ruas de Katmandu, capital do Nepal; mas, graças ao astral, isso me foi possível. Passeando por suas estreitas ruas, notei o cheiro característico do lugar, em meio ao ar frio e rarefeito. Um misto de ar de montanha e cidade. Entretanto, não havia vestígio algum de poluição; ma vez que lá existem poucos veículos e fábricas. A movimentação de pessoas era intensa nas ruas de Katmandu. A maioria vestiase à maneira ocidental, principalmente os homens; cabelos curtos, calças jeans e camisetas. Na calçada um camelô ajeitava sua mercadoria em cima de um tablado de madeira. Em frente dele um homem segurava uma enorme vara recurvada sobre seus ombros; em cujas extremidades estavam pendurados pesados fardos de feno. Andei tranquilamente na calçada, em meio à multidão que não me via. Aquela rua toda revestida por pedras, estava enfeitada por milhares de bandeirinhas brancas que lembravam nossas festas juninas. Posteriormente várias cenas sucederam-se. Em uma delas encontrei dezenas de monges budistas carecas, trajando grossos mantos por causa do frio. Alguns eram jovens; outros, mais idosos. E todos permaneciam calados e com os pensamentos distantes. Os monges olhavam para lugares diferentes. Um deles pareceu fitar meus olhos, com seu olhar sereno e enigmático de oriental.

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Voando no astral, do Nepal para a Índia, sobrevoei as altas montanhas de Daransala. Naquela cidade localizei a residência do Dalai-Lama. E, não resistindo a tentação da curiosidade, penetrei furtivamente no interior da casa. Ele conversava com um jornalista brasileiro no salão de recepção, sentado em uma confortável poltrona verde, ao mesmo tempo em que segurava calmamente as próprias mãos. Através das lentes de seu óculos de aro de metal, o mestre fitava o curiosamente o interlocutor ocidental. Ele até parecia notar minha presença espiritual, olhando de vez em quando na minha direção. Ao lado do venerável senhor, um jovem monge ouvia silencioso a entrevista. Seu traje era idêntico ao do mestre e dos outros monges; dourado, com manto cor de vinho. Do lado de fora da casa haviam quatro crianças sentadas no chão. Elas seguravam potes de arroz sobres suas pernas cruzadas. Entre muito risos e falatórios, as crianças devoravam avidamente os alimentos. Tratava-se de crianças abandonadas, que vivem em creches mantidas por monges budistas, fugitivos da pátria-mãe: o Tibet. País que até hoje é ocupado pela China comunista; que lhe impõe uma ditadura ferrenha, apesar de protestos mundiais. Aquelas crianças, o futuro vivo do povo tibetano, estampavam em seus semblantes a mais pura felicidade infantil. O que demonstrava o bom tratamento recebido daqueles monges. Dando prosseguimento àquela viagem fantástica, continuei vagando por distantes e estranhos lugares. Encontrei pelo caminho as mais exóticas pessoas e vivi as mais hilariantes situações. Uma das últimas cenas que recordei, antes de o meu espírito voltar ao corpo, referia-se às ruinas da cidade de Machu Picchu, no Peru. Que outrora, fora um centro avançado do império Inca. As bucólicas ruínas de Machu Picchu encontram-se no topo de uma verdejante montanha, quase sempre encoberta por densas neblinas. Das montanhas próximas de Machu Picchu sobressai um pico rochoso em forma de cunha; semelhante ao pico do corcovado, no Rio de Janeiro. Ele é nitidamente superior ao das ruínas da cidade e magneticamente sempre atrai a nossa visão. As montanhas de Machu Picchu possuem vibrações especiais e harmônicas. É impossível ir até lá e ficar indiferente a elas. Alguns segundos após meu "passeio" por Machu Picchu, meu espírito caiu em queda livre num interminável túnel sem luz. Tratava-se do irritante regresso do espírito ao doce lar transitório, ali imóvel: o meu corpo físico. A sensação que tenho em tais "pousos" é algo semelhante ao "tranco" sofrido por um paraquedista no momento em que abre o paraquedas. O espírito que perambulava livre no Astral, volta bruscamente a ser prisioneiro do corpo. O choque do aprisionamento do espírito ao corpo físico é a parte chata de uma viagem astral, mas é impossível de ser evitada. Quando abri os olhos, não consegui mover-me. Meu corpo continuava rijo na posição de yoga. Percebi horrorizado que não conseguia respirar. Nunca tinha passado por uma situação dessas antes. Meu coração batia acelerado e o suor brotava abundantemente por todos os poros do meu corpo. Cheguei a pedir ajuda a Deus para poder respirar novamente e sair daquele estado de paralisia compulsória. Eu sabia que as viagens Astrais devem ser supervisionadas por um instrutor experiente, mas nunca havia me preocupado com esse detalhe. Por isso encontrava-se naquela delicada situação – imóvel e todo roxo pela falta de respiração; implorando à Deus o meu restabelecimento.

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Quando o pânico já se apoderava de mim tocou o telefone. Apesar de ter algodão nos ouvidos, o barulho foi suficiente para me assustar. Em razão do susto, consegui respirar novamente. E foi um alívio enorme, quando o oxigênio invadiu meu peito e penetrou na circulação sangüínea. Daí em diante pude movimentar os membros do corpo. Naquele momento, renasci. Após o susto, saltei da cama e peguei o telefone. Entretanto a pessoa do outro lado da linha havia desligando o aparelho. Provavelmente o telefone tocara diversas vezes antes que pudesse ouvi-lo. No dia seguinte relatei a viagem a Bárbara e o sufoco que passei quando meu espírito retornou à "base". Bárbara ficou muito preocupada com o fato, que pediu para uma amiga dela, muito experiente em projeções fora do corpo, para que monitorasse minhas futuras viagens astrais. Depois daquele sufoco passado, resolvi aceitar a ajuda que Bárbara arranjara. Da próxima vez que o meu espírito vagasse no Astral, sua amiga estaria de plantão ao lado do meu corpo inerte; medindo a pulsação, verificando a respiração, ajudando em qualquer eventualidade.

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9 São Tomé das Letras O motorista do táxi, baixinho, barrigudo, cujo vasto bigode negro havia engolido a boca, pisava fundo no acelerador. Apesar de sair atrasado, cheguei pontualmente ao local combinado para o encontro com Bárbara: a Biblioteca Municipal, na Rua Vergueiro, onde já se encontrava estacionado um imenso ônibus colorido, de última geração, que nos levaria em excursão à cidade de São Tomé das Letras, em Minas Gerais. Ao lado da portinhola aberta do ônibus, o guia passava as últimas instruções ao motorista. Um senhor calvo, de meia idade, que palitava os dentes, segurando na outra mão um pano de limpar vidros. Enquanto isso, os demais participantes da excursão, conversavam animadamente na calçada apinhada de bolsas e malas de viagens. Olhei para os lados à procura de Bárbara, mas ela, não havia chegado. A saída do ônibus estava prevista para as nove e meia da noite. Olhei meu relógio e ele acusava quinze para as nove. Ainda sobrava um tenho para a partida da excursão. Bárbara viria com algumas amigas que eu ainda não conhecia. Entre elas estaria aquela que auxiliaria nas viagens ao Astral. Não demorou e logo avistei Bárbara vindo com um bando de moças que riam e gesticulavam muito. Pareciam falar todas ao mesmo tempo. As mulheres surgiram impecavelmente vestidas e maquiadas, chamando a atenção dos homens e causando inveja às outras mulheres. − Oi, Dan! Faz tempo que chegou? - indagou Bárbara, sorrindo, antes de dar-me um beijo afetuoso e um demorado abraço. − Não, cheguei há quinze minutos - respondi. − Ah... quero apresentar-lhe minhas amigas: Márcia Sawan, Rose Bour, Luci Monteiro e Kátia Rocha. − Muito prazer - cumprimentei uma a uma com afetuosos beijos no rosto. − Este é o meu grande amigo, de quem lhes havia falado antes - apontou-me, satisfeita, para as amigas. Após a rápida apresentação entramos no ônibus e fomos sentar nos lugares reservados. Por coincidência, acabei sentando perto das amigas de Bárbara. Tivemos um curto bate-papo, quando o motorista barrigudo tomou seu lugar, fechou a portinhola e movimentou aquele mastodonte espelhado. Da janela, demos uma rápida espiada para fora e reiniciamos a conversa. − Dan, o que achou de minhas amigas? - perguntou-me. − São todas bonitas, não as conheço o suficiente para outros comentários, entretanto simpatizei-me com elas a primeira vista. − Somos amigas há tempos. A Márcia, por exemplo, é um doce de pessoa. Ela é minha parceira da dança do ventre naquela casa de chá que lhe falei. Aliás, foi ela quem me introduziu lá. A Rose é proprietária de uma loja de confecções na Rua Oscar Freire, pratica tai-chi-chuam e é adepta do Zen Budismo. A Rose é uma pessoa inesquecível, um amor de pessoa mesmo, você verá. Já a Luci Monteiro dedica-se ao estudo de cristais e pêndulos.

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Ela possui uma vasta e invejável cultura esotérica. Curiosamente ela nunca separa-se de seu diário, onde anota todos os acontecimentos importantes. E, veja só, Luci faz isso desde a adolescência. Sentada junto a Luci está Kátia Rocha, uma proeminente psicóloga que conhece diversas terapias e técnicas de relaxamento e hipnose. Ultimamente está estudando cromoterapia. Luci trabalha arduamente em uma clínica na Vila Mariana, da qual é sócia. Ela também é uma excelente pessoa. − Onde as conheceu? - indaguei. − A Márcia e a Rose, eu já conhecia de longa data. Sempre estudamos juntas. As outras, conheci-as na Ordem ... digo, na Academia. − Você freqüenta alguma Ordem? − Não! - respondeu-me embaraçada - fizemos amizade em uma academia de ginástica que freqüentamos juntas à muitos anos. Falando francamente, Bárbara, involuntariamente, deixara escapar uma pista. Suas amigas, e inclusive ela, adoravam assuntos místicos. Concluí que elas faziam parte de alguma ordem esotérica e queriam guardar sigilo sobre o assunto. Mas por que razão? Sempre havia confiado em Bárbara, mas no fundo, algo me dizia que ela me ocultava a verdade. Apesar de suas amigas aparentarem boa índole, prometi a mim mesmo que descobriria a verdade, a qualquer custo. Depois do "dinossauro" rodar horas, noite adentro, nas estradas escuras e tortuosas de Minas Gerais; o guia informou que aproximávamos de São Tomé das Letras, nosso destino final. Instantaneamente todos voltaram-se curiosos para as janelas. Do lado de fora, a escuridão e o silêncio causavam certo temor. No céu, não se enxergava as estrelas, pois uma forte neblina invadira a região, fazendo com que o motorista seguisse lentamente, por aquela estreita estrada de terra, perdida naquele fim do mundo. A estrada toda cheia de buracos, mais parecia um queijo suíço, fazia o "dinossauro" sambar para todos os lados. O motorista, com o volante encravado na sua barriga enorme, estava mais atento do que nunca. A escuridão, a neblina, o silêncio e um cheiro estranho no ar conferiam àquelas bandas um certo clima de horror; que lembrava vampiros, almas penadas, lobisomem e monstros. É sabido que o clima de São Tomé das Letras influencia o humor das pessoas, provocando um misto de ansiedade, curiosidade, aventura e medo. Ao meu ver, a agência de turismo realiza as viagens à noite naquelas bandas da serra, justamente para excitar a mente dos curiosos turistas. De repente, no topo de um dos morros, surgiu a cidade das toda nossas expectativas.

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10 Véu de Noiva No seguinte tomamos rapidamente o café da manhã e fomos passear por São Tomé das Letras. No passeio conhecemos a lendária Gruta das Inscrições, que, segundo a lenda local, foi lá que um escravo fugitivo recebeu a revelação de um espírito. Até hoje não se sabe o teor da revelação, mas em todo caso, o escravo deveria contá-la ao fazendeiro que o procurava. Dito e feito. O escravo fugitivo retornou a fazenda e mesmo arriscando a vida, narrou o acontecido ao senhor. A mensagem seria muito importante pois, em recompensa, o escravo obteve a liberdade. Da Gruta das Inscrições originou-se o nome da cidade. Um lugarejo maravilhoso e místico, onde freqüentemente são avistados os misteriosos OVNI, que tanto aguçam a imaginação dos habitantes do lugar. Visitamos o mirante, que é o lugar mais elevado da cidade. De onde se tem uma visão de trezentos e sessenta graus do horizonte verde azulado, que acompanha magnificamente a curvatura da Terra. Quando anoiteceu tivemos sorte; pois a neblina e as nuvens do dia anterior sumiram. Surgindo um céu límpido e estrelado, livre das nuvens, da poluição e do clarão das luzes das cidades grandes. Com um céu assim, quase tocando nossos narizes, pudemos observar a grandiosidade do universo. Dali avistava-se plenamente, a majestosa Via-Láctea, o imponente Cruzeiro do Sul e as principais constelações do Zodíaco. Uma encantadora lua prateada também estava presente naquele céu descomunal. Vasculhamos o céu durante a noite toda à procura de OVNI. Meu binóculo rodava de mão em mão, feito um cachimbo da paz indígena, porém não obtivemos sucesso algum. Ao invés dos discos voadores, o máximo que pudemos avistar foi um pequeno meteorito que deixou um instantâneo rastro verde no céu. Passamos a noite inteira no mirante, olhando o firmamento e meditando; procurando captar as energias positivas do lugar. O vento frio que soprava por aquelas bandas, violava nossos agasalhos e nos fazia tremer. Apesar do frio, passamos uma noite gostosa, conversando à beira de uma fogueira improvisada e bebíamos um delicioso vinho português. Apesar da bebedeira, não fizemos algazarra, de certa forma respeitamos o silêncio do lugar e a meditação das pessoas que estavam sentadas nas bordas do abismo, à maneira da yoga contemplativa. Atravessamos a noite ali acordados e nem notamos o tempo passar. Até que o sol apareceu timidamente no horizonte e todos se levantaram para observar. O sol nasceu gigante e avermelhado e logo subiu ao céu. Havia chegado a hora de dormirmos.

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No dia seguinte visitamos a região de ônibus e nada escapava de nossa curiosidade. Conhecemos matas naturais, grutas e cachoeiras. A mãe natureza estava tão pertinho de nós. Sentíamos a sua pulsação através do vento que lambia nossas faces ou nas folhas secas que caíam das árvores. Para aproximar-me ainda mais da mãe natureza, fiz questão de dar umas voltas com os pés descalços. As vibrações positivas emanadas daquele solo abençoado sensibilizaram a planta dos meus pés e subiram até o sétimo vórtice, situado no topo da minha cabeça. Então, um arrepio tomou conta do meu corpo inteiro e um novo alento surgiu em minha alma. Mais tarde fomos visitar a cachoeira "Véu de Noiva". Enquanto o pessoal admirava aquela magnífica queda d'água. Eu preferi ficar dentro do ônibus para dar um merecido descanso. Quase pegando no sono, vi o famoso diário da Luci em cima do banco do ônibus. Não resistindo à curiosidade, folheei rapidamente suas páginas com a avidez e a eficiência de um espião profissional. Lendo rapidamente os escritos da Luci, pude desvendar um pouco de sua vida íntima. De tudo que li, duas coisas me impressionaram. O primeiro foi o relato escrito nas primeiras páginas: " Jamais havia sentido "aquilo" com outro homem. Embora já houvesse feito amor com dúzias deles. Entretanto, na primeira vez que ficamos juntos, Jorge me fez tremer da cabeça aos pés. Meu peito arfava muito, enquanto meu pobre coração quase saltava pela boca. Quando atingi o clímax, flutuei nas nuvens. Acabava de provar o mais doce dos frutos. Depois desse encontro vieram muitos outros e cada um melhor que o anterior ". Li também outras páginas do diário, que consagravam o desempenho sexual de Jorge e o amor que Luci tanto sentia por ele. Quase no final descobri que o "doce" Jorge sumiu do mapa deixando-a desamparada e com profundas marcas no coração. Daí em diante, desfilou nas páginas do diário uma incrível procissão de homens. Contudo nenhum deles chegava aos pés do amado Jorge e Luci sempre os abandonava. Essa era a sua maneira de vingar o abandono. Na sua mente ferida, não admitia apaixonar-se novamente, pois provavelmente haveria uma outra desilusão avassaladora. A outra coisa que me chamou a atenção foi o seguinte texto: "Eu e a notável Míriam fomos até ao Campo das Labaredas fazer o pagamento combinado. Então aproveitamos para verificar as condições do local onde se realizará a grande cerimônia da "sexta-feira treze" da lua cheia. Desta vez eles cobraram mais caro, mas Miriam habilmente negociou um bom desconto."

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Este relato era a pista importante que eu tanto procurava. Concluí, ainda confuso, que as moças pertenciam realmente a uma ordem misteriosa que praticava cultos estranhos. Jurei que iria desvendar aquele mistério. Não gostaria que Bárbara estivesse envolvida com magia negra, mas tudo é possível... E o que é pior: quem procura, acha...

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11 Viajante do futuro Meu quarto estava totalmente escuro, não dava para enxergar absolutamente nada. Ao meu lado, a meiga Luci prestava assistência a mais uma das minhas viagens ao astral. Na qual partiria em busca de uma pista sobre o paradeiro do Crânio de Cristal. Esvaziei rapidamente minha mente dos pensamentos vagabundos, de modo que, em poucos segundos, meu espírito libertou-se do cativeiro do corpo físico e entrou em uma outra dimensão; onde o tempo e o espaço não são importantes, pois eles sequer existem. logo a minha consciência cósmica foi transportada para um abrasador deserto egípcio; que ofuscava meus olhos. Pela primeira vez vi meu próprio corpo em uma viagem astral. Ele estava vestido igual ao corpo físico abandonado imóvel no quarto. Encontrava-me admirando a paisagem da redondeza, quando surgiram, não sei de onde, uns homens vestidos à moda antiga. Eram egípcios dos tempos dos Faraós. Dois deles encontravam-se em cima de um carro de combate, puxado por dois cavalos brancos imponentes. Os outros estavam a pé. Um daqueles dois, provável oficial do corpo de carros, destacava-se pela elegância. O nobre vestia trajes de cores vivas e em sua cabeça havia uma espécie de capacete azul, arredondado e todinho escamado. Um peitoral de ouro em forma de águia, fixado por uma grossa corrente em torno do pescoço, adornava seu físico avantajado. O nobre comandante também ostentava pesados braceletes com figuras de leões em alto-relevo. O que indicava sua posição de destaque na corte do Faraó. O oficial egípcio olhou-me fixamente e interrogou. − Quem és tu? − Sou um viajante do futuro! - respondi prontamente. Nossa conversa não ocorria por palavras, mas através do pensamento. − Essas roupas são de estrangeiro que desconheço. Deveis ser um espião de alguma potência inimiga. − Não sou! - respondi decidido. - E posso provar... Mostrei, então, ao comandante, meu relógio dourado, de pulseira metálica elástica, da mesma cor. Fitando o relógio com curiosidade, o comandante, subitamente, arrebatou-o de minha mão. Contei-lhe então que aquilo era uma máquina utilizada para medir o tempo. Sem pestanejar, o nobre colocou-o em seu pulso, ao mesmo tempo, que olhava admirado o movimento cadenciado do ponteiro dos segundos. Qual um filme, a cena mudou repentinamente. Sem saber como, fui parar em frente a uma colossal porta de pedra de uma tumba egípcia. Não conseguia mais ver nem perceber o meu corpo. Tornara-me novamente um espírito, cujo corpo encontrava-se imóvel, muito longe dali, em outra dimensão.

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Naquele local inóspito não havia ninguém, apenas um vento forte lambia furiosamente a porta de pedra, provocando um ruído seco e arrepiante. Nuvens de areia, ao sabor dos ventos, varriam o deserto e subiam ao céu, assustando-me. Deixei de lado o receio e entrei na tumba. Logo após ouvi vozes que ressonavam entre as escuras e sombrias paredes; decorada com enigmáticos hieróglifos e figuras coloridas de homens, animais e deuses do Egito. Em seguida, apareceu um sacerdote egípcio gordo, de cabeça raspada, vestindo saia branca de linho e sandália de couro. Em seu peito reluzia um bonito peitoral dourado e azul. O tal sacerdote encarou-me com um olhar hipnótico e foi logo dizendo: − Quando os ventos cessarem e os chacais saciarem a fome, você não se lembrará de nada! Mal acabei de ouvir as palavras do sacerdote, minha consciência regressou bruscamente ao meu corpo imóvel próximo da atenta Luci. Pensando nos acontecimentos, cheguei à conclusão de que havia penetrado no registro cósmico e presenciado acontecimentos secretos da remota antigüidade. Portanto, profanara a história como um intruso indesejável. Essa possibilidade aguçava minha imaginação. Continuei pensando nas palavras do monge: − "Você não se lembrará de nada!" Talvez por esta razão que, após meu encontro com o oficial egípcio, não me lembrava de nada mais.

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12 1994 – um ano marcante Quase ao final do expediente, trancado no toalete do prédio da Bolsa, procurei relaxar a mente observando os pingos de água que caíam lentamente da torneira. Eles causavam um efeito hipnótico tranqüilizador. Era o início do ano de 1994 e havia uma intensa e nervosa movimentação no grande templo financeiro que é na Bolsa de Valores de São Paulo. Maior centro acionário do país. Para se ter idéia a Bolsa detém oitenta por cento das transações brasileiras com ações. Ocupando a segunda posição no ranking da América Latina. O fator que ocasionou esta movimentação nervosa foi a alta na taxa de juros que atraiu o capital estrangeiro ao Brasil refletindo imediatamente no índice Bovespa. As ações das companhias estatais, que em 1991 valiam US$ 3 bilhões, passaram a ser cotadas em US$ 40 bilhões. O mercado agitado movimentava, naquele período, mais de US$ 250 milhões por dia. Era tanto serviço que eu precisava trabalhar dobrado para analisar aquele mar de relatórios e gráficos financeiros. Por isso, estava um tanto estafado pela carga de serviço que me era imposta. Após o expediente, naquele dia, fui embora satisfeito pilotando a possante motocicleta; capaz de subir a mais íngreme ladeira. Subindo a Avenida Rebouças velozmente, localizei pelo retrovisor uma moto que se aproximava e logo me ultrapassou como um bólido. O piloto era um jovem de porte atlético, cabelos cortados ao estilo militar; que trajava calça jeans, camiseta branca e botas de cano alto. O rapaz sumiu na avenida, indiferente ao barulho infernal que sua máquina produzia. Mais adiante, na mesma avenida, encontrei este mesmo motoqueiro, todo ensangüentado; embaixo de um caminhão de bebidas, cercado por uma multidão de curiosos. Instintivamente reduzi a velocidade, mas não parei. Pálido, continuei o percurso, tentando restabelecer-me do choque. Muitos pensamentos ligados à morte e ao destino vieram-me à cabeça. Procurei desviar-me de todos eles. Então, relembrei a espionagem feita no diário de Luci e pensei no mistério que representava o tal Campo das Labaredas. Para minha sorte, eu teria a oportunidade de desvendá-lo ainda este ano; mais precisamente em maio; quando o dia treze cairia em uma sexta-feira de lua cheia... Para isso, bastaria seguir alguma das moças até este campo.

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13 El Kalibi Naquela noite, a Casa de Chá El Kalibi, situada no bairro do Paraíso, estava completamente tomada por um público jovem e alegre. Kátia, Luci e eu conversávamos animadamente, sentados sobre grandes almofadas; ao redor de uma pequena mesa de madeira de aproximadamente quarenta centímetros de altura. Saboreávamos um delicioso e estimulante chá avermelhado, denominado Karkadeh; quando repentinamente chegou uma moça morena, de rosto arredondado e de curvas generosas, que Luci me apresentou. − Esta é nossa amiga Estela Zaid! − Muito prazer - estendi o braço e apertei sua mão macia, sorrindo. Ela prontamente retribuiu com um largo sorriso de dentes perfeitos. A moça acomodou-se à mesa, mas falou pouco; embora estivesse atenta à nossa conversa. Seu semblante sereno expunha no canto da boca um sorriso contido. Em seus olhos expressivos havia um brilho intenso de quem conquistara a paz interior. Nos bastidores da casa, Bárbara e a bela mulata Luíza aguardavam o momento de se apresentarem ao público; que, por sua vez, entre goles de chá, esperava ansiosamente o grandioso espetáculo da dança do ventre. Essa dança, de origem antiga e considerada sagrada, foi inicialmente praticada pelas formosas bailarinas da Mesopotâmia. Dançando elas imitam coisas da natureza, o vento nas areias do deserto, a leveza das plumas ou o arrastar das cobras. A dança do ventre e a suas belas dançarinas, sempre causam impactos consideráveis nas mentes das pessoas. Não é à toa que as mulheres daquela dança são graciosas, bonitas e sedutoras. Durante o show não dá para desviar o olhar delas. Bárbara contaram-me que Luíza fora criada por ciganos. Povo que gosta das artes adivinhatórias: búzios, cartas, bola de cristal, tarô e outras. Luiza também adorava Iemanjá, a rainha do mar. Razão pela qual em todas as passagens de ano ela ia à praia, fazer suas oferendas e rezar. E, juntamente com os milhares de fiéis, ela soltaria fogos e acenderia velas. Ritual que proporciona um espetáculo muito bonito, que atrai turistas do mundo todo. Quando começou o espetáculo no El Kalibi, Bárbara e Luíza surgiram dançando com volúpia jamais vista; ao som de uma insinuante música árabe. Os presentes silenciaram, ao mesmo tempo que arregalaram seus olhos. Minha doce Bárbara apresentava uma sensualidade incrível. Ela vestia saia de seda preta com uma provocante abertura lateral até a cintura. Na parte de cima, havia uma peça de roupa semelhante a um sutiã, com enfeites dourados que sustentava firmemente os seios. O ventre e as costas dela se encontravam descobertos.

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Luíza vestia-se da mesma forma, porém seu traje era branco, permitindo que sobressaísse sua cor tentadora. A mulata era um mulherão; quer pela altura, quer por seus formosos contornos. Uma verdadeira escultura viva. Bárbara dançava segurando um véu numa das mãos e não desviava seu olhar do meu. Mesmo assim, furtivamente eu também admirava sua monumental amiga. Afinal, aquela dança estimulava os desejos e estes não têm limites... Seria impossível permanecer indiferente ao vê-las dançando e seduzindo os homens. Confesso que fiquei com certo ciúme de Bárbara. Enquanto as duas encantavam o público, eu permanecia quieto na mesa. Com ou humor variando entre satisfeito e perturbado, eu lutava para controlar o ciúmes a todo custo. Desde o início da amizade com Bárbara, eu havia vasculhado sua alma, como um astrônomo curioso que observa o espaço sideral. E conseguira desvendar alguns de seus segredos, talvez os mais evidentes. Portanto, não acreditava que aquela moça que dançava entusiasmando homens e mulheres, fosse uma bruxa desalmada.

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14 Aqui e agora O relacionamento que mantive com as amigas de Bárbara influenciara meu modo de vida. Agora eu meditava mais freqüentemente do que antes e lia intensamente os assuntos místicos. Embora ainda não estivesse no nível cultural esotérico das mulheres do Círculo, eu conseguia conversar com qualquer uma delas, de igual para igual. Seguindo a moda da nova era, transformei a decoração do meu apartamento, com pirâmides, bolas de cristal, pêndulos, pedras energéticas, budas e outros artigos. Para completar o ambiente esotérico, importei dos Estados Unidos, uma réplica perfeita de um Crânio de Cristal, para enfeitar minha estante de livros. Ainda neste período de transformações, comecei à cuidar mais do corpo e do espírito. E também passei à preocupar-me com o destino do nosso Planeta, da humanidade e dos animais. Coisas que antes pouco me passava pela cabeça. Procurei levar uma vida mais regrada, sem excessos de qualquer ordem. Comia equilibradamente, evitando exageros de sal, gordura, álcool e açúcar. Para completar eu sempre dormia nas horas certas. Ao me alimentar eu tomava por base uma regra tibetana: "encher o estômago com cinqüenta por cento de alimentos, vinte e cinco por cento de líquidos e o restante manter vazio. Nunca comer ou beber alimentos quentes ou frios demais". Esta é a fórmula, segundo eles, para se viver mais e melhor. A alimentação equilibrada que eu fazia constituía-se de verduras, frutas e carnes brancas. Para manter a forma física eu praticava exercícios de tai-chi-chuan e dava umas boas pedaladas na bicicleta ergométrica. Do ponto de vista filosófico, passei a viver o "aqui e agora". Que segundo a concepção budista, significa viver com a mente no presente. E isso é importante para o nosso equilíbrio mental; pois o passado jamais pode ser alterado e o futuro é sabidamente incerto. Dito isso, pode-se verificar a magnitude da contribuição da amizade das moças para o desenvolvimento e o enriquecimento do meu mundo interior. A supervisão das minhas viagens astrais pela Luci; proporcionou-me novas chances para espionar seu diário revelador, que ela sempre trazia consigo. Para minha sorte, nessas investigações descobri o endereço do Campo das Labaredas. Situava-se no final da Rua Comendador Armando Pereira, em plena Serra da Cantareira, na cidade de São Paulo.

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A cerimônia ritual realizava-se uma vez por ano, na primeira lua cheia de uma "sexta-feira treze". Neste ano ocorreria no próximo dia treze de maio. Data que eu pretendia estar lá para assistir o enigmático culto ao fogo. Secretamente, é claro. Certo sábado ensolarado convidei Bárbara para passearmos de moto pela cidade. Na verdade a minha intenção era espionar previamente o campo das labaredas. Coisa que eu não comentara com ninguém, nem mesmo com Bárbara. Logo que chegamos ao Bairro de Santana, decidimos entrar em um hotel situado na Rua Conselheiro Saraiva, quase na esquina com a rua Voluntários da Pátria. Lá, trancados em um pequeno e aconchegante quarto de teto espelhado, fizemos amor por um longo tempo. Não me lembro de quantas vezes possuí o corpo esguio de Bárbara até a exaustão. Lembro-me que foi de muitas maneiras, até saciarmos nossa sede de amor. Aquele que os amantes praticam com entusiasmo; sem medo ou receio, sem culpa ou violência. Amamos na mais perfeita harmonia que pode haver entre um homem e uma mulher e usufruímos; como recompensa, dos prazeres irrestritos. Em seguida fui tomar uma merecida ducha quente para relaxar. Enquanto isso, Bárbara ficara estatelada na cama; mergulhada em um profundo êxtase, do tipo que só as mulheres conhecem após o clímax sexual. O rosto de Bárbara estampava o retrato da felicidade. Confesso que senti uma enorme satisfação ao observá-la assim. Enquanto a água quente rolava pelo meu corpo, eu olhava o movimento da rua por uma pequena janela ao lado do chuveiro. No exato instante que um vento insistente agitava os galhos de uma árvore frondosa; enquanto os carros apressados desciam a ladeira da Voluntários. O vai-e-vem das pessoas na calçada me fez lembrar que estava em uma cidade grande e enigmática. Naquele instante, nuvens carregadas trazidas pelos ventos, espantavam os últimos raios de sol, antecipando a noite paulista. Quando saímos do hotel a noite já havia tomado a cidade. Mesmo assim continuamos o passeio em direção à Serra da Cantareira. Prossegui "voando baixo" pela Avenida Nova Cantareira, até que notamos o ar frio e puro das montanhas que se aproximavam. Na altura da bifurcação entre a Nova Cantareira e a Avenida Senador Antônio Ermírio de Moraes avistei o Campo das Labaredas. Ele estava à minha direita, talvez a uns dois quilômetros dali. AS labaredas gigantes do campo se destacavam nas trevas da noite, dançando ao sabor dos ventos. De tempos em tempos, elas se avolumavam e explodiam em todas as direções; lançando perigosas línguas de fogo que lambiam a escuridão. Aquela visão me emocionou bastante.

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O local das chamas é precisamente o aterro sanitário na Vila Albertina. Um enorme campo gramado, que possui toneladas de lixo enterrado embaixo da sua superfície. O lixo orgânico em decomposição produz um gás tóxico, que sai para a superfície através de dutos metálicos, em cujas extremidades são acesas as chamas que evitarão explosões ou poluição atmosférica. Durante anos a fio estas chamas são mantidas acesas pelos gases emanados do lixo enterrado. A meu ver, esse processo é um descomunal desperdício de energia. O gás consumido inutilmente pelas chamas poderia ser utilizado para fins econômicos. Próximo ao local, estacionei a moto para admirarmos o belo espetáculo que das "chamas douradas" proporcionavam. − Que lindo! - exclamou Bárbara excitada. − É mesmo - respondi seco, não desviando o olhar das chamas enormes. Estava satisfeito e orgulhoso por ter descoberto o local secreto onde as moças realizavam os rituais da lua cheia. Meu próximo objetivo seria observá-las dançando ali e certificar-me se elas praticavam ou não os abomináveis rituais da magia negra. Para isso ficaria escondido naquelas imediações, no dia treze de maio, sexta-feira de lua cheia...

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15 Em busca da sabedoria A sabedoria é semelhante à água pura de uma fonte natural. Os sedentos que a bebem rapidamente, não tomam consciência desta pureza. Assim falou um mestre zenbudista a um discípulo seu. Em busca da sabedoria, li muitos livros sobre Meditação, Tao, Zen-Budismo, Budismo, Hinduísmo. Naquele momento estava terminando de ler livro "Bhagavad Gita"; escrito há mais de 5 mil anos, considerado um dos pilares da sabedoria humana. Curiosamente, o Bhagavad é estudado por cientistas dos países ocidentais adiantados. Acreditam eles que se interpretarem corretamente os livros sagrados dos Vedas, conseguirão novas bases teóricas para impulsionar as ciências. Mas não foi apenas a leitura que me confortou. Na meditação e no autoconhecimento encontrei a paz interior, tão necessária ao equilíbrio psíquico. Graças ao meu próprio esforço, acalmei meu espírito perturbado e tornei-me mais compreensivo com as outras pessoas. E isso me fez um bem enorme. Interessei-me também por assuntos que ocorreram no passado, principalmente sobre a extinção dos Dinossauros. Pesquisando em livros e revistas, descobri que um meteoro enorme caiu na periferia de São Paulo. Isso ocorreu há mais de 30 mil anos. A explosão causada pelo por ele produziu uma cratera de 3,6 quilômetros de diâmetro por 450 metros de profundidade. Se aquele meteoro tivesse caído atualmente, arrasaria toda a cidade de São Paulo. Minha curiosidade sobre o assunto era tamanha, que certo sábado de manhã resolvi conhecer a tal cratera. Peguei o "trator" e fui até lá. Chegando em Colônia, situada às margens da represa Billings, aluguei um ultraleve para sobrevoei o local onde aconteceu a catástrofe. Visto do alto, a cratera é interessante e faz suscitar na mente as mais fantásticas especulações acerca daquela tragédia fatal. Entretanto, este patrimônio histórico natural está ameaçado, devido às inúmeras construções que proliferam borda da imensa cratera. Portanto, é necessário que as autoridades tomem providências urgentes, para salvar o lugar da degradação ambiental. Sobrevoando o local durante meia hora, imaginei o tremendo impacto que aquela enorme bola de rocha incandescente provocou ali. Estima-se que o poder daquela terrível explosão equivaleu ao de centenas de bombas de hidrogênio. E, provavelmente, dizimou muitos animais pré-históricos da região. Apaixonado por astronomia, de vez em quando espio o céu com minha poderosa luneta. Anos atrás, com essa mesma luneta, consegui avistar o cometa Halley, no céu da cidade de Itapecerica da Serra. O cometa apareceu tímido no céu e lembrava o planeta Vênus. Infelizmente ele não possuía aquela exuberante calda avistada nas outras vezes. O cometa Halley só aparece a cada setenta anos. Da próxima vez que ele retornar eu certamente estarei descansando em paz no cemitério.

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Entre 18 e 29 de julho daquele ano de 1994, o cometa Shoemaker-Levy colidiu com o planeta Júpiter. Foi a primeira vez que o homem acompanhou uma colisão desta proporção. Se ele tivesse colidido a Terra, teria dado fim à vida no planeta; tamanha a potência da explosão. A velocidade do Shoemaker-Levy era incrivelmente fantástica. Muito maior do que os poderosos foguetes podem alcançar. Só através do poder mental podia-se chegar até ele. Eu continuava fazendo as viagens astrais, sempre supervisionado de perto pela prestimosa Luci. Certa vez voltei ao Nepal, e sobrevoei Katmandu sua capital. Na oportunidade, uma espessa neblina encobria parcialmente suas ruas e construções. Nem a enorme lua cheia pude ver. Fazia um frio tão intenso que as ruas estavam desertas. Mas, assim que amanheceu, o povo saiu para as ruas contente e se dirigiam a um suntuoso pagode construído com cinco telhados sucessivos, que se afunilavam. Observei que na parte de baixo do templo, havia uma escadaria ladeada por budas, elefantes e dragões e terminava no portão principal que dava para as ruas. Muitos visitantes chegavam à cidade naquele momento, para comemorar o nascimento de Gautama Sidarta, o Buda. Era o tradicional festival do Vesak, que ocorre no mês de maio. Na periferia da cidade, jovem que carregava um cesto de fibra vegetal nas costas; atravessava uma ponte pênsil, feita com tábuas e cordas, sobre um profundo precipício. Aquele jovem, provavelmente um agricultor ou comerciante, também seguia em direção à cidade. Do outro lado da ponte, um cão ladrava para ele e quebrava o silêncio monótono do vale. Na dimensão do astral eu podia ouvir o pulsar compassado e calmo do meu coração dentro corpo estático. Havia uma ligação perfeita entre o espírito que vagava livre e o corpo material. Romper essa frágil ligação acarretaria no que as pessoas chamam de morte. Ou seja, a libertação definitiva do espírito do corpo. Contudo, eu estava plenamente consciente de que transitava em terras estranhas. Sabia quando meu espírito deveria regressar à sua morada e ele agia conforme minha vontade. Continuando a viagem, na velocidade do pensamento, cheguei a um lugar estranho e sem habitações, que possuía um céu azul com algumas nuvens brancas esparsas. No solo abaixo de mim, milhões de flores coloridas embelezavam a paisagem na base das montanhas. Novamente, em um piscar de olhos, o cenário mudou. Surgiu a noite com o céu abarrotado de estrelas cintilantes. Onde uma lua prateada e enorme iluminava um deserto imenso. No qual, um vento insistente e ruidoso removia a areia e formava imensas dunas itinerantes. Adiante, nas montanhas, os lobos choravam para a lua. Perto dali, Indiferente a tudo mais, uma caravana de peregrinos seguia pacientemente em direção à cidade sagrada de Meca. Que lugar lindo! Vivendo no outro lado do mundo, nem imaginava que um dia conheceria um lugar assim...

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16 Um sonho maravilhoso Em uma monótona tarde chuvosa de domingo, quando Bárbara e eu assistíamos televisão juntos, ocorreu-me de contar a ela um sonho que tivera. − Bárbara, sonhei que estava escrevendo um lindo poema dedicado a você. Engraçado, os sentimentos de amor fluíam naturalmente do meu coração. Aquele foi o mais belo sonho que tive em toda minha vida. Um tipo de sonho que não dá vontade de acordar. Abraçadinha a mim, Bárbara ouvia atentamente, olhando-me dentro dos olhos. Parecia certificar-se da veracidade das minhas palavras. Por outro lado, seus olhos indicavam que ela acreditava em mim. - No sonho - continuei o relato - vivia em um mundo bom e pacífico; um verdadeiro paraíso. A quietude do lugar favorecia a fluidez da minha energia espiritual, sem os costumeiros bloqueios da vida cotidiana. Procurei retratar no poema todos aqueles sentimentos maravilhosos guardados no fundo do coração. Por fim, para completar minha felicidade, naquele paraíso particular acabei encontrando você e conversamos muito. − Sobre o quê? - perguntou curiosa. − Não recordo o assunto. No momento em que escrevia o poema, tinha consciência de que tudo aquilo não passava de um lindo sonho; no entanto, esforcei-me para decorar o tal poema a fim de relatá-lo a você. Cheguei a ler o poema em voz alta, tentando memorizar os trechos, mas todo meu esforço foi inútil. Ao acordar, não consegui recordar uma única frase. O poema era longo e possuía uma incrível sensibilidade. Prometi a mim mesmo não contar este sonho a você. Achava que duvidaria de mim. Mas resolvi quebrar o juramento para poder compartilhar contigo minhas fantasias ocultas no coração. Bárbara, creio que este sonho maravilhoso é um reflexo do meu espírito amoroso e pacífico. Quando estamos juntos, capitulado aos seus encantos, sei perfeitamente que o sonho não acabou e agradeço à Deus por isso. Bárbara mal terminou de ouvir minhas últimas palavras e entregou-se a mim, de uma maneira que nunca havia feito antes. Com o rosto corado e o peito arfando, ela me abraçou e me beijou ardentemente. Parecia estar fora de si. Rolamos abraçados em cima do tapete da sala, sem desgrudar nossos lábios...

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17 Presságio No último dia do mês de abril de l994 resolvi ir sozinho ao cinema do Shopping Norte, para assistir ao filme "O Pequeno Buda". Mal havia sentado na poltrona e um presságio apoderou-se de mim; sinalizando que uma coisa ruim iria acontecer. Embora não soubesse o que seria, fiquei sobressaltado. Minhas emoções foram bruscamente abaladas; como se eu tivesse recebido uma notícia de um ente querido que acabara de falecer. Então desatei a chorar baixo, sem ao menos saber o motivo. Chorei tanto, que molhei o lenço todo. Envergonhado, procurei disfarçar as lágrimas das pessoas próximas, tapando o rosto com as mãos. Quando começou o filme, as lágrimas ainda continuavam rolando pela minha face; por mais que me esforçasse para contê-las. Chorava uma dor anônima e brutal, que nem o meu íntimo sabia a causa. Apenas na metade do filme que aquela angústia tola abrandou e as lágrimas secaram. Deixando nos cantos da minha boca uma ardência salgada. Ao encontrar Bárbara, à noite, em seu apartamento, comentei o fato. − Amor, antes de começar o filme "O Pequeno Buda" baixou em mim uma forte angústia, que me fez chorar. Chorei sem parar e nem ao menos sabia a causa daquela dor. Qual seria a explicação disto? − Talvez você necessitasse chorar, para poder libertar alguma angústia enraizada em sua alma - respondeu Bárbara. − Acho que não foi isso não. Parece algo de fora - comentei convicto. − Dan, sei o quanto o assunto morte te deixa chateado. Provavelmente você reprimiu sentimentos sobre alguém que faleceu e só agora a coisa explodiu. − Pode ser... Por falar em mortes, li um artigo de um cientista inglês; especulando que o vírus da AIDS teria sido desenvolvido em laboratórios de uma superpotência para servir de arma bacteriológica contra nações inimigas. − Eu não acredito nesta versão - reagiu Bárbara. − Acho perfeitamente plausível a hipótese - argumentei - Depois que os americanos inventaram a bomba de neutrons; cuja finalidade é matar pessoas e preservar os edifícios e instalações, não duvido de mais nada... Os arsenais das grandes potências estão abarrotados de armas poderosas; talvez piores que as nucleares. Existem armas químicas terríveis que podem matar seres humanos por paralisia respiratória e outras que levam as pessoas à loucura... Como se não bastasse, inventaram as armas bacteriológicas, que disseminam doenças entre soldados ou populações inimigas . Portanto, não descarto a hipótese daquele cientista inglês. Quando despedi-me de Bárbara e fui dormir, a estranha angústia ainda não tinha desaparecido e me atormentou a madrugada adentro. Dia seguinte, um domingo, levantei cedo para assistir ao Grande Prêmio de Fórmula 1 pela televisão, que ocorreria no Circuito de Imola, na Itália. Na televisão tudo corria bem para o nosso querido piloto Ayrton Senna. Ele liderava folgadamente a corrida, até que na sétima volta seu Willians- Renault não conseguiu fazer a curva Tamburello e chocou-se violentamente contra o muro de concreto.

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Naquele instante, quase desmaiei no sofá. Não acreditava no que estava vendo. A televisão insistia focalizar o carro destroçado; com o Ayrton ainda ao volante inerte. O socorro custou a chegar, pelo menos foi essa a impressão que tive. Naquele instante o sopro da vida já lhe havia abandonado. Triste primeiro de maio, que jamais esquecerei! Na terça-feira pela manhã, assisti pela televisão à dramática chegada do caixão que trazia o corpo do Senna. Neste dia, o céu apresentava-se nublado e cinzento, próprio do clima monótono e triste que envolvia a cidade de luto. O paulistano, que normalmente tem uma expressão séria, estava com a fisionomia mais amarga ainda. No metrô, nas ruas, nas praças, em todo lugar o comentário era um só; a morte do querido piloto brasileiro. Tão amado pelo povo e por mim. Daí em diante, o glorioso piloto que já havia entrado dignamente para a história por seus feitos; sobreviveria em forma de mito, de herói e mártir. Na quinta-feira pela manhã, fui até à Assembléia Legislativa, local onde seu corpo recebia as homenagens das pessoas. Lá, aguardei a saída do caixão que seria levado ao Cemitério do Morumbi. Quando o corpo saiu da Assembléia, havia uma multidão nas ruas. O povo queria prestar sua última homenagem ao grande herói. E, eu também estava ali; desolado, perdido num mar de gente. No céu, um caça AMX voava estrondosamente sobre nós. Logo após sua passagem, foi a vez da Esquadrilha da Fumaça prestar sua homenagem. A direita da onde eu estava, um bando de graciosas aves brancas sobrevoaram graciosamente o Parque do Ibirapuera. Elas pareciam também saudar o piloto. Ainda emocionado com as aeronaves, ouvi um grande estrondo provocado pela salva de tiros de canhões. Um barulho ensurdecedor, que me fez instintivamente tapar os ouvidos com as mãos e cerrar os olhos. Debaixo de um sol forte, um caminhão do corpo de bombeiros, transportava lentamente o ataúde encoberto por uma bandeira brasileira. Ao lado deste, haviam garbosos cadetes em trajes de gala e os olhos vermelhos. Dei meu adeus ao Senna quando o cortejo passou silenciosamente; seguido por centenas de veículos e por uma multidão desolada a pé. Procurei acompanhar a massa humana por uns quarteirões da Avenida Brasil. Mas, cansado, parei em uma esquina e observei o caminhão sumir na avenida. Ali descobri a razão das minhas lágrimas no cinema. Eu havia chorado um dia antes que a nação brasileira... ***

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Finalmente chegara o dia tão esperado por mim: "sexta-feira treze", lua cheia... Mal podia acreditar. Logo mais poderia espionar o ritual secreto do "campo das labaredas" e desvendar o mistério que envolvia minhas amigas e, em particular, a doce Bárbara. Quando a noite chegou, peguei o "trator" e parti em direção ao campo na Zona Norte. Cheguei cedo, muito antes das mulheres, e me escondi na assustadora mata que circunda o terreno. Como a mulherada demorava para chegar, acabei pegando no sono. Acordei, horas depois, com o barulho provocado por um bando de mulheres; que da cintura para baixo vestiam longas saias brancas, e na parte de cima estavam despidas. As mulheres dançavam de mãos dadas, ao som de músicas orientais. Elas formavam um harmonioso círculo humano em torno de uma chama gigante, que saía da boca de um duto. O clarão da labareda refletia naquele círculo humano, tornando-o dourado. O que permitiu que eu visse aqueles semblantes femininos dopados pelo êxtase. De quando em quando a turma bebia uma poção retirada de um caldeirão de alumínio. Que me deixou curioso para saber que gosto teria aquela bebida; e também descobrir que qual efeito produziria na mente de quem a tomasse. Escondido no mato, não tirava os olhos das mulheres. Cada qual mais linda do que a outra. Elas dançaram bastante até caíram exaustas no chão. Contudo não desmancharam o círculo formado. Onde cabeça de uma repousava entre as pernas estendidas da outra. Que coisa estranha! Eu não entendia o significado daquilo tudo. As mulheres permaneceram nesta posição por meia hora. Foi ai que avistei Bárbara entre elas com dificuldade, apesar de olhar pelo binóculo. Dando seqüência ao ritual, as mulheres levantaram-se do chão e começaram a dançar novamente. Sempre ao som de músicas hipnóticas. Notei que elas estavam nuas, e nem se importavam com a temperatura fria. Pois estavam aquecidas pela chama gigante e pelos movimentos intensos da dança. De binóculo em punho, feito um voyeur, procurei não perder um segundo sequer daquelas lindas mulheres nuas, que dançavam artisticamente diante das minhas vistas. Ao final, pude ouvi-las gritar em coro. − Salve grande Afrodite, força criadora feminina da natureza, mãe de todas as mães, mãe da humanidade... Quando elas terminaram de recitar, prostraram-se no chão, tocando-o com suas cabeças. Permaneceram imóveis por alguns segundos. Depois, vestiram-se rapidamente e abandonaram o campo das labaredas; que ficaria totalmente deserto, se não fosse eu ali embrenhado na mata...

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18 Os homens são todos iguais Meu espírito liberto voava bem alto e lá de cima podia admirar o mundo azul; salpicado de flocos brancos, que eram nuvens passageiras. Na borda do planeta, a atmosfera refletia a luz do sol; constituindo por assim dizer, a aura da Terra, na qual eu voava montado nas assas do pensamento. Naveguei rápido em direção à América do Sul. Logo, sobrevoei os cumes brancos da Cordilheira dos Andes. Parecia um condor, o maior dos pássaros. Na verdade, meu espírito sentia-se como um deles. Então materializei-me num condor, que planava de asas abertas sobre os vales sem fim, esgueirando pelas encostas das montanhas. Voando nas alturas, eu respirava um ar rarefeito e gelado. Este mesmo ar batia com força nas minhas penas e produzia um forte barulho. Parecia que estivera a vida toda ali. O céu pertencia a mim e aos meus amigos alados. Mais tarde, quando olhei para as nuvens empurradas pelos ventos cortantes, lembrei-me que não era um pássaro. Apenas havia penetrado no inconsciente cósmico do condor; sem que tivesse qualquer controle mental sobre o ocorrido. Viajar no astral sempre revela muitas surpresas... Do inconsciente do pássaro penetrei na mente de um poderoso tubarão branco de mais de dez metros de comprimento. Que habita as águas quentes e revoltas do Oceano Pacífico, aterrorizando suas potenciais vítimas. Na forma deste monstro marinho, lutei pela sobrevivência, perseguindo e devorando muitos peixes não sei por quanto tempo. Livre do tubarão, minha consciência voltou a perambular pelo astral infinito. Viajei muito além do que a imaginação do homem comum pode alcançar. Na velocidade do pensamento percorri as trevas e também a luz. Após uma súbita desaceleração estonteante, retornei bruscamente ao corpo físico, ainda inerte no quarto escuro e silencioso. Minha face suava muito. A volta ao corpo físico me assustou bastante. Como se houvesse caído em um abismo terrível. Tenso, esperei o choque mas ele não ocorreu. Após o susto enorme despertei do transe e a primeira coisa que vi foi a Luci. Fiz o relato das experiências no astral olhando dentro dos olhos da dela minhas i. Há tempos percebera seus olhares maliciosos dirigidos a mim.

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Normalmente, as mulheres expressam seus desejos mais íntimos através de olhares brilhantes e atenciosos. Um homem que saiba interpretá-los convenientemente, sabe perfeitamente quando pode ir em frente. Os olhos de Luci indicavam que ela encontrava-se receptiva, esperando uma atitude de minha parte. Aquele momento crucial seria, uma ótima oportunidade para tê-la em meus braços. Neste dia Luci usava um vestido branco que delimitava generosamente suas curvas. Seus cabelos lisos cor de ouro, esparramavam-se nos ombros bronzeados. Era impossível permanecer indiferente a tanta volúpia. Decidi ir em frente e coloquei minha mão sobre seu joelho provocante. Ela não se importou; apenas olhou-me com um sorriso no canto dos lábios. Todo o desejo feminino estava estampado em seus olhos brilhantes. Isso acelerou meu coração e meus impulsos masculinos. Sem vacilar tomei-a em meus braços, apertando-a contra meu peito. Depois demos aconteceu um longo e afetuoso beijo, ao mesmo tempo que minha mão escalava sua perna até encontrar seu púbis. Pelo toque dos dedos descobri que ela me esperava úmida. Luci parecia contar com isso. Tanto é que não vestia calcinha e muito menos sutiã. Entre beijos e abraços acabamos ficamos completamente sem roupas. Neste momento; mais que depressa suguei os bicos enrijecidos dos seus seios que, em virtude da excitação, aumentaram substancialmente o volume. Luci cerrou os olhos e se entregou de corpo e alma ao prazer. Sentido o cheiro agradável de mulher preparada para o amor, e fiquei muito excitado. Decidi que aquele era o momento ideal da penetração. E assim aconteceu; de uma maneira controlada para saciar plenamente tanto os desejos dela quanto os meus. Para manter a ereção, eu desviava o pensamento para coisas não eróticas. Assim, demorava para chegar ao ponto de não retorno ou seja; aquele ponto em que o homem vai fatalmente ejacular, independente de qualquer coisa. Luci demonstrou ser uma grande especialista na arte de amar. As vezes, por cima de mim; outras, por baixo. Nosso amor, sem limites, ocorria em posições eróticas variadas, as mais estranhas e loucas possíveis. Felizes, continuamos nossos malabarismos sexuais noite adentro. Esquecemos do mundo e seus problemas. Esgotados, acabamos dormindo, abraçados um ao outro, do jeito que viemos ao mundo. Quando acordei, lembrei da doce Bárbara. Logo um forte sentimento de culpa começou a torturar minha mente provocando uma insistente dor de cabeça. Por mais liberais que Bárbara e eu fôssemos; o que acabara de ocorrer era uma deslealdade. Eu mesmo não suportaria ser traído. Contraditoriamente, também não suportava tolir meus sentimentos e ações. Estas contradições me lembraram que eu era humano e por conseguinte falível; o que consolava um pouco o meu espírito atormentado.

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Foi muito duro, nos dias subseqüentes, fitar os olhos brilhantes e puros de Bárbara sem sentir remorso. Dava vontade de contar tudo a ela. Entretanto, me contive temendo represálias. Pensando melhor, não se deve mesmo contar certas coisas a quem se ama. Nesta ocasião uma dúvida me assaltou a mente. Será que as mulheres têm mesmo razão ao dizer que os homens são todos iguais?

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19 Os frutos amadurecem As frutas amadurecem na época certa. Não devemos contrariar a natureza comendo frutos verdes. Tudo tem sua hora certa. Bárbara sempre falava isso. Um dia, ela convidou-me para ir a um lugar: − Dan, vem comigo. Vou te levar para conhecer umas amigas. − Então, vamos - aceitei prontamente o convite e entrei dentro do seu carro. Bárbara sentou-se ao volante e dirigiu velozmente o veículo em direção ao Bairro de Cerqueira César. − Estou indo a uma reunião de amigas num clube. Na realidade, é uma entidade fraternal esotérica; que denominamos Círculo Dourado. − É uma ordem feminista? - indaguei com certo desdém. − Não, apenas não apareceu ainda um homem que possuísse os requisitos necessários para ingressar em nosso Círculo. Quando aparecer com condições, teremos satisfação em tê-lo conosco. − Se é assim, quero me candidatar. Pretendo ampliar meus conhecimentos. E o Círculo Dourado é uma ótima oportunidade. − Aguarde um pouco. Por enquanto estou levando você como observador. Se você gostar, posso propor sua admissão como membro. − Está bem - exclamei. Em poucos instantes, chegamos a um edifício de dois andares situado na esquina da Rua Padre João Manoel com a Alameda Lorena. No piso térreo daquele edifício funcionava uma farmácia. Nos andares acima, estava anonimamente instalada a sede do Círculo Dourado. Bárbara estacionou o carro em frente à farmácia e em seguida entramos em um edifício todo pintado de branco. Subimos uma longa escada de madeira e passamos pelo primeiro andar; onde funcionava uma academia de ginástica administrada pelo Círculo e aberta ao público. Bárbara informou-me que ali também se ensina meditação, tai-chi-chuan, relaxamento e ginástica. Além da academia o Círculo mantinha uma creche para crianças abandonadas, situada no Bairro de Santo Amaro. Na cidade de Mairiporã, o Círculo possuía uma chácara para encontro dos seus integrantes. Bárbara havia comentado que a chácara, situava-se às margens de uma represa e era muito agradável. Continuamos subindo a velha escada de madeira, que fazia um barulhão. Enquanto ouvia atentamente as informações de Bárbara, olhava curiosamente aquele ambiente que me era dado desvendar. Conte-me sobre as mulheres do Círculo - pedi à Bárbara. Bem, são ao todo dezoito mulheres, incluindo eu. Essas mulheres possuem algum conhecimento em áreas do ocultismo como astrologia, rabdomancia, cristais, artes adivinhatórias, etc. O Círculo Dourado é administrado pelo Conselho das Notáveis; composto por seis mulheres de considerável conhecimento esotérico. Foram elas que fundaram o Círculo. Quem são ? - perguntei curioso. - Tereza Coen, Míriam Resende, Valkíria Campos, Camila Hernandez, Rita Soares e Regina Moraes. Todas colunáveis da sociedade paulistana. Terei o maior prazer em conhecê-las, - exclamei.

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Ainda não chegou o momento oportuno. Tudo tem o momento certo respondeu Bárbara, continuando - As notáveis participam de reuniões secretas, não acessíveis aos observadores convidados. Elas não gostam de aparecer para o público. Preferem deixar suas atividades no anonimato. Aqui os membros são divididos em de três graus, que simbolizam estágios de desenvolvimento dos conhecimentos esotéricos. Assim, o terceiro grau é reservado aos iniciantes; o segundo, aos mais desenvolvidos, e o primeiro grau aos que possuem notável saber. A reunião que você presenciará reunirá membros de terceiro e segundo graus e alguns observadores convidados. E as reuniões das notáveis? - indaguei Bárbara. São reuniões sigilosas, onde só as seis notáveis participam. Em outras reuniões, todos os membros participam, exceto os observadores. Nas reuniões especiais todas as participantes usam saias brancas, mas deixam o busto descoberto... - Evidentemente, esta cerimônia tem um significado especial. - Qual será? - perguntei curioso. - Tem, realmente. A roupa branca significa pureza espiritual e o busto descoberto é um tributo à Deusa Afrodite; que é representada na mitologia como uma mulher de vastos seios arredondados, símbolos da fertilidade. Essa deusa simboliza a energia feminina, a força criadora e universal das mulheres - explicou-me, fascinada. Depois da minha primeira participação, no Círculo Dourado, estive lá outras vezes, sempre acompanhando Bárbara. Nessas ocasiões serviam um estranho chá com torradas. Notei que ao ingeri-lo minha mente ficava expandida e facilitava a comunicação e o relacionamento com as pessoas. Depois da reunião informal e do chá que todos beberam, as moças sentavam em uma enorme mesa circular com uma pequena abertura; na qual situava-se um parlatório, de onde oradoras discursavam. Este parlatório também servia para a mediadora conduzir os calorosos debates da Ordem. Atrás da grande mesa existiam algumas cadeiras alinhadas, onde sentava os observadores convidados. Qual um tribunal de justiça, os observadores não podiam conversar. Apenas os membros do Círculo podiam falar quando lhe era dada a palavra pela mediadora. Uma ocasião, Bárbara apresentou-me a outras amigas, que embora não fizessem parte do grupo das "notáveis", nem por isso eram menos interessantes. Eram elas: Marta Ventura e Tânia Balladur. Ambas lindas e maravilhosas mulheres; que, naquele momento estavam luxuosamente vestidas e maquiadas. Após as apresentações, começou a reunião na grande mesa.

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No parlatório, a estonteante morena Roseli Matos fazia um discurso veemente. − Sociologicamente falando, os homens são a raiz do mal da humanidade. São os senhores das guerras. Praticam as mais repugnantes atrocidades contra a nossa própria raça. Os homens, não se contentando com as carnificinas, também extinguem os animais e arrasam as florestas. Através de sua jornada destruidora, os homens poluem os rios, os oceanos, as cidades e o ar que respiramos. São eles o verdadeiro vírus que infectam e ameaçam a vida deste lindo planeta azul. Os homens, a meu ver, são iguais aos chacais... Roseli tinha o dom da palavra e discursava com grande eloquência. Era uma oradora experiente e convincente. Seus discursos famosos sempre cativavam a atenção dos ouvintes. Quando ela ia reiniciar sua fala, interrompi. − O homem que você fala, é o homem e a mulher, não? Fez-se silêncio, e todos os presentes olharam para mim, ao mesmo tempo. De todos os olhares o mais fulminante partiu da própria Roseli; que ironicamente respondeu. − Não, querido! É só o homem mesmo...Excluem-se as mulheres. Ao ouvir a resposta da moça, levantei-me imediatamente da cadeira e intervi novamente. − Público presente desculpem minha intromissão. Ao ouvir tal disparate, gostaria de poder falar ao parlatório em réplica à Roseli. Que com a sua língua ferina fulminou os homens e me ofendeu. Os presentes ficaram pasmos. Mas Roseli permaneceu calada, sem saber o que fazer. A mediadora do dia, que era a Rita, tomou a palavra e propôs o seguinte. − Acho justa a reivindicação do observador Daniel; e dada a importância do assunto, proponho uma votação aos membros do Círculo. Levantem o braço quem for favorável á intenção do rapaz. De todos os presentes, só o braço de Roseli permaneceu impassível. Vitorioso, subi ao parlatório com um sorriso na face. − Membros do Círculo Dourado; mais uma vez peço desculpas pela intromissão. Quero lembrar que o homem é escravo do próprio homem. Na antigüidade a escravidão era declarada. Um ser humano detinha a propriedade de outros seres humanos legalmente. Nos dias atuais o ser humano é escravizado pelo poder político e econômico de uma maneira sutil. O homem escraviza o homem pelo dinheiro. Neste mundo que vivemos o dinheiro fala mais alto. Todavia não pretendo aqui negar que os homens, digo pessoas do sexo masculino, não tenham mais oportunidades que as mulheres. − - No meu entender – continuei - tais desigualdades precisam acabar o mais breve possível, mas a injustiça, a miséria e a doença, atingem os seres humanos indistintamente. Quantas fortunas estão em mãos femininas? Acaso não foi uma mulher que pediu a cabeça de São João Batista? Pela lógica, as mulheres também são responsáveis pelas desgraças sociais! Portanto não há razão para tal distinção. Prossegui o discurso e os presentes ouviam atentamente, sem interrupções.

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− Quero lembrar que um homem Santo da Índia, chamado Sai Baba, prega entre outras coisas, o seguinte: "Aprendam mais, pratiquem; comam mais digiram". Se aprendemos que qualquer forma de racismo ou preconceito é danosa e condenável. Porque, então, perseguimos os negros, os judeus, os fracos, os homossexuais ou, genericamente, o próprio ser humano? Se, no entanto, concluir que o sexo masculino é a causa dos horrores do mundo, então penso que não mereço o perdão divino! E, se assim for, pergunto então a todos vocês: como os seres humanos foram feitos à "imagem e semelhança" de Deus? Mal terminei essas palavras e todos me aplaudiram de pé. Exceto Roseli que me fuzilou com de um olhar gélido. Bárbara me informou posteriormente que eu havia impressionado as mulheres e, que, elas apoiariam a minha indicação à membro permanente do Círculo Dourado. Enfim, os frutos amadureceram...

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20 O Círculo Dourado Muitas luas transitaram no céu desde o dia em que conheci Bárbara e aquela noite especial finalmente chegara. Na sede do Círculo Dourado, eu aguardava o chamado para atravessar a espessa porta de madeira e entrar no salão nobre. Lá dentro, eu seria sabatinado pelas Notáveis e demais membros. Caso fosse aprovado seria admitido imediatamente como membro da ordem. E isso era tudo o que eu mais queria. Do outro lado da porta elas se preparavam para submeter-me à aprova final. Eram exatamente dezoito graciosas mulheres, das quais eu já conhecia grande parte. Quando fosse chamado, subiria ao parlatório e de lá seria bombardeado de perguntas. O encontro era reservado e por proibiram a presença dos tradicionais observadores convidados. Não demorou muito e ouvi três toques intermitentes na porta. Era o sinal combinado, solicitando minha presença perante o grande conselho. Meu coração acelerou imediatamente. Respirei fundo e fui em frente. A luz do salão estava muito fraca. Mal dava para perceber a face daquelas mulheres, que me olhavam como se eu fosse um bicho de zoológico. Fiquei embaraçado por uns segundos, até que uma delas tocou suavemente meu ombro e me conduziu pelo braço até ao parlatório. Daí fecharam a porta novamente e apagaram todas as luzes. O que provocou uma escuridão total, seguindo-se um silêncio assustador. Do silêncio das trevas, surgiu uma voz meiga e pausada: − Daniel Fontes, deseja fazer parte de nosso Círculo? − Sim! - respondi decidido, sem saber para quem. − Jura guardar sigilo do que ouvir ou ver aqui; mesmo que, porventura, não venha a ser aceito em nosso meio? − Juro! Fez-se novamente o negro silêncio; logo quebrado assim que todas as luzes do salão foram acesas. Ainda meio cego pela claridade irritante, olhei ao redor e vi que as mulheres vestiam roupas brancas, mas seus seios estavam descobertos. Foi uma cena surpreendente, eu estava diante de um pelotão de fuzilamento circular, que apontava para mim os mais diversos tipos de tentadores mamilos. A princípio esforcei-me para não rir. Depois, confesso que fiquei constrangido. Encarei silenciosamente uma a uma. Algumas eram jovens e outras já ultrapassavam a meia-idade. Não havia mulher feia ali. Elas continuaram me olhando, como quem olha para um animal em extinção. Então, Bárbara levantou-se de seu lugar e aproximou-se junto ao parlatório.

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− Daniel, já que partiu de mim sua indicação junto ao Conselho das Notáveis, tenho a honra de apresentá-lo a ti. A sua frente está a nossa presidente, a notável Tereza Coen, fundadora do Círculo Dourado. Ela possui vasto conhecimentos místicos e já visitou boa parte do mundo todo. Esteve na Índia, Egito, Japão, México, Peru e outros países interessantes. Por onde passou fez cursos, visitou lugares sagrados e encontrou sábios e magos. Por exemplo: na Índia, conversou com Sai Baba, que você citou brilhantemente em seu discurso. Em Daransala encontrou-se com o venerável DalaiLama, supremo líder espiritual dos tibetanos. Ao lado de Tereza, está Miriam Resende, uma grande médium, que conheceu pessoalmente os expoentes da mediunidade brasileira; entre os quais estão Chico Xavier e Gasparetto. A próxima é Valkíria Campos – disse Bárbara apontando para uma linda senhora de cabelos negros e curtos à francesa. - Ela possui altos conhecimentos de magia. Valkíria participou do "Congresso das Bruxas", realizado na Colômbia, onde conheceu muitas estrangeiras ligadas ao esoterismo, principalmente do Egito, Irã e Índia. Continuando, Bárbara apontou para uma mulher loura de cabelos lisos e compridos até o ombro; que possuía seios grandes, firmes e provocantes, apesar de seus quarenta anos. − Aquela é Camila. Ela também esteve na Índia, onde estudou profundamente o "Baghavad Gita". Nossa amiga é astróloga e atualmente trabalha com numerologia. Camila é a administradora a creche de Santo Amaro, mantida pelo Círculo. Bárbara continuou a apresentação e eu ouvia atentamente. Mas não desviava a atenção das beleza expostas por aquelas mulheres. − Aquela é Rita Soares. Ela conheceu os principais museus do mundo e também fez diversos cursos no exterior. Atualmente, dedica-se a rabdomancia. Ao seu lado direito senta-se Regina Moraes, que já esteve com o Santo Papa no Vaticano. Na ocasião ela conseguiu licença na Biblioteca da Santa Sé, para consultar livros antigos sobre Santo Agostinho. Regina também conheceu o Oriente; quando visitou interessantes mosteiros budistas da Índia, Tibet, Nepal e Japão. Depois da longa apresentação de Bárbara, a exuberante Tereza Coen dirigiu-se ao parlatório. − Caro Daniel, o Círculo Dourado é uma ordem fraterno-espiritualista. Sendo assim, desejamos conhecer sua posição frente a nossos nobres valores. – Ela disse isso e se retirou; cedendo-me o lugar e a palavra. Um tanto tenso e ansioso, subi ao parlatório tremendo. Entretanto procurei demonstrar firmeza, sabendo o quanto as mulheres não apreciam os homens que vacilam. − Minhas caras amigas, primeiramente, quero dizer que estou muito feliz por estar aqui com vocês. Digo também que caminho a passos lentos e firmes por um deserto, onde, bem distante, encontra-se um oásis. Muitos procuram por ele, mas poucos o encontram. Isto é uma questão de vida ou morte. Cansado, mas esperançoso, sigo meu destino na grande busca. Para trás, ficam minhas pegadas que vão sumindo ao vento. A noite fria se aproxima e as primeiras estrelas surgem no céu. Olhando para elas descobri que nasceram em mim novas esperanças para o dia seguinte. Descobri também que não estou só. Que pertenço a um universo e ele está ao meu alcance. Ajoelhado na areia quente, então agradeço a Deus por tudo isso... Prossegui o relato para as atentas mulheres de bustos desnudos.

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− Minhas amigas, o deserto a que me refiro é a vida o oásis o conhecimento e a sabedoria. As estrelas representam a iluminação e a imortalidade dos nosso espírito. Buda já pregava a mais de dois mil anos, que o corpo não é importante. Pois ele tem um fim, mas o espírito não. Cuidar do espírito, cultivando uma mente natural, sem apegos traumáticos é dever de quem busca a iluminação espiritual. Contudo, caras amigas, não devemos negligenciar o corpo. Nesta vida, o bom caminho é o caminho do meio. Aquele que evita os extremos, o radical. Neste sentido, em minhas reflexões diárias, sempre busco fazer o bem e evitar o mal. Tanto para mim quanto para os outros. Para isso tenho em mente um Deus bom e justo; e que está presente em todos nós. Estou plenamente consciente, de que ninguém pode viver a vida de outra pessoa. Portanto, dentro das possibilidades do livre arbítrio, procuro viver em harmonia comigo mesmo e com o mundo. Sigo à risca, as escrituras sagradas das religiões universais que dizem: "Busca em ti mesmo e conhecerás Deus e o Universo". Neste contexto, as palavras de Buda: “evitai o mal, fazei o bem e purificai o coração”; e a de Cristo: “amai uns aos outros...” me orientam. Em resumo – continuei -, essa é a minha posição em relação aos nobres valores espirituais. Mal terminei de falar e as mulheres do Círculo me aplaudiram de pé. Elas saíram dos seus lugares, e mesmo tempo procuraram me abraçar alegres e falante; parabenizando meu discurso. Mesmo naquela agitação, não desviei meus olhos de Bárbara; que sorria encantada. Entre abraços afetivos e muitos beijos, fui informado ao pé do ouvido, por Tereza Coen, da minha aprovação. Naquele instante, passei a ser o décimo nono membro do Círculo Dourado, e o primeiro homem a ingressar naquela ordem secreta dominada por mulheres.

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21 Sonhos reais Com o passar do tempo as viagens astrais começaram a influenciar meus sonhos. Sonhos estranhos como este que na beira de um pequeno lago coberto por uma densa névoa; um macaco dormia encostado em uma frondosa árvore apinhada de enormes pássaros brancos de longos bicos. Outros macacos do grupo descansavam mais adiante, sentados de cócoras pertinho da água. O silêncio do lugar foi quebrado por um estrondo violento, assustando os símios, que aos berros fugiram apavorados. Pude ver de perto, o terror estampado nos olhos esbugalhados daqueles macacos que não compreendiam porque a natureza em fúria se voltava contra eles. A terra tremia intensamente e logo formaram-se imensas fendas abissais que devoravam tudo, árvores e animais. Como por encanto, a lagoa inteira desapareceu, engolida pelas fendas que se formaram sob a água. Os acontecimentos foram rápidos. Das montanhas deslizaram enormes blocos de pedras; e uma delas esmagou sem piedade o incauto macaco que dormia embaixo da árvore. Mas alguns macacos mais espertos conseguiram fugir do cataclismo, correndo para longe dali. Milhares de anos após o terremoto avassalador ter ocorrido; aquelas terras resplandeceram novamente; formando uma densa vegetação que chegava até as encostas das altas montanhas. Essa região da China, é denominada Ying Kou; onde um arqueólogo desenterrou recentemente, o crânio do desafortunado macaco dorminhoco. Um fóssil valioso, prova definitiva de que os "homens pensantes" vagaram pelas bandas da Ásia; na mesma época que seus parentes africanos perambulavam pelos confins da Etiópia. Dado o valor inquestionável que representou para a ciência o achado do crânio do desavisado "macaco pensante", deduzi ele não morrera em vão... Noutro sonho, uma jovem inca de traços delicados, encontrava-se estendida sobre uma mesa de pedra; no topo de uma pirâmide de degraus, no Vale do Sol no Peru. A moça vestia roupas indígenas e o seu pescoço e pulsos portavam jóias confeccionadas em ouro puro; que refletiam a luz do sol em pequenos relâmpagos dourados. O semblante da moça apresentava-se sereno, com um leve sorriso enigmático nos lábios. Ao lado dela alguns sacerdotes anciões faziam orações murmurando palavras de um idioma incompreensível.

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Terminadas as orações, um dos sacerdotes aproximou-se lentamente da mesa, retirou da cintura um assustador punhal; e num gesto brusco e inesperado, perfurou o coração daquela pobre vítima. O sangue imediatamente espirrou para fora do corpo da virgem e respingou na face de pedra do Xamã. Curiosamente a sacrificada sequer gemeu ou esboçou algum sinal de sofrimento. Com a experiência de quem já praticou muitas vezes este ato repugnante, o Xamã desencravou o punhal do peito da moça, limpou-o com um pano branco e colocou-o novamente na bainha. O sangue continuou jorrando pela perfuração do tórax. E escorria mesa abaixo por um pequeno canal escavado na rocha; até cair dentro de uma pequena cuia que enchia lentamente. Os outros sacerdotes aproximaram-se silenciosos, portando afiados punhais. Eles se debruçaram sobre a vítima feito chacais; abriram o peito da infeliz e retiraram seu coração ainda quente. Depois levantaram-no como um cobiçado troféu; apresentando-o à multidão aglomerada na base do templo, que delirou de satisfação. Para mim, aquilo foi um pesadelo exaustivo, mas não seria o primeiro nem o último. Houveram muitos outros. Mas um deles marcou-me sobremaneira. Vi um menino negro, cujos olhos saltavam para fora. Ele estava nú e de cócoras, e apoiava a sua cabeça enorme no chão. De tão magro que ele era, que não dava para saber a sua idade. O garoto procurava reunir suas últimas forças para chegar ao acampamento para refugiados africanos da ONU. Onde encontraria alimentos que poderiam salvar sua vida. E não era só ele que percorria o caminho da salvação. Milhares de pessoas também tentavam chegar lá. Elas fugiam da guerra cruel que tantas desgraças trazia. Muitos refugiados, dada a fraqueza da fome, não resistiam à longa marcha e caíam ao chão; e lá permaneciam abandonados à própria sorte. Incontáveis caveiras brancas calcinadas ao sol indicavam o horror daquela rota da fome. O menino agonizante, estava muito próximo da fronteira da morte. Em breve viraria cadáver. Era justamente isso que esperava pacientemente um sinistro abutre preto; de bico poderoso, pousado a poucos metros do seu futuro alimento. Com olhos da morte, a ave de negros presságios, espreitava o menino com a cabeça baixa. Esperava o momento certo para poder devorar sua carniça. Na direção oposta ao abutre e ao garoto, um fotógrafo de guerra enquadrava com a objetiva da máquina fotográfica, aquela cena angustiante. Era um rapaz de meiaidade, de cabelos curtos e ralos e barba por fazer. Cujos olhos eram grandes e calmos. Ele vestia uma calça jeans surrada e jaqueta abarrotada de pertences. O rapaz encontrava-se visivelmente deprimido com o que acabara de fotografar,. Ele espantou o abutre e ficou olhando o menino por horas, chorando o tempo todo. Não sei se fiquei com mais pena dele ou do menino moribundo. Tempos depois, descobri casualmente numa revista o nome deste grande fotógrafo humanista: Kevin Carter. Justamente com a foto do menino agonizante e do abutre famigerado, Carter ganhou o Prêmio Pulitzer de jornalismo. Amargurado pelas agruras da vida, o fotógrafo ficou cada vez mais deprimido e angustiado. De tal forma que julgou não poder mais viver. No dia 27 de julho de 1994, na África do Sul, ele foi encontrado, morto por asfixia.

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As explicações que encontrei para tais sonhos estranhos foram as seguintes. Quando dormia, meu espírito vagaria pelo registro cósmico e presenciaria os acontecimentos que narrei. Ou talvez ainda; ao ver e ler fatos chocante nos jornais e revistas eu teria ficado impressionado o suficiente para sonhar com eles. Mas, uma coisa era certa. Só passei a ter esses tipos de sonhos após iniciar as viagens astrais. Apesar desses contra-tempo, os sonhos estranhos abriram novas fronteiras mentais para mim. Com o auxílio da Luci, gravei os relatos destes sonhos em áudio e doei cópias das fitas para a biblioteca Círculo Dourado. Em meio a tantos sonhos; a doce Bárbara sempre estava presente neles e nas mais delirantes situações. Sendo assim resolvi escrever um verso dedicado à protagonista dos meus sonhos. “Sempre feliz, alegre e sorridente, te encontro em lugares lindos e nos momentos agradáveis... Falo dos meus sonhos. Sonhos de eterno sonhador... Mas o que seria de mim sem eles? E o que seria de meus sonhos sem você?"

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22 A carne é fraca Convivendo quase diariamente com as lindas mulheres do Círculo Dourado, tornou-se difícil para eu resistir aos seus encantos. Apesar de estar apaixonado por Bárbara, fui atraído para dentro daquela atmosfera erótica; igual a um marinheiro do conto das sereias, que no final acaba afogando-se no mar. Por isso, não demorei a tornar-me um náufrago no oceano de pensamentos confusos, produzidos pela mente atormentada. No qual lutava internamente para amenizar os efeitos colaterais deste tipo de apego. Passei dias e dias refletindo sobre o assunto. Adepto da filosofia budista, sabia perfeitamente que o apego à sensualidade causava infelicidades. No entanto, a carne é fraca... O corpo queria o que o espírito às vezes desaprovava. O choque provocado entre o querer sensual e a antagônica procura pela elevação espiritual; formou um sério conflito íntimo que perturbava minha mente. A paz interior cultivada carinhosamente por mim durante anos, rompeu-se por causa disso. A consciência doía, atormentada pela infidelidade amorosa. Na prática, a dor de consciência não impedia meu lado aventureiro. Transitando livremente no meio feminino; e considerando que homem é homem, como dizem as mulheres, eu sempre procurava nos olhares das jovens o sonhado sinal verde feminino. E quem procura acha. Pois encontrei a volúpia transbordando em muitos olhares direcionados a mim. Porém, dentre todos os olhares, um me pareceu incorruptível, o da notável Miriam Resende. Jamais percebi qualquer indício de malícia em seu olhar puro e ingênuo, que só as criancinhas possuem. Apesar de não conseguir ver a sua aura, observei em seus olhos que ela encontrava-se mergulhada em uma profunda e invejável paz interna. Miriam irradiava uma energia benéfica e todos que a cercavam percebiam. Ela era um exemplo vivo de positivismo. Nunca a ouvi reclamando da vida ou de alguém. Já nos olhos de Tânia Balladur notei o quanto ela dependia de sexo. Insaciável, uma verdadeira viciada. Seus olhos não escondiam o fato. Também enxerguei alta volúpia nos olhares de Bel Perez. Uma moça maravilhosa que possuía cabelos compridos, cujas ondas formavam uma cascata de ouro que ia até o início do quadril. Ambas atraíam a atenção tanto dos homens quanto das mulheres. Já que eram bonitas e tinham bumbuns empinados de fazer inveja. Participando assiduamente das reuniões da ordem, não foi difícil aproximar-me delas. De sorte que uma bela noite Tânia convidou-me para visitar sua casa, o que aceitei prontamente. Ao chegar lá, para meu espanto, ela me aguardava seminua. Seu traje resumia-se em um sutiã, uma calcinha minúscula e um par de sapatos altos. Todos da cor preta que combinavam com seus cabelos. Fingi apresentar naturalidade, mas, no fundo, fiquei embaraçado. Não esperava uma recepção daquela. Mesmo assim fitei seu corpo perfeito, enquanto ela não desviava seus olhos de mim. Pude testemunhar que ela possuía um corpo muito atraente.

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Por um instante observei seus mamilos pontiagudos e rosados que se destacavam diante dos meus olhos, devido à transparência do sutiã. Só com muita dificuldade consegui desviar a atenção deles. O meu olhar desejoso excitava a moça, que em arfava o peito. Tanto, que ela quase não conversou e foi logo tirando as últimas peças. Depois abraçou-me bruscamente, ao mesmo tempo em que sua boca ansiosa procurava a minha. Normalmente os homens não estão acostumados com as iniciativas femininas no campo sexual. Alguns até se ofendem por causa disso. Eu, no entanto, aprovei. E em segundos fiquei totalmente descontraído. Entre beijos e carícias deliciosas, Tânia acabou puxando uma cadeira e convidoume a sentar, o que atendi prontamente. Daí ela sentou-se também, de costas para mim, com as pernas abertas e o bumbum levantado. Notei que ela não tirou seus sapatos altos, o que causava uma sensualidade incrível em suas pernas de coxas volumosas. Sem perda de tempo, Tânia segurou com uma das mãos meu sexo latejando e introduziu-o bruscamente dentro de si. Sentados na cadeira com nossos corpos colados da cabeça aos pés, ardíamos em uma espécie de febre sexual, que nos fazia tremer sem controle. Mesmo sendo consumido pelo calor da febre do desejo, procurei saborear conscientemente tudo o que podia em Tânia. Os seios firmes de tentadores mamilos, o triângulo negro do púbis, seu cheiro, a maciez de sua pele, as formas e a beleza do seu corpo. O conjunto desses fatores, assaltava minha mente excitando-a demasiadamente. Precisei fazer um esforço considerável para não atingir um orgasmo precoce. Uma precipitação de minha parte, poderia abreviar aquela avalanche de prazer. Graças ao controle mental consegui prolongar nossos prazeres, mesmo estando à mercê dos desejos delirantes daquela mulher deliciosa; sobre todos os aspectos dos meus sentidos. Após abandonarmos a cadeira continuamos fazendo amor de outras maneiras, principalmente na posição que os cães fazem; que é uma das mais naturais que existem. Depois terminamos exaustos sobre o tapete. Tânia confidenciou que gostaria de ficar eternamente em meus braços, com seu corpo nu encostado ao meu. Eu sabia que o prazer feminino não terminava no clímax sexual. Ele vai além do que os homens podem imaginar. O prazer delas continuava após o orgasmo, através do contato da pele, do calor, do carinho e da atenção. Por isso eu à acariciei um bom tempo ainda. Mas como o tempo é limitado, fui embora abandonando Tânia em gozo. Mantive outros encontros íntimos com Tânia posteriormete. Cada qual mais prazeroso do que o outro. E sempre mantivemos sigilo. Na verdade, o segredo servia de tempero picante, para aguçar nosso prazer sempre à flor da pele. Quero dizer que a amizade entre Tânia Balladur e eu não se resumia em sexo apenas. Existiam outras afinidades. Ela era culta, refinada, alegre e espontânea. Possuidora de vasta erudição, principalmente sobre Ufologia, Astronomia e Egiptologia. Eu passava horas conversando com ela sobre estes assuntos. Sempre ouvindo boas músicas e bebendo bons vinhos.

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Henry Kissinger, um grande estadista americano no passado, dizia que não devemos desperdiçar oportunidades. Oportunidade perdida pode não voltar mais. Portanto aproveitei o sinal verde de Bel Perez também. Ao contrário de Tânia, Bel tinha predileção por motéis. Sempre preferia ir a um diferente, embora não se importasse com o luxo. Qualquer motel razoável servia. Acontece que Bel não tinha paciência para enfrentar as intermináveis filas das sextas-feiras nos motéis. Esse fato nos obrigou a freqüentar os hotéis também. E isso ocorria em qualquer hora e em qualquer dia da semana. A Bel possuía o hábito engraçado de surrupiar objetos de lembranças dos estabelecimentos que freqüentava. Em virtude deste vício, formou uma vasta coleção, que continha pentes, tocas de cabeça, sabonetes, toalhas, caixa de fósforos, cinzeiros, copos, etc... Colecionava tudo o que achava interessante nesses estabelecimentos. Minha amiga possuía uma tara especial. A Bel gostava de copular em pé, tanto pela frente como por trás. De tão fogosa, era duro dar conta dela. Muitas vezes precisei lutar arduamente para retardar minha ejaculação; para que ela pudesse atingir os seus orgasmos sucessivos. Após os quais ela ficava imóvel como se estivesse desmaiada, abandonada em um gozo profundo. Ela precisava de uns vinte minutos para recobrar novamente a consciência. Nunca vi coisa igual. Após os encontros amorosos com as amigas de Bárbara, meu espírito que transitara com desenvoltura no paraíso dos prazeres carnais, finalizava padecendo no purgatório da consciência pesada. Com o passar do tempo, tal infidelidade intensificou meus conflitos íntimos. Cheguei a pensar que perderia a luta contra a sensualidade desenfreada, que enfraquecia meu espírito e me chateava. Apesar dos meus casos amorosos possuírem refinações do erotismo e das técnicas que muito bem descreve o milenar livro "Kama Sutra"; creio que, no fundo, eles eram desprovidos do amor verdadeiro. Nessas circunstâncias, as atrações físicas importavam mais que as compatibilidades espirituais. O verdadeiro amor eu só havia encontrado com a doce e inesquecível Bárbara. Apenas ela me trazia o amor mais puro. Sua simples presença transformava positivamente minha mente. Por isso as lembranças dos meus procedimentos injustos com Bárbara sempre atormentavam minha pobre alma, em forma de arrependimentos e culpas avassaladoras. Que viravam pesados fardos para eu carregar. Talvez um dia confessasse toda a verdade a Bárbara. Acreditava que só assim me sentiria aliviado. Como homem que é homem, continuei atolando no pântano da fraqueza sensual. De forma que também não pude resistir ao chamamento dos lindos olhos azuis da Rose Bour. Que sempre me fitavam magneticamente. Desejava possuir aquela mulher de qualquer maneira. Mas Rose sempre recusava meus insistentes convites para passearmos juntos. Suas recusas avivavam ainda mais as chamas ardentes dos meus desejos. No íntimo eu sabia o quanto Rose me desejava. Seus olhares diziam por si. Mas, para minha angústia, ela sempre arranjava desculpas para rejeitar meus convites.

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Não me conformando, um dia deixei um bilhetinho em sua bolsa. "Minha doce Rose, não me iludas... não desperte o libido que dorme suave em meu coração. Deixe-me continuar como uma esfinge de pedra que permanece imóvel olhando o horizonte sem poder tocá-lo...". O bilhetinho provocou um efeito considerável no coração sensível da moça. Se acaso houvesse uma barreira impedindo um relacionamento íntimo entre nós, certamente ela foi pulverizada por ele. A partir deste dia, Rose Bour tornou-se mais receptiva comigo e não rejeitou mais os meus convites. O que resultou em um outro ardente caso amoroso. A primeira vez que Rose se entregou totalmente a mim foi de uma maneira tímida, e meiga. Que requereu de minha parte uma dedicação especial e paciente; para não magoá-la, tal a sua sensibilidade. Para minha felicidade, em pouco tempo ela abandonou a sua timidez e partiu para arrojadas iniciativas sexuais. O meu envolvimento amoroso com a Rose tornou-se diferente dos demais, já que nossos espíritos sincronizaram perfeitamente. Com o tempo ela terminou exercendo sobre mim uma poderosa atração, igual à exercida por Bárbara. Apesar de não abandonar totalmente meus relacionamentos com as outras lindas mulheres,; passei a dedicar-me quase exclusivamente às duas. Se por um lado amava Bárbara, por outro eu desejava apaixonadamente Rose Bour. Era o amor e a paixão duelando dentro do meu coração. Uma poderosa e perturbadora contradição que me corroía por dentro.

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23 Morte iminente O tempo passara depressa. Talvez um lampejo de memória ou o acordar-se de um sonho. E já faziam alguns meses que eu tinha sido admitido no Círculo. O que me deixava orgulhoso por dois motivos. O primeiro, dizia respeito ao ambiente de lá que era muito bom. As mulheres eram maravilhosas e grandes amigas. O segundo motivo me deixava ainda mais contente. Fora o primeiro homem a ser admitido como membro do Círculo Dourado. Os pedidos anteriores de admissão de homens, foram todos recusados pela esmagadora maioria dos votos femininos. Sendo assim, eu era o primeiro e único homem da instituição. Nos meses passados no Círculo eu fizera grandes amizades e Bárbara não demonstrava indício algum de ciúmes. Nosso relacionamento atravessava uma fase ótima, tanto dentro do Círculo como fora dele. Participando assiduamente das reuniões, notei que algumas pessoas apresentam condutas consideradas moralmente avançadas. Haja visto o caso entre Rosely Matos e Estela Zaid. As duas praticamente não se largavam, eram homossexuais assumidas. Bárbara me contou que certa vez flagrara as duas nuas no banheiro, uma sentada no colo da outra, trocando demorados beijos e prazerosas carícias íntimas. O casal, na fúria erótica esqueceu de trancar a porta. No Círculo Dourado ninguém se incomodava com o fato delas terem feito a opção homossexual e nunca alguém ousou recriminá-las por isso. Afinal, quase no virada do Século XXI, cada pessoa tem o direito de fazer o que bem entender. Desde que não prejudique o próximo ou transgrida as leis vigentes. A sociedade global, a custo de muitas lutas, tornara flexibilizou seus conceitos. Os países estão mais tolerantes com determinados comportamentos sexuais ou de outra natureza. Na Dinamarca, por exemplo, o governo reconheceu oficialmente o casamento entre gays ou lésbicas. O Brasil parece trilhar a mesma tendência. Em que pese o atraso das camadas mais conservadoras da população. A primeira vez que vi Estela Zaid reconheci em seu rosto a presença marcante da morte. Não é toda pessoa que consegue identificá-la. Infelizmente, eu possuía esta capacidade e percebi que a Estela teria uma morte iminente. Desgostoso, comentei o fato com Bárbara, mas ela não levou em consideração. Semanas depois, em uma esquina escura do bairro Jardim Celeste, um carro encontrava-se estacionado. Num local elevado do qual pode-se avistar os prédios iluminados da Avenida Paulista. A paisagem dali era realmente espetacular. As estrelas do céu cintilavam mais do que nunca. Dentro do carro, um jovem casal aproveitava a escuridão e aquela vista maravilhosa para namorar. No calor do namoro, entre demorados beijos e carícias sem limites, o moço percebeu pelo espelho retrovisor que dois estranhos que se aproximavam na escuridão. Eram dois meninos, empunhavam enormes revolveres que mal conseguiam segurar. O moço apavorado, antevendo o assalto, tentou ligar o carro para abandonar o local.

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A jovem ao lado do rapaz estava visivelmente espantada. De olhos arregalados e a face suando, era o próprio retrato do terror. Mal o moço deu a partida no motor e um vulto sinistro apareceu ao lado do carro, apontando a arma. O pequeno bandido percebendo a intenção da vítima, disparou um tiro certeiro. O projétil atravessou a janela de vidro e terminou estourou os miolos do infeliz. O carro, já em movimento, foi ao encontro do muro, provocando um forte estrondo na noite. Os assaltantes, como verdadeiros ratos de esgoto desta sociedade injusta, desapareceram em segundos nas sombras da noite. A moça que acompanhava do pobre rapaz era a nossa amiga Estela Zaid. Desiludida pelo acontecimento que vitimara seu jovem amado, Estela passou a sair com qualquer tipo de homem. Empreendia uma busca desesperada para encontrar um substituto de seu grande amor e esquecer a tragédia. Nesta busca frenética, Estela passou pelas mãos de muitos homens, mas não encontrou nenhum que contentasse seu coração. Jamais gostou de outro homem novamente. A série de desencontros amorosos que sucederam-se, só agravaram ainda mais sua desilusão. Para completar sua infelicidade, de um desses homens ela contraiu o vírus da Aids. Esteve um tempo perdida na vida, até que encontrou conforto nos ombros da Rosely. O desenvolvimento da doença em seu corpo foi muito lento, demorando mais de um ano para manifestar-se. Porém, nos três últimos meses, ela ficou cadavérica, perdeu seu vigor físico, ficou acamada e depois morreu. Foi um transtorno geral, pois todos adoravam aquela garota extrovertida e simpática, dada às gozações. Quanto a mim, havia perdido uma grande amiga, com a qual tinha conversas intermináveis sobre ZenBudismo. Fiquei profundamente entristecido com o falecimento dela. No dia do enterro de Estela, o Círculo Dourado em peso esteve presente. Rosely, na oportunidade, chorava amargurada pelos cantos, sempre consolada pelas amigas. Por sorte incrível, ela não contraíra o vírus terrível. A partir deste dia, nunca mais notei nenhum sorriso na face de Rosely, que tomou uma feição muito triste e impenetrável. Todavia, continuou sendo uma pessoa agradável e meiga, apesar do olhar distante. Uma vez a médium Camila Hernandez recebeu uma mensagem da Estela em uma sessão espiritual realizada no Círculo. Todos os presentes, incluindo eu, ouvimos a delicada voz da Estela: Vim pedir a todos aqui que não fiquem tristes ou aborrecidos por eu ter partido do mundo terreno. Um dia também chegará a vez de vocês. Por isso, não culpem o vírus, os acidentes ou os assassinos pelas mortes. É o destino implacável o maior responsável, e assim será eternamente. Isso é a realidade, por mais grosseira que possa parecer. Tenham sempre em mente essa compreensão dos fatos. Quero dizer também que sinto muita saudade de vocês, principalmente da Rosely, que foi minha doce companheira. Sei que um dia estaremos juntas novamente. Digo também que me encontro feliz e já estou conformada com o que ocorreu. Rosely ficou bastante comovida com a fala de Estela. E se deprimiu ainda mais. Ela jamais conseguira esquecer a companheira e quase toda semana levava flores ao seu túmulo. Até que um dia, não suportando a ausência da amada, trancou-se em seu quarto, munida de um revólver disparou um tiro em sua própria têmpora. Antes, porém, tomou o cuidado de abafar o barulho do disparo, envolvendo a arma em um travesseiro. Seu corpo só foi descoberto no dia seguinte pêlos familiares, que precisaram arrombar a porta para poder adentrar ao recinto. Ao lado do corpo estirado

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na cama foi encontrado um bilhete em que pedia desculpas pelo ato chocante, informando que a dor provocada pela morte de Estela estava insuportável. Por isso ela não tinha mais razões para viver. Mal havíamos assimilado a desgraça provocada pela morte de Estela e ocorria outra. A da nossa também querida amiga Rosely. Ela que sempre fora uma adversária ferrenha das minhas idéias nos debates calorosos no Círculo. Mas depois tudo terminava em pizza. Nunca a considerei uma inimiga. Ao contrário, respeitava-a por sua vasta cultura e pela lucidez dos seus pensamentos; mesmo com todo o seu feminismo radical. Lamentavelmente perdemos outra grande amiga. Que Deus às abençõe.

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O crânio funcionava semelhante à bola de cristal das ciganas, que pode-se prever o futuro ou observar o passado. As vezes, em torno do crânio surgia uma aura pulsante semelhante à luz de néon da cor verde. Bárbara, mais do que nunca, tinha razão. Dada a insistência desses sonhos, interessei-me pelo assunto, de modo que passei a pesquisar tudo que o fosse relacionado a ele. Descobri que os arqueólogos encontraram crânios de cristal em diversas partes do mundo. Dois deles, ambos em tamanho natural, estão nos museus de Londres e Paris. O mais famoso crânio de cristal está em posse de uma mulher, que é filha do cientista que o encontrou nas antigas ruínas maias, na Guatemala. Conforme consta no livro "Mistérios dos Crânios de Cristal Revelados", de Sandra Bowen, F. R. "Nick" Nocerino e Joshua Shapiro. Essa mulher, de nome Ana Mitchel Hedge, é uma grande pesquisadora do assunto e, mantém o crânio em exposição aberta ao público, permitindo que cientistas interessados façam pesquisas com ele. O Crânio de Ana M. Hedge é uma cópia perfeita, em tamanho natural, esculpida por hábeis e misteriosos artesãos sabe-se lá de onde. Comenta-se que o tal crânio possui poderes de curar certas doenças através das vibrações harmônicas e positivas emanadas da sua aura. Inúmeros relatos confirmam casos de pessoas doentes que alcançaram a cura simplesmente quando o visitaram. Pesquisando descobri que podem haver outros crânios iguais a ele no Tibet e no Peru; mas que não foram encontrados ainda.

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24 Vanessa boca de ouro Escrever diário não era hábito exclusivo da Luci. A Bel também possuía o seu. As mulheres adoram escrever diários, no qual relatam, com esmerada caligrafia, as fantasias ocultas, as paixões proibidas ou as desilusões marcantes. Descuidada que só ela, Bel largava-o por todo canto. O que foi um prato cheio para mim, pois não resisti à tentação da curiosidade e violei-o também. Para minha surpresa, encontrei entre suas páginas, o recorte de um pequeno anúncio de jornal com o seguinte e engraçado texto: "Vanessa boca de ouro, bumbum especial" e, a seguir, um número de telefone para contato. Para certificar-me do anúncio resolvi ligar para a tal "Vanessa". − Alo, é da residência da Vanessa? − Sim, sou eu mesma! - respondeu uma voz feminina, do outro lado do aparelho. - Pode falar! − É sobre o anúncio do jornal, desejo saber como você é. − Sou loura, alta, manequim quarenta e dois, bumbum avantajado, seios médios. Os homens me acham bastante atraente, pode crer! − E quanto você cobra? − Bem, isso a gente pode combinar. A princípio são cem dólares, mas pode ser até de graça se eu for com sua cara... − Eu conheço você - interrompi. − É mesmo! Então quem sou? − A Bel Perez. Ela sorriu surpresa e perguntou: − E você, quem é? − Advinhe! − Não faço a menor idéia. − Sou o Daniel, seu colega do "Círculo Dourado". − Então, que está esperando? Venha já para cá. Fui voando com a moto. Para minha surpresa, quando lá cheguei a Bel me recepcionou apenas de calcinha. Os seios grandes e empinado de fazer inveja a qualquer garota estavam plenamente desnudo. Seria impossível um homem ficar indiferente àquela escultura viva em forma de mulher. Naquele instante ela atraiu bruscamente meus mais íntimos desejos. Aqueles inconscientes e primitivos que estão alojados nas profundezas das mentes dos homens. Bel e eu passamos longo tempo fazendo um amor selvagem e inconseqüente. Cujo único objetivo era ultrapassar os limites do desejo evitando qualquer bloqueio. E foi assim que fizemos entre, gemidos, sussurros, arranhões, apertos, puxões de cabelos e chupadas de marcar. Posso afirmar que foi tudo muito bom...

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25 Além da terceira dimensão Do lado de fora do meu apartamento, um vento insistente fustigava sem piedade a cidade, causando um barulho estridente. Um cheiro de vela acesa misturava-se com a tênue fumaça do incenso purificador de sândalo, dando ao meu quarto uma atmosfera mística. Naquele recinto esotérico eu procurava concentrar toda minha atenção para uma pequena bola de cristal posta na minha frente, mas o barulho do vento não abandonava meus ouvidos, desconcentrando-me. Com um esforço redobrado, eu tentava captar imagens do astral, que pudessem fornecer algumas pistas sobre o paradeiro do Crânio de Cristal perdido no Peru. Neste contexto, minha mente funcionava como uma antena de retransmissão de uma emissora, e a bola de cristal, por sua vez, o aparelho de TV. Na realidade, é essa uma das múltiplas funções dos cristais. Já havia um bom tempo que fitava a bola de cristal, mas nada aparecia. Pensei em desistir, mas resolvi tentar mais um pouco. Só abandonava uma missão em último caso. Essa insistência cansativa é bem característica o meu signo de áries. Como o ar do quarto estava totalmente parado, a pequena chama dourada permanecia imóvel e hipnótica, projetando um pálido reflexo dourado no cristal. Continuei mirando intensamente meu olhar na bola, tanto que meus olhos lacrimejavam. Concentrado que estava, acabei fazendo uma lavagem cerebral de grande efeito tranquilizador que restabeleceu minha energia mental, embora a dor muscular tivesse piorado. Pensava em ir dormir, quando surgiu dentro da bola a imagem tridimensional da cabeça de um guerreiro medieval, envolta por um elmo de metal. Podia piscar os olhos ou mover a minha cabeça, e a imagem continuava lá dentro, congelada no cristal. Procurei interpretar o significado desta aparição e não consegui. Pensei em muitas hipóteses que indicasse o sentido daquela imagem tridimensional, localizada no centro da bola. Mas não obtive resposta satisfatória. Animado, continuei observando atentamente a figura. Ao cabo de alguns minutos, ela sumiu do mesmo modo que apareceu, instantaneamente. No seu lugar formou-se a imagem de uma região devastada. Concluí que ali houvera uma guerra, mas não existia pessoa alguma ali. Apenas imensas colunas de fumaça negra subiam ao céu, formando uma paisagem desoladora. Curiosamente, indaguei comigo mesmo se aquele quadro sombrio teria alguma relação com a cabeça e o elmo. Depois da segunda aparição, resolvi encerrar a experiência com a bola de cristal. Cansado, sentei na posição de lótus para relaxar a mente. Num instante, senti meu corpo mais leve, o que amenizou de imediato a tensão muscular. Minha mente, livre de pensamentos vagabundos, virou um oceano de tranqüilidade dentro do corpo imóvel. Logo a consciência cósmica decolava rumo ao astral infinito, numa velocidade que só o pensamento podia conceber. As mais belas palavras jamais conseguiriam descrever a beleza e a complexidade daquela dimensão.

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Minha consciência cósmica, navegando no infinito, atravessava diversos mundos. Para um espírito livre não existe fronteira inviolável. Desta forma, ao cruzar outras dimensões do astral, por vezes era sugado para dentro de uma delas; através de um vórtice energético, semelhante ao olho de um tufão. Tudo passava muito rápido, mas a sensação que perdurava em mim assemelhava-se à vertigem provocada quando a gente sofre uma queda de grande altitude. Uma vez dentro do "olho" do tufão cósmico, após atravessar um longo túnel, eu chegava a lugares estranhos, que só os sonhos fantásticos nos levam. Em um desses “sonhos” me deparei com uma região montanhosa, onde sentia um cheiro forte de cinza e enxofre no ar. O céu estava negro e, mesmo sendo dia, parecia que ia anoitecer. Sucediam-se, um após o outro, barulhos parecidos com relâmpagos, que me assustavam. Procurando manter o controle, mantive a firme disposição de prosseguir, pois sabia que nada poderia afetar o espírito, que é imortal; quando muito, poderia libertar-se para sempre do corpo físico... As explosões aumentaram de intensidade, prenunciando uma catástrofe iminente. Não demorou e logo descobri o causador daquele barulhão. Era um vulcão imenso e em plena atividade, que expelia toneladas de pedras e cinzas vulcânicas para o alto. Pelas bordas do vulcão vertiam rios de lavas incandescentes, que escorriam pelas encostas da montanha, destruindo tudo que encontravam pela frente. Em uma cidade próxima, os moradores estavam aterrorizados. Pessoas e animais corriam desorientados pelas ruas, pressentindo o fim iminente. As caras horrorizadas das pessoas indicavam que elas irremediavelmente morreriam ali. Meu Deus! Precisava presenciar isso? - pensei aflito. Continuei observando o provável holocausto, como se estivesse num cinema de trezentos e sessenta graus. Ao lado da porta de uma fortaleza, um soldado permanecia impassível, segurando sua lança comprida, na posição de sentido. Era um jovem de vinte e tantos anos, de rosto sereno, que não demonstrava medo algum. O jovem era um centurião romano alto e forte. O jovem tinha a cabeça protegida por um capacete de metal, cujo topo era adornado com crinas de cavalo em forma de escova. O olhar complacente do centurião parecia entender a ira dos Deuses. Em segundos, as pedras e cinzas expelidas pelo vulcão, que haviam subido ao céu, caíram sobre a cidade, sepultando-a instantaneamente. Então, o soldado que permaneceu corajosamente em seu posto, se transformou em uma estátua de pedra. Juntamente com o centurião, centenas de pessoas e animais que não conseguiram fugir a tempo, também viraram estátuas. Tudo aconteceu muito rápido e pegou à todos de surpresa. Foi uma pena! Homens, mulheres, jovens, velhos, crianças e animais foram carbonizados num piscar de olhos. Nem as aves escaparam daquela grande tragédia natural. Milhares morreram por inalarem os gases tóxicos do vulcão irado. Passada a devastação, o vulcão irado acalmou-se e voltou a dormir. Ninguém sabe quando ele acordará novamente... Descobri, posteriormente, que a cidade soterrada chamava-se Pompéia e o vulcão fatal Vesúvio; ambos situados na atual Itália. Retornando ao epicentro do vórtice do astral, fui jogado para a outra dimensão da história antiga nele registrada. Recobrei a consciência do lado de fora das altas muralhas que protegiam a cidade de Jerusalém, em meio a soldados romanos que não podiam me ver. Eram milhares de centuriões de Roma, que há longos dias assediavam a cidade condenada dos hebreus.

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As tropas romanas de assalto fustigavam as muralhas de Jerusalém com enormes blocos de pedras que eram lançados pelas catapultas. Na cidade cercada, onde ninguém entrava ou saia, faltava víveres e água. A situação dos seus cidadãos era assustadora. Moribundos vagavam pelas ruas da cidade em busca de alguma coisa para comer e alguns deles, às escondidas, comiam carne de cadáveres ou mesmo de ratos que encontravam. A orgulhosa cidade não resistiu por muito mais tempo. Os altivos soldados romanos conseguiram entrar na cidade capitulada, em colunas formadas por centuriões veteranos de outras guerras. Naquele desfile triunfal os soldados marchavam disciplinadamente; seguindo as trombetas e os estandartes da águia de asas abertas, símbolo da Roma Imperial. Notei que e os militares vestiam saias até os joelhos, lembrando o modo de vestir dos homens da Escócia. O semblante rude daqueles centuriões, estampava o orgulho que só a vitória daria na guerra. Por outro lado, o povo da cidade, que provara o gosto ácido da derrota frente ao inimigo, encontrava-se amargurado e aflito, temendo por sua sorte. Naquele dia, Roma ampliara a fronteira do seu império no oriente. De volta ao olho do furacão, meu espírito vagou para outra era, de forma que, em dado momento, deparei com milhares de gregos invadindo o cobiçado território do Egito. Eram muitos os invasores, inclusive mulheres e crianças, que vieram do outro lado do mediterrâneo em seus barcos de madeiras, movidos a remos e velas. Pretendiam estabelecer-se naquelas abençoadas terras, irrigadas naturalmente pelas cheias anuais do Nilo, e por isso sempre propiciavam boas colheitas. Alertado pelos vigias das fronteiras, o Faraó enviou velozes carros de combates para massacrar os invasores. Logo os egípcios aproximaram-se dos intrusos, levantando densas nuvens de poeira do deserto que cobriam o céu. Os gregos invasores, quando notaram as nuvens da morte, fizeram uma formação em círculo com os pesados veículos de transporte. Entretanto, este artifício de defesa de nada valeu, os carros de combate egípcio atravessaram o bloqueio e disseminaram a morte através de seus hábeis e determinados arqueiros que disparavam setas certeiras. Em pouco tempo, os guerreiros do Faraó dominaram os gregos. Os sobreviventes foram amarrados e, depois, em longas colunas, foram enviados a pé pelo deserto escaldante rumo à Tebas, sempre vigiados por atentos soldados postados nas luxuosas bigas. Depois de algum tempo caminhando pelo deserto infernal, os prisioneiros ficaram exaustos e com sede. Os que não resistira à marcha forçada foram abandonados à míngua no deserto. Por isso, o céu estava repleto de urubus voando em círculos, aguardando o momento certo de devorar os cadáveres. Fiquei com muita pena dos prisioneiros sobreviventes; pela situação deplorável que se encontravam e pelo destino que teriam. Meu espírito errante sofria muito observando aquelas cenas. Mas o que eu poderia fazer para modificar a história? Como em um longo pesadelo, cujo despertar estava distante, minha tormentosa viagem continuou. Em dado momento, fui lançado a uma era mais recente. No exato momento em que uma quadrilha assaltava uma agência bancária. Os marginais rendiam rapidamente os guardas e as pessoas presentes. Apesar da ação espetacular, o líder dos bandidos estava muito nervoso. E ele se enfureceu quando uma menina de colo, assustada com a movimentação toda, começou a chorar alto. Aos berros, o chefão irritado, ordenou que a jovem mãe fizesse a criança parar de chorar. Entretanto, por mais que a moça se esforçasse para aquietar a menina, ela não conseguia. Sem vacilar, o bandido aproximou-se das duas, apontou arma e disparou o gatilho. A mãe e filha foram atingidas por um único projétil e caíram sem vida
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ao chão. A atitude brutal do marginal surpreendeu todos os presentes, inclusive os outros bandidos, que olharam indignados. A violência da cena, juntamente com o forte estampido do disparo, arremessou bruscamente meu espírito de volta ao corpo físico. Despertei do transe inteiramente molhado de suor. Então respirei fundo, o pesadelo terminara. Posto o que acabei de relatar, germinou uma grande dúvida em minha mente. Continuaria ou não as imprevisíveis viagens astrais?

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Diário de bordo
Depois de ter freqüentado o Círculo Dourado por algum tempo e de ter lido pilhas de livros sobre espiritualidade, comecei me sentir desconfortável trabalhando num mundo de números e cifras. Não dava mais para continuar naquele templo do capitalismo que é a Bolsa de Valores. Onde cada dia de trabalho desinteressante transformava-se num interminável sofrimento. Sendo um viajante no Astral, como poderia ficar preso em um escritório? Pensei seriamente em trabalhar por conta própria e montar uma empresa ligada a uma atividade mais interessante. Enfim, queria ser meu próprio patrão e já havia acumulado uma soma considerável que possibilitaria abrir um negócio próprio. Se antes minha situação financeira não permitia assumir os riscos, agora era francamente favorável. Portanto tomei a decisão de virar a mesa e a decisão era definitiva. Escrevi isso em minha agenda de capa negra, transformada em uma espécie de diário de bordo, de um navio prestes a naufragar. No "diário de bordo" registrei também as inúmeras impressões românticas que tocavam meu coração. Principalmente a respeito de Bárbara. No entanto, havia algumas doces lembranças com as outras mulheres. Escrevia rapidamente, com uma letra que só eu entendia e sempre de olho no relógio. As horas, naquelas circunstâncias, custavam a passar. Preso no escritório, sentindo-me um inútil, vezes ouvia um chamamento íntimo, para determinadas missões lá fora, mas eu não sabia quais eram. Enclausurado naquelas quatro paredes, fazia idéia do tempo perdido. O tempo voava e eu permanecia ali, vegetando na maior inércia. Precisaria tomar uma atitude urgente para virar a mesa. Procurei registrar tudo o que se passava na minha mente naquele momento, inclusive do estranho vazio que apoderara-se de minha alma. Pensava em tudo, nas pessoas, em mim próprio, no sentido da vida e escrevia sobre isso. Minha imaginação perambulava por toda parte e eu sentia um enorme prazer em dar asas a ela. Refletia sobre coisas consideradas tolas para as pessoas desprovidas de sensibilidade e logo a caneta ia deslizando sobre o papel. Dentre muitas coisas que me preocupavam naquela época, a principal referia-se a que negócio deveria montar. Consultei Bárbara sobre o assunto e ela deu-me a maior força, pesquisando nos astros e na numerologia a melhor oportunidade. Concluiu ela que eu poderia grande chance de sucesso abrindo um negócio ligado ao esoterismo. Gostei da sugestão e logo comecei a trabalhar em cima da idéia.

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Estação da luz
Na semana seguinte, outro dia insuportável no escritório foi anotado no diário: " Santo Deus, esta rotina enfadonha de trabalho me dá muita insatisfação. Além disso, vivo cercado de pessoas gananciosas e artificiais. Posso afirmar que uma solidão devastadora invadiu minha alma. Estou muito confuso a respeito do propósito da minha vida". Quanto mais o tempo avançava no calendário rabiscado penosamente à minha frente, mais a angústia devastava o meu ser. Se não bastasse a alma angustiada, um vazio existencial brotava no meu íntimo. Por isso não me considerava feliz, apesar do bom emprego que possuía e da doce vida que levava com as mulheres. Faltava-me algo mais; sem o qual não me consideraria plenamente realizado. Escrevia minhas angústias no diário. Sabia que no futuro iria recordá-las com boas gargalhadas. Refletindo sobre minha vida, escrevi o quanto estava inerte, atolado no pântano triste da rotina. Sabia que o mundo aguardava para mim belas surpresas, novas amizades, novos lugares e novas emoções. Mas a inércia destruía lentamente a vontade de buscar as mudanças necessárias na minha vida. Precisaria agir rapidamente para não ficar irremediavelmente prisioneiro, qual uma mosca na teia das aranhas famintas. Deveria detonar urgentemente uma revolução íntima ou acabaria enlouquecendo no marasmo cotidiano. Olhei impaciente para o relógio em cima da mesa. O tempo custava passar. Um dia chato de trabalho parecia uma eternidade. Nesta circunstância a sensação de tempo perdido sempre atormentava a mente e alimentava ansiedades. Naquele dia tive certeza absoluta de que não nascera para ficar enfiado num escritório, vegetando feito um zumbi. Meus pensamentos voavam milhas dali. Como o tédio não ia embora, eu resolvia trabalhar mais um pouco, já que era meu costume trabalhar duro até altas horas da noite. Antes, porém, anotei minuciosamente toda minha angústia na agenda negra. Escrevia rapidamente para não esquecer de nada, de modo que a letra só eu mesmo conseguiria entender. Aproveitando o horário que sobrava do almoço, eu sempre lia alguns livros esotéricos e tornei-me um obcecado pelo assunto. Lia de dia e meditava sobre o tema à noite. Isso quando não fazia minhas visitas ao plano astral. De todos os livros lidos, dois foram fundamentais para mim alcançar a paz de espírito e a compreensão da vida: "Buda" e o "Baghavad Gita". Creio que jamais fui o mesmo depois de ter mergulhado profundamente em suas páginas. Continuei escrevendo os "hieróglifos", mas o tédio não ia embora. Então, não me contive. Seria aquele momento ou nunca, pensei. Sentei à mesa do microcomputador e digitei a carta de demissão. Em poucos segundos a máquina imprimiu aquela que seria minha alforria. Fui para casa satisfeito naquele dia, recordando a cara de espanto do chefe quando leu a carta. Suas tentativas para convencer-me a permanecer na Bolsa de nada adiantaram. Eu havia decidido cair fora mesmo. Antes de ir para casa resolvi espairecer caminhando na cidade. Naquele instante meu relógio acusava dezoito horas e o formigueiro humano encontrava-se em plena atividade.

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Caminhava devagar, observando aquelas pessoas agitadas que labutavam diariamente como autômatos. E eu era uma dessas pessoas e estava consciente deste fato. Mas as outras talvez não tivessem tampo para pensar nas circunstâncias. Eu caminhava feliz e atento. Procurando inalar calmamente o ar. Desta forma pude redescobrir os cheiros da cidade grande. A carne assando à beira da calçada, a fumaça dos veículos e a poeira no ar. Havia também sons e ruídos de todos os tipos. Ma nada me incomodava. Naquele instante a sensação de liberdade imperava em mim. Prossegui lentamente desviando da multidão e das barraquinhas dos camelôs, que obstruíam o trânsito. A quantidade de pessoas que circulavam no centro era absurda, tornando impossível andar por lá sem colidir com algum transeunte. Nestas trombadas de corpos, os transeuntes não pedem desculpas e não olham para trás. O errado é sempre o outro. Andando sem rumo cheguei à Rua Mauá, no exato momento em que uma grandiosa lua cheia começava a aparecer no horizonte. Ela refletia a luz dourada do sol, indicando o dia frio que fazia. Deixando de namorar a lua, parei por alguns instantes para admirar a majestosa construção projetada pelos ingleses; a conhecida Estação da Luz. Em suas imediações pude encontrar todos os tipos de pessoas: trabalhadores, vagabundos, bêbados, prostitutas, travestis, estudantes, donas de casa, crianças, homens rudes e belas mulheres. A região é um imenso caldeirão cultural, que contém as múltiplas características dos habitantes da cidade. No alto da torre da estação, o relógio gigante indicava 19 horas e 5 minutos. A escuridão da noite mal chegara e os homens já arrastavam as prostitutas para os hotéis de quinta categoria, espalhados pelas redondezas. Alguns desses hotéis são antigos casarões caindo aos pedaços. Contudo possuem arquitetura interessante que retrata a história da cidade. Por isso, deveriam ser preservados como patrimônio histórico valioso. Ao passar em frente a um desses hotéis, vi um jovem casal, visivelmente constrangido, subindo as escadas de madeira. O tímido rapaz acabara de contratar uma prostituta de segunda categoria, a fim de saciar sua fome de sexo. A moça por sua vez, parecia estar apenas interessada no dinheiro que iria receber por isso, nada mais. Aquela prostituta apresentava-se mal vestida, não era bonita de rosto, mas tinha um corpo bem feito e convidativo. Bumbum arrebitado, cinturinha fina e pernas envolventes à amostra. Permaneci observando o casal até ele desaparecer no labirinto do hotel. Com certeza praticariam atos sexuais, do tipo que se pode comprar nas ruas: rápido, inseguro e sem envolvimento. Talvez para fazer jus ao pagamento, a prostituta representasse na cama as típicas encenações das mulheres de rua, que fingem prazeres alucinantes.

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O andarilho
Lembrando um andarilho, continuei fazendo meus passeios pela cidade. Buscava nessas andanças encontrar a tão sonhada paz espiritual. Na oportunidade aproveitava para observar as múltiplas facetas daquela metrópole que antes tão pouco me atraia. Empoleirado no "trator" eu espiava a cidade através da viseira do capacete, enquanto refletia sobre o que seria da vida dali em diante. Pensava muito nas palavras de Barbará, que me incentivavam a montar um negócio próprio ligado ao esoterismo. E ela tinha razão. Certamente um negócio votado para o esoterismo me proporcionaria um grande prazer e grande realização pessoal. Certa vez no centro da cidade, uma senhora de meia idade tentava ajudar um pobre garoto de rua. Mas o menino estava totalmente alheio à sua ajuda. Olhei para trás na tentativa de desvendar o que se passava. Então vi o moleque recusar o dinheiro que ela oferecia. As outras pessoas também observavam aquela cena deplorável. O pobre menino até que não era feio. Possuía traços delicados, pele branca e cabelos negros compridos. Provavelmente não passava de dez anos; mas era impossível saber ao certo. O garoto estava bem judiado pelo cruel destino que a vida lhe reservara. A sua roupa e sua face sofrida estampavam a mais negra sujeira da nossa podre sociedade. E mesmo diante destes fatos, alguns afirmam, que o futuro pertence às crianças... É difícil entender que um país rico em recursos naturais como o Brasil, abandona à própria sorte muitos de seus filhos. No meu entender, os meninos de rua são legítimos filhos bastardos da nossa Pátria. Se não bastasse o destino ingrato, muitos servem de alvo para bandidos pistoleiros, travestidos de justiceiros. Voltando ao garoto, seu olhar estava perdido. Creio que a sua pobre alma também. Amparado pela piedosa senhora, o garoto mal conseguia parar em pé. Com o corpo todo desengonçado, parecia bêbado. Em todo caso, o garoto estava envergonhado e tapava o rosto imundo com sua camiseta rasgada. Ele ainda continuava empurrando a mão da mulher, que, insistentemente, queria entregar-lhe o dinheiro. Era um perfeito duelo entre teimosos. Na teoria, o pobre coitado estaria louco recusando dinheiro graúdo. Na realidade aquele menor abandonado encontrava-se completamente drogado. Fiquei penalizado dele e de todos nós. A medida que somos também responsáveis por essa sociedade injusta e desigual.

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Lembro que naquelas andanças, uma vez tomei um ônibus cheio e fui sentar lá no fundo. Os homens eram maioria dentro do coletivo, mas havia também algumas mocinhas bonitas. Era uma segunda-feira e por isso as pessoas estavam com a cara fechada. O silêncio sepulcral dentro do coletivo foi quebrado por uma senhora que começou a conversar alto irritando à todos. Forçosamente, prestei atenção no que ela dizia. − Mas não pode ser assim, tem muita gente desempregada e o governo não faz nada para acabar com isso. Se eu não lutar, será que vem o meu no final do mês? Todo mundo precisa de um emprego, como fica a situação do desempregado? Gostaria que todo mundo trabalhasse. Todos precisam de dinheiro, mas os políticos não deixam. Eles são uns caras-de-pau que só sabem pedir voto, depois esquecem o povo. As preocupações dos políticos são com a decoração da casa, compras e viagens maravilhosas. Estes politiqueiros são sem-vergonha. Eles compram até calcinha nos Estados Unidos para a mulherada. Tudo às custas do povão. Pode isso? A mulher falava empolgada e cada vez mais alto. Curiosamente ela conversava consigo mesma. Seria uma louca? Atrás da queixosa senhora sentava-se uma mocinha bonita e arrumada; de olhos claros, batom vermelho nos lábios e pernas sensuais à amostra. Com o fone enterrado nas orelhas, ela curtia alienadamente as músicas de seu walkman. Para aquela moça a lamuriosa senhora nem existia. Aliás, ninguém ali existiam em eu. A garota, quase hipnotizada, olhava pela janela sem prestar atenção em nada. O seu olhar perdido focalizava o infinito. O seu mundo particular resumia-se em um oceano entorpecente de música. Ela não enxergava a vida fluindo nas artérias da cidade. Por outro lado, eu e as demais pessoas ouvíamos as reclamações da queixosa senhora, sem qualquer comentário ou gracejo. Permanecemos quietos, sem o menor senso de humor, como se o ônibus fosse um velório. Não seria isso também uma forma de alienação? Depois de certo tempo, as pessoas foram descendo do coletivo, inclusive a mocinha e a senhora maluca. Mas eu continuei o percurso, perscrutando a cidade através da janela, com os olhos bem abertos, tentando desvendar os mistérios da cidade grande. As andanças em São Paulo fizeram um bem enorme para o meu espírito atormentado. Quanto mais eu caminhava naquela selva de pedras, mais surgiam mistérios à desvendar. Andei pelas ruas dias e dias a fio. Sempre pela manhã, após tomar café. Era a maneira eficiente que eu encontrara para diminuir o vazio existencial. E de tanto refletir, compreendi de uma vez por todas, que as coisas da vida são transitórias. E, que viver o presente é importante e liberta a mente do inferno gerado por ela mesma. Daquela época em diante, decidi ser soberano sobre minha mente. Não mais seria um servo de pensamentos vagabundos, que sempre nos atiram ao inferno mental. Conscientemente adotei um modelo de conduta mental, que evitava pensamentos violentos ou negativos.

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Como querer é poder, lutei e consegui a tão sonhada paz espiritual. Mas, mesmo assim, continuei fazendo minhas peregrinações nos santuários da cidade. Uma vez, fui à estação de metrô da Sé e fiquei longos minutos admirando o gigantesco mural surrealista que lá existe. Em meio a tanta gente cheguei a me arrepiar quando senti no ar um perfume feminino de altíssima qualidade. O cheiro agradável aguçou meus sentidos de tal modo que sensibilizou ainda mais minha consciência. O agradável aroma do perfume me fez recordar subitamente os momentos agradáveis que passei junto a mulheres inesquecíveis. Cada uma tinha suas particularidades, já que não existe no mundo uma mulher igual a outra, nem física nem intelectualmente. Eram justamente essas diferenças que eu tanto admirava nelas. Considero cada mulher uma obra de arte divina e exclusiva. Uma preciosidade de valor inestimável. Jamais esquecerei que fui um inquilino incômodo por nove meses na barriga de uma delas, que por seu lado, retribui com o amor de mãe. Passando pelo Viaduto do Chá, parei para admirar os arcos de ferro que o sustentam. Em cima do viaduto, havia uma infinidade de bancas de camelôs, que vendiam todo tipo de mercadoria aos transeuntes. Lembrava uma praia, já que todas possuiam um guarda-sol colorido aberto. Do lado oposto, o antigo e histórico edifício Martinelli acabou cercado por edifícios mais altos e modernos. Antigamente ele era o maior e mais importante de São Paulo. Na porta do Bar Americano, situado em frente ao prédio central do Correio; jovens prostitutas, com ridículas roupas provocantes, insinuavam-se para potenciais clientes que circulavam pelo calçadão ao sol do meio-dia. Ao lado deste bar, um bando desocupado observa os cartazes pornográficos do cine Cairo, que está caindo aos pedaços. Mais adiante, missionárias protestantes de saias longas, cabelos compridos e Bíblias em punho, tentavam arrebanhar para sua igreja alguns transeuntes. No ar saturado do centro, flutuavam dezenas de bolhas de sabão lançadas por um camelô barbudo. Estas bolhas que logo explodiam no ar, lembravam quanto nossa vida é efêmera. Para manter o hábito de caminhar, resolvi um dia atravessar a pé toda a cidade de São Paulo. Saí às 6 horas da manhã da Rua Rafael Ferrari, situada próxima à divisa do município com Taboão da Serra, com destino ao Horto Florestal. Um percurso de trinta e cinco quilômetros. Na ocasião eu vesti uma roupa velha e confortável, calcei um tênis e levei às costas uma mochila que continha água, castanhas de caju, bolachas, bananas, lápis e papel. Satisfeito com a vida, caminhei observando tudo. As coisas interessantes observadas eu logo anotava em um surrado bloquinho de papel. Lembro perfeitamente que por onde passava sempre ouvia o agradável canto do Bem-te-vi. Estes pássaros estavam por toda parte. N Nas avenidas movimentadas inúmeras pessoas a pé ou de bicicletas, faziam o costumeiro passeio dominical. Quando eu passava em frente aos cães guardiões das casas, eles ladravam raivosos para mim. Ma eu não me importava e seguia a marcha sem olhar para trás. Na avenida construída em cima do córrego canalizado do Pirajussara; as enormes jamantas, que por lá transitavam, bombardeavam meus tímpanos com um barulho infernal. Se não bastasse isso, elas lançavam ao ar espessas nuvens negras de fumaça,
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que me causavam acessos de tosse. O trânsito ali estava muito intenso por causa dos caminhões que partiam de São Paulo com destino ao Sul do país ou vice-versa. Como meus passos eram rápidos, logo atravessei a ponte sobre o Rio Pinheiros em direção à Avenida Rebouças. Nesta avenida, um cão, destroçado por um veículo, expunha suas vísceras as pessoas enojadas que se encontravam em um ponto de ônibus próximo. Vendo que a morte havia rondado por ali, pensei a respeito do destino daquele pobre animal, que naquele instante estava entregue às repugnantes moscas varejeiras. Onde estaria naquele instante a alma do cachorro? Ela teria realizado a sua missão? Ele teria fugido da casa de alguém e depois encontrado a fatalidade? Fiquei matutando coisas assim, não sei por quanto tempo. A morte é sempre um tema polêmico. Principalmente quando você se depara frente à frente com ela. Prossegui minha jornada e quando passei ao lado do Instituto do Coração e, recordei os dias que ali ficou internado o recém-eleito Presidente do Brasil, o Sr. Tancredo Neves. Recordei também do sofrimento do povo brasileiro ao acompanhar sua agonia, rezando pelo seu pronto restabelecimento. No fundo, algo me dizia que a hora dele havia chegado. Dito e feito: Tancredo morreu antes de tomar posse do cargo. Para alegria de muitos políticos e militares conservadores. Continuando o percurso, na Avenida Pacaembu, vi um garoto estourar a janela de um carro estacionado em frente a um casarão, transformado em escritório comercial. Rápido como um gato, ele roubou o toca-fitas e saiu correndo. Alarmadas pelo barulho, algumas pessoas saíram do casarão e partiram à procura do infeliz. Entretanto, o jovem espertalhão, desapareceu em pleno dia. Continuei caminhando em direção à Avenida Brás Leme. E quando estava próximo ao Campo de Marte, avistei no céu azul a esquadrilha da fumaça, fazendo suas evoluções com o Super Tucano O orgulho da indústria aeroespacial brasileira. Milhares de espectadores admirados acompanhavam aquele belo show aéreo. Eram quase onze horas da manhã quando deixei o campo para trás e já começava a sentir fome. Então, devorei algumas bananas, juntamente com castanhas de caju. Depois de andar a Brás Leme inteirinha, subi a Avenida Dr. Zuquim. E quase no final dela, resolvi orar um pouco na igreja Nossa Senhora Salete. Parei ali uns quinze minutos, para admirar suas paredes cobertas de azulejos desenhados com interessantes figuras religiosas. Eu estava um tanto exausto e meus pés doíam um pouco. Entretanto, ainda possuía energia suficiente para andar muitos quilômetros. Cinco horas após a partida e felizmente pude avistar a verdejante Serra da Cantareira, meu destino. Fiquei emocionado e animado para logo chegar lá. Enfim, às treze horas em ponto, atingi meu objetivo ao cruzar o portão do Parque Florestal. Depois de percorrer trinta e cinco quilômetros, em seis longas horas de caminhada. Percorrendo a cidade de ponta a ponta à pé, coisa que poucas pessoas realizaram. Cansado, com os pés inchados e dor nas coxas; deitei-me no gramado do parque. Situado ao lado do palácio de verão do Governador. Então apoiei as pernas em uma grande pedra e fiz um merecido repouso. Durante o percurso daquela longa caminhada pude observar calmamente a cidade e seus habitantes. Creio que consegui provar, assim, um pouco da "sopa" deste enorme cadeirão cultural que é São Paulo.

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Esoteratur
Ao cabo de alguns meses, finalmente consegui dar um novo rumo à minha vida. Vendi meu apartamento, em São Paulo e mudei para a histórica cidade de Embu, refúgio predileto de artistas e artesãos. Lá abri uma pequena loja para comercializar produtos esotéricos tais como incensos, cristais, pirâmides, estátuas e gravuras de antigos deuses das mitologias romana, grega, hindu e egípcia. A lojinha era muito procurada por turistas interessados em adquirir aquelas interessantes mercadorias, convenientemente expostas. O movimento maior da loja ocorria sempre aos domingos, quando as pessoas visitavam a feira de artesanato localizada na praça central da cidade. Nesta época, comecei a criar cães da raça boxer, pois eu adorava esses animais rudes. Eles eram amáveis comigo e sempre estavam ao meu lado. Cachorros desta raça possuem um incrível poder de expressão no olhar e se comunicavam comigo desta maneira. Olhando nos olhos deles, eu percebia queriam brincar, passear, comer ou ser acariciados. E eles sabiam quando eu estava nervoso ou calmo. E também quando podiam brincar comigo. Os boxers assustavam as pessoas. Entretanto, são cães inteligentes, ágeis e dóceis e podem ser treinados para diversas funções, como guia de cego ou vigilantes de residência. Administrando a loja e criando os cães, eu vivia atarefado. Viajava muito para São Paulo a fim de contatar alguns clientes e fornecedores, ou mesmo para visitar meus amigos. Nestas ocasiões, deixava minha bela e jovem funcionária tomando conta da loja. Eu a escolhera a dedo. No comércio a aparência é fundamental, Mas a moca também era dinâmica e esperta, e por si só atraía os fregueses e impressionava as mulheres. Assim eu podia sair sossegado, que a loja ficava em boas mãos. A título de incentivo, além do salário razoável, eu pagava a ela comissão sobre o faturamento total das suas vendas. Em São Paulo abri uma pequena agência de turismo, situado na Rua Sete de Abril. Naquela modesta empresa, trabalhava comigo uma secretária e um esperto boy, que tocavam o serviço quando eu estava ausente. A firma era pequena, mas o faturamento era razoável. A agência denominada "Esoteratur", na sua curta duração, já havia levado centenas de clientes à São Tomé das Letras e aos parques Chapada Diamantina, Veadeiros e Petar. Outros lugares interessantes também foram visitados: Ilhabela, Pantanal e a Selva Amazônica. A tarefa que mais me agradava era levar romeiros à cidade de Uberaba, para conhecerem o centro espírita de Chico Xavier, atualmente considerado o maior médium do mundo. Daquela época em diante passei a viver com um sorriso nos lábios e feliz da vida. Trabalhava com a maior dedicação no que realmente me satisfazia. Juntamente com excursões, eu também realizava conferências, palestras e cursos sobre assuntos esotéricos. Para isso, recrutei no Círculo Dourado pessoas de grande conhecimento no assunto. Eram as minhas amigas: Luci Monteiro, Kátia Rocha, e a Bel Perez.

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Dentre elas destacava-se a psicóloga Kátia, profunda conhecedora da alma humana. Muito simpática Kátia possuía o invejável poder de manter as pessoas entretidas em seu discurso do começo ao fim. E seu sorriso largo abria as mentes mais bloqueadas. Sem dúvida, seus cursos foram os apreciados pelo público. Os temas abordados nos eventos eram variados: budismo, hinduísmo, zen, sufismo, cristais, pêndulos, tarô, hipnose, numerologia, grafologia, OVNI, etc... Eu pessoalmente ministrava cursos sobre viagens astrais, para um público predominantemente feminino; cuja faixa etária variava dos vinte aos quarenta anos. As mulheres sempre demonstraram maior interesse nestes assuntos que os homens. Entretanto, meus raros alunos iniciavam as viagens astrais muito antes que a maioria das mulheres. Como mencionei a Esoteratur tinha um excelente fôlego financeiro, fruto do trabalho árduo e da qualidade dos serviços prestados. Felizmente, neste ramo promissor, eu havia encontrado o filão da mina.

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O negro velho
Morando na cidade de Embu, em pouco tempo eu fizera amizade com muitos de seus inusitados moradores - artistas, escultores, artesãos e muitos lojistas . E muitos deles freqüentavam minha casa. Pois na região tornei-me conhecido por ter o canil. E para minha felicidade, vinham pessoas de longe para encomendar filhotes. Se a parte financeira da minha vida corria bem, eu ainda possuía o coração dividido entre Bárbara e Rose. Desafiava a lei do amor, amando, ao mesmo tempo, duas mulheres maravilhosas e pagava o preço alto pela ousadia. O enorme peso na consciência e a eterna dúvida. O que seria de mim se um dia precisasse decidir com qual delas ficar? Pois a escolha seria impossível. Apesar do tempo escasso, quando a saudade apertava, eu corria ao encontro delas. Lembro o quanto era penoso para mim ocultar meu envolvimento com a Rose. A amizade inseparável delas complicava a minha situação e afetava a minha consciência. De tal forma que drenou minhas energias. Por isso resolvi procurar um benzedor famoso de Embu, apelidado de "Nego Bento". Um negro de cabelos brancos como a neve, que apesar de ter mais de noventa anos, tinha saúde para dar e vender. E assim foi feito. Quando cheguei em sua casa encontrei-o sentado, apoiando as solas grossas dos pés descalços no chão do terreiro apinhado de galinhas pretas. O velho acabava de enrolar o fumo picado de corda na fina casca de espiga de milho, manufaturando o conhecido "cigarro de palhas". − Que você veio fazer aqui filho? - perguntou o velho benzedor, apertando firmemente minha mão. − Vim procurar o senhor para me benzer. Acho que estou com um encosto... − Vem cá filho. - puxou-me pelo braço para dentro de sua casa de madeira. Entramos em um cômodo apertado e escuro, no qual dezenas de velas e incensos de cheiro forte ardiam aos pés das estatuetas da Nossa Senhora Aparecida, de Iemanjá, de São Jorge e Jesus. − Fique parado ai filho - falou, posicionando-me no centro do aposento minúsculo. De posse de um largo colar de contas de "olho de gato", enfiou-o na minha cabeça e deixou-o cair ao chão. Depois, concentrou-se de olhos fechados por alguns segundos. − Tá vendo aquela volta ali filho? - indicou uma parte do colar retorcido ao meus pés. − Estou sim. − Pois é filho, tem gente querendo fazer mal prá você. − Quem será? - perguntei curioso. − É um rabo de saia. Uma branquinha bonita de cabelo curtinho e escuro que nem carvão. Para conseguir seu intento ela recorreu aos poderes magia negra e fez um trabalho para você desfazer da mulher que ama. Para minha surpresa a descrição mencionada pelo "Nego Bento" coincidia exatamente com Tânia. Justamente ela que tem sido minha grande amiga nestes últimos tempos?

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− Meu filho vou te benzer para afastar o encosto. Feche os olhos! - falou baixinho, com voz rouca e grossa que eu ouvia com dificuldade. O velho negro posicionou-se a minha frente de pé e com uma das mãos tocou levemente minha cabeça. Senti perfeitamente o calor irradiado da sua mão, emanado da sua aura de vibrações intensas. Dava impressão que na minha cabeça incidiam fortes raios solares. Após a irradiação na cabeça, o velho correu suas mão em torno do meu corpo sem tocá-lo. Novamente senti o intenso calor que causou arrepios de febre. Feito isso o velhote deu violentos murros em seu próprio peito, chamando para si o encosto maligno. Fez isso várias vezes e na última ele quase caiu ao chão, acaso eu não o tivesse amparado com as mãos. Ao sair do transe, seu Bento abriu seus enormes olhos vermelhos e cansados e falou: − Filho, você andava muito carregado. Mas pode ficar sossegado, que o encosto maldito sumiu na terra. Para meu alívio, o negro velho conseguira tirar o "encosto" maligno do meu corpo...

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A morte espreitava-a
O Círculo Dourado estava um tanto agitado naquele mês de outubro de 1994; em razão da sua eleição interna para a presidência. Aquele cargo fora disputado acirradamente por duas ótimas candidatas: a erudita Tereza Cohen e a colunável Valkíria Campos, ambas notáveis e competentes administradoras. Gostaria que a Camila Hernandez comandasse O Círculo, mas ela não se candidatou. Ao meu ver, de todas aquelas mulheres, Camila era a mais espiritualizada, sempre atendendo com enorme consideração àqueles que a procuravam para pedir conselhos ou buscar segurança em seus braços confortantes. Com poder de suas palavras doces, que conseguiam penetrar os corações mais duros e as mentes mais aflitas. Camila obtinha, assim, verdadeiros milagres.

Das candidatas concorrentes à presidência, era a Tereza que possuía o maior tino administrativo, convenientemente aliado a um dinamismo invejável e a uma enorme habilidade em negociar opiniões divergentes. Requisitos que faziam dela uma candidata imbatível.

No dia marcado para a eleição, todos os membros fizeram-se presentes e, após uma rápida votação, confirmaram que Tereza ocuparia novamente a presidência. Emocionada, ela discursou para os presentes. − Agradeço a vocês por formarem esta corrente maravilhosa de amizade e cooperação, a qual denominamos Círculo Dourado. Agradeço, de todo coração, pela oportunidade que me deram novamente de presidir esta casa. Nem tenho palavras para dizer o quanto estou feliz agora. Principalmente por me encontrar entre vocês, a quem considero minha família. Falando um pouco de nossos objetivos, pretendo continuar a missão fraternal desta nobre casa; abrindo novas creches para as crianças carentes. Pois acredito piamente no dito popular que diz, "quem dá às crianças, empresta a Deus". Para viabilizar esse empreendimento, contatei antecipadamente algumas amigas empresárias, e elas concordaram em patrocinar parte considerável das obras. Minha intenção é inaugurar uma creche no início do ano vindouro, no bairro do Campo Limpo. Enquanto Tereza discursava empolgada, para minha tristeza vi em seu rosto que a morte espreitava-a também. Infelizmente o poder macabro de enxergar a morte no rosto de alguém prestes a abandonar o nosso mundo, havia se manifestado novamente. Profundamente aborrecido, guardei a amargura só para mim e não contei o fato a ninguém.

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Enquanto isso, Tereza continuava seu discurso: − As crianças são o alicerce de nossa sociedade. Não podemos esquecer disso jamais. Por mais que façamos para a segurança, o conforto e o desenvolvimento dessas criaturinhas, é pouco em vista do que elas merecem. Imaginem, crianças abandonadas por seus próprios pais... Logo os pais, que deveriam ser a fonte principal de amor e proteção para elas. Sendo assim, solicito a colaboração de vocês para levarmos adiante esta gratificante missão. Obrigada! Nossa presidente foi aplaudida de pé. Depois, sucedeu-se uma festa animada, com muitos comes e bebes, ao som das músicas românticas de Júlio Iglesias. Atravessamos a madrugada bebendo vinho tinto do Porto e comendo deliciosos queijos importados e uvas italianas, que delícia.

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O espírito encarnou
Certo sábado chuvoso, com muitos relâmpagos rasgando o céu escuro, compareci ao Círculo Dourado. Havíamos combinado uma reunião na qual a médium Camila Hernandez procuraria incorporar um espírito. Quando cheguei, Bárbara e nossa amiga Rose me aguardavam em um amplo salão iluminado pelas chamas de velas azuis de um candelabro antigo. A médium e as outras notáveis estavam sentadas em uma mesa comprida, forrada com uma toalha branca. Alguns instantes após elas iniciaram os trabalhos espirituais ao som uma música clássica suave e relaxante. Quando terminamos as preces rotineiras, Camila concentrou seus pensamentos a fim de ser incorporada pelo espírito. Enquanto isso, eu olhava atentamente aquela mulher fascinante, de cabelos cor de ouro que ao refletir a luz dourada das velas tornavam-se radiantes. Enquanto os olhos da Camila continuavam cerrados, a sua face retratava a mais pura serenidade. Aliás, essa era a sua característica mais marcante. No longo e monótono silêncio que se sucedeu dava para ouvir o pessoal respirando. E logo a prodigiosa médium entrou em um transe profundo. De repente, todos nós assustamos quando a voz rouca de um homem ecoou na penumbra do salão. Era a voz do espírito que acabara de invadir o inconsciente cósmico da Camila e através dela falou. - Venho aqui informar que dentro em breve uma de vocês falecerá, pois a sua missão aqui na Terra se aproxima do fim. No outro mundo ela iniciará uma outra, assim que a tivermos em nosso mundo. Essa pessoa possui grande espiritualidade e compaixão. Seu carma é bom, portanto ela nada deve temer. Peço que não se assustem com essa revelação. O que vocês chamam de morte é na realidade uma passagem para outra dimensão. A morte verdadeira não existe. O espírito faz parte da essência divina primordial e por isso não pode ser destruído. Portanto, ele continuará vivendo eternamente e em evolução. As moças permaneciam visivelmente espantadas com a fala do espírito e, antes que alguém perguntasse quem seria a escolhida, a voz rouca respondeu: - Não perguntem o nome da pessoa a qual me referi. Quero apenas que saibam que ela está calma e serena, enquanto que os demais estão temerosos e apreensivos. Embora as moças não soubessem ao certo quem atravessaria a "fronteira da morte", eu tinha absoluta certeza: Teresa Coen. Dito e feito. Dias após àquela revelação Teresa morreu. Seu pobre coração parou de pulsar enquanto ela dormia tranqüila, esparramada em sua enorme cama de casal. Creio que ela passou para o lado de lá imaculada e feliz, sem qualquer trauma espiritual. Sua nobre missão terrena fora cumprida plenamente.

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No velório tamanha choradeira, pois a Teresa era querida por todos nós. Tal qual a maioria dos homens nestes momentos eu contive o choro. Em contrapartida ganhei uma dolorosa enxaqueca e um incômodo nó na garganta que perdurou vários dias para desatar. Seria melhor para mim se tivesse e chorado. Dizem os médicos que reprimir emoções não faz bem ao corpo e a mente. E naquele instante eu recebia essa lição na prática. Se nós adultos sentimos tanto a brusca partida da Teresa, imagine então as crianças da creche? Pois então, elas ficaram tristes e desoladas com a morte da "tia" Teresa. Os olhinhos inocentes das crianças indicavam o quanto Teresa representava o amor, carinho e proteção para elas. Deu o que fazer para as outras tias explicarem para as crianças porque o pai do céu havia chamado justamente ela que era tão bondosa. Depois da choradeira, do enterro e do vazio em nossas mentes, a Walkíria Campos foi eleita a sucessora da Teresa. No discurso de sua posse a Walkíria prometera dar andamento aos planos de Teresa, principalmente a construção da nova creche em Campo Limpo. Prometeu e cumpriu. Em tempo recorde ela construiu uma creche para abrigar cerca de cinqüenta crianças abandonadas. No dia da inauguração o "Círculo Dourado" em peso estava lá prestigiando a memória da benemérita Teresa. Quando então houve uma grande festa, na qual as crianças felizes brincavam correndo no meio da gente. Por instantes senti a presença da Teresa entre nós. Então um arrepio subiu minha coluna e se espalhou pelo corpo todo. Sensibilizado pela presença espiritual da nossa querida amiga, agradeci em silêncio por ela estar ali. Logo que assumiu a presidência Walkíria programou extensa agenda cultural para o Círculo, que incluía palestras, conferências, ampliação do museu e excursões à lugares místicos. Muitos dos quais foram efetuados pela Esoteratur. A primeira excursão realizada pela minha agência para O Círculo foi: "A Chapada dos Guimarães Mística". Na oportunidade fomos até lá, através de um ônibus imenso e confortável. A viagem, que durou muitas horas, fora agradável em virtude da programação previamente concebida: brincadeiras animadas, jogos de cartas, de adivinhações, cenas cômicas, filmes de vídeo e muitos drinques. O pessoal nem percebeu o tempo passar e São Paulo já havia ficado centenas de quilômetros para trás. Antes de chegarmos à Chapada pernoitamos em um hotel fazenda em pleno pantanal Mato-grossense. Uma região perdida no meio da América do Sul, onde a natureza permanece intacta apesar da presença do homem "civilizado". No dia seguinte, pela manhã, navegamos de barco nos rios que rasgam o lugar e pudemos constatar com nossos próprios olhos o estrago causado pela seca prolongada. Inúmeros jacarés jaziam atolados na lama ressecada dos rios que evaporaram; provocando um cheiro horrível de podridão no ar. A vegetação outrora verdejante do lugar apresentava uma tristeza desoladora. Folhas e galhos esturricavam no sol implacável. E mais, as fazendas vizinhas tinham o chão repleto de ossadas de animais. Milhares deles haviam morrido por falta de pastagens. Urubus agourentos voavam em círculos no céu azul, aguardando a morte de outros tantos animais esqueléticos. Sobretudo bois e vacas, que, sem forças, não conseguiam parar de pé. Mesmo devastado pela seca o pantanal ainda nos reservava agradáveis surpresas. Avistamos onças assustadas, jacarés famintos, macacos travessos, apavorantes cobras e alegres pássaros de plumagem colorida.

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Depois de permanecermos dois dias no pantanal, nosso grupo chegou à Chapada dos Guimarães, no momento que um sol grandioso despontava no horizonte e começava queimar as peles esbranquiçadas das mulheres. A visão que se tem do alto da Chapada, num lugar denominado Mirante, é algo de impressionar nossa memória para sempre. Jamais esquecerei este lugar fantástico de onde se avista o verde das matas encontrando-se com o azul do céu, no horizonte distante. Juntos, Bárbara e eu conhecemos aquele que os místicos consideram como um dos importantes vórtices de energia do nosso querido planeta azul. Um curioso marco geodésico encravado parque atesta que aquele lugar é o centro da América do Sul. Na Chapada o calor estava insuportável. Para amenizá-lo resolvemos nadar na Lagoa Azul, situada no interior da caverna Aroe Jarí. A água cristalina desta lagoa era iluminada por raios solares que penetravam por uma fenda no teto da gruta. Assim, pude admirar os corpos seminus das minhas amigas que nadavam alvoroçadamente. Elas pareciam autênticas "sereias" e eu um pobre náufrago que adentrara em seus domínios. Dentre aquelas mulheres a Bel destacava-se pela alta sensualidade de suas generosas curvas. Para completar, a moça possuía um quadril largo e a cinturinha fina. Seus seios empinados e bonitos faziam inveja a qualquer jovem. Em resumo, uma mulher para homem nenhum por defeito. A "Esoteratur" levou-nos também ao Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros em Goiás. Um parque maravilhoso que é atravessado pelo paralelo 14, uma das importantes referências cartográficas da Terra. Na ocasião, assim que chegamos a este parque, formamos o grande círculo humano de energização. E, de braços levantados e mãos abertas, praticamos diversos exercício, para canalizar para nossos corpos as vibrações positivas do lugar. Em seguida, sem desmanchar o círculo, sentamos no chão na posição de lótus. E mentalizamos vibrações benéficas em prol da humanidade e do nosso planeta. Como não podia deixar de ocorrer, o grupo nadou no Rio São Miguel, em pleno Vale da Lua, onde águas cristalinas escorrerem nervosas entre as rochas escuras, provocando um incrível contraste. Prestando atenção nas águas do rio, a gente percebe a natureza fluindo livremente em seu eterno ciclo. Afirma uma interessante lenda no exterior, que surgirá nesta região uma civilização extremamente desenvolvida e, ela dominará o Planeta no terceiro milênio. Assim espero. Não muito longe do parque, existe uma cidade na qual situam-se muitas comunidades voltadas ao esoterismo. Nossa curiosidade nos levou até uma delas, denominada: Associação Holística Vale do Sol. Presidida Sr. Perez, o qual tivemos o prazer em conhecer. Perez tornara-se famoso por incorporar o espírito do famoso Dr. Fritz. Conhecido por que realizar cirurgias espirituais milagrosas, que curavam as pessoas aflitas. A cidade de Pirenópolis em Goiás foi outro lugar interessante que visitamos nas excursões esotéricas. Essa cidade de muitas casas históricas possui lendas interessantes em seu folclore. Em Pirenópolis fizemos também o grande círculo de energização. Desta vez em torno de uma monumental árvore Jequitibá, que segundo os moradores da cidade possui mais de cem anos. De mãos dadas com as garotas, olhando para copa daquela árvore impassível que desafiava o tempo, senti a exata dimensão da minha vida perante a natureza, ou seja: quase nada.
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Próximo de Pirenópolis corre as águas purificadoras do Rio das Almas, no qual nos banhamos prazerosamente, após o que nos sentimos mais leves e dispostos. Comentamos entre nós, em tom de brincadeira, que lavamos a alma naquele rio... No subúrbio da cidade, conhecemos uma estranha casa de meditação, encravada no topo de uma colina, toda cercada por uma mata rasteira. A casa na verdade é uma de barracão pintado de branco, sem forro no teto e com amplas janelas panorâmicas. Das quais, mesmo sentado, se avista a pitoresca paisagem rural em um ângulo de trezentos e sessenta graus. Mesmo se estando dentro da casa, tudo está ao alcance das vistas: as hipnóticas montanhas, o céu azul, e o sol intenso. Este dourava as matas e nos fazia suar de calor. Um outro lugar interessante que visitamos foi o Parque de Sete Cidades no Piauí. Onde existiam curiosas formações rochosas e os enigmáticos desenhos rupestres. Neste paraíso natural a água límpida do rio de refletia fielmente as nuvens brancas no céu azul. Nunca vira coisa igual. Passeando no parque pudemos observar aqueles desenhos pré-históricos feitos nos paredões rochosos, que intrigam os turistas e os cientistas do mundo inteiro. Eram desenhos estranhos e pintados na cor vermelha, que chocaram nossas vistas. Evidentemente aquelas inscrições testemunharam o passado misterioso de nossos ancestrais. Em uma época perdida no tempo que os cientistas tentam resgatar. Para a sorte da ciência as inscrições se encontram em perfeito estado. Em que pese o fato de estarem sujeitos as intempéries do ar livre. Para finalizar, excurcionamos também ao Parque Nacional de Itatiaia, localizado na fronteira de Minas Gerais e o Rio de Janeiro. Uma região montanhosa, de ar puro e densas matas, onde vivem diversas espécies de aves e animais. É neste parque que está o famoso Pico das Agulhas Negras; quase sempre encoberto por nuvens espessas. Este pico é o segundo ponto mais elevado do Brasil. Sem sombra de dúvida, foi um período de ouro a Walkíria na presidência da ordem. Na sua gestão ela incrementara as atividades culturais e as viagens turísticas. Fatos muito contribuíram para nosso desenvolvimento pessoal. A Esoteratur, por sua vez, soube aproveitar este período em que a maré estava para peixe e faturou substancialmente.

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33 Andarilho do astral Foi através de uma viagem após a outra, assim como uma droga que vai aos poucos se apoderando do corpo e da mente de uma pessoa, que virei um andarilho do astral. Assim, meu espírito começou a depender tanto destas viagens, quanto os meus pulmões. Portanto, mesmo que quisesse, já não conseguiria mais abandonar aquelas incursões fantásticas no astral. N Navegar no astral é sempre uma grande surpresa, às vezes nem sempre agradável. Quem viaja além da terceira dimensão enfrenta toda sorte de situações. Semelhantes àquelas que os andarilhos enfrentam nas estradas da vida. Por isso, o espírito viajante deve ser forte e preparado para poder suportar as pressões psíquicas, emocionais e mentais, que fatalmente surgirão no decurso da grande viagem. Eu mesmo havia passado por algumas provas de fogo. Portanto era um veterano experiente no astral, apto à enfrentar qualquer situação que pudesse ocorrer na jornada cósmica. E logo minha fama se espalhou no meio esotérico, qual fogo em mata seca. A princípio em Embu e de lá para a Capital. Passei a ser procurado por diversas pessoas, interessadas em navegar além da terceira dimensão e desvendar seus mistérios. Por causa da grande procura dos interessados nas viagens astrais, resolvi organizar cursos para o público em geral. Dos que me procuravam a maior parte era constituída de mulheres. Os homens, de maneira geral, são mais relutantes em desbravar os caminhos desconhecidos do misticismo. Entretanto, quando eles se interessavam pelo assunto, tornavam-se excelentes alunos. Naquela época a minha situação financeira já estava consolidada. Não tinha o que reclamar da vida. E ainda por cima cursos de viagem astral também propiciavam bons lucros. Entretanto, como dessa vida a gente nada leva, eu doava parte da renda para o Círculo Dourado manter as creches. Uma vez, Bárbara e eu fomos até Campo Limpo visitar a creche e levar alguns presentes para a criançada. Quando lá chegamos as crianças almoçavam sentadas em longas mesas de madeira, repletas de pratos fabricados em plástico azul ou amarelo. Felizes da vida, as crianças comiam, riam e conversavam ao mesmo tempo, fazendo uma balbúrdia incrível no refeitório. Quando entramos no recinto, a balbúrdia cessou repentinamente e as crianças voltaram-se para nós curiosas. Eram crianças de todos os tipos: loiras, morenas, brancas, negras e até descendentes de índios. Entre elas, a que mais me chamou atenção foi uma menininha de pele morena do sol, cabelos loiros encaracolados e olhos azuis. Esta criatura projetava em nós, através de um olhar expressivo e sincero, uma triste carência afetiva. A falta de um pai e de uma mãe pesava muito no seu pobre coraçãozinho.

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Desfeita a curiosidade, as crianças retornaram avidamente aos pratos, enquanto nós continuamos a visita em outras dependências. Em todos os lugares que percorremos, dava para sentir a presença da Tereza. Parecia que ela nos acompanhava de perto. De qualquer modo, era muito difícil esquecê-la face à sua sabedoria e competência. E, principalmente, por sua grandiosa dedicação às crianças abandonadas. A presença espiritual de Tereza deu-me a convicção de que aquelas crianças nunca estariam de fato abandonadas... Pois que assim seja. *** Finalmente, depois que muitas luas cruzaram o céu, o detetive que contratei para investigar a vida de Tânia trouxe-me informações preciosas. A moça participava de cultos de magia negra em um terreiro suspeito no Bairro de Itaquera. Um pai de santo que tinha várias passagens registradas na polícia comandava o centro. O falso pai de santo, espeto como uma raposa e uma convincente como um padre; conseguia ganhar muito dinheiro enganando suas vítimas. Soube que ele também abusara sexualmente de algumas mulheres. Naquele centro perdido no fim do mundo, ele era a própria raposa tomando conta de um galinheiro. O detetive fizera um serviço completo. Dedicado que era, ele anotara e fotografara tudo que pudesse ser relevante. Chegou a utilizar sua linda secretária como espiã, sabendo da fraqueza do pai de santo por mulheres. No relatório por ele elaborado constava o endereço do centro e os dias e horários em que Tânia freqüentava aquele lugar sombrio. Portanto, não foi difícil ir ao seu encontro para desvendar o "feitiço" que o Nego Bento me revelara. Determinada sexta-feira resolvi procurar o terreiro do falso pai de santo, perdido lá no confins de Itaquera. Depois de muito roda cheguei a um local escuro e solitário. Dava a impressão que criaturas horrendas, iguais às dos filmes de terror, podiam aparecer a qualquer momento. Aquele lugar maldito era periferia da periferia. Após aquela estradinha de terra só existia a mata da Serra do Mar, nada mais. Larguei a moto à beira da estrada e segui por uma trilha no meio do mato, que dava para um barracão totalmente aberto nas laterais. Dentro dele uma fogueira, instigada pelo vento, ardia assustadoramente. Em torno das chamas, algumas pessoas dançavam em transe, ao som cadenciado dos atabaques que ecoavam na noite tenebrosa. Fiquei arrepiado da cabeça aos pés. De repente o som parou e foi substituído por um silêncio mortal muito pior. Aproximei-me no exato momento em que Tânia, de punhal em riste, se preparava para desfechar um golpe mortal em um leitão que se esgoelava; seguro por uns homens feios. O pobre animalzinho seria sacrificado diante das vistas de todos e oferecido ao demônio. Sem vacilar, segurei firmemente seu pulso a fim de impedir o golpe. - Quem diria heim! Minha amiga metida em magia negra... Tânia olhou-me assustada, não acreditando que eu estivesse ali. Enquanto isso alguns homens mal encarados e sujos quiseram avançar sobre mim. Instintivamente saquei uma pistola nove milímetros e apontei para eles que prontamente recuaram assustados.

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Sou da polícia. - falei mantendo os homens na mira da arma. Fez-se um longo silêncio. Por dentro eu ria, blefara duplamente. Não era policial e nem a pistola era verdadeira. Apenas uma réplica importada perfeita, dessas que os camelôs vendem por aí, apesar da proibição imposta pelo governo. Mas, enfim, o truque funcionou. - Daniel, você por aqui? - indagou Tânia já refeita do transe. - Pois é querida. Resolvi verificar pessoalmente o que você faz por aí na madrugada... Tânia largou o punhal, que, ao cair no chão de terra batida, encravou sua lâmina pontiaguda a poucos centímetros do meu pé. Chorando baixinho e olhando para baixo, ela falou. - Eu te amo muito e te quero só para mim... - Compreendo. Mas não precisava se envolver com essa gente. Vamos logo embora daqui. Levei-a, puxada pelo braço, até a moto. Dei partida e sumi dali não olhando para trás. - Tânia, este teu apego por mim está destruindo sua vida. Abra os olhos. Você bem sabe que não nasci para mulher alguma. Sou um cidadão do mundo. Além do mais, vivo em eternos conflitos íntimos. Por causa disso não sou a pessoa mais indicada para você se apaixonar. Tânia ouvia-me atenta, mas sem que eu concluísse o pensamento, interrompeume: - Sabe Daniel, a paixão tem muitas razões que a própria razão desconhece... - Sim, mas esse apego cego e doentio não é bom. Creio que a nossa amiga Kátia pode te ajudar. Converse com ela. Tenho certeza que você conseguirá libertar seu espírito e compreender que não mereço seu amor. Quero dizer, não assim desta forma... - Você acha que se eu fizer análise resolverá? - Acho! E assim foi. Tânia fez incontáveis sessões de análise com a competente psicanalista Kátia Rocha. Ao cabo de alguns meses, recuperou a confiança e o amor próprio. Tânia abandonou definitivamente a magia negra e voltou a freqüentar regularmente o Círculo Dourado. Com o passar do tempo nossa amizade tornou-se mais sólida ainda. Para conferir de vez o resultado do tratamento psicanalítico de Tânia, voltei ao Nego Bento: - Seu Bento, estou aqui para saber se está tudo bem comigo. O velho sábio estendeu sua mão calejada e apertou firmemente a minha, fitandome com seu olhar sereno e perscrutador. Como quem disseca uma alma penada, falou. - O encosto foi embora meu filho. Vá tranqüilo que você está limpo. Fui embora tranqüilo, consciente de que Tânia havia encontrado o seu caminho.

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34 Jesus estava resignado Nos tempos dourados em que Valkíria estava à frente a presidência do Círculo, ela havia me nomeado Diretor Cultural em substituição à Regina, que solicitara afastamento por motivos particulares. Assim que tomei posse, organizei rapidamente o Museu Esotérico, a Biblioteca e o Centro Cultural de Eventos. E, para incrementara a administração, organizei inúmeras peças teatrais, exposições, palestras e conferências interessantes. Para enriquecer o acervo do museu, doei parte das fitas de áudio que relatavam experiências no astral. Luci também doara algumas fitas, pois ela também enveredara por esse campo e ensinara muita gente. Do ponto de vista social, juntamente com a caridosa Camila Hernandez e com a própria Valkiria, elaborei planos para a ampliação das creches. A nossa meta era dobrar à curto prazo o número de crianças abandonadas assistidas. Entendíamos que essa era a missão mais gratificante do Círculo Dourado. Na gestão da Valkíria o Círculo se expandiu e contava com quarenta membros, sendo que eu já não era mais o único homem da ordem. Alguns dos meus antigos alunos haviam ingressado no Círculo. Entretanto, as alunas foram admitidas em maior número. Para completar a minha felicidade na era Valkíria, excursões do Círculo continuaram sendo promovidas pela Esoteratur. Outro motivo para me alegrar vinha dos resultados positivos obtidos por meus jovens alunos do curso de "viagem astral". Os interessantes relatos daquelas viagens foram devidamente gravados e catalogados. Os melhores relatos passaram a fazer parte do acervo do museu esotérico do Círculo Dourado. Constituindo, assim, vasto material de pesquisa e estudo para outras pessoas interessadas no assunto. No tocante às viagens astrais, eu acalentava um sonho nunca revelado antes.Queria verificar a vida de Jesus Cristo gravada no Astral. Para tanto eu fizera várias tentativas, mas foram todas em vão. Meu espírito errante jamais conseguira viajar até aquela época sagrada na Palestina, em que vivera Jesus. Uma noite, quando eu nem imaginava, consegui "viajar" até o gólgota, onde Cristo acabava de ser crucificado. No cume de um morro desolado, ladeado por duas cruzes menores encontrei, o Nazareno com mãos e pés traspassados por enormes pregos, por onde vertiam o seu sangue sagrado. Cristo sofria muito e isso estava expresso em seus olhos tristes, que fitavam insistentemente o céu. E, era de lá que Jesus tirava suas forças para suportar sua dolorosa missão. Apesar aquele sofrimento todo, Jesus estava resignado com seu destino. Enquanto o seu corpo padecia, o seu espírito se fortalecia, qual um rio caudaloso que rapidamente avoluma-se com as cheias. Pálidos raios solares banhavam os corpos daqueles três homens, quando apareceram ameaçadoras nuvens negras no céu, escurecendo o local. Logo choveu forte. Relâmpagos e trovões passara a fustigar o céu sem piedade, afugentando as pessoas que corriam desesperadas à procura de proteção. Na ânsia da fuga, muitas caíram com a cara no lama, no instante em que Jesus dava seus últimos suspiros. Uma tristeza sem precedente tomou conta de mim e chorei muito. No momento de sua morte, Jesus enviou vibrações de grande intensidade. Misto de amor e compaixão, que mesmo eu, um reles intruso no astral, pude comprovar.

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Naquele momento certifiquei-me que a morte, na verdade é apenas uma passagem para outro tipo de vida. Pois meu coração pressentia o espírito de Jesus em toda parte. Jesus, maior pregador do amor e paz que o mundo já teve, atravessou a fronteira da morte, puro e incorruptível.E, por grande mérito espiritual, ganhou a vida eterna... Graças ao registro cósmico consegui estar diante de um dos homens mais nobre que a humanidade já possuiu. Pude sentir em meu espírito os nobres sentimentos que Jesus irradiava: amor e piedade. Lembro que nem mil sóis teriam iluminação igual à emanada pelo nazareno. Seu brilho iluminava corações, mesmo os que se encontravam nas trevas... Novamente o sol apareceu e o corpo do Nazareno foi envolvido por perfumes de flores trazidos pelos ventos suaves. Era uma espécie de saudação da natureza àquele homem santo. Quando Jesus subiu ao céu, minha tristeza foi imediatamente substituída por uma confortante sensação de júbilo, sucedida por uma transbordante felicidade. Foi assim meu inusitado encontro com Cristo no universo astral, onde o tempo e o espaço não existem. A gravação em áudio desta viagem é a mais requisitada pelas pessoas no museu do Círculo. Posteriormente aberto ao público em geral.

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35 O vírus sabiá Sentado em uma confortável rede de balanço na varanda da minha casa em Embú, li a seguinte notícia publicada na Folha de São Paulo do dia 24 de agosto de 1994: "O governo dos Estados Unidos está pensando em fechar o depósito de vírus tropicais do mundo, na Universidade de Yale, por causa do acidente que liberou o vírus brasileiro Sabiá. O cientista deixou um líquido com o vírus escapar no dia 8 daquele mês, e expôs mais de vinte pessoas a uma doença rara que causa hemorragia interna e pode matar. As luvas e máscaras protetoras não impediram que a doença se manifestasse no próprio cientista doze dias depois do acidente. Ele está recebendo tratamento em seu estado de saúde é estável". Achei a notícia interessante e comentei a respeito com Bárbara, que estava deitada na rede comigo, lendo entretida um romance. - Veja só, se o laboratório da Universidade de Yale é considerado inseguro, imagine então aqueles que fazem pesquisas secretas para os governos das Superpotências, na intenção maligna de produzir novas armas bacteriológicas? Por isso, acredito no cientista inglês que em um artigo de revista, afirmou que a epidemia da AIDS iniciou quando, vírus geneticamente desenvolvidos em laboratório, escaparam do controle de uma certa instituição e contaminaram o ambiente. O resultado do acidente é o que se vê hoje.O vírus contaminando o mundo e matando milhares de pessoas. O pior de tudo é que para este mal ainda não existe remédio ou vacina eficaz. - É mesmo - disse Bárbara, virando-se bruscamente jogando seus lindos cabelos sobre mim. - A manipulação de vírus letais em laboratórios secretos militares é extremamente grave para o futuro das próximas gerações. Penso que as potências militaristas deveriam abandonar a fabricação de armas nucleares, bacteriológicas e químicas, antes que seja tarde demais... - Realmente - concordei - esses irresponsáveis deveriam pensar um pouquinho mais nas gerações futuras. - Mudando de assunto; e os seus negócios, como estão? - interrogou-me Bárbara. - As mil maravilhas, graças a Deus. O faturamento da loja é razoável e a "febre" da Nova Era provocou uma alta considerável na procura pelas excursões da Esoteratur. Minha agência está colhendo bons frutos do seu trabalho. Estamos explorando um segmento de mercado, no qual não falta dinheiro. Fomos uns dos primeiros a chegar, e por isso bebemos água limpa... Deixando de lado os negócios, o que me dá satisfação pessoal são os cursos que promovo de viagem astral. Vem gente de todo o do Brasil receber minhas instruções. Recebo muita correspondência do exterior, tanto que não dou conta de responder todas as cartas. Inclusive recebi convites para fazer palestras em Portugal, França e Alemanha. Estou estudando com carinho essas ofertas. Pois os "gringos" pagam bem. E, além disso, bancam a estadia e as passagens de ida e volta. Tanto para mim, quanto para uma acompanhante. - Ao mencionar acompanhante os olhos de Bárbara dilataram... - Se eu fosse você, aceitaria? - interviu. - Não vou negar que gostaria de visitar o exterior, mas, por enquanto, não dá para ir. Estou atolado até o pescoço nos negócios. Além disso, estou escrevendo um livro sobre minhas experiências no Astral. Meu tempo está muito escasso... - É verdade, mas bastam mais uns meses e você poderá agendar compromissos na Europa – concluiu.

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- Bem... antes disso quero convidá-la para irmos até nosso vizinho Peru, procurar o seu tão sonhado Crânio de Cristal. Que tal? - Aceito! Quando partimos? - perguntou curiosa, fitando-me com sua carinha de anjo. - Se tudo der certo, em outubro. Você pode? - Acho que posso sim. Se for o caso, transfiro alguns serviços agendados prosseguiu, com um sorriso nos lábios. - De quanto precisaremos dispor para esta viagem? - No máximo três mil dólares para cada um. Este valor inclui passagens aéreas de ida e volta e hospedagem por dez dias. - Então dinheiro não será problema. Possuo mais do que esta quantia no Banco. Os olhos dilatados e o largo sorriso estampado na face indicavam que na mente de Bárbara transitavam planos mirabolantes sobre a viagem. - Posso convidar umas amigas? - Sim! Quem são elas? - A Rose, a Kátia, a Tânia e a Luci... Suspirei fundo e pensei. A viagem será maravilhosa... Seguidor da doutrina budista, procuro não ceder à sensualidade, mas há ocasiões em que é difícil deter os impulsos da carne e não cair em tentação. Bárbara sem saber das minhas angústias inventara de convidar a Rose e a Luci. Assim não há homem que resista...

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36 Outras viagens astrais A tão sonhada viagem ao Peru se aproximava. Em razão disso eu havia intensificado as viagens astrais com intuito de descobrir novas pistas sobre o paradeiro do fabuloso Crânio de Cristal. Quando isso ocorria, eu ficava frente a uma atenta e disciplinada platéia de jovens alunos e dali partíamos para o infinito. Ao meu lado, como um verdadeiro cão de guarda, a elegante Luci sempre monitorava estas viagens. Veterano de muitos vôos fantásticos, eu não demorava mais que vinte minutos para penetrar nas esferas mais profundas do astral. E, como quem cai em um tufão, eu via imagens holográficas de eras passadas. Essas imagens fragmentadas eram autênticas janelas do tempo. Quando me aproximava dessas imagens, minha consciência era sugada para dentro de uma dessas janelas. Assim, como se fosse um espírito intruso dentro de uma casa alheia, eu podia acompanhar os acontecimentos registrados no astral. Certa feita, ao transpor uma das janelas, visualizei um mar revolto, cujas ondas avassaladoras possuíam mais de cinco metros de altura. Perdida naquele mar de ondas violentas flutuava uma frágil balsa de dois metros de largura por cinco de comprimento. A bordo, oito pessoas assustadas tentavam fugir do regime ditatorial que Fidel Castro implantara na fantástica ilha de Cuba. Com o desvirtuamento da revolução socialista, o paraíso transformou-se num inferno. Um inferno insuportável de onde aquelas pessoas procuravam fugir, mesmo arriscando a própria vida. O socialismo sempre esteve e sempre estará presente no idealismo humano. Todavia, torna-lo realidade não é tarefa fácil. Por isso ocorreram transformações recentes quase todos os países comunistas. O marco principal deste período revolucionário no socialismo foi a queda do muro de Berlim. Creio que o comunismo totalitário foi um grande erro histórico, que se pode constatar no fim de Século 20; através da opressão, da corrupção, da ineficiência produtiva e da falta de perspectivas para o povo. E, era justamente disso que aquele grupo fugia, aventurando-se mar adentro. Todos aqueles fugitivos tinham o tornozelo amarrado com uma corda que os mantinham presos à balsa. Uma medida de segurança correta, principalmente na situação em que o mar se apresentava; revolto e cheio de tubarões. No meio daquele grupo de pessoas apavoradas, destacava-se uma jovem grávida, de aproximadamente dezoito anos de idade, que, apesar da barriga proeminente, estava bem disposta e confiante. Os demais tripulantes a chamavam-na de Yuliet. Uma legítima heroína que arriscava sua própria barriga para fugir do inferno implantado por comunistas rancorosos e retrógrados. Pouco depois, para a alegria dos navegantes, o mar se acalmou e as ondas sumiram como por encanto. Mas a alegria durou pouco. O perigo começou a rondar a frágil embarcação, na forma de ameaçadoras barbatanas negras que rasgavam a superfície da água. Eram tubarões famintos, que vasculhavam o mar à procura de alimentos. Os tripulantes da balsa, percebendo o perigo, ficaram nervosos e instintivamente começaram a gritar, procurando assustar os monstros.
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Entretanto, aquela histeria coletiva de nada adiantou. O ataque dos tubarões era eminente e os tripulantes nada poderiam fazer naquele momento para evitar o infortúnio. Os tubarões atacaram com vigorosas batidas no fundo da balsa. A frágil embarcação a muito custo resistiu. Mas, caíram na água um menino assustado e um rapaz. E, em questão de segundos os dois foram trucidados pelas enormes mandíbulas das feras. Deles restaram apenas grandes manchas vermelhas de sangue na superfície da água e dois pedaços de cordas atados à balsa. Para desespero dos afoitos fugitivos, o sangue derramado atraiu outros tubarões da vizinhança. Temendo por sua sorte, os fugitivos começaram a rezar em voz alta, pedindo a proteção de Deus. Por milagre a reza dos desesperados foi atendida. Os tubarões desapareceram de um momento para o outro. Então, os náufragos se acalmaram. Como desgraça atrai desgraça, ainda restava um inferno pela frente: o extenso mar. Justamente quando já não existia a bordo nem comida e nem água potável. O suplício do grupo ainda perdurou por vários dias. Quando, na manhã do décimo primeiro dia, eles foram avistados por um navio. Quando os cubanos fugitivos subiram a bordo do navio, todos sem exceção, choraram de alegria diante de seus salvadores. Com a velocidade, do pensamento minha mente deu um salto no Astral. Do mar do Caribe acabei sobrevoando o mosteiro da Potala, no Tibet. Onde o céu escuro prenunciava uma tempestade. O Potala é um conjunto de edifícios de teto chato, sustentado por enormes vigas de madeira, nas cores branca ou bege, com o topo pintado de marrom. Este conjunto está encravado no topo de uma montanha, circundada por outras mais altas. Meu curioso espírito entrou em uma janelinha de um dos quartos do Potala; no qual se encontrava um monge gordo, de cabeça raspada, que meditava profundamente. Totalmente sereno, apesar da idade avançada, o monge possuía no canto dos lábios um enigmático sorriso, que traduzia sua felicidade interior. Notei que dentro da cabeça do velho havia um pequeno Sol. E, era justamente isso tudo o que ele enxergava naquele momento. Seus pensamentos haviam sido substituídos por sentimentos de amor e compaixão, representados naquela intensa luz dourada. Acima da cabeça raspada do monge, um turbilhão de energia que lembrava um vulcão em erupção; lançava halos de luz ametista para o alto. Isso evidenciava que aquele monge possuía alta espiritualidade e estava em plena comunhão com a divindade. Os outros vórtices energéticos do seu corpo também estavam ativados. Seu chacra básico, situado na região do órgão genital, emitia intensas explosões de energia etérica avermelhada. A região do coração projetava intensos halos esverdeados. O monge era uma verdadeira usina de energias positivas expressa nas diversas cores que emanavam dele. Navegando novamente sem rumo no turbilhão Astral, fui parar no interior de um iglu, na Groelândia. No seu interior uma jovem índia, com o rosto todo avermelhado e suando muito, tentava, de cócoras, dar à luz um robusto bebê.
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Apesar de grotesco, o parto naquela posição é o mais natural que existe. Pois o próprio peso da criança a empurra para fora da barriga através da vagina dilatada. Poupando a mãe de esforços redobrados. A cabeça cabeluda e lambuzada da criancinha robusta já havia saído fora de sua mãe, mas o resto do corpo encontrava dificuldades para abandonar o ventre. Ao lado da sofrida mãe, permanecia impassível uma velha e experiente índia, vestida com uma roupa feita de pele de urso. De vez em quando a velha sussurrava algumas palavras confortantes no ouvido da jovem, e isso ajudava muito. Depois de um tempo sofrido o milagre da vida aconteceu. A criança foi expulsa do ventre da mãe, e logo foi amparada pelas mãos trêmulas, mas seguras, da anciã. Era uma linda menina. A criança nasceu inchada e roxa e foi logo depositada em um buraco no chão, recoberto de peles, logo abaixo da vagina ensangüentada da mãe. A menina, que chorava sem parar, foi limpa carinhosamente pela velha parteira e envolvida em um manto de peles, que a protegeria do frio polar. Enquanto isso, a mãe sorria feliz olhando para aquela minúscula criatura enterrada no monte de peles. A apreensão que passei assistindo ao parto, forçou minha consciência a voltar para meu corpo físico. Porém, antes de retomar captei vibrações espirituais emanadas da poderosa mente de um gurú indiano. Ele transmitiu telepaticamente a seguinte mensagem: "Busque sempre a verdade e não finjas para si mesmo. Aja com sabedoria, para não ser um escravo atormentado de seu próprio pensamento." Lembrei-me imediatamente, da vida ambígua e confusa que levava, dividido entre o amor de duas mulheres. Aquela mensagem surtiu grande efeito em mim. Chegara o momento da minha verdadeira transformação espiritual.

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37 Possessão demoníaca Certo dia, conversando com Bárbara fiquei sabendo que Tânia Balladur tivera uma recaída e voltara para os braços da magia negra. O famigerado guia do terreiro, aproveitando-se da sua fraqueza espiritual, fora atrás dela e convenceu-a a freqüentar novamente sua seita macabra. Preocupado consultar o Nego Bento, e ele falou. Sabe, filho, aquela dona esta possuída por um Exu. Ela por si só, não tem força para livrar-se do mal. É preciso que uma pessoa boa e forte de espírito faça uma limpeza do "cavalo" para expulsar o demônio dele. O senhor me indicaria alguém? - perguntei ao velho, que me fitava com seus olhos grandes e serenos. Não, filho. Você mesmo conhece uma mulher muito boa. Sei disso, pois os espíritos protetores dela às vezes lhe acompanham. Vejo-os em sua volta, com esses olhos que a terra um dia há de comer... Fiquei perplexo com as palavras do negro e pensei qual mulher que conhecia poderia ajudar a expulsar o espírito maligno que se alojara em Tânia. Lembrei-me instantaneamente da suave Camila Hernandez. Só poderia ser ela... Assim que fui embora da casa do negro velho, liguei para a residência da médium. - Camila preciso um favor seu? - Qual, meu bem? - perguntou-me com sua habitual voz meiga de derreter corações. - Nossa amiga Tânia teve uma recaída. Um Exu maldito apoderou-se de seu corpo. Liguei para saber se você pode exorcismá-la? - Mas, eu? - É, você mesma! - Mas quem disse que faço exorcismo? - Ninguém. Um velho benzedor me falou que uma conhecida poderia realizar este trabalho espiritual. Mas, ele não citou nome algum. Só pode ser você... Encabulada ela falou. - Bem, este não seria meu primeiro trabalho. Fiz alguns, mas isso faz muito tempo... Exorcismar é extremamente cansativo. Porém aceito a missão, já que se trata da nossa amiga. É só marcar o dia e a hora. No começo a Tânia relutara em aceitar a idéia do exorcismo. Mas, angustiada que estava, acabou concordando. Na verdade, não era ela que lutava contra a possibilidade do exorcismo. E, sim o espírito do mal, que havia se instalado em seu subconsciente; enfraquecido por medos incontroláveis e pela paixão desenfreada por mim. Combinamos um encontro na confortável residência da Tânia, para exorcismar o demônio de seu corpo. Na noite combinada, lá fomos nós. Eu, Bárbara, Camila e Kátia. Lá chegando, Tânia já nos aguardava ansiosa á porta. Depois dos rápidos beijos e abraços, fomos à sala, onde Camila iniciou o ritual, pedindo que Tânia deitasse no centro de um círculo de velas acesas.

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Trajando um curto vestido branco, que deixava à mostra suas generosas curvas, Tânia deitou no chão de pernas e braços abertos. Eu e a Bárbara seguramos suas pernas, enquanto Luci e Kátia, os seus braços. O maligno, percebendo seu fim próximo, começou a debater-se dentro dela. Em resposta, o corpo de Tânia debateu-se desesperado, tentando livrar-se de nós a todo custo. A força dela era tamanha que ela poderia ter se levantado do chão, caso nós não a estivéssemos segurando firme. O grupo, exceto Camila, estava muito tenso observando Tânia debater-se desesperadamente com os dentes cerrados e os olhos esbugalhados de pavor. De posse de uma Bíblia Sagrada aberta em uma das mãos e segurando uma cruz benzida na outra; Camila continuou o ritual. - Em nome de Deus ordeno que este espírito do mal abandone o corpo desta jovem. O poder daquelas palavras abençoadas atingiu em cheio o espírito maligno. Em seguida o corpo de Tânia sacudiu violentamente. Precisamos fazer esforço considerável para retê-lo deitado no chão. Tânia suava muito. Seus olhos avermelhados refletiam a própria imagem do mal que se alojara nas profundezas da sua alma. A moça debatia-se desesperada, procurando desvencilhar-se de qualquer maneira. E dava risos horripilantes e urrava feito um animal encurralado. Enquanto nós estávamos assustados, Camila continuava impassível. - Em nome de Deus ordeno que este demônio maligno saia agora mesmo e para sempre. Enquanto nós rezávamos em voz alta a oração do Senhor, Camila borrifou água benta sobre a pobre moça. Após uma última e desesperada tentativa de se levantar, o corpo de Tânia ficou imóvel. As meninas então respiraram aliviadas, enquanto gotas de lágrimas escorriam nos cantos de seus olhos cansados. Apenas Camila permanecia integralmente tranqüila, com o seu inseparável sorriso nos lábios. Através do seu poder espiritual, ela conseguira expulsar de vez o espírito maligno do corpo de Tânia. Tão logo o espírito maligno foi expulso do corpo de Tânia, o aspecto dela mudou radicalmente. A sua face agora retratava pureza e tranqüilidade. Logo após, eladormiu como um bebezinho. Quando despertou, encontrou o grupo à sua volta. Então, ela nos agradeceu comovida e sorriu. A possessão demoníaca havia virado a página do passado...

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38 Viagem a Machu Picchu Parecia um sonho, mas estávamos de fato, caminhando na antiga trilha dos incas. O povoado de Chillca, onde a nossa aventura pelo antigo caminho imperial inca iniciara, há muito havia ficado para trás. Muitas horas antes, nosso grupo voara em um confortável avião da AEROPERU, que nos levou até Lima; onde um paciente e enigmático índio, que seria nosso guia, nos aguardava. O sujeito tinha rosto largo, braços fortes, coxas grossas e aparentava ter mais de trinta anos. Curiosamente ele nunca sorria. Seus cabelos negros e lisos, que escorriam até os ombros, estavam sempre esvoaçando ao sabor dos ventos das montanhas, e por vezes cobriam os seus olhos puxados e rudes. Aquele índio peruano carrancudo vestia calça jeans e um poncho bege escuro surrado; recortado por três listras que formavam desenhos geométricos coloridos. Naquele instante, o guia que descrevi, um profundo conhecedor daquela perigosa região da Cordilheira dos Andes, chefiava o nosso grupo em direção à misteriosa Machu Picchu. A subida da serra era extremamente cansativa. Além disso, o ar rarefeito pela altitude dificultar a nossa respiração. Nosso grupo era composto por vinte e três pessoas, que caminhavam em fila indiana pelas estreitas trilhas das montanhas, seguindo o experiente guia sem reclamar. Os homens caminhavam comendo castanhas de caju. Exceto eu, que, de vez em quando, molhava a garganta com um saboroso vinho chileno. As mulheres por sua vez, disputavam entre si alguns chocolates recheados de rum. A coluna avançava atenta e silenciosa por caminhos lisos e perigosos. Um descuido poderia ser fatal. O abismo estava sempre ali, a poucos centímetros de nós. Portanto, era proibido conversar. A conversa era permitida apenas em lugares mais amplos, onde a coluna parava para os breves descansos. Nestas oportunidades o guia aproveitava para dar informações sobre o lugar. Enquanto os turistas tiram fotos, filmavam ou simplesmente observavam a paisagem fantástica da Cordilheira dos Andes. Mais adiante, quase na altura das nuvens, Bárbara começou a sentir dor de cabeça e um enjôo insistente. Por outro lado, Luci não parava de bocejar. Ela apresentava uma sonolência de fazer pena. Entre as garotas, Kátia era a que estava em melhores condições. Caminhava feliz, ouvindo em seu Walkman as músicas indianas do fabuloso Ravi Shancar. Ela confessou posteriormente estar cansada. E não era para menos, considerando o enorme peso da bagagem que levava às costas. A mochila que eu carregava parecia pesar toneladas, embora contivesse apenas o essencial: binóculo, máquina fotográfica, bússola, roupas, alimentos, fogareiro e água. Os outros integrantes do grupo carregavam as barracas, os cobertores, alimentos, água e outras cargas que foram convenientemente distribuídas pelo guia.

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Depois de incontáveis paradas para o merecido repouso, o guia sempre nos informava, em castelhano carregado de sotaque indígena, o quanto faltava para chegarmos ao destino final. Caminhando horas a fio, naquelas subidas íngremes cheias de pedras, todo mundo estava com a língua de fora. Exceto o guia, já acostumado àquela vida rude. Embora o cansaço dominasse o grupo, era impossível não ficar extasiado com as paisagens que desfilavam diante dos nossos olhos. As montanhas próximas eram verdes e as mais distantes, azuis. As montanhas mais elevadas tinham uma cor esbranquiçada e monótona em razão das esparsas nuvens que os envolviam. No céu, um imponente condor, planava suavemente com suas longas asas negras abertas, chamando a atenção do grupo, que o acompanhou até perdê-lo de vista. Considerado sagrado pela cultura inca, o condor é a maior ave voadora do mundo. Dois dias que caminhávamos em direção a Machu Picchu e ela nunca chegava. Mas pelo plano do guia, passaríamos a noite lá. Por volta das cinco horas da tarde, quando o sol se escondia atrás das montanhas, finalmente chegamos na sagrada Machu Picchu. Cidade construída há séculos para abrigar autoridades do Império Inca e depois foi abandonada misteriosamente por seus habitantes. Assim que o pessoal chegou foi explorar as ruínas arqueológicas do local. Não antes do guia informar, com visível satisfação que a cidade possuíra em seu apogeu, mais de duzentas construções, entre casas, templos e armazéns. Observamos que as casas dos incas possuíam o teto de sapé, num ângulo fechado, para evitar o acúmulo de neve. Todas as casas formam construídas com pedras aparadas e encaixadas com incrível precisão. O governo peruano restaurou algumas dessas casas. Assim dava para imaginar o quanto a cidade era bonita. Em meio às inúmeras construções demolidas pelo tempo, procurei identificar a ruína onde provavelmente estaria oculto o sonhado Crânio de Cristal. Horas depois consegui localizá-la. Contudo a noite se aproximava, impossibilitando a busca. Com a proximidade da noite, o guia ordenou ao grupo que armasse o acampamento. E todos o atenderam. Sabia que àquela hora não daria mais para empreender a busca, mas o pensamento obsessivo a respeito do crânio não saía da minha mente. Na manhã seguinte, a primeira coisa que faria em Machu Picchu seria procurálo. Trabalhamos rápido e em pouco tempo o local ficou repleto de iglus multicoloridos, armados em círculo, lembrando uma aldeia de índios. Depois fomos comer e beber. Sempre conversando bastante e olhando as estrelas. Depois, cansados, fomos dormir. Dito e feito, no dia seguinte, quando um sol gigantesco começava a iluminar as ruínas do extinto Império do Sol, iniciei a procura do fabuloso Crânio de Cristal. Enquanto eu procurava o crânio, Bárbara e as demais moças faziam trabalhos corporais de energização em Machu Picchu, que é um dos portais mais energéticos do planeta.

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As mulheres meditavam de olhos fechados e em pé formavam o tradicional círculo humano. Depois passara a erguer seguidamente os braços ao céu. Ao mesmo tempo em que abanavam suas mãos abertas. Era agradável observar aquele inusitado espetáculo das mulheres lá do outro lado das ruínas, enquanto eu procurava o crânio perdido, utilizando um pequeno, mas eficiente pêndulo.

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Depois de algumas horas de busca infrutífera, sentei sobre um bloco de pedra retangular e pensei sobre o verdadeiro paradeiro do tal crânio. Concluí que em poucos dias seria impossível poder encontrá-lo. Era o mesmo que procurar agulha em um palheiro gigantesco. Mesmo ciente da dificuldade, algo me dizia que o crânio não estava longe dali. Podia sentir sua proximidade em forma de ondas sucessivas de arrepios que eriçavam os pêlos do meu corpo. Intuí que para achá-lo seria necessária boa dose de confiança e perseverança. E assim foi feito. Enquanto os outros turistas visitavam os lugares interessantes da cidade, eu continuava trabalhando arduamente. Em dado momento, parei para descansar e aproveite para observar os exercícios das meninas. Neste momento enxerguei um reflexo do sol, proveniente uma fenda de um monte de blocos de rochas. Curioso e incorrigível que sou, aproximei-me e meti a mão dentro da fenda. Para meu espanto, quando estiquei o braço, toquei a mão em uma coisa que lembrava vidro. Meu coração disparou ansioso. Tal objeto poderia ser o Crânio de Cristal. Rápido e decidido, retirei blocos a fim de alargar a fenda e pegar o misterioso objeto. Em razão das minhas mãos estarem desprotegidas, logo levantaram bolhas doloridas. Até que uma delas estourou e pintou meus dedos de um vermelho da terra. Observando aquele sangue escorrendo, imediatamente lembrei dos sacrifícios das jovens virgens nos rituais incas e fiquei com nojo. Mesmo com as mãos esfoladas continuei tirando os blocos. Mas o objeto estava mais distante do que eu imaginava. Mesmo assim fui em frente, até que pude introduzir as duas mãos dentro do buraco e consegui segurar o objeto, Puxando-o para fora da fenda, surpreso, pude comprovar. - Nossa, é o crânio mesmo - exclamei boquiaberto. - Quem procura acha... Eu havia conseguido o impossível. Achara uma agulha no palheiro. Talvez o Crânio de Cristal estivesse ali há alguns séculos e justamente eu tivera o prazer de encontrá-lo. Realmente a sorte é para quem tem. Desconfiado que alguém pudesse notar meu achado, já que é proibido levar objetos de ruínas arqueológicas, envolvi rapidamente o crânio em uma camiseta velha e coloquei-o dentro da mochila. Levar objetos encontrados em sítios arqueológicos é considerado crime, porque lesa o patrimônio histórico de um país. Portanto eu poderia ser preso como contrabandista. A partir daquele momento já me considerava um criminoso, e o que é muito pior, um criminoso consciente. Mais que depressa fui procurar as garotas para contar aquele fato inacreditável. Aproximei-me da turma, que ainda fazia demorados trabalhos de energia, de uma maneira engraçada. Todas de olhos fechados, em pé, uma de frente para outra, e de braços estendidos e mãos levantadas, tocavam-se com as palmas, constituindo assim, uma simbiose de energias vibratória. Eu não quis interromper a concentração delas. Porém Bárbara me viu e através da sua intuição feminina, logo percebeu em minha face que algo importante havia acontecido. Ela, mais que depressa, abandonou as colegas desculpando-se e veio sorrindo a mim. E abraçou-me afetuosamente, enquanto beijava-me à maneira das mulheres apaixonadas.

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Ainda abraçados e enquanto beijava seu pescoço, sussurrei em seu ouvido. − Você pode vir comigo um instante. Tenho algo importante para lhe contar. Quando nos afastamos do grupo, fui logo dizendo: - Amor aconteceu uma coisa incrível! - Por acaso você encontrou o crânio? - Puxa, acertou em cheio! - exclamei surpreso. Bárbara ficou pálida no ato. Ela fizera uma gozação comigo. No entanto, acertara em cheio. - É verdade mesmo? - perguntou aflita, dando pulinhos de contentamento. - Dê uma espiada aqui dentro da mochila... Ela abriu o zíper e olhou curiosa, arregalando seus olhos de mel. - Nossa... Você encontrou mesmo... - Mas não conte a ninguém. É proibido levar o crânio conosco. Vou dá-lo de presente a você. Por enquanto, ele fica comigo, até chegarmos ao Brasil. Bárbara sorriu e balançou afirmativamente a cabeça. Ela irradiava felicidade e suas mãos tremiam. Havia encontrado o Crânio de Cristal dos seus sonhos... Permanecemos acampados em Machu Picchu por dois dias. No terceiro, quando o sol grandioso levantava por detrás daquelas montanhas lindas, iniciamos o desmonte do acampamento para irmos embora. O grupo trabalhou com tanto afinco, de maneira que em minutos o aglomerado de barracas de cores vivas desapareceu e voltou a predominar na região o monótono verde da vegetação. A fila indiana iniciou o amargo regresso, com mochilas abarrotadas de coisas às costas. Nosso destino situava-se na base da Cordilheira dos Andes, ponto de partida da milenar trilha inca. Não demorou muito para as mochilas novamente pesarem toneladas, esfolando tanto os ombros sensíveis das mulheres quanto aos meus. Para piorar as coisas, um suor salgado molhava nossas roupas, fazendo arder as escoriações. Suávamos como se estivéssemos em uma sauna a vapor. O sol estava realmente implacável, avermelhando nossas faces e aquecendo demasiadamente nossos corpos, que suavam por todos os poros. Nossa coluna avançava morosamente naquelas trilhas estreitas, espremidas entre a vegetação exuberante de um lado e os precipícios vertiginosos do outro. Daquela altitude avistava-se ao longe o vôo planado dos majestosos condores negros. Depois de muito caminhar, o guia interrompeu a marcha, reuniu o grupo e falou naquele espanhol carregado de sotaque indígena. - Ouvi um comentário de que alguém de vocês encontrou nas ruínas de Machu Picchu uma escultura sagrada do nosso povo. É verdade? A fala do guia foi uma ducha fria em mim. Mulheres não conseguem mesmo guardar segredo só para si, pensei. Bárbara havia confidenciado o achado do crânio justamente para a Tânia Balladur que, por sua vez, comentou o fato com a Kátia. E, ela não notara que o guia, um descendente inca, estava próximo e ouvia tudo. O grupo surpreso silenciou. Um olhou para o outro sem saber do que se tratava; exceto nós, claro.

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Tive vontade de entregar o crânio ao guia, mas quem garantiria que aquela peça arqueológica de fato pertencia ao povo inca? Os livros que eu lera sobre os crânios de Cristal conjeturavam que eles foram elaborados por seres de outros planetas. Portanto, não pertenceria aos incas, e ponto final. E mais, se eu devolvesse o precioso objeto, quem garantiria que ele não iria parar na mão de mercadores sem escrúpulos? Em face a tantas incertezas, resolvi levar nosso plano adiante. Iria contrabandeá-lo ao Brasil, custasse o que custasse. Como ninguém respondeu à pergunta do guia, ele fitou os olhos de cada um, procurando alguma pista. Quando os olhos do guia fitaram os meus, um frio correu minha espinha. Parecia que eu estava diante de uma águia que observava de perto sua presa. Mesmo assim não me intimidei e encarei-o também, com todo o poder de minha mente. Sabia que aquele momento era decisivo e não poderia vacilar. O guia, então, nada pôde ler. E mordendo seus próprios dentes, virou as costas e ordenou ao grupo o reinicio da marcha. Posteriormente Bárbara e Tânia me pediram mil desculpas pelo vazamento da informação. Claro que por motivos óbvios, as desculpei. Continuamos descendo lentamente a trilha inca, num infindável ziguezague. Como de costume, todos caminhavam calados, imitando os povos das montanhas, geralmente introspectivos e de muita sabedoria. Aquele silêncio mortal nos possibilitava ouvir a nossa voz interior e contemplar profundamente a natureza, que desfilava às nossas vistas. Dificilmente uma pessoa tagarelando, conseguiria essa comunhão perfeita entre o espírito e o mundo exterior. Descemos um bom pedaço da serra, até a localidade de Águas Calientes. Na entrada da cidade, situada ao lado da ferrovia, encontramos algumas mulheres que vestiam pesadas roupas. Aquelas mulheres descendentes dos incas estavam sentadas de cócoras e aguardavam pacientemente os turistas. A quem venderiam seus artesanatos: flautas, gorros, blusas, enfim, uma infinidade de bugigangas. Próximas das índias algumas criancinhas brincavam sorridentes, indiferentes a nós estrangeiros. Toda criança tinha na cabeça o característico gorro inca, feito de pano branco. Estes gorros são compostos de pequenas abas laterais arredondadas, que protegem as orelhas do frio, já que são confeccionados com pura lã dos lhamas. O poncho e o gorro são agasalhos fundamentais naquela região de frio terrível. Como o sol já abandonava o horizonte e logo anoiteceria; o guia resolveu armar o acampamento na área reservada pelas autoridades locais. Quando terminamos a tarefa, voltamos até vendedoras incas e comemos e bebemos à vontade, as iguarias típicas de Águas Calientes. Na manhã seguinte, fomos tomar banho nas águas aquecidas que brotavam das rochas. Aquelas águas vulcânicas inspiraram o nome daquela famosa localidade. E não houve quem não usufruísse daquelas águas milagrosas. O bando inteiro entrou na piscina ao mesmo tempo. De quando em quando, com a mente carregada de desejos dissimulados, eu observava furtivamente minhas amigas seminuas nadando ao meu lado, fazendo a maior algazarra.

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A atração dos homens por mulheres torna-se mais evidente quando elas expõem suas partes íntimas. É da natureza dos homens nestas circunstâncias, que, no refúgio da mente primitiva, sejamos tomados por pensamentos eróticos mais absurdos. Que, não respeitam fronteiras da moral, da idade, do parentesco, e, muito menos da amizade. Nestas circustâncias, o eterno conflito entre o primitivo e o espiritual está sempre presente. Contudo, por mais fraca que seja a carne, é preciso controlar a mente, conquanto, conquanto isso seja penoso. Permanecemos um bom tempo naquele paraíso de águas cristalinas, que milagrosamente nosso cansaço sumiu, restabelecendo nossas energias. Posteriormente o guia nos levou até a residência de um velho Xamã, para conhecermos seus poderes paranormais e provarmos de sua bebida sagrada, muito conhecida por despertar consciências. A casa do Xamã era semelhante àquelas vistas anteriormente de Machu Picchu, toda de pedra e com teto de sapé muito inclinado. Ao chegarmos ele já nos aguardava sentado de cócoras à porta e fumava um longo cachimbo, que exalava um forte cheiro de uma erva desconhecida. O olhar profundo do velhote estava perdido no vazio. Parecia que ele meditava de olhos abertos, contemplando as plácidas montanhas. Notei que seu rosto, petrificado pelos anos da vida, possuía uma repulsiva cicatriz e que sobre a sua cabeça assentava-se o típico gorro inca. Símbolo da cultura deste povo antigo, que os espanhóis não conseguiram dizimar. Aquele velho evidenciava a serenidade das pessoas das montanhas, acostumadas as rudeza da vida e aos longos períodos de solidão. Ao nos ser apresentado, ele se levantou e estendeu sua mão a todos. Seu olhar, antes perdido, havia despertado e adquirido uma frieza selvagem, igual à expressa nos olhos de uma águia. É certo que as fraquezas ou poderes da mente de um homem se revelam em seus olhos e naquele instante fiquei absolutamente convicto de que estava diante de um homem de poderes fantásticos. O ancião recebeu-nos amavelmente, oferecendo uma bebida forte, muito semelhante à nossa cachaça, e o grupo inteiro provou fazendo caretas. Olhando para dentro da casa de pedra, vi uma curiosa coleção de peças cerâmicas, chamados huacos. Essas peças de grande importância histórica foram produzidas por antepassados Moches do ancião. Elas reproduziam homens, mulheres sacerdotes e mesmos de deuses mantendo relações sexuais. Ao meu ver, a obra mais interessante da coleção era a que apresentava um casal inca deitado de lado, coberto por uma estreita manta que deixava suas partes de baixo à vista. O homem possuía um enorme pênis ereto e procurava penetrar a vagina da índia. Os objetos não estavam à venda, mas consegui convencer o Xamã a me fornecer um. Aquele vaso do casal inca que descrevi. Paguei por ele a exata quantia de cinquenta dólares. Depois da venda, o velhote enigmático limitouse a responder às perguntas que nós fizemos a respeito do lugar, dos costumes, das tradições e das lendas dos incas. Então, o velho Xamã aproveitou a oportunidade e fez um breve e proveitoso relato da história povo e dos deuses incas.

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Ouvíamos atentamente o que o velho dizia, sentados em semicírculo. Entre eles e nós ardia trepidamente uma fogueira, que contrastando com a noite escura de céu sem estrelas, banhava nossos rostos de dourado. O Xamã relatava com minúcias os massacres praticados pelos colonizadores espanhóis contra seu povo. Essas histórias, segundo ele, foram narradas por velhos incas, de geração para geração. Os espanhóis - dizia ele - não se contentaram com as riquezas oferecidas pelo nosso povo. Enlouquecidos que estavam à procura dos tesouros, cometeram barbaridades. Massacraram os homens e violentaram suas mulheres com um ódio jamais visto pelo nosso povo. Das carnificinas sistemáticas que fizeram contra o meu povo, não pouparam nem velhos, nem mulheres e nem as crianças. A cobiça por ouro e prata ditava as regras dos estrangeiros. Os invasores disfarçavam suas intenções por nossos tesouros, usando o nome do Deus dos brancos; para avançaram com fúria sobre nossos irmãos, adoradores de outros deuses. Suas armas poderosas vomitavam o fogo da morte. Em alguns anos eles arrasaram totalmente nossas terras, como a pior das pragas e destruiram completamente o antigo império dos nossos ancestrais. Quando o império ruiu, muitos dos nossos fugiram para florestas distantes, situadas além das altas montanhas do norte. O ancião emocionado e com lágrimas nos olhos continuou: Estes massacres constavam das profecias antigas dos nossos irmãos, os maias. Eles deixaram inscrições em seus templos que diziam: "Preparem-se, meus irmãozinhos, porque chegará o branco, gêmeo do céu, e castrará o sol e nos trará a noite, a tristeza e o peso da dor..." Terminado o relato, o Xamã visivelmente emocionado, fez a águia voltar a dormir em seu inconsciente. E a serenidade daquele sábio das montanhas aflorou novamente em seus olhos. Em seguida, ele nos ofereceu a poção que desperta consciência e todo o grupo tomou satisfeito, dado o seu gosto agradável. Desconfiado, tomei apenas um gole, de sorte que em poucos minutos o grupo delirava alucinado, vendo monstros horrendos. As moças gritavam e se debatiam desesperadas, com os olhos estatelados de pavor, diante de temíveis criaturas imaginárias das trevas. Já em mim, a poção surtiu pouco efeito. Mesmo assim percebi, assustado, a terra tremer aos meus pés. Achei que era um terremoto, muito comum nos Andes, mas era a alucinação provocada por um único gole da “agradável” poção preparada pelo Xamã. Apesar da alucinação temporária, consegui manter certa lucidez. Prevendo as intenções do velho e do guia, escondi no mato a mochila que continha o cobiçado Crânio de Cristal. Com essa providência acertei na mosca. Pois os dois reviraram nossas bagagens, enquanto o grupo lutava desesperado contra os monstros imaginários. Nas sacolas e mochilas havia centenas de dólares e outros objetos de valor, como câmaras fotográficas, filmadoras, relógios e jóias. Entretanto, nada disso interessava a eles. Procuravam exclusivamente o crânio. Não conseguindo encontrar o objeto de sua busca, o Xamã, então, começou à interrogar o pessoal que ainda se encontrava sob o efeito da droga. Mas ninguém soube dizer o paradeiro da peça arqueológica, nem mesmo Bárbara. Só eu sabia o lugar onde encontra-lo. E de mim jamais saberiam.

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Quando o Xamã me interrogou, ainda sentia vertigem em razão dos tremores imaginários, mas encontrava-me plenamente lúcido. Entretanto, fingi estar em situação idêntica aos demais e aproveitei para dizer que o tal crânio era somente produto da imaginação de Tânia. Disse que ela havia lido em uma revista esotérica sobre o achado do Crânio de Cristal na Guatemala, por Mitchel Hedge, e aproveitara para fazer uma brincadeira conosco a respeito desse assunto. Devo ter feito uma encenação convincente, pois o velho, embora aborrecido, encerrou as buscas e deu o caso por encerrado. Depois de um certo tempo, lentamente as pessoas foram se restabelecendo do transe, ainda atordoadas e sentindo um insistente zumbido nos ouvidos. Parece estranho, mas ninguém lembrou dos monstros e da agonia passada, exceto eu. Ao contrário, as pessoas sentiam-se bem dispostas e relaxadas. Para elas aquela "viagem" fora maravilhosa... Quando o pessoal de fato recuperou a consciência, percebeu que sol impiedoso fustigava suas faces avermelhadas. Em seguida apareceu o guia, um tanto irritado, e ordenou a ida do grupo à estação ferroviária situada próxima dali; onde um trem do início do século nos levaria até a cidade de Cuzco. Na despedida de Águas Calientes agradecemos a atenção do velho inca, e o gratificamos com alguns dólares, em retribuição às histórias narradas sobre seu povo e pela "agradável" poção servida. Quando o nosso grupo afastava-se da bucólica cidade, me veio a idéia de escrever um livro para poder retratar aquelas curiosas experiências de vida. E assim foi feito.

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39 A vingança do Xamã Cuzco é uma cidade localizada no teto das Américas, cuja altitude tira o fôlego dos turistas. São 3.400 metros em relação do nível do mar. A baixa concentração de oxigênio provoca grande desconforto em quem não está acostumado. Para se ter uma idéia, não existe nenhum ponto em todo território brasileiro que atinja tal altitude. Em Cuzco visitamos vários lugares históricos interessantes. Principalmente a catedral espanhola, os templos incas consagrados ao sol e à lua, as diversas praças centenárias e os mercados onde transitava um povo atarracado de cabelos morenos e de olhos puxados. Embora tais passeios fossem agradáveis, eu não via a hora de estar junto ao crânio e testar seus poderes. No dia seguinte a tão esperada oportunidade surgiu. Aproveitando o intervalo dos passeios programado, convoquei uma reunião no meu quarto e todas as minhas amigas se fizeram presentes: Kátia, Bárbara, Luci e Rose. A turma se reuniu em torno do crânio que estava posicionado no centro da cama e, de mãos dadas, convergiu bons pensamentos em direção a ele. Pacientemente aguardávamos alguma manifestação dos fenômenos ocultos do crânio. Neste ínterim, observei que nossas respirações provocavam turbulências no ar e faziam as pequeninas chamas douradas bailarem. A dança do fogo ao refletir no Crânio de Cristal excitava nossa curiosidade. Porém nenhuma imagem concreta nos foi apresentada. Ao cabo de vinte minutos de concentração, o Crânio de Cristal turvou-se, produzindo uma espécie de névoa. Quando a névoa se dissipou, apareceu uma imagem tridimensional de um feto humano, que aparentava cinco meses de gestação. Assombrados, vimos por todos os ângulos que aquela imagem virtual congelada se apresentava por inteira, como se o feto estivesse ali realmente. Pasmos, começamos a falar ao mesmo tempo, especulando sobre aquele aparecimento fantástico. Porém, a nossa admiração não durou muito. Num piscar de olhos a imagem sumiu. Não antes, porém, que a Kátia tirasse uma série de fotos e que a Rose registrasse o evento com sua pequena filmadora. Posteriormente apareceu na testa do crânio um leão da montanha. Animal muito comum nos Andes, que apresentava um olhar feroz e ameaçador. Mas ele se apresentava imóvel e sem vida. Na seqüência, surgiu uma imagem perfeita de um OVNI de brilho prateado, circundado por luzes coloridas. Como se fosse uma máquina de projeção, o crânio substituiu o OVNI pela figura de um homem musculoso e negro como carvão. Outras figuras tridimensionais sucederam-se dentro do Crânio de Cristal, em intervalos regulares de cinco minutos. Eram sempre imagens fixas, sem vida, mas perfeitamente nítidas e pareciam reais.

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Depois, quando todas as imagens desapareceram, formou-se uma aura em torno do crânio, ela irradiava luminosidades de variados tons verdes, que cintilavam qual estrelas do céu. No final da seqüência, surgiu uma cópia etérea do crânio. Esta pairava no ar; parecia ser o seu espírito. Nesse momento não houve quem não se arrepiasse. Percebemos que o crânio captava, ampliava e transmitia nossos sentimentos através de suas próprias vibrações moleculares. Sendo assim, procuramos emanar ondas de carinho e amor, dispensando pensamentos negativos e maus. Deste modo, sintonizamos nossas mentes pacíficas com as benéficas vibrações do crânio. O que possibilitou o aparecimento de imagens holográficas. O esforço do grupo neste sentido também proporcionou a desobstrução dos canais energéticos dos nossos corpos, ocasionando assim o livre fluxo da energia vital. E o resultado foi instantâneo. Um relaxamento total dos músculos e um completo descanso mental, que nenhum de nós havia sentido antes. Terminada a sessão, Bárbara enrolou o crânio em um feltro preto e o colocou-o dentro de uma caixa de madeira artisticamente trabalhada. E guardou-a em sua mala de viagem. Satisfeitos com os resultados da sessão, fomos dormir, pois nossas pálpebras pesavam toneladas... Quando eu mal havia acomodado a cabeça no travesseiro macio, alguém bateu insistentemente à porta. Dei um salto da cama feito um gato assustado e corri ver quem era. Para minha surpresa encontrei Kátia, vestida com um roupão branco, entreaberto, mostrando parte dos seus seios rijos. Ela estava visivelmente assustada e com os olhos arregalados. - Tânia está tomada novamente pelo demônio! - De novo! - exclamei estupefato - vamos até lá. Atravessamos o longo e secular corredor do Hotel, em segundos, e juntos invadimos o quarto de Tânia. E a encontramos prostrada na cama delirando. Tânia movia compulsivamente a cabeça para os lados, como se estivesse com uma febre alta; ao mesmo tempo em que murmurava umas palavras estranhas e tentava desvencilhar-se das mãos decididas das moças que a seguravam. Observando a maneira de Tânia delirar, imaginei que aquilo não tinha nada a ver com a possessão demoníaca. O primeiro pensamento que me ocorreu foi o velho Xamã. Aquilo só poderia ser alguma bruxaria por parte dele. Enquanto segurávamos Tânia, cada vez mais alucinada, pedi para Bárbara trazer o Crânio de Cristal. Neste ínterim, conseguimos amarrar as pernas e os braços de nossa amiga, com lençóis atados ao pé da cama. Quando Bárbara retornou, apagamos a luz e acendemos velas. Então, o grupo se reuniu novamente em torno do crânio e iniciou uma poderosa concentração mental na tentativa de desvendar o que ocorria com Tânia e assim poder solucionar o problema. Depois de um esforço mental considerável, surgiu, no meio do crânio, a figura de um condor, logo sucedida pelo rosto de pedra do ressentido Xamã. Estava, portanto, elucidado o mistério.

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- Pessoal - falei convicto ao grupo - está claro que o Xamã fez ataques psíquicos contra nós à distância. O miserável aproveitou o fato do crânio possuir poderes para ampliar ondas mentais e lançou seus sortilégios. E pior, o cérebro sensível da Tânia captou a feitiçaria. Esta bruxaria mandada é a causa dos delírios dela. Para anular estas terríveis formas de pensamentos, precisamos continuar mentalizando positivamente em direção ao crânio para reverter o processo. - Vamos então, pois a Tânia está piorando - observou Bárbara. E assim foi feito. Continuamos olhando fixamente para o crânio, até nossos olhos arderem em lágrimas. Concentramos pensamentos de amor e carinho, direcionando-os à nossa querida Tânia Balladur. Após intensos e cansativos esforços mentais, a figura projetada do Xamã foi empalidecendo e sumiu. Quando isso ocorreu, para nossa felicidade, Tânia se libertou do encosto e prontamente recobrou a consciência. O poder do amor havia triunfado sobre o mal, sob nossas vistas... Para comemorar a vitória sobre o Xamã, passamos o resto da noite bebendo alegremente um saboroso vinho chileno. Só fomos dormir quando o sol insistente veio bater na nossa janela.

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40 O poder do Crânio de Cristal De volta à saudosa São Paulo, meu achado arqueológico logo se transformou em um sucesso estrondoso, amplamente explorado pela mídia. Que Bárbara sabiamente soube aproveitar estas oportunidades que lhe bateram à sua porta. Concedendo inúmeras entrevistas e comparecendo em diversos programas de televisão do Brasil e do exterior. Inteligente, bonita, sensual e de voz meiga, Bárbara não desperdiçou sua chance na televisão e cativou de imediato o público com suas explicações. Fez tanto sucesso que uma emissora de TV a cabo a contratou para apresentar um programa místico. No qual sempre apresentava seu precioso troféu: o Crânio de Cristal. Que eu apelidara de Hermes, em homenagem a um famoso ocultista ligado aos primórdios da medicina. Em razão da divulgação do crânio e dos mistérios que o envolviam, vinha gente do exterior para conhecê-lo: alemães, franceses, norte-americanos, russos, japoneses, argentinos, entre outros. A maior parte dos que queriam conhecer Hermes era constituída por curiosos ou pessoas ligadas ao misticismo. Contudo, vieram também cientistas do exterior, principalmente da Rússia. Tanta gente visitava o crânio que ele acabou sendo exposto no salão nobre do Círculo Dourado. Nesta época surgiram relatos que muitas pessoas foram curadas de doenças quando o visitaram. Sabe-se que a energia oriunda das vibrações das moléculas do quartzo tem efeito curativo contra certas doenças. Principalmente aquelas que tem origem no processo mental conturbado. Apesar do efeito benéfico comprovado pela maioria das pessoas que se aproximavam do Hermes, em algumas tal proximidade produzia certa excitação e em outras o contrário, uma persistente sonolência. Os estudiosos dos cristais que visitaram o Hermes concluíram que ele realmente possui capacidade de ampliar, transformar, armazenar e transferir energia. Essa era a essência do seu funcionamento. Os cientistas afirmaram também que os nossos pensamentos, constituídos por energia eletromagnética, podem ser captados e armazenados pelos cristais. Portanto, especulavam eles, que os pensamentos de seres humanos e animais do passado estariam armazenados nas moléculas simetricamente perfeitas do crânio, na forma de imagens holográficas. Os cientistas concluíram também que o Hermes projetava as imagens ocultas do nosso inconsciente. Imagens estas que geralmente afloram em forma de sonhos ou pesadelos. Eles admitem a hipótese do Hermes possuir o seu próprio inconsciente. Mas nada foi provado quanto a isso. Em conseqüência da quantidade de pessoas que visitavam o Hermes, Bárbara inteligentemente criou uma fundação, com sede própria; onde ele acabou permanentemente exposto, protegido por uma redoma de vidro á prova de balas. A entidade, denominada Fundação Crânio de Cristal, periodicamente realizava palestras sobre cristais e outros temas correlatos. Além disso, a Fundação mantinha intercâmbio cultural com pesquisadores do mundo inteiro, via Internet. Sobretudo com a França e a Inglaterra. Países que também possuíam interessantes crânios de cristais, expostos em museus famosos.
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Naquela época, perdi a conta das noites que passei sozinho, observando o misterioso Hermes. Longe de ser uma figura assustadora, ele me transmitia uma profunda paz interior e a convicção de que a morte era apenas uma passagem para outras dimensões do universo. Procurava entender o outro lado da vida, observando os olhos negros do Hermes que fitavam, enigmaticamente, a eternidade. Enfim, a morte é sempre uma coisa estranha e misteriosa, da qual os seres vivos não escapam. Desde que comecei a fazer trabalhos espirituais na presença do crânio, consegui uma melhora significativa em minhas viagens astrais. Frente a ele, durante noites e noites, fui gradualmente desvendando alguns segredos do universo. Assim, pude testemunhar o impacto colossal provocado por fragmentos do condenado cometa Schoemaker-Levy que colidiram com a parte oculta do colossal planeta Júpiter. O cometa voava pelo espaço sideral a mais de duzentos mil quilômetros horários. Quando ele aproximou-se de Júpiter não suportou a força gravitacional e explodiu. Seus fragmentos caíram no planeta e provocaram fantásticas explosões douradas, que, durante algum tempo, ofuscaram sua superfície. Mas, o espetáculo mais impressionante aconteceu logo após o último fragmento ter caído no hemisfério sul de Júpiter. A habitual aurora boreal do polo norte ganhou um brilho sensacional. Naquele instante fui atraído para dentro da aurora boreal e, lá, vislumbrei um espetáculo de muitas cores. Ao mesmo tempo, na Terra, curiosos astrônomos também observavam aquela aurora, através de potentes telescópios instalados nos cumes das montanhas ou analisavam as imagens que provinham do telescópio espacial Hubbe. Certa noite, em missão junto ao meu amigo Hermes, regressei a uma era remota, com florestas de árvores enormes e animais pré-históricos. Diante de mim, centenas destes monstros, com seus pescoços de girafa, alimentavam-se das folhas das árvores. Eles nem se importavam com o Tiranossauro Rex, que, com sua poderosa mandíbula, destruía o pescoço de um avantajado animal herbívoro que se debatia desesperado. Naquele lugar incrível havia elefantes peludos e grandes aves de asas semelhantes às dos morcegos. Também notei muitos répteis de todos os tamanhos. Alguns tão estranhos que não existem em nenhum museu. Este estranho mundo, que desfilava rapidamente, lembrava as imagens sucessivas e fantásticas de alguns clips musicais. Subitamente ocorreu um grande alvoroço entre os animais. Eles previam que uma grande catástrofe ocorreria em breve. Sabe-se que os cães sempre ficam assim desesperados, minutos antes de um terremoto ocorrer. Por uma incrível coincidência da natureza, muitos vulcões entraram em erupção simultaneamente, estremecendo o nosso jovem planeta. Os vulcões pareciam enlouquecidos e o barulho era ensurdecedor. Em minutos o céu claro foi substituído por um outro, cinzento, devido às milhões de toneladas de materiais sólidos e gazes tóxicos lançados ao espaço. Depois, aqueles materiais voltaram do céu, constituindo uma chuva de morte; que sacrificou aves e animais. A poeira mais leve que fora lançada na atmosfera permaneceu no espaço por muito tempo. E formou uma espessa camada negra que impedia a passagem da luz solar; ocasionando uma infindável noite fria. O efeito
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perverso deste processo durou meses. E provocou um frio rigoroso que dizimou as plantas. Com isso o elo da cadeia alimentar foi rompido. Fato que terminou liquidando os brutamontes restantes.

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Através daquela penumbra macabra que se formara, pude ver os vultos dos monstros apodrecendo no chão. Alguns iam sendo encobertos lentamente pelas lavas incandescentes que escorriam das bocas fumegantes dos vulcões irados. Deste modo os animais pré-históricos foram embalsamados pela própria natureza e preservados para a posteridade. Como prova de uma época que não voltará jamais. Este quadro tenebroso que parecia infindável, na realidade, não se passou mais que alguns minutos no tempo terrestre. Como num filme que é projetado rapidamente, vivenciei muitos anos em poucos minutos. Para constatar isso não é preciso fazer uma viagem astral. Quem ainda não viveu uma eternidade num sonho? Infelizmente, presenciei também a agonia do povo marciano, ante a colisão de um gigantesco cometa contra seu planeta, há quinze mil anos atrás. Os marcianos não puderam fazer absolutamente nada para evitar a catástrofe. Por sorte algumas centenas deles conseguiram fugir às pressas, através de uma grande nave espacial. Rumaram em direção a um planeta azulado e primitivo, e que possuía água em abundância, a Terra. Os que ficaram, não foram poupados da desgraça. Cidades modernas e cheias de vida foram pulverizadas num piscar de olhos. Não sobrou uma única construção, exceto um gigantesco rosto de um líder marciano esculpido numa montanha. Este rosto pouco difere dos milhões que hoje povoam nossa querida Terra. A colisão do cometa foi tão poderosa que as águas dos mares e rios evaporaram por superaquecimento e se perderam no espaço sideral. Marte deste dia em diante, tornou-se um deserto inóspito e cheio de pedras. Meses depois da catástrofe, os sobreviventes fizeram um pouso forçado em uma ilha situada entre a África e a América Central. Em meio a um incêndio a bordo que vitimou alguns tripulantes e avariou irremediavelmente a nave. Para completar a sina dos sobreviventes, eles precisaram fugir apressadamente diante de um ataque iminente dos hostis habitantes da ilha. Os homens, mulheres e crianças marcianos abandonaram a nave e fugiram praticamente com a roupa do corpo. Os remanescentes alienígenas adentraram na selva e se estabeleceram no outro lado da ilha que era despovoado. Graças a crença dos índios que consideravam o lugar amaldiçoado. Sem recurso nenhum, mas seguros naquela região inabitada; eles trabalharam com afinco e construíram uma aldeia à moda dos índios primitivos. A qual denominaram Atlântida. Com o passar das gerações, Atlântida acabou transformando-se em um império grandioso, que dominava a ilha inteira e as regiões costeiras da América Central e do Norte da África. Ironicamente, por força do destino imprevisível, aquele povo que antes cruzava o espaço sideral em naves rapidíssimas, acabou singrando os mares em pequenas naus movidas a vento. A mãe natureza forçara esta brutal regressão tecnológica e cultural; como um alerta para que as futuras civilizações não sejam arrogantes quanto às possibilidades do conhecimento científico. Em última instância, a natureza será sempre soberana. Com suas frágeis embarcações os atlantes navegavam em todas as direções, buscando, em terras distantes, as mercadorias carentes na ilha. Principalmente ouro, prata, cobre, marfim e madeiras de lei. Em razão dos
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intercâmbios comerciais e culturais intensos, os atlantes acabaram misturando sua raça com as dos habitantes da Terra.

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Nesta época nebulosa da história os marcianos negociavam com um povo que vivia às margens de um rio caudaloso e fértil, aos quais ensinaram inúmeras técnicas. Este povo ribeirinho, o mais adiantado que os atlantes conheciam naquela época; construíam gigantescas pirâmides de pedra, que serviam de túmulos para os governantes denominados faraós. Segundo consta nos hieróglifos desses antigos egípcios, eles se referiam à Atlântida como a "Terra do Poente". E, tudo corria bem na Terra do Poente, até que um meteoro gigantesco caiu nas imediações do Golfo do México e ocasionou um maremoto imenso. Que destruiu, no espaço de um dia e uma noite, a florescente civilização de Atlântida. Outra vez o destino evidenciou a sina do povo oriundo de Marte. A destruição por meteoros. Alguns sobreviventes desta raça não se encontravam na quando ela foi integralmente tragada pelo oceano. Não mais que algumas centenas deles encontrava-se no exterior comercializando. Principalmente no país das pirâmides, que era o mais rico e culto da antiguidade. A trágica destruição da ilha, obrigou os atlantes sobreviventes a ficarem para sempre nas terras do Faraó.

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41 Uberaba de Chico Xavier Comodamente instalado na rede da varanda da minha casa, em meio à noite estrelada de Embu, aproveitei aquele instante de paz para refletir sobre os meus negócios e seus objetivos. Eu soubera aproveitar a expectativa da Nova Era que se aproximara e havia incluído outros programas de viagens; além daqueles já consagrados pelos clientes e, não poupei recursos para divulga-los. A propaganda, que sempre é a alma do negócio, acabou dando certo e o resultado foi compensador. Nesta época eu trabalhava duro e muitas vezes fazia o papel de guia, levando turistas às excursões distantes. Curiosamente o pacote mais requisitado era: "Uberaba de Chico Xavier". Perdi a conta de quantos ônibus lotados enviei às cidades mineiras de São Leopoldo e Uberaba, onde respectivamente nasceu e reside nosso querido Chico. O grande líder do espiritualismo brasileiro e maior médium vivo do mundo. O passeio consistia basicamente na visita dos locais freqüentados pelo médium. Ou seja, o Centro Espírita e a casa dele. Para mim, aquela era a excursão mais agradável de realizar; devido à minha grande admiração por ele. Tanto é que na estante da minha casa havia vários livros de sua autoria; todos lidos mais de uma vez por mim. Sinto ainda não ter conversado com o Chico Xavier. Pois ele sempre estava muito ocupado atendendo às pessoas necessitadas. E, para dificultar as coisas, o jornal da época publicara que nosso amado médium encontrava-se prostrado na cama, em "pele e osso"; e que, por isso, não podia receber visita do público. Esse fato diminuía minhas chances de um dia poder conversar com este admirável cidadão do mundo. Outra excursão agradável que minha agência realizava era até a distante Ilha de Trindade; encravada no meio do oceano Atlântico. Neste estranho lugar remoto, existiam apenas as aves e alguns animais marinhos. Por essa razão a ilha é adequada para a prática da meditação e do relaxamento. Visitar Trindade é conhecer o paraíso e aproximar-se da mãe natureza, emergindo o ser integral que todos temos dentro de nós. Freqüentemente eu levava grupos de pessoas interessadas em conhecer esta longínqua e misteriosa ilha. Eram grupos constituídos por pessoas liberais e com dinheiro suficiente para pagar passeios exóticos e caros. Para chegar até a ilha de Trindade eu precisava fretar um barco de porte considerável. Que acomodasse quarenta pessoas, com combustível, alimentos e água suficiente para uma viagem longa. O passeio de barco em si já era muito agradável, Imagine, então, conhecer uma linda ilha perdida no meio do oceano? O Parque Nacional do Xingu também era outro local muito cotado pelos adeptos do eco-turismo. Neste parque nacional, situado no coração da selva Amazônica, pode-se adentrar no mundo fantástico dos nossos bonitos, sorridentes e robustos índios. Estes indígenas simpáticos sempre causavam boas impressões nos visitantes, quer pela hospitalidade, quer pela formosura de seus corpos ou
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pelo seu modo de vida alegre. No qual as danças típicas exerciam um papel fundamental. Tão logo um grupo de visitantes chega à aldeia, e as crianças índias logo o assediam alegres. Depois das apresentações dos visitantes ao cacique e ao pajé pelo guia, os índios nos oferecem peixe assado e uma bebida forte; produzida através do milho, que todos provam, fazendo cara feia. Quando chegava a noite o grupo assistia a dança dos índios na praça da aldeia. Então iluminada pelas fogueiras. Por diversas vezes, nestas ocasiões, observei que algumas turistas não resistiam às "tentações da carne". A nudez dos índios musculosos, dançando primitivamente, causava grande impacto na imaginação erótica daquelas mulheres liberadas e carentes, que mais pareciam gatas no cio. Como os fortes apelos do sexo sempre derrubam obstáculos; não haveria idade, credo, condição socio-econômico e mesmo cultural que fosse barreira intransponível. Os índios, que são hábeis interpretadores dos sinais da natureza, logo percebiam nos olhares daquelas mulheres brancas, que o fogo do desejo ardia em suas entranhas. Então, sem perder tempo, eles tomavam as mulheres brancas nos braço e; com a plena concordância das mesmas, adentravam furtivamente na mata próxima... Quando isso ocorria, eu espiava discretamente o casal desaparecendo na escuridão e fingia não perceber nada. Enquanto isso, à nossa frente, a dança dos índios continuava ao som do rufar hipnótico dos tambores. Levei também muita gente ao interessante Parque Sete Cidades, no Piauí. Lugar fantástico, onde saltam aos olhos as inscrições rupestres nas rochas. Sinal de que povos antigos estiveram na região centenas de anos antes do descobrimento do Brasil. De todos os pontos turísticos visitados pela Esoteratur, o mais arrepiante era a antiga cidade de São Luiz do Paraitinga. Onde, segundo a lenda local, perambula nas noites de lua cheia um temível lobisomem. A programação turística da Esoteratur em Paraitinga compreendia visitar lugares históricos durante o dia. E de noite os excursionistas tentariam caçar o monstro peludo pelas ruas escuras da cidade; segurando uma cruz na mão e uma vela acessa na outra. Depois da procura, sempre em vão claro, o grupo ia dormir; mantendo as janelas dos quartos abertas. O que fatalmente causava medo e excitação no grupo. E, este era o grande segredo da aventura. Apesar da lenda do lobisomem, São Luiz era bem tranqüila e possibilitava o capricho das janelas abertas nas madrugadas escuras. Em certa oportunidade, para assustar o grupo da excursão do qual participavam Bárbara e suas amigas; contratei um rapazola para que, lá pelas tantas da noite, fizesse barulho nas janelas, vestido com uma fantasia de lobisomem que eu levava secretamente na bagagem. Conforme combinado, enquanto todos dormiam, o rapaz apareceu em forma da horrível criatura peluda. Urrando e arranhando as janelas do Hotel. Houve a seguir um pânico geral e todos, sem exceção, debruçaram-se nas janelas para verificar o que estava ocorrendo. O tumulto assustou o monstro, que fugiu na escuridão; dando fortes urros, que arrepiava o corpo de todos nós, tão real que era. O rapaz representara

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muito bem. Por isso decidi que no dia seguinte iria recompensá-lo, com uma quantia maior de dinheiro do que o combinado. Por dentro, eu ria da troça. Mas não iria desmentir a farsa, pois corria o risco de ser linchado pelo pessoal. No dia seguinte, no café da manhã, ao encontrar o rapaz lobisomem, falei: - Bom trabalho jovem, aqui está o dinheiro combinado - estendendo a mão, que segurava uma nota graúda.

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O rapaz olhou-me intrigado e moveu negativamente a cabeça. - Não posso receber o dinheiro. Não é justo receber por um serviço não realizado... - Como não? Você apareceu ontem à noite, eu mesmo vi! - Está enganado, não apareci. Você esqueceu de entregar-me a fantasia. Encabulado, corri apressado até o meu quarto no hotel para certificar-me. Ao abrir a mala, para meu assombro, a fantasia do lobisomem estava lá, intacta. Embrulhada no papel da loja...

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42 A revelação Observando uma procissão de fiéis católicos que seguiam a pé pelas ruas escuras de Embu, segurando velas acesas nas mãos, pensei no quanto a vida é bela e passageira. O tempo, o implacável tempo da nossa vida que não volta mais, havia avançado. Do passado aflorava uma saudade angustiante de certos acontecimentos que ficaram registrados em minha memória. Entre tantas recordações, as mais insistentes estavam ligadas ao Círculo Dourado. Do qual havia distanciado um pouco, devido à minha dedicação aos negócios e em particular à Esoteratur. Entretanto, sempre arranjava tempo para rever minhas amigas e como não podia deixar de ser; também visitava meu "amigo" Hermes e seqüência aos meus trabalhos no astral. Às vezes, diante do Crânio de Cristal, ocorria-me pensar se agira corretamente pilhando-o no Peru. Ponderando melhor, concluía que agira certo, embora pairasse certa dúvida. Mas não era apenas a pilhagem do Hermes que me inculcava. O triângulo amoroso que formava com Bárbara e Rose, provocava conflitos íntimos que dilaceravam minha alma. Jamais em minha vida imaginara que um dia amaria duas mulheres ao mesmo tempo. Anteriormente, minha mente colonizada pela fé cristã nem admitia que pudesse ocorrer este fato. Mas, com o tempo, meu coração terminou ignorando o juízo da razão e passou a amar duas mulheres simultaneamente. Será assim o verdadeiro amor? Sabe-se que amor é amor e paixão é paixão, a diferença é nítida. Enquanto o amor é puro e constante, a paixão é avassaladora, inconstante e cega. E eu não sabia quais desses sentimentos habitavam em mim. Tratando-se de duas mulheres compartilhando o mesmo coração, talvez esses dois sentimentos existissem simultaneamente para complicar minha situação. Talvez amasse Bárbara e estivesse perdidamente apaixonado por Rose ou vice-versa. Não sei. A sensação de estar fazendo coisas erradas atormentava minha alma e eu sofria por isso. Ficara assim configurada uma perturbadora contenda íntima que muito me aborrecia. Este meu castigo por amar duas pessoas seria justo? Embora dividido, nunca esmoreci na luta pela vida. Jamais usei drogas nem adquiri qualquer outro vício. Meu único “crime” era amar duas pessoas simultaneamente. E, desse amor triangular e impossível de existir para muitos, fluíam igualmente o prazer e a confusão de sentimentos. Creio que este era o meu maior pecado. Como sempre, fui aprendendo a conviver com conflitos não resolvidos. Creio que, éramos três egoístas; que procuravam preservar sua liberdade, seu espaço e seus amigos. Nossos relacionamentos nem ao menos pareciam namoro. Tratava-se mais de uma amizade moderna, avançada e pouco possessiva, onde ninguém era de ninguém. Vivendo nesta cidade cosmopolita e competitiva, que endurece corações, nossas ambições, juntamente com uma boa dose de egoísmo, definiram nossos estilos de vida e liquidaram os sonhos naturais de casamento e filhos. Ironicamente, nessa estranha liberdade, acabei feito uma mosca prisioneira na teia das aranhas. Um satélite orbitando um sistema particular...
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Não suportando mais carregar este incômodo fardo íntimo, resolvi ser franco com Bárbara. - Faz um bom tempo que estou para lhe falar um assunto delicado... Bárbara fitou-me docemente com seus olhos de mel e fez sinal com a cabeça para que eu continuasse. - Não pretendo te magoar, mas preciso te contar uma coisa. - Conte-me, então... - Bem... transei com algumas de suas amigas... - Com minhas amigas... Quais delas? - indagou-me curiosa, com um olhar enigmático. - A Rose, a Bel, a Luci e a Tânia. Bárbara que permanecia impassível e não desviava seus olhos dos meus, desatou a rir. - Quem diria, heim? Você, um muçulmano? Talvez pretenda formar um harém... - Não pensei isso - respondi surpreso. - Não queria te magoar...Magoei? interroguei. - Absolutamente! O que se pode esperar dos homens? Cada um de nós está livre para fazer o que bem entender. No meu caso, não formei uma coleção de homens simplesmente porque não tive vontade. Mas se você necessita de outras mulheres, o que posso fazer? Seu exemplo não é nenhuma novidade. Você sabe que existem sobre a face da Terra milhões de muçulmanos. Eu mesma sei de um caso de um homem no Texas que vive com onze mulheres sobre o mesmo teto e elas se dão muito bem entre si. No Tibet é o contrário. Como lá existem mais homens do que mulheres, por tradição uma mulher pode ter diversos maridos; desde que sejam parentes. Aqui no Brasil há muitas mulheres vivendo com mais de um homem. Voltando a falar de nós, meu ciúme sempre esteve sob controle. Não deixarei de te amar por causa do que me contou. Pelo contrário, eu o admiro ainda mais por ter falado a verdade. Como você mesmo disse uma vez, também acredito que não viemos ao mundo para ser pedra. Neste caso de pau ou pedra, creio que você é cem porcento pau - falou, sorrindo maliciosamente. Ainda surpreso com o que ela disse, continuei. − Gostaria de amar uma só pessoa, porém, não consigo. Amo você e a Rose Bour... − Eu sempre desconfiei de você era uma figura de múltiplas facetas. De fato se configurou um simples triângulo... menos mal - ironizou Bárbara, sorrindo. − Você sabe que a Rose é realmente muito amiga minha, não? - continuou Bárbara. − Sei! - respondi seco. − Pois então, ela nunca me decepcionou e provou ser mais minha amiga do que você é meu amigo. Desde o início ela havia me contado o que você só agora diz. A revelação de Bárbara provocou em mim um súbito sentimento de confusão e desconforto. Pasmo continuei ouvindo. − Aproveitando a oportunidade, quero também revelar um segredo. Nós duas nos amamos muito. Desde que nos conhecemos e sem que ninguém soubesse sempre trocamos deliciosas carícias íntimas... Fizemos tantas coisas agradáveis entre nós, que vocês, homens nem imaginam... Mas não se preocupe...Não temos nada contra os homens, pelo contrário... Ouvi aquelas palavras em silêncio, com um tremendo nó na garganta.

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A minha adorável Rose, que eu julgara confiável, havia revelado nosso segredo. Pior de tudo, as duas transavam às minhas costas, sem que ao menos suspeitasse disto. Quase explodi de raiva. Afinal, o ser humano, de uma forma ou de outra, é preconceituoso e ciumento, e eu não fugia à regra. Pensei muitas coisas ao mesmo tempo, inclusive de mandar as duas às favas; mas o que ganharia agindo assim? Pior, perderia duas belas. E qual o homem que não gostaria de ter duas ou mais mulheres? Portanto, que diferença faria realmente a conduta sexual delas? E mais, eu não seria o primeiro nem o último homem nesta situação. Quem sabe, no futuro, nós três não venhamos à dividir a mesma cama? Que bom seria, hein... Pensando friamente, mantive a calma e não discuti com Bárbara. Fingi ser o homem mais compreensível do mundo; pois preferi continuar o romance com as duas, apesar do transtorno da revelação. Suspirei fundo e falei. − Engraçado, nunca havia passado pela minha cabeça que pudesse haver algo a mais na amizade entre vocês... Para mim tudo bem. Não farei qualquer tipo de objeção e muito menos qualquer tipo de crítica, quem sou para isso? Bárbara ouvia atentamente, olhando-me nos olhos, procurando desvendar os mistérios mergulhados nas profundezas da minha alma. − Sendo adepto do budismo - continuei - aprendi que o apego exagerado às coisas sempre causa sofrimentos. Principalmente o apego à sensualidade; mas, que posso fazer, se todo ser humano é um poço de contradições? − Da maneira que você pensa, Dan, creio que você procura a perfeição, mas quem não tem defeitos? Antes que eu respondesse algo, ela antecipou-se e continuou falando excitada, gesticulando suas mãos finas e bem cuidadas. − Segundo o filósofo britânico Kal Popper, o homem criou novos mundos e o mais importante deles é o mundo das exigências morais. Entretanto - concluiu Bárbara considerando-se que o mundo é muito importante para nós, mas nós não somos importantes para o mundo, dane-se a moral. Apenas peço que não seja tão exigente consigo mesmo. Viva feliz o aqui e agora. Como já dizia Nietzche, o que fazemos por amor sempre se consuma além do bem e do mal. Um tanto mais calmo, as palavras de Bárbara ecoavam diretamente no meu coração. Já não me importava mais se ela trocava carícias íntimas com Rose. No meu modo de entender, o que importava era o amor que sentia por ela e a nossa sábia aceitação dos fatos. Qualidades fundamentais para relações estáveis. E não era isso que pretendíamos de fato? Conversando francamente com Bárbara, consegui desencravar da minha consciência o doloroso espinho da infidelidade. Como por encanto, o pesado fardo dos meus ombros sumiu. Depois de tudo que Bárbara me contara sobre Rose, acredito que ela também deve ter desencravado o seu.

FIM

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