IV Encontro Nacional da Ulepicc-Brasil – Rio de Janeiro/RJ – 9 a 11/10/2012

Dos Quadrinhos Ao Cinema: Um Estudo Sobre A Adaptação E A Estética Em “Scott Pilgrim”1 Alessandra Maia2 Yuri Garcia3 Resumo:
O presente estudo buscou entender como as adaptações de HQs para o cinema contemporâneo estão sendo desenvolvidas e quais fatores estão influenciando esse “adaptar”. Desta forma buscamos compreender melhor como a criatividade do artista/diretor é empregada para retratar os aspectos imagéticos dos quadrinhos por intermédio dos recursos oferecidos pelo cinema: os efeitos visuais e sonoros. E como objeto para este estudo selecionou-se o filme “Scott Pilgrim contra o mundo” (2010) como uma releitura criativa da série de graphic novels do cartunista canadense Bryan Lee O'Malley.

Palavras-chave: Scott Pilgrim; Cinema; HQ; Graphic novel; Adaptação.

Abstract:
This study tries to understand how the adaptations of comic books to the contemporary cinema are being developed and which factors are influencing this “adaptation”. By this mean, we aim to explore how the creativity of the artist/director is used to portrait the imagetic aspects of the comic books through the means of visual aid offered by movies: visual and sound effects. As the object of this study we selected the film “Scott Pilgrim vs. the World” (2010) as a creative reinterpretation of the graphic novels of the canadian Bryan Lee O´Malley.

Keywords: Scott Pilgrim; Comic books; Graphic novel; Adaptation.

Trabalho apresentado no GT3 – Indústrias midiáticas, IV Encontro Nacional da ULEPICC-Br. Mestranda em Tecnologias da Comunicação e Cultura PPGCOM/Uerj – bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) –, pesquisadora do Laboratório CiberCog. Estudante de Relações Públicas e graduada em Jornalismo pela FCS/Uerj. alemontmaia@gmail.com. 3 Mestrando em Tecnologias de Comunicação e Cultura do PPGCOM/Uerj. yurigpk@hotmail.com.
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em P&B e sem som algum pode dialogar com alguma similaridade com uma versão em movimento. 2010). É interessante observar como ocorreu esse processo em que a mesma história desenvolvida em mídias diferentes e por autores distintos podem se aproximar. a área das HQs tem sido cada vez mais explorada no campo cinematográfico. Allen Hughes. a saber: “Sin City – a cidade do pecado” (Frank Miller. aliado à estética. 2005).com/Films-Am-Aw/L-Arroseur-Arrose.IV Encontro Nacional da Ulepicc-Brasil – Rio de Janeiro/RJ – 9 a 11/10/2012 INTRODUÇÃO Filmes e quadrinhos se relacionam praticamente desde o início do cinema. Segundo a lista apresentada por Glauco Toledo e William Andrade. no final do século XIX. colorida e com som. optou-se pelo estudo da adaptação de “Scott Pilgrim contra o mundo” devido à complexidade de elementos da cultura pop ocidental e oriental presente nas narrativas. . Quentin Tarantino. Ou seja. acrescente elementos que não estão presentes na quadrinizada. Entre as obras analisadas. 2005). realizou-se um levantamento de obras cinematográficas produzidas nos anos 2000 a partir de graphic novels com temática voltada a um público mais maduro. paradoxalmente. 4 Disponível em: http://www. em trabalho realizado para o XII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação da Região Sudeste (Intercom Sudeste). e o site Film Reference4. em que a comic “L'Arroseur” (Herman Vogel. 2009). Para tanto. Este artigo pretende analisar a questão da adaptação HQ/Cinema. Embora o longa-metragem seja uma obra que explora as possibilidades que o meio proporciona e. por esta razão. “Scott Pilgrim contra o mundo” (Edgar Wright. “Watchmen – o filme” (Zack Snyder. Acesso em: 30 de abril. 1887) foi adaptada para o audiovisual. como uma história com imagens fixas. Com a popularização das histórias em quadrinhos (HQs). o crescimento da indústria cinematográfica e as inovações tecnológicas no campo dos efeitos especiais.html#b. Robert Rodriguez. tanto na HQ quanto na versão cinematográfica. “Do inferno” (Albert Hughes. 2001). o primeiro intercâmbio entre as mídias ocorreu em 1895 com o curta-metragem “L’Arroseur Arrosé” (Louis Lumière). tornando-se assim independente da mesma. “Constantine” (Francis Lawrence.filmreference. muitos fãs e críticos consideram-no uma versão bastante similar à HQ.

Ao entrar em contato com a obra original. assim. Isto significa entender os processos de produção de sentidos. ARAÚJO.91) Ou seja. É uma reinvenção inevitável com possibilidades criativas infinitas. as histórias em quadrinhos nos apresentam quadros sequenciais dispostos em páginas que conseguimos compreender como representantes de movimentação por meio das materialidades implicadas em nossa cultura. passando a ser uma visão que o diretor tem dela. QUADRINHOS E CINEMA – AS PROXIMIDADES As histórias em quadrinhos e o cinema possuem características em comum que se tornam interessantes objetos de reflexão. Em ambos os casos lidamos com quadros. Ou seja. Segundo porque a percepção do autor sobre o produto cultural é pessoal. MOREIRA. pelo contexto em que vive. como processos apreendidos dentro de uma dada cultura. preenchendo as lacunas de informação representadas pela sarjeta (espaços entre quadros). Primeiro pela questão de ser um trabalho desenvolvido em outra mídia.IV Encontro Nacional da Ulepicc-Brasil – Rio de Janeiro/RJ – 9 a 11/10/2012 O filme se destaca não como uma adaptação fiel de uma história em quadrinhos. Enquanto o cinema procura nos passar uma sensação mais “real”. Jogos simbólicos. mas como uma releitura criativa. 2009. são experiências artificiais marcadas . (ARANHA. no momento em que o filme é feito deixa de ser a mesma obra. através de quadros sequenciais projetados em velocidade que nos passam uma ilusão de ótica de uma movimentação verídica (processo antes da aparição do cinema digital que por meio de novas tecnologias reproduz a imagem captada digitalmente). Podemos destacar inicialmente que ambas as mídias lidam com a imagem (mesmo que de formas distintas) e procuram transmitir uma sensação de movimento. dentre outros fatores. imaginários e culturais. no cinema. o diretor da película torna-se um espectador que absorve a história e a interpreta influenciado. Têm-se como hipóteses que durante o processo em que se adapta uma obra há diversas possibilidades de modificações. esta transição já é feita pelo projetor como efeito da aceleração dos quadros. Tal ligação se acentua ainda mais pela questão do suporte em que a imagem é retratada. a forma como o conceito de movimento é trabalhado em ambos os casos se diferem. a partir da partilha de mensagens. p. sendo que: nos quadrinhos o leitor participa intensamente da construção da história. As dinâmicas de comunicação são dinâmicas da própria cultura.

1995) temos uma alta demanda cognitiva. (PEREIRA.96-97) As leituras feitas pelas HQs e pelo cinema demandam um alto esforço cognitivo o qual conseguimos calibrar com o tempo e de forma imperceptível e “natural”. sendo frequentemente motivo de novas discussões e procura de novos registros. que exige do leitor um menor “preenchimento”. Por exemplo. demandando esforços diferenciados dos leitores. adotaremos tais demarcações sem nenhuma finalidade de registro e sim como forma de aproximar as duas artes em um período mais tangível no espaço/tempo. visto que os quadros apresentam frações de uma dada cena que precisam ser organizadas pelo gesto de leitura. ARAÚJO. Isto se dá justamente pela necessidade de número bem maior de quadros com o fim de gerar a sensação de movimento. 2009. porém através de suas disparidades e similaridades. p. Podemos. No cinema. remontar aos registros pictóricos feitos pelos homens primitivos. muitas vezes a riqueza de uma narrativa pode estar intimamente vinculada às formas de transição de conteúdo. MOREIRA. como a precursora das graphic novels. o espectador assiste à obra com uma atitude cognitiva menos participativa. 2005). inscritas em tempos e grupos sociais específicos. podemos retornar desde Platão e sua célebre metáfora da caverna em que através das sombras projetadas na parede descreve algo muito similar à projeção fílmica (Cf. em 1894. 2006. no caso das histórias em quadrinhos. MACHADO Apud COSTA. devido ao fato de não haver um consenso. enquanto nos Estados Unidos a primeira foi a “Yellow Kid”. mas nem por isto passiva. enquanto o cinema por sua natureza irá trabalhar predominantemente com transições momento-para-momento23 em alta velocidade.IV Encontro Nacional da Ulepicc-Brasil – Rio de Janeiro/RJ – 9 a 11/10/2012 pela arbitrariedade. há uma proximidade em relação a época de criação. em relação aos quadrinhos. de acordo com a sensação que se deseja atribuir a determinado quadro. porém. nas transições aspecto-para-aspecto (MCLOUD. Porém. Nas HQs. a solução interpretativa demandada entre dois quadros no cinema é tão diminuta. p. assim como pelo fato de haverem sido provenientes de formas representativas mais antigas e de difícil demarcação exata do ponto específico em que começam a evoluir em direção ao que pode ser definido como uma primeira versão. No cinema. ou seja. (ARANHA. Mas para este trabalho será considerada a revista semanal britânica “Punch”. enquanto os quadrinhos trabalham com movimentos subjetivos indicados por convenções gráficas. para nos ater a uma data mais específica . criada em 1841. conseguimos compreender aspectos importantes da convergência entre tais mídias. marcando o início das comics e de seu traço característico – primeira aparição dos balões de fala.91) Quanto à origem das mídias citadas acima.

recorreremos à versão tida como oficial por muitos autores sobre a projeção feita pelos irmãos Auguste e Louis Lumière em 1895 no Grand Café em Paris. p. com o curta-metragem “L’Arroseur Arrosé” (Louis Lumière. Fell mostra como o enquadramento das histórias em quadrinhos sofria deslocamentos análogos aos primeiros deslocamentos de câmera no cinema. porém. 2005. e corroborado pelo site Film Reference. Os quadrinhos ou gibi ou história em quadrinhos (HQ) ou revistinhas são uma forma de arte com imagens e textos conjugados com o objetivo de construir uma narrativa de histórias. 1887) foi adaptada para o audiovisual. graphic novel (em português. O cinema durante muito tempo se empenhou em conseguir transpor material sequencial. Conforme o levantamento apresentado por Glauco Toledo e William Andrade.94. em adaptações no cinema desde o fim do século XIX. em que a bandes “L'Arroseur” (Herman Vogel. onde o cinematógrafo (ainda visto como uma invenção tecnológica) é apresentado. 2005. neste mesmo ano. É interessante observar que há a utilização de material de arte sequencial. podendo também ser usado para destacar diferenças subjetivas na qualidade artística entre trabalhos. neste primeiro momento as tiras. no Intercom Sudeste. Ambos aumentaram de tamanho de forma paralela e simultânea. tem enredos complexos e mais longos.IV Encontro Nacional da Ulepicc-Brasil – Rio de Janeiro/RJ – 9 a 11/10/2012 e seguir a proposta determinada acima. o primeiro intercâmbio entre as mídias ocorreu. (COSTA. 1999). 1980). São.93-94)5 Porém. muitas vezes são direcionados ao público adulto. 5 Conferir nota de rodapé de COSTA. romance gráfico) é um termo para um formato de revista em quadrinhos que. “Superman II” (Richard Lester. a ligação entre HQs e filmes não seguiu como um sucesso absoluto. p. o que evidenciaria uma espécie de diálogo entre mídias diferentes. também são conhecidas como arte sequencial (Cf. em apenas alguns casos como a franquia “Superman” (Richard Donner. . Costa (2005) nos lembra em seu livro sobre o primeiro cinema sobre a observação de John L. Contudo o termo não se limita a isto. Enquanto. 1978). 1895). EISNER. Fell sobre o desenvolvimento de ambas a s mídias. frequentemente. publicadas no formato de revistas. em geral. surge uma “crise” na relação HQ-filmes. Além disso. Com a popularização dos famosos heróis e a conquista definitiva de um espaço com fãs. personagens-tipo e enredos também saíam dos comics. livros ou em tiras publicadas em revistas e jornais.

“Spider-Man 2” (Sam Raimi. “Batman” (Tim Burton. Furie. portanto.. algumas mudanças se tornam necessárias. 2007). portanto é antes de tudo realista. um sentimento de realidade bastante forte. no espectador. “The Amazing Spider-Man”. Entre as novas inspirações de Hollywood. “Road to Perdition” (Sam Mendes. enquanto outras. dotada de todas as aparências (ou quase todas) da realidade. desde que bem empregadas e coerentes com o filme. 2011). 1989) e alguns outros obtiveram êxito. melhor dizendo. OLIVEIRA. Os HQs emprestam suas histórias e seus personagens. 1990). em .IV Encontro Nacional da Ulepicc-Brasil – Rio de Janeiro/RJ – 9 a 11/10/2012 “Superman III” (Richard Lester. O conceito de “realidade” do cinema é discutível. Possibilidades maiores devido aos recursos empregados em uma segunda mídia que conta com avanços tecnológicos. assim como uma série de outras adaptações de histórias em quadrinhos. “Superman IV: The Quest for Peace” (Sidney J. e em meio aos seus recursos de linguagem e da visualidade inspiram diretores que transmitem às telas uma obra cinematográfica que vão além dos quadrinhos. [. 1983). o filme foi bem recebido mostrando uma nova fórmula na transposição: a aceitação de que devido a serem mídias diferentes. Diversas outras tentativas caíram em esquecimento ao longo do tempo. atuações de pessoas que podem acrescentar ou diminuir a riqueza dos personagens e uma noção mais realística da obra podem ser fatores interessantes no momento da transposição. ARAÚJO. “Dick Tracy” (Warren Beatty. 1997). 2000). obtiveram recepção de crítica e bilheteria abaixo do esperado. De certa forma. Em 1998. porém Marcel Martin ressalta que: a imagem fílmica. fazendo com que as HQs voltassem a ser exploradas pela indústria cinematográfica. 2007).. ou. surge o filme “Blade” (Stephen Norrington) que marca uma retomada dos quadrinhos em Hollywood.] A imagem fílmica suscita. e não como uma adaptação de Graphic Novel (Cf. 1987). 2002) gerou duas continuações. bem como uma nova versão em 2012 dirigida por Marc Webb. apesar de alcançarem os cinemas com maior repercussão. após o fracasso de “Batman & Robin” (Joel Schumacher. ampliando as possibilidades narrativas (CORDEIRO. 2002) e “A History of Violence” (David Cronenberg. O sucesso de “Spider-Man” (Sam Raimi. surgem propostas mais dramáticas e conteúdos mais adultos oriundos de Graphic Novels. 2005) são exemplos interessantes de filmes com um perfil mais sério. Seguindo a fórmula veio “X-Men” (Bryan Singer. 2004) e “Spider-Man 3” (Sam Raimi. Vendido como um filme de ação. tal possibilidade narrativa acrescida pelo cinema pode ser vista como um fator positivo ou negativo. que exploram uma forma mais realista e dramática de HQs.

4) A forma como essa problemática e algumas outras particularidades específicas envolvendo a dicotomia entre as gramáticas midiáticas de ambas costuma refletir diretamente no sucesso da transposição. uma diferença importante entre as duas linguagens no que diz respeito ao tempo de fruição do receptor. a ação se sobrepõe ao olhar. Existe uma razão para a possibilidade. a princípio. se apresentam como opostas. assim como para a necessidade de adaptações. por ter a ampla visão da decupagem na página. apreende o ritmo podendo se dedicar o quanto quiser à imagem para sua total compreensão e legibilidade. consumindo-a.IV Encontro Nacional da Ulepicc-Brasil – Rio de Janeiro/RJ – 9 a 11/10/2012 certos casos. No entanto. p. mal comparando. a duração de fruição do espectador. 1996. it "says" things that could be conveyed also in the language of words. interferindo na temporalidade. Essa temporalidade é diferenciada por dois motivos: primeiro pelo fato do receptor ter um controle absoluto do tempo de leitura.12)6 Abandonando o conceito de “fidelidade”. utilizado de forma já ultrapassada em estudos de transposições cinematográficas. ‘falam’ coisas que poderiam ser transmitidas também por palavras. é o que está dentro de cada quadrinho em uma página. A ação que está na tela do cinema. Os filmes costumam variar entre 70 minutos e 240 minutos em casos mais específicos. p. por outro lado. o da representação de uma obra através de uma perspectiva Tradução nossa de “Film tells us continuous stories. “Filmes nos contam histórias. (MUANIS. 2011. uma nova perspectiva. há também a dificuldade encontrada pelo tempo. entretanto. é ele quem decide o quanto dedica o seu olhar aos quadros até o ponto de virar a página. Utilizando os termos de Deleuze. Existe. porém falam de forma diferente. p. nos chama atenção. 2006.22.” (METZ apud MCFARLANE. enquanto as duas artes se assemelham na questão imagemmovimento. arbitrariamente. yet it says them differently. 1996. ou seja. O leitor de quadrinho. p.12) 6 . (MARTIN. a visualização do leitor de quadrinhos é mais ampla. enfatizamos aqui a criatividade que os realizadores do filme utilizam no processo. grifo do autor) Por outro lado. No cinema. levantada através de estudos de Roger Chartier (1996) sobre leitura.” (METZ apud MCFARLANE. There is a reason for the possibility as well as for the necessity of adaptations. para induzir à crença na existência objetiva do que aparece na tela. Podemos destacar inicialmente a capacidade de se utilizar de uma nova linguagem para retratar a mesma história e suas possibilidades de inovação e em outros casos o poder que o realizador possui de aproximar tais linguagens que. sofrem grandes modificações no âmbito imagem-tempo. o ritmo da montagem atropela.

The World. SCOTT PILGRIM A história se inicia com a apresentação de Scott Pilgrim. depois de um conturbado rompimento com Gideon. não trabalha e é baixista da banda “Sex Bob-omb” com seus amigos Stephen Stills “O talento” (guitarra) e Kim Pine (bateria). Contudo. Dessa forma. o diretor da película torna-se um espectador que absorve a história e a interpreta influenciado. cujo primeiro é Matthew. Um dos processos criativos acontece quando o diretor consegue aproximar as obras de forma “fiel” por meio de diversos recursos em mídias totalmente diferentes. É uma reinvenção inevitável com possibilidades criativas infinitas. Também descobre que ela trabalha na Amazon canadense (Amazon. pelo contexto em que vive. Como podemos observar na obra “Scott Pilgrim contra o mundo” (Scott Pilgrim vs. logo ele a conhece e descobre que seu nome é Ramona Flowers. Scott namora uma colegial de 17 anos. um jovem de 23 anos. Scott assegura que eles apenas conversam e jogam videogame. 7 . O enredo continua com Scott Pilgrim enfrentando a liga dos sete ex-namorados do mal de Ramona. Ela era de Nova Iorque e acaba de chegar a Toronto. Ao entrar em contato com a obra original. a chinesa Knives Chau. Scott começa a sonhar com uma menina de patins que ele nunca viu antes. mas Scott não dá atenção. em batalhas no estilo dos videogames de combate. Os estudos de Chartier apontam para uma forma particular de se apropriar do conteúdo literário e destacam a interpretação pessoal que cada indivíduo possui. devido aos fatos de ter sido dirigida por Robert Rodriguez e também por Frank Miller. a percepção do autor sobre o produto cultural é pessoal. o criador da versão quadrinizada. Podemos destacar a obra “Sin City” como uma possível exceção. no momento em que o filme é feito deixa de ser a mesma obra. Todavia. 2010) é baseada na graphic novel do canadense Bryan O'Malley. Embora seus amigos considerem a relação um pouco escandalosa por causa da idade. Ou seja. por isso faz um pedido e logo recebe um e-mail ameaçador de alguém chamado Matthew Patel.IV Encontro Nacional da Ulepicc-Brasil – Rio de Janeiro/RJ – 9 a 11/10/2012 de uma outra pessoa (na maioria dos casos)7. dentre outros fatores.ca). que vive em Toronto com seu colega de quarto. passando a ser uma visão que o diretor tem dela. uma noite. Wallace Wells.

criada pelo cartunista canadense Bryan Lee O'Malley. As revistas têm em média 200 páginas e foram feitas em preto e branco. Este game faz diversas referências aos jogos eletrônicos. Vale ressaltar que os vilões se transformam em dinheiro quando morrem nas três mídias. A adaptação cinematográfica é uma aventura-comédia norte-americana. é uma série de graphic novels (romance gráfico). Enquanto. nota-se isso por meio do uso constante de “no dia seguinte ou algo assim” ou “algumas noites atrás” ou “mais tarde”. não possui preocupação com o tempo. originalmente. Assim como a graphic novel. com 112 minutos de duração. “Mario”. como “River City” “Ransom”. As filmagens da produção.Graphic novel (2004-2010). dirigida por Edgar Wright. e videogame (2010) Scott Pilgrim. “Mega Man” e “Guitar Hero”. em seis volumes. por isso um híbrido.IV Encontro Nacional da Ulepicc-Brasil – Rio de Janeiro/RJ – 9 a 11/10/2012 Figura 1 . aparentemente. o videogame foi codesenvolvido pela Ubisoft Montreal e Chengdu Ubisoft e disponibilizado para a PlayStation Network. A graphic novel tem traços do mangá japonês e das histórias em quadrinhos norte-americanas. foram realizadas em Toronto no início de 2009. com uma liberação para a Xbox Live Arcade em uma data posterior. o longa-metragem apresenta traços dos jogos eletrônicos e das HQs. Filme (2010). protagonizada por Michael Cera. Lançada entre agosto de 2004 e julho de 2010 com o selo independente Portland pela editora Oni Press. A graphic novel possui um ritmo menos acelerado que o empregado . foram lançados o filme e o videogame. Em 2010. “Kirby”. Scott Pilgrim.

o musical. CAMPBELL. que canta no estilo musical dos filmes de Bollywood. principalmente. Cada ex-namorado de Ramona tem um poder especial e representa o grande vilão da fase em que Scott se encontra. e os demais a partir de dinheiro e oportunidades. o de RPG. O primeiro ex-namorado. Edgar Wright faz bom proveito de tudo o que não podia ser explorado nos quadrinhos. O outro ex-namorado é o Todd Ingram. Mas a sátira se torna mais evidente com os outros três ex-namorados de Ramona: Lucas Lee é a encarnação do típico astro de ação do cinema. um hipster vestido de pirata. são alguns exemplos. dos quadrinhos e. atual namorado da ex de Scott. ao menos no início. da música. 1949) que deve enfrentar os vilões (ex-namorados malignos de Ramona) e cada adversidade em seu caminho para. Cada um dos combates é inspirado por um tipo de jogo e os vilões representam um “tipo social”: o de luta. Por causa da influência dos videogames. empreender uma busca de autoconhecimento e ainda conquistar o direito de ficar com a menina de seus sonhos. Pode-se dizer que a trajetória de Scott é centrada na “jornada do herói” (Cf. as canções da banda de Scott Pilgrim (Sex Bob-Omb) e das bandas adversárias (na batalha das bandas). de Ramona por meio de um chip. faz uso de sons específicos e de efeitos: tipo slow motion para quando há um “K. dos videogames. a Roxie é uma ninja bissexual. Matthew Pattel.O. por exemplo. fique deslumbrado. literalmente. O filme é inspirado na cultura “pop” do final do século XX. à “The Legend of Zelda” e muitos outros. As músicas. cujo culto desenfreado à celebridade faz com que Scott. o de aventura. como toda boa obra. é cheia de vida. ao “Sonic the Hedgehog”. os gêmeos japoneses. com personagens complexos e cheios de personalidade e. são os controladores de alta tecnologia e dos dragões de energia na batalha das bandas. ao “Pac-Man”. no caso.” (momento no qual o personagem vence outro) – mas não para por aí. A inspiração vem dos seriados norte-americanos. Os elementos que constroem a lógica interna da obra também criam conexões com o mundo social e desenvolvem pontes representacionais com a realidade na qual . ao “Dance Dance Revolution”. há referências ao “Super Mario Bros. ainda assim. um rockstar vegano. desta forma. um nerd produtor musical que controla as pessoas. além de Street Fighter. difícil de adaptar. à “River City Ransom”. E o principal vilão é Gideon.”. os Katanayagi.IV Encontro Nacional da Ulepicc-Brasil – Rio de Janeiro/RJ – 9 a 11/10/2012 pelo filme. que não podem ser reproduzidas sonoramente no suporte de papel ganham nova vida no filme.

os videogames e com as influências de segmento da cultura oriental. mesmo que inconscientes” (MARTIN. CONSIDERAÇÕES FINAIS Por meio deste estudo buscamos entender como as adaptações de HQs no cinema contemporâneo estão sendo desenvolvidas e quais fatores estão influenciando esse “adaptar”. E terceiro. a visão particular de cada um. através dele. do Japão. Não somos leitores imparciais de um produto. que pode ser compreendida pelas relações com os estilos musicais. Assim. ou seja. 2011. mas a estética fílmica da adaptação de Wright explora com maestria os recursos sonoros e imagéticos oferecidos pelo cinema de maneira bastante criativa. Por meio deste breve relato é possível constatar que o diretor conseguiu ser. é fundamental” (Ibid. o fato de que a forma como lemos muda com o tempo. CHARTIER. pois. o livro pode explicitar algo que já se encontra em nossa cabeça. 24). Segundo.. os seriados. o papel criador da câmera. projetamos nossos preconceitos para a leitura. Influências histórico-culturais e o amadurecimento pessoal do leitor podem nos apresentar diferentes perspectivas de um mesmo livro. (Cf. o problema daquilo que os estudiosos chamam de equação pessoal do observador. como veremos no capítulo seguinte. suas deformações e suas interpretações. . com o cinema hollywoodiano. sempre que lemos. 1996) “Quando o homem intervém. possivelmente sofre todas essas influências ao entrar em contato com o material e nos transmite a “sua versão” da obra. p. Por isso. as HQs. Porque. sua influência sobre a coisa filmada é determinante e. “fiel” à obra original. por menor que seja. 24). de certa forma. O que não decepciona os fãs dos quadrinhos. há de se destacar três possibilidades de formas de leitura que são mutáveis.IV Encontro Nacional da Ulepicc-Brasil – Rio de Janeiro/RJ – 9 a 11/10/2012 está inserida. mais especificamente. p. Scott Pilgrim trabalha com as diversas identidades de uma geração que cresce e convive intimamente com a cultura “pop” construída de forma hegemônica pela indústria cultural norte-americana. Primeiro. coloca-se. quando o diretor pretende fazer uma obra de arte. o responsável pelo filme. Desta forma buscamos compreender melhor como a criatividade do artista/diretor é empregada para retratar os aspectos imagéticos dos quadrinhos por intermédio dos recursos oferecidos pelo cinema: os efeitos visuais e sonoros. “com muito mais razão.

CIRNE. CORDEIRO. 2011. Revista Intexto. Domestificação.. Desvendando os quadrinhos. Universidade Federal do Pará. A Linguagem Cinematográfica. Adaptações Cinematográficas e Literatura de Entretenimento: um olhar sobre as aventuras de superheróis. Cinema 1: A imagem-movimento. Rio de Janeiro: Azogue Editorial. ano VII. Scott. 1996. Paula. MOREIRA. Análise Comparativa da Transposição dos Quadrinhos ao Cinema. janeiro/junho 2009. Para ler os quadrinhos: da narrativa cinematográfica à narrativa quadrinizada. Moacyr. CARRIÈRE. 1983. Gláucio. 1996. Roger. OLIVEIRA. 1. McCLOUD. Marcel. CHARNEY. CAMPBELL. v. 2005. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARANHA. 2004. Oxford: Clarendon Press. 1999. São Paulo: Cosac & Naify. Joseph. a do diretor” (Ibid. ARAÚJO. São Paulo: Cultrix/Pensamento. Heróis: Estudo das Adaptações de Histórias em Quadrinhos para o Cinema demonstrado através do personagem Batman. Will. Gilles. O Primeiro Cinema: Espetáculo. 2007. Mariana. Narração. O cinema e a invenção da vida moderna. 2007. n. CHARTIER. Quadrinhos e arte seqüencial. Área de Letras e Artes/ Comunicação Social. São Paulo: Editora Brasiliense S. Ronaldo. p. Books. MCFARLANE.A. 2006. 20. 1975. O herói de mil faces. Diego Andrade de. 1995. Brian. 1949. .. A linguagem secreta do cinema. São Paulo: M. 84-101. EISNER. Flávia Cesarino. Belém: UFPA. Novel to Film: An Introduction to the Theory of Adaptation. Vanessa (orgs). Jean-Claude. composta. Leo e SCHWARTZ. São Paulo: Editora Estação Liberdade. Petrópolis: Vozes. COSTA. MARTIN. 24). ARAÚJO. a realidade que aparece então na imagem é o resultado de uma percepção subjetiva. Igor Silva. São Paulo: Martins Fontes. Porto Alegre: UFRGS. Práticas da Leitura. 01 (jan) 2011. DELEUZE.IV Encontro Nacional da Ulepicc-Brasil – Rio de Janeiro/RJ – 9 a 11/10/2012 “escolhida. Monografia (Graduação – Curso de Comunicação Social – Jornalismo). p. Revista Eletrônica Temática. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. São Paulo: Brasiliense. n.

IV Encontro Nacional da Ulepicc-Brasil – Rio de Janeiro/RJ – 9 a 11/10/2012 MUANIS. PEREIRA. A Influência dos Quadrinhos no Cinema: A Incrível Saga da Linguagem Invisível e seu Legado Cinematográfico. maio/agosto 2006. Volume 2. 2007. Imagem. cinema e quadrinhos: linguagens e discursos de cotidiano. Unisinos: revista Fronteiras – estudos midiáticos. XII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação da Região Sudeste. Reflexões sobre as materialidades dos meios: embodiment. 1 – janeiro a abril de 2006. In: Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. Felipe.. 2007. TOLEDO. Anais. Caligrama: Revista de Estudos e Pesquisas em Linguagem e Mídia. Vinícius Andrade. . Juiz de Fora.. n. ANDRADE. Juiz de Fora: UFJF. afetividade e sensorialidade nas dinâmicas de comunicação das novas mídias. Wiliam Machado de. Glauco Madeira de. VIII(2): 93-101.

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