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Universidade Estácio de Sá Curso de Direito

Prof. a Isabel Arco Verde Santos

RELATÓRIO JURÍDICO

O relatório jurídico se caracteriza pelo seu texto objetivo e não valorado. Ele é um

elemento que comporá peças decisórias como a sentença e o acórdão e também o parecer. A sentença é feita pelo juiz de primeira instância e é também chamada de decisão monocrática, porque neste momento a decisão é dada por somente um juiz. Já o

acórdão expressa a decisão de um colegiado, um grupo de julgadores. Isto acontece quando se recorre da decisão da sentença. O parecer é peça que, embora tenha grande importância, não é decisória, mas somente opinativa. Quem a pronuncia é o ministério público ou um advogado. O relatório nos ajuda a entender a diferença entre as diferenças narrativas jurídicas. Numa petição inicial a narrativa do fato está impregnada de valoração, porque a parte mesmo ao narrar um fato não pode deixar de argumentar. Assim, seu texto abandona a objetividade e tenta contar o que se passou apresentando no discurso elementos que evidenciaram sua razão.

E sentenças do juizado especial não há relatório, exatamente pelo seu caráter

célere.

Para elaborar o relatório, você pode utilizar as perguntas que ajudarão a identificar as partes importantes da narrativa: quem, quando, onde, o quê, como, por quê e por isso. Você também pode se guiar pelos elementos da relação jurídica: sujeito (do direito e do dever), objeto, fato jurídico, vínculo e garantia. Mas também pode se orientar pela lei. Vejamos:

Código de Processo Civil

Art. 458 - São requisitos essenciais da sentença:

I - o relatório, que conterá os nomes das partes, a suma do pedido e da resposta do réu, bem como o registro das principais ocorrências havidas no andamento do processo;

II

- os fundamentos, em que o juiz analisará as questões de fato e

de

direito;

III - o dispositivo, em que o juiz resolverá as questões, que as partes lhe submeterem.

Código de Processo Penal Art. 381 - A sentença conterá:

I - os nomes das partes ou, quando não possível, as indicações necessárias para identificá-las; II - a exposição sucinta da acusação e da defesa;

III - a indicação dos motivos de fato e de direito em que se fundar a

decisão;

IV - a indicação dos artigos de lei aplicados;

V - o dispositivo;

VI - a data e a assinatura do juiz.

O relatório deve apresentar aquilo que for mais relevante que aconteceu no processo. Vejamos alguns exemplos:

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Kátia Almeida Costa ajuizou Ação de Responsabilidade Civil em face de Casas Guanabara Comestíveis ltda., alegando que seu nome foi incluído no rol de maus pagadores por culpa da ré, ficando impossibilitada de realizar operações de crédito, o que lhe causou danos de ordem moral. Requer a autora a condenação da ré no pagamento de indenização pelo dano sofrido, pugnando ainda anulação de quaisquer débitos existentes em seu nome, bem como pela retirada do nome do SPC, sob pena de multa diária de R$200,00 (duzentos reais). Com a inicial vieram os documentos de fls. 11/15. Contestação às fls. 21/25, com juntada de documentos às fls. 26/42, onde a ré alega que sua conduta em relação ao envio do nome da autora para o SPC se deu de forma lícita, haja vista sua condição de inadimplente, consoante documentos anexados aos autos. Aduz também que o nome da autora já se encontrava no rol de maus pagadores por iniciativa de outrem. Em relação pedido de dano moral, além de não ter dado causa, registra a ré que o “quantum” pretendido é excessivo e desproporcional, fugindo do critério da razoabilidade, ressaltando que, posteriormente, procedeu a retirada do nome da autora do SPC. Pugna ao final pela total improcedência do pedido autoral, requerendo a declaração por sentença da existência e validade do contrato de adesão ao cartão de crédito, considerando líquido, certo e exigível os valores não pagos pela autora.

Réplica às fls. 46/53, combatendo os argumentos da contestação. Às fls. 56 e 59, as partes pugnam pelo julgamento do feito no

estado em que se encontra. Realizada audiência preliminar às fls. 60, restou impossível a conciliação diante da ausência da autora, reiterando a ré o requerimento de fls. 59. É o relatório. Observe que o relatório poderia dar conta das perguntas sugeridas logo no primeiro parágrafo. Mas segundo os artigos supracitados, é preciso trazer os dois lados do conflito. É importante relembrar que o relatório sendo parte de uma peça decisória, compõe o texto que trará a síntese de um processo dialético (tese + anti-tese = síntese). Assim, ele tem papel importante nesta composição devendo apresentar as partes com imparcialidade e clareza.

Devemos dar preferência à narrativa com uso de verbos no passado. Apesar da existência do presente histórico 1 , um recurso que tem por objetivo dar maior vivacidade às ações acontecidas no passado. Pelas características do relatório, não nos parece adequada esta utilização, sendo preferível o uso dos verbos no pretérito.

Quem ou os sujeitos: de direito e de dever

O vínculo se apresenta no tipo de ação o que caracteriza também o fato jurídico

Aqui está o objeto

O que aconteceu.

Como e por que aconteceu

Por isso

Aqui estão apresentadas as principais partes do processo

Vejamos um outro relatório:

1 Celso Cunha e Lindley Cintra, em sua Nova Gramática do Português Contemporâneo (Edições João Sá da Costa, Lisboa, 1984), definem assim o emprego do presente histórico: «É um processo de dramatização lingüística de alta eficiência, se utilizado de forma adequada e sóbria, pois que o seu valor expressivo decorre da aparente impropriedade, de ser acidental num contexto organizado com formas normais do pretérito. O abuso que dele fazem alguns romancistas contemporâneos é contraproducente: torna invariável o estilo e, com isso, elimina a sua intensidade particular.»

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Ação de reparação de danos materiais e morais advindos de uso indevido de imagem por emissora de televisão. Contestação com preliminares de falta de notificação e decadência e pela importância porque não há prova da alegada participação do autor no quadro humorístico e não foram especificadas as datas do programa de auditório. Depois de realizadas as brincadeiras, a ré solicita autorização por escrito para a exibição do quadro no programa. Não é crível que uma situação cômica e inocente possa denegrir a honra e o bom conceito de qualquer cidadão a ponto de causar-lhe danos morais. Trata-se de uma "brincadeira" inofensiva. E nem todo mal estar configura dano moral. A ré jamais paga qualquer remuneração ou recompensa às pessoas que participam do quadro. Outros seriam os critérios para arbitramento da indenização. Réplica anotada. Não se aplica a Lei de Imprensa. A ré não exibiu as fitas. A intenção da ré com o quadro era obter mais pontos na audiência e para isso aproveitou-se da imagem do autor. O dano moral é sempre presumido. Mesmo que assim não fosse, o constrangimento existiu e o direito à imagem, como direito de personalidade, sobrepõe-se a qualquer outro. É o relatório.

Este relatório omite elementos importantes como os sujeitos.

Observe também como o

texto é valorado. Embora

o relatório traga a suma

da resposta do réu, os termos que emprega são fortes o suficiente para indicar uma parcialidade

por parte de quem escreve

o relatório.

É preciso observar que aquele que escreve o relatório não pode tipificar ou caracterizar a parte como culpada. Isto só pode acorrer como o uso da polifonia que é a possibilidade do autor apresentar determinadas idéias pela voz de outros. No caso do relatório a parte que acusa pode pronunciar-se caracterizando o ato ilícito. Assim, não se deve dizer:

“Casas Guanabara colocou indevidamente o nome de Kátia Almeida no

SPC.”

Ao escrever desta forma o relator já impõe a culpa à parte ré, o que não pode acontecer. Conquanto o relatório seja parte da sentença, não cabe a ele apresentar a decisão, pois esta só pode ser apresentada após justificativa. Não há decisão sem apresentação da fundamentação que a sustente. Por outro lado, a não ser aquele que acusa e que se entende com o direito não se pode atribuir uma culpa a quem não foi julgado. Destarte, melhor seria disser:

“Kátia Almeida ajuizou ação em face de Casas Guanabara por ter colocado indevidamente seu nome no SPC.”

A acusação agora é feita por Kátia e não mais por quem escreve o relatório.

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Trata-se de Representação movida pelo Ministério Público Eleitoral contra SÉRGIO RICARDO DE ALMEIDA e a Coligação MATO GROSSO UNIDO E JUSTO, porque um ônibus com propaganda do referido candidato vem sendo flagrado, constantemente, estacionado em canteiros e vias públicas, em afronta à legislação eleitoral. Ante essas ocorrências, pede a aplicação, aos Representados, das multas previstas no § 1º do art. 37 e no § 8º do art. 39 da Lei nº 9.504/97. A Representação parte de provocação feita pelo Órgão Ministerial que atua junto ao Juízo da 39ª Zona Eleitoral, quando firmado auto de constatação acerca da irregularidade (ônibus estacionado no trevo do Bairro Tijucal). Em primeira notificação, o candidato informa que desconhecia tal circunstância, removendo o veículo do local proibido assim que tomou conhecimento da irregularidade (fl. 22). Acontece que, dois dias após, o mesmo veículo com propaganda do candidato foi flagrado estacionado em via pública (ônibus estacionado às margens da Rodoviária da Capital). Feito novo auto de constatação e novamente notificado, o candidato apresenta idêntica justificativa, dizendo uma vez mais que desconhecida a infração, mas que as providências para saná-la foram imediatamente adotadas (fl. 37). Notificada sobre o que aqui noticiado, a Coligação MATO GROSSO UNIDO E JUSTO alega, preliminarmente, que não é parte legítima para figurar na relação processual, uma vez que não teria dado causa ao evento. Pede, por isso, sua exclusão da lide e o indeferimento da Representação. No mérito, aduz, em suma, que não há ilicitude no caso, ao argumento de que não há proibição para esse tipo de propaganda eleitoral (adesivagem em ônibus de foto, número, nome do candidato e da coligação), bem como porque inexiste prova de reiteração da conduta e também porque o veículo, possivelmente, encontrava-se em trânsito e não simplesmente estacionado em via pública. Sérgio Ricardo de Almeida apresenta defesa às fls. 52/61 na qual assevera, primeiramente, que comparar um ônibus revestido com propaganda eleitoral de candidato a "outdoor" constitui verdadeira instrução eleitoral, não sendo de competência do Órgão Ministerial expedir tal ato, conforme se denota na inicial da Representação. Depois, utiliza-se de bom humor para dizer que cumpriu rigorosamente as determinações da Justiça Eleitoral para afastar a prática irregular, para o quanto se apóia na exceção prevista no art. 1º do art. 65 da Resolução nº 22.261/06-TSE, que disciplina as hipóteses de ausência ou presença do prévio conhecimento da propaganda tida como proibida. Discorre, ainda, sobre todas as providências adotadas para evitar que o referido veículo (ônibus com sua propaganda eleitoral) circulasse de tal modo, ficando estacionado em via ou qualquer outro local público. Sustenta, por fim, que não é possível a cumulação das multas que o MPE entende aplicáveis, por veiculação de propaganda em ‘outdoor’ e em bens públicos, vez que a natureza das vedações impõe que uma exclui a outra e vice-versa, ao que encerra pedindo a improcedência da Representação. É o necessário relatório.

Observe que este relatório traz dois réus. Logo terá que apresentar a suma da resposta dos dois.

Aqui tem-se a suma da reposta de um dos réus.

Aqui está a suma da resposta do outro réu.

Observe que todo relatório tem um termo de encerramento. Geralmente “É o relatório” ou coisa que o valha. É importante que se traga este termo porque não há separação entre esta parte e a que a sucede a fundamentação. Ele não deve ser assinado porque a assinatura só virá no final da peça, depois da conclusão, ou decisão propriamente dita, chamada dispositivo.

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Podemos encontrar alguns relatórios que apresentam pequenas variações. Vejamos algumas delas:

Trata-se de ação ordinária, com pedido de antecipação da tutela, ajuizada por Igor Juhy da Costa Pinto em face da Fundação Nacional de Saúde, objetivando, liminarmente, a continuidade do pagamento de pensão por morte a que faz jus até atingir a idade de 24 (vinte e quatro) anos ou até a conclusão do curso universitário.

Aduz que é beneficiário de pensão deixada por sua avó, e, estando prestes a completar 21 (vinte e um) anos de idade, pretende a permanência do seu pagamento até completar 24 (vinte e quatro) anos de idade, possibilitando, dessa forma, a conclusão do seu curso universitário.

É o que importa relatar.

Neste se relatório não se vê a suma da resposta do réu. Isso acontece porque se trata de um relatório de uma decisão interlocutória 2 de uma tutela antecipada 3 .

Outro caso que vale a pena examinar é o relatório de acórdão. O acórdão só ocorre porque houve um recurso 4 uma insatisfação com relação à sentença. O relatório não pode se furtar de falar sobre a(s) instância(s) inferiores.

Trata-se de recurso de apelação interposto por CLÁUDIA L. DOS P. e LUIZ CARLOS DOS S., de sentença que julgou procedente a ação de destituição do poder familiar promovida pelo MINISTÉRIO PÚBLICO em relação à menor Yasmin L. P.

Em suas razões, aduzem, em suma, não haver provas da necessidade de destituição do poder familiar dos recorrentes, pelo que pugnam pelo provimento do recurso, ao efeito de desacolher o pedido formulado na ação.

Apresentadas as contra-razões, sobem os autos a este Tribunal.

Nesta instância, o Dr. Procurador de Justiça opina pelo desprovimento da apelação.

É o relatório.

Nessa instância, as partes são chamadas de recorrente (aquele que propõe ou interpõe 5 o recurso) e recorrido. A manifestação do recorrente se chama razões e as do recorrido contra-razões.

2 É um dos atos do juiz na atividade jurisdicional em que no curso do processo, resolve questão incidente, ou seja, decisão que não põe fim ao processo. Veja Art. 162, § 2.o do Código de Processo Civil.

http://www.direitonet.com.br/dicionario_juridico/x/13/00/130/

3 É a antecipação, feita pelo juiz, a requerimento da parte, dos efeitos da tutela, total ou parcialmente, pretendida no pedido inicial, desde que, existindo prova inequívoca, se convença da verossimilhança da alegação. Também é necessário que haja fundado receio de dano irreparável ou de difícil reparação ou fique caracterizado o abuso de direito de defesa ou o manifesto propósito protelatório do réu. Na decisão que antecipar a tutela, o juiz indicará, de modo claro e preciso, as razões do seu convencimento. Quando houver perigo de irreversibilidade do provimento antecipado, não se concederá a antecipação da tutela. Esta poderá ser revogada ou modificada a qualquer tempo, em decisão fundamentada. Veja Art. 273 e parágrafos do Código de Processo Civil. http://www.direitonet.com.br/dicionario_juridico/x/30/66/306/

4 Recurso é a faculdade de pedir o reexame de uma decisão judicial, objetivando a sua reforma total ou parcial, a sua invalidação ou o seu esclarecimento (PAULO Lúcio Nogueira, Curso Completo de Processo Civil)

5 dar entrada em, entrar com (recurso); apresentar