RESUMO UNIOESTE ====== 2012 ======== PROFº ELIANE ADÉLIA PRADO

Com licença poética
Adélia Prado Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. Não sou tão feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos - dor não é amargura. Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade da alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou. Adélia Prado usa seus primeiros trabalhos para tentar definir a imagem de poeta que é. Na poesia, "Com licença poética", ela assume seu destino de mulher-poeta e se apresenta de forma simples e grandiosa ao mesmo tempo; sem deixar de explicitar suas antíteses (as contradições do universo feminino e suas diferenças diante do universo masculino.) No primeiro verso, é explícita a paródia a Carlos Drummond de Andrade na qual a poeta deixa claro sua diferença de postura. Em vez de um anjo coxo, conforme o poema drummondiano, aqui ela vai tratar de um anjo esbelto que anuncia o nascimento do eu-lírico de "Com licença poética", como se fosse o pedido dela para entrar nesse mundo poético.

ela é mulher. Permanece a ideia de superioridade da mulher quando diz: “Vai ser coxo na vida é maldição pra homem”. molécula de sanidade. não reconhecendo seu verdadeiro potencial.. é comum e. aconteceu”. Adélia Prado enumera de forma muito simples algumas características da mulher que é. E . ou seja. o dia a dia comum de pessoas comuns. a mulher é assim. e ainda sofre. ela planta sua semente através da poesia. parir filhos. em poesia. aconteceu. Entretanto. dona de casa. que nos remetem a uma cronologia de ordem para o tempo. com singeleza e lirismo. como por exemplo. mas em crescimento. Já no sexto e sétimo verso. Mas seu desejo. cordiosos. Enfim. com resquícios da criação sob os preceitos católicos. nesse poema trata de uma mulher que tenta cumprir seu destino há anos traçado: casar. Dessa maneira. No quinto verso. Clareira Adélia Prado Seria tão bom. é aquilo que é. seu destino. medo de não conseguir casar. O eu-lírico deixa claro na poesia que a dor não é amargura. Os meninos.. só pra depois pegar meu bastidor e bordar pondo de cruz. Deixa claro que sua forma de fazer poesia é simples. a das Dores se forma. que carrega uma “culpa”. ela aceita os pretextos que. falar as falas certas: a de Lurdes casou. a vaca fez. Colocam passo em seu caminhar movido por “falas certas”. cuidar de casa. “a de Lurdes casou. ou seja. é desdobrável. porém essa dor não se transformou em amargura. as comadres se visitarem nos domingos. esse anjo flexível. sua disposição e determinação em busca de satisfação são características seculares. Para ela isso é uma sina. foram dados à mulher (mãe. Agora que o destino do mundo pende do meu palpite. que Adélia Prado. que se ampliam de acordo com as conquistas da mulher nesta sociedade ainda tão desigual.4 e 5 a poeta admite que ser mulher-poeta é uma tarefa árdua. como já foi. do parto. não há que se ter medo. ao longo dos anos. que lhe permite engendrar homens e fazer poesia. fundando reinos que irão resultar na literatura feminina amadurecida dos tempos atuais. uma vez que precisa fazer poesia muito bem feita diante da existência de um poeta grandioso poeta como Manuel Bandeira. pois ela não precisa mentir. coletivo. Houve esta vida ou inventei? Eu gosto de metafísica. essa tarefa seria nada fácil. mas. questionando algumas questões ligadas ao sexo feminino. a mulher já sofreu muito. cachorros e ponto de cruz.Mais adiante. quando o eu-lírico de "Com licença poética" define a mulher como “esta espécie ainda envergonhada”. ou seja. vigiai e orai que a vida é breve. O poema é fortemente marcado pelo tempo que passa. nos versos 3. a poeta se mostra conformada com sua condição. podemos deduzir que a mulher é uma “espécie” ainda tímida. Fica claro também. O homem simples extrai do “casal de compadres” – sua relação de amizade – da repetição do ritual dominical com pitada. tem consciência de inaugurar uma nova linguagem. as santas missões vêm aí. pitando e rapando a goela. De novo volta a importância do catolicismo na vida das pessoas. entretanto. quero um casal de compadres. não deixa de ser uma “nova mulher” que se define. Os compadres ficarem na sala. farejando e mijando com os cachorros. pois sempre escreve aquilo que sente. a das Dores se forma e a vaca fez. Que o tempo passa é indubitável. Seus versos retratam. a religião com as palavras “vigiai e orai que a vida é breve”. A tristeza da mulher não tem linhagem. esposa). para eu sobreviver.

anônimos. Volta a ressaltar hábitos bem mineiros como o de tomar o café após as refeições. para eu sobreviver. molécula de sanidade. comem feijão com arroz. na lavoura. comparando a avidez dos trabalhadores pela refeição. à ânsia de liberdade e de descanso que empurrou os escravos do Egito a atravessarem o deserto no texto bíblico. sob o sol. ora-pro-nobis. sentados no fogão. observamos uma casa no meio do mato. entre bananeiras e manjericão = indica. a própria sobrevivência.roga por nós – anuncia sofrimento. Que tem em Deus um ser que possa esclarecer os enigmas do mundo e a certeza da segurança e que há uma providência divina a cuidar de sua vida: deixa claro que o homem tem necessidade de um Deus para chamar e ser ouvido: Louvado seja Deus! . O momento de descanso. no qual lembra as atitudes dos escravos do Egito. restando-lhes a ação de graças: louvado seja Deus! O alimento e a religiosidade proporcionam a esse homem comum a força física e retoma o ânimo recobra a coragem. pés de manjericão e cravo-santo. ou aí mesmo. taioba. Pois este termo faz alusão a litania . aparece dourada. a luta com a terra. taioba e ora-pro-nobis. Quem são esses homens ordinários. Será memórias de um trabalho antigo? Forçado? Escravo? Adélia Prado ainda faz uma alusão ao poema do livro de Êxodo. na porta da rua. entre enxada e sono: Louvado seja Deus! No poema Bucólica Nostálgica os espaços da casa e da cozinha indicam o modo de vida de pessoas comuns. arroz. muitas vezes abóbora. agachados. O que um homem precisa pra falar. a presença de homens comuns que sentam para jantar (feijão. às vezes abóbora) após um dia de trabalho com suas enxadas e o que lhes resta ainda é o sono. assim.Dentro dela. principalmente quando Adélia Prado usa do termo “ora-pro-nobis”. a sua pressa. Temos aqui uma relação entre o trabalho árduo e os alimentos consumidos que deixa claro a luta deste povo. No poema. Bucólica Nostálgica Adélia Prado Ao entardecer no mato. café na canequinha e pito. rápidos como se fossem ao Êxodo. Depois. uma casal de compadres.a casa entre bananeiras.deixa claro que também sente necessidade daquilo que todas as mulheres anseiam. habitantes de uma casa qualquer? Homens que não precisam sentar-se à mesa na hora da refeição? Tal comportamento pode nos remeter à realidade daqueles que almoçam de pé ou agachados.

a patroa. O pai da jovem. mas nesse baile todos deviam estar trajados de VERDE. Assim. até que foge rumo ao baile de carnaval. primeiro a empregada. deixa seu pai. como também para si. pois alega que não perderá o desfile de carnaval por nada. Mas a garota deixa transparecer seu egoísmo e total indiferença ao pai. está no crepúsculo. nessa incerteza. que o pai de Tatisa estava morrendo e que seria bom que ela fosse vêlo. Raimundo . depois ela. Transfere não só a sua culpa. nesse meio tom. Talisa se divide em dois grandes dilemas: o dever e a culpa de virar as costas ao pai e seu desejo de se divertir livremente. . apenas o baile. Chega a tentar convencer a empregada de ficar com o pai naquela noite. No decorrer do conto a empregada chama a atenção da jovem para a saúde de seu pai. como por exemplo. mas tenta passar essa responsabilidade também a outras pessoas. O espaço é um apartamento. mas tenta inventar falsas desculpas para tentar justificar a sua própria atitude. Tempo / Espaço: O tempo é cronológico. Tatisa tenta se convencer de que está tudo bem.namorado de Talisa. Lu . movida pelo próprio egoísmo não cumpre suas obrigações e não assume sua responsabilidade de cuidar do pai.Lydia Fagundes Teles “A beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da noite. É uma radiografia moral do egoísmo e da mesquinharia humana. a ação se passa durante um dia de carnaval.a empregada. ela diz que esteve lá (no mesmo prédio). A jovem não consegue ver mais nada a sua frente. seu pai doente agoniza em seus últimos momentos de vida. Percebe-se uma nítida preocupação em tentar se justificar de tudo. até escutarem um gemido agonizante próximo de quando saíam do apartamento. não só para a empregada. o médico e a própria empregada. Esta diz que não pode ficar. Enquanto no quarto ao lado. Dirigem-se para o apartamento de seu pai. Personagens: Talisa . A empregada a ajuda nos últimos detalhes. Foco narrativo: Em terceira pessoa. Ela se prepara animadíssima para o grande baile de carnaval de sua cidade.” Antes do baile verde Lydia Fagundes Telas O conto narra a preparação da jovem Talisa para o carnaval. narrador observador.

É aquele vinho que você gosta. pesquisas. O prazer deste homem é pegar o seu jaguar e sair para passear pela noite a fora. disse. um copo de uísque na mesa de cabeceira. jogando paciência na cama. amanhã vou ter um dia terrível na companhia. Conta a história de um empresário de meia idade. respondi.” Passeio Noturno parte I Rubem Fonseca No conto o Passeio Noturno. boa noite para todos. Você não vai largar essa mala?. contratos. O autor também coloca em foco um modelo de família egoísta. não via as letras e números. você precisa aprender a relaxar. a inteligência muda. propostas. já posso mandar servir o jantar? A copeira servia à francesa. o saber muda. deixa transparecer toda a violência existente em grandes centros urbanos. Acaba com as tensões do dia de trabalho. Você não pára de trabalhar. meus filhos tinham crescido. mas com estranhos desejos humanos. ele sai sozinho pelas noites escuras cariocas a procura de sua vítima. casado. Todas as noites ele convida sua mulher para sair com ele nestes passeios. sem tirar os olhos das cartas. Meu filho me pediu dinheiro quando estávamos no cafezinho. estudos. bem sucedido. Quando acha a vítima “ideal” acelera o carro e a atropela. o lugar da casa onde gostava de ficar isolado e como sempre não fiz nada. eu esperava apenas. entrou a minha mulher na sala com o copo na mão. ela estalou a língua com prazer. relatórios. Volta para casa satisfeito e com a cabeça fresca. É neste momento que surge o ideal. na qual o objetivo é ter dinheiro. Fui para a biblioteca. posição social. eu e a minha mulher estávamos gordos. sendo este um dos seus temas preferidos.” Passeio Noturno. você está com um ar cansado. no qual cada pessoa está envolvida apenas com os seus interesses. Os sons da casa: minha filha no quarto dela treinando impostação de voz.Rubem Fonseca “Pois o belo muda. Termina o conto na maior naturalidade: “Vou dormir. aposto que os teus sócios não trabalham nem a metade e ganham a mesma coisa. Seus laços estão baseados nas relações financeiras de uma família doente e desestruturada. a música quadrifônica do quarto do meu filho. e bens materiais. Abri o volume de pesquisas sobre a mesa. tira essa roupa. Ao chegar em casa observa se há algum vestígio em seu carro de luxo. Mas o desejo é inalterável. perguntou minha mulher. Minha mulher. a medida muda. minha filha . Rubem Fonseca Cheguei em casa carregando a pasta cheia de papéis. Rubem Fonseca. pai de dois filhos. bebe um uisquinho. mas ele sabe que sua mulher irá recusar seu convite.

o reforço especial duplo de aço cromado. falmisgeraldo. Ela caminhava apressadamente. isso sempre acontecia. Podemos notar que o conto trabalha muito bem a oposição do poder da força. agora está mais calmo? perguntou minha mulher. escondido no capô aerodinâmico. Damásio. conhecido assassino da região. eu até gostava. o lugar ideal.. Homem ou mulher? Realmente não fazia grande diferença. igualavam a minha habilidade no uso daquelas máquinas. conto que faz parte do livro Primeiras estórias. ia de zero a cem quilômetros em nove segundos. A família estava vendo televisão. Enredo Um médico do interior [narrador da história] recebe a visita de quatro cavaleiros rudes do sertão. um golpe perfeito. carregando um embrulho de papel ordinário. depois de ter amado. estava de saia e blusa. Seu conhecimento ou não é que determina as posições sociais. e mais amar. tem que ser usado. coisas de padaria ou de quitanda. constitui-se num episódio cômico. senti o coração bater apressado de euforia. colorido de sangue.. Damásio. por ser mais fácil. tinha que ser uma rua deserta. era hora da novela. andava depressa. de volta para o asfalto. “É preciso sofrer depois de ter sofrido. muito movimento. faz-me-gerado. dei uma guinada rápida para a esquerda.. um pouco mais sobre a esquerda. nesta cidade que tem mais gente do que moscas. boa noite para todos. havia árvores na calçada. Tirei os carros dos dois.me pediu dinheiro na hora do licor. Minha mulher nada pediu. tirei o meu. do conhecimento médico. o meu. pessoa letrada do lugar. Peguei a mulher acima dos joelhos. mas ao ver os pára-choques salientes do meu carro. olhando fixamente o vídeo. como sempre sem saber para onde ir. minha mulher respondeu. e amar. coloquei os dois carros novamente na garagem. Guimarães Rosa tem como tema a importância da linguagem. Deu a sua voltinha.. era um motor poderoso que gerava a sua força em silêncio. Saí. essas manobras todas me deixaram levemente irritado. cheia de árvores escuras. impedindo que eu tirasse o meu. comecei a ficar tenso. neste caso. ali não podia ser. ouvi o barulho do impacto partindo os dois ossões. ao poder da instrução. quer que o doutor. bem no meio das duas pernas. Famigerado. também aquele carro custou uma fortuna. Vamos dar uma volta de carro? convidei.. Não sei que graça você acha em passear de carro todas as noites. Enfiei a chave na ignição. Ainda deu para ver que o corpo todo desengonçado da mulher havia ido parar. Apaguei as luzes do carro e acelerei. de vinte em vinte metros. pois ouviu esta palavra de um moço do governo. fechei a porta. famílias-gerado? O conto encaminha-se para um anticlímax: o . respondi. eu é que cada vez me apego menos aos bens materiais. Cheguei numa rua mal iluminada. Examinei o carro na garagem. mas não aparecia ninguém em condições. Vou dormir. Seu líder. podia ser ela.” Famigerado Guimarães Rosa Narrado em primeira pessoa. A pergunta é feita por Damásio. no mundo inteiro. nós tínhamos conta bancária conjunta. Na avenida Brasil. desses baixinhos de casa de subúrbio.. Corri orgulhosamente a mão de leve pelos pára-lamas. passei como um foguete rente a uma das árvores e deslizei com os pneus cantando. amanhã vou ter um dia terrível na companhia. botei na rua. Eu sabia que ela não ia. Então vi a mulher. da seguinte maneira: -Vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é: famisgerado. Se o médico tivesse revelado o sentido dicionarizado do termo “famigerado”. o esclareça a respeito do significado da palavra “famigerado”. em cima de um muro. botei na rua. Motor bom. Ela só percebeu que eu ia para cima dela quando ouviu o som da borracha dos pneus batendo no meio-fio. os pára-choques sem marca.Os carros dos meninos bloqueavam a porta da garagem. ainda que mulher fosse menos emocionante. de Guimarães Rosa. Poucas pessoas. um interessante problema a exigir uma grande dose de perícia. o alívio era maior. estaria assinando a sua própria sentença de morte. deitada no sofá.

Informa que não é nome de ofensa. “notório”.( extraído da internet) . de “em dia de semana”. O médico. porém. visita-o com a intenção de saber o significado da palavra “famigerado”. informa que o termo significa “inóxio”. Temeroso de revelar a verdadeira intenção do homem do governo. o médico mente. considera que: Não há como as grandezas machas de uma pessoa instruída. Expõe-lhe toda a verdade. Damásio Siqueiras. “notável”. Ele explica então que “famigerado” quer dizer “célebre”. agradece e vai embora. depois de tranquilizado com a resposta do médico. ineficientemente (ou por insegurança). O assassino. portanto. O facínora queria saber. Damásio pede para que seja usada “fala de pobre”. pois. se aquela palavra seria motivo para a desgraça ou para a paz. “douto”. Antes. já detém poder da situação. pois teme a violência de Damásio contra o “moço do Governo” que assim o havia chamado. Um pedido humilde.médico (narrador) depara-se com uma situação de tensão: um bandido feroz. O narrador. A verdade não fica clara.

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