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Insight

Geopolítico

Novembro de 2011

Os aspectos políticos da crise na Europa

Novembro de 2011 Os aspectos políticos da crise na Europa Angela Merkel, chanceler da Alemanha, é

Angela Merkel, chanceler da Alemanha, é a líder mais poderosa da Europa

crise e, ao mesmo, tempo, fez crescer a sensação de que o EFSF não terá fôlego caso precise socorrer grandes economias, como a Itália (terceira maior da Zona do Euro.) Anunciou-se também que os títulos gregos terão seu valor de face reduzido pela metade e que bancos do continente serão capitalizados para evitar perdas no setor privado. Poucos dias após o acordo, o primeiro-ministro da Grécia, George Papandreou, avisou que iria submeter a permanência de seu país no Euro a um referendo popular. A notícia provocou pânico nos mercados do

mundo todo e levou a ameaças

de líderes europeus de que a Grécia não receberia mais nenhum centavo enquanto não

Desde o início da atual crise financeira, três países europeus tiveram de ser resgatados para evitar calote em suas dívidas soberanas - Irlanda, Portugal e Grécia. Outras economias bem maiores, como a Itália, também estão sob forte desconfiança dos mercados. As principais medidas propostas para a crise -

a criação do Fundo Europeu de

Estabilidade Financeira (EFSF)

e o uso dos recursos do Banco Central Europeu (BCE) como

garantia de liquidez para bancos

e Estados solventes - esbarram

em consideráveis riscos políticos. Em comum,

todos guardam o clássico embate entre o fortalecimento dos Estados nacionais e a cessão de soberania com o objetivo de aprofundar o processo de integração regional. O EFSF tem por objetivo disponibilizar recursos para serem usados no caso de um dos membros da união monetária precisar de socorro financeiro. Nas última semanas, após intensas negociações políticas, autoridades europeias concordaram em ampliar o EFSF, dando-lhe poder de fogo de 1 trilhão de euros. No entanto, a complicada engenharia financeira do fundo levantou

dúvidas sobre a real

disposição dos países europeus em colaborar com seus vizinhos em

dos países europeus em colaborar com seus vizinhos em A crise econômica da Zona de Euro

A crise econômica da Zona de Euro pode ter o potencial de derrubar todo o projeto de integração em que está fundada a União Europeia

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decidisse seu futuro. Porém, os objetivos de Papandreou estavam na sua própria Atenas.

O governo do primeiro-ministro socialista

ampliação do EFSF.) É alarmante que o futuro da Zona do Euro e, por consequência, de toda a economia mundial, fique à mercê dos interesses

de partidos políticos cujos interesses nem

sempre coincidem com os

do próprio país e, muito

menos, com os de toda a Europa. A raiz deste risco está na debilidade institucional da União Europeia. Para que os poderes dos Estados nacionais que a compõem não fossem completamente anulados, não se criou órgãos regionais suficientemente capazes de tomar as decisões necessárias para manter a

estabilidade do projeto de integração do continente.

O resultado, como se

vê, é uma profunda desordem política que tornam incertas as possibilidades de se ajustar os descompassos econômicos da Zona do Euro. Os mercados

financeiros, cientes destes riscos políticos, naturalmente, passam a cobrar prêmios maiores para financiar as dívidas

de países que, sozinhos,

não parecem dar conta de honrar com seus compromissos.

vinha travando uma dura batalha com a oposição, que o acusava de estar arruinando a economia e a soberania grega para poder fechar um acordo com os grandes países da Europa. Com o referendo (pesquisas mostram que a população grega é contra o pacote de austeridade exigido, mas quer que o país permaneça no Euro), Papandreou pretendia jogar um eventual colapso da Grécia na conta da oposição. De certa forma, sua estratégia deu certo. Em poucos dias, os

oposicionistas toparam negociar a formação de um novo governo e a ideia do referendo foi retirada. (Entretanto, Papandreou perdeu o cargo nas negociações.) A jogada de Papandreou traz em si um significativo risco. Para alcançar objetivos de política interna, o governo grego quase fez ruir a união monetária europeia. E esta não é uma exclusividade dos gregos. No último dia 11 de outubro, o Parlamento da Eslováquia rejeitou um plano de ampliação

do EFSF aprovado pelos

líderes europeus cerca de

três meses antes. A derrota

O ceticismo da opinião pública faz crescer o risco político da crise ao diminuir o poder das instituições e reduzir a capacidade de manobra dos líderes europeus

e reduzir a capacidade de manobra dos líderes europeus Ainda no debate para se ampliar o
e reduzir a capacidade de manobra dos líderes europeus Ainda no debate para se ampliar o
e reduzir a capacidade de manobra dos líderes europeus Ainda no debate para se ampliar o

Ainda no debate para se ampliar o EFSF, existeumaforterelutância dos países cujas finanças permanecem saudáveis em ajudar ilimitadamente seus pares em crise. Neste grupo, destaca-se a Alemanha, a maior economia do bloco. A chanceler alemã Angela Merkel repetiu em diversas oportunidades que os alemães devem

fez

cair o governo do país

e,

já no dia seguinte,

o

principal partido de

oposição anunciou um acordo para aprovar o mesmo plano. (Conforme as regras da união monetária, é preciso que os dezessete países que usam o Euro aprovem por unanimidade a

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fazer tudo o que estiver ao alcance para evitar o colapso do Euro. Porém, fica cada vez mais evidente que seu país não está disposto a

fechem acordos que penalizem a autonomia dos países em crise para conduzir a própria política fiscal.

sustentar indefinidamente aquilo que enxerga como economias pouco competitivas e que

Ampliar os poderes do EFSF sob a batuta da Comissão Europeia pode ser uma solução

abusaram das baixas taxas de juros garantidas

viável, mas demoraria tempo. É preciso que

pela adoção do Euro. A Alemanha teme que

o

fundo passe por um processo de edificação

Grécia, Espanha, Itália e Portugal percam

institucional - o que, na prática, significa fazer

os incentivos para construírem economias

as

partes chegarem a um acordo para que depois

fiscalmente responsáveis por acreditarem que

o

submetam à aprovação de seus parlamentos

serão resgatados sempre que estiverem em apuros. Uma possibilidade para evitar este

nacionais. Dada a gravidade do cenário econômico, medidas com efeitos rápidos são necessárias.

cenário seria conferir ao EFSF a capacidade de monitorar e punir aqueles que não cumprirem com metas estabelecidas de austeridade. A Alemanha chegou a desenhar uma proposta que subordinaria o EFSF a Berlim No entanto, a História da Europa deixa de forma evidente as preocupações de ordem geopolítica que surgem pelo continente quando um Estado busca concentrar poder sobre o futuro dos demais países do continente. A reação mais significativa veio da Holanda. No começo de setembro, o primeiro-ministro holandês Mark Rutte propôs que o controle do ESFE fosse dado à Comissão Europeia, um

Para lidar com os problemas de liquidez de países e bancos europeus, uma saída factível pode ser a compra de títulos pelo Banco Central Europeu (BCE). Esta estratégia já vem sendo adotada para países considerados solventes. Nos últimos meses, o BCE comprou títulos soberanos da Itália e da Espanha. No curto prazo, esta medida é possível do ponto de vista institucional. A função de garantir estabilidade financeira e estabilidade de preços é, afinal, a razão de ser do Banco. De qualquer forma, esta opção carrega em si riscos políticos. Para que o BCE assuma o compromisso de comprar títulos

órgão com relativa independência dos governos nacionais. O recado dos holandeses é claro: sim, deve haver mecanismos para evitar que os países do sul se esbaldem com o dinheiro dos vizinhos ricos do norte, mas sem que isso se traduza em transferência de soberania para um

de países solventes sob ataques especulativos, seria necessário decidir quais são eles - e, por consequência, declarar quais são os países que não têm mais condições de pagar suas dívidas. O temor é que essa decisão seja pautada por critérios políticos. Outra questão levanta dúvidas sobre

Estado vizinho, no caso, a Alemanha. Prefere- se fortalecer uma entidade multilateral e com poderes autônomos. A Finlândia foi um dos

capacidade do BCE de solucionar a crise europeia. O Banco possui mandato para conduzir política monetária, mas não para ser

a

países que mais mostrou apoio à proposta

o

guardião da política econômica. Ainda que,

holandesa. Helsinque quer que o Euro seja salvo, mas exige que planos de resgate incluam a obrigação de manter responsabilidade fiscal e garantias de pagamento. Nas últimas eleições finlandesas, realizadas em abril passado, foi marcante o crescimento do sentimento anti- europeu, representado pelos expressivos 19% dos votos conquistados pelo partido dos Verdadeiros Finlandeses, cuja plataforma se opõe à ajuda a Grécia e a Portugal. (Em 2007, o partido recebeu o apoio de 4,1% da população.) A importância destes dados está no fato de que quanto maior for a parcela do eleitorado contrária às operações de salvamento, maiores serão as pressões para que seus governos

de imediato, impedir que o sistema financeiro europeu entre em colapso seja função do órgão, não se pode contar com o BCE indefinidamente como o salvador para a crise do Euro. Ele simplesmente não possui legitimidade política para isso. Mais importante, a Alemanha sempre pregou prudência nas operações de bancos centrais. Por esta razão, Berlim tem se mostrado reticente em liberar as reservas do BCE indiscriminadamente para socorrer as economias em crise, mesmo diante das pressões de outros países europeus. No início de novembro, o primeiro-ministro britânico, o conservador David Cameron, disse que a Zona do Euro pode ruir sem que o BCE tenha o poder

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de comprar títulos de países como a Itália, onde a crise está se aprofundando.

A opção de retroceder também não parece plausível. A integração política e econômica da Europa tem suas origens no pós-Segunda Guerra Mundial, conflito que o continente terminou devastado e ocupado por americanos e russos. Deixar o Euro morrer (17 países) pode significar o fim do mercado comum (27 países) e colocaremriscoasfundaçõesdaUniãoEuropeia. Não é o que querem as atuais lideranças do continente, pessoas que dedicaram a segunda metade do século XX inteira em construir uma Europa mais coesa, mais segura e mais forte economicamente. Entretanto, o chamado euro-pessimismo é crescente. Emerge, então, a possibilidade de que a Europa volte atrás

e abandone o processo de integração que se

iniciou dos escombros da Segunda Guerra Mundial. O embate político é claro. Voltar a uma Europa dividida pode significar a volta das questões de segurança que arrasaram a região até 1945 e o enfraquecimento do bloco em um mundo em que outros atores, como a China,

brigam por uma fatia maior nas decisões do planeta. Por outro lado, só é possível aprofundar

o processo de integração regional se se deixar

parte da soberania nacional de lado. Este debate continuará a ser um elemento central para a saúde econômica e social da Europa. Ainda que os líderes europeus encontrem uma solução para os problemas econômicos da Zona do Euro, o continente que sairá desta crise será mais nacionalista e com menor inclinação a retirar poder de Estados nacionais em nome do fortalecimento da União Europeia.

Insight Geopolítico é uma consultoria de análise de risco político que publica este relatório.

Contato:

assinaturas@insightgeopolitico.com - www.insightgeopolitico.com

Equipe Insight Geopolítico:

Heni Ozi Cukier: Fundador e CEO da CORE Social Asset Management, é cientista político, consultor e professor. Formou-se, nos Estados Unidos, em Filosofia e Ciências Políticas. É mestre em International Peace and Conflict Resolution pela American University, em Washington D.C. Trabalhou na Organização das Nações Unidas (ONU), no Conselho de Segurança; na Organização dos Estados Americanos (OEA); na ONG Peacebuilding Develoment Institute; no think tank Woodrow Wilson Center entre outras organizações americanas. Também é professor da ESPM- SP e ministra cursos e palestras em diversos locais, dentre eles a Casa do Saber.

Eduardo Gabor: Formado em Administração de empresas pela FGV-SP, possui mestrado em Conflitos Internacionais pela Universidade de Tel Aviv, Israel. Trabalhou nos segmentos de gestão de ativos financeiros e relações com investidores na Cyrela Brazil Realty e atuou como analista de política externa para o think tank britânico The Henry Jackson Society.

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