11

Manejo da hipertensão na gestação: o pouco que se sabe
Lenita Wannmacher*
ISSN 1810-0791 Vol. 1, Nº11 Brasília, Outubro de 2004

Resumo
Alterações de pressão arterial ocorrem em 5 a 10% das gravidezes e contribuem significativamente para sérias complicações maternas e fetais. Apesar da relevância, não há informações conclusivas na literatura sobre o tema. As parcas evidências provêm de ensaios clínicos de pequeno porte, com variados desenhos experimentais e com predominante aferição de pressão arterial, em vez da medida de desfechos clínicos relevantes para a gestante e o feto. Mesmo assim, os resultados atuais têm o mérito de questionar condutas arraigadas, baseadas em tradição e não em evidências. Manejo não-medicamentoso e controle clínico-laboratorial estrito em hipertensão leve a moderada, tratamentos com labetalol, nifedipino e sulfato de magnésio como agentes mais promissores em diferentes categorias de hipertensão na gestação e precauções com o uso de metildopa e hidralazina por seus efeitos adversos surgem como os aspectos mais dignos de nota e reflexão.

Introdução

A

lterações de pressão arterial ocorrem em 5 a 10% das gravidezes e contribuem significativamente para sérias complicações maternas e fetais. Em cerca de 70% dos casos, as alterações pressóricas associam-se ao estado gestacional (hipertensão gestacional, préeclâmpsia e eclâmpsia), enquanto os 30% restantes correspondem 1 a hipertensão pré-existente . Tais distúrbios acarretam 15% das mortes em gestantes nos Estados Unidos, prejudicam o 2 desenvolvimento fetal e associam-se a natimortalidade . Apesar 3 da relevância desta morbidade, as diretrizes brasileiras de 2002 e 4 as da Organização Mundial da Saúde de 2003 não consideraram o tratamento da hipertensão na gravidez. Algumas vezes, o que se lê gera condutas controversas. Em sua reunião de 2003, após longa discussão, o Comitê de Seleção e Uso Racional de Medicamentos Essenciais da Organização Mundial da Saúde (OMS), manteve a inclusão de metildopa e hidralazina na 5 lista modelo , com a justificativa de seu uso na gestação. Em sua 6 última versão, o WHO Model Formulary ainda considera metildopa como o medicamento mais seguro para tratar hipertensão leve na gestação e menciona hidralazina intravenosa no manejo de hipertensão grave de pré-eclâmpsia e eclâmpsia. O Department of Reproductive Health and Research da OMS também inclui hidralazina 7 em suas normativas .

Para se discutir sobre o manejo da hipertensão na gravidez, é preciso atentar para suas diferentes formas de apresentação. A maioria das classificações refere hipertensão crônica, hipertensão 2 gestacional, pré-eclâmpsia e eclâmpsia . Nas três primeiras, ainda há uma subdivisão - em leve a moderada (140-159/90-109 mmHg) e grave (igual ou superior a 160/110 mmHg) - segundo a intensidade de sintomas e níveis pressóricos. A hipertensão crônica está presente antes da gestação ou é diagnosticada até a vigésima semana em gestantes que desconheciam valores anteriores de sua pressão arterial, perdurando além da sexta semana pós-parto. Apresenta pior prognóstico e mais risco de evoluir para pré-eclâmpsia. A hipertensão gestacional ocorre em cerca de 10% das gravidezes em primíparas normotensas. Consiste em pressão arterial elevada que aparece após a vigésima semana da gravidez e costuma desaparecer até dez dias após o parto (hipertensão transitória). Não se acompanha de proteinúria e, em geral, tem bom prognóstico, mas pode progredir para pré-eclâmpsia ou eclâmpsia (uma em cada quatro gestantes com esse tipo de hipertensão). A pré-eclâmpsia é síndrome sistêmica específica que afeta todo o organismo da mulher, principalmente placenta, rim, fígado e cérebro.

* Lenita Wannmacher é professora de Farmacologia Clínica, aposentada da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e atualmente da Universidade de Passo Fundo, RS. Atua como consultora do Núcleo de Assistência Farmacêutica da ENSP/FIOCRUZ para a questão de seleção e uso racional de medicamentos. É membro do Comitê de Especialistas em Seleção e Uso de Medicamentos Essenciais da OMS, Genebra, para o período 2000-2004. É autora de três livros de Farmacologia Clínica.

Página 1: Manejo da hipertensão na gestação: o pouco que se sabe

182 mulheres). Em 24 estudos (2. não houve clara diferença entre os fármacos testados. IC95%: 0. Quanto ao total referido de mortes fetais e neonatais (14 estudos. bem como excluíram inibidores da enzima conversora de angiotensina II (IECA).84-1. betabloqueadores e vasodilatadores para segurança do feto. A despeito do baixo poder de muitos deles.80. diminuindo os níveis pressóricos.92).96. enzimas hepáticas elevadas). A revisão questiona o tratamento anti-hipertensivo nessas mulheres. ácido úrico e transaminases. Sugeriram manejar casos moderados e graves preferencialmente com metildopa.23). nas mulheres que os tomavam anteriormente.04-0. O desenvolvimento de convulsões maternas em adição ao quadro anterior caracteriza a eclâmpsia que pode resultar em morte. relatados somente em poucos estudos.64-1. IC95%: 0. Os medicamentos anti-hipertensivos são usados com a expectativa de que. embora tal desfecho tenha sido relatado em apenas metade dos ensaios. IC95%: 0. porém não houve diferença na incidência de pré-eclâmpsia/proteinúria (RR = 0. parto cesáreo em nove (n = 779 gestantes. proteinúria < 5 g/24 horas) e grave (PA > ou =160/110 mmHg. devido aos potenciais efeitos teratogênicos desses dois grupos farmacológicos. a hipertensão pode virar um quadro de urgência ou emergência hipertensiva. Têm-se realizado muitos estudos em hipertensão crônica. dentre outros. RR =0.18). valsartano. Edema não é mais critério diagnóstico porque aparece em muitas gestações normais. perindopril.82. cilazapril. 479 mulheres) mostrou que qualquer outro anti-hipertensivo apresentava proteção (RR = 0. IC95%: 22-1341).03). Dentro da mesma revisão. A pré-eclâmpsia não tem etiologia bem definida.64.19-21. enalapril. Desfechos mais graves ocorrem em pacientes que desenvolveram o quadro antes de 35 semanas de gestação ou naquelas com pré-eclâmpsia em gestação 10 anterior ou com doença vascular pré-existente . a comparação entre anti-hipertensivos (17 estudos.797 gestantes foram alocadas para placebo. 764 mulheres. avaliou-se o uso de betabloqueadores em gestantes com hipertensão de leve a 14 Abordagem medicamentosa dos quadros de hipertensão da gestação Hipertensão crônica em gestante Em 2003. tratamento anti-hipertensivo parenteral e terapia anticonvulsivante.79-1. principalmente em mulheres com hipertensão pré-existente. qualquer medicamento reduziu à metade o risco de desenvolver hipertensão grave (RR: 0. Ocorre após a vigésima semana da gestação. NNT = 45.12-67. proteinúria e pré-eclâmpsia. IC95%: 0. foi 13 abordado em revisão sistemática Cochrane de 40 ensaios clínicos randomizados.240.29). descolamento prematuro de placenta em um (n = 173 mulheres. prematuridade. NNT = 12. IC95%: 0. diabetes melito ou pré-eclâmpsia prévia. parto tão logo quanto possível. Quanto a outros desfechos. IC95%: 9 a 17). tais como benazepril. Ainda nessa comparação.2. houve 51% de redução no risco de o bebê morrer quando qualquer antihipertensivo foi comparado a metildopa (RR = 0.94. RR = 2. 12 Página 2: Manejo da hipertensão na gestação: o pouco que se sabe . de leve a moderada. o que não foi visto na revisão. em cerca de 10 8 a 20% ocorre proteinúria . Os autores da revisão Cochrane afirmam que a escolha de um ou outro antihipertensivo é pouco relevante até que se conclua sobre a adequação de empregar tratamento medicamentoso no controle da hipertensão leve a moderada na gestação.99. Inadequada invasão da junção materno-fetal por trofoblastos tem sido postulada como causa. RR = 0. o que diminuiria a perfusão e resultaria em disfunção endotelial. fosinopril. ramipril. Em outra revisão sistemática Cochrane de 29 estudos (com aproximadamente 2. losartano. pequeno peso para a idade gestacional) e outros.15). Pode ser classificada em leve (PA <160/110 mmHg.18) e de desfechos clínicos fetais (risco de morte. Os desfechos clínicos relevantes incluem sobrevida e bem-estar materno e fetal. desequilíbrio de fatores 9 vasodilatadores e vasopressores e hipertensão . A investigação quanto à progressão para hipertensão grave (8 estudos. RR = 0. RR = 2. diretrizes norte-americanas recomendaram tratar casos leves com medidas não-medicamentosas. trandolapril e antagonistas seletivos de receptores de angiotensina II (ARA-2). desenvolvimento normal do processo do parto e prevenção de eclâmpsia.155 mulheres).09. hipertensão gestacional e pré-eclâmpsia. Aventa-se que haja uma reação inflamatória materna exagerada induzida por aquele processo. não mostrou clara diferença entre eles quanto à eficácia em reduzir risco de desenvolver hipertensão grave. n=1. revisões sistemáticas que os incluem têm originado 11 questionamentos a respeito de recomendações históricas . Se reduzir a progressão para hipertensão grave fosse clinicamente relevante.68-1. requerendo hospitalização. IC95%: 0. IC95%: 0. Não houve diferença no risco de desenvolver proteinúria/pré-eclâmpsia quando betabloqueadores foram comparados a metildopa (8 estudos. IC95%: 0. O tratamento de hipertensão arterial na gestação tem objetivos terapêuticos específicos. Em certas pacientes.500 participantes). IC95%: 0. em que 3. irbesartano. telmisartano. proteinúria > ou = 5 g/24 horas. IC95%: 0.41 a 0. tais como candesartano. a suspensão do tratamento por efeitos adversos foi avaliada em quatro estudos (n = 272 mulheres. Betabloqueadores adrenérgicos. Algumas vezes há alterações da coagulação.81. Aos autores da revisão. acompanhada de proteinúria e elevação dos níveis de creatinina sérica. não-tratamento anti-hipertensivo e tratamento ativo.57-1.49. podendo refletir um viés ou um erro casual. delapril. comparativamente a placebo ou a não-tratamento.52. a menor proteção de metildopa parece surpreendente. lisinopril.Em 5 a 10% das gravidezes há hipertensão e destas. 1010 mulheres). evitarão a progressão para doença mais grave e melhorarão os desfechos clínicos maternos e fetais.90) e internação em unidade de cuidados especiais em três ensaios (n = 379 mulheres. A pré-eclâmpsia caracteriza-se por início súbito ou piora da hipertensão. Todos os estudos eram de pequeno porte. plaquetas < 100.99. quinapril.000/mm3. O tratamento da hipertensão crônica. seria esperado impacto em termos de menos partos cesáreos e prematuridade. Porém alertam para a melhor tolerabilidade de betabloqueadores em relação a metildopa (RR = 0. monitorização contínua. captopril. nifedipino e quetanserina foram comparados a metildopa em 14 ensaios (n= 1026 mulheres).

está indicada a terapia 15 medicamentosa . Apgar e pH no sangue do cordão umbilical.4-1. Para comparar os efeitos de diferentes medicamentos no tratamento de hipertensão grave durante a gestação.58. IC95% : 0. mas aumentou o risco de partos cesáreos. quetanserina mostrou menos eficácia anti-hipertensiva que hidralazina. Pré-eclâmpsia Prevenção Preconiza-se o uso de baixas doses de ácido acetilsalicílico para evitar a repetição da síndrome em mulheres que a apresentaram 22 em gravidez anterior. o que dificulta o diagnóstico. com monitorização de sinais de pré-eclâmpsia. 28 26 23 Hipertensão gestacional A abordagem recomendada durante a gestação é nãomedicamentosa. Em mulheres adultas. reduziu os riscos de recorrência em 19%. há situações que sugerem maior risco de complicações para a gestante e o feto. história de acidente vascular encefálico e perda prévia perinatal. mortes intra-útero. IC95% :50-100) e provavelmente a mortalidade materna (RR = 0. Mostrou-se mais eficaz que nimodipino.60). dislipidemia.03.000 mulheres). Medicamentos são recomendados para tratamento de pacientes que têm pressão diastólica superior a 100 mmHg. Suplementos diários de 1 g de cálcio também reduzem o risco de hipertensão e pré-eclâmpsia em mulheres com alto risco de hipertensão gestacional e naquelas com baixa ingestão de cálcio 24 na dieta.26. Não há consenso sobre os limites pressóricos para iniciar terapia. peso.que requereu tratamento . P = 0.5. São elas: hipertensão secundária. Ensaios clínicos randomizados e duplo-cegos compararam 18 19 metildopa com nifedipino e magnésio na hipertensão induzida pela gravidez. Nenhuma gestante desenvolveu eclâmpsia ou trombocitopenia. NND = 6. Não houve diferença quanto à idade gestacional ao nascimento. Labetalol também parece melhor na 21 comparação com metildopa . pequeno ensaio clínico randomizado avaliou o uso de ácido acetilsalicílico em mulheres com idade gestacional inferior a 14 semanas. IC95% = 6-5). houve redução do risco de pré-eclâmpsia (RR = 0. Logo. Em comparação a placebo. o fármaco reduziu à metade o risco de eclâmpsia (RR=0. sulfato de magnésio reduziu mais o risco de eclâmpsia.10).41. pressão arterial. aquele tratamento profilático. Os efeitos adversos (especialmente hiperemia) foram mais comuns no grupo que recebeu sulfato de magnésio (24% versus 5%. não são considerados boas escolhas. O tratamento anti-hipertensivo pretende diminuir esses riscos. Um ensaio clínico randomizado testou o efeito de sulfato de magnésio em pacientes com pré-eclâmpsia. iniciado no primeiro trimestre. sem influenciar a morbimortalidade fetal. Surprendentemente.637 mulheres). doença microvascular. Mesmo que os níveis pressóricos caracterizem hipertensão leve. IC95%: 0. IC95%: 0.8 no grupo tratado versus 1. Apenas o escore de Apgar foi melhor no grupo da metildopa. Os demais devem ser selecionados em função de sua segurança para mãe e feto. Nesses casos. não se evidenciou maior impacto na progressão da pré-eclâmpsia leve.41).8%) no grupo intervenção e 19 (16. Houve redução de aproximadamente 50% na incidência de eclâmpsia (0. Esses dois fármacos. Na hipertensão gestacional.29-0. Em 2004. idade acima de 40 anos. IC95%: 59 a 167 pacientes). lesão em órgão alvo. Na comparação com não-tratamento não houve diferenças significativas da intervenção em relação a baixo peso ao nascer e a número de casos de pré-eclâmpsia.20-0. a cura é obtida com o parto. A hipertensão crônica grave na gestação traz sérias conseqüências maternas e fetais. Não se evidenciaram claras diferenças entre os medicamentos comparados. Em revisão sistemática Cochrane de ensaios randomizados (n > 30.444 mulheres) que compararam sulfato de magnésio com placebo ou nãotratamento. os fármacos diminuíram o risco de hipertensão grave e a necessidade de anti-hipertensivos adicionais e associaram-se a pequeno peso dos recém-nascidos para sua idade gestacional.e a maior risco de parto cesáreo em comparação com labetalol.596. houve maior redução da pressão arterial a partir do quinto dia com magnésio. NNT= 100. Em revisão sistemática Cochrane de 11 ensaios controlados por placebo (6. Outro ensaio randomizado com 30 pacientes sugeriu maior eficácia de metoprolol em relação a metildopa. peso do recém-nascido e dias ganhos na gestação.cefaléia intensa e náusea . foi realizada revisão 17 sistemática Cochrane de 20 ensaios clínicos randomizados (n =1. com apenas duas exceções: diazóxido associou-se a hipotensão materna . diminuição de crescimento ou morte fetal intrauterinos.confundemse com sintomas que indicam iminente eclâmpsia. IC95% = 4. RR = 5. No ensaio clínico que randomizou 33 pacientes para magnésio ou metildopa. tendo hipertensão crônica.moderada. Sulfato de magnésio intravenoso foi comparado a placebo em 27 estudo que objetivou verificar sua eficácia em prevenir a progressão da doença em 222 gestantes com pré-eclâmpsia leve. Esse é um distúrbio complexo. tipo de parto. Não houve diferenças entre nifedipino e metildopa quanto à maturidade do feto ao nascimento.8%) no grupo placebo desenvolveram pré-eclâmpsia grave após a randomização (RR = 0. 20 Página 3: Manejo da hipertensão na gestação: o pouco que se sabe . sem influenciar a mortalidade materna e fetal. de prematuridade em 7% e de morte neonatal em 16% (NNT = 89.894 mulheres). em relação à eficácia anti-hipertensiva e a benefícios clínicos. Quatorze mulheres (12. história de pré-eclâmpsia ou eclâmpsia. Não houve efeito sobre desfechos fetais. poucos estudos referiram efeitos adversos. 25 desconhecendo-se como o fármaco age nesse contexto .35. pressões 16 diastólicas de 100 mmHg já indicam necessidade de tratamento .8. para controle da pressão arterial e desfechos fetais. IC95%:0. Em revisão sistemática Cochrane de seis estudos (11. Comparativamente a fenitoína. consideram-se comumente níveis diastólicos de 110 mmHg. Em adolescentes. Outro aspecto que suscita controvérsias é o uso de sulfato de magnésio com o objetivo de prevenir surgimento de eclâmpsia em gestantes com pré-eclâmpsia. Os demais desfechos também foram similares entre os grupos.54.261. portanto. Os mais comuns relacionados aos fármacos estudados .9% no grupo placebo).

Labetalol tem sido preferido pressupostamente por ter atividade de bloqueio alfa e beta. Acredita-se que ao evitar as convulsões. Em ensaio clínico de pré-eclâmpsia grave. A melhor abordagem antes dessas idades 29 gestacionais tem limitada evidência para sustentá-la . para que os tratamentos possam ser bem fundamentados. mostrando ser o mais eficaz e seguro anticonvulsivante dentre os demais nessa circunstância. preservando por isso. Na revisão de Papatsonis e colaboradores . tais resultados não fundamentam o uso de hidralazina como tratamento de primeira linha no tratamento de hipertensão grave da gestação. O uso sublingual de nifedipino de curta ação está 34 associado a excessivas quedas de pressão sangüínea materna . Outra vantagem considerada foi a facilidade da via oral. morte materna e bloqueio neuromuscular têm sido relatados com aquela associação. sem efeitos adversos sobre o feto. Hidralazina associou-se a mais efeitos adversos maternos e a menos bradicardia neonatal do que labetalol. nifedipino foi considerado mais eficaz e seguro do que hidralazina. Hidralazina e labetalol injetáveis e nifedipino oral são os medicamentos comumente recomendados para tratar a pressão 31 arterial . os autores sugerem cautela na associação de nifedipino com sulfato de magnésio.Tratamento O melhor manejo da pré-eclâmpsia leve e grave consiste no parto em torno de 37 e 34 semanas da gestação. sem modificar eventos neonatais.640 mulheres). Ocorreram mais baixos escores de Apgar e mais efeitos adversos na freqüência cardíaca fetal. adequados desenhos metodológicos e aferição de desfechos relevantes. tratamento com labetalol. Apesar disso. respectivamente. além do controle da pressão arterial. O parto é o tratamento curativo. 35 33 32 Eclâmpsia Sulfato de magnésio tem sido usado para tratar convulsões na eclâmpsia. Mesmo assim. o que não confere poder suficiente para guiar a prática clínica. pacientes tratadas com hidralazina apresentaram com mais freqüência hipotensão e oligúria. uma grave complicação. Tratamento anti-hipertensivo quando os níveis pressóricos são mais baixos reduzem a perfusão placentária 30 e podem prejudicar desfechos perinatais. Contudo. já que os fármacos usados ultrapassam a placenta. Em metanálise de 34 estudos (n = 2. mas pode ser deletério para o feto antes do termo. reduza desfechos fetais 36 adversos . e a rápida queda da pressão arterial pode interferir no fluxo placentário. Página 4: Manejo da hipertensão na gestação: o pouco que se sabe . Comparativamente a outros fármacos. associou-se queda pressórica a baixo peso ao nascimento. O tratamento anti-hipertensivo está indicado ante valores acentuadamente elevados de pressão arterial. São necessários estudos com longo seguimento para definir as repercussões em crescimento e desenvolvimento das crianças. baseadas em tradição e não em evidências. mas não há consenso sobre quais são esses valores. o fluxo sangüíneo uteroplacentário. pois hipotensão. Manejo não-medicamentoso e controle estrito em hipertensão leve a moderada. nifedipino propiciou controle mais prolongado da pressão arterial do que hidralazina intravenosa e resultou em menor estresse fetal agudo. partos cesáreos e placenta prévia. os resultados atuais têm o mérito de questionar condutas arraigadas. Não há estudos comparativos com o não-tratamento nessa condição. Metanálise de 21 estudos (n=893) comparativos entre estas opções não demonstrou inequívoca superioridade de nenhuma delas. nifedipino e sulfato de magnésio como agentes mais promissores e precauções com metildopa e hidralazina por seus efeitos adversos surgem como os aspectos mais dignos de nota e reflexão. Níveis diastólicos superiores a 105 ou 110 mmHg são os comumente referidos. Conclusão Todos os autores mencionam a necessidade de se ter ensaios clínicos com mais poder. levando à isquemia cerebral e potenciais problemas no desenvolvimento neurológico. Os estudos apresentavam heterogeneidade de desfechos e de qualidade metodológica.

entre outros desfechos . A. HAUTH. A comparison of nifedipine with methyldopa in pregnancy induced hypertension. Não se recomenda iniciar tratamento medicamentoso em hipertensão gestacional leve e não-complicada na gravidez. M. Geneva: World Health Organization. VERGHESE. p. Arq Bras Cardiol. n. al. BALACHANDER. The selection and use of essential medicines. 920) 6. M. 125-130. CARITIS. BEAUFILS. 1745-1753. 2003. p. 2004. L. V. Ceylon Med J. H. parece manter o fluxo placentário-fetal. 2004. 2004.. 13.] 8. RUDNICKI. 16. S. V. 12. A. Em hipertensão crônica leve e moderada. 239-246. (WHO technical report series. D. JAMA. 1. NATIONAL HEART LUNG AND BLOOD INSTITUTE. MEHTA. devese manter o tratamento prévio (à exceção dos fármacos contra-indicados na gestação) ou suspender os medicamentos. p. 38 p. S. Lung and Blood Institute (NHLBI). Sulfato de magnésio previne eficazmente a recorrência de convulsões em presença de eclâmpsia. Oxford. Making pregnancy safer. F. Disponível em: <http:// www. 44. et al... Arch Mal Coeur Vaiss. 2004. v. 2560-2571. 2000..[Acessado em 12/09/04] 17. 10. RYAN. Gynecol Obstet Invest.. 9. p. Drugs for treatment of very high blood pressure during pregnancy (Cochrane Review). N. 21. p. Hidralazina injetável usada na hipertensão grave da gestação associa-se a hipotensão materna. 27. n. J Hypertens. 2. v. HENDERSON-SMART. mas se enfatizam medidas não-medicamentosas. WHO/EDM TECHNICAL BRIEFING SEMINAR FOR INTERNATIONAL STAFF ACTIVE IN PHARMACEUTICAL SUPPORT PROGRAMES (Geneva. 2003 World Health Organization (WHO)/ International Society of Hypertension (ISH) statement on management of hypertension. 2001. LEKAMGE. C. 2. Oxford.who.. Pharmacological treatment of hypertension in pregnancy. p. Curr Pharm Des. AUGUST. M. E. 289. • Labetalol. L.). ABALOS. 100. Int J Gynecol Obstet. 9. DULEY. v. Fundamentos da Terapêutica Racional. Treatment of hypertension in pregnancy. P. 2004. A comparative evaluation of metoprolol and methyldopa in the management of pregnancy induced hypertension. 2004. 231-235. 1994. 40-41. R. p. 18. D. Oral beta-blockers for mild to moderate hypertension during pregnancy (Cochrane Review). Update 2004. al. SIBAI. report of the WHO Expert Committee. 2003. 2003. M. B. B. L. NATIONAL HIGH BLOOD PRESSURE EDUCATION PROGRAM. M. J Perinatal Med. 49. Geneva. 2004. 39-41. FERREIRA. 27 September-1 October 2004). 21.. IV Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial. 3. J.Sugestões de condutas sobre manejo da hipertensão na gestação • Em hipertensão crônica leve e moderada da gestante.. Labetalol vs methyldopa in the treatment of pregnancy-induced hypertension. Hypertension in pregnancy. The pathogenesis of pre-eclamsia: new aspects. A. et al. Evaluation. 19. p. OUMACHIGUI. M. Metildopa. 11. 39. The Seventh Report of the Joint National Committee on Prevention. p. não induzindo baixo peso ao nascer. partos cesáreos. p. 21. Presentation 013. J. mas não influencia desfechos maternos e fetais. DIETL. 1995. The Cochrane Library. et. MAGEE. v. and Treatment of High Blood Pressure: The JNC 7 Report. et al. WHO EXPERT COMMITTEE ON THE SELECTION AND USE OF ESSENTIAL MEDICINES. o tratamento medicamentoso diminui a progressão para hipertensão grave. Working Group Report on High Blood Pressure in Pregnancy. Antihypertensive drug therapy for mild to moderate hypertension during pregnancy (Cochrane Review). pelo bloqueio alfa e beta-adrenérgico. 2. v. 2000. 238. v.. 2. (eds). AFIFI.int/medicines/organization/par/briefing/tbs [Acessado em 19/11/04. v. M. SIBAI. J. 87-90. v. Não há evidência de que um anti-hipertensivo seja melhor do que outro na redução dos níveis pressóricos. baixos escores de Apgar. monitorando os níveis pressóricos e os sinais de pré-eclâmpsia. 94. 14. FUCHS. 1983-1992. p. • • • • • • Referências Bibliograficas 1. L. Página 5: Manejo da hipertensão na gestação: o pouco que se sabe . WANNMACHER. INTERNATIONAL SOCIETY OF HYPERTENSION WRITING GROUP. 668-683. 2000. F. D. Indian Heart J. 2003 5. CHOBANIAN. The Cochrane Library.. 49. M. Oxford. 20. p. The Cochrane Library. v. Obstet Gynecol. In: FUCHS. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan. Fármacos Anti-hipertensivos. Detection. DULEY. EL-QARMALAWI. HOGERZEIL. 15. Chronic hypertension in pregnancy. A. n. AYAWARDANA. B. n. 2003. placenta prévia. supl 4. (eds. 7. 1992. Semin Perinatol. Comparison of magnesium and methyldopa for the control of blood pressure in pregnancies complicated with hypertension. p. v.. et. D. 82. J. 1077-1086. Farmacologia Clínica. 4. 464-471. WORLD HEALTH ORGANIZATION. D. p. CHURCHILL. What we have learned about preeclampsia. v. K. n. D. Bethesda (MD): National Heart. 2000. comparativamente a outros anti-hipertensivos. New York. WHO Model Formulary. 369-377. apresenta menor benefício na redução de morte fetal e neonatal. 28. p. MION JR. J. Y.

34. p. 959-961. et. Severe hypotension and fetal distress following sublingual administration of nifedipine to a patient with severe pregnancy induced hypertension at 33 weeks. Pregnancy and cardiovascular disease. A..Brasil. 2003. GREGG. 2004. Oxford. v. BMJ. p. p. 14551463. In: BRAUNWALD. BMJ. U. 28. p. Tecnologia e Insumos Estratégicos: Luiz Carlos Bueno de Lima – Ministério da Saúde Coordenação da publicação: Adriana Mitsue Ivama .OPAS/OMS Texto e pesquisa: Lenita Wannmacher e e Andry Fiterman Costa Revisão de Texto: Ana Beatriz Marinho de Noronha Consultor de Comunicação: Carlos Wilson de Andrade Filho . A small randomised trial of low-dose aspirin in women at high risk of pre-eclampsia. Calcium supplementation during pregnancy for preventing hypertensive disorders and related problems. al. 2004.. D. 1993. C.Centro de Documentação(CEDOC)-OPAS/OMS Layout e Diagramação: Formatos Design Conselho Editorial: Antonio de Pádua Pithon Cyrino (UNESP). Calcium channel blockers in the management of preterm labor and hypertension in pregnancy. Paulo Picon (UFRGS). (Cochrane Review). Oxford. Hypertension in pregnancy. N. 24. London. estes. Assim. 2004. Endereço: SEN lote 19. p. The Cochrane Library.org. VON DADELSZEN. NEILSON. v. Hydralazine for treatment of severe hypertension in pregnancy: meta-analysis. 2002. mais do que a opinião de especialistas (consensos.. Philadelphia: WB Saunders. LIVINGSTON. THE ECLAMPSIA TRIAL COLLABORATIVE GROUP. Magnesium sulfate in women with mild preeclampsia: a randomized controlled trial. n. v. n. J. M. L. 941-945. ZIPES. IMPEY. et. al. 2001. v. p. DULEY. Oxford. L. DULEY.. 30. desde que seja citada a fonte e não seja para venda ou qualquer fim comercial. P. E.22. Br J Obstet Gynaecol. de fácil compreensão. 6 ed. v. diretrizes. GÜLMEZOGLU. com linguagem simplificada. v. London. 359. mais do que estudos observacionais (coortes. Antiplatelet agents for preventing and treating pre-eclampsia (Cochrane Review). 2003. et.org Responsável pelo projeto de Medicamentos e Tecnologias: Nelly Marin Jaramillo .Representação do Brasil e do Departamento de Assistência Farmacêutica. et. 327. Heart disease: a textbook of cardiovascular medicine. DULEY. v. A. da Secretaria de Ciência.. 33. MAGEE. 35. M. 2. séries e relatos de casos). J.opas. Página 6: Manejo da hipertensão na gestação: o pouco que se sabe . The Cochrane Library.Antipsicóticos atípicos: mais eficazes. 77.hse@bra. analisa e interpreta criticamente seus resultados e determina sua aplicabilidade e relevância clínica no contexto nacional. e ainda estes. revisões sistemáticas. 1877-1890. P. F. Obstet Gynecol. Paulo Sérgio Dourado Arrais (UFC). v. (eds. J. A. J. L. ELKAYAM. HOFMEYR. KNIGHT. al. p. Fall in mean arterial pressure and fetal growth restriction in pregnancy hypertension: an updated metaregression analysis. Obstet Gynecol. ATALLAH. N. L. internacionalmente estabelecida e aceita. 101. p. ISSN 1810-0791 Este Boletim é direcionado aos profissionais de saúde.). 100. K. Do women with preeclampsia.ops-oms. CHIAFFARINO. R. benefit from magnesium sulphate? The Magpie Trial: a randomised placebo-controlled trial. 36. 31. London. al. L. Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde. et al. LIBBY. 2172-2191. 1991. 345. A. Eur J Obstet Gynecol Reprod Biol. Lancet. 955960. Magnesium sulphate and pre-eclampsia. 2004. estudos transversais). 1999. Representa a opinião de quem capta a informação em sólidas e éticas pesquisas disponíveis.DF. FENAKEL. L. 217-220. 122-140. p. CEP 70800-400 Site: http://www. D. 23.OPAS/OMS Normalização: Fábio Lima Cordeiro . Tal opinião se guia pela hierarquia da evidência. 29. et al. [Medline] Nº 12 . A. 1995. 32. G. 2002. Todos os direitos reservados. 97. D. Lancet. 26. MAGEE. 319. 2001. estudos de casos e controles. mais seguros? © Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde . p. Rogério Hoefler (CEBRIM). Magnesium sulphate and other anticonvulsants for women with pre-eclampsia (Cochrane Review). É pela validade metodológica das publicações que se fazem diferentes graus de recomendação de condutas. As opiniões expressas no documento por autores denominados são de sua inteira responsabilidade. 4. 31. J Obstetr Gynecol Can. P.OPAS/OMS Secretário de Ciência. É permitida a reprodução total ou parcial desta obra.br/medicamentos E-mail: webmaster. 142-144. p. PAPATSONIS. Eur J Obstet Gynecol Reprod Biol. 2. Nifedipine in the treatment of severe preeclampsia. Uso Racional de Medicamentos: Temas Selecionados é uma publicação do Projeto de Medicamentos e Tecnologias da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde . and their babies. Brasília . Which anticonvulsant for women with eclampsia? Evidence from the collaborative eclampsia trial.. 27. HENDERSON-SMART. The Cochrane Library. 25. 3-4. Obstet Gynecol Clin North Am. metanálises e ensaios clínicos de muito bom padrão metodológico são mais considerados que estudos quase-experimentais. MAGPIE TRIAL COLLABORATION GROUP. v. 24.. v. p. n. 2004. P. 331-337. v. 112.. Cláudia Osório de Castro (NAF/ENSP/ FIOCRUZ). 2003. 223-241.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful